Avalanche Tricolor: Pepê é mais um talento com direito a nome próprio

 

Grêmio 2×1 Vasco
Brasileiro — Arena Grêmio

Atacantes

 

Faz pouco tempo que assistimos à ascensão de Everton. Lembrei parte dessa história na Avalanche anterior, ao escrever sobre nosso empate na Copa do Brasil. O atacante, hoje cobiçado por alguns dos mais importantes clubes da Europa, até se firmar entre os titulares, tinha de esperar as substituições que Renato fazia no segundo tempo, geralmente em lugar de Pedro Rocha. No Mundial de Clubes, Rocha assistiu àquele jogo quase ao meu lado na arquibancada — ele já havia sido vendido ao exterior, onde ficou pouco tempo para retornar ao Cruzeiro. Mesmo assim, Everton ainda era um reserva de luxo. Fernandinho era o preferido do treinador.

 

Na época do entra e sai no time, Everton oscilava em suas apresentações. Quando encarava os marcadores já cansados no segundo tempo, levava vantagem com sua velocidade e habilidade com a bola. Fez gols importantes na campanha vitoriosa da Copa do Brasil, em 2016. Porém, sempre que saía jogando, seu futebol era colocado em dúvida, pois a excelência que se esperava dele não costumava aparecer da mesma maneira. Repetia assim o mesmo que já havia ocorrido com Pedro Rocha —— inclusive nas críticas, injustas, a imprecisão nas finalizações a gol. 

 

Rocha também demorou para se firmar entre os titulares. Havia torcedores que arrancavam os cabelos todas às vezes que assistiam ao nosso atacante disparar em direção ao gol e desperdiçar suas oportunidades com chutes sem precisão. Até que, com a confiança demonstrada pelo técnico, seu futebol amadureceu, ganhou personalidade, transformou-se em titular reverenciado por todos os torcedores e valorizado a ponto de ser a maior transação gremista de todos os tempos: foi negociado por 12 milhões de euros —- 45,2 milhões de reais —- para o Spartak Moscou, da Rússia.

 

Mesmo depois do gol que nos levou à final do Mundial, em 2017, Everton voltou a ocupar o banco de reservas, ao menos mais uma vez. Na partida decisiva, em Abu Dhabi, só entrou no segundo tempo. Com apenas 21 anos, trilhava o mesmo caminho de seu antecessor e sabia que sua hora estava para chegar.

 

Foi no ano seguinte, 2018, que Everton se notabilizou, tornou-se titular absoluto e um dos maiores goleadores da Arena Grêmio, tendo seu nome cogitado para a seleção brasileira. Neste 2019, após a consagração na seleção campeão da Copa América, mantê-lo no elenco virou missão impossível e estamos aqui apenas contando os dias que faltam para o jogador anunciar sua despedida do clube.

 

Nós torcedores já estamos resignados com essa situação: todo ano, dar adeus ao menos a um dos nossos jovens craques. Já não nos indignamos mais com a saída precoce deles e nos consolamos com as cifras absurdas que os estrangeiros pagam para contratá-los, nos contentando com uma espécie de competição paralela com os nossos rivais na qual quem consegue vender seu talento por uma preço maior é o vencedor.

 

Aos gremistas nos resta a satisfação de saber que a fábrica que produz jogadores com a qualidade e velocidade de Pedro Rocha e Everton dá sinas de estar em plena atividade. Haja vista, o crescimento de Pepê a cada partida que disputa. Ele jogou na base do Athletico Paranaense, foi para o Foz do Iguaçu —- na cidade natal —, passou rapidamente pelo Coritiba e chegou nas nossas bandas em 2016, após uma operação sigilosa da diretoria gremista que temia perder o jogador para os concorrentes mais próximos.

 

Fez sua estreia no time profissional em 2017 e, veja como a história é cíclica, substituindo Everton. Fez seu primeiro gol já na terceira partida que disputou e sempre que chamado por Renato apresenta-se com uma vitalidade incrível que lembra …. bem, lembra Everton.

 

Foi assim, nesse sábado quando o Grêmio venceu de virada com dois gols do nosso jovem atacante. O primeiro entrando em velocidade pelo lado direito da área e aproveitando passe preciso de Luan; e o segundo, pasmem, de cabeça após um cruzamento-passe de Leo Moura — sim, ele tem no máximo 1,75 de altura, mas estava dentro da área e muito bem colocado. Pepê cabeceou de olhos abertos e com o movimento clássico que esperamos dos atacantes sempre que a bola é alçada para a área. Já é um dos nossos goleadores do Campeonato Brasileiro. Sim …. ao lado de Everton.

 

Ontem mesmo já havia quem estivesse chamando-o de Novo Everton.

 

Vamos combinar o seguinte, assim como aprendemos a respeitar o futebol de Everton com a saída de Pedro Rocha, vamos aprender a admirar o futebol de Pepê com a saída de Everton. E dar a ele direito a nome próprio: Pepê, o novo craque!

Avalanche Tricolor: a primeira das últimas noites de Everton

 

Grêmio 1×1 Bahia
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Bahia

Everton comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Empatar em casa e ter de decidir vaga à próxima fase da Copa do Brasil no campo do adversário pouco me importa nesta noite em que o Grêmio voltou a jogar, após a parada para a Copa América. Time acostumado a essas situações e maduro o suficiente para encarar a pressão de um estádio lotado, como deve encontrar na próxima quarta-feira, tem capacidade para vencer, seja no tempo normal seja na cobrança de penaltis —- especialmente porque a atual edição da Copa não tem o tal gol qualificado fora de casa. E digo isso com todo o respeito ao time montado por Roger que, sabemos muito bem, é craque em organizar equipes.

 

Esta noite tinha algo muito mais especial a fazermos na Arena ou diante da televisão —- como foi o meu caso, exilado aqui em São Paulo e distante do meu time há muitos anos. Tínhamos Everton a assistir em campo. Jogador que o Brasil pediu em sua seleção, consagrou-se como goleador e o melhor da final da Copa América. Um cara que nos fez acreditar que futebol-arte não é coisa de nostálgicos. Joga a moda antiga. Encara o marcador — aliás, os marcadores, pois ninguém mais se atreve a deixá-lo no mano a mano. Tem sempre um ou dois na sobra com o olhar de quem está prestes a tomar um drible.

 

Everton tem um elenco de dribles à disposição. Na velocidade ou no gingado do corpo, deixa a turma para trás. Se encostam demais, ele trança as pernas e faz a bola se esgueirar no pouco espaço que sobra. Se recuam para não sofrer o drible, bate de fora na busca do gol. É um raro jogador que não tem medo de arriscar e quanto mais arrisca mais ganha a admiração do torcedor.

 

Aqui em casa, nos apaixonamos por ele naquela noite em que disputávamos vaga à final do Mundial, contra o Pachuca do México, no estádio de Al Ain, em dezembro de 2017. Sim, naquela vez eu estava no estádio. Eu e meus meninos estávamos na arquibancada, próximos do gramado, ao lado da área em que o Grêmio atacava. Área que Everton invadiu, desvencilhou-se dos marcadores e com um chute de curva colocou seu nome na história do tricolor.

 

Se para Everton aquele chute foi o pontapé inicial para uma fase incrível que vivencia até hoje com a camisa gremista, para mim foi um momento inesquecível em que comemorei um gol abraçado com meus dois filhos em uma arquibancada de futebol —- como fazia antigamente ao lado de meu pai. Pulamos como crianças, nos abraçamos, choramos —- sim, eu juro que vi os olhos deles cheio de lágrimas, repetindo o que fiz muitas vezes quando guri e assistia aos jogos no estádio Olímpico.

 

É essa alegria marcante que Everton me faz relembrar todas as vezes que entra em campo e parte em disparada na direção do gol. Fez isso quando estava na seleção —- e vibrei cada um dos seus gols na Copa América como se fosse do Grêmio. Fez isso na noite de hoje, em Porto Alegre. E o fará não sei mais por quanto tempo.

 

Tudo leva a crer que esses momentos estão chegando ao fim. Everton é objeto de desejo da maioria dos grandes clubes no exterior, contra os quais o futebol brasileiro não consegue mais competir. Assim como nesta noite, todas as demais se encerrarão com a mesma pergunta: quando Everton vai embora? E o fim desse roteiro conhecemos muito bem. Por isso, como disse no início desta Avalanche, pouco me importa se empatamos em casa. Tudo o que eu quero aproveitar, até o minuto final, até o instante do adeus, é Everton correndo, driblando e beijando a camisa do Grêmio a cada gol marcado.

 

Hoje, vivenciei a primeira das últimas noites de Everton no Grêmio.

Avalanche Tricolor: um Dia dos Namorados muito especial para mim

 

Botafogo 0x1 Grêmio
Brasileiro — Estádio Nilton Santos/RJ

 

Gremio x Botafogo

Jean Pyerre comemora em cena flagrada por LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O 12 de junho é dos namorados. Data criada pelo comércio, em 1949, que contaminou os corações e mexeu com as emoções. São tantos os estímulos — dos anúncios, dos colegas, dos amigos e dos amantes —- que nenhum casal se atreve a passar o dia em branco. Eu, por exemplo, passei em azul, preto e branco.

 

Um post no Instagram, um WhatsApp logo cedo, uma lembrança comprada na loja da esquina, um beijo intenso antes de levantar da cama ou uma música oferecida no rádio —- e meus ouvintes se esbaldaram em sugestões durante todo o programa que apresentei na CBN. Vale todo o artifício para revelar o seu amor. Há os que preparam surpresas, enchem a casa de rosas, escrevem cartas melosas ou servem um jantar inesquecível.

 

O dilema é que tudo isso tinha de ser feito em uma noite na qual os clubes brasileiros se despendiam por um tempo de seus torcedores. A bola só voltará a rolar no Campeonato Brasileiro na metade do mês de julho, devido a parada para a Copa América. Imagine a saudade que vão nos deixar, especialmente quando assistimos ao nosso time iniciando a prometida decolagem como é o caso do Grêmio.

 

Sei que muita gente torce o nariz para essa prioridade que os apaixonados dedicam ao futebol. Deve ter quem nos condene por gostarmos tanto de um time, por sofrermos diante das derrotas, por nos descabelarmos com o chute mal dado ou por chorarmos na inacreditável conquista. Coisa ridícula! — é o que ouço da consciência enrustida dessa turma.

 

Pensem o que quiserem. O que importa é que nossas amantes — e os amantes, também — entendem esse sentimento. Sabem que não desdenhamos da companhia, do carinho e da troca de carícia deles e delas. Nosso coração tem espaço para as diversas paixões que nos movem, desde o time de futebol que aprendemos a amar quando ainda éramos pequenos até a pessoa que escolhemos para dividir angústias, sonhos e amenidades em algum momento qualquer da vida.

 

É nesse entender que uma relação se constrói. Por isso, a noite desta quarta-feira deixou de ser um dilema para se transformar em mais uma prova de amor nesse relacionamento que já preservamos por 27 anos. Adaptamos nosso dia, curtimos nosso almoço, trocamos juras de amor durante a tarde, jantamos no intervalo do jogo e compartilhamos o presente mais incrível que eu poderia ter ganhado em um Dia dos Namorados: a camisa autografada por Geromel.

 

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A camisa de Geromel entregue pelo mano Ricardo

 

Sou fã de carteirinha do nosso zagueiro. Não bastasse o que ele representa para o Grêmio, ainda demonstra a todo momento o quão gente boa consegue ser na vida. Conheci a mãe dele na felicidade de um gol, na semifinal do Mundial de Clubes em Abu Dabhi, há dois anos — história que acredito já ter contado para você nesta Avalanche.

 

Hoje, recebi o irmão de Geromel, Ricardo, para entrevista em programa sobre negócios, carreiras e empreendedorismo que apresento na CBN. Assim que chegou, replicando o sorriso do mano, me entregou a nova camisa tricolor com a mensagem grafada em tinta: “Ao Amigo Milton Jung, Geromel”.

 

Sim, isso mesmo. O melhor presente que poderia ganhar neste Dia dos Namorados tem a marca de uma das minhas mais fortes paixões: o Grêmio. E chegou até mim pelas mãos de um cara que recém conheci, mas que há muito sabe dos meus amores.

 

O mais legal é que ela — o amor com quem compartilho, sem vergonha, minhas paixões —- sabe muito bem o quanto isso é importante para mim. E não me julga por isso. Me adora assim mesmo. É capaz de me endereçar um sorriso ao me ver vibrar sozinho na sala diante da televisão pelo golaço que Jean Pyerre, esse gênio com futebol e sobrenome de craque (leia a Avalanche anterior se ficou curioso), marcou na vitória desta noite — outro  presente a todos aqueles que adoram torcer pelo Grêmio, como eu.

 

Por seu gol, obrigado Jean Pyerre!

 

Por sua dedicatória, obrigado Geromel! 

 

Por sua compreensão, obrigado Abigail!

 

Vocês fizeram este Dia dos Namorados ainda mais especial para mim.

Avalanche Tricolor: Jean Pyerre tem futebol e sobrenome de craque

 

Grêmio 1×0 Fortaleza
Brasileiro — Centenário, Caxias do Sul/RS

 

Gremio x Fortaleza

O talento de Jean Pyerre em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Recorri ao VAR aqui de casa para entender a dimensão da jogada de Jean Pyerre que nos levou a marcar o único e decisivo gol da partida desse sábado à noite. Como já tínhamos 44 do segundo tempo e apenas mais alguns minutos de acréscimo, no momento em que Pepê desviava a bola para rede eu já não conseguia prestar atenção em mais nada do que acontecia no gramado do Centenário —- sim, tivemos de jogar lá em Caxias do Sul, onde o frio é mais frio e a chuva, mais gelada, porque a Arena está reservada à Copa América.

 

Naquele momento, só me passava pela cabeça o risco de ficarmos mais um jogo sem vitória, mesmo tento atacado muito e mantido a bola sob nosso domínio por muito mais tempo do que o adversário; imaginava o constrangimento de mais uma segunda-feira de trabalho dando explicações dos motivos que nos faziam ocupar o Z4; e, pior ainda, saber que estaríamos alimentando por mais tempo os teóricos da conspiração durante toda a parada para a Copa América.

 

Foi, então, que de repetente vi Jean Pyerre metendo a bola pelo meio da área para encontrar lá do outro lado Pepê, que com um chute cruzado fez o gol da vitória. Demorei para comemorar. Queria ter certeza de que a bola seguiria o seu destino. E a impressão que tive é que ela demorou para se decidir, também: entro ou não entro? Entrou.

 

Na comemoração já tinha ideia da beleza do lance, mas, como disse, a visão estava embasada pela tensão do empate que se realizava em mais uma partida em casa, ou melhor, em que tínhamos o mando de campo. Por isso, antes de começar a escrever esta Avalanche fiz questão de ver e rever o lance na tela do computador. Vi em velocidade normal, revi em câmera lenta, congelei a cena e repeti tudo de novo por mais algumas vezes.

 

Meu VAR ajudou-me a entender como tudo se iniciou e como o futebol nos reserva surpresas. Sabe-se que Jean Pyerre tem talento superior a média, mas muitos o consideram lento de mais nas jogadas. Há os que reclamam da dificuldade dele em desarmar o adversário. E os que entendem que lhe falta fôlego para aguentar o tranco dos jogos mais duros, por isso acaba sendo substituído ao longo do segundo tempo.

 

Eis que já tínhamos um jogo inteiro em disputa, com desgaste de lado a lado, e foi exatamente Jean Pyerre quem apareceu para desarmar a tentativa de ataque do adversário. Interceptou a jogada no meio de campo e olhou para frente em busca de um companheiro. Percebendo o espaço que a marcação lhe oferecia, deu velocidade ao ataque com quatro passadas longas e domínio preciso da bola. Qualquer jogador comum não teria encontrado outra solução senão arriscar o chute.

 

Jean Pyerre está distante de ser um jogador comum. Tem talento, tem elegância e não tem medo de criar. Não bastasse ter sobrenome de craque: é Casagrande. 

 

Com a confiança que lhe é peculiar, o nosso meio-campista enfiou a bola rasteira entre quatro jogadores adversários. Fez a bola cruzar em diagonal e fora do alcance deles. Colocou-a no que no passado chamávamos de “ponto futuro”, onde haveria de aparecer Pepê, que fez a leitura certa da jogada de seu companheiro, correu por trás dos zagueiros, se antecipou a marcação e encontrou força suficiente para marcar o gol.

 

Um golaço que revela quantos talentos — como Jean Pyerre e Pepê — ainda temos sendo forjados para as novas conquistas e para substituir aqueles que por obra do destino se vão embora. E que nos garantiu três pontos importantes para nos dar ânimo para o período de preparação que teremos pela frente, assim que cumprirmos o compromisso desse meio de semana pelo Brasileiro.

Avalanche Tricolor: ao menos tricolor

 

 

Bahia 1×0 Grêmio
Brasileiro — Estádio Municipal do Pituaçu/BA

 

 

Vivemos uma noite tricolor, nesse sábado, aqui em São Paulo. Monumentos importantes, como o em homenagem aos Bandeirantes, que fica em frente ao Parque do Ibirapuera, receberam as cores verde, branca e vermelha, para marcar os 73 anos da República italiana. A “Tricolor” — como os italianos se referem à bandeira do país —- se fez presente na fachada da sede da prefeitura e da Fiesp, e na Ponte Estaiada, por obra e inspiração do cônsul-geral italiano na capital paulista, Filippo La Rosa.

 

O prédio do Terraço Itália, no centro da cidade, também foi iluminado pelas três cores em imagem que se destacou na noite chuvosa da capital. Eu estive logo ali ao lado, onde fica a sede do Circolo Italiano, que recebeu convidados para aplaudir meu amigo e colega Walter Fanganiello Maierovitch, juiz reformado, importante no auxílio ao combate a máfia e ao crime organizado, homem de discurso transparente e equilibrado, sempre atuante em defesa da justiça e uma voz forte em favor dos injustiçados. É palmeirense, fazer o quê, né!?! Ao menos torce hoje por um dos nossos ídolos, Luis Felipe Scolari.

 

Na mesa que estava reservada fiquei ao lado de gente boa como o narrador Oscar Ulisses, o comentarista Mário Marra e o âncora Roberto Nonato —- todos admiradores do bom futebol, assim como eu. Foi o Mário quem me sinalizou o placar final da partida que havia se realizado em Salvador. Era o mesmo que eu havia ouvido no aplicativo do rádio pouco antes de chegar ao local da festa.

 

Estava para estacionar o carro quando o locutor descreveu o lance que culminaria no gol adversário. Perdemos a bola no ataque, tomamos o contra-ataque e Geromel, na tentativa de evitar o gol, viu a bola bater no braço dele dentro da área. Cheguei a torcer por mais um milagre de Paulo Victor. Em vão. Subi para festa com o 1×0 nos ouvidos que, no fim, seria o placar fatal.

 

Além das ótimas companhias na noite que vivi nesta que é a maior cidade italiana fora da Itália, da boa mesa servida aos convivas e do orgulho de ver um amigo ser merecidamente reverenciado pela colônia tricolor, restou-me ouvir o consolo de um dos garçons que servia o vinho e me reconheceu como jornalista e torcedor do Grêmio: “ao menos quem ganhou foi um tricolor, seu Mílton!”.

 

E comandado por Roger Machado, que também é um dos nossos, pensei cá com minha gravata.

 

É, pode ser! Se tiver de ser alguém, que seja ao menos tricolor! Viva a Itália!

Avalanche Tricolor: vitória da maturidade

 

Grêmio 3×0 Juventude
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Juventude

Vizeu marcou duas vezes, foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O diabo sabe mais por velho do que por diabo — foi o que sempre ouvi da boca de meu pai. E não me canso de confirmar tal ditado, que nos faz pensar sobre o quanto relevante é a experiência que adquirimos na vida. O quanto a vivência diante dos desafios forja nossa personalidade. E nos oferece maturidade —- uma condição que é fundamental para se superar dificuldades, encarar crises e driblar percalços.

 

Nesta noite de Copa do Brasil, maturidade foi a marca do Grêmio.

 

Na primeira partida disputada ainda sob o impacto do mau desempenho no Campeonato Brasileiro, o time fez um jogo seguro, mas sem gols. Sabia que a classificação às quartas-de-final dependeria dos 180 minutos —- nada se resolveria nos primeiros 90, ainda mais jogando fora de casa.

 

Foi para a decisão, em plena Arena, com o time mais bem estruturado, cabeça no lugar, sabendo de sua capacidade e superioridade em relação ao adversário — e aqui não vai nenhum desdém ao adversário, apenas a constatação de que as estatísticas são amplamente favoráveis ao Grêmio. Jogou, também, mais solto, tocando a bola com a qualidade que conhecemos e movimentando-se com a velocidade que assusta os marcadores. Mas, principalmente, jogou sério, sabendo da responsabilidade que tinha.

 

Da mesma maneira, já havíamos assistido ao time recuperar-se dos maus resultados na Libertadores. Quando os momentos mais difíceis pareciam se sobrepor ao nosso talento, o Grêmio botou a bola no chão, acreditou na sua competência e disputou cada partida como se fosse uma final. Driblou o descrédito e só espera a retomada da competição, em julho, para iniciar-se na fase de mata-mata.

 

No Campeonato Brasileiro, quando já tinha gente fazendo contas devido a incomoda posição na zona de rebaixamento e enxergava uma crise no grupo, no vestiário, no gabinete e no raio que os parta, o Grêmio voltou a jogar bem e no fim de semana, venceu sua primeira partida enviando um recado aos adversários: a gente está de volta.

 

Hoje à noite, chegamos a perder um pênalti — mais um pênalti —, mas com a experiência que só o tempo e a sabedoria são capazes de nos oferecer nossos jogadores mais maduros — é o caso de Geromel, Maicon e Everton — transmitiram tranquilidade para que os jovens fizessem a sua parte. Foi assim que Felipe Vizeu apareceu duas vezes dentro da área para cabecear e marcar. Foi assim que  Junior Capixaba e Thaciano encontraram espaço para se movimentar,  driblar e dar assistência a seus companheiros. Foi assim que Pepê sacudiu a marcação adversária com muita habilidade e velocidade. Foi assim que Rodriguez ganhou aplauso do torcedor ao demonstrar seriedade e humildade na função de zagueiro. Foi, também, assim que Diego Tardelli voltou a marcar — apesar de que este já faz parte do time dos maduros pela carreira que construiu até aqui.

 

Avalanche Tricolor: de volta ao jogo

 

Grêmio 1×0 Atlético MG
Brasileiro — Arena Grêmio Porto Alegre/RS

 

 

Gremio x Atletico-MG

Vizeu agradece pelo gol marcado, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Foi forte, foi com raiva e foi fundamental. Foi assim o chute de Felipe Vizeu que levou o Grêmio a marcar o único e necessário gol da partida, na noite de sábado. Esqueci de dizer também que foi com o dedo de Renato — e que a turma do VAR não anule o gol após ler essa minha afirmação.

 

Neste tempo todo em que está no comando do Grêmio poucas vezes se viu nosso técnico substituir jogadores no intervalo —- a não ser por lesão. Prefere fortalecer seus comandados — e graças a essas apostas já recuperou muitas gente que andava sem norte no gramado.

 

Desta vez, não perdoou. Voltou para o segundo tempo com duas substituições. Uma por lesão: Diego Tardelli entrou no lugar de Alisson. Outra por questões técnicas: Vizeu assumiu o posto que era de André. Nosso atacante havia perdido um pênalti pouco antes de se encerrar o primeiro tempo e a impressão que ficou é que o chute fraco e para fora tirou a paciência de Renato. Soube-se depois que Renato estava apenas sendo Renato: poupou André da vaia do torcedor que prejudicaria a ele e ao time.

 

Enfim, Renato sabe o que faz. E fez certo.

 

Dois minutos depois das mudanças, em uma das muitas cobranças de escanteio que tivemos direito ao longo de toda a partida, a bola foi desviada pelo zagueiro estreante Rodriguez e parou nos pés de Vizeu que não desperdiçou sua oportunidade.

 

Dadas as circunstâncias no campeonato, imagino que a maioria de nós torcedores já estaríamos satisfeitos com os três pontos. Vencer a primeira no Brasileiro seria importante para qualquer pretensão na competição e na temporada. Um novo revés aumentaria e muito a pressão e atrapalharia o ambiente para a partida decisiva do meio de semana pela Copa do Brasil.

 

O Grêmio de Renato foi além. Venceu, sim. Voltou a marcar. E teve competência para suportar a pressão adversária, especialmente no segundo tempo. Mais do que isso: venceu fazendo uma baita partida, especialmente no primeiro tempo, quando voltou a ser o Grêmio que conhecemos, com domínio total do jogo, bola de pé em pé, passe bem apurado, jogadores se movimentando e marcando com intensidade, e chutando muito a gol.

 

Apenas não marcamos mais cedo porque o árbitro fez uma trapalhada daquelas ao sinalizar falta de ataque, quando o que havia ocorrido era um toque de mão na bola. Como errou, impediu a sequência da jogada que foi concluída no gol por Geromel. Já que não havia visto o pênalti e a falta de ataque não ocorreu, já teríamos saído na frente no primeiro tempo.

 

Vencemos e jogamos bem. Vizeu deu as caras e Tardelli, também. Rodriguez jogou sério e cumpriu as ordens do chefe. A luz de Renato brilhou mais uma vez. O Imortal voltou!

Avalanche Tricolor: faltou-me inspiração, também

 

Juventude 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Alfredo Jaconi/Caxias do Sul-RS

 

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Alisson vai ao ataque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Peço desculpa ao caro e raro leitor. E na carona dessa desculpa, peço também que não me abandone pela falta de inspiração. Já são tão poucos aqueles que dedicam alguns minutos do seu dia para ler esta Avalanche ou mesmo os posts nos quais falo de gestão, carreira, cidadania e outro assunto qualquer que me der na telha. Seria triste saber que você também vai me abandonar e só porque não consegui ter um só insight — é assim que a turma mais moderna costuma chamar aquele estalo ou aquela luz que surge na nossa mente e nos ajuda a resolver alguns problemas. 

 

Se servir de consolo, registro que penso em você desde que a bola começa a rolar no gramado. É assim, pensando em você, que costumo encontrar uma pegada para escrever esta Avalanche. Foi assim também quando se iniciou a partida desta noite, em Caxias do Sul. Estava certo que ao longo do jogo surgiria uma ideia. Minha mente seria iluminada por um lance bacana, daqueles que merecem parágrafos e mais parágrafos para serem descritos. Talvez um gol — mesmo que de chiripa, daqueles que a bola bate na canela, sobra para o atacante e desvia no marcador antes de chegar às redes.

 

Os minutos se passaram no cronômetro em destaque na tela da televisão e nada de surgir uma inspiração. Nem um grande drible nem uma defesa memorável. Menos ainda um gol — que baita saudades de um, dois, três gols em uma só partida. Lembra? 

 

Cheguei a pensar nos fatos do cotidiano — se bem que ultimamente a coisa ainda dura no noticiário, também. Quem sabe uma letra de Chico Buarque, vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa? Letrista de mão cheia, tanto quanto cantor e escritor, nem em Chico encontrei saída para esta Avalanche.

 

Sempre dá para apelar para o sentimental. Escrever aquela carta emocionada para o guri que está longe, costuma tocar o coração do leitor — e apaziguar a saudade que enxágua o meu peito. Achei que seria um pouco de mais. Por mais que queira escrever minhas cartas ao guri, pouca coisa teria a dizer para ele desta noite na Copa do Brasil.

 

O árbitro até que esticou um pouquinho mais a partida, me dando uma chance de encontrar emoção e inspiração. Mas sou obrigado a confessar: hoje, nada foi suficiente para render uma Avalanche a altura do merecimento do caro e raro leitor. Por isso, só me resta pedir desculpas, dizer que me esforcei até onde pude e garantir que se faltou talento sobrou vontade. Lutei até o fim para retribuir seu carinho. 

 

Que na próxima partida, eu esteja um pouco mais inspirado para escrever esta Avalanche — e o Grêmio, também.

 

 

 

Avalanche Tricolor: tempos estranhos

 

 

Ceará 2×1 Grêmio
Brasileiro — Castelão/Fortaleza-CE

 

 

EVERTON

Everton comemora (reprodução SporTV)

 

 
Campeão da Copa do Brasil, em 2016
Campeão da Libertadores e vice-Mundial, em 2017
Campeão Gaúcho e da Recopa Sul-Americana, em 2018
Campeão Gaúcho e da Recopa Gaúcha, em 2019

 

 
Comecei a fazer a lista acima pouco antes do fim da partida desta noite de domingo. Não que o jogo não estivesse interessante. Até que estava, apesar de o placar desfavorável — especialmente no segundo tempo quando jogamos o tempo todo no campo do adversário. Mas entre um cruzamento sem finalização e uma troca de passe interrompida, resolvi listar nossos títulos nos últimos anos porque muitas vezes a foto do dia esconde a beleza do álbum de fotografias.

 

 
Ao folhá-lo, relembrei os momentos lindos que vivemos juntos, o sorriso bonito no rosto do atacante que acabara de marcar seu gol e o brilho do troféu que nossos jogadores ofereceram aos torcedores no palco dos campeões. A foto mais marcante desta temporada, aliás, nem era da comemoração de nosso último título estadual, mas da classificação às oitavas-de-final da Libertadores, que —- não se perca no tempo — aconteceu agora há pouco, há dez dias para ser mais preciso.

 

 
A camisa, o técnico, o time que aparece no meu álbum de fotografias são os mesmos —- ou quase —- que estiveram em campo, neste domingo. Lá no Ceará, via-se a tentativa de trocar passe com aquela precisão que nos levou a vitórias incríveis. Esboçava-se uma movimentação triangular entre os jogadores do meio de campo e os atacantes. Arriscava-se alguns dribles para superar a marcação forte do adversário. Mas o resultado final não era o mesmo de “antigamente”.

 

 
Com um erro aqui e outro acolá, com uma falha atrás e um defeito na frente, com vacilos e tropeços, somamos erros em vez de somarmos pontos. Patinamos na grama molhada tanto quanto na classificação — a ponto de eu ter comemorado o empate do concorrente que nos acompanha no pé da tabela. E, confesso, achei isso muito estranho de minha parte. Por isso, voltei a olhar a lista de títulos recentes e a folhear na memória as imagens de nossas conquistas.

 

 
Sei que vivemos tempos estranhos e estamos muito mal acostumados com o revés, mas deixar de confiar no time e no grupo que nos fez tão felizes no futebol é desmerecer nossa capacidade de recuperação. E se tem um coisa que já aprendi há algum tempo torcendo pelo Grêmio é que aqueles que apostam pelo pior tendem a se dar muito mal com a gente.

 

 
Paciência, cabeça no lugar e bola no pé! Eis o caminho para a retomada das vitórias no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: edição FC Tokyo ou uma carta para o meu pai

 

 

Por Gregório C. Jung

 

 

FC Tokyo 1×0 Jubilo Iwata
JLeague — Estádio Ajinomoto/Tóquio

 

 

Oi, papai! Hoje fui ver o jogo do Grêm… erm, quer dizer, do Jael. O dia começou com o Okada-san, o pai da casa, vendo meu uniforme do Grêmio (claro que fui vestido com o uniforme do Grêmio) e falando algumas coisas de futebol. Meu japonês não está tão afiado ainda, mas entendi que ele citou o Zico, chamando-o  de um dos Deuses do futebol.

 

 

Depois de alguns trens errados cheguei ao estádio Ajinomoto. Não é a nossa Arena, mas é um estádio bonito.

 

 

JAEL 1

 

 

As ruas da estação até o estádio são todas enfeitadas com as cores e as bandeiras do FC Tokyo

 

 

Minha camiseta do Grêmio chamou atenção, mas pela razão errada. Estava vestindo as mesmas cores da equipe adversária, o Jubilo Iwata. Vieram falar que eu estava no lugar errado (estava sentado na área destinada à torcida da casa). Depois de algumas palavras em japonês aqui e ali, mostrei que na verdade estava torcendo para o FC Tokyo, sim! Apenas estava representando o antigo time de um dos jogadores deles, o Jael.

 

 

 

 

E falando no nosso atacante, estava ansioso para vê-lo. Subiram as escalações nos telões do estádio e prestei atenção do começo ao fim. Nada do Jael. Conferi na internet meio desacreditado: vai ver se enganaram! Quem se enganou fui eu. O Renato Gaúcho do FC Tokyo decidiu poupar o atacante imortal. Afinal, era uma partida fácil. Tokyo está em primeiro lugar no campeonato japonês e o adversário está escapando do rebaixamento. Nosso atacante não entraria em campo hoje.

 

 

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Não tinha Jael, mas o FC Tokyo queria a vitória contra o Iwata

 

 

Sem problemas, com ou sem Jael, eu tinha meu time para torcer. Outro brasileiro era o xodó da torcida do FC Tokyo: Diego Oliveira. Também atacante, Diego estava na boca do torcedor, e depois de uns minutos de partida deu para entender. Diego joga que nem o nosso Jael no Grêmio. Número 9, sangue nos olhos, corre para um lado e para o outro, cria oportunidades e até arrisca uns dribles. Diego é o craque do FC Tokyo.

 

 

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Muitos chutes, cruzamentos e passes, mas faltava finalização para o FC Tokyo

 

 

O primeiro tempo passou em branco. Pareceu o nosso Grêmio, muitas oportunidades, mas sem balançar a rede. Na minha cabeça pensava: se o Jael estivesse aqui teria feito!

 

 

Falando nele novamente, Jael estava mais próximo do que eu imaginava. Por acaso olhei para trás, observando os camarotes e não é que o Jael estava lá? Todo de azul, inquieto, aquela ansiedade de jogador que queria estar jogando. Coisa de Jael.

 

 

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Jael (de azul) assistindo ao jogo do camarote

 

 

Foi no final do segundo tempo que a bola encontrou a rede, em lance de escanteio. Depois da defesa do Iwata afastar a bola, o número 15, Takefusa Kubo, veio de fora da área e pegou de voleio, daqueles que você vê em final de filme. Certeiro, a bola viajou a área inteira e abriu o placar para o time da casa, que ficou satisfeito com a vitória.

 

 

 

 

Não foi o nosso Grêmio, mas comemorei como se fosse! O FC Tokyo se distancia ainda mais na primeira colocação do campeonato. No fim da partida recebi alguns sorrisos e torcedores que reconheceram o imortal. Apontavam e falavam “JAERU!” Fazendo a pose do nosso atacante com os braços para cima mostrando os músculos.

 

 

O dia foi bom por aqui, papai. Senti sua falta. Não tinha ninguém para abraçar depois do gol. Mas tudo bem, volto logo e vamos poder ver os jogos juntos de novo. Vou ficar devendo ver o Jael em campo no Japão, quem sabe não volto no Estádio Ajinomoto e não encontro um imortal por lá?

 

 

Te amo papai!