Fé e ideologia não serão capazes de conter os efeitos do aquecimento global

 

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Duas pessoas morreram em ônibus soterrado na Niemeyer. Foto: Bárbara Souza/CBN

 

Acordei logo cedo com a voz de uma autoridade carioca no rádio oferecendo aos ouvintes a garantia de que a prefeitura do Rio estava preparada para enfrentar as dificuldades impostas pela tormenta que havia atingido a cidade na noite anterior. Seiscentos homens estavam nas ruas para atender a população, as equipes da noite foram reforçadas por aqueles que estavam encerrando o expediente, alertas foram emitidos com base no monitoramento dos radares do clima e sirenes tocaram em áreas de risco.

 

Suas palavras não eram coerentes, porém, com a descrição que repórteres faziam ao vivo ou com as fotos e vídeos que já circulavam na internet. O lobby de um hotel era comparado a um navio naufragando, o barro ocupava o salão de uma academia de ginástica, um homem era levado pela correnteza ao som de gritos de moradoras que gravavam a cena, ruas e avenidas estavam tomadas pela água e pessoas buscavam proteção de maneira improvisada —- a maior parte contando mais com a sorte do que com qualquer apoio oficial.

 

A impressão era que um furacão havia passado pela cidade e deixado seu rastro por todos os cantos. Os técnicos fizeram questão de esclarecer que os furacões estão no topo de uma escala que vai do grau 0 ao 12 e registram velocidade de 118 quilômetros por hora ou mais. O que aconteceu no Rio foi uma tempestade, que está no grau 10, e se caracteriza por ventos de 89 a 102 quilômetros por hora.

 

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Chuva colocou Rio de Janeiro em estágio de crise. Foto: Reprodução/TV Globo

 

Ao morador do Vidigal e da Rocinha, duas das áreas mais devastadas pela tormenta, tanto faz o nome oficial daquilo que eles assistiram e sofreram ao longo da noite e madrugada. Para eles e para os demais cariocas —- mesmo aqueles protegidos em prédios mais altos ou em suas casas em bairros mais bem estruturados — foi um caos. Um desespero sem fim.

 

O Rio já encontrou seis pessoas mortas desde o início do temporal — duas delas soterradas, quando tentavam voltar para a casa, na avenida Niemeyer. A terra deslizou na carona de uma árvore centenária que despencou morro abaixo até atingir o ônibus onde estavam os dois passageiros e um motorista —- esse conseguiu escapar com vida. Por sorte. Ou por Deus, como até os descrentes costumam dizer.

 

É com a sorte — e talvez com Deus —- que devemos contar enquanto os administradores das nossas cidades não são capazes de investir na mudança estrutural necessária para os novos tempos. Cruzamos os dedos para que no momento da tormenta já tenhamos chegado a um lugar minimamente seguro. E oxalá nossos parentes e amigos mais próximos também tenham conseguido.

 

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Uma pessoa morreu no Vidigal Foto: Marcelo Carnaval/ Agência O Globo

 

Um mínimo de interesse nos estudos do clima nos faria entender que não sobreviveremos por muito tempo enquanto acreditarmos que nosso destino será traçado pelo acaso. Sorte e azar não são elementos a se ponderar quando cientistas comprovam que a temperatura global aumenta a níveis sem precedentes — 16 dos 17 anos mais quentes registrados aconteceram neste século e nos últimos 40 anos, a temperatura media global esteve acima da média do século 20.

A medida que as temperaturas globais aumentam, eventos climáticos extremos se repetem com mais frequência, com mais custo e com mais destruição. Sabe aquelas chuvas que acontecem uma a cada mil anos? Foram registradas seis vezes, em 2016, nos Estados Unidos —- esse mesmo país que é comandado por um presidente que questiona o aquecimento global. Cidades litorâneas —- como o Rio —- estão muito mais expostas agora aos efeitos das marés altas do que estiveram em todos os tempos. Nos últimos 50 anos, aumentaram de 364% para 925% as inundações, nas três costas dos Estados Unidos.

 

As medidas paliativas e as palavras vazias não serão suficientes para conter as tragédias que tendem a se repetir a cada ano. Ambientes urbanos como o da cidade do Rio, que tem uma geografia a desafiar administradores, ou a de São Paulo, com sua extensão territorial inimaginável, não podem se dar ao luxo de esperar mais tempo até iniciarem de forma inteligente e planejada ações que mitiguem os impactos provocados pelo clima.

