A pressa ainda é inimiga da perfeição?

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

Foto2

Poucos se importaram com a pressa com que as árvores foram cortadas ….

 

Aparentemente, a pressa nas cerimonias oficiais de posse do governador eleito de São Paulo não afetou as solenidades. Tanto na Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, como no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. Entretanto, se no aspecto operacional e protocolar não houve falhas, há uma tônica de velocidade e mudanças a ser considerada, como característica da personalidade de João Doria.

 

Na campanha à Prefeitura, garantiu que cumpriria o mandato e a sua administração não imprimiria o estilo do político, mas, de gestor. Em 15 meses, descumpriu o prazo e o estilo. Adotou a dinâmica convencional do político e se candidatou ao governo do Estado de São Paulo.

 

Ao ganhar a eleição, teve o aval dos eleitores, que tecnicamente aprovaram a transformação. Daí a decisão de dar prioridade a ida à posse do novo presidente, estar de acordo com o perfil estabelecido e aprovado — e nada mais a declarar: é um político e vitorioso.

 

Foto1

… até o fogo aparecer e os Bombeiros, apressados, surgirem para acabar com o incêndio.

 

A não ser um pequeno episódio na quadra da “Revolta dos Eucaliptos”, distante 200m do Palácio. Na antevéspera da posse, o corte de árvores avançou até a noite e também na calçada, onde deixaram troncos e galhos — ao mesmo tempo em que repórteres mostravam os preparativos, sem nenhum deles ter percebido o trecho com o impedimento da calçada. As reportagens envolviam apenas o Palácio, sem o entorno. Talvez por pressa.

 

Na véspera, começou um incêndio no mato deixado impunemente pela empresa executora do corte de árvores e o Corpo de Bombeiros teve que intervir. No local, os bombeiros me informaram que o chamado de socorro foi feito pelos moradores.

 

O pessoal do Palácio ignora o entorno. Talvez por pressa em executar as tarefas internas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Um minuto de silêncio e o barulho autofágico

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

20181221_183615

 

O silêncio, assim como um som de qualidade, é uma situação altamente apreciável e prazeirosa. É, sem dúvida, o cenário recomendável para uma vida confortável e saudável — e propício até para o seu prolongamento. Seu oposto, ou seja, o barulho, pode tornar a existência conturbada. Além do que, a concentração, elemento fundamental na realização de importantes tarefas mentais e físicas, necessita essencialmente do silêncio.

 

O artigo “Um minuto de silêncio” de Mílton Jung, aborda de forma descontraída, a difícil busca pelo silêncio e a sua luta para encontrar um momento real sem interferência de som. Por coincidência, eis que, ao ler a mensagem de Mílton, estou encurralado com o pior som nesta São Paulo, deste Brasil, outrora chamado de Terra do Pau Brasil: o som de serra elétrica cortando árvores.

 

Há três dias, com intervalo no Natal, na mesma área geográfica da “Revolta dos Eucaliptos”, eis que em dois lotes — 121/122, quadras 168 CEP 047703-004 — na Av. Morumbi, serras elétricas agem com o objetivo de derrubar todas as árvores do terreno. Defronte da ex-mansão de Baby Pignatari, onde ficou com a Princesa Ira de Fürstenberg, e a uma quadra do Palácio dos Bandeirantes.

 

Por infelicidade, dois ícones que correm riscos. O terreno da ex-mansão, feericamente arborizado está a venda. O Palácio dos Bandeirantes, inserido em belo espaço verde, de tempos em tempos enfrenta governadores que não querem viver ali ou que desejam mudar a sede do governo.

 

Voltando ao som das motos serras, já foram derrubadas aproximadamente 50 árvores cujo terreno ostenta placa autorizando ação da empresa “Everaldo Andrade Freire Poda de Árvores ME” pelo TAC 247/2018.

 

Insuflado pelo agressivo som do corte de árvores, não é difícil pensar imediatamente no conflito entre o meio ambiente e a ocupação adensada do solo. Enquanto o mais equilibrado seria o racional, respeitando os limites de cada posição, o incongruente protagoniza o conflito. Nesse caso, por exemplo, o interesse daqueles que virão a ocupar este terreno certamente foi despertado pelo verde que o bairro do Morumbi ainda oferece. E a primeira coisa que faz ao chegar é derrubar todas as árvores.

