Sobre memórias, doces e afetos

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Abigail Costa

 

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”
Fernando Pessoa

 

 

Você se recorda onde estava no dia 11 de setembro de 2001 ou o que estava fazendo quando soube que Ayrton Senna havia sofrido um acidente automobilístico e tinha morrido? Essas perguntas são frequentemente feitas para elucidar como as emoções influenciam os processos de memorização, aumentando a probabilidade de se recordar uma experiência ou um evento vivido.

 

Diversos estudos em neurociências evidenciam o papel das emoções e os mecanismos fisiológicos envolvidos na formação de memórias, sugerindo que no momento da aquisição das informações, o organismo ativa uma série de neurotransmissores e hormônios, como adrenalina e corticoides, que agem sobre o cérebro e modificam a ação dos neurônios. Quanto maior a intensidade da emoção, mais essas substâncias serão liberadas e vão agir sobre os neurônios responsáveis pelos processos de memória.

 

Não são apenas os conteúdos negativos ou eventos trágicos que serão mais facilmente armazenados. As memórias carregadas de emoções positivas também permanecerão por mais tempo no cérebro.

 

Proponho, então, novas perguntas: como é o lugar que você mais gostou de conhecer? Onde fica? Qual a música que te remete às boas lembranças da infância? Qual o cheiro mais gostoso que vinha lá da cozinha da sua avó ou da sua mãe? Qual o sabor daquela comida que para você é especial? Qual situação foi a mais divertida ou romântica que você passou com a pessoa amada?

 

Essa coletânea que guardamos sobre nossas experiências pessoais e conta sobre nós mesmos em tempos e lugares chama-se memória autobiográfica. Recorda a nossa história, as pessoas com as quais convivemos e o que vivemos.

 

Popularmente, quando essas lembranças são repletas de carga emocional positiva, são chamadas de memórias afetivas. São lembranças fortemente associadas a estímulos sensoriais, como estímulos visuais, auditivos, táteis e olfativos. Recordamos o local onde estávamos, com quem estávamos, a música que tocava ao fundo enquanto o jantar acontecia, o friozinho que vinha pela porta de entrada e o cheiro bom do chá para encerrar a noite… A música ou o cheiro do chá, em outras situações, serão estímulos suficientes para que as lembranças sobre aquele evento sejam ativadas. Evocar memórias que são emocionalmente significativas confere vivacidade às nossas experiências, resgata um pouco (ou muito) de nós mesmos.

 

Minhas filhas dizem que gosto de fazer doces e oferecer às pessoas para registrar a importância que elas têm para mim. Concordo. Um brigadeiro gostoso tem textura, cor, cheiro de chocolate e um sabor único. Memória salva com sucesso! Lá vou eu pensando nas memórias e nos afetos… Faço uma caixa com brigadeiros e envio para um casal de amigos. Apoiada nas palavras de Fernando Pessoa, demonstro meu afeto para essas pessoas incomparáveis e espero que seja intenso o suficiente para construir memórias que tornem esse momento inesquecível.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

 

Um comentário sobre “Sobre memórias, doces e afetos

  1. Um brigadeiro gostoso, um estrogonofe de nozes, um risoto na varanda… hummm quanta memória. Obrigada por compartilhar seu conhecimento. Sempre gostoso reviver bons momentos. Ainda mais nessa momento delicado de distanciamento social, mas nunca afetivo.

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