Uma pioneira, uma guerreira: A força da mulher nos transportes

Por Adamo Bazani

Pioneira no transporte
Áurea acompanhada do marido e do cunhado

Apesar da situação ter mudado muito nos últimos anos, o ramo de transportes de passageiros ainda possui uma mão de obra predominantemente masculina. Com o desenvolvimento das formas de gestão das empresas de ônibus, com complexos escritórios e setores de comunicação, informática e recursos humanos, várias mulheres têm atuado no setor. Mas na operação dos ônibus, como motoristas, elas ainda são minoria.

Muitas se orgulham em dirigir os atuais ônibus, hidráulicos e eletrônicos, muito confortáveis, mas ainda enfrentam dificuldades, como o preconceito.

Se atualmente, o setor ainda não oferece todas as condições ideais para as mulheres estarem à frente dos brutos, imagine nos anos 70, quando a mentalidade era diferente e as condições de vias e veículos bem piores?

Para dona Áurea Antonio Pinto, de 67 anos, estas dificuldades foram superadas pela garra e paixão aos transportes. Natural de Cambará, no Paraná, e criada em Santa Mariana, no mesmo Estado, Áurea foi uma das primeiras motoristas de ônibus do Brasil. Ela mostrou ao setor o quanto o cuidado e o carinho especial que só as mulheres têm são importantes no relacionamento com os passageiros e no trânsito. Mas foi difícil a sociedade entender isso.

Áurea, sempre com seu jeito imperativo e de se dar o respeito, superou todo o preconceito e todas as dificuldades.

“Como ela tinha cara de brava, o pessoal não falava muita coisa diretamente pra ela, mas, como cobrador, eu ouvia muitas conversinhas, frases e piadinhas desrespeitosas dentro do ônibus a respeito de Áurea” – conta o motorista José Pedro dos Santos Neto, de 50 anos, que hoje é casado com dona Áurea e já foi cobrador das Viações ABC e Cacique (essa última extinta), ambas do mesmo grupo, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Bebê foi criado dentro do ônibus

Dona Áurea começou a trabalhar no ramo em 1977, na Viação ABC. Ela se iniciou como cobradora. “Na época não tinha a caixa do cobrador sobre a catraca, como hoje,. Eu ficava em pé, com uma caixa de sapatos, onde guardava o dinheiro e as fichas das seções percorridas pelos ônibus” – lembra dona Áurea.
Determinada e apaixonada pelo ramo dos transportes, nesta época, Dona Áurea tinha um filho de seis meses, atualmente com 34 anos. Ela saía a pé às duas horas da manhã de casa com a criança, chegava à garagem, pegava a caixinha de sapato, uma cesta de vime e ia com o bebê trabalhar.

Numa jornada de mais de 10 horas de trabalho, Dona Áurea, dentro do ônibus, se dividia entre a função de cobradora e de ser mãe.
“Esse meu filho foi criado dentro do ônibus literalmente”

A mulher mais importante do mundo

Dois anos depois, o proprietário da empresa, José Fernando Medina Braga, vendo a dedicação de dona Áurea, a convidou para ser motorista. Algo na época impensável, mas que revelou o lado visionário do empresário, que morreu em 1988.

E assim foi a primeira vez de Dona Áurea profissionalmente ao volante de um ônibus. Ela se lembra de cada detalhe até hoje. Era um ônibus chassi 1111 da Mercedes Benz, com volante bem duro. A carroceria era um modelo Gabriela da Caio, com embreagem seca. O prefixo do ônibus ela jamais esquece: 65.

Inicialmente, ela deu uma volta na garagem com um ônibus da carroceria Grassi (a primeira encarroçadora de produção em série do Brasil), apelidado de “caixotinho” por ser pequeno e todo quadrado e depois partiu para o Caio Gabriela (modelo que parou de ser produzido nos anos 80).

“Me senti a mulher mais importante do mundo quando saí com o ônibus da garagem. No Paraná, sempre fiz serviço de roça. Depois fiz curso de cabelereira, fui costureira, enfermeira, mas queria profissão de homem na época”

Na primeira esquina, em São Bernardo do Campo, um susto. Ela foi fechada por um carro na entrada de um viaduto próximo do bairro de Ferrazópolis. Mas isso não a fez desanimar. Pelo contrário, todo seu cuidado e carinho pelo ônibus e passageiros afloraram-se. Ela orgulha-se em dizer que nunca bateu o ônibus na vida e tratava o veículo tão bem que qualquer barulhinho diferente avisava os mecânicos.

