Deixar-se sentir

Beatriz Breves

É comum ouvir alguém dizer que precisa se livrar de um sentimento ruim. A raiva incomoda, a inveja envergonha, o medo parece fraqueza, a tristeza pesa. Diante do que dói, surge o desejo de apagar, esquecer ou expulsar imediatamente aquilo que se sente.

Vivemos em uma cultura que valoriza o bem-estar rápido e costuma tratar os sentimentos considerados desagradáveis como falhas a serem corrigidas. Por isso, cada pessoa encontra sua própria forma de fuga: trabalha demais, come além da conta, bebe, viaja, ocupa-se compulsivamente, mergulha nas redes sociais ou procura qualquer estímulo capaz de anestesiar, ainda que por pouco tempo, aquilo que não consegue sustentar.

Essas estratégias podem produzir alívio imediato, mas raramente transformam a experiência. O sentimento pode se afastar da consciência e continuar atuando silenciosamente, muitas vezes retornando sob outras formas: tensão, irritação, cansaço, ressentimento ou repetição de padrões que a pessoa não compreende.

Um sentimento não desaparece porque foi negado. Ele encontra outro  destino quando pode ser reconhecido, nomeado e elaborado. Por isso, a questão fundamental não é sentir ou deixar de sentir, mas aprender a permanecer diante daquilo que se sente sem ser destruído por isso.

Pode parecer uma contradição, mas talvez seja justamente aí que comece a transformação.

Muitas vezes, não sofremos somente pelo sentimento em si, mas pela guerra que travamos contra ele. Sentimos tristeza e nos cobramos alegria. Sentimos medo e nos acusamos de fraqueza. Sentimos raiva e tentamos sufocá-la antes de compreender o que ela denúncia. Assim, ao sofrimento original, acrescentamos outro: o de rejeitar internamente aquilo que já está acontecendo em nós.

Amadurecer emocionalmente não significa controlar tudo o que se sente, nem transformar cada dor em serenidade imediata. Significa desenvolver a capacidade de sustentar uma experiência interna sem implodir nem explodir.

Implodir é “engolir” o sentimento sem lhe dar palavra. É guardar tudo dentro de si, acumulando tensões, culpas, ressentimentos e dores que permanecem sem elaboração. Explodir, por outro lado, é descarregar impulsivamente aquilo que ainda não foi compreendido, lançando sobre o outro uma intensidade que primeiro precisaria encontrar sentido dentro de si.

Nos dois casos, o sentimento não é transformado: ele é somente retido ou despejado.

O processo se parece com a alimentação. O que é engolido sem mastigação pode pesar; o que é rejeitado de imediato não nutre. Entre a recusa e a voracidade, existe um tempo necessário de assimilação.

Com os sentimentos, acontece algo semelhante.

É preciso permanecer em contato com eles por tempo suficiente para escutá-los. Alguns trazem sabores doces; outros, amargos. Alguns confortam; outros desorganizam. Ainda assim, todos carregam alguma informação sobre a forma como fomos tocados pela vida.

Quando uma pessoa consegue sofrer sem abandonar a si mesma, algo essencial começa a se formar. O sofrimento deixa de ser somente dor bruta e passa a se tornar experiência. Uma experiência verdadeiramente elaborada amplia o conhecimento sobre si, sobre os próprios limites e sobre os vínculos que a constituem.

A raiva pode revelar limites que precisam ser protegidos. O medo pode indicar fragilidades que pedem cuidado. A tristeza pode expressar a importância de algo que foi perdido. Até mesmo os sentimentos considerados negativos, por serem desagradáveis de sentir, podem carregar informações preciosas sobre nossa maneira de existir, desejar, amar e nos defender.

Permitir que um sentimento realize seu trabalho psíquico não significa permanecer preso ao sofrimento. Significa oferecer a ele um espaço interno onde possa ganhar forma, linguagem e direção.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, os sentimentos não são obstáculos ao desenvolvimento humano; são parte fundamental dele. Cada sentimento expressa uma forma de organização da experiência e, quando acolhido com honestidade, pode abrir um caminho de compreensão e transformação.

Aquilo que inicialmente se apresenta como dor pode revelar uma necessidade. O que parecia ressentimento pode indicar uma ferida ainda sem “escuta”. O que surgia como angústia pode apontar para algo que precisa ser reorganizado. Nesse movimento, os sentimentos deixam de ser forças que nos dominam e passam a se tornar vias de amadurecimento.

Sentir, portanto, não é fraqueza. É uma capacidade humana fundamental.

Deixar-se sentir é uma forma profunda de cuidado consigo mesmo, porque implica não fugir de si quando mais se precisa de presença.

Por fim, somente aquilo que pode ser sentido pode ser compreendido; e somente aquilo que pode ser compreendido pode, de fato, ser transformado.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Dez Por Cento Mais: Pedro Rosa fala sobre saúde mental e prevenção do suicídio

“Essa perda de pertencimento é um fator muito relevante.”

A sensação de não pertencer a um grupo pode afetar o desejo de continuar vivendo. Relações recíprocas, nas quais a pessoa se sente querida e também pode ajudar os outros, são importantes para a saúde mental, afirmou o psiquiatra Pedro Rosa. O assunto foi tema de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Pensamentos sobre a morte e ideias suicidas são sinais de alerta que devem levar à busca de ajuda especializada. Rosa também citou mudanças que podem indicar sofrimento: afastamento de amigos e familiares, perda de prazer nas atividades, queda no desempenho, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias e abandono de cuidados com a saúde.

Esses sinais, isoladamente, não permitem concluir que alguém tem um transtorno mental. O psiquiatra recomenda que familiares e amigos se aproximem com disposição para ouvir. “Vale se aproximar para ouvir o que essa pessoa tem a dizer”, afirmou.

Quando alguém diz que não aguenta mais ou que seria melhor não estar aqui, a resposta deve acolher o sofrimento e ajudar a pessoa a buscar apoio. Rosa recomenda evitar frases como “vira essa boca para lá” ou “você tem tantas coisas boas na sua vida”. Segundo ele, comentários desse tipo podem piorar a situação.

“Tem uma demonstração humana, de proximidade, empatia, compaixão”, disse. Quem está perto pode perguntar se a pessoa já tem acesso a ajuda e, se necessário, acompanhá-la na procura por um profissional.

O diagnóstico orienta decisões sobre tratamento, medicação e mudanças no estilo de vida. Ainda assim, não descreve alguém por inteiro. “O diagnóstico, ele não descreve o indivíduo pela sua totalidade”, afirmou Rosa.

O psiquiatra também falou sobre o uso de inteligência artificial para buscar orientação sobre sofrimento emocional. A ferramenta pode dar uma falsa sensação de segurança e adiar a procura por atendimento profissional, alertou. A falta de acesso à saúde mental, porém, também ajuda a explicar por que algumas pessoas recorrem a esses recursos.

Para quem enfrenta um tratamento que não funcionou como esperava, Rosa recomendou continuar buscando atendimento e procurar um profissional com quem consiga estabelecer uma relação de confiança. “Continue, busque um profissional com quem você se identifique, que seja bem treinado e que possa te auxiliar.”

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A travessia da angústia

Por Caio Luizetto

Imagem de @jplenio no Instagram por Pixabay

O atrito não é erro de percurso; é a própria mecânica do sistema. Se a dor é o gatilho biológico e anímico que torna a cura necessária, a angústia é a tensão estrutural que precede qualquer despertar genuíno. O problema nunca foi sentir o impacto da fratura, mas paralisar diante do diagnóstico.

A regra fundamental de operação da existência está gravada nessa modulação precisa: angustiai-vos, mas não desanimeis; irai-vos, mas não pequeis. O “mas não” é a linha exata de contenção. Não se trata de anestesiar a resposta nervosa nem de negar a força do choque exterior. O impacto chega, a pressão sobe, a noite pesa, mas a integridade do núcleo não se rende à corrosão.

O contraste é o que define a forma. Não há leitura de relevo sem sombra, assim como não há horizonte de águas tranquilas sem a travessia real do terreno acidentado. A felicidade desprovida da contraposição da angústia é apenas ruído branco, matéria oca sem tração. O vale é rota de passagem obrigatória, nunca ponto final de pouso. A promessa nunca foi a isenção de tráfego pela escuridão, mas a garantia de que a fenda tem extensão finita e saída mensurável.

Marx diagnosticou a fé como o suspiro da criatura oprimida, o ópio que anestesia a dor para perpetuar a inércia da exploração. Nietzsche foi além, denunciando a esperança metafísica como fraqueza de quem inventa um além para não suportar o peso trágico da terra. Ambos acertaram na anatomia do sedativo barato, mas erraram o alvo quando a esperança se recusa a ser fuga.

A diferença elementar reside no fato de que o ópio busca apagar a consciência para mascarar o corte, enquanto o princípio da fé opera na contramão: não dopa o homem contra a realidade, mas injeta tração na espinha para cruzar o vale sem ajoelhar diante dele. Não é a resignação dos fracos nem a negação do mundo material, mas o vetor de sustentação que mantém a estrutura de pé enquanto a têmpera é forjada no fogo.

A escuridão não é permanente nem soberana; é apenas a densidade necessária para calibrar os olhos antes que o sol quebre a linha do horizonte.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O sentimento de renovação

Beatriz Breves

Foto: Mílton Jung

Uma analogia que faço com o sentimento de renovação é aquela sensação que temos quando, após um dia atribulado, chegamos em casa, tomamos um banho quente e trocamos a roupa suada por uma roupa limpa.

Parece que alguma coisa dentro da gente também se modifica. A gente se sente renovado.

E como é bom quando algo acontece, trazendo essa sensação de estarmos “novinhos em folha”! Talvez porque a renovação seja um sentimento que nos faz sentir a vida como se, de alguma maneira, estivéssemos renascendo.

Entretanto, não é todo dia que nos sentimos assim. De fato, são poucos os momentos em que entramos verdadeiramente em contato com o sentimento de renovação.

E isso é curioso, porque todos os dias vivenciamos a renovação. A todo instante recebemos novos estímulos da vida, novas experiências acontecem e o próprio corpo está continuamente se modificando e renovando suas células.

Ainda assim, na maior parte do tempo, não nos sentimos renovados. Ao contrário, muitas vezes nos sentimos como se carregássemos coisas velhas e inúteis dentro da gente.

Talvez a pergunta a ser feita seja: por que não conseguimos sentir a renovação que continuamente acontece em nós?

Uma das possibilidades que me ocorre é que tenhamos a tendência de sobrepor à renovação o sentimento de apego ao que já passou. Afinal, renovar implica, de alguma maneira, deixar o antigo ir para o novo poder chegar.

E talvez paguemos um preço alto quando não conseguimos deixar o antigo ir, permanecendo afetivamente ligados às mesmas imagens, às mesmas experiências e às mesmas formas de sentir.

Como diz o ditado, se “tudo o que é bom dura pouco”, pouco tempo após uma experiência de renovação podemos novamente nos sentir sobrecarregados. É como se não soubéssemos, ou não conseguíssemos, sustentar a transformação que a renovação nos propõe. E, assim, muitas vezes acabamos nos sentindo cansados, envelhecidos ou até ultrapassados diante da própria vida.

Quem sabe, se ficássemos mais atentos, poderíamos entrar em contato com o sentimento de renovação e, assim, aproveitar mais o que somos. Afinal, assim como o sol que nasce e se põe em renovação todos os dias, assim também somos nós.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Mundo Corporativo: Carla Pistori, da Royal Canin Brasil, explica onde começa a reputação da empresa

Carla Pistori Royal Canin
Carla Pistori no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“O líder nada mais é do que um espelho para o seu time.”

Uma empresa pode investir em publicidade, discursos e campanhas institucionais, mas sua reputação também será medida pela experiência de quem trabalha nela. Na Royal Canin Brasil, cerca de 400 profissionais convivem com a tarefa de transformar o propósito da companhia em decisões, comportamentos e informações que chegam ao público. A construção dessa coerência foi tema da entrevista de Carla Pistori, diretora de Assuntos Corporativos da Royal Canin Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.

A empresa está no Brasil há mais de 35 anos, mantém uma fábrica em Descalvado, no interior de São Paulo, e oferece quase 200 fórmulas de alimentos para cães e gatos, distribuídas em aproximadamente 300 itens. Segundo Carla, a experiência do funcionário com a marca começa antes mesmo da contratação, durante o processo seletivo, e avança pela integração, pelo conhecimento científico e pela compreensão da missão da companhia.

“A gente costuma dizer que os nossos colaboradores são embaixadores da nossa marca, mas não só da marca, da nutrição e da importância da nutrição também”, afirmou. Para que isso ocorra, acrescentou, é necessário que os profissionais entendam o papel da alimentação na saúde, no bem-estar e na longevidade dos animais.

A reputação perde sustentação quando a orientação dada pela chefia não aparece em sua própria conduta. Carla resumiu essa responsabilidade com a expressão em inglês walk the talk, usada para descrever quem age de acordo com aquilo que defende.

“A liderança precisa estar muito alerta, porque não é só falar, mas é viver os princípios, os valores da empresa, as políticas. O líder é uma inspiração para o time”, disse.

Na avaliação da executiva, confiança e transparência precisam caminhar juntas. Ouvir uma demanda não significa prometer que ela será atendida. Significa dar espaço para a manifestação do funcionário, explicar o que pode ser feito e alinhar as expectativas. “Uma comunicação clara, transparente, com expectativas alinhadas e devidamente justificadas tem tudo para dar certo.”

Comunicação para diferentes perfis

A diversidade de idades, funções e rotinas impõe outro desafio. A mesma informação precisa alcançar quem trabalha no escritório, na fábrica, nos armazéns logísticos ou em campo. Também deve fazer sentido tanto para quem acabou de sair da faculdade quanto para profissionais com mais de 30 anos de empresa.

Além de newsletter, TV corporativa e ferramentas virtuais, a Royal Canin promove uma reunião mensal da liderança com todos os funcionários. O encontro reúne a apresentação das estratégias do negócio, o reconhecimento das equipes e uma “dose de conhecimento”: cerca de 15 minutos dedicados à nutrição de cães e gatos e ao portfólio da empresa.

A companhia realiza ainda duas pesquisas anuais. Uma mede a experiência dos profissionais. A outra procura entender como a informação circula e qual é a participação dos gestores nesse fluxo. Para Carla, os canais precisam ser adaptados aos diferentes públicos, e o gestor tem papel central porque conhece a maneira mais adequada de levar a mensagem ao próprio time.

O gestor é apontado por Carla como a primeira porta para dúvidas, reclamações e propostas. Quando essa conversa não encontra acolhimento, os funcionários podem procurar a área de relações com associados, ligada a recursos humanos, o ombudsman e outros canais internos.

