Avalanche Tricolor: que voltem as vitórias

Grêmio 1×1 Atlético MG

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon, o Criador em campo, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

“Vamos para mais um empate”, foi o que disse quando sentei ao lado de meu filho-torcedor, para assistir ao segundo tempo da partida desta noite. O primeiro, vi de revesgueio, porque tinha de atender ao compromisso assumido com meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco. Havíamos marcado para hoje uma conversa, ao vivo, no Instagram, sobre cuidados financeiros que devemos tomar em busca de um equilíbrio na vida. Por descuidar o calendário de jogos e não prestar atenção na agenda, enquanto o Grêmio estava em campo, eu me divertia no bate-papo. Mesmo assim pude ver pela tela do computador o pênalti convertido contra nós e a falta de criação no ataque.

O segundo tempo —- contou-me o companheiro de torcida —- começou da mesma forma que o primeiro: sem troca de passe, sem profundidade e sem chutes a gol. Até que os criadores entraram em campo. Não foram necessárias muitas tentativas —- se não me engano a que entrou foi a única bola que havia sido chutada em direção ao gol até aquele momento, quando já havíamos jogado 85 minutos.

A bola rodou de pé em pé, e passou pelo de Maicon, o Criador; Ferreirinha usou de seu talento para driblar; Diego Souza dividiu dentro da área; e na sobra Everton, o Improvável, encontrou um chute capaz de passar em um espaço estreito entre os marcadores, o goleiro e a goleira. Era o empate que eu havia previsto, não porque sou adivinho ou tenho bola de cristal, apenas porque tem sido esta a lógica gremista no Campeonato Brasileiro. Foram 15 empates até aqui e uma sequência de 16 partidas sem derrota. Uma série invicta que nos fez subir em direção ao topo da tabela, mas que não nos aproxima da liderança da competição. 

Se a derrota está fora de opção e o empate se torna a saída para jogos nem sempre bem jogados, que a vitória volte quando for realmente necessária. Domingo será.

Avalanche Tricolor: um empate que vale bem mais do que um ponto

Palmeiras 1×1 Grêmio

Brasileiro — Allianz Parque, SP/SP

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Ninguém empatou tanto quanto o Grêmio. Ninguém perdeu tão pouco quanto o Grêmio. Assim como ninguém está tanto tempo invicto no Brasileiro —- são 15 jogos marcando pontos. Nada disso ainda foi suficiente para nos colocar na liderança ou próximo dela, assim como não nos garantiu aquela vaga que nos devolverá a Libertadores —  a despeito do fato de que vamos dormir nesta sexta-feira no G4 e se quiserem nos tirar de lá, os adversários que façam a sua parte.

O empate de hoje —- o décimo quarto na competição —- valeu muito mais pontos do que outros tantos. Bem mais do que o ponto somado na tabela e que nos deixou a seis do topo do campeonato. Foi um teste de resiliência contra aquele que será o adversário na final da Copa do Brasil, em fevereiro ou março — a data ainda está aberta. A derrota, da forma como estava sendo construída no primeiro tempo, seria acachapante no ânimo e no moral do time. Daria a impressão de incapacidade, o que nos derrotaria antes mesmo de disputarmos as decisões da Copa.

Ter resistido ao atropelo inicial e conseguido chegar ao intervalo com uma desvantagem pequena, permitiu que Renato reposicionasse o time, colocasse cada jogador no seu devido lugar e os fizesse entender que no gramado sintético a bola rola em velocidade diferente e oferece vantagem a quem está acostumado ao piso. 

Assim que voltamos do vestiário, era evidente que o Grêmio seria outro time. Os riscos diminuíram apesar de Vanderlei, gigante no primeiro tempo, ter voltado a brilhar quando exigido no segundo. Passamos a ter mais a bola e a nos movimentarmos com mais velocidade. Arriscávamos no ataque enquanto nossos zagueiros tinham de imprimir um esforço redobrado lá atrás —- o que Kannemann sabe fazer muito bem.

A entrada de Maicon, diante da lesão de Matheus Henrique, mudou o toque de bola. Se um prefere carregá-la próximo do pé, o outro privilegia o passe rápido e consegue enxergar com precisão companheiros mais bem posicionados. Foi em um desses lances que Maicon pisou dentro da área adversária e encontrou Luis Fernando correndo por trás da marcação na linha de fundo. O cruzamento foi na medida para Diego Souza cabecear e decretar o empate —- os gols de Diego deveriam valer dobrado na tabela de goleadores, porque é incrível como todo gol que ele marca é aquele que decide ou ajuda a decidir a partida; dificilmente faz gol em jogos já resolvidos.

Por pouco, muito pouco mesmo —- como diria José Geraldo de Almeida, antigo locutor esportivo —-, não levamos a vitória em um último lance da partida, no qual Diego Souza, sempre Diego, cobrou falta por cima da barreira e buscou o ângulo; e a bola só não chegou ao seu destino porque foi a hora de o goleiro adversário brilhar. 

Na maratona decisiva de Janeiro, evitamos a derrota contra um adversário forte e com pretensão de chegar ao título. Teremos ao menos mais três jogos que serão definitivos nas próximas rodadas. Por hoje, fizemos nossa parte, arrancamos um empate difícil e saímos de campo confiantes de que a Copa do Brasil está ao nosso alcance. Mérito de Renato que fez as substituições certas tanto quanto soube mudar o time no vestiário — como admitiram em entrevista Diego Souza e Victor Ferraz.

Avalanche Tricolor: a disputa do título é agora!

Fortaleza 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Sabe aquele jogo que começa e você já sabe qual vai ser o resultado? A gente fica torcendo para estar errado, mas a cada minuto que passa aumenta a certeza de sua previsão inicial. Foi assim neste sábado à noite. O empate —- o décimo terceiro no campeonato —- foi sendo desenhando no chute para fora, no cruzamento cortado pela defesa, na falta (quase) bem cobrada, no contra-ataque que se perdeu em um passe errado e no gol que por milímetros foi anulado. A previsão de que seria empate tem muito a ver com o time que vai a campo —- éramos na maioria reservas e, claro, paga-se um preço quando tomamos essa decisão. No caso, dois pontos desperdiçados na disputa pelo título do campeonato. 

Verdade que outras vezes entramos em campo sem escalar os principais titulares e conquistamos a vitória mesmo assim —- mas, sei lá o motivo, assim que começou a partida deste fim de noite, tive a impressão de que não sairíamos do zero a zero. Impressão confirmada ao fim deste que foi o vigésimo-oitavo jogo gremista no Campeonato Brasileiro. Não que tenhamos jogado pelo empate. Longe disso. Tentou-se de um lado e de outro. Muitas vezes pelo meio. Chutou-se 12 bolas no gol  — pelo que anotei — e forçamos o goleiro adversário a fazer defesas difíceis. Esforço fugaz. 

Apesar de não termos saído com a vitória, que é o que todos queríamos, o empate nos mantém na disputa do título e entre os cinco primeiros classificados. O mais importante é que, independentemente do que acontecer no domingo, a ideia de que o campeonato será decidido em janeiro permanece. A partir de agora —- e aí entendemos a escolha pelo time reserva —- todo jogo será uma decisão direta pelo título. Nas próximas quatro partidas, o Grêmio terá de ser gigante porque enfrentará quatro adversários que estão embolados e disputando a liderança da competição. 

Seja o que os deuses do futebol quiserem!

Avalanche Tricolor: vencer é o que importa

Grêmio 2×1 Bahia

Brasileiro — Arena Grêmio

Vanderson comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

A temporada 2020 está de volta. A mais atrapalhada das temporadas que já vivemos na era moderna, começou ano passado, parou em março com a pandemia, foi retomada em junho, intrometeu-se nas festas de fim de ano e só deu descanso para times e jogadores passarem o réveillon em casa. Apesar de estarmos, conforme calendário gregoriano, na primeira semana de 2021, ainda sofremos os percalços do ano passado. A impressão é que estamos vivendo a segunda temporada deste triste seriado que foi 2020 — e sequer estou fazendo menção ao que assistimos nesta quarta-feira, nos Estados Unidos; estou falando apenas de futebol.

Para o Grêmio, o mês de janeiro reserva algo raro nesta temporada: um mês inteiro dedicado a um só campeonato, o Brasileiro. A decisão da Copa do Brasil ficou para fevereiro, a persistirem os sintomas. Mês raro e importante, porque teremos jogos decisivos para as nossas pretensões na competição. Alguns dos adversários que enfrentaremos estão no meio do caminho do que pretendemos alcançar que é o título brasileiro, segundo Renato, naquela entrevista ao lado do campo a espera do apito inicial; ou o G4 que garante vaga direta na Libertadores do ano que vem … ops, deste ano. 

Na partida de hoje, o adversário não era direto nem por isso os três pontos deixavam de ser importantes — vencer é sempre importante. Uma vitória agora, além de manter o time com moral alto e motivar para os próximos desafios, também cria gordura para qualquer percalço nos próximos 11 e decisivos jogos. 

E o Grêmio venceu. 

Não foi tão simples quanto parecia nos primeiros minutos de partida, quando impusemos nosso jogo bonito e qualificado, o que culminou com o primeiro gol de Vanderson, que aos 19 anos fez sua segunda partida como titular. O guri —- mais um dos guris gremistas —- fez uma assistência importante no primeiro jogo e hoje foi presenteado com um cruzamento pelo alto que o fez cabecear de maneira consciente no gol adversário. Chorou na comemoração. E nós comemoramos com ele. 

Depois do primeiro gol, assistimos à uma sequência de atrapalhadas e espaços abertos que permitiram a proximidade do adversário na nossa goleira. Se o gol que marcaram no fim do primeiro tempo foi salvo pela linha de impedimento, no segundo tempo, fomos punidos logo no início com a bola desviando na cabeça de outro guri gremista, Rodriguez. 

Coube a um dos veteranos decidir a nosso favor, em meio a uma série de jogadas erradas, passes mal dados, cortes mal-feitos e uma marcação malemolente em alguns momentos. Foi Diego Souza. Sempre ele. Infalível. E foi em um cobrança de falta tão estranha quanto o próprio jogo. A bola desviou na barreira, desviou no braço do goleiro e quando parecia que havia desistido de entrar no gol, foi parar no fundo da rede. E o que vale é bola na rede. E com esta bola, Diego marcou mais um gol decisivo para o Grêmio. 

Somos o time que menos perdeu nesta competição, apenas três vezes; que mais empatou, 12 vezes; e estamos invictos há treze jogos no Brasileiro. Uma estatística suficiente para nos deixar na disputa do título. Cada vitória que vier a partir de agora nos colocará mais próximo dos nossos objetivos — se vier com uma bola do acaso, um desvio do goleiro ou em um gol contra, pouco me interessa. O que importa agora é a vitória.

Avalanche Tricolor: Feliz Ano Novo!

São Paulo 0x0 Grêmio

Copa do Brasil —  Morumbi

Festa de réveillon antecipada no Morumbi Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Jogadores do Grêmio comemoram ao fim da partida Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Às vésperas do fim do ano, passeei de carro perto de casa. Não mais do que alguns quarteirões. Precisava respirar um pouco fora do ambiente ao qual fiquei confinado em boa parte desses últimos 285 dias, desde que a recomendação foi de mantermos distância, evitarmos aglomerações e encontros desnecessários. Fui ao lava-jato levar um carro que esteve durante todo este tempo acumulando poeira na garagem. De dentro dele não saí e pedi apenas uma boa ducha —- “caprichada”, me disse o atendente no posto de combustível, com um boné vermelho, preto e branco. 

Por mais restrito que tenha sido este giro, foi impossível deixar de notar a quantidade de pessoas circulando pela região com a camisa do São Paulo. O motoqueiro que passou em alta velocidade pela minha esquerda, o menino que atravessava na faixa de segurança, o senhor de barriga acentuada que esperava a conclusão do serviço e o rapaz conduzido por um cachorro a caminho da praça mais próxima —- todos transmitiam um ar de confiança na partida que se realizaria dali a alguns quilômetros de distância. Sim, eu moro próximo do Morumbi, onde decidiríamos a vaga à final da Copa do Brasil.

Infelizmente, estar presente no estádio não era uma opção para qualquer um de nós. Restava-nos assistir ao jogo na televisão —- o que não me impediu de ouvir o espocar de fogos proporcionados por torcedores adversários que cercaram o local da partida para inspirar seus jogadores. Havia gritos, também, que partiam da varanda dos prédios ao redor de casa. Que se calaram assim que a bola começou a rolar.

Em campo, desde o primeiro minuto de partida, o Grêmio expressava uma personalidade típica de times acostumados às grandes decisões. Meu colega e amigo Paulo Vinícius Coelho disse com a precisão de sempre e com base em informações que levantou em conversa com porta-vozes gremistas de que jogaríamos um futebol adulto, maduro. 

Era a confiança versus a maturidade.

E que maturidade!

Vanderlei sequer precisou ser gigante como em partidas anteriores. Cumpriu o seu papel em interceptar as poucas bolas que chegaram ao gol. Nossos zagueiros, Rodriguez e Kannemann, depois Paulo Miranda, despacharam para longe qualquer perigo que se desenhava. De um lado Victor Ferraz e de outro Diogo Barbosa foram precisos nas roubadas de bola. Lucas Silva e Matheus Henrique fecharam a entrada da área com uma tenacidade impressionante  —- ganharam ainda o reforço de Thaciano, no segundo tempo. Alisson, Jean Pyerre e Pepê fecharam o meio de campo e deixaram seus marcadores sempre de prontidão diante do risco de uma escapada em contra-ataque. Diego Souza por pouco não se consagrou com um gol de bicicleta —- apesar de sua maior qualidade nesta noite ter sido a maneira como voltou para marcar e encurtar o espaço.

O Grêmio foi gigante diante de um adversário que tem revelado futebol de alta qualidade, apesar de incapaz de nos superar nos últimos quatro anos. Estamos sem perder para o tricolor paulista desde 2016 e sem tomar um só gol desde agosto do ano passado. E  já se foram cinco partidas — a quinta, nesta noite no Morumbi quando entramos em campo pressionados e tensionados por um movimento que tem tração interna, proporcionada por torcedores frustrados que tentam descredenciar o excelente trabalho de Renato no comando gremista.

O Grêmio chega a sua nona final de Copa do Brasil. Já venceu cinco vezes esta competição. O desafio para ser hexacampeão é imensurável. Mas esse é um problema a ser encarado apenas no ano que vem. Por enquanto, incrédulos e crentes leitores — e caros torcedores — desta Avalanche, o que temos a celebrar é um feliz Ano Novo. Porque Renato e o Grêmio nos deram esta oportunidade de fechar 2020 —- que já vai tarde — com uma alegria no coração e uma lágrima de satisfação. 

Até 2021!

Avalanche Tricolor: o Papai Noel é azul e tem nome

Grêmio 1×0 São Paulo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O Papai Noel passou mais cedo aqui em casa. E vestido de azul. Porque essa é a tradição no Rio Grande, que começou lá pelo fim dos anos de 1950 como uma brincadeira de torcedores arqui-rivais. O resultado do último Gre-Nal do ano, que fechava o Campeonato Gaúcho, decidia nos costumes do nosso povo que cor seria o Papai Noel.

Em 1961, um jovem de apenas 22 anos havia sido escalado para ficar no vestiário a espera do apito final e invadir o gramado dos Eucaliptos — antigo estádio colorado —-  em caso de vitória tricolor, que veio em uma incrível virada de 3 a 2 com um homem a menos em campo —- sim, a imortalidade nos acompanha desde o início de nossa história. 

Após superar a barreira de policiais que tentavam impedir qualquer invasão de torcedores, o Papai Noel foi parar nos braços dos jogadores e erguido como um troféu para a história. Vestindo a parafernália do bom velhinho, naquele ano, estava o jovem que mais tarde se transformaria em um dos mais gremistas dos jornalistas gaúchos, Paulo Sant’Ana. Se não foi o primeiro Papai Noel azul certamente foi o mais famoso de todos até a noite de hoje.

Nesta ante-véspera de Natal, o Papai Noel azul que invadiu a sala de casa pela tela da televisão foi outro. Atende pelo nome de Diego Souza, mas pode chamá-lo de Goleador. O atacante que passou a partida sendo escorraçado pelos adversários teve uma e apenas uma chance de chutar a gol; e de costas para o gol. Tudo começou na sem-vergonhice de Ferreirinha, o guri driblador que Renato acabara de colocar em campo. Com cara de piá que ainda acredita em Papai Noel, Ferreirinha se lançou para cima do marcador e o deixou para trás com velocidade e talento no drible. Cruzou forte e fez a bola chegar a outro dos nossos guris, Pepê, que de cabeça jogou para dentro da pequena área, onde os zagueiros se atrapalharam para deleite de Diego Souza.

O gol de Diego não é definitivo para nos colocar em mais uma final de Copa do Brasil … 

A propósito: a performance do Grêmio nesta Copa é inacreditável. Fomos o primeiro campeão. Chegamos a semifinal em quase metade das edições disputadas. E vencemos cinco Copas do Brasil. Tem de respeitar.

Como dizia, caro e raro leitor desta Avalanche, o gol de Diego não é definitivo. Tem muito jogo pela frente na partida de volta no Morumbi. E um adversário bem treinado e embalado. Posso lhe garantir, porém, que independentemente do que vier acontecer, este ano o Papai Noel é azul, não só porque ganhamos o Campeonato Gaúcho lá no início da temporada, mas, principalmente, porque o “bom velhinho” tá batendo um bolão veste a camisa 29.

Avalanche Tricolor: minhas impressões

Sport 1×1 Grêmio

Brasileiro — Ilha do Retiro, Recife/PE

Pepê comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A bola no pé e a cabeça distante do gramado. Assim o Grêmio jogou nesta rodada do Brasileiro disputada entre a desclassificação da Libertadores e a semifinal da Copa do Brasil. Parte do time titular estava em campo, mas não no jogo. A impressão é de que o passe demorava mais do que o normal para chegar ao colega, o deslocamento era mais lento do que costumamos fazer e a marcação mais distante. Haja vista que mesmo com o domínio total da bola, os chutes a gol, especialmente no primeiro tempo, foram raros —- substituídos por uma sequência de cruzamentos na área, sem conclusão. Em um deles, deu-se o contra-ataque adversário que resultou no gol. 

Nada do que disse até aqui significa que o time não se esforçou. Ao contrário, conseguiu se superar quando perdeu Kannemann, expulso aos sete minutos do segundo tempo. Pareceu-me que o cartão vermelho serviu de despertador e fez o Grêmio se jogar para frente, a ponto de conseguir pênalti que foi bem convertido por Pepê. A propósito: depois daquela sequência ruim na retomada do Campeonato Brasileiro, tenho a impressão de que o nível das cobranças melhorou consideravelmente.

Uma vitória nesta rodada não seria redentora, mas tornaria o ambiente melhor — no mínimo faria com que alguns “torcedores” de rede social deixassem de encher o saco. O peso da desclassificação da Libertadores —- da forma como ocorreu —- está claramente sobre o ombro dos jogadores. Em alguns mais do que outros. Jean Pyerre está cabisbaixo. Sentiu o golpe. E Renato certamente está a aconselhá-lo porque sabe que o talento de nosso camisa 10 é fundamental para subirmos o nível do futebol e chegarmos a final da Copa do Brasil.

O empate, levando em consideração como foi construído, não é ruim —- longe do desastre que alguns tentaram impor. O Grêmio ainda está na disputa do G4 no Brasileiro e mostrou, após a expulsão, o poder de reação de um time ainda abalado. Um time que tem muito futebol para jogar e precisará fazê-lo já na próxima quarta-feira. Eu confio — e isso não é um impressão.

Avalanche Tricolor: uma carta ao Greg

Santos 4×1 Grêmio

Libertadores — Vila Belmiro, Santos/SP

Thaciano comemora o único gol do Grêmio, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Greg,

Há três anos, nesta mesma data, estávamos juntos a caminho do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Em algumas horas, disputaríamos a final do Mundial de Clubes contra o Real Madrid. Em um momento daquela caminhada, diminuí o passo e você e o Lô seguiram firme em direção ao estádio. Ver os dois vestindo a camisa tricolor com o nome do vovô às costas, em uma homenagem àquele que nos colocou nesta jornada mas que já não tinha mais condições de estar ao nosso lado naquela aventura, foi uma das mais belas imagens que o Grêmio me proporcionou em todos esses anos em que sou um fanático torcedor.

Você e o mano, lado a lado, felizes pela oportunidade que nos foi proporcionada de disputar uma final de Mundial —- mesmo admitindo a superioridade do rico futebol europeu —-, foram o meu troféu. Qualquer que fosse o resultado daquele partida, eu já me sentia vitorioso e recompensado por todos os tempos de sofrimento que enfrentei na minha infância e adolescência. Imagine que só soube o que era ser campeão, quando já estava com 14 anos, e o título que conquistei naqueles tempos era um Estadual — igual a esse que ganhamos em 2020. A primeira taça nacional só venho quando estava com 18 anos. E as duas primeiras internacionais, aos 20 anos.

Nesta noite de quarta-feira, em que desperdiçamos a oportunidade de estar em outra semifinal da Libertadores, mais do que para o jogo, perdido nos primeiro segundos, olhei para você ao meu lado, no sofá e diante da televisão. Pode parecer estranho o que vou dizer. Ver sua reação, seu incômodo frente a malemolência da nossa marcação, esbravejando pela bola perdida, maldizendo o jogador que errou o passe, o chute, o escanteio, o cabeceio, o bote … tudo isso me fez sentir uma ponta de alegria. Orgulho. Não pelo time. Por você.

Hoje, você, Greg, me fez reviver o Miltinho das arquibancadas de cimento que seguia para o Olímpico de mãos dadas com o pai — o vovô. Que mesmo ciente do tamanho e da impossibilidade de vencer o desafio que se avizinhava, caminhava com convicção para o campo. Que vibrava a cada lance, apesar dos pesares. Que ficava a espera do milagre, mesmo sabendo que o que precisava era de um futebol mais bem jogado. Que suava a camisa de nervoso. Que molhava a camisa de tanto chorar. Que era consolado por amigos, pelo pai —- o vovô —-, pelo técnico e até por jogadores no vestiário. Em seu benefício e antes que seus amigos leiam esta Avalanche, registro que você não chegou a chorar como eu, mas sofreu tanto quanto.

Posso lhe garantir: aqueles eram tempos bem mais difíceis. Hoje, o Grêmio só se dá o direito de perder como perdeu —- diante de um grande time de futebol —-, porque se credenciou e se acostumou a disputar finais das principais competições nacionais e internacionais. Foi assim ano passado na semi; foi assim agora nas quartas da Libertadores. E muitas outras vezes sofreremos juntos pelo revés alcançado, porque não nos contentamos com posições intermediárias. Queremos sempre estar no topo. Com os vencedores. Entre os maiores do Brasil, da América e do Mundo.

E se queremos sempre mais e mais, saiba que é preciso apanhar, sofrer, errar, encarar a derrota … chorar se preciso —- eu choro agora enquanto escrevo. E amanhã acordar, juntar os trapos, ser resiliente à corneta do inimigo e dos amigos, aguentar firme, forte e crente de que somos capazes de dar a volta por cima. Porque somos gremistas e Imortais, graças a Deus — e ao vovô.

Avalanche Tricolor: … dito isso, vamos ao que interessa

Goiás 0x0 Grêmio

Brasileiro —- Estádio Hailé Pinheiro, Goiânia/GO

 

Ferreirinha de olho na bola em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Era jogo para três pontos, a despeito termos apenas cinco titulares em campo, ser fora de casa e contra adversário desesperado para sobreviver na primeira divisão. Quem assistiu ao primeiro tempo, chegou a imaginar que a vitória estava a alguns centímetros —- duas ou três bolas passaram bem perto do gol. Bastaria caprichar um pouco mais. Veio o segundo tempo e logo se percebeu que o caminho seria mais longo, tanta era a aglomeração na proximidade da área. Buscou-se algumas soluções, arriscou-se jogadas de toque de bola, chutes de fora e até acreditamos na possibilidade de um drible de Ferreirinha decidir o jogo. Nada do que se fez foi suficiente para impedir que registrássemos nosso 11º empate no campeonato.

Com o amontoado de clubes na zona da Libertadores, sairemos dessa rodada abaixo da posição que entramos, mas com as mesmas chances dos demais. Uma vitória na sequência e estaremos de volta à disputa. Por mais que nossas pretensões tenham sido frustradas neste sábado à noite, chegamos a 18 jogos sem derrota somando Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores —- uma boa marca, você haverá de convir.

Dito isso, vamos ao que interessa: quarta-feira tem mais uma decisão de Libertadores pela frente e a ideia é que tenhamos time completo para disputar vaga à semifinal —- e quando falo em time completo, leia-se com Jean Pyerre, que faz uma baita diferença. Uma vitória nos mantém na competição. Um empate com dois gols ou mais também garante a classificação. Se o empate for em um gol, leva a decisão para os pênaltis Qualquer coisa diferente disso …. melhor nem pensar.

Avalanche Tricolor: faz assim, não, que eu apaixono

Grêmio 1×1 Santos

Libertadores — Arena Grêmio

Diego Souza marca nos acréscimos, foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Não me faz sofrer, não! Joga, Grêmio, como tu sabes jogar. Respeita o adversário, sem desrespeitar o jeito bonito que gostamos de ti ver jogando. Segura a bola o quanto puder, vai na boa, não arrisca, mas não me faz sofrer, não Troca passe lá atrás, leva para frente, se movimenta no ataque. E chuta uma, duas, três, quantas vezes precisar para me fazer comemorar o teu gol.

Faz quanto tempo que sofremos juntos? Desde que me conheço por gente, com certeza. Então, pra que estender este sentimento por 180 minutos se tudo pode ser resolvido nos primeiros 90? Mas tu parece que gostas de me ver sofrer, não é?!? Precisa tomar um gol ainda no primeiro tempo, bobear na defesa, errar passe no meio mais do que o normal, ameaçar uma expulsão no ataque e levar um, dois, três sustos na sequência. 

Deixa pra resolver tudo depois. Nos acréscimos. Na partida de volta. Como foi ano passado nas quartas-de-final. Como tantas outras vezes nessa nossa longa convivência. Nem posso reclamar muito, porque hoje ainda te saístes bem com o gol de pênalti, além da hora. Ah, isso, também. Já que era para empatar tinha que ser desse jeito, né?!? Sofre-se porque o árbitro não enxergou a irregularidade. Sofre-se porque o VAR demora para convencê-lo da penalidade. Sofre-se porque é pênalti, e, neste ano, convenhamos, não tem sido o melhor caminho para chegarmos ao gol. 

Parece até que tu sabes que por mais que eu te peça “não me faças sofrer”, foi assim que fui forjado na tua torcida. Foi padecendo na arquibancada de cimento e nas cadeiras de ferro frio do Olímpico. Foi ao lado do radinho de pilha, lá na Saldanha. Foi diante da TV —-  como nesta noite de quarta-feira. Foi na sofrência de cada lance mal lançado, de cada bola desperdiçada e de resultados impossíveis alcançados. No gol marcado no minuto final, que me faz acreditar mais uma vez na volta por cima. Parece até que tu saber que foi assim que me apaixonei por ti.