Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

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Mundo Corporativo: Ruy Shiozawa, o CEO do GPTW que demitiu a sede para não perder os talentos

“Mais e mais empresas estão priorizando, focando, colocando pessoas no centro de suas decisões. Ou seja, para tomar decisão, eu preciso pensar em primeiro lugar nas pessoas. Isso foi inclusive ressaltado pela pandemia”

Ruy Shiosawa, GPTW

Imagine a satisfação de você, estar ao lado da sua família, e receber o comunicado, de viva-voz, do próprio presidente da empresa, de que foi promovido. Foi o que aconteceu com uma colaboradora do GPTW, consultoria que estuda ambientes de trabalho, com atuação aqui no Brasil, há 25 anos. A cena só se realizou porque o anúncio foi feito durante uma videoconferência, da qual ela participou a partir de sua casa, onde está trabalhando desde que se iniciou a pandemia. E onde estavam, também, sua mãe e sua avó. As três comemoraram juntas com o presidente a boa notícia. Um dos protagonistas desse momento foi Ruy Shiosawa, CEO do Great Place To Work,  que compartilhou a história com os ouvintes do Mundo Corporativo.

O caso contado por Ruy serve tanto como exemplo quanto como alerta aos líderes. Com parte ou todas as equipes trabalhando em home office, da mesma maneira que se pode usar essa condição para tornar a boa nova uma celebração em família, pode-se gerar situações constrangedoras e desrespeitosas:

“Todo dia quando se faz uma reunião de trabalho, esse líder, esse gestor, entra dentro da casa das pessoas. É como se nós tivéssemos todos os dias, antes de iniciar uma reunião, que pedir licença para entrar dentro do ambiente familiar … Essa proximidade do mundo do trabalho com o mundo pessoal e familiar é muito maior, mudando as características de liderança”. 

Ao contrário da maioria das empresas com quem temos falado no Mundo Corporativo, o Great Place to Work não pretende voltar ao modelo presencial — a não ser em alguns encontros ao longo do ano  que serão organizados para gerar um relacionamento mais intenso entre os colaboradores. Decisão adotada por dois motivos, em especial. Um deles, o fato de que algumas equipes de trabalho foram formadas durante a pandemia com profissionais contratados em regiões diferentes do país, e não faria sentido abrir mão desses talentos. O outro, ainda mais concreto: o GPTW não tem mais uma sede. No inicio da pandemia, ao assistir à queda em 70% dos seus negócios, a consultoria reuniu todos os colaboradores e juntos decidiram que somente haveria demissão se não houvesse mais alternativas. Fazer o quê, então?

“Uma das decisões que nós tomamos foi a de demitir o prédio em vez de demitir as pessoas. Porque sem as pessoas, o GPTW não existiria mais. Sem o prédio, a gente continua funcionando. E, como eu falei: este ano batemos o recorde de participação de empresas na nossa pesquisa”.

É da pesquisa de ambiente de trabalho que vêm boa parte do faturamento da consultoria e dela que surge a maioria das soluções propostas às empresas.  Um estudo que alcançou 4 mil organizações, neste ano de 2021, depois do sumiço da maior parte dos parceiros no primeiro ano da pandemia. Muita gente temia medir o nível de satisfação de seus colaboradores diante da situação que todos enfrentávamos. O resultado não deixou dúvidas: as empresas que demonstraram interesse em perguntar o que estava acontecendo com os seus profissionais, se preocuparam com a saúde mental deles e os trouxeram para o centro das decisões, tiveram suas médias melhoradas, na pesquisa. 

Uma pergunta que muitos se faziam é como ficaria a cultura da empresa com os funcionários à distância. Rituais que fazem parte do cotidiano da organização deixaram de ser realizados. Para superar essas barreiras, as empresas que melhor gerenciaram a crise intensificaram e aumentaram a frequência dos contatos de cada líder com sua equipe. Contatos em grupo e  individuais —- e aqui um destaque em especial, porque a pandemia expressou as individualidades e a necessidade de os casos serem tratados de maneira diferenciada. 

Escutar o outro é tema que tem frequentado as rodas de conversa (online) de gestores e, invariavelmente, é prática comentada por entrevistados do Mundo Corporativo. Não seria diferente com Ruy Shiosawa. Para o CEO do GPTW, é preciso fazer esse exercício para que se encontre a resposta que muitos líderes buscam diante do desafio da retomada das atividades no pós-pandemia:

“A  gente tem uma mania de achar que o líder, o presidente tem de saber tudo e decidir o que é melhor para a empresa, para as pessoas. Não! Faz ao contrário! Pergunte para as pessoas o que é que elas acham. Quando você toma decisão sabendo o que está contemplando, o que você vai resolver e o que você vai complicar, você já pode pensar nos desdobramentos para isso”. 

Foi escutando pessoas que algumas empresas perceberam a necessidade de se criar ações de controle da saúde mental dos colaboradores. Algo que já aparecia em anos anteriores da pesquisa de ambiente organizacional do GPTW e teve crescimento exponencial na pandemia, com o isolamento agravando algumas situações. Os dados globais são preocupantes: uma em cada cinco pessoas terão ao longo da sua carreira alguma questão envolvendo sua saúde mental e 75% desses casos não serão detectados. Ou seja, a pessoa tem um sintoma de ansiedade leve que não é percebido e não é tratado. Esse sintoma se torna moderado e segue sem tratamento. Daí se transforma em intenso e quando menos se espera, a crise já explodiu. 

Ruy defende que as empresas tenham profissionais especializados em saúde mental — no corpo de colaboradores ou terceirizados —- para que se faça uma análise científica das soluções a serem implantadas. No GPTW,  os primeiros passos foram contratar os serviços de um equipe médica e fazer uma variação na pesquisa anual para identificar o tamanho desse problema de saúde mental. Uma das soluções foi criar uma semana de cuidado da saúde, escolhida pelo próprio colaborador, período em que ele ficará afastado da empresa sob o compromisso que dedicará aquele dias para realização de exames e outros cuidados com a sua saúde.

“Uma semana de férias a mais para cada pessoa? Minha empresa não pode ficar sem ela, uma semana, dirão alguns empresários. E eu respondo: se entrar em crise, você ficará sem ela um mês ou até mais. Se já não fosse prejuízo suficiente ter um profissional com a saúde comprometida”. 

Assista à entrevista completa com Ruy Shiosawa, do GPTW, no Mundo Corporativo

Este episódio do Mundo Corporativo teve a colaboração de Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves. O programa pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da rádio. O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN. E aos domingos, às 10 horas da noite, em horário alternativo.

A melhor vingança está ao nosso alcance

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Min An no Pexels

Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.

Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse. 

O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.

Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor. 

Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.

A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.

Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.

A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais  energia e fortalecimento do sistema imunológico.  

Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.   

Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que  quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.

Curar um coração ferido leva tempo. 

Quanto tempo? 

Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.

O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Fábio Coelho, do Google, sugere que relevância no mercado depende de aprendizado constante e ajustes permanentes

Foto Pexel

“.. as empresas vão conseguir migrar para um modelo um pouco mais híbrido, onde as pessoas vão poder trabalhar do escritório, mas vão poder também trabalhar de outros lugares ..” 

Fábio Coelho, Google

Uma crise sanitária e uma crise econômica que andaram de mãos dadas, enquanto o cidadão era obrigado a se isolar, e por um tempo bastante prolongado. Não bastasse esse cenário, único e grave, tudo ocorrendo em um ambiente polarizado e marcado por divergências. Um conjunto de problemas que surgiu com a pandemia e se expressa de forma contundente na saúde mental das pessoas. É dessa maneira que Fábio Coelho, presidente do Google do Brasil, descreve o que estamos vivenciando desde os primeiros meses do ano passado. Um conjunto de problemas que pede um comportamento diferente de empresas, gestores e da sociedade:

“A gente tem de estar olhando para a melhor forma de como ajudar as pessoas a navegar melhor essa pandemia. Com informação de qualidade, entendendo quais são os passos corretos a seguir e respeitando as individualidades de cada um de nós, porque cada um é um universo em si, que vive essa pandemia de maneira diferente”.

O diagnóstico feito por Fábio Coelho, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, serve tanto para as ações que se referem a parceiros de negócio quanto as que pautam os relacionamos humanos — seja dentro da empresa, com os colegas de trabalho, ou no círculo de amigos e familiares.

“Nós aprendemos que, primeiro, para a gente poder trabalhar bem as pessoas tem de estar bem. Isso significa cuidar da saúde mental, cuidar do bem-estar das pessoas que trabalham contigo, muito mais do que antes. Aprendemos, também, que temos de ser rápidos na maneira em que a gente apoia as pessoas, sejam as que trabalham contigo sejam os seus clientes”.

Velocidade não faltou para o Google, pelo que se constata no relato feito pelo seu presidente aqui no Brasil. No dia 13 de março, todas as equipes tiveram de deixar a sede da empresa e, em dois dias, as operações já ocorriam totalmente à distância. O uso de plataformas próprias que agregam uma série de ferramentas necessárias para o desenvolvimento de projetos ajudaram a manter o fluxo de trabalho com a conexão e colaboração entre profissionais e equipes. 

O prédio principal que fica em uma das áreas mais nobres de São Paulo e reconhecido por sua estrutura avançada e arquitetura moderna segue ocupado apenas por profissionais da área de segurança patrimonial e manutenção. O retorno ao trabalho presencial ainda não está decidido, de acordo com Fábio Coelho. Talvez no fim desse ano. Provavelmente, no ano que vem. Mesmo assim, uma volta que tende a ser parcial:

“A gente acredita que podemos trabalhar no modelo híbrido, mas isso varia de grupo a grupo dentro da organização. O importante é que a gente tem conseguido navegar na pandemia … Dá pra fazer um equilíbrio entre uma coisa e outra, que aí nós vamos ter o melhor dos dois mundos (remoto e presencial), neste momento”. 

O desafio de encarar a pandemia marcou o décimo ano de Fábio Coelho como presidente do Google Brasil. Uma marca interessante se considerarmos a celeridade das transformações que ocorreram nos diversos setores que a empresa atua. Quando Fábio iniciou sua trajetória — ele próprio lembra dessa situação —- um dos fenômenos tecnológicos atendia pelo nome Orkut, os celulares inteligentes eram raros e a computação em nuvens ainda não havia amadurecido. Provocado a falar sobre sua longa permanência no Google, o executivo identifica três razões:

“Primeiro porque eu gosto. Segundo porque eu continuo aprendendo. Terceiro porque estou sempre me ajustando”. 

Para Fábio é essencial que os profissionais, executivos e colaboradores estejam sempre abertos a fazer os ajustes necessários e entender que cada momento tem uma onda tecnológica diferente. Segundo ele, o aprendizado tem ser constante para que a pessoa se mantenha relevante na função que exerce. Um dos aspectos que considera importante em seu desenvolvimento foi a convivência com a diversidade de opiniões, de conceitos e de pessoas —- que tem muito a ver com o ecossistema do Google:

“Nós temos de ter solução para todos os brasileiros, são de mais de 100 milhões de brasileiros que usam nossas plataformas, que têm mais de 1 bilhão de usuário no mundo. O Google tem de ter gente que represente em 1 bilhão” 

Diante do uso das palavras monopólio e Google na mesma frase —- no caso, na mesma pergunta —-, Fábio Coelho é tão rápido ou mais na resposta do que quando vamos pesquisar no buscador de informações. O executivo diz que não existe monopólio e cita alguns concorrentes nas múltiplas áreas em que a empresa atua —- e-mail, plataforma de streaming, mapas, navegador e o próprio buscador, entre outros. O que chamamos de monopólio para ele é oferta da melhor experiência.

Chame como quiser, a conversa sobre domínio de mercado me fez lembrar a experiência de Jeff Bezos, da Amazon, que decidiu desafiar a lógica e propôs aos gestores da operação que recém havia se iniciado no México a vender seus produtos sem anunciar no Google. Estava cansado de entregar parte de seu lucro à empresa. Em pouco tempo voltou atrás. 

Independentemente do que você pensa, a boa notícia é que o Google está contratando. Fábio Coelho informou ao Mundo Corporativo que a empresa tem cerca de 150 vagas em aberto, em São Paulo e em Belo Horizonte. E o que buscam?

“O que a gente busca são pessoas que possam ter algum impacto na companhia, se for mais experiente, a capacidade de contribuir com experiências passadas; se for uma pessoa jovem, com interesse para aprender”.

Pra saber como se candidatar a uma dessas vagas, dá um Google. 

Assista à entrevista completa com Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil:

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, em vídeo, no canal da CBN no Youtube, no site e no perfil da rádio no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Está disponível, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Anúncios de atrações do Rock in Rio nos fazem pensar sobre o que é normal

Foto: Divugação

O Rock in Rio começa a atiçar os ânimos dos amantes e saudosos dos shows musicais, que desapareceram dos palcos com a pandemia. Justin Bieber e Demi Lovato foram anunciados como atrações principais nos dias 4 de setembro de 2022. Sim, isso mesmo. Estamos falando do ano que vem ainda. Mas como tudo que é bem planejado, é preciso tomar medidas com bastante antecedência, mesmo que para muitos de nós ainda seja difícil vislumbrar a possibilidade de voltarmos a nos aglomerar: na igreja, na boate, no sambódromo ou em um concerto musical. 

Quando isso acontecer com a segurança devida e a liberdade que adoramos, talvez possamos falar que voltamos ao normal. Alguns apostam que isso vai ocorrer no Reveillon. Outros, no Carnaval. Há quem acredite que logo depois da primeira dose ter sido aplicada no braço da maioria dos brasileiros, a festa já está liberada. Tem pessoas que garantem que está tudo normal —- tenho dúvida do que entendem por normal. É possível que minha reclusão em casa por quase todos esses dias, que se iniciaram em 13 de março do ano passado, tenha mexido com minha estima e capacidade de sonhar, mas sou bastante cético em relação ao calendário de eventos e atividades.

Para pensarmos sobre quando o normal estará entre nós, é bom antes entendermos o que encontramos nos dicionários como definição desta palavra. Ao folhear o Aurelio —- ainda mantenho um aqui na biblioteca que aparece no pano de fundo das minhas apresentações no Jornal da CBN —- fico sabendo que normal é algo usual, corriqueiro, que ocorre a todo momento. Mas, também, surge como aquilo que está conforme as normas, dentro das regras.

Num sentido ou noutro, saber se tudo voltará ao normal dependerá de uma série de fatores. Especialmente do controle da doença que mata desde o ano passado mais de 560 mil brasileiros. A tendência é que até o ano que vem já tenhamos contido o vírus —- e, também, tenhamos vacinas suficientes para retomar um novo ciclo de imunização, a medida que muitos médicos e doutores, que ouvimos na CBN, entendem que o combate a este coronavírus tenha de ser anual, como fazemos com o vírus da gripe.

Diante das definições do dicionário, posso dizer que se fizermos o normal, poderemos voltar ao normal.

Ou seja, se fizermos o normal —- como aquilo que está dentro das regras (neste caso sanitárias) —- poderemos voltar ao normal, fazendo aquilo que é usual nas nossas vidas, seres gregários que somos: nos congregando entorno da música, da história, do amor e tudo aquilo que nos move. 

Aí, sim, provavelmente o Rock in Rio será o grande sucesso de sempre — a despeito de sua line-up —, em lugar de se transformar em mais um desejo frustrado, um sonho abortado por esta pandemia. 

Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Julianne Moore em foto-reprodução do filme ‘Para sempre Alice’

“Meus ontens estão desaparecendo e

meus amanhãs são incertos. Então, para que

eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente”

“Para sempre Alice”

            O livro “Para sempre Alice”, de Lisa Genova, conta a história de uma professora universitária que, no auge de sua carreira, começa a ter esquecimentos e a se equivocar em situações cotidianas, recebendo o diagnóstico de Doença de Alzheimer precoce, um dos subtipos de síndrome demencial.

            A síndrome demencial ou demência é caracterizada pela perda das funções cognitivas, como a atenção, a linguagem ou a memória, e pelas dificuldades significativas na realização de atividades da vida diária, como cuidar das finanças.

            Apesar de haver alguns subtipos de demência, a mais conhecida e mais frequente é a demência relacionada à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo início insidioso e pelos lapsos de memória, com evolução progressiva das perdas cognitivas.

            Dentre as principais dificuldades cognitivas encontradas na Doença de Alzheimer, as falhas de memória são as mais frequentes, caracterizadas inicialmente por dificuldades em aprender uma nova informação, como usar um novo aparelho eletrônico, esquecimentos para fatos recentes e a tendência a um discurso mais repetitivo.

            No início da doença, há uma dificuldade em encontrar palavras, tomar decisões e realizar o planejamento e execução de atividades anteriormente realizadas com sucesso.

            A medida que a doença evolui, as perdas cognitivas se tornam mais acentuadas e as alterações de comportamento, que no início sugeriam uma perda de iniciativa ou falta de motivação, se tornam mais intensas, podendo ocasionar uma mudança significativa na personalidade do paciente.

Diante da característica progressiva e irreversível da Doença de Alzheimer, uma condição frequentemente experimentada é o luto antecipado, isto é, o luto que se vivencia antes mesmo da morte.

            A percepção de que se está perdendo a memória e, com isso, toda a sua história de vida, identidade e autonomia, leva inicialmente ao luto o próprio paciente, que se vê fragilizado e impotente diante dessa condição.

            Por outro lado, com a evolução da doença, familiares e cuidadores tentam se adaptar a uma perda anunciada, que envolve o enfrentamento da morte que virá e das várias perdas ao longo do processo, incluindo perdas sociais, econômicas, de sonhos e de companheirismo.

            O professor e neurocientista Ivan Izquierdo, um dos maiores pesquisadores sobre a memória, gostava de destacar que o modo como podemos conceber o tempo é a partir do conceito de memória. O futuro ainda não existe e o presente nos permite a aprendizagem. O passado, que também não mais existe, ainda é possível ser acessado sob a forma de memórias.

            Talvez, por isso, as perdas de memória nos amedrontem: porque escancaram a impermanência das coisas, de nós mesmos.

            Para os que sofrem com as perdas de memória impostas pelo processo demencial, a vida vai se perdendo pouco a pouco da própria mente, reafirmando, para todos nós, a necessidade de se viver intensamente o presente.

            Pode ser que a gente esqueça o dia e o ano. Pode ser que a gente nem mesmo se recorde de quem somos nós. Daí a necessidade de sermos tudo o que pudermos hoje. Como nos provoca a personagem do livro, “esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância”.

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A busca pela imperfeição

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: IONEL BONAVENTURE / AFP Site CBN

“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter;

repugna-la-íamos se a tivéssemos.

O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”

Fernando Pessoa

Esparta foi uma das principais cidades-estado da Grécia Antiga, que mantinha sua soberania pautada na austeridade e disciplina militar. A educação espartana era rígida e visava preparar o povo para as lutas, através de treinamentos físicos intensos que promovessem força e resistência, capazes de levar à perfeição e, consequentemente, à derrota do adversário. As relações sociais e familiares ficavam em segundo plano, e aqueles que não se adaptavam a esse modelo eram punidos e excluídos da sociedade.

Os ideais espartanos de disciplina, resistência e superação de limites físicos foram muitas vezes cruciais, não apenas nas guerras ou disputas territoriais, mas também nos jogos olímpicos que eram realizados na Grécia Antiga.

Desde então, muitas transformações aconteceram nas Olimpíadas, como a inclusão de novas modalidades. No entanto, as exigências de perfeição as quais muitos atletas estão sujeitos permanecem semelhantes aos padrões helenos.

É necessário ser o mais rápido. É necessário ser preciso. Não há espaço para erros. Do contrário, o atleta depara com as consequências impostas ao simples fato de ser imperfeito. A busca pela perfeição pressupõe um ciclo nocivo à saúde física e mental, não apenas de atletas, mas de milhares de pessoas em todo o mundo.

Nessas situações, é muito comum que se estabeleçam metas elevadas para si, reforçando-se a crença de que as coisas devem ser feitas perfeitamente ou então não devem ser realizadas.

O curioso é que, diante das dificuldades que surgem, há uma tendência ao aumento da autocrítica e da ideia de incapacidade, fazendo com que a pessoa aumente ainda mais a sua meta e seja negligente com suas necessidades fisiológicas e seu bem-estar psíquico, perseverando nesse ciclo.

Certa vez perguntei a uma pessoa, que estava sobrecarregada com as pressões do trabalho, o que achava que poderia fazer para solucionar isso. Sua resposta foi curiosa: “ficar algumas horas a mais além do expediente, para poder me dedicar e checar o que já fiz para ter certeza de que não vou falhar”.

O resultado desse excesso de dedicação e da negligência com o autocuidado leva ao esgotamento físico e mental e à sensação de sobrecarga e exaustão. Sentindo-se frustrada, essa pessoa acredita que é insuficiente, incompetente ou incapaz. Isso aumenta significativamente a ocorrência dos transtornos de ansiedade, depressão e burnout.

Manter o equilíbrio nas traves da vida nem sempre é tarefa fácil. Na busca por saltos duplos e triplos, somados às piruetas para driblar o dia a dia, nossos movimentos ficam pouco harmoniosos, tropeçamos na aterrisagem e nosso solo se assemelha a um campo de batalha, no qual lutamos contra pressões, inseguranças, medos e, principalmente, nós mesmos.

Há uma cobrança excessiva para que dêmos conta, impecavelmente, de uma lista extensa demais.

Precisamos ser mais como Simone Biles.

Assumir as nossas dificuldades ou vulnerabilidades não é sinal de fraqueza. Assumir que não são somos robôs ou feitos de aço, que não precisamos e não queremos ser heróis, nos aproxima da nossa natureza, da nossa humanidade.

Somos imperfeitos!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O diabo da felicidade e os demônios que fazem de Simone Biles e Naomi Osaka seres humanos

Crédito: Breno Barros/rededoesporte.gov.br

O 27 de julho olímpico foi cruel para duas das maiores atletas da atualidade. A poucos metros de distância, a ginasta americana Simone Biles, 24 anos, e a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, vivenciaram momentos de profunda tristeza e abatimento, no centro olímpico de Ariake, em Tóquio. 

A número 1 do mundo, na arena de ginástica artística, fez sua pior apresentação desde que surgiu no cenário internacional, desistiu das provas por equipe e teve de se contentar com a medalha de prata, após os Estados Unidos serem superados pelas russas. Nas quadras ao lado, a número 2 do tênis foi desclassificada nas oitavas de final pela tcheca Marketa Vondrousova, frustrando a expectativa dos japoneses de verem sua maior tenista conquistar a medalha de ouro.

Depois de afastada da equipe por ‘problemas médicos’, sem que mais detalhes fossem informados, a própria Simone Biles revelou aos jornalistas sua fragilidade psicológica para a disputa, mesmo sendo o maior nome da ginástica americana de todos os tempos —- e, talvez, exatamente por ser o maior nome da ginástica americana de todos os tempos: 

Assim que eu piso no tatame, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.

Ao ouvir Biles, lembrei do que havia dito, em maio deste ano, Naomi Osaka, ao desistir de continuar disputando o Torneio de Roland Garros, pois não queria mais participar das entrevistas coletivas, compromisso que todos os atletas são obrigados a cumprir quando aceitam as regras do jogo. Ela alegou que as perguntas feitas pelos jornalistas causavam um impacto adverso em seu bem-estar mental —- resultado de depressão que surgiu, em 2018. 

Na época em que assumiu publicamente sua fragilidade, a psicóloga Simone Domingues, publicou aqui no Blog o artigo “A grande sacada de Naomi: a coragem de confessar que tem medo” e explicou a reação da tenista: 

“Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental”

Hoje, ela estava apática em quadra, descreveram os jornalistas. É preciso um pouco mais de apuro e sensibilidade para entender se os problemas psicológicos influenciaram no desempenho de Naomi. O certo é que com sua apatia, se despediu dos Jogos muito antes do que esperavam dela. 

De Naomi sempre estão esperando mais. Não por acaso, foi a escolhida pelos japoneses para acender a tocha olímpica, na cerimônia de abertura,— protagonizando uma cena que talvez explique muito do que ela e os maiores talentos do esporte  carregam consigo a cada degrau que sobem na carreira. Por mais que o mundo estivsse ao lado dela, admirando-a naquele momento, Naomi teve de subir sozinha as escadas em direção à tocha. Levando ao alto a esperança de várias nações que enxergam nas Olimpíadas a redenção diante da tragédia desta pandemia. Pelo peso da responsabilidade, pela cultura oriental ou pela forma como encara suas obrigações, não havia um sorriso genuíno na jovem atleta.

“É claro que sempre jogo pelo Japão. Mas definitivamente sinto que houve muita pressão sobre mim desta vez. Acho que talvez seja porque nunca joguei antes as Olimpíadas”, disse a tenista após sua desclassificação.

Na voz angustiada e no jogo apático de Naomi; na revelação dolorida e no desempenho pífio de Simone; nas cenas de antes e de agora; o que mais me chocou foi perceber que por maiores, mais admiradas e respeitadas que sejam as pessoas; por mais ‘grand salms’ e medalhas de ouro que tenham conquistado; por mais próximos que estejam do que entendemos serem os semideuses; nada é suficiente se não houver o diabo da felicidade. E encontrá-la, saber cultivá-la é a grande conquista que nós seres humanos precisamos alcançar. Naomi não consegue. Simone não consegue. E nesta ausência destes astros e estrelas, nunca como antes me senti tão integrante desta mesma constelação.

Amigos permitem ser quem eu sou

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Charles Bernie from Pixabay 

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”

Antoine de Saint-Exupéry

            Ao longo da história da humanidade, o convívio social sofreu mudanças importantes quanto as suas funções e características. Nos primórdios, manter vínculos com outros seres humanos é o que permitia a sobrevivência da espécie, através da colaboração mútua e da proteção. Na pandemia, o uso da tecnologia, seja com aplicativos ou através de redes sociais, se tornou uma das poucas maneiras de se estar socialmente conectado.  

            Diversos estudos destacam a importância das relações sociais, especialmente as que envolvem a amizade, durante o ciclo vital, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.

Na infância, por exemplo, conviver com os amigos está diretamente relacionado com a formação do processo de socialização. Nessa fase, as relações estabelecidas envolvem afeto, diversão, colaboração mútua e resolução de conflitos.

Na adolescência, as amizades são importantes para a construção da identidade e da autoimagem. Nessa fase, talvez mais do que em qualquer outra, o bem-estar psicológico estará diretamente associado com a percepção da Cyro gostaria de fazer parte da sua redequalidade das amizades, por exemplo, se sentir aceito, valorizado pelo outro e estabelecer relações positivas, envolvendo confiança e disponibilidade.

No final da adolescência e início da vida adulta, as demandas que surgem, como ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, podem ser muito estressantes para os jovens e, nesse caso, os amigos são fontes de apoio social, auxiliando a lidar com esses desafios.

Infelizmente, na adolescência, nem sempre as relações estabelecidas são satisfatórias e muitos jovens experimentam um empobrecimento da interação social, gerando muita ansiedade. A piora do bem-estar psicológico pode favorecer o isolamento ou agravar as habilidades sociais, tornando a pessoa mais inibida, com impactos a longo prazo, como aumento da insegurança e redução da autoestima.

Na vida adulta, o trabalho, os relacionamentos afetivos mais estáveis ou filhos, podem diminuir o tempo disponível para o convívio com os amigos, mas há um aumento da qualidade das relações estabelecidas

No envelhecimento, a interação com os amigos também se modifica, se tornando menos frequente ou com encontros mais breves, porém, os amigos representam a maior fonte de proteção contra a solidão.

            A importância de se estabelecer bons relacionamentos foi evidenciada numa pesquisa realizada pela Universidade de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), sendo apontada como um dos fatores que mais influencia o nível de saúde das pessoas, incluindo a longevidade.

            Seria possível detalhar inúmeros estudos que mostram os benefícios de se ter amigos, mas todos eles podem ser resumidos em uma frase: ter amigos torna a nossa vida melhor! 

            Em geral, as relações estabelecidas com os amigos são mais recíprocas, sofrem menos julgamentos e são menos estressantes.

            Amigos nos permitem companhia, apoio e riso solto. Amigos nos acolhem quando precisamos dividir as nossas dores, o nosso choro.

            São os laços que construímos ao longo do caminho… alguns se afrouxam, se desfazem, mas outros estão ali bem firmes. 

São presentes… Desses que a gente agradece todos os dias por ter recebido. Desses que estão sempre com a gente, não nos deixam sós.

Penso nos meus amigos e na importância que eles têm para mim. Me permitem ser quem eu sou e carregam um pouco de mim dentro deles.   

            Na impossibilidade do abraço, faço brigadeiros e envio para os meus amigos. Talvez seja sobre o tempo. Talvez seja sobre a dedicação. Mas acima de tudo, é sobre eles mesmos. 

            Feliz Dia do Amigo!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung