Avalanche Tricolor: bah, é claro que vamos vencer mais esta!

 

Nós 7×1 Eles
Arena Grêmio

 

 

 

Bateu uma baita saudade de ti! Já vão algumas semanas em que ligo a TV para te assistir e não te encontro. Ontem foi quarta, liguei a TV e nada. A quinta está chegando ao fim, e nada de novo. Esses dias até tinha um daqueles momentos mágicos que tu me proporcionaste —  que baita goleada foi aquela no clássico, heim ?!?  Mas era gravado, acontecido tempos atrás. Queria te ver agora.

 

Estou louco pra te ver em campo de novo, tocando a bola com aquela categoria que encantou o Brasil e conquistou a América. Aquele passe rápido, o deslocamento veloz e a movimentação que deixa o zagueiro deles tonto em campo. Aquela defesa impecável, com Geromel e Kannemann colocando os atacantes deles no bolso.

 

Tô com muita saudades das vitórias suadas, das goleadas implacáveis e dos troféus levantados. Das brigas em campo. Sim, até desses momentos sinto saudades, até porque me remetem aos tempos em que nos conhecemos. Tempos em que a bola era o que menos interessava. A gente queria vencer, de qualquer jeito, no campo e na briga.

 

Desde que conquistamos o Mundo as coisas mudaram um pouco. Ficamos meio bestas e exigindo bola rolando, craque em campo e gol de placa. Mas, confesso, de vez em quando bate uma saudade louca de quando bastava ganhar uma dividida de bola no meio de campo para comemorarmos na arquibancada.

 

Continuamos comemorando as dividas vencidas, mas queremos mais: queremos que a jogada prossiga, que alguém apareça na ponta, que nosso ponta dê o drible da vaca, deixe seu marcador estatelado na grama e o cruzamento termine com a bola no fundo do poço (puxa, pai, bateu outra saudade, agora de você, que criou este jargão no futebol gaúcho).

 

Sim, tô com uma baita saudade. E saudade, como ensina meu amigo e filósofo Mário Sérgio Cortella, é aquilo que nos deixa saudáveis, que permite que a gente faça uma saudação. É  “a lembrança daquilo que já foi e que a gente gosta de fazer passar de novo pelo coração”.

 

Hoje, tudo aquilo que fizemos juntos me passou no coração, enquanto ouvia a palavra do presidente Romildo Bolzan Jr. — ele próprio que recentemente, como é de se esperar de um Imortal, venceu a peste.

 

Bolzan relatou o que o Grêmio está fazendo para driblar as dificuldades sanitárias e econômicas. Como está preservando seu patrimônio, seus valores e seus jogadores. Como se planeja para vencer este adversário tão minúsculo quanto violento. E como pretende sair desta batalha — talvez a mais difícil que já enfrentamos — mais forte e mais unido do que nunca estivemos.

 

Bah, que saudade eu tô de ti! Volta logo Grêmio, volta!
 

 

Avalanche Tricolor: a bola tem de parar

 

Grêmio 3×2 São Luiz
Gaúcho —- Arena Grêmio

 

 

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Jogadores usam máscara em protesto, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

A máscara no rosto dos jogadores gremistas e o cumprimento protocolar com os cotovelos, logo após o hino, foram imagens fortes de uma partida de futebol que não deveria ter ocorrido. As arquibancadas vazias —- cena que havia se repetido em outros jogos do fim-de-semana —- reforçavam a falta de noção das autoridades que fecharam os portões para não abrirem mão do espetáculo.

 

Do jogo jogado, foram atípicos o gol marcado pelo adversário aos 28 segundos de partida e a vantagem ampliada aos 18 minutos iniciais —- especialmente se compararmos a performance das duas equipes até aqui na competição. O Grêmio jogava em casa e  fora de sintonia —- quase como se não quisesse estar participando daquele momento. Aliás,  não estava mesmo pelo que se via no protesto da entrada de campo e pelas palavras de Renato antes de a bola rolar.

