Os efeitos colaterais da vacina

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Imagem Gov do Estado de SP

— “Que vacina estão aplicando?”

Foi a pergunta que mais ouvi nos cerca de 30 minutos em que esperei —- ao lado da minha esposa — a oportunidade para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Vacinei em um posto avançado, criado pela prefeitura de São Paulo, em uma escola de classe alta, na zona Oeste da cidade. 

Assim que informados de que a vacina disponível era a fabricada pela AstraZeneca, que chegou ao Brasil em acordo com a Fiocruz, davam meia volta e seguiam em frente — provavelmente ao posto mais próximo, onde repetiram o ato. Desconfio que a reação seria a mesma se dissessem que era Coronavac. A vacina da moda entre os mais abastados é a da Pfizer —- seja porque acreditam que terá menos reação adversa que as demais, seja porque esperam que a aplicação de uma dose da fabricante americana sirva de visto para viagem ao exterior. 

Mesmo para quem fala de gestão de marcas todos os sábados pela manhã com a dupla de especialistas Jaime Troiano e Cecília Russo —- no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso —, e sabe o quanto elas ditam nossos comportamentos, descobrir que vacina têm marcas e com força suficiente para adiarmos a proteção de nossa vida porque não têm a grife preferida na “loja”, me deixou embasbacado. Tive reação adversa maior a essa atitude do que pela marca da AstraZeneca que carrego no braço desde a quarta-feira, ao meio-dia.

Agimos como estivéssemos diante da escolha de uma roupa para vestir ou uma bolsa para comprar:”Chinesa? É falsificada, né!”; “essa inglesa aí não dá nem pra viajar”; “é a americana? meu sonho de consumo, os amigos vão morrer de inveja”. Selecionamos vacina como vinho na adega: “nunca soube que a uva chinesa faz bons vinhos”; “esse inglês, dizem, dá dor de cabeça”; “ouvi falar que o americano é incrível, quero dois!”.  

Quando a Janssen chegar —- aquela que ‘a gente vai estar recebendo dos Estados Unidos não sei quando” —, imagine a maratona em busca de postos que aplicarem a vacina: uma dose só, eficácia que chega a 95%, reações adversas mais intensas desconhecidas e, dizem, abre as portas para o paraíso (se não o paraíso, para os Estados Unidos). 

Faz parecer aquela disputa em festa de madames que põem as roupas de melhor marca, do estilista famoso, e levam no braço a bolsa de luxo pra desfilar na cara das amigas. 

A senhora chega com a sua clutch Lana Marks’Cleopatra de US$ 400 mil, acha que está abafando e de repente vem a frustração. A metida do condomínio entra com uma Birkin da Hermès (US$ 1,4 milhão) a tiracolo. Mas como alegria de rico também dura pouco, a vingança não tarda. A moça da cobertura entra pela porta conduzindo uma Mouawad 1001 Nights Diamond, comprada por imbatíveis US$ 3,8 milhões. Onde será que ela conseguiu?

Como vacina é assunto em tudo que é canto —- ainda bem —-,  fico curioso em ouvir o bate-papo no vestiário da academia entre os senhores marombados. “Tá vendo essa marquinha aqui ó, é Janssen”, diz o coroa de toalha na cintura. “A minha é Pfizer, gostou?”, arrisca o outro enquanto seca os dedos do pé. O gerente da multinacional que estava por ali, vestiu logo sua camisa Lacoste, aquela do jacaré, para ir embora antes que descobrissem, tadinho, que ele só encontrou a Coronavac. 

A saber: a vacinação ocorre por ordem de chegada das doses e não é possível escolher qual tomar. Recusar o imunizante e deixar passar o dia previsto da primeira dose é a abertura de mais uma janela de oportunidade para contrair e transmitir o vírus. É um desserviço à sociedade, porque para controlar a Covid-19 é preciso de alta cobertura vacinal e rapidamente, diminuindo a circulação do vírus e o risco de surgir variantes com maior poder de contaminação, além de conter o aumento da velocidade de pessoas doentes e mortas.

Ao amigo e amiga que usa como argumento a busca por vacinas consideradas mais eficazes, lembre de que do ponto de vista individual a proteção entre uma vacina e outra muda muito pouco.

Todas à disposição no Brasil nos protegem do risco de morrer e diminuem consideravelmente qualquer possibilidade de termos sintomas graves. A eficácia faz sentido aos gestores de saúde que planejam o número de pessoas que têm de ser vacinadas para alcançarmos a imunidade coletiva.

Quanto as reações adversas, algumas pessoas que foram vacinadas disseram ter tido febre, dor de cabeça, indisposição e dor no local onde foi feita a aplicação —- muito pouco para quem até então corria o risco de morrer por contrair a Covid-19. Outras, que estão por aí correndo atrás da vacina da moda, e desperdiçando a chance de se imunizar em troca de um luxo, consta que tiveram o sentimento de egoísmo acentuado nos últimos meses. E para isso não tem cura.

No meu caso, que fui vacinado com a AstraZeneca, porque fiquei na pequena fila que se formava no posto lá da escola, perto de casa, o único efeito colateral que tive até agora —- quase 24 horas depois da primeira dose —- foi uma alegria extrema de saber que estou mais protegido e, em um ato de cidadania, estou ajudando a proteger as pessoas que amo. Uma felicidade que contaminou a família, amigos próximos, colegas de trabalho e ouvintes da CBN, muitos dos quais vibraram quando contei no ar que a vacina acabara de ser aplicada. Que essa felicidade contamine a todos!

5 comentários sobre “Os efeitos colaterais da vacina

  1. Ei, Milton, boa tarde.

    Antes de me manifestar sobre o assunto em questão, quero lhe contar como são todas as minhas manhãs, durante a semana: – chego ao Minas Tênis Clube, tradicional clube de BH, às 6h, quando abre.

    Durante o percurso até o clube, no carro, já vou ouvindo a CBN, quando vc e a Cássia Godoy iniciam o programa. Durante a caminhada de uma hora, entre 4 e 5km, ouço só a CBN.

    O programa de vcs é ótimo! Assuntos muito pertinentes, entrevistas inteligentes e os comentaristas? Só profissionais do mais alto nível. Entre eles, Mário Sérgio Cortella, Natália Pasternak, Márcio Atala, Dr. Luís Fernando Correia e tantos outros. E depois, ainda compartilho os podcasts com amigos e familiares pelo WatsApp.

    Ah, ia me esquecendo da conexão CBN e Globo News, não perco de jeito nenhum!

    A Cássia Godoy é sensacional! Além da simpatia, tem uma voz firme, ótima dicção, sem sotaque… totalmente “palatável”! Vcs dois formam uma dupla harmônica, confiável e necessária ao jornalismo brasileiro. Parabéns aos dois e à CBN!

    Quanto à vacinação, concordo, plenamente, com vc, sobre o cidadão querer “escolher” qual vacina tomar! É lamentável, considerando que o Governo, desde o início da pandemia, optou por NEGAR a pandemia e estimular o tratamento precoce! E agora, com as vacinas a “conta-gotas” em nosso país, as pessoas ainda têm o desplante de querer escolher a marca da vacina! Triste Brasil! 💔💔💔

    Sou ouvinte da CBN desde a fundação, em 1991. O que me chamou mais a atenção foi o slogan: “a rádio que toca notícia” Me cativou na hora, e me tornei ouvinte desde então!

    Milton, meu afetuoso abraço para vc e a Cássia. Vcs são excelentes repórteres e apresentadores.

    Marlene Tavares Engenheira civil e empresária Belo Horizonte- MG

    Enviado do meu iPhone

    >

  2. Parabéns Milton Jung pelo texto, que traduz o pensamento de muitos de nós, e pela imunização.
    Que o efeito colateral da alegria se some ao efeito colateral da conscientização e da responsabilidade em cada brasileiro.
    Só assim poderemos reverter esses índices tão tristes.

  3. Pingback: Falta de vacina em 7 cidades é alerta para quem insiste em escolher imunizante | Mílton Jung

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