Um Feliz e Santo Natal: “na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro …”

 

 

Na mensagem do Papa Francisco, antecipando o Dia Mundial da Paz, que se comemora em 1º de janeiro, a comunicação aparece como instrumento de aproximação, e para que esse diálogo ocorra na plenitude a escuta se faz necessária —- a ponto de aparecer em três momentos no  texto do Sumo Pontífice.

 

Com o desejo de um Feliz e Santo Natal a todos, deixo aqui um dos muitos trechos de reflexão que encontramos na escrita de Francisco.

“… O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De fato, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade para além das ideologias e das diferentes opiniões. A paz é uma construção que “deve ser continuamente construída” (GS, n. 78),[5] um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e nos comprometendo a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto de um irmão …”

Leia na íntegra a mensagem do Sumo Pontífice

Sua Marca: lembre-se que tem um presente de Natal esperando você

 

Sua Marca Livro

No fim de semana, a gente já havia contado para você que o nosso presente de Natal este ano era um livro (e-book), de graça, sobre gestão de marcas, escrito por Jaime Troiano e Cecília Russo. Nesta segunda-feira, quando o Natal está logo ali, volto a lembrá-lo desse presente e aproveito para reproduzir o prefácio que escrevi para meus colegas do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN. Sei que um texto que tem diabo no título pode não ser muito apropriado quando falamos de Natal, mas você haverá de entender os motivos que me levaram a cita-lo. A propósito, no fim do texto, tem o link para você baixar e aproveitar nosso presente de Natal.

“O DIABO SABE MAIS POR VELHO DO QUE POR DIABO”

 

Um passeio pelos escritórios de empresas no Brasil e um tempo para a boa conversa com alguns de seus colaboradores são suficientes para enten- dermos que muita gente está descontente. Nem preciso ir muito longe, basta estar atento às mensagens que recebo diariamente na rádio CBN quando o assunto é o mundo corporativo e suas variantes. É evidente que a falta de respeito com as pessoas ainda persiste e a gestão por pressão, cobrança e castigo resiste a todo o conhecimento desenvolvido de que ambientes saudáveis tendem a produzir mais e melhor. Uma agravante é que hoje esse desrespeito começa ser visto como um sinal de que o líder não é ético ao agir, e isso pode contaminar as relações internas e externas da empresa e da marca.

 

Se há uma forma de corrigir essa distorção, não tenho dúvida de que co- meça pela comunicação eficiente. De todas as competências necessárias para liderar empresas, grupos de trabalho e a sua própria carreira, a comu- nicação é a mais necessária, haja vista o resultado de diversas pesquisas de comportamento e os critérios que recrutadores usam na contratação de profissionais. A comunicação é a principal habilidade não técnica exi- gida pelas empresas, pois o colaborador que não souber se comunicar de maneira assertiva e respeitando o outro está fadado ao fracasso.

 

Começo esta nossa conversa pela comunicação porque é o conhecimento para o qual me dedico há quase 35 anos – a serem completados agora em 2020. E também porque aprendi com meu pai, jornalista de mão-cheia, que o “diabo sabe mais por velho do que por diabo” e, portanto, sinto-me mais à vontade de abordar o tema da comunicação em lugar de me ema- ranhar na área do Branding, na qual Cecília Russo Troiano e Jaime Troiano já fazem suas diabruras há bastante tempo e saberão destrinchar com ex- celência nas próximas páginas.

 

Há quatro passos básicos para você encarar com eficiência qualquer pro- cesso de comunicação que deparar, quer seja uma entrevista de empre- go, uma reunião de trabalho, uma entrevista a jornalistas, uma palestra aberta ao público ou mesmo uma DR em casa – não tem jeito, em algum momento teremos de enfrentá-la. Essas regras valem também para quem pretende escrever um livro.
Vamos a elas:

1. Somente entre em uma conversa se tiver certeza da mensagem que pretende transmitir, portanto planeje seu discurso, selecione as informa- ções mais importantes e dê uma hierarquia a elas, para saber quando e em que ordem usá-las.
2. Tenha em mãos todos os dados que possam ser necessários, tais como números, frequência e quantidade – conforme o assunto – sem esquecer de dar a esses suas reais dimensões e ilustrá-los de maneira que seu inter- locutor enxergue o que você está dizendo.
3. É essencial falar a língua do seu público, eliminando jargões de sua área e adaptando o vocabulário à realidade do outro para gerar empatia.
4. E, finalmente, conte uma história – somos muito mais propensos a prestarmos atenção em narrativas que tenham lógica e sejam humaniza- das do que a conceitos científicos.

Neste livro, Jaime Troiano e Cecília Russo nos convidam a uma conversa sobre gestão de marcas e enquanto caminhamos ao lado deles, em cada um dos capítulos, vamos perceber o cuidado que têm em fazer deste um passeio agradável em que histórias, conhecimento e experiência se mis- turam – muito parecido com o que já nos acostumamos a ouvir no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, quadro que levamos ao ar todos os sábados, às 7h55, no Jornal da CBN e está disponível também em podcast.

 

Os casos que vivenciaram na construção de algumas das marcas mais co- nhecidas e valorizadas do Brasil estarão descritos a seguir e nos ajudam a visualizar a inteligência que os autores desenvolveram ao longo de suas vidas profissionais – ricas e diversas, pois se formaram em distintas áreas, como a psicologia, a sociologia e a engenharia química, além de terem se especializado em tantos outros temas, tais como consumer insights, pes- quisa, antropologia, filosofia e comportamento do consumidor.

 

Quando percebem que é difícil de se desvencilhar de expressões típicas das áreas em que atuam, têm o cuidado de nos oferecer ao pé do capítulo uma interessante Brandpedia, na qual traduzem de maneira mais clara o termo aplicado, e nos deixam mais confortáveis para seguir a caminhada ao lado deles.

 

Nada mais tem a cara e a criatividade do Jaime e da Cecília, porém, do que as frases que pautam as histórias e o conhecimento a serem desenvolvidos. Quan- do leio que “marca não é tapume” ou que “o consumidor diz o que pensa, mas faz o que sente”, ou qualquer uma das 20 frases que abrem cada um dos capí- tulos, é como se revivesse nossas conversas no estúdio de gravação – mesmo as que ocorrem fora do ar.

 

Repetidas à exaustão desde 2014, quando começamos a apresentar juntos o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, essas frases que poderiam ser apenas “lugar-comum” transformaram-se em lições de Branding, que jamais podem ser esquecidas por todos que têm de cuidar da sua marca – seja um empresário ou um empreendedor controlando o seu próprio negócio, seja um jovem aven- tureiro ou um unicórnio no mundo das startups, seja o vendedor de pipoca na esquina da escola ou alguém que costura para fora.

 

A comunicação eficiente é a marca que faz deste livro um sucesso.

 


Baixe aqui o livro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso — 2020 em 20 ideias

 

A cara do Tito

 

titofoto_Fotor_Collage

 

Quando era guri, a imagem que tinha do jornalista era a de um moço com expressão de curioso e olhar de desconfiado, que vestia uma roupa pouco cuidada e nas mãos levava um bloco de anotações e uma caneta. Na minha imaginação também haveria de ter uma máquina de fotografia a tiracolo. De todos os jornalistas da minha família o que mais se encaixava nesse perfil —- apesar de jamais vê-lo em posse de uma máquina de fotografia, que eu lembre —- era meu tio, Tito Tajes, casado com a tia Miriam, irmã do meu pai, e pai de quatro dos meus primos.

 

Tio Tito nasceu em Santa Maria, em 1933, trabalhou como repórter na Última Hora, no Correio do Povo e na sucursal de O Globo, em Porto Alegre. Foi ainda editor do Diário Catarinense, em Florianópolis. Esteve no campo de batalha e participou de coberturas importantes mundo afora.

 

Lembro dele fechando a edição dominical do Correio — o que fazia com enorme precisão, como meu pai atestou em um dos artigos publicados neste blog. Tio Tito me levava a passear na oficina do jornal e aquela imagem era fascinante tanto quanto insalubre. Do cheiro das máquinas rodando e dos fragmentos dos clichês que imprimiam o jornal sobraram ótimas lembranças na minha mente e uma quantidade de partículas suficiente para entupir as veias do tio e, muito provavelmente, levá-lo a morte, em 1995. O tio morreu de jornalismo, é o que penso.

 

Era crítico, também. Muito crítico. Chegava a ser engraçado ouvi-lo durante os almoços de domingo em família quando comentava sobre colegas de profissão, textos mal-escritos e o abuso do lugar-comum no discurso jornalístico. Ele próprio se divertia com esse jeito. Depois de uma sequência de broncas dirigidas às redações, se voltava para mim e dizia: “Miltinho, bom mesmo só nós dois”. Caíamos os dois em gargalhada.

 

Mesmo que costumasse maldizer o jornalismo me apoiou na decisão de seguir a carreira e ganhei dele de presente o livro que marcou minha caminhada e guardo até hoje: a Regra do Jogo, de Cláudio Abramo. Tentou me levar para Florianópolis quando do lançamento do Diário Catarinense, ideia frustrada por um desentendimento familiar. Se não fui para Santa Cataria acabei anos depois em São Paulo e foi uma troca de cartas com ele —- sim, escrevi muitas cartas na minha vida —- que me fortaleceu para ficar por aqui, quando eu mesmo questionava minha capacidade de trabalhar na capital paulista.

 

As histórias vividas com o tio Tito voltaram à mente semana passada quando soube que o Movimento de Justiça e Direitos Humanos havia lhe concedido in memorian o primeiro lugar, na categoria crônica, do 36º Prêmio de Jornalismo, que permite a inscrição de textos que não foram publicados devido à censura. “Voos da Morte” foi escrito em 1985, época em que Tito trabalhava na sucursal do jornal O Globo, e resultado de reportagem investigativa que confirmou que dois cadáveres encontrados durante o fenômeno que ficou conhecido por Maré Vermelha do Hermenegildo, no Rio Grande do Sul, em 1978, eram vítimas da ditadura argentina.

 

A Maré Vermelha é bastante conhecida entre os gaúchos, ao menos os mais vividos, dela pouco se conseguiu esclarecer e as mais variadas versões persistem até hoje. Dos crimes da Ditadura —- seja na Argentina seja no Brasil —- muito se contou até agora, mas se sabe que outro tanto morreu juntamente com suas vítimas. A reportagem escrita pelo jornalista Tito Tajes, meu tio, e jamais publicada é oportunidade para refletirmos sobre os riscos que corremos diante de uma gente que constantemente ameaça a paciência e a consciência do cidadão brasileiro com declarações que flertam com o autoritarismo e põem em risco a Democracia.

 

Por curioso que pareça, esta é a primeira vez que li um texto escrito pelo tio. Cada linha, cada frase construída e cada descrição dos fatos revelados em “Voos da Morte” serviram para redesenhar na minha imaginação a figura daquele cara com expressão de curioso e olhar de desconfiado, que vestia uma roupa pouco cuidada e nas mãos levava um bloco de anotações e uma caneta. A cara do jornalista. A cara do Tito.

A tristeza que se expressa nas mortes da Paraisópolis

 

5dab9468-a822-49e8-ae2e-a0786bdbf006.jpg.640x360_q75_box-0,120,1280,840_crop_detail

 

 

Foi triste a segunda-feira. Uma extensão da tristeza de domingo quando as informações da morte de jovens em uma festa na comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo começaram a chegar. A segunda foi ainda mais triste porque a morte deflagrou uma série de comentários absurdos, desrespeitosos e desumanos. E essas reações me entristecem porque revelam como está partida a nossa cidade. A nossa sociedade.

 

Há duas versões sendo apresentadas.

 

A polícia diz que foi atacada por uma dupla que estava em uma moto, que fugiu em direção a festa e aproveitou-se do aglomerado de pessoas para transformá-las em escudos humanos. A equipe da Força Tática, que foi reforçar a ação, chegou no local e foi agredida com pedradas e garrafadas. Nenhum policial fez disparos com arma de fogo. Usaram apenas munições químicas para dispersão.

 

Os frequentadores do baile disseram que os policias bloquearam as duas saídas do local. Houve correria. A polícia disparou com armas de fogo e bala de borracha. Arremessou bombas de gás e usou sprays de pimenta contra a multidão. Agrediram com garrafadas, cassetetes, pontapés e tapas pessoas já imobilizadas.

 

É bem possível que as duas tenham vestígios da realidade. Somente a investigação será capaz de descobrir. Mas teríamos de acreditar no rigor desse trabalho.

 

O incontestável, no meu entender, é que a tentativa de dispersão das três mil pessoas que participavam no Baile da 17, seja pelo motivo que for, foi um descalabro. E a Polícia Militar tinha obrigação de saber disso.

 

As polícias militar e civil, assim como as forças de segurança pública constituídas, têm o privilégio da força e da violência, garantido e observado pela Constituição. E por tê-lo precisam agir, acima de tudo, com responsabilidade, prudência e inteligência. Jamais podem extrapolar esse direito sob o risco do descontrole social.

 

Ao mesmo tempo, transformar em criminosos todos os frequentadores do baile funk, que desde o início dos anos 2.000 se realiza naquele espaço ao ar livre, levando multidões aos fins de semana, é uma demência que expressa bem como estamos socialmente doentes. Ideia que se fortalece quando tentam relativizar as mortes como muitos buscaram fazer enquanto questionavam a existência desses eventos e a presença da juventude naquele local — como se proibir qualquer uma daquelas manifestações fosse o suficiente em regiões onde a única ação do Estado, quando existe, é a da polícia.

 

Querer que se apure e se puna os responsáveis é o mínimo, diante dessa situação. Não parece, porém, que haja muita gente interessada em encontrar a resposta certa. Pois todos querem apenas confirmar suas convicções. Garantir sua razão. Apontar o dedo e repetir: “eu avisei!”. E jogar a culpa para o lado de lá.

 

A hora em que o jornalismo profissional se diferencia da rede social

 

truth-166853_960_720

 

Esta quinta-feira transformou-se em mais um daqueles dias que devem servir de referência para nossas conversas com estudantes de jornalismo —- especialmente estudantes de jornalismo, apesar de que não custa nada estender o tema a todos que confundem mensagens publicadas em rede social com notícia. E não é pouca gente que faz isso.

 

Aliás, tem gente graúda que mistura essas coisas.

 

Alain de Botton, filósofo pop, nascido na Suíça e erradicado na Inglaterra, autor do livro “Notícia: um guia de sobrevivência” (Intrínseca), é um deles —- e que isso não seja visto como forma de desmerecer seu trabalho. Longe de mim ter essa pretensão. Respeito muito o que escreveu e tenho sua publicação não apenas guardada em lugar especial em minha biblioteca como cito o autor em todas as minhas palestras sobre comunicação.

 

Botton ao descrever um fenômeno típico da sociedade contemporânea que é a busca incessante por informação, provocada principalmente pela facilidade proporcionada pelas redes sociais, diagnosticou que somos viciados em notícia — o que justificaria, segundo ele, o engajamento do público diante de fatos que podem estar relacionados tanto a um desastre humanitário quanto ao relacionamento amoroso de celebridades.

 

Discordo do diagnóstico feito pelo filósofo.

 

Primeiro, porque se é verdade que o público é viciado em notícia e quem fornece essa “droga” é o jornalista, deixo de sê-lo para me transformar em traficante. Minha mãezinha querida que está lá no céu mas ainda conseguiu me aplaudir recebendo o diploma de graduação na faculdade de comunicação social da PUC, em Porto Alegre, certamente ficaria muito incomodada com o resultado do investimento que fez em minha carreira …. profissional.

 

Segundo, porque nem tudo que as pessoas consomem como se notícia fosse é notícia. Precisamos entender que informação não é sinônimo de notícia. O recado que seu filho mandou por WhatsApp para dizer que vai chegar mais tarde em casa é uma informação, mas não é notícia. A mensagem do amigo que está feliz com a promoção que recebeu no trabalho é informação mas não é notícia. O desaforo da namorada publicado em vídeo no Twitter porque você a desrespeitou é informação mas não é notícia.

 

Para ser notícia alguns requisitos são necessários, a começar por ser de interesse púbico ou afetar o público, direta ou indiretamente, ter relevância no meio em que circula, estar relacionado a um acontecimento novo ou esclarecimento de fatos, ter acontecido recentemente ou estar por acontecer.

 

Existem outros atributos fundamentais para que uma informação possa ser caracterizada como notícia. Tem de ter sua veracidade comprovada, estar baseada em fatos reais e ser devidamente apurada antes de ser apresentada ao público. Notícia é produto do jornalismo que precisa respeitar a hierarquia do saber, como me ensinou Zuenir Ventura, em entrevista que me concedeu, no Jornal da CBN, há alguns anos.

 

O jornalismo é a busca constante da verdade possível e isto exige apuração, construção de uma rede confiável de fontes, curiosidade para descobrir os fatos que estão encobertos e a precisão em seu relato.

 

O que mais recebemos ao longo do dia não é notícia, é apenas informação —- na maior parte das vezes de interesse privado e não publico. E essa diferença é fundamental para entendermos a doença que a sociedade contemporânea vem sofrendo. Por isso, em lugar de dizer que somos viciados por notícia prefiro dizer que sofremos de ansiedade informacional —- esse é nosso grande mal, que se expressa na pressa que temos em receber uma resposta a um WhatsApp enviado, assim como a enxergamos o “like” dos amigos na foto publicada no Instagram.

 

Essa ansiedade que é minha, é sua, é de todos nós jamais pode impactar a qualidade do serviço realizado por jornalistas profissionais. Se assim formos influenciados, deixaremos de cumprir a função para a qual nos dedicamos e desvalorizaremos o papel que exercemos na sociedade.

 

Lembro-me da campanha eleitoral de 2014 quando lamentavelmente o avião do candidato e ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos caiu em Santos, no litoral paulista. A informação do acidente chegou durante evento no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, e fez com que o então governador Geraldo Alckmin se retirasse de forma precoce da solenidade oficial. Os indícios da tragédia passaram a circular em alta velocidade. As redes sociais —- ocupadas por alguns colegas de profissão, inclusive —- já anunciavam a possibilidade da morte do político. Sim, a possibilidade porque a confirmação ainda não existia. As redações eram pressionadas pelo tempo, pelos chefes, pelo público e pela nossa própria ansiedade a transformar o rumor em notícia. Alguns se precipitaram, outros preferiram esperar. Infelizmente, todos acabamos noticiando a morte de Campos, porém em tempos diferentes. O tempo da prudência e da responsabilidade.

 

É isso que diferencia o jornalismo profissional dos protagonistas em rede social — estes não têm compromisso com a verdade, nós jornalistas somos reféns dela. Se entendemos nossa função diante da sociedade, temos de respeitá-la e buscarmos incansavelmente a verdade, com a agilidade que os novos tempos exigem e com a responsabilidade que a profissão demanda. Se ao público interessa a informação em primeira mão, ao jornalista cabe informar a notícia certa em primeira mão.

 

A ansiedade em ser o primeiro a dar as últimas, levou profissionais e outras pessoas a se precipitarem nessa quinta-feira, divulgando informações em rede social e em sites que não tinham sido confirmadas, causando constrangimento àqueles que eram afetados diretamente pelos rumores que circulavam e antecipando uma comoção de maneira irresponsável no público. Pode até ser que esses fatos se confirmem ao longo das próximas horas, mas nenhum jornalista profissional deve se orgulhar de tê-los publicado antes de se certificar da verdade. Principalmente quando esses rumores se referem à vida humana.

 

É nesta hora que o jornalismo profissional se difere — ou deveria — das redes sociais.

O microfone merece respeito

 

microphone-1007154_1280

 

O diabo sabe mais por velho do que por diabo —- o ditado que ouvi muitas vezes de meu pai, uso sem parcimônia, especialmente nesses tempos em que os colegas de redação já têm idade para serem meus filhos e a turma, às vezes, fica a espera de uma palavra mais madura e experiente —- o que não significa que seja apropriada. Mesmo que eu me entenda ainda como um jovem, disposto a novidades e desafios, sei da responsabilidade que é conviver com duas ou três gerações que vieram depois de mim.

 

O passar dos anos nos ensina nem que seja pela dor. Cometemos erros, tomamos puxão de orelha e passamos constrangimento; mas tudo isso pode ser pedagógico, se soubermos observar as situações enfrentadas e nos esforçarmos para mudar de comportamento.

 

Lembro de duas situações constrangedoras que vivenciei na apresentação de programas de rádio que me serviram de lição, as duas quando estive à frente do CBN São Paulo.

 

A primeira foi em 2007, durante entrevista com autoridade municipal que insistia em negar os fatos e os números que revelavam a precariedade do serviço prestado pela cidade. Fiquei incomodado com as respostas e fui agressivo nas perguntas. Perdi o controle da entrevista, bati boca com o entrevistado e fui punido pela crítica implacável da maior parte dos ouvintes.

 

Anos depois, estava diante de candidato ao governo de São Paulo, representante de um partido sem noção nem argumentos. Fiz perguntas que entendi pertinentes, que buscavam esclarecer as críticas que o político fazia a seus adversários e escancarar a sua falta de lógica e conhecimento. Mesmo que insistindo em algumas questões, jamais levantei a voz ou me excedi. Minha postura tirou o candidato do sério. Sentido-se acuado, reagiu como um animal: partiu para o ataque; levantou-se da cadeira; apontou o dedo em minha direção; ofendeu-me e, acredito até hoje, não foi às vias de fato porque me mantive impassível, sereno e sentado. A maior parte das mensagens que chegou a rádio foi de solidariedade e apoio a minha postura.

 

Na marra. Fazendo. Errando. Corrigindo. Pedindo desculpas. Eu aprendi. E das muitas coisas que aprendi uma delas é que na posição de jornalista —- especialmente diante de um microfone, em que nossa voz, opinião e comportamento são transmitidos em tempo real —- temos responsabilidade dobrada.

 

É preciso respeito ao entrevistado, sem ser subserviente; é preciso ser firme na busca da verdade, sem ser violento; temos obrigação de questionar, duvidar e cobrar; e quanto mais argumentos, dados e fatos tivermos em mãos, para contrapor, melhor. Gritar e ofender, jamais —- mesmo que seu entrevistado haja desta maneira. Se errar, peça desculpas. Seja humilde. Humildade não é vergonha, é virtude.

 

Entrevista não é boxe. É xadrez. Pede inteligência, sensibilidade e perspicácia. Jamais força e estupidez. Não tem lugar para a arrogância. É preciso senso de justiça, também. Deixar a entrevista encerrar para proferir uma crítica ao entrevistado é desonesto. Ele tem de ter o direito ao contraditório. Toda vez que criticar algo ou alguém, meça o peso de sua palavra e seja sincero, bem sincero, consigo mesmo: você teria coragem de fazer aquela crítica se estivesse diante da pessoa? Se não, não a faça longe dela. É covardia.

 

O microfone merece respeito. Porque é através dele que nos relacionamos com o cidadão — seja um entrevistado seja um colega seja um ouvinte. Respeitar o microfone é respeitar seu público e sua profissão.

 

Tem gente que nem por velho nem por diabo aprende a lição.

Um abraço que salva vidas

 

 

Uma tragédia estava prestes a ocorrer. O jovem de 18 anos, ex-aluno, entra na escola com uma espingarda nas mãos. Aparentemente, a intenção dele era se matar. Diante da cena, estudantes saem em fuga pelos corredores, desesperados. Uma das câmeras de segurança registra o momento em que o técnico de futebol da escola já havia tomado a espingarda das mãos do jovem e lhe oferece um abraço. Assim, abraçados, os dois se movem pelo corredor da escola. E uma vida, ao menos uma, é salva.

 

O fato ocorreu em maio deste ano, no interior da escola de Parkerose, em Portland, no estado americano de Oregon. O vídeo somente foi divulgado há alguns dias. Os dois personagens que aparecem em destaque são o jovem Angel Granado-Diaz e o treinador Keanon Lowe.

 

“Eu só queria que ele soubesse que eu estava lá. Eu disse a ele que estava lá para salvá-lo. Eu estava lá por uma razão e que essa é uma vida que vale a pena ser vivida”, disse Lowe em entrevista.

 

Quantos dos jovens que conhecemos — assim como Granado-Diaz —, tudo que esperam é um abraço para salvá-los da tristeza, da depressão, do desalento, de distúrbios que, na maior parte das vezes, são silenciosos mas não invisíveis. Jovens que nós pais nem sempre somos capazes de perceber que precisavam de uma porta aberta para contar sua angústia e compartilhar seus desejos. Uma porta que fechamos quando não encontramos tempo para conversar com eles — afinal temos que trabalhar muito para darmos a eles o direito de viver um pouco melhor (que contradição, não é mesmo?). Uma porta que fechamos quando nos fechamos em torno de nossas prioridades e problemas. Que trancamos, sempre que consideramos suas lamúrias coisa de adolescente — o tempo resolve, costumamos dizer.

 

Em seu comentário desta terça-feira, no quadro Rio + Limpo, que vai ao ar às 8h50, no CBN Rio, meu colega André Trigueiro falou do tema, baseado na repercussão da cena flagrada no Oregon. Alertou para o fato de as escolas também estarem preparadas para acolher esses meninos e meninas, criarem canais de comunicação, promoverem campanhas informativas e colocarem pessoas capacitadas a escutar os adolescentes.

 

Trigueiro contou a experiência da UERJ — Universidade do Estado do Rio de Janeiro —- que por ser um espaço acessível ao público foi cenário de suicídios de muitos jovens ao longo do tempo até que decidiu assumir a responsabilidade de mudar este quadro. Criou uma disciplina de arquitetura protetiva, orientou os guardas patrimoniais a perceberem movimentações suspeitas, levou os voluntários do CVV —- Centro de Valorização da Vida para suas dependências e faz campanhas com mensagens espalhadas no campi.

 

Diante do fato de que os jovens estão tomando atitudes extremas cada vez mais jovens, estratégias como a da UERJ e de outras instituições educacionais precisam ser estendidas a todas as escolas e centros de convivência dos adolescentes. Ter gente preparada para ouvir sem julgar, apenas com a intenção de acolher, identificar o problema, orientar com palavras ou direcionar a profissionais especializados: “ter alguém disponível para ofertar uma escuta atenciosa e amorosa”, disse Trigueiro. Alguém para nos dar um abraço — como isso faz falta na nossa vida.

 

Invadiram minha conta no Spotify

 

music-on-your-smartphone-1796117_960_720

 

Ter um perfil invadido, independentemente do serviço, é sempre assustador. A primeira dúvida que surge é que tipo de informação o invasor pode obter. Seguida do medo de que esse decida usar seu perfil para qualquer outro tipo de irregularidade. Medo que potencializa diante da constatação de que sua vida digital é acessível e frágil.

 

Nos primórdios do Twitter sofri um ataque. Na época, não havia serviço no Brasil e fui salvo por uma cara chamado @Charles — em saga que relatei aqui no Blog. Recentemente, fui alertado pelo Instagram sobre tentativa de acesso ao meu perfil e identifiquei que o endereço era da Argentina — como o ataque não se concretizou, tudo foi resolvido com um “não reconheço esse acesso”.

 

Agora, quando a invasão é no Spotify? Qual seria a intenção do invasor? Conhecer sua playlist? Confirmar se sou mesmo fã do Molejo? Encher sua playlist de música sertaneja? Aparentemente, os dados de cartão de crédito estão protegidos.

 

Independentemente do que queiram e possam fazer na sua conta, a sensação é muito ruim. E foi o que percebi nessa quarta-feira quando recebi e-mail do próprio Spotify informando que o endereço eletrônico da minha conta havia sido modificado.

 

Se foi você quem fez, não se preocupe —— dizia na mensagem. Preocupei-me imediatamente, é claro.

 

Em seguida, toda a turma que estava cadastrada na conta família soube, também por e-mail, que tinham sido retirada do grupo. Ainda bem que ninguém aqui em casa é paranóico a ponto de achar que estava sendo excluído por qualquer desavença.

 

Antes de clicar em um link disponível no e-mail recebido —- vá que seja mais um golpe que o Thassius Veloso ainda não tenha me informado —-, testei minha conta no serviço e a invasão se confirmou. Não conseguia mais acessá-la através do meu login.

 

Como os links disponíveis não me levavam diretamente à dúvida que tinha, fiz a busca no Google: “invadiram minha conta no Spotify”. A busca me levou a página “Alguém invadiu minha conta”.

 

São feitos alguns pedidos de pouca utilidade como “redefina sua senha”ou “acesse a página da sua conta”. Impossível porque seu e-mail e senha foram modificados.

 

Para não perder tempo, caso você passe por essa situação, vá direto ao “Acesse o nosso formulário de contato”, mas não se assuste: um novo menu será oferecido sem esclarecer muito bem qual caminho seguir —- especialmente se você não teve calma para ler a primeira página de orientação.

 

Em uma série de tentativas e erros, dei os seguintes passos até encontrar uma solução:

1. Alguém invadiu minha conta
2. Selecione Login
3. Clique em “Não consigo entrar”
3. Escolha “Ainda preciso de ajuda”
4. Preencha o primeiro quadro com o tipo de assinatura
5. O segundo com seu nome
5. No terceiro, escreva que sua conta foi invadida
6. Clique em “Iniciar Bate-Papo”

 

Somente após essa caminhada pelo site, comecei a respirar, pois uma caixa de diálogo surgiu e consegui um atendimento pessoal. Para que a conta seja recuperada é preciso apresentar uma captura de tela do recibo de pagamento do Spotify, que costumamos receber por e-mail. Para achá-la, coloque na busca da sua caixa de correio: “recibo do Spotify”. Vale também a captura do extrato do banco ou do cartão de crédito, onde apareça o pagamento.

 

Foram 21 minutos entre o primeiro contato e a conclusão do caso. Pouco mais de uma hora, entre o alerta que chegou por e-mail, a busca das informações para recuperar a conta e a solução final.

 

Uma observação: o atendimento pelo chat foi claro e simpático. Valeu, Aline M!

 

Uma sugestão: colocar na primeira página do Spotify um ícone com o anúncio “SE SUA CONTA FOI INVADIDA ENTRE AQUI” ou algo do tipo “ESTOU AQUI PARA SALVAR VOCÊ”, porque na hora do susto a paciência é curta e o medo intenso — uma combinação explosiva que nos leva a não ler, não pensar e não saber o que fazer.

 

Uma dúvida (ou a mesma dúvida): por que alguém invade uma conta no Spotify?

É proibido calar: mudanças tecnológicas exigem diálogo e aprendizado com nossos filhos

 

EGDXsP7XoAEqtvL

 

A imagem de uma batalha de League of Legends costuma abrir uma das minhas palestras sobre ética e cidadania —- temas do meu último livro “É proibido calar!”. É a maneira que encontro de demonstrar a necessidade de os pais se interessarem pela realidade vivenciada por seus filhos, conhecerem o mundo que eles experimentam e reduzir o distanciamento que permeia muitas das relações familiares. Aposto na ideia de que ao fazermos esse movimento, encontraremos pontos em comum e aumentamos as possibilidades de desenvolvermos uma convivência saudável e pautada na compreensão.

 

Há cerca de uma semana, estive no Colégio Dante Alighieri, um dos mais tradicionais de São Paulo, onde conversei com pais, professores e alguns estudantes. Aproveitei uma das imagens captadas durante o encontro, na qual a tela de fundo é a cena de uma das competições internacionais de LoL realizadas no Brasil, para provocar a turma que me acompanha no Twitter e no Instagram:

 

https://platform.twitter.com/widgets.js

 

Algumas boas reflexões chegaram nesses três dias.

 

A Evelyn Batista (@evelym_watson_batista), no Instagram, escreveu que “acredita que a tecnologia hoje tem muito mais espaço na rotina de nossos filhos, inclusive para as escolhas profissionais deles. Com isto nossas relações estão cada vez mais distantes”.

 

Penso que é inevitável que eles acompanhem de forma intensa a transformação digital —- nós mesmos fazemos isso, haja vista a maneira como acessamos nossos celulares. O esforço tem de ser o de potencializar as relações afetivas que se constroem no cotidiano para que a distância que a Evelyn identifica não se intensifique. Precisamos valorizar a conversa do dia-a-dia, os momentos de proximidade — como o almoço ou o jantar — e, se necessário, provocar encontros mais frequentes nos quais a conversa não seja interrompida por um alerta na tela do celular.

 

Delci Lima (@delcilima12) conta que tem uma menina de 13 anos que vive em mundo virtual como todas as outras crianças da idade dela e nós, pais, em um mundo real: “É um bom paralelo para uma discussão sobre Educação”

 

Em um dos trechos de “É proibido calar!” chamo atenção que é preciso cuidado quando dividimos o mundo em virtual e real:

“Mesmo que a fonte seja virtual, nada mais real do que o sentimento que toca o coração desses jovens”.

Quero dizer que talvez nós é que tenhamos ainda um modelo mental no qual real e virtual estão separados e, pior, em contraposição, quando de verdade se fundem em um só; e nossas vidas e relações tenham de saber conviver nesses “mundos paralelos”.

 

No Twitter, o Evandro Junior (@jemj10) publicou que “esses princípios devem permear qualquer atividade. Sem a observância da #educação #ética e #cidadania o profissional não se completa, poderá ter sucesso, mas nunca será admirado”.

 

Essa ideia, com a qual concordo, me remete a algumas das entrevistas que tenho realizado no programa Mundo Corporativo, em que temos insistido que o novo líder não pode ser medido apenas pelas metas que alcança ou resultados financeiros da empresa —- seu comportamento diante de colaboradores, parceiros de negócio e clientes é o diferencial competitivo a ser valorizado.

 

Ao menos dois dos participantes dessa saudável discussão lembraram de que um dos meus filhos está envolvido no mercado de esportes eletrônicos e esse seria o motivo de o Lol estar no roteiro de minha palestra.

 

O Antonio Santos Jr (@ajunioranalista) escreveu no Twitter que “…você como pai o incentiva, se o incentiva é porque é algo bom para ele. Partindo dessa premissa há várias narrativas que podem ser tomadas em educação, ética e cidadania”.

 

Já o Samuel(@sbtorre) comentou:

“Seria por que um de seus filhos é gamer profissional e lidar com a educação dos filhos em um ambiente de mudança tecnológica e cultural tão significativa exige uma posição de diálogo e aprendizado, um dos motes do seu livro?”

Samuel está certíssimo — exceção ao fato dele ter identificado meu filho como um gamer, quando na realidade é gestor de uma das organizações de e-Sports no Brasil, depois de ter iniciado carreira como técnico e estrategista de Lol.

 

Independentemente da função que exerça, o ambiente para o qual ele se dedica —- e meu filho mais velho tem desenvolvido alguns trabalhos também nesse segmento —- , exigiu de minha parte e de minha mulher um entendimento maior sobre o assunto para que a falta de informação (ou seja, nossa ignorância) não se transformasse em barreira para o desenvolvimento dele. Para que o preconceito, fruto do desconhecimento, não prejudicasse nossa relação com os filhos. Graças ao diálogo que construímos, aprendemos e crescemos juntos.

 

Dito isso, além de agradecer a todos os que participaram desta conversa virtual, parabenizo o Samuel que vai receber em casa um exemplar do livro “É proibido calar!”. Espero que goste!

Sempre fiz questão de mostrar que usava o celular

 

texting-1490691_960_720

 

A convite da jornalista Rosana Hermann escrevi texto que foi publicado, com a devida edição, no livro “Celular, doce lar” (Editora Sextante). O livro está a seu alcance a alguns cliques no próprio celular. O meu texto, reproduzo a seguir:

 

Sempre fiz questão de mostrar que usava o celular. Jamais o contrário. Uma relação que começou com um Gradiente operado pela BCP, em 1998. Por curioso que seja, na época já antecipava o que viria ocorrer tantos anos depois: o celular era meu único telefone. Não havia linha fixa no apartamento que tomei emprestado por alguns meses até a casa nova ficar pronta.

 

A evolução dos celulares foi veloz e na velocidade com que se desenvolvia, eu tentava acompanhá-los. E se eu corria atrás deles já era um sinal de que minha estratégia de relacionamento era marcada por conflitos de interesse. Eu querendo usá-los e eles tentando provar o contrário.

 

Apesar disso, a coisa ainda ia bem enquanto sua única serventia era conversar com outras pessoas. O problema começou mesmo quando outras possibilidades surgiram, especialmente a de se divertir com jogos eletrônicos. O olhar para a tela foi se intensificando e meu propósito de convivência com os celulares foi ficando distante. Cada vez mais distante.

 

Olhava uma vez, olhava duas, três, quatro, dez … com o carro em movimento era uma tentação; no congestionamento, a salvação. Não saia de casa sem ele e dentro de casa o levava no bolso de uma sala para outra.

 

A perdição foi quando descobri o Candy Crush. Apaixonei-me pelos docinhos e brigadeiros que explodiam conforme a combinação de cores. E a cada etapa encerrada um nova tentação surgia. Gula!

 

O susto foi descobrir que seria possível passar as fases mais rapidamente, bastava comprar alguns ítens. Registre seu cartão de crédito e a próxima meta estará logo ali! Simples assim!

 

Foi quando, então, duas forças internas se encontraram: o desejo de jogar e vencer sempre e o terror de gastar dinheiro à toa. Aquele foi um momento decisivo. Um divisor de águas na minha relação com o celular. Ou eu ou ele? Quem manda em quem? Vai encarar!?

 

Não pense que meu desejo de jogar arrefeceu. Joguei Candy Crush em lugares e momentos inusitados. Durante palestra, a espera do sinal abrir, apresentando o programa de rádio, no banheiro – aí também é um clássico, né -, na academia, na sala de aula, na reunião de trabalho … incrível, até assistindo aos jogos do Grêmio me deparei dedilhando os doces e tentando superar as etapas mais difíceis.

 

Joguei e jogo muito Candy Crush até hoje – parei de fazê-lo em algumas situações de perigo, é verdade. Mas posso dizer orgulhosamente que jamais, em momento algum, gastei um só tostão neste joguinho e já passei da fase 1960.

 

Eu venci! Ou melhor quem venceu foi minha “pão-durice”. Insuperável! Se me nego a jogar moedinha na Fontana di Trevi, imagine despejar dinheiro em um joguinho eletrônico.