 

A mudança feita pelo técnico aos 20 minutos do primeiro tempo, com a entrada de Jean Pyerre, em lugar do lateral Orejuela, mostrou que o problema não era apenas de falta de foco, era também de falta de qualidade no toque de bola. O time passou a comandar a partida, apesar de não conseguir fazer os gols que o levariam à virada.

 

Após desperdiçar uma, duas, três, várias chances de gol, fez o primeiro ao fim do primeiro tempo, e voltou para o segundo disposto a colocar as coisas no lugar. Thiago Neves empatou ao marcar pela primeira vez com a camisa gremista e Diego Souza, que o substituiu na sequência, fez o da vitória após cobrança de falta —- na qual chutou primeiro com o pé direito e acertou em cheio o rebote da barreira com o pé esquerdo.

 

O placar estava definido, os três pontos garantidos e a liderança da chave, no Campeonato Gaúcho, mantida. Nada disso foi suficiente para superar a insatisfação de quem se viu obrigado a entrar em campo porque o show não podia parar.

 

Para ter ideia, apenas de jornalistas e radialistas inscritos para cobrir a partida havia mais de 110 profissionais. A eles se somam comissões técnicas, árbitros e funcionários, que precisam trabalhar para dar suporte ao jogo. Uma legião de cerca de 350 pessoas que foram à Arena, neste domingo.

 

Espera-se que não seja preciso levar em frente a ameaça feita por Renato, em nome dos jogadores, de convocar uma greve caso os dirigentes não anunciem até amanhã a paralisação de todas as competições, no Brasil.

Avalanche Tricolor: respeita essa camisa!

 

 

América de Cali 0x2 Grêmio
Libertadores — Cali/Colômbia

 

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Ao iniciar a partida desta noite na Colômbia, o Grêmio dava início a sua 12a. participação em Libertadores, apenas nos anos 2.000. A contar desde a primeira vez que chegamos à competição, em 1982, foi a 20a vez. Nenhum outro time brasileiro jogou mais do que nós. Nenhum outro brasileiro venceu mais vezes do que nós — campeões que fomos em 1983, 2005 e 2017.

 

Com um currículo desses, jogamos Libertadores com autoridade. Ao entrar no gramado, o tricolor de nossa camisa é reconhecido por todos os nossos adversários. E respeitado. Mesmo que esse adversário tenha sido uma espécie de calo nas nossas caminhadas. A saber: o América de Cali foi o único que conseguiu nos vencer, na campanha de 1983, ano que conquistamos a primeira Libertadores e levamos o Mundial na sequência.

 

Nossa história contada em azul, preto e branco, nos permite estrear fora de casa jogando com a mesma personalidade com que jogamos quando estamos diante da nossa torcida — como ocorreu nesta noite.

 

O Grêmio foi superior do início ao fim.

 

Correu poucos riscos. Teve paciência para roubar a bola quando o adversário ensaiava jogadas no nosso ataque e força para afastá-la da área sempre que necessário — tendo nesta função, Geromel, o camisa 3, como o maior destaque.

 

Foi preciso ao chegar na área adversária. Insistiu por um lado e por outro. E mais uma vez pode contar com o talento de Everton, o camisa 11, que com boa movimentação, escapou pelo meio da marcação até ser derrubado, provocando uma falta que abriu caminho para a vitória.

 

O primeiro gol teve participação de Diego Souza (29), Lucas Silva (16) e Victor Ferraz (2), que completou a jogada aos 15 minutos do primeiro tempo. Sim, a Libertadores 2020 mal havia se iniciado e o Grêmio já anunciava à América porque é TRI da Libertadores.

 

Não precisou mais de cinco minutos, no segundo tempo, para sacramentar o resultado, após nova jogada de Everton — esse endiabrado — que levou três marcadores atrás dele, para dentro da área, e deixou Matheus Henrique livre para receber. O guri não apenas limpou a jogada como teve talento suficiente para colocar a bola fora do alcance do goleiro.

 

Na comemoração, Matheus voltou a chamar atenção para o valor de nossa camisa. No caso uma camisa ainda mais especial, pois tinha o número sete nas costas, o mesmo sete consagrado por Renato, na Libertadores de 1983, e reverenciado por Luan, na Libertadores de 2017.

 

Sim, essa camisa tem peso. E tem de respeitar!

Avalanche Tricolor: a homenagem a Valdir Espinosa

 

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho — Arena Grêmio

 

 

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O luto por Espinosa em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPS


 

 

Havia algo especial naquele ambiente. E não era o fato de a partida se iniciar às 11 da manhã, em um sábado pós-Carnaval — coisa rara e justificável diante das prioridades do nosso calendário futebolístico, em 2020. Nem mesmo a escalação proporcionada por Renato com três dos reforços contratados este ano formando o time principal: Caio Henrique, Orejuela e Thiago Neves, que se juntaram a Vanderlei, Lucas Silva e Diego Souza —- estes últimos também novos no elenco mas que já vinham atuando há mais tempo entre os titulares.
 

 

Meu olhar a cada instante se perdia da bola que era trocada com habilidade, no gramado bem acabado da Arena, atraído pelas homenagens a Valdir Espinosa, que morreu aos 72 anos, na quinta-feira, após complicações pós-operatória, no Rio de Janeiro. Havia trapos estampando o rosto dele e faixas estendidas com mensagens de carinho, pelas arquibancadas. Em campo, nossos jogadores ostentavam a braçadeira de luto com a imagem de Espinosa e os dizeres “Eterno Campeão”. Na casamata, Renato vestia a camisa com o número 72 às costas e o agradecimento no peito: “Obrigado Espinosa”.
 

 

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A homenagem de Renato em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

Temos muito a agradecer a Espinosa. Nos deu o maior de todos os títulos que poderíamos sonhar. Foi o técnico campeão do Mundo, em 1983. Antes, já havia nos feito campeão da Libertadores e comandado a equipe em partidas épicas que forjaram nossa identificação com a Imortalidade.
 

 

Em 2017, quando tive oportunidade de conversar com ele pela última vez, em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, demonstrou uma das suas grandes habilidades em vida: contar histórias. Seus títulos, seus feitos e sua experiência por si só eram gigantescos —— pergunte ao torcedor do Botafogo e do Cerro Portenho —-, porém quando contados por ele próprio tornavam-se ainda mais extraordinários.
 

 

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O dia em que tive o prazer de entrevistar o ídolo, reprodução ESPN


 

 

Espinosa era ser humano especial. Tratava as pessoas com carinho. Era simpático e divertido. O admiro desde criança quando meu pai, pelas mãos, me levava ao estádio Olímpico para ver o Grêmio treinar, no início dos anos de 1970. Era uma época em que arriscava chutes e caneladas jogando na escolinha de futebol gremista na mesma posição que ele, lateral. Mais tarde, quando foi técnico, entre os anos de 1982 e 1984, compartilhava com o pai seu conhecimento estratégico em montar equipes.
 

 

Para chegar ao título de 1983, por exemplo, Espinosa foi inteligente ao perceber que a maneira como o Grêmio jogava era semelhante ao do seu adversário na final, o Hamburgo, e por serem os alemães mais bem preparados fisicamente do que os brasileiros teríamos de surpreendê-los. Foi quando decidiu, com a diretoria do Grêmio, liderada por Fábio Koff, contratar jogadores com a habilidade de Paulo César Caju e Mário Sérgio, que dariam ainda mais talento ao nosso meio de campo, conseguiriam segurar a bola e conter a correria do adversário, oferecendo espaço para que Tarciso e, especialmente, Renato brilhassem lá na frente.
 

 

Quando Espinosa e o pai se encontravam, havia quase que um ritual: o pai o chamava de Alan Delon, devido a aparência física e os olhos azuis que sempre foram marcantes; e Espinosa engrossava ainda mais a voz para imitar o grito de gol-gol-gol que marcou a carreira do pai. Eu, orgulhoso e em silêncio, assistia ao encontro dos meus dois ídolos.
 

 

Hoje, nenhum deles está mais por aqui. O pai morreu ano passado. Espinosa na semana que passou. Os dois me deixam saudades. E o Grêmio, como ponto a unir nossas lembranças.

Avalanche Tricolor: de volta para colocar mais um Gre-nal na história

 

Inter 0X1 Grêmio
Gaúcho —- Beira Rio, Porto Alegre/RS

 

 

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Diego Souza volta a marcar em Gre-nal (Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

De volta das férias …. aqui na Avalanche, é claro. Já estou no batente faz tempo. E atento. De olho no nosso time. Quem contratou, quem se machucou, de quem se livrou. Assisti a todos os jogos nesse início de temporada. Sem perder um só lance. Como sou dos que costumam ter paciência nesta época do ano, quando a equipe está retomando o ritmo de jogo, novas peças ainda estão se adaptando e sempre têm muito a melhorar, fiquei a espera do momento certo para voltar a esta conversa com você, caro e raro leitor.

 

Escolhi a dedo o jogo da volta — com todos os riscos que um clássico possa nos oferecer, especialmente se jogado na casa do adversário, que vinha embalado por resultado positivo na Libertadores e muito elogiado pela crônica local. Talvez por isso mesmo eu tenha decido voltar agora. Até aqui, convenhamos, só tínhamos tido partidas sem graça, algumas em campos que sequer mereciam ser palco de futebol. Estava na hora de encarar jogo de gente grande, com estádio cheio, torcida contrária, tensão a cada bola e sabor de decisão.

 

O Grêmio foi muito superior no primeiro tempo e merecia ter saído de campo com vantagem no placar — parecia estar jogando em casa. Se não marcou, ao menos seu futebol envolvente provocou a expulsão de um adversário e isso ajudou no restante da partida, especialmente nos momentos em que demonstramos fragilidade no esquema defensivo, com espaço para o toque de bola e a chegada ao nosso gol.

 

Renato aproveitou-se do banco reforçado que tem nesta temporada para reequilibrar a partida. Colocou Thiago Neves, Pepê e Caio Henrique, retomou o domínio de bola, deu velocidade ao ataque e tirou o ímpeto do adversário.

 

Contou também com a experiência de Diego Souza que voltou a disputar um Gre-nal depois de 13 anos. E voltou a marcar, no Beira Rio, como já havia feito em 2007. Nosso centroavante teve agilidade para fugir do marcador, paciência para entrar livre na área e precisão no cabeceio. “Um gol de malandro”, disse Renato ao fim da partida. O terceiro gol dele em três jogos disputados. No clássico, ainda foi responsável por algumas das principais jogadas de ataque e provocou a expulsão de seu marcador em uma escapada no contra-ataque. Alguém aí se atreve a falar mal dele?

 

Lá atrás foi Vanderlei quem cumpriu seu papel com excelência. Bem posicionado, fez defesas com segurança nos chutes à distância. Corajoso, fez defesas arrojadas quase nos pés do atacante. Com agilidade, espantou o gol de empate após uma cabeceada à queima roupa. Com sua performance no clássico, espero que tenha conquistado a confiança de uma gente chata que já ensaiava críticas ao novo goleiro.

 

Com dois dos principais reforços da temporada fazendo a diferença — e Everton brilhante como sempre —, o Grêmio chega ao sexto Gre-nal seguido sem perder —- recorde que Renato alcança no comando do time, igualando  marca só registrada até hoje por Felipão. 

 

Começamos 2020 fazendo história. E eu não deixaria de estar aqui, nesta Avalanche, de volta, para contá-la.

 

Avalanche Tricolor: sem jamais perder a alegria de jogar bola

 

Goiás 3×2 Grêmio
Brasileiro — Serra Dourada, Goiânia/GO

 

Gremio x Goias

A gurizada se diverte em campo, em foto de LUCASUEBEM/GRÊMIOFBPA

 

Foi divertido, não foi?
Eu achei.

 

Sabia que era jogo sem pretensões. A classificação para chegar pela porta da frente da Libertadores estava garantida há algumas rodadas e a posição final na tabela era apenas uma questão de ajustes —- e de alguns milhões de reais a mais, também.

 

Os titulares tiraram férias mais cedo — nem Renato apareceu — e deixaram o jogo final para gurizada da base. Em campo, a média de idade era pouco acima dos 20 anos. Uma turma que foi jogar bola como se tivesse descendo na quadra do prédio ou no campinho do bairro. Para se divertir.

 

E a gurizada não fez feio, não.

 

Ferreirinha —- que seja logo chamado de Ferreira —, então, jogou como gente grande mais uma vez. Na estreia, no meio da semana já havia marcado um gol. Hoje, deu assistência para os dois e só não saiu consagrado por um detalhe —- a bola final da partida bateu no travessão quando bem que poderia premiá-lo seguindo o caminho das redes. Ele merecia.

 

No primeiro tempo, colocou seus marcadores no bolso pelo lado direito. Na primeira disparada, foi para dentro da área, dominando a bola e driblando com velocidade. E serviu Patrick que voltou a marcar com a camisa do Grêmio —. esse guri sempre que entra me lembra aqueles moleques de rua que jogam pelo prazer de jogar.

 

Na segunda arrancada, Ferreirinha voltou a driblar com talento e encontrou Isaque no meio dos zagueiros. E seu colega de ataque não deixou por menos. De letra. Sim, de letra. Sem vergonha de arriscar, marcou o primeiro gol dele no time titular…

 

Isaque é grandão e tem presença na área. Joga tranquilo mesmo acossado pelos zagueiros, e surge sempre bem colocado. Deixou a impressão de que logo, logo pode ser o centroavante que nos fez falta durante toda a temporada.

 

Ao fim e ao cabo, vimos uma série de jovens talentos pedindo passagem. Muitos ainda precisando ser mais bem trabalhados no vestiário, sendo lançados aos poucos ao lado dos titulares e ganhando a maturidade necessária para assumir as grandes responsabilidades que teremos em 2020. E Renato sabe bem como fazer isso.

 

Meu desejo é  que todos eles —- e é o que peço ao bom deus do futebol neste fim de ano —- jamais percam essa felicidade de jogar bola. Vê-los em campo me fez sorrir, também.

Avalanche Tricolor: com todo o respeito e com o talento dos guris

 

 

Grêmio 2×0 Cruzeiro
Brasileiro — Arena Grêmio

 

Gremio x Cruzeiro

Pepê e Ferreira, a nova geração em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Havia pouco a ganhar na partida desta noite, em Porto Alegre. Nosso destino já estava traçado quando entramos na Arena. Em 2020, mais uma vez estaremos na Libertadores da América — a 12ª vez no século e a 20ª na história — e, novamente, pela porta da frente. Os três pontos diante de um adversário desesperado eram previstos. E, provavelmente, viriam com naturalidade. Sem muito esforço. Com calma, toque de bola — mesmo que alguns desses toques sem a precisão com a qual nos acostumamos — e um pouco de pressão, alcançaríamos a vitória.

 

O destino porém quis nos mandar um recado. Um feliz recado. Mostrar que mais importante do que a vitória era comemorar o futuro do Grêmio que se apresentava em campo.

 

Renato já havia iniciado a partida com um dos nossos talentos emergentes, Pepê, que está com 22 anos e fez uma temporada incrível com gols em momentos decisivos. Um atacante que está pronto para ser titular ao lado ou —- dependendo o que acontecer — no lugar de Everton, o “veterano” de 23 anos, considerado o melhor jogador em atividade no Brasil.

 

Nosso guri Pepê foi quem deu a arrancada para a vitória, levando a bola pelo lado esquerdo e enxergando um companheiro livre do outro lado da área. Quem apareceu por lá foi Ferreira, ou Ferreirinha, ou Aldemir Ferreira —- seu nome ainda será melhor escolhido no ano que vem —- que entrou no segundo tempo e demorou pouco para ratificar sua fama de goleador, construída nos times de base: aos 21 anos marcou seu primeiro gol com a camisa profissional do Grêmio. Ainda deu drible, chapéu e nova dinâmica a um ataque que estava acomodado frente à apatia do adversário.

 

O mesmo Pepê nos encaminhou à vitória definitiva ao driblar, cair e voltar a driblar marcadores desnorteados com sua velocidade. Ele passou por quatro até ser derrubado dentro da área e conquistar o direito de cobrar o pênalti e se estabelecer como um dos principais goleadores da temporada, mesmo ainda não tendo ganhado o crachá de titular.

 

Além de Pepê e Ferreira, ainda tivemos o privilégio de assistir aos primeiros passos de Isaque, também com 22 anos, e rever Patrick, com 21 e jeito de moleque. Todos esses jovens comandados no meio de campo por outro que amadureceu mais cedo do que eles, mas divide a mesma idade: Matheus Henrique apesar de jogar como um “senhor volante”, não esqueça, caro e raro leitor desta Avalanche, tem apenas 22 anos.

 

O futuro do Grêmio se apresentou na Arena nesta noite de quinta-feira. E ouviu das arquibancadas uma mensagem bastante positiva quando nossos torcedores, no segundo tempo, aplaudiram a entrada de Pedro Rocha no time adversário e, ao fim, gritaram o nome de Edílson —  a mensagem de que aqueles que se dedicarem à camisa tricolor serão respeitados para todo e sempre.

Avalanche Tricolor: de goleada, sem compadrio e, como de costume, na Libertadores

 

 

 

Grêmio 3×0 São Paulo
Brasileiro — Arena Grêmio

 

 

Gremio x Sao Paulo

Festa na Arena, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Havia quem pensasse que pudesse ser um jogo de compadres. E bem que o primeiro tempo dava sinais de que mais uma vez neste campeonato os dois tricolores sairiam de campo com o zero a zero no placar — desta vez, somando-se a satisfação de estarem bem próximos de seus objetivos na competição. Sem contar que o empate dificultaria a vida do co-irmão gremista que ainda está em busca de vaga a Libertadores.

 

 

Mas quem assim pensava, se enganou. E se enganou feio porque sequer levou em consideração o histórico do nosso tricolor nesses últimos anos. Não lembrou que Renato é o nosso técnico e em campo tinha um time sempre disposto a certificar o futebol bem jogado que nos deu títulos atrás de títulos, desde 2016. Um futebol que esteve nas fases finais das principais competições que disputou neste ano e que não precisou de muito tempo, no Brasileiro,  para se colocar entre os quatro primeiros com direito a vaga direta na Libertadores.

 

 

A vitória seria a confirmação de que a temporada 2020 nos reservaria mais uma vez as emoções continentais, como de costume — foi assim em 2016, 2017, 2018 e 2019. Nos proporcionaria a 12a participação na Libertadores só neste século e a 20a em todos os tempos. E só por essa história, não dava para imaginar outra coisa senão o Grêmio entrar em campo nesta noite de domingo para conquistar os três pontos.

 

 

Foi por isso que Renato escalou um ataque com quatro jogadores que se movimentam muito e em alta velocidade — apostou em Alisson, Everton, Luciano e Pepê. Uma turma que no primeiro tempo tentou entrar na área adversária mas não encontrou o espaço que precisava para a troca de bola, já que havia um congestionamento de marcadores.

 

 

No segundo tempo, porém, sob nova orientação, permitiu-se ser atacado e a medida que o adversário se aproximava de sua área roubava a bola e disparava no contra-ataque. Quase marcou logo aos dois minutos em uma arrancada de Everton e Pepê.

 

 

Não demorou muito para chegar lá. Aos 10 minutos, após mais um lance de velocidade, intensa movimentação e troca de passes precisos, o ataque gremista desnorteou a defesa e chegou ao pênalti que permitiu que Luciano assinalasse o 400º gol da história da Arena. Em seis minutos, com um gol contra na cobrança de falta de Alisson e outro ataque fulminante que deixou Luciano pronto para voltar a marcar, o Grêmio fechou a goleada.

 

 

Com a vitória e sem compadrio, o Grêmio selou sua presença na Libertadores pela porta da frente e tem a tranquilidade de fechar a temporada com mais um jogo em casa, na quinta-feira, quando se despede de seu torcedor, e outro fora, na última rodada do Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: uma vitória com os talentos de Everton e Pepê

 

Palmeiras 1×2 Grêmio
Brasileiro — Arena Palmeiras

 

Gremio x Palmeiras

O sorriso da vitória, em foTo de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Vi Renato de punhos cerrados comemorando ao lado do gramado, assim que o árbitro deu o apito final. Maicon repetiu o gesto ao deixar o banco de reservas —- de onde assistiu à parte final do segundo tempo da partida, após se lesionar —- para cumprimentar os companheiros que ainda estavam dentro de campo. Antes, já havia me chamado a atenção a alegria do time na comemoração do gol de Pepê que garantiu mais uma vitória ao Grêmio, neste Brasileiro.

 

Cada cena em seu momento revelava a mesma mensagem e dava a dimensão do resultado desta tarde, em São Paulo. Foi a quinta vitória nas seis últimas rodadas do campeonato, em uma sequência de pontos que fez o Grêmio atropelar os adversários diretos, tomar a quarta posição e se consolidar na faixa que nos leva diretamente para a Libertadores.

 

Sei que o noticiário do futebol neste fim de semana teve todas suas atenções voltadas para uma só partida e um só time —- justa atenção, diga-se de passagem, porque esse time soube transformar dinheiro em talento e talento em perfomance de excelência. E de modo particular, a decisão da Libertadores no sábado ainda nos trouxe de volta a amarga lembrança da desclassificação na semifinal.

 

Diante desse cenário, imaginei que em campo veríamos um Grêmio desatento às suas obrigações. E, convenhamos, boa parte do jogo parecia mesmo. Apesar do domínio da bola, pouco se produziu no ataque. Não lembro de termos proporcionado algum lance de perigo no primeiro tempo. No segundo, o volume de jogo foi maior, mas as chances de gol eram escassas mesmo com algumas jogadas mais próximas da área. Menos mal que nossa dupla de zagueiros vinha fazendo uma partida excepcional anulando qualquer risco de ataque adversário.

 

Até que apareceram nossos talentos individuais.

 

Primeiro, Everton. Já havia arriscado alguns dribles, se livrado de marcadores até encontrar um espaço e correr em direção à área. Na tentativa de mais um drible, sofreu pênalti, cobrou e marcou —— com requinte de crueldade porque provocado pelo goleiro a bater no canto direito, o fez com maestria. Só faltou agradecer pela dica.

 

Segundo, Pepê. O menino Pepê. Entrou quando estava zero a zero. Ajudou a abrir espaço para Everton no primeiro gol, viu o Grêmio sofrer o empate e  aí fez aquilo que tem feito partida após partida. Correu para um lado, correu para o outro, se deslocou para receber, posicionou-se em direção ao gol e quando a bola chegou ao seus pés, foi pura maldade. Por trás dos marcadores, na cara do gol, de cavadinha, tirou a bola do alcance do goleiro que só teve o trabalho de assistir ao espetáculo de jogada. Foi a vez de nós torcedores agradecermos a ele pela pintura de gol e pela vitória alcançada.

 

Alguém arriscou dizer na transmissão da televisão que aquele foi o gol do título, pois com a vitória confirmada minutos antes de a partida se encerrar, o que tornava improvável qualquer virada no placar, o líder do campeonato, que já havia jogado por essa rodada, há duas semanas, não poderia ser mais alcançado por nenhum dos seus concorrentes diretos.

 

Na entrevista, Pepê não caiu na brincadeira dos repórteres. Com a mesma personalidade que entra em campo e decide os jogos, chamou atenção para a importância do gol marcado, pois daria tranquilidade ao Grêmio até o fim da competição na sua meta de estar na Libertadores, em 2020. Aliás, estar na Libertadores pela vigésima vez —- somente mais dois times brasileiros poderão alcançar essa marca ano que vem — e quem sabe conquistá-la pela quarta vez.

Avalanche Tricolor: o som das vaias

 

 

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

Gremio x Flamengo

Pepê em jogada de ataque, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foram tempos difíceis os que vivemos no início dos anos de 1970. Os campeonatos se sucediam e as derrotas se acumulavam. Nem estadual nem nacional. Jogar fora do país, apenas em amistosos. A pressão das arquibancadas era intensa. Derrubava-se técnico, trocava-se cartola e a vaia se misturava ao som da corneta de ar comprimido, marca registrada de nossa primeira torcida organizada, a Eurico Lara.

 

Lembro de um jogo pelo Campeonato Brasileiro, em 1975 —- acredito que tenha sido contra o Sport/PE —, em que torcedores revoltaram-se contra nosso time e passaram a explodir rojões próximo a casamata, onde ficavam o técnico e os reservas. Eu estava ali, ao lado deles enquanto os foguetes ensurdeciam nossos ouvidos e colocavam em risco a saúde de todos que estivessem à beira do gramado.

 

Apesar de muito guri, travestido de gandula, auxiliava Ênio Andrade levando e trazendo instruções para a equipe. Foi invenção dele, um dos maiores técnicos que o Brasil já teve e meu padrinho por adoção. Seu Ênio —- assim como todos os treinadores de futebol da época — não podia sair do banco de reservas, então criou a função de “pombo correio”, para a qual fui convocado e aceitei como um soldado diante de uma missão de vida.

 

Ao longo das partidas, seu Ênio me chamava, passava as orientações e eu caminhava até atrás do gol de Picasso, nosso goleiro, e transmitia o recado. Foi quando aprendi como é difícil a vida de treinador. Você dizia uma coisa e o time imediatamente fazia outra.

 

Naquela partida, foi triste ver que o time não andava como queríamos. E a torcida não perdoava. Vaiava. Gritava contra nossos jogadores. E passou a protestar com rojões. Saímos de campo protegidos pela polícia militar e assim que cheguei ao vestiário, comecei a chorar e fui consolado pelo abraço de um dos meus grandes ídolos, Yura. Ele chorou, também.

 

Minha tristeza não estava no resultado negativo e em mais um campeonato sem título, mas ao ver os torcedores do meu time protestarem daquela maneira. Para mim sempre foi muito frustrante ouvir a vaia do torcedor contra seu próprio time. Nunca gostei da ideia de atacar aqueles que vestem nossa camisa, por mais que muitos que a vestiram tenham feito por merecer.

 

Lembrei-me desta história ao longo do jogo dessa tarde, em Porto Alegre.

 

Ao menos dois dos nossos jogadores foram vaiados intensamente, André e Michel. Longe de imaginar que eles mereçam aplausos pela performance nesta temporada — especialmente nosso atacante deixou a desejar. Mas a vaia em um momento como o que estamos vivendo me parece injusto com o time. Pois, com certeza, mesmo que dirigida a um ou a outro atleta, sensibiliza o grupo e não faz justiça a tudo que eles, como grupo, já nos ofereceram de alegria.

 

Nós torcedores estamos sempre em busca de um bode expiatório e assim que o identificamos personificamos nele nossas fraquezas e frustrações. O time não ganhou, culpa dele. Jogou mal, é dele, também. Venceu mas não levou o título —- ah, se não fosse ele! É a justificativa que encontramos para não assumirmos que o adversário possa ser superior a nós.

 

Apesar de nossa vaga para a Libertadores do ano que vem ainda estar sob nosso controle, o resultado desta tarde não me deixou feliz. Lógico que não! Quero ganhar sempre. Mas foi o som das vaias que me entristeceu neste domingo.

 

É provável que muitos desses que estavam por lá reclamando nas arquibancadas da Arena não tenham ideia do que foram aqueles primeiros anos de 1970, no estádio Olímpico.