Avalanche Tricolor: ‘obrigado, obrigado’ !

Vitória 0x3 Grêmio

Copa do Brasil – Barradão, Salvador/BA

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Era o ano de 1986, o Grêmio com um timaço em campo; e eu um neófito repórter de campo. Naquele tempo, repórter de rádio tinha o direito de ficar ao lado do gramado. E a Guaíba de Porto Alegre, não poupava equipe. Éramos quatro ou cinco para auxiliar o narrador da partida. Conforme a jogada se desenrolava, éramos chamados para destacar aquilo que “só você viu”. Além da alegria de fazer parte daquele elenco de jornalistas esportivo —- e estar assistindo ao meu Grêmio em posição privilegiada —-, ainda tive o prazer de participar da jornada que era comandada por meu pai, Milton Ferretti Jung.

O jogo também me proporcionou um causo para contar.O único gol da partida foi aos oito minutos do segundo tempo, marcado por Osvaldo, um meio de campo com corpo atarracado, boa habilidade nos pés e inteligente ao seu posicionar, que havia feito sucesso na Ponte Preta de São Paulo, e acabou sendo campeão do Mundo pelo Grêmio, em 1983. Assim que ele completou a jogada nas redes coloradas, correu para comemorar em direção às sociais do estádio Olímpico. Agradeceu aos céus e foi acompanhado pelos demais colegas de time. No meio do caminho, estavam eu e meu microfone aberto que captou os gritos pela graça alcançada. 

Coube a mim, descrever o gol e tomei a palavra de Osvaldo para celebrar o momento. Foi então que se criou o folclore de que o “obrigado” que se ouviu na transmissão jamais foi dito por Osvaldo, mas por mim, que, supostamente, comemorava com o time o gol que daria o bicampeonato estadual. Não foi verdade, como você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, pode conferir no vídeo que me foi enviado pelo Ricardo Wortman e está publicado no canal do Edu Cesar, no Youtube. Não que não estivesse comemorando. Estava. Apenas não fui eu quem agradeci a Deus, mesmo que tivesse vontade.

Esta história completou, agora, no dia 20 de julho, 35 anos, e faço este registro porque, na noite de terça-feira, ao assistir ao Grêmio nas oitavas de final da Copa do Brasil, confesso, tive vontade de repetir o mesmo grito e agradecer pela vitoria conquistada. Um 3 a 0 tão raro nestes tempos bicudos do futebol gremista quanto os leitores desta Avalanche. De um time em reconstrução, que tenta encontrar o lugar certo para cada um dos seus jogadores, um posicionamento mais adaptado aos nossos limites e de um técnico sempre capaz de tirar 100% do potencial de cada um de seus comandados. Só assim, foi possível, assistir ao terceiro e definitivo gol que resultou de jogada armada e escalada por Scolari, com a presença de Pinares, Luis Fernando e Diogo Barbosa, que completou para as redes de cabeça.

O resultado não nos dá nenhum título, como o da partida de 1986, mas, convenhamos, nos permite respirar um pouco diante dos inúmeros tropeços que acumulamos nos últimos meses. Mesmo assim, preferi guardar o grito de “obrigado” para outros momentos, até porque Deus tem coisa muito mais importante para fazer agora.

Avalanche Tricolor: evoluindo e sem sarcasmo

Grêmio 1×1 América MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Guilherme Guedes comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio está evoluindo. 

Foi o que ouvi do comentarista Lédio Carmona, do canal SporTV, lá pelos idos do segundo tempo da partida. A despeito de sua análise ser sempre cuidadosa e equilibrada, não me contive. Pensei cá com os meus gatos: até os doentes quando morrem, evoluem. A óbito. Meu sarcasmo talvez não seja justo, especialmente com o jornalista de qualidade incontestável como o Lédio. Mas o é com o momento que estamos assistindo, na Arena.

Mesmo que o time tenha demonstrado um pouco mais de organização desde que Scolari assumiu o comando técnico e tenhamos alcançado uma consistência maior na defesa, é evidente que estamos com problemas difíceis de serem superados, neste momento. Há uma fragilidade física, há erros de fundamentos e, principalmente, há um desequilíbrio emocional que torna todas as manobras táticas mais complexas.

Na partida desse sábado à tarde, o primeiro gol teve a mão do técnico e de uma juventude que pede passagem na equipe.

A escapada de Ruan pelo meio, a velocidade e condução da bola de Vanderson, no lado direito, e a conclusão nas redes de Guilherme Guedes, chegando na esquerda, mostrou o protagonismo destes guris de talento — que temo seja desperdiçado pelo mau momento da equipe. Sem esquecer de Fernando Henrique: nosso volante faz parte dessa turma de jovens que entende do riscado, marca forte, desarma bem e distribui o jogo.

Scolari, assim que chegou, mudou a maneira do Grêmio jogar. Fechou a casinha, como costumam dizer por aí. Chegamos a formar uma linha de seis marcadores na defesa, com a fixação dos alas mais próximos da área e o recuo dos ponteiros. Hoje, sem Geromel nem Kannemann —- que falta nos faz essa dupla —-, entrou com três zagueiros e postou seus dois volantes na entrada da área. Apostou na velocidade dos atacantes e no oportunismo de Diego Souza que sucumbiu na primeira escapada. 

Douglas Costa —- e vou me apoderar da opinião do Lédio Carmona mais um vez —- fez sua melhor partida pelo Grêmio. Puxou o ataque, virou o jogo, deixou os colegas bem posicionados e tentou, sem sucesso, chutar a gol. Em uma dessas tentativas, sua vulnerabilidade física se expressou.

O resultado contra outro time que busca fugir do rebaixamento não nos ajudou em nada. Apenas estancou aquela sangria desatada da péssima arrancada no Brasileiro, no qual somamos seis derrotas, em onze jogos disputados. Empatamos hoje, depois de sair à frente. Desperdiçamos mais dois pontos na tabela. Mas ao menos não perdemos. Desde que Scolari chegou, estamos invictos no Brasileiro: uma vitória e um empate. Não é nada, não é nada, são 71% dos pontos que o Grêmio conquistou até aqui na competição. 

Pensando bem — e sem o sarcasmo destilado enquanto a bola rolava —, o Lédio tem razão: o Grêmio está evoluindo.

Avalanche Tricolor: na convalescência, tempo e paciência são nossos únicos companheiros

Grêmio 1×2 LDU (EQ)

Sul-Americana — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Às vezes se tem sintomas, e nada aparece. Outras, os sintomas sequer são percebidos, mas o resultado é cabal. A impressão é que não existe uma padrão pois depende de como cada um vai reagir diante do risco, da maneira como está protegido ou do momento em que o inimigo se apossou de você. Em um ecossistema frágil, a possibilidade de contaminação é maior. Os processos naturais não se realizam, as articulações apresentam problemas e o perigo aumenta. Falo de uma doença que foi se instalando aos poucos. Se espalhou pelo corpo. E agora, o tempo e a paciência são nossos únicos companheiros, enquanto a cura não se realiza.

No caso do mau futebol —- que é o mal que nos atinge lá pelos lados de Humaitá —- seria ilusão imaginar que um remédio aplicado em dose única eliminaria a patologia sentida desde boa parte do ano passado. Verdade que o empate no clássico, a vitória na primeira partida da Sul-Americana e os três pontos no fim de semana chegaram a nos entusiasmar. Tanto quanto sabíamos que a convalescência se deva muito mais pela mística de quem aplicava a dose do que pela performance do paciente. Scolari salva, mas não faz milagre. Faz o que pode. 

Diante da nossa debilidade, se pensarmos bem, talvez o melhor seja concentrar as forças no que é possível, por mais medíocre que o possível possa ser. Em um corpo fragilizado qualquer esforço extra se torna excessivo e pode levar a inanição quando mais se precisar de energia. Manter-se vivo na Série A e avançar o quanto der na Copa do Brasil são os objetivos a partir de agora. De preferência, eliminando do corpo as toxinas e vírus que nos consomem e renovando o organismo que nos move.

Se sairmos desta jornada de percalços mais limpos, leves e com capacidade de retomar o caminho dos títulos,  temos de erguer as mãos ao céu e agradecer aos que, pacientemente, acreditaram na nossa recuperação. Eu acredito. Porque a crença ainda é o que me faz acordar amanhã cedo e começar mais uma caminhada.

Avalanche Tricolor: sintomas positivos, nesta manhã de domingo

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O domingo começa com um sabor diferente e melhor, a despeito de estar a espera do resultado de um exame PCR que, imagino, confirmará, que narinas fechadas, tosse seca, dor de cabeça e alguma vertigem podem ser apenas sinais de mais um resfriado, comum nesta época do ano. Começa diferente porque entre todos os sintomas, não tenho na garganta aquele gosto amargo de quem dorme e acorda, rodada após rodada, na lanterna do Campeonato Brasileiro. 

Em tom de alívio, Scolari, ao fim da partida de ontem, decretou ainda na beira do gramado do Maracanã: não somos mais o último colocado.

Pode ser muito pouco para quem entrou na competição falando na busca do título, mas era tudo que queríamos — e podíamos — ouvir de melhor ao fim da décima-segunda rodada. Especialmente porque a vitória veio quando não ser derrotado já nos parecia suficiente, diante do que tem sido o desastre deste início de campanha no Brasileiro. 

Sob o comando de Scolari, não perdemos. Empatamos o Gre-Nal, mantendo a escrita; saímos em vantagem na disputa da vaga à próxima fase da Sul-Americana; e, agora, ganhamos pela primeira vez no campeonato nacional em partida também fora de casa. Três pontos que vieram no último minuto regulamentar de uma rara bola lançada na área que encontrou um jogador do Grêmio à disposição para recebê-la, Alisson, o que acabou culminando em um pênalti requerido pelo VAR. E muito bem cobrado por Pinares, que acabara de entrar em campo e iniciado a jogada que resultou na nossa vitória.

Nada pode ser mais importante do que os três pontos, mas a demonstração de que nosso sistema defensivo ficou mais consistente e chegou à terceira partida sem ser vazado também é motivo de satisfação, nesta manhã de domingo. Assim como ter visto a comemoração de um grupo que transmitia mensagens contraditórias e de aparente e perigosa cisão.  A festa do gol, com intensa participação de jogadores que haviam recém deixado o campo e a vibração de alguns atletas que perderam a posição com a chegada do técnico, demonstram que o Grêmio está unido e começa a retomar seu velho espírito guerreiro. A persistirem os sintomas, em breve, Scolari terá razões bem mais dignificantes para exaltar ao fim da partida.

Avalanche Tricolor: saudade de você!

LDU 0x1 Grêmio

Sul-Americana — Quito, Equador

Léo Pereira em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Vitória!

Que saudade de você, minha querida! 

Há quanto tempo a gente não se encontrava por aqui. 

A última que lembro foi há mais de um mês.

Gol? Não comemorava há quase 20 dias.

Que seca!

Abstinência total.

 

Fomos buscá-la da maneira mais sofrida possível.

Lá na altitude. Nos 2.850 metros de Quito.

Com o jeito Scolari de ser.

Fechado em uma linha de seis jogadores próximos da área.

Com os pontas recuados. Os meias recolhidos. 

E os atacantes voltando na intermediária.

Com uma ou outra escapada ao ataque.

 

Abrimos mão do toque de bola preciso por uma marcação precisa na bola. Trocamos a aproximação pelo chutão. Ocupamos os espaços. Reduzimos riscos. Restringimos os perigos de gol. Contamos com Chapecó, um goleiro bem aventurado. Usamos de velocidade e apostamos no talento do passe de Jean Pyerre —- jogador que demonstrou um ânimo irreconhecível.

 

Consagramos Léo Pereira. O garoto de Bauru, que surgiu em Itu, ameaçou ser moleque de Itaquera e agora se transformou em mais um guri do Humaitá. Com apenas 21 anos e 1,72 de altura, correu, marcou e se meteu em meios aos grandalhões da zaga adversária para marcar de cabeça o único e definitivo gol da partida.

Uma vitória sofrida, sem dúvida.

Mas antes sofrer com apenas 23% de posse bola, na retranca e com uma vitória, do que inanição com a bola no pé. 

Tava com saudade de você.

 Vê se não me deixa, Vitória!

Avalanche Tricolor:  Scolari e Chapecó garantem invencibilidade gremista em Gre-Nais, na Arena

Grêmio 0X0 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Felipão voltou! Felipão voltou!

Ouviríamos este grito da torcida se torcida houvesse na Arena, nessa tarde de sábado. E a volta não era apenas física, era comportamental. O time cabisbaixo das últimas rodadas, não teve vergonha de dar bico para fora quando necessário nem de trocar o domínio da bola sem sentido por um chutão para o ataque, se preciso fosse. Perder divididas seria crime de lesa pátria, e cada um, ao seu jeito, assumiu esse compromisso do início ao fim da partida.

Scolari, como prefiro chamar nosso treinador, se fez notar na forma do Grêmio se comportar, mesmo que os analistas insistissem em dizer que com apenas um treino nada teria a fazer de diferente. Fez, sim. No vestiário. Na conversa. No incentivo. No sotaque marcado e no conhecimento de quem foi campeão do mundo.

Se é verdade o que diz o ditado que “o diabo está nos detalhes” foi neles que percebi Scolari atuar: nos palavrões repetidos à beira do gramado em toda bola de ataque desperdiçada; na conversa de pai para filho encerrada com um tapa de carinho na cabeça de Ferreirinha; e na ordem para que Geromel voltasse para a defesa a qualquer custo, quando nosso capitão se lançou ao ataque para receber o cruzamento de um falta a ser cobrada a dois minutos do fim da partida. 

Scolari não estava apenas no vestiário ou dando ordens ao lado do campo. Estava redivivo na postura de Kannemann que fez, sem dúvida, sua melhor partida de todos os últimos tempos.

A força mística de nosso técnico e a influência que ele, aos 72 anos, é capaz de impor a seus comandados foram fundamentais para que o Grêmio mantivesse a escrita de não perder um Gre-Nal há 17 partidas em sua casa — é a maior invencibilidade já escrita na história desse confronto que chegou ao número de 433. Pra que ninguém esqueça, também: nos últimos 15 clássicos perdemos apenas um e, se sua memória é boa, você deve lembrar como o VAR e o árbitro nos impuseram aquele único revés.

Em um jogo de pouco brilho e muito esforço, de lado a lado, Gabriel Chapecó merece também os méritos pela invencibilidade mantida. Foi dele os lances mais incríveis, no primeiro e segundo tempos do clássico. Com 21 anos e 1,92 de altura, Gabriel Hamester Grando foi gigante ao defender com os pés a primeira estocada perigosa do adversário. Já havia desviado para escanteio um chute que se encaminhava para o gol. Mais à frente, voltou a salvar nossa cidadela. Uma delas com a mão trocada em um chute forte e com endereço certo —- que considerou ser a mais bonita do jogo, em declaração marcada por um largo sorriso, ao fim da partida, enquanto segurava nas mãos o troféu de melhor jogador do clássico.

vamos para mais de sete anos sem derrota em clássico Gre-Nal na Arena. E a dupla Geromel e Kannemann jogando junta até hoje não sabe o que é perder para o arquirrival. 

Sei que nada disso elimina o sufoco de estarmos onde estamos no campeonato, mas nos dá a esperança de que o futebol aguerrido e a alma tricolor que forjou nossa história serão redescobertos com a volta de Luiz Felipe Scolari. 

Felipão voltou! Felipão voltou!

Avalanche Tricolor: a volta de Scolari e um Gre-Nal para retomar a história

Palmeiras 2×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo/SP

arte divulgação Grêmio FBPA

Gremista nenhum em sã consciência imaginaria algo diferente do que assistimos nesta noite, em São Paulo. Nem o alinhamento dos astros seria capaz de mudar nosso destino. Era um jogo para cumprir tabela. Uma partida de transição, de um time desnorteado e desalmado, à espera de alguém capaz de resgatar a alma perdida em algum lugar qualquer do vestiário. E de apontar o norte do caminho das vitórias.

Poucos viventes desta terra —- ao menos entre aqueles que estão ao nosso alcance —- seriam tão capazes quanto Luis Felipe Scolari de assumir esse compromisso. A despeito do tempo, do que é moderno, das estratégias revolucionárias ou da fala castelhana e estranha de técnicos que tem feito sucesso nestas bandas, Scolari é a solução possível, com habilidade para trazer para dentro do clube marcas que forjaram nossa história. Ele é parte desta história.

Por curiosidade: quando sentei para escrever esta Avalanche, estava meio sem rumo e sem palavras, talvez impactado pela falta de criatividade do time em campo. Fui, então, vasculhar o que já havia escrito de Scolari em passagens anteriores e deparei com a Avalanche publicada em julho de 2014, quando se iniciava mais um ciclo do técnico no clube de seu coração:

“Logo que soube do convite feito a Felipão lembrei-me de uma camisa antiga que tinha do Grêmio, surrada pelo tempo, com o tricolor desbotado pelas inúmeras vezes que passou na máquina de lavar. Salvei-a duas ou três vezes do saco de roupas velhas que seriam dispensadas pela minha mulher até que foi definitivamente levada embora por ladrões que entraram na minha casa. De todas as camisas, medalhas e outros quetais do Grêmio roubados, há dois anos, é dela que mais senti falta. Seu valor não estava na qualidade do tecido, no quanto estava preservada ou não, mas nas lembranças impregnadas em sua malha. Nos momentos de alegria e sofrimento que havíamos passado juntos. Felipão é um pouco aquele camisa, desgastado pela vida, marcado pelas críticas, com brilho precisando de um lustre, mas sempre capaz de reavivar nossa memória pelas graças alcançadas”

Menos de um ano depois, ele deixaria o clube, após uma campanha apenas razoável e um resultado marcante: a maior goleada (4×1) que o Grêmio já havia aplicado em um clássico Gre-nal, em campeonatos brasileiros. No texto de despedida, escrevi:

“Felipão não se irá jamais do Grêmio. Ele eternizou seu nome, deixou suas marcas e troféus. Será para sempre lembrado pela forma como forjou times vencedores, mesmo quando os títulos não foram conquistados. Transformou elencos muitas vezes mal-falados pela crítica em grupos de batalhadores, talentosos e vitoriosos jogadores. Ajudou a construir o mito da imortalidade’

Como imaginei na época. Não era um adeus, era apenas um até logo. Por coincidência, Scolari volta ao Grêmio às vésperas de outro clássico, com quase nenhum tempo para ajustar as peças, mas, como sempre, com o desejo de devolver ao time o prazer da vitória.

Avalanche Tricolor: que melhor sorte nos seja reservada nesta segunda-feira

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Domingo começou cedo, como cedo começam todos os meus dias. Ainda bem. Assim pude estender os momentos de calmaria dominical, com o céu ainda clareando, o frio rachando e os passarinhos se esbaldando nas frutas e árvores que restam aqui na minha rua. Gosto de ficar sentado na porta de casa, apenas observando o amanhecer. Não chega a ser a cadeira na calçada, como nos bairros de origem italiana aqui em São Paulo, mas é suficientemente agradável para o ritmo de vida que imprimimos ao vivermos na capital.

O sábado havia sido dedicado a uma série sul-coreana que fala do respeito aos mortos (Move to Heaven), tema que nos torna mais reflexivos, especialmente diante de tantos conhecidos que nos deixaram nesse último ano. Reservei, então, o domingo para o esporte na televisão —- já que sair de casa não me motiva diante de tudo que estamos vivendo. E fiquei atento a dois jogos em especial.

O primeiro, o do basquete masculino do Brasil, que disputava a última chance de se classificar para os Jogos Olímpicos. Os caros e raros leitores deste blog já devem ter lido por aqui do meu passado no esporte —- até porque só eu mesmo falo dele: por 13 anos vesti a camisa do Grêmio, anos de muita luta e suor, e pouca inspiração. Apesar de convocado duas vezes para seleções gaúchas, confesso, sem titubear, era um jogador mediano (medíocre — palavra que deixo de lado, apesar de ser sinônimo, porque carrega fardo muito pesado em seu sentido). Jogador mediano e torcedor pé frio, como percebi neste domingo.

Depois de uma sequência de jogos bem jogados no pré-Olímpico disputado na Croácia, quando venceu na fase preliminar inclusive o time da casa, com placares elásticos e revelando uma superioridade surpreendente, a seleção brasileira perdeu para a Alemanha e desperdiçou sua última chance de chegar a Tóquio. Ouvi Hortênsia comentar que é comum que em meio a tantos jogos de qualidade se tenha uma apresentação ruim e ela torcia para que esta não fosse no jogo final Foi! E enquanto os comentaristas buscavam uma explicação, além do sobrenatural, saí da frente da televisão convicto de que o azarão sou eu que não havia assistido a nenhum dos jogos anteriores do Brasil.

À noite, no segundo compromisso esportivo, a sensação era outra. Nem a camisa tricolor que o filho mais velho estende na cadeira ao nosso lado nem as duas meias que calcei seriam suficientes para mudar a sorte gremista em partida que fechou a rodada do Campeonato Brasileiro. O time entrou derrotado com a forma como a crise atual foi gerenciada pela diretoria do Grêmio —- talvez desacostumada nos últimos anos em ter de administrar tamanhas dificuldades técnicas, táticas e emocionais. Jogadas marcadas pela falta de confiança se repetiram durante toda a partida, com bolas mal chutadas, passes sem destino e marcação distante. Antes de a inanição do futebol tricolor me absorver, pensei no que havia dito Hortênsia e cheguei a acreditar na lógica invertida: depois de tantos jogos ruins ao menos uma partida boa haveria de ocorrer e poderia ser essa. Não foi!

Que melhor sorte nos seja reservada, nesta segunda-feira, quando será escolhido o substituto de Tiago Nunes.

Avalanche Tricolor: no Brasileiro e com a cara do Brasil

Juventude 2×0 Grêmio

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Domingo passado fiquei distante desta Avalanche — fato raro desde que iniciei a coluna, em 2008 (se não me falha a memória). A morte de um amigo querido, nosso Artur Xexéo, me afastou das coisas do futebol. E apesar de ter assistido ao empate gremista, não tinha ânimo para escrever uma linha sequer sobre qualquer assunto que fosse. Diante da vida ou da perda dela, tudo se torna muito pequeno e sem importância.

Que a dor  pela ausência do amigo não me deixaria tão cedo, não tinha dúvida. Mas imaginava que, ao menos no futebol, ao retomar esta Avalanche, nesta quarta-feira, as coisas estariam mais bem organizadas no nosso time, nisso que estão chamando, lá em Humaitá, de fase de transição —- só esqueceram de me explicar para onde estamos transitando?

Ledo engano. 

Pela sexta vez no campeonato, vimos um futebol muito aquém do esperado. Parecíamos um amontoado de gente que se reúne horas antes de a bola começar a rolar, decide quem jogará em cada posição e, no apito do árbitro, faz o sinal da cruz a espera de que a ajuda divina transcenda o espaço e nos traga a graça de uma vitória.

Chego a me surpreender com a paciência de comentaristas da televisão que seguem crendo em mudanças, tentam enxergar melhorias mesmo diante da performance obscura do time e relevam as substituições aleatórias feitas ao longo do jogo. 

Por mais que o tempo de trabalho seja curto, que a Covid-19 nos tenha pegado de jeito e que mudanças eram necessárias —- quem ainda tem paciência de me ler nesta Avalanche sabe que eu sempre entendi que não eram, precisávamos apenas de ajustes e reforços —-, não é possível considerar normal, em qualquer que sejam as circunstâncias, um início de competição como este. 

Está tudo está fora do lugar. Arrisco-me a dizer que o Grêmio, hoje, é uma metáfora do Brasil. 

Avalanche Tricolor: vai passar!

Grêmio 2×2 Santos

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O gol de calcanhar há 50 anos, já contei.

O título que narrei há 20 anos, contei também.

Quem sabe o dia que assisti a Pelé jogar? 

Não, já falei.

Deixe-me pensar mais um pouquinho … 

Já sei, aquele jogo que chorei pela derrota acachapante.

Melhor não falar em derrota, né! 

É, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, está difícil de encontrar boas histórias para contar em lugar de me despedaçar em lamentos pelos maus resultados no Campeonato Brasileiro —- não que tenha sido um  jogo mal jogado, especialmente diante das últimas fracas apresentações, mas, novamente, fomos incapazes de vencer uma partida.

O ponto ganho foi ponto amargo. Só o ‘conquistamos’ porque perdemos os outros dois que a vitória nos oferecia, mas que entregamos em duas oportunidades — uma em uma bola mal dividida no meio de campo e outra em uma bola em que sequer tentou-se dividir. Resultado que nos mantém mais uma rodada naquela-posição-que-você-sabe-qual-é (melhor não citar aqui para não dar mais azar).

Um amigo de redação para me consolar, logo cedo, comentou: calma, Milton, é só o começo do campeonato. É exatamente isso que me preocupa. Ainda temos todo um Brasileiro pela frente.

Mais amargo do que isso só acordar de madrugada para trabalhar e descobrir que a máquina de café estava quebrada. Mas esta é outra história e hoje não estou com disposição de contar histórias nesta Avalanche. 

Vai passar!