Redução da jornada de trabalho: avanço social ou risco para o emprego?

Por Poliana Banqueri

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais voltou ao centro do debate legislativo brasileiro, trazendo consigo questionamentos legítimos de ambos os lados da balança. Afinal, a medida pode gerar mais empregos ou trará aumento de custos e informalidade? Se aprovada, muitos trabalhadores perderão seus postos?

Antes desses questionamentos é necessário compreender o alcance real da proposta. Dados do CAGED de 2025 revelam que apenas 60% dos trabalhadores brasileiros estão em vínculos formais regidos pela CLT. Este é o universo diretamente atingido pela PEC. Os 40% restantes, inseridos na informalidade, permanecem fora da norma, o que já evidencia um limite estrutural da medida.

Para setores com atividade contínua, seja no atendimento ao público ou em escalas de produção, a redução de 44 para 40 horas representa uma diminuição de aproximadamente 10% na carga semanal por trabalhador. Em atividades que dependem de cobertura ininterrupta, essa mudança pode exigir contratações adicionais ou profunda reorganização operacional, com reflexo direto no custo das empresas.

Soma-se a isso o impacto financeiro decorrente da alteração do divisor de horas e do cálculo do descanso semanal remunerado, modificando verbas trabalhistas de forma transversal em todos os contratos de trabalho.

O parecer que embasa a proposta (PEC 221/2019) reconhece esses desafios e sugere uma implementação progressiva: 42 horas nos primeiros 60 dias após a promulgação, chegando a 40 horas somente após mais 12 meses. O escalonamento não elimina os custos, mas possibilita tempo para reorganizar escalas e negociar acordos e convenções coletivas.

Os setores que sentirão os efeitos mais rapidamente são aqueles com maior concentração de trabalhadores na escala 6×1: comércio varejista, serviços e segmentos da indústria que operam em turnos. São justamente os setores que já atuam no limite da jornada constitucional, seja em horas de trabalho ou dias da semana, e que dependem fortemente do escalonamento de pessoal.

A negociação coletiva terá papel central na adequação setorial, mas os limites de 40 horas e duas folgas semanais devem ser respeitados na média, o que, na prática, exigirá criatividade e boa-fé das partes envolvidas.

O debate sobre jornadas menores não se restringe a direitos trabalhistas. Envolve também produtividade, saúde mental e a própria transformação do mercado de trabalho. A busca pelo equilíbrio entre vida pessoal e trabalho é um valor legítimo, não restrito ao campo do direito trabalhista.

Contudo, o tema é complexo porque não dispomos de dados robustos que permitam afirmar com segurança que uma redução de 10% na jornada impactará de forma significativa indicadores como acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. Do ponto de vista econômico, também não é possível estimar com precisão ganhos de produtividade, redução de afastamentos ou impacto sobre o déficit previdenciário.

Segundo dados do INSS, dos 471 mil afastamentos por causas relacionadas à saúde mental, cerca de 10 mil foram caracterizados como diretamente relacionados ao trabalho, uma parcela relevante, mas insuficiente para projetar os efeitos de uma mudança de jornada sobre o conjunto do sistema.

O próprio parecer reconhece que as projeções econômicas disponíveis são heterogêneas e que não existe, neste momento, base metodológica para estimar com precisão todos os impactos da medida. O que o debate legislativo evidenciou é que a discussão sobre jornada de trabalho atravessa saúde ocupacional, organização econômica e equilíbrio de vida, dimensões que demandam, para além da norma constitucional, negociação setorial robusta e políticas públicas complementares.

Há dois dados que, lidos em conjunto, revelam um aspecto fundamental sobre a potencial mudança. De um lado, os números mostram que a sobrecarga de jornada não é distribuída de forma igualitária. Trabalhadores pretos e pardos têm probabilidade maior de estar simultaneamente na sobrejornada e na faixa de até dois salários-mínimos, o que o próprio relatório chama de desigualdade estrutural. 

No caso das mulheres, quando isolamos o grupo específico de sobretrabalho com baixa remuneração, elas passam a ter probabilidade maior do que os homens de estar nessa situação dupla. Isso demonstra que o debate não é uma pauta trabalhista genérica; é também uma pauta de desigualdade racial e de gênero.

De outro lado, o substitutivo cria uma categoria chamada de “hipersuficiente”: o trabalhador com diploma de nível superior e salário acima de 2,5 vezes o teto do INSS, que fica fora das regras de jornada. A justificativa é combater o risco de informalidade e conferir maior equilíbrio às relações de trabalho.

A redução da jornada de trabalho é uma pauta legítima e necessária, mas não pode ser tratada como solução isolada ou descolada da realidade econômica e social brasileira. Há riscos reais de aumento de custos e informalidade, mas, por outro lado, ignorar as desigualdades raciais e de gênero escancaradas pela atual estrutura de jornada também não é caminho viável. Nesse aspecto, o debate deve (ou deveria) se aprofundar.

O sucesso de qualquer mudança dependerá de implementação gradual, negociação coletiva efetiva e políticas públicas que acompanhem a transformação. E, acima de tudo, de um debate que coloque lado a lado eficiência econômica e dignidade do trabalhador sem falsear dados ou prometer resultados que ainda não podemos garantir.

Poliana Banqueri é sócia da área trabalhista do Peixoto & Cury Advogados.

Quando o futebol tenta nos lembrar quem somos

Por Beatriz Breves

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Brasil, pentacampeão mundial!

Pensar a seleção brasileira como um grupo de 26 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela representa. A seleção sempre foi muito maior do que o próprio futebol, pois a cada jogo, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas, 26 jogadores se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.

Quando a bola rola, sem sombra de dúvida, não são somente onze atletas em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada passe, em cada defesa, em cada gol. É cada brasileiro driblando as dificuldades da vida, transformando as frustrações em persistência, buscando, simbolicamente, o gol da esperança.

Mas o Brasil mudou, e o futebol sentiu.

O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da seleção, antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser rejeitado, a ponto de querer modificar a própria cor da camisa. Jogadores são julgados por ideias, não por jogadas. Até a presença de um italiano no comando da seleção brasileira desperta estranhamento — ironia ainda maior com a Itália fora da Copa.

É natural que a política, tão presente no cotidiano, acabe também representada no futebol. O problema é quando essa polarização chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a alegria, diminuindo o brilho da esperança.

Resultado: muitos brasileiros já não sabem os nomes dos convocados, nem a data da estreia, nem o adversário da primeira partida. Quem imaginaria isso algum dia?

Assim, o futebol, que deveria ser um momento de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas as outras áreas da vida nacional. A leveza se perde. A alegria é abafada. A paixão vira disputa. Aquilo que antes unia, agora divide.

O campo reflete a mesma fratura que atravessa o cotidiano dos brasileiros, que reconhecem a divisão política do país, mas ainda encontram dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer, inclusive tentando tirar o brilho e o encanto de ser brasileiro.

Mas o Brasil é Brasil e o Brasil de chuteira não desaparece.

O futebol continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos, especialmente quando consegue fazer desconhecidos se abraçarem na rua, despertar orgulho, emoção e pertencimento. E, ainda, quando mostra ao mundo um país que, mesmo ferido, continua vibrante.

Talvez o desafio seja justamente esse: resgatar o futebol como exemplo de um espaço de encontro, não de conflito; de celebração, não de enfrentamento; de compartilhamento, não de separação, pois somos torcedores de, em média, mil times diferentes, que apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único ideal: o ideal de um Brasil vitorioso, de um povo feliz.

Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue vivo.

E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo, ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil…”.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Do chinelo ao detergente, o vazio das guerras virais

Por Christian Müller Jung

Foto de Nothing Ahead no Pexels.com

A indignação pública passou a seguir a lógica dos algoritmos. O debate político foi substituído pelo entretenimento de guerrilha. Discussões que ocupavam palanques, tribunas e até panfletos espalhados pela cidade ou colados em postes, hoje se reproduzem em vídeos curtos, memes e disputas superficiais. Se manifestam a partir de objetos triviais: do chinelo ao detergente. O que deveria provocar reflexão coletiva, sinal de alerta e, em alguns casos, até motivo de crise institucional, transforma-se em combustível para engajamento.

A política ao mesmo tempo que ganha alcance se esvazia na dinâmica das redes sociais. Entre “jogar o chinelo para cima” ou “desperdiçar detergente pelo ralo” — imagens que resumem as polêmicas que dominam o feed — a polarização produz desgaste constante e deixa um rastro de mortos, feridos e cancelados.

Nesse ambiente, o objetivo não é o progresso social, soluções para problemas reais. O foco está na desmoralização de instituições e pessoas. O debate de ideias deu lugar a uma briga ferrenha entre torcidas organizadas que, cegas pela paixão ideológica, perdem a capacidade crítica.

Enquanto a população tira pouco proveito desse confronto, alguns grupos faturam alto com o caos. São plataformas digitais e influenciadores que lucram com o volume de acesso gerado pelo ódio e pela controvérsia.

A propaganda política se camuflou em temas virais que, embora barulhentos, são ocos — duram poucas horas e geram milhões de interações. Não se propõe soluções; apenas se alimenta o ciclo de curtidas, compartilhamentos e ataques.

Um dos pontos mais sensíveis desse processo é a disposição que alguns têm para defender figuras públicas como se fossem relações pessoais. Já tratei disso em outro artigo ao falar sobre “lutar por quem não conhecemos”. São apoiadores que lutam por pessoas que, sem pedir licença, mudam de lado conforme a conveniência política e abandonam seus defensores falando sozinho no campo de batalha. Ainda me surpreendo com esse comportamento embora trabalhe há anos próximo da política.

A lealdade a indivíduos, acima de projetos de país, explica parte da instabilidade do cenário político. Ao fim de cada ciclo eleitoral, o eleitor se vê diante de campanhas que dizem o óbvio e não oferecem uma direção clara para o futuro.

A política baseada em memes e virais é uma estrada que não nos leva a lugar nenhum. Enquanto nos distraímos com o próximo assunto do momento — seja um chinelo ou um detergente — os temas estruturais são esquecidos. Algumas vezes até negociados em acomodações partidárias.

Existem agentes políticos comprometidos em transformar a vida das pessoas. Há gente que vibra e cresce a cada vitória social. O problema é que esse esforço se perde na velocidade de quem desliza o dedo na tela do celular vasculhando o feed alheio.

O debate público precisa impulsionar ideias que aproximem as pessoas de soluções comuns, em busca de um amanhã melhor, e não estimular confrontos permanentes.

Para parcela da população que muitas vezes não tem o que calçar ou água para lavar o sabão das mãos, essas disputas virtuais nos levam ao nada. Apenas aumentam a distância de soluções necessárias para reduzir nossas desigualdades sociais.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

O eleitor busca candidato independente mas vota na polarização, analisa Felipe Nunes, da Quaest

A pesquisa Genial/Quaest mais recente, feita em dez estados, que mediu a opinião do eleitor para as disputas estaduais trouxe um dado curioso. Mesmo com a polarização forte na disputa nacional, o eleitor demonstra cansaço desse ambiente dividido.

Segundo Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, que entrevistamos hoje pela manhã, no Jornal da CBN, há uma preferência por governadores mais independentes, menos ideológicos e focados nos problemas locais. Um desejo que nem sempre se transforma em voto.

Tenho a impressão de que essa dissociação entre o que o eleitor diz ao pesquisador e o que decide na urna tem a ver com uma frase muito usada pelo meu colega e especialista em branding Jaime Troiano: o consumidor diz o que pensa e faz o que sente.

O entrevistado garante que vai escolher um produto mais saudável ou mais sustentável. Na hora da decisão, porém, leva para casa aquilo que desperta desejo, hábito ou confiança. Diante do entrevistador, a pessoa defende o consumo de produtos que respeitam o meio ambiente; na gôndola, leva aquele que cabe no bolso, a despeito dos ingredientes usados.

Ao ouvir Felipe Nunes não resisti à comparação. Quando exposto a pergunta se prefere um candidato ao governo do seu estado mais lulista, independente ou bolsonarista, a maioria fica na coluna do meio. Foi assim em São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Rio de Janeiro, Minas, Paraná e Pará. 

A pergunta que fica é: será que é isso que ele fará?

A política tem uma particularidade que a diferencia do consumo. No supermercado, a prateleira está cheia de opções. Na eleição, o cardápio é limitado. Quem escolhe o que está disponível não é o eleitor — são os partidos, explica Nunes E, até aqui, eles seguem oferecendo opções fortemente alinhadas aos polos tradicionais.

Esse desencontro entre desejo e oferta cria um ruído interessante. O eleitor declara preferência por um caminho mais moderado, mas pode não encontrar uma alternativa viável que represente essa escolha. Diante disso, tende a voltar ao conhecido. Não necessariamente por convicção, mas por falta de opção.

Há também o fator emoção, que não pode ser subestimado. A identidade política, o sentimento de pertencimento, a rejeição ao adversário, tudo isso pesa na decisão final. Muito mais do que a resposta racional dada ao pesquisador.

Na política, a metáfora ganha outra dimensão. O eleitor pode afirmar que quer equilíbrio, mas, diante da urna, pode ser guiado por lealdades, medos ou expectativas que não aparecem com a mesma clareza na pesquisa.

No fim das contas, a frase que nasceu no marketing parece dialogar bem com o cenário eleitoral: o eleitor diz o que pensa. Resta saber o que ele vai sentir na hora de votar.

E, principalmente, se haverá, de fato, uma opção que permita transformar esse desejo em escolha real.

Conheça o Orçamentômetro e saiba para onde vai o seu dinheiro em São Paulo

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Você sabe quanto do dinheiro prometido para o seu bairro realmente foi gasto ou investido?

Em São Paulo, essa resposta está ao alcance de qualquer cidadão. O Orçamentômetro permite consultar, a partir do CEP, o orçamento da subprefeitura responsável pela sua região e acompanhar três informações centrais: quanto foi previsto, quanto foi ajustado ao longo do ano e quanto, de fato, já foi executado.

É um caminho direto para acompanhar serviços que interferem na vida cotidiana, como operação tapa-buraco, iluminação pública, manutenção de ruas e zeladoria urbana. O tipo de ação que não aparece em grandes anúncios, mas faz diferença na rotina de quem vive a cidade.

O projeto foi criado pela Agência Mural, com apoio do Pulitzer Center, “para ajudar moradores a acompanharem se o que foi prometido durante o ano foi cumprido em cada uma das subprefeituras de São Paulo e também nas secretarias municipais”. Os dados são oficiais, extraídos do portal da Prefeitura de São Paulo e atualizados diariamente. Eles ajudam a transformar números abstratos em elementos concretos de acompanhamento e cobrança. A ferramenta não avalia a qualidade do gasto. Mostra algo mais básico e igualmente relevante: se o dinheiro saiu do papel.

Acompanhar o orçamento da subprefeitura é acompanhar o trabalho que chega — ou não — à porta de casa.

São Paulo tem 32 subprefeituras. De acordo com os dados mais recentes do Orçamentômetro, sete delas executaram mais de 100% do orçamento inicialmente previsto. Oito delas chegaram a pelo menos 90% de execução.

No outro extremo, quatro subprefeituras não conseguiram investir nem 70% do que estava planejado: Sapopemba, Campo Limpo, São Mateus e Perus. No caso de Perus, a execução ficou em apenas 43% do orçamento previsto.

Quando o leitor entra nos detalhes, os números ganham ainda mais significado. Não houve execução de recursos em áreas como reforma e acessibilidade em passeios públicos, operação tapa-buraco, atividades culturais, desenvolvimento de espaços participativos e manutenção da Operação Descomplica.

Em um dos principais eixos de investimento local — Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros, que concentra o plano de obras das subprefeituras — a execução em Perus ficou em apenas 11%.

O Orçamentômetro oferece mais do que respostas prontas. Ele entrega dados bem organizados que ampliam a capacidade de acompanhamento, fiscalização e participação do cidadão na gestão da cidade.

Avalanche Tricolor: o preço de sonhar menos

Botafogo 3×2 Grêmio
Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Gremio x Botafogo
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio vive de pequenas esperanças e grandes frustrações. Uma vitória acolá levanta o ânimo, um empate segura a respiração e as derrotas — sempre tão recorrentes — lembram que a realidade insiste em puxar o time de volta ao chão. Basta um bom jogo para acreditar que a arrancada começou; basta a rodada seguinte para perceber que continuamos no mesmo lugar.

Há quem descreva essa temporada como uma montanha russa. Não me convence. A figura mais honesta é a de um carrossel infantil: gira, gira, e não sai do eixo. Mesmo depois da vitória no meio da semana, sabíamos que o jogo no Rio não autorizava qualquer ousadia. Diante de um adversário organizado, a queda parece escrita antes do apito inicial — e o time age como se também tivesse lido esse roteiro.

As carências do futebol jogado estão expostas para quem quiser enxergar. Frequentemente, sucumbimos à superioridade rival, como se alcançar um nível mais alto fosse algo fora do alcance. A perda de pontos se torna rotina: às vezes um, muitas vezes três, como aconteceu neste sábado.

O maior perigo não é o sobe e desce, mas o hábito que ele produz. Corre-se o risco de aceitar a mediocridade como paisagem fixa. Ganha-se quando sobra espaço, empata-se por acidente e a derrota passa a ser tratada como destino de quem não se preparou para competir mais alto.

O placar da noite reflete exatamente isso. Pode-se lamentar a chance final desperdiçada — aquela bola que parecia pedir para morrer nas redes e foi chutada para longe pelo próprio artilheiro. Ainda assim, não surpreende: entramos em campo desconfiando de que qualquer vitória seria fruto de generosidade do acaso.

O Grêmio corre poucos riscos no campeonato e alimenta ambições igualmente pequenas. O problema é que o Grêmio, esse que honra sua história, nunca foi time de aceitar o mínimo. O incômodo maior não está no resultado, mas no tamanho dos sonhos que estamos deixando de sonhar.

Mundo Corporativo: Joca Oliveira, da Unico Skill, explica por que educação deve ser benefício tão essencial quanto saúde

Entrevisa online com Joca Oliveira Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Daqui 5 anos a gente vai olhar para trás e vai ser que nem plano de saúde… algo super necessário e essencial para qualquer colaborador.”

Joca Oliveira, Unico Skill

A ideia de tratar educação como benefício corporativo — com acesso amplo a cursos, faculdades e certificações — ganhou corpo dentro de uma empresa de tecnologia e virou negócio próprio. A Unico Skill, liderada por Joca Oliveira, oferece às companhias um “plano de educação” ilimitado para colaboradores e dependentes, com rede de instituições no Brasil e no exterior. Os desafios para empreender neste setor foi o tema da entrevista no programa Mundo Corporativo, da CBN.

Joca descreve o modelo de forma direta: “A Unico Skill é o primeiro benefício de educação ilimitada do Brasil; de uma forma simples, é como um plano de saúde, só que para educação.” No desenho do serviço, a empresa escolhe entre quatro planos e o colaborador recebe uma “carteirinha” que dá acesso a uma rede credenciada. Segundo ele, “hoje a gente tem no total mais de 100 instituições de educação, são mais de 26 mil cursos… é acesso a fazer uma pós-graduação na GV, uma graduação, curso de inglês em mais de nove escolas, curso de tecnologia, inclusive no exterior”.

O produto que virou empresa

A tese nasceu dentro da Unico, companhia de identidade digital, e migrou para operação independente para ganhar foco e escala. “O spin-off é quando você separa esse produto e ele vira uma empresa com CNPJ próprio… com time isolado, processos e cultura, ainda conectado à holding, mas com muito mais independência.” A separação, relata, acelerou a tração e reduziu conflitos de prioridades.

No modelo de negócios, a Unico Skill atua como orquestradora B2B2C: “A gente basicamente compra educação no atacado… aplica muita tecnologia. Nós somos uma empresa de tecnologia, não de educação. A gente orquestra todo esse ecossistema, mas eu não crio educação.” A curadoria e a hiperpersonalização por IA buscam orientar o uso efetivo do benefício — inclusive por dependentes.

Engajamento e a pressão por requalificação

A demanda acompanha a mudança do mercado de trabalho. Joca cita o diagnóstico de que até 2030 a maior parte da força de trabalho precisará de requalificação, puxada por automação e inteligência artificial. “O colaborador tem visto isso como uma janela para continuar crescendo, e a empresa entende que ela precisa disso para manter a mão de obra extremamente qualificada.” Entre os conteúdos mais buscados estão tecnologia (IA, cibersegurança, dados), graduações e cursos técnicos, além de idiomas. No formato, cresce o interesse por cursos de curta duração com certificação e por aulas síncronas ao vivo: “Não é verdade que todo mundo só quer presencial; e o EAD sozinho, às vezes, faz falta na interação. O síncrono ao vivo tem sido um dos grandes formatos do futuro.”

Crescimento com qualidade e a dor de escalar

A expansão traz desafios operacionais. “A dor do crescimento ela é latente”, admite Joca. “Se a gente esperar tudo ser perfeito, às vezes a gente vai desacelerar crescimento, mas garantindo que eu consiga manter a qualidade e consiga manter tanto colaborador quanto a empresa extremamente satisfeitos com o produto e com a entrega.” Para sustentar o padrão, ele enfatiza pessoas e liderança: “Contratar pessoas melhores do que você… um talento bom toca o problema, resolve o problema, não esconde o problema.”

Educação como política estrutural do setor privado

A visão de longo prazo mira a mesma abrangência de outros benefícios já consolidados. “O acesso à educação privada no Brasil é um problema gigante… a gente, como parte da iniciativa privada, [precisa] resolver isso de forma estrutural.” Na comparação com outras políticas corporativas, a defesa é explícita: “A gente acredita que a educação, sim, deveria ser tão grande quanto o plano de saúde.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Luis Delboni.

Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.