Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.

Avalanche Tricolor: só pode ser coisa dos deuses do futebol

Grêmio 1×1 America de Cali

Libertadores — Arena Grêmio

A festa do gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi sofrido, não foi? Não que nunca seja. Sempre é. 

Sofremos menos porque a bola não entrou ou por algum risco na classificação —- que não havia até porque uma das duas vagas já era nossa. 

Sofremos mais porque o futebol não encaixou como gostaríamos. Quer dizer …, até se ajeitou naqueles primeiros minutos do segundo tempo, depois da conversa de Renato no vestiário e as primeira mudanças do meio para a frente. Em pouco tempo vimos um time mais móvel, toque de bola mais veloz e chegada na área do adversário —- a ponto de termos provocado um pênalti a nosso favor,

Dali pra frente, foi aquilo que você viu. Erramos o quinto pênalti em oito até então cobrados na temporada. Tomamos o contra-ataque e, em uma bola na qual o atacante adversário sequer pulou, nosso zagueiro desviou para as redes. Santa infelicidade de Kannemann que já havia tomado um amarelo no primeiro tempo, fez um gol contra e levou o segundo  amarelo já nos acréscimos, sendo expulso de campo e suspenso da próxima partida das oitavas-de-final.

Nada mais funcionava e quanto mais velocidade se tentava dar ao jogo, mais rapidamente cometíamos erros. Até mesmo Pepê, sempre uma saída de escape quando a coisa está feia, era incapaz de reter a bola em seus pés. Chegou a tropeçar nela —- coisa rara desde que assumiu a titularidade do time. 

Renato esbravejava, bufava, sentava e levantava irritado com o que via. Olhava para o céu como se pedisse uma ajuda dos deuses do futebol. Olhava como se perguntasse: o que eu fiz para merecer isso? Mudou quem tinha para mudar e parecia que nada daria certo nesta noite de quinta-feira.

Nas redes sociais a corneta tocava alto. Para muitos dos corneteiros os réus tinham sido julgados e considerados culpados, sem direito de defesa. Sem refletirmos pelo passado que nos trouxe até aqui. 

Só faltava o co-irmão vencer o jogo lá fora, a gente ficar em segundo no grupo e no sorteio pegar um daqueles adversários encrenqueiros! Fecha tudo! Bota todos para fora! Começa tudo de novo! Derrube-se a estátua na esplanada da Arena. Quem contratou esses pernas de pau? Impeachment já!

A bola, o adversário e o árbitro conspiravam contra. O anti-jogo, coisa da Libertadores, como costumam dizer, reinava no gramado. O risco de perdemos mais jogadores para a próxima etapa só aumentava com os nervos a flor da pele. 

Foi então que uma luz se fez. Sei lá de onde. Só pode ser coisa do divino que veio para inocentar os pecadores. Não bastasse nos dar de mãos beijadas o primeiro lugar no grupo com a derrota do adversário direto pela liderança na outra partida, ainda nos ofereceu a benção de mais um pênalti com quase dez minutos de acréscimo. Tinha de ser um pênalti.

Diego Souza ajeitou a bola, correu, parou, dançou, balançou e nosso coração paralisou. Quando bateu em gol, o goleiro adversário já estava caído de joelhos. E de joelhos ficamos nós, agradecendo aos deuses pela justiça que se faz a história de Renato e deste time que não anda em boa fase, mas que mesmo assim termina em primeiro lugar em seu grupo.

Os deuses decidiram nos dar mais uma chance. Saibamos aproveitá-la! Renato saberá!

Avalanche Tricolor: criticar os críticos; pode isso, Sandro?!?

São Paulo 0x0 Grêmio

Brasileiro — Morumbi, São Paulo-SP

Pepê disputa jogada no ataque, em flagrante de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dois colegas na mesa de debate começaram os trabalhos criticando as críticas gremistas ao árbitro e a utilização do VAR ouvidas ao fim da partida desse sábado à noite. A crítica contra os críticos veio ilustrada por um lance logo no início do jogo em que Pepê caiu dentro da área quando recebia a bola em direção ao gol. Os dois decidiram em comum acordo em favor do árbitro. “Lannnnce leeegaaaal — teriam gritado se fossem Mario Vianna, ex-árbitro e  primeiro comentarista de arbitragem que trabalhou na Globo e na Tupi, nos anos de 1960. 

(Para ser preciso —- antes que alguém peça para conferir no VAR, ops, no Google —-, o grito de Vianna era “goooool leeegaaaal”)

Sim, comentaristas de árbitro existem desde aquela época, apesar de terem ficado famosos mesmo com a chegada da função à televisão, em 1989, quando o árbitro Arnaldo César Coelho foi convidado por Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo, a assumir a função. Foi da parceria de Arnaldo com Galvão Bueno que surgiu outro bordão marcante nas narrações esportivas: “pode isso, Arnaldo?”, momento em que o ex-árbitro esclarecia o que havia acontecido no lance.

Hoje é comum todos os programas esportivos contarem com a presença de ex-juízes de futebol comentando os lances mais polêmicos  — alguns difíceis inclusive de tomar uma decisão após ser visto por vários ângulos, o que sempre leva à inocência o árbitro de campo. Na Justiça se diria “in dubio pro reo”. No futebolês: se na tela da TV já foi difícil de decidir, imagine no calor da partida. Verdade que com a tecnologia à disposição, auxiliando nos momentos em que a regra permite, a vida do árbitro no gramado ficou mais fácil. Caiu na área, teve dúvida, o VAR confere e se suspeitar de irregularidade, chama o árbitro de campo para assistir na casinha; caiu na área, o árbitro marcou, o VAR discordou, chama para o cantinho e entram em acordo.

Na partida desta noite, a turma do VAR não estava muito afim de trabalhar —- foi a impressão que tive (ou foi a pressão que os cartolas do adversário tinham feito na semana, a ponto de a escalação da arbitragem sofrer mudanças pela CBF?). Nem tanto pelo lance de Pepê, que por ter ocorrido fora da área, apesar dele ter caído dentro, não existe motivo de revisão do VAR, mesmo que o árbitro tenha se enganado na marcação. Esse é o típico lance em que o erro é do árbitro e o VAR não pode salvar. Mas houve erro? Para os comentaristas de futebol, lembrados no primeiro parágrafo desta Avalanche, não. Tanto que usaram o lance para justificar as críticas que faziam aos críticos gremistas. Usaram o lance errado. Durante a partida, o comentarista de árbitro Sandro Meira Ricci havia sido taxativo: foi falta, fora da área e passível de cartão vermelho porque Pepê seguia em direção ao gol. 

O lance em que o VAR não trabalhou —- e que me deu a impressão de que a turma da cabine estava incomodada por já ser tarde da noite, em São Paulo, e a temperatura estar baixa, pensando que seria muito melhor estar em casa com a família e sem sofrer pressão da cartolagem — foi outro, bem distante daquele, no outro lado do campo e no segundo tempo. Refiro-me a falta que teria ocorrido sobre Geromel em uma bola alçada na área adversária. Nosso zagueiro que raramente recebe cartão amarelo, perdeu a pose, reclamou de nada ter sido sinalizado no momento da jogada e sequer ter havido revisão do VAR.

(Que fique claro, só tem revisão se aquela turma da cabine chama — aquela que eu desconfio não estava muito disposta a fazer sua tarefa no jogo por frio ou por medo. Ou seja, nem o juiz viu em campo nem o VAR, na cabine)

A jogada que foi esquecida pelos críticos dos críticos, e não foi vista nem pelo árbitro nem pelo VAR, segundo Sandro Meira Ricci também foi ilegal. Para ele, Geromel foi derrubado, deveria ter sido sinalizado pênalti e como não o foi, o VAR teria de ter alertado o árbitro. Nem uma coisa nem outra. O juiz Rafael Traci fez cara de bravo, mandou seguir o jogo e na primeira parada puniu a crítica de Geromel com o cartão amarelo.

Além do amarelo de Geromel — que mesmo com razão, exagerou na reclamação —-, Kannemann também foi amarelado em outro lance no qual o VAR não podia interferir e em que o juiz decidiu punir a vítima. Na cobrança de falta quase na linha da área, a barreira adversária claramente avançou, o juiz mandou voltar o lance, e a barreira continuou avançando, tanto que o árbitro insistia para que voltasse à posição correta. Desrespeitado, em lugar de amarelar o homem base da barreira —- como manda a regra —, destinou o cartão ao zagueiro gremista que reclamava para a regra ser cumprida.

Evidentemente que estou dedicando esta Avalanche a falar de comentaristas e de arbitragem porque o futebol ficou em dívida com o torcedor, mesmo que o Grêmio tenha sabido desarmar a principal arma do adversário, depois de sofrido muito nos primeiros 20 minutos de jogo para segurar o toque de bola rápido e envolvente do time da casa. Tivéssemos marcado em alguns dos lances de ataque e saído de campo com os três pontos, meu olhar agora estaria brilhando de alegria, o que se refletiria neste texto. Não foi o que aconteceu, então decidi compartilhar com você, caro e raro eleitor desta Avalanche, meu mau humor com os comentaristas —- que, aliás, admiro muito —- e com os árbitros —- destes, confesso, nunca fui muito fã. 

Sem bom futebol, me restou criticar a critica aos críticos. Pode isso, Sandro?

Avalanche Tricolor: o talento ainda veste a camisa do Grêmio

Grêmio 3×1 Botafogo

Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração do segundo gol de Pepê em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Houve quem tenha lido a Avalanche anterior e saído dela com a impressão de que usei de estratégia escapista ao enaltecer o capitão de todos os títulos, Maicon, após termos registrado mais um revés em campo. Aos que desconfiaram das minhas intenções, a melhor resposta veio na partida desta noite, em Porto Alegre.

Os gols foram de Diego Souza e Pepê, eu sei, Mas a presença de Maicon no meio de campo fez toda a diferença. Ao sair do gramado, quando a missão já era de apenas nos defendermos diante de um time que tinha superioridade numérica —- devido a expulsão de nosso centroavante logo no início do segundo tempo —-, Maicon era o líder no número de passes: 75, se não me engano. O mais incrível: havia errado apenas um. É muito talento para uma camisa só.

Isso não bastou para o capitão. Ele comandou o time, organizou seus companheiros em campo, chamou atenção da marcação, cobrou empenho e não descansou mesmo depois da vitória garantida. Sua dedicação e liderança se expressaram em uma dessas cenas que passam batido pela televisão e pela observação dos comentaristas. Após mais um cruzamento desperdiçado pelo adversário, Maicon não poupou de uma bronca Pepê, que já havia marcado dois gols, porque nosso atacante não acompanhou o adversário até a linha de fundo. Ele sabe que, neste momento, o time precisa de esforço redobrado e de cada gota de suor que ainda tiver para ser produzida. Por isso reclamou. E Pepê entendeu.

O Menino Maluquinho do Grêmio, aliás, foi outro jogador com atuação incrível  nesta noite. Fez o gol do desempate com um chute certeiro, após receber bola de presente de Diego Souza. E fez o gol que fechou o placar após uma daquelas jogadas de dar orgulho de ser torcedor deste time. O locutor da TV disse que foi gol de videogame. Cheguei a definir como um gol de futvôlei. Um comentarista de futebol amigo meu, resumiu com uma só palavra enviada pelo WhatsApp: genial!

O Grêmio renasce com seu futebol a medida que começa a colocar em campo alguns dos seus principais jogadores. Ainda tem gente para se recuperar e muito caminho pela frente no Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores. O mais importante, porém, foi o aceno que fez ao seu torcedor demonstrando que o talento ainda veste a camisa do Imortal.

Avalanche Tricolor: neste Capitão, eu confio!

Santos 2×1 Grêmio

Brasileiro —- Vila Belmiro, Santos-SP

Maicon sabe o que faz com a bola nos pés Foto LUCASUEBEL/GREMIOFBPA

 

Foi mais uma jornada bem abaixo do esperado, se é que os desfalques na defesa, as ausências no meio de campo e a falta de um camisa 10 pudessem nos oferecer alguma expectativa mais promissora. O gol de empate, em uma única jogada que nos fez lembrar os tempos de um Grêmio em que a bola era tratada com respeito, trocada de pé em pé e com precisão, me parecia o suficiente para a tarde deste domingo. Até Diego Souza desencantou aparecendo no momento certo para concluir a gol. No entanto, havia algo ou alguém conspirando contra nós na Vila Belmiro e a derrota voltou a se apresentar com dois gols de pênalti (o que foi e quem foi ficam por conta da sua imaginação).

Chama atenção como a presença de um ou dois jogadores seriam suficientes para elevar o nível do futebol jogado pelo nosso time. Haja vista, a qualidade que Maicon acrescenta na saída de bola, na distribuição de jogo e na orientação de seus companheiros sempre que consegue ser escalado, como ocorreu hoje no segundo tempo —- não por acaso o gol veio após a entrada dele . Pena não ter condição física para se manter em campo por mais tempo. Faz falta e dificilmente encontraremos, com a brevidade necessária, um jogador com a sua qualidade técnica —- nem nós nem qualquer outro time brasileiro, registre-se.

Mesmo que não possa jogar em sua plenitude, o Capitão, que levantou todas as taças nas últimas décadas, tem papel fundamental. Ele é um líder importante no grupo e com capacidade de mobilizar a equipe para a reação que se faz necessária no Campeonato Brasileiro. É preciso subir na tabela, entrar na ZL e impor o futebol que o Brasil aprendeu a respeitar, que nos faz líder do Grupo E da Libertadores e nos põe como favorito nas oitavas-de-final da Copa do Brasil. E Maicon deixou isso claro nas palavras ao fim da partida:

“A gente sabe que não estamos bem no campeonato, nós cobramos bastante no dia a dia, porque a qualidade da nosssa equipe, não podemos estar onde estamos. Muitas vezes é complicado falar algumas coisas, porque as pessoas interpretam de maneira diferente, mas eu sempre cobro. O que eu falo aqui eu falo lá dentro. Aqui dentro (do campo) temos que ter atitude, coragem, estamos vestindo uma camisa de um time que tem chegado sempre, sendo campeão, e nosso torcedor cobra sempre isso, e a gente sabe que estamos abaixo. As pessoas olham a gente lá embaixo, mas tenham certeza que a gente se cobra e que vamos melhorar. É hora de começar a mudar e subir na tabela porque nessas condições ficamos distantes do que a gente almeja, que é ser campeão”

Como neste Capitão, eu confio, renovo minhas esperanças mesmo que tenhamos terminado o domingo com mais um revés.

Avalanche Tricolor: que a benção de Espinosa recaia sobre Marcelo Oliveira

Grêmio 2×1 Coritiba

Brasileiro — Arena Grêmio

Homenagem a Marcelo Oliveira foto LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foram 15 minutos de bom e ofensivo futebol. Tempo suficiente para o Grêmio marcar os dois gols que lhe dariam a terceira vitória em 13 jogos disputados pelo Campeonato Brasileiro. Antes de garantir os três pontos na tabela, ainda assistiu ao adversário marcar duas vezes — um dos gols muito bem anulado com a ajuda do VAR — e oferecer algum risco à nossa defesa.

A emoção da noite ficou reservada para o apito final quando os jogadores se reuniram no meio do campo para homenagear Marcelo Oliveira, que havia substituído Pepê no último minuto. O lateral de 33 anos fazia ali sua despedida dos gramados, pouco mais de um ano depois de ter sofrido grave lesão e ficado em recuperação por longo tempo. 

Marcelo é baiano, de Salvador. Formou-se na base do Corinthians, passou por clubes do interior paulista, e entre idas e vindas  para a capital, foi campeão da Copa do Brasil, em 2009 —- na primeira partida da decisão foi ele quem deu assistência para o gol corintiano contra o Internacional.

Vestiu as camisas do Atlético Paranaense, do Cruzeiro e do Palmeiras, mas foi quando chegou no Grêmio, em 2015, que se reencontrou com os títulos. Como titular da lateral esquerda, raras vezes de volante e se necessário atuando dentro da área, Marcelo assumiu posição de liderança de um dos grupos mais vencedores da história gremista. 

Mesmo quando seu futebol era questionado diante de atuações irregulares, tinha seu papel de líder exaltado pelo técnico Renato e seus colegas de equipe. Dizem que o comando sobre o elenco no vestiário o levou a essa posição. E foi extremamente importante para manter unida uma equipe que foi campeã da Copa do Brasil, em 2016; da Libertadores, em 2017; da Recopa Sul-Americana, em 2018; e tri-campeão Gaúcha, de 2018 a 2020. 

Sua capacidade em mobilizar os colegas e a proximidade com Renato —- com quem muitas vezes vimos trocando observações enquanto esteve no banco de reservas, ao lado do técnico —- certamente inspiraram a diretoria do Grêmio a convidá-lo a ocupar o cargo de coordenador técnico.

Ao fim do jogo, em entrevista ainda com os olhos marejados pela emoção, Marcelo declarou seu amor ao Grêmio:

É muita emoção falar nesse momento, por tudo que representa para mim estar no Grêmio. Desde que cheguei, na primeira coletiva, falei que estava realizando um sonho. As pessoas mais próximas a mim sabem há quanto tempo tinha esse sonho. 

Que Marcelo seja capaz de transferir para a função técnica o mesmo voluntarismo e liderança que revelou enquanto esteve em campo. E seja abençoado no cargo por aquele que substituirá: Valdir Espinosa —- saudoso e querido Espinosa — que também foi lateral como Marcelo, conquistou o Mundial como técnico do Grêmio e na última passagem pelo clube atuou na função de coordenador, que esteve vaga até esse momento.

Avalanche Tricolor: o Gre-nal é mesmo um jogo único

Grêmio 1×1 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio

Mais um gol de Pepê, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Um gol para cada um.

Cada um com um gol de goleador.

Uma expulsão para cada lado.

E um só ponto na tabela.

 

O Gre-nal é mesmo um jogo único. 

Tanto faz quem tá melhor na temporada. 

 

Se Gaúcho ou Brasileiro.

Se Copa do Brasil ou Libertadores.

Se no Humaitá ou na várzea.

 

Gre-nal é …. bem, você sabe o quê.

Sempre vai ter um gol de Pepê.

 

Pra fechar esta Avalanche,

Mesmo sem a alegria de uma vitória:

tem mais dois “uns” para entrar na história.

 

Verdade, saímos de campo sem vencer,

Mas já faz 11 clássicos

Que o Grêmio de Renato 

Não sabe o que é perder.

Avalanche Tricolor: prazer, Antônio Josenildo Rodrigues de Olivera do Grêmio!

Grêmio 2×0 Universidad Católica

Libertadores — Arena Grêmio

A festa de Rodrigues na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

A notícia de que Geromel e Kannemann foram abatidos pela Covid-19 ecoou nas arquibancadas vazias da Arena do Grêmio e fez correr um frio na espinha do torcedor, momentos antes de a partida pela Libertadores se iniciar. Nós sabemos o que essa dupla representa no futebol sul-americano — no do Sul, então, nem se fala. Tricolores, incrédulos e crentes, olharam para o céu a se perguntar: o que acontece com o meu time? Os resultados não saem como gostaríamos (sim, nesta hora ninguém, lembra da vitória no Gre-nal), o futebol não rola a bola com o talento que conhecemos, jogadores importantes se lesionam e quando mais precisamos da nossa dupla imbatível vem esta peste fazer com nossos zagueiros o que os adversários não foram capazes.

Renato —- que conhece o grupo como ninguém —- apostou na dupla Rodrigues e David Braz para substituir os insubstituíveis. Braz é experiente, conhece os atalhos no campo, e leva o jogo na conversa. Apesar de nem sempre estar no lugar que gostaríamos quando a bola é cruzada na nossa área, gosto de vê-lo comemorando com os punhos cerrados sempre que a despacha para longe de nosso gol. Rodrigues é uma incógnita. Ou era. Foi elevado ao time titular em maio do ano passado, no Campeonato Brasileiro, em situação de emergência. Recomendação que ouviu do técnico: joga simples. 

Há duas semanas, Rodrigues e Braz tinham feito uma atuação desastrada na derrota para o Universidad Católica, em Santiago do Chile. Braz saiu jogando no lugar de Kannemann e foi expulso; Rodrigues substituiu Geromel, que se lesionou durante a partida, e os dois gols do adversário passaram por ele. Assim que a escalação foi confirmada com a dupla de zagueiros, tive a impressão de ter visto os corneteiros de plantão afinarem seus instrumentos, prontos para fazê-los soar alto e forte.

Foi nesse clima que entramos na Arena para a partida decisiva na temporada —- isso mesmo, da temporada, não apenas na Libertadores. Nossos jogadores davam sinais de que desconfiavam de sua força e revelavam o sofrimento pela pressão dos desempenhos anteriores. Por mais que o DJ elevasse o som da torcida, a bola queimava no pé de cada um deles. Quando era cruzada na nossa área, contávamos mais com a sorte do que com o juízo. 

Antes de o intervalo chegar, equilibramos o jogo; mas foi no vestiário que Renato ajustou as peças e convenceu a equipe de que em campo a nossa imortalidade tem de falar mais alto. Em dois minutos uma movimentação pela direita de Orejuela, Alisson e Robinho fez a bola chegar pelo alto para Diego Souza desviar e deixar Pepê em condições de marcar. Gol de Pepê, o Menino Maluquinho do Grêmio.

Maluquice mesmo foi o que vimos mais à frente.

O zagueiro que estreou no Grêmio com a recomendação ‘faça simples’ desembestou e complicou a vida do adversário. Na primeira arrancada, ergueu a cabeça, passou para Pepê e foi completar a jogada dentro da área — o goleiro defendeu. Na segunda, aos 17 minutos do segundo tempo, novamente foi ele quem levou o time ao contra-ataque, passou para Alisson, que deu uma meia-lua de cinema no defensor e entregou de bandeja para o nosso zagueiro concluir em gol. Gol de Rodrigues, o Tonhão do Grêmio.

Antônio Josenildo Rodrigues de Oliveira nasceu em Arez, no Rio Grande do Norte. Grandalhão, logo ganhou o apelido de todos os Antônios de estatura alta: Tonhão. E como Tonhão chegou ao Grêmio, em 2017, disposto a escrever sua própria história. Para escapar do estigma de zagueiro grosso e sem talento, assumiu o sobrenome da mãe e deu uma incrementada: incluiu o Z no final de Rodriguez, quase tão espanhol quanto Kannemann, apesar de ser fã mesmo de Geromel.

Da mesma forma que buscava o melhor nome para ser considerado, se esforçava em campo para se manter entre os profissionais. Desde que estreou sempre foi visto com ressalvas pelo torcedor.  Tinha muito mais cara de Tonhão do que de Rodrigues —- já com o S recuperado em mais uma tentativa de ser protagonista em campo.  

A poucos dias de completar 23 anos —- nasceu em 10 de outubro de 1997 —, Tonhão, ou melhor Rodriguez, digo Rodrigues, colocou o seu nome na privilegiada lista de jogadores que marcaram gols em Libertadores com a camisa do Grêmio — e sem medo do azar, vestindo a camisa 13 (da qual sou um admirador em particular).

Foi o primeiro dele desde que chegou aos profissionais. E não poderia ter sido mais importante. Porque o gol de Tonhão, ops, Rodrigues, colocou o Grêmio na próxima fase da Libertadores tanto quanto mostrou a resiliência de Renato e sua equipe. Um grupo capaz de superar as adversidades, driblar seus limites, aguentar firme as cornetas e se mostrar forte no momento em que mais precisamos na competição. 

Rodrigues é a cara do Grêmio!

Avalanche Tricolor: ninguém foi capaz

Atlético MG 3 x1 Grêmio

Brasileiro — Mineirão/Belo Horizonte-MG

Foto de LUCAS UEBEL/GRêmio FBPA

Pra que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não tire conclusões precipitadas. Eu, assim como toda a torcida gremista, não ficamos satisfeito com o desempenho do time no Mineirão —- nem Renato e seus jogadores ficaram, é claro. Jogamos contra o líder, não por acaso o único dos primeiros colocados dedicado apenas ao Brasileiro, que conta com um jogador iluminado, e cometemos falhas que, se evitadas, poderiam ter tornado a disputa mais equilibrada, mesmo levando em consideração que o jogo do sábado à noite foi jogado entre duas decisões importantes da Libertadores —- a primeira, já ganhamos, na quarta-feira e você sabe de quem.

Dito isso, vamos ao tema principal desta Avalanche.

As cornetas enrustidas que estavam enfiadas no saco desde quarta à noite não precisaram mais de 10 minutos de jogo para soarem forte na janelas das redes sociais. 

A primeira vítima: Paulo Victor —- goleiro que com resiliência e humildade suporta a reserva de um time que já comandou por temporadas e pelo qual conquistou títulos com defesas importantes. Tem consciência de que não fez um bom último ano e Vanderlei merece ser o titular. Foi colocado em campo, ontem, tendo a sua frente uma zaga reserva e sem a mesma qualidade daquela que admiramos com Geromel e Kannemann — que, convenhamos, facilita a vida de qualquer goleiro. 

Com pouco tempo de jogo, Paulo Victor assistiu a três de seus colegas cercarem o goleador do adversário pegar a bola, se livrar da marcação e chutar com força no gol — ninguém foi capaz de travar aquele chute. Ainda evitou que a bola chegasse às redes com uma defesa que, se não fosse atrás da linha do gol, como se confirmou em seguida, era merecedora de aplausos.  

Bastaram as cornetas tocarem nas redes sociais para meus colegas jornalistas esportivos começarem a repercutir e especular erros que, claramente, não ocorreram por parte do nosso goleiro. Aliás, justiça seja feita, todos os comentaristas, na emissora em que assisti ao jogo, foram afirmativos ao dar mérito para Keno e eximir Paulo Victor de responsabilidade.

Não adiantou: as cornetas seguiram em busca de um bode expiatório. E a televisão seguiu a dar voz aos insensatos como se a voz do povo fosse realmente a voz de Deus —- confesso: o velho ditado não se faz mais presente na minha biblioteca. Tive a impressão de que a insistência das críticas levou alguns dos comentaristas a ficarem mais reticentes quanto a Paulo Victor.

Mal iniciado o segundo tempo, o mesmo Keno fez 2 a 0 em uma bola que desviou na defesa e saiu do alcance goleiro. As cornetas soaram ainda mais alto e se voltaram para a lateral do gramado: a culpa é de Renato. Uma das mensagens reproduzidas na transmissão foi de alguém que identificou o que fazia diferença no placar: de um lado um time bem treinado e de outro um time que não sabia o que fazer em campo, comandado por um incapaz. Fora Renato! (se há um mérito nos corneteiros é que eles não desistem nunca).

Que o adversário estava e está jogando um futebol mais bem qualificado do que o nosso, é inegável. Seu treinador tem talento, algumas das peças de seu time são especiais, Keno está vivendo momento que sequer ele acredita e o time tem condições plenas de se preparar durante toda a semana para o adversário seguinte — não precisa poupar gente extasiada e lesionada e recorrer a reservas. Sequer Copa do Brasil tem para jogar, pois foi desclassificado lá no início. Nada disso é levado em consideração.

Ninguém foi capaz de ponderar que no meio da semana, o “time mal treinado” de Renato ganhou do seu principal adversário com uma apresentação de excelência, marcando forte e jogando bonito quando a bola era trocada de pé em pé. 

Ninguém foi capaz de lembrar que aquele time do meio da semana passada —- com alguns reforços — terá de voltar ao gramado já na terça-feira pela Libertadores em jogo que se for vencido e dependendo a combinação de resultado garantirá com antecipação vaga à próxima fase da competição (curioso em saber onde os corneteiros irão enfiar o instrumento se isso ocorrer).

Ninguém foi capaz de lembrar que este é um ano atípico na preparação dos clubes devido a interrupção da temporada e uma retomada titubeante dos campeonatos, com jogadores expostos a riscos e um esforço descomunal para dar conta do recado de mais de uma competição ao mesmo tempo.

Exigir coerência de torcedores, me parece ilusão. Querer calar cornetas, é calar uma instituição do futebol. Renato e o time sabem disso. O que poderíamos fazer apenas é contrapor com fatos e opinião equilibrada essas reações insanas em lugar de termos medo de corneteiros de rede social e queremos navegar na onda populista (putz, bem que essa última frase caberia em um outro texto na editoria de política, não?).

Avalanche Tricolor: Fora Renato!

Inter 0x1 Grêmio

Libertadores — Beira Rio, Porto Alegre/RS

Renato cumprimenta Pepê Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Vai Renato! 

Vai embora! 

Vai comemorar mais esta conquista na tua história. 

Dez Grenais sem perder não é para qualquer um.

 

Vai festejar com os amigos.

Vai abraçar teus pupilos.

Vai pro abraço porque tu és o cara.

Vai montar bem um time assim lá pras bandas do Humaitá.

 

Vai pra praia jogar futevôlei.

Vai pra rede se deitar.

Vai descansar pra preguiçar passar. 

(eles não te chamam de preguiçoso?!?)

 

Vai Renato!

Vai embora

Porque tá perdendo a graça jogar Gre-nal.

 

Vai tirar onda dos que te criticaram.

Vai ver a turma engolindo o que disse.

Vai rir da cara dos que gritaram: 

Fora Renato!

 

Vai, vai ser Renato para sempre no coração de quem é tricolor.