De olho na vida alheia, você ainda descobrirá muito sobre você mesmo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Cena do filme “A vida dos outros”

O filme alemão “A vida dos outros” foi lançado em 2006 e retrata a época anterior à queda do muro de Berlim, quando a Alemanha estava dividida e a Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, monitorava de maneira rígida a vida da população.

O destaque do filme fica por conta da interpretação do ator alemão Ulrich Mühe, no papel do agente incumbido de vigiar os passos de um dramaturgo e sua namorada, porém ele acaba se envolvendo com suas vidas, passando por uma transformação de seus próprios referenciais.

Na vida real, longe da espionagem realizada para controlar ou censurar a vida dos cidadãos, existe, muitas vezes, uma curiosidade em conhecer a vida de outras pessoas, seus segredos e intimidades.

Em outros momentos, talvez a maneira de se fazer isso seria ouvindo atrás das portas ou olhando pelo buraco da fechadura. Na atualidade, as redes sociais têm facilitado esse processo, numa exposição excessiva de imagens e informações.

Sabemos para onde fulano viajou, quem se separou, quem teve filho, o prato preferido daquela celebridade… a mesma que treina todos os dias para manter a boa forma.

Esse interesse exagerado em saber da vida alheia pode impactar a percepção que temos de nós mesmos, promovendo comparações injustas que desconsideram a nossa individualidade e história de vida.

As comparações injustas acontecem, por exemplo, quando interpretamos os acontecimentos em termos de padrões irrealistas, colocando um foco ampliado naquilo que as outras pessoas se destacam ou se saem melhores, gerando um sentimento de inferioridade.

A comparação entre a nossa vida real, essa com algumas conquistas e também cheia de limitações e tropeços, e a vida que apresenta padrões ideais, editada em fotos e narrativas, pode promover a impressão de que estamos sempre em débito e — como já ouviamos há muitos anos — a grama do vizinho é sempre mais verde.

O problema de se interessar excessivamente pela vida dos outros, é conhecer em demasia o que se passa do lado de fora, deixando de enriquecer, com experiências próprias, o que está dentro de cada um.

Entretanto, o interesse pelos outros também tem seus aspectos positivos: conhecer realidades tão distintas possibilita derrubar muros e romper com os preconceitos. Isso nos aproxima, nos torna mais humanos. Expande nossos horizontes e nos permite enxergar a vida, de tão ampla que é, para além de nós mesmos.

Isso seria a diferença entre a bisbilhotagem da vida alheia e o interesse genuíno pelas pessoas, nem sempre algo tão simples de ser atingido.

Com uma delicadeza ímpar, o filme “A vida dos outros” nos remete a essa reflexão. De um lado, nos apresenta como a vida pode ser grampeada e controlada apenas para se obter dados, como num regime ditatorial. De outro, revela como a aproximação e a descoberta de um universo distinto, de pessoas diferentes, de realidades diferentes, podem ser transformadores e nos conduzir a um conhecimento mais profundo. Não sobre o outro, mas acerca de nós mesmos.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O amor faz um bem danado

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Jasmine Carter no Pexels

“E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida”

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

Como explicar o que é o amor?

Na tentativa de decifrar esse fenômeno que acompanha a civilização humana desde os seus primórdios, surgiram mitos, lendas, poesias, músicas e, mais recentemente, estudos científicos bastante elaborados, como experimentos que utilizam a Ressonância Magnética Funcional para investigar a atividade cerebral relacionada ao amor romântico e a formação de vínculos.

Uma das áreas de maior ativação cerebral relacionada aos vínculos afetivos envolve o sistema de recompensa, um circuito cerebral que processa a informação diante da sensação de prazer.

Esse sistema é bastante antigo em termos de evolução e está relacionado à sobrevivência, permitindo que os animais tenham motivação, se engajem e mantenham comportamentos, como buscar alimento ou o sexo, possibilitando a perpetuação da espécie.

Diante de situações prazeirosas, ocorre uma liberação de substâncias químicas no cérebro, a dopamina, responsável por ativar esse sistema de recompensa. Assim, se a ação executada trouxer satisfação, prazer ou alegria, o cérebro vai registrar essa consequência e ações repetidas se seguirão, na busca por obter novamente essas sensações.

Com o amor vai acontecer algo semelhante.

Diante da pessoa pela qual se está interessado, a dopamina será liberada, ativando o sistema de recompensa cerebral, promovendo euforia e bem-estar.

Isso vai gerar o desejo de estar cada vez mais próximo dessa pessoa, repetindo-se esse ciclo, que poderia ser chamado, não à toa, de círculo vicioso.

Os estudos também apontam que outras substâncias, como a vasopressina e a oxitocina, poderiam influenciar a formação de vínculos afetivos, porém estariam associadas a maior estabilidade e segurança dos relacionamentos, reduzindo a necessidade de estar constantemente ao lado do ser amado.

De maneira simples, poderíamos associar a dopamina com a fase da paixão e o amor companheiro, mais maduro, com a oxitocina.

Mas vamos combinar, se há milênios tentamos explicar o que é o amor, não parece muito romântico, na semana do dia dos namorados, dizer que se resume a uma liberação de substâncias químicas e ativação cerebral!

Se a flecha de Eros, o deus do amor, nos atingiu, em vez de pensar em dopamina, talvez possamos nos concentrar naquelas borboletas no estômago, no coração que bate mais forte, naquele desejo de estar junto, abraçar e poder manifestar, para quem se quer bem, todo o nosso amor.

Como disse Carlos Drummond de Andrade:

“O amor foge de todas as explicações possíveis”.

Então, viva o amor! Isso faz um bem danado!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Eu estou aqui, diga-me como você sente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagine a seguinte situação: Você telefona para um conhecido e, ao atender, ele diz que não consegue te escutar. Você insiste em perguntar: “tá me ouvindo agora?“. Ele diz: ´´Alô? Alô? Não escuto nada!“. Você aumenta a voz e se dá conta de que não adianta. Ele não te ouve. Na impossibilidade de comunicar o que você gostaria de maneira eficiente, clara, você encerra a chamada.

Algo semelhante vai ocorrer quando há a invalidação das emoções.

A invalidação emocional ocorre quando alguém comunica sua emoção, o que está sentindo e somos incapazes de compreender. Para quem comunica, fica a impressão de que sua mensagem foi errada ou inapropriada.

Ainda muito precocemente ensinamos as crianças a lidarem com as suas emoções. A família desempenha um papel significativo nesse processo, estimulando a criança a expressar o que lhe é importante. O modo como se sente, as suas convicções e suas preferências são levadas em conta. Por outro lado, ambientes invalidantes tendem a não responder às comunicações feitas pela criança ou exigem que ela não expresse suas emoções, especialmente quando se tratam de emoções negativas.

Isso pode contribuir para que haja uma dificuldade em alterar ou regular condições emocionais, que rapidamente se acentuam e passam a ser percebidas como tensões praticamente insuportáveis, difíceis de serem toleradas e para as quais se busca, frequentemente, tentativas disfuncionais de regulação, como o consumo demasiado de bebidas alcóolicas.

Engana-se quem pensa que a invalidação acontece apenas na infância, quando os pais dizem à criança que não chore porque o que ela sente não é nada demais ou quando simplesmente ignoram seu choro.

Dizer a um adolescente que sua tristeza não se justifica, afinal ele tem tudo o que necessita para ser feliz. Dizer a alguém que o que lhe aconteceu não é tão grave assim, afinal isso nem é tão ruim quanto parece. Pedir a alguém que se levante e faça suas coisas porque depressão é coisa de fraco. Isso tudo contribui para dizer para essas pessoas que seus sentimentos não são válidos, não são legítimos.

Imagino que muitos de nós já dissemos palavras, até mesmo positivas, na esperança de que pudessem levar alento e encorajamento para as pessoas. Mas não é apenas sobre o que se fala. É sobre o que se ouve e como isso repercute num momento de fragilidade, de vulnerabilidade emocional.

Quando dizemos a alguém que não deveria se sentir desse jeito, talvez desejássemos dizer que não gostaríamos que essa pessoa estivesse passando pela dita situação, que gostaríamos que o mundo fosse mais gentil com ela, que a vida fosse mais leve. Mas ao falarmos que ela não deveria se sentir assim, estamos mencionando que seus sentimentos não fazem sentido, que a maneira como se sente deveria ser outra, fazendo, mesmo que sem perceber, um julgamento.

Validação é conferir verdade àquilo que se sente.

É respeitar e compreender o que o outro está sentindo e ajudá-lo a elaborar e superar esse momento.

É simplesmente dizer: estou aqui. Me diga como se sente. Posso compreender. Se tiver algo que eu possa fazer para que você se sinta melhor, por favor me diga.

Alô? Pode continuar… eu consigo te ouvir claramente.

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Rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar

Imagem de 6568315 por Pixabay

“Não há espaço melhor para a construção de relacionamento de um com os outros do que no território da voz”

Transparência é fundamental nessa nossa conversa, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Por isso, saiba que vou falar do que assisti há uma semana no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube, que é produzido e apresentado pela minha mulher, Abigail Costa, e pela minha colaboradora de blog, doutora Simone Domingues. Na busca de explicações sobre o comportamento do cidadão diante da pandemia, elas convidaram o antropólogo Michel Alcoforado, de quem sou admirador. Ou seja, minha fala aqui deve ser considerada totalmente parcial nos elogios e afagos.

Pouco me importa, também. Até porque tenho convicção de que se você tirar uma hora da sua semana para assistir ao que as duas levam ao ar, ao vivo, toda quarta-feira, às oito da noite, vai ficar admirado e muito bem informado. O canal é dedicado ao comportamento humano e à saúde mental. 

Na discussão sobre como estamos agindo na pandemia e como agiremos depois dela, provoquei Michel Alcoforado a falar sobre o consumo de informação no rádio. Ouvi muito mais do que poderia desejar.

“A medida que estamos mais dentro de casa, a voz  que acompanha a gente, a voz do rádio, ajuda a gente a construir contexto. O que é muito importante para esse mundo descontextualizado.”

Michel trouxe a própria experiência com o rádio, com o qual acorda todas as manhãs e o acessa através da assistente de voz, que o acompanha pelos cantos da casa. Como boa parte de nós, mais dentro de casa do que fora, por força da pandemia, os dias tendem a ser todos iguais. Mas nosso antropólogo lembra que ao ouvir o Sérgio Abranches, às oito da manhã, sabe que é terça; o Cortella, às sete, é quarta; e o Hora de Expediente, o faz perceber que já são nove da manhã.

É um hábito que começou no século passado, lembra Michel. O rádio marcava a passagem do tempo da avó dele —- das nossas avós e de nossos pais, também. Ela sabia que quando um programa terminava, estava na hora de servir o almoço;  quando se iniciava outro, era a vez do jantar; e havia um que ela não gostava muito, que alertava para o fato de que era tempo de ir para cama.

“A gente tem o rádio de novo marcando essa posição. O rádio sobretudo ganha uma dimensão muito importante, porque a gente já vinha falando tempos atrás sobre a dimensão que a voz tem. E cada vez mais os aplicativos e gadgets das nossas casas vão ser orientados pela onipresença da voz”

Das coisas boas que ouvi Michel Alcoforado dizer foi que o rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar. Mesmo que esteja sendo reproduzido também no Youtube ou no Globoplay —- como é o caso do Jornal da CBN —-, por mais que seja imagem, não é um programa de TV. É o rádio com sua lógica de construção de comunicação em um outro formato de mídia.

“O áudio como aconchego tem crescido pra caramba. O que acontece é que a tela só lida com um sentido nosso, com a visão, não nos dá um despertar de sentidos. Não consegue. Não é a toa que o filme precisa de um sonoplasta. O audio trabalha com pedaços do nosso campo cognitivo que a tela não é capaz de alcançar”. 

Por vantagens que tenha, o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens —- já conversei várias vezes com você neste blog sobre o volume de informações que somos submetidos todos os dias e o quanto isso reduz nossa capacidade de assimilar o conteúdo, e de apurar nossa sensibilidade para as fontes mais confiáveis. Michel Alcoforado trata do tema a partir da definição de um antropólogo americano Gregory Bateson que diz que informação é todo o dado que gera diferença. Isso significa que talvez estejamos produzido muito dado e pouca informação. Ou notícia.

“Se você não está gerando diferença, você não está informando”.

Como ser diferente no radiojornalismo se toda notícia parece igual? Você entra no portal G1, depois pula para o UOL e navega em qualquer outro site de notícia disponível na sua tela deparando-se com conteúdo muito semelhante. Michel Alcoforado dá a dica —- que você pode ouvir na íntegra e com as devidas referências que a modéstia me impede de reproduzir, no vídeo publicado neste post. Ele fala algo que me move há muitos anos no rádio e que se perdeu no tempo pela forma padronizada como se relata os fatos ocorridos. Ao contrário da matemática, na subjetividade das emoções um mais um não é dois. Portanto, não basta seguir a fórmula correta, aprendida no livro da faculdade, de preencher as lacunas para atender a técnica do lead ou da hierarquia dos dados. Nem o português mais castiço salva essa equação – ao contrário, tende a causar estranheza. 

Michel lembra, por exemplo, a importância que a informação de trânsito tem na programação de rádio, a ponto de as emissoras —- cada vez em menor número —- investirem na cobertura a partir do helicóptero. A observação do tráfego em uma avenida pelo repórter aéreo por si só pode não fazer diferença; mesmo porque o ouvinte que está na região talvez até já saiba mais através do mapa digital que o guia no painel do carro.  Por outro lado, conforme a leitura que o repórter faz, provoca-se empatia, o ouvinte se identifica com a história, enxerga-se como personagem. E protagonista que se vê, experimenta aquele momento conduzido pela voz do jornalista.

Entretenimento é a palavra que Michel Alcoforado usa para definir a forma como devemos conversar com o ouvinte. É preciso saber entreter sua audiência:

“É muito mais do que saber que a Marginal está parada. Eu já sei que Marginal está parada. O que me interessa é como você me conta que a Marginal está parada. É isso que gera diferença”.

Como fazer diferente o mesmo todos os dias é outro dos desafios que precisamos encarar no comando de um programa ou no relato das notícias no rádio. Explorando a imaginação do ouvinte, diz Michel:

“A gente enquanto humano precisa explorar cada vez mais os nossos sentidos … O áudio permite que a gente exercite um ponto fundamental da nossa existência que é a imaginação. E aí você pode usar todos os sinônimos desse negócio que chamo de imaginação: fantasia; o desejo pode ser também uma forma desse lado da imaginação. Mas não há como a gente ser humano sem a capacidade de imaginar. E só nós humanos temos capacidade de imaginar. O áudio abre essa chance para a gente imaginar”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais com a entrevista completa de Michel Alcoforado.

Nossos heróis de cada dia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A minha primeira ida ao cinema aconteceu no final da década de 70, para assistir a Superman: o filme, com Christopher Reeve no papel de Clark Kent, retrata um repórter que, ao deparar com uma situação que coloca em risco a vida de sua colega de trabalho, Lois Lane ( Margot Kidder), revela seus super poderes. Ao longo do enredo, torna-se responsável por desviar um ataque de míssil, minimizar os efeitos de uma explosão nuclear e, ainda, alterar a passagem do tempo para salvar sua amada.

Nos dias que se seguiram, era muito comum que eu e meus irmãos colocássemos toalhas de banho amarradas no pescoço, nossas capas, para exibirmos nossos superpoderes, que incluíam pular de um sofá para o outro.

Na atualidade, outros heróis fazem mais sucessos, especialmente aqueles criados pela Marvel, mas os ideais continuam os mesmos: combater os inimigos e criminosos, numa luta incansável para que o bem vença o mal.

Apesar de parecer uma criação da nossa sociedade moderna, heróis com superpoderes são descritos em diferentes culturas e desde tempos remotos, como aqueles retratados em histórias mitológicas da Grécia Antiga.

Na mitologia grega, os heróis eram personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais, superiores aos dos humanos, como inteligência e força, que os tornavam capazes de vencer inimigos ou atuar em missões impossíveis; por outro lado, como não eram deuses, apresentavam algumas fragilidades psicológicas ou corporais, semelhantes aos seres humanos.

Hércules, por exemplo, era conhecido por sua força física. Foi capaz de vencer doze tarefas difíceis que lhe foram propostas, mostrando-se poderoso contra seus inimigos. Matou diversos monstros, ganhou todas as categorias dos jogos olímpicos e venceu a própria morte.

Seja através da mitologia grega ou dos personagens da Marvel, as aventuras e fantasias criadas pelas ações dos super-heróis, de certo modo, resgatam um ideal coletivo: a esperança de que a justiça prevaleça e que o bem se perpetue.

Especialmente em momentos nos quais sobram desafios a serem superados, e na ausência de medidas eficazes que possam resgatar direitos básicos, como segurança, comida e vacina, o faz de conta parece invadir nossa imaginação.

Aguardamos pelo momento no qual um grande feito seja realizado e atinja a todos de maneira equitativa. Aguardamos pelo momento no qual atrocidades e injustiças não aconteçam mais.

Possivelmente, essa expectativa se desenvolve como um modo de proteção diante de noticias e realidades tão difíceis de serem assimiladas. Buscamos na fantasia um universo paralelo, capaz de resgatar a esperança,  apesar das durezas da vida.

 Talvez a nossa imaginação ou ideias prévias nos permitam pensar nos heróis como aqueles que são capazes de vencer monstros e ataques, exterminam inimigos e realizam feitos impossíveis a nós, seres humanos.

No entanto, provavelmente, um olhar mais cuidadoso nos revele a existência de pessoas que, apesar de não terem poderes especiais, realizam diariamente ações que modificam a vida alheia. Não apresentam forças sobrenaturais ou coragem extrema, mas agem na vida cotidiana atendendo aos interesses coletivos.

Imagino que você, assim como eu, consiga se recordar de algumas dessas pessoas, frequentemente anônimas, que nos ensinam que o verdadeiro heroísmo não é um dom ou algo além dos limites humanos. Pelo contrário. São pessoas comuns, talvez raras, mas comuns; nas quais poderíamos nos inspirar e descobrir que não são as capas ou os símbolos que as diferenciam.  Não é coragem excessiva. É determinação em fazer o que deve ser feito.

Duelam bravamente todos os dias e, muitas vezes, enfrentam lutas internas que quase as fazem fraquejar, porém, se levantam, não se intimidam com os obstáculos.

E, semelhantes ao heróis dos quadrinhos ou do cinema, passam por nós disfarçados de médicos, bombeiros, professores, vizinhos, amigos, desconhecidos. Heróis de uma vida real que reasseguram a esperança de que os vilões ainda serão derrotados e que poderemos viver seguros e felizes nesse nosso planeta.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sorria (?), sua carteira de vacinação está sendo filmada

O controle sobre nossos dados ganhou reforço extra nos últimos tempos com a LGPD —- aquela sigla que obriga empresas a dizerem o que fazem com as suas informações. Apesar da força da lei, sabemos que tendemos a ter pouco cuidado sobre nossos dados e cometemos deslizes nos mais simples gestos, já não bastassem os roubos e vazamentos que ocorrem diariamente. 

Hoje, soube de mais uma graças ao alerta da jornalista Rizzo Miranda, da FSB Comunicações, feito em artigo sobre inovação: “criminosos se aproveitam da felicidade daqueles que se vacinam e compartilham a carteirinha na rede”. Chama atenção para o hábito que os brasileiros têm de comemorar —- e devemos mesmo comemorar — quando tomam a vacina contra a Covid-19 registrando em foto ou vídeo sua imagem com a carteirinha de vacinação em mãos. Sem perceber, oferecemos informações a quem não deve. Ou não presta.

De acordo com números da Pfase, que desenvolve soluções de cibersegurança, desde o início do ano, mais de 53 milhões de crimes por estelionato digital foram registrados.

Nessa ficha corrida, encontramos golpes como clonagem de WhatsApp, uso de perfis falsos e fake news — nesta situação usada para vender produtos falsos. Têm ainda os diversos tipos de phishing —- que são métodos para fisgar informações confidenciais, como senhas e número de cartão de crédito. Só com phishing bancários já são 14 milhões de registros. E, claro, que o queridinho dos ciberladrões são os golpes com o PIX.

De volta a inocente e feliz carteira de vacinação. Rizzo Miranda calcula o volume de informação que as fotos espalhadas pelas redes sociais oferecem aos piratas digitais. Até agora o Brasil tem cerca de 54 milhões de pessoas que receberam ao menos a primeira dose da vacina. Soma-se a isso o fato de sermos considerados um dos povos mais sociais do mundo, o que nos leva a ter 99 milhões de usuários no Instagram e 130 milhões no Facebook. “Dá para projetar o estrago que fotos comemorativas de vacinação podem provocar”, escreve.

A recomendação é que você siga comemorando o dia da vacina, mas deixe a carteirinha no bolso. 

Às mães atípicas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Especialmente na semana que comemoramos o Dia das Mães, o estereótipo materno invade os meios de comunicação, enaltecendo aquela que sabe de todas as coisas, que é a rainha do lar, capaz de tudo suportar. 

Ao longo do tempo,  o conceito de maternidade sofreu profundas mudanças históricas e culturais, mas a manutenção de uma visão poética e romantizada, por vezes, limita discussões e não corresponde à realidade de inúmeras mulheres. 

Maternidades típicas e atípicas.

Maternidade que por vezes vai além da noite mal dormida, da dúvida entre o aleitamento materno ou a mamadeira, do choro de cólica ou de colo.

Mães atípicas.

Sua maternidade é construída com o filho que tem deficiência,  transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.

Falo sobre essas mães. Mães que muitas vezes são esquecidas.

Descobriram com a maternidade uma jornada de desafios que excedem os padrões.

Frequentemente estão sozinhas ou são acompanhadas por olhares que englobam um misto de pena e responsabilização.

Onde falharam?

A pergunta que também ressoa em seus pensamentos, gerando culpa e impotência.

Não falharam.

Fizeram e fazem o melhor que podem, mas como não são heroínas, e sim mulheres de carne e osso, nem sempre conseguem fazer tudo o que gostariam.

Por vezes faltam recursos financeiros e educacionais, acesso a tratamentos adequados, apoio familiar, medidas governamentais. Mas não faltam o seu empenho, a sua dedicação, seu amor genuíno e uma vontade de seguir em frente mesmo quando parece não haver mais energia capaz de sustentar o seu corpo cansado, exausto pela rotina.

Lutam batalhas mais penosas, quando precisam exigir que seus filhos sejam incluídos e não sofram os preconceitos de uma sociedade cuja medida de valor se baseia excessivamente na análise  de desempenhos acadêmicos e sucessos profissionais em detrimento do afeto.

Perdem a paciência, sentem  tristeza. Perdem o sono, sentem medo. 

Vocês não são perfeitas, queridas mães. E está tudo bem. O que não vai bem é a nossa incapacidade de acolher a sua preocupação e o seu pranto, de conhecer as suas necessidades e lhes oferecer uma ajuda eficaz.   

Sim. Nós que somos mães, pais, filhos ou irmãos típicos, estamos falhando com vocês.

Parabéns para cada mãe. Para cada uma que apesar de não ter superpoderes, pode simplesmente ser. E isso, vamos combinar, já dá um trabalho danado!

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Carecemos de presença

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Khoa Võ no Pexels

Queria escrever um texto suave que falasse de esperança e prosperidade.

Queria escrever sobre meninos correndo livres pelas ruas e praças.

Sobre pessoas e abraços apertados. 

Mas há uma ausência de palavras.

O tempo, que antes parecia um aliado, agora nos escapa, nos confunde.

O presente, marcado por escassez de novidades, reforça em nossas memórias uma melancolia sorrateira, daquelas que precisamos vigiar para não enveredar.

É preciso um certo esforço para que o coração seja acalmado. É preciso um certo esforço para evitar que ele retenha feridas de uma face da realidade, ainda pouco conhecida.

Resistimos.  E pouco a pouco, com esperança tímida, imploramos ao futuro que se encarregue das mudanças que nos permitam sorrisos, afagos, encontros.

Somos equilibristas nessa tal linha da vida…

O que nos sustenta? Não estamos sós. 

Somos a somatória das pessoas que passam por nós. Por vezes, esquecidas ou distantes, mas nunca ausentes; porque de certo modo, carregamos cada uma dentro de nós.

Sua presença repercute em nossas crenças, medos e expectativas. Sua presença ressoa no olhar acolhedor, nas mãos que nos amparam ou nas palavras que nos encorajam.

Carecemos de presença.

Dessas que nos permitam percorrer um caminho que nos leve a encontrar um sentido e seguir com esperança.

Desejamos ser presença. 

Dessas que permitam ao outro percorrer um caminho mais feliz, com uma vida digna e um futuro melhor. 

Como diria Saint-Exupéry:

“O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça”.

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Conte Sua História de São Paulo: passei a vida confinada em uma agência bancária

Por Marlene Bicudo

Ouvinte da CBN

Foto de Anete Lusina from Pexels

Em 1977, fiz concurso público e iniciei minha carreira bancária. Na época, tinha de anotar manualmente, nas fichas individuais de cada cliente, os débitos dos valores dos cheques descontados no caixa. Tudo atualizado diariamente na parte da manhã.

Após poucos anos, chegaram os computadores, os disquetes, os sistemas, as planilhas —— motivos para muitos não tão jovens bancários se aposentarem. Havia medo da máquina, da nossa capacidade de domá-la, sem quebrar nada ou apagar coisas importantes. Naquele tempo, ouvi pela primeira vez de um técnico de informática que um dia trabalharíamos todos de casa. Foi desacreditado por nós.

Em 2020, com a pandemia instalada, trabalhei diretamente de casa atendendo meus clientes em todas as suas necessidades. Vimos que o homem se supera quando é desafiado.

Embora estejamos tendo dias difíceis, de medo pela perda da nossa saúde e dos entes queridos, sinto-me satisfeita por todas as oportunidades que tive dentro de casa, curtindo meus filhos já adultos, aproveitando minha sacada e sua paisagem de flores e pássaros. Ouvindo novos sons do meu bairro. Sons que sempre estiveram ali, mas nunca os havia registrado.

Sinto-me mais solidária com as pessoas. E percebi com a revisão da vida, que passei a maior parte da minha dentro de uma agência bancária. 

A despeito do que este ano tenha feito com a gente, sempre sou grata por aquilo que me acontece.

Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

O que o passado nos ensina sobre as escolhas do presente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de PixxlTeufel por Pixabay 

“O que poderia ter sido e o que foi

Apontam para um único fim, sempre presente.

Passos ecoam na memória 

Pelo caminho não escolhido

Rumo à porta que nunca abrimos.”

T.S.Eliot, “Burnt Norton”

Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.

Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.

A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas. 

As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal. 

Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais. 

Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.

Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo. 

Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.

Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos. 

No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung