Conte Sua História de São Paulo: meus dias na ‘Boca do Lixo’

Noel Taufic

Ouvinte da CBN

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Sou um paulista lemense mas me considero também um paulista paulistano, AMO SÃO PAULO! Não há tempo pra falar de tudo que já passei nessa cidade, nas minhas mais de seis dezenas de vida, por isso vou me ater a contar como esse amor começou.

Meu pai sempre teve salas de cinema, em Leme, interior de São Paulo, e desde meus sete anos, nas férias escolares, eu ia com ele marcar filmes nas distribuidoras, que se concentravam na rua do Triunfo e imediações, bem no centro e perto da antiga rodoviária.

Quando fiz 15 anos. passei a ser o programador dos cinemas e, uma madrugada por mês, de ônibus, ia fazer o trabalho de programação dos filmes. Aos 18, fui estudar em São Paulo e daí a vida seguiu até hoje nesse delicioso ofício.

Mas o que me marcou sempre foi conhecer o centro de São Paulo, os cinemas mais famosos pertinho de mim, como o Ipiranga, o Metro, o Marabá, o Olido, o República, o Art Palácio, o Comodoro e, eu, sempre passando meus dias de paulistano na famosa “Boca do Lixo”.

Sim, “Boca do Lixo” era o nome da região da Santa Efigênia, avenida Rio Branco, começo da Ipiranga, todo esse pedaço que se somava à avenida São João, ao largo Paissandu, à Duque de Caxias.

Nesse trabalho, a gente convivia com as amáveis prostitutas. E também com os músicos, já que muitas gravadoras também lá se localizavam, na famosíssima Santa Efigênia.

O ponto principal sempre foi o queridíssimo Bar do Léo, que na verdade ganhou mais fama ainda com o seu Hermes, diretor do Corinthians, como proprietário, mas sempre tendo ao seu lado o mais famoso garçom paulistano, o Luiz que recebia a todos pelo nome, podendo ser pessoa comum, empresário ou político de qualquer cidade que vinha àquele estabelecimento.

Nesse período conheci vários artistas, diretores de cinema, produtores.  Artistas foram muitos: Vera Fischer, Aldine Müller, Renato Aragão mas, pra mim, o que eu mais gostava de encontrar, era o Mazzaropi, que sempre recebia os exibidores em seu escritório, no segundo andar do Cine Ouro, no Largo Paissandu.

O ilustrador de cartazes do cinema brasileiro, meu amigo também, era Miécio Caffé. Ele e a esposa moravam na rua Vitória e seu estúdio de criação ficava dentro da Paris Filmes, um pouco abaixo de sua casa. Seu Miécio foi o maior colecionar de discos 78RPM do Brasil. Seu apartamento tinha muito mais que seus móveis, tinha inúmeras estantes com discos e fitas, impagáveis.

Que delícia tudo isso! Que São Paulo maravilhosa! Hoje, mato saudades dela, correndo a São Silvestre todo ano e passando pela minha eterna “Boca do Lixo”.

Noel Taufic é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a razão da existência dessa cidade

Maurício Chagas

Ouvinte da CBN

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Nasci nessa cidade no início dos anos dourados. Tempos de andar na rua com segurança, ceder lugar aos mais velhos, abrir porta para senhoras, dar bom dia, agradecer e se desculpar pelo engano. Época em que era honrada a palavra de honra, da garantia, da hombridade. Tal era o respeito, que as listas telefônicas eram publicadas por endereço e por assinante. 

Em tempos, moramos, meus pais e cinco irmãos, numa casa de quintal grande e muro baixo, na Alameda Gabriel, Jardim Paulistano. Conhecíamos os vizinhos mais próximos; e os nem tão próximos, sabíamos quem eram.

Lembro de ir sozinho a Galeria Prestes Maia comprar passes escolares da CMTC, isso com 10, 12 anos. Tudo tranquilo. Claro, tinham os problemas de então, mas eram menores, e resolvidos ou bem contornados.