“Ela tem um ouvido muito aguçado. Ela parava na garagem e falava – Esse ônibus não ta bem, ele ta fazendo um barulho diferente – Dito e feito. O ônibus estava com problemas” – lembra Eliziário Bonfim dos Santos, chefe de manutenção da Viação ABC e que trabalha na empresa há mais de 40 anos. Ele explicou que o Caio Gabriela dirigido por Dona Áurea, era um dos mais conservados da empresa.
“Enquanto tínhamos de trocar o sistema de embreagem de mês em mês dos outros ônibus, o 65 (prefixo do Gabriela de Dona Áurea) só precisava de reparos a cada 3 meses” – explica Eliziário.

Tanto carinho e dedicação fizeram com que a motorista pioneira do Grande ABC ganhasse a amizade e a confiança dos donos da empresa. “Quantas vezes a família do Fernando Medina Braga (dono da empresa) ficava aos meus cuidados quando havia alguém doente. Quantas vezes eu cuidava do seu João Antônio e da Maria Beatriz (hoje proprietários do Grupo ABC de transportes), ainda eles pequenos. Hoje os considero como família” – emociona-se Áurea.

Pioneira no transporte
Dona Áurea e Seu José Pedro se conheceram na empresa de ônibus e estão casados

Além do volante, caridade

Paralelamente à sua carreira de motorista, de forma espontânea, Dona Áurea abrigou mais de 50 crianças abandonadas pelos pais ou mulheres com recém-nascidos, abandonadas pelos maridos. “Possuo um centro espírita em São Bernardo do Campo. Sempre deixavam uma criança na porta. Cuidava e tratava como se fossem meus filhos de sangue. Atualmente auxilio 12 crianças e mães” – relata dona Áurea que tira dinheiro do próprio bolso para manter a obra social e conta com a ajuda apenas da comunidade e dos proprietários da Viação ABC, como Maria Beatriz Setti Braga, que, entre outras coisas, cuida do lado social do grupo de transportes.

Freada por ciúme
Mas esse lado doce e caridoso de dona Áurea escondia uma mulher forte, que impunha respeito, principalmente ao volante. Ela usava, no início, os trajes masculinos dos motoristas. Calças marrons, sapatos, camisa creme, gravata e quepe. Mas jamais admitia piadinhas. Qualquer confusão no ônibus, ou por causa de troco, arroaceiros, ela fechava as duas portas e só as abria quando parava na delegacia.

E se algum passageiro viesse com cantadas, ouvia na lata: “O que você perdeu aqui? Nada? Então, paga e vai pro fundo do ônibus”.

Cantadas também ela não admita sobre seu marido, que na época era cobrador. “Eu sempre tratava bem do ônibus, mas quando via as sirigaitas dando em cima de meu marido, eu dava cada freada que elas vinham parar na frente, pertinho de mim. Aí, elas ouviam mesmo” – diverte-se ao relembrar.

Figura entra a comunidade

Dona Áurea é considerada patrimônio da empresa, mesmo aposentada, e uma figura para os moradores mais antigos. “Tinha gente que pegava o ônibus no centro de São Bernardo do Campo só porque me via dirigindo. Mas às vezes, eu mudava de linha. Quando eu saía do centro e não pegava o caminho da linha que era costumeira, o pessoal reclamava. Pôxa, mas era só ler o itinerário”.

A exemplo de muitos funcionários de empresas de ônibus, Áurea e o marido viram as cidades crescerem e isso fez com que o casal, além de acompanhar o desenvolvimento urbano bem de perto, fizesse muitos amigos.

O marido de Áurea, o motorista José Pedro dos Santos Netos, lembra da formação do Parque Seleta, em São Bernardo do Campo, que foi planejado pela recém-instalada Volkswagem para abrigar residências de operários. “O bairro era todo de ruas de terra. Tinha poucas casas. Nosso ponto final não tinha estrutura nenhuma. Então, uma família, que já morava por lá, cedia o banheiro da casa e nos oferecia um belo café da manhã, logo cedinho. Ficamos muito amigos mesmo”. As ruas de terra, os barrancos, os lamaçais eram comuns.

