Avalanche Tricolor: pelo direito à ilusão

Grêmio 3×0 Bragantino

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comentaristas de futebol são craques (ou deveriam ser) em enxergar aquilo que poucos de nós conseguimos ver em campo – a movimentação estratégica, o ocupar de espaços, a aproximação por bloco, a marcação alta, e todo esse cabedal de conceitos que os técnicos tentam levar dos treinos para o vestiário e do vestiário para o campo de bola. Os torcedores, por sua vez, veem coisas que a razão não explica, que só enxergamos porque assistimos ao jogo através dos olhos do coração

Hoje, alguns minutos de partida foram suficientes para a turma da análise técnica entender que o Grêmio jogava diferente, com velocidade, agilidade e troca de passe; jogava de forma incisiva, pra frente, pressionando e chutando a gol. O quarteto Campaz, Jonatha Robert, Diego Souza e Ferreirinha encantava os críticos pela movimentação, pelos dribles, por um futebol alegre que contrastava com a pressão psicológica e a tensão que cada um dos nossos jogadores tem carregado desde que nos metemos nesse atoleiro da tabela de classificação.

Diego parecia ter reencontrado companheiros que andavam afastados da área. Coube a ele marcar o primeiro gol de pênalti. De rebote do pênalti. Porque na cobrança, preferiu o centro do gol e viu o goleiro adversário defender a bola parcialmente. Completou, então, de cabeça para as redes. O que, convenhamos, já sinalizava uma mudança de astral. Nesses tempos difíceis que vivenciamos, a possibilidade de a bola ir para outro destino, era gigantesca.

Tivemos, também, Lucas Silva que marcou o seu gol, ao chegar forte na área e receber livre a bola que havia sido traçada entre os marcadores por Campaz e passada com precisão por Ferreirinha. E fechamos a goleada com um chute impressionante de Jonatha Robert, lá de fora da área, em uma bola que, cheia de remelexo, encontrou as redes.

Como disse, se aos comentaristas cabe a análise fria e lógica, a nós torcedores é reservado o direito à paixão. Com ela aflorando no peito, trago aqui aquele que considero o personagem do jogo, o craque da bola, o merecedor do Motoradio – que deveria ser revivido apenas para premiá-lo uma vez na vida. Falo de Walter Kannemann, um monstro, que personifica a alma de nossa imortalidade a cada bola que disputa, a despeito das dores no quadril que o perseguem há algumas temporadas. Foi ele o autor dos dois lances que selaram a nossa sorte na partida desta noite e – por que não sonhar – podem escrever um novo fim para nossa história.

No primeiro lance, Kannemann impediu a investida adversária jogando-se de cabeça quase aos pés do atacante, sem temer pela vida. Caiu ao chão com a mão no rosto. E foi retribuído pela ousadia. A bola que tirou de peixinho chegou ao nosso ataque que só foi parado dentro da área com a sinalização do pênalti que abriu o placar. Da cobrança e do gol todos se lembrarão. Da festa dos nossos jogadores, também. A cena se repetirá nos programas de esporte, hoje e amanhã. Kannemann talvez sequer apareça nas imagens, mas o torcedor se viu representando mesmo foi na valentia de seu zagueiro. 

O segundo lance veio quase ao fim da partida, em uma escapadela do time adversário que encontrou nossa defesa desguarnecida – supostamente desguarnecida. Porque havia Kannemann para nos proteger. No momento em o atacante já havia encoberto Brenno e a bola parecia ter encontrado seu caminho em direção ao gol, Kannemann em um esforço descomunal esticou-se como pode, alcançou a bola com a canela e a despachou para longe, fazendo-a se chocar no travessão. 

Um desavisado nos dirá que foi um esforço desnecessário, pois o placar já estava resolvido. Ledo engano. Kannemann saltou naquela bola porque jamais se aceitou derrotado – e isso será essencial para nós que ainda sonhamos com a salvação. Em seu lance, acompanhando a raça e a determinação, havia a sorte, que fez a bola bater no travessão em vez de seguir o caminho do gol. Vítimas que temos sido do Inevitável da Silva – tema da Avalanche anterior -, isso não é pouca coisa, não. Kannemann foi gigante em um jogo em que nosso ataque brilhou. E nos deu o direito à ilusão.

Um comentário sobre “Avalanche Tricolor: pelo direito à ilusão

  1. Já dizia um dirigente, antigo, Presidente do Corinthians: O jogo só acaba quando termina…
    E os concorrentes também perderão pontos. Ninguém ganha tudo.
    Daqui a pouco, nem é sonhar.
    Sabia que iria ter reação.

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