Avalanche Tricolor: futebol e vitória no Dia das Mães

Grêmio 2×0 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

Gol de Matheus, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Mesmo tonto depois do golpe na cabeça, na sequência do gol que marcou, Matheus Henrique ainda teve noção de procurar a microcâmera presa na parte alta da rede, olhar com carinho e mandar mensagem para a mãe: ‘eu te amo!’, teria dito ele —- foi o que entendi a partir de leitura labial. A mãe deve ter ficado orgulhosa tanto quanto preocupada pelo lance que levou o guri ao chão e o impediu de comemorar o gol que selou a presença do Grêmio em mais uma final de Campeonato Gaúcho.

Hoje, ao sair na frente no placar, aos 29 minutos do primeiro tempo, praticamente nocauteou o adversário, que já havia vencido na primeira semifinal, por 2 a 1, fora de casa. Tendo diante de si um time que não fazia resistência, o Grêmio limitou-se a levar o jogo até o fim, ainda que Ferreirinha insistisse em impor velocidade, driblar os adversários e tentar o gol. De tanto insistir, aos 37 do segundo tempo, deixou seus marcadores para trás com uma cruzada de pernas e marcou no canto esquerdo do goleiro. Fez por merecer. 

No primeiro gol tinha sido o responsável pela assistência ao fazer o lateral dançar e cair dentro da área. No segundo, foi protagonista desde o início da jogada. Deve ter deixado orgulhosa a mãe, a quem ajudava no trabalho da feira quando ainda era um guri de calça curta lá no Mato Grosso do Sul.

Geromel completou 300 jogos, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Outra mãe — e essa tive o prazer de conhecer —- que deve ter ficado bem feliz neste domingo é a do Geromel, ao ver o filho entrar em campo pela 300ª vez, vestindo a camisa do Grêmio. Nosso zagueiro e capitão cumpriu bem o seu papel, afastou os poucos riscos que o adversário ofereceu e demonstrou enorme esforço para posicionar a defesa que ainda se ajusta ao comando do novo técnico. 

Verdade que mãe é uma figura curiosa. Nem precisa que o filho faça gol, jogue bem, tenha talento e persistência para estar feliz com o pimpolho. A despeito do que o menino faça ou desfaça, ela sempre estará por perto para ajudar, acolher, disciplinar se necessário e justificar o que encontrar no caminho dele. 

Lembro muito da minha, que perdi cedo, quando estava começando a vida adulta. Era quem colocava ordem na família, puxava a orelha na bagunça e arremessava o chinelo para nos aquietar. Assim como era a primeira a partir em nossa defesa, abraçar e desculpar. 

Foi minha protetora sempre que precisei. Me safou de constrangimentos quando meu Grêmio aprontava das suas nas rodadas do fim de semana pelo Campeonato Gaúcho, especialmente nos clássicos regionais. No dia seguinte às derrotas clamorosas, era minha cúmplice. Percebendo minha dificuldade de encarar os colegas que torciam para o adversário, me perguntava antes de sair de casa se eu estava me sentindo bem: era a senha para eu fazer uma cara de dor e pedir para voltar para cama.

Naquele tempo, as segundas-feiras pós-decisão costumavam ser duras. Mas a Dona Ruth era forte. E não me deixava só. Atualmente, as segundas-feira até que têm sido muito generosas comigo —- até porque, convenhamos, o Campeonato Gaúcho perdeu boa parte da sua importância no calendário. Mas trocaria todos esses dias de vitória por tê-la ao meu lado neste domingo e poder, assim como fez Matheusinho, mandar um beijo para ela e dizer: “eu te amo, mãe!”

Avalanche Tricolor: gol, gol, gol ….

Grêmio 8×0 Aragua

Sul-Americana — Arena Grêmio

Foram necessários poucos minutos para saber o risco que corríamos de golear o adversário. Foi um, foram dois, foram gols atrás de gols. Por um lado. Por outro. Por cima. Por baixo. Confesso, perdi a conta no meio do caminho. E tive de algumas vezes conferir o placar na tela da televisão. Falar de um jogo assim, querer entender essa superioridade, é desnecessário. Por isso, deixo as palavras de lado e reproduzo as imagens de Lucas Uebel, fotógrafo do Grêmio FBPA, que acompanha o time onde o time estiver. Hoje, teve direito a cumprimento de Maicon, que marcou de penalti. Considere-se cumprimentado por mim, também, Lucas — a quem não conheço pessoalmente, mas usufruo da arte de registrar os mais belos momentos da nossa Imortalidade.

Avalanche Tricolor: meu WhatsApp com o Diego Souza tá bombando!

Caxias 1×2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Devo ser figura rara entre usuários do WhatsApp. O número de grupos no meu mensageiro é restrito. Aquele famoso da família, jamais foi construído. De amigos, nunca tive — refiro-me ao grupo, lógico, porque amigos consegui manter alguns na minha lista. Bem poucos para ser sincero. Mas isso resolvo no divã. O grupo do Jornal da CBN só se formou há um ano e por causa da pandemia. O outro que tenho são das duas turmas de aula que frequento. Têm data para expirar. O da Igreja preservo porque é apenas para receber recados. Ninguém pode escrever nele, além do administrador. 

Quem entra no meu WhatsApp, vê de cara a mensagem: “vale a pena?”. Pode parecer antipático, mas tem o objetivo de alertar as pessoas para que reflitam antes de escrever. Hoje, desperdiçamos muito tempo gerenciando a quantidade gigantesca de mensagens que navegam pelas mais diversas ferramentas de comunicação. Assim, sugiro: vamos escrever o estritamente necessário e ajudarmos a combater um fenômeno que tem causado sérios problemas de saúde mental: a infoxicação —- resultado do volume de informação que intoxica nosso cérebro, dificulta o entendimento dos fatos, e causa estresse e ansiedade.

Falo desses fatos em uma coluna destinada a comemorar (ou lamentar) resultados em campo porque graças a uma missão que assumi desde que Diego Souza foi contratado — por indicação de Renato, lembra?!? — meu WhatsApp está movimentado.

contei em Avalanches passadas que, ao saber que o filho querido do meu amigo Luiz Gustavo Medina é fã do atacante gremista —- vista qual camiseta estiver vestindo —-, decidi enviar uma foto de Diego comemorando cada gol marcado pelo Grêmio. Confesso que começou como uma tentativa, sem sucesso, de cooptar o menino, são paulino por influência do pai, para o nosso Imortal e hoje virou um ritual. 

Diego marca, saco o celular, registro a comemoração na tela da TV e envio para o WhatsApp do Teco. Pra ter ideia, só neste domingo, foram duas imagens transmitidas. Uma ainda no primeiro tempo, quando nosso goleador aproveitou uma bola desviada pelo zagueiro adversário e em um chute cruzado colocou o Grêmio à frente no placar. A outra foi na cobrança de pênalti no segundo tempo, quando parecia que não encontraríamos mais espaço na defesa que se postava diante da área para segurar o empate alcançado ainda antes do intervalo — a propósito, uma curiosidade: sabia que o Grêmio não desperdiçou nenhum pênalti neste ano?

Com os dois gols que deixaram o Grêmio em vantagem na semifinal e — se confirmarmos a classificação — levarão a decisão do Campeonato Gaúcho para a Arena, Diego Souza chegou a melhor marca dele em um início de temporada —- e duvido que outros tenham conseguido algo semelhante, neste ano: em nove partidas disputadas marcou 11 gols. Sim, mais de um gol por partida. Aos 36 anos, o artilheiro combina força, precisão e experiência para estar bem colocado, saber vencer a disputa pesada dentro da área e encontrar o momento certo para o chute. 

Graças a Diego Souza, meu WhatsApp tá bombando! 

Avalanche Tricolor: dois gols de um Grêmio que já conhecemos



Lanus 1×2 Grêmio

Sul-Americana — estádio La Fortaleza, em Lanús (ARG)

Festa de Ferreirinha no segundo gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Há quem já enxergue o redesenho do futebol do Grêmio, que está sob nova direção há pouco mais de uma semana. E veja nos dois gols marcados no freguês argentino, na noite dessa quinta-feira, as mudanças impostas pelo técnico Thiago Nunes. Longe de mim querer tirar o mérito do treinador ao escrever esta Avalanche, na manhã de sexta-feira, após ler parte da crônica esportiva e especializada do Rio Grande do Sul. A despeito de a chegada dele provocar o efeito ‘chefe novo’ que influencia o desempenho tanto de acomodados quanto de  desmotivados, tem potencial para tornar o time ainda mais forte, pelo que já mostrou na carreira que construiu até aqui. Porém, por mais que confie —- e eu sempre irei confiar —-, é preciso parcimônia na análise e um refresco na memória. 

Em 2017, o Grêmio enfrentou o mesmo Lanús em competição mais nobre e fase mais decisiva. Disputamos o título da Libertadores e vencemos a primeira partida no mesmo estádio de ontem —- La Fortaleza —- e com o mesmo placar de ontem. Coincidências, é lógico. Pois nem Grêmio nem Lanús conseguiram na temporada anterior alcançar a mesma performance da época em que se candidataram ao maior título sul-americano. Haja vista que hoje temos de nos contentar com a Sul-Americana.

Resgato o primeiro jogo daquela decisão porque basta um Google —- veja no vídeo a seguir —- para lembrar que os dois gols que nos abriram caminho para o título surgiram de jogadas semelhantes a que nos permitiram chegar aos gols de ontem: pelas pontas, com velocidade e talento.

Em 2017, o Grêmio saiu na frente no placar após a cobrança de escanteio do adversário. A defesa despachou a bola da área e foi parar nos pés de Fernandinho. Nosso atacante disparou contra os marcadores em altíssima velocidade até chegar na cara do gol e marcar. 

O segundo gol começou em outra arrancada de trás, com jogada  pelo lado esquerdo, em alta velocidade. A bola caiu nos pés do iluminado Luan e  nosso 7 usou de seu talento, driblou quem podia, deixou os zagueiros para trás e de cavadinha encobriu o goleiro para marcar aquele que foi o gol mais bonito da Libertadores.

A vitória de ontem começou a ser construída após a defesa tirar uma bola da área, o meio de campo brigar pela disputa dela e encontrar Ferreirinha inspirado na ponta esquerda. O guri, atrevido, fez um giro sobre o marcador e correu em direção ao gol para servir Leo Pereira, que também vinha em velocidade. 

Depois de levarmos o empate, reagimos novamente pelas pontas. Luis Fernando — aquele que fazia alguns arrancar os cabelos quando Renato mandava aquecer ao lado do gramado — arrancou pela direita, deixou o marcador para trás e serviu a quem estivesse chegando na área. Era Tiago Santos que estava a espera da bola quase na pequena área. Sim, aquele “volantão”, “perna de pau” e “velho”, que ao ser contratado foi motivo de críticas e pedidos de demissão de Renato, estava, aos 41 minutos do segundo tempo, lá no ataque para dar assistência à Ferreirinha que, mais uma vez, usou de talento para fazer a bola chegar nas redes.

A esta altura, você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar pensando: o Mílton parece viúva do Renato. Que pareça!

A minha admiração e respeito por ele sempre será enaltecida neste espaço, mesmo com todas as ressalvas que já fiz e registrei em Avalanches passadas. Mais do que isso, porém, é que faço questão de dar crédito a quem merece, sem desmerecer os demais. 

Assim que Renato chegou ao comando do Grêmio, em setembro de 2016, muitos passaram a elogiar a maneira como o time estava se apresentando em campo —- como se aquela performance tivesse sido inventada naquele momento. Esquecíamos de que a lógica do jogo havia sido montada por Roger,  que mudou a maneira do Grêmio se comportar em campo, valorizando a bola no pé, o toque rápido e o deslocamento em velocidade. Renato aprimorou a marcação e soube aproveitar muito bem a estrutura deixada por seu antecessor. Fez o nosso futebol evoluir e se tornar campeão.

Com Tiago Nunes nossa expectativa é a mesma. O treinador vai implantar o que pensa ser o futebol moderno, a partir de um modelo de jogo que já conhecemos há algum tempo e se transformou em uma de nossas marcas. Ele não vai reinventar o Grêmio. Vai evoluir com o Grêmio. E nos fazer campeão, mais uma vez! É a minha esperança.

Avalanche Tricolor: estranha vitória para chegar a um resultado costumeiro

Ypiranga 2×3 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim RS

Tiago Nunes em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Tudo muito estranho para mim, confesso. Até no uniforme. A camisa é a recém-lançada, que deveríamos ter usado pela primeira vez naquela competição que você-sabe-qual. Pelo que percebo, a atual é baseada em um modelo dos anos 20 —- a retrô está no memorial aqui de casa, ao lado da camisa autografada por Danrlei e Geromel. A combinação com o calção branco ficou estranha. Sem marca. Sem alma. O que não tem a menor importância, eu sei. Uniforme não ganha jogo. Nem perde.

Senti estranheza, também, na figura ao lado do campo. Vou precisar me acostumar. Foram quatro anos e meio acompanhando Renato, suas caras e roupas. Tiago Nunes tem outro estilo — até no jeito de se vestir. Ainda é estrangeiro no ambiente tricolor, mesmo que tenha se esforçado para revelar intimidade nas primeiras palavras como técnico do Grêmio. Nada que o tempo e os resultados não superem.

O que mais me preocupou foi a estranha marcação dentro da área a cada cobrança de escanteio. Todo mundo parecia deslocado, sem saber qual função exercer, enquanto os adversários desperdiçavam gols atrás de gols.

Ouvi os entendidos na televisão dizerem que Renato gostava da marcação individual e Tiago quer marcar por zona. Que zona foi aquilo?!?

Ver a estatística no intervalo da partida e descobrir que o adversário teve 60% de posse de bola também foi esquisito —- especialmente porque nos últimos anos assistimos ao Grêmio jogar com a bola de pé em pé, às vezes além do necessário. Espero que tenha sido apenas circunstância do momento e quando o time entender o que o técnico quer, volte a dominar o campo de jogo. Ou será que eu também vou ter de me acostumar com isso?

Nada mais estranho, porém, do que a partida em si, na qual fizemos um jogo mediano e conquistamos a vitória em cinco minutos, após um pênalti bem cobrado (mesmo que mal assinalado), uma patacoada do goleiro adversário (e a gente não tem nada a ver com isso) e um belo chute de Vanderson que colocou o Grêmio com uma ótima vantagem no primeiro tempo: 3 a 0. Tão boa vantagem que mesmo a sequência de erros no segundo tempo não nos tirou a liderança do Campeonato Gaúcho ao fim de mais uma etapa classificatória.

Aliás, se tem coisas que não me causaram estranheza na noite deste sábado, foi ver o Grêmio, tricampeão, chegar como líder ao mata-mata do Campeonato Gaúcho, e saber que, ao fim de 66 partidas disputadas, os finalistas da competição são as duplas Gre-Nal e Ca-Ju. Estranho é saber que insistimos nessas fórmulas desgastantes para alcançarmos praticamente os mesmos resultados.

Avalanche Tricolor:  se é o que temos, ganhemos!

Grêmio 2×1 La Equidad

Sul-Americana — Arena Grêmio

Gol de Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foi o locutor oficial da transmissão de TV da Conmebol* quem disse que o Grêmio combina com Libertadores — e não tenho dúvida que os torcedores  pensamos da mesma maneira. No entanto, os resultados deste início de temporada não nos deram a oportunidade de manter a escrita dos últimos anos —- ahh, que falta fez aquele gol mal-anulado e sem VAR da fase preliminar. Com tudo isso, tivemos de encarar nesta quinta-feira à noite a estreia na Sul-Americana.

O Twitter oficial da Conmebol também tinha um tom de “que-falta-você-faz”.  E foi quem me alertou para o fato de que há nove anos não disputávamos essa competição. Neste 2021, porém, é a Copa que temos para jogar. E uma Copa que começa diferente porque trocou a disputa de mata-mata por uma fase de grupo bastante rígida, jque apenas o primeiro colocado segue em frente. Ou seja, já que é para jogar que seja a mais difícil de todas as edições.

E jogamos razoavelmente bem para um time que ainda precisa se acostumar com essa realidade e passa por uma transformação dentro e fora de campo. Thiago Gomes, com H, tem feito às vezes de treinador do time principal enquanto aguarda que Tiago Nunes, sem H, assuma o lugar que é de Renato Portaluppi —- não pense que usei o verbo ser no presente por acaso. 

Thiago, com H, comandou o time em três partidas, duas delas pelo Campeonato Gaúcho e fez, hoje, sua estreia em uma competição sul-americana. Soube manter a equipe com o que tinha de melhor à disposição, usando os dois principais reforços deste início de temporada —- ambos escolhidos por Renato. E mantendo o estilo de jogo que nos colocou entre os melhores do Brasil e da América nos últimos anos.

Diego Souza marcando um gol atrás do outro, além de dar assistência —- como no segundo, feito por Paulo Miranda —- foi o melhor da partida, na escolha da equipe técnica da Conmebol que, confesso, não tenho a menor ideia de quem seja nem como faz sua escolha. O atacante que Renato buscou para o time no ano passado, apesar das críticas, cumpre seu papel, é o goleador do time e ainda nos acrescentou qualidade na bola aérea. Com os cruzamento de um cada vez mais destemido Ferreirinha por um lado e de Rafinha pelo outro, Diego Souza tem tudo para consagrar-se como o artilheiro que é, em mais uma temporada. 

Aliás, Rafinha, outro nome da safra recente de Renato, que muitos entendiam que era desnecessário, já mostrou seu talento nas poucas partidas que disputou.

Com a braçadeira de capitão, apesar de recém-chegado, o que revela a personalidade do lateral direito, Rafinha deu qualidade na bola que vem de trás. E tem um cruzamento para área que chama atenção. Nossas cobranças de escanteio voltaram a nos dar esperança de gol —- há muito tempo deixamos a desejar e desperdiçamos essas oportunidades com bolas curtas ou lançadas sem rumo para a defesa cortar.

Outro nome a quem devo elogios é ao de Thiago Santos, com H. Volante de profissão, marca com precisão, combate o adversário e rouba a bola em quase todas as investidas. Ao contrário do que os detratores tentaram impor —- sim, fizeram campanha na internet e acusaram mais uma vez Renato de fazer más escolhas —-, sabe sua função dentro do time, é bastante útil para uma equipe que precisava retomar sua característica guerreira no meio de campo e servir de contraponto ao futebol leve que nos faz chegar com toque de bola no ataque. 

Foi ao estilo Renato, travestido de Thiago Gomes, que conquistamos os três primeiros pontos na Copa, mesmo tendo que sofrer parte do jogo com um a menos em campo, a medida que Rodriguez foi, justamente, expulso. Agora, com o time líder no Campeonato Gaúcho e vitorioso na estreia da Sul-Americana, o bastão passa às mãos de Tiago Nunes.

Quanto a você, caro e raríssimo leitor desta Avalanche, se gremista for como eu, caberá se acostumar com um novo estilo de técnico. Assim como com essa competição que não era a que sonhávamos, mas é a que estamos disputamos. E se é o que temos, ganhemos!!!

Avalanche Tricolor: até logo, Renato! 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foram-se cinco dias, dois jogos, um empate ‘oxo’ e uma vitória categórica desde a última vez que estive com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Pelo ritmo acelerado com que se disputam partidas de futebol em um país paralisado pela pandemia, para quem esteve acostumado a dizer o que pensa e sente assim que a bola para de rolar, a distância entre o texto da quarta-feira passada e este é uma eternidade.

Deixei o tempo fluir para ver se absorvia melhor a saída de Renato Portaluppi, técnico mais longevo do futebol brasileiro e prestes a completar cinco anos no comando da equipe. Na versão oficial, foi comum acordo. Alguns dizem que ele foi demitido. Há os que compraram a ideia de que ele se demitiu. 

Como permito que a ilusão domine meus pensamentos quando o assunto é Grêmio, insisto em acreditar que Renato, do alto da sua majestade, sacrificou-se em nome do time do coração. Vendo que havia divergências internas na direção e externas na torcida, preferiu se afastar da Arena para que as diferenças não causassem uma cisão sem retorno no clube. Porque ele haverá de retornar.

Mesmo com a noção de que muitas das coisas que escrevo ou penso nesta Avalanche estão mais sintonizadas com os meus desejos do que com a realidade —- repito: aqui me dou o direito à ilusão —-, ninguém minimamente saudável da mente e da boa-fé há de negar o que Renato representa para o Grêmio. 

E digo isso, ciente do que pensava dele no início de sua carreira como jogador, época em que sua posição não era incontestável e a pressão pela sua escalação como titular, em 1982, foi um dos motivos do afastamento de Ênio Andrade do comando do time. Seu Ênio foi campeão brasileiro, em 1981, e vice, em 1982, pelo Grêmio —- este título, aliás, foi o que levou o time para a Libertadores de 83, que nos rendeu a primeira conquista sul-americana e o Mundial. Era amigo íntimo do pai, a quem confidenciava coisas dos bastidores da vida e do Olímpico e dividia garrafas de whisky, no bar que ficava atrás do campo suplementar. Adotei-o como padrinho pela intervenção famíliar que fez em momento dos mais difíceis na minha vida escolar. A saída do Seu Ênio me entristeceu e fez maldizer os responsáveis pelo ato —- Renato estava na lista.

Alguns poucos anos depois, —- já incontestável e campeão do Mundo — Renato foi um dos responsáveis pelo rumo que tomei na carreira. Um dia conto de forma mais detalha esse caso se é que você está interessado. Pra resumir: foi diante de uma negativa dele em ser entrevistado e uma fuga dos microfones, flagrada e estampada no jornal Zero Hora, que me levou a rever o interesse pela cobertura esportiva. Dia seguinte, pedi para ser transferido do esporte para o departamento de jornalismo —- e isso mudou minha vida, não sem antes reforçar minha bronca com o ídolo.

O tempo nos ajuda a enxergar melhor o que aconteceu. A mente é seletiva e distorce nossas lembranças. Passamos a armazenar imagens que nunca se realizaram e histórias que não foram contadas. As transformamos em nossa verdade. Acreditamos no que que queremos acreditar. E, em particular, prefiro guardar no coração o que me causou amor e esquecer meu rancor — tomara que com você também seja assim, Renato.

Renato construiu sua história. Fez o Grêmio maior do que era. Não o fez sozinho, mas fez. E com o Grêmio se fez grande, também. Fim dos tempos de jogador — em que os pés, o corpo e o coração se expressavam com talento nos gramados ——, assumiu o papel de treinador — que exige inteligência e criatividade, méritos da mente. Na casamata, sempre que passou pelo time, deixou sua marca vitoriosa, revelando-se então completo. 

Na primeira, em 2010, nos elevou de uma constrangedora posição na zona de rebaixamento para a disputa de vaga na Liberadores. Na segunda, em 2013, foi vice-campeão brasileiro. E na terceira …. bem, esta acho que você ainda não esqueceu. Conquistou todos os mais importantes títulos desta década, do Tri-Gaúcho a Libertadores. Foi campeão da Copa do Brasil, da Recopa Sul-americana e da Recopa Gaúcha. Além de troféus, criou uma nova maneira de o Grêmio jogar futebol —- indo muito além da paixão e do coração, que sempre o moveram —, que encantou os críticos pelo Brasil. 

Um cara que nos deu a chance de ser transformado em lenda ainda em vida —- coisa rara nas relações efêmeras que costumamos ver na sociedade contemporânea. A estátua na esplanada da Arena do Grêmio, no Humaitá, foi apenas a materialização de algo que já estava construído no coração de cada gremista. Lá permanecerá como permanece na nossa memória a revolução que Renato causou sempre que esteve em campo ou ao seu lado, em nome do Grêmio. 

Por tudo isso e por tantas outras coisas que não tenho habilidade para escrever ou memória para lembrar, para mim é difícil entender a saída de Renato neste momento, quando caberia a ele —- e poucos terão essa capacidade —- administrar o novo ciclo que estamos iniciando, após assistirmos à passagem da geração vitoriosa que conquistou a América. 

A mudança que se faz necessária somente é possível com alguém forte o suficiente para resistir a pressão pelos tropeços inevitáveis no processo de reconstrução de um time. Quem assumir terá a mesma responsabilidade —- tenho dúvidas se terá  a força de Renato diante da adversidade. Torço para que seja blindado pela diretoria, co-responsável pelo que vier acontecer. E que tenha a tolerância do torcedor, algo raro nesses tempos em que os intolerantes contaminam as relações com suas palavras de ódio.

A me consolar, a alegria que tenho até hoje na mente — e essa não esquecerei jamais —- de Renato ter comandado o time que me fez sorrir e vibrar abraçado aos meus dois filhos (guris, o que foi aquela noite em Al Ain, nos Emirados Árabes?!?); e me permitiu compartilhar com o pai nossas últimas comemorações em vida pelo Grêmio, clube que ele me ensinou a amar.

Renato sai da casamata e abre espaço no vestiário para que alguém assuma a responsabilidade de manter no elenco e nos torcedores aquilo que ele resgatou logo que chegou em 2016: o prazer pelo futebol bem jogado e pelo título conquistado. Vai embora sem dizer adeus, porque de Renato jamais iremos nos despedir. No máximo, arriscamos um “até logo!”; quem sabe, “até breve”. Porque Renato não sai do Grêmio nem o Grêmio jamais sairá de Renato. Somos eternos. Imortais!

Avalanche Tricolor: na vida, tem de saber perder

Grêmio 1×2 Independiente del Valle

Libertadores – Arena Grêmio

Jean Pyerre em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A questão não é quantas vezes você cai mas quantas vezes você levanta”

Ouvi essa adaptação da frase de Rocky Balboa, personagem das lutas de boxes do cinema, de um dos meus filhos, no bate-papo do café da tarde, Sei lá porque surgiu o assunto, talvez premonição para o que aconteceria à noite. Provavelmente apenas coincidência. Com certeza, inspiração para essa nossa conversa marcada pela frustração de estarmos fora da Libertadores 2021 — fato raro na história gremista, especialmente nesta última década em que  fomos campeões, em 2017, e por oito vezes disputamos a mais importante competição das Américas.

A queda não veio em um lance, por mais que os algozes de plantão queiram apontar o dedo para um ou outro jogador. Ela ocorre aos poucos.  E é coletiva. Em um gol marcado e mal anulado —- refiro-me ao da primeira partida, lá no Paraguai. Em um, dois e três gols perdidos na cara do goleiro —- claro, que falo do que assistimos na partida de hoje. Na ausência de jogadores importantes ou na presença de outros tão importantes quanto mas sem a necessária condição física. Na dificuldade para montar um time com o talento que necessitamos.

Perde-se uma classificação até mesmo antes disso. A obra de hoje começou a ser construída na campanha claudicante do ano passado (que se encerrou apenas neste 2021). Na perda de pontos que nos colocariam facilmente na Libertadores, sem precisar passar por essa fase preliminar e perigosa, em que tivemos de disputar uma “final” em começo de temporada. 

A derrota somente não será maior, se for pedagógica. 

Semana passada escrevi que “na Libertadores é preciso até saber perder”. E o Grêmio, com todas as dificuldades (e, repito, um gol muito mal anulado) soube perder na medida certa — inclusive marcando fora de casa, o que lhe daria a classificação com uma vitória simples. Na Arena, começou na frente, dominando e superior em campo — mas não soube vencer. Jogou fora a vantagem que tinha e sucumbiu a qualidade técnica do adversário. E eis aqui mais uma lição a ser aprendida: admitir quando do outro lado havia uma força maior.

É preciso aprender com o revés deste início de temporada e lembrar que surge uma oportunidade rara que é a de ganhar tempo para treinar e se dedicar àquela que é a principal competição nacional, o Campeonato Brasileiro, vencido pela última vez, em 1996. Para isso, Renato terá de reestruturar o time, rever jogadores, investir em novos talentos, acreditar na juventude e encaixar as peças para que o futebol de 2017, que encantou o Brasil, volte a ser praticado em campo.

A tentação de zerar o jogo e começar tudo de novo, como se o que foi feito até aqui tivesse de ser esquecido é enorme. Ao mesmo tempo que perigosa. A ideia de terra arrasada só serve para satisfazer o fogo amigo, geralmente instigado por frustrações pessoais ou visão limitada diante da necessidade de um trabalho de longo prazo. Mudar tudo e todos tornará a derrota desta noite muito pior.

Cair, sentir o cheiro da lona, embrulhar o estômago com o sabor azedo da derrota faz parte da vida. Saber levantar-se e voltar a lutar à altura dos desafios que se impõe na jornada é para poucos. É para os Imortais. E nossa história já provou que somos. Vamos nos erguer!

Avalanche Tricolor: na Libertadores é preciso até saber perder

Independiente del Vale 2×1 Grêmio

Libertadores –  Assunção, Paraguai

Diego Souza comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Libertadores tem de saber jogar. É uma competição com características próprias. Aguerrida por natureza. Com sabor de rivalidade que extrapola o campo do jogo. Que contrapõe raízes, culturas e valores. Disputada nos bastidores, nos vestiários, nas arquibancadas (quando essas eram ocupadas por torcedores) e em cada centímetro do gramado, mesmo antes de a bola rolar —- lembre-se, já jogamos partida em que jogador foi expulso antes do apito inicial. 

O Grêmio sabe que essa é um Copa diferente —- não por acaso somos tri-respeitados por nossos adversários (desculpe-me pelo trocadilho). Que se ganha na bola, no toque e no talento, como fizemos em 2017. Que também se alcança sem tirar o pé da dividida, dando bico para fora do estádio e na catimba malemolente, que impede a dinâmica do jogo. É do jogo. 

Em 1983, quando forjamos nossa fama sulamericana, para sobreviver em campo. no sentido literal da expressão, tivemos de ceder um empate impossível de ser alcançado em situação normal —- e aqui, claro, me refiro a Batalha de La Plata na qual empatamos com o Estudiantes, da Argentina, por 3 a 3.

Em 1995, chegamos ao título mais uma vez com um empate fora de casa, após uma vitória retumbante no saudoso Olímpico Monumental. Antes disso, já havíamos provado nossa capacidade de sofrer, resistir e sobreviver, quando soubemos impedir que uma goleada nos tirasse das semifinais da competição.

Hoje à noite, no Paraguai, lamento informar aos torcedores equatorianos e secadores: não souberam nos derrotar. Saímos de campo vivos para a decisão que nos levará à fase de grupos da Libertadores.

E o fizemos a despeito de erro grotesco de arbitragem que anulou aquele que seria nosso segundo gol, ainda no primeiro tempo. Um lance de Alisson, Diego Souza e Ferreira, que vai entrar na lista dos mais belos gols anulados do futebol sulamericano. 

Não bastassem todas as dificuldades de enfrentar um time bem montado e de futebol qualificado além do gol erroneamente anulado, antes mesmo de a bola rolar, fomos vitimados pela Covid-19 que tirou quatro jogadores do elenco e deixou longe da casamata o técnico Renato. Fomos impedidos de treinar no meio da semana. Tivemos deslocamento extra com a transferência do jogo de Quito, no Equador, para Assunção, no Paraguai. E mais uma série de jogadores afastados por lesões — sequelas da temporada passada que se encerrou somente neste ano.

Em campo, via-se claramente um time sofrido pelas ocorrências e disposto a resistir. E o fez muito bem até o fim do primeiro tempo quando, como disse, deveria ter saído para o vestiários com 2 a 0 no placar. Enquanto lá na frente Diego Souza foi preciso na finalização para marcar o primeiro gol de cabeça, em raro lance de ataque; Brenno se expressou com segurança lá atrás nas várias bolas disparadas contra o nosso gol.

Foi no segundo tempo que o revés se construiu. Faltaram pernas e posicionamento para segurar a velocidade e toque de bola do adversário que virou o placar — mas não o suficiente para nos tirar da disputa. Resistimos às nossas limitações, aos problemas físicos, a expulsão de um dos nossos zagueiros e a superioridade do time equatoriano. Além de ter um a menos em campo, terminamos a partida sem o principal atacante, com um zagueiro improvisado na lateral direita e um lateral esquerdo improvisado na zaga. Tínhamos ainda um goleiro e um homem de frente com problemas físicos.

Sobrevivemos. E quem conhece a relação do Grêmio com a Libertadores sabe que isso costuma ser fatal para o adversário. Quarta-feira que vem voltaremos à Arena para confirmar nossa presença na Libertadores.

Avalanche Tricolor: que a alegria dessa gurizada seja eterna enquanto dure

Grêmio 1×0 Inter

Gaúcho – Porto Alegre, Arena Grêmio

Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho  e Léo Pereira  no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.

Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado. 

Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.

Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.

No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.

Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.

Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.