Avalanche Tricolor: esperança e desvario

Grêmio 0x0 Criciúma

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Roger observa o time em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche me conhece bem. Sabe o quanto torço, sofro e acredito, mesmo diante da descrença do futebol jogado. Sou daqueles que conservo a esperança de que em algum momento alguma coisa haverá de acontecer e mudará nosso destino. A bola que resvala no poste, vai voltar para o pé do goleador; a que desvia no zagueiro, seguirá a caminho do gol; a que chega na cabeça do atacante terá o destino das redes. 

Verdade que diante dos acontecimentos do ano passado, temos motivos para desconfiar da nossa confiança. Mas aí vem um outro jogo e a crença se expressa mais uma vez. A bola começa a rolar e a gente tem a impressão de que o futebol vai desencantar. Até percebe que o passe não é mais o mesmo, a velocidade é menor e a intensidade prometida no discurso do vestiário desaparece no decurso do jogo. A despeito disso, nos entregamos à ilusão, do primeiro minuto ao apito final.

Apesar dos pesares, prefiro não depositar toda essa crença no desvario que sempre me moveu quando trato das coisas do tricolor. Se tenho a expectativa de que o dia da grande revelação está por vir é porque reconheço em Roger capacidade para tal. O treinador que tem comandado o time com a estratégia da tentativa e erro, levando a campo formação e posicionamento diferentes na busca de desempenhos melhores, terá de contar com a paciência do torcedor — quem ainda a tem? 

Roger precisará de tempo para fazer com que os jogadores entendam o papel de cada um dentro do time. Mais tempo ainda porque tem o desafio de encaixar na sua forma de pensar os jogadores que herdou dos comandos técnicos anteriores. Que a paciência do treinador seja maior do que a do torcedor e os resultados – aqueles nos quais deposito minha esperança e desvario – comecem a aparecer o mais breve possível, antes que entremos em mais um caminho sem volta.                                            

Avalanche Tricolor: achou errado, otário!

Ituano 1×1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Novelli Junior, Itu/SP

Diego Souza, sempre ele! Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

“Achou que seria fácil? Achou errado, otário!”. O bordão consagrado por Rogerinho do Ingá, do Choque de Cultura, me veio à mente ao fim da partida desta noite de segunda (de segunda!). Depois de engatar três vitórias na sequência e pontuar no topo da tabela, o Grêmio reencontrou-se com o revés, com uma derrota e um empate cedido nos minutos finais.  E fica mais uma rodada fora do G4. Foi um choque de realidade!

Camisa e história falam alto, mas não fazem tudo. Assim como impõem respeito, provocam o ânimo do adversário que entra em campo com espírito de decisão. E se a recíproca não for verdadeira, seguirá sendo penosa essa Série B, como tem sido desde a primeira rodada. 

Não adianta reclamar da conivência do árbitro com o jogo mais pesado, do gramado que prejudica o toque de bola, dos buracos que interrompem a corrida e da estrutura acanhada dos estádio em que se joga. É o que temos para hoje e fizemos por merecer.

Hoje, após um primeiro tempo em que o empate parcial foi um alívio diante dos vacilos no meio de campo, com duas bolas no poste e uma defesa gigante de Breno, encontramos um gol graças a habilidade de Diego Souza, logo no início do segundo tempo. Sempre ele!

O futebol do Grêmio até melhorou, mesmo porque a referência era o primeiro tempo de baixa qualidade. E o fato de ficarmos mais tempo com a bola nos pés e de conseguirmos impedir os avanços sobre nosso gol, já eram suficientes para mostrar algum progresso. Ao menos forjavam uma suficiência. 

Sofremos o empate nos acréscimos por mérito de um time que nunca desistiu do gol, mesmo quando a técnica não se fazia mais presente. E assim será partida após partida, jogue onde jogar, dentro ou fora de casa. Todos lutando pela bola como se estivessem atrás de um prato de comida. Se não entendermos essa dinâmica da Série B, a frustração do presente se expressará mais alta do que nossas glórias do passado. 

Como ensinou o ‘filósofo’ Rogerinho do Ingá: achou que seria fácil,  só pelo que já fomos? Achou errado, otário!

Avalanche Tricolor: a cumplicidade da Dona Ruth

Cruzeiro 1×0 Grêmio

Brasileiro B – Independência, BH/MG

Biel em destaque na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

É Dia das Mães! Dia de lembrar da Dona Ruth, que nos deixou cedo para os tempos atuais, estava com apenas 49 anos. Apesar de a despedida precoce, ensinou muito, ofereceu carinho e compartilhou gentileza aos filhos, parentes e amigos. Tinha personalidade forte, tomava à frente nas grandes batalhas da vida e cultivou uma incrível capacidade de unir a família. Saudade daquela feijoada de domingo, mãe!

De futebol entendia pouco, e torcia muito. Era gremista, como todos nós. Mas torcia muito mais pela felicidade do pai e dos filhos do que propriamente para o time pelo qual torcíamos. Sabia que um bom resultado, nos faria voltar para a casa com sorriso no rosto e comentários animados. Era a garantia de um jantar dominical recheado de histórias que eu não cansava de reproduzir à mesa como se fosse eu o narrador de futebol da família. 

Entendia, como poucos e poucas, o coração deste que lhe escreve —- talvez o que mais sofria na família diante de reveses futebolísticos.

Seu abraço assim que eu retornava do Olímpico ou alguma partida pelo interior do Rio Grande do Sul, após uma derrota, era apaziguador. Nenhuma palavra de consolo era melhor do que o aconchego de seus braços. Bastavam-me!

O ápice da sensibilidade vinha na manhã seguinte, quando eu acordava ainda entristecido pelo resultado do dia anterior. A mãe sabia bem o que se passava dentro de mim, em especial diante das perdas mais retumbantes para aquela época — a derrota em um clássico regional ou, pior, de um título gaúcho. Ter de encontrar-me com os amigos na rua ou nas atividades extra-escolares aumentaria minha dor. Era a certeza de que seria “corneteado” pelos torcedores adversários. 

Cúmplice do meu abatimento, Dona Ruth se antecipava a qualquer pedido de súplica para me ausentar dos compromissos externos e me propunha alguns convites irrecusáveis: “hoje o tempo não está muito bom, quer voltar pra cama?”; você não parece muito bem, será que está resfriado? Fica em casa hoje!”. Era a maneira dela dizer que entendia meu sofrimento e estava ali para me proteger. 

Dona Ruth não está mais por aqui para me consolar das derrotas gremistas. Não que hoje necessitasse desse afago. O tempo me ensinou a encarar as perdas de uma forma diferente, em especial no futebol. Mostrou-me que ganhar e perder é do jogo. O importante é aprender com os altos e baixos. Mas bem que ela poderia estar aqui com a gente, seria uma ótima maneira de passar este domingo e dizer a ela o quanto eu sempre a amei!

Avalanche Tricolor: felicidade é viver na sua companhia! 

Grêmio 2×0 CRB

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

A felicidade de Biel e Bitello em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Felicidade é viver na sua companhia 

Felicidade é estar contigo todo dia …”

Felicidade, Seu Jorge

Que Seu Jorge canta “Felicidade” pra mulher amada, eu sei muito bem. E tenho bons motivos para cantar com ele —- mesmo que meu canto desafine na primeira nota. Ao longo desta tarde, porém, a música ressoou na minha mente enquanto assistia ao Grêmio jogando com alegria — essa emoção escassa nos tempos atuais, que se fez rara diante da performance do nosso futebol, desde o ano passado. 

Felicidade, eu cantava baixinho vendo Bitello, Biel e Elias se movimentando com destreza, apesar do gramado ruim da Arena. Era o sentimento que me tomava diante da movimentação do meio de campo gremista que dominou o adversário e fez a bola chegar ao ataque com rapidez, aproveitando-se do avanço dos nossos laterais.

O gol de Elias, aos 13 do primeiro tempo, chegando forte dentro da área, pelo lado direito, foi a conclusão da velocidade e habilidade de Biel na esquerda, que forçou o erro do adversário e fez a bola alcançar Diego Souza. Nosso atacante, mesmo sendo assediado por quatro marcadores, com um toque de leve deixou Elias livre para marcar. 

Aos 39 minutos, nova jogada de Biel, que após driblar o marcador acionou Bitello deixando-o de frente para o gol. O guri mais avançado do meio de campo gremista bateu de fora da área com a perna esquerda colocando a bola —- como diziam os locutores antigos — lá onde dorme a coruja. 

Mesmo que mais gols não tenham sido marcados —- cá entre nós, aquela linha virtual do VAR é fake, não?!? —, a felicidade extrapolou os momentos de bola na rede. Esteve na primeira tentativa em que Biel, de letra, tentou o passe para Bitello. Esteve no passe de peito de Rodrigo Ferreira para Elias; no toque de bola rápido que deixou muitos dos nossos na cara do gol; esteve  até mesmo nos incríveis gols perdidos no segundo tempo, porque se os perdemos é porque os criamos aos montes. E isso me deixa feliz.

Mais feliz ainda por ver o nome do Grêmio no topo da tabela de classificação. Somos líderes sabe-se lá por quanto tempo. Pouco me importa. Quero mesmo é aproveitar a felicidade que o momento me oferece. Sou feliz hoje por viver na sua companhia, Liderança! E quero seguir feliz, estando contigo todo dia!

Em tempo: feliz já estava desde que ouvi Roger falar nesta semana sobre combate ao racismo. Você não tem ideia como tenho orgulho de torcer por um time treinado por um profissional que têm consciência social e sabedoria!

Avalanche Tricolor: Grêmio faz a lição “fora” de casa

Operario PR 0x1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Germano Krüger, Ponta Grossa PR

Elias comemora o gol da vitória, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

Estádio acanhado. Distante de oferecer o conforto das Arenas. Torcida motivada, quase no cangote dos jogadores. Adversário entusiasmado diante da #BatalhaDos110 — marca usada para comemorar o aniversário do time. Em campo, uma equipe aguerrida, disposta a manter a invencibilidade iniciada em outubro do ano passado e a conquistar a primeira vitória de sua história contra o Grêmio.

Começo essa Avalanche de forma inédita. Pelo outro. Pelo adversário. Pelo coadjuvante. E não pense que falo assim por desmerecimento. É que dedico esse espaço ao time do meu coração. O Grêmio é o protagonista. Mesmo que nem sempre o seja com a bola no pé, como aconteceu em boa parte do ano passado, a tal ponto que chegamos onde estamos. Por isso mesmo, aliás, iniciei essa Avalanche descrevendo o cenário que encontramos nesta quarta rodada do Brasileiro B. 

A situação de rival a ser batido, do grande a ser superado ou de deparar com estruturas nem sempre apropriadas para a partida, vai se repetir a cada rodada — ou na maioria delas. Na última vez que estivemos nessa condição, demoramos para aprender a lição antes de sermos protagonistas da nossa própria batalha, a dos Aflitos. Você talvez não lembre, mas só mudamos nossa história após sofrermos uma impressionante goleada. Neste ano, temi pelos primeiros resultados. Pensei que as dificuldades de adaptação para o tipo de jogo a ser jogado e de competição a ser disputada fossem se estender por mais tempo. 

Na noite desta quarta, em Ponta Grossa, interior do Paraná, o Grêmio deu sinais de que está ciente de seus limites e de como deve se comportar diante da situação a que se expôs ao não ser capaz de permanecer na primeira divisão. Mesmo com a escassez de jogadas de ataque, foi competente na marcação, dobrando em cima do adversário, encurtando espaço para o toque de bola e sendo firme nas divididas. Jogadores foram substituídos por exaustão —- provocada porque precisam fazer o dobro do que estavam acostumados. 

Não por acaso, Campaz, que seria um talento a ser preservado à frente, apareceu duas ou três vezes despachando a bola na defesa. E Rodrigo Ferreira, novidade na temporada, escalado para dar consistência lá atrás, foi quem proporcionou o primeiro chute de grande perigo a gol. Sem exagero, cito Benitez, que entrou já no segundo tempo. Meio-campo sempre lembrado pelo toque de bola e distribuição de jogo. Não se fez de rogado: apareceu três vezes desarmando com carrinho os adversários.

Depois de resistir ao empate no primeiro tempo, Roger armou a equipe para impor velocidade. E em dois lances, logo no início do segundo tempo, o Grêmio mostrou a que veio. Biel pela esquerda, soltou o drible e usou de agilidade para chegar na área. Na primeira jogada, colocou Diego Souza na cara do gol. Na segunda, deu assistência para Elias marcar o nosso gol. Nosso único e suficiente gol. Gol com o valor de goleada. Porque valeu os três pontos que precisávamos para botar o pé no grupo dos quatro mais bem classificados.

Sem querer me precipitar: tenho a impressão de que o Grêmio entendeu que está disputando o Brasileiro B. E esse é o primeiro passo para todo e qualquer time se livrar dela o mais cedo possível.

Avalanche Tricolor: Diego, O Grande!

Grêmio 3×1 Guarani

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

lDiego comemora o terceiro gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Aos 36 anos …”. É sempre assim que se iniciam as frases para enaltecer o maior goleador da Arena, como se a idade o definisse. Não é culpa de quem escreve. Somos assim mesmo. Não gostamos de sermos chamados de velhos — aplicamos botox, tomamos vitamínicos, tiramos as bolsas embaixo dos olhos e recolocamos fios de cabelo. Não aceitamos o passar dos anos.

Diego Souza não é grande pela idade que tem. O é pela forma como se reinventou no futebol. Em sua primeira passagem no Grêmio, jogava no meio de campo, mais avançado pela direita, o que já era metamorfose em relação a seus primeiros momentos de glória na carreira, quando fazia a função de volante, lá no Fluminense — um dos muitos times pelos quais passou e deixou marcas importantes —, quando foi convocado para a seleção brasileira sub-20.

Quando foi embora do Imortal, disse a um motorista de táxi, amigo de um grande amigo meu, que por ele teria ficado. E esperava um dia voltar. Foi Renato quem o trouxe de volta, em 2020, e propôs ao atacante, restringir sua área de atuação para ampliar seu potencial. Na mosca. Ou melhor, no alvo. 28 vezes no alvo. No ano seguinte, com todas as dificuldades sofridas pelo Grêmio marcou 24 vezes.

Os gols de cabeça, o ótimo posicionamento dentro da área e a sensibilidade para atalhar o caminho e chegar antes na bola não foram suficientes para superar a pecha de velho que lhe impuseram, a ponto de ter sido dispensado ao fim da temporada. Era preciso renovar, diziam os críticos, esquecendo-se de que a juventude não se mede pelo tempo de vida, e, sim, pelo espírito daquele que sabe se reinventar, inovar. 

Os deuses do futebol, que nos castigaram com um sarcasmo incompreensível no ano passado, decidiram então nos dar uma chance. E na dificuldade de se encontrar alguém capaz de substituir o centroavante que havia sido dispensado, foram buscá-lo de volta. E Ele aceitou!

Do Campeonato Gaúcho foi o melhor atacante. E foi autor do gol mais bonito. Foi Diego mais uma vez, sempre que conseguiu estar em campo. Neste Brasileiro, voltou apenas hoje, na terceira rodada, e em 60 minutos marcou os três gols — o três primeiros gols do Grêmio na competição — que nos deram a primeira vitória e o colocaram no topo da tabela de goleadores, mais um vez. Fez um com os pés, quando era marcado de cima pelo zagueiro, fez um de cabeça à distância —- que mais parecia um chute pela força e precisão — e fechou o placar subindo bem mais alto do que todos os seus marcadores.

E ainda há quem ache que Diego é grande porque tem 36 anos.

Avalanche Tricolor: “nos f…..”, mas tô feliz!

Grêmio 0x1 Chapecoense

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Mal havia estraçalhado um X gigantesco na mesa mambembe de uma lanchonete da Cidade Baixa, quando o rapaz vestindo o casaco da Torcida Jovem, evidentemente embriagado, olhou para nós, reconheceu as cores de nossas camisas e tascou em alto e constrangedor som: “nos fudemo (sic)“. Respondemos com uma gargalhada à sentença definitiva sobre o que havia acontecido horas antes no bairro do Humaitá.

Rir da desgraça própria, dizem, é sinal de inteligência. Ali, foi a reação possível pelo inusitado da fala e uma combinação estranha entre a má-digestão proporcionada pela derrota na estreia do Grêmio na Série B, diante de sua torcida, e a difícil digestão de um sanduíche turbinado de  coração, calabresa, bacon, ovo, queijo, maionese, ervilha e milho, que aqui, em Porto Alegre, costumamos chamar intimamente de X —- apesar de o queijo que dá origem ao neologismo ser apenas um imperceptível detalhe. 

A passagem do moço gremista, bêbado e desbocado, tanto quanto certeiro, foi rápida. Em segundos, ele já havia se voltado a outro interesse, enquanto nós ficamos à mesa lembrando alguns dos momentos vivenciados na Arena. Ao lado de meus filhos, sobrinho e irmão tive o prazer de voltar a um estádio de futebol e assistir, ao vivo, a um jogo do Grêmio. A despeito da performance de nosso time e da frustração do resultado, estar na Arena me fez um cara feliz, nessa sexta-feira. A presença no estádio move com minha memória afetiva, e me afasta de realidades que prefiro esquecer. 

Cresci em um estádio de futebol, no caso o Olímpico, que agora é apenas ruínas na vizinhança de onde escrevo essa Avalanche. Foi lá que forjei minha personalidade, aprendi a trabalhar em equipe, entender o valor de uma amizade, conviver com os diferentes, saborear as vitórias sem ser prepotente e tolerar as derrotas. Sentar-me ao lado das pessoas que amo para ver uma partida na “arquibancada” —- e as aspas se justificam porque hoje preferem dar nomes mais chiques para os espaços que os torcedores ocupam —  tem um significado que vai além do do jogo em si. Ainda bem, porque se minha alegria dependesse dos resultados alcançados até aqui, convenhamos, só me restaria dizer o mesmo que o torcedor anônimo que encontrei na lanchonete.

Avalanche Tricolor: a velha imagem na minha TV do quarto

Ponte Preta 0x0 Grêmio

Brasileiro – Moisés Lucarelli, Campinas/SP

O quarto que escolhi para assistir à estreia do Grêmio na série B era o mesmo da final de 2005. Está bem mais mobiliado e decorado, com espaços distribuídos para o vestir e o dormir, móveis bem acabados e feitos à medida. Antes era um vazio com uma cama de casal em uma ponta, um armário de roupa que quase não era capaz de acolher todas as vestes e, do outro lado, uma bancada simples de duas portas para sustentar a televisão de tubo — a que está pendurada na parede, atualmente, não traz as mais modernas funcionalidades nem apresenta-se com imagem de mega, ultra, super-qualidade, mas dá para o gasto.

Confesso que não fui parar no quarto por escolha própria. Foi a dinâmica da casa, no sábado à tarde, que  me fez deixar a sala onde costumo torcer pelo Grêmio — lá onde mantenho a cadeira do Olímpico  e as camisas de meus ídolos, que já foram assunto recente desta Avalanche. Porém, quando percebi que o espaço que ocupava era o mesmo em que assisti à “Batalha dos Aflitos”, entendi que poderia haver ali um sinal positivo, afinal, mesmo que por linhas tortas —- tivemos de contar com a incompetência do adversário, a destreza de Galatto e uma sorte inacreditável —, naquele ano nos tornamos campeões da Série B e fizemos história com um resultado aparentemente impossível, diante das circunstâncias.

Claro que os tempos são outros. O Grêmio mudou. Nós todos mudamos. Sou 17 anos mais maduro —- não que isso faça diferença quando eu esteja com o modo torcedor ativado. E os meninos, que acolheram o pai que chorava com o título de 2005, têm hoje vida própria. Dos dois, o mais velho foi quem se manteve ao meu lado nas partidas do Grêmio. Esteve comigo nesse sábado. E ficou bastante incomodado com o comentário que fiz pouco antes da cobrança de pênalti por Lucas Silva. Não que ele seja superticioso, mas parece ser adepto da máxima “no creo en brujas pero que las hay las hay”. Falei em voz alta: esse pênalti vai dizer muito do que será a Série B para o Grêmio, em 2022.

Minha sensação era que a chance de marcar um gol na metade do primeiro tempo, em partida que tínhamos superioridade técnica e contra uma equipe ainda abalada pelo rebaixamento no campeonato estadual, daria uma enorme tranquilidade na estreia do campeonato e começaríamos na ponta da tabela, mesmo jogando fora de casa. Ao mesmo tempo que desperdiçar aquela oportunidade seria a demonstração de que o destino está disposto a nos proporcionar mais uma saga forjada por sofrimento e dor. 

O que aconteceu na cobrança, o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, já deve saber a essa altura do campeonato — se não, basta olhar o placar no alto deste texto. Por sua vez, se minha premonição se confirmará, somente as próximas rodadas dirão. Por via das dúvidas, sexta-feira que vem já me programei: estarei na Arena para torcer pelo Grêmio. Quem sabe a imagem que verei, ao vivo, seja melhor do que a que passou na tela da minha velha televisão do quarto. 

Avalanche Tricolor: redivivo e pentacampeão!

Grêmio 2×1 Ypiranga

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Festa gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Puxei a cadeira azul claro, de ferro, relíquia original do saudoso Olímpico, pra frente da TV, pouco antes de a decisão dessa tarde de sábado se iniciar. Foi a maneira que encontrei de reviver as finais que me levavam ao estádio da Azenha, geralmente ao lado do pai. Hoje, substituo aquela companhia incrível com quem confidenciava minhas preocupações e ansiedades com a performance de nosso time pela dos filhos, especialmente a do mais velho, o Gregório. E talvez pela presença deles — e dele —, tenho, também, muito mais pudor em revelar meu sentimento e entusiasmo, por juvenil que costumam parecer.

Não foram apenas o estádio e o meu decoro que mudaram. Naqueles tempos de Olímpico, às decisões eram reservadas o domingo, dia santo, sagrado e de festa para algumas culturas e religiões. Dia de futebol para todos os brasileiros — hoje não mais. As finais eram um privilégio dos dois grandes de Porto Alegre, com as exceções de praxe. Atualmente, os times do interior se mostram presentes e tem beliscado a taça com muito mais frequência. Haja vista que os cinco títulos seguidos conquistados pelo Grêmio foram disputados contra quatro times diferentes.

Tudo é muito diferente se comparar com o que vivenciei no passado, quando levantar o troféu de campeão Gaúcho era a maior das vitórias almejadas. Desde lá, sonhamos mais alto, ganhamos o Brasil, estendemos nossas fronteiras ao continente e alcançamos o topo do Mundo.

Nessas reviravoltas da vida da bola, cá estávamos nós, mais um vez, depositando todas nossas fichas nessa competição — e assistir à decisão sentado em um cadeira do Olímpico, mesmo que em frente a televisão, fez do sábado um “domingo de final”.

Redivivos no gramado estavam Everaldo, Babá, Alcindo e Joãozinho. Havia Anchieta, Tarcísio, Iura e Loivo. Não faltaram Bonamigo, Cristovão, Cuca e Valdo. Nem Danrlei, Adilson, Paulo Nunes e Jardel. Todos craques que de alguma maneira ficaram na minha memória. E na história do Grêmio.

Redivivo na cadeira do Olímpico estava eu, o guri que forjou sua personalidade nas dependências do velho estádio, apreciando o sabor de uma conquista estadual.

Redivivo, na Arena, neste sábado, estava Roger que entrou para o seleto grupo de gremistas que conquistaram o título gaúcho como jogador e técnico, completando um ciclo que havia sido interrompido em 2016 quando desperdiçou o direito de ser campeão no comando do time com uma derrota na semifinal.

Redivivo estava o Grêmio, de Geromel, que, após o revés de 2021 e os tropeços no início de 2022, volta a ser campeão. Penta Campeão!

Avalanche Tricolor: marca alto, marca forte e marca gol!

Ypiranga 0x1 Grêmio

Gaúcho — Colosso da Lagoa, Erechim/RS

Lucas Silva comemora o gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Parafraseando locutores de futebol de televisão que descrevem o momento em que a torcida está mais empolgada com um “canta alto e canta forte” —- acho que o autor do jargão é o Luiz Carlos Júnior, da SporTV —. o time do Grêmio, montado por Roger, “marca forte e marca alto”. É isso que faz toda a diferença no sistema defensivo, e jamais retranqueiro, que o treinador conseguiu montar em pouco mais de um mês de trabalho.

O adversário ter mais de 60% de bola em todo o jogo, significa muito pouco para Roger. Ele sabe que sua equipe está posicionada para dar o bote lá na frente, e com poucos toques e velocidade chegar com perigo, como aconteceu em todo o primeiro tempo da partida de sábado à tarde, pela semifinal do Gaúcho.

Caso a bola não seja roubada ainda antes de passar o meio de campo, o time recua fechando os espaços de tal maneira que ao adversário cabe a troca de passes entre os seus defensores na esperança de que aparecerá alguém livre na intermediária para dar sequência à jogada. Mesmo quando esse movimento tem sucesso, ainda será necessário superar a última linha da nossa defesa que se antecipa bem, dobra marcação e, em último caso, ainda tem Geromel para resolver. 

O lance que culminou no malabarismo estético em cima de Diogo Barbosa, ainda no primeiro tempo, ilustra bem o que digo —- por mais lindo que tenha sido, assim que o drible se completou já havia Villasanti na cobertura para impedir a sequência e o perigo ao nosso gol.

É isso que surpreende os analistas de futebol e os críticos (não os da crônica esportiva, mas esses que tem prazer em falar mal do próprio time em rede social). É difícil de entender como a equipe tem tão pouco a bola nos pés e chuta tanto a gol, como no primeiro tempo, em que por duas vezes o poste ou o travessão foram seu destino.

Quando o esquema parecia perder força —  e estava —-, Roger fez mudanças que deixaram a turma eriçada e cheia de argumentos para provar o acerto das críticas que fazem ao time, ao técnico, a diretoria, a Arena e ao raio que os parta. Tirou Campaz e Elias, dois dos melhores em campo, para colocar Janderson e Gabriel Silva. “Que absurdo!”.

Roger estava apenas recompondo seu esquema, porque os dois por melhores que tenham sido, tiveram desgaste físico acima do normal que os impedia de fechar os espaço quando necessário — espaço que se traduzia em ameaça ao nosso gol. Mais adiante, ainda entraram Churín e Vini Paulista em lugar de Diego Souza e Bitello — outro gigante no meio de campo.  “Tá louco!”.

Por curioso e não por coincidência, assim que fez a primeira mudança, o Grêmio voltou à partida, roubou a bola, saiu no contra-ataque com Janderson pela direita, que cruzou em direção ao gol para a chegada de Gabriel Silva, que por pouco não abriu o placar. Da mesma forma, diminuiu o risco lá atrás, onde ao adversário cabia apenas arriscar de fora da área.

O gol aos 43 minutos, começa com Janderson na intermediária, que abre para Lucas Silva, que se desloca por trás dos marcadores para receber na ponta direita. De primeira e para o centro da área, nosso volante —- escolhido o Homem do Jogo — cruza. Vini Paulista deixa a bola passar e Churín é derrubado quando tentava concluir a gol. Gabriel Silva também já fechava em direção ao gol. 

Lucas Silva cobrou muito bem. O Grêmio manteve 100% de aproveitamento em cobranças de pênalti —- o que é um fato a ser comemorado, especialmente depois daquela sequência de desperdícios no fim do ano passado. E leva uma vantagem importante para a final na Arena, sábado que vem, especialmente porque está diante de um adversário que precisa ser respeitado. 

Roger sabe o que faz. Sabe com quem pode contar. E quando pode contar com cada um deles. Em pouco tempo, fez-se entender pelo elenco —- como o próprio Lucas Silva disse ao fim da partida  —, montou um time que “marca alto e marca forte” e está prestes a levar o Grêmio ao pentacampeonato, o que, certamente, fará a torcida, cantar alto e cantar forte — menos aqueles que preferem desperdiçar suas energias falando mal do time pelo qual deveriam estar torcendo. Que se danem!