Mundo Corporativo: Diego Barreto, do iFood, diz porque o perfil empreendedor está acabando com o empresário tradicional

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“A nova economia é sobre o estado de espírito, se a gente está falando de um mundo que envolve mais tecnologia e tecnologia muda com uma velocidade muito maior do que algo físico, do que algo que está imóvel, você tem de estar disposto a trabalhar em um cenário de constante mudança do seu negócio” 

Há algum tempo aqui pelas bandas do Mundo Corporativo temos ouvido muita mais gente se identificando como empreendedor do que como empresário. Fica a impressão de que empresariar perdeu status diante da ideia de empreender —- o que não condiz com a realidade. São tanto funções complementares quanto podem ser exercitadas em estágios diferentes da carreira. Ao menos é assim que entendo. E tive minha ideia reforçada a partir da entrevista com Diego Barreto, vice-presidente de finanças e estratégias do Ifood

Antes de falar da entrevista em si, deixe-me apenas reproduzir o que os dicionários dizem de um ato e outro. Empreender é usar o tempo e as suas competências com autonomia, colocar em desenvolvimento, criar valor e assumir riscos. Empresariar significa tornar ago rentável ou digno de um negócio lucrativo, é liderar uma empresa. E por aí vê-se que uma não se sobrepõe a outra. Mas, com certeza, a outra —- empreender —- se faz necessária para a uma —- empresariar.

No livro “Nova economia —- entenda porque o perfil empreendedor está engolindo o empresário tradicional brasileiro”, escrito por Diego Barreto, é possível perceber como cada vez mais os líderes das empresas têm de ter o viés empreendedor para que seus negócios sejam alavancados. Assim como, todo profissional, independentemente da função que exerce, tem de praticar o empreendedorismo.

“O empreender está ligado ao instinto de buscar uma solução, buscar oportunidade e encontrar um caminho para aquela oportunidade se realizar. É mais animal, mais revolvedor. O empresário está ligado ao conceito de perpetuação, de gerencia, de administração. Os dois perfis tem uma importância muito grande”

A nova economia, tema central da nossa conversa no Mundo Corporativo e do livro de Diego, não fala apenas de negócios que surgiram agora, mesmo que sempre se tenha como exemplo empresas como iFood, Airbnb e Uber. Se como diz nosso entrevistado, é “um estado de espírito”, a despeito do ramo que atue e do estágio de maturação que está, é possível buscar os benefícios que a transformação tecnológica impulsionadora dos negócios oferece.

Exemplo que o próprio Diego Barreto oferece é o do Magazine Luiza, que inicia sua trajetória no interior de São Paulo, nos anos de 1950, e se expande como uma rede tradicional de varejo de rua. A visão empreendedora e inovadora da família, oferece espaço para que Frederico Trajano, sobrinho-neto do casal fundador da empresa, assuma o comando do grupo e inicie a transformação digital que a colocou entre as maiores empresas de varejo do mundo. A velha Magazine Luiza, nascida em 1957, é, hoje, uma referência da nova economia.

Diego Barreto também se transformou —- não o fizesse estaria superado. Até os 30 anos, sua carreira foi construída de forma tradicional e, como descreve, privilegiada pois é homem, branco, heterossexual e morador da região sudeste do Brasil. Formou-se em direito e foi fazer mestrado na Suíça, quando passou a perceber que algo novo estava surgindo:

“Quando vou para a Suíça, eu conheci o poder da diversidade e da inclusão na sociedade; e o poder da nova economia. Voltei para um ambiente corporativo que só tinha gente como eu e o incômodo dessa clareza me levou a estudar e a mudar meu comportamento”

A educação —- que considera essencial —- também mudou. pois se antes a jornada a ser cumprida passava por quatro ou cinco anos na universidade, depois pelo primeiro emprego, por uma pós-graduação e, novamente, a retomada do trabalho, agora o aprendizado está disponível em várias instâncias e tem de ser permanente:

“O que estamos fazendo aqui e agora — porque a CBN faz esta migração do rádio para ser uma plataforma de comunicação, estando por exemplo no Youtube, faz com que milhares de pessoas no mundo possa receber esse conteúdo e aprender um pouco mais sobre este tema. Então o conteúdo hoje, o aprendizado, está disponível, o que significa que pessoas com comportamento protagonista, elas conseguem sair de um ponto A até um ponto B sem necessariamente depender da educação tradicional”.

Dito isso, fechamos essa nossa conversa, então, com mais algumas lições que podemos aprender durante essa entrevista. Pedi para Diego Barreto sugerisse algumas mudanças de comportamento que podem nos ajudar a encarar os desafios e vantagens da nova economia:

  • 1. Crie o hábito do estudo que é a capacidade de compreender o mundo mundano, porque daqui a cinco anos as demandas serão outras.
  • 2. Não acredite nas indicações lineares daquilo que era oferecido no passado. Existem outras opções no Brasil. Existem pessoas fazendo diferença. É possível empreender. Existem empresas criando negócios maravilhosos e, portanto, vão abrir oportunidades para talentos.
  • 3. Aprenda a dialogar, porque se estamos falando de mudanças, automaticamente os padrões mudam, a ética muda. A ética precisa ser repensada. Isso é dialogo, a gente precisar sair da polarização, dialogar para refletir e aí se voltar para o ponto que você concorda.

Aprenda mais ouvindo a entrevista com Diego Barreto, no Mundo Corporativo:

Você assiste ao Mundo Corporativo, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site, no Facebook e no canal da CBN no Youtube. Colaboram com o programa  Izabela Ares, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Natacha Mazzaro.

O desafio de resgatar 5 milhões de jovens que perderam o vínculo com a escola, no Brasil

 Foto: Freeimages

“A crise da educação não é uma crise, é um projeto”

A frase de Darcy Ribeiro foi lembrada hoje cedo pelo professor Mário Sérgio Cortella, em nossa Conversa de Primeira, para ilustrar a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro vai ao STF para impedir que R$ 2,5 bi sejam investidos na infraestrutura que permitiria acesso de alunos da rede pública à internet. Informação que se soma a outra publicada pelo O Globo, manchete na editoria de Educação:

Retorno adiado: com R$1,2 bi para estruturar escolas para volta às aulas, MEC ainda não gastou nada, diz relatório”. 

Tudo isso foi dito pouco depois da entrevista que Cássia Godoy e eu fizemos com Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, que antecipou alguns dos argumentos e dados que seriam apresentados em seminário com o tema “A reabertura segura das escolas”: 

“O Brasil foi um dos países que mais tempo mantiveram as escolas fechadas e, hoje, apenas dois em cada 10 adolescentes têm algum tipo de contato com a sala de aula”.

Um número que foi registrado em novembro do ano passado —- e como nada mudou de lá para cá, tende a ser ainda pior: 5 milhões das crianças brasileiras perderam o vínculo com a escola durante a pandemia. Antes eram 1,5 milhão. 

Por aí se vê o tamanho do desafio que o país enfrenta. Esses jovens precisarão ser resgatados pelo ensino e não se vê quase nenhuma ação de governo para engajá-los. Florence sugere a estratégia da busca ativa, que já é desenvolvida corriqueiramente pelas prefeituras, que identificam as famílias que não colocam seus filhos na escola —- mesmo que alguns estejam matriculados —,  fazem contato com os pais e tentam convencê-los da importância de os filhos voltarem à sala de aula. 

“Apesar de todos os esforços feitos pelas escolas e educadores para manter a educação remota, os adolescentes mais vulneráveis não conseguem estudar”

Eis outra encrenca. Porque, mesmo que se ofereça o mínimo de segurança sanitária para que as aulas sejam retomadas —- e isso se faz urgente —, a maioria dos alunos chegará com ensino defasado, sem contar outras condições socioemocionais que podem tornar essa volta à escola mais difícil. 

A fórmula para a retomada das aulas já é conhecida, ensinou Florence Bauer: máscara, distanciamento, ventilação e diálogo com professores e toda comunidade escolar.

Ouça a entrevista completa com Flaurence Bauer, do Unicef Brasil:

Mundo Corporativo: primeiro a metodologia, depois a tecnologia, ensina Hendel Favarin, da escola de negócios Conquer

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“Construa o produto com o cliente e não para o cliente” 

Hendel Favarin, Conquer

Fechar a porta das salas de aula e abrir acesso às salas virtuais. Levar o conteúdo para a internet. Planejar com os professores como essa migração deveria ocorrer. E contar com a experiência de alunos. O desafio que a escola de negócios Conquer encarou em março do ano passado foi o mesmo de todas as demais instituições de ensino, no Brasil. Com a pandemia decretada não era mais possível manter a mesma estrutura de ensino e foi necessário agilidade dos gestores e capacidade de adaptação diante do cenário de incerteza que surgia. 

Algumas escolas tiveram mais sucesso do que outras nessa transformação digital. Um dos motivos para isso, segundo Hendel Favarin, co-fundador da Escola Conquer, entrevistado no programa Mundo Corporativo, foi entender que primeiro vem a metodologia e depois a tecnologia:

“Nossa taxa de desistência foi de cerca de 1,5%. A falta de engajamento (em algumas escolas) não foi por causa da tecnologia, mas porque a metodologia foi colocada à prova e o aluno não estava no centro da experiência”.

A Conquer foi fundada, em 2016, por Hendel Favarin, Josef Rubin, e Sidnei Junior, em Curitiba, a partir da insatisfação dos três jovens empreendedores com o ensino tradicional. Para eles,  especialmente as faculdades e os cursos de pós-graduação tinham conteúdo desconectado do mercado de trabalho, metodologia ultrapassada e professores muito teóricos e com pouca experiência no dia a dia dos negócios. 

“Nós surgimos para desenvolver softskills que fazem toda a diferença para um profissional alavancar seus resultados, independentemente da sua formação”

Hendel conta que a Conquer tinha 2 mil alunos em aulas presenciais até o início da pandemia. Com o conteúdo online, criação de cursos gravados e a oferta de graça de um curso sobre inteligência emocional, a escola passou a atender 30 mil alunos nos meses seguintes e, desde sua fundação, já conseguiu alcançar 1 milhão de pessoas de 80 países:

“O alcance e o impacto dos cursos digitais durante a pandemia proporcionaram maior acesso, maior democratização, porque os preços naturalmente caíram. Os cursos digitais permitem uma redução de preço, não têm todo aquele custo da infraestrutura presencial. Então os cursos acabaram diminuindo o seu tíquete médio e aumentando o alcance. É muito interessante porque hoje a gente vê alunos não só de todo o Brasil, mas também de muito mais classes sociais”.

A maior perda com o ensino à distância, de acordo com Hendel, foi com a criação de redes de relacionamento que é incomparavelmente maior no presencial do que no digital. O trabalho remoto também trouxe novas demandas aos líderes e gestores, aspectos que têm sido levado em consideração nos diversos cursos oferecidos pela escola: 

“As empresas que se destacaram foram as empresas que priorizavam a gestão pautada em pessoas, focada na conexão e empatia para as pessoas O líder fez toda a diferença. Gerando empatia, compartilhando suas vulnerabilidades, falando de suas falhas, seus acertos, seu aprendizado. A humanização líder: esse é o grande pulo do gato para se conectar à distância com suas equipes”. 

Com apenas 30 anos, Hendel, assim como seus dois sócios fundadores, também usam de sua experiência no empreendedorismo para ajudar outras pessoas a alavancarem os seus negócios. No programa Mundo Corporativo, ele deixou algumas sugestões para quem pretende iniciar seu empreendimento:

  • Construa o seu produto com o cliente e não para o seu cliente
  • Experimente, não tenha medo de errar
  • Esteja disposto a testar
  • Lance o MVP ou o Produto Mínimo Viável
  • Leve para o mercado o mais rápido possível
  • Observe, escute, aprenda e mude

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

A situação do jovem brasileiro na pandemia: sem ensino e sem emprego, tem esperança?

Foto de Tim Gouw no Pexels

A vida não está fácil para ninguém —- eu sei, começar um texto com essa frase que já virou lugar-comum não é muito inspirador para você seguir com a leitura. Porém, o fato é que a frase está cada vez mais comum desde que a pandemia se iniciou. E de tão comum, ganhou expressividade. Parece contraditório, mas faz sentido. Especialmente se você for um jovem que por jovem que é teve de enfrentar o que enfrentamos desde o ano passado sem a experiência da dor que forjou a personalidade e a alma dos adultos.

É da juventude que quero falar nesse bate-papo com você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Porque para eles, os jovens, as coisas estão bem difíceis. Podes crer (acho que nenhum jovem usa mais essa expressão, né ?!?).

Imagine a situação do cara ou da cara. No pico de sua energia e com hormônios em alta rotação, foram todos convocados a se trancarem em casa, se afastarem dos parceiros, segurarem o tesão pela vida e abrir mão de parte dos direitos que conquistaram. 

Enquanto alguns perderam o direito às relações, outros tiveram roubados o direito a educação. 

Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Costas do Estado do RS, informa em texto escrito na Gazeta do Sul, que 91,9% das mais de 3,6 mil redes municipais tiveram de completar o calendário escolar de 2020 com atividades não presenciais:

“Dados do IBGE indicam que 1,4 milhão de crianças e adolescentes não frequentaram a escola em 2020, sendo que outros 4,1 milhões, embora vinculados a algum estabelecimento, não tiveram acesso a atividades educacionais (para se ter uma dimensão do que representam esses números: todo o Estado do RS possui 2,2 milhões de alunos na educação básica)”

Perderam relações, perderam qualidade de ensino e perderam, também, o direito ao trabalho —- como mostram números divulgados nos últimos dias por diferentes instituições. 

Ainda nessa quarta-feira, em gravação do programa Mundo Corporativo, Helen Andrade, head de Diversidade e Inclusão da Nestlé, lembrou que para a turma dos 18 aos 24 anos, a taxa de desemprego no Brasil está na casa dos 30%, segundo cálculo do IBGE. Tema que preocupa a empresa que ela representa — hoje, o maior grupo de alimentação do mundo. Para tentar conter esse drama, a Nestlé tem  desenvolvido programas para incluir esses jovens no mercado de trabalho. Apostam na ideia de que com a juventude e a criação de projetos para manutenção e atualização de profissionais com mais de 50 anos, conseguem criar um ambiente colaborativo e criativo, unindo vivacidade e vivência. A experiência, porém, é exceção no mercado de trabalho brasileiro.

Sem emprego e sem escola, esse jovem é também um sem esperança. E como é triste para nós, que somos pais, assistir ao desalento da juventude. Porque são rapazes e moças que tinham nos programas de estágio ou de aprendizagem, além da formação profissional e da permanência na escola, a possibilidade de complementarem a renda familiar. Considere que o salário médio em São Paulo é de mais ou menos R$ 650,00 — ou seja, se estiver no mercado de trabalho, essa turma leva  para casa mais dinheiro do que o auxílio-emergencial, já não fossem suficientes a formação técnica, a absorção de conhecimento, o desenvolvimento da personalidade e autoestima adquirida.

É triste. É doloroso. É um perigo porque jovens sem esperança não esperam o futuro, tentam soluções imediatas nem sempre as melhores e mais saudáveis. 

Como de desespero já estamos cheios, trago algumas informações que talvez nos ajudem a respirar um pouco mais —- ainda que atrás de uma necessária máscara de proteção.  Dois estudos divulgados nos últimos dias sinalizam que talvez o mercado de trabalho comece a acenar novamente para os mais jovens, mesmo diante de muitas das restrições que ainda vivemos pela incompetência na gestão da crise sanitária que encaramos desde março do ano passado. 

Um levantamento feito pelo CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola, que reuniu informações do seu banco de dados, identificou que o número de vagas abertas para jovens cresceu 28,9% no 1º trimestre de 2021 se comparado aos últimos três meses de 2020. No Estado de São Paulo este aumento chegou a 38,9%.

Se olhar para os dados do CAGED, tivemos o melhor primeiro trimestre de toda a série histórica agora em 2021, com recorde de abertura de vagas para aprendizes de 14 a 24 anos. Na análise feita pelos técnicos da Kairós  Desenvolvimento Social, houve um saldo positivo, entre contratados e demitidos de 43.570 postos de trabalho.

Antes de comemorar, lembre-se: disse que talvez possamos respirar, mas ainda sem tirar a máscara. Temos de colocar os números nos seus devidos lugares,  

Tanto o CIEE como a Kairós comparam o primeiro trimestre deste ano com o último trimestre do ano passado —- o ano em que a tragédia sanitária assolapou nossas expectativas e enterrou nossos sonhos. E, principalmente, do sonho de muitos jovens aprendizes que fazem parte de grupos mais vulneráveis. 

Infelizmente, se queremos ter um olhar mais preciso sobre o que acontece na nossa vida, de acordo com números e estatísticas, é preciso pegar o retrato de agora e comparar com a fotografia tirada no mesmo período do ano passado. Ou seja, primeiro trimestre de 2021 com o primeiro trimestre de 2020 —- quando os efeitos da pandemia ainda não tinham sido plenamente absorvidos pela economia.

Segundo o CIEE, nessa perspectiva, a oferta de oportunidades de estágio e aprendizagem despencou 28,7%, no Brasil. Olhando aqui para a região em que vivo, o tombo foi ainda maior na capital paulista, 29,3%. No Estado de São Paulo 27,2%.

A Kairós traz outro cálculo que demonstra o quanto ainda precisaremos reagir para nos recuperarmos do legado de 2020. Lembra do saldo de 43.570 vagas abertas que falamos antes? Está distante ainda das 72.885 vagas de aprendiz que foram fechadas desde abril do ano passado, quando começaram os efeitos da pandemia. 

Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós, lamenta que “não houve nenhuma medida do governo para proteger esse grupo (de jovens), nem responsabilidade social das empresas para manter as vagas”.

Já Marcelo Gallo, superintendente Nacional de Operações do CIEE, prefere destacar a perspectiva de que haverá um crescimento gradual do número de vagas ao longo do ano — o que pode ser um alento para quem já viu o mês de maio se iniciar e até agora não encontrou o seu espaço no mercado de trabalho. 

Entre número e estatísticas, diagnóstico e prognósticos, nós, pais, temos a responsabilidade, assumida diante da sociedade quando aceitamos a ideia da paternidade, de mostrarmos a todos esses jovens —- em especial aos nossos jovens filhos, que ainda estão sob nosso campo de observação — que  toda e qualquer saída para esse cenário está pautada na ideia de oferecemos a eles um ambiente eticamente saudável. Porque nos cabe, independentemente da dimensão das crises que enfrentamos —- humanitária, sanitária e econômica — a missão de oferecermos aos nossos filhos a educação —- e não apenas o ensino — que permita que eles façam as melhores escolhas diante dos problemas que têm de administrar o tempo todo no relacionamento com os amigos e com a família, no emprego ou na falta dele, na escola ou na vida.

Mundo Corporativo: para Clodoaldo Nascimento, da Yes!Idiomas, escolas terão três modelos de ensino após a pandemia

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“O online veio para ficar. Ele vai ser uma ferramenta que nós vamos utilizar no nosso dia a dia de diversas formas, seja para atender a pessoas que trabalham e tenha dificuldade de tempo seja para atender a pessoa que quer aprender rápido e em qualquer lugar” 

Clodoaldo Nascimento/Presidente da YES!Idiomas

Escolas de inglês passaram a anunciar cursos 100% online como se o modelo fosse uma inovação, apesar de a estrutura tecnológica já estar à disposição e negócios das mais diversas áreas se sustentarem no digital, há muito anos. De acordo com Clodoaldo Nascimento, presidente da YES!Idiomas, entrevistado do programa Mundo Corporativo, a demora para essa migração —- que apenas ocorreu devido a pandemia —, está ligada ao apego a um padrão  que fez sucesso ao longo do tempo:

“Na verdade, talvez, (havia) aquela coisa de você quebrar o paradigma. Por exemplo, a ideia de que a aula é presencial, o professor tem de estar perto do aluno, falar no pé do ouvido dele. Principalmente nos idiomas temos às vezes essa dificuldade da pronúncia. E tinha a dificuldade de conexão. Isso fez com que gente procrastinasse essa vontade de levar para o EAD.Não teve jeito. A gente teve de antecipar este EAD”.

No caso da YES a troca das aulas presenciais para o ensino à distância ocorreu nas 180 escolas e no atendimento aos cerca de 60 mil alunos, nos 18 estados em que a rede de franquia atua, no Brasil. Clodoaldo disse que a transformação teve de ser feita em 15 dias, período em que a franquia teve de oferecer plataformas para a realização dos cursos, aulas foram gravadas e as unidades regionais criaram serviços de apoio para orientação dos alunos:

“Quando a gente viu que tinha esse problema, eu reuni minha parte pedagógica reuni minha parte operacional. E montamos um comitê de crise. 24 horas por dia, a gente ficava pensando na melhor maneira de a gente poder entregar o melhor produto. Nós tivemos de apressar um processo que talvez levasse anos e nós tivemos de fazer em duas semanas”.

Ao mesmo tempo que correm para se adaptar, as escolas tradicionais de idioma assistem ao surgimento de opções de ensino de língua estrangeira por aplicativos, que podem se transformar em concorrentes no setor.  Clodoaldo entende que os APPs não tiram alunos das escolas, são complementares ao ensino e, provavelmente, serão usados pelas instituições. Para ele, a partir de agora, haverá três modelos a serem ofertados no setor:

“A gente só tinha um modelo, eu acho que nós vamos ter três, que é o modelo tradicional presencial, a gente não pode deixar de ofertar porque tem pessoas que têm a predileção. Vamos ter um modelo híbrido, que vai ser uma coisa mais flex, na questão tempo. E vamos ter o 100% online”.

Mesmo que o ensino seja à distância, a gestão continuará sendo presencial, destacou Clodoaldo Nascimento, que é presidente da YES!Idiomas desde 2004. Ele começou como vendedor de cursos de inglês, em 1989 e dois anos depois chegou na YES, onde foi funcionário e concessionário até assumir o comando da rede. Par quem pretende investir no setor de franquias, Clodoaldo alerta:

“É preciso ter disponibilidade de tempo, saber que ele vai operar aquela franquia, porque o sucesso de uma franquia é uma coisa que tem a ver com parte da franqueadora — você está associado a uma marca, que já está no mercado, está consolidada —  mas só a marca consolidada, sozinha, ela não faz nada. Ela precisa de alguém que esteja atrás do balcão, dando o seu tempo, fazendo a coisa realmente acontecer”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, na página do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e domingo, às 10 da noite em horário alternativo. Está disponível também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves. 

Conte Sua História de SP: fui a louca dos cursos

Jovanka de Genova

Ouvinte da CBN

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Resolvi fazer parte da população que aceita a ciência e aderi a quarentena. Foi fácil? Claro que não. Não tem romance nesse processo. Dias intermináveis, de luto — luto de uma vida que parece que nunca mais será igual. O jeito foi pensar em caminhos possíveis dentro de casa… construí minha carreira a partir de uma premissa: estudar é sempre a melhor opção e, nesse norte, fiz um direcionamento bem óbvio no meu caso: estudar seria minha boia salvadora nessa pandemia. E foi.

Sou profissional da área de comunicação empresarial e educação, meu mestrado, que encerrei em janeiro de 2020, tem como tema central: Afetividade na Educação a Distância. Muita gente duvida que isso seja possível. Criar relações? Construir vínculos? No digital? Eu também tinha dúvidas e preconceitos. 

Antes de seguir minha história: não vou dizer que foi um processos fácil e para todos, não. Infelizmente, foi para a minoria. A educação na pandemia ficou muito a desejar para a maior parte dos brasileiros.

No meu caso, foi a oportunidade de alinhar meu objeto de estudo com a prática, e entender como as emoções fazem diferença na educação, principalmente em 2020. Eu não escondo que fiquei mais carente; sozinha fisicamente; e abri meu coração para todo e qualquer tipo de apoio, mesmo digital.

Fui a louca dos cursos. Conclui ao menos cinco. O mais importa foi o da diversidade nas organizações — tema que junto à pandemia esteve no noticiário com casos de racismo, assédio sexual, moral e discriminação de gênero. Meu curso foi todo digital. Mais de 100 participantes. E criamos uma rede de apoio pelo WhatsApp que acolheu pessoas de todos o país que se sentem seguras para dividir angústias, desafios, tristezas, alegrias … todos os tipos de sentimentos e emoções. Nunca nos vimos, fomos unidos por uma causa, por uma postura responsável e o compromisso em tornar o ambiente corporativo em lugares melhores para receber diferentes raças, gêneros, orientação sexual e pessoas com deficiência. Praticamos a escuta e a troca, sem julgamentos e expectativas. Colocamos na prática a afetividade no mundo digital, com a criação de vínculos e o exercício do relacionamento saudável e construtivo.  

Também organizei o iEduque, um coletivo afetivo para a discussão, formação e acolhimento de profissionais de educação.Nasceu na pandemia com o propósito de colaborar com professores nesse período de exceção. Somos três profissionais que idealizamos um projeto todo através do digital. Experiência possíveis em uma cidade como São Paulo. Sei que falar de cidade, de um lugar físico, fica até meio sem sentido, mas, mesmo no digital, São Paulo une as pessoas e possibilita encontros incríveis e potentes.

E eu descobri que, sim, existe amor no mundo digital.

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Jovanka Mariana de Genova é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para  contesuahitoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Volta às aulas na pandemia: meu medo é o dia em que o gato fugir

Foto do site CBN de Denny Cesare / Código 19 / Agência O Globo

Ao longo da vida, em São Paulo, minha casa foi visitada duas vezes por assaltantes. Em uma a visita foi consumada e na outra, ficou apenas na tentativa. A experiência nos levou a adotar cuidados que não tomávamos. Os portões da frente agora são vazados —- há uma teoria de que bandidos sentem-se menos à vontade para trabalhar quando quem passa do lado de fora enxerga o que acontece dentro; a máquina do portão automático é mais veloz para reduzir o risco de surpresas quando se manobra o carro; os acessos à casa são redundantes —- ou seja, há necessidade de passar por ao menos duas barreiras antes de chegar onde querem; câmeras e alarmes estão instalados em posições estratégicas. Na busca por mais tranquilidade … ops, tranquilo nunca é … por mais segurança, certifica-se de quem bate à porta antes de abri-la, bate-papo na calçada nem pensar e é redobrada a atenção no entra e sai de pessoas —- momento de maior fragilidade diante de assaltantes de ocasião.

As medidas que tomamos aumentaram a segurança, sem eliminar o perigo — esse nos ronda a todo momento quando vivemos em sociedade. O problema é que no cotidiano, há outras coisas a se pensar e as medidas preventivas acabam sendo deixadas em segundo plano se não entrarem na rotina residencial. Dia desses levei um puxão de orelha do meu filho mais novo. E o problema não era nem o perigo que poderia vir de fora, mas os gatos que podiam fugir de dentro. Como estava sendo realizado trabalho de manutenção na minha casa, e insistíamos em deixar a porta da cozinha aberta, ele lembrou que um dos nossos gatos —- mais serelepe e curioso com a vida —- poderia sair para a parte externa e escapar para a rua. Diante do descaso, ele mesmo fez dois cartazes com o anúncio: “deixar esta porta fechada sempre”. Colou do lado de dentro e do lado de fora. A medida nos ajudou a ficarmos atentos. Nas duas primeiras semanas. Hoje mesmo, fui até a cozinha, saí, voltei e deixei a porta aberta, apesar de o cartaz estar à mostra de todos. O gato já estava na garagem.

Perdo-e se preenchi dois parágrafos para contar coisas caseiras, da minha intimidade familiar, talvez de pouca importância para você, caro e raro leitor deste blog. Se as conto, porém, é por um bom motivo. E interesse público. É para ilustrar o que penso sobre os riscos aos quais estamos submetidos neste momento em que há quem aposte que não virá uma segunda onda da pandemia da Covid-19, mas uma segunda epidemia com um variante do que um dia chamamos de ‘novo coronavírus’. Tenho dúvidas se hoje, quando mais de 231 mil pessoas morreram no Brasil e voltamos a marca de ao menos mil mortos por dia, mantemos metade da rotina que criamos no início desta jornada. Lembra que lá atrás, havia uma série de regras para impedir que qualquer coisa que entrasse na nossa casa —- a começar por pessoas —- nos colocasse em contato com o vírus? Comida lavada com álcool-gel, pacotes tocados com luvas, tapete antibacteriano, sapato e roupas deixadas em um saco plástico … No comércio, o moço na entrada apontava uma pistola para medir sua temperatura, a cada passo havia um frasco para limpar a mão e o controle de acesso era rígido. O frasco agora está vazio, a máquina de vaporizar não tem manutenção e a pistola —- que parece não servia para nada mesmo — está abandonada no escaninho de algum gerente da loja. 

O risco de baixarmos a guarda assim como muitos baixam a máscara para o queixo aumenta no momento em que assistimos ao retorno das aulas nas escolas. Permita-me não entrar na discussão se o momento da volta é esse ou não —- se você quiser análise mais bem argumentada no assunto leia gente como a professora Cláudia Costin e o jornalista Antônio Gois. Nesses dias em que tudo é novidade, após tantos meses distantes dos colegas e professores, toda medida possível é adotada. Os avisos de atenção estão pendurados pelos cantos da escola, as marcas pintadas no piso para evitar aglomeração, as classes separadas para respeitar o distanciamento, proteção de acrílico impede o contato dos mais distraídos e os protocolos de comportamento são lembrados a todo momento. Tem mais álcool-gel na garrafinha do que água nos banheiros. Cada aluno leva o seu. E as recomendações dos pais são acompanhadas com atenção pelos filhos. Meu foco não é com o que vai acontecer agora, mas daqui duas, três, quatros semanas. Quando estar na sala de aula não será mais novidade, os protocolos terem entrado para o rol das coisas corriqueiras e as distrações do cotidiano se sobrepuserem as preocupações. 

Meu medo, confesso, é com o dia em que o gato fugir. 

Estudantes em vestibular online dão uma lição em negacionistas do voto eletrônico

 

Por Carlos Magno Gibrail

Foto Pixabay

 

Há um ano o mundo político evidenciava o surto de direita em países de importância econômica e geográfica, quando os indícios da epidemia despontavam. Hoje, passados doze meses dos estragos causados pelas sequelas de políticas nacionalistas e contaminadas pelos efeitos do vírus, que os negacionistas continuam ignorando, a luz que se apresenta é a vacinação. 

Como a vacina Sputnik V começa agora a ser aplicada na Rússia, e quem sabe pode atuar duplamente como o Sputnik original, quando despertou os Estados Unidos para a corrida espacial e impulsionou a luta pela democracia global. A eleição americana de Joe Binden é um indicio, assim como de certa forma a votação municipal, que recém terminou entre nós também sinaliza mudança, indicando o enfraquecimento do extremismo político.

De outro lado, o ruído sobre o voto eletrônico brasileiro, com um sistema que apura dezena de milhões de votos em 1 hora, e tendo como exemplo o arcaico modelo de votação americano, configura-se um contrassenso a cogitação da volta ao passado do voto no papel.

Eis que, na quarta-feira a Universidade Mackenzie iniciou o processo seletivo online para um robusto complexo de cursos que irão graduar milhares de jovens em áreas prioritárias para o desenvolvimento do país:

Arquitetura e Urbanismo, Administração, Administração Gestão de Comércio Exterior, Ciências Biológicas, Ciência da Computação, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Direito, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Engenharia de Materiais, Engenharia Mecânica, Engenharia de Produção, Farmácia, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Sistemas de Informação, Tecnologia em Gastronomia.

Na verdade, fiquei sabendo dessa informação pelo meu filho adolescente, vestibulando de Direito, que na véspera me lembrou, que a partir do meio dia de quarta-feira estaria em seu quarto prestando o seu primeiro vestibular. 

Estava tão tranquilo quanto no dia seguinte, momentos antes de iniciar a prova. Fato que me levou a comparar a diferença entre o presencial e o virtual — entre o deslocamento para um exame na sala de aula, enfrentando trânsito e chegando ao tradicional ambiente tenso sob todos os aspectos no local da prova, e o quarto do adolescente, tradicionalmente um território de total domínio deles, a tal ponto que a porta fechada permanentemente para caracterizar esta condição é fato universal.

Perguntei a ele como fica estabelecida a segurança da prova, ao que mostrou perfeita credibilidade, informando que o controle seria exercido pela tela, e a regra não permitia a ausência do aluno. Além de a qualquer momento haver a possibilidade de ter de girar a câmera para que todo o recinto pudesse ser observado pela fiscalização quando essa solicitasse.

O sistema, de acordo com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, está baseado no Remote Proctored IBT, que significa Teste Baseado em Internet com Monitoramento Remoto, que pode ser realizado em qualquer local físico conveniente. O vestibulando é monitorado ao vivo e à distância, por meio de áudio (microfone) e vídeo (webcam). A sessão inteira é gravada online e faz parte do histórico do candidato.  

Nesse domingo, a PUC Pontifícia Universidade Católica fez o seu exame de seleção online, trazendo também carreiras tão essenciais ao progresso nacional, e nas mesmas características que o Mackenzie. 

É um sistema que acredito veio para ficar, e por isso deverá se aperfeiçoar. Um dos pontos será quanto às condições restritivas, como a obrigatoriedade do computador com webcam e áudio, e da conexão de internet estável na velocidade mínima de 512 kbps. 

Supridas estas demandas, podemos dizer que o sistema é mais vantajoso e confiável que o presencial, pois registra o candidato durante todo o processo e grava áudio e imagem. Também é mais confortável e elimina despesas de locomoção e instalação do local da prova. 

Cabe inclusive a comparação com o processo eleitoral quando se discute voto eletrônico e impresso no viés da segurança e do custo.

A questão é cientifica e técnica, e o problema surge quando se interpõem forças políticas e ideológicas. Apostamos no conhecimento acima das influencias impertinentes, e o voto eletrônico certamente ficará, assim como o vestibular online deverá ser analisado como alternativa ou opção.

Boa prova a todos os jovens que já estão com sorte, afinal quem não gostaria de ser examinado dentro do seu domínio?  

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.   

Convite aos eleitos

Cezar Miola

Conselheiro do TCE-RS

 

Foto: Pixabay

 

Texto publicado originalmente no blog de Fausto Macedo/Estadão

Em quase 40 anos exercendo funções públicas, tenho convivido com a notável experiência de estar próximo do ambiente da gestão governamental, tendo começado, inclusive, no âmbito local, no Município, que é o “palco da vida”. E particularmente nas quase três décadas de atuação no Ministério Público de Contas e no Tribunal de Contas gaúcho, muito desse trabalho incluiu realizar auditorias, apontar irregularidades, emitir pareceres técnicos e jurídicos, recomendar, determinar, sancionar. E orientar, porque essa é uma função muito presente nos órgãos de controle.

Mas, a poucos dias do importantíssimo processo de escolha dos novos administradores e dos vereadores de mais de 5,5 mil municípios brasileiros, considero que a hora seja mais própria a um convite, quiçá um desafio. Que esses novos gestores e representantes dos mais de 200 milhões de brasileiros façam dos próximos quatro anos o exercício diário de ações em defesa da educação e do bem-estar das nossas crianças e jovens. Creches para aquelas de zero a três anos, as quais, ao longo desse período, já deverão ingressar na pré-escola; quanto às que hoje iniciam o ensino fundamental, que concluam essa etapa, e assim sucessivamente. Numa perspectiva de longo prazo, um quadriênio pode parecer pouco, mas poderá ser determinante para a vida de muitos brasileiros. Hoje, temos mais de 6,5 milhões de crianças de até 3 anos fora das creches; 1,5 milhão com idade entre 4 e 17 – faixa na qual o ensino é obrigatório – não estão na escola. De igual modo, cabe ressaltar que a pandemia trouxe efeitos deletérios em termos de mais abandono e evasão. São números impressionantes, mas que podem impactar menos se distribuídos pela grande federação: cada uma das mais de 5 mil células desse todo cuidando da sua parte, empregando verbas próprias e aquelas do Fundeb, além do necessário apoio da União, conforme prevê a Constituição da República.

Ainda na linha propositiva, emerge uma respeitosa reflexão: a possibilidade de se reforçar esses aportes com uma fonte adicional, ou seja, parte dos valores alocados nas emendas parlamentares ao projeto de lei orçamentária. Veja-se: conforme dados do Portal da Transparência, de janeiro de 2018 a outubro de 2020 houve o empenhamento de R$ 47 bilhões em emendas. Desse total, foram pagos R$ 24 bilhões. Embora a exigência (legítima, diga-se) de se reservar parte específica às ações e serviços públicos de saúde, o certo é que, no período, apenas 1,2% deste último total se destinou à educação básica. Nesse quadro, respeitada a legitimidade democrática, parece haver espaço para um precioso incremento de recursos, que ajudariam a concretizar a prioridade que todos defendemos para a educação. Um exemplo de aplicação: investimentos imediatos na inclusão digital, instrumento cada vez mais essencial no processo pedagógico, em benefício de escolas, professores e alunos.

Em outra dimensão, há de se olhar, igualmente, para aspectos como os da gestão e da eficiência. Em inúmeros municípios brasileiros, de diferentes regiões, encontramos evidências que nos permitem assegurar: sabemos como alcançar bons resultados; cabe ter a humildade e o compromisso de adotá-las. Não há soluções mágicas, mas se pode aproveitar o que comprovadamente tem dado certo, inclusive em locais cujas condições socioeconômicas são desfavoráveis. A propósito, veja-se o estudo “Educação que faz a diferença”, elaborado em parceria entre o Instituto Rui Barbosa (IRB) e o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), disponível neste link.

Não se ignoram os desafios da covid-19, que está longe de ser vencida, mas o convite, a conclamação, o desafio, são para que façamos dos próximos quatro anos o tempo em que, investindo nas pessoas, desde os primeiros anos, construiremos a base para um futuro promissor, menos desigual e de perspectivas para todos os brasileiros, independente da renda das suas famílias ou da cidade onde nasceram. E se os sucessores dos agora eleitos seguirem pela mesma trilha, assegurando todos os meios imprescindíveis, irá se construindo um alentador processo virtuoso.

Mas também se tenha presente que o desempenho positivo não se dá por fatores isolados. Ele só é factível num cenário dialógico entre gestores, profissionais da educação e famílias, todos comprometidos com a responsabilidade educacional, que se traduz na universalização do acesso, na equidade e na qualidade.

Aos que desejarem percorrer tal caminho, posso assegurar: em todos os Estados brasileiros haverá um Tribunal de Contas aliado para ajudar a concretizar esses objetivos.

Texto publicado originalmente no blog de Fausto Macedo/Estadão

*Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e presidente do Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB)

Mundo Corporativo: Fabiana Fragiácomo, do Instituto Ayrton Senna, fala de marketing relacionado à causa

 

“Esse momento que a gente está tendo é uma janela de oportunidade para um despertar das empresa e da sociedade” —- Fabiana Fragiácomo, Instituto Ayrton Senna

A chegada de uma nova geração nas empresas e no mercado consumidor, além da própria aceleração impulsionada pelos riscos que a pandemia gerou às pessoas e às empresas, fortaleceram a ideia de se trabalhar com marketing relacionado à causa. A opinião é de Fabiana Fragiácomo, head de comunicação e marketing do Instituto Ayrton Senna, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN. 

“Houve um mudança geracional. Essa última geração que entra no mercado de trabalho, que entra no mercado consumidor é uma geração ligada no propósito, que também veio com uma escassez. Veio com uma abundância de tecnologia e escassez de recursos…”

A executiva entende que a pandemia sensibilizou empresas e empresários, e um dos dados que ilustram essa realidade foi o fato de que nunca antes houve tantas doações em dinheiro ou equipamentos feitas no país, como nesse período. O desafio para ele é fazer com que essa transformação seja perene:

“O que a gente está vendo é um gatilho de mudança. E eu acho que acabou com essa pandemia escancarando algo que já sabíamos que eram problemas. Então, o problema da educação não era um problema novo. O problema da fome não é um problema novo. O problema da crise climática muito menos”.

O marketing relacionado à causa pode ser um instrumento usado pelas mais diversas empresas, independentemente do tamanho e da área de atuação. O importante é que líderes e colaboradores estejam identificados às causas que falem com eles para que as ações sejam feitas de forma genuína e tenham o alcance desejado.

O Instituto Ayrton Senna é um centro de inovação que  desenvolve programas e pesquisas na área da educação e mapeia empresas que têm o foco no ativismo e estão em busca de um propósito para desenvolver projetos em parceria.

O conhecimento adquirido a partir de pesquisas realizadas com universidades internacionais é aproveitado na criação de programas que trabalham no desenvolvimento de alunos, com o treinamento de equipes técnicas da área de educação, em estados e municípios. O Instituto tem dado ênfase a formação de competências socioemocionais, criatividade e pensamento crítico: 

“Só o desenvolvimento dessas habilidades dará conta das incertezas que o mundo está apresentando, porque o conteúdo muda. O conteúdo está mudando o tempo todo. A tecnologia está mudando o tempo todo. O que não vai mudar é a sua capacidade; a sua estrutura psicológica e emocional de lidar com tantas mudança em um velocidade tão grande”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN. A gravação do programa pode ser assistida, ao vivo, no site da CBN, pelo canal da CBN no Youtube e no Facebook. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Guilherme Dogo, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.