Quem cuida do homem gay quando ele envelhece?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos meses vivi algumas situações que me provocaram uma reflexão especial sobre o cuidado.

Ao longo deste texto, compartilho uma narrativa baseada na minha experiência como homem gay. O que apresento aqui, porém, também alcança — em diferentes nuances e, talvez, de forma ainda mais intensa — pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneras e não binárias.

Durante esse período, recorri aos abraços e à escuta de pessoas que pudessem, ao menos, acolher a ansiedade que eu enfrentava. Por sorte, ou por mérito, tenho por perto amigas e amigos que não mediram esforços para estar comigo e me fortalecer naquele momento.

Um aspecto, porém, chamou especialmente a minha atenção: a dificuldade de compreender, na prática, o contexto da interseccionalidade. E vejam: grande parte das minhas amizades é formada por pessoas que estudam esse tema, atuam na defesa dos direitos humanos e participam do ativismo.

A interseccionalidade é a compreensão de como diferentes dimensões que moldam nossa identidade — como gênero, raça, classe social, geração e orientação sexual, entre outras — se cruzam e produzem experiências específicas.

Ainda assim, vale o velho ditado: é fácil medir a intensidade da pimenta quando ela está no corpo do outro. Não por maldade, evidentemente, mas porque reproduzimos comportamentos socialmente aprendidos sem o exercício permanente da empatia.

Não escrevo isso por ingratidão nem para desmerecer esses encontros. Muito pelo contrário. Vejo essa experiência como um laboratório social que nos convida — e me convida também — a refletir sobre a forma como acolhemos as pessoas. Afinal, o mundo não se resume à nossa própria realidade.

O que mais me incomodou foi perceber que, ao expor meus medos e vulnerabilidades, eu precisava reiterar constantemente algo fundamental: como homem gay da geração dos anos 1980, minha rede de apoio e minhas perspectivas para o futuro não são as mesmas vividas, em sua maioria, por pessoas heterossexuais.

Não me refiro apenas aos aspectos econômicos. Refiro-me a uma pergunta que se torna cada vez mais urgente com o passar do tempo: com quem realmente podemos contar quando precisamos ser cuidados, sem ter de justificar uma existência que tantas vezes já foi colocada em xeque?

Contar com o apoio de uma família de origem homofóbica, que não nos aceita em nossa plenitude, jamais deveria ser visto como uma possibilidade. Quem nunca experimentou a violência da homofobia dificilmente compreenderá toda a dor e o adoecimento que ela produz ao longo da vida.

Também nem sempre encontramos pessoas amigas capazes de formar uma família afetiva — a família de escolha — que ofereça suporte emocional e prático nos momentos de fragilidade e durante o envelhecimento.

A nós também costuma ser negado o conforto religioso. Em muitos espaços de fé, perpetuam-se a discriminação e o incentivo à autonegação. E não me refiro apenas às religiões cristãs. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda são guiados por concepções ultrapassadas e autoritárias, que reforçam desigualdades de poder e restringem o acesso ao acolhimento espiritual.

O letramento em direitos humanos ainda é insuficiente, sobretudo quando se limita a práticas meramente ritualísticas e deixa de considerar os aspectos socioculturais e políticos que sustentam as estruturas de opressão.

No mundo do trabalho, a garantia de emprego formal com proteção social também está longe de ser uma realidade para todos. Ainda persiste um silêncio em torno da homofobia velada nos processos seletivos e em práticas corporativas que padronizam identidades e anulam a diversidade. Nem todo discurso inclusivo vem acompanhado de ações efetivamente comprometidas com a equidade e com a segurança de pessoas LGBT+ no acesso e na permanência no mercado de trabalho.

Como se isso não bastasse, a reprodução de estereótipos sobre a homossexualidade continua sendo perversa. Quando alguém acredita estar acolhendo ao dizer frases como “eu amo meus amigos gays, eles são os mais divertidos e confiáveis”, revela uma espécie de “homofobia cordial”. Esse lugar de adereço ou de “gay funcional” reduz nossa humanidade, como se não tivéssemos direito às vulnerabilidades, às fraquezas e à necessidade de sermos cuidados. É mais uma forma de desumanizar quem não corresponde ao padrão da cisheteronormatividade — estrutura social hegemonicamente organizada a partir da cisgeneridade e da heterossexualidade.

