O efeito da carroça sobre os cavalos, no avanço da tecnologia da informação

          

Por Augusto Licks

Photo by Markus Spiske on Pexels.com

WhatsApp avaliando as fake news. Musk comprando o Twitter. Movimentos como esses geram curiosidade, dúvidas e reacendem preocupações, especialmente em ano eleitoral.

Vivemos uma vida cada vez mais virtualizada. É a realidade, e as pessoas se adaptam, fascinam-se até. Entendo bem isso, pois em minhas atividades muito lidei com novas tecnologias que foram surgindo ao longo dos tempos. É incontestável a utilidade da informática e da telefonia móvel nos tempos atuais, pois proporcionam ao mundo uma quantidade imensa de recursos para a realização de tarefas que era impensável no passado. 

Um grande exemplo disso foi com a pandemia, e como a população do planeta conseguiu organizar-se em relação à ameaça sanitária. Imaginem o que teria sido essa calamidade, digamos, nos anos 80 quando não existia internet comercial. Muito mais gente teria morrido e sem saber a causa. 

De resto, é longa a lista de benefícios e utilidades atualmente à disposição para que a população produza, consuma, crie, e se comunique, em quantidade incalculavelmente maior do que na era pré-1995. Falo em quantidade, não necessariamente qualidade. Em todo planeta, temos nesses ramos, hoje, uma constelação de ricas empresas a atender as demandas e a proporcionar empregos.

        Ainda assim, com todos os benefícios, a tecnologia da informação (TI) preocupa, para dizer o mínimo, pois carrega riscos, perigos e até ameaças. É porque, diferentemente de outras tecnologias, TI não se resume a oferecer ferramentas úteis.

Como há umas três décadas já alertava o físico escritor Fritjof Capra é uma tecnologia que facilitou a realização de tarefas existentes mas foi acrescentando inúmeras outras tarefas que não existiam. Esse processo incessante e a proporção a que chegou faz com que de certa forma a TI, bem mais do que oferecer utilidade à sociedade, acabe se apoderando da própria sociedade ao impor dependências em quem a usa. Sendo assim, é no mínimo preocupante que o constante e frenético desenvolvimento da TI não venha acompanhado de recursos que a alinhem com o aperfeiçoamento social. Sem freios, o resultado é que a tecnologia acabe usando usuários(as) quando deveria ser apenas o contrário. 

Claro que alguns conseguem usá-la seguramente  — quando ainda conseguem fazer alguma coisa a mais na vida —, mas mesmo estes vivem sendo atrapalhados aqui e ali, seja por telemarketing, call center, spam, hoaxes, fakes, cookies, atualizações, instalação de aplicativos  desnecessários, e toda sorte de subprodutos que lhes obrigam a perder tempo com práticas entediantes de configurar antivírus, firewall, VPN, habilitar, bloquear, filtrar, e, mesmo, cancelar, num poço sem fundo de abordagens indesejadas que acontecem.

É interessante observar que o próprio setor empresarial já produz iniciativas de controle, como o site naomeperturbe.com.br da FEBRABAN em que mais de 5 milhões de usuários já se cadastraram para proibir que empresas lhes telefonem oferecendo crédito consignado. Me pergunto se não seria mais simples criar uma lei punindo de vez essa gente inoportuna. Como política de Estado, porém, por enquanto, somente a não-democrática China avança num projeto de controle de algoritmos, sacrificando interesses econômicos de suas próprias Big Techs ao facilitar que o usuário evite compras compulsivas que vivem pipocando em suas telas. Resta saber o que mais o regime chinês pretende. 

Sei de pessoas que optam por cortar esses males pela raiz: não atendem mais telefone (pois estão convencidas de que do outro lado estará uma gravação, obviamente não solicitada), não lêem mais textos SMS (perda de tempo catar algum que não seja indesejado), deixam de seguir grupos e gente online, ao constatar a impossibilidade de a todos “marcar”, “dar like“, subscrever canal, e ainda evitar que uns e outras se magoem por algum daqueles respectivos taps não lhe terem sido dados. A coisa fica ainda mais preocupante com golpes e clonagens que já são rotineiros.

Ao longo dos tempos, o desenvolvimento de tecnologia de forma geral esteve a serviço de tornar melhor a qualidade de vida da civilização. Mas até para isso parecem existir ciclos, representáveis em gráficos. Numa analogia, ainda que imperfeita, a produção de conhecimento e técnicas pode ser vista como o esforço de cavalos a puxar uma carroça carregada numa subida sempre íngreme — formando uma linha gráfica ascendente. Nessa imagem, a sensação contemporânea é de que tal percurso chega  a um cume de altitude, e depois disso surge um “outro lado da moeda”: uma descida — linha gráfica descendente —, em que a força da gravidade faz o maior peso da carroça acelerar descontroladamente, adquirindo autonomia errática e puxando consigo os pobres cavalos a ela amarrados. 

Como os cavalos na subida, o ser humano empenhou esforço, almejando que a chegada a algum cume lhe traria descanso e zonas de conforto. Só que não! Veio a descida e nela somos tragados a despender esforço que antes esperávamos economizar, para nos segurar em relação à essa inversão de forças. 

Diz-se que estamos apenas no início, tem ainda “internet das coisas”, “realidade aumentada”, “metaverso”, deep web, dark web, etc. Algoritmos podem até ser obra de um humano (ou não), mas são os humanos como um todo que usufruem de ou sofrem seus efeitos. 

Falta a esse uso tecnológico desenfreado algum compromisso com princípios universais que a civilização produziu após séculos e séculos de conflitos e erros que nos possibilitaram chegar a acertos. Pelo contrário, a voracidade da TI é por controle, é por mapear os passos e hábitos dos cidadãos, possibilitando que de uma ou outra forma sejam manipulados. É aquela ideia antiga profetizada no livro “1984” de George Orwell, com o Big Brother, depois alertada no filme “Inimigo do Estado”, e em anos mais recentes delatada por Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA. Ficção tornando-se realidade.

Os mais jovens não devem saber, mas no início a internet era instrumento para estudos, acadêmicos ou não, e tinha regras para a discussão de ideias, a netiquette dos newsgroups originais. Em contraste, hoje, praticamente não existem regras que impeçam violências morais e crimes de calúnia, injúria e difamação. Chega a ser comovente o esforço de nossas instituições jurídicas para coibir tais males, mas é como tapar sol com peneira. Se responsabilizar indivíduos é difícil, como, por exemplo, agir com uma comunidade digital inteira se praticar esses crimes ?  Falta obviamente uma regulamentação, que seja eficaz e prime por identificação da origem de notícias e declarações.

Contra regulamentação de plataformas digitais usa-se a alegação de que iria ferir a liberdade de expressão. Mas não seria nesse caso a liberdade de raposas num galinheiro? Numa sociedade livre, por contraditório que soe, liberdade tem limites, e estes limites são facilmente definíveis a partir da experiência acumulada de países democráticos. Liberdade sem limites é liberdade apenas para os mais fortes. Lei da selva!

Ouvi também um argumento de que as plataformas digitais democratizaram a informação em relação a grandes empresas de comunicação que antes a monopolizavam. Não discordo, mas não vejo porque ambas não possam conviver, desde que resguardadas as respectivas credenciais.

Em empresas de comunicação trabalham profissionais que se prepararam para o exercício de uma função essencial que é buscar e relatar fatos de interesse público. Nada impede que alguém faça o mesmo em plataformas digitais, e muitos fazem, mas é preciso credenciar isso, distinguir de práticas pessoais ou corporativas que não têm o mesmo compromisso ético de buscar a verdade de forma isenta (missão do jornalismo), mesmo que isso seja difícil e por vieses editoriais que ocorram. 

É preciso, repito, identificar, submeter as origens de informação a algum mecanismo de controle que funcione como uma espécie de selo, para que o leitor ao menos tenha uma referência imediata sobre a origem do que está lendo, que lhe permita ter alguma noção de quão confiável é. Um timbre de determinada cor já ajudaria a atestar o grau de confiabilidade de uma postagem. Claro que não é tarefa fácil, exige engenharia gigantesca, mas enquanto alguma medida não acontecer, os anonimatos, fishing e fakes seguirão manipulando as pessoas mais ingênuas, que acabam adaptando-se a serem manipuladas, e seguem sendo reféns. 

Umberto Eco afirmou que as redes sociais deram voz aos imbecis. Só que nem tão imbecis são os que tiram proveito desse estado de coisas. Seus reféns é que são. Do jeito que está, com o apelo irresistível da tecnologia e a força avassaladora das plataformas digitais temos um generalizado enfraquecimento humanístico, a serviço de remeter pessoas a apenas raciocinar e não refletir, a xingar em vez de argumentar, a usar instinto em vez de razão, a aceitar crendices em vez de conhecimento, enfim, a todo um senso comum tecnologicamente aparelhado com pseudo-valores retrógrados. 

Enquanto alguma solução não for construída  — leia-se: o congresso elaborar e aprovar uma lei eficaz para coibir os atuais abusos — a sociedade seguirá predominantemente viciada, quimicamente dependente dessa droga legalizada, de seus produtos, sub-produtos, e derivativos. Clínicas de reabilitação existem, mas talvez devêssemos reformular o conceito oficial do que é droga em nosso país, considerando apenas a saúde pública, sem moralismos e hipocrisias que só beneficiam interesses de alguns.

Augusto Licks é jornalista e músico

O que você faz para realizar seus sonhos?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Photo by Andrea Piacquadio on Pexels.com

“Oh, nem o tempo amigo

Nem a força bruta pode um sonho apagar”

Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Qual é o seu maior sonho?

Não falo daquele sonho que a gente tem quando está dormindo: me refiro aos que temos quando estamos acordados.

Há quem sonhe em conhecer um lugar, em comprar um carro ou frequentar um restaurante. Há quem deseje um mundo sem guerra, livre de desigualdades e com um futuro melhor para crianças e jovens.

Independentemente daquilo que almejamos, a nossa busca está em realizar aquilo que acreditamos que nos trará felicidade ou bem-estar.

Desde a década de 1990, a psicologia positiva tem se dedicado a estudar os fundamentos da felicidade e do bem-estar, procurando identificar os fatores que contribuem para que as pessoas se sintam satisfeitas com a vida e como isso pode ser um fator de proteção à saúde mental. 

Martin Seligman, psicólogo e principal autor dessa teoria, propõe cinco elementos que compõem o bem-estar:

  • emoções positivas,
  • engajamento,
  • relacionamentos,
  • significado
  • realização.

As emoções positivas são os pensamentos e as ações que promovem a sensação de alegria e prazer, sendo propulsoras para que possamos sonhar, planejar e realizar aquilo que desejamos. 

O engajamento compreende um estado de atenção plenamente focada, quando ficamos completamente absorvidos por aquilo que realizamos. O trabalho é capaz de nos gerar esse estado, mas estar diante da pessoa por quem estamos apaixonados… Ah! Isso dispensa maiores explicações. Parece até que o tempo para!

Os relacionamentos compreendem as conexões estabelecidas com outras pessoas, e quanto mais positivas, mais positivos serão os pensamentos e emoções gerados.

Significado se refere a ter um propósito, a agir de acordo com aquilo que é valioso para nós. De ser quem desejamos nos tornar — e não estariam aqui os nossos sonhos?

Em 2020, uma pesquisa realizada pelo Instituto IKATU com 2.265 jovens brasileiros, com idades entre 12 e 24 anos, identificou que a felicidade percebida estava diretamente relacionada a um propósito de vida. 

Quanto mais conhecermos sobre nós mesmos, sobre os nossos valores e crenças (aquilo que nos é importante, não apenas no sentido moral ou religioso), mais efetivas serão as nossas ações para atingirmos os nossos objetivos, sejam eles momentâneos ou relacionados aos nossos propósitos.

E ter esperança conta?

Para Charles Snyder, psicólogo americano e um dos maiores estudiosos sobre o tema, a esperança é uma avaliação realista sobre os desejos e os meios para alcançá-la. Portanto, não é uma espera, mas uma análise dos caminhos a serem percorridos.

Para Snyder, a esperança e o otimismo são distintos. O otimismo está relacionado a expectativas positivas de êxito e realização no futuro, mesmo diante de dificuldades ou fracassos. A esperança, por sua vez, compreende expectativas positivas relacionadas à capacidade de alcançar metas ou objetivos. Desse modo, o otimismo está mais relacionado aos pensamentos sobre os desfechos, e a esperança, mais vinculada com as possíveis ações para que esse resultado seja atingido.

Otimistas ou esperançosos, o que desejamos é que os nossos sonhos se realizem e nos tragam felicidade.

Pare por um instante e reflita na pergunta inicial: qual é o seu maior sonho? Acrescento: o que você tem feito para realizá-lo?

O ditado popular alerta que sonhar não custa nada. Então aproveite. Nem precisa ser um sonho só, afinal, como canta Beto Guedes: “quem sonhou só vale se já sonhou demais”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a Belina, o branding, o mocinho e o vilão

 

Anúncio de revista da Belina Ford 1987

“Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente?”

Jaime Troiano

Quem já teve carro a álcool  — álcool raiz, não esse etanol moderno que temos hoje — sabe o drama que era ligar o motor nas manhãs de inverno. Precisava injetar gasolina, tentar uma ou duas vezes, torcer para não forçar a bateria e, às vezes, deixar o motor ligado por algum tempo para não sair titubeando pelo caminho. 

O Jaime, nosso colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, teve um Passat – Passat raiz, não este alemão e chique que roda hoje em dia. Era a álcool e câmbio mecânico. Dureza! Um dia, um amigo deu-lhe  carona em uma Belina à gasolina e automática. “Ainda vou ter uma dessas”, pensou Jaime, que assim que chegou ao trabalho esqueceu da promessa que fez a si mesmo. Algumas semanas depois, abriu a revista Quatro Rodas e deparou com o anúncio da Belina a espera dele. Mas sabe como é …. projeto pra entregar, família pra cuidar. Deixa o desejo da troca de carro para outro dia. Duas semanas depois, ele passou diante da concessionária Ford e voltou a ver a Belina dos sonhos. Entrou, negociou, barganhou e levou. 

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso e descubra qual foi o destino da Belina do Jaime Troiano

O que o fez comprar: a necessidade de um carro mais moderno, a experiência que teve com o amigo, o anúncio na revista ou a fachada da loja no caminho de casa?  Ele próprio responde: a mistura de desejo e necessidade. É assim que costuma funcionar nossa jornada de compra, do carro (nem álcool nem gasolina, eu sonho com um elétrico) à camisa; do computador ao sapato. Quem faz a gestão de marcas sabe como isso funciona, tem estratégias para conquistar o cliente mas precisa ter consciência de que não pode criar armadilhas. 

A história e a reflexão que se seguiu surgiram no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso depois que perguntei ao Jaime Troiano — o dono da Belina — e a Cecília Russo — que não sei se algum dia pegou carona no carrão dele — se o branding é mocinho ou vilão do consumidor. 

“É uma questão que invade o território ético. Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente? Já refletimos muito sobre isso, e nossa conclusão é que essa dualidade, mocinho e bandido, não faz muito sentido.”

Cecília Russo

Quando profissionais de branding fazem seu trabalho a partir de marcas sérias e comprometidas com suas entregas, produtos e serviços, estão atuando dentro de limites éticos e atendendo a necessidades das pessoas, explicam Jaime e Cecilia. Um exemplo, para ir além da Belina, é quando sentimos sede. Não é  a marca quem provoca essa sede. A sede nos leva a marca. E aí sim entra o trabalho do branding: direcionar a pessoa que sente sede para um determinado produto. 

“Seres humanos somos uma fábrica de desejos. Eu já os tenho dentro de mim e são esses desejos que me levam ao consumo. As marcas fazem parte daquela equação que já falamos no programa: o que eu sou mais alguma coisa que me falta, é uma soma, digamos assim, que me conduz ao que eu quero ser, ao meu eu ideal”. 

Cecília Russo

Leia aqui mais sobre a equação citada por Cecília Russo

Estar comprometido com a transparência e desenvolver o projeto de branding baseado na verdade da marca e em um profundo conhecimento das pessoas a quem elas se destinam é uma responsabilidade que os profissionais da área têm de assumir.  

“Branding não é uma máquina de vendas. É um caminho para criar significados autênticos para as marcas satisfazerem necessidade e desejos igualmente autênticos nos consumidores”

Jaime Troiano

A arte de interpretar, do cinema ao divã

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“É muito importante que os filmes façam as pessoas olharem para  o que elas esqueceram”

Spike Lee, diretor
Photo by Dmitry Demidov on Pexels.com

A história do cinema teve início em dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram o primeiro filme de curta duração, em Paris. A capacidade de captar imagens dinâmicas da realidade foi possível graças ao desenvolvimento do cinetoscópio e, posteriormente, do cinematógrafo, aparelho que permitiu gravar e projetar as imagens em uma tela. Inicialmente sem som, o cinema se desenvolveu e permitiu diálogos e reflexões, sendo uma manifestação cultural e uma expressão de realidades percebidas e interpretadas ou, mesmo, de ilusões criadas por seus autores.

A história da psicologia, como disciplina científica,  também teve seu início no fim do século XIX, na Alemanha, com o estabelecimento do primeiro laboratório de psicofisiologia, fundado por Wilhelm Wundt, cuja finalidade era compreender os fenômenos mentais. Naquele momento,  esse interesse coincidia com os estudos de fisiologia vigentes que buscavam esclarecer como diversos estímulos eram captados e interpretados pelo sistema nervoso.

Se o desenvolvimento das ciências permitiu o avanço na compreensão das bases biológicas e sociais do comportamento humano, também foi responsável pelo progresso das tecnologias, conduzindo a novas formas de captar e transmitir as imagens, inclusive em tempo real.

Para além das semelhanças temporais, em que se aproximam o cinema e a psicologia? 

Através de combinações visuais e auditivas, o cinema desperta diferentes emoções, onde o acaso não tem vez. O controle preciso de luzes, sons, cores e imagens permite o enquadramento da cena, escolhido cuidadosamente pelo diretor. Apesar desse planejamento, o filme não irá repercutir igualmente para todas as pessoas. 

A maneira como uma pessoa interpreta, dá significado ou compreende uma situação está muito mais ligada a aspectos individuais, construídos ao longo da vida, que identificamos como esquemas, do que a situação propriamente dita; isso influenciará as suas respostas emocionais e, consequentemente, as suas ações. Podemos compreender esses esquemas como imagens que foram construídas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo no qual vivemos, a  partir das nossas experiências. Em algumas circunstâncias, essas imagens podem ser um pouco distorcidas, como se estivessem fora de foco e não correspondessem à realidade, gerando muito sofrimento. 

Não é raro ouvir pessoas talentosas e competentes, que diante de um desafio profissional, por exemplo, acreditam que são incapazes de realizar um bom trabalho ou se julgam uma fraude, apesar de não haver nenhuma evidência real sobre isso. Ativam um modo mais exigente consigo, elevam as metas e se tornam extremamente autocríticas. Nesse caso, aumenta-se a chance de procrastinação, paralisia e mesmo desistência, o que gera frustrações e confirma a “profecia” de incapacidade.

Penso no psicólogo como aquele diretor de cinema que vai destacando cenas, melhorando a qualidade da luz, aproximando a câmera para uma visualização ainda desconhecida. Provoca reflexões, reconstrói imagens, pensa em desfechos, longe de um final — apesar de haver um desejo de feliz para sempre —,  a partir de soluções de problemas e do desenvolvimento de habilidades.

E não seria semelhante com o cinema, em sua incrível capacidade de surpreender, interrogar, possibilitar reflexões e até mesmo promover mudanças? 

Assim como um cineasta deve trabalhar cuidadosamente a captura de imagens, para que possamos enxergar o que ele quer nos transmitir, a psicoterapia contribui para que o paciente possa ver para além de suas ideias iniciais,  muitas vezes desfocadas ou com ruídos.

O cineasta nos permite enxergar aquilo que não veríamos se a câmera não delimitasse o foco. A terapia ainda provoca: como seria possível ver de maneira diferente a mesma situação? Isso muda compreensões.

Ajustar as nossas lentes permite enxergar o que ainda não tínhamos visto, que estava ali, como numa bela cena cinematográfica, bem  diante de nós.  

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicóloga, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu artigos a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Janeiro Branco: a importância dos cuidados com a saúde mental

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Photo by MART PRODUCTION on Pexels.com

Ao longo da história da humanidade, diferentes conceitos sobre o adoecimento mental conduziram a práticas desumanas que em muito contribuíram para os estigmas e preconceitos sofridos pelas pessoas que têm transtornos mentais.

Doentes mentais já foram considerados hereges; foram colocados em embarcações que vagavam à deriva por rios europeus; foram considerados perigosos e levados à prisão; já foram trancafiados em hospícios, excluídos do convívio social.

O avanço científico, especialmente o desenvolvimento das neurociências, permitiu novas compreensões e tratamentos dos transtornos mentais. Além disso, fenômenos sociais têm alertado sobre a necessidade de prevenção e promoção da saúde mental, conduzindo a estudos científicos que compreendam seus fatores de risco e proteção. 

A saúde mental de uma pessoa está relacionada ao seu bem-estar, ao autoconhecimento e a maneira como reage às situações de adversidades e conflitos, com o menor impacto sobre o seu funcionamento.

Alguns fatores de risco à saúde mental são apontados por estudiosos, como a experiência individual do estresse, a vulnerabilidade genética e fatores de risco ambientais, dentre os quais destacam-se: condições socioeconômicas desfavoráveis, como pobreza e falta de habitação segura, desemprego, baixa remuneração e violência.

Diante de tantos desafios e adversidades, o que permite que alguém se mantenha mentalmente saudável?

Ter esperança, satisfação em vários domínios da vida, autoaceitação, bons relacionamentos, maior capacidade de resiliência, maior tolerância à frustração, empatia, criatividade e espiritualidade são apontados nos estudos, como recursos e estratégias de enfrentamento mais positivas para o desenvolvimento da saúde mental. Esses recursos podem ser compreendidos como habilidades individuais para o enfrentamento, percepção de rede de apoio e engajamento social e autoconceito positivo.

Algumas atividades também estão relacionadas à redução do estresse, dos níveis de ansiedade e de depressão, tais como alimentação saudável, prática regular de atividade física, sono adequado, atividades de lazer, de relaxamento e de autocuidado.

Como cultivar essas práticas, quando há escassez de emprego, moradias inadequadas e tantas outras desigualdades sociais?

Cuidar da saúde mental não pode ser um modismo ou privilégio de alguns grupos sociais. É uma necessidade urgente e para todos, exigindo que programas preventivos sejam implementados, como políticas de saúde pública, tendo em vista o sofrimento que os transtornos mentais geram em pacientes e seus familiares e o elevado custo dos tratamentos.

Promover a saúde mental não é sinônimo de excluir das experiências de vida alguns sentimentos mais desagradáveis, como tristeza, raiva ou ansiedade. É colocar em prática ações preventivas que possam criar estratégias para que tais sentimentos sejam vividos, validados e superados sem o adoecimento emocional.

Cuidar da saúde mental não é uma ação individual. É coletiva, cuja responsabilidade recai sobre pessoas e organizações, sobre famílias, escolas, empresas e governantes. 

Somente é possível cuidar daquilo que se valoriza.

Mas qual é a medida de valor da nossa sociedade? Sucesso profissional? Dinheiro? Produtividade?

Enquanto houver negligência do autocuidado, privação dos momentos de lazer e aprendizagens que não priorizam o desenvolvimento de habilidades sociais, seremos levados à exaustão e nos manteremos adoecidos.

Que possamos criar uma cultura de saúde mental, como proposto pela campanha ‘Janeiro Branco’, não apenas como uma meta para esse mês, mas como uma cultura de saúde para o ano todo. 

Por um ano mais saudável, por um ano mais feliz!

Assista ao programa Dez Por Cento Mais sobre saúde mental, ao vivo,

nesta quarta-feira, dia 19 de janeiro, às 20 horas

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Fome de quê?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Gioele Fazzeri no Pexels

“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”

Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sergio Britto

Outro dia, zapeando pelas redes sociais, uma postagem despertou a minha atenção e me fez curiosa. A influenciadora digital contava para os seus seguidores como um prato com uma hortaliça específica, em diferentes versões – crua, refogada, em folhas fatiadas fininhas ou enrolada como pétalas de flores – era tudo o que alguém precisaria em uma única refeição.

Sem a pretensão de fazer qualquer análise nutricional sobre isso, até porque me faltariam competências técnicas, aquilo me gerou uma enorme inquietude e preocupação, tendo em vista que alguns transtornos mentais ainda são pouco conhecidos ou negligenciados.

Numa sociedade que valoriza padrões de beleza e a “cultura da magreza”, alguns comportamentos disfuncionais, que geram sofrimento e prejuízos significativos, são até mesmo incentivados. 

Todos os anos, milhares de pessoas sofrem com transtornos alimentares. Segundo a Organização Mundial da Saúde, esses transtornos atingem cerca de 4,7% da população brasileira, podendo chegar a 10% entre os adolescentes, com alta taxa de mortalidade.

Esses transtornos são caracterizados por alterações nos hábitos alimentares e em comportamentos relacionados à alimentação, resultando em danos físicos, psíquicos e sociais. Em geral, há uma conexão doentia da pessoa com o alimento, num sentimento de amor e ódio com a comida, resultando em agressões ao próprio corpo. 

As pessoas que sofrem com os transtornos alimentares, na maioria das vezes, apresentam distorções sobre o próprio peso, sobre o formato do corpo, sobre o ato de comer e, especialmente, sobre o valor de si mesmas.

Dentre os transtornos de alimentação mais prevalentes estão a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. 

O que é anorexia nervosa?

A anorexia nervosa é caracterizada por um medo intenso de ganhar peso, o que leva a pessoa a restringir o consumo de alimentos, através de dietas rígidas e/ou jejuns prolongados, podendo fazer uso de métodos que auxiliem na perda de peso, como laxantes, diuréticos, indução de vômitos ou prática excessiva de atividade física. 

Em geral, apesar da perda acentuada de peso, essas pessoas continuam insatisfeitas com o corpo ou com o peso, tendo uma preocupação exagerada por essa temática, o que favorece o isolamento social, gera prejuízos nas atividades acadêmicas ou de trabalho, bem como nas relações afetivas.

O que a bulimia nervosa?

Semelhante à anorexia, na bulimia nervosa há uma importante insatisfação com a imagem corporal e uma preocupação com o ganho de peso, entretanto, as restrições alimentares são seguidas por um descontrole na ingestão de alimentos, geralmente consumidos em grandes quantidades, caracterizando episódios de compulsão alimentar. 

Após os episódios de compulsão, há um sentimento de culpa pela perda de controle e pelos alimentos consumidos, levando a comportamentos compensatórios e disfuncionais para evitar o ganho de peso, como uso de laxantes, indução de vômitos e prática de atividade física intensa.

Quais as causas dos transtornos alimentares?

Não há uma causa específica para os transtornos alimentares, mas os estudos sugerem a participação de fatores biológicos, psicológicos, para os quais se destaca a baixa autoestima, e fatores sociais, especialmente a influência da mídia e das redes sociais.

Nos transtornos alimentares há uma crença de que o corpo pode ser completamente transformado e de que seguir dietas restritivas ou praticar exercícios são escolhas e dependem apenas do esforço pessoal. Além disso, há uma ideia de que alcançar o “corpo ideal” será o passaporte para o sucesso, valorização ou resolução de outros problemas da vida.

Desse modo, essas pessoas são mais vulneráveis às postagens que indicam jejuns prolongados, dietas restritivas ou exibição de corpos “perfeitos”, como situações fáceis de serem atingidas, exigindo apenas força de vontade. Isso gera um enorme sofrimento.

Suas comparações são injustas. Excluem aspectos individuais relacionados ao biotipo e aumentam a autocrítica, reforçando o sentimento de fracasso, de perda de controle e incompetência. Como num círculo vicioso (e perverso), essa frustração piora os sentimentos de tristeza e ansiedade, levando a uma intensificação dos comportamentos disfuncionais.

Outro dia, eu tive conhecimento de um aplicativo de jejum no qual a pessoa é “premiada” pela quantidade de horas que está sem se alimentar, e toda a comunidade que está “firme” como ela é quantitativamente descrita, como um incentivo para a sua não desistência.

Fiquei imaginando o que seria do mundo se houvesse um aplicativo capaz de indicar, numa situação de intenso sofrimento emocional, como uma comunidade estaria “firme”, quantitativamente descrita, como apoio às necessidades do outro, como incentivo para a sua não desistência da vida, de si mesmo. 

Promover a saúde mental é um dever coletivo, mas, infelizmente, nossa sociedade está adoecida, não apenas pelos transtornos mentais — especialmente pela falta de empatia, numa busca exagerada por uma vida “perfeita”, retratada num clique e capaz de obter uma curtida a mais.

Estamos famintos! Nos falta diversão, nos falta arte, nos faltam saídas para muitas partes… Porque na balança da vida, o que deveria contar é quem se é e não o peso corporal que se tem.

Assista ao “Dez Por cento Mais” sobre “Transtornos Alimentares”

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Se me fosse dado um ano inteiro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de abdullah . no Pexels

“Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, 

eu nem olhava o relógio”

Mário Quintana

A contagem regressiva se inicia. Os olhos estão fixos nos ponteiros, indicando que o fim do ano se aproxima… Ou seria o começo?

Esse tal de tempo é mesmo paradoxal: leva consigo aquilo que não podemos reter em nós, evidenciando a impermanência da vida; nos dá coragem para seguir em frente, com uma esperança enorme em dias melhores, em recomeço.

De tão abstrato, transformamos o tempo em horas, datas, fatos marcantes, para caber de maneira cronológica em nossa memória. O jeito que temos para armazenar aquilo que não mais existe.

De tão imprevisível, nos lançamos para o futuro através de sonhos e projetos, tentando driblar nossa incapacidade de controlar as incertezas da vida.

E agora? Agora mudamos o tempo. Apertamos o passo, perdemos os abraços e nos impedimos de ver as coisas simples da vida.

Não temos tempo. 

Ele não se intimida. Não nos dá um consolo com horas extras. Segue sua jornada e voa…

E quando nos damos conta, lá se foi mais um ano.

Há quem diga que não há nada de especial no dia primeiro do ano. Seria um dia como outro qualquer. 

Talvez aí esteja o engano: não deveria existir um dia qualquer. Cada dia deveria ser especial, com uma riqueza de experiências, de sorriso solto, de prazer em estar com quem se ama. 

Fé na vida, desejo de mudança, escolhas que nos façam felizes…

E se te fosse dado um dia? E se te fossem dados muitos dias, um ano inteirinho? O que você faria?

Pense bem. Porque esse tempo se oferece a você e ele está só começando.

Feliz Ano Novo!

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Observações de um sesamóide quebrado

Foto: Pexels

Um fratura nos minúsculos sesamóides, dois ossinhos tão ridículos quanto necessários do dedão, me proporcionou uma série de experiências baseadas em observações e agitou a semana que prometia ser de pasmaceira no noticiário e entediada no cotidiano. A começar pela prova de quanto o corpo humano pode ser frágil e o ser humano, dependente. 

Com a necessária imobilização do local fraturado, perde-se o movimento de uma das mãos e se restringe uma série de atividades para as quais damos pouca importância mas que podem se transformar em desafios que exigem malabarismo e súplicas de solidariedade. Tente amarrar o cadarço do sapato com uma só mão ou abotoar o punho da manga da camisa sem a mão do lado oposto – sim, eu sei, a humanidade tem coisas mais importantes com que se preocupar. 

Eu também, tenho. Trabalhar, por exemplo.

Por isso me espantaram dois dos profissionais de saúde que me atenderam nesses dias. O primeiro insistia que eu aceitasse o atestado médico me dispensando por uma semana. O outro, depois de saber que eu seguia dando expediente, concluiu: “então você é o dono”. Nem do meu nariz! Que, aliás, tentei coçar à noite e arranhei com a órtese de mão que estou “vestindo” em substituição ao gesso desproporcional que o hospital me obrigou a colocar por ser o procedimento mais barato.

Observei também a reação dos amigos e parentes diante do incidente. Foi reveladora de como temos dificuldades de encontrar a forma mais apropriada de solidariedade. Um, antes de eu terminar minha triste história – e eu só queria ter o direito de externalizar minha dor -, começou a falar dos acidentes que ele sofreu. Todos muito piores do que o meu. Sai da conversa arrasado: os casos dele eram insuperáveis. 

Teve o que exercitou a empatia, sempre recomendável nas relações humanas. Ao explicar que havia quebrado o sesamóide, ele logo se uniu a mim para dizer que é a “pior coisa que podia acontecer”. Ao deixar a conversa passei a cogitar a morte no próximo tombo que levar.

Um terceiro lamentou meu azar de ter caído quando faltavam apenas três degraus para chegar ao chão. Teria sido melhor que eu caísse da parte mais alta, então? 

Experiência pior foi o que os exames laboratoriais me proporcionaram. Nem tanto pelo exame em si, nem pelo atendimento recebido – todos os funcionários eram muito simpáticos. Enquanto esperava as imagens da tomografia computadorizada feita em equipamentos ultramodernos, me vi na posição de observador de um diálogo do período jurássico, protagonizado por dois clientes na sala de espera. 

Após a TV anunciar que o governo reduziria o tempo para a terceira dose da vacina contra Covid, o senhor, que parecia mais velho do que eu,  balbuciou algo para a moça, que parecia mais jovem do que eu. Foi a senha para o início de uma conversa que me faz saber que ambos tinham contraído a doença e tomado as duas doses da vacina. Daí pra frente foi uma sequência de absurdos. Ela reclamou que ninguém sabe o que está fazendo porque a orientação sobre número de doses e tempo de intervalo muda a todo momento: “eu vou esperar uns sete meses antes da terceira dose pra ver o que vai acontecer com quem tomou”. Ele contra-atacou: “conheço uma monte de gente que passou mal, eu não vou tomar o reforço. Até já peguei Covid!”.

No segundo episódio da conversa, os dois passaram a relatar sequelas deixadas pela doença. E o senhor, do alto de sua sabedoria, recomendou a ela um chá sei-lá-do-que que tem o mesmo “princípio ativo” de um remédio que está sendo desenvolvido na Alemanha para conter os males deixados pela Covid-19. A moça que havia revelado descrença na ciência que desenvolve vacinas, arregalou os olhos e, antes de se despedir, comentou: “se esse chá funciona mesmo, será uma revolução”. Pegou os exames, despediu-se e foi embora batendo firme os saltos no piso, levando a tiracolo a crença na sabedoria popular e o negacionismo à ciência.

Confesso meu desejo de ter intervindo na conversa ao menos para saber o nome do chá milagroso que resolve o que conhecemos por Covid longa. Preferi resguardar-me em minha própria ignorância. E resignei-me ao papel de observador, apesar de estar convencido de que se eu prestasse mais atenção na minha vida do que na dos outros, talvez tivesse percebido que havia um degrau no meio do caminho. E meus sesamóides estariam intactos.

Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung