Heródoto Barbeiro: Fora do ar

Fãs, admiradores, seguidores e afins do professor Heródoto Barbeiro não se assustem com o título acima. “Fora do Ar” é apenas o título do novo livro (não me perguntem quantos até agora, porque a produção dele já alcançou números impossíveis de serem registrados) assinado pelo mestre que reúne crônicas sobre o cotidiano do jornalismo.O lançamento pela Ediouro será, às 16 horas, no dia 30 de junho, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional. Além da presença do Heródoto e seus autógrafos, haverá apresentação do espetáculo “A Era do Rádio”, sob regência de Eduardo Fernandes e direção cênica de Reynaldo Puebla.

Este blog antecipa uma das crônicas que fazem parte do “Fora do Ar”. Divirta-se”

O D E B A T E
_____________

Heródoto Barbeiro

Raimundinho tinha desaparecido por quase um ano. Estava preso por ter ferido um desafeto com tiro no peito depois de uma chaçada seguida de briga em plena praça pública. Estava de volta para criar mais confusão e não se cansava de desafiar os petistas de plantão, muitos deles jornalistas conhecidos. Depois de tomar uma três ou quatro com Cambucí saiu pela rua gritando que eles contaram com o ovo no cú da galinha e por isso Lula não tinha levado no primeiro turno. O bom senso mandava que as tevês concorrentes formassem um poll para propor um único debate com lula e Alckmin, candidatos do segundo turno das eleições presidenciais. Provavelmente tudo seria organizado pela TV Caramelo, pela sua importância política, econômica e liderança de audiência em toda a região. As demais reagiram e divulgaram que só aceitariam se houvesse uma discussão sobre a produção e apresentação do programa e cada uma ficasse responsável por um bloco do debate. Os ânimos se acirraram, os interesses individuais se sobrepuseram ao coletivo e tudo terminou com a decisão que cada uma faria o seu próprio debate. Taiaçupeba dava o exemplo para o Brasil. Nunca uma eleição tinha sido alvo de tantos debates como essa. Bastaria que os candidatos assumissem o compromisso que compareceriam e não como no debte do primeiro turno, quando Lula não compareceu. No segundo turno era diferente e ninguém ia perder a oportunidade de falar diretametne para o eleitorado.

Instalou-se o salve-que quem puder pressionar mais os candidatos para o debate. As equipes de jornalistas saíram a campo e formaram verdadeiras equipes competidoras para conseguir a melhor data, horário e exposição em todos os outros meios e veículos. Os chefes de jornalismo tomaram a frente da organização pessoalmente e daí prá frente foi um vale tudo. Só não valia dedo no olho e xingar a mãe. A TV Caramelo saiu na frente e conseguiu alugar o salão paroquia, graças a uma amizade com o Padre Sérgio, local que daria uma solenidade especial para o debate, ampla participação dos convidados dos candidatos, serviço de bufê contratado diretamente com a confeiteira Olinta e bebidas servidas pela Lenilza. Um rígido esquema de segurança foi montado para receber os candidatos, com a guarda municipal uniformizada, presença da fanfarra para entreter o povo enquanto o debate não começasse e a escolha das casas do Ludinho e da Noêmica para que os contendores aguardassem separada e reservadamente o início da transmissão. A iniciativa da TV Caramelo deixou os concorrentes raivosos. Seria a primeiro debate do segundo turno, com transmissão ao vivo pela tevê e pela rádio Caramelo, capaz de atingir até o Sertão dos Freires, onde a distância e a pobreza impedia os moradores de verem na telinha. Os jornalistas se degaldiavam todas as noites nos botecos da praça, batiam boca sobre a exclusividade do debate e, mais uma vez, vestiam as camisas de suas empresas, as mesmas que criticavam tão duramente fora dessas ocasiões especiais.

A disputa eleitoral contaminou as redações e acusações sobre preferências partidárias começaram a circular quando a revista Cidade Taiaçupeba publicou uma reportagem acusando os demais de tucanarem. As acusações se intensificaram de lado a lado e até um debate entre editores foi organizado no programa De Olho na Cédula, da tevê pública de Taiaçupeba. A TV Caramelo estabeleceu um rídido critério para entrar no auditório da igreja. Tinha que entrar com convite, e os jornalistas credenciados foram confinados em uma sala ao lado, reduzidos a acompanhar a refrega através do telão; Uma ofensa. Uma humilhação . Só mesmo o poder da Caramelo seria capaz de estabelecer essas imposições. Todos eles queriam ter acesso ao bastidor, ao plenário onde estariam os convidados especiais, ao palco modificado por um cenário futurista e acompanhar os cuxixox que os assessores fariam durante os intervalos, enfim, nenhum jornalista queria ficar de fora do burburinho e de ser tornar parte ativa dos acontecimentos. Afinal, havia luz e holofote, pancake para todos.

Os convidados puderam entrar no salão paroquial poucos minutos antes do debate entrar no ar. A campainha de silêncio não parava de tocar pedindo silêncio, e a produção da Caramelo estranhou que entre os presentes estava o Ramundinho, depois de ter tomado tudo que podia. O primeiro impulso foi expulsaá-lo, depois se perguntou se ele não era convidado de um dos candidatos e a tevê resolveu deixá-lo no auditório, mas com dois seguranças bem próximos a ele. As nove em ponto as cortinas de abriram e Meloso Neto, o âncora mediador, com uma voz grave, quase soturna, disse para as câmaras que devido ao mau tempo os helicópteros dos candidatos não puderam voar e o debate estava suspenso. Em casa, todos viram a figura pequenina e de voz esganiçada do Raimundinho gritar ” Bem feito, contaram com o ovo no cú da galinha .!!!!!!!!!

Um comentário sobre “Heródoto Barbeiro: Fora do ar

Deixe um comentário