Avalanche Tricolor: o som das vaias

 

 

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

Gremio x Flamengo

Pepê em jogada de ataque, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foram tempos difíceis os que vivemos no início dos anos de 1970. Os campeonatos se sucediam e as derrotas se acumulavam. Nem estadual nem nacional. Jogar fora do país, apenas em amistosos. A pressão das arquibancadas era intensa. Derrubava-se técnico, trocava-se cartola e a vaia se misturava ao som da corneta de ar comprimido, marca registrada de nossa primeira torcida organizada, a Eurico Lara.

 

Lembro de um jogo pelo Campeonato Brasileiro, em 1975 —- acredito que tenha sido contra o Sport/PE —, em que torcedores revoltaram-se contra nosso time e passaram a explodir rojões próximo a casamata, onde ficavam o técnico e os reservas. Eu estava ali, ao lado deles enquanto os foguetes ensurdeciam nossos ouvidos e colocavam em risco a saúde de todos que estivessem à beira do gramado.

 

Apesar de muito guri, travestido de gandula, auxiliava Ênio Andrade levando e trazendo instruções para a equipe. Foi invenção dele, um dos maiores técnicos que o Brasil já teve e meu padrinho por adoção. Seu Ênio —- assim como todos os treinadores de futebol da época — não podia sair do banco de reservas, então criou a função de “pombo correio”, para a qual fui convocado e aceitei como um soldado diante de uma missão de vida.

 

Ao longo das partidas, seu Ênio me chamava, passava as orientações e eu caminhava até atrás do gol de Picasso, nosso goleiro, e transmitia o recado. Foi quando aprendi como é difícil a vida de treinador. Você dizia uma coisa e o time imediatamente fazia outra.

 

Naquela partida, foi triste ver que o time não andava como queríamos. E a torcida não perdoava. Vaiava. Gritava contra nossos jogadores. E passou a protestar com rojões. Saímos de campo protegidos pela polícia militar e assim que cheguei ao vestiário, comecei a chorar e fui consolado pelo abraço de um dos meus grandes ídolos, Yura. Ele chorou, também.

 

Minha tristeza não estava no resultado negativo e em mais um campeonato sem título, mas ao ver os torcedores do meu time protestarem daquela maneira. Para mim sempre foi muito frustrante ouvir a vaia do torcedor contra seu próprio time. Nunca gostei da ideia de atacar aqueles que vestem nossa camisa, por mais que muitos que a vestiram tenham feito por merecer.

 

Lembrei-me desta história ao longo do jogo dessa tarde, em Porto Alegre.

 

Ao menos dois dos nossos jogadores foram vaiados intensamente, André e Michel. Longe de imaginar que eles mereçam aplausos pela performance nesta temporada — especialmente nosso atacante deixou a desejar. Mas a vaia em um momento como o que estamos vivendo me parece injusto com o time. Pois, com certeza, mesmo que dirigida a um ou a outro atleta, sensibiliza o grupo e não faz justiça a tudo que eles, como grupo, já nos ofereceram de alegria.

 

Nós torcedores estamos sempre em busca de um bode expiatório e assim que o identificamos personificamos nele nossas fraquezas e frustrações. O time não ganhou, culpa dele. Jogou mal, é dele, também. Venceu mas não levou o título —- ah, se não fosse ele! É a justificativa que encontramos para não assumirmos que o adversário possa ser superior a nós.

 

Apesar de nossa vaga para a Libertadores do ano que vem ainda estar sob nosso controle, o resultado desta tarde não me deixou feliz. Lógico que não! Quero ganhar sempre. Mas foi o som das vaias que me entristeceu neste domingo.

 

É provável que muitos desses que estavam por lá reclamando nas arquibancadas da Arena não tenham ideia do que foram aqueles primeiros anos de 1970, no estádio Olímpico.

