Avalanche Tricolor: o dia do “Não”

CRB 2×0 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Rei Pelé, Maceió/AL

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Se é pra dar errado, que dê tudo errado de uma só vez. Se é pra tomar gol de goleiro, que sejam logo dois. Se é pra fazer pênalti, que façamos dois. Se é pra perder um jogador para o clássico, que seja o melhor. Assim foi o Grêmio nesta noite de sábado, em Alagoas. Nada deu certo! 

Mesmo com a bola no pé produzíamos pouco. Das poucas vezes em que a entregamos para o adversário, foi um Deus nos acuda. 

Na primeira bola, escapamos no bico da chuteira de Rodrigo Ferreira, que já estava praticamente vencido pelo atacante que corria pelas costa dele em direção ao gol. Na segunda, derrubamos o atacante na área. E na terceira, o desastre definitivo. Geromel perdeu a bola na frente e na tentativa de recuperá-la interceptou o chute a gol com o braço. Pênalti, cartão amarelo e suspensão automática para a partida contra o líder da competição. Se é pra dar errado, que o combo seja completo.

Já contei pra você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, da lição que me foi deixada por Seu Ênio Andrade, dos maiores técnicos que estiveram no clube e meu padrinho por adoção. Das conversas que ele tinha com meu pai, na mesa da cozinha do bar que ficava no interior do Estádio Olímpico, regadas a bom whisky, Seu Ênio me ensinou: “tem o dia do sim e o dia do não, Alemão!”. 

No dia do “Não”, a marcação é falha, o passe é incerto, a movimentação é precária, a ambição é nula e os chutes a gol ocorrem por mero acaso. No dia do “Não”, o árbitro até pode ajudar e fazer vistas grossas com o seu  goleiro que defendeu a bola com as mãos fora da área ou voltar atrás e se convencer de que a falta foi dura o suficiente para expulsar o adversário. Nem se tivesse inventando um pênalti a nosso favor, adiantaria. A bola não entraria.

O Grêmio viveu, neste sábado, o dia do “Não” — o dia para ser esquecido como disse ao fim da partida, Rodrigo Ferreira. De consolo, resta outra dessas máximas que ouvia no passado lá no Olímpico, após assistir ao Grêmio treinar mal, com performance aquém do esperado: “dia de pouco, véspera de muito!”, dizia o treinador para dar esperança ao torcedor.

Que assim seja! 

Avalanche Tricolor: a Roger o que é de Roger

Grêmio 5×1 Operário PR

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Roger Machado em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Lá se vão três meses desde o último revés. Não lembro contra quem foi nem perderei meu tempo olhando a tabela para conferir. Coisa ruim a gente esquece. Há quem diga que com as ruins a gente também aprende. Faz sentido. Mas desse aprendizado já tivemos demais na última temporada, portanto fiquemos com o que de melhor tem acontecido neste time comandado por Roger Machado.

Ouço críticos falarem com surpresa da consistência defensiva do Grêmio, algo que não era comum na passagem anterior de nosso técnico à frente do time. Roger aprendeu. Amadureceu. E amadurecido aceitou o desafiou de remontar a equipe e levá-la à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

Nosso treinador sempre foi inteligente e diferenciado na maneira de tratar as coisas do futebol e da vida. Hoje, tem mais experiência para entender limites e oportunidades. 

Ele sabia que o Grêmio precisaria reequilibrar-se, simplificar a maneira de jogar, ter segurança lá atrás, enquanto reerguia-se do meio para frente. Sabia que o Grêmio carregava um peso extra pelo que havia deixado de fazer no ano anterior. Uma vergonha que tirava o sorriso dos jogadores em campo — precisava resgatar neles o prazer de jogar bola. Sabia que a reconquista da confiança viria jogo após jogo, ponto após ponto. Precisaria de paciência para suportar os muxoxos de uma torcida ainda traumatizada. 

Foi assim que Roger recuperou o Grêmio na temporada. Com a calma necessária. Garantindo pontos fora de casa. E fazendo o máximo possível dentro dela. Reposicionando jogadores. Contando com a sustentação de “veteranos” como Geromel e Diego Souza. Agora, tendo a experiência e o talento de Lucas Leiva. 

O Grêmio tem a melhor defesa do campeonato; depois da goleada de hoje, também o melhor ataque; é o time mais disciplinado da competição;  sem perder há 17 jogos, registra a maior invencibilidade do futebol brasileiro, nesta temporada. Fincou os dois pés na zona de classificação e tudo leva a crer que vai além. 

Em campo, não faz apenas resultado —- o que, convenhamos já seria suficiente para as necessidades do ano. Está melhorando a maneira de se portar também quando está com a bola nos pés. Troca passes com mais velocidade e se movimenta com maior rapidez. É um time mais solidário na defesa e no ataque. E com isso ocupa melhor os espaços no campo. Nem sempre a execução sai como o desejado. Tropeços vão ocorrer porque a competição é longa. Mas o bom caminho está traçado. E a Roger tem de ser dado este mérito.

Em tempo, a coincidência no calendário: em 9 de Agosto de 2015, o Grêmio fazia 5×0 no Inter; em 9 de Agosto de 2022, 5×1, no Operário. Nas duas datas, o técnico do Grêmio era Roger Machado. Que o 9 de Agosto se repita mais vezes na temporada.

Leia a Avalanche em que conto o dia que conheci Roger

Avalanche Tricolor: futebol é bola na rede!

Guarani 1×2 Grêmio

Brasileiro B — Brinco de Ouro, Campinas/SP

Villasanti comemora o primeiro gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tem muitas formas de se jogar no futebol. Sei que abrir o texto com essa frase é chover no molhado — e pelo que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche percebe, acordei encharcado de lugar-comum, a começar pelo título da coluna. Mas se abro assim o texto é para me dar oportunidade de distinguir o futebol que o Grêmio jogou no primeiro e no segundo tempo da partida, na noite de sexta-feira, em Campinas.

Nos 45 minutos iniciais, foi muito bom ver a marcação alta, com nossos jogadores pressionando e atrapalhando a saída de bola do adversário. Gostei mais ainda de observar algo que não ouvi muitos dos analistas comentando: a marcação dupla. No meio de campo, a despeito de uma escapada ou outra das quais fomos vítimas, conseguimos barrar boa parte das tentativas de jogada contra o nosso gol. E o fizemos com dois marcadores à caça da mesma bola. Dedicação que faz muita diferença!

Ao desarmar os ataques nos colocávamos em condições de atacar. E quando chegávamos à frente, o time dava sinais de que perdeu a vergonha e o medo de concluir. Às vezes até de forma precipitada, com cruzamentos que, talvez, tivessem de esperar um ataque mais bem posicionado. Se antes havia constrangimento pelo erro em tentar, por mais de uma oportunidade tentamos de fora da área, nos espaços que apareciam.

Foi em uma dessas roubadas de bola e em uma dessas tentativas de fora da área que chegamos ao gol. Villasanti, sempre Villasanti, se antecipou e interceptou a bola pelo alto, encontrou Diego Souza — que se redescobre útil quando sai da área —-, tabelou e antes de a marcação se aproximar bateu. Confesso, desconfiado pelo passado, demorei a crer que a bola havia morrido no fundo do poço (como diria o saudoso pai, Milton Ferretti Jung). Villasanti, não! Ele sabia que havia um só espaço para aquela bola entrar, arriscou nele e, com confiança, outro mérito reconquistado por este time de Roger, marcou.

No segundo tempo, deixamos de lado parte desse jogo, apesar de a marcação mais recuada também ter se mostrado útil com os desarmes no meio de campo e a precisão de nossos zagueiros. Aumentaram os perigos, e Brenno mostrou que está de volta com seu talento e segurança. Já havia feito defesas importantes no primeiro tempo e passou no teste ao qual foi submetido no segundo. Houve queda de rendimento do time, mas em nenhum instante de dedicação. 

Foi por dedicado que fomos que conseguimos no primeiro lance de ataque, já aos 30 minutos do segundo tempo, chegar ao segundo gol. Elkson que havia substituído Diego Souza 15 minutos antes, foi forte o suficiente para superar o marcador e, mesmo derrubado, servir Guilherme que passou com perfeição para a conclusão a gol de Biel. O atacante que muitas vezes foi acusado de desperdiçar seus chutes a gol, bateu firme entre as pernas do goleiro. Bateu com a confiança que o Grêmio reconquistou — reforço essa ideia, porque isso tem feito diferença na campanha pela volta à Primeira Divisão.

Onde quero chegar nessa nossa conversa: por muito vínhamos ouvindo críticas ao fato de o Grêmio não vencer fora de casa. Crítica tão ruidosa que, às vezes, sequer conseguíamos perceber que da mesma forma, há muito tempo o Grêmio não perdia fora de casa — agora estamos há nove jogos invictos como visitante e 16 sem ser derrotado na competição. A sequência de empates no campo do adversário somada  às vitórias na Arena levaram o Grêmio ao G4 e deram consistência ao time na competição. Somos vice-líderes, nos aproximamos do líder em velocidade e nos afastamos do grupo que vem logo atrás em busca da vaga para à Série A.

Consistência, repito, revertida em confiança. Uma confiança que faz o Grêmio acreditar que mesmo quando não performa o melhor futebol — e oscilamos entre o futebol jogado no primeiro e no segundo tempo —, é capaz de fazer aquilo que o futebol pede: bola na rede!

Avalanche Tricolor: assim como o pôr do sol, nem todo empate é igual

Chapecoense 0x0 Grêmio

Brasileiro B — Arena Condá, Chapecó/SC

Lucas Leiva é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O pôr do sol se faz diante da praia onde aproveito os dias de férias, no Ceará. A cena é rara no Brasil, pois temos o litoral a leste, onde o sol nasce — ao menos é assim que nos acostumamos a ver. Lá em Porto Alegre, parada anterior do meu descanso, por exemplo, é famoso o espetáculo nas águas do rio Guaíba, a oeste. 

Assistir ao sol se por no mar só é possível aqui nesta região graças a geografia da vila de Jericoacoara — um desses locais incríveis que encontramos quando decidimos viajar pelas belezas brasileiras. E coisa linda não desperdiço. Por isso, pouco antes das seis da tarde, lá estava eu sentado na areia aproveitando cada momento, desenho e cor que a despedida do sol nos proporciona. Fiquei até o último raio alaranjado desaparecer. Já passavam das 6h15 da tarde (ou da noite).

Foi nesse clima de contemplação que voltei para o quarto onde estou hospedado para assistir ao Grêmio jogar. Logo que a partida se iniciou, às 6h30, cheguei a acreditar na possibilidade de uma vitória fora de casa —- outra coisa rara de se ver, haja vista nosso desempenho nesta temporada. Havia um esboço de time e movimentação que nos fazia melhor do que o adversário. 

Um lance atabalhoado de Bitello, ainda no primeiro tempo, mudou todas as minhas expectativas. Nosso guri se excedeu na vontade e mereceu ser expulso. Menos mal que tínhamos Lucas Leiva na reserva para ocupar o espaço deixado no meio de campo. Por outro lado, Campaz teve de ser sacrificado — logo ele que tem melhorado aos poucos nas últimas rodadas.

Jogar na casa do adversário, com desvantagem numérica e com nosso histórico no campeonato, não era animador. Apesar disso, especialmente no primeiro tempo e no início do segundo, o Grêmio foi firme e forte na marcação; e isso impediu que o adversário se aproximasse do nosso gol. Os riscos apareceram a medida que o time dava sinais de cansaço. 

Ainda assim, nosso setor defensivo foi gigante — como é gigante Geromel que se impôs na área de uma maneira impressionante. Lucas, na frente dos zagueiros, com sua experiência e talento, ajudou bastante a conter algumas investidas; e funcionou muito bem ao lado de Villasanti, enquanto este esteve em campo. 

Gabriel Grando (ex-Chapecó), atuando na terra em que surgiu e diante de parentes próximos, foi firme nas intervenções e providencial na defesa que se fez necessária no último lance da partida.

O Grêmio saiu de gramados adversários com mais um empate. Esse, porém, é um empate diferente dos demais. Tem valor de conquista pela forma como foi garantido. Além de manter-se em ascensão no campeonato, entre os quatro primeiros colocados, chegou há 15 jogos sem perder — a maior invencibilidade dos últimos dez anos, da Série B. 

Além do resultado que foi bom, diante das circunstâncias, deixamos Chapecó com duas ótimas notícias: Geromel terá seu contrato renovado automaticamente até 2023 e Lucas Leiva dá sinais de que entregará muito mais categoria e segurança ao time, especialmente a partir de agora quando deve assumir a titularidade, com a ausência de Bitello.

Avalanche Tricolor: o bom filho a casa torna

Grêmio 2×1 Ponte Preta

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Uma torcida empolgante em foto de Mílton Jung

A casa onde morei ainda está por aqui. Também está a casa onde me descobri. O estádio onde forjei minha personalidade se sustenta como pode, mesmo que aos pedaços — suas linhas são visíveis na vizinhança. Por outros cantos que passeei, na cidade em que nasci, me reencontrei. Porto Alegre está cheia das minhas marcas tanto quanto eu tenho as dela. Nestes primeiros dias de férias, fui apresentado a novos espaços e paisagens que me conquistaram. Cenários recuperados. Outros recriados. 

Nesta toada de saudade e orgulho, de emoção e lembranças, voltei à Arena para assistir ao Grêmio, neste sábado. Fazia pouco tempo que havia estado por lá. E encontrei um clima bem diferente daquele início de campeonato. O torcedor está mais crente das suas possibilidades, apesar das desconfianças de plantão —- comuns para quem vivenciou o desastre de 2021. Ao menos descobriu que, a despeito dos limites do time, sua força será essencial para a retomada do rumo.

Logo que entrei na Arena, ouvi o hino ser entoado, em um coro puxado pelos alto-falantes. Em seguida, outras músicas ecoaram nas arquibancadas, inspirados na cantoria promovida pela turma da Geral. Alguns jogadores, mais do que outros, eram ovacionados. E empurrados pelo incentivo do torcedor. A maioria que estava lá, dentre velhos e adultos, jovens e crianças, queria mesmo é ver o ídolo que a casa torna: Lucas Leiva.

E enquanto Lucas não vinha, o time entregava o que tinha de melhor para o momento: uma intensidade incrível na marcação, velocidade na retomada da bola, e imposição sobre o adversário. Nem sempre tudo isso chega acompanhado do talento querido, mas é o suficiente para empolgar o torcedor.

Que empolgação! Há muito não assistia à torcida do Grêmio cantando quase toda a partida. Vibrando pelas pequenas conquistas. Comemorando lances banais. Emitindo uma energia que impulsionava o time à frente. Com um clima desses nada parecia capaz de nos impedir de chegar ao gol. Chegamos logo aos nove minutos e de forma magistral: um lançamento preciso de Villasanti que surpreendeu o zagueiros e encontrou Diego Souza, em condição legal, dentro da área. A bola morreu no peito dele e de bicicleta foi para o fundo da rede. 

Que explosão! Foi tamanha que muitos sequer perceberam que havia o risco de o gol ser anulado, e seguiram comemorando enquanto havia a checagem da imagem pelo VAR. Nesse ritmo alucinado, a pressão foi ainda maior. E antes de meia hora de jogo, em nova escapada veloz, Ferreirinha chutou no travessão e Campaz completou para o gol.

Quando o segundo tempo chegou, algo estranho aconteceu: mesmo com o time tendo desaparecido em campo, os torcedores seguiam cantando e pulando. É como se ninguém acreditasse que alguma coisa poderia dar errado na tarde desse sábado. O entusiasmo aumentou assim que Roger acionou Lucas Leiva no banco. A comemoração do torcedor era tal que muitos sequer viram que o Grêmio havia tomado um gol na cobrança de escanteio. Mais do que isso: que o Grêmio sofria forte pressão e corria riscos de desperdiçar os três pontos dentro de casa.

Até o apito final, a dúvida sobre o resultado persistia, dados os perigos que nos expomos. De certo, mesmo, só a forma como os torcedores — a ampla maioria deles —- decidiram abraçar o time, fenômeno que tenho identificado há algumas rodadas e, hoje à tarde, se comprovou em plena Arena do Grêmio.

Tive o prazer de vivenciar tudo isso, ao lado de gente querida, amigos e mais de 41 mil torcedores, em Porto Alegre. Voltar para essa casa me remete à felicidade dos tempos de guri, que me faz desejar começar tudo de novo, sempre ao lado do Grêmio, onde o Grêmio estiver!

Avalanche Tricolor:  calma que estamos chegando!

Brusque 1×1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Augusto Bauer, Vale do Itajaí/SC

Villa e Bitello comemoram o gol do Grêmio, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Às vésperas da viagem a Porto Alegre, com uma série de tarefas a realizar, apesar de as férias terem se iniciado há três dias, e com as malas a fazer, ainda deu tempo de sentar à frente da TV e assistir à partida desta noite. Estava apenas cumprindo tabela, confesso. A mente ainda mantinha o ritmo acelerado por uma trabalho intenso, compromissos que não cabiam em apenas uma agenda e um trânsito complicado no início da noite paulistana.

Assisti ao primeiro tempo do jogo do jeito que deu. Na tela do celular,  enquanto me deslocava do último compromisso do dia para a casa — garanto que o fiz com toda a segurança possível. Dei mais ouvidos do que olhos para a partida que rolava na “tv”. E o que ouvia do narrador e dos críticos era crítico. Expectativa zero de sairmos com a vitória em mais um partida fora de casa. 

Foi então, com surpresa, que tive tempo de ouvir o gol que abriu o placar logo no início do segundo tempo — uma jogada com qualidade bem superior a tudo o que havíamos registrado até então e acima daquilo que viríamos a seguir. Ferreirinha e Bitello triangularam, tiveram precisão no passe e completaram para as redes, com um toque sutil entre as pernas do goleiro adversário. 

Pelo visto, foi tudo que conseguimos fazer. E o suficiente para levar mais um empate para casa. 

Há quem reclame da série de empates fora de casa. Haverá de convir, porém, que muito melhor são os empates do que as derrotas “conquistadas” pelos adversários que estão ficando cada vez mais para trás. 

Toda vez que ouço os comentaristas repetirem que “o Grêmio chegou ao oitavo jogo sem vitórias como visitante”, penso que eles esqueceram de lembrar que desses oito somente em um deixamos de pontuar — ou seja, perdemos apenas uma partida fora de casa. Os empates fora de casa têm sido compensados com as vitórias na Arena — foram sete até agora. 

No total, 19 jogos, oito vitórias, nove empates e apenas duas derrotas — suficientes para nos colocarem entre os quatro primeiros que sobem para a primeira divisão, ao fim do primeiro turno do campeonato.

Sábado que vem se inicia o returno quando teremos a oportunidade de enfrentar os adversários mais fortes na Arena. Eu estarei lá na Arena para reforçar nossa torcida. E em campo, teremos Lucas Leiva — que trará talento e maturidade para o meio de campo — e um elenco mais consistente, com a chegada de Thaciano e Guilherme. Roger também está conseguindo fazer com que o time tenha melhor performance, especialmente quando joga em casa. Tudo leva a crer que essa nova etapa será bem melhor, e a primeira divisão ficará ainda mais próxima. 

Calma, gente, nós estamos chegando!

Avalanche Tricolor: sai da frente que atrás vem gente!

Grêmio 3×0 Tombense

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Bitello prestes a marcar seu gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Lá se foram um tanto de horas desde o apito que marcou o fim de mais uma boa partida do Grêmio. Nesse meio tempo, namoramos o terceiro lugar da tabela de classificação pela primeira vez desde o início da “maldita” B, tiramos vantagem sobre os que tentam colocar o pé na zona de classificação e encostamos nos que estão acima na tabela. 

Mais do que isso: chegamos a 12 jogos invictos, cinco vitórias seguidas em casa, tomamos um só gol nas últimas dez partidas e elevamos Diego Souza a goleador da competição, já tendo marcado nove. 

As conquistas não param por aí: se na rodada anterior não titubeei em taxar que “o Grêmio renasce para o futebol”, a distância entre o fim do jogo e o momento em que escrevo essas linhas me dá tranquilidade para afirmar: “sai da frente que atrás vem gente!”.

O Grêmio descobriu o caminho do futebol. Está de volta a triangulação,  sempre demandada por Roger, em que cada jogador que tem a bola no pé encontra dois colegas disponíveis para receber, ampliando o percentual de passes certos — vide as estatísticas de Villasanti e Bitello. Sem a bola, marca próximo da área do adversário e aumenta o índice de desarmes e interceptações. 

Lá atrás, na defesa: #meodeosdoceo. Gabriel Grando ganha maturidade e, na partida, fez defesas difíceis — a primeira logo no início, o que eliminou a possibilidade de iniciarmos a disputa em desvantagem. Os laterais dão sinais de estarem mais seguros, Bruno Alves faz da discrição sua eficiência. E Geromel …. será que ainda tenho palavras para elogiá-lo? O Cara é o melhor jogador da série B, segundo meu coração e as estatísticas do serviço Footstats 12A.

Sim, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, mesmo depois de tantas horas após o fim da partida desse sábado à tarde, meu entusiasmo pelo futebol jogado segue firme e forte. Alguém pode me acusar de ser um iludido — talvez até tenha razão e eu não correrei para negar — mas essa minha sensação diz muito sobre o que Roger está conseguindo construir no comando do Grêmio, aos trancos e barrancos. 

Que venham os reforços! Que cheguem as próximas rodadas! E que essa “maldita” termine logo, porque não vejo hora de assistir ao Grêmio de volta ao seu lugar.

Avalanche Tricolor: o Grêmio renasce para o futebol

Grêmio 2×0 Náutico

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Geromel perfeito como sempre, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Há 17 anos, o Grêmio renascia para o futebol em uma partida que entrou para a história, enfrentando o mesmo adversário desta noite. Na época, foi protagonista de um feito inacreditável que ganhou nome e sobrenome: Batalha dos Aflitos. Daquele tempo, não apenas por coincidência, estavam, hoje, na Arena, Galatto, Anderson e Lucas Leiva. Mais do que eles, estava em campo o mesmo espírito aguerrido de um time que se notabilizou pelos resultados impossíveis, a ponto de ter conquistado o direito de usar “Imortal” como epíteto. E isso foi essencial para a vitória neste fim de sexta-feira que, guardadas as devidas dimensões, também nos fez renascer.

A sequência de partidas invictas e a presença constante nas últimas rodadas na zona de classificação não eram suficientes para o time conquistar a admiração e o engajamento dos torcedores. A qualidade do futebol jogado era sofrível. A bola, maltratada. A vergonha da queda estava na postura dos jogadores que pareciam entrar em campo arqueados. O constrangimento de estar na Segunda Divisão falava mais alto do que o desejo de deixá-la. 

Hoje, depois de um primeiro susto, que não durou muito mais do que três minutos, a postura do Grêmio foi outra. A marcação forte lá na frente sufocou o passe de bola adversário. A precisão das nossas jogadas era visível com a aproximação dos setores, o deslocamento mais rápido dos jogadores e a chegada frequente ao gol adversário. Uma entrega que não se via até então com tanta intensidade, por mais que alguns jogadores se esforçassem para oferecer isso ao torcedor.

Quando se aproximava o fim da primeira tempo, dirimindo qualquer temor de que o que assistíamos era apenas uma ilusão, abrimos o placar com um gol de Ferreirinha, que começa a voltar à equipe depois de longo período de lesão. No segundo tempo, mesmo que o ritmo tivesse diminuído, a ideia de jogo imposta por Roger se mantinha, com alguns jogadores se destacando acima da média, como Villasanti e Biel. Aos 34 da etapa final, após uma sequência de jogadas no ataque, Bruno Alves concluiu de cabeça e ampliou o placar para dois a zero.

Era, sem dúvida, um Grêmio diferente que assistíamos em campo. E o torcedor logo entendeu o recado, oferecendo em troca seu apoio e incentivo. Aplaudiu, cantou e vibrou como nunca nesta temporada. A alegria do futebol estava de volta, mesmo com algumas limitações e deficiências que precisam ser corrigidas. Roger sabe disso e tem se esforçado nesse sentindo, já prevendo o aproveitamento dos reforços que chegam — em especial Lucas Leiva, sim, nosso volante que iniciou sua jornada na Batalha. 

Agora já estamos há onze jogos invictos, seguimos na quarta posição mas já pedindo passagem para os poucos adversários que estão acima na tabela de classificação. O Grêmio ressurgiu para o futebol nesta noite sob o comando de Geromel que tem sido, sem dúvida, o principal jogador desta equipe, pela sua liderança e pela qualidade que desfila nos gramados. O que fez na Arena nesta sexta-feira foi coisa de outro mundo. Colocou os atacantes adversários no bolso, desarmou, deu chapéu, driblou, saiu para o ataque e ofereceu assistência aos seus colegas. Ninguém mais do que ele merecia ver o Grêmio redivivo para o futebol.

Avalanche Tricolor: minha mãe tinha razão!

Bahia 0x0 Grêmio

Brasileiro B – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Grando defende mais uma, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os acréscimos já corriam no cronômetro do árbitro quando a bola veio por cima, pegou a defesa se deslocando e Bruno Alves em uma rara atrapalhada, até aparecer livre no pé do atacante de frente para o gol. A Gabriel Grando restou abrir ao máximo seus longos braços, escancarar as pernas o mais distante que foi possível e diminuir o espaço para o chute. A batida da bola no pé do poste ecoou de Salvador a Porto Alegre e som passou raspando aqui por São Paulo. Acompanhei em silêncio e sem respirar o interminável instante em que a bola percorreu a trajetória entre o pé do atacante e o poste gremista; o silêncio e o momento anaeróbico se mantiveram até ela ser despachada para escanteio por um dos nossos que estava no caminho.

Tomar um gol àquela altura causaria um tremendo estrago para nós que estamos resistido entre os quatro primeiros do campeonato desde que assumimos este posto há três rodadas. Diante das limitações técnicas perceptíveis sempre que a bola começa a rolar, a manutenção no G4, o reduzido número de gols que tomamos — apenas cinco em 16 jogos — e a série de dez partidas invictas são quase uma dádiva dos “deuses do futebol”, como se tentassem se desculpar por não terem nos concedido a benção de “sofrer sem cair” no ano passado — não que tivéssemos feito por merecê-la. 

Justiça seja feita, estar na parte de cima da tabela tem muito a ver com a forma com que Roger decidiu montar o time, considerando o elenco que tinha em mãos. O treinador sabe que não tomar gol e sair de campo sempre com algum ponto no bolso, nas partidas fora de casa, é lucro, enquanto não encontra a formação ideal nem os jogadores apropriados para cada posição. É dele, também, a capacidade de mobilizar o grupo a superar com muito esforço e dedicação a falta de criatividade. 

Tem o mérito de Grando, na partida de hoje — que fez ao menos duas grandes defesas — e de Geromel, em todo o campeonato — nosso capitão é supremo mesmo frente às dificuldades do time. E, claro, se aqui estamos na décima-sexta rodada do Campeonato Brasileiro, devemos muito à máxima que ouvia da Dona Ruth, sempre que eu conseguia me safar de alguma molecagem aprontada lá nas bandas da Saldanha Marinho: “guri, você tem mais sorte do que juízo!”.

O Grêmio, também, mãe! O Grêmio, também! 

Avalanche Tricolor: dia para se ter orgulho

Grêmio 1×0 Londrina

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre

Geromel com a faixa nas cores do arco-íris, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A bola roubada ainda no ataque, o  movimento rápido dos jogadores de frente, o passe com velocidade e precisão e a conclusão estufando a rede estiveram presentes no único e necessário gol do Grêmio, nesta noite de terça-feira. Não tínhamos ainda nem mesmo 15 minutos de futebol na Arena quando a equipe comandada por Roger tomou à frente do placar e dava sinais de que dominaria a partida.  Não foi bem assim que as coisas se desenrolaram, especialmente no primeiro tempo, quando o time deixou de ter a intensidade sempre pedida pelo técnico.

No segundo tempo, por curioso que pareça, a performance foi muita mais próxima daquilo que se imagina para o Grêmio nesta temporada, apesar de não termos conseguido marcar nenhum gol e sofrido com as estocadas do adversário. Chegamos com maior frequência ao ataque, vimos mais movimentação pelas pontas, aceleramos o passe e houve a exigida entrega de cada jogador em campo. Quem não conseguiu oferecer técnica, doou suor e no estágio atual é o que precisamos para a única conquista que nos move neste momento: voltar à Série A.

Ao fim e ao cabo, chegamos a nove jogos invictos e três vitórias seguidas em casa, marcamos 13 gols e tomamos apenas cinco, em 15 partidas — campanha suficiente para nos manter mais uma rodada entre os quatro primeiros colocados. 

Começa a chegar a hora de o torcedor entender que o comportamento precisa mudar nas arquibancadas, também. A ressaca do rebaixamento não pode servir de desculpas para o desânimo. A dificuldade que o time ainda tem de encantar, vem sendo superada com o esforço do grupo. 

Do lado de fora, a direção apresentou, na noite de hoje, aquele que pode ser o estopim para a retomada da avalanche que foi marca de nossa torcida — se não literalmente, porque está proibida, ao menos de forma simbólica: Lucas Leiva está de volta com a camisa 15, a mesma que vestiu na Batalha dos Aflitos, na sua estreia de temporada pelo Grêmio, em 2005. Fez parte do grupo que dois anos depois chegou à final da Libertadores, para após se consagrar no futebol da Europa.

Vamos aproveitar a manutenção no G4, a sequência de resultados positivos e o retorno de ídolo para “entrar em campo” e jogarmos juntos com o time. Ter orgulho do que conquistamos em nossa história, nos inspirarmos nessas glórias e ajudar o Grêmio a voltar à sua jornada campeã. 

Eu sei que o desempenho tende a não motivar muita gente, mas poderíamos recuperar a alegria de ver o futebol, ocupando todos os espaços da Arena, levando o time a jogar embalado pelas cantorias e gritos de incentivo. Tem sido assim com alguns dos nossos principais adversários que mesmo tendo nível técnico muito semelhante ao nosso, jogam com uma motivação extra, graças ao apoio de seus torcedores.

Adoraria ver de volta a alegria daqueles rapazes que no fim dos anos de 1970 não tiveram medo do preconceito, das ameaças de uma gente selvagem e da própria repressão política e policial, que imperava na época, ao fundarem a Coligay, a primeira torcida assumidamente gay do país. Um grupo de jovens, gremistas e fanáticos que superaram todas as dificuldades — inclusive a escassez de títulos — para ocuparem seu espaço na arquibanca e na sociedade, sem precisarem esconder suas identidades. 

A Coligay foi pioneira e surgiu em 1977, na mesma época em que o Grêmio retomaria o título gaúcho, e se manteve até 1983, quando fomos campeões do Mundo. Apesar da demora para ser reconhecida como patrimônio de nossa história, foi um marco na luta em favor da diversidade.  

Se muitos clubes neste 28 de junho se identificaram com a causa LGBTQIA+, estampando as cores do arco-íris em seus uniformes e bandeiras, somente um time de futebol pode dizer com orgulho no coração ter acolhido a primeira torcida gay do País. 

Que o entusiasmo da Coligay baixe sobre cada um dos nossos torcedores e possamos colocar em prática o lema da campanha de marketing que o Grêmio escolheu este ano: “quando time e torcida jogam juntos ninguém mata quem é imortal”. 

Para conhecer melhor a história da Coligay, conheça o livro ‘Coligay: tricolor e de todas as cores”, escrito pelo jornalista Léo Gerchmann