Poucos tinham televisão e carro, que era artigo de luxo importado. Assim, o trânsito era ordenado e sem congestionamento. Muito usado era o bonde da Light que seguia pelo centro antigo. Na nossa rua, havia o trólebus, ônibus elétrico conectado por “suspensórios”, um par de hastes que virava e mexia, e se soltava dos fios nas curvas.

Garoto, após o almoço de domingo na casa dos avós no Itaim, ia com os primos às matinês dos cines da rua Augusta, assistir a Doris Day, Jerry Lewis, Chaplin, O Gordo e o Magro, Três Patetas, Marcelino e outros tantos.

Era pura e sadia diversão.

Há quinze anos deixei essa cidade. Outra cultura, outros costumes, outra lógica urbana. Daqui de longe, com saudades, pude avaliar o que é São Paulo, sem intentar definição. Seus problemas complexos, sua dinâmica, sua atividade frenética, seu vigor, sua vitalidade. Uma locomotiva!

Cada rua com uma história, um monumento, um fato, um nome a ser rememorado. A arquitetura variante registra épocas distintas. Gente que ama o mesmo bairro por gerações. Aquilo que chamam de caos é justamente a razão de viver do paulistano, razão da existência dessa cidade. 

Mauricio Chagas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o cronista da cidade a bordo de seu táxi

Márcio Câmara

Ouvinte da CBN

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Nasci no Canta Galo 1968, periferia da zona Oeste. Filho de Manuel e Maria, portugueses da Ilha da Madeira — um berço pesado, racista, machista e uma vida muito difícil. Papai tinha um bar.

Lembro do carro de doces: fazíamos a roda em volta pra ganhar doces quebrados; depois passava o carro que trocava garrafa por pintinho ou pirulito — para mim era muito bom, o que não faltavam eram garrafas no bar do pai. 

Rodávamos pião, jogávamos bolinha de gude, brincávamos de mãe da rua, balança caixão, esconde esconde  …

Eu era ótimo em história e redação. E aos dez anos, vendia sorvete e sonhos de padaria,  se eu quisesse comprar uma roupa melhor ou um tênis novo. Aos 14, já era registrado numa padaria e deixava metade do salário em casa. Depois fui office boy, indo para todos os cantos de São Paulo. O centro me deixava de boca aberta — especialmente diante do Teatro Municipal, da Galeria do Rock, da loja do Mappin.  

Foi na avenida São Luiz em que assisti ao meu primeiro filme, no cine Metrópole. Cinema era minha atração. Entrei onde não devia e assisti a alguns filmes pornôs, que já ganhavam espaço nas salas de cinema. Um dia entrei um cinema que estava vazio e deparei com o filme de Mahatma Gandhi, aquilo sim foi emocionante e ficou na memória.

São Paulo era divina. As pessoas se vestiam bem para passear no centro. Havia o Latitude 3001, uma caravela-balada, na 23 de Maio. O Carnaval era na Rio Branco com a São João. 

Hoje aos 53 anos, taxista há 16,  sigo rodando por todos os cantos da cidade, vendo de tudo na rua e levando todos os tipos de gente em meu táxi. 

Não conclui meus estudos, mas sempre tive o sonho de escrever. Achava que não seria capaz. Mas São Paulo é quase um país de tantas oportunidades. Comecei, então, meu primeiro livro: cataloguei cadeirantes de semáforos, que eu via na rua por anos e anos. Escrevi sobre eles: Anjos da Rua. Alguns voluntários me ajudaram na revisão e diagramação; e logo consegui dinheiro com três clientes para publicar a primeira edição com mil exemplares. 

Os livros foram doados para os personagens, dez deles vendiam os exemplares pelas ruas — o que o fez chegar as mais diversas mãos.

Como é grande a magia da cidade, fui chamado no Museu da Pessoa; depois pela Fabiola Cidral e o Cid Torquato, na CBN; fui convidado para congresso do Senac; TV Brasil, Cultura, Record. Na Band com o Megalli. Nas revistas. E do saudoso Gilberto Dimenstein, ouvi: “entre 55 mil taxistas de São Paulo, Márcio faz a diferença com seus livros”.

Já escrevi sete. Do Anjinhos da Rua, nove mil exemplares doados. E tudo graças a São Paulo, a cidade com algumas deficiências e cheia de oportunidades e maravilhas.

Márcio Câmara é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Tatuapé dos doces da Vera Cruz e dos cavalos dos Matarazzo

Zilda dos Reis Larangeira Santolin

Ouvinte da CBN

Pintura interna da Padaria e Confeitaria Vera Cruz, no Tatuapé (foto de arquivo)

Vou contar um pouco da minha São Paulo. 

Existem lugares bonitos, mas eu escolhi falar do Tatuapé, bairro onde eu moro há quase 84 anos, que deixou muitas histórias na minha memória. 

Em 1944, eu tinha oito anos. Me lembro de ir até uma confeitaria, na avenida Celso Garcia, que existe até hoje: a Vera Cruz. Lá, ainda há a pintura dos bondes e seus passageiros. Pintura que ilustra mulheres e homens muito elegantes, com terno e chapéu. Alguns até usavam bengalas. 

Naquela época, eu tinha uma vizinha que trabalhava muito. Ela vendia produtos que comprava, todos os dias, no mercado grande. Por volta das quatro da tarde, a filha dela, que tinha 11 anos, me chamava para levar o carrinho de mão até a esquina da Celso Garcia com a Rua Tuiuti. Lá, a mãe dela descia de um bonde todo verde, que se chamava “Cara Dura” e transportava os verdureiros e suas compras. 

A mãe da minha amiga arrumava a mercadoria no carrinho de mão e já descia a Tuiuti chamando a freguesia. 

Lá no fim da  Tuiuti, havia o Tietê. O rio. Eu falo mais dele daqui a pouco. 

Poucos metros antes da rua chegar ao fim, havia uma chácara grande, enorme, que pertencia ao conde Francisco Matarazzo. Toda tarde, duas moças lindas passeavam pelos jardins, que tinham muitas flores e belos caramanchões de maracujá. Também havia um cercado grande, com animais como hienas e zebras. 

Eles tinham uma cocheira, onde ficavam cavalos, com largas e grossas patas. Alguns deles, ajudavam nas tarefas da chácara: três vezes por semana, os cavalos trotavam pela Tuiuti carregando feno e milho para os outros animais. Eram grandes e lindos e pareciam desfilar. 

Meu pai e meu avô materno trabalhavam no palácio da chácara. E, uma vez por mês, o conde Matarazzo deixava os moradores da região visitarem o local. 

Atualmente, onde era a fazenda temos o Parque do Piqueri; e, no lugar do castelo, há uma biblioteca. Até hoje, nós não entendemos por que eles destruíram o palácio quando a chácara foi vendida.

De volta aos anos 1940. O rio Tietê batia nos fundos da chácara. Todo domingo, meu pai nos levava, eu e meus irmão, lá no rio para assistir às competições das regatas do Corinthians. Foi um tempo em que a água era cristalina e as pessoas pescavam com varas — geralmente os homens e crianças. Minha avó e outras mulheres lavavam a roupa no rio. 

Tenho saudades daquele Tietê,  daquela Tuiuti, e do Tatuapé da minha infância.

Zilda dos Reis Larangeira Santolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a voz de meu pai na Luz

João Tadeu Ribeiro Diniz

Ouvinte da CBN

 

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Como esquecer que, em 1964, eu com meus 13 anos de idade, e meu saudoso pai Sr. Manoel ou o Ribeiro, como o chamavam, havia me arrumado um emprego de auxiliar de farmácia, com uma cliente dele na Rua Três Rios ali atrás do Parque da Luz. O pai era vendedor honorário da distribuidora Irmãos Sahagoff, na Rua Florêncio de Abreu, região da 25 de Março.

Ocorre que nessa época morávamos em Pirituba e passamos a sair juntos pra trabalhar. Nosso meio de locomoção ao Centro era o trem que partia da estação Pirituba com destino  a Estação da Luz. Acreditem, que naquela época o fiscal da estação picotava um cartão mensal de passagem ida e volta — antiga versão do bilhete único. Como não lembrar dos amigos de meu pai que se divertiam durante a viagem jogando palitinho, e das cobranças do velho para que não o decepcionasse, no trabalho.

O que me fascinava era desembarcar na encantadora Estação da Luz. Com toda sua imponência, gente chegando, gente partindo, gente apressada, correndo pelas belas escadarias. E ao alto sua cúpula magistral, atenuando os raios de sol de um  novo dia!

Assim foi, durante quase um ano: um tempo que guardo na memória, e que ainda hoje me leva a emoção sempre que adentro a minha querida Estação da Luz. Por onde passo e tenho a impressão de ainda ouvir alguém me avisar: “aprece-se, estamos atrasados!”

Joao Tadeu Ribeiro Diniz  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o pedal da turma da loja revelou a cidade desconhecida

Por Adriana Yamamoto Christofolete

Ouvinte da CBN

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Há alguns anos, escrevi para esse programa para contar minha história sobre a juventude na cidade. O tempo passou, a cidade mudou, e o meu amor por Sampa também ficou diferente. Da outra vez, contei como vim parar na Mooca. Tempos atrás, voltei a viver mais em São Paulo e precisei procurar algo para diminuir o estresse de viver nessa cidade linda tanto quanto estressante.

Peguei minha velha bike, tirei a poeira, e lógico que ambas estávamos enferrujadas. Lembrei de uma bicicletaria ali perto para fazer os ajustes. Enquanto esperava, ouvi a conversa do pessoal que estava lá sobre “uns pedais”. Soube que saíam em grupo para pedalar à noite. Vendo a todos equipados com roupa, capacete, luvas, acessórios, pensei comigo: isso não é para mim!

Comecei minhas pedaladas aos domingos bem cedo pelo bairro. Na volta aproveitava para passar no sacolão ou na feira. Conforme a prática, dar duas voltas na avenida atrás de casa, em 30 minutos, mesmo subindo as travessas que eu evitei no início, porque meu joelho doía, passou a ficar fácil e insuficiente.

Lembrei dos “pedais da turma da loja”. Sempre receptivos, me orientaram sobre o mínimo necessário para estar com o grupo à noite: capacete e luzes de sinalização.

Numa terça-feira, lá fui eu, envergonhada sem conhecer ninguém. Logo, um deles veio me perguntar se era a primeira vez, deu as dicas e explicou que ele ficava no final para não deixar ninguém para trás. 

Naquele dia, não sei para onde fomos, mas lembro que subimos a Vergueiro, que eu achei que não fosse conseguir! Muitos me encorajaram e esperaram lá no fim da subida. Além da sensação de liberdade que pedalar nos traz, me senti protegida no grupo ao atravessar as ruas e avenidas. Descobri uma Sampa que fica viva até tarde da noite, formada por gente que trabalha, se diverte, se exercita, e cuida da cidade. 

Como em todas as pedaladas da vida, temos altos e baixos. Passei por problemas pessoais bem complexos, perdi minhas referências, fiquei sem chão, achei que não suportaria, mas por algum motivo, mesmo assim, não deixei de ir aos pedais. Pude pedalar calada, chorando às vezes, disfarçando as lágrimas no suor do pedal, seguindo o grupo por lugares que eu nem sei como cheguei, por ruas e travessas que ainda nem conhecia. E a cada pedal, voltava para casa um pouco melhor.

Sobre a bike vi namoros começarem e acabarem, vi outros se tornarem casamentos. Vi a solidariedade no pneu furado sobre o Minhocão, quando mais de 100 ciclistas esperaram, em uma noite de inverno, porque eu não tinha câmara reserva. Testemunhei a ajuda ao ciclista perdido, o revezamento dos colegas para ajudar os menos preparados na subida.

Sobre duas rodas, Sampa revelou-se outra cidade. E sou grata de várias formas ao grupo Pedala Mooca, que começou há mais de 20 anos com passeios nas ruas do bairro e hoje faz parte da vida de muita gente.

Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: como se todos os dias fossem domingo

Por Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

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Ela chegou de mansinho, sorrateiramente, sem fazer alarde, com um tanto de timidez, devo confessar. Diferentemente dessas que espontaneamente se aproximam esfuziantes e nos envolvem tornando-se logo íntima. Não tenho na memória a data exata dessa aproximação, sei que estava às vésperas de me tornar um sexagenário, na inconsciente expectativa de que em algum momento o calendário frio da existência acusaria a lenta metamorfose pela qual é destinada a quem consegue galgar os degraus desta vida terrena. O tempo da nossa passagem nesse plano, assim como conhecemos, tem o seu preço, o envelhecimento do corpo, não que o envelhecimento seja um castigo, talvez um prêmio por algo inexplicável, ou a certeza da fragilidade do ser, desafiando a saúde e a vitalidade.

Assim, a tal visita, agindo como uma síndrome matreira, invisível a olho nu, evasiva a um Raio X e, mesmo entregue à sorte de uma Ressonância Magnética, foi se aproximando e ganhando espaço sem uma causa aparente que pudesse definir sua chegada, causando medo e incertezas. Aos poucos, foi me envolvendo e ganhando terreno. Mexeu com o meu cognitivo. 

Agora, senhora de si, incomoda o meu físico, perturba o meu psicológico, por vezes deixa-me trôpego, trêmulo, limitando os meus movimentos, por mais simples que sejam.

Provavelmente, quero crer, foi num momento no qual a minha vida passava por um processo de transição, com a chegada na terceira idade, a tão aguardada aposentadoria e a expectativa de uma nova fase para curtir a vida. 

Embora ainda me sinta produtivo, quis as circunstâncias que as minhas atividades profissionais diminuíssem pouco a pouco. Pegou de jeito o meu estado emocional, sem que eu tivesse chance de escapar, por mais que desejasse. 

Fragilizado, não tive forças de reagir à invasão da qual estava me submetendo. Sequer sabia quem estava ocupando o espaço da minha intimidade. Hoje, refém dessa visita, percebo que ela, embora plenamente presente em minha vida, torna solitários alguns dos meus momentos. Limita as minhas atividades, usurpa a minha autonomia, já não sou dono dos meus passos, muito menos das minhas idas e vindas. Os caminhos se tornaram árduos e as distâncias se ampliaram. 

Mesmo assim, difícil fazer entender aos que me cercam, tenho lá minhas limitações, quero que respeitem minhas lágrimas, não que questionem o meu silêncio, por mais que tento exaustivamente explicar que não escolhi esta companhia, tampouco aponto culpados. Bem sei o quanto é difícil expulsá-la, cabe a mim, somente a mim, seguir e caminhar com ela, mesmo que a passos lentos e claudicantes e viver um dia de cada vez, viver com intensidade e alegria, como se todos os dias fossem domingo, domingo no Parkinson de diversões. 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: da ave grande ao rio dos bagres

Carlos Pañella

Ouvinte da CBN

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Tinha cinco anos quando o caminhão de mudança encostou na escura rua Parazinho — ares bem diferentes do interior. Armstrong e Aldrin estavam por pisar na Lua e Ho Chi Min por deixar o mundo. Na minha angústia, fixei a vista no Mickey estampado na lataria do ford baú. 

O bairro era Jaçanã, nome dado pelos índios a uma ave grande, mas ninguém a via mais por ali. Por pouco perdemos o trem de Adoniran. Não passava mais, nem “amanhã de manhã”. Foi aí que tive meu primeiro caminho suave. 

Logo mudamos para o Tucuruvi, “gafanhoto verde” do tupi. Só soube disso depois de grande; e a figura do gafanhoto no bolso do avental do grupo escolar agora faz todo o sentido. 

Descartado o inseto, mudaram o bolso, agora com um desenho de vulcão. Explicaram que era uma homenagem a um advogado e jornalista curioso tragado por uma fenda do italiano Vesúvio. Meus irmãos e eu brincávamos nas argilas da rua Bonita, onde ainda se via os antigos trilhos. Hoje, abaixo do berço do trem roda o metrô. 

Remudamos  — mudança era com a gente mesmo! — para o Mandaqui. Olha o tupi aí: “rio dos bagres” que já não havia, fora engolido pelo asfalto. Tempos de namoros na cidade. Nunca vou me esquecer dos trólebus, com a traseira encurvada e os janelões que abriam verticalmente por duas “borboletas” pressionadas, deixando o vento bater no rosto. 

Fazia educação física no Tremembé — “terreno alagado” para os tupiniquins. Quando conheci o bairro, felizmente já estava seco. 

Saí da Zona Norte para o Centro só quando casei. Trabalhava em São Bernardo à noite e tentava dormir de dia. Durma-se com um barulho desses!

Passei a vida dizendo a mim mesmo que um dia voltaria a viver no interior, mas fui crescendo, assim como a metrópole, sempre em construção, aos trancos e barrancos. 

E quem não ama a Pauliceia?!?

Vou ficando por aqui, preso por essa mãe e irmã. A essa cidade-imã.

Carlos Pañella é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade, no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: as caminhadas de um barriga-verde na capital dos paulistas

Julio Cesar Refosco

Ouvinte da CBN

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Fui paulistano. Engraçado dizer isso! É que morei em São Paulo por uns dois anos apenas, suficientes para me apaixonar. Depois voltei para Santa Cataria, onde nasci. Aliás, Santa esta que parecia não fazer parte da geografia do paulistano. Quando cheguei à capital, em 1987, para o estágio no Instituto Florestal, cuja sede era na Cantareira, me chamavam de gaúcho. Expliquei que era barriga-verde. Continuei sendo gaúcho para eles.

Morei perto do Hospital do Câncer, na Liberdade. E para chegar à Cantareira levava mais de uma hora entre metro e ônibus. No início gostava desse trajeto:  passava por lugares pitorescos, citados em letras de músicas como o Jaçanã da famosa “Trem das Onze”. As referências musicais são tão marcantes que certo dia fui conhecer a esquina da Ipiranga com a São João; em outro, passeie pela rua Augusta e imaginei como seria descer aquilo a 120 por hora.

Caminhando e andando, percebi que nem tudo eram flores.  Havia contradições, problemas, exclusão, marginalidade, concentração de renda e problemas urbanos quase insolúveis, que faziam parte da complexidade desse lugar.

Dividia um apartamento com dois artistas, meu irmão que é músico e um amigo artista plástico. Com tais companhias, é claro, aproveitamos muito às noites e os programas que a cidade oferecia, sobretudo ali no Centro Cultural São Paulo, que ficava a poucas quadras de casa, na Rua Vergueiro e tinha uma programação de primeira ordem, a preços bem acessíveis. 

Uma daquelas noites bem aproveitadas ficou na memória. Chegando em casa, após umas cervejas, adormeci em sono incomodado pelos ruídos da cidade incansável, seu trânsito, suas sirenes. O que a princípio parecia sonho, aos poucos foi se mostrando realidade pois, da minha cama ouvia uma movimentação de vozes que entrava pela janela. Me levantei sonolento e fui para a varanda de onde observei uma cena inusitada, tanto que pensei que ainda estava sonhando.

Um objeto luminoso muito grande pairava no céu, movendo lentamente suas luzes flamejantes. Na minha racionalidade sonolenta fiquei pasmo. A cena era quase uma pintura e demorei um tempo até perceber, dentre as luzes e cores que do objeto radiavam, que se tratava de um balão. A confusão toda com gente correndo, sirenes tocando, era porque o balão estava descendo sobre uma casa próxima. No fim das contas, alguém no telhado da casa conseguiu pegar o balão e resolver o problema sem grandes consequências.

Hoje, ainda vou a São Paulo a trabalho ou lazer; e sempre aproveito a cidade. Nas últimas vezes que estive por aí , fui com minha mulher e meus filhos para eles conhecerem este lugar tão interessante, que reúne gente de todos os cantos, característica que torna a cidade um retrato demográfico do Brasil. Retrato do qual, como catarinense, fui protagonista. Catarinense, tá. E não gaúcho!

Julio Cesar Refosco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: das coisas da cidade ao nome de Bartira

Por Vitor Santos

Ouvinte da CBN

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A primeira vez que visitei o Centro Histórico da cidade de São Paulo, tinha cinco anos. Guardei poucas recordações. O local que não esqueci foi o Viaduto do Chá. 

Da segunda vez, já era adolescente. Viajei 17 km em um ônibus da Viação Penha/São Miguel. Era uma linha tradicional, que ligava o bairro mais antigo da cidade, São Miguel,  ao Parque Dom Pedro. Quando desembarquei, fiquei alguns minutos admirando o entorno do parque, e os muitos prédios altos, que eram possíveis de serem avistados. Respirei fundo, ainda que tímido e assustado com o movimento grande naquele horário. Dei alguns passos, foi quando percebi que estava atravessando a 25 de Março. Depois subi a General Carneiro, passei por baixo do viaduto Boa Vista e cheguei no Pateo do Collegio. Em seguida, passeei pela Praça da Sé, visitei a Catedral, fui pela Rua Direita, cheguei no Viaduto do Chá, avistei o Teatro Municipal. Observei as árvores e os monumentos da Praça Ramos de Azevedo.  A curiosidade era enorme, para saber o que tinha no fim da Barão de Itapetininga. Deparei com o coreto da Praça da República.

Percebi que a partir daquele dia, não viveria mais longe da pauliceia. Arrumei emprego, na Avenida da Liberdade, número 61. Era uma empresa que trabalhava com instalação e manutenção de telefones. Era a grande oportunidade que tinha de conhecer melhor São Paulo.

Na hora do almoço era comum ficar no entorno do Teatro Municipal. Visitei o antigo prédio do Estadão, na Major Quedinho — lá também ficava a Rádio Eldorado. 

Depois, trabalhei alguns anos no prédio do Top Center, na Goodyear, onde conheci muitos artistas, dentre eles Wilson Simonal, que tinha uma loja no mesmo prédio. Fui para a Philips no Brasil, na esquina da Paulista com a Bela Cintra. Mais tarde fui ao encontro do Tribunal de Justiça, em um estágio que durou mais de 30 anos,.

De todos os cantos, meu preferido é o café do Pateo do Collegio, ao lado de ruínas da antiga parede construída de taipa de pilão, onde posso ler um livro e vivenciar a história. Ali sou capaz de ouvir os tambores dos índios; contar os peixes pescados por Tibiriçá — o senhor dos campos de Piratininga. Descobrir como o português José Ramalho desembarcou em Santos, subiu o Caminho da Serra do Mar, chegou em Santo André da Borda do Campo, conquistou o cacique, e em seguida a sua filha, Bartira, índia bonita, com quem teve vários filhos. De quem descendem inúmeras das mais tradicionais famílias paulistas. 

Vitor Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.