De olho na vida alheia, você ainda descobrirá muito sobre você mesmo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Cena do filme “A vida dos outros”

O filme alemão “A vida dos outros” foi lançado em 2006 e retrata a época anterior à queda do muro de Berlim, quando a Alemanha estava dividida e a Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, monitorava de maneira rígida a vida da população.

O destaque do filme fica por conta da interpretação do ator alemão Ulrich Mühe, no papel do agente incumbido de vigiar os passos de um dramaturgo e sua namorada, porém ele acaba se envolvendo com suas vidas, passando por uma transformação de seus próprios referenciais.

Na vida real, longe da espionagem realizada para controlar ou censurar a vida dos cidadãos, existe, muitas vezes, uma curiosidade em conhecer a vida de outras pessoas, seus segredos e intimidades.

Em outros momentos, talvez a maneira de se fazer isso seria ouvindo atrás das portas ou olhando pelo buraco da fechadura. Na atualidade, as redes sociais têm facilitado esse processo, numa exposição excessiva de imagens e informações.

Sabemos para onde fulano viajou, quem se separou, quem teve filho, o prato preferido daquela celebridade… a mesma que treina todos os dias para manter a boa forma.

Esse interesse exagerado em saber da vida alheia pode impactar a percepção que temos de nós mesmos, promovendo comparações injustas que desconsideram a nossa individualidade e história de vida.

As comparações injustas acontecem, por exemplo, quando interpretamos os acontecimentos em termos de padrões irrealistas, colocando um foco ampliado naquilo que as outras pessoas se destacam ou se saem melhores, gerando um sentimento de inferioridade.

A comparação entre a nossa vida real, essa com algumas conquistas e também cheia de limitações e tropeços, e a vida que apresenta padrões ideais, editada em fotos e narrativas, pode promover a impressão de que estamos sempre em débito e — como já ouviamos há muitos anos — a grama do vizinho é sempre mais verde.

O problema de se interessar excessivamente pela vida dos outros, é conhecer em demasia o que se passa do lado de fora, deixando de enriquecer, com experiências próprias, o que está dentro de cada um.

Entretanto, o interesse pelos outros também tem seus aspectos positivos: conhecer realidades tão distintas possibilita derrubar muros e romper com os preconceitos. Isso nos aproxima, nos torna mais humanos. Expande nossos horizontes e nos permite enxergar a vida, de tão ampla que é, para além de nós mesmos.

Isso seria a diferença entre a bisbilhotagem da vida alheia e o interesse genuíno pelas pessoas, nem sempre algo tão simples de ser atingido.

Com uma delicadeza ímpar, o filme “A vida dos outros” nos remete a essa reflexão. De um lado, nos apresenta como a vida pode ser grampeada e controlada apenas para se obter dados, como num regime ditatorial. De outro, revela como a aproximação e a descoberta de um universo distinto, de pessoas diferentes, de realidades diferentes, podem ser transformadores e nos conduzir a um conhecimento mais profundo. Não sobre o outro, mas acerca de nós mesmos.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O amor faz um bem danado

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Jasmine Carter no Pexels

“E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida”

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

Como explicar o que é o amor?

Na tentativa de decifrar esse fenômeno que acompanha a civilização humana desde os seus primórdios, surgiram mitos, lendas, poesias, músicas e, mais recentemente, estudos científicos bastante elaborados, como experimentos que utilizam a Ressonância Magnética Funcional para investigar a atividade cerebral relacionada ao amor romântico e a formação de vínculos.

Uma das áreas de maior ativação cerebral relacionada aos vínculos afetivos envolve o sistema de recompensa, um circuito cerebral que processa a informação diante da sensação de prazer.

Esse sistema é bastante antigo em termos de evolução e está relacionado à sobrevivência, permitindo que os animais tenham motivação, se engajem e mantenham comportamentos, como buscar alimento ou o sexo, possibilitando a perpetuação da espécie.

Diante de situações prazeirosas, ocorre uma liberação de substâncias químicas no cérebro, a dopamina, responsável por ativar esse sistema de recompensa. Assim, se a ação executada trouxer satisfação, prazer ou alegria, o cérebro vai registrar essa consequência e ações repetidas se seguirão, na busca por obter novamente essas sensações.

Com o amor vai acontecer algo semelhante.

Diante da pessoa pela qual se está interessado, a dopamina será liberada, ativando o sistema de recompensa cerebral, promovendo euforia e bem-estar.

Isso vai gerar o desejo de estar cada vez mais próximo dessa pessoa, repetindo-se esse ciclo, que poderia ser chamado, não à toa, de círculo vicioso.

Os estudos também apontam que outras substâncias, como a vasopressina e a oxitocina, poderiam influenciar a formação de vínculos afetivos, porém estariam associadas a maior estabilidade e segurança dos relacionamentos, reduzindo a necessidade de estar constantemente ao lado do ser amado.

De maneira simples, poderíamos associar a dopamina com a fase da paixão e o amor companheiro, mais maduro, com a oxitocina.

Mas vamos combinar, se há milênios tentamos explicar o que é o amor, não parece muito romântico, na semana do dia dos namorados, dizer que se resume a uma liberação de substâncias químicas e ativação cerebral!

Se a flecha de Eros, o deus do amor, nos atingiu, em vez de pensar em dopamina, talvez possamos nos concentrar naquelas borboletas no estômago, no coração que bate mais forte, naquele desejo de estar junto, abraçar e poder manifestar, para quem se quer bem, todo o nosso amor.

Como disse Carlos Drummond de Andrade:

“O amor foge de todas as explicações possíveis”.

Então, viva o amor! Isso faz um bem danado!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Eu estou aqui, diga-me como você sente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagine a seguinte situação: Você telefona para um conhecido e, ao atender, ele diz que não consegue te escutar. Você insiste em perguntar: “tá me ouvindo agora?“. Ele diz: ´´Alô? Alô? Não escuto nada!“. Você aumenta a voz e se dá conta de que não adianta. Ele não te ouve. Na impossibilidade de comunicar o que você gostaria de maneira eficiente, clara, você encerra a chamada.

Algo semelhante vai ocorrer quando há a invalidação das emoções.

A invalidação emocional ocorre quando alguém comunica sua emoção, o que está sentindo e somos incapazes de compreender. Para quem comunica, fica a impressão de que sua mensagem foi errada ou inapropriada.

Ainda muito precocemente ensinamos as crianças a lidarem com as suas emoções. A família desempenha um papel significativo nesse processo, estimulando a criança a expressar o que lhe é importante. O modo como se sente, as suas convicções e suas preferências são levadas em conta. Por outro lado, ambientes invalidantes tendem a não responder às comunicações feitas pela criança ou exigem que ela não expresse suas emoções, especialmente quando se tratam de emoções negativas.

Isso pode contribuir para que haja uma dificuldade em alterar ou regular condições emocionais, que rapidamente se acentuam e passam a ser percebidas como tensões praticamente insuportáveis, difíceis de serem toleradas e para as quais se busca, frequentemente, tentativas disfuncionais de regulação, como o consumo demasiado de bebidas alcóolicas.

Engana-se quem pensa que a invalidação acontece apenas na infância, quando os pais dizem à criança que não chore porque o que ela sente não é nada demais ou quando simplesmente ignoram seu choro.

Dizer a um adolescente que sua tristeza não se justifica, afinal ele tem tudo o que necessita para ser feliz. Dizer a alguém que o que lhe aconteceu não é tão grave assim, afinal isso nem é tão ruim quanto parece. Pedir a alguém que se levante e faça suas coisas porque depressão é coisa de fraco. Isso tudo contribui para dizer para essas pessoas que seus sentimentos não são válidos, não são legítimos.

Imagino que muitos de nós já dissemos palavras, até mesmo positivas, na esperança de que pudessem levar alento e encorajamento para as pessoas. Mas não é apenas sobre o que se fala. É sobre o que se ouve e como isso repercute num momento de fragilidade, de vulnerabilidade emocional.

Quando dizemos a alguém que não deveria se sentir desse jeito, talvez desejássemos dizer que não gostaríamos que essa pessoa estivesse passando pela dita situação, que gostaríamos que o mundo fosse mais gentil com ela, que a vida fosse mais leve. Mas ao falarmos que ela não deveria se sentir assim, estamos mencionando que seus sentimentos não fazem sentido, que a maneira como se sente deveria ser outra, fazendo, mesmo que sem perceber, um julgamento.

Validação é conferir verdade àquilo que se sente.

É respeitar e compreender o que o outro está sentindo e ajudá-lo a elaborar e superar esse momento.

É simplesmente dizer: estou aqui. Me diga como se sente. Posso compreender. Se tiver algo que eu possa fazer para que você se sinta melhor, por favor me diga.

Alô? Pode continuar… eu consigo te ouvir claramente.

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Nossos heróis de cada dia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A minha primeira ida ao cinema aconteceu no final da década de 70, para assistir a Superman: o filme, com Christopher Reeve no papel de Clark Kent, retrata um repórter que, ao deparar com uma situação que coloca em risco a vida de sua colega de trabalho, Lois Lane ( Margot Kidder), revela seus super poderes. Ao longo do enredo, torna-se responsável por desviar um ataque de míssil, minimizar os efeitos de uma explosão nuclear e, ainda, alterar a passagem do tempo para salvar sua amada.

Nos dias que se seguiram, era muito comum que eu e meus irmãos colocássemos toalhas de banho amarradas no pescoço, nossas capas, para exibirmos nossos superpoderes, que incluíam pular de um sofá para o outro.

Na atualidade, outros heróis fazem mais sucessos, especialmente aqueles criados pela Marvel, mas os ideais continuam os mesmos: combater os inimigos e criminosos, numa luta incansável para que o bem vença o mal.

Apesar de parecer uma criação da nossa sociedade moderna, heróis com superpoderes são descritos em diferentes culturas e desde tempos remotos, como aqueles retratados em histórias mitológicas da Grécia Antiga.

Na mitologia grega, os heróis eram personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais, superiores aos dos humanos, como inteligência e força, que os tornavam capazes de vencer inimigos ou atuar em missões impossíveis; por outro lado, como não eram deuses, apresentavam algumas fragilidades psicológicas ou corporais, semelhantes aos seres humanos.

Hércules, por exemplo, era conhecido por sua força física. Foi capaz de vencer doze tarefas difíceis que lhe foram propostas, mostrando-se poderoso contra seus inimigos. Matou diversos monstros, ganhou todas as categorias dos jogos olímpicos e venceu a própria morte.

Seja através da mitologia grega ou dos personagens da Marvel, as aventuras e fantasias criadas pelas ações dos super-heróis, de certo modo, resgatam um ideal coletivo: a esperança de que a justiça prevaleça e que o bem se perpetue.

Especialmente em momentos nos quais sobram desafios a serem superados, e na ausência de medidas eficazes que possam resgatar direitos básicos, como segurança, comida e vacina, o faz de conta parece invadir nossa imaginação.

Aguardamos pelo momento no qual um grande feito seja realizado e atinja a todos de maneira equitativa. Aguardamos pelo momento no qual atrocidades e injustiças não aconteçam mais.

Possivelmente, essa expectativa se desenvolve como um modo de proteção diante de noticias e realidades tão difíceis de serem assimiladas. Buscamos na fantasia um universo paralelo, capaz de resgatar a esperança,  apesar das durezas da vida.

 Talvez a nossa imaginação ou ideias prévias nos permitam pensar nos heróis como aqueles que são capazes de vencer monstros e ataques, exterminam inimigos e realizam feitos impossíveis a nós, seres humanos.

No entanto, provavelmente, um olhar mais cuidadoso nos revele a existência de pessoas que, apesar de não terem poderes especiais, realizam diariamente ações que modificam a vida alheia. Não apresentam forças sobrenaturais ou coragem extrema, mas agem na vida cotidiana atendendo aos interesses coletivos.

Imagino que você, assim como eu, consiga se recordar de algumas dessas pessoas, frequentemente anônimas, que nos ensinam que o verdadeiro heroísmo não é um dom ou algo além dos limites humanos. Pelo contrário. São pessoas comuns, talvez raras, mas comuns; nas quais poderíamos nos inspirar e descobrir que não são as capas ou os símbolos que as diferenciam.  Não é coragem excessiva. É determinação em fazer o que deve ser feito.

Duelam bravamente todos os dias e, muitas vezes, enfrentam lutas internas que quase as fazem fraquejar, porém, se levantam, não se intimidam com os obstáculos.

E, semelhantes ao heróis dos quadrinhos ou do cinema, passam por nós disfarçados de médicos, bombeiros, professores, vizinhos, amigos, desconhecidos. Heróis de uma vida real que reasseguram a esperança de que os vilões ainda serão derrotados e que poderemos viver seguros e felizes nesse nosso planeta.

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Saúde mental não é um bicho de 7 cabeças

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Mariana Montrazi no Pexels

O filme ´´Bicho de Sete Cabeças“ (2000), dirigido por Laís Bodanzky, se tornou aclamado no cinema brasileiro ao provocar reflexões sobre os abusos praticados nos hospitais psiquiátricos, desde o uso de eletrochoques como punições às internações de longa permanência que promoviam o isolamento e exclusão social de pacientes, com pouca ou nenhuma finalidade terapêutica.

Infelizmente, essa foi a realidade de muitos doentes mentais até a década de 80, quando novas medicações permitiram uma transformação no atendimento psiquiátrico, que substituiu as longas internações por tratamentos ambulatoriais. Paralelamente, inúmeras denúncias de maus tratos e desrespeito aos direitos humanos desses pacientes permitiram o crescimento de movimentos antimanicomiais, levando ao desmonte de grandes hospitais psiquiátricos no Brasil.

Tal movimento teve início na década de 70, com o médico italiano Franco Basaglia, na cidade de Trieste, cujos ideais preconizavam a desinstitucionalização do paciente psiquiátrico e sua reinserção na sociedade, considerando que os modelos psiquiátricos de tratamento, vigentes até então, contribuíam com a exclusão e opressão dos pacientes.

Esses ideais se difundiram por vários países, incluindo o Brasil, cujo movimento envolveu a defesa pelos direitos humanos e pelo resgate da cidadania dos pacientes com transtornos mentais, contribuindo, ainda, para o movimento da Reforma Psiquiátrica.

Com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, profissionais, pacientes, familiares e instituições acadêmicas questionaram o modelo de assistência centrado nas internações, denunciaram as violações aos direitos dos pacientes e propuseram um novo modelo de atenção em saúde mental, incluindo ações para a reabilitação psicossocial através da inserção pelo trabalho, cultura e lazer.

Pessoas com transtornos mentais já foram perseguidas e executadas nos tribunais da inquisição. Pessoas com transtornos mentais já foram internadas e torturadas.

Pessoas com transtornos mentais muitas vezes se tornam invisíveis ou permanecem rotuladas por uma sociedade que ainda concebe a doença mental como sinônimo de fragilidade. 

Atualmente, falar sobre transtornos mentais deixou de ser assunto restrito aos consultórios de psiquiatria e psicologia. Especialmente com a pandemia e as mudanças por ela impostas, temas como depressão e ansiedade se tornaram mais acessíveis e até mesmo mais familiares para muitos de nós.  

De certo modo, isso revela mudanças históricas e culturais significativas relacionadas à saúde mental, apesar da ocorrência, ainda frequente, de estigmas e preconceitos.

Será que estamos mais conscientes? Será que descobrimos, finalmente, que o adoecimento mental faz parte da nossa humanidade?

No dia 18 de maio, comemoramos o Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Um movimento que trouxe novas perspectivas para as pessoas com transtornos mentais. Um movimento que abriu caminhos que ainda percorremos, para que novas mudanças ocorram e permitam que “bicho de sete cabeças” seja apenas nome de filme e não sinônimo das dificuldades enfrentadas na promoção e tratamento em saúde mental.

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Às mães atípicas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Especialmente na semana que comemoramos o Dia das Mães, o estereótipo materno invade os meios de comunicação, enaltecendo aquela que sabe de todas as coisas, que é a rainha do lar, capaz de tudo suportar. 

Ao longo do tempo,  o conceito de maternidade sofreu profundas mudanças históricas e culturais, mas a manutenção de uma visão poética e romantizada, por vezes, limita discussões e não corresponde à realidade de inúmeras mulheres. 

Maternidades típicas e atípicas.

Maternidade que por vezes vai além da noite mal dormida, da dúvida entre o aleitamento materno ou a mamadeira, do choro de cólica ou de colo.

Mães atípicas.

Sua maternidade é construída com o filho que tem deficiência,  transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.

Falo sobre essas mães. Mães que muitas vezes são esquecidas.

Descobriram com a maternidade uma jornada de desafios que excedem os padrões.

Frequentemente estão sozinhas ou são acompanhadas por olhares que englobam um misto de pena e responsabilização.

Onde falharam?

A pergunta que também ressoa em seus pensamentos, gerando culpa e impotência.

Não falharam.

Fizeram e fazem o melhor que podem, mas como não são heroínas, e sim mulheres de carne e osso, nem sempre conseguem fazer tudo o que gostariam.

Por vezes faltam recursos financeiros e educacionais, acesso a tratamentos adequados, apoio familiar, medidas governamentais. Mas não faltam o seu empenho, a sua dedicação, seu amor genuíno e uma vontade de seguir em frente mesmo quando parece não haver mais energia capaz de sustentar o seu corpo cansado, exausto pela rotina.

Lutam batalhas mais penosas, quando precisam exigir que seus filhos sejam incluídos e não sofram os preconceitos de uma sociedade cuja medida de valor se baseia excessivamente na análise  de desempenhos acadêmicos e sucessos profissionais em detrimento do afeto.

Perdem a paciência, sentem  tristeza. Perdem o sono, sentem medo. 

Vocês não são perfeitas, queridas mães. E está tudo bem. O que não vai bem é a nossa incapacidade de acolher a sua preocupação e o seu pranto, de conhecer as suas necessidades e lhes oferecer uma ajuda eficaz.   

Sim. Nós que somos mães, pais, filhos ou irmãos típicos, estamos falhando com vocês.

Parabéns para cada mãe. Para cada uma que apesar de não ter superpoderes, pode simplesmente ser. E isso, vamos combinar, já dá um trabalho danado!

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Carecemos de presença

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Khoa Võ no Pexels

Queria escrever um texto suave que falasse de esperança e prosperidade.

Queria escrever sobre meninos correndo livres pelas ruas e praças.

Sobre pessoas e abraços apertados. 

Mas há uma ausência de palavras.

O tempo, que antes parecia um aliado, agora nos escapa, nos confunde.

O presente, marcado por escassez de novidades, reforça em nossas memórias uma melancolia sorrateira, daquelas que precisamos vigiar para não enveredar.

É preciso um certo esforço para que o coração seja acalmado. É preciso um certo esforço para evitar que ele retenha feridas de uma face da realidade, ainda pouco conhecida.

Resistimos.  E pouco a pouco, com esperança tímida, imploramos ao futuro que se encarregue das mudanças que nos permitam sorrisos, afagos, encontros.

Somos equilibristas nessa tal linha da vida…

O que nos sustenta? Não estamos sós. 

Somos a somatória das pessoas que passam por nós. Por vezes, esquecidas ou distantes, mas nunca ausentes; porque de certo modo, carregamos cada uma dentro de nós.

Sua presença repercute em nossas crenças, medos e expectativas. Sua presença ressoa no olhar acolhedor, nas mãos que nos amparam ou nas palavras que nos encorajam.

Carecemos de presença.

Dessas que nos permitam percorrer um caminho que nos leve a encontrar um sentido e seguir com esperança.

Desejamos ser presença. 

Dessas que permitam ao outro percorrer um caminho mais feliz, com uma vida digna e um futuro melhor. 

Como diria Saint-Exupéry:

“O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça”.

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Neurossexismo, um infeliz legado de Darwin

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de @gerdaltmannpixabay

William James (1842-1910) foi o pioneiro da psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos, tendo fundado o primeiro curso de psicologia naquele país, na Universidade de Harvard, em 1876. Foi um dos grandes estudiosos sobre a consciência humana, com ênfase nos aspectos não racionais, destacando que as emoções determinariam as crenças e que as necessidades e os desejos humanos influenciariam a formação da razão e dos conceitos.

O impacto dos estudos de James no avanço científico da psicologia americana foi muito além de suas pesquisas desenvolvidas, contribuindo na superação de barreiras discriminatórias e preconceituosas impostas a Mary Whiton Calkins (1863-1930), aceitando-a em seus seminários e pressionando a universidade a conceder-lhe a graduação, que, até então, lhe fora negada.

Calkins foi a primeira mulher a completar todos os cursos, exames e pesquisas requisitados para um doutorado, mas a Universidade de Harvard se recusou, na época, a conceder o título a uma mulher, não aceitando sua matrícula formal. A razão alegada para essa restrição era a crença generalizada na chamada superioridade intelectual masculina. A partir desse argumento, embora certas mulheres recebessem as mesmas oportunidades educacionais dadas aos homens, as deficiências intelectuais femininas, que seriam inatas, não permitiam que obtivessem benefícios do processo acadêmico.

Parte desse mito sobre a superioridade intelectual do homem surgiu da hipótese de variabilidade, baseada nas ideias de Darwin a respeito da variabilidade masculina. Estudando diversas espécies, Darwin descobriu que o macho tinha uma variedade mais ampla de desenvolvimento das características físicas e das habilidades do que as fêmeas. Esse dado foi extrapolado para a humanidade, e passou-se a atribuir às mulheres a qualidade de inferioridade aos homens, tanto nas questões mentais como nas físicas, embasando o discurso que, posteriormente, seria usado por Harvard.

Essa ideia de desigualdade funcional entre os sexos foi considerada tão óbvia na época que dispensava comprovações científicas. Naquele momento, uma teoria popular a respeito dessa desigualdade afirmava que, se as mulheres fossem expostas à educação superior, sofreriam de danos físicos e emocionais que colocariam em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade.

No início do século XX, duas psicólogas desafiaram a ideia de desigualdade funcional entre os sexos e desenvolveram estudos consistentes que demonstraram que Darwin e outros cientistas da época estavam equivocados a respeito das capacidades cognitivas da mulher. 

Embora estudos de relevância científica não apontem diferenças funcionais para o cérebro de homens e mulheres, ainda hoje observamos o neurossexismo, uma tendência pautada em pseudociência e práticas metodológicas falhas, que visa a reforçar diferenças intrínsecas entre os sexos. 

No livro The Gendered Brain, a neurocientista Gina Rippon chama a atenção para o neurossexismo, que tem sua origem no século XVII, e ainda se perpetua. A autora destaca diversos estudos mal-conduzidos que geraram resultados precários ou conclusões precipitadas, mas que foram amplamente veiculados na mídia como “finalmente a verdade” sobre os cérebros masculinos e femininos.

No entanto, diversos estudos, que seguem o rigor científico e que se baseiam em exames de imagem, neurociências sociais e em dados obtidos com recém-nascidos, apontam cada vez mais que o desenvolvimento do cérebro está muito mais entrelaçado com as experiências de vida do que meramente ligadas a fatores biológicos, demonstrando a sua plasticidade e a sua vinculação com os fatores ambientais. 

Se Harvard não permitia que lá estudassem as mulheres, se Darwin propôs que elas seriam inferiores aos homens… o que será que ainda estamos tentando demonstrar através dessas explicações pseudocientíficas?

Não precisamos de estudos que apontem as diferenças. Precisamos de oportunidades que permitam às mulheres viverem a igualdade. 

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O que o passado nos ensina sobre as escolhas do presente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de PixxlTeufel por Pixabay 

“O que poderia ter sido e o que foi

Apontam para um único fim, sempre presente.

Passos ecoam na memória 

Pelo caminho não escolhido

Rumo à porta que nunca abrimos.”

T.S.Eliot, “Burnt Norton”

Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.

Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.

A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas. 

As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal. 

Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais. 

Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.

Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo. 

Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.

Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos. 

No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.

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A teoria do furinho na blusa e a autocompaixão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

            

Foto de Ismael Sanchez no Pexels

Há alguns anos, quando eu ainda tinha um consultório na cidade de Vitória, uma das minhas funcionárias – diga-se de passagem uma das pessoas mais amáveis que já conheci – tinha um comportamento que despertava minha atenção. Ao receber um elogio, seja de um profissional da clínica ou de um cliente, ela não menosprezava o que havia acabado de ouvir e sempre tinha uma resposta que reforçava a veracidade de suas qualidades.

Um dia, ouvi alguém comentar que sua blusa era muito bonita, e ela prontamente respondeu: “Muito obrigada. Eu também acho essa blusa linda”.

Aquilo me fez refletir sobre como lidamos diante da forma como as pessoas pensam e agem sobre nós mesmos.

Semelhante a outras aprendizagens, muito precocemente descobrimos que diante de elogios devemos evidenciar para os outros as nossas falhas, fraquezas ou erros, como uma demonstração de humildade. 

A partir disso, nos tornamos severos conosco. Buscamos modelos de perfeição em tudo que somos e fazemos e, diante de alguns tropeços, temos uma tendência a sermos muito autocríticos, intolerantes com os nossos sentimentos, culpados pelas nossas ações.

Esse exemplo da minha funcionária me fez criar a “teoria” do furinho na blusa. Explico: imagine que alguém diz para você que sua blusa é linda e você prontamente reage alegando coisas como: “mas ela não custou quase nada, ela é tão velha e você não viu esse furinho que tem aqui!”.

Quantas vezes somos admirados, reconhecidos e valorizados por quem somos, mesmo que um pouco desbotados ou com furinhos que marcam nossa trajetória, e não nos apropriamos desse reconhecimento. Pelo contrário, invalidamos o elogio, invalidamos a nós mesmos, com desculpas de não sermos perfeitos.

Queremos saber todas as respostas para o curso que acabamos de iniciar. Queremos bater as metas do mês em seus primeiros dias… Se não somos absolutamente a melhor versão de nós mesmos, automaticamente reconhecemo-nos como uma fraude, um fracasso.

Essa busca exagerada por modelos de perfeição é tão sabotadora que em geral nos leva à procrastinação. Deixamos de agir, de concluir tarefas ou até mesmo de aceitar boas possibilidades porque julgamos não estarmos prontos ou não sermos bons o suficiente para as demandas da situação

O curioso é que muitas vezes, somos compreensivos com as demais pessoas, somos solidários com os seus sentimentos e com seus erros, mas elevamos o padrão de exigências conosco, aumentando os sentimentos de culpa. Usamos de dois pesos, duas medidas. Somos mais compassivos com os outros do que com nós mesmos, porque nos esquecemos que as pessoas passam por nossa vida, mas nós permaneceremos nela.

Carecemos de autocompaixão, ou seja, de sermos capazes de agir conosco da melhor forma, com a qual agiríamos com as outras pessoas. 

Seja gentil com você, se perdoe por seus erros, se apoie e seja amável. E quando receber um elogio ou reconhecimento, antes de verbalizar aquelas várias frases prontas capazes de diminuírem suas qualidades, lembre-se do exemplo da blusa, e ao invés de sair mostrando para o outro aquele defeitinho, saiba que ele pode até não ser o detalhe mais virtuoso, mas está longe de representar a totalidade do ser. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung