Avalanche Tricolor:  de calcanhar, para driblar a melancolia

Grêmio 0x1 Athletico Paranaense

Brasileiro — Arena Grêmio

Foi no começo da semana que se completaram 50 anos de um dos gols mais bonitos marcados com a camisa do Grêmio. Quem refrescou minha memória, carcomida pelo tempo e excesso de preocupação, foi Ricardo Wortman. E o fez de forma especial: enviou-me o post publicado em seu blog Corneta do RW e o arquivo de áudio do grito de gol narrado por Milton Ferretti Jung, na rádio Guaíba, naquele 7 de junho de 1971. 

A partida era contra o Inter de Santa Maria e o autor do feito, o argentino Chamaco. Era um tempo em que as disputas dos campeonatos regionais é o que tínhamos para sonhar. Tempo, também, em que o pai ainda não havia criado sua marca registrada —- o grito de “gol-gol-goooool”. Mas já desfilava seu talento no gogó e no teclado das máquinas de datilografia. 

Caro e cada vez mais raro leitor deste blog, com o devido pedido de licença para não tomar seu tempo com palavras ao vento sobre a melancólica apresentação gremista nesta tarde de domingo, na Arena, reproduzo a crônica do gol que o pai escreveu na revista do Grêmio, publicação oficial do time que registrava os grandes feitos do tricolor. 

O gol foi fantástico. O texto, primoroso:

O calcanhar tinha olhos

‘Baixada Melancólica” é como chamam, lá em Santa Maria, o estádio do Internacional. E, olhem, com aquela chuvinha miúda que caía, no domingo em que o dono do local tinha que jogar com o Grêmio, até que o apelido ficava bem. Mas, mesmo assim, com a chuva e com o frio, os torcedores foram chegando e apertando-se nos degraus molhados das arquibancadas. E havia muitos com bandeiras do Grêmio, todos com um mesmo desejo: ver Chamaco e Scotta, o bigodudo com jeito de líder, e o sardento atacante, de poucas falas e muita habilidade. A partida começou e o primeiro tempo foi um quase nada de jogo, uma tristeza, afinando em tudo com o tempo ruim. Mas, no segundo período, Otto Glória mexeu no time. Fêz de Caio um companheiro para Scotta e a apatia do jôgo quebrou-se em dois gols do argentino. Depois disso, já ninguém esperava grande coisa. Os colorados consolavam-se com o gol que Maneco havia feito, empatando a partida numa alegria que durara pouco. Scotta logo marcou o segundo. De repente, um lance como que explodiu dentro do campo. Inesperado, como tôdas as explosões. Inédito no seu contexto. Scotta , que tinha chegado à linha de fundo, levantou a bola para a área do Internacional. Chamaco vinha se intrometendo pelo meio, o gramado meio que lhe escapando debaixo das chuteiras, cujas travas não se agarravam à grama molhada. E aquela bola caindo na área. Só que Chamaco tinha mais pressa do que ela. Uma pressão que não era dêle, mas do chão mentiroso. Estava saindo do lance, tal e qual um ator ao qual coubesse, na peça, uma única fala e que passasse pelo palco sem conseguir dizê-la. Valdir, o goleiro, nem ficou com mêdo. A defesa parecia tão fácil, o lance tão seu. Chamaco tão por fora. Chamaco patinava. Onde terminaria naquele impulso todo? A bola sempre mais para trás. Êle cada vez mais à frente. Quem estava lá, aquém do corpo que deslizava. O corpo foi. A perna, não. Para trás! Distendeu-se. Procurou, quase que tateando a bola fugidia. O peito do pé tem olhos quando chuta. O calcanhar, aquela protuberância cega, criou-os. E encontrou a bola, Transformou-se em espoleta, gatilho, catapulta. Sei lá. No choque com o calcanhar, o couro ergueu-se num volteio interminável, num arco inatingível para Valdir. E caiu novamente, raspando o travessão, escorrendo pela rêde. GOL! Pelo amor de Deus, GOL! Incrível, como seu dono, Don Carlos Chamaco Rodrigues.  

Ouça o gol narrado por Milton Ferretti Jung e com a participação do repórter João Carlos Belmonte. A voz que abre a gravação é do zagueiro Souza, do Inter de Santa Maria:

Avalanche Tricolor: melhor prevenir do que remediar. E use máscara!

Brasiliense 0 (0)x(2) 0 Grêmio

Copa do Brasil – Serejão, Taguatinga DF

Ferreirinha arrisca o chute em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Em uma semana na qual supostos candidatos a títulos se despediram precocemente da Copa do Brasil, cautela era a melhor estratégia. Pouco exagerada, verdade, dada a escalação de dois volantes mais fixos atrás — até porque tínhamos Geromel e Kannemann em campo, o que por si só é uma garantia de redução de riscos. O Grêmio havia saído do jogo de estreia, na Arena, com a impressão de que desperdiçara a oportunidade de decidir a classificação antecipadamente, mesmo que a vantagem de dois gols desse a impressão de que a vaga seria sua nas oitavas-de-final. Mas vai que …

Nunca é bom apostar com o azar. 

Um chute desviado daqui, um pênalti mal ajeitado logo ali e tudo se complicaria no Serejão, também conhecido por Boca do Jacaré — um estádio acanhado para dizer o mínimo. O gramado, então, um desrespeito ao futebol profissional. Em péssimo estado e com buracos no meio do caminho. 

A primeira vítima foi o goleiro adversário que teve o pé preso na grama e uma torção logo no início que o prejudicou no restante da partida. Depois, o talento e o toque de bola. Perdoe-me quem pensa o contrário: piso ruim atrapalha muito quem sabe jogar mais, porque reduz a velocidade da bola, distorce a direção do passe e costuma chegar na canela do companheiro, quando deveria ser tocada de pé em pé. Vimos isso durante o jogo.

Seja como for, desde o primeiro movimento, ficou claro que o Grêmio não queria jogar. Ao menos não queria se expor no jogo. O primeiro passe foi para trás e o segundo mais para trás ainda. A bola circulou entre os zagueiros muito mais do que pelos jogadores de meio de campo. Para um lado, para o outro. O marcador não vinha. Para um lado, para o outro. O marcador arriscava e voltada. Para um lado e para o outro. Às vezes, um avanço. Nada convincente.

No segundo tempo, com Diego Souza e Ferreirinha o nível da partida subiu.

Não que precisasse muito esforço para isso. A bola ficou mais no campo de ataque. A proximidade do gol não foi suficiente para colocá-la lá dentro. Além de um chute no travessão do nosso atrevido ponteiro esquerdo, pouco coisa se viu na partida desta quinta-feira à tarde.

O zero a zero ilustrou bem a qualidade do jogo, do gramado e do estádio. E o Grêmio cumpriu seu papel nesta etapa da Copa do Brasil, o que diante do desastre de gente graúda, convenhamos, está de bom tamanho. 

Tiago Nunes, nosso técnico, invicto até aqui, ao lado do campo —- na única derrota, ele estava em casa se recuperando da Covid-19 —, gaúcho como eu, deve ter ouvido muito sua avó recomendar: melhor prevenir do que remediar. Cumpriu a risca o ensinamento.

A propósito: se é melhor prevenir do que remediar no futebol, quando o que está em jogo é a vida, o ditado é ainda mais pertinente. Portanto, a despeito do que este lunático que comanda o Brasil tenha dito hoje, cuide-se, previna-se, mantenha distância, evite aglomeração e use máscara. Tenha tomado vacina ou sido contaminado pela Covid-19, use máscara, pelo amor de Deus!

Avalanche Tricolor: É campeão! É campeão!

Grêmio 3×0 Santa Cruz

Recopa Gaúcha – Arena Grêmio

A Recopa é nossa, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O almoço dominical em família ainda não estava servido e o Grêmio já havia levantado mais um troféu. Na transmissão da TV, rolou vinheta com o título de campeão e sobe som do hino. Em campo, montaram palanque, teve entrega de medalha e fumaça colorida para erguer o troféu. O segundo no ano. 

Sei que o título não é daqueles que vira DVD, filme no cinema ou será lembrado para sempre nas conversas com os filhos. Mas ganhar é sempre bom, mesmo que o adversários seja o humilde e honesto Santa Cruz —- time que vem de uma terra famosa pelas plantações de fumo e, pessoalmente, pelos tradicionais e, às vezes, violentos embates que meu time de basquete encarava sempre que enfrentávamos a equipe da cidade,  que leva o nome de Corinthians.

O Grêmio teria compromisso importante pelo Campeonato Brasileiro, mas o destino nos permitiu o adiamento da rodada e o agendamento da decisão regional. Providencial adiamento. Estamos com 11 integrantes do elenco contaminados por Covid-19: de goleiro a atacante, de lateral a técnico — sem contar os dois convocados para a seleção olímpica. Tantos desfalques seriam fatais. Não para essa final, quando pudemos selecionar apenas os mais jovens ou os menos aproveitados do grupo.

Dos que entraram em campo, Fernando Henrique, o volante pifador, foi talvez a melhor das notícias na manhã deste domingo.

Com uma personalidade rara para a idade, distribuiu jogo de um lado e do outro com talento e precisão no passe. Ainda arriscou-se a chutar de fora e quase marcou o que seria o terceiro gol gremista. Não por acaso, ganhou lugar de destaque na foto do título, sentado atrás do troféu e tendo Geromel — nosso líder —- como guarda-costa.

Havia uma expectativa grande quanto ao desempenho do lateral esquerdo Guilherme Guedes, jovem da base que está voltando à ativa depois de uma série de problemas físicos. Cumpriu bem o seu papel e deu demonstrações de que sabe bater bem na bola, na única falta em que teve oportunidade de cobrar.

Os jovens atacantes Guilherme Azevedo, Léo Pereira e Jhonata Robert —- esse tendo entrado apenas no segundo tempo —- deixaram suas marcas, com tentativas de dribles, sendo agressivos no ataque e marcando cada um o seu gol.

Ninguém ficará para a história devido ao Bi da Recopa Gaúcha, mas é provável de que alguns dos que vestiram a camisa gremista nesta manhã de domingo estejam começando a escrever sua passagem pelo tricolor —- e que bom que comecem essa história de maneira vitoriosa.

Avalanche Tricolor: não se lamente, Ricardinho! 

Grêmio 2×0 Brasiliense

Copa do Brasil – Arena Grêmio

Ricardinho no caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Um gol, uma assistência e a cara de lamento no banco —- assim foi, na tarde desta quarta-feira, Ricardinho, o goleador que assistimos nascer no berço tricolor, desde que foi descoberto em São Paulo. Que tem marcado um gol a cada duas partidas disputadas, neste ano. E gols de um de um tipo de centroavante que há algum tempo faz falta para nós. Na trombada, na bola sobrada, na perspicácia de roubar do zagueiro desatento ou aproveitando-se da falha alheia. 

A cada gol uma emoção nos atinge. Ricardinho bate continência para a câmera e ergue a camisa para revelar ao público a homenagem eterna ao pai e ao avô, que morreram de Covid-19. Uma perda que, claramente, ainda causa dor no guri de apenas 20 anos. Ele próprio, dia desses em entrevista coletiva, agradeceu pelo acolhimento dos companheiros e pelo fato de que quando entra em campo consegue amenizar o sofrimento da morte de gente que para ele é referência na vida.

Hoje, foi na disputa apertada, dentro da área congestionada de marcadores, que Ricardinho fez o Grêmio desencantar e abrir o placar na nossa estreia na Copa do Brasil, aos 44 minutos do primeiro tempo. Na volta para o segundo tempo, novamente foi ele, o oportunista, quem percebeu a falha na reposição de bola do goleiro e a desatenção do zagueiro, para arrancar em direção ao gol. Chutou uma, duas vezes. Até encontrar Jean Pyerre na pequena área pronto para empurrar a bola às redes. 

Ricardinho foi essencial para a vitória que deu boa vantagem ao Grêmio nesta briga por uma vaga à próxima fase da Copa do Brasil.

Não foi o suficiente para o nosso atacante sair satisfeito de campo. Um erro que ele cometeu aos 19 minutos do segundo tempo —- quando o Grêmio já tinha vantagem —-, ao desperdiçar o gol aberto e colocar a bola no travessão, deixou o centroavante inconformado.

Nosso jovem goleador lamentou, socou a trave, bateu as mãos nas pernas, tapou o rosto quando sentou no banco, logo que foi substituído. Vai dormir essa noite com o lance na mente; com a tristeza de quem fez o mais  difícil e não soube concluir a gol.

Não se lamente, Ricardinho! 

A gente até entende seu desejo de marcar e marcar cada vez mais gols. É importante que tenhamos esse desejo de acertar sempre. De sermos perfeitos —- mesmo que saibamos que somos apenas humanos. De pararmos para pensar por que erramos ou como evitar esse erro novamente.

Mesmo que você leia aqui ou acolá alguma crítica ao gol perdido, tenha certeza de que o gol marcado e o gol armado por você foram muitos mais relevantes. Se você perdeu um gol feito é porque você se fez presente para tentar marcar mais uma vez. Assim é a nossa vida: acertamos e comemoramos; erramos e aprendemos; sorrimos e sofremos. 

Valorize suas conquistas —- elas nos fizeram muito mais felizes nesta estreia da Copa do Brasil. E, em nome desta felicidade, agradecemos a você, Ricardinho.

Avalanche Tricolor: lições da estreia

Ceará 3×2 Grêmio

Brasileiro – Arena Castelão, Fortaleza CE

Vanderson é destaque na foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Nossos jovens —- que preferimos chamar de guris —- têm sido exaltados nessa temporada que começou tarde, atropelada e muito disputada, em 2021. E por jovens ou guris que são, tanto devemos esperar momentos de exuberância quanto temos de estar prontos para assistirmos a ações descompassadas. 

Na estreia do Campeonato Brasileiro, tivemos os extremos da juventude em campo.

A jogada atrevida de Vanderson no fim do primeiro tempo, com uma puxada de ponta da chuteira e o giro sobre a bola, que deixaram os marcadores perdidos,  foi um desses instantes incríveis. Um lance que se perderia nos melhores momentos da TV não tivesse sido concluído com uma tabela rápida dentro da área com Matheus Henrique e o gol do nosso lateral direito.

Aquele início de segundo tempo, com Jean Pyerre, de cabelo descolorido  e sua nova camisa 88, metendo a bola onde o marcador não alcança, também foi genial. Melhor ainda foi ver Vanderson, mais uma vez, acreditar na roubada da bola quase fora de campo, na sua defesa, o que proporcionou o lançamento para Leo Chu, na esquerda, que saiu atrás, atropelou e superou o tranco do marcador para cruzar na área e encontrar o artilheiro Ricardinho —- que foi veloz e preciso na conclusão a gol.

Por outro lado, faltaram sorte e poder de decisão para Ruan em quem a bola desviou no pé no primeiro gol tomado e quem não a despachou como deveria no início do lance que resultou o segundo gol. Assim como faltou malícia a Brenno que se tivesse seguido na jogada teria boas chances de impedir o terceiro gol —- haja vista as defesas que já tinha proporcionado ao longo da partida, duas delas salvadoras.

O revés faz parte da construção da personalidade da gurizada. Aprender com erros e decisões mal tomadas é primordial. Que a a lição de casa seja feita para que possamos o mais rapidamente possível recuperar os três pontos perdidos na estreia do Brasileiro.

Avalanche Tricolor: pra cumprir tabela

La Equidad 0x0 Grêmio

Sul-Americana – Estádio Bellavista, Equador

Foto: Divulgação / Conmebol / Twitter

Classificado por antecedência e com merecimento, o Grêmio foi para a última partida desta fase de grupos da Sul-Americana com poucas pretensões. Fez o suficiente com o pouco que tinha de jogadores —- apenas 15 viajaram para o Equador e um deles, Pedro Lucas, ainda se sentiu mal antes do jogo. Nenhum dos garotos tinha mais de 21 anos e para a maioria era a primeira chance entre os profissionais. Todo o restante do grupo permaneceu em Porto Alegre treinando para o início do Brasileiro.

Diante da altitude, o Grêmio precisava poupar o fôlego de todos que estavam em campo, sob risco de não ter quem os substituíssem. Ainda sofreu revés logo no início com a lesão de Elias, após uma das muitas entradas violentas da marcação adversária. E desperdiçou um pênalti no segundo tempo em cobrança ruim de Guilherme Azevedo.

Foi o suficiente, mesmo que tenha tido a vantagem de dois jogadores a mais, após as expulsões assinaladas pelo árbitro para coibir a violência do adversário. O importante era  manter a invencibilidade e garantir a melhorar campanha na competição —- muito mais para pela preservação do bom astral dessas últimas semanas do que propriamente pelo destino na Sul-Americana. O que tinha de ser feito já havia sido feito. E fomos ao Equador apenas cumprir tabela. Cumprimos.

Agora é esperar a estreia no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: o Tetra é nosso, os guris do Grêmio!

Grêmio 1×1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Ferreirinha comemora o gol do título em foto de Lucas Uebel/Grêmio GBPA

Havia um guri no gol, de sorriso largo e braços ainda maiores, que conhece o Gre-Nal como a palma de sua luva —- Brenno fez sua estreia no Grêmio em um clássico, e até hoje não perdeu nenhum. Havia um guri na zaga em lugar de Kannemann: Ruan, que segue a passos largos o futebol maduro de seu companheiro de área, Geromel. Outro guri ocupou a lateral para substituir Rafinha, expulso ainda no primeiro tempo. E Vanderson cumpriu sua função com a seriedade de um veterano e a velocidade de guri que é.

No meio de campo, havia um guri, Matheus Henrique, que sustentado por um craque, Maicon, e um leão de volante, Thiago Santos, pode soltar seu talento com a bola no pé, distribuir o jogo e aparecer dentro da área para impor perigo ao adversário. Foi ele quem soube escapar da marcação na intermediária gremista, deixar seu adversário estatelado no chão e avançar à fronteira inimiga no início da jogada  do gol do título, ainda no primeiro tempo da partida.

No ataque não faltavam guris. Havia Léo Pereira, desde o início, e Ricardinho e Pepê (sim, não esqueça que o nosso atacante que ruma agora à Europa tem apenas 24 anos), que entraram no segundo tempo para dar desespero nos marcadores. 

Havia o maior de todos os guris: o gigante de 1,71 metro de altura, Aldemir dos Santos Ferreira, o Ferreirinha. Com 23 anos, nosso ponta esquerda encanta o torcedor e enlouquece o sofredor.

Foi ele quem recebeu a bola final daquela jogada iniciada por Matheus e distribuída por Diego Souza —- o goleador que aos 35 anos bota a bola na rede e dança como se fosse um menino. Foram dele, Ferreirinha, os dribles que o deixaram na cara da goleira, as gingas que desnortearam seus marcadores, a bola roubada na defesa e a vibração pelo desarme para a lateral, que tiraram o adversário do sério.

Já disse e repito, Ferreirinha é o futebol jogado com prazer:

“Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino”. 

Havia guri no gol, na defesa, no meio de campo e no ataque. Havia guri se desdobrando para salvar nossos vacilos, endiabrando o zagueiro, desarmando o atacante e dominando o jogo com talento e muita garra. Havia Brenno, Vanderson, Ruan, Matheus Henrique, Léo Pereira, Ricardinho, Pepê e Ferreirinha. 

E em cada um desses guris, havia um pouco de mim. Do meu prazer de ser gremista. Das lágrimas que derramei no vestiário do Olímpico no passado. Do choro de alegria naquela vitória de 1977. Da felicidade de uma conquista comemorada. Do quadragésimo título estadual, do tetra Gaúcho, de sete anos sem perder um clássico em casa e de um domínio que —- guris que hoje vestem a camisa do Grêmio não têm ideia — eu nunca havia assistido na época em que eu era realmente um guri lá no Sul.

Obrigado, Grêmio e sua gurizada por me darem a alegria de comemorar mais um título ao lado dos meus guris, aqui em São Paulo.

Avalanche Tricolor: “aí vem o Grêmio!!!” e outros capítulos do rádio gaúcho

Aragua 2×6 Grêmio

Sul-Americana — Caracas/Venezuela

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os que tiveram o privilégio de ouvir transmissões de futebol na época de ouro do rádio gaúcho têm na memória o grito que marcava a entrada do time do Grêmio no estádio Olímpico. ‘Aí vem o Grêmio!!!’ — com direito ao alongamento de todas as vogais e tom de voz firme —- era a senha do repórter de campo João Carlos Belmonte para a explosão de alegria do torcedor que recepcionava seus jogadores aos gritos e sob foguetório. Ele ficava com microfone da Rádio Guaíba em punho ao lado da escadaria que dava acesso ao gramado e a medida que os jogadores se posicionavam em fila, citava nome a nome, e a cada nome o coração batia mais forte no nosso peito.

O ritual se repetia no Beira Rio com o time da casa —- e dizem as más línguas com uma pitada maior de alegria, reveladora; eu não concordo. Mas como esse espaço tem suas exclusividades, vou me ater a emoção que Belmonte provocava na nossa torcida. Era mágico. Transgressor. Porque seu olhar e palavras devassavam o escurinho do túnel, quase sagrado, tantos eram os ídolos que se reuniam a espera da batalha. Belmonte descrevia a movimentação dos jogadores, a conversa ao pé da orelha e os gritos motivacionais, tudo hoje naturalizado pelas câmeras de televisão e pelo insípido cerimonial de entrada em campo.

Quando Belmonte fazia do rádio magia, eu era  guri de manga curta, ouvinte e gremista encantado pelas palavras dele.

Vibrava no cimento do Olímpico acompanhando a festa comandada pelo repórter de rádio que mexia duplamente com a minha imaginação. Por torcedor que era e por jornalista que sonhava ser. Transformei-me repórter de campo anos à frente. Anos luz distante do talento de Belmonte e outras feras que fizeram o rádio gaúcho ser dos melhores do Brasil. Ele e a mulher Ligia —- recentemente falecida — eram amigos dos meus pais e faziam parte de um círculo de casais, ligados ao jornalismo, que saíam quase toda semana para jantar. Isso me gerou alguma intimidade com o Belmonte e com muita gente boa do meio. E colaborou para minha escolha de carreira.

Certamente, foi essa mesma convivência que fez Roberto Villar e o Caco Belmonte seguirem a carreira jornalística. Eles são os filhos da Ligia e do Belmonte e foram os responsáveis por convencer o pai a escrever suas histórias, curiosidades, estratégias e furos de reportagem no livro “Fala, Belmonte! Memórias do cronista esportivo”(Farol3 Editores). Um exemplar está aqui em casa, lido e guardado junto a outros três que deveriam, obrigatoriamente, fazer parte de um caixa literária sobre o jornalismo esportivo: “Olha Gente – As histórias de Lauro Quadros”, escrito pelo próprio; “Pedro Carneiro Pereira — O narrador de emoções”, de Leandro Martins, e, claro, “Milton Ferretti Jung. Gol, Gol, Gol, Um Grito Inesquecível na Voz do Rádio”, de Kátia Hoffmann.

Essa ‘coleção’ conta, em cada capítulo e livro, um pouco do que se fez no radiojornalismo e esportivo brasileiro, através da história de seus protagonistas —- dois deles dedicados à narração, Milton, o pai, e o Pedrinho; dois à reportagem e ao comentário esportivo, Lauro e Belmonte. Deve ser preservada porque traz a memória de um rádio que, mesmo permanecendo forte, já foi mais influente na opinião pública. Hoje, é inimaginável a cena de um repórter de campo regendo um coro de milhares de torcedores no ‘parabéns à você’ em homenagem ao jogador aniversariante com quem conversa ao microfone. Belmonte era capaz. 

É interessante saber como eram as jornadas internacionais em uma época pré-internet, a dificuldade de deslocamento, o improviso das estruturas e a qualidade com que se conseguia levar os fatos aos ouvintes, Em “Fala, Belmonte!” vale uma dedicação especial à cobertura do título Mundial do Grêmio, em 1983. Sim, Belmonte viveu intensamente aqueles momentos:

“Dias após o Grêmio conquistar a Libertadores de 1983, fui enviado ao Japão. Missão: desbravar Tóquio e remeter matérias à Rádio Guaíba e Correio do Povo, gravar um programa de uma hora para a TV2 Guaíba. Além disso, havia a missão ‘secreta’ de contratar linha 24 horas, disponível antes e depois do jogo final, conectando o nosso hotel e o estádio com a emissora em Porto Alegre”

Belmonte viveu e vive aqueles momentos, mesmo que aposentado. Conversei com ele dia desses para agradecer pelo envio do livro, oportunidade em que relembramos algumas passagens que teve com o pai. E na qual percebi que mantém uma das marcas de sua personalidade. Amigos mais próximos dirão que é a avareza — fama desmentida pelo próprio Caco Belmonte, no texto de introdução. Belmonte, para mim, além de referência jornalística, sempre foi um cara bem humorado. Alegre com o que fazia. E disposto a deixar seus ouvintes ainda mais felizes — como ficávamos lá no Olímpico, todas as vezes que ele anunciava: “aí vem o Grêmio !!!”

PS: sei que o caro e raro leitor desta Avalanche entenderá minha disposição de escrever sobre João Carlos Belmonte em lugar de ocupar este espaço, como sempre faço, com mais uma goleada gremista no exterior. A partida da noite de ontem era fava contada, apesar de ter me divertido muito em ver os guris brincando com a bola em campo. E o que importa mesmo nesta semana, vai acontecer domingo, em mais um Gre-Nal. Pena que o Belmonte não estará na beira do gramado para chamar a torcida ao delírio.

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Avalanche Tricolor: Ferreirinha é o futebol jogado com prazer

Grêmio 3×1 Lanús

Sul-Americana — Arena Grêmio

A bola a caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Um time com personalidade. Disposto a provar sua superioridade. Retomar o futebol que encantou o Brasil e a América, mesmo que para isso precise rever posicionamento, reajustar peças e revezar jogadores. Desde a primeira rodada da Copa Sul-Americana, o Grêmio tem tido 100% de aproveitamento, superando adversários dentro e fora de casa —- respeitando-os, com certeza, mas expressando em campo o futebol mais elevado que construiu nos últimos anos.

Hoje, entramos em campo com uma formação um pouco diferente daquela que estamos acostumados. O Grêmio deixou no banco jogadores que precisam retomar o fôlego para as partidas finais do Campeonato Gaúcho, demonstrando a importância de se ter um elenco equilibrado e o compromisso que assumiu de provar que, a despeito do revés inicial na temporada, segue grande e vitorioso.

Tiago Nunes escalou um time reforçando na entrada área com dois volantes que ofereceram mais segurança à defesa, sem perder a qualidade na distribuição de jogo: Thiago Santos, que tem se destacado positivamente, e Lucas Silva, que fez sua melhor partida desde que chegou ao Grêmio.

Havia ainda um terceiro falso volante na equipe: Matheus Henrique. O pequeno gigante do nosso meio de campo estava mais livre para armar lá na frente e chegar à área.

Como dizem os comentaristas de esporte: volante moderno tem de colocar o pé na área. Assim como havia feito na partida do fim de semana, pelo Gaúcho, Matheusinho surgiu entre os zagueiros para marcar de cabeça, aos dois minutos de jogo. Concluiu jogada construída por Ferreirinha.

Aliás, caro e raro leitor desta Avalanche, se você ainda não tirou algumas horas do dia para assistir a este guri jogar bola lá pelo lado esquerdo do Grêmio, não demore muito. Gente da qualidade de Ferreirinha não costuma ter vida longa no Brasil. Em breve, algum gringo estará assediando o menino. Ele faz chover. Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino. Hoje, além da assistência para Matheus Henrique, marcou mais duas vezes. A primeira, depois de encontrar Rafinha livre na direita e correr para dentro da área para fulminar de cabeça no gol adversário. E a segunda, empurrando a bola bem passada por Diego Souza. Não por acaso, em quatro partidas nesta Copa Sul-Americana, Ferreirinha foi considerado o melhor jogador em campo em três delas —- incluindo a de hoje. Ferreira é o futebol jogado com prazer.