Conte Sua História de SP: a galinha preta da rua do Zé Saqueiro

 

Por João Batista de Paula

 

 

Nossa rua tinha suas atrações. Era a Mário de Castro, no Itaim Bibi. Quando meninos e meninas chegavam da escola  já estava combinado: meninas de um lado com suas bonecas e casinhas imitando as mães, sempre em frente a casa de número 3 ou número 7; meninos com brincadeiras mais rústicas como jogar futebol. em frente a casa de número 40, só para chatear os moradores que implicavam com a molecada. Às vezes, escapávamos para as lagoas para nadar sem roupa, em um grande descampado habitado só pelos pássaros que eram nossas testemunhas.

 

A cada dez ou quinze dias, a alegria era redobrada: era quando o caminhãozinho vinha buscar a carga de sacos na casa do seu Zé Saqueiro. Era uma atração à parte, a “furreca”, como nós a chamávamos, ficava no portão da casa 40 por mais de uma hora para receber a carga de sacos de linhagem e estopa. A molecada ficava todo o tempo em volta da furreca, o chofer era um homem bem alto e gordo com uma calça de um pano riscadinho na altura das canelas, uma botina ringideira e um boné de bico de pano. Era uma figura estranha. Já o seu Zé Saqueiro era baixinho e barbudo. Eles formavam uma dupla no mínimo engraçada.

 

A furreca com suas molas em feixes, a lataria bem gasta e com ferrugem aqui e ali. A pintura gasta ficava com várias cores. Quando a carga estava pronta é que tudo virava uma farra para a molecada. O chofer sentava no assento do volante também bem gasto , e nesse momento o seu Zé introduzia uma manivela no motor, e dava maniveladas até ficar exausto. A furreca tremia, mas não pegava, a molecada ria e o seu Zé xingava em espanhol, com sotaque portunhol. Pouco se entendia. De repente, eles trocavam de lugar, lá ia o chofer dar as maniveladas, e o seu Zé que pouco ou nada entendia de carros ficava gritando como agir com a molecada que só atazanava o trabalho. Os dois cansados e nervosos e nada da furreca pegar, até que uma manivelada mais certeira o caminhazinho tremia mais forte e pegava. O chofer corria para o volante. Seu Zé esbravejava novamente em português e em espanhol.

 

Lá ia a furreca em nossa rua toda esburacada, rangendo suas molas, sua lataria acompanhava o rangido do molejo, a molecada acompanhava com alegria que só os meninos possuem.

 

Um refrão dos moleques que era cantado quando os caminhões carregados de areia subiam a Rua Heloisa e encalhavam. Era assim:

 

“Galinha preta, galinha preta, galinha preta” …

isso repetido em coro era sinônimo de azar.

 

Hoje fico pensando, a alegria dos meninos era motivo de raiva desses dois personagens. Não sei porque eu tenho a impressão que o seu Zé também se divertia com toda essa bagunça, será?

 

O seu Zé foi embora não sei para onde, o tempo passou, os meninos cresceram foram se distanciando, a cada ano mais longe. Ficam as distâncias e as lembranças, assim como na canção de Moacir Franco que diz:

 

Porque é que esta lágrima corre tão fria
E o inverno já foi?
Porque é que esta noite os meninos da rua
Não vejo brincar?

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. 

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