A estrutura tradicional de cuidado foi construída tendo como referência a família nuclear heteronormativa. À medida que o tempo passa, a pergunta sobre quem cuida de quem ganha contornos dramáticos para a população LGBT+, exigindo redes de apoio que a sociedade e o Estado ainda relutam em construir.

Não pretendo reduzir essa dor a uma questão de privilégio velado. Sei que fui acolhido, sou amado e disponho de uma rede de apoio importante. Minha reflexão vai além disso. Se alguém com as condições que tenho já atravessa esse processo deixando marcas profundas, o que acontece quando essa realidade se cruza com marcadores como raça, identidade de gênero, classe social e velhice? Se o acolhimento já falha em espaços relativamente protegidos, ele se transforma em um abismo de invisibilidade para quem vive às margens.

Até quando fingiremos que a solidão e o desamparo no envelhecimento de pessoas LGBT+ são falhas individuais de trajetória, e não resultado de uma estrutura social que insiste em descartar corpos que não reproduzem o modelo heteronormativo?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Nem sempre o final é fim

Diego Felix Miguel

Planta
Foto: Jefferson Breves/Flickr

Prezada leitora e prezado leitor,

Tomo a liberdade de começar com uma pergunta pessoal: você cultiva plantas em sua casa? Além da ideia blasé de “eu falo com elas”, você tira alguns minutos por dia para admirá-las?

Eu sempre gostei de plantas, talvez por conta dos meus pais, que, desde a minha infância, cultivavam dois grandes jardins que davam vida à casa onde nasci e vivi até completar 18 anos, quando busquei minha independência.

Desde cedo, era nesse jardim que eu refletia sobre a vida, as rejeições que sofria por ser um garoto gordo e a discriminação por não ser como os demais meninos da minha idade. Era com as plantas, flores e árvores que meus pais cultivavam que eu me sentia reenergizado e acolhido em um mundo que não compreendia o meu jeito de ser e de me expressar — uma rejeição que punia de forma perversa a minha existência, tentando, dia após dia, anular a essência genuína que transbordava em mim.

Essas memórias me vieram à tona quando consegui fechar alguns ciclos e decidi finalizar outros. Mais uma vez, as dezenas de plantas que cultivo em meu apartamento foram o abraço de que eu precisava, enquanto as regava e removia folhas e galhos secos. É impressionante como não precisei de muito para deixá-las novamente bonitas e radiantes: bastou colocar água, retirar o que já não estava mais vivo e observá-las. Vi novas folhas brotando, mesmo em pequenos brotos quase imperceptíveis, que revelavam a transformação, a resposta ao cuidado que semanalmente dedico a elas.

Diferentemente da religiosidade — que prevê a realização de ritos religiosos e crenças —, a espiritualidade promove a conexão. Ela não demanda deuses, santos ou outras divindades, mas a conexão com algo superior que, no meu caso, representa o resgate da minha essência, compartilhada desde a infância com esses seres da natureza. Essa conexão nos eleva e proporciona respostas que não encontramos nas pessoas, mas dentro de nós mesmos. É a oportunidade de vivenciar a intensidade do autoconhecimento.

Foi exatamente aí que me peguei refletindo sobre a transformação da natureza e pensando que nem todos os términos são realmente o final.

A crisálida — processo de transformação da lagarta em borboleta — demonstra muito bem onde quero chegar.

Não podemos tratar com superficialidade e limitação o poder dos finais, pois é por meio deles que nos ressignificamos e permitimos que novos brotos, ou novas vivências, passem a fazer parte da nossa longevidade.

Afinal, envelhecer com vivacidade exige essa sabedoria: desapegar-se do que já não nos serve mais, honrar o que passou, guardando-o na lembrança saudosa da nossa trajetória, e permitir que a transformação — a nossa crisálida — faça a sua parte.

Os começos ou recomeços, mesmo quando doem, também podem ter um sabor amanteigado, com aroma de baunilha, como um delicioso café da tarde em um dia chuvoso, trazendo o prenúncio de que, muito em breve, o sol voltará a iluminar e aquecer nossos dias.

É um afago que recebemos da vida, permitindo-nos novas conexões e afetos, tornando-a muito mais intensa.

Olhando para a sua própria trajetória, quais términos você hoje consegue honrar como o início da sua própria crisálida?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Manifesto de um ativista: quem cuida das velhices LGBT+?

Por Diego Felix Miguel

Estamos no mês historicamente dedicado ao Orgulho LGBT+, movimento que, desde o fim da década de 1960, ganha visibilidade e protagoniza uma luta legítima por representatividade e equidade de direitos.

Mesmo em uma data com tamanha relevância, uma questão me inquieta como ativista dos direitos da pessoa idosa, especialmente daquelas que permanecem vulnerabilizadas e invisibilizadas pelas políticas públicas: qual é o lugar ocupado pelas Velhices LGBT+ durante o mês do Orgulho — e nos outros onze meses do ano?

Recentemente, fui atravessado pelos discursos de artistas como Gretta Star e Márcia Pantera, figuras que marcaram gerações e foram fundamentais na construção de laços identitários para parte da comunidade que, durante muito tempo, viveu aprisionada por normas sociais, em um processo de autoviolência negação de si mesma. Elas denunciam algo perverso: além da LGBTfobia, enfrentamos também o idadismo.

A discriminação por idade nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes, manifesta-se em atitudes sutis que reforçam o sofrimento e ampliam a exposição à violência em suas diferentes formas, inclusive a financeira.

É inadmissível que artistas tão importantes para a nossa comunidade sejam colocadas em posição de desvalorização em eventos voltados à celebração da própria identidade LGBT+. Assistimos a um cenário em que pessoas mais jovens da comunidade supervalorizam talentos contemporâneos — o que é legítimo —, mas relegam ao esquecimento ou a um segundo plano aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ocupar espaços, conquistar direitos e sermos vistos e ouvidos.

São artistas que fizeram e continuam fazendo história. Abriram caminhos para que pudéssemos viver com mais liberdade e seguem sendo referências no processo de envelhecer e na própria velhice. Mantêm vivo o orgulho de sermos quem somos e ajudam a preservar uma trajetória que integra a cultura construída pela comunidade LGBT+, distante de todo e qualquer “armário”.

Na velhice, continuam sendo mestras e mestres. Ensinam sobre o direito de viver plenamente essa etapa da vida e denunciam que as desigualdades persistem, muitas vezes sustentadas por empresários e “ícone$” que consumimos em casas noturnas, shows, bares e saunas.

“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”

A frase atribuída ao filósofo Edmund Burke ajuda a compreender o cenário que vivemos.

Até quando abandonaremos aquelas e aqueles que são parte fundamental do legado do qual usufruímos?

Qual o sentido de ocuparmos as ruas com bandeiras se não honramos nossa história e não garantimos proteção às pessoas que iniciaram essa trajetória?

Não se trata de “velhinhos e velhinhas LGBT+”. Trata-se de pessoas idosas empoderadas, ativistas que chegaram à velhice desprotegidas pelo Estado e, muitas vezes, pela própria comunidade, que não oferece oportunidades de trabalho, não remunera com dignidade e não reconhece suas trajetórias.

Os ídolos atuais têm seu valor e sua legitimidade. Entretanto, sem aquelas pessoas que vieram antes, dificilmente estariam hoje mostrando seus talentos na mídia e ocupando espaços de grande visibilidade.

Como comunidade, no verdadeiro sentido de apoio mútuo e fortalecimento identitário, o que faremos para mudar essa realidade?

Quais estratégias adotaremos no ativismo para garantir segurança financeira, proteção patrimonial e acesso a serviços para as nossas velhices?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

O idadismo da “abominável classe média”: moradores não querem casa de repouso na vizinhança

Bengala de idoso
Foto de Mohamed Larbi Larouk no Pexels


Por Diego Felix Miguel

Prezada leitora e prezado leitor, peço que não me julguem pelo título deste texto — não antes de chegarem à última linha.

Minha reflexão parte do cruzamento de duas situações. A primeira evoca o célebre e controverso pensamento do filósofo Marilena Chauí, proferido em 2013:

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética, porque é violenta, é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.”

A segunda é a reportagem publicada na Folha de S.Paulo, em 25 de maio de 2026, sob o título: “Moradores pressionam a gestão Nunes e ocupas casas de repouso para idosos da Lapa”.

No vídeo publicado pelo jornal em suas redes sociais, moradores exaltados alegam que as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) ocupam uma área estritamente residencial e manter um serviço como esse retira a tranquilidade do local devido à circulação de ambulâncias e carros funerários — fatores que, segundo eles, desvalorizariam os imóveis da região.

Agressividade, falta de empatia e discriminação são ocorrências do dia a dia do idadismo — bem como as condições de saúde e sociais de pessoas que demandam cuidados de longa duração — emergem nos gritos histéricos de uma suposta elite que busca, a todo custo, higienizar o seu reino.

Essas mesmas pessoas manifestam-se posicionando suas casas de forma ostensiva, com música alta, para deliberadamente prejudicar o funcionamento das instituições. Interferem, assim, diretamente no bem-estar e no cuidado de pessoas idosas, principalmente daquelas que vivem com demências ou outras condições que comprometem sua autonomia e exigem um ambiente calmo, sem estímulos.

A filósofa aborda duramente isso quando conceitua a “classe média”.

Chauí não limita esse termo a uma condição meramente econômica, mas sim a uma postura política e existencial. A polêmica de sua fala, de 2013, ecoa, finalmente, no absurdo da Geriatria e da Gerontologia — e no ativismo pelos direitos humanos da pessoa idosa — neste ano de 2026, servindo como um exemplo didático e doloroso da postura que ela denunciava.

Testemunhamos ali o autoritarismo do fascismo social, que desconsidera a convivência democrática, o respeito às diferenças e a valorização da vida. Presenciamos a abominação ética que violenta, por meio de palavras e atitudes, pessoas vulnerabilizadas que necessitam de suporte especializado — sabendo-se que a complexidade logística e assistencial de uma ILPI é enorme e que uma mudança intempestiva, sem planejamento e investimento, pode trazer transtornos gravíssimos e riscos à saúde dos residentes.

Por fim, vemos a abominação cognitiva: a ignorância que banaliza a vida, colocando o valor patrimonial e o metro quadrado acima da dignidade humana, incomodada pela mera passagem de uma ambulância que socorre ou de um carro funerário que acolhe a finitude.

A questão aqui tratada não é burocrática ou sobre a regularização dessas instituições; é sobre a forma violenta e desumanizadora como a situação é posta, sem qualquer respeito à longevidade. Prosperar economicamente não é um problema — quem dera todas as pessoas tivessem as condições necessárias para transformar suas realidades —, mas a arrogância e a violência legitimadas pelo poder socioeconômico, sim, são problemas crônicos. São posturas que acentuam a exclusão de grupos historicamente minorizados e silenciados pelas políticas públicas que, quando finalmente se tornam visíveis, são tratados como um estorvo urbano a ser arremessado para além da linha abissal.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

O perigo dos “especialistas” em longevidade

Por Diego Felix Miguel

Foto de Can Ceylan on Pexels.com

Nunca foi tão fácil se apresentar como especialista em longevidade; e tão difícil sustentar esse título na prática. 

Deixo um aviso direto: trabalhar com pessoas idosas ou vender produtos e serviços para esse público não torna ninguém, automaticamente, especialista.

Prezada leitora, prezado leitor, não leia este início como arrogância. Pelo contrário: trata-se de um alerta necessário diante da urgência do tema.

Nos últimos anos, ganhou força um movimento essencialmente mercadológico, formado por profissionais que se apoiam em termos de impacto para projetar autoridade. Dominam o tom de voz e as redes sociais, mas não se sustentam quando convidados a aprofundar o tema.

A Gerontologia é uma ciência. Exige uma compreensão que perpassa a dimensão biopsicossocial e um olhar apurado sobre demandas e políticas públicas — especialmente em um país marcado por desigualdades profundas. Não se trata de uma disputa de mercado ou de protagonismo profissional.

O fenômeno é perigoso: distorce a compreensão do envelhecimento, compromete a qualidade dos serviços ofertados e pode impactar diretamente decisões em saúde, cuidado e políticas públicas.

Não há compreensão real do envelhecimento sem estudo e rigor científico. Experiência prática e leitura são valiosas —, mas não substituem formação consistente quando o tema é complexo. O que está fora disso pode contribuir, mas não confere, por si só, o título de especialista.

Escrevo com a experiência de mais de 20 anos de atuação e estudo em Gerontologia.

Há casos de livros em circulação escritos por inteligência artificial, com textos bem estruturados à primeira vista, mas que, ao menor aprofundamento, revelam erros conceituais graves, referências inexistentes e até nomes de autores grafados incorretamente.

Em muitos espaços, a produção acadêmica e os títulos formais passaram a disputar atenção, em desvantagem, com o número de seguidores e a estética de vídeos bem editados. O resultado é uma informação conceitualmente fraca, generalista e, muitas vezes, sem compromisso ético.

Se você está organizando um evento ou buscando referências na área, vale adotar alguns critérios simples — e cada vez mais necessários:

Observe a aderência à realidade — verifique se há compreensão da diversidade das velhices. No Brasil, é um erro tratar pessoas idosas como um grupo homogêneo ou pressupor acesso universal a serviços privados.

Vá além do currículo visível — investigue a formação e a prática profissional. Especialização exige foco; ninguém domina todos os temas.

Considere o vínculo institucional — priorize profissionais ligados a universidades, sociedades científicas ou serviços de referência. Solicitar comprovação de formação é uma medida legítima e valoriza a qualidade da atividade.

O objetivo aqui não é desqualificar indivíduos, mas valorizar quem realmente investiu tempo, pesquisa e dedicação à ciência da longevidade. Em meio à superficialidade, o conhecimento fundamentado segue sendo o melhor filtro.

Em um país que envelhece a passos largos e de forma desigual, vamos continuar valorizando quem edita melhor vídeos ou quem se compromete com a ciência e a ética das nossas velhices?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

As pessoas viram meu corpo e não repararam no brilho dos meus olhos

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, muito obrigado por tirar alguns minutos do seu precioso tempo para conversarmos. Não sei o quanto será agradável este assunto, mas, de fato, é algo que tem me incomodado bastante. Possivelmente você se encontre nesta situação, seja de um lado ou de outro. Por isso, pare, respire, tome um cafezinho enquanto dialogamos.

Não é segredo para ninguém que vivi um processo depressivo nos últimos anos –– talvez tenha sido até este momento para você que está me lendo pela primeira vez; sempre deixei aberta essa situação porque acredito que ainda há muito receio de se falar de forma transparente sobre isso. Mesmo fazendo tratamento há um bom tempo, somente em 2025 tive uma recuperação significativa. Obviamente com a ajuda de profissionais: médico psiquiatra, médico de família e comunidade, nutricionista e profissional de educação física.

Neste período, em menos de um ano, perdi mais de 30 quilos.

Sim, eu estava gordo e, apesar de me sentir bem fisicamente, os comentários das pessoas referentes ao meu corpo me machucavam. Vinham em forma de “preocupação” e até “conselhos” nunca solicitados — não pedi sua opinião, muito menos a ajuda, pensava no meu íntimo. Os discursos tentavam sempre me colocar em um lugar de inferioridade, sob um suposto “incentivo” ao autocuidado. Mas o que de fato me machucava, que apenas algumas pessoas mais próximas percebiam, era a ausência do brilho nos olhos.

Em maio de 2025, vivenciei uma espécie de ressuscitação. Na busca do ar para sobreviver, encontrei forças (e motivação) para focar no autocuidado e recuperar um amor que, há alguns anos, estava perdido. Desde então, mudei totalmente minha rotina, aprendi a priorizar o que realmente importa e a fazer boas escolhas.

O brilho nos olhos ressurgiu. Voltei a sorrir, a amar e a ver a beleza de um dia colorido, mesmo quando está nublado. Como consequência, meu corpo mudou totalmente. Como disse meu amigo Fred, recentemente, em um café delicioso e uma conversa empática: perdi peso, mas não foi somente o corporal. Foi o simbólico. Aquele que ninguém vê, mas que faz a gente se arrastar pela vida.

Hoje, com 30 quilos a menos e um corpo de quem se dedica ao autocuidado, tenho recebido muitos elogios, o que faz bem para a autoestima. O que me incomoda, ainda, é que pouquíssimas pessoas perceberam que a mudança mais significativa, e talvez a mais importante, foi o brilho nos meus olhos.