Dona Áurea enfrentava tudo com muita coragem. Mas não era fácil mesmo. Tanto é que no mesmo ano que ela começou a dirigir ônibus, outra mulher, chamada Élia, também se tornou motorista na Viação ABC. Áurea ficava com o ônibus 65 e Élia com o 63(a família fundadora do grupo até hoje só coloca números ímpares nos ônibus – uma superstição). Meses depois, Élia teve de largar o trabalho porque fora proibida pelo marido, que não a quis no ramo de transportes.

Ver as cidades da Região Metropolitana de São Paulo crescerem é um dos orgulhos de Áurea e do marido Pedro. A medida que os bairros iam surgindo, as linhas iam crescendo e vice e versa, os bairros seguiam os trajetos dos ônibus. “São Bernardo era puro matagal. Eu e minha esposa vimos bairros nascendo e crescendo e nós seguíamos por eles a fora. Exemplos são o Parque Industrial, o Nova Baeta (antes chamado de Pai Herói – hoje nome de uma favela), o Parque Los Angeles, o Parque Imigrantes, Royal Park, Jardim Farina. Onde hoje é o Wal Mart, em São Bernardo do Campo, e já foi a Brastempo, antes da saída das indústrias do ABC, era matagal e brejo” – relata Pedro.

Dona Áurea sente saudades da época em que “os ônibus respeitavam os carros pequenos”, dos passageiros, em sua maioria, educados, do trânsito livre e da amizade que existia entre donos de empresa de ônibus, comunidade e empregados.

“Isso não volta mais. Evolução? Sim, houve. Hoje há leis que protegem mais os trabalhadores e alguns ônibus são mais gostosos que carros de luxo para dirigir. Mas sou muito mais aquela época” – finaliza Áurea relembrando as relações humanas no setor de transportes há mais de 30 anos, quando foi uma das pioneiras a comandar os gigantes de lata e ferro que transportam o bem mais precioso: vidas.

Adamo Bazani, repórter da CBN e busólogo nos leva toda terça-feira a percorrer os caminhos dos ônibus na região metropolitana de São Paulo.

6 comentários sobre “Uma pioneira, uma guerreira: A força da mulher nos transportes

  1. Li cada frase desse texto com profundo prazer. Em princípio pelo fato da Dona Áurea ser uma pioneira, de um tempo em que poucas eram as mulheres que se aventuravam em profissões tidas como masculinas. O exemplo dela é uma prova de que sua iniciativa foi em grande passo. Hoje vemos um grande número de figuras femininas trabalhando como motoristas. Creio que as empresas perceberam que são profissionais responsáveis e cautelosas, dois adjetivos muito importantes para quem trabalha com uma máquina de 16 toneladas. Sabemos que esse peso todo, se não for conduzido por boas mãos certas, pode virar uma arma. Parabéns pela carreira, Dona Áurea e mais ainda pela sua atividade de cunho social, cuidando de crianças sem tanta perspectiva, tentando dar a elas cuidados e formação moral. E parabéns, Adamo Bazani, por esse espaço que só agora conheci. À partir de agora, serei visita constante.

  2. este site e interessante por que,faz nossa escola finca famosa,e todo mundo pode sabe que a chiyo e uma escola boa,e tem otimos professores como o waldeman,e outros tambem,eu gosto da nossa escola,parabens waldeman pelo seu otimo trabalho.valou pessoal.

  3. Boa noite. Sou busólogo, tenho 60 anos e moro no Rio, e gostaria enormemente de entrar em contato com Da. Áurea, para trocar informações sobre as atividades dela como cobradora, naquela época. É possível eu ter meu email/telefone divulgado para ela entrar em contato comigo(ecunha2@click21.om.br ou (021) 3258-3775) ou conseguir algum contato dela, para eu ligar ou escrever? Grato e um abraço, Eduardo Cunha

  4. O que estou achando deste site acho maravilhoso pois é
    A escola que estudei sinto orgulho, porque não é só a escola
    Que é boa mas os profissionais que trabalha nela.Sinto orgulhos de todos os professores são muito eficientes, dedicados e amigos eles procuram sempre ajudar os alunos.
    São dez todos….

    Anteciosamente: Fabricia Rodrigues Silva

  5. Rapaz eu acho que já peguei ônibus com a dona Áurea nós anos oitenta,ela me deu uma bronca pois eu queria entrar pela porta da frente kkkkkk.sendo que naquela época entrava por trás.

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