 

É um sistema autofágico. Assim como todas a ações que levam às motos serras. A ponto de, no futuro, atraírem sons muito piores que aqueles que emitem. Pois, se continuarem neste ritmo e nesta expansão por todo o país, teremos em breve no Brasil os sons de tornados e maremotos, atraídos pelas acentuações climáticas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A maior cidade do Brasil ainda depende do cara da chave do almoxarifado

 

cf081e83-8d4b-4311-bb16-7cc4c92a243e.jpg.640x360_q75_box-0,120,1280,840_crop_detail

 

Ao “escorregar” e criar um degrau no meio do caminho dos motoristas de carro, o viaduto de acesso da Marginal Pinheiros à Rodovia Castello Branco, em São Paulo, também deixou à mostra como estamos atrasados na gestão pública. E isso não é coisa desse ou daquele governo. É coisa do Brasil.

 

Um dos exemplos mais evidentes dessa realidade é o fato de o problema ter ocorrido na quinta-feira da semana passada e até agora a prefeitura de São Paulo não ter tido acesso ao projeto original de engenharia, o que facilitaria a análise dos técnicos para identificar a causa do incidente e planejar a recuperação o mais rapidamente possível.

 

Tudo bem, a estrutura foi projetada e construída nos anos de 1970. Faz muito tempo. Vivíamos a era analógica. Tudo no papel e depositado em arquivos públicos nem sempre com organização apropriada.

 

Também deve-se levar em consideração que a obra foi feita em convênio entre a prefeitura de São Paulo e a Fepasa. Ou seja, havia órgãos municipais e estaduais envolvidos. E o diálogo entre autarquias e instâncias diferentes costuma ser precário no País.

 

Alguns registros estavam na secretaria municipal, mas os técnicos não encontraram o memorial de cálculo, que é um dos estudos mais importantes de uma obra.

 

Quem sabe a resposta não estaria nos arquivos do DER – Departamento de Estradas de Rodagem? Liga pra lá.

 

— Quem tem chave?
— O cara do almoxarifado
— Cadê o cara?
— Tá na praia.

(aviso aos nervosinhos: este diálogo é pura imaginação minha)

 

O problema é que tudo aconteceu em meio a um feriado prolongado e o órgão está fechado. E a autoridade não tem autoridade para acessar qualquer uma das salas onde o documento pudesse estar disponível.

 

O secretário de Obras da cidade, Vitor Aly, declarou aos repórteres: “o que acontece é que as vezes a gente consegue o diretor, às vezes você não consegue o cara que tem a chave do almoxarifado”.

 

Caos!

 

Foram, então, atrás dos engenheiros. Walter de Almeida Braga morreu em 2016 e a viúva, que atendeu ao telefone, disse que se desfez do acervo.

 

No último dia do feriadão, encontraram Roberto de Abreu, responsável pela execução da obra. Estava no Guarujá e agora se juntou a equipe de técnicos da prefeitura para ver o que dá pra fazer.

 

Graças a Deus!

 

Por coincidência, no mesmo último dia do feriadão, li na BBC News que policiais da cidade de Nápoles, cidade onde nasceu uma das organizações mafiosas mais perigosas do mundo, a Camorra, usam tecnologia baseada em algoritmo que identifica com algumas horas de antecedência locais onde há maior possibilidade de ocorrência de crimes. Com isso conseguiram aumentar o número de capturas de criminosos.

 

Em um mundo no qual o uso de Big Data, inteligência artificial e algoritmo já é disseminado, São Paulo, a maior cidade brasileira, em lugar de investir esforço e recurso na digitalização de todos os seus documentos — do presente e do passado –, ainda depende da chave do cara do almoxarifado para coisa dar certo.

 

É dose pra mamute!

A “Revolta dos Eucaliptos” gera caos e indagações urbanas, no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Um eucalipto de 38 metros e 50 anos, ao ser desbastado a pedido dos moradores do condomínio horizontal que o abrigava, causou transtorno, quando parte do seu tronco ao ser removido tombou o guindaste e a carreta que o transportaria — além de atingir a rede de alta tensão.

 

Caos suficiente para atrair as TVs, as rádios e os helicópteros. Afinal, o porte da árvore, as dúvidas quanto a derrubada e o erro operacional contribuíram para a espetacularização ocorrida. Inclusive a proximidade ao Palácio dos Bandeirantes.

 

Visitando o local durante a operação, iniciada na quarta-feira, ouvimos dos moradores que lideraram o pedido à Regional do Butantã os motivos:

 

“Estávamos correndo risco com os galhos que poderiam cair nas crianças”

“Um galho destruiu meu telhado”

“Frequentemente tenho despesa com a limpeza do telhado cheio de folhas”

“A árvore é um para raio intenso, atraindo enorme quantidade de raios”

“Os raios que atraem se espalham pelas árvores vizinhas menores causando a morte delas”

“Não dá para regar as árvores vizinhas, tal a quantidade de água que absorve”

“Este porte de árvore não é condizente com o urbano”

 

É importante ressaltar o clima beligerante que observamos dos moradores em contenda com o Eucalipto. Talvez o momento agressivo que vivemos deva ser considerado, mais do que as recentes chuvas.

 

O histórico do local em termos de preservação já vinha demonstrando uma certa animosidade.

 

É o 14º lote da Rua Comissário Gastão Moutinho, originalmente ocupado por uma residência que foi vendida e demolida para o lançamento de 12 casas. Como a urbanização original não permitia tal adensamento, houve embargo por ação da entidade representativa dos moradores do Morumbi — bairro onde “habita” o Eucalipto. Houve um processo rápido em função do apoio da mídia, principalmente da TV Globo e do Estadão. Foram então construídas apenas seis casas, no formato de condomínio, cujos moradores, tempo depois solicitaram a derrubada do Eucalipto, alegando infestação de cupim.

 

A regional do Butantã enviou equipe para o corte. Com o apoio da rádio CBN, uma ação da entidade dos moradores do Morumbi conseguiu a retratação do engenheiro agrônomo que tinha assinado a autorização do corte da árvore. E a equipe foi dispensada. E os cupins não apareceram.

 

Surge agora, década e meia depois, essa autorização para a derrubada, expedida pela Regional e gerada pela solicitação dos condôminos, possibilitando uma série de interpretações e reflexões — dependentes da orientação social, cultural e comportamental de cada cidadão.

 

De nossa parte é clara a responsabilidade de quem procura uma região com as características do Morumbiem mantê-las. Não é lógico usufruir dos benefícios das árvores sem dar a elas a contra partida.

 

E para quem acredita que as árvores também têm alma, é bom saber que, com a reação do Eucalipto, os moradores foram castigados por 24 horas com barulho, lama e falta de energia.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

O Minhocão do Hexa

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

38573480850_e522e6d5c7_z

Monotrilho em imagem do Flickr/Gov do Estado de São Paulo

 

É inacreditável que quarenta anos depois de inaugurar o Minhocão por Paulo Maluf, a mesma cidade foi vítima de obra similar.

 

Se Maluf, em 1970 teve o regime ditatorial favorecendo as operações, em 2010 as forças da FIFA, da CBF, de Lula, de José Serra e de Kassab tiveram que se unir para vencer os protestos contra a sua execução. Diante do exemplo irrefutável dos problemas do Minhocão original, os argumentos técnicos e sociais afloraram vigorosamente. Dentre eles destacamos em artigo anterior neste blog:

 

A linha 17-Ouro que ligará Congonhas à rede de trilhos terá trens a 15 metros de altura, irá desapropriar área de 132 mil metros quadrados na qual serão derrubadas 2.300 árvores e onde 36 mil metros quadrados são ocupados por residências de alto e médio padrões.

 

O morador deve sofrer impacto negativo de ALTA RELEVÂNCIA: a mudança da paisagem devido à presença de vigas de até 15 metros de altura

Será um grande causador de incômodo. A obra será usada por mais de 200 mil passageiros por dia …

 

Nas vias de baixo tráfego haverá aumento significativo do movimento devendo atrair também camelôs e desvalorizando alguns espaços do entorno…

 

O padrão residencial vertical faz com que o impacto visual do monotrilho seja intensificado, pois alguns domicílios ficarão no mesmo nível que as estruturas permanentes.

 

Entretanto, era uma batalha de cartas marcadas. Tanto é que o Estádio do Morumbi não foi aprovado pela FIFA, alegando que as obras a serem feitas teriam que estar prontas, para em seguida endossar a abertura da COPA no Itaquerão, que ainda não tinha estádio nem mesmo um projeto completo.

 

Então, o que era ruim ficou muito pior, pois a construção do Minhocão do Morumbi diminuiu de ritmo. Afinal os interesses públicos e privados passaram para Itaquera. A ponto de haver paralisação e acentuada degradação no canteiro de obras.

 

O fato é que a COPA 2014 passou. A COPA 2018 também e o monotrilho ainda não está pronto.

 

Em resumo, o capital investido proposto para gerar riqueza está produzindo pobreza.

 

Sem ironia, o Minhocão da COPA será o Minhocão do HEXA: Não dá para prever quando chegará.

 

Leia também:

 

O “Minhocão do Morumbi” — 18/08/2010

 

O Morumbi em choque — 06/10/2010

 

Monotrilho será novo Minhocão, mas tudo muito “moderno — 23/04/2012

 

O Minhocão do Morumbi II — 04/04/2016

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Deixem-me em paz, pombas!

 

O artigo a seguir foi escrito em 2012, ano em que tive o privilégio de ocupar a coluna da última página da revista Época São Paulo — hoje extinta. Lembrei dele quando li, semana passada, que a cidade aprovou lei que proíbe as pessoas de alimentarem e confinarem pombos e obriga os moradores a usarem redes de proteção e outros obstáculos em suas casas para impedirem que as aves se alojem no local. A boa notícia é que os pombos sumiram lá de casa depois deste artigo — será que eles leram?

 

statue-185435_960_720

 

Escrevo este texto com um olho na tela e outro no telhado, de onde partem ameaças à minha integridade física e moral. Os ataques não são recentes, ocorrem desde que cheguei a São Paulo, em 1991, e fui trabalhar na antiga sede da TV Globo, na Praça Marechal Deodoro, de frente para o Minhocão. No alto daqueles prédios antigos viviam centenas de pombos, que pareciam ter me escolhido como alvo preferencial para suas necessidades. Não foram poucas as vezes em que tiveram sucesso, manchando meu terno e me impedindo de trabalhar. Cheguei a fazer uma “pindura” na lavanderia mais próxima – que, desconfio, era financiada pelo estrago que os pombos causavam aos indefesos pedestres.

 

Ao trocar de emprego, imaginei que estaria livre das famigeradas aves, mas logo percebi que minha vida não seria fácil na cidade. Os pombos me seguiram até em casa e lá se estabeleceram. Vizinhos afirmam que eles chegaram antes de mim, atraídos por um morador antigo, que, acredite, alimentava os bichinhos e cuidava deles como se fossem de estimação. Atitudes desse tipo só contribuem para infestar São Paulo e emporcalhar fachadas e calçadas.

 

Os estudiosos culpam os navegantes europeus, que trouxeram a espécie ao Brasil no século XVI, para servi-la no almoço. O prato não deve ter agradado os nativos, o que ajudou as aves a se multiplicar com extrema rapidez. O imaginário popular também não colaborou em nada a conter sua proliferação: tem gente que insiste em enxergar o símbolo da paz onde deveria ver um rato com asas. O que sei é que os pombos me deixaram paranóico – e nada me tira da cabeça que sua presença está ligada a uma conspiração dos columbiformes para me atazanar.

 

Assim que aterrissaram em casa, os pombos ocuparam o parapeito das janelas e começaram a confabular num idioma que eu desconheço. Às vezes se atreviam a olhar para dentro do quarto, com aquele jeito de gente intrometida, como se estivessem em busca de um lugar mais confortável para morar. Descobri uma cola que causaria desconforto ao bando e o expulsaria sem provocar males aos pombos. Esse ponto é importante, e faço questão de divulgá-lo, porque a espécie é protegida pelo Ibama. Sim, meu senhor: embora eu não POSSA prejudicar a saúde deles, os pombos são livres para me transmitir piolhos e até 70 tipos de doenças, como a complexa criptococose, que atinge o sistema nervoso. Isso mesmo, minha senhora: esses animais com cara de santo (ao menos do Espírito Santo) são um risco à saúde pública. E praticamente imbatíveis, conforme minha experiência.

 

A tal cola só foi capaz de transferir os pombos por poucos metros, da janela para o telhado. Lá no alto, construíram casa, constituíram família, invadiram o forro e passaram a fazer um barulho insuportável farfalhando suas asas para lá e para cá. Não respeitam sequer a hora da novela. O pátio, de tão sujo, precisa ser limpado diariamente. Apelei para outros expedientes. Recomendaram-me um apito que os espantaria, uma pílula anticoncepcional capaz de impedir sua reprodução, um revólver de pressão para abater os mais inconvenientes, e até a estátua de uma coruja, considerada seu predador natural. Fiasco atrás de fiasco. Logo a estátua da coruja se transformou num heliponto de pombos. Na última investida, cerquei a casa com uma rede de proteção. Desconfio que, mais uma vez, não vá dar em nada. É o que parece me dizer o olhar tranquilo e vitorioso do pombo que, pousado no telhado, me observa neste instante, enquanto termino de escrever.

O patrimônio de Paraty vai além da arquitetura: saiba por quê?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Paraty concorre agora a Patrimônio da Humanidade, cuja candidatura foi aceita pela UNESCO na categoria de sítio misto, paisagem cultural e natural.

 

Se vencer a eleição datada para 2019, terá seu segundo reconhecimento cultural, pois, em 2017, obteve o título internacional de Cidade Criativa para a Gastronomia.

 

A cidade de Paraty apresenta perfil histórico com múltiplas facetas, através de nuances culturais, econômicas e sociais. Paraty foi o maior porto exportador de ouro no período colonial – 1530 a 1815 – condição que contribuiu para a sua formação urbana e rural.

 

O romance biográfico “Ana em Veneza” de João Silvério Trevisan dá ideia da riqueza cultural da região ao descrever a estada da família alemã de Julia da Silva Bruhns Mann, nascida em Paraty e mãe do escritor Thomas Mann.

 

O patriarca da família Luiz Bruhns, de Lubeck, bem relacionado com D. Pedro II, pelo prazer do imperador em treinar o alemão, estendia sua avançada visão social e cultural a sociedade paratiense. O jantar de despedida em Paraty, quando decidiu voltar para a Alemanha, deixou os ilustres convidados extasiados diante da gastronomia local:

Salada de palmito, salada de lagosta, pimenta cumari, pimenta malagueta, batata doce, arroz ao molho de tomate, feijão preto, angu, moqueca de peixe, galinha ao molho pardo, pernil de porco assado. Compotas de caju, banana e goiaba, melado, baba de moça, manuê de bacia feito de farinha de trigo, melado e ovos, chuvisco, bolinho de massapão, broa de mãe benta, cocada, bala de ovos, pão de ló.

 

Deixou-os, também, assustados com as benesses sociais, pois Bruhns não só alforriou seus escravos como doou suas terras a eles. E alertou a todos que não havia futuro para a escravidão.

 

 

A força da passagem do ouro ficou marcada também na cidade de forma original ao desenhar as construções com o propósito comercial. As edificações tem sempre a função de loja. Ou a loja fica na frente e a residência atrás ou o térreo é para a loja e o sobrado para a família.

 

O longo e duro período de ostracismo da região redundou positivamente em preservar o antigo. Mas não foi fácil para a população. Houve até um momento em que a carência de recursos básicos urbanos como eletricidade e água foi tão grande que surgiu movimento separatista do estado do Rio de Janeiro, buscando guarida em São Paulo. Se de direito não conseguiram, hoje o afluxo de turistas paulistas é compensador à economia de Paraty.

 

Se, caro leitor, visitar Paraty, consulte o extenso calendário turístico e intelectual da cidade. Recomendo também buscar o cardápio que a mãe de Thomas Mann presenciou ainda criança quando da despedida da cidade.

 

Não deixe de incluir o camarão casadinho e a cachaça.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

A senhora da esquina dos Jardins

 

pedestrian-1870889_1280

 

Em meio as ruas arborizadas dos Jardins, região nobre de São Paulo, quase sempre encontro o sinal fechado ao atravessar a rua Groelândia, no caminho para a rádio. Ainda está escuro, pois é finalzinho de madrugada. A frequência com que a cena se repete, nestes sete anos em que apresento o Jornal da CBN, completados no dia 28 de fevereiro, mais do que uma coincidência, reflete a disciplina no acordar, tomar café, pegar o carro e seguir o meu caminho.

 

Logo no início, olhava para os lados e se não percebia nenhum carro prestes a cruzar a via, seguia em frente. Poderia justificar que naquela escuridão, passar o sinal vermelho era transgressão permitida em nome da minha segurança. Mentira! Era em nome da minha pressa mesmo. Que poderia ser provocada pelo desejo de chegar logo ao trabalho ou, provavelmente, por essa mania de estarmos sempre correndo na cidade grande sem saber o motivo.

 

Somente fui perceber a desnecessária e irresponsável transgressão após levar um tremendo susto. Sem nenhum carro se aproximando do cruzamento, resolvi arrancar e fui surpreendido pela presença de uma senhora que estava no meio fio a espera para atravessar a rua.

 

Demonstrou conhecer bem o mal-hábito dos motoristas da madrugada. Ficou parada na calçada, apenas aguardando eu partir, apesar de a faixa de segurança estar à disposição dela. Quando a vi, já não tinha mais como voltar atrás. O carro havia avançado e a culpa do risco assumido, tomado minha consciência.

 

Fiquei olhando a senhora pelo retrovisor querendo pedir desculpas e pensando em voltar para reiniciar a cena. O máximo que consegui foi ser atingido pelo desdém do olhar daquela pedestre. De alguém acostumada a sobreviver diante do desrespeito dos motoristas e resignada com a nossa ignorância.

 

Foi um dia difícil aquele. Um dia que jamais me abandonou. Porque voltei dia após dia a cruzar pela mesma rua. E sempre que o sinal fecha e eu paro o carro, volta a imagem da senhora, com as duas mãos agarradas na alça da sacola pendurada no ombro, cabelo preso em um coque e saia longa quase cobrindo os pés. É como se fosse minha consciência chamando-me à responsabilidade. Alertando-me para o respeito que tenho de ter sempre e em qualquer situação com o outro.

 

Não, não pense que a imagem da senhora é coisa da minha cabeça. É ela mesma que, assim como eu, disciplinada, passa no local sempre no mesmo horário.

 

Nessa sexta-feira, vou encontrá-la pela última vez, pois semana que vem o endereço do meu trabalho vai mudar. Prometo, porém, que nunca mais esquecerei dela. Estará em cada esquina, em cada cruzamento e em cada sinal fechado pelo qual eu passar.

 

Obrigado, aprendi muito com a senhora!

Barulhos urbanos e o silêncio do sabiá

 

guy-2607818_960_720

 

Os barulhos urbanos podem ser diversos dependendo a região na qual você mora. Aqui perto de casa, tem vizinho barulhento, que ouve rádio mais alto do que necessário. Só não reclamo porque ele ainda ouve rádio. Pior é o outro que educa os filhos aos berros e é correspondido por eles, que respondem até perderem a voz.

 

O de melhor lembrança é o do grito das crianças na escola que fica logo na esquina de casa. Na hora da saída, uma outra melodia se destaca: a medida que os pais chegam, a funcionária chama o nome dos alunos no alto-falante. E esse som vem até aqui e teimo em ouvi-la chamando o nome dos meus dois meninos, que estudaram lá até o fim do ensino médio.

 

O som da Igreja no fim da rua também é marcante. Todas às vezes que, ao meio-dia e às seis da tarde, o sino replica, tenho a impressão que vivo em uma pequena cidade. Gosto, também, de ouvir ao fundo o som da Ave Maria cantada pelos fiéis nos horários da missa.

 

Assustador é o som da sirene do carro fúnebre que insiste em me avisar que a morte está passando. O cemitério, que anda movimentando nos últimos dias, está a algumas quadras daqui e a sirene mais se parece com um lamento interminável.

 

Na madrugada, além do rapaz que mora perto e estaciona o carro ouvindo suas músicas preferidas em alto e bom som, só me incomoda mesmo a chegada das caçambas. Sei lá que tanta obra e reforma fazem meus vizinhos. Mais difícil de entender é como a tecnologia desenvolvida do jeito que está não inventaram caminhões, caçambas e correntes menos barulhentas. O badalar do ferro em outro ferro tira o sono de qualquer um. A consolar apenas o fato que a maioria das entregas ocorre quando já estou praticamente levantando da cama para trabalhar na madrugada.

 

Nenhum barulho, porém, é mais desconfortável do que o da serra elétrica. Nem tanto pela frequência com que o som atinge nossos ouvidos, mas pelo que representa. Sexta passada, minha casa foi invadida por este barulho e logo percebi que era obra de uma equipe contratada para “limpar” o que restava de terreno arborizado na minha rua.

 

Eles chegaram rápido e com a mesma rapidez fizeram as serras soarem nos meus ouvidos. Enquanto isso, levantavam uma placa anunciando que estava em processo uma operação de “manejo de vegetação arbórea” – que, se realizada de verdade, nada mais é do que cortar árvores aqui e plantar outras em sei lá qual lugar.

 

Será que se eu perguntasse, eles me diriam em que endereço poderei respirar o ar puro das árvores que não farão parte mais da minha vizinhança? Onde será que poderia visitar as falecidas?

 

A serra elétrica já parou de gritar nos meus ouvidos, mas assim que se calou percebi, no rastro das árvores derrubadas, que levou junto o canto do sabiá. Daquelas dezenas de sabiás que batiam asa na frente de casa e assoviavam ainda de madrugada em busca de uma namorada.

 

E esse provavelmente será o barulho urbano que me perseguirá para o resto dos tempos na casa em que moro: o silêncio dos sabiás.

Zoneamento: prefeitura propõe desconto de 30% ao mercado imobiliário

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

32516894825_41e953398c_z

 

A Prefeitura está retomando a Lei de Zoneamento que é balizada pelo Plano Diretor com o intuito “oficial” de adequá-la ao momento atual.

 

Ontem foi realizada a primeira das cinco audiências públicas previstas para discutir a proposta da Prefeitura. E, no “Mais São Paulo” da CBN, Américo Sampaio, numa conta simples, exemplificou que se aprovada a proposição da Prefeitura a cidade vai perder R$ 150 milhões anuais, o que em 15 anos dará dois bilhões de reais, suficientes para construir 10 hospitais.

 

Equívocos e contradições afloram nessa posição da Prefeitura de São Paulo. A prematura ação de ajuste em uma lei aprovada há apenas dois anos, a redução da outorga onerosa em 30%, diminuindo a receita em momento de aperto financeiro, a inversão do princípio da transferência de recursos às regiões carentes, não sustentam a convocação da Prefeitura balizada pela atualização à cidade de hoje.

 

A reação de urbanistas e ambientalistas, foi imediata, após a apresentação do vereador Gilberto Natalini na Câmara, no dia sete.

 

O urbanista Ivan Maglio ressaltou que as modificações sugeridas entram nos bairros com permissão de densidades construtivas que os descaracterizarão. E desconstruirão as bases do Plano Diretor.

 

A advogada Renata Esteves ressalta que as ZERs com pressupostos unifamiliares serão desconsideradas.

 

O Professor Cândido Malta ressalta que ao invés de restringir o adensamento aos eixos, a atual proposta amplia ao interior das áreas. Ela irá comer as ZERs pelas bordas.

 

Sergio Reze, Conselheiro Municipal de Politica Urbana, nos relatou a grande preocupação e estranhamento que essa medida tem gerado em todos os especialistas. Pois, diferentemente do que se apresentam, as propostas atingem não só a Lei de Zoneamento como também os pilares do Plano Diretor, com o específico objetivo de beneficiar e intensificar as operações imobiliárias. Como se a arrecadação pudesse entrar num processo de liquidação de produtos.

 

Depois de quatro anos de exaustivos debates na revisão do Plano Diretor, caberia uma análise, por exemplo, da capacidade de suporte do sistema viário e das condições ambientais aprovadas, ao invés de modificar as proposições chamando-as de ajustes.

 

Esse cenário típico do mercado é salutar desde que os agentes cumpram seu papéis. Cabe ao Estado preservar o interesse maior que neste caso não pode pender para o interesse privado como apontam os especialistas.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.