O sentimento de vitimismo

Por Beatriz Breves

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O vitimismo funciona como um abrigo cujas portas e janelas não se abrem para fora, onde a pessoa se esconde de si mesma.

Nesse abrigo, os mantos são vestes pesadas e densas, cujas estampas carregam as cores da injustiça, como se cada tonalidade fosse sobreposta para ocultar as falhas que não se ousa encarar.

Senso de responsabilidade de quem se sente vítima? Esse escorre por entre os dedos. Sem falar que os próprios erros também permanecem em gavetas trancadas a sete chaves.

Na parede, há um quadro em aquarela cuja pintura insiste em mostrar uma dor e um sofrimento sempre mais profundos do que os dos outros.

Em seu idioma particular, sustenta a narrativa de sempre diminuir o outro.  Não por maldade declarada, mas por uma necessidade silenciosa de parecer maior do que acredita poder ser.

Hábil em construir histórias tão bem contadas e tão bem sentidas, por vezes enganam até a própria autora, que, com uma convicção quase teatral, atrai afagos na tentativa de alimentar um vazio que nunca se sacia.

É um sentimento que nasce da insegurança, mas cresce regado por pequenas doses de arrogância. Por vezes, no calor do sofrimento, refresca-se à sombra da inveja; por outras, no frio da solidão, aquece-se no fogo da raiva.

De fato, o vitimismo impõe um grande sofrimento. Uma dor que só pode ser transformada quando, cansada de repetir o mesmo enredo, a pessoa encontra coragem para se olhar sem autopiedade.

E seria nesse instante — frágil, raro e luminoso — que o vitimismo começa a perder força, oferecendo, enfim, uma possibilidade de mudança, para que a pessoa encontre espaço para se assumir e, assim, ser com as qualidades e os defeitos próprios de um ser humano.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O Dom e a Ferramenta: a ontologia dos talentos na Era da Técnica

Por Caio Luizetto

A Parábola dos Talentos sofreu, na modernidade, um sequestro utilitarista. Sob a ótica de uma sociedade obcecada por métricas de produtividade, a palavra “talento” foi esvaziada de sua profundidade e reduzida a sinônimo de competência profissional, eficiência ou sucesso financeiro.

Contudo, há um mal-entendido abissal nessa interpretação. As escrituras não operam na lógica do fazer, mas na dimensão da ontologia: o texto bíblico é sobre o ser. Quando o texto ilustra o chamado dos primeiros discípulos, homens que exerciam a ocupação de pescadores, a promessa subsequente não visa o aprimoramento técnico de seu ofício, mas uma transfiguração de suas identidades. O fazer é circunstancial e utilitário; o ser é intrínseco e perene. Multiplicar o talento, portanto, não significa acumular conquistas externas, mas expandir a própria capacidade de manifestar a essência da vida.

Na antiguidade, a distância entre o ser e o instrumento era quase inexistente, pois o artífice imprimia sua própria alma diretamente na matéria que moldava. Hoje, vivemos uma assincronia profunda.

As possibilidades contemporâneas de amplificar o dom são virtualmente infindáveis. Se a essência de um indivíduo reside na capacidade de estruturar o caos, de projetar conexões ou de arquitetar conceitos complexos, a tecnologia moderna oferece ferramentas exponenciais que funcionam como megafones para o ser. Os instrumentos atuais expandiram as fronteiras da multiplicação, permitindo que o dom ecoe com um alcance outrora inimaginável.

Todavia, essa abundância instrumental esconde uma armadilha sutil e perigosa: a ferramenta pode se transformar na prisão do dom. Diante de sistemas altamente complexos, algoritmos rígidos ou estruturas corporativas sedutoras, corre-se o risco de inverter a hierarquia natural, fazendo com que a essência sirva ao instrumento. É o fenômeno em que a visão criativa original acaba sendo deformada para se adequar às limitações de um software, ou quando o indivíduo confunde sua identidade real com o cargo técnico que ocupa.

Quando o instrumento limita o dom, a humanidade retrocede ao erro de confundir o que faz com o que é. Enterrar o talento, sob essa perspectiva contemporânea, não significa necessariamente a inércia, mas a covardia de se deixar anestesiar pela técnica, permitindo que a ferramenta domestique a alma. A verdadeira fidelidade ao talento exige a lucidez de dominar o instrumento sem nunca ser dominado por ele, garantindo que as infinitas possibilidades do presente permaneçam como vias de libertação e expressão do ser, e não como engrenagens de nossa própria limitação existencial.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O metal e a imagem: a subversão diante do usurpador

Por Caio Luizetto

Moeda
Foto: Nucleo Editorial/Flickr

A célebre máxima “Dai a César o que é de César” foi, ao longo da história, domesticada e transformada em um manual de conformismo político ou obediência fiscal. No entanto, quando se resgata o cenário asfixiante da Judeia no século I, a resposta de Jesus deixa de ser uma saída diplomática e revela uma sofisticação psicológica cortante. 

Sob a ótica do contexto real, César não possuía direito legítimo a nada naquele território; era um usurpador que mantinha um povo sob o jugo da força bruta, do sangue e da pilhagem econômica. A questão levada a Jesus, portanto, jamais foi sobre a moralidade dos impostos, mas sobre algo muito mais complexo: como o indivíduo deve se relacionar com o opressor sem permitir que ele colonize a sua alma.

A inteligência da resposta reside na recusa em jogar o jogo simétrico da força. Ao pedir para ver o denário romano e questionar de quem eram a efígie e a inscrição, o contragolpe expõe uma ironia fina que esvazia o poder do império. 

Devolver a César aquela moeda de metal com o rosto de um homem egocêntrico não era um ato de submissão, mas de desdém soberano. Era como dizer que o grande aparato romano, com toda a sua pompa militar, reduzia-se ao controle de pedaços inúteis de metal. Há uma libertação psicológica em entregar ao usurpador o que é perecível para não ter de lhe entregar o que realmente importa.

O verdadeiro xeque-mate existencial, contudo, repousa na segunda metade da sentença: “…e a Deus o que é de Deus”. Se a moeda carregava a imagem gravada de César e, por isso, pertencia a ele, o ser humano — de acordo com a tradição milenar daquele povo — carregava em si a imagem e semelhança do Criador. O limite da opressão era estabelecido ali. O usurpador poderia tomar as terras, confiscar a colheita, controlar o comércio e ditar as leis civis pela ponta da espada; os corpos poderiam estar sob cativeiro econômico, mas a dignidade, a identidade e o espírito permaneciam invioláveis.

Compreender esse episódio sob esse prisma muda a dinâmica da resistência. Não se trata de passividade diante da tirania, mas de uma recusa absoluta em validar a autoridade moral do opressor. Ao delimitar o que pertencia ao metal e o que pertencia ao sagrado, estabeleceu-se um manual de sobrevivência interior: pode-se entregar o tributo exigido pela força para preservar a vida, desde que se mantenha a mente e o coração sob uma assinatura que nenhum império do mundo é capaz de rasurar.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A relação entre os sentimentos de orgulho e autoestima

Por Beatriz Breves

Foto: Bruno Bueno Pexels

Os sentimentos de orgulho e autoestima caminham lado a lado. Ambos falam sobre como nos enxergamos, como nos reconhecemos e como atribuímos valor à nossa própria existência. O orgulho pode ser entendido como o sentimento que mede o grau de reconhecimento que temos de nós mesmos — uma espécie de termômetro interno que revela o quanto nos identificamos com nossas conquistas, nossa história e nossa identidade. Já a autoestima expressa o quanto de valor atribuímos a nós mesmos. É o sentimento que sustenta a forma como nos percebemos.

Um ponto essencial é que ninguém vive sem autoestima. Ela pode ser alta, baixa ou variar conforme diferentes áreas da vida, mas sempre existe. Mesmo quando alguém parece não ter autoestima alguma, ela está lá — talvez muito baixa, quase imperceptível, mas presente.

Quando a autoestima está elevada, a pessoa tende a reconhecer suas qualidades, valorizar suas conquistas e sentir satisfação com quem é. Surge então aquele orgulho gostoso de sentir de si mesmo, que pode ser direto — voltado para a própria pessoa — ou indireto, como o orgulho que pais sentem pelos filhos.

Mas quando a autoestima está baixa, o reconhecimento pessoal diminui. A pessoa passa a vivenciar sentimentos de inferioridade, menos-valia e incapacidade. Muitas vezes, evita situações nas quais não se sente competente, repetindo para si mesma: “ah, não dou pra isso”. São pessoas que, em geral, não aceitam críticas, sentem-se facilmente feridas e tentam ser o que não são, porque carregam um ideal interno de supervalorização que não conseguem alcançar. Como o orgulho mede esse reconhecimento, ele aparece enfraquecido. Para compensar essa falta de valorização interna, muitos recorrem, por exemplo, à arrogância ou à vaidade excessiva, criando uma espécie de defesa emocional.

A baixa autoestima também abre espaço para o orgulho ferido — aquele sentimento que surge quando alguém importante para nós não reconhece aquilo que acreditamos merecer. Quando isso acontece, o reconhecimento que temos de nós mesmos é vivido como ferido, provocando dor, frustração e uma série de outros sentimentos. A forma como reagimos ao orgulho ferido depende diretamente da autoestima: frente ao sofrimento, quem tem autoestima elevada irá refletir e seguir adiante; quem tem autoestima baixa tenderá a recorrer a algum tipo de defesa emocional.

A construção da autoestima, e, consequentemente, da forma como o orgulho se manifesta, começa desde cedo. Um bebê desejado, acolhido e amado sente essa atmosfera de bem-querer. O carinho dos pais, o olhar amoroso e o afeto constroem as primeiras bases desse sentimento. Embora essas primeiras marcas sejam fundamentais, elas não determinam tudo. Sempre existe a possibilidade de reparar equívocos e reconstruir a autoestima ao longo da vida. Todos temos potencial de valor e capacidade de sermos amados. O desafio é que, quando a autoestima está muito baixa, a pessoa pode não conseguir perceber a admiração do outro, mesmo quando ela existe.

E então surge a grande pergunta: como melhorar a autoestima e desenvolver um orgulho que nos torne saudáveis? Não existe fórmula mágica.

De nada adianta solicitar que alguém se permita ser amado ou admirado se essa pessoa não está aberta ao amor. Elevar a autoestima envolve conexão consigo mesmo, reconhecer qualidades e potenciais, aceitar-se como humano e compreender que todos têm defeitos e virtudes. Também exige entender que, na vida, sempre haverá quem goste de nós, quem não goste e quem seja indiferente; e isso é absolutamente natural.

Cultivar a elevação da autoestima e sentimento de orgulho de si é, acima de tudo, um processo de autoconhecimento, aceitação e gentileza consigo mesmo, uma caminhada que começa na pessoa e se reflete em tudo ao seu redor.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O espelho oculto da condição humana

Por Caio Luizetto

Há uma sofisticação psicológica brutal na metáfora bíblica da trave no olho que muitas vezes se perde na leitura superficial. Olhado pelo viés literal, o cenário proposto por Jesus é um absurdo físico: como alguém poderia carregar uma viga de madeira na visão e não perceber? A resposta para esse enigma reside em uma lógica existencial profunda: a trave não é um acidente recente, mas um elemento fundacional. Ela se formou com o que se formava na própria estrutura da pessoa. Incorporada à biologia da alma ao longo de uma vida — através de defesas, traumas e convicções —, a trave deixa de ser um objeto para se tornar a própria lente. Não se olha para ela; enxerga-se através dela.

É a partir dessa cegueira integrada que nasce o ímpeto da acusação. Sob essa ótica, o julgamento rígido deixa de ser uma análise moral do outro e passa a ser uma confissão involuntária do acusador. A verdade incômoda é que o acusador e o acusado sofrem exatamente do mesmo mal. O “cisco” que tanto perturba no olho alheio é feito da mesmíssima madeira que sustenta a trave oculta em si mesmo. O erro do outro só é identificado com tanta precisão porque habita, como matéria-prima, o peito de quem o aponta. O tribunal externo é, no fundo, uma tentativa desesperada de desviar os olhos do espelho interno.

Essa dinâmica revela que a humanidade é unida não pela perfeição, mas pela semelhança de suas fraquezas. Todos partilhamos dos mesmos dilemas existenciais: o medo da vulnerabilidade, a busca por controle, as contradições íntimas e as feridas que tentamos camuflar. Não existem lados opostos nessa trincheira; existe uma mesma condição humana lidando com as mesmas complexidades.

Compreender a gênese da trave é o que desmonta a nossa arrogância. Quando se percebe que a viga e o cisco compartilham a mesma essência, o peso de olhar para si desarma o ímpeto de condenar o próximo. O dedo em riste inevitavelmente dá lugar à mão estendida, não por uma concessão moral, mas pelo reconhecimento honesto de que, no grande mosaico da existência, somos todos feitos da mesma argila e desafiados pelos mesmos conflitos.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Não, não posso parar

Por Beatriz Breves

Quantas pessoas, sem perceber, vivem repetindo para si mesmas os versos da canção Mundo Maluco, de David Nasser, Nelsinho e Moacyr Franco: “Não, não posso parar; se paro, eu penso; se penso, eu choro.” A frase, que à primeira vista pode soar apenas como um lamento musical, revela uma verdade profunda sobre a forma como muitos conduzem a própria vida.

Hoje, é cada vez mais comum encontrar quem se mantenha em atividade permanente, ocupando-se, distraindo-se, preenchendo cada minuto, para evitar o encontro consigo mesmo. O movimento constante funciona como uma espécie de anestesia emocional: se não paro, não penso; se não penso, não sinto; se não sinto, não sofro; se não sofro, não choro. É uma lógica compreensível, que cobra um preço alto.

Viver no automático é perder o sabor das experiências, dos encontros, das pausas que dão sentido à vida. É afastar-se de si para não encarar o espelho interno, temendo que, ao olhar para dentro, tudo desmorone. O medo costuma ser o mesmo: “Se eu me permitir sentir, vou ruir. Se eu tocar na minha dor, vou perder quem eu sou.”

O paradoxo, porém, é cruel. Ao fugir do próprio mundo interno, não evitamos o sofrimento, apenas o prolongamos. A fuga constante enfraquece a identidade, desgasta a vitalidade emocional e impede a construção de um senso de si mais sólido e verdadeiro. Aquilo que tentamos evitar é justamente o que se intensifica.

O encontro consigo mesmo pode ser desafiador, mas é também o único caminho para reconstrução, fortalecimento e autenticidade. Parar não significa desabar; significa criar espaço para construir, ou reconstruir, com mais consciência de si mesmo.

Ainda assim, muitos perguntam: “Como posso parar, se sei que não vou aguentar?” Não há uma resposta efetiva para tal questão, pois cada pessoa é única. Mas, com certeza, uma coisa pode ser dita: a força que está sendo utilizada para a fuga de si mesma não é pequena; muito pelo contrário. Essa mesma força, quando redirecionada, consegue sustentar o processo de reconstrução interna. Fugir de si mesmo exige tanto ou mais esforço do que se enfrentar.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Controle acalma e sufoca

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Controle

Mandar é “gostoso”, não é mesmo?! Organizar o que será feito; escolher como será a rotina; decidir como gastar o dinheiro … Ordenar e ser obedecido!

Quando eu comando, tenho a sensação de previsibilidade. Sei o que irá acontecer, me sinto mais confortável e com mais segurança sobre o futuro.

Quando eu comando, tenho a satisfação de conseguir o que quero. Meus desejos são concretizados, os medos são protegidos, me sinto o centro das atenções e protagonista no palco da vida.

O impulso de tentar controlar o comportamento das outras pessoas, definir o que é certo ou errado, justo ou injusto, e influenciar as decisões da família, dos amigos ou da equipe de trabalho é intenso. É daquele tipo de impulso forte e rápido: quando percebemos, ele já chegou.E será que a gente percebe a presença dele?

É difícil não desejar controlar. Provavelmente, quase sempre desejaremos. Seja pela previsibilidade, seja pela satisfação. Seja por tudo isso misturado. 

No entanto, esse desejo — o de controlar — nunca se concretiza plenamente. E, além disso, quando ultrapassa certos limites, invade o espaço e a autonomia do outro.

Me conte: como você se sente quando alguém tenta comandar você, interferir nas suas escolhas, ditar o que deve ou não fazer?

Então… 

Nenhum adulto gosta de sentir-se controlado. A tentativa de controle cheira a ameaça, perigo e sofrimento. Quando nos lembramos disso, entendemos por que o controle, apesar de acalmar nosso desejo de previsibilidade e satisfação, acaba sufocando.

Quando sufoco o outro, perco conexão, companhia e ajuda. E se perco isso tudo, também me sufoco, no isolamento, na  solidão, na angústia.

Desejamos controlar. Ainda assim, o controle raramente nos faz bem.

Fica o convite: que caminho você escolherá seguir, livremente?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando o futebol tenta nos lembrar quem somos

Por Beatriz Breves

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Brasil, pentacampeão mundial!

Pensar a seleção brasileira como um grupo de 26 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela representa. A seleção sempre foi muito maior do que o próprio futebol, pois a cada jogo, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas, 26 jogadores se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.

Quando a bola rola, sem sombra de dúvida, não são somente onze atletas em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada passe, em cada defesa, em cada gol. É cada brasileiro driblando as dificuldades da vida, transformando as frustrações em persistência, buscando, simbolicamente, o gol da esperança.

Mas o Brasil mudou, e o futebol sentiu.

O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da seleção, antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser rejeitado, a ponto de querer modificar a própria cor da camisa. Jogadores são julgados por ideias, não por jogadas. Até a presença de um italiano no comando da seleção brasileira desperta estranhamento — ironia ainda maior com a Itália fora da Copa.

É natural que a política, tão presente no cotidiano, acabe também representada no futebol. O problema é quando essa polarização chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a alegria, diminuindo o brilho da esperança.

Resultado: muitos brasileiros já não sabem os nomes dos convocados, nem a data da estreia, nem o adversário da primeira partida. Quem imaginaria isso algum dia?

Assim, o futebol, que deveria ser um momento de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas as outras áreas da vida nacional. A leveza se perde. A alegria é abafada. A paixão vira disputa. Aquilo que antes unia, agora divide.

O campo reflete a mesma fratura que atravessa o cotidiano dos brasileiros, que reconhecem a divisão política do país, mas ainda encontram dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer, inclusive tentando tirar o brilho e o encanto de ser brasileiro.

Mas o Brasil é Brasil e o Brasil de chuteira não desaparece.

O futebol continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos, especialmente quando consegue fazer desconhecidos se abraçarem na rua, despertar orgulho, emoção e pertencimento. E, ainda, quando mostra ao mundo um país que, mesmo ferido, continua vibrante.

Talvez o desafio seja justamente esse: resgatar o futebol como exemplo de um espaço de encontro, não de conflito; de celebração, não de enfrentamento; de compartilhamento, não de separação, pois somos torcedores de, em média, mil times diferentes, que apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único ideal: o ideal de um Brasil vitorioso, de um povo feliz.

Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue vivo.

E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo, ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil…”.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Dez Por Cento Mais: não guarde dor e sofrimento, recomenda a psicanalista Jak Rocha

“Mostrar a fragilidade não é fraqueza. Mostrar a fragilidade é um sinal de força.”

O Brasil registrou milhares de afastamentos por burnout nos últimos anos, enquanto profissionais seguem tentando sustentar rotinas exaustivas como se o corpo fosse uma máquina programada apenas para entregar resultados. Em muitos casos, os sinais aparecem antes do colapso: insônia, irritação, taquicardia, crises de ansiedade e um cansaço que não desaparece com descanso. O tema foi discutido no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, em entrevista com a psicanalista e mentora de carreiras Jak Rocha.

Ex-diretora de operações dos canais Globo, Jak contou que os primeiros sintomas começaram em 2017, quando ainda ocupava uma posição executiva de alta responsabilidade. A rotina intensa, marcada por agendas lotadas, viagens e pressão constante, parecia fazer parte natural da carreira. Até que o corpo decidiu interromper o processo.

Durante uma reunião fora do Brasil, ela sofreu um apagão. “Eu olhei para aquele data show e eu não sabia do que se tratava. Ali eu entrei em pânico, porque esvaziou meu cérebro”, relatou. No hospital, médicos levantaram inicialmente a hipótese de um tumor cerebral. Depois de exames, veio o diagnóstico: burnout.

Mesmo alertada pelos médicos, Jak seguiu trabalhando. “Eu cheguei no Brasil e mantive a minha agenda e a minha vida continuou frenética”, contou. Vieram novos apagões, crises físicas e emocionais, até que uma equipe multidisciplinar determinou a necessidade de interromper completamente a rotina profissional.

Quando o corpo fala antes da mente admitir

Ao longo da conversa, Jak descreveu como o burnout se manifesta de forma gradual e, ao mesmo tempo, devastadora. Segundo ela, o processo começou com transpiração excessiva, taquicardia, náuseas e ansiedade constante. Depois vieram a irritação, a intolerância e o isolamento.

“Tudo me irritava. A pessoa falava ‘bom dia’ comigo e eu já não queria nem ouvir aquele bom dia”, afirmou.

Ela reconhece que havia uma dificuldade pessoal em estabelecer limites. “Eu amava tanto o que eu fazia”, explicou. A dedicação extrema ao trabalho ocupava praticamente todos os espaços da vida. “Eu trabalhava 14 horas por dia, 15. Meu celular não parava.”

Mesmo diante do adoecimento, Jak não demonstra arrependimento pela trajetória profissional. O que mudou foi sua compreensão sobre equilíbrio e cuidado emocional. Hoje, nas mentorias que conduz, tenta transmitir outra lógica de liderança: menos centrada apenas em métricas e mais conectada às pessoas.

Ela relatou que desenvolveu um modelo de gestão baseado na individualidade dos colaboradores. Em vez de focar exclusivamente em resultados, buscava entender os interesses, dificuldades e habilidades pessoais de cada integrante da equipe.

“Eu só entendo que a gente move pessoas em direção ao resultado positivo se elas estiverem felizes”, disse.

A doença rara que mudou novamente sua vida

Depois do burnout, vieram outras experiências traumáticas: a morte da mãe, um sequestro e, mais recentemente, o diagnóstico da Síndrome de Dercum, uma doença rara caracterizada pela formação de tumores adiposos extremamente dolorosos.

Jak contou que passou quase dois anos procurando respostas até chegar ao diagnóstico correto. “A dor era alucinante”, afirmou.

Desde então, já passou por diversas cirurgias. Os tumores, embora benignos, causam dores permanentes e comprometem sua mobilidade. “Você tira um tumor, aparecem quatro. Você tira quatro, aparecem oito”, descreveu.

Durante a entrevista, ela relacionou o enfrentamento da doença à espiritualidade e ao desejo de ajudar outras pessoas que enfrentam condições semelhantes. Também falou abertamente sobre momentos em que pensou em desistir.

“Eu amo viver”, afirmou, ao explicar por que decidiu seguir enfrentando o tratamento e as limitações impostas pela doença.

Escuta, acolhimento e saúde emocional

A experiência profissional e pessoal levou Jak à psicanálise. Hoje, ela atende principalmente jovens, incluindo pacientes no espectro autista, e defende uma escuta mais humana dentro das organizações e das relações pessoais.

Na avaliação dela, muitas pessoas carregam dores em silêncio até o momento do colapso. Por isso, deixou uma reflexão direta ao final da entrevista:

“Não guarde dor e sofrimento para si. Escolha a pessoa que mais se afine contigo e compartilhe com ela tudo. Porque a partir do momento que a gente compartilha, a gente tira um peso da gente.”

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