Conte Sua História de São Paulo: a saga e o castelo da família Bonincontro

 

Tania Bonincontro
Ouvinte da CBN

 

 

No começo do século 20, meus bisavós Antonio Bonincontro e Tereza Aiard, que viviam em Napoli, na Itália, vieram de navio para São Paulo. Com eles, desembarcaram dois dos filhos, João e Tereza. Foram morar em um cortiço no Bixiga. Dizem que eram muito, muito apaixonados. Ele alto e loiro. Ela com cabelos castanhos e olhos claros. Tiveram mais seis filhos.

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, os dois foram internados, acometidos pela Gripe Espanhola. Antonio e Tereza sofreram muito, não queriam deixar um ao outro, não queriam deixar os filhos. Tereza definhou rapidamente. Antonio viu sua amada ir embora. Ele, ensandecido, desapareceu. Quando os filhos foram ao hospital souberam da morte da mãe e não conseguiram mais notícias do pai. Imaginaram que ele tivesse morrido e sido enterrado como indigente. O filho João, na época com 18 anos, continuo procurando pelo pai por muitos anos.

 

Ele e a irmã, com 16 anos, não tinham condições de cuidarem dos irmãos mais novos. Brasilina, Josefa, Antonio Vicente, Mário, Lourenço e Nicola, pequenos, famintos, pediam pelos pais. João voltou para a Itália para lutar na Guerra e juntar algum dinheiro para sustentar os irmãos, no Brasil. João estava na infantaria e viajou por toda a Itália e outros países da Europa. Escrevia cartas aos irmãos, contava de suas batalhas, que quando estava ferido ao mesmo podia ficar em paz na enfermaria. Contou até que havia passado por um castelo com o sobrenome da família, os Bonincontros.

 

Aqui no Brasil, Tereza nunca se casou, não queria que os irmãos se sentissem abandonados mais uma vez. Conseguiu alimentar a todos. Brasilina se casou e não teve filhos. Vicente virou sapateiro. Nicola, um andarilho, alcoolatra. Seguiu assim, mesmo com a volta de João da Guerra. Os irmãos decidiram interná-lo em um sanatório. Ao fazerem o registro, descobriram que havia outro Bonincontro internado por lá. Era o pai que estava desaparecido por anos. Os filhos, todos adultos, foram até ele que não os reconheceu: “não são os meus filhos, não, os meus morreram de fome”. Antonio Bonincontro morreu pouco tempo depois sem nunca aceitar a ideia de que aqueles eram seus filhos.

 

Eu sou neta de Antonio Vicente, o sapateiro. Que adorava ópera e, sem dinheiro, trocava o ingresso do teatro por aplausos. Ele era puxador de aplausos. Morou na Vila Maria e teve dois filhos. Um deles o meu pai, Ovidio Bonincontro.

 

Tania Bonincontro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

3 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: a saga e o castelo da família Bonincontro

  1. Que história comovente e muito bem contada. Quantos imigrantes de fora e de dentro dp Brasil, viveram experiências análogas! Com amor, sofrimento, encontros e desencontros.

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