Meu minuto de silêncio

 

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O minuto de silêncio que antecede o início de partidas de futebol é protocolar. Geralmente pedido pelo clube da casa ou por autoridades com a intenção de homenagear pessoas queridas —- muitas públicas, outras celebridades e algumas conhecidas da comunidade local. Há minutos de silêncio marcantes como o da tristeza pelo acidente aéreo da Chapecoense ou pela morte dos garotos do Flamengo — apenas para citar os mais recentes. Por contraditório que seja, um dos mais bonitos foi o proporcionado pela torcida do Botafogo que cantou um samba por um minuto em homenagem a Beth Carvalho. Nelson Rodrigues dizia que no Maracanã se vaia até minuto de silêncio como forma de descrever a irreverência do torcedor de futebol no Rio de Janeiro. A verdade é que na maior parte dos estádios nem sempre há o respeito devido e o grito de guerra de torcidas organizadas se sobrepõe ao silêncio dos demais.

 

Na segunda-feira à noite, sentei-me à frente da televisão, na casa da Saldanha Marinho, em Porto Alegre, para assistir ao Grêmio no Campeonato Brasileiro. O jogo era em Maceió, Alagoas, e antes de se iniciar o árbitro sinalizou a homenagem tradicional. O repórter de campo informou que o silêncio se fazia para lembrar alguém querido do clube da casa, o CSA.

 

O silêncio se fez dentro de mim.

 

Não fazia muito, eu havia participado da cerimônia de encerramento que marcara a despedida de meu pai, Milton Ferretti Jung, de 83 anos, que morreu no domingo pela manhã, em Porto Alegre. Nas últimas 24 horas, a dor da perda se fazia forte no coração. Havia experimentado uma montanha russa de emoções, em que no vale havia uma tristeza profunda por saber que jamais poderia abraçá-lo e beijá-lo novamente. E no cume, o orgulho de ouvir amigos, colegas de trabalho, ouvintes do passado com suas memórias e histórias a revelar a dimensão que o pai teve na vida de muita gente.

 

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Imagem de arquivo de jornal 

 

Estar sentado naquela sala, onde praticamente nasci e vivi minha infância e adolescência, era uma tentativa de resgate dos tempos em que passeava de mãos dadas com o pai, em direção ao estádio Olímpico ou a caminho da rádio Guaíba, onde trabalhou por 56 anos. Naquela sala, assistimos juntos às primeiras imagens a cores da TV que ele comprara. Sentamos no sofá para ouvi-lo contando as aventuras de viagens ao exterior, proporcionadas pelas coberturas esportivas. Nos atirávamos no tapete para acompanhar as sessões de slides que ele reproduzia na parede, um por um, cada qual com sua história —- e histórias que se repetiam sessão por sessão como se fosse a primeira vez que estivesse nos contando.

 

O minuto de silêncio no jogo que deveria ter se iniciado parecia não acabar mais.

 

Lembrei-me de quando estive com o pai na final do Campeonato Gaúcho de 1977, de quando comemoramos o Mundial de 1983 e das várias vezes em que ele me abraçou para sustentar meu choro por uma derrota qualquer. De quando invadiu o campo suplementar do Olímpico para brigar com o árbitro que havia expulsado o filho dele injustamente —- sim, sempre que fui expulso o juiz havia sido injusto comigo. De outras tantas, que ele sofreu sentado na arquibancada das quadras de basquete enquanto torcia por mim.

 

Pensei como ele foi importante para me fazer jornalista.

 

No apoio incondicional a todas as minhas decisões — menos aquela de partir com 20 e poucos anos para trabalhar em Florianópolis (ainda bem que ele não deixou). Mesmo aquelas que me levaram para longe dele como o dia em que decidi morar em São Paulo e ele não tinha mais como me impedir. No  dia em que me permitiu narrar a fuga de presos do Presídio Central de Porto Alegre, apesar de ter de tirar parte do Correspondente Renner do ar e invadir a Hora do Brasil. No gol do Grêmio que compartilhou comigo, na época repórter de campo.

 

 

 

Agradeci no minuto de silêncio, que já se estendia por um jogo inteiro, pela forma como o pai se comportou com os colegas de trabalho, pela retidão na conduta pessoal e profissional e pela maneira humilde com que recebia elogios e reconhecimento. Pelo jeito meio desajeitado de revelar seu amor pelos filhos, mesmo que esses gestos parecessem tão difíceis para quem cresceu sob outra orientação. Por ter aprendido, mesmo que tarde, a dizer: “eu te amo”. Agradeci até pela angústia que o consumia sempre que eu saía para à noite. Porque de sua personalidade e seus valores, aprendi muito para a vida.

 

O silêncio não estava mais dentro de mim, estava por toda parte. Porque nada era mais importante do que a memória que eu estava construindo naquele instante com a ajuda de todas aquelas pessoas que tinham me abraçado horas antes no Crematório Metropolitano São José, me enviado mensagens com lembranças vividas com meu pai, me encaminhado gravações do passado e homenagens feitas no presente —- como a dos locutores esportivos da Rádio Globo que cantaram o gol repetindo o bordão que marcou a carreira do pai.

 

No silêncio, agradeci a Deus por ter me permitido vivenciar tantos momentos incríveis com meu pai e por ter colocado tanta gente boa ao meu lado nesse instante de tristeza. Uma gratidão que, tenho certeza, é também do Christian e da Jacqueline, meus irmãos, tanto quanto da Abigail, minha mulher, do Lorenzo e do Gregório, meus filhos.

 

14 comentários sobre “Meu minuto de silêncio

  1. Milton,

    Sou muito fã do seu trabalho, da sua visão humanista que você transparece pela voz todos os dias. Meus sinceros pêsames. Muito emocionante seu texto. Abs, Luiz Guilherme

  2. Milton, que texto lindo! Faço dele o meu minuto de silêncio também, pelo meu pai, que já se foi há 40 anos, mas continua comigo, como o seu também estará com vc, nas suas lembranças e naquelas que outros vão te trazer, e isso consola, acarinha, dá força. Nada melhor do que ter tantas boas lembranças pra curtir, rir, se emocionar. E ainda aprender – “O que meu pai me diria nessa situação X? ” Procura na sua memória e a resposa virá. Fique em paz. Missão cumprida.
    E foi ótimo ouvi-lo hj cedo, na rádio. Seja Bem-vindo.
    Abraços,

  3. SINGELA HOMENAGEM
    “IN MEMORIIAM

    POEMA
    VÍNCULOS E VIBRAÇÕES

    Do outro lado, no espaço etéreo,
    O foco de luz , o novo e o velho,
    O leito do rio, limpo e sereno,
    A carícia do vento, o sopro ameno,
    Os anjos de guarda, milícia celeste,
    Mãos desarmadas, postas em prece,
    Músicas e cantos,efeitos repousantes,aenário de paz, energias vibrantes,
    Almas seletas, campo sacro de oração,
    Reduto da Caridade, do Amor e do Perdão.

    A fé nos faz enxergar esta paisagem,
    Não nos parece uma simples miragem,
    Estamos certos de que esta cadeira vazia
    Não reflete solidão, apenas sintonia;
    Vemos você,
    caro MILTON FERRETTI JUNG,
    feliz naquela moradia,
    Apesar da saudade, juntos na sua alegria.

    Poeta Alceu Sebastião .Costa
    CAMBUCI//CAPITAL-SP

  4. Milton, seu profundo texto nos transmite nas entrelinhas seus sentimentos e emoções vividas com seu pai em momentos únicos e marcantes. Não sabia do ocorrido, entretida em meio aos afazeres profissionais e pessoais, vivenciando a doença de meu único irmão, quimioterápicos e internações, com muita força e fé, um pouco distante dos fatos recentes. Sinceros sentimentos para você, filho por ele amado. Para sempre uma forte presença que será sentida por você em seu coração. Seu pai foi um profissional do mais alto quilate, respeitado e admirado por gerações passadas e vindouras com um legado inquestionável. Tive a honra de por ele ser chamada de ” minha amiga”. Tenha certeza de que ele estará sempre ao seu lado, protegendo, guiando e indicando os caminhos a serem tomados. Muita força e fé Milton, é vida que segue! Forte abraço.

  5. Milton Ferreti Jung: A Voz do Rio Grande com seu Gol, Gol, Gol, com seu Atenção Ouvintes Vai Falar o Correspondente Renner. Quem tem seus 60 e poucos anos lembra perfeitamente do quanto isso marcou nossas vidas. Esta voz fez com que o mundo viesse até nós nas ondas da Rádio Guaíba, trazendo informação, cultura, entretenimento. Bons tempos. Saudades.

  6. Milton, já tive a oportunidade de externar a tristeza e os sentimentos nesta hora em que você deu adeus ao seu pai, e volto agora para manifestar a admiração pelo belo texto que traduz trajetória e ciclo de vida das mais produtivas e emotivas.
    Grande abraço do amigo Carlos Magno

  7. Admiração, inspiração, sensibilidade, profissionalismo…Somos muito hoje de quem vivemos no início.
    Muito gostoso conhecer mais do seu pai, suas memórias, de quem
    você sempre fala com tanta grandeza.
    Que as ótimas lembranças permaneçam!
    Um abraço de ternura.

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