50 Debates para o Brasil: especialistas discutem como regular a IA sem frear a inovação

A inteligência artificial já influencia decisões em saúde, educação, finanças, segurança e comunicação, e o debate sobre quais regras devem guiar seu desenvolvimento e uso é inevitável. Por isso levamos o tema para a série “50 Debates para o Brasil” que apresentamos no Jornal da CBN. 

Patrícia Peck, CEO e Fundadora do Peck Advogados, Presidente do Instituto Peck de Cidadania Digital e Membro Titular do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), e Ronaldo Lemos, fundador e Cientista-Chefe do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) discutiram, no programa, se o país deve adotar uma regulação mais preventiva ou focar em um ambiente favorável à inovação.

Patrícia Peck defendeu que a inteligência artificial precisa seguir normas capazes de reduzir riscos sem impedir o avanço tecnológico. Ela alertou que a tecnologia geralmente evolui antes da legislação, mas a velocidade das transformações exige mecanismos que protejam os cidadãos. A especialista afirmou que garantir a transparência da relação entre pessoas e sistemas automatizados é um grande desafio.

“Uma IA bem treinada pode apoiar os seres humanos, mas uma IA mal treinada é pior do que uma criança mal educada”, disse Peck Para ela, o problema não é apenas a tecnologia, mas também a qualidade dos dados e as regras que governam a forma como a IA funciona.

A advogada também argumentou que a legislação brasileira deve deixar claro que os sistemas de inteligência artificial precisam cumprir as leis em vigor ao operar no país ou afetar cidadãos brasileiros. Para ela, não basta inventar novas tecnologias nacionais; é necessário que as ferramentas atualmente em uso respeitem os princípios legais e éticos existentes.

Outro ponto levantado por Patrícia Peck foi que o nível de risco deve ser determinado de acordo com a aplicação. Uma inteligência artificial usada em serviços médicos, jurídicos ou públicos, por exemplo, exigiria padrões de controle diferentes daqueles usados em aplicações de menor impacto.

Ronaldo Lemos focou seus argumentos em outro aspecto do debate: a capacidade do Brasil de desenvolver suas próprias tecnologias. O maior risco, disse ele, era a dependência de sistemas desenvolvidos em outros países e sujeitos a interesses econômicos e geopolíticos externos.

“Meu maior medo com a inteligência artificial é que o Brasil se torne dependente de inteligência artificial externa.”, comentou. Para Ronaldo, a legislação precisa ir além da supervisão e criar condições para fortalecer a produção nacional de inteligência artificial, infraestrutura tecnológica e desenvolvimento profissional.

Lemos também observou o impacto da IA no mercado de trabalho. Como ele explicou, as empresas já estão começando a substituir funções de nível inicial por sistemas de automação, portanto, políticas públicas como qualificação da força de trabalho e adaptação dos profissionais ao mundo em mudança serão necessárias.

Apesar das diferenças de foco, Patrícia Peck e Ronaldo Lemos convergiram em alguns pontos. Ambos defenderam o investimento no desenvolvimento tecnológico no Brasil e reconheceram que a inteligência artificial já está produzindo impacto suficiente no contexto da regulação.

Outra questão também foi discutida na última parte da conversa: eleições. Patrícia Peck alertou que as plataformas de IA precisam ser treinadas para respeitar as normas eleitorais brasileiras. Ronaldo Lemos reiterou isso com um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) dizendo que alguns sistemas ainda recomendam candidatos aos usuários, o que é contra as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O debate mostrou que a discussão sobre inteligência artificial não é apenas sobre regulação de um lado ou inovação do outro. A questão principal é encontrar mecanismos que minimizem riscos, protejam direitos e fortaleçam a capacidade tecnológica do Brasil.

“50 Debates para o Brasil”, realizado pela CBN, é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas serão transmitidas de segunda a sexta-feira, logo após as 8h30 no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: Daniele Kleiner, da Alandar, alerta que ignorar a regulação da tecnologia pode comprometer os negócios

Daniele Kleiner, sócia-fundadora da Alandar

Daniele Kleiner em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves/CBN

“Hoje eu vejo como primordial que as empresas entendam que a regulação, por exemplo, de inteligência artificial, que é algo que impacta todos os setores, não é algo de um setor específico, ela não é mais um problema só do jurídico.”

A inteligência artificial, a proteção de dados e as novas regras para o ambiente digital passaram a influenciar diretamente o desenvolvimento de produtos, a estratégia de negócios e a competitividade das empresas. Diante desse cenário, acompanhar a evolução da regulação deixou de ser uma tarefa restrita ao departamento jurídico e passou a envolver executivos, engenheiros, profissionais de produto e comunicação. O tema foi discutido em entrevista de Daniele Kleiner, sócia-fundadora da Alandar, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo Daniele Kleiner, a regulação da tecnologia vive uma nova etapa. Depois de um período marcado por princípios gerais, as normas passaram a estabelecer exigências concretas que afetam a rotina das organizações.

“Dependendo da regulação, isso vai requerer adaptação do próprio produto e da forma como você vai oferecer esse produto, comunicar esse produto para os consumidores finais.”

Ela explica que o desafio das empresas vai além de compreender a legislação, é preciso traduzir suas exigências para quem desenvolve as soluções tecnológicas. Por isso, defende um trabalho integrado entre advogados, engenheiros e equipes de produto para evitar que novas regras se tornem obstáculos ao negócio.

Regulação exige atuação preventiva

Na avaliação da especialista, um dos principais erros das empresas é tratar o tema apenas como uma questão de conformidade legal, deixando de lado o planejamento preventivo.

“Eu acho que é importante acompanhar de perto essas mudanças e ter um time que tenha uma intersecção maior (…), porque ao ficar isolado no jurídico, a gente só vai conseguir fazer o compliance. A gente não vai conseguir fazer o preventivo.”

Ela afirma que esse acompanhamento permite incorporar requisitos regulatórios ainda na fase de desenvolvimento dos produtos, reduzindo riscos de sanções, adaptações futuras ou até da retirada de soluções do mercado.

Ao conversar com executivos, Daniele identifica uma dificuldade recorrente.

“No nível de CEO, o que eu mais percebo é que eles não acompanham a regulação.”

Como exemplo, Daniele citou o caso da empresa Tools for Humanity, que desenvolveu uma tecnologia para diferenciar seres humanos de inteligências artificiais por meio da leitura da íris. Segundo ela, o funcionamento do produto foi mal compreendido e a percepção de que a empresa coletaria e comercializaria dados biométricos acabou ganhando espaço no debate público, embora esse não fosse o propósito da tecnologia.

A repercussão levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a restringir parte da operação da empresa no Brasil.

Para Daniele, o episódio demonstra que explicar corretamente o funcionamento e o valor social de um produto é tão importante quanto desenvolvê-lo. “A gente precisa explicar o produto”, afirmou. “Se a gente não souber explicar com clareza o valor social que esse produto cria para o Brasil, a gente corre o risco de acabar com uma regulação que vai prejudicar o negócio.”

Inteligência artificial amplia oportunidades e desafios

Daniele destaca que a inteligência artificial representa uma transformação comparável ao surgimento da eletricidade, por seu potencial de alterar diversos setores da economia. Ela lembra que os desafios envolvem mercado de trabalho, direitos autorais, soberania tecnológica, infraestrutura digital e formação de profissionais.

Ao mesmo tempo, vê espaço para o Brasil ampliar sua presença no desenvolvimento dessa tecnologia.

“Nós temos um mercado extremamente rico de empresas que estão criando IA e exportando IA.”

Ela cita como exemplo o crescimento das startups brasileiras que utilizam a API da OpenAI e empresas nacionais que já exportam soluções baseadas em inteligência artificial para outros países.

Comunicação também protege os negócios

Outro ponto abordado na conversa foi a relação entre comunicação, reputação e regulação.

Daniele afirma que empresas inovadoras precisam explicar com clareza seus produtos para consumidores, imprensa e órgãos reguladores. A falta dessa comunicação pode gerar interpretações equivocadas capazes de afetar diretamente o negócio.

Ela lembra casos em que tecnologias foram mal compreendidas pela opinião pública, provocando forte pressão regulatória.

“A comunicação é essencial. Na proteção do próprio negócio, na verdade.”

Para ela, preparar executivos para explicar produtos, antecipar dúvidas e dialogar com a sociedade faz parte da estratégia empresarial.

Críticas fazem parte do processo

Ao comentar sua experiência em empresas globais de tecnologia, Daniele defende uma postura preventiva na gestão da reputação.

“O que eu mais aprendi é que quanto mais você trabalha preventivamente para criar um colchão reputacional, melhor.”

Ela também considera que críticas não devem ser encaradas como ameaça.

“Eu falo para encarar as críticas ao seu produto com muita naturalidade, porque afinal de contas, isso é uma forma de diálogo também.”

Segundo a especialista, compreender essas manifestações e responder de forma transparente fortalece a relação entre empresas, consumidores e reguladores.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

50 debates para o Brasil: a exploração de Terras Raras requer um equilíbrio entre desenvolvimento, soberania e proteção ambiental

As reservas de terras raras do Brasil colocam o país em um ponto estratégico: transformar esses minerais em um vetor de desenvolvimento ou limitar-se a exportar matérias-primas. Este foi o tema dos 50 Debates para o Brasil, apresentado na série do Jornal da CBN que reuniu Luiz Ugeda, doutor em Geografia e Direito, e Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-preisdente do Ibama, para explorar os desafios da utilização desses recursos.

Terras raras são uma classe de minerais usados em carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, tecnologias de defesa e outros produtos de alto valor agregado. O Brasil possui grandes reservas, mas a exploração desses recursos envolve questões econômicas, ambientais, legais e geopolíticas.

Luiz Ugeda defendeu o envolvimento de capital internacional, argumentando que o país já possui instrumentos legais para lidar com esse tipo de investimento. Ele disse que o problema é a origem do capital e não o capital em si, mas as regras estão mudando para uma atividade com seu próprio caráter e conjunto de características. “O que importa é que o subsolo pertence à União. Isso está na nossa Constituição, e o Brasil não quer abrir mão disso”, afirmou. Ugeda acredita que o país precisa melhorar seu modelo de concessão, para estabelecer regras aplicáveis às preocupações ambientais, territoriais e tecnológicas do século XXI.

Suely Araújo argumentou que a entrada de investidores estrangeiros pode contribuir para o desenvolvimento do setor, se o processo for conduzido de acordo com leis transparentes e no interesse do país. O capital internacional pode entrar, mas deve ser regulado, disse. Ela pediu controle sobre os investimentos, evitando influência externa e o desenvolvimento de uma cadeia produtiva que agregue valor aos minerais extraídos no Brasil.

Os debatedores concordaram que a regulamentação precisa considerar muito mais do que aspectos econômicos. O licenciamento ambiental, a participação de comunidades afetadas, a distribuição de royalties e o monitoramento das atividades são essenciais para qualquer modelo de exploração.

Luiz Ugeda, ao discutir a regulamentação, disse que o Brasil já tem experiência na supervisão de grandes empreendimentos e a questão é o conhecimento sobre terras raras. Para ele, será necessária a integração de agências ambientais e de mineração, a expansão do conhecimento sobre o subsolo brasileiro e uma política pública que possa transformar a exploração mineral em desenvolvimento regional.

Suely Araújo se mostrou desanimada com as recentes mudanças na legislação ambiental. O relaxamento dos procedimentos de licenciamento pode prejudicar ecossistemas e comunidades locais, disse ela. “O que pega é como operar tudo isso e como garantir também que os recursos advindos dessa exploração sejam destinados da forma mais justa possível”.

O debate mostrou que a questão crucial, além da escolha entre capital nacional ou internacional, é como estabelecer regras que possam combinar segurança jurídica com preservação ambiental, respeito às populações impactadas e uso econômico de um recurso considerado estratégico para o futuro da indústria.

O fato é que a riqueza mineral por si só não garante desenvolvimento. Os benefícios para o país dependerão da qualidade da regulamentação, da capacidade de supervisão e de como transformar esses recursos em oportunidades para a sociedade.

50 Debates para o Brasil é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas também são transmitidas diariamente de segunda a sexta-feira às 8h30, no Jornal da CBN.

A IA pode substituir o psicoterapeuta?


Por Beatriz Breves

óculos, celular no app do chatgpt, inteligência artificial
Foto de Matheus Bertelli on Pexels.com

A pergunta parece simples, mas toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo. À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, cresce também a impressão de que ela poderia substituir atividades que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.

A IA já consegue identificar padrões de linguagem, reconhecer emoções expressas no discurso, formular hipóteses interpretativas e até conduzir diálogos que, muitas vezes, parecem acolhedores e reflexivos. Está disponível a qualquer hora, responde sem julgamento aparente, possui acesso instantâneo a uma quantidade imensa de informações e não sofre os limites do cansaço ou da distração.

Diante disso, a pergunta que surge naturalmente é: seria possível substituir o psicoterapeuta por uma inteligência artificial?

A resposta exige compreender que a psicoterapia não se reduz a conselhos, interpretações ou à organização racional dos pensamentos. Ela é, antes de tudo, uma experiência de encontro. Um espaço relacional no qual uma pessoa pode entrar em contato consigo mesma por meio da presença de outra pessoa.

O que a IA já é capaz de fazer

Cabe aqui uma observação. A qualidade de um processo terapêutico não depende apenas da abordagem utilizada, mas também da formação, da experiência e da capacidade de escuta de quem o conduz. Existem profissionais altamente qualificados e pessoas que, após formações muito breves, oferecem atendimento clínico sem a preparação necessária para lidar com a complexidade do sofrimento humano.

Nesses casos, é possível que uma inteligência artificial, alimentada por um amplo conjunto de conhecimentos psicológicos e disponível continuamente, ofereça reflexões mais consistentes do que aquelas produzidas por profissionais insuficientemente preparados. Isso, porém, não diminui a importância da psicoterapia. Ao contrário, evidencia o quanto a formação, a supervisão clínica, a experiência pessoal de análise e o treinamento contínuo são fundamentais para o exercício responsável da profissão.

Digo isso porque a mudança terapêutica não ocorre apenas porque alguém recebe informações sobre seus problemas. Ela acontece porque determinados aspectos da experiência humana só se tornam acessíveis dentro de uma relação. É no encontro com o outro que percebemos padrões que, sozinhos, não enxergamos, reconhecemos sentimentos que evitávamos sentir e construímos novas formas de compreender nossa própria história.

O psicoterapeuta escuta não apenas o que é dito, mas também aquilo que se manifesta nas pausas, nas repetições, nas contradições, nos silêncios e nos afetos. Muitas vezes, a transformação não resulta de uma fala brilhante, mas da experiência de ser acolhido, compreendido e reconhecido por outro ser humano.

De fato, na psicoterapia, o próprio psicoterapeuta torna-se um instrumento de compreensão do outro, pois, na relação terapêutica, tudo aquilo que sente pode constituir um dado importante para compreender a comunicação que está sendo estabelecida. Daí a necessidade de anos de estudo, supervisão, psicoterapia e treinamento.

Às vezes, uma narrativa aparentemente tranquila desperta tristeza; outras vezes, um relato de sofrimento provoca estranhamento ou até uma sensação inesperada de leveza. Há momentos em que o paciente sorri enquanto comunica algo doloroso ou chora ao falar de algo que parece não lhe causar sofrimento. Tudo isso comunica.

Os afetos que emergem no terapeuta não são, necessariamente, respostas pessoais; muitas vezes, fazem parte da própria dinâmica relacional que se estabelece no encontro terapêutico. Por isso, a formação e a experiência pessoal de psicoterapia são fundamentais. Ao conhecer melhor seus próprios conflitos, limites e sensibilidades, o terapeuta torna-se mais capaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que emerge da relação com o paciente. Assim, pode envolver-se profundamente com o sofrimento do outro sem confundir-se com ele, transformando sua própria experiência emocional em um instrumento a serviço da compreensão e do cuidado.

O que acontece em uma relação terapêutica

A relação terapêutica é construída ao longo do tempo. Ela envolve confiança, vínculo, frustrações, descobertas, resistências e transformações. Não se trata apenas de um processo cognitivo, mas de uma experiência humana compartilhada. Em muitos casos, é justamente essa experiência relacional que promove mudanças profundas.

Isso não significa que a inteligência artificial não tenha valor. Ao contrário. Ela pode oferecer informações, auxiliar na organização de pensamentos, estimular reflexões, sugerir perspectivas diferentes e funcionar como um recurso acessível para quem busca compreender melhor a si mesmo. Em muitos contextos, pode representar um importante instrumento de apoio emocional e de ampliação do acesso ao conhecimento psicológico.

Entretanto, existe uma diferença fundamental. A inteligência artificial pode processar informações sobre a experiência humana, mas não possui experiência humana. Não sente medo, amor, perda, esperança ou sofrimento. Não atravessa conflitos existenciais. Não se transforma a partir do encontro com o outro.

É justamente nessa dimensão que a psicoterapia encontra uma de suas bases mais importantes. O psicoterapeuta não é apenas alguém que compreende teoricamente o sofrimento. É alguém que também participa da condição humana. Sua escuta é atravessada pela própria experiência de viver, sofrer, desejar, perder e transformar-se.

Talvez a questão mais importante não seja saber se a IA pode substituir o psicoterapeuta, mas compreender como ela pode contribuir para o cuidado psicológico. Ela pode tornar-se uma ferramenta valiosa de apoio, reflexão e autoconhecimento. Pode complementar processos terapêuticos e ajudar muitas pessoas a iniciar uma jornada de compreensão de si mesmas.

A psicoterapia, porém, em seu sentido mais profundo, continua sendo uma experiência humana. Uma experiência construída no vínculo, na presença, na confiança e na possibilidade de um ser humano encontrar a si mesmo por meio do encontro com outro.

Por mais sofisticada que seja uma tecnologia, ela ainda não ocupa o lugar de uma presença humana genuína. Talvez isso nos lembre de algo essencial: existem experiências cuja força não está apenas na informação que recebemos, mas na relação que nos transforma.

Na psicoterapia, a mudança não nasce apenas do que é dito, mas do que é sentido. É preciso sentir para mudar. O silêncio, a hesitação, um sentimento que surge sem nome, um afeto que atravessa a relação e encontra acolhimento: tudo isso comunica. E é justamente nessa linguagem dos afetos que a presença humana continua sendo insubstituível.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Mundo Corporativo: Luana Ozemela, do iFood, destaca o uso da tecnologia para ampliar inclusão e oportunidades

Luana Ozemela, CSO e Vice-Presidente de Impacto e Sustentabilidade do iFood
Luana Ozemela, do iFood, é entrevistada no Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN


“A gente precisa cultivar essa mentalidade de sermos arquitetos de impacto social. Que que significa isso? Todos os dias estamos pensando como que a minha empresa, além do impacto econômico que eu gero, como que eu posso gerar mais impacto social?”

Mais de 60 milhões de consumidores, 600 mil entregadores ativos e cerca de 550 mil estabelecimentos comerciais formam um dos maiores ecossistemas digitais do país. O desafio é transformar essa escala em oportunidades de trabalho, acesso à educação, proteção social e crescimento econômico para diferentes públicos. E foi razão da entrevista com Luana Ozemela, vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Ao falar sobre o papel da tecnologia nesse ambiente, Luana definiu a empresa como um espaço de observação permanente das relações sociais que acontecem dentro da plataforma. “O iFood de hoje é o que eu chamo um verdadeiro laboratório social”, afirmou.

Segundo ela, a tecnologia não deve servir apenas para conectar oferta e demanda. Também precisa identificar vulnerabilidades, prevenir conflitos e ampliar o acesso a direitos e oportunidades. “A tecnologia hoje, ela vem para não só aproximar a demanda da oferta, criar essas oportunidades de trabalho para toda essa população, mas também para intervir onde precisa intervir para dissipar conflitos.”

A executiva destacou ainda iniciativas voltadas aos entregadores, como acesso à educação, pontos de apoio e mecanismos de proteção contra violência e discriminação. “A tecnologia precisa estar monitorando todas essas vulnerabilidades o tempo todo e resolvendo os conflitos e levando essa educação.”

O debate global sobre o trabalho em plataformas

O crescimento das plataformas digitais trouxe para governos, empresas e trabalhadores um desafio que ainda está em construção: encontrar modelos de regulação capazes de equilibrar inovação e proteção social.

Para Luana, a economia de plataformas é um fenômeno recente e exige soluções que respeitem as particularidades de cada país. Ela lembrou que o iFood participa das discussões internacionais sobre o tema desde 2021 e integrou iniciativas promovidas pelo Fórum Econômico Mundial.

“Os últimos três anos de fórum culminaram na estrutura no lançamento da Aliança Global pelo Trabalho Digno de Plataformas”, disse.

A executiva também comentou a aprovação de uma convenção internacional da Organização Internacional do Trabalho (OIT) voltada aos direitos dos trabalhadores. Na avaliação dela, o acordo representa um avanço porque estabelece princípios globais sem impor uma única fórmula regulatória.

“Em cada país o vínculo é definido conforme a legislação local. Em cada país o ganho mínimo é definido conforme a legislação local.”

Para Luana, esse modelo permite ampliar a proteção aos trabalhadores sem comprometer a continuidade das oportunidades geradas pelas plataformas digitais.

Digitalização e acesso ao crédito para pequenos negócios

Além dos entregadores, outro grupo fundamental para o funcionamento da plataforma é formado pelos pequenos empreendedores.

Segundo Luana, uma das principais contribuições do iFood está na aceleração da transformação digital desses negócios. Ela observa que muitos estabelecimentos chegaram ao ambiente digital com atraso e agora precisam lidar com ferramentas cada vez mais sofisticadas.

“A gente já está falando de levar agentes de inteligência artificial para que esses pequenos negócios consigam organizar suas contas, o seu estoque, fazer uma melhor precificação.”

A executiva destacou ainda a oferta de produtos financeiros adaptados à realidade dos restaurantes e pequenos comerciantes. Como a plataforma possui informações detalhadas sobre o desempenho dos estabelecimentos, consegue avaliar riscos de forma diferente da utilizada por instituições financeiras tradicionais.

“Pelo fato da gente conhecer esse restaurante, conhecer como que os clientes gostam do restaurante, como que eles voltam para esse restaurante, a gente consegue dar produtos financeiros muito melhores.”

Entre os serviços oferecidos estão crédito, microcrédito, cartão de crédito e antecipação de recebíveis, instrumentos que ajudam empresas de menor porte a expandir operações e enfrentar períodos de instabilidade.

Inovação social para enfrentar problemas complexos

A área de impacto e sustentabilidade do iFood trabalha com o conceito de inovação social, que, segundo Luana, consiste em encontrar novas formas de resolver desafios coletivos.

Um dos exemplos apresentados na entrevista foi a segurança no trânsito. Em vez de concentrar esforços apenas em mecanismos de punição, a empresa passou a estudar fatores comportamentais capazes de estimular mudanças mais duradouras.

“Inovação social para a gente nada mais é do que pensar de múltiplas formas, como resolver problemas sociais complexos.”

A partir desse princípio, foi desenvolvido um sistema baseado em ciência comportamental para incentivar práticas mais seguras na condução de veículos. O programa utiliza dados e mecanismos de incentivo para estimular mudanças de comportamento entre os entregadores.

“A gente conseguiu reduzir drasticamente o número de entregadores que dirigiam consistentemente acima da velocidade do viário urbano.”

Segundo Luana, os resultados foram alcançados sem reduzir a eficiência operacional da plataforma. “A gente fez isso sem tornar a nossa operação mais lenta.”

Para ela, a inovação social se torna relevante justamente quando consegue enfrentar um problema coletivo e, ao mesmo tempo, manter a viabilidade do negócio.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

O Dom e a Ferramenta: a ontologia dos talentos na Era da Técnica

Por Caio Luizetto

A Parábola dos Talentos sofreu, na modernidade, um sequestro utilitarista. Sob a ótica de uma sociedade obcecada por métricas de produtividade, a palavra “talento” foi esvaziada de sua profundidade e reduzida a sinônimo de competência profissional, eficiência ou sucesso financeiro.

Contudo, há um mal-entendido abissal nessa interpretação. As escrituras não operam na lógica do fazer, mas na dimensão da ontologia: o texto bíblico é sobre o ser. Quando o texto ilustra o chamado dos primeiros discípulos, homens que exerciam a ocupação de pescadores, a promessa subsequente não visa o aprimoramento técnico de seu ofício, mas uma transfiguração de suas identidades. O fazer é circunstancial e utilitário; o ser é intrínseco e perene. Multiplicar o talento, portanto, não significa acumular conquistas externas, mas expandir a própria capacidade de manifestar a essência da vida.

Na antiguidade, a distância entre o ser e o instrumento era quase inexistente, pois o artífice imprimia sua própria alma diretamente na matéria que moldava. Hoje, vivemos uma assincronia profunda.

As possibilidades contemporâneas de amplificar o dom são virtualmente infindáveis. Se a essência de um indivíduo reside na capacidade de estruturar o caos, de projetar conexões ou de arquitetar conceitos complexos, a tecnologia moderna oferece ferramentas exponenciais que funcionam como megafones para o ser. Os instrumentos atuais expandiram as fronteiras da multiplicação, permitindo que o dom ecoe com um alcance outrora inimaginável.

Todavia, essa abundância instrumental esconde uma armadilha sutil e perigosa: a ferramenta pode se transformar na prisão do dom. Diante de sistemas altamente complexos, algoritmos rígidos ou estruturas corporativas sedutoras, corre-se o risco de inverter a hierarquia natural, fazendo com que a essência sirva ao instrumento. É o fenômeno em que a visão criativa original acaba sendo deformada para se adequar às limitações de um software, ou quando o indivíduo confunde sua identidade real com o cargo técnico que ocupa.

Quando o instrumento limita o dom, a humanidade retrocede ao erro de confundir o que faz com o que é. Enterrar o talento, sob essa perspectiva contemporânea, não significa necessariamente a inércia, mas a covardia de se deixar anestesiar pela técnica, permitindo que a ferramenta domestique a alma. A verdadeira fidelidade ao talento exige a lucidez de dominar o instrumento sem nunca ser dominado por ele, garantindo que as infinitas possibilidades do presente permaneçam como vias de libertação e expressão do ser, e não como engrenagens de nossa própria limitação existencial.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: saiba qual é a nova etapa de desenvolvimento da IA, segundo Ricardo Mucci, da Cisco

Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil

“A IA deixa de ser algo adicional, um luxo, e passa a ser algo nativo, essencial para o crescimento daquela companhia.”

A inteligência artificial até recentemente ocupava um espaço experimental dentro das empresas. Agora já é tema central das estratégias corporativas. Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, disse que, de acordo com pesquisas, a tecnologia aplicada aos negócios e cibersegurança passaram a figurar entre as principais preocupações dos CEOs em todo o mundo. Estão diretamente relacionadas ao crescimento das receitas e à sustentabilidade das operações.

Ao longo da conversa, Mucci destacou que a transformação digital não pode mais ser entendida apenas como aquisição de tecnologia. Para ele, as organizações que avançam de forma consistente são aquelas que incorporam a inteligência artificial à estratégia da companhia e não apenas a iniciativas isoladas em departamentos específicos.

“A aplicação da visão da IA em modelo estratégico da companhia e não modelo mais departamental” é o que diferencia as empresas que obtêm resultados mais expressivos, afirmou.

Segundo o executivo, a inteligência artificial atravessa uma nova etapa de desenvolvimento. Se antes predominavam chatbots e sistemas generativos voltados à produção de conteúdo, agora surgem agentes capazes de interagir entre si, trocar informações e executar tarefas sem intervenção humana direta. Essa evolução exige uma infraestrutura tecnológica robusta e uma abordagem mais ampla de governança e segurança.

Infraestrutura e segurança passam a ser prioridades

Para Ricardo Mucci, um dos principais aprendizados dos últimos anos é que não existe transformação digital sustentável sem investimentos em infraestrutura. Redes, processamento de dados e segurança precisam ser tratados como elementos integrados.

“Não há como se dizer agora que você constrói uma camada de segurança separada da infraestrutura convencional de rede.”

Ele explicou que o crescimento do uso da inteligência artificial gera um aumento exponencial no tráfego de dados e na demanda por processamento. Por isso, empresas que investem apenas nas aplicações e ignoram a modernização de sua infraestrutura correm o risco de encontrar limitações operacionais no futuro.

A preocupação com segurança também ganhou nova dimensão. Segundo Mucci, a cibersegurança deixou de ser vista apenas como proteção da reputação corporativa e passou a ser tratada como elemento fundamental para evitar perdas financeiras e interrupções nos negócios.

Entre os riscos estão sequestros de dados, vazamento de informações, roubo de identidade digital e ataques potencializados pelo uso da própria inteligência artificial por agentes mal-intencionados.

O Brasil na vanguarda da adoção da IA

Contrariando a percepção de que o país costuma chegar atrasado às grandes transformações tecnológicas, Ricardo Mucci afirmou que o Brasil ocupa posição de destaque na adoção da inteligência artificial.

“O Brasil hoje está na vanguarda na utilização de IA.”

De acordo com dados apresentados durante a entrevista, 66% das empresas brasileiras já possuem algum nível de implementação ou maturidade na utilização da tecnologia. O executivo também destacou o crescimento do ecossistema de startups voltadas à inteligência artificial e a capacidade dos empreendedores brasileiros de desenvolver aplicações para setores diversos.

Entre os exemplos citados estão soluções para saúde, educação, mineração e petróleo. Na área médica, ele mencionou sistemas capazes de realizar a coleta inicial de informações do paciente, estruturar relatórios e sugerir encaminhamentos ao profissional de saúde, reduzindo tempo de atendimento e aumentando a eficiência dos processos.

O custo da inteligência artificial

A popularização da IA trouxe também um novo desafio: controlar os custos associados ao uso dessas tecnologias.

Durante a entrevista, Mucci chamou atenção para a importância de utilizar de forma eficiente os tokens, unidades de processamento consumidas pelos modelos de inteligência artificial.

“Não dê bom dia para a IA, porque na hora que você der bom dia para a IA, ela vai te responder e você vai consumir um token ali.”

A observação foi usada para ilustrar um problema que muitas empresas começam a enfrentar: a conta do uso intensivo da tecnologia. Segundo ele, organizações mais maduras já buscam modelos híbridos, combinando recursos próprios e serviços em nuvem para equilibrar desempenho e custos.

Pessoas continuam no centro da transformação

Embora a inteligência artificial automatize tarefas e aumente a produtividade, Ricardo Mucci rejeita a ideia de que a tecnologia substituirá amplamente os profissionais.

Segundo ele, a tendência é que as pessoas passem a desempenhar funções mais estratégicas, supervisionando sistemas inteligentes e tomando decisões de maior valor agregado.

“Vai perder o trabalho possivelmente não aquela pessoa que não saiba nada de IA, ou que não conhece o negócio, mas vai perder para aquela pessoa que esteja utilizando melhor as plataformas de IA.”

O executivo destacou ainda a necessidade de investir em capacitação. Citou como exemplo o programa Cisco Networking Academy, iniciativa de formação tecnológica mantida pela companhia há mais de duas décadas, e defendeu maior participação das empresas na preparação dos profissionais para o mercado de trabalho.

Educação, adaptação e liderança

Filho de professora da rede pública e formado em escola técnica estadual, Ricardo Mucci atribui à educação boa parte de sua trajetória profissional. Ao recordar o início da carreira, destacou a influência da mãe, que repetia constantemente uma mensagem que o acompanhou ao longo da vida:

“Só tem uma coisa que vai mudar sua vida: é a educação.”

Ao falar sobre liderança, ressaltou a importância da aprendizagem contínua, da capacidade de adaptação e da abertura às mudanças tecnológicas. Para ele, as transformações são inevitáveis e exigem profissionais preparados para aprender continuamente.

Ricardo Mucci resumiu sua visão sobre o papel da tecnologia na sociedade:

“A transformação só vale a pena se for para melhorar a vida das pessoas.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: IA no WhatsApp permite atendimento 24 horas, afirma Guilherme Horn

Guilherme Horn, WhatsApp
Guilherme Horn no estúdio do Mundo Corportivo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Precisamos todos experimentar essa tecnologia.”

Uma mãe no interior da Índia, sem acesso à educação formal, passou a ajudar os filhos nas tarefas escolares com o apoio da inteligência artificial disponível no WhatsApp. Fotografava as lições de casa e pedia para a IA explicar o conteúdo. O recurso funcionou como um professor particular, gratuito e acessível a qualquer hora. Entusiasmada, ensinou outras mães a usar essa tecnologia. Meses depois, o professor da escola em que as crianças estudam disse que jamais havia visto um avanço tão significativo no desempenho dos alunos. 

A história que abre o livro “O Midset da IA — Ela pensa, você decide” (Gente), foi, também, a que escolhi para iniciar a entrevista com o autor do livro Guilherme Horn, head do WhatsApp para Mercados Estratégicos. O exemplo revela de forma concreta, como a IA já altera rotinas e amplia possibilidades, tema da nossa conversa no programa Mundo Corporativo, da CBN.

Redesenhar processos é onde está o valor

Nas empresas, a inteligência artificial ainda está em diferentes estágios de adoção, segundo Horn que é responsável no WhatsApp pelos mercados do Brasil, Índia e Indonésia. Parte das organizações começa pela automação de tarefas já existentes. É um primeiro movimento, mas não resolve o principal. “O valor tá quando você começa a redesenhar os seus processos”, disse Horn. 

Na prática, isso significa mudar a forma de trabalhar. Um exemplo citado por ele ajuda a visualizar esse cenário: empresas já criam agentes digitais que representam executivos e funcionários. Esses agentes analisam informações, trocam dados entre si e tomam decisões preliminares. Reuniões podem deixar de existir porque o debate acontece antes, de forma digital e assíncrona.

Esse modelo altera custos, tempo e dinâmica de trabalho. Ao mesmo tempo, exige um limite claro. “A execução pode ser transferida para IA, mas o julgamento ainda deve ser do ser humano.”

Medo, substituição e novas funções

O receio de perda de emprego aparece com frequência quando o tema é inteligência artificial. Horn reconhece esse temor: “A substituição, ela vai acontecer, é inevitável.” Ele observa, no entanto, que novas funções já surgem. Profissionais que treinam sistemas, definem contexto e orientam o uso da IA passam a ser necessários. O movimento segue uma lógica conhecida: algumas atividades desaparecem, outras são criadas. 

A mudança também atinge quem já está no mercado. “Vai ter que sair da sua zona de conforto, vai ter que aprender um pouco sobre a tecnologia.” Hoje não se imagina um profissional sem domínio básico de ferramentas digitais, por exemplo uma planilha eletrônica. Em pouco tempo, o mesmo deve ocorrer com a inteligência artificial.

O risco de produtividade ilusória

O aumento de produtividade, frequentemente associado à IA, ainda não é uniforme. Em muitos casos, há uma expectativa maior do que o resultado. “Às vezes é uma ilusão esse aumento de produtividade.”

O motivo é simples. Parte do tempo ainda é gasto ensinando a ferramenta a executar tarefas. Em algumas situações, fazer manualmente pode ser mais rápido. Esse cenário tende a mudar com o amadurecimento do uso e das ferramentas.

Pequenos negócios e operação 24 horas

No caso de pequenas empresas, o uso da inteligência artificial já traz efeitos diretos. O WhatsApp, por exemplo, permite a criação de agentes treinados com informações do próprio negócio. O empreendedor pode alimentar o sistema com catálogo de produtos, histórico de conversas e regras de atendimento. Com isso, passa a oferecer respostas automáticas e personalizadas.

Horn destaca um ponto prático: “Transformar o seu negócio em 24/7”. O atendimento deixa de depender do horário comercial. O cliente envia uma mensagem e recebe resposta imediata, mesmo fora do expediente. Essa disponibilidade amplia a chance de fechar negócios.

A relação com o consumidor também muda. Sistemas tradicionais, baseados em menus e opções limitadas, tendem a perder espaço. “O consumidor quer conversar com uma pessoa.”

A inteligência artificial permite respostas mais próximas da linguagem humana. Em vez de escolher entre alternativas, o cliente descreve o problema e recebe uma solução específica. Essa diferença reduz frustração e melhora a experiência.

Experimentar é a principal recomendação

Para quem ainda observa a tecnologia com distância, a orientação é direta: testar. “A palavra-chave nesse momento é experimentação.” O acesso a ferramentas gratuitas facilita esse processo. Criar um agente simples, testar aplicações e entender limites são passos necessários para acompanhar a transformação.

A mudança não depende apenas de tecnologia. Lideranças precisam criar ambiente que aceite erro como parte do aprendizado. Horn lembra que inovação envolve tentativa e falha — e que esse ciclo precisa ser incorporado à cultura das empresas.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Entre a urgência do rádio e o tempo da ciência

No jornalismo de rádio diário, estamos sempre em busca da notícia mais recente. Aquilo que está acontecendo em tempo real. A operação da polícia, o anúncio do governo e o congestionamento da hora tomam espaço da reportagem produzida com antecedência — para desespero do repórter que investiu seu tempo e talento. Nesta semana, por exemplo, as raquetadas ao vivo de João Fonseca se impuseram ao crime que abalou o ouvinte no dia anterior — que assim seja nesta sexta-feira que está para começar. Em uma competição jamais confessada, o papel do radiojornalismo é deixar o jornal da banca um pouco mais velho. Não me queiram mal, colegas de impresso. Admiro muito o trabalho que vocês fazem — é o que nos sustenta naqueles momentos em que o noticiário de rádio está ‘fraco’.

Na edição desta quinta-feira do Jornal da CBN, os personagens da política de Brasília, da economia da Faria Lima ou dos eventos internacionais foram preteridos por alguns instantes. Convidamos dois pesquisadores brasileiros para conversar simultaneamente: Mariangela Hungria, da Embrapa, e Luciano Moreira, da Fiocruz, que entraram na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. Que privilégio!

Mariangela pesquisa há mais de quatro décadas o uso de micro-organismos do solo para reduzir a dependência de fertilizantes químicos. Em um país que importa a maior parte desses insumos, o efeito é direto na economia e na produção de alimentos. Em uma única safra, segundo ela, a tecnologia desenvolvida gerou economia de dezenas de bilhões de dólares.

Luciano atua no combate às arboviroses. Lidera um método que utiliza mosquitos com uma bactéria capaz de bloquear a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya. O projeto já está presente em diversas cidades brasileiras e em outros países.

Não havia um factual, uma ocorrência bombástica ou o escândalo que viraliza. O trabalho dos dois começou há décadas, sem alarde. No laboratório das instituições públicas em que trabalham, feitos com baixo investimento e sob alto ceticismo. Uma trajetória marcada por falhas e frustrações. Que, para muitos dos colegas deles, se encerrará no anonimato e na dúvida se as pesquisas que desenvolveram se tornarão legado nos estudos de seus sucessores.

Apesar da ausência da urgência do noticiário, entrevistá-los foi muito especial para nós, que fazemos o Jornal da CBN. E motivo de satisfação para os ouvintes. Aquele mesmo que nos cobra a informação imediata, a atualização do trânsito, a previsão do tempo, a denúncia contra agentes públicos por atitudes erráticas, a notícia do aqui e agora, dispendeu seu tempo para ouvir o relato de dois cientistas.

Claro que o reconhecimento da Time os fez notícia. Dar tempo para que pesquisadores falem das suas angústias e orgulhos não é comum no cotidiano dos programas radiojornalísticos matinais. Por isso, gostei tanto da conversa com eles. Sem contar que os dois são ótimos entrevistados, com bom domínio da comunicação.

A propósito, foi a dra. Mariangela quem chamou atenção para a importância de se investir em comunicação para o bem da ciência:

“Se eu fosse uma ministra de ciência e tecnologia, para quem eu mais daria dinheiro seria para a área de comunicação, ciência da comunicação, porque vocês precisam ensinar para a gente. Tem que ter alguma coisa disruptiva para eu conseguir entender por que a gente traz uma mensagem correta e tem 5 mil likes, e vem um influenciador que fala tudo diferente e tem 500 mil likes”.

Como fazer com que a informação correta, capaz de ajudar as pessoas, consiga ganhar tração e influenciar a sociedade de forma positiva é apenas mais um dos muitos desafios que os cientistas têm pela frente. Um desafio que nos aproxima, pois, como comunicadores que somos, temos a responsabilidade de ampliar o alcance dessa mensagem.

Pela repercussão da entrevista desta quinta-feira, no Jornal da CBN, encerro o dia com a sensação de que vale a pena abrir espaço para histórias que não cabem na urgência do noticiário. Nem sempre o mais importante chega primeiro. Às vezes, ele precisa apenas de tempo — e de escuta — para ser compreendido.

Mundo Corporativo: Dimas Covas, da Sinovac, ensina que a ciência é uma grande repetição de erros consertados

Dimas Covas, Sinovac
Dimas Covas em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN


“Hoje, a economia mundial é uma economia de disputa tecnológica.”


A pandemia de Covid-19 expôs uma fragilidade do Brasil: a dependência de medicamentos e vacinas produzidos no exterior. Ao mesmo tempo, revelou a capacidade científica do país em participar de pesquisas e testes clínicos em escala internacional. Esse cenário ajuda a explicar o interesse de empresas globais em ampliar suas operações por aqui. O tema foi discutido pelo cientista Dimas Covas, chefe de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Sinovac, em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN.


Covas construiu carreira na universidade, na gestão pública e agora atua em uma empresa privada de biotecnologia. Ele conta que decidiu trabalhar na fronteira entre ciência e aplicação prática ainda no início da sua carreira. “Desde muito cedo, eu falei: ‘Olha, a minha área de pesquisa vai ser com desenvolvimento de produtos biotecnológicos’.”


A motivação veio da própria experiência médica. No início da carreira, ele percebeu que muitos pacientes dependiam de tratamentos que ainda não existiam ou não estavam disponíveis. A pesquisa passou a ser o caminho para ampliar essas possibilidades.

A trajetória de Covas inclui a direção de centros públicos de pesquisa e produção, como o Instituto Butantan. Para ele, a gestão pública foi uma escola de administração e de enfrentamento de limites estruturais. “É muito mais difícil você ser gestor público do que você ser um gestor privado”, afirma.

No ambiente empresarial, a lógica muda porque os recursos e as equipes podem ser organizados com mais rapidez. “A iniciativa privada é um paraíso. Para quem trabalhou na iniciativa pública durante tanto tempo, é um paraíso.” Mesmo assim, ele afirma que o objetivo permanece o mesmo: desenvolver soluções de saúde que tenham impacto direto na vida das pessoas.


Por que o Brasil entrou no radar da Sinovac

A relação da Sinovac com o Brasil se fortaleceu durante a pandemia, quando a CoronaVac foi testada e produzida em parceria com o Instituto Butantan. A experiência abriu caminho para projetos mais amplos. Segundo Covas, o país reúne características importantes para a pesquisa biomédica: população numerosa, universidades com tradição científica e capacidade para conduzir estudos clínicos.

A empresa pretende criar uma estrutura permanente de pesquisa, desenvolvimento e produção, inicialmente no interior de São Paulo. O plano inclui novas tecnologias, como vacinas de RNA e terapias celulares. Uma enorme oportunidade para pesquisadores e cientistas brasileiros.

Na avaliação do cientista-chefe da Sinovac no Brasil, o país precisa definir prioridades claras para avançar em inovação. “O Brasil precisa dizer assim: ‘Olha, eu quero ir nesse caminho, nesse caminho e nesse caminho. E vou dar condições para que isso aconteça’.”

Ele lembra que a competição global mudou de natureza. O diferencial agora está na capacidade tecnológica.

“Hoje, a economia mundial é uma economia de disputa tecnológica.”

Para Covas, o Brasil tem universidades capazes de formar bons pesquisadores. O problema aparece depois da formação, quando muitos profissionais não encontram oportunidades para aplicar o conhecimento. Projetos de pesquisa ligados à indústria podem ajudar a reduzir essa distância entre universidade e mercado.

Otimista em relação aos avanços que as pesquisas da Sinovac podem ter no Brasil, Covas ressalta que quem trabalha com ciência precisa aceitar que os resultados surgem após várias tentativas. “O erro é a parte mais importante do aprendizado. Quer dizer, se a gente não erra, a gente não aprende.” Ele descreve a pesquisa científica como um processo contínuo de correção e aprimoramento. “Na realidade, a ciência é uma grande repetição de erros consertados.”

Esse método também pode orientar decisões em empresas privadas de diversos setores da economia. Covas defende que gestores usem dados e evidências para decidir, da mesma forma que pesquisadores fazem em laboratório.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.