Avalanche Tricolor: até logo, Renato! 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foram-se cinco dias, dois jogos, um empate ‘oxo’ e uma vitória categórica desde a última vez que estive com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Pelo ritmo acelerado com que se disputam partidas de futebol em um país paralisado pela pandemia, para quem esteve acostumado a dizer o que pensa e sente assim que a bola para de rolar, a distância entre o texto da quarta-feira passada e este é uma eternidade.

Deixei o tempo fluir para ver se absorvia melhor a saída de Renato Portaluppi, técnico mais longevo do futebol brasileiro e prestes a completar cinco anos no comando da equipe. Na versão oficial, foi comum acordo. Alguns dizem que ele foi demitido. Há os que compraram a ideia de que ele se demitiu. 

Como permito que a ilusão domine meus pensamentos quando o assunto é Grêmio, insisto em acreditar que Renato, do alto da sua majestade, sacrificou-se em nome do time do coração. Vendo que havia divergências internas na direção e externas na torcida, preferiu se afastar da Arena para que as diferenças não causassem uma cisão sem retorno no clube. Porque ele haverá de retornar.

Mesmo com a noção de que muitas das coisas que escrevo ou penso nesta Avalanche estão mais sintonizadas com os meus desejos do que com a realidade —- repito: aqui me dou o direito à ilusão —-, ninguém minimamente saudável da mente e da boa-fé há de negar o que Renato representa para o Grêmio. 

E digo isso, ciente do que pensava dele no início de sua carreira como jogador, época em que sua posição não era incontestável e a pressão pela sua escalação como titular, em 1982, foi um dos motivos do afastamento de Ênio Andrade do comando do time. Seu Ênio foi campeão brasileiro, em 1981, e vice, em 1982, pelo Grêmio —- este título, aliás, foi o que levou o time para a Libertadores de 83, que nos rendeu a primeira conquista sul-americana e o Mundial. Era amigo íntimo do pai, a quem confidenciava coisas dos bastidores da vida e do Olímpico e dividia garrafas de whisky, no bar que ficava atrás do campo suplementar. Adotei-o como padrinho pela intervenção famíliar que fez em momento dos mais difíceis na minha vida escolar. A saída do Seu Ênio me entristeceu e fez maldizer os responsáveis pelo ato —- Renato estava na lista.

Alguns poucos anos depois, —- já incontestável e campeão do Mundo — Renato foi um dos responsáveis pelo rumo que tomei na carreira. Um dia conto de forma mais detalha esse caso se é que você está interessado. Pra resumir: foi diante de uma negativa dele em ser entrevistado e uma fuga dos microfones, flagrada e estampada no jornal Zero Hora, que me levou a rever o interesse pela cobertura esportiva. Dia seguinte, pedi para ser transferido do esporte para o departamento de jornalismo —- e isso mudou minha vida, não sem antes reforçar minha bronca com o ídolo.

O tempo nos ajuda a enxergar melhor o que aconteceu. A mente é seletiva e distorce nossas lembranças. Passamos a armazenar imagens que nunca se realizaram e histórias que não foram contadas. As transformamos em nossa verdade. Acreditamos no que que queremos acreditar. E, em particular, prefiro guardar no coração o que me causou amor e esquecer meu rancor — tomara que com você também seja assim, Renato.

Renato construiu sua história. Fez o Grêmio maior do que era. Não o fez sozinho, mas fez. E com o Grêmio se fez grande, também. Fim dos tempos de jogador — em que os pés, o corpo e o coração se expressavam com talento nos gramados ——, assumiu o papel de treinador — que exige inteligência e criatividade, méritos da mente. Na casamata, sempre que passou pelo time, deixou sua marca vitoriosa, revelando-se então completo. 

Na primeira, em 2010, nos elevou de uma constrangedora posição na zona de rebaixamento para a disputa de vaga na Liberadores. Na segunda, em 2013, foi vice-campeão brasileiro. E na terceira …. bem, esta acho que você ainda não esqueceu. Conquistou todos os mais importantes títulos desta década, do Tri-Gaúcho a Libertadores. Foi campeão da Copa do Brasil, da Recopa Sul-americana e da Recopa Gaúcha. Além de troféus, criou uma nova maneira de o Grêmio jogar futebol —- indo muito além da paixão e do coração, que sempre o moveram —, que encantou os críticos pelo Brasil. 

Um cara que nos deu a chance de ser transformado em lenda ainda em vida —- coisa rara nas relações efêmeras que costumamos ver na sociedade contemporânea. A estátua na esplanada da Arena do Grêmio, no Humaitá, foi apenas a materialização de algo que já estava construído no coração de cada gremista. Lá permanecerá como permanece na nossa memória a revolução que Renato causou sempre que esteve em campo ou ao seu lado, em nome do Grêmio. 

Por tudo isso e por tantas outras coisas que não tenho habilidade para escrever ou memória para lembrar, para mim é difícil entender a saída de Renato neste momento, quando caberia a ele —- e poucos terão essa capacidade —- administrar o novo ciclo que estamos iniciando, após assistirmos à passagem da geração vitoriosa que conquistou a América. 

A mudança que se faz necessária somente é possível com alguém forte o suficiente para resistir a pressão pelos tropeços inevitáveis no processo de reconstrução de um time. Quem assumir terá a mesma responsabilidade —- tenho dúvidas se terá  a força de Renato diante da adversidade. Torço para que seja blindado pela diretoria, co-responsável pelo que vier acontecer. E que tenha a tolerância do torcedor, algo raro nesses tempos em que os intolerantes contaminam as relações com suas palavras de ódio.

A me consolar, a alegria que tenho até hoje na mente — e essa não esquecerei jamais —- de Renato ter comandado o time que me fez sorrir e vibrar abraçado aos meus dois filhos (guris, o que foi aquela noite em Al Ain, nos Emirados Árabes?!?); e me permitiu compartilhar com o pai nossas últimas comemorações em vida pelo Grêmio, clube que ele me ensinou a amar.

Renato sai da casamata e abre espaço no vestiário para que alguém assuma a responsabilidade de manter no elenco e nos torcedores aquilo que ele resgatou logo que chegou em 2016: o prazer pelo futebol bem jogado e pelo título conquistado. Vai embora sem dizer adeus, porque de Renato jamais iremos nos despedir. No máximo, arriscamos um “até logo!”; quem sabe, “até breve”. Porque Renato não sai do Grêmio nem o Grêmio jamais sairá de Renato. Somos eternos. Imortais!

Um comentário sobre “Avalanche Tricolor: até logo, Renato! 

  1. Pingback: Avalanche Tricolor: dois gols de um Grêmio que já conhecemos | Mílton Jung

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