O áudio vai ser considerado cidadão de primeira-classe, diz Google

 

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Foi em um encontro na Campus Party Brasil, em 2015, que tive a primeira oportunidade de discutir a força do podcast em um painel que trazia a atrevida proposta de tratarmos da “futurologia do áudio”. Fui preparado para ouvir poucas e boas de produtores de podcast que fariam parte do debate, afinal era o único representante da “grande mídia” — nome que se dá, muitas vezes com viés negativo, aos veículos tradicionais de comunicação.

 

Saí surpreso com o que ouvi de meus colegas — sim, foi assim que passei a encará-los a partir daquele encontro. Eles se anteciparam na fala para mostrar que o fato de a CBN transformar seus principais produtos em podcast facilitava a vida dos produtores independentes, que manipulavam modelo de programa ainda pouco conhecido pela maioria do público. À medida que falávamos de podcast no ar, os ouvintes se familiarizavam com o tema — disseram eles.

 

Hoje temos em produção na CBN programas que são ouvidos exclusivamente no podcast — caso do CBN Professional, que tem o comando do Thiago Barbosa. E não se coloca no ar um novo quadro ou comentarista sem “traduzi-lo” para o podcast. Deixá-lo de fazer, é a senha para abrir uma caixa de reclamações de ouvintes.

 

Há quem veja o podcast como o substituto do rádio — e não faço parte deste time, pois a transmissão ao vivo e a atualização de notícias, em tempo real, ainda se fará necessária por longo tempo. Assim, ouvir rádio — seja no carro seja em casa seja a caminho do trabalho seja como for — ainda será útil para as pessoas.

 

Para mim, o podcast é outro modelo de rádio, no qual podem ser explorados novos formatos, que não têm mais espaço na grade tradicional de programação — seriados e documentários, por exemplo. E se é um modelo de rádio, as emissoras têm de investir nele, sob o risco de enfrentarem a mesma concorrência que a televisão foi obrigada a encarar com a chegada de serviços como o Netflix.

 

Tenho insistido neste blog, sobre a relevância do áudio, ideia que se reforça a cada novo fato que surge no cenário. Nesta semana, deparei com artigo publicado por Steve Pratt — um dos fundadores do Pacific Content, produtor de podcast — no qual reproduz as intenções do Google em tornar acessível a busca de áudio da mesma maneira que hoje conseguimos encontrar texto e vídeo na internet.

 

Apesar do avanço dos podcasts, encontrar conteúdo de áudio ainda exige busca mais apurada nem sempre disponível para o público em geral. Agora, o time do Google Podcasts, liderado por Zack Reneau-Wedeen, quer usar a expertise da empresa para organizar as informações em áudio e ajudar as pessoas a encontrá-las quando precisarem ou quando quiserem.

 

O trabalho do Google poderá ser útil especialmente para parcela do público que ainda não sabe o que é podcast — seguidamente recebemos perguntas neste sentido na CBN — ou não imagina como se inscrever, baixar os episódios e acompanhar suas atualizações nas plataformas disponíveis — como é o caso do iTunes.

 

Imagine que você vá procurar informação sobre “tecnologias exponenciais”.

 

Fiz esse exercício agora para testar: nove dos 10 primeiros links que o Google me ofereceu são textos; e o décimo é um vídeo. E já que você talvez não encontre podcast sobre o tema, ofereço este link para o último episódio do CBN Professional que reúne uma série de entrevistas e informações sobre o tema.

 

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O que quero dizer é que há excelente conteúdo à disposição em áudio sendo produzido no mundo todo, mas o acesso nem sempre é fácil ou conhecido pelo público. Se esses produtos aparecerem na busca que você faz na internet, mesmo que nunca tenha ouvido falar em podcast, lá estará o arquivo à disposição.

 

“Com os incríveis podcasts produzidos todos os dias, não há uma boa razão para que o áudio não seja considerado um cidadão de primeira classe”

 

É o que disse Zack Reneau-Wedeen em uma auto-crítica ao próprio tratamento que o Google tem dado até agora a esse recurso — afirmação que reforça o que tenho falado com frequência nos últimos tempos: o futuro está no áudio.

 

A valorização do rádio com as caixas de som inteligentes

 

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Em “Jornalismo de Rádio”, livro que escrevi, em 2004, já apostava na ideia que a internet e as tecnologia digitais ofereceriam novo fôlego para o veículo. Havia sinais claros das possibilidades que teríamos para explorar as inovações que surgiam.

 

Era uma época em que os aplicativos ainda não eram realidade, mas a internet apresentava-se como meio para levar nossa programação ao infinito e além. Apostava na ideia que os celulares substituíram os aparelhos portáteis de rádio, movidos à pilha.

 

Seja captando as ondas da freqüência modulada, seja reproduzindo o som digital pelos aplicativos, o rádio ganhou nova dimensão. Não bastasse seu produto também ser distribuído agora no formato de podcast.

 

Estou curioso para ver como as caixas de som inteligentes, que prometem comandar as casas automatizadas e já têm um competitivo mercado em disputa nos Estados Unidos, tornarão o rádio ainda mais significativo.

 

Esses alto-falantes, que deixaram de ser apenas reprodutores de áudio bluetooth, estarão conectados com dezenas de equipamentos nas residências e oferecerão fácil acesso às emissoras de rádio.

 

Acordar logo cedo e pedir para Alexia, da Amazon, sintonizar a rádio CBN poderá se transformar em comportamento tão comum quanto ir ao banheiro para escovar os dentes.

 

Emissoras americanas já incluem nos seus anúncios o pedido para que o ouvinte acesse a rádio por este meio, assim como divulga o dial ou os convida a baixar o aplicativo da emissora.

 

Randy Gravley, do Conselho de Rádio da National Association of Broadcasters (NAB), foi entrevistado pelo site Radio World e fala da expectativa de as caixas de som inteligentes darem novo impulso à audiência do rádio em todo o mundo.

 

Leia aqui a entrevista do executivo

 

A persistirem os sintomas, logo o ouvinte vai falar com o rádio. O que talvez não seja uma novidade para você, caro e raro leitor deste blog, que faz parte daquela legião de ouvintes que responde ao bom dia quando começamos o programa, e faz comentários em voz alta no carro enquanto apresentamos o Jornal.

 

Americano que é sucesso no You Tube aprende português ouvindo a CBN

 

 

 

Você fala no rádio e influencia pessoas. Seja pela informação que pode ser transformadora seja pelo que ela aprende ao ouvi-lo: vocabulário rico, palavras pronunciadas corretamente, respeito as regras gramaticais. De onde se percebe que nosso trabalho diário à frente do microfone é pedagógico. E exige enorme cuidado. Precisão. Atenção no que dizemos.

 

Pensei sobre o assunto ao ouvir o youtuber Gavin Roy, americano nativo, apaixonado pela língua portuguesa. Ele mantém o canal Small Advantages no You Tube e tem mais de 980 mil inscritos, onde ensina brasileiros a falar inglês. Dá dicas de pronúncia, sugere livros e conta curiosidades dos Estados Unidos.

 

O que ele tem a ver com a linguagem que usamos no rádio?

 

No trecho da entrevista destacado neste post, que foi ao ar no canal AskJack, também no You Tube, ele conta que ouvia a rádio CBN antes de saber falar português: “queria saber como era o som do português em comparação com o espanhol”, diz com todo sotaque americano que lhe é de direito.

 

Pensar sobre a responsabilidade que temos na formação da língua e na educação das pessoas é fundamental em um momento no qual muita gente confunde informalidade com ignorância. Acredita que falar errado, abrir mão de regras gramaticais, viciar-se em jargões e gírias aproxima você do cidadão. Fazer isso é um desserviço à sociedade.

 

O importante é que se fale de maneira que as pessoa entendam o recado e respeitando a língua portuguesa, que aceita muito bem a forma coloquial, como nosso colega professor Pasquale Ciro Neto sempre reforça em seus comentários no “Nossa língua de todo dia”, no Estúdio CBN.

 

Eu sempre me esforcei em tratar a língua portuguesa com carinho, mesmo que, às vezes, pelo improviso que a fala no rádio nos exige, ocorram tropeços. Identificados, corrigi-se. O ouvinte merece.

Como a força do rádio, uma ideia que surgiu em Campo Grande já está na China

 

O autor do texto a seguir é um empreendedor. Um jovem empreendedor como muitos outros que entrevistei na série CBN Young Professional. Dia desses, fez contato comigo e contou o resultado daquela nossa conversa, há dois anos e meio. Pedi para publicar aqui no blog como exemplo do poder transformador do rádio

 

Pra você que quer ser jornalista…

 

Por Felipe Dib

 

Hello, my friend! How are you?

 

Era uma manhã de setembro de 2015 quando meu celular tocou, aqui em Campo Grande – MS. Do outro lado, falava um cara chamado Mílton, jornalista da CBN. Entrei em um carro para ver se escutava melhor o que ele me dizia e conversamos por 16 min 50s

 

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Ouça aqui a nossa conversa

 

Saí do carro e voltei à rotina: gravar vídeo-aulas gratuitas para o www.voceaprendeagora.com, um curso de inglês e liderança online que iniciei para agradecer a Deus depois de um acidente grave de carro.

 

A vida seguiu e no dia 20 daquele mês o bate-papo foi publicado no programa CBN Young Professional, que eu também nunca tinha ouvido falar. Aquela transmissão mudaria a vida de milhões de pessoas no outro lado do mundo. Pessoas que possivelmente nunca iremos encontrar na vida.

 

Em um rancho em Bauru, no interior de São Paulo, um senhor chamado Marcos escutava nossa conversa pelo rádio. Ouviu Mílton e eu dizendo que o inglês é um desafio pra muita gente (principalmente quem não tem muito tempo nem muito dinheiro!) e ficou ali pensando em sua filha Sophia, que assim como eu também é professora de inglês.

 

O Marcos ligou pra Sophia e falou pra ela entrar em contato comigo.

 

Sophia estava logo ali, em Guangzhou.

 

Yes, my friend. Na China!

 

Sophia acatou a sugestão do pai e me mandou uma mensagem no LinkedIN. Demorei meses pra ler a mensagem porque nunca acesso o LinkedIN. Por falar nisso, vou lá agora ver quanto tempo demorei pra ler a mensagem, porque desde a resposta para a Sophia nunca mais voltei lá!

 

Just a moment, please…

 

Demorou mas achei. Sophia manda mensagem no dia 20/9/2015. Look:

 

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Eu respondo 4 meses depois. Look:

 

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Resumindo: pai e filha vem a Campo Grande; nos conhecemos pessoalmente; Sophia começa a compartilhar aulas gratuitas de inglês para que os chineses que não tem condições de pagar um curso de inglês possam aprender esse idioma.

 

Lá não tem YouTube, mas tem YouKu:

 

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Saiba que você pode impactar 1 bilhão de pessoas com uma entrevista sua. Seja apaixonado pelo que você faz e estude muito para ser o melhor. Hoje eu conheço, admiro e sou eternamente grato de ter conhecido Mílton Jung, o cara que fez isso acontecer.

 

Um abraço e see you next class.

O impacto da tecnologia e do populismo na produção jornalística

 

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Dia desses, convocado pela CBN para ancorar programa que comemorava os 26 anos da emissora, tive a oportunidade de conversar com algumas figuras que admiro muito no jornalismo. Reunimos no estúdio em São Paulo e Rio de Janeiro, e colocamos por telefone, comentaristas da rádio além de convidados. Sejam os da casa, sejam os de fora, todos foram motivados a falar sobre o rádio e o jornalismo, momento em que tratamos do impacto que a tecnologia e o populismo têm provocado no desenvolvimento do nosso trabalho.

 

Se você visitar os links que ofereço ao fim deste texto, terá a chance de ouvir o bate-papo com Arthur Xexeo, Renata Loprete, Luis Gustavo Medina, Pedro Doria, Zuenir Ventura, Eugênio Bucci e Thiago Barbosa. Cada um a seu tipo contou histórias relacionadas ao rádio, tenha este a forma do radinho de pilha, que acompanha o Xexeo em suas tarefas caseiras, tenha o desenho das caixas de sons mais modernas com capacidade de conectar todos os equipamentos, usadas pelo Doria.

 

Quero, porém, dedicar esta nossa conversa, caro e raro leitor deste blog, para tema que tem preocupado jornalistas e deveria estar na pauta de todo o cidadão interessado no fortalecimento da democracia: a profusão de notícias falsas, estas que correm mais rápido do que rastilho de pólvora, como dizíamos antigamente. Consta que muito mais rápido do que notícia verdadeira, como nos explicou Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

 

Embrulhado em nome novo – fake news -, a velha prática de inventar histórias para prejudicar desafeto ou promover amigo se potencializa nas redes sociais pela agilidade que esta nos proporciona, permitindo sua multiplicação apenas com um clique no botão de compartilhar ou com o acionamento de robôs que espalham o fato para computadores e celulares em todo o mundo – ou para regiões previamente estabelecidas, onde se pretende impactar a opinião pública.

 

Para dar o nome certo a esse fenômeno, Bucci recorre a outro mestre da comunicação e, tanto quanto ele, preocupado com a ética nas relações humanas: o professor Carlos Eduardo Lins da Silva. Para que ninguém tenha dúvida do que estamos falando, eles preferem transgredir a tradução natural do temo em inglês fake news. Em lugar de notícia falsa, usam notícia fraudulenta. E isso faz uma baita diferença.

 

 

A notícia errada é como uma peça estragada na linha de produção que surge de uma falha na sua execução. Pode ocorrer pela qualidade do material usado, pela manufatura, pelo descuido ou irresponsabilidade do profissional que realiza o trabalho. Causa prejuízos a quem consome e a quem fabrica.

 

A notícia fraudulenta é a peça que foi estragada com a intenção de boicotar alguém. É ato proposital. Erro baseado na má-fé de quem o executa. Que surge de autor desconhecido, escondido por mecanismos automáticos e uso de tecnologia e, por isso, prejudica apenas seu alvo.

 

Como jornalista, e jornalista de rádio, veículo que pressupõe a agilidade e velocidade na informação, o risco de publicarmos uma informação errada é imenso. Já aconteceu e, infelizmente, acontecerá outras vezes. Está lá no meu livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), publicado em 2004, que nosso desafio é equilibrar agilidade e precisão na apuração dos fatos. Todas as vezes que abrimos mão da precisão em nome da agilidade, pagamos com o que há de mais caro na carreira do jornalista (e do jornalismo): a credibilidade. Por longo tempo, o rádio, pressionado pela ascensão da televisão, trabalhava com a ideia que o ouvinte queria a notícia em primeira mão. Demorou para perceber que o desejo dele era ter a notícia certa em primeira mão.

 

Reduzir os riscos de erro na cobertura jornalística é o desafio que se impõe e para tal é preciso respeitar a hierarquia do saber – conceito trabalhado por Zuenir Ventura em conversa que já havíamos tido há cerca de um ano na CBN. O jornalista é aquele que procura ouvir quem sabe mais do que ele, que sabe usar o saber do outro para esclarecer os fatos e apurar a verdade. Nossa busca constante é pela verdade possível, a verdade que somos capazes de construir naquele instante em que o caso é relatado. A verdade absoluta apenas o tempo nos oferecerá.

 

Se não vejamos: quando o primeiro avião se chocou no prédio do WTC em Nova Iorque, em 2001, noticiamos um acidente aéreo. Estávamos mentindo? Não. Contávamos a verdade daquele momento. Assim que um segundo avião se chocou na torre, um terceiro despencou sob o pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, outras verdades passaram a se revelar ao longo do dia.

 

 

Em meio a pressão oferecida pela revolução tecnológica que mudou comportamentos e quintuplicou o número de mensagens recebidas por uma cidadão, nos últimos 30 anos, e os interesses de grupos políticos dispostos a distorcer a verdade em busca do poder, o jornalismo tem obrigação de resistir e seguir o seu curso. Intensificar a checagem dos fatos, aprofundar a apuração e proporcionar o contato de posições divergentes, promovendo o diálogo entre os diversos atores de uma mesma cena.

 

 

Encerro essa nossa conversa lembrando frase dita por Eugênio Bucci no início de sua participação no programa da CBN:

 

“O jornalismo não pode faltar na sociedade democrática … e a maior ameaça para o jornalismo é o populismo”

………………………………………

 

Ouça a seguir, o Jornal da CBN especial, em comemoração aos 26 anos da rádio CBN:

 

 

 

 

#CBN26anos – A minha história do rádio

 

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Sou do rádio desde muito pequeno. Aventurei-me no jornal, escrevi em revista, editei, reportei e ancorei em televisão, e atuei na internet. Mas aí já era profissional do jornalismo. E como tal somos de todas as mídias. Temos de ser de todas as mídias para sobreviver. Foi o rádio, porém, que influenciou minha vida desde criança.


 

Lá em casa, em Porto Alegre, o aparelho ficava sobre o balcão, na sala de jantar. A mãe costumava levantar o som sempre que o pai fosse falar. Sim, meu pai é radialista e jornalista, também – como o caro e raro leitor deste blog deve saber. Ao menos o foi até que a falta de sensibilidade dos gestores de rádio o fez ir para casa e aposentar seu talento. Além de narrador de futebol, Milton Ferretti Jung, o pai, foi locutor de notícias. Mais do que isso: foi o melhor locutor de notícias do Rio Grande do Sul. Apresentou por anos o Correspondente Renner, síntese noticiosa da rádio Guaíba, na época uma potência.

 

Sempre que o noticiário estava para começar, era a oportunidade de a mãe por ordem na casa. Para calar a bagunça dos filhos e a “brigalhada” dos irmãos, ela levantava o som do rádio e alertava a todos: “se continuarem gritando, o pai vai ouvir e quando chegar em casa vocês vão se ver com ele!”.

 

Silêncio total na sala. Vai que o pai ouve.

 

Crescemos imaginando que o ouvinte podia ser ouvido pelo radialista. Houve um momento, não sei quando, em que percebemos que aquela interação não era possível, mas entendemos também que tudo que a mãe precisava era de alguns minutos de paz para ouvir o pai falando. Nós também queríamos saber o que o pai tinha pra contar: ele sempre trazia as notícias mais importantes do Brasil e do Mundo. Dava um baita orgulho saber que era o nosso pai que estava ali contando todas aquelas coisas importantes para o Mundo e para o Brasil. Sem exagero. Não tinha internet, mas nas ondas médias e curtas, a Guaíba às vezes era ouvida das partes mais distantes do planeta.

 

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Nem havia crescido muito quando conheci o estúdio de uma emissora de rádio. O pai fazia questão de nos levar à Guaíba, especialmente nos fins de semana. Acho que era para dar uma folga para mãe. Às vezes, enquanto ele lia o noticiário, os colegas nos distraíam proporcionando jogos de futebol no corredor da rádio, onde a bola era feita de papel das laudas de notícias embrulhadas aos montes por durex.

 

Demorou pouco para o pai cometer um sacrilégio: abrir a porta do estúdio da rádio e me permitir sentar ao lado dele, durante a locução do Correspondente Renner. Naquela época, o estúdio era lugar sagrado. Só os Deuses da Voz tinham o direito de permanecer lá dentro. Eu sequer para anjo servia. Mas fazia enorme esforço para não decepcioná-lo. Ficava ao lado dele em silêncio, total silêncio. Mal respirava durante os 10 minutos de duração do Correspondente. Ver o pai com os cotovelos sobre a mesa do estúdio e as mãos colocadas em formato de concha, enquanto pronunciava com precisão e expressividade cada palavra, me emocionava.

 

Havia dias em que o pai me deixava visitar a redação do jornal Correio do Povo, que ficava no andar de baixo, do mesmo prédio da rádio, onde meu tio trabalhava com editor-fechador da edição de domingo. Era ele quem tinha de atualizar as últimas informações e acompanhar o jornal rodando nas esteiras antes de começar a ser distribuído por todo o estado do Rio Grande do Sul. Tio Tito Tajes me deixava dedilhar nas máquinas de datilografia, pedia para recolher as notícias que chegavam na sala de teletipos – espécies de computadores da Idade da Pedra – e me levava a passear entre as rotativas do jornal. Foi lá naquela redação que conheci Mário Quintana, o poeta.

 

Era lindo, mas era o rádio que me fascinava.

 

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Meu primeiro estágio em jornalismo foi na Guaíba, por obra do meu pai, claro. De lá sai para trabalhar em outras mídias e retornei ao rádio quando já havia desembarcado, em São Paulo, há algum tempo. Vim para trabalhar em TV e foi na redação da TV que conheci Heródoto Barbeiro que, ao saber de meu passado e desejo, me convidou para apresentar programa na CBN, onde permanecerei até segunda ordem.

 

Tantos anos depois, descobri que minha mãe tinha razão quando nos mandava calar porque o pai podia ouvir. Era como se ela estivesse prevendo o que viria a acontecer. Hoje, os jornalistas de rádio trabalham com os ouvidos (e os olhos) bem abertos porque o ouvinte fala o tempo todo. Fala no e-mail, fala no WhatsApp, fala no Facebook e fala no Twitter. Ainda fala por carta. Fala quando encontra você na rua, no shopping, na Igreja, onde quer que você esteja.

 

Ai de você que não ouça o que ele pensa. Pode se livrar de algumas chateações, mas, tenha certeza, estará desperdiçando ótimas oportunidades de se desenvolver na carreira e realizar jornalismo qualificado, que atenda as demandas do cidadão. Sem contar que esses ouvintes que “falam” são, atualmente, fontes importantes de informação, que não podem ser desdenhadas.

 

Quanto ao pai, segue em Porto Alegre. Respeitado por aqueles que conheceram seu trabalho. Na memória dos que cresceram ouvindo os jogos de futebol e as notícias do dia. E na história dos que se preocupam em estudar a trajetória do rádio brasileiro.

 

Como disse lá no início, sou do rádio desde pequeno. E o pai tem tudo a ver com isso. Obrigado, pai!

No gravador de Enon, a essência do rádio

 

Por Christian Müller Jung
reproduzido do LinkedIn

 

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Formei-me publicitário. Mesmo sendo filho, irmão, sobrinho, primo de jornalistas, a veia criativa sempre esteve presente em minha vida. Muito disso por influência da mãe que era uma pessoa super inspirada.

 

Mas, enfim, o que me traz aqui hoje é curiosamente essa tarefa instigante de levar a informação para todos os cantos do planeta: o jornalismo.

 

Tive a oportunidade de conviver desde a infância com essa turma que carrega gravadores nas mãos para não perder uma palavra que tenha sido pronunciada ou alguma mensagem que seja de interesse da população.

 

Cresci dentro da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, em virtude do pai que por lá circulou mais de 50 anos, como locutor comercial e de notícias, narrador esportivo, comentarista e, claro, jornalista. Quando digo o pai, refiro-me a Milton Ferretti Jung.

 

Assistia ao trabalho dele e dos colegas nos campos de futebol e, por vezes, presenciei os repórteres chegando da rua prontos para editar as suas matérias.

 

Muitas vezes, apesar do Christian no nome, fui e sou chamado de “Miltinho”, seja porque o pai é Milton seja porque meu irmão também é Milton, o Júnior (e, também, jornalista). Nada que me afete porque afinal de contas tenho orgulho dessas referências; assim a troca de nome mais do que uma simples confusão, é uma deferência.

 

Apesar de ser publicitário, fui parar na tribuna do Palácio Piratini como Mestre de Cerimônia. Se a gente não herda uma coisa herda outra. Se não virei jornalista como o pai, fiquei com o padrão vocal do velho Milton e isso me ajudou na obtenção do registro de locutor e apresentador.

 

O Palácio e as atividades pelo Rio Grande como Mestre de Cerimônia me permitiram acompanhar de perto as coberturas jornalísticas, especialmente nas solenidades do Governo, e me aproximaram desse pessoal: os jornalistas de rádio.

 

Alguns são da velha guarda, são do gravador da National e da fita K-7 – um trambolho que exigia o uso das duas mãos, uma para apoiar e a outra para apertar o botão REC.

 

Junto a eles, tem a turma bem mais nova que se recicla a cada dia chegando com toda a tecnologia disponível para facilitar e arquivar a informação. Tanto de áudio como de vídeo.

 

Nessa atividade que exerço no governo gaúcho, desloco-me por várias cidades do interior e foi numa destas, mais precisamente em Tapes, no centro sul do Estado, que encontrei o radialista, o jornalista e o dono da Rádio Tapense, Enon Cardoso.

 

Na solenidade anterior em cidade bem próxima, Sentinela do Sul, já o tinha visto trabalhando, porém foi em Tapes, após escutar a minha apresentação, que ele quis saber como eu me chamava. Logicamente que pelo tipo de voz e o sobrenome, Jung, ele me perguntou o que eu seria do Milton Ferretti Jung. Disse que era o filho mais novo e de cara ele abriu um sorriso lembrando-se de um acontecimento que tinha marcado a vida dele, há muito tempo.

 

Em certa oportunidade, muito antes das grandes redes de rádio, Enon veio a Porto Alegre para saber se teria autorização para reproduzir na emissora dele o Correspondente Renner, que era lido pelo Milton, na Guaíba. Falou com o pai que era só o locutor no noticiário e não tinha esse poder de decisão. Depois, falou com Flávio Alcaraz Gomes, amigo dele e um dos jornalistas mais influentes da emissora. Precisou, porém, muita insistência para chegar à direção da Guaíba quando, então, recebeu o aval inédito para retransmitir o Renner. Havia apenas uma condição: ele não poderia dizer o nome da rádio dele durante a locução.

 

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Quando vejo um senhor como o Enon, de cabelos brancos, sentado em uma cadeira, próximo ao palco da cerimônia, em frente a caixa de som e com o gravador na mão, em pleno 2017, parece que voltei no tempo. A maneira improvisada de cobrir os assuntos como forma de superar a falta de dinheiro e condições de trabalho, me remete à época em que cada um tinha de fazer das tripas coração para emendar fios, montar um transmissor, levantar enormes e pesadas antenas e torcer para que o trabalho todo fosse ao ar.

 

A história de Eron por si só já é ótima, mas o que quero destacar mesmo, nisso tudo que relato até aqui, é a essência da coisa. É nela que se cria a verdadeira escola da informação. Muito mais que a tecnologia, está a vontade de retransmitir e compartilhar os fatos da forma mais imediata possível com a audiência.

 

Ainda que os telefones celulares e toda a tecnologia desenvolvida facilitem tanto a vida dos profissionais, quando faço essas solenidades percebo que a necessidade de levar a informação para o ar ainda exige algum tipo de improviso para não que se perca nenhuma sílaba do que foi dito.

 

Os gravadores mudaram de tamanho e de analógicos se transformaram em digitais, mas a turma ainda precisa correr, instalar antenas de wi-fi, conectar notebook, tablet ou qualquer outra traquitana nova. Sai de uma solenidade para a outra, tem pressa para chegar e para transmitir a mensagem ao seu público.

 

Se antigamente era preciso colar o gravador e o microfone no rosto de quem falava ou se tinha de se subir na tribuna para captar tudo, hoje basta se aproximar da caixa de som ou ligar o equipamento direto na mesa montada pelos técnicos.

 

Se antes o material coletado tinha de viajar de carro ou ônibus para chegar à emissora, hoje é editado na mesma hora, viaja pela nuvem ou é transmitido ao vivo e com sinal digital.

 

Mas nada disso muda a razão maior que move todos os jornalistas desde quando comecei a conviver nesse mundo da notícia. Velhos ou novos profissionais, todos buscam cumprir sua missão.

 

Bem lá atrás ou aqui na frente da linha do tempo, o que interessa no fim do dia é se a bendita da informação chegou ao público.

 

Naquele dia em Tapes, com seu gravador em punho, Enon mais uma vez cumpriu sua missão.

Sem cortes: bastidores, estúdios e ideias sobre o rádio e o jornalismo

 

 

Como é a produção do Jornal da CBN, a necessidade de o rádio se reinventar, uma entrevista a ser feita e quem me inspirou na profissão foram alguns dos temas provocados pela estudante de jornalismo da ESPM-SP Gabriella Lemos em vídeo experimental que realizou, nos bastidores da rádio CBN. São nove minutos e pouco de entrevista, sem corte, nos quais, além de falar sobre rádio e jornalismo, mostramos estúdios, corredores e redação da CBN, em São Paulo. Curta, compartilhe e opine.