Avalanche Tricolor: “esse amor descontrolado, nunca vou deixar de lado”

Grêmio 3×2 Juventude

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Sentei à mesa com a família. Aquela pizza da casa, antecedida por um pãozinho quente com salsicha me esperava neste jantar de domingo. Tudo isso, regado a vinho — muito vinho. Não tenho pressa em beber, em comer e em dormir. Amanhã é segunda, mas estou de férias. Acordo quando der —- verdade que o corpo costuma pedir para sair da cama ainda de madrugada, impulsionado pelo hábito. Acordo se quiser. Tenho tempo para saborear as horas, o dia, e os prazeres que este me oferece.

Neste domingo, o prazer que senti foi o de uma vitória —- raro nos últimos tempos. Recheada de emoção, provocada por uma torcida que se fez presente em peso —- ou com o peso que lhe foi permitido, já que ainda estamos sobre restrições sanitárias. A cantoria das arquibancadas me encheu de esperança e, parece, contaminou o ânimo dos jogadores em campo, como se não bastasse estarem sob novo comando. 

Emocionei-me ao ouvir a cantoria que marcou nossa história. Que de tão intensa e genuína levou Guilherme Vilani, narrador da SportTV, a retransmiti-la como se fizesse coro com o nosso torcedor. 

“Esse amor descontrolado

Nunca vou deixar de lado

Sempre junto ao Tricolor

Eu te sigo aonde for

Com meu trapo e a bandeira

Venho pela camiseta

Hoje de qualquer maneira

Nós temos que ganhar”

Já não lembro se cantamos ‘Amor descontrolado’ tantas foram as letras entoadas pelo torcedor. Se não o fizemos, poderíamos ter feito, porque só ganhar nos interessava neste fim de tarde domingueiro. 

Uma vitória que passou pelos pés do sempre renegado Alisson, que já havia tentado um gol de calcanhar pouco antes de fazer a bola explodir no travessão e voltar para a cabeça de Douglas Costa. O mesmo Alisson que balançou na frente da área, deslocou os zagueiros e chutou forte, provocando o rebote do goleiro, aproveitado, com precisão, por Diego Souza.  

O baixinho e cabeçudo atacante gremista talvez seja a imagem do Grêmio atual. Nunca será reconhecido por seu talento, mas jamais poderá ser acusado de ter desistido. No último ponto que havíamos conquistado, foram deles os gols que nos levaram ao empate. Hoje, foram deles as assistências que nos deram a vitória. É, como dizem os entendidos do futebol, o principal ‘garçom’ do time gremista. Serve a seus colegas no ataque, serve ao time na defesa e serve a mim pela determinação que nunca nos negou —- mesmo diante de todas as críticas.

Sei que nada está resolvido, muito antes pelo contrário. A ‘Batalha dos Aflitos’ que enfrentamos nesta Série A teve apenas mais um capítulo. Insuficiente pra nos tirar do sufoco da zona-você-sabe-qual, mas necessária para quem acreditará até o fim, mesmo depois que decretarem a nossa morte — porque somos Imortal.

O jantar de domingo, o pão com salsicha, os pedaços de pizza e a garrafa de vinho — ao lado da família —-,  tiveram sabor especial nesta noite. O sabor da esperança “de que este amor descontrolado (que) nunca vou deixar de lado” haverá de me devolver a alegria de ser torcedor do Grêmio.

Avalanche Tricolor: chora, Brenno!

Santos 1×0 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Imagem reproduzida da SportTV

“Choro quando estou triste,

Lágrimas que queimam, mas que aliviam”

Brenno foi gigante enquanto pode. Defendeu as bolas quase impossíveis.  Uma a meia distância, com força e velocidade —- daquelas que o atacante comemora antes de ver a rede estufar. Outra no ângulo, em cobrança de falta perfeita que se fez imperfeita diante da perfeição de sua defesa. Despachou o perigo toda vez que este rondou nossa goleira. Sofreu no corpo o tranco adversário. Despencou das alturas e sentiu nos braços o choque violento com o gramado. 

Houve ao menos dois momentos em que parecia batido: foi quando sua áurea se estendeu além do corpo para impedir que a bola entrasse na cidadela — a fez desviar no poste ou impulsou seu zagueiro a tirar de cabeça. De tanto se fazer grande, Brenno transferiu aos atacantes o peso da responsabilidade de terem de ser maiores do que eles próprios eram capazes. Os fez pensar duas, três vezes antes de arriscarem o chute.

Apesar de fazer de tudo, Brenno não pode tudo. Por isso foi às lágrimas ao fim de tudo. Lágrimas de tristeza. De frustração. De indignação. Da injustiça de se ver batido na imprevisibilidade de uma bola desviada do seu rumo. 

Foi ao assistir às lágrimas de nosso jovem goleiro, que me veio a mente trecho de poesia que havia lido, nesta semana, quase por acaso, como foi o gol adversário. Por contraditório que seja, estava em busca de autores que definissem o poder das lágrimas provocadas por uma alegria. Encontrei Regiane Folter, outra jovem talentosa em sua arte da escrita, autora paulistana temporariamente erradicada no Uruguai —- ali onde se chega cruzando pelo Rio Grande do Sul. Na poesia de Regiane, agora, encontrei consolo para quem como Brenno — e eu — choramos diante da frustração:

“Choro quando estou frustrada,

Quando as coisas não saem e tudo parece perdido.

Cada gota que escapa leva um pouco de estresse acumulado,

E deixa espaço pro descanso tão necessário antes de recomeçar.”

Chora, Brenno! Amanhã tudo recomeça e vamos precisar de você gigante mais uma vez.

Leia a poesia “Choro para ser” de Regiane Folter

Avalanche Tricolor: vamos reviver a Batalha dos Aflitos

Grêmio 2×2 Cuiabá

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Alisson revive Aílton em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A Avalanche criada para ser o espaço em que expressava minha paixão tricolor enquanto o coração ainda pulsava intensamente pelas conquistas e sofrimentos alcançados nos gramados transforma-se em campo de previsões e expectativas — ao menos nesses tempos em que jogos sofridos e sofríveis se encerram tarde da noite, e a mim cabe madrugar para trabalhar.

Sem negar a origem desta coluna digital, que mantenho desde a primeira década deste século, olho adiante ainda impactado pelas cenas assistidas na noite de quarta-feira. Dos gols que tomamos em lances fortuitos aos que marcamos em meio a indignação pelo que estamos enfrentando, forjei uma esperança e desenhei uma jornada que talvez nada tenha de épica, mas que me mantém na crença de que seremos capazes de superar nossos limites, nossa mediocridades e nossas fraquezas.

Ao ver os acontecimentos da partida contra o estreante da série A que jamais venceu da gente, em lugar do desespero que encontrei atrás da máscara — daqueles que a mantiveram — de torcedores que foram à Arena, vislumbrei um horizonte azul, preto e branco, daqueles típicos dos nossos feitos.

Há quatro jogos, ouço comentaristas e amigos alardeando que se vencermos estaremos fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Apesar das expectativas, é lá que nos mantemos na 24a rodada de um campeonato que tem 38 para serem disputadas. A despeito de tudo isso, consegui enxergar em cada um dos gols marcados pelo pequeno gigante Alisson e sua comemoração irada —- que me lembrou Ailton na final do Brasileiro de 1996 — sinais de que algo surpreendente está para acontecer a partir de agora. 

A cada jogo jogado, derrota somada, empate sofrido e vitória escasseada aumenta o contigente de avalistas da desgraça alheia. Uma turma que —- com a razão da performance e dos pontos desperdiçados —- vê aumentada sua descrença de que seremos capazes de sair da situação que estamos e sua expectativa de que aquela divisão-que-você-sabe-qual-é será nosso destino. 

A forma como o time se pronunciou no segundo tempo da partida de quarta, o sofrimento no rosto de cada um daqueles que estavam em campo vestindo nossa camisa tricolor e, claro, os gols e a determinação de Alisson me encheram de inexplicável esperança. Me fizeram entender de que estamos prestes a assistir à mais uma Batalha dos Aflitos. Uma batalha estendida  que não se resumirá a um jogo; a um pênalti salvo pelo goleiro ou desperdiçado pelo atacante; a sequência de expulsões que nos agigantou; ou a um gol improvável. 

Estamos diante de uma aflita batalha que será disputada até o apito final no minuto final, do jogo final deste campeonato. Que nos dará o prazer efêmero de nos mantermos na primeira divisão e a oportunidade de recomeçar uma nova e vitoriosa jornada em 2022.

Avalanche Tricolor: em livro sobre as “Poderosas do Foz”, jornalista dá ponte pé inicial para desvendar a história do futebol feminino no Brasil

Grêmio 0x2 Sport

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Quem me lê nesta Avalanche — e são cada vez mais caros e raros —- sabe que a dedico ao meu tricolor de coração. E a publico poucas horas após o árbitro trilar o apito final. Como tudo está fora da ordem, da vida ao meu time de futebol preferido, abandonei meus compromissos com o leitor e com a coluna depois do resultado de domingo  passado. Não significa que abdiquei da minha paixão, porque esta é eterna, o que me faz acreditar mesmo no inacreditável —- o que não é o caso, ainda. Já havia desistido de escrevê-la pelo tempo passado e o desconforto com o tema. Foi então que “o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma cartão na mão”, como bem escreveu em Letras, Maria Bethânia.

No pacote que abri ansioso, sem saber o que me aguardava, encontrei livro, camisa e copos alusivos ao trabalho do colega de profissão e companheiro de Twitter, Bruno Zanette, com quem compartilho alguns amores. Nascido e vivido em Foz do Iguaçu, adora rádio e futebol, a assim como eu. Nos últimos tempos, dedicou-se a registrar os momentos vividos por um time que fez história no futebol feminino: o Foz Cataratas FC, campeão da Copa do Brasil, em 2011. 

Azul como meu Grêmio, mas bicolor por nascença, o Foz surgiu em 2010, estreou às vésperas do Dia Internacional da Mulher e foi vice-campeão da Copa do Brasil naquele ano.

A derrota na final para o Duque de Caxias (RJ) foi marcada por polêmica de arbitragem, expulsão, discussão e gás de pimenta. A despeito de justiça ter sido feita ou não, foi aquele jogo que forjou o caráter e a personalidade do time que conquistaria o Brasil no ano seguinte.

Bruno, que era repórter de campo e torcedor do Foz —- não necessariamente nesta ordem —- registra a história no livro “O ano em que o Foz Cataratas conquistou o Brasil”, publicado graças a sua coragem e talento —- características que também fazem parte do roteiro das ‘Poderosas do Foz’, como as meninas que jogavam na tríplice fronteira eram conhecidas. Da mesma forma que elas, o autor também contou com a torcida de apoiadores que aceitaram financiar a ideia de registrar um dos capítulos do futebol feminino, no Brasil.

Eis aí, entre tantos, o maior mérito deste trabalho realizado pelo Bruno. Como escreve a jornalista Patrícia Zeni, na apresentação do livro, “a história do futebol feminino ainda está escondida” e Bruno dá o ponta pé inicial para torná-la pública. Faz trabalho bem feito, com precisão, apuro e emoção —- similar ao que aquelas jogadoras aprestaram em campo quando desafiadas por suas adversárias.

Os feitos das “Poderosas” deixo para que o próprio Bruno conte. Ele tem autoridade no assunto e foi testemunha ocular daquela conquista que fez “a alegria das arquibancadas, com jogadas imortais de craques”—- como eternizado no hino do clube. De minha parte fica o convite para que você conheça e apoie o trabalho dele, inspirando outros jornalistas a contarem em livro a história do futebol feminino no Brasil.  E, também, deixo meu agradecimento ao autor que, ao me proporcionar a leitura destes feitos, ameniza a frustração dos resultados do meu time de coração.

Ps: aos leitores recém-chegados, explico: a Avalanche Tricolor registra resultados, jogo após jogo, alcançados pelo Grêmio, sem que, necessariamente, eu tenha o compromisso de escrever sobre eles, especialmente quando meu time nada faz por merecer.

Avalanche Tricolor: uma dose extra de paciência

Athletico 4×2 Grêmio

Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba-PR

Vanderson em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Nesta semana, a família concluiu seu segundo ciclo de vacinação contra a Covid-19. Mulher e filhos, além deste que lhe escreve: todos já estão com a segunda dose no braço. Dá um certo alívio, passado um ano e oito meses desde o início dessa desgraça que nos abateu. Lembro que no começo muitos imaginavam que tudo se resolveria rapidamente. Alguns falavam em duas semanas para voltarmos ao normal —- seja lá o que isso signifique. Apostei em ao menos dois meses, quando cheguei em casa no dia em que iniciamos a quarentena, em 20 de março do ano passado. Alertei a turma de que seria um período complicado, mas valeria a pena a reclusão.

Se o prazo final da pandemia estendeu-se muito mais do que a expectativa, a boa notícia foi saber que o prazo de conclusão das primeiras vacinas se encurtou bem mais do que todos acreditavam. No segundo semestre do ano passado, já surgiam os primeiros resultados. E no início de dezembro de 2020, havia países vacinando seus cidadãos —- o Brasil, lamentavelmente, demorou mais e permitiu que muita gente fosse embora antes da hora, apesar de a existência de uma vacina capaz de reduzir os riscos de contaminação grave, internação e morte.

Desde janeiro, quando a vacina começou a circular por aqui a ansiedade para que o processo se acelerasse foi enorme. Comemorava-se cada pessoa conhecida que tivesse sido imunizada. A agulha no braço era mais do que uma vitória individual. Era coletiva. Como se todos estivessem sendo protegidos. Aliás, todos estão sendo protegidos quando uma pessoa se vacina. Se aprendemos alguma coisa ao longo deste tempo, é que a busca da imunidade possível é uma responsabilidade ética que assumimos quando decidimos viver em comunidade —- lamento muito por aqueles que insistem no contrário e seguem com sua visão mesquinha e assassina.

Pela idade, minha mulher e eu tomamos a primeira dose antes dos filhos. No meio do caminho, o vírus me pegou, mas a proteção foi suficiente para não me abater. Viva a ciência! Os três meses de espera para a segunda dose foram intermináveis, mas chegaram com a devida celebração. Os meninos tiveram ainda mais sorte. Primeiro, porque foram contemplados com o que aqui em São Paulo chamados de xepa —- aquelas doses remanescentes que precisam ser aplicadas depois de abertas para evitar o desperdício. Segundo, porque em lugar de 12 semanas puderam tomar a segunda dose em apenas oito, graças a redução do tempo proposta pelo Governo de São Paulo.  

Este foi o primeiro fim de semana que passamos juntos com a certeza de que se a ciência cumpriu o seu papel, nós, como cidadãos, cumprimos o nosso. Não temos a ilusão de que estamos livres do vírus. Sabemos que é preciso seguir com as medidas de proteção, em especial com o uso da máscara. Não dá para baixar a guarda. Apesar disso, nos demos o direito de comemorar essa vitória.

O mesmo não posso dizer do meu Grêmio que no fim da tarde deste domingo desperdiçou mais uma oportunidade para sair da zona de … “você-sabe-qual”. Apostei que na primeira rodada do returno já estaríamos livre desse martírio futebolístico e percebo que estou sendo precipitado. Diante do que assisti em Curitiba talvez seja prudente tomar uma terceira, quem sabe, uma quarta dose da vacina da paciência.

Avalanche Tricolor: carta ao meu amor!

Flamengo 0x1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Amor,

Há momentos na nossa vida que são muito especiais. Fazem cicatrizes em nosso coração. Não como aquelas provocadas por feridas de tropeços, erros e pecados. São marcas que ficam para nos lembrar a todo instante o quão feliz fomos naquelas experiências. Para não nos deixar desanimar diante de percalços e questionamentos que irão acontecer —- e como têm acontecido, na maioria das vezes por minha culpa, minha tão grande culpa, como dito no ato penitencial que faço em todas as missas dominicais.

Esses mesmos momentos que cicatrizam o coração, todas as vezes que os enxergamos no retrovisor de nossas vivências, induzem nossa memória afetiva e nos fazem reviver as emoções, acelerar o batimento no peito, arrepiar os pelos da pele, lacrimejar os olhos e sorrir de forma incontida. Ah, como você foi gigante ao me proporcionar cada uma dessas sensações, amor! 

Nestes dias, vivenciei essa montanha russa ao seu lado, mesmo que você sequer tenha percebido, afinal estava inebriada — merecidamente inebriada —- pela peculiaridade da semana que se encerrou.  Uma semana especial na sua vida, porque sabemos o quanto você preza pelo dia de seu aniversário. E assim deveria ser para todos e sempre. Para cada um de nós. Se a humanidade tivesse noção de como é importante brindarmos pelos instantes de alegria que temos, não ergueria um copo de vinho sequer sem agradecer a Deus pelo que Ele nos proporciona.

Aprendi com você que essas vitórias precisam ser celebradas, a despeito de ainda potencializar tanto a dor das derrotas. Sou um péssimo aprendiz, confesso. Tivesse absorvido as lições que você me ensinou nesse tempo todo em que estamos juntos, provavelmente seria um humano melhor. Seria alguém mais grato a tudo que a vida me ofereceu, a começar por estar ao seu lado.

Não, não sou merecedor sequer de parcela dessa dedicação que você me prestou ao longo deste tempo. Seja como for, estou aqui a agradecer por tudo que você me propiciou. Pelo amor que você compartilhou. Pelas alegrias e frutos que me deixou experimentar. 

Esteja onde eu estiver — nunca se sabe que lugar da arquibancada o destino me reservará —, saiba que sempre estarei aplaudindo suas vitórias, consolando suas derrotas e admirando seu jeito de ser.

Obrigado por existir, meu Amor!

(esta carta, claro, escrevo para minha mulher que comemorou mais um ano de vida, no dia 15 de setembro; mas, pensando bem, tem destino perfeito para o time do meu coração que aniversariou no 16 de setembro e voltou a me proporcionar a alegria da vitória, neste domingo)

Avalanche Tricolor: porque foi assim que aprendi a ti gostar

Flamengo 2×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou gremista, não por agora. Sou gremista de nascença. Quem já conversou comigo, leu minhas palavras ou ouviu minhas conversas sabe muito sobre isso. E se começo a Avalanche reforçando essa ideia é porque muitos devem imaginar que momentos como esse que estamos enfrentando são suficientes para nos afastar daquilo que aprendemos a gostar. Quem viveu o que vivemos, não esmorece. Não se micha como dizem lá pelas nossas bandas. 

Na noite de ontem, mesmo diante do desastre da primeira partida, do time alternativo levado a campo, das carências de qualidade e talento, do poder financeiro e político do adversário —- que teve o privilégio de levar torcedores para o estádio e esfregar na nossa cara, sem máscara, o desrespeito aos quase 590 mil mortos por Covid-19  — , lá estava eu na torcida mais uma vez. Porque é assim que nos tornamos gremistas. Acreditando sempre, mesmo que não haja por que acreditar.

Posso lhe garantir, já foi pior. Muito pior. E se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, for gremista como eu, sabe do que estou falando. Hoje, sofremos mais porque ficamos mal acostumados com a performance, resultados e títulos dos últimos anos. Tivemos um time de excelência e de futebol exuberante poucas temporadas atrás. E quando olhamos em campo, ainda vemos alguns resquícios desse passado recente: alguns cambaleando e outros apenas como um desenho mal esboçado do que foram. Tem até mesmo talentos em potencial, que não conseguem se expressar.

Nada disso … nem a bola mal tratada, nem a gestão mal acabada, nem as derrotas acumuladas, … nada disso me demove do desejo de torcer pelo meu Grêmio. De acreditar no meu Grêmio. De sofrer desta paixão. Por isso, a despeito do que esteja acontecendo, do que aconteceu na noite desta quarta e do que acontecerá em seguida, cá estou a ratificar este amor e a desejar-lhe um feliz aniversário, Grêmio!

Avalanche Tricolor: na vida e na competição

Grêmio 2×0 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar”

Com Titãs na cabeça. E a angústia no coração. Assim tenho levado meus domingos adiante. No divã virtual da terapia, retomada na  pandemia, tento descobrir a saída para a dor que me toma o domingo. De nada adianta saber a causa, se desconheço o remédio. E sem analgésico, lá se vai mais um dia. Busco no futebol a distração para essas horas. Desta vez, quis o calendário me dar um alento logo cedo. Quando a bola começou a rolar, a erva do chimarrão ainda queimava na água quente — e olha que a levo para a fervura quando ainda está no alvorecer. 

Tenho sido reticente quanto ao que podemos fazer. Quase que negando tudo aquilo que forjei nesse tempo que me dedico a torcer. Não sei se uso dessa artimanha para forjar uma blindagem no coração sempre a espera de uma decepção. Nem sei se assim estou apenas desperdiçando os instantes em que a vida tem alegria para me oferecer e com esse comportamento eu não faço por merecer. 

Sei que é assim que a banda toca e o jogo se joga. Quando o adversário nos pressiona, prevejo que o pior vai acontecer: ou desvio no zagueiro ou vacilo do goleiro ou juiz no exagero. Se chegamos no ataque, olho só de revesgueio, porque já antecipo que daquele lance quando muito sai um escanteio. 

Foi então que o destino resolveu me fazer um agrado. 

Ainda no primeiro tempo, como se disposto estivesse de calar meu ceticismo, protagonizou através de Rafinha um passe profundo para Alisson, que em cruzamento colocou Diego Souza em condições de cabecear para as redes. E se dúvida ainda houvesse quanto a lição que o destino pretendia me dar, neste domingo, não me deixou esmorecer mesmo após sofrer com o risco de assistir ao gol de empate. Operou mais um lance vitorioso. Dessa vez pela direita, com Vanderson cruzando alto o suficiente para Diego Souza —- sempre ele —- raspar a cabeça na bola e dar a Ferreirinha o direto à redenção. Ele que sofreu de Covid, de lesão e de indecisão, bateu forte para confirmar a vitória.

No apito final, somamos três pontos importantes diante da sofrência desta temporada. Uma vitória que confirma a esperança de torcedores e comentaristas de que este será o returno da retomada. Fiquei feliz com o resultado — claro que sim. Sem nenhuma ilusão, sempre com medo da frustração. E na expectativa de que ainda vai aparecer uma solução. Na vida e na competição.

Avalanche Tricolor: fomos roubados

Grêmio 0x1 Corinthians

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Vanderson em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A fúria de Maicon contra o árbitro, logo após o gol adversário, se justifica, por mais que os comentaristas tentem dizer que nada de errado havia ocorrido para uma reclamação tão acintosa. Diego Souza, em uma inusitada cena na qual tirou o cartão amarelo das mãos do atrapalhado assoprador de apito, estava certo em revelar sua indignação —- e somente alguém sem nenhuma autoridade em campo assistiria a tudo aquilo e não o expulsaria.

Maicon e Diego Souza expressaram no gramado da Arena a raiva de quem se sente roubado a cada partida disputada pelo Grêmio, nesta temporada. São dois jogadores que fizeram parte de um elenco de excelência que construímos nos últimos anos e contribuíram na construção da história recente de títulos — em especial nosso eterno capitão, que levantou todas as principais taças que disputamos nos últimos tempos. Sabem pela experiência que têm do nosso potencial e, principalmente, do que já representamos ao futebol brasileiro. E por terem consciência de nosso passado recente, se indignam em campo pelas sequência de roubos cometidos

E antes que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, imagine que aqui estou a escrever um texto que tenha como alvo principal o espevitado Ricardo Marques Ribeiro, saiba que minhas referências a ele se encerraram no primeiro parágrafo. Por mais atabalhoado que seja, o resultado de hoje não passou pelas decisões equivocadas que tomou.

Fomos roubados, sim. 

Não pelo árbitro. 

Roubaram o toque de bola que encantou o Brasil. 

Levaram embora o futebol de transição que desnorteava os marcadores. 

Surrupiaram a movimentação que aproximava jogadores, promovia triangulações e permitia a fluidez do jogo bem jogado.

Afanaram na safadeza a intensidade que impedia a evolução dos adversários.

Tiraram na mão grande o futebol que protagonizou um dos gols coletivos mais lindos que já assistimos —- aquele contra o Atlético Mineiro, em um 13 de agosto de 2015, que foi marcado por Douglas e teve  a participação de sete jogadores, que deram 23 toques rápidos de bola, em apenas 23 segundos. Lembra? Eu não esqueço.

Saquearam os talentos que nos deram a Copa do Brasil, a Libertadores e outros tantos troféus que disputamos nesses anos todos.

E, finalmente, pilharam nosso orgulho.

Sim, Maicon e Diego Souza têm razão. Fomos roubados!!!

Avalanche Tricolor: minha cadeira azul

Grêmio 0x4 Flamengo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Minha cadeira azul fica ali ao lado da tela da televisão, onde assisto a todos os jogos de meu time. É o lugar que encontrei para jamais esquecer o Grêmio que já fomos. O metal frio do assento ondulado e do encosto curvado teve sua cor recuperada; o número que a identificava no anel superior do Olímpico Monumental, também: J-104 aparece na cor branca sobre o fundo preto. Quando a recebi de presente —- generosidade de meu irmão, Christian —- logo pensei nos milhares de torcedores que a usaram ao longo de sua vida útil no saudoso estádio. Quem sabe até eu tenha sentado nela em um domingo qualquer de futebol. 

Foi em cadeiras azuis como essa que forjei minha paixão pelo Grêmio. E você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem ideia de como ela  moldou minha personalidade e meu caráter. De quantas vezes saltei sobre ela com os dois pés para comemorar o gol impossível e a virada improvável. De quantas vezes, me ajoelhei diante dela para não ver o desastre que se avizinhava. De quantas vezes, escondi minha cabeça sobre o assento para que meus colegas não me vissem chorando a derrota sofrida.

Foi em uma dessas cadeiras azuis e de ferro frio que suportei anos a fio sem um título estadual. Foi nela que, ao lado de meu pai, vibrei como nunca com o gol de André Catimba, naquele Gre-Nal histórico de 1977. Dela presenciei a conquista da América na batalha final contra o Peñarol. Foram elas, as centenas e centenas de cadeiras que ornavam de azul o setor das cativas do velho estádio, que me uniram a amigos, serviram de assento para conversas animadas e aninharam alguns amores platônicos que minha timidez impedia de revelar àquelas torcedoras que vestiam a camisa tricolor. 

Hoje, foi para a cadeira azul, ao lado da televisão, que olhei, ao fim da partida. Em silêncio, enquanto absorvia o que acabara de acontecer no gramado de Humaitá, perguntava a ela onde está o meu Grêmio, aquele que não temia qualquer adversário por mais forte que fosse; que mesmo quando o futebol não se expressava pela qualidade, se superava na força e na coragem? O que aconteceu com a nossa Imortalidade, que um dia nos permitiu ascender de divisão com apenas sete jogadores em campo? Que já nos fez virar placares de forma inimagináveis? Que me fez ter orgulho de meu time mesmo em momentos de derrota?

Com a frieza típica do ferro, que se tornava mais penetrante ainda quando exposto ao inverno do Rio Grande do Sul, a cadeira azul nada me disse. Porque nada há para dizer em um momento como esse. E o melhor que ela pode fazer é ficar ali, parada, servindo-me como uma memória do que fomos, lembrando-me que, a despeito de já termos passado por momentos dramáticos, encontramos forças para nos recuperar. E soubemos reescrever a história.