 

Repensar a forma de ocupação do solo, criar áreas para absorção da águas das chuvas, ampliar a quantidade de árvores para diminuir o efeito das ilhas de calor, deslocar famílias dos pontos de alto risco, reurbanizar favelas, recuperar córregos, riachos e rios, rever os modelos de transporte e reduzir a emissão de carbono são algumas soluções já há muito conhecidas e, por mais complexa que seja a implantação destas medidas, quanto mais tempo demorarmos para atuar piores serão os efeitos sobre a qualidade de vida do cidadão.

 

E para o nosso azar — perdão, uso a expressão apenas por força do hábito —- o que vemos avançar no Brasil, em lugar de politicas públicas que adaptam as cidades para esse novo tempo, é o discurso de políticos negacionistas ambientais. Uma gente cega pela sua fé e ideologia, incapaz de compreender que as evidências científicas são contundentes. Retumbantes. Destruidoras, se levarmos em consideração o que aconteceu no Rio nas últimas horas.

 

A persistirem os sintomas, a análise mais crua e certeira — tanto quanto mal-educada —- que ouvimos foi a de um cidadão carioca, voltando para a casa em meio ao temporal, aparentemente bêbado, que se intrometeu na cobertura ao vivo de uma repórter da Globonews para decretar: —- “Tá todo mundo f….., essa m…. aqui”

Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

 

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Foto: Rodney Costa/Eleven/Agência O Globo publicada no site CBN.com.br

 

Os que já enfrentaram o risco de afogamento no mar sabemos o desespero que bate quando percebemos que não há como puxar o ar para os pulmões. No início, prendemos a respiração como reação de sobrevivência e tentamos nos orientar em busca da superfície. As ondas passam por nossa cabeça e a impressão é de que o caminho para o alto está bem mais distante. Apesar de estarmos a apenas alguns segundos enfrentando aquele situação, parece a eternidade. Se você como eu já tomou um caldo na praia, daqueles que deixa seu “GPS” sem norte, sabe quão ruim é a sensação. Nunca — ainda bem —- fui além desses segundos. De uma maneira ou outra encontrei a superfície, talvez porque estivesse muito mais raso do que pudesse imaginar. Os que estudam nossas reações dizem que ir além desses instante pode ser fatal. Ao desespero junta-se a ansiedade. A água escapa pela boca, chega a laringe. Parte vai para o estômago, outra para o pulmão. A troca gasosa deixa de funcionar. O oxigênio não entra e o gás carbônico não sai. Os efeitos começam a ser sentidos no cérebro. No pulmão, os alvéolos não suportam a pressão. Os glóbulos vermelhos são destruídos. O potássio se espalha. O corpo se contrai. O coração para. Morte.

 

Tenho imaginado essa cena desde que na tarde de sexta-feira recebi a primeira informação sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. A experiência que havíamos presenciado três anos antes em Mariana nos preparou para as imagens que assistiríamos em seguida. Uma onda de lama se formando e avançando sobre casas, lojas, hospedarias. Pessoas e famílias soterradas. Seres humanos que estavam vivenciando mais um dia de suas vidas, no trabalho, na prestação de serviços, nos afazeres domésticos, descansando, em um momento de lazer. O mar de rejeitos —- formado por restos de minério, sílica e derivados de amônia — provocou estrondos no caminho que percorria. Uns descreveram como um trem descarrilado; outros como se vários caminhões estivessem tombando — foi o que li na edição dominical de O Globo.

 

Na minha cabeça, a morte por afogamento se assemelhava a agonia enfrentada por aquelas mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, médicos e mineradores, caminhoneiros e cozinheiros — uma gente para quem só fomos apresentados agora através de reportagens que contam suas histórias de vida e logo serão números de uma estatística triste de descaso e irresponsabilidade. Nunca vai se saber ao certo o que cada um viu ou imaginou que estava ocorrendo. Se acreditaram que seriam capazes de sair do meio da lama, encontrar a superfície. É provável que a força e a velocidade da lama, em um movimento que se equivaleria ao tsunami, tenham causado impacto sobre as pessoas que estavam no seu caminho sem dar chance delas entenderem que a morte se aproximava. Sempre será uma incógnita como essas pessoas morreram — algumas  talvez jamais serão encontradas porque o corpo é sugado para debaixo da terra pela formação da lama.

 

O que sabemos é que morreram porque mais uma vez subestimamos nosso poder de destruição. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse nesse domingo que todas as ações de segurança recomendadas por especialistas reconhecidos internacionalmente foram realizadas: “100% dentro de todas as normas e não houve solução”. Para em seguida afirmar que “vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse”.

 

Garantir? 

 

Que garantia é essa? 

 

Talvez a mesma garantia que ouvimos quando a Vale e sua parceira BHP foram responsáveis pela maior tragédia ambiental já registrada no mundo, que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Ou a garantia que nos deram logo após registrarmos a morte de 242 pessoas no incêndio da Boate Kiss, em  Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que completou seis anos nesse sábado. Ou a garantia das autoridades de que a vistoria de prédios seria mais rigorosa no Rio de Janeiro, desde que 17 pessoas morreram na queda do edifício Liberdade — lembrada semana passada, em reportagem do Jornal da CBN, na data em que completou sete anos. 

 

Em Mariana e arredores, famílias ainda esperam suas casas serem reconstruídas, a indenização definitiva ainda não saiu e ninguém foi condenado pela tragédia. Em Santa Maria, familiares dos mortos e as vítimas que sobreviveram lamentam que não houve avanços por parte das autoridades responsáveis na luta por justiça e os réus ainda aguardam julgamento. No Rio, menos da metade dos 130 mil prédios que deveriam realizar a autovistoria predial a cada cinco anos estão em acordo com a lei. E as vítimas? Cada uma se vira como pode. Sem ajuda dos responsáveis pelo desabamento. Sem justiça.

 

Aliás, é a única garantia que realmente temos nesse país. De que independentemente da frequência com que as tragédias ocorram, de onde ocorram e por que ocorram, seremos vítimas de irresponsabilidade, de desrespeito e de injustiça.

A pressa ainda é inimiga da perfeição?

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

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Poucos se importaram com a pressa com que as árvores foram cortadas ….

 

Aparentemente, a pressa nas cerimonias oficiais de posse do governador eleito de São Paulo não afetou as solenidades. Tanto na Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, como no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. Entretanto, se no aspecto operacional e protocolar não houve falhas, há uma tônica de velocidade e mudanças a ser considerada, como característica da personalidade de João Doria.

 

Na campanha à Prefeitura, garantiu que cumpriria o mandato e a sua administração não imprimiria o estilo do político, mas, de gestor. Em 15 meses, descumpriu o prazo e o estilo. Adotou a dinâmica convencional do político e se candidatou ao governo do Estado de São Paulo.

 

Ao ganhar a eleição, teve o aval dos eleitores, que tecnicamente aprovaram a transformação. Daí a decisão de dar prioridade a ida à posse do novo presidente, estar de acordo com o perfil estabelecido e aprovado — e nada mais a declarar: é um político e vitorioso.

 

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… até o fogo aparecer e os Bombeiros, apressados, surgirem para acabar com o incêndio.

 

A não ser um pequeno episódio na quadra da “Revolta dos Eucaliptos”, distante 200m do Palácio. Na antevéspera da posse, o corte de árvores avançou até a noite e também na calçada, onde deixaram troncos e galhos — ao mesmo tempo em que repórteres mostravam os preparativos, sem nenhum deles ter percebido o trecho com o impedimento da calçada. As reportagens envolviam apenas o Palácio, sem o entorno. Talvez por pressa.

 

Na véspera, começou um incêndio no mato deixado impunemente pela empresa executora do corte de árvores e o Corpo de Bombeiros teve que intervir. No local, os bombeiros me informaram que o chamado de socorro foi feito pelos moradores.

 

O pessoal do Palácio ignora o entorno. Talvez por pressa em executar as tarefas internas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Um minuto de silêncio e o barulho autofágico

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O silêncio, assim como um som de qualidade, é uma situação altamente apreciável e prazeirosa. É, sem dúvida, o cenário recomendável para uma vida confortável e saudável — e propício até para o seu prolongamento. Seu oposto, ou seja, o barulho, pode tornar a existência conturbada. Além do que, a concentração, elemento fundamental na realização de importantes tarefas mentais e físicas, necessita essencialmente do silêncio.

 

O artigo “Um minuto de silêncio” de Mílton Jung, aborda de forma descontraída, a difícil busca pelo silêncio e a sua luta para encontrar um momento real sem interferência de som. Por coincidência, eis que, ao ler a mensagem de Mílton, estou encurralado com o pior som nesta São Paulo, deste Brasil, outrora chamado de Terra do Pau Brasil: o som de serra elétrica cortando árvores.

 

Há três dias, com intervalo no Natal, na mesma área geográfica da “Revolta dos Eucaliptos”, eis que em dois lotes — 121/122, quadras 168 CEP 047703-004 — na Av. Morumbi, serras elétricas agem com o objetivo de derrubar todas as árvores do terreno. Defronte da ex-mansão de Baby Pignatari, onde ficou com a Princesa Ira de Fürstenberg, e a uma quadra do Palácio dos Bandeirantes.

 

Por infelicidade, dois ícones que correm riscos. O terreno da ex-mansão, feericamente arborizado está a venda. O Palácio dos Bandeirantes, inserido em belo espaço verde, de tempos em tempos enfrenta governadores que não querem viver ali ou que desejam mudar a sede do governo.

 

Voltando ao som das motos serras, já foram derrubadas aproximadamente 50 árvores cujo terreno ostenta placa autorizando ação da empresa “Everaldo Andrade Freire Poda de Árvores ME” pelo TAC 247/2018.

 

Insuflado pelo agressivo som do corte de árvores, não é difícil pensar imediatamente no conflito entre o meio ambiente e a ocupação adensada do solo. Enquanto o mais equilibrado seria o racional, respeitando os limites de cada posição, o incongruente protagoniza o conflito. Nesse caso, por exemplo, o interesse daqueles que virão a ocupar este terreno certamente foi despertado pelo verde que o bairro do Morumbi ainda oferece. E a primeira coisa que faz ao chegar é derrubar todas as árvores.

 

É um sistema autofágico. Assim como todas a ações que levam às motos serras. A ponto de, no futuro, atraírem sons muito piores que aqueles que emitem. Pois, se continuarem neste ritmo e nesta expansão por todo o país, teremos em breve no Brasil os sons de tornados e maremotos, atraídos pelas acentuações climáticas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A maior cidade do Brasil ainda depende do cara da chave do almoxarifado

 

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Ao “escorregar” e criar um degrau no meio do caminho dos motoristas de carro, o viaduto de acesso da Marginal Pinheiros à Rodovia Castello Branco, em São Paulo, também deixou à mostra como estamos atrasados na gestão pública. E isso não é coisa desse ou daquele governo. É coisa do Brasil.

 

Um dos exemplos mais evidentes dessa realidade é o fato de o problema ter ocorrido na quinta-feira da semana passada e até agora a prefeitura de São Paulo não ter tido acesso ao projeto original de engenharia, o que facilitaria a análise dos técnicos para identificar a causa do incidente e planejar a recuperação o mais rapidamente possível.

 

Tudo bem, a estrutura foi projetada e construída nos anos de 1970. Faz muito tempo. Vivíamos a era analógica. Tudo no papel e depositado em arquivos públicos nem sempre com organização apropriada.

 

Também deve-se levar em consideração que a obra foi feita em convênio entre a prefeitura de São Paulo e a Fepasa. Ou seja, havia órgãos municipais e estaduais envolvidos. E o diálogo entre autarquias e instâncias diferentes costuma ser precário no País.

 

Alguns registros estavam na secretaria municipal, mas os técnicos não encontraram o memorial de cálculo, que é um dos estudos mais importantes de uma obra.

 

Quem sabe a resposta não estaria nos arquivos do DER – Departamento de Estradas de Rodagem? Liga pra lá.

 

— Quem tem chave?
— O cara do almoxarifado
— Cadê o cara?
— Tá na praia.

(aviso aos nervosinhos: este diálogo é pura imaginação minha)

 

O problema é que tudo aconteceu em meio a um feriado prolongado e o órgão está fechado. E a autoridade não tem autoridade para acessar qualquer uma das salas onde o documento pudesse estar disponível.

