Álvaro Schocair no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Empreender sozinho é muito difícil.”
Empreender começa por reconhecer uma necessidade e encontrar quem esteja disposto a pagar por uma solução. A ideia, porém, não basta: é preciso aprender a lidar com clientes, dinheiro, pessoas e os próprios erros. Essas lições foram tema de entrevista com Álvaro Schocair, fundador e CEO da Link School of Business, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Schocair distingue duas motivações para empreender: a necessidade de gerar renda e o desejo de resolver um problema ou criar algo novo. Quem começa por necessidade, afirma, costuma enfrentar mais dificuldade para fazer o negócio crescer. “Quando o empreendedor ele é por necessidade, a chance dele ficar rodando e sem sair do lugar é muito grande”, disse, ao citar a carga tributária, as leis trabalhistas e os juros entre os obstáculos.
A primeira lição que ele extrai da própria experiência é testar se existe demanda. “Um dos maiores erros do empreendedorismo que eu vejo, meu amigo, é você se encantar com o produto ou o serviço que você desenvolveu e não encontrar alguém que esteja disposto a pagar por esse produto, por esse serviço.” Atender o cliente e deixá-lo satisfeito, acrescentou, cria condições para a empresa crescer.
Aprender a empreender também exige prática
A experiência prática está no centro da proposta pedagógica da Link School of Business. Em vez de limitar a formação a aulas teóricas, Schocair diz que a escola combina conteúdos de finanças, marketing, tecnologia e direito com a criação de produtos e serviços e a aplicação do conhecimento em negócios.
A ideia veio, em parte, de uma lacuna que ele identificou na própria formação em administração. Schocair conta que não teve aulas sobre decisões cotidianas de uma empresa, como contratar, demitir, conversar com o gerente do banco ou escolher a estrutura de capital. “Senti falta de vida real”, resumiu.
Na entrevista, ele afirmou que a Link tem 1.100 alunos e, em sete anos, foram criadas 302 empresas dentro do ecossistema da escola. A instituição também oferece bolsas: são 302 alunos bolsistas, segundo Schocair. A escola criada em São Paulo mantém estruturas em Palo Alto, Berlim, Boston e Madri e iniciou uma turma em Miami, em 24 de agosto.
Entre as empresas que surgiram na Link, Schocair citou a Guday, criada por três alunos da graduação. Segundo ele, a empresa de produtos para o mercado fitness faturava R$ 80 milhões; os fundadores tinham 20 e 21 anos. Outro exemplo é a Frayme, fundada por Caio Castro com um professor de Berkeley. A companhia desenvolveu um sistema para verificar transações financeiras e, de acordo com Schocair, fechou contratos de milhões de dólares com empresas brasileiras e americanas.
A Link também investe em parte dos negócios criados por seus alunos. Schocair afirmou que tem participação direta em 23 das 302 empresas. A decisão passa por uma análise de investidores independentes e considera fatores como a equipe, o modelo de negócio, a validação do produto e a necessidade de capital.
Comunicação e curiosidade ajudam na liderança
Para Schocair, empreendedores precisam desenvolver habilidades de comunicação e relacionamento. “Eu acho que os grandes problemas do mundo corporativo vem de falta de comunicação”, afirmou. Ele também defendeu que líderes conheçam o trabalho das equipes e deem o exemplo, em vez de apenas transmitir ordens.
Ao falar sobre a formação dos jovens, destacou o aprendizado sobre inteligência artificial e dados. Mas acrescentou que competências humanas, como empatia, também precisam ser desenvolvidas. “Aí eu acho que empatia, coração, sentir desenvolvido é aquilo que a máquina não pode fazer por você.”
Outra recomendação é selecionar fontes de informação nas redes sociais para transformar a leitura diária em aprendizado. Schocair disse que procura seguir pessoas e veículos que considera capazes de lhe ensinar algo. E defendeu manter a disposição para rever ideias: “Eu quero cada lugar, cada pessoa que eu conheço, eu quero ficar quero sair mais inteligente dos lugares que eu entrei.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Alexandre Loures no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN
“O que a gente precisa, na verdade, é ativá-las pela confiança, credibilidade, profundidade naquele tema, não só pelo alcance.”
Mais de 90% dos líderes empresariais ouvidos em uma pesquisa da FSB Holding consideram alto o impacto da influência nos negócios, e mais de 80% pretendem ampliar os investimentos nessa área. Apenas 17%, porém, disseram contar com uma estrutura organizada e orçamento aprovado para cuidar do tema. A distância entre a percepção e a prática ajuda a explicar por que a influência institucional ainda é confundida com popularidade nas redes sociais, tema da entrevista de Alexandre Loures, sócio e líder da área privada da FSB Holding, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Loures diferencia dois conceitos que costumam caminhar juntos, embora não signifiquem a mesma coisa. Reputação é a percepção que determinado público forma sobre uma pessoa ou organização. Influência é a capacidade de levar esse público a tomar uma decisão.
A diferença ganha importância quando uma empresa escolhe quem deve representá-la em discussões sobre seu setor, uma regra, uma decisão judicial ou um assunto de interesse público. Nessas situações, o número de seguidores não basta.
A liderança entra na conversa
A comunicação, segundo Loures, passou a ocupar o primeiro lugar entre os atributos esperados de um presidente de empresa. O motivo está na sucessão de mudanças tecnológicas, sociais, geopolíticas e econômicas, que obriga as organizações a renovar seus compromissos com empregados, clientes, investidores, órgãos reguladores e a sociedade.
“A necessidade que você tem é qual? É de refazer os seus contratos com os seus principais públicos e convencê-los a todos que aquele rumo, que aquele caminho da empresa é correto e envolvê-los e engajá-los.”
A presença de executivos nas redes amplia essa capacidade de diálogo. De acordo com Loures, perfis pessoais de presidentes de empresas costumam gerar mais engajamento do que os perfis institucionais porque as pessoas procuram conversar com outras pessoas, não com uma figura jurídica.
Essa presença não se limita à divulgação de mensagens. Ela também abre um canal para perguntas, críticas e sinais sobre os assuntos que mobilizam colaboradores, consumidores e outros públicos.
O risco de falar e o risco de ficar calado
O receio de crises e cancelamentos ainda afasta empresas e dirigentes das redes sociais. Loures reconhece o risco, mas afirma que a ausência não retira uma marca da conversa pública. Ela apenas deixa de participar da discussão sobre si própria.
“Você hoje não pode evitar que o seu nome ou a sua marca não esteja nessa conversa de redes. Você pode evitar não participar dela. E não participar não evita tanto o risco.”
Para reduzir a exposição desnecessária, ele recomenda planejamento, atuação profissional e apoio de uma equipe. O conteúdo precisa estar ligado ao negócio, ao público que se pretende alcançar e ao objetivo da comunicação. Uma empresa interessada em atrair profissionais de tecnologia, por exemplo, pode priorizar redes e veículos especializados. Outra, voltada ao consumidor final, provavelmente terá de recorrer a plataformas de maior alcance.
Loures também propõe que a reputação seja medida em quatro etapas: conhecimento, confiança, ação e defesa. Primeiro, o público identifica a empresa e sabe o que ela faz. Depois, passa a confiar. Em seguida, toma uma decisão, como comprar, contratar ou candidatar-se a uma vaga. Na etapa final, recomenda a organização a outras pessoas.
Inteligência artificial entre a autoridade e a repetição
A inteligência artificial aparece na entrevista como oportunidade e alerta. Para Loures, as novas ferramentas de busca tendem a valorizar autoridade, legitimidade e confiança, o que pode beneficiar executivos, pesquisadores e instituições que produzem conteúdo consistente.
O risco está na homogeneização. Como os sistemas trabalham a partir de conteúdos existentes, podem repetir interpretações, vieses e preconceitos, além de reduzir a diversidade de ideias.
“Tem que ter um cuidado, porque quando você faz uma pesquisa anterior para projetar o futuro, você nunca traz o novo. Porque as pessoas não sabem o que querem aquilo que elas não conhecem ainda.”
A recomendação vale para líderes e empresas: tecnologia pode acelerar a produção e ampliar a circulação de ideias, mas não substitui conhecimento, responsabilidade e voz própria. Influência institucional se constrói menos com o volume da fala e mais com a confiança que permanece depois dela.
Assista ao Mundo Corporativo
A entrevista completa com Alexandre Loures está disponível no canal da CBN no YouTube, no Spotify e no podcast mais próximo do seu celular. O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 22h, em horário alternativo. O programa tem a colaboração de Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Carla Pistori no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O líder nada mais é do que um espelho para o seu time.”
Uma empresa pode investir em publicidade, discursos e campanhas institucionais, mas sua reputação também será medida pela experiência de quem trabalha nela. Na Royal Canin Brasil, cerca de 400 profissionais convivem com a tarefa de transformar o propósito da companhia em decisões, comportamentos e informações que chegam ao público. A construção dessa coerência foi tema da entrevista de Carla Pistori, diretora de Assuntos Corporativos da Royal Canin Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
A empresa está no Brasil há mais de 35 anos, mantém uma fábrica em Descalvado, no interior de São Paulo, e oferece quase 200 fórmulas de alimentos para cães e gatos, distribuídas em aproximadamente 300 itens. Segundo Carla, a experiência do funcionário com a marca começa antes mesmo da contratação, durante o processo seletivo, e avança pela integração, pelo conhecimento científico e pela compreensão da missão da companhia.
“A gente costuma dizer que os nossos colaboradores são embaixadores da nossa marca, mas não só da marca, da nutrição e da importância da nutrição também”, afirmou. Para que isso ocorra, acrescentou, é necessário que os profissionais entendam o papel da alimentação na saúde, no bem-estar e na longevidade dos animais.
A reputação perde sustentação quando a orientação dada pela chefia não aparece em sua própria conduta. Carla resumiu essa responsabilidade com a expressão em inglês walk the talk, usada para descrever quem age de acordo com aquilo que defende.
“A liderança precisa estar muito alerta, porque não é só falar, mas é viver os princípios, os valores da empresa, as políticas. O líder é uma inspiração para o time”, disse.
Na avaliação da executiva, confiança e transparência precisam caminhar juntas. Ouvir uma demanda não significa prometer que ela será atendida. Significa dar espaço para a manifestação do funcionário, explicar o que pode ser feito e alinhar as expectativas. “Uma comunicação clara, transparente, com expectativas alinhadas e devidamente justificadas tem tudo para dar certo.”
Comunicação para diferentes perfis
A diversidade de idades, funções e rotinas impõe outro desafio. A mesma informação precisa alcançar quem trabalha no escritório, na fábrica, nos armazéns logísticos ou em campo. Também deve fazer sentido tanto para quem acabou de sair da faculdade quanto para profissionais com mais de 30 anos de empresa.
Além de newsletter, TV corporativa e ferramentas virtuais, a Royal Canin promove uma reunião mensal da liderança com todos os funcionários. O encontro reúne a apresentação das estratégias do negócio, o reconhecimento das equipes e uma “dose de conhecimento”: cerca de 15 minutos dedicados à nutrição de cães e gatos e ao portfólio da empresa.
A companhia realiza ainda duas pesquisas anuais. Uma mede a experiência dos profissionais. A outra procura entender como a informação circula e qual é a participação dos gestores nesse fluxo. Para Carla, os canais precisam ser adaptados aos diferentes públicos, e o gestor tem papel central porque conhece a maneira mais adequada de levar a mensagem ao próprio time.
O gestor é apontado por Carla como a primeira porta para dúvidas, reclamações e propostas. Quando essa conversa não encontra acolhimento, os funcionários podem procurar a área de relações com associados, ligada a recursos humanos, o ombudsman e outros canais internos.
A existência dos canais, por si só, não garante a escuta. O funcionário precisa confiar que poderá falar, e a liderança deve estar preparada para receber a informação e responder com honestidade. Essa relação não nasce em uma reunião nem se recupera com uma frase de efeito.
“O desengajamento não vem da noite para o dia. Existe uma jornada, existe uma trajetória no relacionamento desse profissional com a empresa”, afirmou. Diante de uma equipe desmotivada, Carla recomenda que o gestor comece conhecendo a história, os valores e as capacidades de cada pessoa, além de investigar como o trabalho pode contribuir para sua realização profissional.
Uma carreira construída em áreas diferentes
Formada em relações públicas e há cerca de 20 anos no grupo Mars, do qual a Royal Canin faz parte, Carla iniciou a carreira em vendas. Depois, passou por marketing, comunicação e assuntos corporativos. Ela considera a experiência comercial uma escola por aproximar o profissional da realidade dos parceiros, varejistas e consumidores.
O período que mais a tirou da zona de conforto, porém, foi a integração da Royal Canin à Mars. Na área de comunicação, participou do trabalho de apresentar ao time uma cultura e valores diferentes e explicar os benefícios da incorporação a um grupo maior.
Para quem decide entre a especialização e uma trajetória por áreas diversas, Carla não apresenta uma fórmula única. “Eu acho que o mais importante é a gente ser muito honesto com a gente, entender o que traz realização, o que traz satisfação.”
Ciência contra a desinformação
A comunicação científica tornou-se outra frente do trabalho. A executiva avalia que uma empresa, sozinha, não consegue conter a circulação de informações incorretas sobre a saúde e a alimentação de cães e gatos. A resposta exige a participação conjunta da indústria, de veterinários, entidades profissionais e organizações do setor.
Há cerca de dois anos, a Royal Canin passou a estruturar esse diálogo com conselhos regionais de medicina veterinária, o Conselho Federal de Medicina Veterinária, associações e representantes do mercado. O objetivo, segundo Carla, é ampliar o espaço de informações técnicas baseadas em evidências.
“A medicina veterinária precisa ser pautada em evidência, não em achismo e não em tendência”, afirmou. A frase também serve às empresas: reputação não se sustenta em discurso isolado. Ela depende da repetição diária de decisões coerentes, da qualidade das relações e da disposição para explicar o que se faz.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Élcio Trajano Jr no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves/CBN
“Eu posso tentar passar o meu conhecimento para alguém, mas se essa pessoa não estiver aberta para aprender, ouvir, questionar, fazer perguntas, ter uma escuta ativa, não funciona.”
A Eldorado Brasil Celulose reúne cerca de 6 mil funcionários e aproximadamente 800 deles ocupam posições de liderança. São profissionais responsáveis não apenas por resultados e eficiência, mas também pelo desenvolvimento das equipes em um ambiente que reúne até cinco gerações, incorpora novas tecnologias e exige atualização permanente. Preparar essas pessoas para liderar e, ao mesmo tempo, estimular cada funcionário a assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento foi tema da entrevista de Elcio Trajano Júnior, diretor de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação da Eldorado Brasil Celulose, ao Mundo Corporativo, da CBN.
A empresa criou uma Academia da Liderança que reúne diferentes programas de formação. Há iniciativas destinadas a quem se prepara para assumir pela primeira vez a gestão de uma equipe, ações para quem já toma decisões como líder e programas voltados à sucessão e à preparação de futuros executivos. A cada ano, entre 100 e 200 pessoas participam das formações e atualizações.
A estrutura inclui ainda mentoria interna, compartilhamento de experiências entre gestores e uma avaliação de comportamento feita em 360 graus. Nesse processo, o profissional avalia a si próprio e recebe a percepção do chefe, dos colegas e da equipe. Mais de 850 líderes passaram por essa avaliação, que serve de base para conversas de feedback e planos de desenvolvimento.
Saber fazer não significa saber liderar
Um dos riscos identificados na gestão de carreira é transformar automaticamente o profissional de bom desempenho técnico em gestor. Para Elcio, as duas competências não devem ser confundidas.
“Às vezes uma pessoa que tem um excelente resultado não quer dizer que ela vai ser uma excelente gestora de pessoas. E tudo bem, não há problema nenhum”, afirmou.
A empresa procura trabalhar com alternativas de carreira. Um profissional pode avançar como especialista sem necessariamente assumir a responsabilidade por uma equipe. Quando alguém chega à gestão e percebe que não se adapta à função, a primeira alternativa é desenvolver as competências necessárias. Se isso não funcionar, a trajetória pode ser revista para permitir a volta a uma função de especialista.
Esse cuidado ganha importância porque liderar se tornou mais complexo. Elcio chama a atenção para a convivência de quatro ou cinco gerações dentro da mesma empresa. São pessoas em diferentes momentos da vida, com expectativas distintas sobre carreira, velocidade para tomar decisões e maneiras de se comunicar.
Por isso, uma competência aparece repetidamente na conversa: saber ouvir. Tecnologia e ferramentas de gestão ajudam a organizar informações e processos, mas não substituem o tempo dedicado à conversa com a equipe e à compreensão das diferenças individuais.
“Porque aquela frase que ‘sempre foi assim’ não funciona mais para os dias de hoje. A frase que sempre deu certo não funciona mais para os dias de hoje. A gente tem que aprender muito com as pessoas de todas as gerações e isso se torna desafiador para liderança.”
“Atitude de dono” exige autonomia e espaço para errar
Entre os valores adotados pela Eldorado está a “atitude de dono”. Na definição de Elcio, a expressão significa olhar além das próprias tarefas e compreender o funcionamento da empresa como um todo.
Ele usa a própria função como exemplo. Embora seja responsável pelas áreas de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação, entende que precisa acompanhar vendas, mercado de celulose, produção industrial, clima e outros fatores capazes de afetar os resultados. Não se trata de dominar tecnicamente todas as áreas, mas de compreender como a própria atividade se relaciona com o restante da organização.
Essa expectativa traz uma contrapartida. Se a empresa deseja que o funcionário tenha iniciativa e assuma responsabilidades, precisa oferecer autonomia e admitir a possibilidade de erros.
“Acho que o errar não é o problema, o persistir no erro que possa ser um problema”, disse Elcio.
Nesse processo, cabe ao líder transformar a falha em aprendizado: entender o que aconteceu, conversar com o profissional, identificar o que será feito de maneira diferente e evitar a repetição do mesmo problema.
Inteligência artificial aumenta a responsabilidade do líder
A incorporação da inteligência artificial e da automação não reduz, na avaliação de Elcio, a importância da liderança. O efeito tende a ser o contrário. A tecnologia pode aumentar agilidade, eficiência e produtividade, mas depende de profissionais preparados para utilizá-la e avaliar seus resultados.
Na Eldorado, aplicações de inteligência artificial já aparecem em diferentes atividades. Recursos Humanos utiliza People Analytics, análise de dados sobre pessoas e gestão, e passou a contar com uma assistente interna para responder dúvidas dos funcionários. Na operação florestal, há drones e sistemas de monitoramento do clima e do meio ambiente. Na indústria, ferramentas acompanham etapas da produção de celulose. Caminhões também dispõem de sistemas capazes de monitorar sinais de fadiga dos motoristas.
A tecnologia começa a ser usada também para repensar a capacitação. A intenção é tornar as trilhas de aprendizagem menos padronizadas, considerando que profissionais em posições semelhantes podem ter necessidades e interesses diferentes.
Para Elcio, esse movimento exige disposição para aprender. Informação e conteúdo estão amplamente disponíveis. O diferencial passa a ser a atitude diante do conhecimento.
“Mas o querer aprender coisas novas é fundamental. Então a atitude é algo importantíssimo.”
Comunicação também é competência de liderança
A diversidade das operações da Eldorado acrescenta outro desafio. Há profissionais em escritórios, fábricas, áreas florestais e unidades fora do Brasil. Isso obriga a empresa a combinar canais digitais com meios tradicionais, como murais, folhetos e comunicação durante o transporte das equipes. Parte do conteúdo interno passou também a ser produzida em dois idiomas para alcançar funcionários no exterior.
Para o líder, comunicar não significa apenas transmitir informação. É preciso considerar quem está ouvindo, adaptar a linguagem e verificar se a mensagem foi compreendida por públicos com diferentes níveis de formação e experiência.
“O líder que não saiba se comunicar, ele tem dificuldade de liderar”, afirmou.
A empresa pode criar cursos, avaliações, mentorias e oportunidades de carreira. Nenhuma dessas iniciativas garante que o funcionário queira aproveitá-las.
Elcio defende que o crescimento depende do encontro entre duas condições: existir uma oportunidade e o profissional estar preparado quando ela surgir. Se houver qualificação sem oportunidade, pode aparecer frustração. Se surgir uma vaga e a pessoa não estiver preparada, a promoção também pode se transformar em problema.
A recomendação, portanto, é não esperar que a empresa conduza sozinha a carreira. Isso inclui buscar conhecimentos além da função atual e observar oportunidades em outras áreas.
“Não se descuidem de se desenvolver … As oportunidades não necessariamente têm que ser na sua área, ela pode estar em outra área.”
A mensagem fecha o círculo da conversa: empresas precisam investir na formação de seus líderes, líderes precisam dedicar tempo ao desenvolvimento das pessoas e profissionais precisam assumir responsabilidade pela própria aprendizagem. Num ambiente em que máquinas aprendem cada vez mais depressa, a disposição humana para continuar aprendendo também passou a fazer parte do trabalho.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Jeane Tsutsui em entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O olhar humano ainda é e será fundamental para a saúde do Brasil.”
O Grupo Fleury completa cem anos com mais de 570 unidades em 14 estados, atendimento a laboratórios de 2.200 cidades e o processamento de 368 milhões de exames por ano. A empresa, fundada em 1926 como um pequeno laboratório no centro de São Paulo, ampliou sua atuação para acompanhar diferentes etapas do cuidado com a saúde, da prevenção aos tratamentos ambulatoriais, sem abandonar a medicina diagnóstica. A transformação de uma empresa centenária diante do avanço tecnológico, do envelhecimento da população e das mudanças no comportamento dos pacientes foi tema da entrevista de Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
A executiva afirma que a expansão dos serviços está ligada à própria trajetória da empresa e à escuta dos pacientes e dos médicos. Além dos exames laboratoriais e de imagem, o grupo passou a oferecer vacinação, check-ups, consultas, tratamentos ambulatoriais, telemedicina e atendimento domiciliar.
“Lembrando que o Grupo Fleury começou em 1926 como um pequeno laboratório no centro de São Paulo, ao longo do tempo se reinventou e hoje nós somos uma empresa que olha para a jornada de cuidado da saúde”, disse.
Segundo Jeane Tsutsui, o objetivo é acompanhar as pessoas durante mais tempo e contribuir para que o aumento da expectativa de vida venha acompanhado de autonomia e qualidade.
“Nós queremos estar presentes na vida das pessoas, cuidando para que elas tenham uma longevidade saudável.”
A mudança também responde a uma transformação na relação dos brasileiros com a própria saúde. Os pacientes passaram a buscar mais informações, serviços integrados, conveniência e formas de prevenção. Essa movimentação levou o Fleury a desenvolver, ainda na década de 1980, o modelo de centros diagnósticos, reunindo exames laboratoriais e de imagem no mesmo local.
Em 1998, segundo a CEO, o grupo tornou-se a primeira empresa do mundo a enviar resultados de exames pela internet. Durante a pandemia de Covid-19, o atendimento domiciliar ganhou impulso.
“Isso veio de ouvir muito o cliente ao longo de toda a nossa trajetória”, afirmou. “Esta cultura de foco no cliente, para atender as suas necessidades, e também uma cultura baseada em excelência e acolhimento, que é traduzido como ciência e confiança, fez parte dessa trajetória e certamente isso nos levará para o futuro.”
Inovar sem transformar a empresa em um museu
Empresas centenárias enfrentam um equilíbrio delicado. Precisam se adaptar às mudanças sem abandonar os valores que sustentaram sua trajetória. Para Jeane Tsutsui, o foco no cliente funciona como uma referência para orientar essa transformação.
“Ter foco no cliente não é só olhar para a experiência, para o acolhimento, para indicadores de experiência como Net Promoter Score. Foco no cliente é se adaptar e mudar para poder atender esta demanda.”
O Net Promoter Score, conhecido pela sigla NPS, é um indicador usado pelas empresas para medir a disposição dos consumidores em recomendar uma marca, produto ou serviço.
A adaptação, segundo a executiva, envolve acompanhar as alterações no comportamento dos pacientes, os avanços tecnológicos e a velocidade com que o conhecimento médico se desenvolve.
“Foco no cliente é incorporar tecnologia, mas também com muita responsabilidade para atender a necessidade do médico e do cliente. Foco no cliente é se adaptar para todo esse avanço do conhecimento que a medicina vem trazendo para a gente oferecer isso para o paciente, para o médico como a melhor solução e sustentável para o sistema.”
O crescimento do Grupo Fleury ocorreu tanto pela expansão das operações próprias quanto pela compra de outras empresas. Desde 2002, foram realizadas 49 aquisições.
A integração desses negócios exige atenção às diferenças culturais. Jeane Tsutsui explica que, antes de uma aquisição, a empresa avalia não apenas os aspectos estratégicos e financeiros, mas também a convergência de valores.
“A gente costuma dizer que as empresas têm culturas diferentes, porque cada cultura é própria de uma determinada empresa ou organização. Mas, quando avaliamos uma aquisição, o aspecto cultural é muito importante.”
Entre os pontos observados estão a relação com o cliente, a qualidade dos serviços e a reputação da organização adquirida.
“Quando existe essa convergência, nós conseguimos fazer uma integração adequada.”
Longevidade exige mudança de hábitos
A expectativa de vida do brasileiro passou de cerca de 34 anos, em 1926, para aproximadamente 76 anos atualmente, segundo os dados citados por Jeane Tsutsui na entrevista. A tendência é que continue aumentando nas próximas décadas.
A mudança demográfica levou o Grupo Fleury a criar um centro dedicado à longevidade saudável. Instalado na unidade Marco 100, na Avenida Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, o serviço Life Care é voltado para pessoas com mais de 35 anos.
A proposta é trabalhar fatores que influenciam diretamente a saúde ao longo da vida, como sono, alimentação, exercício físico, movimento, controle do estresse, saúde sexual, menopausa e vínculos sociais.
“Todos esses pilares pautados na ciência estão voltados para mudança de hábito, para que as pessoas realmente tenham mais qualidade de vida, para que as pessoas consigam maior autonomia a partir do momento que você avança com relação à longevidade.”
A CEO ressalta que realizar exames não é suficiente. Os resultados precisam retornar ao médico, orientar decisões e, quando necessário, provocar mudanças concretas no cotidiano do paciente.
A vacinação também aparece como um dos elementos da prevenção. Jeane Tsutsui destacou a importância de adultos manterem as vacinas em dia e lembrou que algumas delas, como a vacina contra o HPV, ajudam a prevenir determinados tipos de câncer.
Ao mesmo tempo, o incentivo à prevenção não deve estimular o excesso de exames. Segundo a executiva, é necessário seguir as evidências científicas e avaliar se cada procedimento terá utilidade na tomada de decisão médica.
“O que nós queremos é fazer o exame correto para o paciente correto e no momento adequado.”
Essa preocupação também tem impacto econômico. O Brasil destina aproximadamente 9,5% do Produto Interno Bruto aos serviços de saúde, considerando os sistemas público e privado, conforme o dado apresentado na entrevista.
“Temos que utilizar adequadamente esses recursos”, afirmou.
Inteligência artificial reduz tempo de exames
O Grupo Fleury já utiliza mais de 50 aplicações de inteligência artificial em diferentes áreas. A tecnologia está presente tanto nos exames quanto nos processos administrativos e logísticos.
Em equipamentos de ressonância magnética, a inteligência artificial permite reduzir em até 50% o tempo necessário para a captura das imagens. A diminuição representa ganho de produtividade e reduz o período em que o paciente precisa permanecer dentro do equipamento.
“Isso traz um benefício em termos de eficiência, mas uma melhor experiência para o cliente.”
No atendimento domiciliar, a tecnologia ajuda a organizar os trajetos das equipes. De acordo com Jeane Tsutsui, o uso da ferramenta aumentou em 15% a disponibilidade de horários, elevou em 32% a produtividade dos profissionais responsáveis pelas coletas e produziu crescimento de 4% na satisfação dos clientes.
A inteligência artificial também é usada na análise inicial de exames de tomografia. O sistema pode identificar sinais de situações graves, como hemorragia cerebral e tromboembolismo pulmonar, e alertar o médico para que a avaliação seja priorizada.
“É o uso da inteligência artificial como um sinal de alerta. Ela não substitui o laudo médico, é um médico que vai fazer a leitura, mas ela consegue já fazer uma detecção muito rápida e avisar o médico que aquele exame precisa ser priorizado.”
A aplicação da tecnologia em saúde exige cuidados adicionais, especialmente porque envolve informações sensíveis dos pacientes. A CEO destacou a necessidade de estruturar bancos de dados adequados e cumprir as regras da Lei Geral de Proteção de Dados.
“Obviamente, nós acompanhamos todo esse avanço da tecnologia, mas com muito cuidado, uma vez que você tem informações sensíveis que devem ser usadas adequadamente.”
Dados e medicina personalizada
Cardiologista e pesquisadora, Jeane Tsutsui afirma que sua formação médica contribuiu para a gestão ao reforçar a conexão com o cuidado, a necessidade de uma visão ampla do sistema de saúde e a importância das decisões baseadas em dados.
“Nas nossas atitudes do ponto de vista de tomada de decisão, nós precisamos resolver o problema pontualmente, mas sempre com o olhar sistêmico.”
A análise de informações clínicas pode ajudar a identificar grupos de maior risco, orientar medidas preventivas e aumentar a sustentabilidade do sistema. Áreas como genômica, proteômica e metabolômica tendem a ampliar a capacidade de personalizar diagnósticos e tratamentos.
A genômica estuda o conjunto do material genético de uma pessoa. A proteômica analisa as proteínas produzidas pelo organismo. A metabolômica observa pequenas moléculas geradas pelos processos metabólicos. Reunidas, essas áreas ajudam a compreender diferenças individuais e podem orientar uma medicina mais precisa.
“Nós temos a oportunidade de fazer uma medicina cada vez mais precisa e personalizada. O uso de dados também será cada vez mais presente na área de saúde.”
Comunicação e equipes complementares
Na gestão, Jeane Tsutsui aponta três elementos centrais: equipes com conhecimentos complementares, clareza de direcionamento e conexão com o propósito da organização.
“O CEO não precisa resolver tudo. O time de alta performance é muito importante.”
A diversidade de experiências e pontos de vista, segundo ela, ajuda a tomar decisões em ambientes marcados por incertezas. A comunicação também precisa ser adaptada aos diferentes públicos de uma companhia, como colaboradores, médicos, investidores, pacientes e sociedade.
“Essa comunicação com clareza também é muito importante numa empresa que tem uma atuação nacional.”
O Grupo Fleury tem 79,5% de mulheres no quadro geral de profissionais e 70% de mulheres nas posições de liderança. A empresa também trabalha com diversidade étnico-racial, etária, LGBT e de formas de pensamento.
“Essa diversidade acaba sendo um fator competitivo importante. Nós estamos em diferentes regiões do Brasil, com diferentes culturas.”
Ao projetar os próximos cem anos, Jeane Tsutsui afirma que a empresa pretende acompanhar os avanços da medicina, incorporar tecnologias com responsabilidade e manter a confiança de pacientes, médicos, colaboradores e investidores.
“A confiança que nós temos de que o olhar de fazer o correto, de fazer com excelência, mas principalmente com olhar humano, é o que vai nos direcionar para os próximos 100 anos.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
A pergunta parece simples, mas toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo. À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, cresce também a impressão de que ela poderia substituir atividades que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.
A IA já consegue identificar padrões de linguagem, reconhecer emoções expressas no discurso, formular hipóteses interpretativas e até conduzir diálogos que, muitas vezes, parecem acolhedores e reflexivos. Está disponível a qualquer hora, responde sem julgamento aparente, possui acesso instantâneo a uma quantidade imensa de informações e não sofre os limites do cansaço ou da distração.
Diante disso, a pergunta que surge naturalmente é: seria possível substituir o psicoterapeuta por uma inteligência artificial?
A resposta exige compreender que a psicoterapia não se reduz a conselhos, interpretações ou à organização racional dos pensamentos. Ela é, antes de tudo, uma experiência de encontro. Um espaço relacional no qual uma pessoa pode entrar em contato consigo mesma por meio da presença de outra pessoa.
O que a IA já é capaz de fazer
Cabe aqui uma observação. A qualidade de um processo terapêutico não depende apenas da abordagem utilizada, mas também da formação, da experiência e da capacidade de escuta de quem o conduz. Existem profissionais altamente qualificados e pessoas que, após formações muito breves, oferecem atendimento clínico sem a preparação necessária para lidar com a complexidade do sofrimento humano.
Nesses casos, é possível que uma inteligência artificial, alimentada por um amplo conjunto de conhecimentos psicológicos e disponível continuamente, ofereça reflexões mais consistentes do que aquelas produzidas por profissionais insuficientemente preparados. Isso, porém, não diminui a importância da psicoterapia. Ao contrário, evidencia o quanto a formação, a supervisão clínica, a experiência pessoal de análise e o treinamento contínuo são fundamentais para o exercício responsável da profissão.
Digo isso porque a mudança terapêutica não ocorre apenas porque alguém recebe informações sobre seus problemas. Ela acontece porque determinados aspectos da experiência humana só se tornam acessíveis dentro de uma relação. É no encontro com o outro que percebemos padrões que, sozinhos, não enxergamos, reconhecemos sentimentos que evitávamos sentir e construímos novas formas de compreender nossa própria história.
O psicoterapeuta escuta não apenas o que é dito, mas também aquilo que se manifesta nas pausas, nas repetições, nas contradições, nos silêncios e nos afetos. Muitas vezes, a transformação não resulta de uma fala brilhante, mas da experiência de ser acolhido, compreendido e reconhecido por outro ser humano.
De fato, na psicoterapia, o próprio psicoterapeuta torna-se um instrumento de compreensão do outro, pois, na relação terapêutica, tudo aquilo que sente pode constituir um dado importante para compreender a comunicação que está sendo estabelecida. Daí a necessidade de anos de estudo, supervisão, psicoterapia e treinamento.
Às vezes, uma narrativa aparentemente tranquila desperta tristeza; outras vezes, um relato de sofrimento provoca estranhamento ou até uma sensação inesperada de leveza. Há momentos em que o paciente sorri enquanto comunica algo doloroso ou chora ao falar de algo que parece não lhe causar sofrimento. Tudo isso comunica.
Os afetos que emergem no terapeuta não são, necessariamente, respostas pessoais; muitas vezes, fazem parte da própria dinâmica relacional que se estabelece no encontro terapêutico. Por isso, a formação e a experiência pessoal de psicoterapia são fundamentais. Ao conhecer melhor seus próprios conflitos, limites e sensibilidades, o terapeuta torna-se mais capaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que emerge da relação com o paciente. Assim, pode envolver-se profundamente com o sofrimento do outro sem confundir-se com ele, transformando sua própria experiência emocional em um instrumento a serviço da compreensão e do cuidado.
O que acontece em uma relação terapêutica
A relação terapêutica é construída ao longo do tempo. Ela envolve confiança, vínculo, frustrações, descobertas, resistências e transformações. Não se trata apenas de um processo cognitivo, mas de uma experiência humana compartilhada. Em muitos casos, é justamente essa experiência relacional que promove mudanças profundas.
Isso não significa que a inteligência artificial não tenha valor. Ao contrário. Ela pode oferecer informações, auxiliar na organização de pensamentos, estimular reflexões, sugerir perspectivas diferentes e funcionar como um recurso acessível para quem busca compreender melhor a si mesmo. Em muitos contextos, pode representar um importante instrumento de apoio emocional e de ampliação do acesso ao conhecimento psicológico.
Entretanto, existe uma diferença fundamental. A inteligência artificial pode processar informações sobre a experiência humana, mas não possui experiência humana. Não sente medo, amor, perda, esperança ou sofrimento. Não atravessa conflitos existenciais. Não se transforma a partir do encontro com o outro.
É justamente nessa dimensão que a psicoterapia encontra uma de suas bases mais importantes. O psicoterapeuta não é apenas alguém que compreende teoricamente o sofrimento. É alguém que também participa da condição humana. Sua escuta é atravessada pela própria experiência de viver, sofrer, desejar, perder e transformar-se.
Talvez a questão mais importante não seja saber se a IA pode substituir o psicoterapeuta, mas compreender como ela pode contribuir para o cuidado psicológico. Ela pode tornar-se uma ferramenta valiosa de apoio, reflexão e autoconhecimento. Pode complementar processos terapêuticos e ajudar muitas pessoas a iniciar uma jornada de compreensão de si mesmas.
A psicoterapia, porém, em seu sentido mais profundo, continua sendo uma experiência humana. Uma experiência construída no vínculo, na presença, na confiança e na possibilidade de um ser humano encontrar a si mesmo por meio do encontro com outro.
Por mais sofisticada que seja uma tecnologia, ela ainda não ocupa o lugar de uma presença humana genuína. Talvez isso nos lembre de algo essencial: existem experiências cuja força não está apenas na informação que recebemos, mas na relação que nos transforma.
Na psicoterapia, a mudança não nasce apenas do que é dito, mas do que é sentido. É preciso sentir para mudar. O silêncio, a hesitação, um sentimento que surge sem nome, um afeto que atravessa a relação e encontra acolhimento: tudo isso comunica. E é justamente nessa linguagem dos afetos que a presença humana continua sendo insubstituível.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
Quando comecei a atuar como mestre de cerimônias, as questões ligadas à acessibilidade nos eventos não faziam parte do repertório das solenidades — ao menos, não da forma como o tema evoluiu ao longo dos anos. Pensar no outro tornou-se algo fundamental em uma sociedade que busca a integração. Essa transformação ocorreu muito mais pela resistência e pela força da parcela da sociedade que luta para ser incluída, vivendo a deficiência no dia a dia, do que por iniciativa da maioria dos cidadãos.
Dentro desse contexto inclusivo, além do acesso físico e da presença do intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), surgiram ferramentas fundamentais: a audiodescrição e a autodescrição. No meu campo de trabalho, aplico ambas nas solenidades.
Descrever o ambiente onde o evento ocorre logo no início da cerimônia virou uma ferramenta de inclusão necessária em eventos públicos e privados. Assim como, afastar-se da tribuna e cumprimentar o público fora do microfone, permitindo que as pessoas cegas saibam exatamente de qual local estamos falando. Via de regra, aqui no Palácio Piratini, usamos esses recursos quando somos informados da presença de convidados com deficiência visual ou baixa visão na plateia. A prática torna-se obrigatória, naturalmente, quando o tema do evento é direcionado a esse público.
Com o tempo, aprendi a descrever os salões do Palácio por força do convívio diário com esse ambiente, onde trabalho há tantos anos. Partindo da lógica de que a descrição deve conter os elementos arquitetônicos, decorativos e institucionais — como telões, fundos de palco, totens e ornamentações —, criei um texto-base resumindo os principais detalhes históricos e da arquitetura. A cada novo evento, apenas incluo as novidades da programação visual. Não que isso precise ser feito com antecedência, mas, dado o volume de detalhes que ornamentam os salões e a própria história da construção, prefiro ter tudo por escrito.
Se a audiodescrição do espaço exige esse cuidado, a autodescrição é outro exercício que requer atenção e pega muita gente de surpresa. Há quem diga que não sabe como fazê-la, mas o processo não vai além de desenhar com palavras a imagem que vemos no espelho: o tipo de traje, a cor das roupas, as características físicas, como o cabelo (ou a ausência dele, no meu caso), a cor da pele e dos olhos, a altura e o gênero com o qual nos identificamos. Enfim, detalhes que ajudam a construir o imaginário das pessoas cegas ou com baixa visão.
Com base nesse critério, sempre que faço minha autodescrição, aproveito para descontrair o ambiente. Brinco com algumas das minhas próprias características, como a desproporção entre a minha altura e o meu tom de voz. No fim, costumo dizer que a plateia provavelmente me imaginava muito mais bonito do que a realidade permite. O humor, nesse caso, ajuda a quebrar o gelo e aproxima as pessoas.
Na última vez em que usei esse recurso, o governador do Estado, que discursaria logo em seguida, confessou que não saberia fazer sua própria autodescrição e resolveu contar com a ajuda da inteligência artificial. Também de forma leve, leu as características que a IA trouxe a seu respeito, tarefa facilitada por se tratar de uma pessoa pública com grande exposição na internet.
Partindo dessa premissa e de uma experiência semelhante pela qual meu irmão, jornalista, passou ao precisar se autodescrever, surgiu-me um questionamento: afinal, brincar com as nossas próprias características pessoais na autodescrição pode ser considerado ofensivo por quem escuta e depende dessa ferramenta de acessibilidade?
Para responder à dúvida, consultamos Guilherme Bara, especialista em diversidade, inclusão e compliance. Bara perdeu a visão na adolescência, deficiência que não o impediu de se formar em Administração de Empresas, concluir um MBA em Gestão de Projetos, chefiar o Gabinete da Pessoa com Deficiência da cidade de São Paulo e tornar-se um palestrante requisitado em treinamentos sobre cultura de respeito e inclusão.
Sobre o uso do humor na autodescrição, ele foi categórico:
“Não, isso não é desrespeito. Fazer essa brincadeira faz parte do seu estilo pessoal. Dizer que é gremista, enfim, está dentro do seu estilo e está tudo bem. O que eu oriento é que, se em um painel todos os participantes forem se autodescrever, o ideal é que sejam os mais objetivos possível, atendo-se ao que está sendo visto, porque o processo pode se tornar cansativo se for muito longo. Todo mundo tende a fazer uma brincadeira, do tipo: ‘hoje não fiz a barba’, ‘estou esculachado’, ‘ganhei alguns quilinhos’. Pode ser que alguém não goste — tem de tudo neste mundo —, porém, na minha experiência pessoal, pelo que transito no mercado e pelo que conheço, isso não é, de forma alguma, desrespeitoso.”
A resposta de Guilherme Bara foi tão esclarecedora quanto tranquilizadora. Lidar com as questões relacionadas à deficiência e à inclusão exige vigilância constante. Mesmo sendo pai de uma filha com paralisia cerebral — o que me proporciona uma vivência próxima, na qual esse tipo de humor não ofende —, entendo que aquilo que é natural para mim pode ser recebido de outra forma por terceiros.
Nesse universo, precisamos do máximo de informação para não errar, mesmo sem querer. Como costumo dizer, a inclusão precisa ser discutida e esclarecida por quem vive a deficiência, porque, para quem está de fora, tudo parece mais fácil de resolver. A pior ignorância não está em cometer erros, mas em, mesmo tendo a oportunidade, não buscar o conhecimento.
Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).
Fabíola Menezes entrevista no Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Hoje a campanha começa quando a gente dá o primeiro play.”
As redes sociais transformaram a forma como as marcas se relacionam com os consumidores. Se antes uma campanha publicitária dependia principalmente de anúncios na televisão, no rádio ou em revistas, hoje ela se constrói em múltiplos canais, com a participação de influenciadores, criadores de conteúdo e consumidores que interagem em tempo real. Esse movimento, conhecido como economia dos criadores, foi tema de entrevista de Fabíola Menezes, CMO da General Mills Brasil, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
Responsável por marcas como Yoki, Kitano e Häagen-Dazs no Brasil, Fabíola explicou que a presença dos criadores de conteúdo não substituiu as celebridades tradicionais, mas ampliou as possibilidades de comunicação.
“Hoje é uma pluralidade de vozes com muita influência, que consegue conectar com os consumidores de uma forma muito genuína”, afirmou.
Segundo ela, a estratégia da companhia busca aproximar marcas que já fazem parte da rotina dos brasileiros há décadas de novos hábitos de consumo e de comunicação. “A gente tá buscando modernizar as nossas marcas”, resumiu.
Modernizar sem perder a essência
Um dos desafios enfrentados pela General Mills é atualizar marcas tradicionais sem abrir mão dos valores que construíram sua reputação ao longo do tempo. Fabíola destacou que esse processo exige clareza sobre o propósito da marca e consistência na mensagem transmitida pelos diferentes porta-vozes.
“Você precisa ter um posicionamento muito claro e esse posicionamento carrega uma tradição.”
Para ela, a multiplicação dos canais de comunicação tornou mais complexo o trabalho de construção de marca. “O desafio hoje é manter essa consistência, esse posicionamento, tendo tantas vozes falando sobre a sua marca e não mais uma única mensagem.”
A escolha dos influenciadores, portanto, vai muito além do alcance ou da popularidade. O principal critério é a autenticidade.
“O que o consumidor não aguenta mais é quando o influenciador está lá só mostrando o produto e não tem verdade.”
Por isso, a empresa realiza avaliações prévias, investiga possíveis riscos reputacionais e desenvolve briefings que permitam aos criadores adaptar a mensagem ao seu próprio estilo de comunicação.
O consumidor mudou
Ao longo da conversa, Fabíola observou que a transformação não ocorreu apenas nas estratégias das empresas. O comportamento do consumidor também mudou.
“Os consumidores ficaram mais exigentes.”
Na avaliação dela, o brasileiro tem hoje mais opções de escolha, compara produtos com mais facilidade e espera que as marcas sejam relevantes para sua vida.
Ao mesmo tempo, existe um desafio adicional: o excesso de estímulos.
“A gente está sobrecarregado com a quantidade de mensagem que a gente recebe todos os dias.”
Essa realidade obriga as empresas a buscar formas menos invasivas de comunicação, inserindo suas mensagens em contextos culturais, experiências e conversas que façam sentido para o público.
Foi nesse contexto que a General Mills apostou em ações ligadas a eventos culturais, como as festas juninas, e em parcerias com influenciadores capazes de criar conexões mais próximas com os consumidores.
Dados, inteligência artificial e proximidade humana
A tecnologia também passou a desempenhar um papel relevante no trabalho de marketing. A empresa utiliza inteligência artificial para acelerar pesquisas com consumidores e analisar comportamentos. Fabíola relatou que a ferramenta já permite entrevistar consumidores, gerar relatórios automáticos e até criar personas sintéticas baseadas em pesquisas quantitativas.
Mesmo assim, ela acredita que a experiência direta continua indispensável.
“Eu acredito ainda na sola do sapato.”
A expressão resume a importância de visitar pontos de venda, conversar com consumidores e observar a realidade além das planilhas e relatórios.
“É muito importante não perder esse olhar, não perder essa conexão, porque, sim, a gente pode ser distanciado do consumidor sem perceber.”
Liderança em um ambiente de mudança constante
A executiva também compartilhou sua visão sobre liderança em um ambiente marcado pela velocidade das transformações tecnológicas e pela convivência entre diferentes gerações.
Para ela, o líder precisa desenvolver uma relação mais próxima com as pessoas da equipe e compreender suas expectativas individuais.
“Hoje a gente tem que entender um pouco as pessoas, tem que se aproximar, conversar com as pessoas.”
Fabíola defende a prática da mentoria e da mentoria reversa como instrumentos de desenvolvimento profissional e atualização constante.
“Eu acredito muito na mentoria reversa também.”
Segundo ela, a troca entre profissionais mais experientes e os mais jovens ajuda a acelerar o aprendizado e amplia a compreensão das mudanças culturais e tecnológicas que impactam os negócios.
Ao olhar para o futuro, Fabíola resume sua ambição para as marcas da General Mills: fortalecer conexões emocionais com os consumidores sem perder a relevância construída ao longo da história.
“Hoje eu tenho uma conexão emocional muito maior com nossa marca, hoje ela não pode faltar na minha vida.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Juliana Algodoal em entrevista no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“A pessoa que fala é responsável por fazer o outro se sentir bem ou mal.”
A comunicação está no centro das relações de trabalho e influencia diretamente decisões, clima organizacional e saúde mental das equipes. Em ambientes pressionados por resultados e mudanças tecnológicas, a forma como líderes e profissionais se expressam pode fortalecer vínculos ou gerar ruídos que afetam o desempenho. Esse foi o tema da entrevista com Juliana Algodoal no programa Mundo Corporativo, da CBN.
Ao longo da conversa, Juliana destacou que a comunicação vai além da clareza. Envolve intenção, emoção e contexto. “Se uma pessoa que está na liderança não se preocupa em ter clareza na forma de falar e garantir a intenção, na emoção da voz que ela exprime, a pessoa que escuta pode interpretar de diversas formas”, afirmou.
Comunicação, percepção e responsabilidade
A autora do livro Inteligência Humana e Comunicativa: Potencialize sua voz (ed Memorável) chama atenção para um ponto sensível: quem fala precisa assumir a responsabilidade pelo efeito da mensagem. Isso inclui ajustar tom de voz, escolha de palavras e até o ritmo da fala. “Eu é que tenho que me preocupar em ter clareza na forma de falar para você se sentir bem ou mal”, disse.
Esse cuidado se torna ainda mais relevante em posições de liderança. A ausência de alinhamento entre o que se diz e como se diz pode gerar interpretações equivocadas e conflitos internos. Segundo Juliana, muitos problemas nas empresas começam na falta de clareza e na ausência de verificação do entendimento.
Ela também aponta que ouvir faz parte do processo. “A percepção que eu tenho quando eu escuto alguma coisa, ela é a partir da minha história de vida”, explicou, ao destacar que comunicação é sempre uma via de mão dupla.
Feedback: ponto de tensão e de desenvolvimento
Entre as situações mais desafiadoras no ambiente corporativo está o feedback. “Feedback sempre, porque as pessoas têm a imagem de que feedback é ruim e isso não é verdade”, afirmou.
Juliana apresentou três caminhos práticos para tornar esse processo mais produtivo:
começar por um ponto positivo, abordar o que precisa melhorar e encerrar com apoio;
entender a expectativa de quem pede o retorno;
ou tratar primeiro o ponto mais crítico e finalizar com reforço positivo.
A ideia é que a forma como o feedback termina influencia a forma como ele será recebido. “Se você termina com feedback positivo, a pessoa sai assim: ‘Ah, não tá tão ruim’. Deixa eu ver o que eu tenho que fazer agora”, explicou.
Para quem recebe críticas, a recomendação é ativa: perguntar, pedir exemplos e filtrar o que faz sentido. “Eu sou favorável de que as perguntas abertas fazem uma boa conversa”, disse.
O silêncio que atrapalha e o que ajuda
O silêncio também ganhou destaque na entrevista. Quando usado como ausência de liderança, ele desorienta equipes. “O líder que faz silêncio ele não lidera, ele não inspira, ele não leva o time para frente”, afirmou.
Por outro lado, há um silêncio produtivo: aquele que permite reflexão antes da resposta. “Espera, internaliza, pensa: o que é de verdade que essa pessoa tá me perguntando?”, orientou.
Esse equilíbrio entre falar e escutar, segundo Juliana, é essencial para melhorar a qualidade das interações.
A entrevista também abordou o impacto das mudanças no mundo do trabalho. Com o avanço da tecnologia, cresce a necessidade de fortalecer habilidades humanas. “A inteligência artificial cresceu, a empresa tá percebendo que ela tem que investir mais em comunicação. Por quê? Porque o relacionamento humano tá se tornando mais importante”, afirmou.
Nesse cenário, comunicação deixa de ser um complemento e passa a ser competência central.
Juliana resume esse movimento com uma provocação simples: “Todos nós podemos melhorar, basta querer e escolher um primeiro passo”.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Um exemplo indiscutível de que é pelo vínculo que nos constituímos são as conhecidas “crianças selvagens” — aquelas que, por circunstâncias extremas, se relacionaram e, portanto, se vincularam, no início de suas vidas, predominantemente com animais e não com seres humanos. Observa-se que, nesses casos, a criança criada por um cão demonstrou comportar-se como um cão; por lobos, como um lobo; por galinhas, como uma galinha. Assim, cada criança revelou identificação e comportamento conforme o modelo oferecido pelo animal que a acolheu. Em outras palavras, cada uma espelhou sua identidade no vínculo estabelecido durante o seu processo de formação e desenvolvimento, evidenciando o poder que as relações exercem sobre a construção do Eu.
Sem dúvida, esses casos servem como constatação de que os vínculos que construímos ao longo da vida, especialmente os primeiros, são os que oferecem os elementos mais decisivos na constituição de quem somos. São eles que moldam nossas percepções, influenciam nossas escolhas e estruturam o Eu que nos tornamos — ou, mais precisamente, o Eu que sentimos ser.
Não é difícil compreender esse processo, já que é desde a fecundação — ou seja, desde o início dos vínculos — que se pode perceber a trama das relações: com a mãe, com o pai, com irmãos, amigos, colegas, professores, parceiros etc. Alguns vínculos são intensos e transformadores; outros, frágeis e superficiais. Todos, porém, participam, de algum modo, da construção e da evolução da nossa identidade, do nosso Eu.
Dessa forma, desenvolver vínculos e, sobretudo, qualificá-los é fundamental para vivermos com mais saúde, autonomia e bem-estar biopsicossocial. Relações saudáveis funcionam como alicerces que sustentam nosso crescimento, fortalecem a autoestima e ampliam nossa capacidade de enfrentar desafios. Quando cultivamos vínculos de qualidade, abrimos espaço para sentimentos genuínos de pertencimento, amparo e valor pessoal — elementos essenciais para uma vida mais equilibrada e significativa.
A qualidade das relações
Se a relação é a base do vínculo, é a qualidade dessa relação que determina se ele será construtivo ou não. Uma relação pode gerar um vínculo capaz de cuidar, amparar e construir, assim como pode gerar intoxicação, maus-tratos e destruição. Dependendo de como é vivida, a mesma interação que nutre pode ferir; a que acolhe pode sufocar.
Nesse contexto, surgem questões fundamentais: o que leva uma pessoa a desenvolver vínculos saudáveis, aqueles que promovem crescimento? E o que leva alguém a estabelecer vínculos destrutivos, que ferem, sufocam e desgastam? Como transformar padrões relacionais que se repetem ao longo da vida, mesmo quando já não fazem mais sentido?
Essas perguntas revelam a complexidade do universo relacional. Para respondê-las, é preciso reconhecer que os vínculos se formam nos encontros entre, pelo menos, duas pessoas que carregam consigo memórias, expectativas, medos, aprendizados e feridas — uma combinação de experiências alegres e dolorosas de uma história pessoal. A qualidade do vínculo dependerá, em grande medida, do que cada um traz e de como isso se manifesta na relação. Cada encontro é, portanto, um entrelaçamento de mundos internos que podem entrar em conflito ou encontrar harmonia.
Lembro de um amigo que, em uma roda de conversa, recorrendo ao humor, dizia que, para um casal dar certo, era fundamental que as “loucuras” de cada um se encaixassem. Apesar do tom leve, há nisso uma verdade consistente. Relacionamentos saudáveis não exigem perfeição, mas sintonia: a capacidade de reconhecer as singularidades do outro, acolhê-las e construir um ritmo possível entre duas subjetividades que nunca serão idênticas.
Comunicação: o que se diz sem palavras
É justamente nesses emaranhados que a comunicação ganha centralidade — não apenas a comunicação verbal, mas, sobretudo, a não verbal. Grande parte do vínculo se constrói na linguagem silenciosa dos gestos, dos olhares, das pausas. Esses elementos dizem muito no encontro com o outro. É nesse território sutil que se constroem confiança, acolhimento e presença — ou, no sentido oposto, distância, tensão e insegurança.
Quando conseguimos construir vínculos que respeitam nossa singularidade e a do outro, abrimos espaço para relações que nutrem, fortalecem e ampliam quem somos. Talvez seja aí que resida uma das maiores capacidades humanas: a de se transformar por meio do encontro com o outro, fazendo de cada relação uma oportunidade de crescimento e reinvenção.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.