O microfone merece respeito

 

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O diabo sabe mais por velho do que por diabo —- o ditado que ouvi muitas vezes de meu pai, uso sem parcimônia, especialmente nesses tempos em que os colegas de redação já têm idade para serem meus filhos e a turma, às vezes, fica a espera de uma palavra mais madura e experiente —- o que não significa que seja apropriada. Mesmo que eu me entenda ainda como um jovem, disposto a novidades e desafios, sei da responsabilidade que é conviver com duas ou três gerações que vieram depois de mim.

 

O passar dos anos nos ensina nem que seja pela dor. Cometemos erros, tomamos puxão de orelha e passamos constrangimento; mas tudo isso pode ser pedagógico, se soubermos observar as situações enfrentadas e nos esforçarmos para mudar de comportamento.

 

Lembro de duas situações constrangedoras que vivenciei na apresentação de programas de rádio que me serviram de lição, as duas quando estive à frente do CBN São Paulo.

 

A primeira foi em 2007, durante entrevista com autoridade municipal que insistia em negar os fatos e os números que revelavam a precariedade do serviço prestado pela cidade. Fiquei incomodado com as respostas e fui agressivo nas perguntas. Perdi o controle da entrevista, bati boca com o entrevistado e fui punido pela crítica implacável da maior parte dos ouvintes.

 

Anos depois, estava diante de candidato ao governo de São Paulo, representante de um partido sem noção nem argumentos. Fiz perguntas que entendi pertinentes, que buscavam esclarecer as críticas que o político fazia a seus adversários e escancarar a sua falta de lógica e conhecimento. Mesmo que insistindo em algumas questões, jamais levantei a voz ou me excedi. Minha postura tirou o candidato do sério. Sentido-se acuado, reagiu como um animal: partiu para o ataque; levantou-se da cadeira; apontou o dedo em minha direção; ofendeu-me e, acredito até hoje, não foi às vias de fato porque me mantive impassível, sereno e sentado. A maior parte das mensagens que chegou a rádio foi de solidariedade e apoio a minha postura.

 

Na marra. Fazendo. Errando. Corrigindo. Pedindo desculpas. Eu aprendi. E das muitas coisas que aprendi uma delas é que na posição de jornalista —- especialmente diante de um microfone, em que nossa voz, opinião e comportamento são transmitidos em tempo real —- temos responsabilidade dobrada.

 

É preciso respeito ao entrevistado, sem ser subserviente; é preciso ser firme na busca da verdade, sem ser violento; temos obrigação de questionar, duvidar e cobrar; e quanto mais argumentos, dados e fatos tivermos em mãos, para contrapor, melhor. Gritar e ofender, jamais —- mesmo que seu entrevistado haja desta maneira. Se errar, peça desculpas. Seja humilde. Humildade não é vergonha, é virtude.

 

Entrevista não é boxe. É xadrez. Pede inteligência, sensibilidade e perspicácia. Jamais força e estupidez. Não tem lugar para a arrogância. É preciso senso de justiça, também. Deixar a entrevista encerrar para proferir uma crítica ao entrevistado é desonesto. Ele tem de ter o direito ao contraditório. Toda vez que criticar algo ou alguém, meça o peso de sua palavra e seja sincero, bem sincero, consigo mesmo: você teria coragem de fazer aquela crítica se estivesse diante da pessoa? Se não, não a faça longe dela. É covardia.

 

O microfone merece respeito. Porque é através dele que nos relacionamos com o cidadão — seja um entrevistado seja um colega seja um ouvinte. Respeitar o microfone é respeitar seu público e sua profissão.

 

Tem gente que nem por velho nem por diabo aprende a lição.

Um abraço que salva vidas

 

 

Uma tragédia estava prestes a ocorrer. O jovem de 18 anos, ex-aluno, entra na escola com uma espingarda nas mãos. Aparentemente, a intenção dele era se matar. Diante da cena, estudantes saem em fuga pelos corredores, desesperados. Uma das câmeras de segurança registra o momento em que o técnico de futebol da escola já havia tomado a espingarda das mãos do jovem e lhe oferece um abraço. Assim, abraçados, os dois se movem pelo corredor da escola. E uma vida, ao menos uma, é salva.

 

O fato ocorreu em maio deste ano, no interior da escola de Parkerose, em Portland, no estado americano de Oregon. O vídeo somente foi divulgado há alguns dias. Os dois personagens que aparecem em destaque são o jovem Angel Granado-Diaz e o treinador Keanon Lowe.

 

“Eu só queria que ele soubesse que eu estava lá. Eu disse a ele que estava lá para salvá-lo. Eu estava lá por uma razão e que essa é uma vida que vale a pena ser vivida”, disse Lowe em entrevista.

 

Quantos dos jovens que conhecemos — assim como Granado-Diaz —, tudo que esperam é um abraço para salvá-los da tristeza, da depressão, do desalento, de distúrbios que, na maior parte das vezes, são silenciosos mas não invisíveis. Jovens que nós pais nem sempre somos capazes de perceber que precisavam de uma porta aberta para contar sua angústia e compartilhar seus desejos. Uma porta que fechamos quando não encontramos tempo para conversar com eles — afinal temos que trabalhar muito para darmos a eles o direito de viver um pouco melhor (que contradição, não é mesmo?). Uma porta que fechamos quando nos fechamos em torno de nossas prioridades e problemas. Que trancamos, sempre que consideramos suas lamúrias coisa de adolescente — o tempo resolve, costumamos dizer.

 

Em seu comentário desta terça-feira, no quadro Rio + Limpo, que vai ao ar às 8h50, no CBN Rio, meu colega André Trigueiro falou do tema, baseado na repercussão da cena flagrada no Oregon. Alertou para o fato de as escolas também estarem preparadas para acolher esses meninos e meninas, criarem canais de comunicação, promoverem campanhas informativas e colocarem pessoas capacitadas a escutar os adolescentes.

 

Trigueiro contou a experiência da UERJ — Universidade do Estado do Rio de Janeiro —- que por ser um espaço acessível ao público foi cenário de suicídios de muitos jovens ao longo do tempo até que decidiu assumir a responsabilidade de mudar este quadro. Criou uma disciplina de arquitetura protetiva, orientou os guardas patrimoniais a perceberem movimentações suspeitas, levou os voluntários do CVV —- Centro de Valorização da Vida para suas dependências e faz campanhas com mensagens espalhadas no campi.

 

Diante do fato de que os jovens estão tomando atitudes extremas cada vez mais jovens, estratégias como a da UERJ e de outras instituições educacionais precisam ser estendidas a todas as escolas e centros de convivência dos adolescentes. Ter gente preparada para ouvir sem julgar, apenas com a intenção de acolher, identificar o problema, orientar com palavras ou direcionar a profissionais especializados: “ter alguém disponível para ofertar uma escuta atenciosa e amorosa”, disse Trigueiro. Alguém para nos dar um abraço — como isso faz falta na nossa vida.

 

Invadiram minha conta no Spotify

 

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Ter um perfil invadido, independentemente do serviço, é sempre assustador. A primeira dúvida que surge é que tipo de informação o invasor pode obter. Seguida do medo de que esse decida usar seu perfil para qualquer outro tipo de irregularidade. Medo que potencializa diante da constatação de que sua vida digital é acessível e frágil.

 

Nos primórdios do Twitter sofri um ataque. Na época, não havia serviço no Brasil e fui salvo por uma cara chamado @Charles — em saga que relatei aqui no Blog. Recentemente, fui alertado pelo Instagram sobre tentativa de acesso ao meu perfil e identifiquei que o endereço era da Argentina — como o ataque não se concretizou, tudo foi resolvido com um “não reconheço esse acesso”.

 

Agora, quando a invasão é no Spotify? Qual seria a intenção do invasor? Conhecer sua playlist? Confirmar se sou mesmo fã do Molejo? Encher sua playlist de música sertaneja? Aparentemente, os dados de cartão de crédito estão protegidos.

 

Independentemente do que queiram e possam fazer na sua conta, a sensação é muito ruim. E foi o que percebi nessa quarta-feira quando recebi e-mail do próprio Spotify informando que o endereço eletrônico da minha conta havia sido modificado.

 

Se foi você quem fez, não se preocupe —— dizia na mensagem. Preocupei-me imediatamente, é claro.

 

Em seguida, toda a turma que estava cadastrada na conta família soube, também por e-mail, que tinham sido retirada do grupo. Ainda bem que ninguém aqui em casa é paranóico a ponto de achar que estava sendo excluído por qualquer desavença.

 

Antes de clicar em um link disponível no e-mail recebido —- vá que seja mais um golpe que o Thassius Veloso ainda não tenha me informado —-, testei minha conta no serviço e a invasão se confirmou. Não conseguia mais acessá-la através do meu login.

 

Como os links disponíveis não me levavam diretamente à dúvida que tinha, fiz a busca no Google: “invadiram minha conta no Spotify”. A busca me levou a página “Alguém invadiu minha conta”.

 

São feitos alguns pedidos de pouca utilidade como “redefina sua senha”ou “acesse a página da sua conta”. Impossível porque seu e-mail e senha foram modificados.

 

Para não perder tempo, caso você passe por essa situação, vá direto ao “Acesse o nosso formulário de contato”, mas não se assuste: um novo menu será oferecido sem esclarecer muito bem qual caminho seguir —- especialmente se você não teve calma para ler a primeira página de orientação.

 

Em uma série de tentativas e erros, dei os seguintes passos até encontrar uma solução:

1. Alguém invadiu minha conta
2. Selecione Login
3. Clique em “Não consigo entrar”
3. Escolha “Ainda preciso de ajuda”
4. Preencha o primeiro quadro com o tipo de assinatura
5. O segundo com seu nome
5. No terceiro, escreva que sua conta foi invadida
6. Clique em “Iniciar Bate-Papo”

 

Somente após essa caminhada pelo site, comecei a respirar, pois uma caixa de diálogo surgiu e consegui um atendimento pessoal. Para que a conta seja recuperada é preciso apresentar uma captura de tela do recibo de pagamento do Spotify, que costumamos receber por e-mail. Para achá-la, coloque na busca da sua caixa de correio: “recibo do Spotify”. Vale também a captura do extrato do banco ou do cartão de crédito, onde apareça o pagamento.

 

Foram 21 minutos entre o primeiro contato e a conclusão do caso. Pouco mais de uma hora, entre o alerta que chegou por e-mail, a busca das informações para recuperar a conta e a solução final.

 

Uma observação: o atendimento pelo chat foi claro e simpático. Valeu, Aline M!

 

Uma sugestão: colocar na primeira página do Spotify um ícone com o anúncio “SE SUA CONTA FOI INVADIDA ENTRE AQUI” ou algo do tipo “ESTOU AQUI PARA SALVAR VOCÊ”, porque na hora do susto a paciência é curta e o medo intenso — uma combinação explosiva que nos leva a não ler, não pensar e não saber o que fazer.

 

Uma dúvida (ou a mesma dúvida): por que alguém invade uma conta no Spotify?

É proibido calar: mudanças tecnológicas exigem diálogo e aprendizado com nossos filhos

 

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A imagem de uma batalha de League of Legends costuma abrir uma das minhas palestras sobre ética e cidadania —- temas do meu último livro “É proibido calar!”. É a maneira que encontro de demonstrar a necessidade de os pais se interessarem pela realidade vivenciada por seus filhos, conhecerem o mundo que eles experimentam e reduzir o distanciamento que permeia muitas das relações familiares. Aposto na ideia de que ao fazermos esse movimento, encontraremos pontos em comum e aumentamos as possibilidades de desenvolvermos uma convivência saudável e pautada na compreensão.

 

Há cerca de uma semana, estive no Colégio Dante Alighieri, um dos mais tradicionais de São Paulo, onde conversei com pais, professores e alguns estudantes. Aproveitei uma das imagens captadas durante o encontro, na qual a tela de fundo é a cena de uma das competições internacionais de LoL realizadas no Brasil, para provocar a turma que me acompanha no Twitter e no Instagram:

 

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Algumas boas reflexões chegaram nesses três dias.

 

A Evelyn Batista (@evelym_watson_batista), no Instagram, escreveu que “acredita que a tecnologia hoje tem muito mais espaço na rotina de nossos filhos, inclusive para as escolhas profissionais deles. Com isto nossas relações estão cada vez mais distantes”.

 

Penso que é inevitável que eles acompanhem de forma intensa a transformação digital —- nós mesmos fazemos isso, haja vista a maneira como acessamos nossos celulares. O esforço tem de ser o de potencializar as relações afetivas que se constroem no cotidiano para que a distância que a Evelyn identifica não se intensifique. Precisamos valorizar a conversa do dia-a-dia, os momentos de proximidade — como o almoço ou o jantar — e, se necessário, provocar encontros mais frequentes nos quais a conversa não seja interrompida por um alerta na tela do celular.

 

Delci Lima (@delcilima12) conta que tem uma menina de 13 anos que vive em mundo virtual como todas as outras crianças da idade dela e nós, pais, em um mundo real: “É um bom paralelo para uma discussão sobre Educação”

 

Em um dos trechos de “É proibido calar!” chamo atenção que é preciso cuidado quando dividimos o mundo em virtual e real:

“Mesmo que a fonte seja virtual, nada mais real do que o sentimento que toca o coração desses jovens”.

Quero dizer que talvez nós é que tenhamos ainda um modelo mental no qual real e virtual estão separados e, pior, em contraposição, quando de verdade se fundem em um só; e nossas vidas e relações tenham de saber conviver nesses “mundos paralelos”.

 

No Twitter, o Evandro Junior (@jemj10) publicou que “esses princípios devem permear qualquer atividade. Sem a observância da #educação #ética e #cidadania o profissional não se completa, poderá ter sucesso, mas nunca será admirado”.

 

Essa ideia, com a qual concordo, me remete a algumas das entrevistas que tenho realizado no programa Mundo Corporativo, em que temos insistido que o novo líder não pode ser medido apenas pelas metas que alcança ou resultados financeiros da empresa —- seu comportamento diante de colaboradores, parceiros de negócio e clientes é o diferencial competitivo a ser valorizado.

 

Ao menos dois dos participantes dessa saudável discussão lembraram de que um dos meus filhos está envolvido no mercado de esportes eletrônicos e esse seria o motivo de o Lol estar no roteiro de minha palestra.

 

O Antonio Santos Jr (@ajunioranalista) escreveu no Twitter que “…você como pai o incentiva, se o incentiva é porque é algo bom para ele. Partindo dessa premissa há várias narrativas que podem ser tomadas em educação, ética e cidadania”.

 

Já o Samuel(@sbtorre) comentou:

“Seria por que um de seus filhos é gamer profissional e lidar com a educação dos filhos em um ambiente de mudança tecnológica e cultural tão significativa exige uma posição de diálogo e aprendizado, um dos motes do seu livro?”

Samuel está certíssimo — exceção ao fato dele ter identificado meu filho como um gamer, quando na realidade é gestor de uma das organizações de e-Sports no Brasil, depois de ter iniciado carreira como técnico e estrategista de Lol.

 

Independentemente da função que exerça, o ambiente para o qual ele se dedica —- e meu filho mais velho tem desenvolvido alguns trabalhos também nesse segmento —- , exigiu de minha parte e de minha mulher um entendimento maior sobre o assunto para que a falta de informação (ou seja, nossa ignorância) não se transformasse em barreira para o desenvolvimento dele. Para que o preconceito, fruto do desconhecimento, não prejudicasse nossa relação com os filhos. Graças ao diálogo que construímos, aprendemos e crescemos juntos.

 

Dito isso, além de agradecer a todos os que participaram desta conversa virtual, parabenizo o Samuel que vai receber em casa um exemplar do livro “É proibido calar!”. Espero que goste!

Sempre fiz questão de mostrar que usava o celular

 

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A convite da jornalista Rosana Hermann escrevi texto que foi publicado, com a devida edição, no livro “Celular, doce lar” (Editora Sextante). O livro está a seu alcance a alguns cliques no próprio celular. O meu texto, reproduzo a seguir:

 

Sempre fiz questão de mostrar que usava o celular. Jamais o contrário. Uma relação que começou com um Gradiente operado pela BCP, em 1998. Por curioso que seja, na época já antecipava o que viria ocorrer tantos anos depois: o celular era meu único telefone. Não havia linha fixa no apartamento que tomei emprestado por alguns meses até a casa nova ficar pronta.

 

A evolução dos celulares foi veloz e na velocidade com que se desenvolvia, eu tentava acompanhá-los. E se eu corria atrás deles já era um sinal de que minha estratégia de relacionamento era marcada por conflitos de interesse. Eu querendo usá-los e eles tentando provar o contrário.

 

Apesar disso, a coisa ainda ia bem enquanto sua única serventia era conversar com outras pessoas. O problema começou mesmo quando outras possibilidades surgiram, especialmente a de se divertir com jogos eletrônicos. O olhar para a tela foi se intensificando e meu propósito de convivência com os celulares foi ficando distante. Cada vez mais distante.

 

Olhava uma vez, olhava duas, três, quatro, dez … com o carro em movimento era uma tentação; no congestionamento, a salvação. Não saia de casa sem ele e dentro de casa o levava no bolso de uma sala para outra.

 

A perdição foi quando descobri o Candy Crush. Apaixonei-me pelos docinhos e brigadeiros que explodiam conforme a combinação de cores. E a cada etapa encerrada um nova tentação surgia. Gula!

 

O susto foi descobrir que seria possível passar as fases mais rapidamente, bastava comprar alguns ítens. Registre seu cartão de crédito e a próxima meta estará logo ali! Simples assim!

 

Foi quando, então, duas forças internas se encontraram: o desejo de jogar e vencer sempre e o terror de gastar dinheiro à toa. Aquele foi um momento decisivo. Um divisor de águas na minha relação com o celular. Ou eu ou ele? Quem manda em quem? Vai encarar!?

 

Não pense que meu desejo de jogar arrefeceu. Joguei Candy Crush em lugares e momentos inusitados. Durante palestra, a espera do sinal abrir, apresentando o programa de rádio, no banheiro – aí também é um clássico, né -, na academia, na sala de aula, na reunião de trabalho … incrível, até assistindo aos jogos do Grêmio me deparei dedilhando os doces e tentando superar as etapas mais difíceis.

 

Joguei e jogo muito Candy Crush até hoje – parei de fazê-lo em algumas situações de perigo, é verdade. Mas posso dizer orgulhosamente que jamais, em momento algum, gastei um só tostão neste joguinho e já passei da fase 1960.

 

Eu venci! Ou melhor quem venceu foi minha “pão-durice”. Insuperável! Se me nego a jogar moedinha na Fontana di Trevi, imagine despejar dinheiro em um joguinho eletrônico.

Senador, vai liberar geral ou vai criar vergonha na cara?

 

 

(Atualizada às 7h56 desta terça-feira)

O Senado pode votar nesta terça-feira projeto de lei que se caracteriza como um atentado à transparência na política. É o PL 5029/19 que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e precisa ser sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro até o dia 4 de outubro para que já comece a valer nas eleições municipais. Inicialmente, o PL teria de ser discutido na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas uma estratégia usada por senadores que apoiam o projeto é levar diretamente ao plenário para acelerar a aprovação.

 

 

Uma ampla mobilização se iniciou para pressionar senadores a impedirem o andamento deste projeto que será um retrocesso no processo eleitoral liberando geral para partidos e políticos usarem o seu dinheiro (o seu, o meu, o nosso dinheiro) da maneira que bem entenderem.

 

 

Além disso, ficará muito mais difícil controlar como esse dinheiro está sendo gasto. E não é pouca coisa. Pois os parlamentares estão tentando aprovar um fundo eleitoral que pode passar dos R$ 3,7 bilhões, em um orçamento escasso na maior parte das áreas de interesse do cidadão.

 

 

Apenas por uma das iniciativas da sociedade civil, os senadores já receberam mais de 1.000 e-mails pedindo para que parem com esta barbaridade. É pouco se levarmos em consideração o estrago que o projeto de lei vai provocar.

 

 

Abaixo, alguns pontos que foram avaliados pelo movimento que tem a participação de 20 entidades civis em defesa da transparência na política:

 

• Permite que cada partido utilize um sistema diferente para prestação de contas. Deverá significar o fim do sistema eletrônico implementado pela Justiça Eleitoral em 2017, que permite padronização e comparação das prestações de contas. Volta da caixa-preta dos partidos.

 

 

• Determina que multas por desaprovação das contas só podem ser aplicadas se ficar comprovada conduta dolosa, ou seja, intencional.

 

 

• Pode dar anistia às prestações de contas ainda não transitadas em julgado em todas as instâncias, uma vez que multas só poderão ser aplicadas se comprovada conduta dolosa.

 

 

• Permite que recursos do Fundo Partidário sejam transferidos para qualquer instituto privado, bastando que seja presidido pela Secretária da Mulher.

 

 

• Permite que os candidatos e partidos insiram dados falsos sobre as contas de campanha no SPCE e no DivulgaCand (sistemas eletrônicos do TSE utilizados para divulgar as contas dos candidatos durante as campanhas) e na prestação parcial.

 

 

• Permite o pagamento de advogados para políticos acusados de corrupção com dinheiro público.

 

 

• Permite o pagamento de advogado com recursos do Fundo Partidário, inclusive em processo de “interesse indireto” do partido.

 

 

• Afrouxa o combate à corrupção ao retirar as contas bancárias dos partidos dos controles de PEP (Pessoas Politicamente Expostas).

 

 

• Retira as despesas com advogados e contadores da contabilidade da campanha e do limite de gastos (margem para caixa dois e lavagem de dinheiro).

 

 

• Retira autonomia dos técnicos que analisam as contas dos partidos, que deixam de poder recomendar as sanções aplicáveis.

 

 

• Facilita ainda mais o pagamento das multas aplicadas aos partidos e diminui seu poder inibidor, limitando os descontos que a Justiça Eleitoral pode fazer nos repasses do Fundo Partidário a no máximo 50% do valor devido.

 

 

• Permite o pagamento de passagem aérea com recurso do Fundo Partidário para qualquer pessoa, inclusive não filiados.

 

 

• Isenta o partido das obrigações trabalhistas em relação à maior parte de seus funcionários.

 

 

• Permite que pessoas físicas paguem despesas de campanha com advogados e contadores sem limite de valor (margem para caixa dois e lavagem de dinheiro).

Você pode mandar o e-mail para os senadores da Comissão de Constituição e Justiça através deste link. Lá tem um texto pronto para você não ter trabalho.

 

 

A minha sugestão é que você use as redes sociais para perguntar ao seu senador:

 

 

VAI LIBERAR GERAL OU VAI CRIAR VERGONHA NA CARA?

O chofer de aplicativo que transformou passageiros em personagens

 

 

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“No Divã do Taxi Driver” foi escrito por Paulo Maia e lançado nesta terça-feira, em São Paulo. O autor eu apresento em prefácio que reproduzo a seguir. O livro está a sua espera nas lojas do ramo ou no carro que Maia usa para transportar passageiros — sorte sua se encontra-lo na “praça”:

 

Sou do tempo do chofer de praça. O nome foi importado e reescrito do francês “chauffer”, que significava por lá “operador de máquinas a vapor e, por extensão, de outras máquinas”. Apenas alguns anos depois, demos preferência a motorista, que deriva do Latim motor, “o que confere movimento”. Como a palavra motorista passou a designar todos aqueles que dirigem algum tipo de transporte terrestre, sempre achei mais bonito chamar os profissionais da praça de chofer.

 

 

A propósito, chofer de praça porque geralmente era onde ficavam a espera dos passageiros. Sim, naquele tempo, não era o motorista que vinha até nós, nós é que íamos até o motorista — coisa antiga, não é mesmo?!? Por acaso, a maior parte dos pontos que usei ficava mesmo é na esquina e não na praça. Um deles o da Saldanha Marinho, onde morei na minha infância e adolescência, em Porto Alegre.

 

 

No ponto da Saldanha tínhamos choferes de primeira. A maioria conhecia minha mãe, a Ruth, e estava acostumada a vê-la chegar com os três filhos pendurados pela mão para embarcar para a escola, para a consulta no médico ou para qualquer outro destino na cidade. Conheciam-na pelo nome, assim como nós os conhecíamos, também. Sabiam parte de nossa história e costumavam palpitar sobre nossas escolhas de roupa, de hábito e de time. O faziam de maneira respeitosa.

 

 

A confiança era tal, que para se desdobrar entre a irmã mais velha e o irmão mais novo, minha mãe me deixava com o chofer, passava o endereço e sabia que a entrega seria garantida. Fez isso comigo e com meus irmãos. Pagava a corrida no outro dia —- devidamente anotada na caderneta de fiado do motorista. Por isso não me surpreendi quando há mais ou menos uns cinco anos, um dos choferes me reconheceu no banco de trás do carro e puxou papo sobre minha mãe, falecida em 1986.

 

 

O ponto ainda está por lá —- lembro de tê-lo visto na última vez que visitei a cidade. Mas como a maioria dos outros que persistem estava vazio. Para meus filhos, não fazem o menor sentido. Se precisam sair de casa, seguir para o trabalho ou encontrar os amigos, sacam o celular e acessam o aplicativo. Em segundos, o alerta da chamada aparece, o nome do motorista fica registrado, o tempo e o custo da corrida, também. Em lugar de procurar um chofer de praça esperam o motorista de aplicativo —— confesso que ainda procuro um nome melhor para a profissão, mas seja qual for o que eu escolha imagino já ser voto vencido. Assim que o motorista chega, chama meus filhos pelo nome e se houver oportunidade e interesse dos passageiros puxa papo com eles. A viagem se encerra sem que eles precisem ter dinheiro no bolso. “Esse merece cinco estrelas’, dizem os meninos.

 

 

Mesmo que o tempo tenha passado e os costumes se transformado de forma inimaginável para os choferes de praça que me transportavam — e para mim, também —, algumas coisas ficaram e devem ser perpetuadas por aqueles que exercem a função nos dias atuais. A gentileza no atendimento. O bom dia, o boa tarde e o boa noite. O por favor e o muito obrigado. O sorriso no rosto e a conversa agradável. A direção segura e o relacionamento confiável. O bom chofer precisa também ser bom ouvinte. Entender quando o passageiro entrou no carro disposto a contar a sua própria história ou quer apenas o silêncio da viagem.

 

 

Agora, imagine o que pode acontecer quando você entra em um carro de aplicativo e o motorista que vai levá-lo ao destino final, além de ter tudo aquilo que eu admirava em um bom chofer, também adora escrever? Acredite, você corre o sério risco de se transformar em personagem de belas histórias vividas no trânsito de nossas cidades. Assim como aconteceu com Dona Cristina e Dona Maria da Glória, Seu Vinícios e Doutor Fábio ou Doutor Renato e seu cão-guia Luky, que me foram apresentados neste livro que você tem em mãos. Aliás, assim como aconteceu com todos eles e muitos outros que tiveram o privilégio de chamar o transporte pelo aplicativo e deparar com Paulo Maia na direção — um motorista com hábitos dos meus choferes preferidos.

 

 

Por curioso que seja, mesmo que a mim tenha sido dado o privilégio de escrever este prefácio, nunca tive a chance de encontrar o bom chofer Maia nas minhas viagens pela cidade. A não ser dia desses quando estava atravessando a pé a avenida e ouvi um grito que saía pela janela do carro: “fala, Miltão!”. Aquela voz eu reconheceria no trânsito congestionado de São Paulo, na pizzaria lotada de fregueses ou em meio a solidão do Estreito de Gibraltar. Era o Maia com meio corpo para fora da janela me cumprimentando da mesma maneira que costumava fazê-lo quando nos encontrávamos nas atividades sociais e de voluntariado, no Morumbi, ou quando eu frequentava uma das melhores pizzarias que já conheci na cidade, da qual ele era o proprietário.

 

 

Sim, caro leitor, cara leitora, o Paulo Maia já foi dono de pizzaria e já se aventurou por muitas outras áreas da vida. Ele também já fumou duas carteiras de cigarro por dia, teve enfarto e driblou os males que a saúde lhe pregava. Recuperou-se e se desafiou: cruzou o Canal da Mancha e o Estreito de Gibraltar a nado —- aliás, foi o segundo brasileiro com mais de 50 anos a completar essa travessia. Foi nessa última que o entrevistei durante o programa de rádio que apresento na CBN. Na verdade, entrevistei seu treinador que estava em um barco ao lado, porque ele estava dedicado a dar suas braçadas para vencer os 20 quilômetros que separam Espanha e Marrocos. Conta que ao ouvir meu nome, lembrou-se de muita gente que gosta e estava em terra torcendo por ele. Isso o fortaleceu e o fez resistir às dores e completar o percurso.

 

 

O último desafio que enfrentou foi quando teve de fechar as duas pizzarias que tinha na cidade, encontrar uma saída para as dívidas que se avolumavam e pagar a conta dos funcionários que mantinha —- alguns há cerca de 20 anos trabalhando com ele. Para essa travessia da vida também contou com o apoio de amigos que o incentivaram a recomeçar, se reinventar. Maia pegou carona na economia compartilhada que proporcionou a milhares de brasileiros a oportunidade de transformar bens particulares em negócio. Cadastrou-se em empresas de transporte por aplicativo, colocou seu carro na praça e, desde 2017, calcula ter rodado mais de 170 mil quilômetros de norte a sul, de leste a oeste, de um canto a outro da cidade de São Paulo.

 

 

Foram mais de 11 mil pessoas transportadas na capital paulista — gente que ao chamar o transporte não imaginava que estava prestes a se transformar em protagonista de uma história bem contada. Com a atenção que o trânsito exige e o atendimento que o passageiro merece, Maia ouviu lamentos e recordações, alegrou-se com as comemorações e vitórias pessoais de cada um, e foi apresentado a citações religiosas e situações constrangedoras. Memorizou boa parte desses diálogos, anotou outras e reconstruiu algumas passagens que vivenciou enquanto levava as pessoas, seus amigos e seus familiares ao destino final.

 

 

Agora, Paulo Maia, como um bom chofer ou um motorista cinco estrelas —- para ficar mais atualizado — gentilmente nos convida a fazer essa travessia ao lado dele, nos levando por uma viagem que percorre a alma humana, entra na avenida mais próxima para nos revelar o que está na mente das pessoas e, desviando dos buracos do cotidiano, nos permite ouvir como bate o coração de cada um de seus passageiros.

 

 
Boa viagem!

Vaga de garagem é coisa séria: Raquel Dodge vai ter de se explicar no STF

 

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No condomínio, poucas coisas causam tanta discussão quanto uma vaga na garagem. Por mais modernos que tentam ser os administradores, usando da tecnologia para determinar qual quinhão caberá a cada um dos condôminos, sempre alguém sai insatisfeito do sorteio realizado. Ou porque o carro ficou muito ao fundo, ou porque está próximo de mais da pilastra, ou porque o espaço é estreito para manobrar o USV do malandro.

 

Em alguns condomínios a vaga é fixa. Em outros, é rotatória para ver se acalmam-se os ânimos. Em todos tem sempre alguém insatisfeito e ameaçando levar às últimas instâncias sua reivindicação por uma vaga mais confortável onde possa deixar seu carango sem risco de arranhões na porta ou contorcionismos ao volante.

 

Por uma conspiração do destino — e agradeço a Deus por essa graça alcançada —-, apenas uma vez na vida tive de encarar o desafio de dividir espaço e controvérsias com moradores de apartamentos vizinhos. Mesmo assim foi apenas de passagem e decidi que estacionaria meu Gol no lugar que os demais condôminos decidissem. O único transtorno era ter de manobrar diariamente o carro que ficava na vaga em frente a minha. Mas confesso que até me diverti com a oportunidade.

 

Verdade que quando era mais jovem, meu Chevette não tinha lugar na garagem de casa e tinha de estacionar na oficina de um vizinho que alugava o espaço. Ali o problema não era a vaga, mas o barulho. Como era adepto das noitadas e o dono da oficina já era um senhor de idade e com família comportada, toda vez que entrava com o carro, ele se revirava na cama.

 

Nas empresas brasileiras, ter vaga na garagem ou mais próxima da entrada principal é coisa para crachá de peso. Funcionário comum pára onde pode e dependendo da organização vai ter de pagar aluguel no estacionamento da região. Um comportamento que diz muito da maneira como vivemos em uma sociedade formada por castas ao contrário de países mais civilizados.

 

Você já deve ter assistido a vídeos e informações de que em alguns países desenvolvidos, quem chega antes pára mais distante da entrada, pois têm tempo de sobrar para chegar ao escritório. Assim deixam as vagas mais próximas para turma que se atrasa e precisa correr para bater o ponto. É civilização que chama, né?

 

Aqui no Brasil essa discussão é tão complexa que até a futura-ex-Procuradora Geral da República Raquel Dodge é alvo de ação no STF por negar vaga de garagem a um subprocurador. Isso mesmo: ela pode ser condenada por não ceder uma vaga na garagem no estacionamento da PGR.

 

Segundo o portal G1, o subprocurador Moacir Guimarães foi quem entrou com ação no Supremo Tribunal Federal. Ele ficou incomodado porque havia pedido para que um auxiliar pudesse estacionar na garagem para “agilidade dos trabalhos”. Raquel Doge, que responde também pela área administrativa da Procuradoria, baseou-se em portaria que prevê vagas apenas para os subprocuradores, não para seus auxiliares. É privilégio que chama, né?

 

Guimarães reclama porque, segundo ele, existem várias vagas desocupadas na garagem, “o que demonstra claramente a má vontade da Autoridade coatora em atender, no final do seu mandato, o pedido do impetrante eis que em todo o período de sua gestão os questionamentos foram feitos”.

 

Para quem achava que os maiores problemas que Raquel Doge teria de enfrentar nessa reta final de trabalho —- ela deixa o cargo no dia 17 de setembro —- fossem as indicações fora de época que fez para algumas procuradorias regionais ou o pedido de demissão dos procuradores da força-tarefa da Lava-Jato, jamais imaginaria que ela estaria com a cabeça a prêmio e julgada pelo STF por uma acusação desse porte: não autorizar o uso da vaga da garagem para subalternos.

O futebol não quer você no estádio adversário

 

Gremio x Palmeiras

Torcida do Grêmio no Pacaembu, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em um momento em que o futebol brasileiro tem conseguido mobilizar uma quantidade significativa de torcedores para os estádios —- e os “calculistas” podem me confirmar se a média de público tem aumentado, neste ano —- quero conversar com você, caro e raro leitor deste blog, sobre a dificuldade para se assistir aos jogos no estádio do adversário.

 

(ops: antes de seguir em frente, acabo de receber a confirmação do meu colega Paulo Vinícius Coelho: o público tem aumentado, a média está em 20.700 torcedores, a maior em 36 anos)

 

Nasci e fiz minha infância e adolescência quase dentro de um estádio de futebol. O quintal da casa em que morei, em Porto Alegre, era o Olímpico Monumental. Assistir aos jogos pelo interior do Rio Grande do Sul também não era um problema pois tinha o privilégio de chegar aos estádios na companhia da equipe de esportes da Rádio Guaíba, estivesse ou não com o meu pai. Os portões se abriam e na pior das hipóteses eu arrumava um lugarzinho na cabine da emissora.

 

Nos clássicos que eram disputados no Beira Rio a logística era parecida graças ao carinho com que a diretoria do Grêmio sempre concedeu ao meu pai. Assim, era fácil encontrar um diretor gremista que me acolhia e  me levava junto com o staff para o estádio adversário.

 

As coisas começaram a ficar mais complicadas aqui em São Paulo. Os primeiros jogos em que me arrisquei foi no Canindé, em época na qual a Portuguesa estava sempre disposta a pregar suas peças —- bons tempos aqueles, não é Luisinho! Foi lá, porém, que tive minha primeira decepção. Pois insisti em levar um dos meus filhos. A desorganização na fila do ingresso, a forma agressiva com que os cambistas nos abordavam e a violência de uma das organizadas fez com que ele me pedisse para nunca mais convidá-lo para aquele selvageria.

 

Tivemos algumas experiências, também, no Parque Antártica e no Morumbi —- nada muito convidativo, mesmo que os resultados em campo tenham sido positivos para o meu Grêmio. Aliás, antes mesmo de os meus meninos serem gremistas, fui ao Morumbi com eles para ver o São Paulo em campo e os maus-tratos foram tais que acabamos sentados nas cadeiras reservadas ao time adversário, que estavam completamente vazias.

 

Transformei-me em torcedor de televisão, especialmente depois do surgimento do paga-pra-ver. É mais fácil, mais seguro e mais confortável — mesmo que nada se comparece com o prazer de você pular na arquibancada, gritar até a voz se perder e comemorar abraçado a alguém do seu lado que você jamais viu na vida e jamais verá de novo, mas se identifica com você pela cor da sua camisa.

 

Nesta semana, muitos amigos não acreditaram que eu não assistiria ao Grêmio na Libertadores, no estádio do Pacaembu, em São Paulo.

 

Pense comigo: o trajeto até o estádio tem de ser feito de forma clandestina, porque se um louco qualquer identificá-lo com a camisa contrária, você corre o risco de ser agredido. Estacionar seu carro nas proximidades do estádio é uma façanha (e um achaque). O espaço destinado ao torcedor adversário é sempre o pior possível. Distante e em um canto qualquer, cercado de seguranças por todos os lados, oferecendo a sensação de que você é um terrorista prestes a explodir uma bomba. Ao fim da partida, você se transforma em refém, pois só pode deixar o local quando a polícia entender que está tudo em ordem do lado de fora. Ou seja, para um jogo que começa às nove e meia da noite, como foi o caso desse, você só vai voltar para a casa por volta de uma hora da manhã —- inviável para quem como eu acorda às quatro da matina.

 

Entenda, não estou aqui desmerecendo o sistema de segurança necessário para manter a ordem e os bons costumes em um estádio de futebol. Sei que a estupidez humana exige alguns limites. Mas chamo atenção para a necessidade de o torcedor adversário —- e aqui em São Paulo sempre sou o adversário —- também ser mais bem respeitado nos estádios de futebol.

 

Hoje, pensei em me organizar com a família e assistir ao Grêmio no sábado pela manhã, no Morumbi. O horário é ótimo —- mesmo que ainda me cause uma estranheza —- e o local é próximo de casa. Além de ver meu time, mesmo com os reservas em campo, ainda terei a oportunidade de acompanhar, ao vivo, a atuação de Daniel Alves, um dos maiores nomes do futebol mundial. Sim, eu gosto de ver craques jogando, apesar deles estarem do outro lado.

 

Aí surge a primeira decepção: na busca de ingresso, a informação que descubro é que a torcida visitante pode comprá-lo, mas “somente no dia da partida, na bilheteria 05 do portão 15”. Não fosse o fato de ser um dos mais caros, R$ 80,00, você tem de ficar sentado na arquibancada superior, a mais distante do gramado e sem direito a cobertura — torça para não chover no dia nem ter de enfrentar um sol escaldante.

 

Com todas as possibilidade de os ingressos serem vendidos on-line, difícil entender o motivo de oferecer como único serviço ao torcedor adversário a bilheteria e no dia da partida — o que nos leva a crer que haverá filas enormes e a possibilidade de entrar quando a bola já estiver rolando. Só uma coisa justifica essa atitude: convidar o torcedor adversário a ficar em casa e diante da televisão.

 

 

 

Mais colaboradores, mais líderes e mais empresas realizam trabalho voluntário

 

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A crise econômica não foi suficiente para tirar o ânimo do pessoal que trabalha com voluntariado corporativo. É a impressão que se tem ao conversar com os gestores que atuam nesse segmento e ao se observar o resultado de pesquisa que está sendo divulgada nesta semana.

 

Você, caro e raro leitor deste blog, deve lembrar que há duas edições, no programa Mundo Corporativo, entrevistei Marcelo Nonoay, da MGN Consultoria, que falou de estratégias para a implantação de projetos de voluntariado nas empresas e de impactos gerados nas pessoas que participam dessas atividades —- sem contar o resultado que isso gera na vida daqueles que são beneficiados pelas ações desenvolvidas.

 

A empresa criada por Nonoay é responsável por organizar dentro das corporações atividades de voluntariado. Identifica o potencial existente, planeja os programas e engaja o pessoal —- muitas vezes se descobre que os profissionais já são voluntários por conta própria. Na entrevista, ele mostra que empresas investem nesses projetos porque percebem que ajudam a desenvolver competências nos colaboradores: “a pessoa não volta igual”.

 

Se não lembra ou não assistiu à conversa, é só clicar aqui e você encontra o vídeo e o resumo da entrevista.

 

O otimismo em relação ao voluntariado corporativo também se fez presente na pesquisa da Comunitas, organização que se dedica a inspirar as empresas a realizar investimentos sociais. Para Marcar o Dia do Voluntariado, que será em 28 de agosto, quinta-feira, a instituição vai publicar o resultado da pesquisa BISC 2019 — Benchmarking de Investimento Social Corporativo — com 256 grandes empresas e fundações empresariais.

 

Na 12a edição da pesquisa, alguns resultados que já são conhecidos e destaco a seguir:

O número de colaboradores envolvidos em programas de voluntariado em grandes empresas do país aumentou 15% em relação a edição anterior.

 

O número de empresas em que a maior parte dos líderes participa das atividades também subiu. E subiu muito: de 11% para 21%. Quanto mais os líderes atuam no voluntariado maior é a garantia de manutenção desses programas.

 

Tem mais dinheiro disponível também: foram investidos R$ 11,6 milhões, um aumento de 12 em relação ao levantamento anterior.

 

Outro aspecto interessante é que boa parte das empresas (44%) tem como meta engajar até 15% de seus colaboradores nesses projetos —- uma meta e tanto se levarmos em consideração que o número de voluntários ainda é baixo diante do número de total de colaboradores: 8%, segundo a pesquisa.

 

A professora Anna Maria Medeiros Peliano, que coordena a pesquisa, viu nos dados consolidados em 2018 e divulgados agora o reconhecimento das empresas em relação aos benefícios proporcionados pelos programas de voluntariado.

“Ganham as comunidades, pelo atendimento recebido; ganham os colaboradores, que se sentem gratificados pela oportunidade de contribuir para a sociedade e desenvolver competências úteis à carreira profissional; e ganham as empresas com a melhoria do ambiente interno de trabalho”

 

Assim que os dados completos da pesquisa estiverem divulgados, eu publico aqui para vocês, enquanto isso me responda:

 

Você realiza algum trabalho voluntário?