Carta aberta para minhas filhas

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Anthony no Pexels

Queridas filhas,

Onde foi que eu errei?

Antes que vocês respondam a essa pergunta, permitam-me expor o meu ponto de vista.

Ainda durante a gestação, tive que decidir sobre o tipo de parto que eu teria, com base numa enxurrada de informações que indicavam o que seria melhor para o bebê. Li artigos, conversei com médicos e com outras mulheres e, quando decidi que faria o parto natural, fui parabenizada por muitos. Seguia firme no meu propósito, afinal, de algum jeito, vocês teriam que sair da minha barriga.

Fui surpreendida pela ausência de dilatação e, após 14 horas de parto e com 42 semanas de gestação, evoluí para uma cesárea. Pelo menos eu havia tentado…

No fundo, não estava triste ou frustrada, mas suspirava aliviada após uma cesariana sem intercorrências, por não ter passado pela dor do parto sem anestesia. Não tive partos normais pela ausência de dilatação. Confrontada pela ausência de coragem, essa explicação me trazia conforto.

Nas primeiras semanas de amamentação, uma dificuldade tornou quase inviável o aleitamento materno. Eu não conseguia sequer imaginar a introdução da mamadeira… Exceto quando a dor parecia insuportável e eu pensava como a mamadeira poderia resolver o meu problema.

Bom mesmo era quando me elogiavam pela refeição saudável que eu oferecia para vocês. Mal sabiam que eu tinha saído voando de uma reunião no trabalho, passado na feira orgânica e, quase sem fôlego, chegado atrasada para buscá-las na saída da escola. Afinal, crianças precisam de pratos coloridos e saudáveis e eu não seria uma mãe preguiçosa, como aquelas que dão comidas prontas para os filhos!

Diante desses elogios eu engolia a seco, sabendo das vezes que tinha feito macarrão instantâneo. Falta de tempo ou preguiça mesmo.

Melhor ainda era chegar na escola e receber um feedback positivo das professoras e coordenadoras, dizendo que se todas as mães fossem como eu, as crianças seriam obedientes e responsáveis. Isso me validava para não permitir faltas, enrolação para fazer o dever de casa ou broncas quando vocês atrasavam – porque eu me atrasaria para minhas obrigações profissionais e sabia que responsabilidade é coisa para adultos.

E tinha muito mais.

Quando vocês se sentavam na bancada da cozinha, pequenininhas, a gente se divertia fazendo bolo, contando os ovos ou dizendo as cores dos ingredientes. Tinha o domingo na praia, os inúmeros (e minúsculos sapatinhos) das bonecas, os abraços apertados, os brigadeiros enrolados para as festas de aniversário, numa construção de memórias afetivas que nos enchem de saudade.

Mas se eu não fosse dura, não cuidasse da alimentação, do sono, dos riscos, dos desafios… O que seria de vocês?

Pois é, minhas filhas, aí talvez esteja o maior erro: eu acreditava que dependia excessivamente das minhas ações para que a vida de vocês fosse isso ou aquilo.

Eu acreditava que se fosse perfeita, não por um capricho, mas por uma preocupação enorme, vocês teriam vidas plenas e felizes.

Nessa busca pela perfeição, aceitei, assim como a maioria de nós mulheres, cobranças excessivas, sugestões indevidas, de uma sociedade que ainda dita regras de como nós devemos agir, numa atribuição de culpa pela falibilidade das mães.

Na ausência de perfeição em mim, em alguns momentos, talvez eu a tenha delegado para vocês, desejando que correspondessem às minhas expectativas e assim me ajudassem a diminuir o sentimento de ter falhado ao prestar contas à sociedade.

Para a minha sorte, vocês não atenderam ao meu desejo e questionaram esse sistema perverso e opressor.

Com a ajuda de vocês, descobri que não depende de mim. Podemos nos apoiar mutuamente, nos encorajar, viver plenamente, ainda que a vida seja isso, aquilo ou além.

Para encerrar, não precisam responder à pergunta inicial, ela ficou sem sentido… 

Mas não esqueçam de pegar o guarda-chuva e um casaco porque a frente fria está chegando… Eu sei, eu sei… Mãe é assim mesmo!

Vale então, queridas filhas, um último conselho?

Sejam vocês! É isso o que eu mais posso desejar.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

O que você faz para realizar seus sonhos?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Photo by Andrea Piacquadio on Pexels.com

“Oh, nem o tempo amigo

Nem a força bruta pode um sonho apagar”

Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Qual é o seu maior sonho?

Não falo daquele sonho que a gente tem quando está dormindo: me refiro aos que temos quando estamos acordados.

Há quem sonhe em conhecer um lugar, em comprar um carro ou frequentar um restaurante. Há quem deseje um mundo sem guerra, livre de desigualdades e com um futuro melhor para crianças e jovens.

Independentemente daquilo que almejamos, a nossa busca está em realizar aquilo que acreditamos que nos trará felicidade ou bem-estar.

Desde a década de 1990, a psicologia positiva tem se dedicado a estudar os fundamentos da felicidade e do bem-estar, procurando identificar os fatores que contribuem para que as pessoas se sintam satisfeitas com a vida e como isso pode ser um fator de proteção à saúde mental. 

Martin Seligman, psicólogo e principal autor dessa teoria, propõe cinco elementos que compõem o bem-estar:

  • emoções positivas,
  • engajamento,
  • relacionamentos,
  • significado
  • realização.

As emoções positivas são os pensamentos e as ações que promovem a sensação de alegria e prazer, sendo propulsoras para que possamos sonhar, planejar e realizar aquilo que desejamos. 

O engajamento compreende um estado de atenção plenamente focada, quando ficamos completamente absorvidos por aquilo que realizamos. O trabalho é capaz de nos gerar esse estado, mas estar diante da pessoa por quem estamos apaixonados… Ah! Isso dispensa maiores explicações. Parece até que o tempo para!

Os relacionamentos compreendem as conexões estabelecidas com outras pessoas, e quanto mais positivas, mais positivos serão os pensamentos e emoções gerados.

Significado se refere a ter um propósito, a agir de acordo com aquilo que é valioso para nós. De ser quem desejamos nos tornar — e não estariam aqui os nossos sonhos?

Em 2020, uma pesquisa realizada pelo Instituto IKATU com 2.265 jovens brasileiros, com idades entre 12 e 24 anos, identificou que a felicidade percebida estava diretamente relacionada a um propósito de vida. 

Quanto mais conhecermos sobre nós mesmos, sobre os nossos valores e crenças (aquilo que nos é importante, não apenas no sentido moral ou religioso), mais efetivas serão as nossas ações para atingirmos os nossos objetivos, sejam eles momentâneos ou relacionados aos nossos propósitos.

E ter esperança conta?

Para Charles Snyder, psicólogo americano e um dos maiores estudiosos sobre o tema, a esperança é uma avaliação realista sobre os desejos e os meios para alcançá-la. Portanto, não é uma espera, mas uma análise dos caminhos a serem percorridos.

Para Snyder, a esperança e o otimismo são distintos. O otimismo está relacionado a expectativas positivas de êxito e realização no futuro, mesmo diante de dificuldades ou fracassos. A esperança, por sua vez, compreende expectativas positivas relacionadas à capacidade de alcançar metas ou objetivos. Desse modo, o otimismo está mais relacionado aos pensamentos sobre os desfechos, e a esperança, mais vinculada com as possíveis ações para que esse resultado seja atingido.

Otimistas ou esperançosos, o que desejamos é que os nossos sonhos se realizem e nos tragam felicidade.

Pare por um instante e reflita na pergunta inicial: qual é o seu maior sonho? Acrescento: o que você tem feito para realizá-lo?

O ditado popular alerta que sonhar não custa nada. Então aproveite. Nem precisa ser um sonho só, afinal, como canta Beto Guedes: “quem sonhou só vale se já sonhou demais”.

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Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Na guerra, as crianças são as primeiras vítimas

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Reprodução de vídeo em que pai se despede da filha na Ucrânia

Em 2014, quando eu fazia meu pós-doutorado na França, grupos jihadistas extremistas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, se envolveram na guerra civil que ocorria na Síria, desde 2011,  agravando a crise humanitária existente. Naquela época, diversos refugiados tentavam migrar para países da Europa, numa busca por sobrevivência. 

Recordo-me do dia que minha filha chegou em casa após a aula e, muito desolada, tentava compreender como uma colega de sala, que acabara de chegar na escola, poderia viver na França sem falar o idioma, com apenas 13 anos de idade e nenhum familiar por perto. Essa colega havia sido resgatada, após o barco no qual estava ter naufragado. Seus pais? Não conseguiram dinheiro para viajar com ela e, numa tentativa de salvá-la, optaram por lhe permitir uma vida melhor, longe dos conflitos em seu país.

Infelizmente, esse não é um relato isolado da colega de escola da minha filha, mas reflete um cenário catastrófico a que são submetidas todos os dias, milhares de crianças e adolescentes ao redor do mundo, vítimas de conflitos armados.

Quais os impactos que essas situações tão extremas, tão traumáticas, podem ter sobre a saúde mental de crianças e adolescentes? 

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, eventos traumáticos são situações experimentadas ou testemunhadas pelo indivíduo, nas quais houve ameaça à vida ou à integridade física própria ou de pessoas ligadas por laços afetivos. Na infância e adolescência, essas situações podem envolver abuso físico ou sexual, negligência, acidentes automobilísticos, assaltos, desastres naturais ou guerras.

Ao longo da vida, muitas pessoas vão experimentar eventos traumáticos e algumas poderão, inclusive, reagir de maneira resiliente. Entretanto,  vivenciar essas situações nos primeiros anos de vida, pode impactar o desenvolvimento infanto-juvenil em diferentes níveis, com alterações neurobiológicas, psicológicas e sociais, cujas consequências podem se prolongar na vida adulta. 

Apesar de não se manifestar da mesma maneira em todas as crianças, cerca de 20% daquelas expostas a eventos estressores irão apresentar alguma reação pós-traumática mais desadaptativa,  com grave sofrimento e perda de funcionalidade, tais como pesadelos, ansiedade, depressão, comportamentos suicidas, irritabilidade, comportamentos agressivos e baixo rendimento escolar.

As guerras prejudicam o acesso à educação; geram deficiências e limitações físicas por lesões ou perdas de membros, como braços e pernas. Geram falhas no crescimento e no desenvolvimento causadas pela desnutrição. 

As guerras separam famílias, distanciam pais e filhos que talvez nunca mais se encontrem.

Nas guerras, crianças são sequestradas, abusadas, recrutadas como soldados… Crianças são mortas!

Somente na Síria, mais de 9 mil crianças foram mortas ou feridas. Os conflitos no Iêmen, dizimaram a vida de 10 mil crianças.

Crianças e adolescentes, como Kim Phúc, a menina que em junho de 1972, aos nove anos, apareceu correndo com os braços abertos, o corpo nu queimado e a expressão de terror no rosto, após ser atingida por uma bomba química no conflito entre Vietnã e Estados Unidos. 

Crianças e adolescentes como Alan Kurdi, o menino sírio de três anos de idade que morreu afogado numa praia da Turquia, em 2015, quando seus pais tentavam fugir como refugiados do conflito na Síria.

O trauma da guerra pode ser tão devastador quanto o potencial bélico das nações: gera  medo… Encurta a vida.

Como explicar, como definir todo o sofrimento imposto pelos conflitos armados para vidas tão prematuras? Como explicar que colocar um filho num barco, sozinho, pode ser uma grande prova de amor? 

Talvez pela sorte e felicidade de não ter vivenciado algo parecido, minhas respostas devem ter sido simples e superficiais diante das indagações da minha filha. Não passei por essa dor e não consigo dimensioná-la.

O relato comovente da esposa do jogador Maycon, a mãe que conseguiu sair da Ucrânia juntamente com seus filhos, nos dá uma ideia dos horrores que a guerra produz: comeu o caroço das maçãs que tinha, uma para cada filho. Ela ainda cantou para eles, possivelmente no auge do seu desespero, numa tentativa de tranquilizá-los.

Lyarah Barberan, a mulher que não comeu a maçã, só o seu caroço para enganar a fome, não foi expulsa do paraíso. Apenas desejava fugir do inferno, enquanto protegia as suas crianças.

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Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

A arte de interpretar, do cinema ao divã

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“É muito importante que os filmes façam as pessoas olharem para  o que elas esqueceram”

Spike Lee, diretor
Photo by Dmitry Demidov on Pexels.com

A história do cinema teve início em dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram o primeiro filme de curta duração, em Paris. A capacidade de captar imagens dinâmicas da realidade foi possível graças ao desenvolvimento do cinetoscópio e, posteriormente, do cinematógrafo, aparelho que permitiu gravar e projetar as imagens em uma tela. Inicialmente sem som, o cinema se desenvolveu e permitiu diálogos e reflexões, sendo uma manifestação cultural e uma expressão de realidades percebidas e interpretadas ou, mesmo, de ilusões criadas por seus autores.

A história da psicologia, como disciplina científica,  também teve seu início no fim do século XIX, na Alemanha, com o estabelecimento do primeiro laboratório de psicofisiologia, fundado por Wilhelm Wundt, cuja finalidade era compreender os fenômenos mentais. Naquele momento,  esse interesse coincidia com os estudos de fisiologia vigentes que buscavam esclarecer como diversos estímulos eram captados e interpretados pelo sistema nervoso.

Se o desenvolvimento das ciências permitiu o avanço na compreensão das bases biológicas e sociais do comportamento humano, também foi responsável pelo progresso das tecnologias, conduzindo a novas formas de captar e transmitir as imagens, inclusive em tempo real.

Para além das semelhanças temporais, em que se aproximam o cinema e a psicologia? 

Através de combinações visuais e auditivas, o cinema desperta diferentes emoções, onde o acaso não tem vez. O controle preciso de luzes, sons, cores e imagens permite o enquadramento da cena, escolhido cuidadosamente pelo diretor. Apesar desse planejamento, o filme não irá repercutir igualmente para todas as pessoas. 

A maneira como uma pessoa interpreta, dá significado ou compreende uma situação está muito mais ligada a aspectos individuais, construídos ao longo da vida, que identificamos como esquemas, do que a situação propriamente dita; isso influenciará as suas respostas emocionais e, consequentemente, as suas ações. Podemos compreender esses esquemas como imagens que foram construídas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo no qual vivemos, a  partir das nossas experiências. Em algumas circunstâncias, essas imagens podem ser um pouco distorcidas, como se estivessem fora de foco e não correspondessem à realidade, gerando muito sofrimento. 

Não é raro ouvir pessoas talentosas e competentes, que diante de um desafio profissional, por exemplo, acreditam que são incapazes de realizar um bom trabalho ou se julgam uma fraude, apesar de não haver nenhuma evidência real sobre isso. Ativam um modo mais exigente consigo, elevam as metas e se tornam extremamente autocríticas. Nesse caso, aumenta-se a chance de procrastinação, paralisia e mesmo desistência, o que gera frustrações e confirma a “profecia” de incapacidade.

Penso no psicólogo como aquele diretor de cinema que vai destacando cenas, melhorando a qualidade da luz, aproximando a câmera para uma visualização ainda desconhecida. Provoca reflexões, reconstrói imagens, pensa em desfechos, longe de um final — apesar de haver um desejo de feliz para sempre —,  a partir de soluções de problemas e do desenvolvimento de habilidades.

E não seria semelhante com o cinema, em sua incrível capacidade de surpreender, interrogar, possibilitar reflexões e até mesmo promover mudanças? 

Assim como um cineasta deve trabalhar cuidadosamente a captura de imagens, para que possamos enxergar o que ele quer nos transmitir, a psicoterapia contribui para que o paciente possa ver para além de suas ideias iniciais,  muitas vezes desfocadas ou com ruídos.

O cineasta nos permite enxergar aquilo que não veríamos se a câmera não delimitasse o foco. A terapia ainda provoca: como seria possível ver de maneira diferente a mesma situação? Isso muda compreensões.

Ajustar as nossas lentes permite enxergar o que ainda não tínhamos visto, que estava ali, como numa bela cena cinematográfica, bem  diante de nós.  

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicóloga, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu artigos a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Janeiro Branco: a importância dos cuidados com a saúde mental

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Photo by MART PRODUCTION on Pexels.com

Ao longo da história da humanidade, diferentes conceitos sobre o adoecimento mental conduziram a práticas desumanas que em muito contribuíram para os estigmas e preconceitos sofridos pelas pessoas que têm transtornos mentais.

Doentes mentais já foram considerados hereges; foram colocados em embarcações que vagavam à deriva por rios europeus; foram considerados perigosos e levados à prisão; já foram trancafiados em hospícios, excluídos do convívio social.

O avanço científico, especialmente o desenvolvimento das neurociências, permitiu novas compreensões e tratamentos dos transtornos mentais. Além disso, fenômenos sociais têm alertado sobre a necessidade de prevenção e promoção da saúde mental, conduzindo a estudos científicos que compreendam seus fatores de risco e proteção. 

A saúde mental de uma pessoa está relacionada ao seu bem-estar, ao autoconhecimento e a maneira como reage às situações de adversidades e conflitos, com o menor impacto sobre o seu funcionamento.

Alguns fatores de risco à saúde mental são apontados por estudiosos, como a experiência individual do estresse, a vulnerabilidade genética e fatores de risco ambientais, dentre os quais destacam-se: condições socioeconômicas desfavoráveis, como pobreza e falta de habitação segura, desemprego, baixa remuneração e violência.

Diante de tantos desafios e adversidades, o que permite que alguém se mantenha mentalmente saudável?

Ter esperança, satisfação em vários domínios da vida, autoaceitação, bons relacionamentos, maior capacidade de resiliência, maior tolerância à frustração, empatia, criatividade e espiritualidade são apontados nos estudos, como recursos e estratégias de enfrentamento mais positivas para o desenvolvimento da saúde mental. Esses recursos podem ser compreendidos como habilidades individuais para o enfrentamento, percepção de rede de apoio e engajamento social e autoconceito positivo.

Algumas atividades também estão relacionadas à redução do estresse, dos níveis de ansiedade e de depressão, tais como alimentação saudável, prática regular de atividade física, sono adequado, atividades de lazer, de relaxamento e de autocuidado.

Como cultivar essas práticas, quando há escassez de emprego, moradias inadequadas e tantas outras desigualdades sociais?

Cuidar da saúde mental não pode ser um modismo ou privilégio de alguns grupos sociais. É uma necessidade urgente e para todos, exigindo que programas preventivos sejam implementados, como políticas de saúde pública, tendo em vista o sofrimento que os transtornos mentais geram em pacientes e seus familiares e o elevado custo dos tratamentos.

Promover a saúde mental não é sinônimo de excluir das experiências de vida alguns sentimentos mais desagradáveis, como tristeza, raiva ou ansiedade. É colocar em prática ações preventivas que possam criar estratégias para que tais sentimentos sejam vividos, validados e superados sem o adoecimento emocional.

Cuidar da saúde mental não é uma ação individual. É coletiva, cuja responsabilidade recai sobre pessoas e organizações, sobre famílias, escolas, empresas e governantes. 

Somente é possível cuidar daquilo que se valoriza.

Mas qual é a medida de valor da nossa sociedade? Sucesso profissional? Dinheiro? Produtividade?

Enquanto houver negligência do autocuidado, privação dos momentos de lazer e aprendizagens que não priorizam o desenvolvimento de habilidades sociais, seremos levados à exaustão e nos manteremos adoecidos.

Que possamos criar uma cultura de saúde mental, como proposto pela campanha ‘Janeiro Branco’, não apenas como uma meta para esse mês, mas como uma cultura de saúde para o ano todo. 

Por um ano mais saudável, por um ano mais feliz!

Assista ao programa Dez Por Cento Mais sobre saúde mental, ao vivo,

nesta quarta-feira, dia 19 de janeiro, às 20 horas

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Fome de quê?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Gioele Fazzeri no Pexels

“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”

Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sergio Britto

Outro dia, zapeando pelas redes sociais, uma postagem despertou a minha atenção e me fez curiosa. A influenciadora digital contava para os seus seguidores como um prato com uma hortaliça específica, em diferentes versões – crua, refogada, em folhas fatiadas fininhas ou enrolada como pétalas de flores – era tudo o que alguém precisaria em uma única refeição.

Sem a pretensão de fazer qualquer análise nutricional sobre isso, até porque me faltariam competências técnicas, aquilo me gerou uma enorme inquietude e preocupação, tendo em vista que alguns transtornos mentais ainda são pouco conhecidos ou negligenciados.

Numa sociedade que valoriza padrões de beleza e a “cultura da magreza”, alguns comportamentos disfuncionais, que geram sofrimento e prejuízos significativos, são até mesmo incentivados. 

Todos os anos, milhares de pessoas sofrem com transtornos alimentares. Segundo a Organização Mundial da Saúde, esses transtornos atingem cerca de 4,7% da população brasileira, podendo chegar a 10% entre os adolescentes, com alta taxa de mortalidade.

Esses transtornos são caracterizados por alterações nos hábitos alimentares e em comportamentos relacionados à alimentação, resultando em danos físicos, psíquicos e sociais. Em geral, há uma conexão doentia da pessoa com o alimento, num sentimento de amor e ódio com a comida, resultando em agressões ao próprio corpo. 

As pessoas que sofrem com os transtornos alimentares, na maioria das vezes, apresentam distorções sobre o próprio peso, sobre o formato do corpo, sobre o ato de comer e, especialmente, sobre o valor de si mesmas.

Dentre os transtornos de alimentação mais prevalentes estão a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. 

O que é anorexia nervosa?

A anorexia nervosa é caracterizada por um medo intenso de ganhar peso, o que leva a pessoa a restringir o consumo de alimentos, através de dietas rígidas e/ou jejuns prolongados, podendo fazer uso de métodos que auxiliem na perda de peso, como laxantes, diuréticos, indução de vômitos ou prática excessiva de atividade física. 

Em geral, apesar da perda acentuada de peso, essas pessoas continuam insatisfeitas com o corpo ou com o peso, tendo uma preocupação exagerada por essa temática, o que favorece o isolamento social, gera prejuízos nas atividades acadêmicas ou de trabalho, bem como nas relações afetivas.

O que a bulimia nervosa?

Semelhante à anorexia, na bulimia nervosa há uma importante insatisfação com a imagem corporal e uma preocupação com o ganho de peso, entretanto, as restrições alimentares são seguidas por um descontrole na ingestão de alimentos, geralmente consumidos em grandes quantidades, caracterizando episódios de compulsão alimentar. 

Após os episódios de compulsão, há um sentimento de culpa pela perda de controle e pelos alimentos consumidos, levando a comportamentos compensatórios e disfuncionais para evitar o ganho de peso, como uso de laxantes, indução de vômitos e prática de atividade física intensa.

Quais as causas dos transtornos alimentares?

Não há uma causa específica para os transtornos alimentares, mas os estudos sugerem a participação de fatores biológicos, psicológicos, para os quais se destaca a baixa autoestima, e fatores sociais, especialmente a influência da mídia e das redes sociais.

Nos transtornos alimentares há uma crença de que o corpo pode ser completamente transformado e de que seguir dietas restritivas ou praticar exercícios são escolhas e dependem apenas do esforço pessoal. Além disso, há uma ideia de que alcançar o “corpo ideal” será o passaporte para o sucesso, valorização ou resolução de outros problemas da vida.

Desse modo, essas pessoas são mais vulneráveis às postagens que indicam jejuns prolongados, dietas restritivas ou exibição de corpos “perfeitos”, como situações fáceis de serem atingidas, exigindo apenas força de vontade. Isso gera um enorme sofrimento.

Suas comparações são injustas. Excluem aspectos individuais relacionados ao biotipo e aumentam a autocrítica, reforçando o sentimento de fracasso, de perda de controle e incompetência. Como num círculo vicioso (e perverso), essa frustração piora os sentimentos de tristeza e ansiedade, levando a uma intensificação dos comportamentos disfuncionais.

Outro dia, eu tive conhecimento de um aplicativo de jejum no qual a pessoa é “premiada” pela quantidade de horas que está sem se alimentar, e toda a comunidade que está “firme” como ela é quantitativamente descrita, como um incentivo para a sua não desistência.

Fiquei imaginando o que seria do mundo se houvesse um aplicativo capaz de indicar, numa situação de intenso sofrimento emocional, como uma comunidade estaria “firme”, quantitativamente descrita, como apoio às necessidades do outro, como incentivo para a sua não desistência da vida, de si mesmo. 

Promover a saúde mental é um dever coletivo, mas, infelizmente, nossa sociedade está adoecida, não apenas pelos transtornos mentais — especialmente pela falta de empatia, numa busca exagerada por uma vida “perfeita”, retratada num clique e capaz de obter uma curtida a mais.

Estamos famintos! Nos falta diversão, nos falta arte, nos faltam saídas para muitas partes… Porque na balança da vida, o que deveria contar é quem se é e não o peso corporal que se tem.

Assista ao “Dez Por cento Mais” sobre “Transtornos Alimentares”

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Se me fosse dado um ano inteiro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de abdullah . no Pexels

“Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, 

eu nem olhava o relógio”

Mário Quintana

A contagem regressiva se inicia. Os olhos estão fixos nos ponteiros, indicando que o fim do ano se aproxima… Ou seria o começo?

Esse tal de tempo é mesmo paradoxal: leva consigo aquilo que não podemos reter em nós, evidenciando a impermanência da vida; nos dá coragem para seguir em frente, com uma esperança enorme em dias melhores, em recomeço.

De tão abstrato, transformamos o tempo em horas, datas, fatos marcantes, para caber de maneira cronológica em nossa memória. O jeito que temos para armazenar aquilo que não mais existe.

De tão imprevisível, nos lançamos para o futuro através de sonhos e projetos, tentando driblar nossa incapacidade de controlar as incertezas da vida.

E agora? Agora mudamos o tempo. Apertamos o passo, perdemos os abraços e nos impedimos de ver as coisas simples da vida.

Não temos tempo. 

Ele não se intimida. Não nos dá um consolo com horas extras. Segue sua jornada e voa…

E quando nos damos conta, lá se foi mais um ano.

Há quem diga que não há nada de especial no dia primeiro do ano. Seria um dia como outro qualquer. 

Talvez aí esteja o engano: não deveria existir um dia qualquer. Cada dia deveria ser especial, com uma riqueza de experiências, de sorriso solto, de prazer em estar com quem se ama. 

Fé na vida, desejo de mudança, escolhas que nos façam felizes…

E se te fosse dado um dia? E se te fossem dados muitos dias, um ano inteirinho? O que você faria?

Pense bem. Porque esse tempo se oferece a você e ele está só começando.

Feliz Ano Novo!

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Quem tem lado é quadrado!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de mentatdgt no Pexels

A subjetividade humana, o jeito de ser e que nos torna singular, se constrói nas relações humanas, nas quais as pessoas se influenciam mutuamente. Entretanto, esse encontro enriquecedor tem sido cada vez mais ameaçado pela polarização, que ultrapassa os limites políticos, tornando os diálogos escassos.

No lugar da troca de ideias e opiniões, do treino de habilidades, como a empatia, surgem discussões acaloradas e até mesmo agressivas, facilitadas pelo escudo protetor das redes sociais.

Isso nos custa em termos de desenvolvimento pessoal, cultural e social.

Ao conviver apenas com pessoas que pensam da mesma forma, nos tornamos reclusos em nós mesmos, numa espécie de narcisismo ideológico que limita a realidade e nos engessa em atitudes e escolhas.

Na esfera social, a polarização torna-se um risco, ao justificar as desigualdades a partir de elementos pautados em análises pouco racionais, favorecer discursos populistas e gerar a ideia de que um grupo possui supremacia em relação ao outro.

Rotulamos as pessoas por algumas características de comportamento, como se isso as definisse. Por outro lado, personalizamos excessivamente as situações, acreditando que tudo o que é dito ou feito pelos outros, possua alguma relação conosco.

Além de menos interessados pelo universo que cada ser humano representa, perdemos a capacidade de avaliar os fatos pela lógica – o que poderia mudar nossa opinião – apegados excessivamente às nossas emoções, que nesse ponto indicam raiva e irritação, numa busca incessante por estarmos “certos”.

E será que existe uma saída para isso?

Relações harmoniosas e construtivas têm se mostrado possíveis através do diálogo, numa compreensão de que apesar de algumas diferenças, porque somos únicos, também somos genéricos, porque guardamos muitas semelhanças.

Que tal tentar?

Numa próxima conversa, por exemplo, ao invés de dizer “eu detesto isso”, quando alguém contar sobre sua preferência, procure saber quais as motivações desse gosto, o que levou essa pessoa à essa escolha ou o que vê de positivo nisso. Faça perguntas como alguém que tem curiosidade genuína pela experiência do outro, evite julgamentos ou adjetivos. Isso vale inclusive para as redes sociais.

Mantenha a mente aberta e prepare-se para se surpreender com um mundo que vai além do seu.

Afinal, a polarização só permite um lado. E quem tem lado é quadrado.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung