Conte Sua História de São Paulo 466: de pé descalço e a caminho da padaria, em Moema

 

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

 

 

Moro em Moema, na zona Oeste. Nasci em São Paulo. Estou com 61 anos. Tenho muito orgulho em dizer que sou paulistano. Com sete anos, vivia no bairro de Vila Ema, na zona Leste. Com a morte de meu pai nos mudamos para a casa de meus avóes paternos.

 

Era uma casa térrea em um terreno de 400 metros quadrados. Não era de luxo. Era ampla, com quartos grandes, cozinha espaçosa, e uma sala deliciosa de se ficar. O quintal era um sonho. Tinha jabuticabeira e dois pés de figo. Tinha também uma parreira de uva. Todo ano se colhia as frutas nas próprias árvores.

 

Meu avô era aposentado e havia vários canteiros no qual ele plantava verduras, e regava todos os dias com a água que retirava do poço. Moema era muito diferente naquela época. Ruas com pouco movimento. Todas eram de mão dupla. Alguns terrenos eram baldios. Então, a gente jogava bola por ali mesmo. Costumava andar descalços e seguia a pé sozinho até a escola.

 

Em 1974, meu avô vendeu a casa para uma construtora e com a parte da herança da minha mãe mudamos para um sobradinho de vila, no próprio bairro. Logo muitos prédios começaram a ser construídos. Foi inaugurado o Shopping Ibirapuera. E de repente Moema se transformou.

 

As ruas deixaram de ser tranquilas. O trânsito aumentou. A maioria virou mão única. Hoje, tempos prédios de alto padrão e das poucas casas que restaram a maioria é usada para fins comerciais. Algumas resistiram. Como é o caso da minha.

 

Apesar das mudanças, sigo muito feliz em morar aqui. Ao passear pelas calçadas, fecho os olhos e revivo minha infância. Me sinto de pés descalços a caminho da padaria onde comprava pão e leite. No trajeto da escola, que ficava a mais de um quilômetro dali. E brincando no quintal da casa do meu avô.

 

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o restaurante do futuro que me leva ao passado

 

Por Breno Lerner
Ouvinte da CBN

 

 

Fui uma única vez ao Giratório. Tinha uns 11 anos e meu avô Maurício que conhecia tudo da cidade lá me levou. Analisando hoje era um cenário que poderia tranquilamente estar no filme Tempos Modernos, de Chaplin.

 

Entrava-se por uma porta tipo saloon, fazia-se e pagava-se o pedido por número:

 

1 — arroz/feijão/bife/salada

 

2 — arroz/feijão/carne assada/fritas

 

Acho que eram 20 números no total. Tinha uma deliciosa lasanha, carne assada à brasileira e as duas salvações dos office-boys: a macarronada e o arroz com dois ovos, por preço baixo. O pedido era por interfone à cozinha —- o primeiro de São Paulo, trazido da Itália pelo dono da casa. Lavávamos as mãos e para tirar a água usávamos o primeiro secador a ar da cidade.

 

Sentava-se em uma cadeira, frente a um balcão que por sua vez ficava diante de uma envidraça cozinha oval. O balcão e a cadeira giravam ao redor da cozinha. Na primeira janela, você recebia sua comida e bebida. Tínhamos uns 20 ou 30 minutos para comer. Chegava-se então à janela das sobremesas e, em seguida, em outra janela na qual devolvia-se pratos, copos e talheres. Giro completo, alimentação feita, voltava-se a porta de saloon para ir embora.

 

Uma queixa recorrente era que quem pedia a carne assada à brasileira não comia em tempo de completar o giro e precisava de um extra, para prejuízo da fila.

 

A iniciativa foi da família Barioni, uma família de artistas e inventores. Mário bolou o restaurante; Ézio não só dirigia a casa como construiu máquinas de lavar prato, descascadores de batata e aquela secadora de mãos. O terceiro irmão, Baby Barioni, também ajudava. Ele foi o criador dos Jogos Abertos do Interior.

 

O restaurante Giratório funcionou na rua Amador Bueno, hoje rua do Boticário, de 1958 a 1968 quando fechou sufocado pelos custos da renovação do aluguel e operacionais.

 

Não vou jamais conseguir descrever a vocês meu fascínio quanto entrei e vi aquilo tudo funcionando. Era como ser transportado ao futuro.

 

Hoje, vivo no futuro e tenho uma saudade danada do passado.

 

Breno Lerner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: um beijo em plena avenida Paulista

 

Por Antonio Jose
Ouvinte da CBN

 

 

Sou Antonio José da Silva Filho, mais conhecido como Tony. Em minhas memórias, me lembro como se fosse hoje. Todas as vezes que passo pela Avenida Paulista, que seja a trabalho, passeando ou pedalando, vem à lembrança:

 

Nos anos 1970 e até meados dos anos 1980, eu morava na Vila Mariana, na rua Itaoca, onde foram travados grandes embates futebolísticos entre os times da Rua Jaci e da Ouvidor Peleja, da Guiratinga e da Santo Irineu, e uma série de outras equipes representando as ruas do bairro.

 

Estudei no Colégio Brasília Machado. E foi lá que conheci uma grande amiga que morava no bairro de Americanópolis, também na zona Sul. Até hoje não sei o por quê, mas meu coração foi com o tempo se derretendo por ela. Um dia, a levei a primeira loja do Macdonald’s aberta na cidade, na Avenida Paulista. A loja ficava na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio. Foi no início dos anos de 1980.

 

O encontro foi maravilhoso. Ela, menina meiga, bonita, charmosa, cativante —- uma lista de elogios sem fim. Nunca havia entrado em uma loja assim de fast food. E foi ali mesmo que tudo aconteceu. Nosso primeiro beijo sob olhares espantados da freguesia. Hoje a cena seria bem normal, mas naquele tempo ….

 

Daquele beijo em diante seguiu-se um namoro que se transformou em casamento. Foi em 1987. E até hoje como prometemos a Deus, perante algumas testemunhas, estamos casados e felizes. Como aprendi, o amor é o que o amor faz. Temos dois filhos, Vinícius, de 26 anos, que mora na Malásia e de quem morremos de saudades. E Ana Carolina, nossa princesa, que está com 23.

 

Foi na Avenida Paulista. Ali começou tudo e com certeza será a maior recordação de nossas vidas.

 


Antonio José, o Tony, foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua Historia de São Paulo 466: meu pai Chicó, tios e primos moraram aí

 

Por Paulo Furtado
Ouvinte da CBN

 

 

Minha história de São Paulo começa com o fato de que não sou daí e nunca estive aí. Continua com uma coincidência: nasci em Cuité, na Paraíba, que faz aniversário de emancipação política em 25 de Janeiro, data da fundação de São Paulo. Em Cuité nasceram também meu pai Francisco, Seu Chicó, e meus tios: Benedito, Pedro e Nilo, que assim como alguns primos e milhares de nordestinos migraram para a Terra da Garoa em busca de melhores ventos profissionais.

 

Tio Benedito teve um bar na Rua Vilela, no Tatuapé. Infelizmente não o conheci. Ele casou-se com uma sergipana e teve filhos. Tio Nilo casou com uma boliviana — pessoa da melhor qualidade —-, teve filhos que hoje são empreendedores em Sampa. Tio Pedro casou mas não teve filhos. Voltou a Cuité onde viveu seus últimos dias.

 

Meu pai Chicó também casou. Minha mãe era natural do Rio Grande do Norte, costureira. Ele trabalhou no Ponto Chic — acho que funciona até hoje (vocês que moram por aí podem confirmar). Meu irmão mais velho nasceu em São Paulo. Meus pais voltaram a Cuité, onde abriram uma mercearia e com muito trabalho criaram a nós todos — os seis filhos.

 

Toda essa história tem início nos anos de 1950 e ainda não terminou. Segue hoje graças aos laços de amizade entre os primos, frutos dessas relações que vivem na megacidade que é São Paulo — onde nunca estive e não sei se visitarei algum dia, o que nunca me impedirá de ter com ela uma relação tão íntima.

 


Paulo de Chicó é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Claudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: meu casamento com o ousado do Sérgio

 

Por Giselle Scalabrin
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo as lembranças de Josefina Canali Scalabrin escritas pela filha Giselle:

 

Era final de 1963, acho que em setembro, trabalhava na Barão de Itapetininga, numa imobiliária. Era secretária, elegante, cabelo a la Audrey Hepburn, sempre séria e de bico, hoje só sobrou o bico e os cabelos brancos para guardar todas as lembranças dessa época maravilhosa dos meus 20 e poucos anos.

 

Já nos conhecíamos de vista apenas, porque minha irmã tinha uma floricultura no Pari, e o marido dela, moravam em frente a casa dele no mesmo bairro, na época um reduto de descendentes italianos e portugueses.

 

Mas não tinha prestado muita atenção no bonitão que tinha o biotipo de sucesso para época, cabelo e charme do Elvis, porem um pouco ogro para a beleza exuberante.

 

Sem perceber começamos nos encontrar no terminal de ônibus embaixo do Viaduto Santa Efigenia, próximo a escada caracol, onde tudo começou. Ficava me olhando todos os dias e um belo dia veio falar comigo: — Boa noite, tudo bem, nós já nos conhecemos do Pari, não?! Sempre vejo você indo na floricultura”.

 

E ai começamos a sair, só de mãos dadas; depois de três meses, o primeiro beijo; mas ele era ousado porque queria que eu pegasse no seu braço para atravessar a rua, quando só noivos podiam ter esse contato mais próximo.

 

Um dia estava eu em casa, o ousado chegou na janela de terno novo e perfumado e me chamou para ir no cinema, fomos ver o filme “Angélica”, com Brigitte Bardot. Linda! Mulheres lindas, femininas, o feminino tinha outro significado que o de hoje. Mas na volta levei aquela bronca de papai, porque não pedi permissão para sair.

 

Da outra vez precisei levar a vela da minha irmã mais velha. Marcamos no cinema Hollywood, em Santana. Era um dia frio de inverno e chuva, ele para se proteger ficou atrás da porta e eu não consegui encontrá-lo. Pensou que eu não tinha ido.

 

Na 2ª. Feira, logo após o desencontro, nos vimos no centro da cidade no terminal de ônibus como era de costume e ele cheio de tristeza e raiva, nem deixou eu me explicar. Eu, muito orgulhosa, passei a evitá-lo o máximo possível. Essa briguinha durou uns dois anos.

 

Um belo dia estava eu com minha amiga Maria, na Praça do Correio, na rua Capitão Salomão. Ela disse que um moço estava vindo em minha direção: “vai falar com você!”. Pedi para descrevê-lo. E não tive dúvidas que era o ousado mal-resolvido de dois anos atrás. O problema é que já havia marcado outro encontro com o Alberto, no mesmo local e horário. Mas o ousado chegou antes e assim que Alberto nos viu, foi embora.

 

Após esse reencontro, começamos a namorar, com muitos passeios e broncas de papai porque exigia que eu pedisse a permissão dele para sair todas as vezes. Muitos presentes, muitos passeios no centro de São Paulo, que era nosso shopping, nossa Paulista, nosso centro comercial, nosso centro cultural. Era onde São Paulo fervia, tudo acontecia: revoluções, protestos, estreias, desfiles de moda, restaurantes maravilhosos e muitas histórias de amor.

 

Depois de dois anos, Sérgio, o ousado, e eu, nos casamos. Tivemos quatro meninas e quatro netos Em abril de 2018 fizemos bodas de ouro comemoradas com a música de Elvis Presley.

 


Josefina Canali Scalabrin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi escrito pela filha, Giselle. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn,com.br

Conte Sua História de São Paulo: o que era um cinema?

 

Por Americo Hatto
Ouvinte da CBN

 

 

Fui apresentado ao mundo do cinema em 1996, aos oito anos. Hoje, posso dizer que foi uma apresentação de gala. Era o início de uma tarde de domingo, Logo depois do almoço, o meu pai disse-me que íamos sair, só nós dois, rumo ao centro de São Paulo. Morávamos em Santo Amaro e chegar ao centro era uma viagem. E um sofrimento para mim: o sacolejar do ônibus, misturado com o cheiro do diesel, invariavelmente, terminava com o meu estômago botando o almoço para fora. Aquele dia não foi exceção…

 

Bom, depois de mais de uma hora, o ônibus chegava ao ponto final, no Vale do Anhangabaú, em frente a Galeria Prestes Maia, onde havia um banheiro público, para o alívio da bexiga de um moleque.

 

Na mesma Galeria, subimos pelas escadas rolantes, naquela época ainda uma coisa rara em São Paulo, para sairmos na Praça do Patriarca e dai atravessarmos o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal, para, em fim chegarmos a Avenida São João.

 

Até aquele momento o meu pai não havia me falado o que estávamos fazendo no centro…

 

Depois de uma caminhada pela São João, enxerguei várias pessoas numa fila que dobrava o quarteirão. O meu pai parou no fim da fila e só quando andamos um pouco mais vi o letreiro: “Comodoro Cinerama”. E o cartaz anunciava: “Nas Trilhas da Aventura”. Naquele momento soube que iriamos assistir a um filme no cinema.

 

Mas o que era um cinema?

 

Numa época em que não havia internet, celular ou qualquer outra facilidade, um moleque de oito anos, da periferia, jamais poderia imaginar o que era um cinema. A descoberta estava a caminho.

 

Compramos os ingressos na bilheteria e na antessala meu pai ainda me deu um drops Dulcora. Depois, sim, entramos na sala de cinema propriamente dita. Era enorme, vários assentos e uma imensa cortina vermelha diante de nós .
Alguns minutos depois, as luzes se apagaram e a cortina se abriu, revelando uma gigantesca tela em curva —- aquela era a maior tela de cinema de São Paulo.

 

As primeiras imagens apareceram, mas como os assentos estavam no mesmo nível, quase não dava para ver nada, só as cabeças das pessoas que estavam nos assentos à frente. Para piorar, o filme era legendado e aí não deu para entender quase nada da história.

 

Para um garoto de oito anos, porém, nada disso foi motivo de tristeza. Fiquei maravilhado, hipnotizado com as imagens que passavam na tela. Fui transportado para o velho oeste americano.

 

Lembro-me que o filme era longo e até teve um intervalo de uns 20 minutos no meio da sua projeção. Aí, foi uma correria ao banheiro e ao quiosque de guloseimas. Quando o filme terminou, a semente de cinéfilo havia sido transplantada em mim…

 

Assisti a vários filmes no Comodoro Cinerama junto com o meu pai e, mais tarde, por minha conta e risco. Descobri outras grandes salas no centro de São Paulo: República, Paissandu, Olido, Marabá, Art-Palácio e Metro. Tive o privilégio de ter vivenciado o final dos anos dourados dos cinemas de rua de São Paulo.

 


Americo Hatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: fui ao cinema com meu pai

 

Por Americo Hatto
Ouvinte da CBN

 

 

Fui apresentado ao mundo do cinema em 1996, aos oito anos. Hoje, posso dizer que foi uma apresentação de gala. Era o início de uma tarde de domingo, Logo depois do almoço, o meu pai disse-me que íamos sair, só nós dois, rumo ao centro de São Paulo. Morávamos em Santo Amaro e chegar ao centro era uma viagem. E um sofrimento para mim: o sacolejar do ônibus, misturado com o cheiro do diesel, invariavelmente, terminava com o meu estômago botando o almoço para fora. Aquele dia não foi exceção…

 

Bom, depois de mais de uma hora, o ônibus chegava ao ponto final, no Vale do Anhangabaú, em frente a Galeria Prestes Maia, onde havia um banheiro público, para o alívio da bexiga de um moleque.

 

Na mesma Galeria, subimos pelas escadas rolantes, naquela época ainda uma coisa rara em São Paulo, para sairmos na Praça do Patriarca e dai atravessarmos o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal, para, em fim chegarmos a Avenida São João.

 

Até aquele momento o meu pai não havia me falado o que estávamos fazendo no centro…

 

Depois de uma caminhada pela São João, enxerguei várias pessoas numa fila que dobrava o quarteirão. O meu pai parou no fim da fila e só quando andamos um pouco mais vi o letreiro: “Comodoro Cinerama”. E o cartaz anunciava: “Nas Trilhas da Aventura”. Naquele momento soube que iriamos assistir a um filme no cinema.

 

Mas o que era um cinema?

 

Numa época em que não havia internet, celular ou qualquer outra facilidade, um moleque de oito anos, da periferia, jamais poderia imaginar o que era um cinema. A descoberta estava a caminho.

 

Compramos os ingressos na bilheteria e na antessala meu pai ainda me deu um drops Dulcora. Depois, sim, entramos na sala de cinema propriamente dita. Era enorme, vários assentos e uma imensa cortina vermelha diante de nós .
Alguns minutos depois, as luzes se apagaram e a cortina se abriu, revelando uma gigantesca tela em curva —- aquela era a maior tela de cinema de São Paulo.

 

As primeiras imagens apareceram, mas como os assentos estavam no mesmo nível, quase não dava para ver nada, só as cabeças das pessoas que estavam nos assentos à frente. Para piorar, o filme era legendado e aí não deu para entender quase nada da história.

 

Para um garoto de oito anos, porém, nada disso foi motivo de tristeza. Fiquei maravilhado, hipnotizado com as imagens que passavam na tela. Fui transportado para o velho oeste americano.

 

Lembro-me que o filme era longo e até teve um intervalo de uns 20 minutos no meio da sua projeção. Aí, foi uma correria ao banheiro e ao quiosque de guloseimas. Quando o filme terminou, a semente de cinéfilo havia sido transplantada em mim…

 

Assisti a vários filmes no Comodoro Cinerama junto com o meu pai e, mais tarde, por minha conta e risco. Descobri outras grandes salas no centro de São Paulo: República, Paissandu, Olido, Marabá, Art-Palácio e Metro. Tive o privilégio de ter vivenciado o final dos anos dourados dos cinemas de rua de São Paulo.

 

Americo Hatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: você surgiu no alto de uma colina

 

Por Maria de Lourdes Souza Gonçalves
Ouvinte da CBN

 

 

Num belo dia de janeiro de 1554, você surgiu no alto de uma colina, onde hoje está a Praça da Sé.

 

O Colégio de Piratininga abrigava os sonhos de homens intrépidos como o jesuíta José de Anchieta e muitos outros que enxergavam uma grande metrópole além das misteriosas e densas florestas que circundavam o casebre de “quatorze passos de comprimento e doze de largura”

 

Às margens do rio Tietê — antigo Anhembi — foi criado o primeiro núcleo que viria a ter o seu nome: São Paulo. Outros foram criados um pouco mais além, tais como Guarulhos, Itaquaquecetuba, São Miguel, Mogi das Cruzes, Freguesia do Ó, Santana de Paraíba e Porto Feliz.

 

O rio testemunhou “in loco”o surgimento de uma grande cidade; e suas águas compartilharam das descobertas dos corajosos desbravadores que navegaram em busca de seus sonhos. O surgimento do café, também foi testemunhado pelo riu que viu florescer às suas margens os primeiros cafezais, fonte da futura riqueza do País.

 

Em 1860, as ruas eram sinuosas, de terra batida, cheias de casas de pau-a-pique. Com uma população de pouco mais de 20 mil habitantes, você sequer sonhava que um dia pudesse acolher milhões de pessoas, não é mesmo?

 

Nesta época, a discrepância social já era bastante visível, pois os mais abastados viviam nas ruas do Rosário, Direita e São Bento. A distância também consistia num grande problema, e só era contornada no aluguel de carros de bois. Bairros como Brás, Penha e Santo Amaro eram muito longe.

 

O marco da cidade que se situa no centro da Praça da Sé, também assistiu a sua história. Sob o seu olhar, o meio de transporte, outrora precário, sofreu melhorias, tanto que em 1865, foi criado o primeiro sistema de transporte oficial. As ruas receberam um tratamento especial, pois, afinal, por elas passavam figuras ilustres, que colaboraram com o desenvolvimento e a cultura desta cidade.

 

Como uma mãe generosa, você recebeu, em 1899, The São Paulo Tranway, Light Power Co.Ltda. Seus dirigentes vaticinaram que você prosperaria. E eles estavam certos.

 

O começo do século despontou turbulento. Os saraus promovidos nas casas elegantes e ricas contratavam com a miséria na qual muitos viviam.

 

Nesta época já trafegavam pelas ruas os “românticos” bondes elétricos.

 

Quando os imigrantes aqui chegaram, trazendo em suas bagagens o sonho de uma vida melhor, a despeito dos percalços que muitos sofreram, você os abrigou, Mesmo trabalhando em condições precárias eles colaboraram na sua construção. E você, curiosa e culta, absorveu toda a sua cultura e tradição e as incorporou ao seu cotidiano.

 

A despeito dos pequenos movimentos trabalhistas que começavam a despontar lentamente, já em 1901, você abrigava em seu território, 108 indústrias, sendo 70 estrangeiras e 38 brasileiras.

 

Você viu surgirem os sindicatos e seus líderes, ansiosos por tomar um pouco mais dignas e humanas as relações trabalhistas.

 

A grande greve de 1917 paralisou a cidade. Cerca de 45 mil trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, haja vista que o tratamento imputado à eles nas fábricas era extremamente desumano.

 

Você distribuiu aos desempregados a famosa “sopa de pães”, numa medida paliativa para conter as massas.

 

Por outro lado, enquanto os trabalhadores lutavam por seus direitos, a indústria prosperava, pois em 1920 você figurava como primeiro centro fabril do País, conforme censo realizado neste mesmo ano.

 

Você estendeu seu território além da Várzea do Carmos. Nos bairros do Brás, Pari, Barra Funda, Água Branca e Lapa, surgiram algumas indústrias.

 

Naquela época, você já compartilhava com o seu povo o drama das enchentes como as de 1906 e 1929/

 

Em 1930, inicia-se a Era Getúlio Vargas. Bem mais usa já é uma outra história.

 

Maria de Lourdes Souza Gonçalves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um bilhete de Natal

 

Por Alceu Sebastião Costa
Ouvinte da CBN

 

 

Após a noite bem dormida e o banho privilegiado, entrego-me à rotina costumeira das manhãs. Ingeridos os remédios do tratamento do Mal de Parkinson, abstenho-me do café com pão e manteiga, ao menos por ora. Hoje, não irei ao escritório. Portanto, oferecerei minha companhia a Elisabeth, durante o seu desjejum. Ela não é madrugadora como eu. Aliás, nem o sono nem o café são as minhas prioridades. Estas o são, sim, meu recolhimento solitário, compulsando meditativo algum escrito, vezes de minha própria lavra, bem como criando versos, como saudável terapia.

 

Neste momento, tenho nas mãos um pedaço de papel, que ontem, à noite, desenterrei literalmente do fundo do baú. Melhor, do fundo do “malão”. Aquele mesmo “malão”, uma bolsa de couro de porte avantajado, que eu usava nos meus idos acadêmicos como simulação de aluno aplicado, transportando pilhas de livros. Hoje, o velho “malão” companheiro tem serventia apenas para a guarda de documentos de uso esporádico ou emergencial. E foi daí que resgatei o tal pedaço de papel, metade da folha de agenda do dia 20 de dezembro de 1988.

 

Mas para que serve um simples pedaço de papel guardado por anos a fio? Certamente, para a faxineira, que acaba de chegar, mais um traste para o lixo. Analfabeta, mesmo que soubesse ler, jamais alcançaria a profundidade do texto nele manuscrito por mim, com a finalidade de levar um pouco de conforto a um grande amigo.

 

Antes de prosseguir, eis a transcrição:

 

“Se o lume é de boa têmpera, suporta a fúria da procela qual simples roçar da mais suave brisa e sua chama jamais se apaga.”

 

Afasto uma lágrima teimosa e prossigo nos meus devaneios. No rodapé, uma nota telegráfica:

 

“P/MP/cartão de Natal nesta data.”

 

Traduzindo: este texto foi a minha mensagem no cartão de Natal para Milton Pagliaro, em 20 de dezembro de 1988

 

Realmente, posto que não somos eternos, o meu amigo calabrês manteve a chama da esperança acesa por um longuíssimo período, desafiando a morte até o derradeiro instante, tomado pela metástase incontrolável.

 

Não fosse a sua vida pautada na retidão de conduta, principalmente no lado profissional, e na postura regrada nos princípios da disciplina, diria que os mais de dez anos de luta contra o câncer seriam o bastante para fazer dele uma pessoa admirável.

 

Com frequência, ouvia suas referências à inspiração de nossas palavras para a elevação do seu ânimo diante da briga tão desigual. Mais que a lisonja só a inspiração Divina que fez de nós o Seu instrumento.

 

Circunstancialmente, esse pedaço de papel retornou às minhas mãos, aflorando as boas lembranças do calabrês. Curioso é que, concomitantemente, encontrei também a cópia de uma crônica de minha autoria publicada no jornal “A Cidade”, de São Carlos, em 11 de abril de 1963, quando cursava o 2º ano Colegial do Seminário. Espantoso tratar-se de um escrito com o título “Lembra-te de mim quando chegares ao teu reino.” Noto que ambos os textos em referência focalizam a questão do sofrimento físico. Obviamente, sem comparativos, mas um e outro convergem para a simbologia do ritual de passagem desta para a outra vida, cuja expectativa por si só é o alimento para afugentar o desespero.

 

Sei que Deus nos dando bons guias aumenta muito a nossa carga de responsabilidades e de provações.

 

Que os agraciados com o Reino Celestial não nos faltem!

 

SAÚDE, AMADO AMIGO CALABRÊS!
(Obrigado, Sampa, pelas amizades, que só me fizeram crescer)

 


Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: estudei na faculdade em que vendi tapioca

 

Por Silas Nunes Souza
Ouvinte CBN

 

 

Nasci em 1990, na cidade de Itabuna, ao sul da Bahia. De lá, fomos para Formosa do Rio Preto, onde meus pais venderam roupas em barracas na feira da cidade. Pouco tempo depois, tivemos de mudar para um vilarejo, fomos morar de favor com minha avó. Meu pai sofria de depressão, as dificuldades financeiras se acumulavam e minha mãe decidiu buscar ajuda médica em São Paulo. Eu fiquei com algumas pendências para resolver na Bahia. Só pude me juntar a eles, em dezembro de 2005.

 

Foi uma alegria enorme reencontrar a família, que, neste momento, já havia alugado um cômodo no Capão Redondo. Com 15 anos, distribui currículos e consegui o primeiro trabalho com um morador do bairro. Eu ajudava nas vendas de tapioca em frente a uma universidade, na Chácara Santo Antônio. Ainda no ensino médio, eu falei para mim mesmo que um dia estudaria naquela Universidade.

 

Um ano depois, pela graça de Deus, comecei a trabalhar em meu primeiro emprego registrado – uma grande empresa de material para construção. Naquele momento nossa vida começou a mudar: alugamos uma casa maior; meu pai havia melhorado da depressão e trabalhava como vendedor ambulante; e minha mãe vendia as miudezas para clientela dela.

 

Nos deparamos com a oportunidade de comprar um terreno, com parcelas baixas que caberiam em nosso orçamento. Porém, devido a entrada que pagamos, tínhamos apenas um cartão de crédito com R$ 500,00 de limite. Fomos a uma loja de material de construção para comprar algumas coisas e iniciar um cômodo. Ao fim da compra, tudo custo R$ 1.500,00. Tínhamos mais fé do que dinheiro. Passamos o cartão assim mesmo, e por incrível que pareça, o valor foi aceito. Um grupo de pessoas que não nos conhecia se ofereceu para nos ajudar a erguer a casa, recebemos doações de amigos e familiares para compra de mais materiais e em incríveis 14 dias estávamos mudando para nossa casinha, ainda mal-acabada. Entramos orando, chorando e agradecendo a benção de Deus em nossas vidas.

 

De um emprego a outro, arrumei dinheiro para pagar minha faculdade. E me matriculei na mesma Universidade que um dia havia trabalhado na porta. Orei a Deus para que me ajudasse na mensalidade do curso, e Deus mais uma vez me respondeu: os dois últimos anos da faculdade e mais seis meses da minha pós-graduação foram pagos pela empresa na qual trabalhava.

 

Em 2015, conheci um projeto cristão de voluntariado no sul da Inglaterra, no qual não precisaria pagar pela hospedagem nem pela alimentação. Passei no processo seletivo e em março de 2016 embarquei, onde fui recepcionado por um grupo de sete brasileiros, todos falando inglês e se apresentando como se fossem de outros países. A única que não me enganou foi uma morena formosa que disse ser francesa. Mas pelo sotaque, logo descobri que era uma nordestina arretada. Com um pouco mais de conversa, descobrimos que tínhamos muito mais em comum: a idade, a profissão e, pasmem, ela também havia nascido em Itabuna. O resultado disso tudo, estamos noivos.

 

De volta para o Brasil, estou agora em uma empresa fantástica, o Grupo Gaia, que a cada dia me surpreende com seus valores. Muitas coisas aconteceram em minha vida, a maioria destas aqui em São Paulo. Nem sempre eu entendia ou sabia o porquê. Mas acredite existe um propósito para tudo nessa vida. No mais, eu sigo sonhando e crendo que tudo é possível. Sonhar é viver para ver!

 

Silas Nunes Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br