 

O secretário de Obras da cidade, Vitor Aly, declarou aos repórteres: “o que acontece é que as vezes a gente consegue o diretor, às vezes você não consegue o cara que tem a chave do almoxarifado”.

 

Caos!

 

Foram, então, atrás dos engenheiros. Walter de Almeida Braga morreu em 2016 e a viúva, que atendeu ao telefone, disse que se desfez do acervo.

 

No último dia do feriadão, encontraram Roberto de Abreu, responsável pela execução da obra. Estava no Guarujá e agora se juntou a equipe de técnicos da prefeitura para ver o que dá pra fazer.

 

Graças a Deus!

 

Por coincidência, no mesmo último dia do feriadão, li na BBC News que policiais da cidade de Nápoles, cidade onde nasceu uma das organizações mafiosas mais perigosas do mundo, a Camorra, usam tecnologia baseada em algoritmo que identifica com algumas horas de antecedência locais onde há maior possibilidade de ocorrência de crimes. Com isso conseguiram aumentar o número de capturas de criminosos.

 

Em um mundo no qual o uso de Big Data, inteligência artificial e algoritmo já é disseminado, São Paulo, a maior cidade brasileira, em lugar de investir esforço e recurso na digitalização de todos os seus documentos — do presente e do passado –, ainda depende da chave do cara do almoxarifado para coisa dar certo.

 

É dose pra mamute!

A “Revolta dos Eucaliptos” gera caos e indagações urbanas, no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Um eucalipto de 38 metros e 50 anos, ao ser desbastado a pedido dos moradores do condomínio horizontal que o abrigava, causou transtorno, quando parte do seu tronco ao ser removido tombou o guindaste e a carreta que o transportaria — além de atingir a rede de alta tensão.

 

Caos suficiente para atrair as TVs, as rádios e os helicópteros. Afinal, o porte da árvore, as dúvidas quanto a derrubada e o erro operacional contribuíram para a espetacularização ocorrida. Inclusive a proximidade ao Palácio dos Bandeirantes.

 

Visitando o local durante a operação, iniciada na quarta-feira, ouvimos dos moradores que lideraram o pedido à Regional do Butantã os motivos:

 

“Estávamos correndo risco com os galhos que poderiam cair nas crianças”

“Um galho destruiu meu telhado”

“Frequentemente tenho despesa com a limpeza do telhado cheio de folhas”

“A árvore é um para raio intenso, atraindo enorme quantidade de raios”

“Os raios que atraem se espalham pelas árvores vizinhas menores causando a morte delas”

“Não dá para regar as árvores vizinhas, tal a quantidade de água que absorve”

“Este porte de árvore não é condizente com o urbano”

 

É importante ressaltar o clima beligerante que observamos dos moradores em contenda com o Eucalipto. Talvez o momento agressivo que vivemos deva ser considerado, mais do que as recentes chuvas.

 

O histórico do local em termos de preservação já vinha demonstrando uma certa animosidade.

 

É o 14º lote da Rua Comissário Gastão Moutinho, originalmente ocupado por uma residência que foi vendida e demolida para o lançamento de 12 casas. Como a urbanização original não permitia tal adensamento, houve embargo por ação da entidade representativa dos moradores do Morumbi — bairro onde “habita” o Eucalipto. Houve um processo rápido em função do apoio da mídia, principalmente da TV Globo e do Estadão. Foram então construídas apenas seis casas, no formato de condomínio, cujos moradores, tempo depois solicitaram a derrubada do Eucalipto, alegando infestação de cupim.

 

A regional do Butantã enviou equipe para o corte. Com o apoio da rádio CBN, uma ação da entidade dos moradores do Morumbi conseguiu a retratação do engenheiro agrônomo que tinha assinado a autorização do corte da árvore. E a equipe foi dispensada. E os cupins não apareceram.

 

Surge agora, década e meia depois, essa autorização para a derrubada, expedida pela Regional e gerada pela solicitação dos condôminos, possibilitando uma série de interpretações e reflexões — dependentes da orientação social, cultural e comportamental de cada cidadão.

 

De nossa parte é clara a responsabilidade de quem procura uma região com as características do Morumbiem mantê-las. Não é lógico usufruir dos benefícios das árvores sem dar a elas a contra partida.

 

E para quem acredita que as árvores também têm alma, é bom saber que, com a reação do Eucalipto, os moradores foram castigados por 24 horas com barulho, lama e falta de energia.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

O Minhocão do Hexa

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Monotrilho em imagem do Flickr/Gov do Estado de São Paulo

 

É inacreditável que quarenta anos depois de inaugurar o Minhocão por Paulo Maluf, a mesma cidade foi vítima de obra similar.

 

Se Maluf, em 1970 teve o regime ditatorial favorecendo as operações, em 2010 as forças da FIFA, da CBF, de Lula, de José Serra e de Kassab tiveram que se unir para vencer os protestos contra a sua execução. Diante do exemplo irrefutável dos problemas do Minhocão original, os argumentos técnicos e sociais afloraram vigorosamente. Dentre eles destacamos em artigo anterior neste blog:

 

A linha 17-Ouro que ligará Congonhas à rede de trilhos terá trens a 15 metros de altura, irá desapropriar área de 132 mil metros quadrados na qual serão derrubadas 2.300 árvores e onde 36 mil metros quadrados são ocupados por residências de alto e médio padrões.

 

O morador deve sofrer impacto negativo de ALTA RELEVÂNCIA: a mudança da paisagem devido à presença de vigas de até 15 metros de altura

Será um grande causador de incômodo. A obra será usada por mais de 200 mil passageiros por dia …

 

Nas vias de baixo tráfego haverá aumento significativo do movimento devendo atrair também camelôs e desvalorizando alguns espaços do entorno…

 

O padrão residencial vertical faz com que o impacto visual do monotrilho seja intensificado, pois alguns domicílios ficarão no mesmo nível que as estruturas permanentes.

 

Entretanto, era uma batalha de cartas marcadas. Tanto é que o Estádio do Morumbi não foi aprovado pela FIFA, alegando que as obras a serem feitas teriam que estar prontas, para em seguida endossar a abertura da COPA no Itaquerão, que ainda não tinha estádio nem mesmo um projeto completo.

 

Então, o que era ruim ficou muito pior, pois a construção do Minhocão do Morumbi diminuiu de ritmo. Afinal os interesses públicos e privados passaram para Itaquera. A ponto de haver paralisação e acentuada degradação no canteiro de obras.

 

O fato é que a COPA 2014 passou. A COPA 2018 também e o monotrilho ainda não está pronto.

 

Em resumo, o capital investido proposto para gerar riqueza está produzindo pobreza.

 

Sem ironia, o Minhocão da COPA será o Minhocão do HEXA: Não dá para prever quando chegará.

 

Leia também:

 

O “Minhocão do Morumbi” — 18/08/2010

 

O Morumbi em choque — 06/10/2010

 

Monotrilho será novo Minhocão, mas tudo muito “moderno — 23/04/2012

 

O Minhocão do Morumbi II — 04/04/2016

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Deixem-me em paz, pombas!

 

O artigo a seguir foi escrito em 2012, ano em que tive o privilégio de ocupar a coluna da última página da revista Época São Paulo — hoje extinta. Lembrei dele quando li, semana passada, que a cidade aprovou lei que proíbe as pessoas de alimentarem e confinarem pombos e obriga os moradores a usarem redes de proteção e outros obstáculos em suas casas para impedirem que as aves se alojem no local. A boa notícia é que os pombos sumiram lá de casa depois deste artigo — será que eles leram?

 

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Escrevo este texto com um olho na tela e outro no telhado, de onde partem ameaças à minha integridade física e moral. Os ataques não são recentes, ocorrem desde que cheguei a São Paulo, em 1991, e fui trabalhar na antiga sede da TV Globo, na Praça Marechal Deodoro, de frente para o Minhocão. No alto daqueles prédios antigos viviam centenas de pombos, que pareciam ter me escolhido como alvo preferencial para suas necessidades. Não foram poucas as vezes em que tiveram sucesso, manchando meu terno e me impedindo de trabalhar. Cheguei a fazer uma “pindura” na lavanderia mais próxima – que, desconfio, era financiada pelo estrago que os pombos causavam aos indefesos pedestres.

