Avalanche Tricolor: no Dia do Gaúcho, Eurico Lara voltou

Grêmio 0x0 Palmeiras

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre

Gremio x Palmeiras
Weverton foi gigante. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última rodada, invocamos duas lendas para tentar salvar o Grêmio. Felipão e Renato Gaúcho estavam lado a lado, à beira do campo, carregando nas costas 22 títulos conquistados com a camisa tricolor. Nem assim escapamos da derrota.

Talvez duas lendas não sejam suficientes.

Diante de nossas carências e da situação calamitosa dos clubes gaúchos no Campeonato Brasileiro, será preciso reunir todos os espíritos que ajudaram a construir nossa história. Nesta manhã de 20 de setembro, começamos por Eurico Lara.

No Dia do Gaúcho, o goleiro imortal encorpou Weverton.

Foi ele quem segurou o adversário e impediu que o início da nova temporada de Renato Gaúcho se transformasse em mais desalento. Garantiu um ponto que parece pouco diante da nossa história, mas pode valer uma vida quando chegarmos à última rodada.

O Palmeiras chutou. Weverton defendeu.

O Palmeiras pressionou. Weverton resistiu.

Se faltou futebol ao Grêmio, não faltou goleiro.

O empate por 0 a 0 está longe do resultado que desejávamos diante da nossa torcida. Também não esconde os problemas da equipe. O Grêmio ainda encontra enorme dificuldade para transformar disposição em domínio de jogo. Renato terá muito trabalho. E pouco tempo.

Faltam dez rodadas. Dez jogos para impedir que o Imortal Tricolor seja novamente derrubado à segunda divisão. Dez oportunidades para recuperar pontos, confiança e, se possível, algum futebol. Nessa realidade, cada ponto conta. Até aquele conquistado com as unhas do goleiro.

A última defesa resumiu a partida. Ao descrever o lance, Weverton disse que era uma daquelas bolas em que o goleiro se joga sabendo do risco de quebrar um braço. Nessas horas, explicou, tudo se faz em nome de uma glória maior.

Como não pensar em Eurico Lara?

Lara deu a vida pelo Grêmio. Weverton não precisou chegar a tanto — ainda bem. Esteve disposto, porém, a colocar o próprio corpo em risco para impedir que a bola atravessasse a linha. Entre o braço que poderia quebrar e a rede que precisava permanecer intacta, escolheu o Grêmio.

A arquibancada entendeu o recado.

O torcedor compareceu à Arena disposto a empurrar o time para longe da zona-que-você-sabe-qual-é. Cantou, incentivou e acreditou. Percebeu que não estamos apenas disputando pontos. Estamos lutando pela sobrevivência.

O Dia do Gaúcho carrega símbolos de resistência, identidade e pertencimento. Neste 20 de setembro, a data encontrou o Grêmio necessitado de todas essas virtudes. Não havia lança, cavalo nem lenço ao pescoço. Havia um goleiro de luvas diante de uma bola que procurava o caminho da nossa rede. E ele não deixou passar.

Eurico Lara tornou-se verso no hino e memória permanente no coração tricolor. Neste domingo, por alguns instantes, pareceu estar novamente diante da goleira gremista.

Tinha outro rosto. Outro corpo. Outro nome.

Chamava-se Weverton.

Um empate não salva uma temporada. Apenas nos oferece mais um pouco de chão para caminharmos à beira do precipício. Hoje, esse chão foi sustentado pelos braços do goleiro.

Se duas lendas não foram suficientes na rodada passada, começamos a convocar as demais. Eurico Lara foi o primeiro a atender.

Que venham todas.

Vamos precisar.

Avalanche Tricolor: o passado no banco, a realidade em campo

Botafogo 3×2 Grêmio
Brasileiro — Nilton Santos, Rio de Janeiro

Gremio x Botafogo

Havia duas lendas no banco do Grêmio nesta noite no Rio de Janeiro.

Luiz Felipe Scolari, que conquistou alguns dos principais títulos da nossa história, entre eles o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América.

E Renato Portaluppi, protagonista das maiores conquistas já alcançadas pelo Grêmio, técnico mais vezes campeão pelo clube — ao lado de Oswaldo Rolla — e único a merecer, até agora, uma estátua de bronze na Arena.

Somados, Felipão e Renato conquistaram 17 títulos como treinadores do Grêmio. Acrescente mais cinco à conta de Renato como jogador, incluindo o Mundial Interclubes de 1983.

A imagem dos dois lado a lado, exatamente na semana em que o Grêmio completou 123 anos de fundação, era suficiente para acelerar o coração. A emoção tomava conta do torcedor e trazia uma tremenda saudade dos tempos em que a ideia da imortalidade se materializava nos gramados do Brasil e do mundo.

Iludidos que somos, apesar de todas as limitações que nos acompanham ao longo do ano, chegamos a imaginar que alguma energia vinda do passado contaminaria o time. Quem sabe resolveria nossos problemas, mesmo que por apenas uma noite.

O Grêmio saiu atrás no placar e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo. Parecia o início da virada. A realidade, porém, se impôs. Permitimos que o Botafogo abrisse dois gols de vantagem e, mesmo assim, continuávamos olhando para o banco de reservas, à espera de alguma intervenção sobrenatural.

O gol milagroso até surgiu. A tecnologia, porém, impediu que ele se realizasse.

A realidade já não permite tamanho romantismo. Quando a bola começa a rolar, as limitações do elenco e a fragilidade tática ficam escancaradas. O time parece ter evoluído muito pouco desde o início da temporada. Faltam organização, segurança e capacidade de reagir sem depender de um lance fortuito ou de alguma lembrança gloriosa.

Felipão e Renato carregam uma parte fundamental da grandeza do Grêmio. Representam aquilo que fomos e tudo o que ainda desejamos voltar a ser. Só não podem entrar em campo. Nem suas histórias são capazes de marcar, organizar a defesa ou corrigir os erros de um time sem rumo.

Para escapar da situação em que estamos, será preciso muito mais do que a força mística de nossos ídolos. O passado pode inspirar, aquecer o coração e até alimentar a esperança. Quem precisa salvar o Grêmio, porém, está no presente.

E, por enquanto, o presente não está à altura da nossa história.

Avalanche Tricolor: o plano era perder, só pode!

Grêmio 1×2 Vasco

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Chapecoense
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Peço desculpas à direção do Grêmio e ao técnico Luís Castro. Durante quase duas horas, interpretei como incompetência aquilo que, agora percebo, era estratégia.

O Grêmio não perdeu de virada para o Vasco por acaso. Havia um plano. Um plano ousado, engenhoso e, sobretudo, perigosíssimo: ajudar a empurrar o Internacional para a Série B, mesmo que, para isso, sacrificássemos nossa permanência na Série A.

O primeiro tempo já oferecia pistas da artimanha. O Vasco, que nunca havia vencido na Arena, estava havia um ano sem ganhar fora de casa e entrou em campo na zona de rebaixamento, era o adversário perfeito para o projeto.

O Grêmio fez sua parte. Recuou, cedeu espaços e permitiu que os cariocas chutassem várias vezes contra nosso gol. O Vasco, porém, parecia não ter sido avisado do acordo. Atacava, finalizava e errava. Há adversários que não colaboram nem quando a gente estende o tapete, abre a porta e aponta o caminho.

Foi então que aconteceu o imprevisto.

Mesmo sem atacar muito, o Grêmio marcou.

Confesso que temi pelo fracasso da operação. Um gol gremista não estava no roteiro. Poderia dar confiança ao time, animar a torcida e, num descuido ainda mais grave, produzir uma vitória. Seria um desastre para os objetivos ocultos da tarde.

No intervalo, Luís Castro certamente precisou reorganizar a estratégia. Se o Vasco não conseguia vencer sozinho, seria necessário ajudá-lo um pouco mais.

Veio, então, o movimento decisivo. O treinador colocou Nardoni no meio-campo e despachou Krovinović, o jogador mais criativo da equipe, para a ponta direita. Ali, isolado e distante da região onde poderia pensar o jogo, ele deixou de representar perigo.

Foi uma jogada de mestre.

De um só golpe, Luís Castro facilitou a retomada dos ataques do Vasco e reduziu drasticamente o risco de o Grêmio fazer outro gol. O tabuleiro estava montado. Faltava apenas o adversário compreender seu papel.

Com algum atraso, o Vasco compreendeu.

Vieram o empate e a virada. O passe de Nardoni no pé do adversário, no segundo gol, não foi erro. Foi planejamento. A Arena assistiu à conclusão de uma obra cuidadosamente construída: a primeira vitória vascaína naquele estádio, o fim de um jejum de um ano sem ganhar fora de casa e três pontos fundamentais para complicar ainda mais a vida do Internacional.

Parte da torcida não percebeu a grandeza do projeto e vaiou. Foi injusta.

As vaias tratavam a derrota como se tivesse sido provocada por erros, desorganização ou escolhas incompreensíveis do treinador. Faltou enxergar mais longe. O verdadeiro gremista precisa aceitar alguns sacrifícios. Se o preço para ajudar a derrubar o Internacional for entregar três pontos ao Vasco, colocar em risco nossa própria campanha e flertar com a mesma Série B, que assim seja.

Rivalidade exige desprendimento.

O Grêmio decidiu que não basta ver o vizinho cair. É preciso acompanhá-lo até a porta, carregar suas malas e, se necessário, entrar junto no elevador.

Seremos rebaixados? O risco é grande.

O Internacional também correrá esse risco? Então o plano terá valido a pena.

Parabéns à direção e à comissão técnica. Onde a torcida enxergou uma derrota vergonhosa, agora identifico estratégia, renúncia e devoção à causa.

Só faço uma recomendação: na próxima vez, avisem antes.

Assim, não desperdiço meu tempo sofrendo diante da televisão.

Avalanche Tricolor: o campo escurece o que o algoritmo iluminava

Vitória 1×0 Grêmio
Brasileiro — Barradão, Salvador (BA)

Campeonato Brasileiro - Vitória x Grêmio - 07/09/2026
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Durante quatro dias, minhas redes sociais foram inundadas pelas imagens da vitória gremista no clássico pela Copa do Brasil. Eram os gols de Carlos Vinícius, os desarmes de Kannemann e as molecagens de Amuzu, driblando e cruzando de cara virada. Havia torcedores dançando valsa nas arquibancadas e jogadores exibindo alegria no vestiário.

O algoritmo agia a meu favor. Enchia de dopamina a mente do torcedor e me fazia acreditar que a história começava a ser reescrita nesta temporada. Depois da classificação para a semifinal da Copa do Brasil, viria a redenção no Brasileiro. Abrir o celular era motivo de satisfação — e retenção.

Assim foi durante o fim de semana e boa parte deste feriado de 7 de setembro. Ao menos até a bola começar a rolar na penumbra do Barradão, em Salvador.

A luz que atingiu nosso goleiro antes mesmo do apito inicial, derrubando-o no gramado, parecia um prenúncio: o brilho tricolor exibido nas redes sociais estava prestes a dar lugar à escuridão.

No primeiro tempo, mesmo oferecendo espaços para o adversário, o Grêmio se portou bem quando avançava. O meio de campo trocava passes, e as bolas esticadas encontravam seu destino. Faltava transformá-las em chutes a gol — detalhe que, no futebol, costuma separar intenção de perigo, expectativa de realidade.

Ainda havia em campo uma sombra do time que nos havia alegrado na quinta-feira. Era apenas sombra.

No segundo tempo, a realidade ficou escancarada. Mal atacávamos e nos defendíamos como era possível. O futebol mediano praticado pelas duas equipes não fluía. Em uma partida mergulhada na falta de criatividade, foi premiado quem demonstrou algum ímpeto para avançar.

O Grêmio segue sem vencer fora de casa no Brasileiro, uma competição de pontos corridos que já chegou à 25ª partida. A situação só não custa mais caro porque a concorrência também tropeça. Há uma multidão tentando fugir do escuro, e ninguém parece saber exatamente onde fica o interruptor.

A classificação na Copa do Brasil permanece. A vitória no Gre-Nal também. Não foram invenções do algoritmo. O problema é que aquelas imagens mostravam apenas a parte iluminada de um time que ainda convive demais com as próprias sombras.

Agora, por favor, deixem-me voltar à ilusão das redes sociais.

Avalanche Tricolor: não basta ser Gigante, é preciso ser Imortal

Grêmio 3×1 Internacional
Copa do Brasil — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Grenal 454
Carlos Vinícus marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eram 56 mil pessoas lotando a Arena nesta noite mágica de quinta-feira. Uma multidão majoritariamente gremista tomou conta das arquibancadas. O 3 de setembro de 2026 entra para a história como a data do maior público desde a inauguração do estádio — sim, esta Arena é verdadeiramente nossa.

O recorde dá a dimensão do Gre-Nal que estava em disputa.

Não valia apenas uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Não valia somente mais uma vitória para as estatísticas dos 454 clássicos disputados desde 1909. Valia muito mais.

Os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul entraram em campo para defender a própria sobrevivência no futebol.

Uma derrota, naquele momento, diante do arquirrival, poderia representar o fim de uma história de glórias. A derrocada definitiva. A pá de cal sobre um clube que enfrenta enormes dificuldades financeiras. O risco de ver ruir um legado vitorioso, construído por gerações e transformado em motivo de orgulho para seus torcedores.

Era isso que estava em jogo.

E, se a disputa era pela sobrevivência, não bastava ser Gigante. Era preciso ser Imortal.

Empurrado pela torcida, o Grêmio correspondeu com eficiência e bravura. Marcou com firmeza, ocupou os espaços e contra-atacou ainda melhor.

O primeiro gol nasceu de um escanteio e terminou nos pés de Carlos Vinícius, o atacante redivivo. Havia oito partidas que ele não marcava. Nesta noite, matou a fome. Insaciável, voltou a balançar a rede 20 minutos depois.

O segundo gol foi resultado de uma jogada veloz, construída com passes precisos e a participação de Amuzu pelo lado esquerdo. O ponta belga, que ainda devia uma atuação à altura das expectativas, também renasceu com a camisa do Grêmio. Puxou o contra-ataque e deu a assistência para Carlos Vinícius ampliar.

Amuzu guardaria sua melhor contribuição para o segundo tempo.

Aos 23 minutos da etapa final, Tetê avançou pela direita e tabelou com o belga. Dentro da área, Amuzu deu um passe à la Ronaldinho Gaúcho: olhou para um lado e tocou para o outro. Encontrou Krovinović, que driblou o marcador e bateu para fazer seu primeiro gol desde que chegou ao clube.

Sim, o croata também escolheu um Gre-Nal para começar a escrever sua história com a camisa do Grêmio.

O time soube sofrer. Weverton voltou a se destacar. Kannemann e Walace foram valentes na defesa. Diego Caito superou a dor provocada por uma lesão no ombro. Noriega dominou a frente da área. Villasanti manteve a firmeza nos desarmes.

O Grêmio de Luís Castro jogou como há muito tempo o torcedor exigia. Com organização, coragem e entrega. Cada jogador pareceu compreender que não estava em campo apenas para conquistar uma classificação. Lutava para impedir que uma parte da história do clube se perdesse naquela noite.

Um feito dessa dimensão, em um clássico que contrariou os analistas empenhados em prever um jogo mal jogado, aconteceu justamente no aniversário de Luís Castro.

O treinador português comandou a equipe quase sempre sob a desconfiança do torcedor. Corria o risco de deixar o clube sem construir vínculos nem deixar saudades. Nesta quinta-feira, também ele renasceu. Luís Castro nasceu para o Grêmio em um Gre-Nal.

A vitória não resolve todas as dificuldades. Não apaga os erros. Não faz desaparecer as dívidas nem garante o futuro. Apenas nos lembra que há clubes que atravessam a história pelo tamanho que alcançaram.

E há outros que sobrevivem porque se recusam a morrer.

O Grêmio está vivo.

Porque o Grêmio é Imortal.

Avalanche Tricolor: o Grêmio é um caso de divã

Grêmio 3×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Chapecoense
Gustavo Martins marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio saiu atrás na partida em que enfrentava o lanterna do Campeonato Brasileiro. Permitiu ao adversário finalizar 32 vezes contra seu gol, enquanto chutou apenas 12. Precisou de Weverton para impedir que a noite se transformasse em desastre. E contou com o voluntarismo de Gustavo Martins, o zagueiro que voltou ao time para marcar duas vezes na vitória deste domingo — apesar de haver quem insista que o primeiro gol tenha sido de Enamorado.

Ganhamos por 3 a 1.

E talvez nada explique melhor o Grêmio atual do que esse contraste.

Um time que vence por dois gols de diferença e termina a partida deixando a impressão de que poderia ter perdido. Que sofre diante do lanterna, dentro de casa, e ainda assim consegue construir uma vitória que lhe dá algum alívio no Brasileiro e ânimo para o jogo mais importante da semana.

Os três pontos nos levaram aos 28 e permitiram alguns passos à frente daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Ainda estamos distantes dos 45 pontos que, teoricamente, nos livrariam de qualquer risco maior. Ao menos deixamos para trás o arquirrival — o mesmo com quem disputaremos, na quinta-feira, uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

A situação do time e as circunstâncias de cada partida transformaram a vida do torcedor numa montanha-russa emocional.

Ainda no primeiro tempo, a Arena vaiava para, minutos depois, aplaudir. O gremista roía as unhas a cada ataque da Chapecoense, mesmo quando já tínhamos vantagem no placar. Desesperava-se com os erros de passe no campo defensivo, que ofereciam ao adversário oportunidades para nos atacar, e logo depois comemorava com Wallace cada corte providencial de nosso promissor zagueiro.

Weverton fazia defesas que mantinham a vantagem. Gustavo Martins, escalado para impedir gols, aparecia na área adversária para fazê-los. Pavón, tantas vezes contestado, marcou um golaço e ainda cobrou o escanteio para o terceiro. O Grêmio sofria. O Grêmio fazia sofrer. E o Grêmio vencia.

Contradições.

Quando o árbitro apitou pela última vez, a torcida fazia festa com os jogadores. A mesma torcida que havia vaiado durante a partida agora já vislumbrava a Arena cheia para o Gre-Nal decisivo de quinta-feira.

E, no meio da comemoração, uma pergunta continuava incomodando: afinal, o que Luís Castro está fazendo com esta equipe que, depois de tanto tempo, ainda parece incapaz de deslanchar técnica e taticamente?

Talvez seja justamente isso que nos desoriente.

Quando estamos prontos para desistir, o Grêmio vence. Quando começamos a acreditar, o Grêmio nos oferece 32 motivos para desconfiar. Quando parece frágil, encontra força. Quando deveria nos tranquilizar, nos atormenta.

E quinta-feira tem Gre-Nal.

O Grêmio me deixa louco.

É um caso de divã.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está na briga

Internacional 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 453
Carlos Vinicius travou boas batalhas Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na tela da TV, o Gre-Nal. Na do celular, a entrevista de Lula, na Globo. Na do computador, o planejamento para a última sabatina com os candidatos à Presidência, que farei amanhã, aqui no Rio.

O momento é de decisão.

No campo, a dupla gaúcha disputava quem permaneceria vivo por pelo menos mais uma etapa da Copa do Brasil. Na política, o calendário avisa que faltam pouco mais de 30 dias para o eleitor fazer sua escolha.

Era preciso estar atento a tudo. Não vacilar. Foco total. No caso, multifoco.

Foi em meio a essa tensão que assisti ao clássico.

No primeiro tempo, fui surpreendido pelo Grêmio. Krovinovic deu qualidade ao passe. O time teve mais organização, ocupou mais os espaços e jogou melhor do que vinha jogando até aqui. Não que precisasse fazer muito para superar as últimas atuações.

Apesar da superioridade, chutou pouco a gol. E quem não faz só não leva se tiver força suficiente para se defender. Foi aí que o Grêmio mostrou algo de que o torcedor não pode reclamar nesta quarta-feira: entrega.

Deu pouco espaço ao adversário. Não havia bola perdida. Cada disputa parecia valer um pouco mais. E, quando a técnica se calou, a alma falou mais alto.

No segundo tempo, o Grêmio caiu de rendimento. Foi pressionado e teve dificuldades para sair jogando. Ainda assim, soube sofrer. E soube se defender. Isso também é mérito. Depois do que temos visto, é até motivo para comemorar.

Chegar vivo à Arena era o principal objetivo. Objetivo alcançado. Agora teremos uma semana para descobrir algo que continua desaparecido: o caminho do gol.

O jogo terminou empatado.

A entrevista, também.

Avalanche Tricolor: que se realize o desejo da comissária de bordo

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Bragança Paulista, SP

RB Bragantino x Grêmio
Krovinovic arma a jogada em foto de Fernando Roberto/GRÊMIO FBPA

Os compromissos profissionais me obrigaram a estar no aeroporto de Congonhas, na capital, enquanto o Grêmio enfrentava o Bragantino, no interior de São Paulo. Assisti ao jogo na tela do celular. O sinal era tão instável quanto o futebol gremista. Fato que me fez pensar que a derrota já estava decretada nos minutos iniciais. Só pude ver a comemoração adversária. Da anulação do gol fiquei sabendo apenas minutos mais tarde.

Antes tivesse valido aquele gol. Quando as coisas já dão errado no início, temos pouco a lamentar. E a ilusão nem chega a se criar no imaginário do torcedor. Verdade que o futebol do primeiro tempo não me permitia alimentar muita esperança de melhora.

No intervalo, sentei para tomar um café no saguão do aeroporto. Um frei salesiano sentou-se ao meu lado. Ele se apresentou. Eu também. Trocamos cumprimentos e algumas palavras. Fiquei constrangido de dizer a ele que estava assistindo à partida. E, confesso, o bate-papo estava bem mais agradável.

Quando ele se foi, o segundo tempo já havia começado. O Grêmio dava sinais de melhora. E eu começava a acreditar que era resultado das bênçãos deixadas pelo frei. Nesta fase em que estamos, buscamos desesperadamente algum sinal de ajuda — mesmo que seja no campo espiritual. Até porque, no campo de futebol, as coisas estão bem complicadas.

Estava prestes a embarcar para o Rio de Janeiro, com as imagens do jogo dividindo a tela do celular com o cartão de embarque, quando tomamos o gol no minuto derradeiro. Foi um pecado. O empate teria sido o resultado mais justo. E, considerando o desempenho das demais equipes que ocupam a parte de baixo da tabela, até o pontinho que estávamos conquistando em Bragança me satisfaria.

A partida se encerrou logo em seguida. Sentei na poltrona do avião pensando na situação do Grêmio. Mesmo quando parece que o time começa a se ajustar, ainda nos ressentimos da falta de um futebol mais organizado. Apesar de termos sido reforçados por alguns jogadores de bom potencial, a equipe segue frágil ofensivamente, enquanto o setor defensivo se aglutina dentro da área e aceita a pressão adversária.

Já nos despedimos da Sul-Americana antes da hora; seguimos rondando aquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro; e teremos um clássico Gre-Nal pela frente na disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

Quando os piores pensamentos começavam a conspirar na minha mente, a comissária de bordo anunciou no alto-falante do avião:

“Desejamos a todos uma semana Azul.”

Cá estou eu, no quarto de um hotel, escrevendo para você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, e apostando que a mensagem é um sinal divino para que eu siga acreditando que alguma coisa boa está para nos acontecer.

Que aconteça logo!

Avalanche Tricolor: entre o apito final e o sinal da cruz

Atlético MG 3×0 Grêmio

Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Gremio x Atletico-MG
Krovinović entrou no segundo tempo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Domingo é dia de missa. Na minha paróquia, começa às seis da tarde. Costumo ir pela manhã a outra igreja próxima de casa quando as agendas cristã e futebolística se confundem. Nas rodadas dominicais em que o Grêmio entra em campo às quatro da tarde, assisto aos minutos derradeiros na tela do celular, na porta da igreja. Só desconecto no apito final do árbitro ou no sinal da cruz do padre — o que vier primeiro.

Hoje, confesso que cometi um sacrilégio. Não com Deus. Com o meu time. Nem nos piores momentos do Grêmio aceitei a ideia de abandonar a arquibancada antes do encerramento. Hoje, quando percebi que a partida ainda se estenderia até perto das seis da tarde (ou da noite), apaguei a TV e fui rezar. Não para o meu time. A Deus.

A minha desistência antecipada deste domingo é o sinal claro da desilusão que o Grêmio insiste em impor ao seu torcedor. Após a classificação à semifinal da Copa do Brasil e a vitória de virada na última rodada do Brasileiro, cheguei a me entusiasmar — e deixe isso registrado nesta Avalanche. A chegada de dois reforços menos badalados, mas que rapidamente entregaram bom desempenho também trouxe otimismo. Refiro-me a Wallace e Caito. A ressureição de Pavón, com dois gols de falta em duas partidas seguidas, era de fazer qualquer descrente se converter. A contratação do croata Filip Krovinović, em condições de estrear hoje, alimentava a esperança de que finalmente teríamos um camisa 10 capaz de dar qualidade ao meio de campo.

Já começamos a partida cientes da ausência de Villasanti, o volante mais qualificado do time. Assim como da de Marlon, único lateral esquerdo em quem podemos confiar. Controle de carga foi a justificativa que nos deram. Sei que é preciso preservar os jogadores fisicamente, mas não me parece que o Grêmio esteja em condições de pensar no que será o amanhã. Precisa de resultado — principalmente fora de casa — aqui e agora.

A escolha de Dodi em lugar de Villasanti — com todo o respeito que este abnegado meio-campista merece — era a indicação de que Luis Castro, antes de pensar na vitória, queria evitar uma derrota. Time com três volantes e nenhum deles com qualidade para sair jogando não poderia oferecer muito mais do que nos ofereceu no primeiro tempo. Pobre dos nossos atacantes, que passaram 45 minutos à espera de um milagre. Que, como se sabe, não aconteceu. A bola mal chegava aos pés deles para que desse sequência às jogadas em direção ao gol.

No segundo tempo, Krovinović veio para o jogo. Teríamos, enfim, um meio de campo mais criativo. Kanneman substituiu Gustavo Martins, provavelmente por questões físicas. E Tetê entrou no lugar de Pavón. Não me pergunte a razão. Talvez a crença do técnico que dali viria a redenção.  

E realmente o Grêmio melhorou em relação ao primeiro tempo — não que precisase fazer muito para isso. Chegou mais próximo da área. Pressionou mais. E, aos 14 minutos, quase empatou o jogo após a única ótima jogada do time. Caito desceu com velocidade até a linha de fundo e cruzou para Amuzu completar de primeira. Esperança à vista, pensou este sempre crente torcedor.

Ledo engano. 

Em seguida, a realidade ficou escancarada. Com um volante a menos e atacantes que não sabem voltar para ajudar na marcação, tomamos dois gols de contra-ataque em três minutos. 

Houve uma época em que, mesmo sem qualquer lógica, éramos capazes de superar todos os reveses. Ao menos acreditávamos que seríamos capazes. Quem sabe uma reação que nos permitisse continuar sonhando? Um gol que nos levasse a ficar grudado na televisão, cruzando os dedos, clamando aos deuses mundanos do futebol? Um empate heroico na casa do adversário?

Desculpe, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não encontrei em campo nenhum sinal de que algo parecido pudesse acontecer. Desliguei a TV, abandonei meu time antes de a partida terminar e fui à Igreja. O desalento é tamanho que sequer tive coragem de pedir dias melhores para o meu time. Penso que Deus tem coisa mais importante a fazer. O Grêmio que trabalhe e jogue um futebol capaz de nos fazer voltar a acreditar em milagres.

Avalanche Tricolor: os heróis improváveis e o sentimento de ser gremista

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Paulo

Wallace comemora seu primeiro gol no Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os heróis improváveis levaram o Grêmio a uma virada fundamental para o nosso destino na temporada. Wallace, o jovem zagueiro recém-chegado de Alagoas, e Pavón, o argentino tantas vezes criticado pelas arquibancadas, fizeram os gols que nos tiraram daquela-zona-que-você-sabe-qual-é.

Pode parecer exagero de torcedor, considerando a montanha que ainda temos de subir na competição. O fato é que o time de Luis Castro, com todos os limites técnicos e táticos que ainda apresenta, precisava recuperar a confiança perdida em algum ponto da nossa jornada.

Os reveses mais recentes incomodavam especialmente pela forma resignada com que a equipe se comportava. Derrotas nas diferentes competições e a eliminação na Sul-Americana eram recebidas quase como uma fatalidade, como se o elenco estivesse convencido da própria incompetência. Ao torcedor, restava uma mensagem de desalento.

A postura que levou à classificação para as quartas de final da Copa do Brasil já havia sido completamente diferente. Mesmo com todos os defeitos, os jogadores se impuseram diante do adversário e lutaram de forma incessante. Mesmo pressionado mais do que gostaríamos, mostrou que sabir ser resiliente. O que vimos hoje, pelo Campeonato Brasileiro, foi a repetição daquela atitude, especialmente depois de o Grêmio sair atrás no marcador.

Ainda não temos a marcação intensa que rouba a bola no campo do adversário, a organização tática que reduz os riscos dentro da nossa área ou uma circulação de bola mais articulada no meio de campo. O torcedor, porém, consegue perceber jogadores atuando com muito mais intensidade nos três setores do time.

Lá atrás, Wallace é o principal destaque. E, se não se assustar com o próprio sucesso, pode ser importante não apenas para dar mais segurança à defesa, mas também para avançar com a bola e romper a primeira linha de marcação do adversário. A lateral direita, com Diego Caito, está mais bem guarnecida. O entendimento dele com Pavón, à frente, fez diferença nos dois últimos jogos. É por aquele lado que o Grêmio ataca melhor e oferece mais perigo.

O atacante argentino é um personagem à parte neste momento. Parece ter redescoberto o drible depois de passar seis meses jogando mais recuado e improvisado na lateral direita. Não bastasse a chegada forte à linha de fundo, foi responsável pelos gols das duas vitórias recentes. E ambos de falta.

Na cobrança de hoje, a considerar pelo que disse ao fim da partida, Pavón teve plena consciência do movimento que fazia. Percebeu a falta de proteção extra atrás da barreira e chutou forte por baixo para colocar a bola na rede. No jogo anterior, também havia demonstrado inteligência ao identificar o desajuste da barreira adversária.

O Grêmio ainda está distante de apresentar um futebol vistoso. As duas vitórias seguidas, porém, devolvem ao time algo que parecia ter desaparecido: a convicção de que lutar pode valer a pena. E, quando essa disposição aparece em campo, a torcida responde.

Hoje, eram 35 mil gremistas na Arena empurrando o time até a virada. Wallace e Pavón foram os heróis improváveis da noite. A arquibancada tratou de lembrar o que os move — e o que nos move — ao cantar em coro:

“O Grêmio é puro sentimento.”