Brasil 2×1 Japão
Copa do Mundo – Houston, EUA
Era cedinho e a turma da padaria já palpitava no microfone da CBN. Na voz do povo, os gols da vitória sairiam dos pés de Vini Jr., Neymar e Endrick. O primeiro é compreensível: virou o craque desta seleção. Já os outros dois dependeriam das substituições de Ancelotti — se é que entrariam em campo. Mas ninguém estava preocupado com esses detalhes. A voz do povo não perde tempo com pormenores. Se o repórter perguntasse por Casemiro, seria vaiado. Se sugerisse Martinelli, ouviria um sonoro: “Quem?”
Torcer é retorcer a lógica do futebol. É acreditar que o salvador da pátria está sempre no banco de reservas. É procurar um culpado antes mesmo do apito final. É ter certeza de que o técnico errou — sobretudo quando ele acerta.
Na arquibancada ou diante da televisão, excomungamos o atacante que perdeu um gol, aposentamos o zagueiro que falhou e condenamos o goleiro que levou um chute indefensável. Ora, se está no gol, que defenda.
Também nos sentimos no direito de julgar todas as decisões do treinador. Se repete a escalação, faltou coragem. Se muda o time, faltou convicção. Se mexe bem durante a partida, a conclusão é inevitável: escalou mal.
O primeiro tempo da seleção parecia confirmar cada uma dessas teorias. O Brasil sofria com a marcação japonesa, circulava pouco a bola e dava espaços na defesa.
Fora Ancelotti! Tira esse Casemiro. O homem se arrasta em campo, erra passes, chega atrasado, leva cartão amarelo e nem faz a falta para impedir o chute que termina em gol. E essa saída de bola do Danilo? Não é ele o homem de confiança do técnico? Vai confiando…
Chega o intervalo e descobrimos que Endrick só entrará porque Paquetá está machucado. Casemiro continuará em campo, mesmo amarelado. E o Neymar? Vai passar a Copa inteira como peça de decoração no banco? Para que levou esse cara?
Eu já começava a aceitar que tinha sido condenado a torcer por times ruins em 2026.
Mentira.
Bastava a bola chegar aos pés de Vinicius Júnior para a esperança reaparecer. Eu voltava a acreditar no futebol arte, no Brasil das grandes Copas, no Hexa. Torcer nos concede esse privilégio: acreditar e desacreditar em questão de segundos; idolatrar e condenar o mesmo jogador no intervalo de uma jogada; cometer injustiças e revogá-las antes mesmo do replay.
Quando muitos de nós já imaginávamos como seria triste assistir ao restante da Copa sem o Brasil — enquanto o sempre simpático Everaldo Marques resgatava estatísticas da última eliminação brasileira antes das oitavas de final — o roteiro resolveu nos desmoralizar.
Gabriel Magalhães levantou a bola na área. Casemiro, justamente Casemiro, apareceu para cabecear e empatar o jogo.
O vilão virou herói.
Calem-se! Deixem o homem trabalhar. Ancelotti sabe exatamente o que faz.
Só havia uma dúvida.
Por que Martinelli? Por que não Neymar? Será que o treinador não ouviu os gritos da torcida? A gente tem de virar esse jogo, mister!
Pois foi Martinelli quem recebeu o passe de Bruno Guimarães dentro da área e marcou o gol da classificação.
Nunca critiquei.
Ou melhor: critiquei, sim. E voltaria a criticar amanhã, se fosse preciso. Porque torcedor não muda de opinião. Apenas troca de certeza.
Hoje, por exemplo, tenho absoluta convicção de que o Brasil vai rumo ao Hexa.





