Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O que é realmente importante para mim?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de David Bartus no Pexels

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente,

o que fazemos para mudar o que somos”

Eduardo Galeano

O que você acha que seria a chave de mudança para você ter uma vida feliz?

Dinheiro? Carros? Reconhecimento? Filhos?

Para os gregos antigos, a sensação de felicidade e realização com a vida seria alcançada ao se viver de acordo com valores, também chamados de virtudes por Aristóteles. Esses valores seriam qualidades de caráter, tais como paciência, coragem, autenticidade, que não seriam naturais ou inatas – sobre as quais não se teria nenhuma interferência. Derivariam da prática, de ações propriamente ditas, tornando-se um hábito.

Desse modo, Aristóteles conceitualiza a virtude como algo que deva ser treinado, através de ações deliberadas, de atitudes que possam nos transformar na pessoa que desejamos ser.

A excelência nesse processo consiste em buscar um equilíbrio apropriado de cada qualidade, através da razão, numa escolha de ações e emoções que conduzam a um meio-termo, para nós e para os outros, evitando faltas e excessos. Por exemplo, a falta de coragem pode ser compreendida como covardia, enquanto seu excesso, pode significar destemor ou audácia.

Por vezes, temos uma tendência a agir pelos extremos, tornando esse caminho do meio-termo a ser percorrido um trajeto difícil.

Somos seres acostumados aos hábitos. Nos sentimos seguros em situações mais familiares. Seguir por caminhos já conhecidos, manter comportamentos que estamos acostumados a ter, por vezes é mais confortável. Não à toa, chamam a isso de zona de conforto.

Desbravar um novo trajeto, traçar um objetivo de quem desejamos nos tornar, de quais qualidades queremos ter, pode ser muito desafiador.

Caminhos antigos são largos, o solo está mais batido. Trilhas pouco exploradas exigem um caminhar mais atento, são pouco sinalizadas, estreitas… causam medo.

Se queremos levar uma vida que vale a pena ser vivida, precisaremos de coragem para desbravar novos caminhos e percorrê-los. Mais do que isso. Precisaremos escolher as sementes que queremos plantar, cultivá-las dia a dia, para que possam florescer.

A propósito, “florescimento” era o termo escolhido pelos gregos para essa mudança, para se viver de acordo com os valores, alcançando a felicidade.

Viver uma vida satisfatória não pressupõe que todas as coisas serão boas ou que nossos sonhos se realizarão. Significa viver aquilo que realmente importa para nós.

Talvez a gente se preocupe em mudar para agradar aos outros, para viver como imaginamos o que os outros esperam de nós. Talvez a gente se preocupe em mudar para sermos mais parecidos com aquilo que vemos nas redes sociais, numa exposição fantasiosa de vida perfeita ou feliz – talvez isso explique mais sobre frustração do que felicidade.

A chave da mudança está dentro de nós. Pode ser mais paciência. Pode ser mais fé. Pode ser menos raiva. Mas somente promoveremos mudanças que nos trarão felicidade, quando perguntarmos para nós mesmos: o que realmente é importante para mim? O que eu desejo fazer para ter uma vida que vale a pena ser vivida?

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Setembro amarelo: a natureza nos possibilita a esperança que, ausente, ofusca a amplitude da vida

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Priscila Gubiotti

Nas últimas semanas, ao andar pelas ruas de São Paulo, nossos olhares eram capturados para a beleza das flores amarelas dos ipês, que se destacavam em meio ao cinza da cidade. Uma rápida associação de cores me conduziu ao Setembro Amarelo, uma campanha criada, em 2014, pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo Conselho Federal de Medicina, com o objetivo de conscientizar a população sobre os fatores de risco para o suicídio e alertar sobre a importância do tratamento adequado para os transtornos mentais, como estratégias de prevenção.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), anualmente, cerca de 1 milhão de pessoas perdem a vida em decorrência do suicídio. No Brasil, os números apontam para 30 mortes diárias, sendo que para cada uma, aproximadamente outras 6 pessoas serão afetadas pelas consequências econômicas, sociais e emocionais provocadas por essa perda.


Os transtornos mentais, como a depressão ou transtorno afetivo bipolar, representam cerca de 96% dos casos de morte por suicídio, reforçando a tese de que o diagnóstico e o tratamento adequado são fundamentais como medidas preventivas eficazes.


Infelizmente, alguns estigmas ainda persistem quando o assunto é saúde mental, dificultando a identificação dos fatores de risco e perpetuando ideias distorcidas sobre essa condição.

É preciso falar sobre saúde mental.


É preciso levar informação capaz de promover a identificação dos transtornos mentais, tornar os tratamentos conhecidos, criar apoio emocional e possibilitar a esperança, a mesma que em sua ausência ofusca a percepção da realidade, tornando-a estreita diante da amplitude da vida.


As causas para o suicídio são multifatoriais, e alguns fatores podem agravar os riscos, como uso do álcool e drogas, que aumentam a impulsividade e a agressividade, a falta de amigos e pessoas mais próximas, e o acesso a meios letais, como armas de fogo.


Por outro lado, algumas atitudes podem ajudar as pessoas a superarem as ideias suicidas, como uma conversa sem rodeios sobre suas intenções e uma sinalização genuína de interesse pelo que ela está passando. Há a necessidade, nesses casos, de procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica e, em situações mais urgentes, conduzir a pessoa a um Pronto Atendimento ou chamar o SAMU (192).


A intenção sobre suicídio não deve ser mantida em segredo, em hipótese alguma, devendo-se buscar ajuda profissional especializada. Muitas vezes, essas ideias aparecem em forma de frases, que soam como brincadeiras de mau gosto ou mesmo em atos mais impulsivos e inconsequentes, como atravessar uma rua sem olhar e contar com a sorte.


Por vezes, viver se torna doloroso e até mesmo muito difícil, mas a natureza, com a sua magia, nos ensina que é possível superar as adversidades: mesmo em tempos áridos e secos, o ipê precisa perder todas as suas folhas; sobram seus galhos; e isso é necessário para abrir espaço para o que vem a seguir. E, assim, ele surge, exuberante com suas flores amarelas, possibilitando que a vida se renove.


O suicídio não é um ato individual. É coletivo! Porque atinge a toda sociedade, quer sejam pais, filhos ou amigos.


Sejamos envolvidos na luta pela vida, de modo que nossas ações contribuam para que outras pessoas possam florescer.

Setembro amarelo de 2021: é preciso agir! O suicídio pode ser evitado.

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A melhor vingança está ao nosso alcance

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Min An no Pexels

Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.

Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse. 

O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.

Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor. 

Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.

A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.

Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.

A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais  energia e fortalecimento do sistema imunológico.  

Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.   

Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que  quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.

Curar um coração ferido leva tempo. 

Quanto tempo? 

Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.

O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!

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Que nossas ações fortaleçam aquelas mulheres do Afeganistão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Russell Watkins/Department for International Development/UK

“Só percebemos a importância da nossa voz

 quando somos silenciados”

Malala Yousafzai

           

Em outubro de 2012, uma garota paquistanesa de apenas 15 anos foi baleada na cabeça após sair da escola. O motivo? Ela lutava para que as meninas e mulheres de seu país, que sofria a influência do Talibã, pudessem estudar. A história de Malala ficou conhecida em todo o mundo, mas, infelizmente, com a tomada de Cabul pelo grupo extremista nos últimos dias, crianças e mulheres parecem viver um pesadelo.

Durante o regime do Talibã no Afeganistão, entre 1996 e 2001, além da proibição de algumas atividades, como leitura de determinados livros e acesso à internet, o uso da burca passou a ser obrigatório e o direito de trabalhar, estudar ou receber assistência médica foi negado às mulheres, que não mais podiam sair sozinhas sem a presença de um homem para acompanhá-las.

Ao longo da história da humanidade, as mulheres enfrentaram situações de perseguição, exclusão e humilhação em diversos contextos. Na Idade Média, por exemplo, muitas foram mortas queimadas, acusadas de feitiçaria ou bruxaria porque questionavam o sistema tradicional da época. Na renascença, podiam trabalhar, mas havia uma desvalorização de sua inclusão, com salários inferiores aos dos homens.

O próprio Darwin foi responsável por difundir a ideia, errônea e sem nenhum embasamento científico, de que as mulheres seriam inferiores aos homens, tanto nas questões mentais como físicas. Isso possibilitou o surgimento de uma teoria popular que afirmava que se as mulheres fossem expostas à educação superior, sofreriam danos físicos e emocionais que colocariam em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade. Essa crença era tão forte, que até o século XIX, mulheres não eram aceitas em Universidades, mesmo na Europa ou nas Américas.

Assim como Malala, algumas mulheres também lutaram para conquistar a mesma liberdade dos homens. Olympe de Gouges, na época da Revolução Francesa, propôs a Declaração de Direitos da Mulher. Foi guilhotinada em 1793. Na Inglaterra, Mary Wallstone Craft publicou, em 1792, o artigo “Reivindicação dos direitos da mulher”, solicitando a participação política das mulheres e o acesso irrestrito à educação formal.

Diante da possibilidade de privação à liberdade e a todos os direitos das mulheres do Afeganistão, temos um sentimento de impotência que nos assola.

Vozes que são silenciadas. Esperanças destroçadas.

Enquanto pessoas correm tentando sobreviver em meio à fuga do inferno, infelizmente, alguns ainda insistem em ecoar gritos pedindo ditaduras. Cada um tem as suas prioridades…        

Que nossas vozes extrapolem as fronteiras e possam representá-las. Que as nossas ações possam ser aquilo que as fortaleça. Para que não caiamos na indiferença ao seu clamor oprimido e façamos valer a máxima: “mexeu com uma, mexeu com todas”.

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Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Julianne Moore em foto-reprodução do filme ‘Para sempre Alice’

“Meus ontens estão desaparecendo e

meus amanhãs são incertos. Então, para que

eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente”

“Para sempre Alice”

            O livro “Para sempre Alice”, de Lisa Genova, conta a história de uma professora universitária que, no auge de sua carreira, começa a ter esquecimentos e a se equivocar em situações cotidianas, recebendo o diagnóstico de Doença de Alzheimer precoce, um dos subtipos de síndrome demencial.

            A síndrome demencial ou demência é caracterizada pela perda das funções cognitivas, como a atenção, a linguagem ou a memória, e pelas dificuldades significativas na realização de atividades da vida diária, como cuidar das finanças.

            Apesar de haver alguns subtipos de demência, a mais conhecida e mais frequente é a demência relacionada à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo início insidioso e pelos lapsos de memória, com evolução progressiva das perdas cognitivas.

            Dentre as principais dificuldades cognitivas encontradas na Doença de Alzheimer, as falhas de memória são as mais frequentes, caracterizadas inicialmente por dificuldades em aprender uma nova informação, como usar um novo aparelho eletrônico, esquecimentos para fatos recentes e a tendência a um discurso mais repetitivo.

            No início da doença, há uma dificuldade em encontrar palavras, tomar decisões e realizar o planejamento e execução de atividades anteriormente realizadas com sucesso.

            A medida que a doença evolui, as perdas cognitivas se tornam mais acentuadas e as alterações de comportamento, que no início sugeriam uma perda de iniciativa ou falta de motivação, se tornam mais intensas, podendo ocasionar uma mudança significativa na personalidade do paciente.

Diante da característica progressiva e irreversível da Doença de Alzheimer, uma condição frequentemente experimentada é o luto antecipado, isto é, o luto que se vivencia antes mesmo da morte.

            A percepção de que se está perdendo a memória e, com isso, toda a sua história de vida, identidade e autonomia, leva inicialmente ao luto o próprio paciente, que se vê fragilizado e impotente diante dessa condição.

            Por outro lado, com a evolução da doença, familiares e cuidadores tentam se adaptar a uma perda anunciada, que envolve o enfrentamento da morte que virá e das várias perdas ao longo do processo, incluindo perdas sociais, econômicas, de sonhos e de companheirismo.

            O professor e neurocientista Ivan Izquierdo, um dos maiores pesquisadores sobre a memória, gostava de destacar que o modo como podemos conceber o tempo é a partir do conceito de memória. O futuro ainda não existe e o presente nos permite a aprendizagem. O passado, que também não mais existe, ainda é possível ser acessado sob a forma de memórias.

            Talvez, por isso, as perdas de memória nos amedrontem: porque escancaram a impermanência das coisas, de nós mesmos.

            Para os que sofrem com as perdas de memória impostas pelo processo demencial, a vida vai se perdendo pouco a pouco da própria mente, reafirmando, para todos nós, a necessidade de se viver intensamente o presente.

            Pode ser que a gente esqueça o dia e o ano. Pode ser que a gente nem mesmo se recorde de quem somos nós. Daí a necessidade de sermos tudo o que pudermos hoje. Como nos provoca a personagem do livro, “esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância”.

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A busca pela imperfeição

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: IONEL BONAVENTURE / AFP Site CBN

“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter;

repugna-la-íamos se a tivéssemos.

O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”

Fernando Pessoa

Esparta foi uma das principais cidades-estado da Grécia Antiga, que mantinha sua soberania pautada na austeridade e disciplina militar. A educação espartana era rígida e visava preparar o povo para as lutas, através de treinamentos físicos intensos que promovessem força e resistência, capazes de levar à perfeição e, consequentemente, à derrota do adversário. As relações sociais e familiares ficavam em segundo plano, e aqueles que não se adaptavam a esse modelo eram punidos e excluídos da sociedade.

Os ideais espartanos de disciplina, resistência e superação de limites físicos foram muitas vezes cruciais, não apenas nas guerras ou disputas territoriais, mas também nos jogos olímpicos que eram realizados na Grécia Antiga.

Desde então, muitas transformações aconteceram nas Olimpíadas, como a inclusão de novas modalidades. No entanto, as exigências de perfeição as quais muitos atletas estão sujeitos permanecem semelhantes aos padrões helenos.

É necessário ser o mais rápido. É necessário ser preciso. Não há espaço para erros. Do contrário, o atleta depara com as consequências impostas ao simples fato de ser imperfeito. A busca pela perfeição pressupõe um ciclo nocivo à saúde física e mental, não apenas de atletas, mas de milhares de pessoas em todo o mundo.

Nessas situações, é muito comum que se estabeleçam metas elevadas para si, reforçando-se a crença de que as coisas devem ser feitas perfeitamente ou então não devem ser realizadas.

O curioso é que, diante das dificuldades que surgem, há uma tendência ao aumento da autocrítica e da ideia de incapacidade, fazendo com que a pessoa aumente ainda mais a sua meta e seja negligente com suas necessidades fisiológicas e seu bem-estar psíquico, perseverando nesse ciclo.

Certa vez perguntei a uma pessoa, que estava sobrecarregada com as pressões do trabalho, o que achava que poderia fazer para solucionar isso. Sua resposta foi curiosa: “ficar algumas horas a mais além do expediente, para poder me dedicar e checar o que já fiz para ter certeza de que não vou falhar”.

O resultado desse excesso de dedicação e da negligência com o autocuidado leva ao esgotamento físico e mental e à sensação de sobrecarga e exaustão. Sentindo-se frustrada, essa pessoa acredita que é insuficiente, incompetente ou incapaz. Isso aumenta significativamente a ocorrência dos transtornos de ansiedade, depressão e burnout.

Manter o equilíbrio nas traves da vida nem sempre é tarefa fácil. Na busca por saltos duplos e triplos, somados às piruetas para driblar o dia a dia, nossos movimentos ficam pouco harmoniosos, tropeçamos na aterrisagem e nosso solo se assemelha a um campo de batalha, no qual lutamos contra pressões, inseguranças, medos e, principalmente, nós mesmos.

Há uma cobrança excessiva para que dêmos conta, impecavelmente, de uma lista extensa demais.

Precisamos ser mais como Simone Biles.

Assumir as nossas dificuldades ou vulnerabilidades não é sinal de fraqueza. Assumir que não são somos robôs ou feitos de aço, que não precisamos e não queremos ser heróis, nos aproxima da nossa natureza, da nossa humanidade.

Somos imperfeitos!

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Amigos permitem ser quem eu sou

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Charles Bernie from Pixabay 

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”

Antoine de Saint-Exupéry

            Ao longo da história da humanidade, o convívio social sofreu mudanças importantes quanto as suas funções e características. Nos primórdios, manter vínculos com outros seres humanos é o que permitia a sobrevivência da espécie, através da colaboração mútua e da proteção. Na pandemia, o uso da tecnologia, seja com aplicativos ou através de redes sociais, se tornou uma das poucas maneiras de se estar socialmente conectado.  

            Diversos estudos destacam a importância das relações sociais, especialmente as que envolvem a amizade, durante o ciclo vital, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.

Na infância, por exemplo, conviver com os amigos está diretamente relacionado com a formação do processo de socialização. Nessa fase, as relações estabelecidas envolvem afeto, diversão, colaboração mútua e resolução de conflitos.

Na adolescência, as amizades são importantes para a construção da identidade e da autoimagem. Nessa fase, talvez mais do que em qualquer outra, o bem-estar psicológico estará diretamente associado com a percepção da Cyro gostaria de fazer parte da sua redequalidade das amizades, por exemplo, se sentir aceito, valorizado pelo outro e estabelecer relações positivas, envolvendo confiança e disponibilidade.

No final da adolescência e início da vida adulta, as demandas que surgem, como ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, podem ser muito estressantes para os jovens e, nesse caso, os amigos são fontes de apoio social, auxiliando a lidar com esses desafios.

Infelizmente, na adolescência, nem sempre as relações estabelecidas são satisfatórias e muitos jovens experimentam um empobrecimento da interação social, gerando muita ansiedade. A piora do bem-estar psicológico pode favorecer o isolamento ou agravar as habilidades sociais, tornando a pessoa mais inibida, com impactos a longo prazo, como aumento da insegurança e redução da autoestima.

Na vida adulta, o trabalho, os relacionamentos afetivos mais estáveis ou filhos, podem diminuir o tempo disponível para o convívio com os amigos, mas há um aumento da qualidade das relações estabelecidas

No envelhecimento, a interação com os amigos também se modifica, se tornando menos frequente ou com encontros mais breves, porém, os amigos representam a maior fonte de proteção contra a solidão.

            A importância de se estabelecer bons relacionamentos foi evidenciada numa pesquisa realizada pela Universidade de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), sendo apontada como um dos fatores que mais influencia o nível de saúde das pessoas, incluindo a longevidade.

            Seria possível detalhar inúmeros estudos que mostram os benefícios de se ter amigos, mas todos eles podem ser resumidos em uma frase: ter amigos torna a nossa vida melhor! 

            Em geral, as relações estabelecidas com os amigos são mais recíprocas, sofrem menos julgamentos e são menos estressantes.

            Amigos nos permitem companhia, apoio e riso solto. Amigos nos acolhem quando precisamos dividir as nossas dores, o nosso choro.

            São os laços que construímos ao longo do caminho… alguns se afrouxam, se desfazem, mas outros estão ali bem firmes. 

São presentes… Desses que a gente agradece todos os dias por ter recebido. Desses que estão sempre com a gente, não nos deixam sós.

Penso nos meus amigos e na importância que eles têm para mim. Me permitem ser quem eu sou e carregam um pouco de mim dentro deles.   

            Na impossibilidade do abraço, faço brigadeiros e envio para os meus amigos. Talvez seja sobre o tempo. Talvez seja sobre a dedicação. Mas acima de tudo, é sobre eles mesmos. 

            Feliz Dia do Amigo!

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O difícil e inútil dilema entre permanecer e mudar

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto Pixabay

Na escolha entre permanecer ou mudar, em geral, eu prefiro as mudanças. Já mudei várias vezes de casa. Mudei de cidade, de país e de projetos.  Mas confesso que colocar as coisas numa caixa e mudar de destino, muitas vezes, parece mais fácil do que vasculhar e alterar aquilo que guardamos dentro de nós, tão bem armazenado... que dá até medo de mexer!

O medo de mudar pode estar associado às incertezas diante de situações desconhecidas, como a ideia de perda de controle ou de previsibilidade, e à crença de haver pouca habilidade para enfrentar os desafios e superar as adversidades.

A tendência de manter os pensamentos ou ações de maneira mais inflexível, possibilita uma impressão de segurança, de domínio de uma situação, mas, por outro lado, pode perpetuar comportamentos e condições bastante disfuncionais e mesmo prejudiciais.

Mudanças pressupõem transformações. Parecem bem-vindas ou mais fáceis quando planejamos e desejamos que ocorram.  Causam estranheza quando surgem de maneira inesperada, demandando que a nossa capacidade de adaptação ou de resiliência entre em ação. Um exemplo disso é a pandemia de COVID-19: impôs alterações para a vida cotidiana, com aulas a distância, trabalho em casa, compras on-line e encontros virtuais. 

Desejamos que o mundo mude. Desejamos que as pessoas mudem. Mas, na impossibilidade de mudarmos os outros, podemos começar modificando uma atitude, um hábito, um sentimento ou uma ideia.

A gente pode até não querer, mas a vida vai exigir deslocamento…

Quando a gente aprende a andar, engatinhar perde a função. Precisamos ficar em pé, nos equilibrar e dar passos. Exige mais esforço? Sim, mas permite ir mais longe, alcançar o que parecia distante.

E depois? Depois a gente vai se apropriando e acredita que não muda mais. E o que acontece? Como disse Luis Fernando Verissimo:

“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung