Avalanche Tricolor: no limite

Palmeiras 2 (€112,88mi) x 0 (€75,15mi) Grêmio

Copa do Brasil — Allianz Parque, SP/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Times têm limites. Podem ser técnicos; podem ser financeiros — em geral, o segundo leva ao primeiro. Há limites físicos, também. De talentos. E de visão estratégica. Dentro desses limites, cada time oferece o que pode ao seu torcedor. Às vezes, vai além de suas capacidades. Se supera. Surpreende o adversário. Alcança o impossível. O futebol nos dá essa oportunidade.

O Grêmio por muitas vezes foi além do que era capaz. Se superou. Da superação fez história e ao escrevê-la ganhou o apelido de Imortal. É essa história que nos faz gremista. É na lembrança de títulos improváveis; de resultados imprevisíveis; e de jogadores que conseguiram ser muito maiores do que eles próprios imaginavam que alimentamos nossa esperança a cada ano que se inicia.

Na atual e acidentada temporada de 2020, que só se encerrou neste primeiro domingo de março de 2021, fomos campeões gaúchos —- tri —-; avançamos bem na Libertadores, até o tropeço das quartas-de-final — muito mais dolorido do que poderia ter sido; fizemos um Campeonato Brasileiro mediano —- bem aquém das nossas possibilidades;  e chegamos à final da Copa do Brasil. 

Esperar muito mais do que isso —- e a gente sempre espera —– é esquecer dos limites deste time e do seu caixa; dos percalços fora de campo que limitaram a recuperação física de jogadores importantes, especialmente Geromel, um pilar da nossa defesa; e do desempenho abaixo da crítica de alguns talentos nos quais depositávamos confiança. 

Semana passada já havia compartilhado com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que considerava a manutenção de Renato no comando da equipe a maior vitória que estava ao nosso alcance. O risco de uma temporada ruim, sem título nacional ou sul-americano, era jogar fora tudo que se construiu ao longo do tempo. Este erro poderia custar muito caro na temporada que, lembremos, já se iniciou com partida no meio da semana passada pelo campeonato estadual e terá decisão na quarta-feira próxima, na pré-Libertadores.

Renato terá, e sabe disso, que renovar a equipe, mudar peças chaves, abrir mão de alguns jogadores que levantaram troféus nos últimos quatro anos e meio, chacoalhar garotos que têm talento mas parecem amortecidos em campo e soltar a rédea daqueles que vêem da base e pedem passagem. Terá ainda de contar com contratações muito bem calculadas, que caibam no caixa do time e façam diferença em posições estratégicas. 

Em 2021, mais uma vez nosso desafio é superar os limites.

Avalanche Tricolor: uma estreia para respirar aliviado

Grêmio 4×1 Brasil RS

Gaúcho – Arena Grêmio

Foto Lucas Uebel Grêmio FBPA

Quase um ano após uma sequência de sufocos, sofrimentos e empates, bem que eu merecia assistir à tranquilidade de uma partida como desta noite, que marcou a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2021. Sim, o ano de 2020 ainda não se encerrou —- domingo temos a final da Copa do Brasil — e o ano novo do futebol já se apresenta com a mediocridade de sempre das competições estaduais.

Neste ano ao menos não teremos o que reclamar do público que costuma só se apresentar nas partidas finais —- e com toda razão. Com a Covid-19 influenciando comportamentos e escalações, as arquibancadas seguirão vazias no Gaúcho. De resto, é aquele jogo de futebol sem o glamour das competições principais. Não tem bola no pedestal para a entrada dos times no gramado.  Não tem banner com patrocinador fazendo cenário para a entrevista no intervalo. Não tem VAR para aliviar a culpa do árbitro. É futebol raiz, como costumam dizer. 

Independentemente das condições e do adversário, como disse na abertura desta Avalanche, eu e toda a torcida gremista estávamos mesmo precisando de um dia de calma. Com gol logo no início da partida e goleada antes de o intervalo chegar, respiramos aliviados mesmo com um time bastante modificado e a presença de vários jovens recém-saídos da base. Lucas Silva fez de pênalti, Ferreirinha de cabeça, Guilherme Azevedo só completou para as redes e Isaque eliminou qualquer risco de reação.

Para mim, por curiosidade que seja, nem era jovem nem marcou gols o jogador que mais se destacou: Pinares, chileno, prestes a completar 30 anos, que chegou com boa fama por ser titular da seleção do Chile, mas que teve poucas oportunidades na temporada, fez um partidaço, tomando conta do meio de campo, dominando a bola com qualidade e metendo duas assistências para consagrar os atacantes. 

Nem Pinares nem outro de seus companheiros desta noite devem sair jogando no domingo quando decidiremos o título da Copa do Brasil de 2020. O time de Renato já está escalado e teve uma rara semana de preparação, avaliação de erros, correção de problemas e mobilização interna. O desempenho nessa estreia e a goleada conquistada, porém, são importantes para desanuviar o ambiente pesado dos últimos tempos. Assim como é motivador saber que, independentemente do que acontecer domingo —- e torço para que o melhor se realize —- Renato permanecerá no comando da equipe.

Avalanche Tricolor: Fica Renato!

Grêmio x Palmeiras

Copa do Brasil – Arena Grêmio

Foto Lucas Uebel/Grêmio FBPA

É a primeira vez que escrevo uma Avalanche antes de a partida se iniciar. Criada em 2008 para ser um espaço em que eu, torcedor assumido e jamais arrependido, expresso meus sentimentos em relação ao desempenho do tricolor nos gramados, essa coluna sempre foi publicada momentos após o apito final do árbitro. Neste domingo, tomo a liberdade de me antecipar ao que acontecer na primeira partida da final da Copa do Brasil — a nona disputada pelo Grêmio, campeão da primeira edição, em 1989; campeão cinco vezes dessa competição. E o faço porque confio neste time, a despeito de todos os problemas que enfrentamos. E se confio, não quero ser lido apenas como um oportunista. Não o sou. Jamais serei.

Independentemente do resultado nesse  jogo de placar imprevisto, seja pelas condições da temporada seja pela performance dos dois times que disputam a final,  tenho a convicção de que a maior vitória que o Grêmio pode conquistar é a manutenção de Renato no comando da equipe. Os resultados alcançados na jornada sem fim de 2020 estiveram abaixo das expectativas, que são sempre altas. Renato e seus comandados nos acostumaram às vitórias nesses quase quatro anos e meio de trabalho que o transformaram no mais longevo técnico do futebol brasileiro.

Nessa passagem, iniciada em 21 de setembro de 2016, Renato conquistou a Copa do Brasil daquele ano, a Libertadores e o vice-Mundial de 2017 e o tricampeonato gaúcho (2018, 2019 e 2020). Mais do que isso: fez do Grêmio um time admirado por seus adversários, pelo futebol que leva a campo com posse de bola dominante, alto índice de passes certos e marcação eficiente —- tomou poucos gols e registra baixo número de faltas e punições. 

Nada, absolutamente nada do que assistimos nessa temporada pode ser motivo de julgamento da capacidade de nosso técnico. Apontá-lo e condená-lo como o responsável pela sequência recorde de empates que nos impediu de disputar o titulo no Brasileiro, pela derrota acachapante nas quartas-de-final da Libertadores ou pelo desempenho aquém do esperado é esquecer que um time de futebol jamais será obra de um só artista. Renato é responsável, também, mas não apenas ele.

O clube é o conjunto de ações e atitudes adotadas ao longo do tempo. Passa por decisões da área de gestão, do tamanho do caixa, da infraestrutura oferecida, do clima organizacional, da cultura administrativa e, sem dúvida, das escolhas técnicas e táticas —- essas, muitas vezes, resultado direto de todas as anteriores. 

Para manter o equilíbrio nas contas —— e apesar disso não nos dar a garantia de títulos, me dá orgulho —-, o Grêmio programa estrategicamente a venda de algum dos seus talentos. Foi assim com Pedro Rocha, Everton e agora Pepê. Busca segurar outros, como mais recentemente se fez com Ferreirinha e há alguns anos com Luan. Investe em jovens promissores e os faz crescer em campo, haja vista os desempenhos de Matheus Henrique, Darlan e Jean Pyerre. 

Ainda com a mesma lógica, vai ao mercado em busca de jogadores que cabem nas contas do clube, o que nem sempre significa trazer craques reconhecidos. É preciso fazer uma seleção muito cuidadosa, contratar atletas que não estejam no topo da carreira, mas têm condições de oferecer 100% do seu potencial. O melhor exemplo é Diego Souza que muitos reclamaram da idade avançada e de ser um jogador que já não tinha mais a mesma motivação da primeira passagem pelo clube. É o goleador desse time —- e não só marca muito como tem marcado em momento fundamentais. Que repita a dose nessas finais.

Renato foi capaz de enxergar vários desses jogadores ao longo dos quatro anos e meio em que está no comando da equipe. E isso sempre foi reconhecido pela crítica. Condená-lo agora porque algumas das apostas não deram certo, nesta temporada, é querer um milagreiro em lugar de um técnico de futebol. É injusto com quem já fez muito. É não enxergar as inúmeras dificuldades que ele encontrou para construir o atual elenco e as ausências importantes que tivemos —  dentre as mais expressivas identifico a impossibilidade de colocar em campo, na maioria das partidas, nossa dupla de zaga vencedora, Geromel e Kannemann.

Nossos julgamentos no futebol tendem a ser distorcidos. Nunca admitimos o fracasso do nosso time. A culpa é do zagueiro que deu chutão errado, do atacante que não acerta no gol, do árbitro que nos roubou e do VAR que se omitiu. Não fossem eles, a gente ganhava este ano, É, também, do técnico —- ou porque escala ou porque não escala. Quantos criticavam a ausência de Jean Pyerre. Quantos, hoje, reclamam da presença dele. Tem os que põem a culpa no Departamento Médico, na preparação física, no azar ou na sorte. Jamais admitiremos que o adversário foi mais capaz do que nós ou que, sim, temos um elenco limitado e se não houver uma superação, pagaremos por isso. 

Renato não é herói nem algoz. É um cara bem preparado para montar times dentro das condições que lhe oferecem. Que tem uma identificação sem igual com o Grêmio e merece todo nosso respeito. Mantê-lo na temporada de 2021 que se inicia em seguida às finais da Copa do Brasil é a decisão mais acertada que poderemos tomar este ano —- independentemente dos resultados destes dois próximos fins de semana.

O melhor que o Grêmio pode fazer para fechar este 2020 sem fim é investir no #FicaRenato !!!

Avalanche Tricolor: não vai deixar saudades

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Nabizão, Bragança Paulista/SP

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Cuspida e escarrada! A última rodada foi a cara do Campeonato Brasileiro, que, ao longo da temporada, desdenhou a gravidade da pandemia, teve jogos suspensos devido a “contaminação em rebanho” em alguns times, jogadores expostos a risco e traduzindo essa apreensão no campo com performance abaixo da esperada, estádios com arquibancadas vazias e com aglomeração de torcedor do lado de fora.

O Covidão-2020, apelido que meu amigo Juca Kfouri deu ao campeonato, terminou sem direito a gol do título. O campeão perdeu na partida final, marcando uma campanha claudicante o suficiente para superar em pontos ganhos todos os demais adversários. Quem poderia ser campeão em lugar do campeão, não foi capaz de vencer mesmo jogando em casa e contra um time que nada mais tinha a ganhar. Quase ganhou, mas o VAR impediu que a injustiça fosse concretizada, primeiro em um pênalti sinalizado pelo árbitro, que voltou atrás ao ser chamado para rever na televisão, ao lado do campo, e depois em dois gols marcados em posição de impedimento, que foram anulados com o certificado do VAR.

Quem diria, depois de uma competição em que faltou verificação do VAR, houve erros com o apoio do VAR e descobrimos que o VAR só funciona se estiver bem calibrado, foi o VAR quem salvou a lisura do resultado nos acréscimos do Campeonato. Nesse caso, justiça seja feita, o auxiliar sinalizou a irregularidade do gol e se não foi agredido — como ameaçaram alguns jogadores — deve agradecer ao VAR que ele, aos gritos, anunciava que seria consultado.

Sem gol do título, sem torcida, sem futebol qualificado e com Covid-19, o Campeonato Brasileiro terminou com o mesmo campeão da temporada anterior. Ou seja, enfrentamos toda essa maratona para entregar o título ao mesmo time. Pode isso, Juca?

E se estou aqui a falar de dois jogos que não tinham a presença do Grêmio, protagonista de sempre nesta Avalanche, é porque nada tenho a registrar do desempenho do meu time na rodada final da competição.

O Campeonato Brasileiro de 2020, que já vai tarde, não me deixará saudades.

Avalanche Tricolor: na Libertadores de novo

Grêmio 1 x 0 Atlético PR

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Thaciano comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Nem sempre ganhando nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar” —- cantava Elis Regina, gremista de nascença, em uma de suas letras mais conhecidas. Nem sei bem porque, mas lembrei-me da música assim que sentei para escrever esta Avalanche de um jogo que fui impedido de assistir na televisão. É inacreditável que com a quantidade de plataformas que temos à disposição, ainda existam partidas de futebol profissional disputadas às cegas, no Brasil.

Hoje, no fim da tarde de domingo, ganhamos uma partida que, contaram os narradores e comentaristas do rádio, não teve muitas emoções. Alguns poucos lances de ataque, arriscadas de Ferreirinha pela lateral em dribles com a bola colada no pé, um chute colocado de Jean Pyerre, e a força de Churín e Thaciano, que juntos protagonizaram o único gol da partida já no segundo tempo. Foi o suficiente para marcarmos mais três pontos na tabela de classificação e nos levar de volta a Libertadores.

Por linhas tortas minha memória me remeteu a voz de Elis, imagino,  porque mesmo como um campanha capenga o Grêmio alcançou mais uma marca na sua história: garantiu presença pela sexta vez consecutiva na competição. É a vigésima-primeira vez que disputará a Libertadores — só mais dois times brasileiros estiveram tantas vezes por lá —, a qual vencemos em três oportunidades, a última em 2017. Nesta temporada, que ainda não se encerrou, botamos o pé na Libertadores com uma sequência monótona de empates, 17 até aqui. Ou seja “nem sempre ganhando nem sempre vencendo, mas aprendendo a jogar”, como cantava Elis.

É por saber jogar e decidir que, mesmo diante de performances distantes do que nos acostumamos a ver nos anos anteriores, estamos na Libertadores de novo e ainda confiamos que Renato será capaz de reorganizar o time para o último desafio que temos neste ano de 2020, que teima em permanecer entre nós: a Copa do Brasil.

AvalancheTricolor: o WhatsApp do Diego Souza

Grêmio 1×2 São Paulo

Brasileiro — Arena Grêmio

Diego Souza comemora seu 28º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Eita aninho mala esse que não termina! A gente está encerrando a primeira quinzena de fevereiro de 2021 e 2020 ainda não foi embora. Sem contar este Carnaval sem graça. Que me perdoem os caros e ainda mais raros leitores foliões desta Avalanche: essa história de festa em laive —- como escreve meu cronista Artur Xexeo —- é pra folião dormir, né. Vestir uma fantasia, levantar o som do notebook, jogar confete, gliter e serpentina para o alto e dar seus pulinhos na sala de casa, é muito sem graça. Não que eu seja desses que curte ir para a avenida, desfilar no bloquinho ou assistir à desfile na televisão. Mas gosto de saber que as pessoas reservam essa data para extrapolar e se divertir. E fico triste ao ver que a turma este ano teve de conter a folia.

No futebol, a coisa também não está das melhores. Exceção àquele campeonato estadual lá no início de 2020, o resto foi uma sequência de frustrações. Até vimos momentos de esperança, mas a frequência com que empatamos ou desperdiçamos pontos nos fez patinar no Campeonato Brasileiro e nos eliminou na Libertadores. Que a Copa do Brasil reverta essa expectativa!

Das pouca diversões que o futebol me ofereceu neste ano interminável, foi saber que o filho do meu querido amigo Luiz Gustavo Medina é fã de Diego Souza —- vista qual camisa esteja vestindo. Foi daí que surgiu minha ideia: a cada gol marcado por nosso atacante, fotografo a comemoração da tela da TV e envio a imagem pelo WhatsApp para o Teco. Até esta noite, foram 28 fotos enviadas —- poucos centroavantes seriam capazes de me proporcionar tantas imagens em um só ano. Pena que não basta um Diego Souza no time para resolver todos os nossos problemas. E ainda bem que o Teco se conteve e não me retribuiu com uma foto do Luciano.

Avalanche Tricolor: xô, zica!

Botafogo 2×5 Grêmio

Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica. 

Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.

Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”

Zica tem diversos significados aqui no Brasil.

É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.

O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.

A despeito da capacidade do adversário,  tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.

Xô, Zica!

Avalanche Tricolor: entre saudades e injustiças, mais um empate

Grêmio 3×3 Santos

Brasileiro —-Arena Grêmio

Pepê volta a marcar, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Diego Souza marcou seu gol. O Grêmio tomou os seus. Tantos quantos eram suficientes para alcançar o décimo-sétimo empate no Campeonato Brasileiro e a sétima partida sem vitória. De tantos jogos empatados, podemos até separá-los por categorias: o merecido, o conquistado, o enjoado , o irritante …. o de hoje está na categoria do injustiçado.

Pela primeira vez neste ano vi a bola ser tocada de pé em pé desde o primeiro minuto de jogo. Bola que era passada na mesma velocidade com que nossos jogadores se deslocavam para recebê-la.

Foi assim no primeiro minuto de partida quando desperdiçamos o primeiro lance de gol. Foi assim especialmente no início do segundo tempo quando ampliamos o placar com mais dois gols de videogame. É como a gurizada se refere a esses lances em que a precisão do passe e do movimento é tal que só pode ter sido projetada em computador. Ledo engano. Lances assim são frutos da genialidade, só possível se protagonizados por seres humanos, craques humanos.

Que saudade que eu estava de assistir ao Grêmio jogando bonito. De Jean Pyerre passando no espaço infinito. De Pepê aproveitando-se da velocidade para surpreender o adversário. De Diego Souza concluindo a gol —- ops, sejamos justos com nosso goleador, ele tem entregue o que prometeu e chegou hoje a marca de 12 gols no Brasileiro e 27 na temporada. É a mais grata surpresa de 2020, um ano que ainda não acabou.

Fazia tempo que o Grêmio não jogava bem. E, por isso, o empate desta quarta-feira à tarde já mereceria seu registro na categoria dos injustos. Infelizmente, outros elementos surgiram para que essa sensação se expressasse em indignação. A marcação de dois pênaltis —- um em que Matheus Henrique foi forçado por trás e o outro em que a regra do pênalti foi esquecida pelo árbitro e seus amigos do VAR (copio a seguir o texto para quem tiver dúvidas) — e a falta de avaliação no lance do primeiro gol do adversário foram revoltantes, no factual e no contexto.

Sim, no jogo determinaram o resultado e no campeonato se somaram a uma série de decisões sem critério que tiveram seu ápice naquela partida que perdemos para você-sabe-quem, após um pênalti não sinalizado contra nós e outro, polêmico, marcado para eles. Uma sequência de erros e incoerências que não será suficiente para encobrir a queda de rendimento de um time acostumado a lutar pela vitória e pelos primeiros lugares em todas as competições das quais participa. Digo isso para você — caro e raro leitor —- não pensar que sou incapaz de observar nossas fraquezas nesta temporada. 

Tenho saudades daquele tempo —- não muito distante —- em que éramos suficientes para driblar o adversário e a incompetência da arbitragem, e conquistarmos os títulos almejados. Hoje, sequer conseguimos superar nossos próprios problemas. Que essa saudade se desfaça quando março e a decisão da Copa do Brasil chegarem.

Avalanche Tricolor: já vai tarde!

Coritiba 1×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Couto Pereira, Curitiba/PR

Renato orienta o time na beira do campo, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Assistimos a mais do mesmo: empate cedido e pênalti perdido. Um roteiro que se repetiu com frequência na temporada 2020 que parece nunca mais ter fim. Não o roteiro, mas a temporada. Hoje é 31 de janeiro, o Estadual de 2021 já tinha de ter começado, o Brasileiro do ano passado ainda não se encerrou —- ainda faltam 15 pontos para serem disputados —  e a decisão da Copa do Brasil só em março, quando o verão estiver quase se despedindo. Um martírio por todos os aspectos que o ano nos propiciou. 

Sequer o réveillon que sempre é uma data para nos trazer esperança, mudanças de ares e outros quetais foi suficiente para renovar nossas expectativas. Ao contrário. Se lembrar, antes de o ano encerrar, de acordo com o calendário gregoriano, nós havíamos conquistado a vaga para a final da Copa do Brasil em dois jogos contra o time que era considerado o favorito ao título e líder do Brasileiro. Foi trocar a folhinha presa no imã da porta da geladeira …. meu Deus do céu!

O primeiro jogo até ganhamos. Foi sufoco, mas ganhamos. Em casa e depois de termos cedido o empate. Foi, aliás, a única vitória em sete partidas disputadas em janeiro. Perdemos duas — uma delas você-sabe-contra-quem —- e empatamos quatro. Tomamos dez gols, fizemos oito, metade deles saiu dos pés e da cabeça de Diego Souza, que, no último que marcou, se machucou e passou a incluir a lista de dez ausências para este domingo.

Depois de termos dominado a partida no primeiro tempo, sem conseguir ir além de um gol convertido, entregado no segundo tempo, provocado um pênalti contra e errado um a favor, a única alegria que encontrei no calendário foi lembrar que janeiro, graças a Deus, terminou. Já vai tarde!

Avalanche Tricolor: de afazeres e entregas

Grêmio 2×4 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio

Diego Souza, atacante do Grêmio, cabeceia a bola em direção ao gol e dois zagueiros do Flamengo assistem ao lance que se transformou no primeiro gol da partida
Diego Souza faz de cabeça em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Se é que existe alguém que passe neste blog com alguma frequência —- aqueles que costumo chamar de meus caros e raros leitores —-, deve ter percebido que o movimentei pouco nesta semana. De domingo até agora não mais de três postagens e uma delas graças a sempre pertinente participação da Simone Domingues, que nos ajuda a entender o que se passa na nossa mente e como tudo que está em  volta influencia nosso comportamento. 

Justifico-me: a semana está intensa e, não bastasse comandar quatro horas de Jornal da CBN com o volume de notícia gerada no mundo, assumi compromissos neste início de ano que têm me tomado boa parte do dia com estudos, planejamento, reuniões e aulas. São dois projetos distintos. Um voltado ao desenvolvimento de habilidades profissionais, com a imersão no conhecimento do marketing digital, e outro ligado a um desejo pessoal e fraterno que há muito alimentava, que é o de dominar a língua italiana — se não dominá-la, ao menos ter segurança para levar em frente outros projetos de vida relacionado ao país de meus ancestrais. 

Foi na Itália que meu bisavô por parte de pai nasceu. Consta que o primeiro Ferretti —- da minha linhagem —- a desembarcar lá pelo sul do país, tenha sido o biso Vitaliano, nascido em Ferrara, na região da Emília-Romanha. Dele veio um casamento com um sem-número de filhos. E dos filhos, um era minha avó Ione, mãe do meu pai. Boa parte da minha infância foi próxima dos Ferretti, especialmente de Caxias do Sul, na serra gaúcha. Isso não foi suficiente para que eu absorvesse o conhecimento da língua, o que teria sido uma tarefa bem mais simples pois sabemos que o cérebro da criança é muito mais poroso do que o de adulto, já endurecido por sabotadores internos, viéses inconscientes e excesso de preconceitos consigo mesmo. 

Divago entre uma agenda mais intensa do que se imagina para um início de ano, a desaceleração no ritmo de publicações e as relações familiares das quais tenho orgulho, porque foram esses motivos de minha falta de atenção com você que, por pouco e raro que é, merece minha dedicação e respeito. Nem sempre conseguirei entregar o que prometo, com a frequência que gostaria e qualidade que o leitor busca. Desatenção, cansaço, frustrações, escolhas nem sempre as mais certas, energia sendo sugada em outras frentes —- e você não tem ideia de que como esta pandemia também tem impactado esse meu comportamento — às vezes podem ser fatais no resultado que se busca. 

Dito isso, assumo aqui o compromisso que a despeito de a escassez de tempo e de energia para dar conta de todas às frentes de trabalho, vou continuar insistindo em dar o que tenho de melhor e oferecer, aos que confiam alguns minutos do seu dia a me ler neste espaço, o pouco do conhecimento que tive o privilegio de adquirir em vida e me permite escrever e pensar com alguma lógica e razão. 

Assumo esse compromisso com o desejo de ser retribuído com a sua confiança e leitura, assim como espero que o Grêmio de Portaluppi —- ops, olha aí outro de origem italiana que me apetece —- também esteja compromissado em entregar o que tiver de melhor nesta reta final de temporada. E o melhor que temos é a Copa do Brasil.

P.S: a coisa está tão intensa que este post foi salvo para ser publicado ontem à noite; descubro agora que por algum motivo ficou parado por aí. Nunca é tarde.