Avalanche Tricolor: lição (fora) de casa

 

Chapecoense 0x1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó/SC

 

Gremio x Chapecoense

Luciano marca de bicicleta, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em cinco jogos, cinco vitórias. Essa é a campanha do Grêmio desde que foi obrigado a se dedicar exclusivamente ao Campeonato Brasileiro. Nessas cinco rodadas, tinha um objetivo traçado, o qual está cada vez mais próximo, apesar de ainda não estar confirmado: voltar pela porta da frente a Libertadores. Para isso, precisa estar entre os quatro primeiros colocados até o fim do Brasileiro.

 

Sabia que para alcançar a meta precisaria recuperar os pontos deixados no meio do caminho quando ainda tinha foco em outras competições.  E passou a fazê-lo, jogo após jogo. O que interessava era a vitória. Algumas vieram com tranquilidade, outras com emoção e ainda houve as com sofrimento. Seja como for, fez a  lição de casa (e fora de casa, também) e contou com a ajuda de adversários diretos pela classificação que tropeçaram aqui e acolá. 

 

Desde o meio de semana, ocupa espaço no G4 e encerrou mais uma rodada com a posição consolidada. Terá jogos difíceis daqui até o fim do Campeonato e, por isso, essa sequência de vitórias foi importante, mesmo que na de hoje tenha resumido seu desempenho aos dois primeiros minutos de jogo — e que dois minutos incríveis foram aqueles. 

 

O gol de Luciano — que parece começa a se sentir mais à vontade na equipe — foi genial tanto quanto oportuno. Após a cobrança de escanteio e o cabeceio de David Braz, nosso atacante acertou uma bicicleta dentro da pequena área. Falo de o gol ter sido tão genial quanto oportuno porque desconstruiu com o ânimo e a energia do adversário, acostumado a pregar peças no Grêmio em outras épocas. Por exemplo, no primeiro turno, em casa, empatamos em 3 a 3. Lembra?

 

Do gol em diante, tive a impressão de que o Grêmio não via hora de a partida acabar —  como se já tivesse feito a lição (fora) de casa pedida pelo professor. Arriscou algumas jogadas no ataque, manteve a bola no pé enquanto pode e se esforçou para reduzir os danos lá atrás. Depois dos riscos que corremos na partida do meio da semana, quando também havíamos aberto a vantagem logo no início da partida, era bom não bobear. 

 

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: foi sofrido mas foi gostoso

 

 

Grêmio 2×1 CSA
Brasileiro — Arena Grêmio

 

Gremio x CSA

Everton deu passe para os dois gols Foto de LUCASEUBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dias difíceis e ocupados esses últimos que vivi. Seja pelo excesso de compromissos, seja pela densidade do noticiário. Nesse escaninho —- o do noticiário —-, tivemos PEC para colocar a Previdência de estados e municípios no prumo, tivemos PECs para por a conta do estado brasileiro no rumo, tivemos leilões de petróleo para embolsar uma grana —- e entrou menos do que calculavam —- e tivemos votos para liberar geral —— ops, liberar aqueles que a Justiça disse que meteram a mão no nosso bolso e reservaram uma parte para contratar bons advogados que vão recorrer até o juízo final.

 

No escaninho dos compromissos, ocupado por causas bem mais nobres, vivenciei experiências incríveis, como falar para uma centena de jovens que estão entrando no mercado de trabalho ou pretendem fazer isso assim que a economia der uma melhorada —- o que fiz nessa quinta-feira, patrocinado pelo CIEE, em Goiânia. Ou falar com profissionais, gestores e empresas sobre a importância de se investir na diversidade, como fiz na quarta-feira na HSM Expo Management, a convite da CBN.

 

Coloque na agenda de compromissos —- e nesse caso nem tão ricos assim —- os transtornos proporcionados pelas companhias aéreas que chegam atrasadas para levar você a algum lugar e se atrasam ainda mais para entregar você naquele lugar. Foi assim no fim de semana passado quando estive em Porto Alegre. Foi assim na noite de quinta-feira quando estava em Goiânia. Por coincidência, com o patrocínio da mesma empresa aérea. Estaria na hora de repensar minha fidelidade?

 

Diante da agenda atribulada e das encrencas aéreas, apenas consegui me recuperar agora à noite quando lembrei que não havia cumprido com o compromisso de compartilhar minhas sensações e pensamentos com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Nosso Grêmio … melhor, o meu Grêmio havia jogado na noite passada e eu sequer havia aberto um post neste blog para exaltar nosso resultado.

 

Com os transtornos aéreos, fui levado a assistir à primeira parte do jogo de quinta-feira à noite na tela do meu celular. Até onde a prudência me permitiu, mantive o celular conectado a bordo. E tive o privilégio de assistir a um início de jogo arrebatador que culminou com o primeiro gol, após uma escapada veloz de Everton, um passe preciso dele e o arremate final de Diego Tardelli. Parecia o inicio de uma goleada, o que o tempo provou ser uma ilusão.

 

Após o piloto do voo usar de todas as estratégias para chegar à capital paulista antes de o aeroporto de Congonhas fechar —- o que nos obrigaria a aterrisar em Guarulhos, que representaria ao menos mais uma hora e meia de atraso para estar em casa —, voltei a acessar meu celular e conferir o que imaginava ser a goleada gremista. Foi quando descobri que havíamos passado por momentos de “sofrência” inimagináveis, se levarmos em consideração a superioridade técnica de nosso time em relação ao adversário.

 

Depois de sofrermos o empate em cobrança de falta quase no fim do jogo, Everton foi audacioso, mais uma vez. Partiu para cima do adversário, desvencilhou-se do marcador e cruzou uma bola traiçoeira para a área. Luciano forjou um cabeceio, mas quem acertou em cheio foi seu marcador que desviou a bola para dentro do gol.

 

Foi sofrido, mas foi gostoso. O jogo e a semana.

 

Ainda bem que já chegou o fim de semana.

Avalanche Tricolor: te mete com eles!

 

Grêmio 2×0 Inter
Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

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Pepê, Rômulo, Geromel e Matheus em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O domingo estava apenas começando e o movimento no entorno da Igreja do Menino Deus era grande. Tinham fiéis a caminho da missa das 10 e uma gurizada acompanhada por pais, tios e avós que seguiam na direção da Escola São Francisco, que fica logo atrás e onde, pelo que percebi, haveria alguma competição esportiva. O guri mais à minha frente estava de mãos dadas com o pai e a mãe, com toda a parafernália de um promissor craque. Em seguida vinham os avós que ouviam o neto falando alto provavelmente do que pretendia fazer assim que a bola começasse a rolar. “Te mete com ele!”, ouvi a vó dizer para o vô, em tom de orgulho e com um sotaque típico da terra.

 

“Te mete com ele!” soa espanhol e quando dito no ritmo desgarrado da fala do gaúcho se revela um alerta para que os atrevidos fiquem à distância. É uma demonstração de confiança no outro. Mas pode ser entendido também como um desafio: pode vir que ele está pronto para encarar qualquer bronca.

 

Fui à missa, enquanto a família ficou no portão de ferro da escola. Mas a voz da vó ficou nos meus ouvidos. “Te mete com ele!” me acompanhou no churrasco com a família, na casa da Saldanha, e no caminho para o aeroporto, de onde partiria de volta a São Paulo. Permaneceu na minha cabeça mesmo diante da frustração provocada pela companhia aérea que levou para o Salgado Filho um avião com 50 lugares a menos do que o previsto e atrasou o vôo por mais de uma hora e 15, desacomodando alguns passageiros e incomodando a todos.

 

Frustrou-me porque havia programado o desembarque em São Paulo a tempo de chegar em casa e assistir ao Gre-Nal na televisão —— antes que você pergunte, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, meu compromisso na CBN me impediria de ir ao jogo na Arena no fim do domingo, mesmo estando em Porto Alegre. Com o atraso, passei a maior parte do jogo no ar e somente quando o avião tocou a pista de Congonhas pude conferir o gol de Geromel, marcado de cabeça ainda no primeiro tempo. Disseram, também, que ao lado de Kannemann, o nosso Mito colocou o ataque adversário no bolso e fez com que Paulo Victor assisti-se à partida de graça. Te mete com ele, logo pensei enquanto puxava a bagagem.

 

Não demorou muito para perceber pela narração esportiva que o Grêmio dominava o Gre-Nal a ponto de levar o goleiro deles a cometer o suicídio em campo.

 

Soube ainda pelos comentaristas que àquela altura Matheus Henrique já havia colocado a bola embaixo do braço e comandado a vitória, sem errar passe, se desvencilhando da marcação dura e deixando seus companheiros em condições de gol. Te mete com ele, balbuciei comigo mesmo, fazendo com que o passageiro que estava à minha frente olhasse para trás na tentativa de entender o que eu dizia.

 

O Grêmio ainda faria o segundo gol assim que Pepê, em sua primeira jogada, alucinava seus marcadores e encontrava Rômulo, que também entrara no segundo tempo, chegando para marcar um golaço em pleno Gre-Nal. Logo ele, tão criticado, tão sofrido nesses últimos tempos. Te mete com ele, agora! — falei sorrindo com a motorista de táxi que me levava para casa. E não entendeu coisa nenhuma.

 

Quando cheguei ao meu destino, o jogo já havia acabado. A alegria estava no meu rosto. E a imagem daquele guri acompanhado pelos pais e avós a caminho do futebol se mantinha na minha cabeça. Ele era Geromel, se preparando para bater bola nos campinhos da Vila Maria; era Matheus Henrique, desfilando talento aos sete anos na várzea, em Paradas de Taipas; era Rômulo, correndo descalço atrás da bola, em Picos; era cada um daqueles jogadores que um dia sonharam jogar futebol e vestiram a camisa do Grêmio neste domingo de Gre-Nal.

 

Te mete como eles!

Avalanche Tricolor: se ele falou, tá falado!

 

 

 

 

Vasco 1×3 Grêmio
Brasileiro — Estádio de São Januário, RJ

 

 

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Renato em destaque na foto do GRÊMIOFBPA, no Flickr

 

 

Tem quem não goste dele. Acham que fala de mais. Marrento, costumam chamá-lo. Um falastrão, criticam outros. Há quem entenda nas palavras dele à imprensa recados apenas para animar seus jogadores no vestiário.

 

 

Digam o que quiserem, Renato é genial.

 

 

Na noite desta quarta-feira, mais uma vez ele mostrou o que alguns dizem ser a “estrela” de Renato. Para mim, é visão de jogo mesmo. Atrevido, tanto quanto era como jogador, mexeu no time ainda no primeiro tempo, antes da primeira meia hora de partida. E quando o fez foi para substituir um marcador por um atacante. Sabia que precisava de mais intensidade lá na frente se realmente quisesse fazer valer sua promessa da semana passada de que o Grêmio estará na Libertadores 2020.

 

 

Trocou Michel por Pepê e o guri maluquinho correspondeu — como, aliás, tem feito uma partida atrás da outra, inclusive contra esse mesmo adversário, no primeiro turno, quando marcou os dois gols da nossa vitória. Depois de forte pressão gremista, aproveitou um chute de fora da área para empatar o jogo.

 

 

O intervalo ainda não havia chegado e Renato já estava fazendo sua segunda substituição. Perdeu Thaciano machucado. Sua escolha foi por outro guri, Darlan — que teve personalidade para colocar a bola embaixo do pé, organizar o meio de campo e trocar passes com seus companheiros. Que baita jogador, disse um dos comentaristas da televisão.

 

 

Mal iniciado o segundo tempo, a escolha de Renato mais uma vez correspondeu. Foi  Darlan quem desarmou o adversário no meio do campo e deu início à jogada do segundo gol, marcado por Everton — o endiabrado Everton.

 

 

O Grêmio de Renato, mesmo tendo sido escalado sem sete dos jogadores considerados titulares — alguns fora por suspensão e outros por lesão — e saído atrás no placar, não apenas virou a partida e ampliou a diferença com um gol de pênalti, sofrido e marcado por Luciano, como, também, dominou o jogo. Fez de São Januário sua casa. 

 

 

Ao fim da partida, o Grêmio já aparecia na quinta posição do Campeonato Brasileiro. Mesmo que possa haver alguma mudança com os resultados dessa quinta-feira, o justo e o certo é que Renato está cumprindo com sua palavra. Ele garantiu que o Grêmio estará na Libertadores novamente. E se ele falou, tá falado!

Avalanche Tricolor: sem jamais perder o prazer de jogar bola

 

 

Grêmio 3×0 Botafogo
Brasileiro — Arena Grêmio

 

 

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Fotos: Itamar Aguiar/Agencia Freelancer – Flickr: GrêmioFBPA

 

Havia uma espécie de ressaca da Libertadores no ar. Os gremistas não eram mais de 10 mil na Arena —- muito pouco para uma partida disputada no meio da tarde de domingo. Em campo, percebia-se o constrangimento de alguns jogadores em encararem a volta ao gramado. Disse constrangimento, jamais diria medo.

 

Considerando que somos um time e uma torcida que nos acostumamos a vencer nesses últimos anos — de Gaúcho a Libertadores, de Copa do Brasil a Recopa Sulamericana —-, este domingo não poderia ser diferente, depois do que aconteceu no meio da semana. Estávamos encabulados. Receosos.

 

Pensando bem, o reencontro precisava mesmo ser assim — como um relacionamento amoroso que às vezes enfrenta revés e as partes sabem que se amam e precisam pedir desculpas uma para a outra.

 

Se havia alguma dúvida sobre os sentimentos que ecoavam no vazio das cadeiras da Arena, as palavras do capitão Maicon ao fim do primeiro tempo explicavam muito bem o momento pelo qual o Grêmio passa. Ele foi o autor do gol que abriu o placar e a defesa adversária, logo cedo; além de ter tomado conta do meio de campo com passes bem colocados, assistências qualificadas e uma gana que se revelava sempre que algo não dava certo.

 

“Quando ganha não está tudo certo e quando perde não é terra arrasada. Jogo a jogo nós vamos retomar o nosso lugar. Precisamos acreditar na força da nossa equipe. Estamos sempre brigando por títulos. E esse ano não foi diferente. Temos um objetivo e vamos buscar” — disse Maicon.

 

As palavras do capitão também sinalizaram que o grupo está consciente que só existe uma maneira de superar a tristeza da desclassificação da forma como ocorreu: voltar a joga bola, muita bola.

 

Foi o que se fez no segundo tempo, quando aceleramos o passe, criamos com intensidade e forçamos o adversário a errar até sairem o segundo e o terceiro gols que garantiram nossa vitória. Um de Thaciano e outro de Everton.

 

Talvez demore um pouco. Talvez sequer duas rodadas — até porque no próximo domingo nós teremos o clássico regional. Seja lá qual for o tempo necessário, tenho certeza de que a simbiose criada entre time e torcida voltará. Porque jamais devemos perder o prazer de jogar bola assim como o de assistir ao bom e vitorioso futebol do Grêmio.

Avalanche Tricolor: incontestável, meninos

 

Flamengo 5×0 Grêmio
Libertadores — Maracanã, RJ

 

Gremio x Flamengo

Everton em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Meninos,

 

Vocês nunca viveram o que vivi. Não sabem o que foram os anos na fila sem um só campeonato para comemorar. Em uma época em que os campeonatos se limitavam a um só —- ao estadual. Nosso horizonte não se estendia além da fronteira do Rio Grande. Era ser campeão gaúcho ou não se era nada.

 

O pai passou por longos e intermináveis anos sem um só título. Sofrendo no cimento do Olímpico. Amargando o sabor da sequência de derrotas. Chorando no ombro do vô. Era ele quem me abraçava, passava a mão no cabelo molhado pelo suor, beijava minha testa e sempre tinha uma palavra de consolo. Sempre era capaz de me estimular a acreditar que no ano que vem seria diferente. Foi um ano, foram dois, três, quatro …. oito anos sem qualquer motivo para comemorar.

 

Nas manhãs após a derrota, eu acordava e pedia para a mãe para não ir a aula. Alegava uma dor no estômago. Uma indisposição qualquer. Ela, solidária, me mandava de volta para a cama com olhar de compaixão. Compreendia que a dor era no coração. Um coração apaixonado e forjado no sofrimento.

 

Vocês, meninos, nunca viveram o que vivi.

 

Quando apresentei o Grêmio a vocês já não cabíamos mais no Rio Grande. Havíamos conquistado o Brasil, a América e o Mundo. Verdade que o primeiro título que festejamos lado a lado foi aquele da Batalha dos Aflitos —- mesmo assim vocês só se aprochegaram ao time no momento mais épico da temporada. Não tiveram a amargura de ver nossa camisa nos campos da Segunda Divisão.

 

Vocês, meninos, descobriram o Grêmio quando a Imortalidade já havia migrado do hino para a nossa história, com vitórias incríveis, impossíveis. Por isso, não devem ter entendido bem o que aconteceu nessa quarta-feira, no Maracanã, especialmente depois dessa sequência de anos em que nos acostumamos a dar a volta olímpica, levantar troféus e comemorar títulos após títulos. Como é possível perder de forma tão acachapante como nesta semifinal? —- imagino que seja o que passa na cabeça de vocês nesta noite quando me olham em silêncio. Respeitosamente.

 

Meninos, vocês não viveram o que eu vivi.

 

E por viver o que eu vivi, posso lhes dizer com toda a segurança que o resultado desta noite foi a vitória de uma equipe que soube ser superior —- muito superior —-, que investiu muito mais do que qualquer um dos seus adversários, que se estruturou para chegar onde chegou, que pensou grande e jogou como os grandes. Uma equipe que merece nosso aplauso pelo que faz.

 

A superioridade neste momento é incontestável, meninos. E reconhecer essa superioridade é necessário, por mais dolorosa que uma derrota como esta possa ser para cada um de nós —- para o pai principalmente, né!

 

Agora, se tudo que vivi com o Grêmio até hoje realmente valeu a pena — seja vibrando, seja sofrendo, seja chorando —- é porque aprendemos no revés, identificamos as falhas, soubemos levantar a cabeça, corrigimos os erros e fomos resilientes ao enfrentar os piores de nossos momentos. E assim será mais uma vez, tenho certeza — mesmo que hoje eu esteja me sentindo como aquele menino, lá dos tempos de Porto Alegre, com vontade de pedir licença para a mãe para não sair da cama e esperar a dor passar. 

 

Avalanche Tricolor: acabou o faz de conta

 

Fortaleza 2×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

 

GRÊMIO x FORTALEZA

 

Lá se foram quase três semanas em que fizemos de conta que estávamos mesmo preocupados com o Campeonato Brasileiro. Comemoramos uma goleada, festejamos a aproximação do G4, desdenhamos de um empate e desgraçamos alguns dos nossos em duas derrotas. Criticamos bolas mal divididas, passes curtos demais, a demora para chegar na marcação e os gols desperdiçados. Cruzamos os dedos para que nenhuma lesão ocorresse e pedimos aos céus para que os lesionados se recuperassem.

 

Reclamamos do juiz e do VAR como se os erros deles mudassem nosso destino nesta temporada. Maldizemos os adversários apenas porque fizeram sua parte —- sem entender que eles não tem outra coisa a fazer neste ano do que jogar toda sua sorte e suor no Brasileiro.

 

Fizemos até projeções para a quarta-feira que vem com base no que assistimos em campo nesses dias todos —- como se não soubéssemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Arriscamos falar em mudança de posicionamento, troca de jogadores e experiências nunca antes experimentadas na esperança de que algo mágico seja capaz de nos garantir a classificação à final da Libertadores.

 

Passamos todo esse tempo entre uma decisão e outra com conversas diversionistas, enganando a si próprio, neste jogo de faz de conta apenas para disfarçar a tensão diante do que realmente nos interessa. E o que nos interessa é a Libertadores. É a decisão desse meio de semana que pode nos colocar em uma final inédita de jogo único, disputada em campo neutro contra um argentino qualquer que se capacite a chegar até lá, também.

 

Nada do que aconteceu nesses dias que se passaram foi suficientemente significativo para nos dar a resposta que buscamos e o resultado que almejamos. Acreditar que o intervalo entre as duas decisões seria definitivo é não entender a maneira de ser do Grêmio. Não lembrar do que já fomos capazes de fazer nesta mesma temporada.

 

Refresque sua memória. Pense nos prognósticos da fase de grupos da Libertadores quando emendamos um tropeço atrás do outro e muita gente já nos considerava carta fora do baralho. Em três jogos, apenas um ponto. Nos três seguintes, três vitórias e a classificação. Nas oitavas até que foi fácil, com um 5 a 0 contra o Libertad, no placar agregado. Nas quartas, porém, perdemos em casa, e na casa do adversário saímos atrás no placar.

 

Fizemos um primeiro jogo ruim na semifinal da Libertadores, em especial no primeiro tempo. E mesmo assim, chegamos vivos e fortes para a segunda partida, graças aquele gol aos 42 minutos do segundo tempo, de Pepê —- quando mais uma vez muita gente já previa o pior.

 

Nosso desempenho até aqui não nos dá nenhuma garantia de que seremos competentes a ponto de superar nosso adversário e sua torcida. Assim como nossos resultados até agora não dão a ninguém o direito de desmerecer nossa capacidade. Quem quiser arriscar qualquer palpite que o faça por sua conta e risco. De minha parte, estarei onde sempre estive nesse tempo todo: torcendo pelo Grêmio, sempre, em qualquer circunstância e diante de qualquer adversidade! 

Avalanche Tricolor: que seja passageira

 

Grêmio 0x1 Bahia
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

Gremio x Bahia

Luan em jogada de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Revés nunca é bom. Deixa a gente incomodado. Às vezes tira o humor. Em outras, deixa ensinamentos. Há derrotas que exigem mudanças. Há as que sinalizam caminhos. O importante é ter a dimensão certa de cada resultado que se alcança —- ou se deixa de alcançar. E tudo isso só vale a pena enfrentar se tivermos inteligência de entender a mensagem que está por trás do resultado.

 

Quero crer que a deste início de noite de quarta-feira foi para colocar o pé no chão, uma semana antes da decisão que realmente nos interessa.

 

A sequência de resultados estava sendo boa. As goleadas reafirmaram jogadores. A chegada no grupo da Libertadores demonstrou nossa capacidade —- e deixou uma válvula de escape para o restante da temporada. Mas antes que a confiança se transformasse em prepotência, o placar negativo se acendeu como sinal de alerta —- injusto, é verdade, mas um alerta.

 

Renato haverá de tirar proveito do que aconteceu na Arena, nesta vigésima sexta rodada do Campeonato Brasileiro. Sabe que vai precisar que cada um dos jogadores ofereça 110% de seu potencial, na quarta-feira que vem. E terá uma semana inteira para conversar com a defesa, ajustar seu posicionamento, fechar mais os espaços, calibrar os cruzamentos e dribles, e acelerar o passe e a movimentação dos jogadores do meio de campo para a frente.

 

A despeito do resultado, a única coisa que me preocupa é a cena de Luan deixando o gramado mancando e com cara de dor. Que seja passageira! E os próximos dias sejam suficientes para que ele se recupere. Como já escrevi, Luan é um avião pedindo passagem para decolar na hora certa. 

Avalanche Tricolor: com cheirinho de Libertadores

 

Atlético MG 1×4 Grêmio
Brasileiro — Independência, BH/MG

 

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Festa do segundo gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em dez dias, o Grêmio decide vaga à final da Libertadores. E esse tem sido o assunto preferido de seus torcedores. Não há uma só conversa entre nós que não passe por previsões e expectativas para a partida que se realizará no Rio de Janeiro.

 

Hoje cedo, no passeio pela vizinhança, encontrei dois gremistas no caminho. O roteiro foi o mesmo. Cumprimenta um. Abraça o outro. Fala do tempo —- o calor dominical estava insuportável aqui em São Paulo. O mais gentil pergunta pela família. Mas é tudo subterfúgio. Papo periférico para chegar onde mais gostamos: “e a Libertadores, heim?!?”

 

Por curioso que seja, sequer comentamos sobre a partida que fecharia a rodada do Campeonato Brasileiro, neste domingo. O que não quer dizer que às sete da noite, eu e eles não estávamos diante da televisão para assistir ao Grêmio, em Belo Horizonte. Claro que sim. Até porque jogar bem, ganhar confiança, dar ritmo de jogo ajudam na preparação para a decisão sulamericana.

 

E Renato tem aproveitado bem esse intervalo entre os dois jogos.

 

Verdade que o time escalado hoje não contava com Kannemann, Matheus Henrique e Everton —- os três servem à seleção. Estava sem Jean Pyerre, que segue lesionado, Léo Moura que estava no banco, mas não arriscou sequer aquecer, e Tardelli que ficou de repouso. Por outro lado, se apresentava com Geromel, que dá sinais de total recuperação, Maicon, que faz uma baita diferença no nosso meio de campo, e Luan que parece ser um avião disposto a decolar novamente. Tivemos ainda a oportunidade de assistir a Paulo Victor fazendo defesas importantes, oferecendo segurança e enviando uma mensagem ao torcedor desconfiado: pode contar comigo.

 

Apesar das ausências, Renato levou a campo o esboço do que o Grêmio se propõe a ser independentemente do adversário que esteja enfrentando. Dono da bola, passes precisos, jogadores se movimentando para oferecer opção de jogada, dribles sempre que necessários e muita paciência para decidir cada lance no ataque. Na defesa, a ideia é marcar com intensidade, evitar as faltas, diminuir o espaço dos atacantes e reduzir os riscos de gol.

 

Sofremos mais do que deveríamos, mas soubemos resistir quando a pressão ocorreu —- e isso é um bom sinal. Nossa insistência no ataque foi premiada com um lance de sorte de Galhardo, pela direita, e um pênalti provocado pelo drible de Cortez, pela esquerda —- ou seja, nossos dois alas funcionando muito bem. Depois do revés no fim do primeiro tempo, a conversa de vestiário voltou a ajustar a equipe. E o Grêmio foi veloz para chegar ao terceiro gol com Pepê —- aquele mesmo guri atrevido que saiu do banco e nos colocou de volta à decisão da vaga à final da Libertadores. Deu tempo de marcar o quarto gol, desta vez pela esperteza de Alisson e Luciano, em uma cobrança de escanteio.

 

Com a segunda goleada em Belo Horizonte, neste campeonato, o Grêmio não apenas demonstrou que o time está mais ajeitado para a decisão que nos interessa, como também já está entre os seis primeiros do Brasileiro — o que nos permite sentir o cheirinho de Libertadores, mais uma vez.

 

Pelo visto, esse vai continuar sendo o nosso assunto preferido no ano que vem.