Conte Sua História de São Paulo: uma nova amiga e a rádio como companheira

Amaryllis Schloenbach

Ouvinte da CBN

Foto de Gratisography no Pexels

Meados dos anos 1940, morava com minha família em um sobradinho no bairro de Pinheiros, que defrontava com uma morada coletiva, na época denominada de cortiço. Pela manhã, no pátio do excelente grupo escolar, dividia minha merenda com a coleguinha minha vizinha fronteiriça,  e,  em muitas tardes ou noites de tempestade, precisávamos abrigá-la por conta da inundação que assolava aquele trecho de terra batida.

Havia uma boca-de-lobo onde, da janela, presenciei sumirem cães, galinhas, móveis, objetos vários, e, certa vez quase um bebê ser tragado em seu bercinho flutuante. No último momento este foi resgatado por um herói anônimo da vizinhança, que adentrou aquela forte correnteza barrenta, incentivado pelos gritos desesperados da mãe, nadou entre destroços a tempo de salvá-lo, aplaudido por todos os moradores do quarteirão.

Consternada com aquelas cenas eu me consolava afirmando, com  toda convicção, que quando crescesse não haveria mais episódios parecidos nesta minha desamparada cidade.

Adulta, trabalhando no Serviço Social do HC, voltei a morar na mesma rua, agora asfaltada, córrego canalizado, livre de enchentes. Porém o problema apenas mudou de endereço, e hoje, já idosa, acompanho pela internet as mesmas inundações, as  piores cenas de afogamentos, em vários outros bairros dessa mesma amada cidade que continua desassistida.

Há dois anos, jornalista aposentada, tornei-me só,  e tive problemas de adaptação a essa nova fase, embora continuando a morar no mesmo local, por mais de 40 anos, no encantado bairro do Bixiga.

Mal comecei o meu processo de adaptação,  o mundo foi assolado pela terrível pandemia do vírus mortal que ceifa vidas preciosas e leva o medo a todos os lares.

Precavida, iniciei meu distanciamento social, com o necessário confinamento. Não tendo parentes mais, contudo, sofri por precisar manter a devida distância de amigos, a maioria também da terceira idade, e igualmente confinados.

Acompanhei diariamente, durante quatro meses, a terrível situação de uma querida amiga vítima da infecção, que permanecia em UTI especial, e que até hoje, milagrosamente salva, lúcida, ainda passa, em casa, por sessões diárias de fisioterapia, para recuperar totalmente os movimentos depois de permanecer por tanto tempo imobilizada, em coma induzido. Levada pela fé, confiei em sua cura e ainda adquiri nova amiga na pessoa de uma de suas irmãs, a qual me dava notícias da paciente todos os dias, e com quem trocava mensagens de encorajamento.

Assim, resisto bravamente durante tanto tempo a me deixar abater diante de tantas notícias tristes, tantos lutos, tantas decisões equivocadas, tantas “pavonices”, tantas brigas inúteis, tantas demonstrações de incompetência!

Nisso me foi de grande valia a descoberta da CBN, onde pude contar com uma grande equipe de profissionais dedicados, apaixonados pelo fazer jornalístico, pela exposição da verdade, tão deturpada nesses tempos de pandemia, onde a par de grande número de pessoas com atitudes heroicas, somos obrigados a conviver também com uma grande leva de seres ditos humanos, mas sem um mínimo de empatia para com seus semelhantes!

E la nave va!…

Amaryllis Schloenbach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. E a narração de Mílton Jung. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

3 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: uma nova amiga e a rádio como companheira

  1. Esta história de uma paulistana, corajosa, me deixou com olhar no vazio e pensativo, como a vida pode nos dar tantas alegrias e ao mesmo tempo tantas tristezas e tanto por fazer.
    E o rádio , inabalável, ao longo de tanto tempo, nos trazendo informação e notícias desta nossa cidade que abraçamos.
    Obrigado, Corajosa Paulistana.

  2. Como sempre, “vou chover no molhado”, histórias como essa que contam o passado, o presente e o futuro, ficam ainda mais legais, quando contadas pela voz do Sr. Milton Jung com produção de Claudio Antônio. Sempre muito bom.

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