Avalanche Tricolor: porque foi assim que aprendi a ti gostar

Flamengo 2×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou gremista, não por agora. Sou gremista de nascença. Quem já conversou comigo, leu minhas palavras ou ouviu minhas conversas sabe muito sobre isso. E se começo a Avalanche reforçando essa ideia é porque muitos devem imaginar que momentos como esse que estamos enfrentando são suficientes para nos afastar daquilo que aprendemos a gostar. Quem viveu o que vivemos, não esmorece. Não se micha como dizem lá pelas nossas bandas. 

Na noite de ontem, mesmo diante do desastre da primeira partida, do time alternativo levado a campo, das carências de qualidade e talento, do poder financeiro e político do adversário —- que teve o privilégio de levar torcedores para o estádio e esfregar na nossa cara, sem máscara, o desrespeito aos quase 590 mil mortos por Covid-19  — , lá estava eu na torcida mais uma vez. Porque é assim que nos tornamos gremistas. Acreditando sempre, mesmo que não haja por que acreditar.

Posso lhe garantir, já foi pior. Muito pior. E se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, for gremista como eu, sabe do que estou falando. Hoje, sofremos mais porque ficamos mal acostumados com a performance, resultados e títulos dos últimos anos. Tivemos um time de excelência e de futebol exuberante poucas temporadas atrás. E quando olhamos em campo, ainda vemos alguns resquícios desse passado recente: alguns cambaleando e outros apenas como um desenho mal esboçado do que foram. Tem até mesmo talentos em potencial, que não conseguem se expressar.

Nada disso … nem a bola mal tratada, nem a gestão mal acabada, nem as derrotas acumuladas, … nada disso me demove do desejo de torcer pelo meu Grêmio. De acreditar no meu Grêmio. De sofrer desta paixão. Por isso, a despeito do que esteja acontecendo, do que aconteceu na noite desta quarta e do que acontecerá em seguida, cá estou a ratificar este amor e a desejar-lhe um feliz aniversário, Grêmio!

Avalanche Tricolor: na vida e na competição

Grêmio 2×0 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar”

Com Titãs na cabeça. E a angústia no coração. Assim tenho levado meus domingos adiante. No divã virtual da terapia, retomada na  pandemia, tento descobrir a saída para a dor que me toma o domingo. De nada adianta saber a causa, se desconheço o remédio. E sem analgésico, lá se vai mais um dia. Busco no futebol a distração para essas horas. Desta vez, quis o calendário me dar um alento logo cedo. Quando a bola começou a rolar, a erva do chimarrão ainda queimava na água quente — e olha que a levo para a fervura quando ainda está no alvorecer. 

Tenho sido reticente quanto ao que podemos fazer. Quase que negando tudo aquilo que forjei nesse tempo que me dedico a torcer. Não sei se uso dessa artimanha para forjar uma blindagem no coração sempre a espera de uma decepção. Nem sei se assim estou apenas desperdiçando os instantes em que a vida tem alegria para me oferecer e com esse comportamento eu não faço por merecer. 

Sei que é assim que a banda toca e o jogo se joga. Quando o adversário nos pressiona, prevejo que o pior vai acontecer: ou desvio no zagueiro ou vacilo do goleiro ou juiz no exagero. Se chegamos no ataque, olho só de revesgueio, porque já antecipo que daquele lance quando muito sai um escanteio. 

Foi então que o destino resolveu me fazer um agrado. 

Ainda no primeiro tempo, como se disposto estivesse de calar meu ceticismo, protagonizou através de Rafinha um passe profundo para Alisson, que em cruzamento colocou Diego Souza em condições de cabecear para as redes. E se dúvida ainda houvesse quanto a lição que o destino pretendia me dar, neste domingo, não me deixou esmorecer mesmo após sofrer com o risco de assistir ao gol de empate. Operou mais um lance vitorioso. Dessa vez pela direita, com Vanderson cruzando alto o suficiente para Diego Souza —- sempre ele —- raspar a cabeça na bola e dar a Ferreirinha o direto à redenção. Ele que sofreu de Covid, de lesão e de indecisão, bateu forte para confirmar a vitória.

No apito final, somamos três pontos importantes diante da sofrência desta temporada. Uma vitória que confirma a esperança de torcedores e comentaristas de que este será o returno da retomada. Fiquei feliz com o resultado — claro que sim. Sem nenhuma ilusão, sempre com medo da frustração. E na expectativa de que ainda vai aparecer uma solução. Na vida e na competição.

Avalanche Tricolor: minha cadeira azul

Grêmio 0x4 Flamengo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Minha cadeira azul fica ali ao lado da tela da televisão, onde assisto a todos os jogos de meu time. É o lugar que encontrei para jamais esquecer o Grêmio que já fomos. O metal frio do assento ondulado e do encosto curvado teve sua cor recuperada; o número que a identificava no anel superior do Olímpico Monumental, também: J-104 aparece na cor branca sobre o fundo preto. Quando a recebi de presente —- generosidade de meu irmão, Christian —- logo pensei nos milhares de torcedores que a usaram ao longo de sua vida útil no saudoso estádio. Quem sabe até eu tenha sentado nela em um domingo qualquer de futebol. 

Foi em cadeiras azuis como essa que forjei minha paixão pelo Grêmio. E você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem ideia de como ela  moldou minha personalidade e meu caráter. De quantas vezes saltei sobre ela com os dois pés para comemorar o gol impossível e a virada improvável. De quantas vezes, me ajoelhei diante dela para não ver o desastre que se avizinhava. De quantas vezes, escondi minha cabeça sobre o assento para que meus colegas não me vissem chorando a derrota sofrida.

Foi em uma dessas cadeiras azuis e de ferro frio que suportei anos a fio sem um título estadual. Foi nela que, ao lado de meu pai, vibrei como nunca com o gol de André Catimba, naquele Gre-Nal histórico de 1977. Dela presenciei a conquista da América na batalha final contra o Peñarol. Foram elas, as centenas e centenas de cadeiras que ornavam de azul o setor das cativas do velho estádio, que me uniram a amigos, serviram de assento para conversas animadas e aninharam alguns amores platônicos que minha timidez impedia de revelar àquelas torcedoras que vestiam a camisa tricolor. 

Hoje, foi para a cadeira azul, ao lado da televisão, que olhei, ao fim da partida. Em silêncio, enquanto absorvia o que acabara de acontecer no gramado de Humaitá, perguntava a ela onde está o meu Grêmio, aquele que não temia qualquer adversário por mais forte que fosse; que mesmo quando o futebol não se expressava pela qualidade, se superava na força e na coragem? O que aconteceu com a nossa Imortalidade, que um dia nos permitiu ascender de divisão com apenas sete jogadores em campo? Que já nos fez virar placares de forma inimagináveis? Que me fez ter orgulho de meu time mesmo em momentos de derrota?

Com a frieza típica do ferro, que se tornava mais penetrante ainda quando exposto ao inverno do Rio Grande do Sul, a cadeira azul nada me disse. Porque nada há para dizer em um momento como esse. E o melhor que ela pode fazer é ficar ali, parada, servindo-me como uma memória do que fomos, lembrando-me que, a despeito de já termos passado por momentos dramáticos, encontramos forças para nos recuperar. E soubemos reescrever a história.

Avalanche Tricolor: comemorando diante da imprevisibilidade do futebol e da vida

Grêmio 2×0 Bahia

Brasileiro – Arena Grêmio

Diego Souza e Lucas Silva em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Publico o mais rápido que posso essa Avalanche. Porque há instantes na vida que não se desperdiça. Aproveita-se cada segundo. Cada frame. Especialmente nestes tempos em que o relógio não avança e o ano marca passo diante de tantas dificuldades e sofrimentos. Sei que essa frase serve tanto para o que todos estamos experimentando desde o início de 2020 quanto para o que os gremistas estamos vivenciando em 2021. Como esse espaço é dedicado as minhas angústias e alegrias futebolísticas, é evidente que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, sabe que a frase se refere ao que tem acontecido lá pelos lados de Humaitá.

Hoje, alcançamos pela primeira vez a segunda vitória consecutiva no Campeonato Brasileiro. A primeira por diferença de mais de um gol e a quarta desde que a competição se iniciou, há 16 rodadas (nós temos um jogo atrasado ainda). Sabe-se lá quando isso se repetirá novamente. Então, comemoremos com a mesma alegria que nossos dois centroavantes festejaram os gols marcados.

Borja, ops, São Borja concluiu uma só jogada em gol em toda a partida. E dentro do gol. De cabeça. Em um cruzamento do outro lado da área, em que ele soube se posicionar por trás do zagueiro e saltar mais alto do que qualquer marcador para concluir nas redes. É o terceiro gol em quatro partidas em que vestiu a camisa do Grêmio.

O goleador gremista no Brasileiro foi substituído nos minutos finais pelo goleador gremista na temporada, Diego Souza, que depois de sofrer com a Covid, por duas vezes, voltar com claras dificuldades físicas, ainda teve lesão que o afastou por bom tempo do elenco. Em poucos minutos, Diego mostrou sua força. Na primeira, a bola lhe escapou do pé diante do goleiro. Na segunda, ele lutou por ela, desbravou o campo recheado de marcadores e com a determinação de quem sabe que precisa brigar pela posição — aos trancos e barrancos —- venceu na força todos seus adversário e concluiu nas redes.

Dentre tantas raridades desta noite de sábado, preciso registrar a performance de Lucas Silva, um leão na frente da área, que fez uma das suas melhores partidas desde que chegou ao Grêmio. E a intensidade do jogo de Douglas Costa que ensaiou dribles, colocou os companheiros em condições de chutar, brigou pela bola e lutou o quanto pode pela camisa que fez questão de vestir.

Paro por aqui meu relato e o publico o mais breve que posso para aproveitar este momento de ascensão no campeonato, a despeito de ainda estar naquela-zona-que-não-pode-ser-nomeada. 

E se lá no começo disse que aquela frase sobre o tempo difícil que vivemos se referia ao futebol gremista, fecho esta nossa conversa lembrando que a lição que pratico hoje no futebol —- celebrar o momento, mesmo que fugaz — deve ser aplicada na vida. É o que tenho feito em família, ao lado de quem amo e respeito, porque nunca sabemos quando isso pode acabar. Se o futebol é imprevisível. A vida, ainda mais.

Avalanche Tricolor: a melhor pior vitória de nossas vidas

Cuiabá 0x1 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Pensei que eram meus olhos. Mas o olhar mais jovem de meu filho —- companheiro de todas as batalhas tricolores — confirmou o que eu via: uma imagem sem foco nem definição. As câmeras que captavam a imagem da partida do Grêmio nesta noite de quarta-feira eram de quinta. O corte das cenas também não ajudava muito. Fechava no jogador que estava na bola e nos deixava sem entender o que acontecia no campo. Abria para dar a dimensão do jogo e pouco aparecia —- apesar de que parte da responsabilidade era do próprio jogo. Os lances reproduzidos nem sempre reproduziam o que merecia ser revisto. Ou mostravam uma jogada depois ou mostravam jogada nenhuma. Novo close no jogador, mas não havia sido ele o protagonista da jogada.

O gramado também não ajudava muito. Quem resolvesse dar chutão, escorregava. Quem corria para marcar, era punido com o tornozelo torcido. Quem se esforçava para alcançar a bola, pagava caro com o músculo estendido. Não que a qualidade do passe tenha sido prejudicada pelo estado da grama de um estádio castigado pela incompetência de seus gestores e pelo clima. Aliás, esse também não ajudou muito, porque jogar bola a 36 graus em plena noite e com o bafo sufocando o pulmão é insalubre.

Pelo que percebi o passe não fluiu devido ao gramado mas porque faltou talento a quem passava, com as exceções de sempre. E Maicon é uma dessas exceções no futebol. Pena que o corpo não é mais capaz de dar a ele as condições para que seu talento siga seu curso. A despeito das limitações físicas, o pouco tempo que pode dedicar em campo foi suficiente para oferecer um passe preciso a Alisson que escapou por trás do adversário e só não concluiu a gol porque foi derrubado dentro da área. Falta que só foi punida minutos depois por um árbitro que estava a altura do jogo jogado pelas duas equipes: inseguro, impreciso e demorado. 

Foi o pênalti, marcado com irritante e incompreensível atraso, que nos permitiu assistir a um dos poucos lances de qualidade na partida. Borja cobrou a penalidade máxima com precisão e talento, sem dar qualquer chance de o goleiro alcançar a bola. Nosso novo atacante, aliás, tem se mostrado qualificado nessas cobranças. Foi assim no primeiro gol que marcou, em sua estreia. Foi assim nesta noite de futebol sofrido em Cuiabá. São Borja!

Câmera ruim, gramado péssimo, árbitro despreparado e futebol inqualificável. Perdoe-me, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a despeito de tudo isso, adorei a vitória gremista nesta noite. Foi, sem dúvida, a maior pior vitória que já conquistamos nessas últimas temporadas.

Avalanche Tricolor: a difícil missão de Vanderson

São Paulo 2×1 Grêmio

Brasileiro — Morumbi, São Paulo/SP

Vanderson em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Ver Vanderson jogar é um prazer, daqueles que duvidamos que vá durar muito tempo entre nós — assim como Ruan, que faz hora extra com a camisa do Grêmio, só no aguardo de ir embora para nova casa, no fim do ano. Nosso lateral direito —- por que não nasceu esquerdo? —- faz diferença em campo com passadas largas, dribles arriscados, e chegadas na linha de fundo e dentro da área. Sempre ouvi falar que era bom batedor de falta. Havia arriscado uma ou outra em partidas anteriores. Na noite desse sábado, mostrou até onde vai sua fama: no limite do travessão e do gol, com um misto de força e colocação raro no futebol brasileiro. 

Com apenas 20 anos, Vanderson desbancou Rafinha, que chegou com a pompa conquistada na Europa e as circunstâncias consolidadas na sequência de títulos que ganhou nos últimos dois anos, aqui no Brasil. Chegou a se duvidar que houvesse técnico com coragem de fazer essa escolha pelo jovem. Scolari, fez. Por que sabe que não tem mais tempo para inventar ou ceder a caprichos e forças políticas. Vanderson é a solução lá pelo lado direito. O problema é o resto.

Lá onde nasceu Vanderson, tem pouco mais de 236 mil moradores. Rondonópolis é cidade bem localizada no Mato Grosso. É por onde escoa boa parte da safra brasileira que desce pelas estradas em direção aos centros metropolitanos e aos portos. Foi por uma delas, que o garoto, ainda com 16 anos, deixou a cidade, onde jogava como meio de campo pelo União Rondonópolis, e seguiu para Americana, interior de São Paulo. Por curioso, se destacou em partida que o Rio Branco, clube que ainda detém parte de seus direitos, foi goleado. E o que chamou atenção dos olheiros gremistas foi o fato de saber unir talento e garra, pois mesmo diante dos gols adversários não desistia de lutar.

Torço por Vanderson e desejo que tenha mais sorte na carreira para deixar de ser apenas o sobrevivente entre os derrotados. Ele merece jogar com vencedores e terá a missão de contagiar o restante do grupo que se vê em situação crítica, após 14 jogos no Campeonato Brasileiro.

Em tempo e para que fique registrado: apesar dos pesares, olhei a tabela, fiz as contas, observei nossa história, ergui os olhos para a imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, de quem Scolari é devoto, e conclui que, na primeira rodada do segundo turno estaremos fora da zona de “você-sabe-onde”. 

Avalanche Tricolor: Borja, não. São Borja!

Grêmio 2×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Na mesa de escritório, diante da qual sento para escrever esta Avalanche —- de onde, desde o início da pandemia, aliás, realizo todas as minhas atividades —-, misturado em meio a computadores, traquitanas eletrônicas, microfone, máscaras e papeis com anotações, está a imagem de Padre Reus. Era a mesma que o pai mantinha apertada em um das mãos, quando assistia aos jogos do Grêmio. Nela, buscava a fé que o manteve crente de que dias melhores sempre poderiam vir. 

Reus era alemão, nascido na Baviera, filho de João e Ana Margarida. Ingressou na Companhia de Jesus, quando já estava na Holanda, e após completar sua formação jesuíta, foi enviado para o Brasil. Sua jornada se iniciou em Rio Grande, foi professor de teologia em Porto Alegre, e seguiu sua obra em São Leopoldo, onde, aos 79 anos, morreu e teve o corpo sepultado. Seu túmulo, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, recebe visitantes de todo o país, que rezam e buscam a intercessão de Padre Reus para as graças pedidas. 

O pai nunca se acanhou, como devoto que era, em clamar pela ajuda de Padre  Reus, sempre que a coisa apertava para o nosso lado. Seus pedidos ao santo que ainda não é santo faziam sentido. Padre Reus, que tinha como lema “amar e sofrer”, dizia querer ser “vítima de amor”. E isso o pai sempre foi em relação ao nosso time. Eu também. Mas você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe bem da minha boa intenção em jamais misturar futebol e religião, por mais que possamos encontrar vários aspectos em comum.  Ao contrário do pai, prefiro deixar a imagem do Padre sobre a mesa de trabalho — imagino ter mais serventia.

Na hora do desespero — e o despertador sinaliza que esse momento já chegou —-, recorro aos salvadores aqui da terra. Alguns santos. Outros nem tanto. Na noite desta segunda-feira, quando tudo parecia que desmoronaria nos primeiros minutos de jogo —- tomamos um gol e fomos salvos do segundo por Chapecó —-, a intervenção divina do futebol se realizou. A princípio com um chute improvável de Alisson que encontrou um espaço que não havia entre o goleiro adversário e a trave. Em seguida, quando o estreante Borja, depois de ter sido agarrado dentro da área, converteu o pênalti, com a personalidade dos goleadores.

Nosso recém-chegado atacante já havia mostrado suas credenciais em dois cruzamentos que recebeu na área. E foi o jogador que mais conclui a gol na partida. Alguém poderá dizer que foi sorte de estreante. Ele próprio levantou essa hipótese quando lembrou que costuma marcar nas suas estreias. Independentemente do que venha a acontecer, o colombiano já demonstrou fome de gol e nos salvou logo no primeiro jogo em que vestiu a camisa do Imortal. Portanto, não me faço de rogado: Borja, não. São Borja!

Que deus (o do futebol) nos ajude.

Avalanche Tricolor: e a vida depois do túnel?

Grêmio 1 x 0 Vitória

Copa do Brasil —- Arena Grêmio, Porto Alegre

*este não é um texto sobre futebol

Jean Pyerre em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A  bola mal havia começado a rolar na Arena, e eu ainda tinha compromissos profissionais a cumprir. Online como têm sido todos os que realizo desde o ano passado. Alinhei a tela de dois computadores e mantive um olho no futebol e o outro na mesa redonda. Aliás, uma mesa bem interessante de debate —- bem mais do que o jogo que estava sendo jogado.

Debate rico, pelo tema e pelos convidados. Na série “Paisagens na pandemia”, Jaime Troiano, colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, era o técnico, escalou o time e nos botou a jogar: a Cecília Russo, pelo lado da psicologia; o Emerson Bento, da educação; e o Fernando Jucá, das organizações. Fosse vôlei, eu era o levantador. Como a analogia é com o futebol, sem o talento de Jean Pyerre, mas suando a camisa muito mais do que ele, minha função era distribuir o jogo. Fazer perguntas. Provocar a discussão, no bom sentido.

O jogo que nós estávamos jogando tinha três tempos e nós entramos no terceiro. “Religião e o desamparo humano” pautou o  primeiro capítulo da série, “Casa e família: um reencontro”, o segundo; e a nós ou aos meus companheiros de mesa redonda, coube responder a seguinte pergunta:  “E a vida depois do túnel?”.

Muito mais pela experiência de cada um do que pelas assistências que fiz, Cecília, Emerson e Jucá bateram um bolão, jogaram com  as palavras, fizeram embaixadinhas com o conhecimento e deixaram, cada um do seu jeito, um golaço registrado no placar.

A preleção foi do Jaime que, em lugar de fazer essa pobre analogia com o futebol, nos proporcionou uma viagem ao litoral paulista, em caminho que fazia quando criança, no banco de trás do carro, e para passar o tempo contava quantos túneis havia na estrada. Nunca tinha certeza se haveria, na jornada,  um outro túnel —- alguns intermináveis para ansiedade infantil , como acontece com a gente diante desta pandemia. Lembremos que não é o primeiro túnel que enfrentamos, apesar de ser o mais longo de nossas vidas. Talvez não seja o último, e Jaime chamou atenção para isso e nos propôs pensarmos que lições aprendemos para usarmos assim que este acabar e, quem sabe, um próximo túnel se apresentar.

Cecília aproveitou-se do título de um dos seus livros, “Vida de equilibrista: dores e delícias das mães que trabalham”, para, em vez de dar uma resposta definitiva, apresentar outra pergunta provocativa: 

“Sairemos do túnel com uma prática mais equilibrada da divisão de papéis entre gêneros?”. 

A persistirem os sintomas, não. Mesmo que possamos encontrar casos simbólicos em que homens, tendo de trabalhar em casa, perceberam a necessidade de assumirem uma série de tarefas que antes eram realizadas apenas pela “mulher da casa”, pesquisa do Ibope realizada, neste ano, escancara a realidade doméstica. Ao perguntar para o casal quem organizava determinadas tarefas, o instituto identificou que, de 13 atividades descritas, em apenas duas os homens apareceram como os principais responsáveis: tirar o lixo (53%) e fazer o que precisa de manutenção na casa (69%). Cuidar dos filhos (88%), dos idosos (79%) e dos animais de estimação (59%), preparar a refeição (87%), limpar (87%) e lavar (77%), ficaram por conta das mulheres.

Emerson tem a vivência de mais de 20 anos como executivo de um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, o Bandeirantes. Pegou o gancho da Cecília para lembrar que homens e mulheres, pais e mães, tiveram um choque de realidade ao serem obrigados a ficar em casa com seus filhos e acompanharem o ensino à distância. A começar pelo fato de que, na avaliação dele, muitos dos adultos usavam a escola como uma espécie de depósito de corpos, onde  deixavam os filhos armazenados em um período do dia para poderem fazer suas atividades. Houve casos em que tentou-se repetir essa estratégia, querendo que as crianças cumprissem seu horário de expediente diante do computador, com a escola reproduzindo a grade das aulas presenciais —- não deu certo, é claro. Professores e alunos foram muito mais flexíveis nas tomadas de decisões e conseguiram se adaptar bem melhor do que os pais àquela nova situação. Para Emerson, a experiência do ensino à distância e a expansão do uso da tecnologia serão suportes para o projeto pedagógico a ser realizado assim que sairmos do túnel. No entanto, ‘vai rodar’ quem não investir nas relações socioemocionais: 

“Quando sairmos do túnel, a tecnologia sustentará uma educação mais humana para os humanos”

Emerson

Pensava cá com meus botões analógicos, se seguirmos enxergando a escola como este ‘depósito de corpos’ e terceirizando a educação dos nossos filhos, que seres humanos estaremos preparando para o futuro —- que para alguns está logo ali, na saída do túnel? Nem bem tinha absorvido essa reflexão, o Jucá entrou na jogada. Pegou a bola, colocou embaixo do braço e pediu um tempo, esse produto raro no ambiente organizacional: 

“O ambiente corporativo hoje é uma máquina de fazer loucos ou um espaço fértil para nosso desenvolvimento pessoal?”

Fernando Jucá

A pergunta abriu caminho para ele contar histórias corporativas que ilustravam luz e sombra no mundo do trabalho. Dramas de pessoas que se perderam entre o “home” e o “office” quando os dois cenários se misturaram; de gente que sem ter o “olhar do dono” no cangote do escritório, tentou mostrar produtividade trabalhando muito além da conta; mas também de gestores que perceberam que as relações humanas deveriam prevalecer, a partir do desenvolvimento de uma prática até então pouco comum: a escuta ativa. Ouvir o que outro tem a dizer, auscultar sua alma e compartilhar os sentimentos — tudo aquilo que não aprendemos em anos de ensino superior, cursos de extensão, mestrados e doutorados. Boa lição desta tragédia que vivemos em sociedade.

Como era de se esperar, na conversa que durou hora e meia não se ofereceu uma resposta definitiva. Nem mesmo que tivessem acréscimos, prorrogação, cobrança de penaltis ou jogo de volta, esta reposta seria definitiva. Porque ela não existe. A começar pelo fato de que a pandemia mais do que transformar pessoas, expressou o que as pessoas têm, pensam e são, para o bem e para o mal. Ou seja, o túnel não tem uma só saída. Existem várias. Caberá a cada um de nós fazermos a escolha certa.

E aí, concluo eu, coisa que aliás não consegui fazer enquanto estava embevecido com a fala dos meus colegas: a nós cabe criarmos na família, na escola e no trabalho ambientes eticamente saudáveis porque assim, quando aqueles que estão ao nosso entorno tiverem de decidir qual caminho seguir no fim do túnel terão a oportunidade de fazerem escolhas mais qualificadas.

E quanto ao jogo? Bem, primeiro disse que esta coluna, apesar de vir sob o selo de Avalanche, não seria sobre futebol; segundo, que a vitória mirrada de um a zero contra um time que jogou metade do tempo com um a menos, não me estimulou a qualquer texto; terceiro, confesso, com cinco minutos de bola rolando no nosso debate até esqueci de olhar para a tela em que o Grêmio estava jogando. Lendo alguns comentários esportivos quero crer que ainda termos um longo túnel a percorrer.

Avalanche Tricolor: bons motivos para comemorar

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro – Bragança Paulista, SP

Geromel Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Voltar a perder e passar mais um fim de semana dormindo na zona de rebaixamento evidentemente não justifica o título que precede esta Avalanche. Mesmo que espremendo o olho como faz o míope que insiste em não usar óculos e forçando a vista para enxergar melhorar aqui e acolá, o resultado foi mais uma vez péssimo, além de vir acompanhado daquilo que costumo chamar de “sorte de perdedor” —- se é para dar uma coisa errada, fique tranquilo, é aquela coisa que vai errar.

Resignado com os fatos em campo e chuleando para que o destino nos reserve alguma surpresa em breve, confesso, não fui dormir de cabeça quente, como dizem por aí quando o time da gente tem pouco a nos oferecer. Antes mesmo de a noite de sábado se encerrar, já estava diante da televisão mais uma vez e torcendo pelos brasileiros na Olimpíada.

A festa começou nas braçadas rápidas de Bruno Fratus, e sua medalha de bronze nos 50 metros livre da natação. Que alegria, que sorriso, que vibração … e que beijo mais gostoso aquele que deu e recebeu da Michelle. Sem contar o tipo “sincerão” nas entrevistas, que se já incomodou, também já fez rir e nos fez sentir o quanto foi significativa a vitória na piscina.

A balada se estendeu pela madrugada —- na batida do funk carioca e do soul brasileiro —, sob a maestria do DJ do torneio de vôlei olímpico. E haja repertório para sonorizar uma partida sem fim com a que deu mais uma vitória ao time masculino do Brasil. Tão inacabável quanto incrível. Mesmo que a classificação já estivesse garantida, quem quer perder um só ponto desta seleção vitoriosa? 

Rebeca Andrade Crédito: Miriam Jeske/COB

Fez frio durante todo o fim de semana e quando acordei ali pelas 4 e meia da manhã, os termômetros marcavam qualquer coisa que beirasse o insuportável, aqui em São Paulo. Um café quente e a tela do computador sintonizada nos canais olímpicos rapidinho esquentaram o início deste domingo. Antes mesmo de o céu clarear, a festa da noite e madrugada estava de volta nas corridas, saltos e corrupios de Rebeca Andrade. Que menina é esse, heim !?! Com 22 anos ainda tem jeito de guria da escola e fala marcada pela humildade, mesmo diante do feito gigante que nos proporcionou ao conquistar a medalha de ouro, na final individual do salto.

Se já havia nos feito chorar prata, agora as lágrimas foram de ouro. Enquanto me debulhava diante do computador, ela abraçava e era abraçada pelo técnico e adversárias com a serenidade de quem tinha cumprido o ritual que lhe foi destinado nos esportes: treinar, sofrer, doer, correr, saltar, girar e aterrisar para a glória olímpica. Uma maturidade para competir que contrasta com seu ar infantil e bem distante da deste torcedor veterano e atleta frustrado de múltiplos esportes.

Ah, por falar em veterano. O restante do domingo, mesmo com o sono dos maldormidos, foi de curtir a alegria de saber que tenho amigos que ainda insistem em me manterem como amigo. Uma gente querida que durante todo o dia, por telefone, presentes, mensagens e redes sociais me enviou generosos e imerecidos parabéns por ter completado 58 anos de vida. Ao lado da família — apenas o núcleo mais duro da casa, porque somos adeptos ao não-aglomerar —-, comemorei a passagem do mais difícil de todos os anos de vida, seja por  motivos que você, caro e raro leitor deste blog, tem vivenciado, também, seja pelos demônios que seguem com assento cativo no cérebro de cada um de nós.

Sou muito grato por todos que me fortaleceram mais um pouco, neste fim de semana, em que encontrei muitos bons motivos para comemorar. Agradeço a Deus por este dia.

E, como dizem os repórter descuidados com os lugares-comuns, a festa não tem hora para acabar, porque amanhã, 5h45 da manhã, tem Baile Na Favela, em Tóquio.

Avalanche Tricolor: ‘obrigado, obrigado’ !

Vitória 0x3 Grêmio

Copa do Brasil – Barradão, Salvador/BA

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Era o ano de 1986, o Grêmio com um timaço em campo; e eu um neófito repórter de campo. Naquele tempo, repórter de rádio tinha o direito de ficar ao lado do gramado. E a Guaíba de Porto Alegre, não poupava equipe. Éramos quatro ou cinco para auxiliar o narrador da partida. Conforme a jogada se desenrolava, éramos chamados para destacar aquilo que “só você viu”. Além da alegria de fazer parte daquele elenco de jornalistas esportivo —- e estar assistindo ao meu Grêmio em posição privilegiada —-, ainda tive o prazer de participar da jornada que era comandada por meu pai, Milton Ferretti Jung.

O jogo também me proporcionou um causo para contar.O único gol da partida foi aos oito minutos do segundo tempo, marcado por Osvaldo, um meio de campo com corpo atarracado, boa habilidade nos pés e inteligente ao seu posicionar, que havia feito sucesso na Ponte Preta de São Paulo, e acabou sendo campeão do Mundo pelo Grêmio, em 1983. Assim que ele completou a jogada nas redes coloradas, correu para comemorar em direção às sociais do estádio Olímpico. Agradeceu aos céus e foi acompanhado pelos demais colegas de time. No meio do caminho, estavam eu e meu microfone aberto que captou os gritos pela graça alcançada. 

Coube a mim, descrever o gol e tomei a palavra de Osvaldo para celebrar o momento. Foi então que se criou o folclore de que o “obrigado” que se ouviu na transmissão jamais foi dito por Osvaldo, mas por mim, que, supostamente, comemorava com o time o gol que daria o bicampeonato estadual. Não foi verdade, como você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, pode conferir no vídeo que me foi enviado pelo Ricardo Wortman e está publicado no canal do Edu Cesar, no Youtube. Não que não estivesse comemorando. Estava. Apenas não fui eu quem agradeci a Deus, mesmo que tivesse vontade.

Esta história completou, agora, no dia 20 de julho, 35 anos, e faço este registro porque, na noite de terça-feira, ao assistir ao Grêmio nas oitavas de final da Copa do Brasil, confesso, tive vontade de repetir o mesmo grito e agradecer pela vitoria conquistada. Um 3 a 0 tão raro nestes tempos bicudos do futebol gremista quanto os leitores desta Avalanche. De um time em reconstrução, que tenta encontrar o lugar certo para cada um dos seus jogadores, um posicionamento mais adaptado aos nossos limites e de um técnico sempre capaz de tirar 100% do potencial de cada um de seus comandados. Só assim, foi possível, assistir ao terceiro e definitivo gol que resultou de jogada armada e escalada por Scolari, com a presença de Pinares, Luis Fernando e Diogo Barbosa, que completou para as redes de cabeça.

O resultado não nos dá nenhum título, como o da partida de 1986, mas, convenhamos, nos permite respirar um pouco diante dos inúmeros tropeços que acumulamos nos últimos meses. Mesmo assim, preferi guardar o grito de “obrigado” para outros momentos, até porque Deus tem coisa muito mais importante para fazer agora.