Não entendo muito a necessidade de falar do corpo. O que mais importa é o “conjunto da obra” ou, como costumamos falar na Gerontologia, os aspectos biopsicossociais. Estou envelhecendo. Agora ainda mais próximo da velhice, já que completei 41 anos. O meu investimento não é apenas para garantir músculos e ser um velho com funcionalidade preservada ou para que meu corpo funcione corretamente. É, principalmente, para que esses cuidados, somados à saúde mental, minimamente garantam que eu chegue à velhice.

Obrigado por chegar até aqui. Apenas um curiosidade final: o seu cafezinho acabou ou esfriou?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

A falácia do mercado prateado

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, este texto não tem o objetivo de desqualificar o mercado como campo de estudo, ciência ou estrutura de capital fundamental da nossa sociedade. A crítica se dirige à forma como ele se apresenta para atrair consumidores, muitas vezes por meio de termos que, à primeira vista, parecem positivos, mas que acabam alimentando preconceitos e discriminações. À superficialidade do discurso que tem como atribuição gerar lucro com palavras e expressões que impressionam quem ainda não mergulhou nas águas profundas do envelhecimento humano.

Nos últimos anos, assistimos a um “tsunami” de termos que tentam qualificar uma velhice privilegiada, blindando uma minoria de homens e mulheres contra estereótipos e mitos que, paradoxalmente, os expõem ainda mais ao preconceito.

“Nolt”, “silvers”, “ageless” ou “geração prateada” nada mais são do que atualizações do que antes rotulávamos como “melhor idade”. Essas nomenclaturas impõem uma hierarquização das formas de envelhecer, ditando modelos “melhores” ou “piores” e responsabilizando, implicitamente, o indivíduo por seus sucessos ou fracassos. Trata-se de uma lógica que ignora, deliberadamente, o abismo da desigualdade social.

As estratégias desse nicho podem ser perversas. Muitas vezes, carecem de responsabilidade social ao vender uma negação romantizada da velhice,  o que chamo de idadismo cordial.

É o artifício de enganar quem ainda não aceitou o envelhecimento como uma conquista, enxergando-o apenas como um inventário de perdas.

Trata-se de uma estratégia neoliberal para ofuscar o impacto da iniquidade no acesso às políticas públicas e às estruturas de poder. Esse movimento reforça preconceitos de gênero, raciais, étnicos e geracionais, vulnerabilizando ainda mais grande parte da população, que segue sobrevivendo na invisibilidade.

A ciência do mercado e do consumo é, na verdade, muito mais profunda. Deve ser multidisciplinar, beber de muitas fontes e buscar respostas para demandas reais. Quando exercida com ética, reconhece os diferentes públicos e elabora estratégias de comunicação que não visam apenas à venda, mas contribuem para a transformação social.

Não precisamos de maquiagem para a velhice. Precisamos de dignidade para nos assumirmos velhas e velhos com orgulho, com direitos garantidos e acesso, não apenas ao Estado, mas também ao consumo com autonomia e independência. Afinal, essas são as bases para um envelhecimento verdadeiramente ativo.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Não é egoísmo, é autocuidado


Diego Felix Miguel

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Nem sempre desconsiderar a dor do outro é uma atitude de egoísmo.

Prezada leitora e prezado leitor, talvez a ideia que abre este texto soe cruel ou desumana. Não falo de apatia nem de distanciamento emocional, mas de um autocuidado que, muitas vezes, é negligenciado. O que tenho aprendido no meu percurso pela longevidade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar: nem todas as pessoas merecem nossa dedicação.

Nossa cultura euro-cristã nos faz acreditar em uma dedicação intensa e exclusiva às outras pessoas, sobretudo quando as amamos ou quando existem vínculos sanguíneos. Com isso, passamos a colocá-las em um grau de importância superior às nossas próprias prioridades e desejos, muitas vezes à custa da nossa própria anulação, apenas para estarmos em conformidade com uma norma social.

Enquanto homem gay, vivenciei isso desde a infância. Posso afirmar que essa autocobrança se multiplica inúmeras vezes. Trata-se de uma tentativa falível de não ser percebido pela orientação sexual, mas por características como bondade, capacidade e dedicação acima da média. Essa realidade não é só minha; é a de inúmeras outras pessoas LGBT+, pessoas negras, pessoas com deficiência e de outros grupos historicamente minorizados em suas possibilidades de poder e reconhecimento.

No auge dos meus quarenta anos, percebi que não precisava mais sustentar todo esse esforço para demonstrar excelência nas relações. Permiti-me, enfim, decepcionar expectativas que não são as minhas.

Os tempos são outros. Pautas sociais e de direitos humanos vêm sendo cada vez mais difundidas e aprofundadas. Esse movimento contribui para tal posicionamento, assim como as conquistas de direitos, as políticas públicas afirmativas e a própria maturidade — que defino aqui como aquilo que aprendemos e carregamos ao longo da vida por meio das vivências.

Talvez essa seja a beleza da longevidade e, ao mesmo tempo, um de seus maiores desafios: lutar pela autonomia. Não a autonomia moldada por padrões normativos, que limitam nossa expressão e nossa vivência identitária, mas aquela que nasce da essência genuína de quem somos. Priorizar-se é o caminho, e ele nos conduz ao autocuidado.

Não é fácil. Aprendi que, antes de qualquer resposta ou ação que me cobram, tenho o direito de pausar, respirar e aprofundar meus sentimentos e vontades.

É isso mesmo que quero? Se sim, por que quero? Se não, por que isso me incomoda a ponto de eu não querer realizá-lo?

Para um envelhecimento ativo e saudável, precisamos repensar quais de nossas ações surgem, de fato, da nossa autonomia genuína e quais são impostas socialmente — aquelas que, mesmo ferindo nossos desejos, garantem um suposto conforto que, na prática, não tem nada de confortável.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Eu sou um cara da p****!


Diego Felix Miguel

Foto de Mo Eid no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Por favor, não me julgue precipitadamente por conta do título que escolhi para este texto. Na verdade, utilizei essa frase porque foi ela que marcou o exato momento em que recobrei minha autonomia após um longo período deprimido.

Eu estava assistindo à televisão à noite, pouco antes de dormir, como costumo fazer corriqueiramente. Não consigo lembrar exatamente o que estava assistindo, porque também uso a programação fútil para pensar sobre a vida até o sono chegar.

Naquela noite, porém, eu estava em outro momento da minha saúde mental, “enxergando sem meus óculos escuros” e analisando com mais profundidade a minha trajetória: de onde vim, o caminho que percorri, onde estou e para que direção estou caminhando.

Foi nesse momento de intensa reflexão que, como num grito que brotou da minha alma, surgiu o título que nomeia este texto.

Realmente me senti assim, como se cada poro da minha pele exalasse essa euforia que brotou da leitura das minhas conquistas — e não falo aqui apenas das conquistas materiais. Aliás, essas nem sempre representam um aspecto relevante para nomear nossas vitórias.

Falo do caminho que trilhei diante dos preconceitos e discriminações que sofri na infância e na adolescência; das violências coniventes em ambientes que, teoricamente, deveriam me proporcionar segurança e proteção, como a família sanguínea, a escola e os ambientes religiosos… Lugares que considero essenciais nessa fase da vida.

Lembro-me do primeiro emprego, dos cursos subsidiados por políticas públicas que me propiciaram uma profissão e da universidade que cursei. Por incrível que pareça, a academia também foi um ambiente hostil — não por conta dos meus colegas, mas por alguns poucos professores que reforçavam em seus discursos que “viado não seria ninguém na vida”.

Tenho amigos desse período que trouxe comigo até hoje e puderam ver de perto — e vibrar com — minhas conquistas acadêmicas, profissionais, materiais e, principalmente, pessoais: da pessoa que me tornei.

Em um mundo de trabalho competitivo, onde as relações de poder sempre nos desafiam, quando não queremos jogar esse jogo de vaidades, somos subestimados e inferiorizados. Sob essa pressão, a sensação de ser uma farsa ou uma pessoa intelectualmente desonesta fere nossa essência e reforça o lugar que alimenta a depressão, sabotando nossa autopercepção.

É nesse ponto que a reflexão se aprofunda. Chegar aos quarenta anos estudando os processos socioculturais do envelhecimento não é uma tarefa fácil. A nossa autonomia — um dos aspectos mais preciosos para um envelhecimento ativo — é frequentemente ferida e sabotada pelas vaidades alheias e pela insegurança que coloca em xeque quem realmente somos.

Felizmente, o autocuidado me proporcionou uma leitura mais distanciada desse momento. O tratamento medicamentoso, o acompanhamento nutricional e a atividade física foram essenciais para essa catarse.

Talvez não seja o caminho para todas as pessoas, mas, sem dúvida, existem muitas outras possibilidades que podem proporcionar essa mesma oportunidade.

É impressionante como os aspectos biopsicossociais, que tanto estudamos na Gerontologia, são perceptíveis na prática. Na vivência. Agora entendo o poder envolvente dos discursos das minhas professoras idosas: elas falam de ciência por meio de suas vivências pessoais. Um laboratório vivo. Que privilégio o meu ter essa consciência e honrar cada oportunidade que vivencio junto a elas.

Envelhecer não é fácil, ainda mais para pessoas que sofrem o impacto da desigualdade social, da iniquidade de acesso e da exclusão. Por isso, estou longe de generalizar. Ao falar da minha experiência, pretendo que, minimamente, possamos refletir:

O que cabe a nós?

Será que podemos representar e inspirar oportunidades para que todas as pessoas tenham vivências plenas? Acredito que sim. Ao recuperar minha voz e minha autonomia, meu papel é ser esse laboratório vivo. Utilizar a ciência da gerontologia e a minha história — do cara que superou o que disseram que ele seria — como ferramentas para que a luta por equidade e oportunidade continue a florescer.

Não pretendo aqui depositar mais responsabilidades sobre as pessoas que sofrem com a desigualdade; afinal, essa virada de chave não depende apenas delas.

Quais políticas públicas precisamos alcançar? Como os movimentos ativistas podem incorporar a longevidade em suas pautas?

Vamos conversar sobre isso?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Quem você levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel

Foto de Juan García

“De repente fico rindo à toa

Sem saber por quê

E vem a vontade de sonhar

De novo te encontrar”

“Cheiro de Amor” – Maria Bethânia

Prezada leitora, prezado leitor,

Quero te fazer um convite para iniciarmos essa conversa.

Feche os olhos por alguns instantes e reflita:

Quem você gostaria de levar com você na sua velhice?

Confesso que, no meu caso, a resposta não seria singular, e sim plural.

Lembrei de Spinoza, filósofo holandês que nos ensina sobre os afetos, essas transformações que ocorrem em nós, boas ou ruins, quando estamos em contato com outras pessoas e com o mundo. Afeto é justamente isso: o ato de afetar e ser afetado, registras em nós as marcas deixadas pelas experiências.

Ao pensar nisso, vários nomes vieram à mente. Memórias que relaxaram meu rosto e abriram um riso fácil, despretensioso. São vocês que nortearam meus pensamentos e que, em minha imaginação, gostaria de ter comigo daqui a 20 ou 30 anos.

Mas será que é assim que a vida funciona?

A vida nos ensina constantemente com os imprevistos e incertezas. Até lá, será que essas pessoas permanecerão ao meu lado? Continuarão sendo capazes de me fazer sorrir apenas por existirem nas minhas lembranças?

Não sei. Talvez seja pouco provável. Afinal, a vida não é linear. tudo se transforma, novas relações surgem, vivências inéditas nos atravessam.

Somos afetados o tempo todo. Descobrimos afinidades inesperadas, criamos laços que antes nem imaginávamos. Nesse curso imprevisível da longevidade, somos também ressignificados.

Com certeza essas pessoas estarão comigo de alguma maneira, seja presencialmente na minha vida ou nos afetos que se eternizaram no curso da vida, sejam eles positivos ou negativos.

Às vezes penso que os afetos são eternos, mas isso não significa que mantenham a mesma intensidade. O importante é não nos fecharmos ao novo, às experiências que, no passado, talvez não estivéssemos prontos para viver, mas que podem se tornar significativas o suficiente para permanecerem vivas até nossos últimos dias.

Os amores e os afetos que vivenciamos são diferentes, possuem intensidades distintas. Podem coexistir ao longo das décadas. Amar uma pessoa não anula a possibilidade de amar outra. Que garantia temos de permanecer com as mesmas pessoas até a velhice?

Pois é. Muitas perguntas, poucas respostas.

Como princípio básico, vale, então, considerar: mantenha sua rede afetiva nutrida de bons encontros e memórias, e esteja aberto a ressignificar as possibilidades de afeto conforme cada experiência. Não desperdice os vínculos que são verdadeiramente significativos para sua vida, eles podem, sim, ser eternos.

E você? Quem levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung