Conte Sua História de São Paulo: minha primeira e única viagem de bonde, para entrar na história

Por Fátima M.R.F. Antunes

Ouvinte da CBN

 

 

No fim dos anos 1960, o prefeito Faria Lima começou a retirar os bondes de circulação. A desativação do bonde Fábrica, que fazia o trajeto Praça João Mendes e Sacomã, no Ipiranga, foi anunciada para janeiro de 1967. O nome Fábrica se referia à indústria que havia no início da linha, Estabelecimento Cerâmico Saccoman-Frèresa, onde trabalharam o vovô João e o tio José. 

 

Desde 1900, os bondes elétricos eram o meio de transporte popular na cidade. Grandes e pesados, correndo sobre trilhos e dependendo de fiação elétrica aérea, destoavam dos ágeis e maleáveis ônibus, que apareceram décadas depois. Naqueles anos 1960, os bondes estavam sendo substituídos por ônibus.  Ao longo da década, as linhas foram sendo suprimidas. A última viagem de um bonde passou pelas avenidas Ibirapuera, Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro até Santo Amaro — em 27 de março de 1968.

 

De nada serviriam os lamentos da população. A hora tinha chegando. E o bonde Fábrica, que rasgava o bairro do Ipiranga pela rua Silva Bueno, seria desativada. Tia Tereza, irmã caçula de minha mãe, assim como outros milhões de paulistanos, estava agitada com a mudança. Afinal, o famoso bonde Fábrica, presença constante nas boas e más ocasiões, sempre estivera ali, companheiro e solidário. 

 

A família de minha mãe morara no Ipiranga. Primeiro na Rua Lima e Silva; depois na das Juntas Provisórias. Tia Tereza tomava o bonde na Silva Bueno para ir às compras no centro e à infinidade de salas de cinema que havia nas avenidas São João e Ipiranga. No Fábrica, ela, mamãe e vovó visitavam os parentes no Pari, com baldeação na Praça João Mendes. No Fábrica, se ia ao médico; até o Sacomã, aos sábados e domingo, para o footing, ou o“vai e vem”: os rapazes ficavam parados nas calçadas, enquanto as moças caminhavam pra lá e pra cá, de olho num pretendente. 

 

Os velhos bondes atravancavam o trânsito. Retirá-los das ruas parecia uma medida drástica, mas diziam que era necessária para a melhoria da circulação urbana.

 

Tia Tereza sempre foi uma entusiasta do progresso e da renovação, mas lá no fundo, sabia que os bondes deixariam saudade. Em janeiro de 1967, ela decidiu:  

 

“Vou levar a Fatima para um paseio no Fábrica antes que ele pare de rodas. Essa menina nunca andou de bonde! Quando for moça, vai poder dizer que andou de bonde em São Paulo.

 

Na Vila das Mercês, zona Sul, onde morávamos, só havia ônibus — eram pintados de amarelo clarinho, com faixas vermelhas na parte inferior.  Tia Tereza planejou com detalhes a aventura. Ajudou-me a escolher um vestido bem bonito. Do portão de casa, na antiga Rua B  — hoje Rua Caloji — nos acenavam a avó Dolores e minha mãe, Rafaela, com meu irmão Vanderlei no colo, enquanto íamos para o ponto.  Junto com a gente, foi a prima Eliana, filha da Tia Tereza, que sequer tinha completado um ano.

 

Descemos do ônibus no Sacomã e logo pegamos o bonde no ponto inicial. Sentei num daqueles bancos compridos, que ficavam nas laterais —- eram de madeira envernizada, duros, que faziam a gente escorregar, quando o freio era acionado. Confesso que achei escuro o interior do bonde, desconfortável. 

 

Antes do bonde deixar a Silva Bueno, descemos, atravessamos a rua e tomamos o ônibus de volta pra casa.  Eu tinha apenas quatro anos e jamais esqueci desse passeio. Mais do que a lembrança do bonde, ficou o carinho de minha tia. Penso que tia Tereza era uma mulher de visão. Ela já sabia, lá em 1967, que 53 anos depois, minha única e última viagem de bonde seria um capítulo do Conte Sua História de São Paulo. 

 

Fatima Martin R. F. Antunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para o contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça também em podcast.

A lição do Seu Paulo a oportunistas de plantão

 

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A imagem do apoio do pai de uma refém à mãe do sequestrador é de  Pedro Teixeira/Agência O Globo

 

Foram cerca de quatro horas de transmissão, ao vivo, descrevendo as cenas de um homem que mantinha reféns o motorista de um ônibus e 38 passageiros. No seu entorno, forte aparato policial, agentes especializados em negociação de risco, atiradores de elite e uma quantidade enorme de gente que teve seu caminho para o trabalho bloqueado. A história que monopolizou os programas matutinos —- incluindo o Jornal da CBN —, nessa terça-feira, e tinha a ponte Rio-Niterói como cenário nos trouxe de volta à memória o sequestro do ônibus 147, que resultou na morte do sequestrador e de uma refém, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em 2000.

 

 

Cada momento da negociação, a liberação dos primeiros reféns, o atendimento médico, a movimentação estratégica dos policias, a angústia do trabalhador que estava preso no congestionamento ou do motoboy que teve entrega interrompida foi contada minuto a minuto. A participação de repórteres que levantavam as informações possíveis no local ou à distância, assim como a palavra de porta-vozes oficiais e especialistas em segurança pública e gerenciamento de crise colaboravam na construção daquela crônica de uma cidade tensionada pelo medo e a violência.

 

Os tiros que deram fim a atuação do sequestrador —- que se soube depois ser um rapaz de apenas 20 anos —- não puderam ser registrados pelas câmeras, mas foram ouvidos e relatados pelos jornalistas que estavam próximos. Tiros seguidos de gestos de comemoração expressados por pessoas transformadas em plateia viva daquele drama, em uma reação expontânea de um público acuado e já incomodado com a demora para o desfecho do caso. Nada que estivesse a altura do espetáculo grotesco proporcionado na sequência pelo governador do Rio, Wilson Witzel, que desceu saltitante do helicóptero, com um sorriso no rosto, braços erguidos e punhos cerrados como se comemorasse a vitória da barbárie. Tudo devidamente registrado pelo celular de um aspone que buscava o melhor ângulo para as redes sociais —- não se tem notícia onde foram parar aquelas imagens, após a repercussão negativa do comportamento do governador. 

 

Nas declarações que se seguiram, Witzel tentou recuar e disse que estava comemorando a vida salva dos 39 reféns, jamais festejando a morte do sequestrador. Agora já fala em ajudar a família do rapaz, oferecendo apoio psicológico. Difícil acreditar nessa retratação, especialmente se levarmos em consideração o histórico do governador —— “a polícia vai mirar na cabecinha”, declarou logo após eleito ao definir a política de segurança pública que colocaria em vigor no Estado. De lá até agora, o que assistimos foram muitos jovens inocentes sendo mortos com esses tiros a esmo disparados em confrontos entre policiais e bandidos nas comunidades mais pobres do Rio.

 

Após os diversos relatos ouvidos ao longo do dia, nos deparamos com o gesto do pai de uma das reféns em solidariedade a mãe do sequestrador morto. Paulo César Leal, de 54 anos, ainda tinha o coração dolorido pelo drama que enfrentou durante as quase quatro horas em que temeu pela vida da filha, Raiane, de 24. Todos os dias ele a deixava no ponto de ônibus para embarcar na linha Alcântara x Estácio e não demorou muito para saber que a jovem estava entre os 39 reféns. Nada disso foi tão forte que o impedisse de dar um abraço na mulher que havia acabado de ver seu filho ser morto por ter protagonizado aquelas cenas de ameaça e violência.

 

“Como ser humano, fui ajudar, porque naquele momento a dor é dos dois lados. Eu não tenho poder de julgar nem falar qualquer coisa que seja boa. Só falei para ela ter calma e confiar. O que eu vou dizer para ela, de conforto? Não tem o que dizer”, declarou aos jornalistas que se aproximaram dele. 

 

Obrigado, Seu Paulo. Seu gesto não apenas apaziguou o coração daquela mãe como nos serviu de lição de que ainda é possível acreditar na generosidade do ser humano. Que nossas autoridades, perturbadas pelo populismo, um dia aprendam com o senhor.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: até o último bonde que passou em Santo Amaro

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

rcm.rhda.sp@gmail.com

 

 

Eu, um anônimo passageiro

 

Entro no túnel do meu tempo. E retrocedo de uns 60 anos. Eis-me, então, moleque de dez! Quando minha mãe dizia que, eu, molequinho de colo, dedinho esticado apontando para um deles, na rua… dizia que a primeira palavra que balbuciei foi um substantivo que rolava pesadão nos trilhos, rangendo ferragens e madeira, soltando azuis faíscas da roldana contra o fio trólei; e embaixo, entre as rodas dos truques.

 

“Bon-de” —- foi o que disse.

 

Lembro, sim! Vinha um adulto e dizia. Ah, que os bondes, anterior à cê-eme-tê-cê, eles tinham sido da Light: –- “Você sabia, menino?”. Eu? Sabia… que da Light –- meu pai era lighteano do Cambuci – eram postes e lâmpadas. Postes de ferro, de cimento e uns remanescentes de toras de eucalipto. Lâmpadas de filamento, e que acendiam em série, notava-se fácil, iluminando ruas de paralelepípedos, as asfaltadas e as ruas de terra que – claro! – sob chuva, eram de lama!

 

Ah,eu adorava bondes e ônibus! E a própria Companhia Municipal de Transportes Coletivos – aquela, de entre os anos 1950 e 1960. Nossa! Quantas garagens! Que enorme frota! Quantos muitos funcionários! Diziam, lembro, “a CMTC é da Prefeitura”, referindo que a municipalidade a gerenciava – instituída que houvera sido em 1947. Eu gostava do vermelhão dos bondes e ônibus, embelezado por singular e indefectível logotipo, que eu chamava “emblema”.

 

Eu? Ora, nunca trabalhei na CMTC – que pena! Fui somente um anônimo passageiro. De bondes que circularam nas minhas infância e adolescência; de ônibus como os sacolejantes ACLO, de mecânica inglesa e que davam tranquinhos mudando marchas “semiautomáticas” –- nas linhas 11, 12 e 13. Ou 47 e 48. Que saudadizinha!

 

Quando, em 1961 – lembro bem – Adhemar de Barros cedeu lugar para Prestes Maia, então o vigoroso vermelho da CMTC virou – bondes e ônibus – um apático laranja clarinho… anêmico.

 

Os velhos bondes – obsoletos, de há muito – a cor laranja lhes era a da própria agonia. Pois, sabemos, o último camarão deu seu suspiro final em Santo Amaro, em 1968, numa viagem ironicamente festiva. Nela, o prefeito Faria Lima, que tornou de um azul escuro a cor da “Nova CMTC”.

 

Olha, bem melhor que eu… que o diga um ex-ceemeteceano: quão imponente, a CMTC! Que reformava bondes, na Araguaia; montava carrocerias de ônibus na colossal Santa Rita e mantinha uma Escola Senai, na Ponte Pequena! Oficinas e garagens? Eram muitas: Jabaquara, Santo Amaro e Lapa; Sumaré, Barra Funda, Cambuci. Depois, enorme, Vila Leopoldina. Uma, exclusiva de ônibus elétrico, na Machado de Assis. Era pouco? Era muito!

 

Os bondes? Lembro, igual. Três gares – herdadas da Light – curiosamente denominadas de “estações de bondes”: Vila Mariana, Brás e Alameda Glete. Exagero, dizer da CMTC, “imponente”?

 

Que o amanhecer de 25 de janeiro, em que Piratininga soprará 465 velinhas … que a efeméride traga consigo, tal qual um ônibus traz um passageiro, uma lembrança! Ao mesmo tempo, reconhecimento e gratidão de nós, concidadãos. Enfim, uma homenagem à CMTC, digo melhor, às gerações de paulistanos que por meio século a conduziram! E, assim, nos conduziram! A CMTC é uma história de São Paulo: nada é mais paulistano que ela! Uma nostalgia vermelhona.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a flor no ponto de ônibus

 

Por Pina Seminara Boffa

 

 

Eu nasci e fui criada em São Paulo, filha de imigrantes italianos. A minha infância toda, vi meus pais levantando cedo e voltando tarde do trabalho. Assim sendo, para mim era muito natural se dedicar ao trabalho com muito afinco. Eu mesma comecei a trabalhar aos 15 anos e modéstia à parte era muito responsável no meu trabalho: não faltava, não me atrasava nem mesmo quando tinha alguma indisposição. Isso era normal, todos que trabalhavam naquela época tinham esse senso de responsabilidade, afinal, estávamos na terra no trabalho.

 

Tudo isso para explicar, ou talvez justificar minha reação ao que me aconteceu há 37 anos, quando eu tinha 19 anos de idade. Eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade à noite. Minha vida era uma correria. Mal tinha tempo de me olhar no espelho.

 

Um dia, eu aguardava um ônibus em frente ao cemitério da Lapa, para ir ao trabalho, no Jaguaré. Ansiosa pela demora, não me dei conta da aproximação de crianças que vendiam rosas. Quando a risada do grupo despertou minha atenção, observei então que se tratava de um grupo de cinco meninos de 12 a 15 anos , que vendiam rosas para as pessoas que entravam no cemitério a fim de visitar o túmulo de seus entes queridos .

 

De repente, um deles se aproximou de mim, ofereceu-me uma rosa e eu, sem sequer olhar para ele, respondi: “não, não vou entrar no cemitério, estou esperando meu ônibus”. Foi bem no momento em que o meu ônibus surgiu lá no início da rua para onde meu olhar se voltava. Foi então que ouvi a voz daquele menino: “não estou te vendendo essa rosa, não, estou te oferecendo uma rosa”.

 

Meu rosto queimou de vergonha. Olhei para aquele garoto magro, maltrapilho, nem sei ao certo qual era sua idade, pedi desculpas, me ofereci para pagar a rosa mas ele não aceitou. Disse-me que era para alegrar o dia de uma moça bonita. Aceitei e subi no ônibus segurando firme minha rosa. Enquanto o ônibus se afastava, eu pude ver as outros meninos do grupo brincando com ele, enquanto ele ainda acenava para mim com um sorriso lindo.

 

Senti as lágrimas rolarem nos meus olhos e pensei como um gesto de amor pode mudar nosso dia, pode nos deixar mais humanos, menos robôs. Como um garoto de rua pode me ensinar sobre o amor. Desde então meu comportamento mudou: passei a observar mais as árvores da cidade, os jardins floridos, o riso das crianças com suas mães, os pássaros que cantam e brincam e até mesmo os pedintes que perambulam pelas ruas de São Paulo em busca de uns trocados.

 

Viver em São Paulo é correria, sim, mas nunca devemos perder a ternura.

 


Pina Seminara Boffa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: aprendi a andar por aqui com as páginas do guia da cidade

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Vivo em Campinas, desde meus dois anos de idade. Logo, sou campineiro aos sessenta.

 

Aos sete ou oito anos, conheci São Paulo, no Parque Edú Chaves, e fiquei vivendo na casa dos tios por uma semana em companhia de meu priminho de oito meses.

 

Naqueles dias, conheci a televisão assistindo ao Zas-Trás, programa infantil apresentado pelo “Tio Molina” e pela “Tia Márcia”. Hoje esse priminho é Tenente Coronel Reformado, aposentado, da PM de São Paulo.
 

 

Muito tempo depois, mais de 25 anos, tive de me embrenhar nas ruas e avenidas de São Paulo, sozinho, por minha conta, para cumprir missão decorrente de um concurso para o cargo de escriturário na Secretaria de Fazenda de São Paulo.
 

 

Putz! Eu não conhecia São Paulo, tinha medo de andar sozinho, mas tinha de ir à Secretaria da Fazenda para tomar posse do cargo de “Escriturário Lei 500” (só quem é do ramo sabe o significado disto).
 

 

Peguei um “Cometão” de Campinas a São Paulo com algumas páginas de um guia da cidade. Apeei antes da Julio Prestes – antiga rodoviária – e fui contando as quadras e as quebradas pelas quais eu deveria passar para chegar ate a Rangel Pestana, número 300.
 

 

De lá, outras instruções para exames médicos no Instituto de Assistência Médica do Estado de São Paulo. Tive de pegar as páginas do guia no bolso da calça para ver como chegar na rua Maria Paula passando pelo viaduto Maria Paulina, etecetera e tal. 

 

Fiz o trajeto pelo menos três vezes, sempre acelerado. Era tal a minha tensão  e concentração que muitos pensavam que eu era dali e paravam minha caminhada frenética para perguntar uma ou outra informação. E, medroso, medo de ser assaltado, eu falava qualquer coisa para me desvencilhar da pessoa.
 

 

Coitada de uma mulher, coitado de mim. Uma senhora queria ir para São Miguel e me perguntou se aquele ônibus pertinho de nós, por onde eu passava, fazia este trajeto. Eu apressado disse que sim. Só depois li no letreiro que o itinerário era outro e no sentido oposto: jóquei clube ou coisa parecida.

 

Depois disto, vinte e tantos anos depois, conheci essa cidade como “motorista de juiz”. Hoje, sei andar por São Paulo como se paulistano fosse. Mas não gosto de ser motorista por aqui. E não gosto por razões que só explico em verso:
 

 

“Cidade imponente, decadente e ultrapassa,
adorada só por gente impaciente e afobada.
Que loucura é aquilo ali! Quanta gente nas calçadas!
Cedo, tarde ou à noitinha… Ou varando a madrugada.
 

 

Seu tamanho é seu orgulho.
Seu tamanho é seu perigo.
Ali cheguei sem barulho, paranóico e nada rico.
 

 

Que me vê até se ilude.
Pensa até que sou dali.
Tenho cá minhas virtudes,
E uma delas é fingir.

 

São Paulo imponente,
São Paulo meu terror,
Eu não sei se te odeio,
Ou por ti declaro amor!

 


Pedro Lucio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Débora Gonçalves. Conte você também a sua história. Escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: meu coração batia mais forte nos Twin-Coaches da época

 

Por Rubens Cano de Medeiros

 

 

Sou paulistano faz 68 anos. Contemporâneos, eu e a CMTC. Ela, de julho; eu, dezembro. Ela, “já era”, enquanto eu, afortunadamente, estou aqui. Surgi na Maternidade São Paulo que, como a CMTC, virou pó…

 

Anos 50, molequinho, encantam-me os vermelhões da CMTC, bondes e ônibus (até os elétricos), assim como os outros ônibus, concorrentes da CMTC, os das “empresas particulares”, dizia-se. Estes, cores vistosas, belas pinturas, os ônibus particulares, ostentavam acima das janelas (aliás, menores que as atuais) o nome
daquela operadora. Sim, lembro, caprichosamente pintado em “letra de mão”: Viação Cometa, Expresso Brasileiro, Alto da Mooca, Guarulhos, Vila Esperança…
Vim a saber mais tarde: aqueles nomes eram o trabalho manual – e artesanal – de funcionários pintores “letristas”, que belo! Cada passeio, o moleque descobre uma pintura nova!

 

Naquele 1947, em que nascemos – eu e a CMTC – meu pai é operário das oficinas do Cambuci, da Light. E o foi por 35 anos. Sabemos, os bondes, naquele ano, migraram da Light para a CMTC. Menos os 75 belos Gilda, americanos, comprados diretamente da Broadway. Bondes que sempre foram
imorredouros – até que a obsolescência os convertesse em pó, durante os anos 60.

 

Só que, ônibus daquele meu tempo, o que fazia meu coração arregalar os olhos – ah! – era um, “aquele”! Um no qual eu viajava vez ou outra – 33 – Quarta Parada; 109 – Lins de Vasconcelos. Ou Estações 5 e 6. Um ônibus de suave balanço – o molejo, explicavam. Ele era lindão, hein!

 

Motor, um silêncio, um zumbido, lembro. Ficava sob o piso, me falava alguém. Americano, pintura vermelho-luzidio. Para-brisa incomum: saliente, seis partes de vidro na armação “tetraédrica” – e sob ele a indefectível grade daquele modelo, tal qual a “asa” sobre a porta dianteira, de saída, àquele tempo distante… Destacava-se na paisagem.

 

Ah! Luzes de freio – e eu lá sabia? – acendendo em Inglês: STOP! Interiormente, acima das duas janelas do fundão, a plaquetinha – que eu, nos meus 6 anos, sequer entendia – “Fageol Twin-Coach; Kent, Ohio”! Eu: que troço, será?

 

O tempo me elucidou. Ônibus do suave balanço, molejo que o fazia gingar – de leve – até quando nele entrávamos ou descíamos, ele parado. Era o mesmo em que algumas vezes eu ia a Santos, no azul-e-creme da Cometa! Saudadizinha inesquecível, daquela São Paulo mais bela, magia do IV Centenário – tempo dos Twin-Coaches – marca desta fábrica criada pelos irmãos Fageol, no estado americano de Ohio

 

Ê, São Paulo… Ê, São Paulo! Da garoa, São Paulo, que terra boa!

 


Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para contar sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

Fim de cobrador de ônibus é exemplo para outros setores da economia

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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João Dória, no momento em que as pesquisas conferem a ele aprovação singular de 43%, anuncia o fechamento de 19 mil  cargos de cobrador, nas empresas de ônibus que têm a concessão do transporte público na cidade de São Paulo, até o final do mandato. Ficará somente a função de motorista, que hoje comporta 33 mil profissionais.

 

É um exemplo de administração que deveria ser estendido tanto ao setor público quanto ao privado.

 

Peter Drucker, mestre da Administração Moderna, enfatizava que as funções que não cumprem o objetivo do negócio devem ser tratadas como acessórias. Se a função precípua do ônibus é transportar passageiros, que seja cumprida pelo motorista.

 

A existência de cobradores de ônibus é tão atemporal quanto se constata que apenas 6% dos pagamentos são realizados em dinheiro.

 

Essa disfunção não é exclusiva do setor público, pois, por exemplo, o varejo tradicional ainda mantém a função de caixa como operação exclusiva. E todos sabem que o objetivo principal das lojas é vender. Da mesma forma como nos ônibus, nas lojas os recebimentos em espécie, em dinheiro, correspondem a aproximadamente 6%.

 

O agravante nas lojas é que a função de caixa departamentalizada origina filas num momento em que o comércio tem que lutar pela experiência de compra prazerosa para poder concorrer com a internet e obter seu diferencial de sobrevivência.

 

É louvável a agilidade de Dória antes que os motoristas robôs possam ser avanços reais para eliminação de todo o sistema atual.

 

Às lojas a ameaça está mais perto, é a velocidade de progressão da internet.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: dormi no ponto enquanto sonhava dirigir o ônibus

 

Por Jucélio Coyado Silva

 

 

No Conte Sua História de SP o texto do ouvinte-internauta Jucélio Coyado Silva:

 

Eu estava com cinco de idade, quando, em 1979, fui com meu pai a Igreja em São Miguel Paulista, zona leste da cidade.

 

Pegamos o ônibus 2059 Circular Guaianazes, na Avenida Nordestina – esse ônibus saía da estação São Miguel Paulista, passava pela Avenida Nordestina até Guaianazes e de lá pegava a estrada do Lajeado e a estrada Dom João Nery até o Itaim Paulista, e retornava a São Miguel pela Marechal Tito.

 

Minha aventura era ficar no banco da frente simulando os movimentos que o motorista fazia ao dirigir o ônibus. Naquele dia não foi diferente: entramos no ponto de partida, passei por baixo da catraca e fui cumprir meu ritual. Meu pai estava mais atrás conversando com seus amigos. Com o passar do tempo, dormi no banco da frente e, no desembarque, meu pai, distraído, desceu e me deixou lá.

 

Ele chegou em casa, trocou de roupa, colocou o pijama e foi dormir. Antes, minha mãe que cuidava de meus irmãos comentou: “estranho, o Jucélio chegou nem comeu nada e já foi dormir!” Ao entrar no meu quarto, estava vazio.

 

Foi então que a luz acendeu: “deixei ele no ônibus”, disse meu pai para desespero da mamãe.

 

Enquanto isso, só acordei quatro quilômetros depois do ponto em que deveria ter descido. Já estava no Itaim Paulista. Olhei pra trás e não encontrei meu pai. Apesar de perceber que estava perdido, não me apavorei. Deixei passar umas seis paradas e pedi para o motorista descer mais à frente. Ele quis saber onde estava meu pai e eu disse que ele havia desembarcado lá na padaria do Jardim Nazaré.

 

Diante do receio do motorista, expliquei que se ele me deixasse dois pontos pra frente eu iria para a casa da minha na rua Inhabatã, 308. Desci e fui correndo até a última casa, pulei o muro, entrei no quintal e bati na porta. Meu tio João, assustado, atendeu e gritou para a vó: “é o Jucélio da Cida!”.

 

Em época na qual telefone fixo era raridade, assim como orelhão, meu tio me pegou pela mão e foi até a estação de trem de São Miguel, onde imaginava encontrar meu pai.

 

Lá em casa, a mãe estava apavorada. O pai, mais calmo, orou a Deus e pediu proteção, antes de sair a minha procura.

 

Sem ônibus para levar-me em casa, tio João pegou um táxi. Já devia ser um ou duas da madrugada. O farol do táxi iluminou as ruas escuras do meu bairro. Nisso vi minha mãe andando de um lado para o outro, desesperada. Mais calma, coube ao tio João seguir sua busca: agora era preciso encontrar papai que estava atrás de mim em algum lugar qualquer da região.

 

Jucélio Coyado Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: minha irmã foi registrada dia 25 de janeiro por amor à cidade

 

Por Mara Rocha
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

 

Minha história com São Paulo começa antes mesmo de minha família e eu morarmos aqui. Em 1952, meus pais viviam em Presidente Epitácio e só tinham dois filhos. Meu pai vinha a São Paulo comprar tecidos para minha mãe fazer as roupas da casa, dos filhos … ela costurava pra fora, também. Meu pai adorava São Paulo e voltava pra casa todo feliz contando para os amigos o que tinha visto por aqui: falava dos cartazes de filmes, teatro e shows musicais.

 

Em 16 de fevereiro de 1953, nascia minha irmã. Meu pai esperou um ano só para poder registrá-la com a data de 25 de janeiro. Em 1955, foi minha vez de vir ao mundo e meu nome Mara foi em homenagem a atriz de teatro de revista Mara Rubia. Em 1957, nascia outra irmã e o nome foi (completo) Dalva de Oliveira. Dispensa apresentação. Em 1960 nascia o coitado da turma feminina, porque depois dele vieram mais três meninas e formamos o time de nove, mas essas já são paulistanas.

 

Chegamos em São Paulo em 1961, minha mãe ficou encantada com o tamanho da cidade. Fomos morar no bairro Taboão em São Bernado do Campo e a minha rua chama-se São Paulo. O pai era motorista de ônibus na linha São Bernardo – São Paulo, passando pelo Zoológico, Jardim Botânico e, finalizando, na Praça da Árvore onde tinha o Cine Estrela. Nossos finais de semana eram nesses lugares. Adorava passear no Jardim Botânico onde fazíamos piquenique, jogávamos bola, peteca e nos divertíamos comoutros brinquedos da época. Visitámos com frequência também o Zoológico.

 

Minha irmã mais velha Wandy, trabalhava como modelo dos maiôs Cenimar ou Celimar (não lembro ao certo), as mulheres eram esculpidas pela natureza porque tudo era feito a pé ou de bicicleta. Ela foi a primeira a ter carro em casa e isso demorou um bocado. Ela fazia também as feiras do Ibirapuera. E a que eu mais gostava era o Salão da Criança porque brincava muito, e bebia muito iogurte Paulista, no estande onde ela trabalhava.

 

Nas férias íamos de trem para a casa do meu tio em Santa Fé do Sul. Ficava encantada com a Estação da Luz e a viagem de muitas horas passava rápido porque era divertidíssimo dormir nas camas da cabine com o balanço do trem. E durante o dia passeávamos pelos vagões.

 

Só comecei a frequentar o Cine Estrela quando fiquei adolescente (na época: mocinha). Daí foi um passo pra conhecer outros lugares, como o Cine Ipiranga e o Cine Ópera, esses dois no Centro. Ficava até difícil escolher pra onde ir nos finais de semana. Pedalinhos no Parque do Ibirapuera, tardes deliciosas no Museu do Ipiranga, encontro com a galera no Pilequinho, um bar em Moema que fazia deliciosos sucos e batidas de frutas. Sem deixar de frequentar o Jardim Botânico, meu lugar predileto.

 

 
Nossas compras eram feitas no Mappin e adorava ver o ascensorista descrevendo tudo que tinha nos andares. Minha loja predileta chama-se Piter, próxima do Teatro Municipal e o vestido verde água que comprei no crediário, é inesquecível!

 

Tinha 24 anos (1979) quando nos mudamos para Moema, a 50 metros do Shopping Ibirapuera, inaugurado em 1976. Os trilhos do bonde ainda estavam na Avenida Ibirapuera e minha vida não mudou nada porque desde sempre eu fui paulistana de corpo e alma. Casei, tive filho e neta. Passei pra eles tudo isso, o que ficou, claro! Meu filho e minha neta amam parques, piqueniques, bicicleta, patins e, principalmente, amam São Paulo.

 

Mara Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Este texto foi ao ar, em 2013, no CBN SP, mas ainda não havia sido reproduzido aqui no Blog.