Mundo Corporativo: desconhecimento sobre ESG de pequenos e médios comerciantes é desafio para Fecomercio, diz Luiz Maia

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“Sem o envolvimento de todos nós não vamos chegar nos objetivos finais; e não podemos jogar toda a responsabilidade no governo”

Luiz Maia, Fecomercio

O trabalho que você realiza, o serviço que você presta, o armarinho do seu bairro ou o mercado ‘tem-tudo’ que abastece sua região têm impacto no meio ambiente? A maioria dos pequenos e médios comerciantes de São Paulo (97%) responderam com um sonoro não a essa pergunta, em uma demonstração de desconhecimento da pegada ecológica que todos deixamos no planeta, independentemente do nosso papel na sociedade. Verdade que de acordo com a nossa consciência e a função que exercemos as marcas que deixamos no meio ambiente são maiores ou menores, mas é inevitável que sejamos consumidores de recursos naturais, como relata Luiz Maia, coordenador do comitê ESG, da Fecomércio SP, em entrevista ao programa Mundo Corporativo:

“Mesmo uma pequena empresa tem de uma certa forma impactos climáticos. Isso pode ser através do descarte dos seus insumos, que não é feito de uma forma adequada, pode ser através de sua cadeia de valores, onde existem emissões de gases, pode ser através de consumo de água, que não tá sendo controlado, não tá sendo monitorado, e pode ser pelo consumo. também, de energia elétrica”.

A Fecomércio — Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo — ouviu 100 empresas do setor na capital paulista, das quais 90 têm menos de dez empregados e as restantes têm mais de 50. Na pesquisa identificou-se que quase um quarto dos entrevistados alegam falta de conhecimento para adotar os critérios ESG. Se não conhecem os impactos ambientais que geram, se não conhecem as práticas de sustentabilidade que estão ao alcance, temos um problema pela frente — cenário que Luiz Maia prefere enxergar como uma oportunidade.

“Essa discussão tem que envolver as grandes empresas, ajudando as pequenas empresas a descobrir como elas podem cooperar e de uma certa forma participarem também desse processo de descarbonização, dos processos de despoluição que nós temos hoje no meio ambiente, na sociedade”

O aspecto social é considerado o mais relevante no tripé ESG por 46% dos comerciantes ouvidos pela Fecomércio. A porcentagem das empresas que deram prioridade a este tema superou as perspectivas ambiental e de governança — ambas com 27%. Para Luiz Maia essa percepção reflete tamvém os efeitos da pandemia, durante a qual muitos negócios se esforçaram para não demitir funcionários e adotaram medidas para controlar a disseminação do coronavírus —- em ações que alcançaram colaboradores, clientes e a vizinhança.

Por falar em oportunidade. Luiz Maia lembra que a maior parte desses comerciantes está na “última milha” do relacionamento com determinadas comunidades, o que pode torná-los em difusores do conhecimento das práticas ESG, alcançando a casa das pessoas nas regiões em que estão inseridos. Por isso, a Fecomercio quer usar os dados da pesquisa para criar estratégias para orientar os pequenos e médios negócios.

Na conversa que tivemos no Mundo Corporativo, provoquei Luiz Maia a antecipar medidas que poderiam ser implantadas de imediato pelos comerciantes atendendo as demandas ESG. Vamos a esse roteiro que vou chamar de Manual Prático de Sustentabilidade:

  1. Reduzir custo de energia elétrica com troca de lâmpadas e equipamentos de maior eficiência energética; e investir em geração fotovoltaica;
  2. Na área da governança, regularizar pagamento de tributos e a contratação de mão de obra;
  3. Fazer um planejamento financeiro que capacita o negócio a ser economicamente sustentável;
  4. Na questão social, pensar como se engajar na comunidade e aproveitar o espírito de voluntarismo do brasileiro para atuar em programas de saúde, educação e segurança pública.
  5. Dar preferência a contratação de pessoal ligado à comunidade em que atua.

“Com essas ações, o pequeno empresário tem o poder de começar a mudar um pouquinho para onde a direção da  agulha está indo; o caminho certo! Eu vejo essa iniciativas totalmente plausíveis de acontecer e se elas estiverem dentro de um contexto de um ecossistema de um grande grupo podem se beneficiar de várias outras formas, também”. 

Assista à entrevista completa com Luiz Maia, coordenador de ESG da Fecomercio SP, ao Mundo Corporativo, da CBN:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Não alimentem as bestas do futebol

Imagem reproduzida da TV

A noite da Copa do Brasil, de quarta-feira,  começou com o ônibus do Atlético Mineiro sendo atacado por tresloucados torcedores do Flamengo. As cenas absurdas se voltaram para dentro do Maracanã, que tiveram portões arrombados e invasão de torcedores sem ingresso. Longe dali, em Santos, novamente as bestas se expressaram, a partir do comportamento de torcedores do Santos que explodiram foguetes contra os jogadores do Corinthians. No apito final, um torcedor correu para dentro do gramado até agredir o goleiro Cássio.

As declarações de indignação se espalharam no noticiário, os pedidos de punição falaram mais alto e notas de repúdio foram publicadas. Nada que vá impedir que os violentos voltem a agir com a conivência de parte da comunidade futebolística, a começar pelos próprios jogadores que deveriam ser os mais preocupados em tentar amenizar os ânimos nas arquibancadas.

Falo dos jogadores porque eles exercem forte influencia sobre os torcedores a medida que são ídolos, reverenciados e têm importância singular no espetáculo — além de serem os principais alvos dos ataques cometidos. Os fatos que assistimos no Rio talvez se realizassem da mesma forma, mas não há como negar que a promessa pública de Gabriel Barbosa, de que o Atlético conheceria o “inferno” no Maracanã,  foi combustível para a agressividade de torcedores sem controle. Detentor dos benefícios que os grandes jogadores têm e merecem, Gabigol precisa também entender que de mãos dadas aos direitos conquistados está a responsabilidade — que não foi exercida na declaração explosiva da semana anterior.

Frases de efeito, troca de provocações e deboches sempre fizeram parte da crônica esportiva, muitas vezes incentivados pelos jornalistas. Infelizmente, o que antes se resumia a “guerra de palavras”, hoje é estopim para gente desequilibrada que leva para os estádios e organizadas suas frustrações e recalques. Portanto, não se tem mais espaço para esse comportamento. O discurso dos boleiros terá de se adaptar a estes tempos sob o risco deles serem as maiores vítimas, em breve.

Em Santos, outro gesto de jogadores me chamou atenção. Logo após o torcedor, que de maneira covarde tentou agredir Cassio pelas costas, ser derrubado no chão por seguranças, jogadores do Santos vieram para defendê-lo como se a besta voadora fosse vítima de uma agressão. Teriam, sim, de ser solidários com Cássio, como o foi Marcos Leonardo que impediu que o goleiro corintiano fosse atingido de forma mais violenta. O torcedor que invade o gramado não apenas é um perigo pelo que ele próprio pode cometer, mas também serve de inspiração para outros que estão na arquibancada, podendo provocar um tragédia no estádio. Portanto, tem de ser condenado e não abraçado pelos jogadores.

É claro que cartolas de federações e dirigentes de futebol teriam de estar à frente de medidas para controlar o comportamento violento dos torcedores. Assim como todos aqueles que investem e lucram com o futebol precisariam estar atentos para essa sequência lamentável de ocorrências. Agora, se os jogadores ficarem de braços cruzados e, pior, tomarem atitudes que sirvam de combustível ou de alimento para essas bestas, o preço a ser pago poderá ser fatal.

Um erro mantido em nome das métricas são dois erros

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Das redes sociais, a que mais uso é o Twitter, por onde deixo alguns palpites, opiniões, informações e recados, desde 2008, quando o ‘passarinho’ estava ainda no ninho, aqui no Brasil. Com o recente interesse de Elon Musk na compra da empresa, falou-se de muitas mudanças, em especial a ideia do “liberou geral” que o visionário confunde com “liberdade de expressão”. Mas também tratou-se de temas mais comezinhos como o botão “editar” que permitiria a correção de muitos erros cometidos na pressa de publicar. 

Sem opinião formada sobre o segundo tema — quanto ao primeiro sou defensor da ideia de que deve sempre haver um mínimo de moderação diante do impacto que as redes têm na vida e na reação das pessoas — , já tive vontade de voltar atrás no que escrevi. Não que eu quisesse rever minha opinião. Queria apenas ter usado uma palavra mais apropriada e, principalmente, corrigida — quando erros na grafia ou na concordância se revelavam. Não pude!

Não apenas não tive essa possibilidade como percebi um fenômeno. Se você publicar uma mensagem com erro e, em seguida, republicar a mesma mensagem com a correção, tenha certeza: a mensagem com erro vai ser retuitada muita mais do que a corrigida. Pode ser que seja pelo fato de que a primeira, por primeira que foi, chegue a mais pessoas antes da segunda, impulsionada por um algoritmo que costumo não entender bem como funciona. 

Diante do fato, desisti de manter a mensagem errada em respeito a quem já havia comentado, clicado ou retuitado. Simplesmente apago. Abri mão do engajamento ou alcance que a  mensagem com erro poderia ter me oferecido em troca da tranquilidade em saber que aquele erro não iria mais tão longe assim, causando uma série de estragos. No caso de erros ortográficos ou de concordância, imagine, alguém pode repeti-lo depois em um retuíte, no recado enviado ao chefe, no bilhetinho para a namorada ou em qualquer outra situação, construindo uma imagem ruim por minha culpa. Não me perdoaria!

Escrevo sobre esse assunto, porque me incomoda a superdependência às métricas que hoje pauta desde decisões editoriais até o ângulo em que você vai tirar uma foto. O título, o lead, a abordagem, a imagem, a cor, a disposição na página, o assunto a ser tratado, o SEO … tudo parece contaminado por aquilo que o algoritmo nos permite e pelos números que alcançamos. A reportagem não é boa pelo conteúdo, profundidade e forma com que é apresentada; é boa se teve engajamento. Se antes já havia essa tentação na busca da atenção, hoje com a possibilidade de se medir quase tudo em tempo real, o risco de nos transformarmos em refém das métricas, multiplica-se. 

Não quero desdenhar o conhecimento que aprofundamos sobre o funcionamento da engrenagem digital nem mesmo estou desmerecendo a importância de se conseguir audiência para o conteúdo que realizamos, mas se temos um compromisso —- e aí estou aqui pensando em um dos papeis do jornalismo profissional —- é com a precisão da informação. Publicar uma informação errada, identificar o erro e mantê-la errada é ser cúmplice de algoritmos que tanto criticamos por serem impulsionadores da intolerância, a medida que reforçam comportamentos e não estimulam a troca de ideias entre os diversos.

Por isso, caro e cada vez mais raro estudante de jornalismo que me acompanha neste blog, se me permitir, faço uma sugestão: sempre que uma informação estiver publicada com erro, apague-a; republique-a corrigida. Comunique seu público. E se alguém vier reclamar do prejuízo às métricas, lembre-o de uma expressão tipicamente italiana: “vaffa …”

E eles só querem viver vivos

Padre Simone está à frente do trabalho do Arsenal da Esperança

Dona Janete escancarou a fome para os brasileiros em uma entrevista na televisão. Uma fala dolorida que deu transparência ao que os números, mesmo que gigantes, às vezes escondem. Não que 33 milhões de famintos vivendo no país que é o quarto maior produtor de alimentos deixem de ser um escândalo, mas quando um desses milhões de rostos surge diante de nós, é chocante. 

“Domingo a gente não tinha nada para comer. Eu estou desempregada, está muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá”

Foi o desabafo da Dona Janete, ao responder a pergunta feita pela repórter do RJTV, na TV Globo, enquanto esperava por uma refeição na fila do programa da prefeitura do Rio que distribui alimentos. Todos choramos com ela. Exagero. Nem todos são suficientemente sensíveis para perceber o que significa ter fome.

Hoje cedo, em mais uma entrevista com candidatos à presidente da República, André Janones, do Avante, respondeu de bate-pronto à pergunta que escolhemos para abrir essa série no Jornal da CBN. “A desigualdade social” é o que ele elegeu como prioridade a ser enfrentada a partir de primeiro de janeiro de 2023. Faz sentido. 

Na pesquisa realizada para me preparar para essa série iniciada na terça-feira encontrei dois dados que mostram a dimensão da desigualdade de renda e de patrimônio, no Brasil: os 10% mais ricos no Brasil ganham quase 59% da renda nacional total; o 1% mais rico possui quase a metade da fortuna patrimonial brasileira.

Números e percentuais que se transformaram em corpo e alma na tarde desta quinta-feira quanto tive oportunidade de visitar a antiga Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. O local que no passado recebia famílias europeias refugiadas de sua terra natal, atualmente abriga cerca de 1.200 pessoas que vivem em situação de rua — brasileiros e estrangeiros. Obra do Arsenal da Esperança, liderada pelo padre italiano Simone Bernardi, que assumiu a missão de levar em frente o projeto do Semig — Servizio Missionario Giovani, iniciado em 1996, por ação de Ernesto Olivero e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

Meu carro de rodas altas e câmbio automático, minha calça com caimento elegante e os sapatos de grife italiana eram extravagantes diante da simplicidade das pessoas que encontrei em uma enorme fila na calçada da rua Doutor Almeida Lima, 900, portão de entrada da Hospedaria. Todos homens e a espera para retornar ao espaço onde estão cadastrados e recebem alimentação, roupa lavada, uma cama para dormir, acesso a cursos, atendimento médico e respeito —- sim, essa é a maior demanda de cada um daqueles que estavam ali: o respeito que qualquer ser humano tem direito a receber em vida.

O local é espaçoso, tem árvores e canteiros bem cuidados. Tem infraestrutura antiga e bem preservada. Mantém a mesma arquitetura que recebia os europeus, desde o fim do século 19 — uma história lembrada por fotos em preto e branco que estão em todas as dependências. Os locais para dormir se apresentam com fileiras de beliches, o restaurante tem longas mesas, capazes de servir 600 refeições por vez. A cozinha industrial é ampla assim como a lavandeira, onde um sistema organizado e sistemático é capaz de receber, lavar e devolver em mãos as roupas das milhares de pessoas que circulam no local. Tem salas de aula e para cursos. Tem bar e bazar. Tem biblioteca, também.

Especialmente, o que se vê nos rostos sofridos e passos pesados dessa gente que circula com seu fardo nas dependências da Hospedaria é a tentativa de revelar a esperança de uma vida melhor. Fui recepcionado por sorrisos e cumprimentos respeitosos. Havia olhares desconfiados, é claro. Afinal, eu era a figura estranha naquele cenário, com minha vida privilegiada e desigual, muito desigual. Distante da vida que eles vivem. 

O passeio por pouco mais de uma hora foi na companhia do Padre Simone, que chegou ao Brasil, em 1996, e diz ter aprendido português ouvindo a rádio CBN. Fico feliz em saber que uma das nossas missões foi cumprida — a de educar pela comunicação —, ao mesmo tempo que fico constrangido ao perceber quão pequeno ainda é nosso trabalho diante da messe que pessoas como o padre e sua equipe de missionários e voluntários  assumem.

Mais do que os políticos e agentes públicos, mais do que os doutores e os senhores, mais do que qualquer um dos que vivem em nosso entorno, mais do que nós mesmos, são eles os verdadeiros construtores das pontes que podem diminuir a desigualdade que impera no Brasil. Que nos fazem acreditar que é possível tornar realidade um dos lemas que os inspira no Arsenal: voglio vivere vivo (quero viver vivo).

Conheça aqui um pouco mais sobre o trabalho do Arsenal da Esperança

Dez recomendações para uma entrevista de excelência

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Foi-se mais um dia de entrevista. Planejada, programada, pensada, pesquisada — sim, quando nos propomos  a estar diante de uma fonte que tem relevância, é preciso que se cumpra uma série de etapas. Quem nos ouve diante do microfone perguntando, replicando e contextualizando talvez não tenha ideia do trabalho prévio que uma boa entrevista exige. Especialmente, se do outro lado estiver alguém que se sente capacitada a assumir o cargo mais alto que se pode desejar no país: o de presidente.

Esse é o desejo de Ciro Gomes, com quem conversamos na terça. Esse é o desejo de Simone Tebet, com que deparamos nesta quarta-feira, no Jornal da CBN. É também o de André Janones, a ser entrevistado na quinta. Todos eles sabem que ocupar esses espaços se faz essencial para expor pensamentos e convencer o cidadão a apoiá-los, a despeito das dificuldades que as pesquisas eleitorais revelam.

Certamente e com grandes possibilidades de se transformar em realidade, tornar-se presidente — mais uma vez —- é o que almejam Lula e Bolsonaro, apesar de que esses querem repetir a experiência sem ter de se expor ao escrutínio do jornalismo profissional. Preferem ocupar os microfones amigos, as falas sob controle, que não questionam, que não apontam contrariedades e falta de lógica. Privilegiam o cercadinho no Palácio ou os palcos montados por correligionários. Lamentavelmente, se escondem atrás da popularidade que o cargo que ocupam ou ocuparam lhes oferece.

De volta às entrevistas — tema central desta nossa conversa. 

Dia desses, na preparação de um curso de rádio e podcast, que em breve estará à disposição do caro e raro leitor deste blog, falei que este é o momento mais incrível da nossa profissão — também tratei em parte do assunto no texto anterior a este. Assim sendo, é preciso estarmos muito bem preparados e, se você me permite, listarei a seguir, algumas recomendações para caso você decida um dia estar nesta privilegiada posição de entrevistador:

  1. Escolha bem o entrevistado. Tem pessoas que realmente são muito inteligentes, geniais, mas que falam muito mal, também. Não sabem se expressar, são prolixas, não completam as frases, falam de maneira entrecortada, que, podem acabar com a entrevista. 
  2. Após escolher o entrevistado, faça uma boa pesquisa. Conheça o perfil dele, saiba como se comporta, o que pensa, o que já falou sobre o tema que você pretende abordar. Quanto mais elementos você tiver em mãos, melhor será sua abordagem e mais difícil será de o entrevistado enrolar você e o seu público.
  3. Com base na pesquisa prévia, prepare um roteiro — alguns colocam os tópicos mais relevantes; outros preferem escrever as perguntas. O importante é que você tenha ideia de onde pretende chegar
  4. Jamais seja refém do seu roteiro e de suas perguntas. Esse material é apenas o ponto de partida. Esteja atento ao que o entrevistado vai dizer, porque a qualquer momento o rumo da conversa pode enveredar por um caminho que você não imaginava.
  5. Uma boa entrevista tem perguntas na medida certa: nem curta demais, a ponto de o entrevistado e o ouvinte não entenderem sobre o que você está falando; nem tão longa que você acabe tomando o espaço dele. Muitas vezes, cometemos o pecado de querer mostrar nosso amplo conhecimento pelo tema e esquecemos que o personagem principal na entrevista é o entrevistado
  6. Uma boa maneira de se posicionar diante do entrevistado é pensar com a cabeça do ouvinte; o que ele estaria interessado em saber daquela pessoa que está sendo entrevistada;
  7. O ideal é não interromper o pensamento do entrevistado, mas sabemos que algumas pessoas falam sem parar e sem ponto de corte; pior, algumas pessoas começam a divagar; se desviam do tema da pergunta — às vezes sem querer, outras de propósito. Cabe a você que está entrevistando, pontuar essas situações.
  8. Trate o entrevistado com o devido respeito — isso não significa que você será subserviente a ele; ou deixará dizer o que bem entender, sem questionamento; 
  9. Sempre que necessário questione o que está sendo dito: lembre-se de uma máxima do jornalismo: notícia é aquilo que alguém não quer que publique.
  10. Esteja preparado para caso o entrevistado tenha uma postura arrogante ou agressiva. Não cabe a você se equiparar a ele. Siga de forma respeitosa, sem deixar de pontuar os erros que ele comete.

Repasso essas e outras sugestões todas as vezes que estou diante de entrevistas com a importância das que estamos realizando nesta semana, na CBN. Aprendo a cada entrevista uma nova lição. Para não parecer exagerado, em algumas sou apenas relembrado de lições que aprendi anteriormente. Ao fim da entrevista, refaço toda a trajetória da conversa na mente, penso como poderia ter abordado o assunto de uma maneira diversa e se deixei de contrapor à altura alguma resposta mal feita pelo entrevistado. 

Amanhã tem mais!

De volta à tensão, à angústia e à alegria que o jornalismo sempre me proporcionou

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O jornalismo é profissão que nos proporciona as mais diversas experiências. Situações que nos põem diante de fatos que farão parte da história, mesmo que no momento em que relatamos o ocorrido não tenhamos ainda ideia do seu verdadeiro significado. Escrevo isso sem conseguir tirar da mente as cenas que descrevi, ao vivo, na CBN, de um avião cravado e em chamas entre os andares 93 e 99 do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Um suposto acidente de avião que se expressaria, em seguida, no atentado terrorista que marcaria para sempre o Século 21, recém-chegado.

Que outra profissão nos colocaria à frente das maiores autoridades do país ou nos ofereceria a chance de conversar com as personalidades nacionais e internacionais das mais diversas áreas, se não o jornalismo? Foi dela que me aproveitei para estar diante dos meus ídolos do futebol — sim, no início de carreira isso me satisfazia;  graças a ela, tive o prazer de ouvir, ao vivo, as palavras de Amir Klink, fascinado com sua trajetória nas travessias oceânicas — eu era um aprendiz de jornalista quanto pude entrevistá-lo por uma hora, em um programa de rádio, em Porto Alegre.

Na missão de melhor informar, deparei com pessoas influentes e poderosas, questionei os maiores mandantes do país, cometi o atrevimento de duvidar de suas palavras, assim como dei oportunidade para que gente comum se expressasse. Se nas Diretas Já era um estudante de jornalismo, no impeachment de Collor fui privilegiado em cobrir os fatos, ao vivo e a cores, em Brasília. De lá para cá, a vivência no rádio, em especial, me colocou diante dos postulantes a presidente da República. 

Na primeira eleição, após a redemocratização, em 1989, fui repórter; em 94, assisti à eleição de Fernando Henrique Cardoso, e repeti o feito em 98, durante sua reeleição. Foi em 2002, que estreie no comando de entrevistas com os candidatos ao cargo de  presidente. De lá até hoje, pelas mais diversas circunstâncias, participei de séries de entrevistas com candidatos a presidente, a governador e a prefeito. Sempre uma nova experiência. Sempre a mesma tensão. Sempre a mesma impressão de que nem tudo que deveria ter sido dito foi dito. 

Hoje, na CBN, abri mais uma série de entrevistas com os candidatos a presidência da República. A estreia foi com Ciro Gomes, a quem já havia entrevistado em situação semelhante, em 2002, quando concorria pela segunda vez ao cargo, e na eleição passada, em 2018. Os cabelos estão mais grisalhos e a voz mais envelhecida, mas não menos efusiva — me refiro a ele. As ideias seguem sendo apresentadas como definitivas. E o incomodo em ser questionado permanece, com a vantagem de se fazer mais controlado nos ataques aos entrevistadores — coisa da qual não escapei em 2018, quando me obriguei a pedir a ele respeito aos jornalistas que faziam parte da mesa de entrevistas.

Encerrei a conversa de uma hora com a mesma sensação das vezes anteriores. Muitos assuntos foram deixados de lado. Coisas importantes para o cidadão não foram debatidas com a devida profundidade. Registre-se: não é culpa do candidato. Nem dos entrevistadores. Tem muito mais a ver com a complexidade do país em que vivemos e a diversidade de problemas que precisamos enfrentar. Para Ciro, o principal é a miséria, e ele garante ter resposta — confira a entrevista que está no link abaixo deste texto. Imagino que não será diferente com os demais convidados. Essa é a grande preocupação do brasileiro.

O Brasil tem 11,9 milhões de desempregados, 4,6 milhões de desalentados e 38 milhões na informalidade. Uma precariedade vivida por 51 de cada 100 cidadãos brasileiros, mais de 33 milhões passam fome e boa parte tem cada vez mais dificuldade de pagar por um prato de comida. Dar resposta a essa angústia em apenas um hora de conversa é quase impossível, porque exige-se um plano amplo de desenvolvimento do país, com diversas frentes de atuação e, principalmente, muita coesão — algo difícil, considerando que boa parte dos agentes públicos coloca seu projeto de poder à frente do projeto do país.

Nesta quarta-feira, entrevistarei, ao lado da minha colega Cássia Godoy, a candidata do MDB, Simone Tebet; na quinta, André Janones, do Avante; e na sexta, Luciano Bivar, do União Brasil. A despeito da capacidade e interesse, assim como dos desejos e delírios de cada um, abrirei as entrevistas com a mesma sensação da primeira vez em que o rádio me colocou diante desses homens e mulheres que se propõem a comandar o país: tenso pela responsabilidade, angustiado pela falta de tempo para encontrar soluções e muito, muito feliz mesmo, pela profissão que escolhi exercer.

Ouça a entrevista completa com Ciro Gomes, candidato do PDT, no Jornal da CBN

Os assassinatos de Bruno e Dom servem à ideologia de Bolsonaro

Corpus Christi se avizinha no instante em que somos informados da confirmação do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips, em mais uma ironia que o calendário impõe aos brasileiros. Na véspera da data cristã em que se celebra o sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo, dois dos suspeitos confessam à polícia que mataram, esquartejaram e queimaram os dois homens que se atreveram em defender o meio ambiente e proteger a dignidade dos indígenas. Serão mártires sem corpos pelo que se interpreta da brutalidade que os assassinos dizem ter cometido. 

A Bruno e Dom não serão dados sequer o direito a velório e enterro, rituais de veneração e respeito que algumas religiões — dentre elas a católica —- oferecem a seus mortos. A consolar os que cultivarão a dor e a saudade, em especial suas famílias, o fato de se saber que ambos tinham na natureza seu lugar sagrado. Foi a mulher de Dom, Alessandra Sampaio, que, ao falar de sua espiritualidade, em entrevista ao jornalista André Trigueiro, domingo passado, comentou que o marido era reservado e costumava dizer que “Deus é a natureza”. Completou o pensamento: “se ele partiu ali, ele estava no meio do Deus que ele acreditava”.

Que sejam abraçados pelas divindades da terra, enquanto nós permaneceremos aqui escandalizados com o que vem acontecendo no Brasil. Um país marcado pela brutalidade que tem o patrocínio do presidente da República, que, desde o início de seu mandato, emite mensagens claras em favor daqueles que exploram ilegalmente a terra, e sustenta grupos criminosos com seu discurso e seus atos contrários à proteção dos territórios indígenas.

Jair Bolsonaro não apenas incentiva as ocupações como pune quem fiscaliza. Foi esse comportamento que levou ao afastamento de Bruno Pereira da Funai, fundação da qual é servidor público, no momento em que ele combatia grupos que atuam de maneira criminosa, na Floresta Amazônica.

Diante do desaparecimento de Bruno e Dom, Jair Bolsonaro foi incapaz de ser solidário. Primeiro, definiu a viagem dos dois como uma “aventura não recomendada”.  O que o presidente chama de aventura — repito aqui o que disse em viva voz no Jornal da CBN —-, nós chamamos de jornalismo investigativo, que se expressa especialmente quando o Estado se ausenta e o crime organizado domina. Depois, inventou a história de que eles não tinham autorização da Funai para estarem no local em que atuavam na busca da verdade, quando se sabe que para andar onde andavam não haveria necessidade de qualquer aval da fundação. Não contente em mentir — exercício que pratica com maestria —,  ofendeu a imagem do jornalista britânico ao dizer que “esse inglês era malvisto na região, porque fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental …”. Defender o meio ambiente é crime na visão distorcida do presidente.

Bolsonaro está tão ensimesmado em seu necrogoverno — característica que ficou exposta na gestão (?) da pandemia do coronavírus —, que é incapaz de enxergar quão contraditório é em suas declarações. Ao admitir  que “lá tem pirata no rio, lá tem tudo que possa imaginar” ou seja a Amazônia é um território sem lei, confessa que o discurso em defesa da soberania nacional é apenas mais uma falácia. 

Pior, muito pior do que isso, é perceber que a morte de Bruno e Dom servem à ideologia bolsonarista. O presidente pouco se importa com as críticas dos mais diversos setores, com os protestos de organismos internacionais e com a transformação do Brasil em pária do mundo. Culpar as vítimas é estratégia de um governo que governa pelo medo e pelo terror. A ele interessa manter a população acuada para oferecer mais falácia, agora no campo da segurança pública, com seu discurso armamentista. A ele interessa dar publicidade a esses crimes em uma tentativa de coagir aqueles que insistem em buscar a verdade.

Que os corpos vilipendiados de Bruno e Dom se transformem em adubo, e da terra onde foram desaparecidos, floresçam novos protagonistas na defesa da justiça e da dignidade humana. 

A certeza fugaz dos políticos

Foto Governo do Estado de São Paulo

A incerteza da política é a certeza que temos à disposição. Mesmo que pesquisas mostrem realidades presentes e o olhar sobre a história passada possam nos oferecer algum rumo, impossível certificar os acontecimentos do futuro. Esta quinta-feira, em especial, foi representativa desta realidade que vivenciamos na política brasileira. De certo mesmo apenas que o presidente Jair Bolsonaro e seus pares fariam movimentos enaltecendo o Golpe Criminoso, Assassino e Militar de 1964 — se alguém se surpreendeu com a nota falaciosa da “junta militar” que reúne as três armas e o ministério da Defesa merece o selo de ingenuidade. 

No cenário eleitoral a incerteza se fez minuto a minuto, neste 31 de março: a cada nota, bastidor e repercussão que ouvíamos sobre os destinos de João Dória e Sérgio Moro —- dois dos tais candidatos da terceira via (ou seria a via do acostamento?) — a certeza se tornava mais fugaz. A de Moro menos do que de Dória. 

O ex-juiz, ex-ministro e ex-candidato à presidência da República acordou certo de que teria sua intenção ao estrelato frustrada: antes mesmo de exercer seu papel como político do Podemos (ex-PTN) trocou de partido e assinou compromisso com o União Brasil, a fusão do DEM com o PSL. Após sonhar com a cadeira no Palácio do Planalto vai ter de se contentar, se eleito, com uma poltrona no plenário na Câmara dos Deputados — onde está fadado a ser uma voz isolada, sem apoio e sem projeto, porque a política (e os políticos) não perdoa.

Nada mais incerto, porém, do que os motivos que levaram aos movimentos de João Dória que ameaçou ficar no Governo, desistir da candidatura à presidência, afundar com as possibilidades de eleição a governador do seu vice, Rodrigo Garcia, assim como a de manutenção do poder que o PSDB tem no Estado, e confirmar a pecha de traidor —- que os bolsonaristas impuseram a ele.  

Doria teria brigado com gente muito próxima dele no Palácio dos Bandeirantes ao perceber que seria vítima de um golpe intra-partido, com seus pares se preparando para embarcar em um campanha ao lado do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Chutou o balde ao dizer em voz alta para que todos os corredores do palácio, no bairro do Morumbi, ouvissem que ficaria no governo até o fim do ano, podendo, quem sabe, ser candidato à reeleição. E abandonando a disputa nacional.

Depois de mexer com a agenda dos tucanos e de outros animais da política brasileira, Dória fez um gesto de paz a Rodrigo Garcia — que já anunciava afastamento da secretaria que ocupa e recebia recados de que haveria um pedido de impeachment contra o governador na Assembleia Legislativa. Ideia de jerico e de propósito vingativo, porque fica difícil de entender qual seria a alegação para sinalizar o impedimento de Doria. Pedalada eleitoral?

Em seguida, o PSDB publicou nota confirmando que Doria é o candidato do partido à presidência — papel que tem tanto valor quanto a promessa que ele havia feito, em 2016, de que cumpriria os quatro anos de mandato à frente da prefeitura de São Paulo. 

À tarde, sob os holofotes e sobre um palanque montado no Palácio, Doria fez entrada triunfal para anunciar que “se é desejo do povo, eu não fico”. Por favor, não confunda: as aspas são minhas. Dória jamais falou isso. Talvez tenha pensado. 

A jornalistas se disse “tranquilo” (as aspas são deles) naquele momento porque havia garantido o apoio explícito do PSDB e afastado qualquer risco de um golpe nas prévias que lhe conferiram o título de pré-candidato à presidência da República.

Doria blefou, é o que dizem alguns —- ideia compartilhada por seu adversário direto, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, desde cedo, em conversas reservadas no Palácio do Piratini. 

Doria brigou — é o que se ouve a partir dos gritos que ecoaram no Palácio dos Bandeirantes. Brigado pensou mesmo em desistir, em uma decisão mais viceral do que política. E, a partir de sua querência, provocou desespero na ala que apoiava Rodrigo Garcia. Diante do desespero, as peças se moveram para agradá-lo  e demovê-lo da ideia de ficar sentado na cadeira de governador, o que inviabilizaria a eleição de Garcia e dificultaria a vida de candidatos a prefeito e deputados estaduais do PSDB. 

Doria foi marqueteiro, como sempre foi, e armou tudo para chamar atenção para o evento em que anunciaria sua renúncia ao Governo do Estado que abriria caminho para a disputa ao Governo Federal. Essa é a possibilidade menos real de todas que surgiram nos comentários públicos e nas conversas de bastidor. 

Ao fim e ao cabo, Doria acordará na sexta-feira certo de que saiu mais forte deste episódio. Eduardo Leite levantará da cama  seguro de que, em breve, será chamado para compor uma chapa com Simone Tebet do MDB. Rodrigo Garcia abrirá a janela do Palácio dos Bandeirantes confiante de que este será seu novo endereço até o fim de 2026. Enquanto, Bolsonaro e Lula estarão convictos de que não aparecerá ninguém capaz de abalar a trajetória deles ao segundo turno das eleições. 

Diante da certezas desses que aí estão, me resta lembrat de frase que teria sido dito por Marques de Maricá: 

“Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda”.

 “Navio de guerra russo, vai se f….”

O palco da batalha foi um pequeno pedaço de terra, insosso, rochoso e isolado no meio do Mar Negro. Durou pouco tempo. O navio russo passava por ali e tinha coisa mais importante para fazer: estava a caminho do porto de Odessa, alvo principal da frota que iniciava a invasão da Ucrania. Deparou com 13 guardas de fronteiras que prestavam serviço no local. E sem muita disposição para negociar, um dos tripulantes anunciou:

“Sou um navio de guerra russo!”

Na sequência, deixou evidente suas inteções:

“Baixem as armas, se rendam e evitem que se derrame sangue e morram pessoas desnecessariamente. Caso contrário serão bombardeados”

A resposta veio de forma inusitada por um dos soldados que estavam em vigília:

“Navio de guerra russo, vai se fuder!””

Os 13 guardas foram fuzilados sem dó.

A história que se passou na Ilha da Serpente foi gravada pelo sistema de segurança, divulgada no portal de notícias Ukrayinska Pravda, e confirmada por um funcionário ucraniano ao The Washington Post. Está nas redes sociais. É destaque no TikTok com uma cena na qual parece ser um guarda de capacete e balaclava praguejando, depois de ter sido atingido pelo fogo. Seria um jovem de 23 anos que morava no porto de Odessa, que viria a ser atacado depois pelos russos.

O presidente Volodimir Zelenskii anunciou que os 13 guardas receberão o título de “Heróis da Ucrânia”, a maior honra que um lider ucraniano pode conceder.

(com informações do jornal português Público)

Terapia de férias!

O sol amanhece no mar. Foto de Mílton Jung (sim, eu mesmo fiz pra relaxar)

Estou de férias. Sim, sou um privilegiado neste país em que é enorme a quantidade de pessoas que antes de pensar no direito às férias batalham pelo direito ao trabalho. Não, não sou um ‘folgado’ como querem fazer acreditar alguns amigos de redação – em especial aqueles três que batem papo comigo no ‘Hora de Expediente’. 

Deixo claro que ao escrever que estou de férias já na primeira frase desse texto, não tenho a intenção de atacar a imagem e reputação de ninguém. Nem dos que saem de férias nem dos que trabalham. Menos ainda daqueles que consideram uma acusação maldosa dizer que a pessoa está de férias, só porque ficou alguns dias afastado do trabalho, dançando funk na lancha, fazendo peripécias em jet ski, cavalo de pau em carro esportivo, engolindo camarão e passeando em meio ao aglomerado na praia. Nós sabemos o trabalho que isso dá!

Dito isso, volto ao tema que me propus escrever, na expectatica de não ser alvo de ataques dos caros e cada vez mais raros leitores deste blog.

Por mais que a ideia das férias seja descansar, desligar, desconectar e mais uma série de outros verbos iniciados pelo prefixo que significa tanto negação quanto reversão, tem hábitos que somos incapazes de abandonar. 

((Somos é muita gente, diria minha mãe. Que, aliás, tinha um conceito bem interessante para férias: qualquer coisa que não me faça trabalhar mais fora do que quando estou em casa)).

Pra colocar a frase na devida proporção: tem hábitos que EU não sou capaz de abandonar, mesmo nas férias. Se você também for assim, conta para mim, vista a camisa e entre no meu time. Levantar cedo da cama é um desses hábitos. Costumo acordar pouco depois das quatro da manhã para trabalhar. Nas férias, o relógio que move minha mente, mesmo que atrase um pouco mais, desperta por volta das cinco.  Nem sempre saio da cama neste horário. Insisto. Estico. Viro de um lado. Vou para o outro. Desisto. 

A partir das cinco, a mente começa a trabalhar independentemente do meu desejo. É como se eu não tivesse controle sobre ela. Me ajuda, Simone! 

Nos últimos dias, mesmo que aparentemente esteja dormindo, a mente teima em resolver problemas que não existem: o Juca vai entrar na hora certa? Qual o assunto do Cortella? E se não fechar a conexão com a GloboNews? É como se todas aquelas questões que se justificam no cotidiano da redação continuassem a perturbar quando eu deveria estar relaxado. Socorro, dr. Alexandre!

Leio especialistas que garantem que os efeitos das férias são evidentes do ponto de vista biológico. Dizem que, além do equilíbrio da mente (?), encontra-se o ponto ideal para os níveis de cortisol, hormônio que ajuda a controlar o estresse; reduz-se inflamações; e se melhora o sistema imunitário. Estou precisando mesmo, diante da quantidade de vírus e irresponsáveis que nos cercam.

Como ainda não falei com a minha amiga e colega de blog, a psicóloga Simone Domingues, nem escrevi para o Dr Alexandre de Azevedo, especialista em sono, que conheci em programa com Márcio Atalla e assisti no canal Dez Por Cento Mais, não tenho respostas baseadas na ciência para essa encrenca que me meti. 

Minha solução caseira tem sido bem simples: a mente começou a trabalhar, levanto da cama, a hora que for, e inicio um processo de descompressão. Observo o horizonte – um tanto privilegiado diante do local que escolhi para passar minha férias -, presto atenção no barulho do mar, na passarinhada que faz a festa no meu entorno, no sol que começa a ofuscar os olhos e, principalmente, me aprofundo no silêncio que só a natureza se atreve a quebrar.

Essa tentativa de alcançar o bem-estar mental às vezes é ameaçada pelo desejo de escrever (este texto, por exemplo), de saber o que está acontecendo no mundo ou de planejar a imprevisibilidade do ano. Em lugar da busca de uma ocupação, insisto na preocupação. É uma batalha diária. Leio que 70% das pessoas precisam de uma semana para vencê-la. Devo fazer parte da legião dos 30% que estendem a luta para duas semanas ou mais. Bem mais no meu caso. E ainda reclamam que tiro muitas férias. Minha mente precisa, gente!

Nesse embate diário, você já deve ter percebido que hoje fui derrotado. O texto que você lê é a prova do crime. Deveria estar com o pé na areia, deixando o vento e o mormaço tomarem meu corpo, mas estou aqui diante do computador, assuntando com você. Assim que der o ponto final — e ele estará logo a seguir —  espero ter descomprimido a mente, dando espaço para o prazer e o bem-estar. Se for esse o resultado, obrigado por você estar aqui comigo. Nossa conversa, se não foi rica em informação e bela em palavreado, que ao menos tenha sido terapêutica!