A existência dos canais, por si só, não garante a escuta. O funcionário precisa confiar que poderá falar, e a liderança deve estar preparada para receber a informação e responder com honestidade. Essa relação não nasce em uma reunião nem se recupera com uma frase de efeito.

“O desengajamento não vem da noite para o dia. Existe uma jornada, existe uma trajetória no relacionamento desse profissional com a empresa”, afirmou. Diante de uma equipe desmotivada, Carla recomenda que o gestor comece conhecendo a história, os valores e as capacidades de cada pessoa, além de investigar como o trabalho pode contribuir para sua realização profissional.

Uma carreira construída em áreas diferentes

Formada em relações públicas e há cerca de 20 anos no grupo Mars, do qual a Royal Canin faz parte, Carla iniciou a carreira em vendas. Depois, passou por marketing, comunicação e assuntos corporativos. Ela considera a experiência comercial uma escola por aproximar o profissional da realidade dos parceiros, varejistas e consumidores.

O período que mais a tirou da zona de conforto, porém, foi a integração da Royal Canin à Mars. Na área de comunicação, participou do trabalho de apresentar ao time uma cultura e valores diferentes e explicar os benefícios da incorporação a um grupo maior.

Para quem decide entre a especialização e uma trajetória por áreas diversas, Carla não apresenta uma fórmula única. “Eu acho que o mais importante é a gente ser muito honesto com a gente, entender o que traz realização, o que traz satisfação.”

Ciência contra a desinformação

A comunicação científica tornou-se outra frente do trabalho. A executiva avalia que uma empresa, sozinha, não consegue conter a circulação de informações incorretas sobre a saúde e a alimentação de cães e gatos. A resposta exige a participação conjunta da indústria, de veterinários, entidades profissionais e organizações do setor.

Há cerca de dois anos, a Royal Canin passou a estruturar esse diálogo com conselhos regionais de medicina veterinária, o Conselho Federal de Medicina Veterinária, associações e representantes do mercado. O objetivo, segundo Carla, é ampliar o espaço de informações técnicas baseadas em evidências.

“A medicina veterinária precisa ser pautada em evidência, não em achismo e não em tendência”, afirmou. A frase também serve às empresas: reputação não se sustenta em discurso isolado. Ela depende da repetição diária de decisões coerentes, da qualidade das relações e da disposição para explicar o que se faz.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

50 debates para o Brasil: Bolsa Família divide opiniões sobre alcance, custos e acesso ao emprego

O Bolsa Família reduz a pobreza imediata, mas o desafio é fazer com que seus beneficiários encontrem condições para superar a vulnerabilidade de forma permanente. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, e Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, o FGV IBRE.

Os dois especialistas reconheceram a importância do programa de transferência de renda. A divergência apareceu principalmente na definição das prioridades: de um lado, o fortalecimento das políticas sociais associadas ao benefício; de outro, o controle das despesas públicas, a revisão do cadastro e a criação de caminhos para a entrada no mercado formal de trabalho.

Ricardo Henriques afirmou que o Bolsa Família não deve ser avaliado apenas pela renda repassada mensalmente. O programa também condiciona o pagamento à frequência escolar das crianças e ao acompanhamento de saúde, o que pode produzir resultados no longo prazo.

Segundo Henriques, o principal desafio está no médio prazo. O Cadastro Único deveria ser usado para identificar as diferentes causas da vulnerabilidade de cada família e conectá-la aos serviços públicos necessários. Desemprego, dependência química, morte de quem sustentava a casa e dificuldade de acesso à educação exigem respostas diferentes.

“Responsabilidade fiscal e responsabilidade social devem caminhar juntas”, afirmou. Para ele, o equilíbrio das contas públicas é necessário, mas o ajuste não deve recair prioritariamente sobre o Bolsa Família. Henriques citou os subsídios concedidos a setores econômicos como uma despesa que também precisa ser revista.

O peso do programa nas contas públicas

Fabio Giambiagi concentrou sua análise na expansão dos gastos e no desequilíbrio fiscal. Ele lembrou que o Bolsa Família custava entre 0,4% e 0,5% do Produto Interno Bruto, o PIB, antes da pandemia. Após a ampliação do número de famílias atendidas e o aumento do valor do benefício, a despesa chegou a aproximadamente 1,5% do PIB. Atualmente, estaria entre 1,1% e 1,2%.

Giambiagi defendeu a manutenção do valor nominal do benefício por algum tempo, sem correção integral pela inflação, e a redução gradual do número de famílias atendidas, com base na revisão cadastral. Segundo ele, parte do crescimento registrado em 2022 ocorreu por meio da divisão artificial de famílias, que passaram a declarar duas residências unipessoais para receber dois benefícios.

“O atual governo, corretamente, fez uma limpeza desse cadastro para tirar essas situações”, disse. O número de famílias beneficiadas, que chegou perto de 22 milhões, caiu para aproximadamente 19,3 milhões.

Para Giambiagi, o programa deve preservar a proteção das pessoas que não conseguem obter renda suficiente, mas também precisa estimular a rotatividade. Algumas famílias dependerão do benefício por períodos mais longos. Outras poderão deixá-lo à medida que conseguirem qualificação e emprego formal.

O debate mostrou que a discussão não se resume a ampliar ou reduzir o Bolsa Família. O ponto central está em combinar proteção contra a pobreza, controle dos gastos, qualidade do Cadastro Único e políticas que ofereçam aos beneficiários oportunidades reais de autonomia.

Em tempo: pouco depois da realização do debate, no Jornal da CBN, o Governo Federal anunciou um reajuste de 15% no valor do Bolsa Família. E negou o viés eleitoral, apesar de ter sido feito a 17 dias das eleições e quando as pesquisas de opinião revelam maior dificuldade para a reeleição do presidente Lula.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

A incerteza certa da vida

Por Beatriz Breves

Sabe aquelas situações tão inusitadas que, quando acontecem, ficamos sem acreditar?

Uma delas aconteceu de verdade com uma professora primária que trabalhou durante 16 anos em uma escola, lecionando da 2.ª à 4.ª série. Quando chegou o momento de se aposentar e requereu ao INSS a aposentadoria especial de professora, foi informada de que aqueles 16 anos não poderiam ser computados como exercício do magistério porque o CNPJ da instituição não correspondia ao de uma escola.

Há um detalhe que torna a situação ainda mais surpreendente: essa escola funcionou durante cerca de 80 anos na cidade do Rio de Janeiro e já havia encerrado suas atividades havia pelo menos dez anos.

Como pode?

Como é possível alguém ter sido professora de uma escola, milhares de alunos terem passado por suas salas de aula e concluído ali o ensino fundamental e médio e, décadas depois, surgir a informação de que, formalmente, aquela instituição não era uma escola?

A pergunta que imediatamente nos ocorre: e os certificados emitidos durante todos esses anos? Não teriam validade? Estariam milhares de alunos, que ali estudaram ao longo de oito décadas, diante da possibilidade de descobrir que seus estudos não possuíam valor legal?

Não pretendo entrar aqui no mérito jurídico da questão, tampouco no aspecto moral que ela possa envolver. Deixo essas considerações para que cada leitor tire suas próprias conclusões.

O que me interessa é outra coisa.

Interessa-me pensar sobre o improvável que, tantas vezes, atravessa a vida e nos deixa perplexos, justamente porque aquilo que parecia impossível, de repente, torna-se realidade.

E, para compreender isso, talvez seja necessário olhar para a trajetória humana não como uma linha previsível, mas como um sistema não linear e caótico.

Se tudo aquilo que vivemos — nosso passado, nossa história, nossas relações e até nossas expectativas de futuro — encontra-se, de alguma maneira, condensado no instante do Agora, então esse instante necessariamente participará da constituição do instante seguinte.

O fato é que o ser humano se encontra permanentemente inserido em outros sistemas — familiares, afetivos, profissionais, sociais, culturais — e em contínua interação com eles. Por isso, a cada instante, já não somos exatamente aquilo que éramos no instante anterior e tampouco podemos saber, com absoluta certeza, aquilo que seremos no próximo.

Em um sistema não linear e caótico, os acontecimentos não se sucedem simplesmente por uma relação direta e proporcional entre causa e efeito. O sistema se retroalimenta, recebe continuamente novos elementos, sofre interferências e se reorganiza.

Nós também.

A todo instante somos afetados por acontecimentos, encontros, decisões, acasos, escolhas próprias e escolhas de outras pessoas. Cada nova interação passa a integrar o sistema e participa daquilo que acontecerá depois.

É justamente essa dinâmica que introduz uma dimensão de imprevisibilidade na trajetória humana.

Um acontecimento aparentemente insignificante ocorrido hoje pode, ao se articular a uma sucessão de outros acontecimentos, produzir consequências muitos anos mais tarde.

É aqui que podemos compreender o conhecido efeito borboleta.

Uma pequena alteração nas condições iniciais de um sistema pode, ao longo do tempo, produzir efeitos de enorme magnitude.

Em meu livro Entre o Mistério e a Ignorância, ao abordar o efeito borboleta, recorri a um antigo provérbio de George Herbert (1593–1633), citado por Gleick para mostrar como um acontecimento aparentemente mínimo pode desencadear consequências de grande alcance (BREVES, 2021, p. 20):

Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura;
por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo;
por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro;
por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha;
por falta da batalha, perdeu-se o reino.

Portanto, por falta de um minúsculo prego, perdeu-se um reino.

A força desse provérbio está justamente em mostrar que aquilo que parece pequeno no presente pode tornar-se decisivo muito adiante.

E assim também acontece em nossas vidas.

Gostamos de imaginar que possuímos uma rotina relativamente predeterminada: amanhã acordaremos, cumpriremos nossos compromissos, seguiremos nossos projetos e, de alguma maneira, continuaremos a trajetória que já conhecemos. E provavelmente grande parte disso acontecerá.

Mas basta um pequeno acontecimento não previsto para que uma nova sequência se inaugure.

Uma pessoa que encontramos por acaso; um telefonema; uma decisão aparentemente banal; um documento preenchido décadas antes; uma informação incorreta em um cadastro. E o instante seguinte já será outro.

No caso daquela professora, algo ocorrido — ou deixado de ocorrer — muitos anos antes permaneceu silencioso durante toda uma trajetória profissional. Ela trabalhou, ensinou crianças, participou da vida de uma escola e construiu sua história como professora.

Décadas depois, aquele pequeno elemento administrativo reapareceu e interferiu diretamente em seu instante do Agora, em seu momento presente.

Talvez seja justamente isso que a teoria do caos possa nos ajudar a compreender sobre a experiência humana: a vida possui continuidade, mas não possui uma trajetória inteiramente previsível.

Somos história, somos relações, somos escolhas, mas também somos acontecimentos.

E o Agora, embora carregue tudo aquilo que fomos, permanece sempre aberto às inúmeras possibilidades daquilo que ainda poderemos ser.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Viver a vida com Alzheimer: entre estigmas, cuidados e possibilidades de participação

Viver a vida com Alzheimer
Ilustração criada por IA pelo autor

A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva associada ao comprometimento de funções cognitivas, isto é, de processos mentais relacionados à percepção, atenção, memória, linguagem, orientação, tomada de decisão e execução de atividades cotidianas.

Entre as demências, a doença de Alzheimer é a forma mais prevalente. Embora ainda não exista cura, os avanços nas estratégias farmacológicas, não farmacológicas e de reabilitação têm ampliado as possibilidades de manejo da condição e de manutenção da funcionalidade por diferentes períodos.

O envelhecimento populacional tem contribuído para o aumento do número de pessoas que vivem com demência. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras (Renade) estima que aproximadamente 8,5% da população com 60 anos ou mais conviva com a condição, o que corresponde a cerca de 2,71 milhões de pessoas.

As projeções indicam que esse número poderá alcançar 5,6 milhões de casos até 2050. Ou seja, a demência não constitui apenas uma questão clínica, mas também um desafio social, assistencial, econômico e urbano.

Nesse contexto, o cuidado não pode ser compreendido exclusivamente a partir das intervenções farmacológicas ou dos atendimentos realizados pelos serviços de saúde.

O ambiente construído também participa da experiência cotidiana da pessoa com demência. A residência, os espaços de convivência, os equipamentos públicos, os meios de transporte e os percursos pela cidade podem favorecer ou restringir sua autonomia, orientação, segurança e participação social.

A configuração espacial da residência, a disposição dos móveis, a organização dos percursos, a iluminação, os níveis de ruído, os contrastes visuais, a sinalização e até mesmo elementos aparentemente simples, como o desenho e o sistema de acionamento de uma torneira, podem interferir na realização das atividades cotidianas.

Uma barreira ambiental aparentemente pequena pode dificultar uma tarefa habitual, enquanto uma adaptação planejada de acordo com as capacidades e necessidades da pessoa pode contribuir para a preservação de sua funcionalidade. Por essa razão, pensar o cuidado também significa pensar os ambientes nos quais ele acontece.

Essa perspectiva dialoga com o conceito de Aging in Place, segundo o qual permanecer em casa e na comunidade pode constituir um importante recurso para a qualidade de vida das pessoas idosas, inclusive após o diagnóstico de demência.

Permanecer no ambiente conhecido, manter vínculos sociais e continuar realizando atividades significativas podem contribuir para a preservação de referências espaciais, relações de pertencimento e possibilidades de participação. Isso, entretanto, não significa ausência de apoio. Ao contrário, pressupõe uma rede capaz de oferecer diferentes níveis de assistência conforme as necessidades da pessoa se modificam.

A restrição da vida cotidiana ao espaço doméstico, motivada pelo receio dos familiares, pela falta de informação ou pelo despreparo dos cuidadores, pode produzir consequências que ultrapassam a proteção pretendida.

Quando a pessoa com demência deixa de circular, encontrar outras pessoas, realizar atividades e participar da vida comunitária, ocorre uma redução de estímulos sociais, físicos, cognitivos e sensoriais.

Essa privação pode contribuir para o agravamento da dependência, para o aparecimento ou a intensificação de alterações comportamentais e psicológicas e, consequentemente, para o aumento das demandas relacionadas ao cuidado de longa duração.

A responsabilidade por esse cuidado também não pode permanecer concentrada exclusivamente nas famílias.

Dados do cenário brasileiro evidenciam a dimensão desse problema. Atualmente, parcela expressiva das pessoas idosas depende do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto os custos associados à demência aumentam conforme a progressão da condição.

Segundo dados do Renade, a participação dos gastos públicos é elevada nos diferentes estágios da demência, e aproximadamente 73% dos custos recaem sobre os familiares. Esse cenário torna evidente a necessidade de ampliar as políticas públicas de apoio às pessoas com demência e àqueles que delas cuidam.

A sobrecarga familiar torna-se ainda mais complexa diante das transformações demográficas e sociais contemporâneas. O aumento da população com 80 anos ou mais ocorre simultaneamente a mudanças na composição das famílias, na participação das mulheres no mercado de trabalho e na disponibilidade de pessoas para exercer atividades de cuidado não remunerado.

Dessa forma, pressupor que a família será capaz de absorver de maneira isolada todas as necessidades decorrentes da progressão de uma demência torna-se cada vez menos compatível com a realidade social brasileira.

Algumas experiências internacionais demonstram que existem alternativas para a construção de redes de cuidado mais distribuídas.

Em Portugal, o Projeto RADAR, desenvolvido inicialmente em Lisboa no âmbito da iniciativa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, foi estruturado para identificar pessoas idosas em situação de isolamento ou vulnerabilidade e aproximá-las dos recursos disponíveis na comunidade.

Um de seus aspectos relevantes é o fato de não depender exclusivamente da iniciativa da própria pessoa para solicitar ajuda. A rede de proximidade envolve profissionais, instituições, vizinhos, estabelecimentos comerciais e outros integrantes da comunidade, que podem reconhecer situações de vulnerabilidade e acionar os serviços ou recursos necessários. A lógica do projeto pode ser sintetizada nos movimentos de reconhecer, avaliar, direcionar e ativar.

Uma estrutura dessa natureza amplia a compreensão de autonomia. A autonomia não precisa significar que a pessoa realize todas as atividades sem auxílio, mas que possa continuar participando das decisões e da vida cotidiana dentro de suas possibilidades.

Uma comunidade que conhece seus moradores e estabelece relações de proximidade pode oferecer apoio sem retirar da pessoa o direito de circular, escolher e participar.

Assim, caso uma pessoa com demência se desoriente durante um percurso conhecido, por exemplo, uma rede comunitária preparada pode contribuir para sua localização e seu retorno ao ambiente familiar, reduzindo a necessidade de restringir previamente sua circulação.

No Brasil, também existem experiências que apontam para formas de cuidado que não implicam o afastamento precoce da pessoa idosa de sua família e comunidade.

O Centro de Atendimento para Pessoa Idosa com Alzheimer e Familiares — Centro-Dia Synval Santos, da Prefeitura de Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2014 e constitui uma experiência de atendimento público especializado a pessoas idosas com doença de Alzheimer e a seus familiares.

O serviço oferece atendimento durante o dia, possibilitando que a pessoa permaneça vinculada ao ambiente familiar enquanto recebe acompanhamento especializado. Em 2024, o equipamento completou dez anos de funcionamento.

Experiências como essa demonstram a importância de ampliar as modalidades de cuidado para além da dicotomia entre permanecer exclusivamente sob a responsabilidade da família ou ser encaminhado para uma instituição de longa permanência.

Centros-dia, atendimento domiciliar, programas de apoio aos cuidadores, transporte acessível e serviços comunitários podem compor uma rede capaz de distribuir responsabilidades e preservar, tanto quanto possível, a participação da pessoa com demência em seu território.

A Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída em 2024, também oferece uma base para o desenvolvimento de ações voltadas à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento, à reabilitação, ao cuidado e ao apoio às famílias e aos cuidadores.

Portanto, parte dos instrumentos necessários para enfrentar a demência já está disponível em políticas públicas, experiências territoriais e referências internacionais.

O desafio está em transformá-los em ações articuladas nos estados e, principalmente, nos municípios, considerando as características de cada território e as necessidades de sua população.

Viver com Alzheimer não significa interromper automaticamente a vida social, familiar ou comunitária. O diagnóstico modifica necessidades e pode exigir diferentes níveis de apoio ao longo do tempo, mas não elimina a possibilidade de participação.

Para que isso seja viável, o cuidado precisa ultrapassar os limites da residência e dos serviços de saúde, incorporando a comunidade, os espaços públicos, a mobilidade, a habitação e as políticas de proteção social.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque Arquiteto e urbanista. Doutorando e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Pós-graduado em Neurociência, Geriatria e Gerontologia e Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI) e coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, em Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na pós-graduação em Gerontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: boas histórias valem mais do que a tecnologia

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A tecnologia multiplica as possibilidades de comunicação, mas não substitui a força de uma história capaz de emocionar e produzir significado. Esse foi o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.

Inteligência artificial, vídeos personalizados, influenciadores e algoritmos ajudam as marcas a alcançar públicos específicos e produzir conteúdo em grande escala. Essas ferramentas ampliam a distribuição da mensagem. Não garantem, porém, que ela será lembrada.

A explicação está na maneira como os seres humanos compreendem o mundo. Antes mesmo da escrita, histórias eram usadas para transmitir conhecimentos, valores e experiências. Elas organizam acontecimentos, despertam empatia e ajudam o cérebro a guardar informações.

“Faz todo sentido. A tecnologia mudou muito, mas o cérebro humano mudou pouco”, afirmou Cecília.

Essa permanência pode ser percebida nas crianças, que pedem repetidamente a mesma história. A repetição oferece segurança, permite antecipar acontecimentos e reforça vínculos afetivos. Com as marcas, o mecanismo é semelhante: uma narrativa associada a uma emoção tem mais possibilidade de permanecer na memória do que uma mensagem limitada às características de um produto.

Da propaganda para a memória

Cecília citou campanhas que atravessaram gerações, como “Não é assim uma Brastemp”, o primeiro sutiã da Valisere e as histórias de Natal da Coca-Cola. Também lembrou o filme “Tormenta”, de O Boticário, sobre a relação entre uma mãe e o filho. A peça circulou tanto nas mídias tradicionais quanto pelo WhatsApp.

Em todos esses exemplos, o público não guarda apenas o anúncio. Guarda os personagens, os conflitos e as emoções construídas pela narrativa. O slogan pode desaparecer. A história continua circulando.

Isso ajuda a explicar por que contar histórias não é uma alternativa à propaganda. É uma maneira de fazer propaganda sem transformar a mensagem em uma interrupção.

“Uma boa história não interrompe a atenção das pessoas, ela conquista essa atenção”, disse Jaime.

Quando o produto deixa de ser o único protagonista, a marca consegue falar sobre sonhos, desafios e experiências humanas. O vínculo nasce dessa identificação. A pessoa não se reconhece em uma lista de atributos técnicos, mas pode se reconhecer na trajetória de um personagem.

A inteligência artificial já escreve textos, produz imagens e ajuda a criar filmes. Ainda assim, permanece uma decisão anterior à ferramenta: qual história merece ser contada?

Para Jaime, “tecnologia é ferramenta, o significado continua sendo uma construção humana”. Ele recorreu ao psicólogo Jerome Bruner, que identificava duas formas de organizar a experiência: o pensamento lógico e o narrativo. O primeiro apresenta razões e evidências. O segundo conecta acontecimentos e atribui sentido a eles.

Ao final, Jaime citou a permanência da Odisseia, de Homero. A obra atravessou séculos porque trata de temas humanos, como viagem, coragem, perda e desejo de voltar para casa. Mudam o suporte, a linguagem e a tecnologia. A necessidade de encontrar sentido nas histórias permanece.

A marca do Sua Marca

As ferramentas ampliam o alcance da comunicação, mas não criam, por si, relevância ou memória. Marcas lembradas são aquelas que transformam produtos e valores em histórias nas quais as pessoas reconhecem emoções, conflitos e aspirações. A tecnologia pode construir o palco. A narrativa é o que faz o público permanecer na plateia.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

O sentimento de sem graça

Por Beatriz Breves

Sentir-se sem graça é um sentimento muito interessante, pois pode provocar diferentes variações na pessoa. Fazendo uma analogia com as cores, é como se não possuísse um colorido próprio e adquirisse a tonalidade dos sentimentos aos quais se agrega.

É justamente aí que, pelo menos em minha experiência subjetiva, pode ser observado o aspecto mais interessante desse sentimento.

Como sentimento originário, antes de se agregar a outros, o sentir-se sem graça parece apresentar-se sem uma cor definida. Talvez seja precisamente essa ausência de cor que provoque certo mal-estar interno: o próprio incômodo de sentir-se sem graça. Pode ser por isso que ele necessite agregar-se a outros sentimentos, a fim de conferir alguma tonalidade ao que está sendo sentido e, quem sabe, modificar aquele incômodo inicial.

As possibilidades são muitas.

Uma pessoa pode se sentir sem graça, e esse sentimento se aliar ao sentir-se desconcertado. Assim como se sentir sem graça e se agregar ao sentimento de vergonha. E também se sentir sem graça diante de determinada situação, e esse sentimento se associar ao de constrangimento. Enfim, são várias as possibilidades.

Em outras circunstâncias, o sentimento de se sentir sem graça pode agregar-se a sentimentos relacionados ao desinteresse ou à falta de vivacidade. Um filme pode gerar o sentimento de sem graça por ter sido experienciado como chato. Uma situação pode ser sentida como insossa, sem brilho ou sem vida. Uma conversa, uma atividade ou um acontecimento podem provocar essa mesma sensação por terem sido percebidos como cansativos ou desinteressantes.

Assim, dependendo do grupo de sentimentos ao qual se agregue, o sentir-se sem graça pode assumir diferentes tonalidades e produzir as mais variadas consequências.

Entretanto, há algo em comum entre todas essas manifestações. Mantendo a analogia com as cores, podemos dizer que o sentimento de se sentir sem graça é, originalmente, incolor. Por isso, de alguma maneira, ele seria “obrigado” a assumir a cor do sentimento ao qual se agrega.

Podemos aprender algo importante com isso.

Como o sentimento de se sentir sem graça se apresenta inicialmente como um incômodo ainda sem contornos definidos, ele pode funcionar como um sinal, ou seja, como um chamado para prestarmos atenção ao que está acontecendo em nós a fim de buscarmos identificar o que precisa ser movimentado para conferir um colorido mais bonito à nossa vida.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.