 

Ao trocar de emprego, imaginei que estaria livre das famigeradas aves, mas logo percebi que minha vida não seria fácil na cidade. Os pombos me seguiram até em casa e lá se estabeleceram. Vizinhos afirmam que eles chegaram antes de mim, atraídos por um morador antigo, que, acredite, alimentava os bichinhos e cuidava deles como se fossem de estimação. Atitudes desse tipo só contribuem para infestar São Paulo e emporcalhar fachadas e calçadas.

 

Os estudiosos culpam os navegantes europeus, que trouxeram a espécie ao Brasil no século XVI, para servi-la no almoço. O prato não deve ter agradado os nativos, o que ajudou as aves a se multiplicar com extrema rapidez. O imaginário popular também não colaborou em nada a conter sua proliferação: tem gente que insiste em enxergar o símbolo da paz onde deveria ver um rato com asas. O que sei é que os pombos me deixaram paranóico – e nada me tira da cabeça que sua presença está ligada a uma conspiração dos columbiformes para me atazanar.

 

Assim que aterrissaram em casa, os pombos ocuparam o parapeito das janelas e começaram a confabular num idioma que eu desconheço. Às vezes se atreviam a olhar para dentro do quarto, com aquele jeito de gente intrometida, como se estivessem em busca de um lugar mais confortável para morar. Descobri uma cola que causaria desconforto ao bando e o expulsaria sem provocar males aos pombos. Esse ponto é importante, e faço questão de divulgá-lo, porque a espécie é protegida pelo Ibama. Sim, meu senhor: embora eu não POSSA prejudicar a saúde deles, os pombos são livres para me transmitir piolhos e até 70 tipos de doenças, como a complexa criptococose, que atinge o sistema nervoso. Isso mesmo, minha senhora: esses animais com cara de santo (ao menos do Espírito Santo) são um risco à saúde pública. E praticamente imbatíveis, conforme minha experiência.

 

A tal cola só foi capaz de transferir os pombos por poucos metros, da janela para o telhado. Lá no alto, construíram casa, constituíram família, invadiram o forro e passaram a fazer um barulho insuportável farfalhando suas asas para lá e para cá. Não respeitam sequer a hora da novela. O pátio, de tão sujo, precisa ser limpado diariamente. Apelei para outros expedientes. Recomendaram-me um apito que os espantaria, uma pílula anticoncepcional capaz de impedir sua reprodução, um revólver de pressão para abater os mais inconvenientes, e até a estátua de uma coruja, considerada seu predador natural. Fiasco atrás de fiasco. Logo a estátua da coruja se transformou num heliponto de pombos. Na última investida, cerquei a casa com uma rede de proteção. Desconfio que, mais uma vez, não vá dar em nada. É o que parece me dizer o olhar tranquilo e vitorioso do pombo que, pousado no telhado, me observa neste instante, enquanto termino de escrever.

O patrimônio de Paraty vai além da arquitetura: saiba por quê?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Paraty concorre agora a Patrimônio da Humanidade, cuja candidatura foi aceita pela UNESCO na categoria de sítio misto, paisagem cultural e natural.

 

Se vencer a eleição datada para 2019, terá seu segundo reconhecimento cultural, pois, em 2017, obteve o título internacional de Cidade Criativa para a Gastronomia.

 

A cidade de Paraty apresenta perfil histórico com múltiplas facetas, através de nuances culturais, econômicas e sociais. Paraty foi o maior porto exportador de ouro no período colonial – 1530 a 1815 – condição que contribuiu para a sua formação urbana e rural.

 

O romance biográfico “Ana em Veneza” de João Silvério Trevisan dá ideia da riqueza cultural da região ao descrever a estada da família alemã de Julia da Silva Bruhns Mann, nascida em Paraty e mãe do escritor Thomas Mann.

 

O patriarca da família Luiz Bruhns, de Lubeck, bem relacionado com D. Pedro II, pelo prazer do imperador em treinar o alemão, estendia sua avançada visão social e cultural a sociedade paratiense. O jantar de despedida em Paraty, quando decidiu voltar para a Alemanha, deixou os ilustres convidados extasiados diante da gastronomia local:

Salada de palmito, salada de lagosta, pimenta cumari, pimenta malagueta, batata doce, arroz ao molho de tomate, feijão preto, angu, moqueca de peixe, galinha ao molho pardo, pernil de porco assado. Compotas de caju, banana e goiaba, melado, baba de moça, manuê de bacia feito de farinha de trigo, melado e ovos, chuvisco, bolinho de massapão, broa de mãe benta, cocada, bala de ovos, pão de ló.

 

Deixou-os, também, assustados com as benesses sociais, pois Bruhns não só alforriou seus escravos como doou suas terras a eles. E alertou a todos que não havia futuro para a escravidão.

 

 

A força da passagem do ouro ficou marcada também na cidade de forma original ao desenhar as construções com o propósito comercial. As edificações tem sempre a função de loja. Ou a loja fica na frente e a residência atrás ou o térreo é para a loja e o sobrado para a família.

 

O longo e duro período de ostracismo da região redundou positivamente em preservar o antigo. Mas não foi fácil para a população. Houve até um momento em que a carência de recursos básicos urbanos como eletricidade e água foi tão grande que surgiu movimento separatista do estado do Rio de Janeiro, buscando guarida em São Paulo. Se de direito não conseguiram, hoje o afluxo de turistas paulistas é compensador à economia de Paraty.

 

Se, caro leitor, visitar Paraty, consulte o extenso calendário turístico e intelectual da cidade. Recomendo também buscar o cardápio que a mãe de Thomas Mann presenciou ainda criança quando da despedida da cidade.

 

Não deixe de incluir o camarão casadinho e a cachaça.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

A senhora da esquina dos Jardins

 

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Em meio as ruas arborizadas dos Jardins, região nobre de São Paulo, quase sempre encontro o sinal fechado ao atravessar a rua Groelândia, no caminho para a rádio. Ainda está escuro, pois é finalzinho de madrugada. A frequência com que a cena se repete, nestes sete anos em que apresento o Jornal da CBN, completados no dia 28 de fevereiro, mais do que uma coincidência, reflete a disciplina no acordar, tomar café, pegar o carro e seguir o meu caminho.

 

Logo no início, olhava para os lados e se não percebia nenhum carro prestes a cruzar a via, seguia em frente. Poderia justificar que naquela escuridão, passar o sinal vermelho era transgressão permitida em nome da minha segurança. Mentira! Era em nome da minha pressa mesmo. Que poderia ser provocada pelo desejo de chegar logo ao trabalho ou, provavelmente, por essa mania de estarmos sempre correndo na cidade grande sem saber o motivo.

 

Somente fui perceber a desnecessária e irresponsável transgressão após levar um tremendo susto. Sem nenhum carro se aproximando do cruzamento, resolvi arrancar e fui surpreendido pela presença de uma senhora que estava no meio fio a espera para atravessar a rua.

 

Demonstrou conhecer bem o mal-hábito dos motoristas da madrugada. Ficou parada na calçada, apenas aguardando eu partir, apesar de a faixa de segurança estar à disposição dela. Quando a vi, já não tinha mais como voltar atrás. O carro havia avançado e a culpa do risco assumido, tomado minha consciência.

 

Fiquei olhando a senhora pelo retrovisor querendo pedir desculpas e pensando em voltar para reiniciar a cena. O máximo que consegui foi ser atingido pelo desdém do olhar daquela pedestre. De alguém acostumada a sobreviver diante do desrespeito dos motoristas e resignada com a nossa ignorância.

 

Foi um dia difícil aquele. Um dia que jamais me abandonou. Porque voltei dia após dia a cruzar pela mesma rua. E sempre que o sinal fecha e eu paro o carro, volta a imagem da senhora, com as duas mãos agarradas na alça da sacola pendurada no ombro, cabelo preso em um coque e saia longa quase cobrindo os pés. É como se fosse minha consciência chamando-me à responsabilidade. Alertando-me para o respeito que tenho de ter sempre e em qualquer situação com o outro.

 

Não, não pense que a imagem da senhora é coisa da minha cabeça. É ela mesma que, assim como eu, disciplinada, passa no local sempre no mesmo horário.

 

Nessa sexta-feira, vou encontrá-la pela última vez, pois semana que vem o endereço do meu trabalho vai mudar. Prometo, porém, que nunca mais esquecerei dela. Estará em cada esquina, em cada cruzamento e em cada sinal fechado pelo qual eu passar.

 

Obrigado, aprendi muito com a senhora!