De mais um dia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De mais um dia” na voz e sonorizado pela autora

A gente só se dá conta de que a vida é finita quando faz tlim-tlim, a cada dezena de anos, a caixa registradora da idade; e só se liga que o ano termina quando dezembro chega afobado e se despede num zás, sem dó nem piedade.

Na verdade verdadeira a vida começa a acabar no começo, e continua a cada inspiração. De expiração em expiação. E não há o que reclamar da sua finitude, da nossa inconsciência teimosa, ou da realidade de cada um. Tudo isso faz parte, da velhice à juventude.

um dia depois do outro
num chove no outro faz sol
se não vem a mim o cravo que eu tanto queria
procuro me alegrar com o girassol

Não sei você, mas só me dou conta da idade quando me olho no espelho. Tem vezes que olho e digo: epa, espera aí, para tudo! Quem é essa mulher? Mas é só me virar que esqueço da imagem intrusa que acabo de ver, e me apego à vida com fome e sede, porque tenho mesmo é sede e fome de viver.

Nasci velha e triste. Cheguei muito cedo numa festa que recém começava, onde tentavam se entrosar, meu pai e minha mãe, que ainda tinham na idade o primeiro dígito um. E para coroar a falta de jeito, vim com selo de Saturno.

o saturnino nasce velho
e vai no sentido contrário
envelhece na contramão
assim que quando o espelho não está por perto
me sinto menina
com perdão do comum lugar
me sinto rosa em botão
até que joelhos ou costas
sem nem mesmo avisar
dão sinal de exaustão

e assim vai a vida
há anos que lá se vão
e quero ver se consigo
na lida da minha vida
comemorar cada dia
como se fosse Reveillon

e desejo desta vez
feliz segundo minuto hora
dia semana mês

que é o que precisa enfim
para compor um Ano Novo Feliz
especial pra você
e especial pra mim

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

7 comentários sobre “De mais um dia

  1. Alpha India,

    No meu caso atingindo as horas muito mais do que aprendendo, mas o que se há de fazer, como diria minha avó!

    Estaremos juntos em 2012, com certeza, mas se realmente queremos a paz, primeiro precisamos encontrá-la em nós, e aí é que se enroscam os nós, como disse muito bem meu filho Paulo no Facebook.

    Beijo e bom ano,
    ml

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