Conte Sua História de São Paulo: a gargalhada da velha na porta do Parque Shangai

Por Ulysses Cruz

Ouvinte da CBN

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Ali nos baixios do Glicério, mais pro lado do complexo de viadutos que leva à Radial Leste e à Celso Garcia, onde hoje tem uma igreja evangélica, ficava o Parque Shangai. Era enorme. Eu o via sempre da janela da lotação na volta da loja de departamentos Clipper —- a preferida de minha mãe. Dela pelas roupas e minha também porque tinha a escada rolante.

A lotação fazia uma curva e meu coração saltava com aquela imagem vista rapidamente da janela do enorme carro. Eu enxergava um pedaço da Montanha Russa de madeira, altíssima;  quase toda a Roda Gigante — que era de verdade gigante. E ao torcer o pescoço para trás ainda conseguia olhas  o Trem Fantasma. E só.

Minha mãe era uma morena bonita, peitos fartos, que gostava de se vestir bem — na Clipper, claro. Só agora me dou conta que minha paixão pelo amarelo vem de um vestido dela, usado em ocasiões especiais, como ir à cidade fazer compras, ela adorava, sempre de lotação e comigo ao lado. Naquela época, mulher casada não andava sozinha na lotação.

Não lembro quem me levou ao Parque Shangai pela primeira vez. Papai era sério, policial, não era dado a essas coisas. Minha mãe, talvez. Meu tio Eloi? Era o boêmio da família. Pode bem ter sido ele. Não lembro. 

O que lembro, passados mais de 60 anos, é da risada da boneca gigante que nos recebia na entrada do parque. Era uma velha com uma bolsa na mão. Ela ria e chacoalhava o corpo para cima e para baixo, sacudindo a bolsa como se fosse uma arma. Tudo era movimento na boneca. Sua roupa, seus cabelos debaixo do chapéu … Ela ficava com em um relicário profano cheio de luzes e cores, lá no alto. Atração até mesmo para quem não tinha dinheiro para entrar no parque. Ela contagiava. Você poderia ficar meia hora ali em frente que não enjoava de rir. Se não ria dela, ria das pessoas que se dobravam de tanto gargalhar.

O curioso é que mesmo com todas as atrações que havia dentro do parque, em minha memória a imagem que ficou foi a da velha com a bolsa. A ponto de eu pensar hoje que minha cidade tem esse som: o da risada da velha da bolsa. Às vezes maligna, às vezes cruel. Na maioria das vezes, uma risada divertida, alta e barulhenta. 

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Ulysses Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a tinturaria da minha avó na rua Augusta

Por Rosângelo Callejo

Ouvinte da CBN

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Nasci no bairro da Vila Maria onde moro até hoje. Da minha infância, recordo com alegria dos passeios de fim de semana onde saíamos eu, meus irmãos e meus pais para visitar a rua Augusta. Era onde minha avó paterna morava. Ela mantinha uma tinturaria, a Gato Branco, onde meu pai também trabalhava .

Nossa aventura começava logo cedo pois tínhamos um longo trajeto pela frente. Pegávamos ônibus na avenida Guilherme Cotching até o Vale do Anhangabaú, gostávamos de dar uma passada pela galeria Prestes Maia. Era fantástico. Depois seguíamos de ônibus elétrico até a Augusta.

Nossa chegada era uma festa. Ficávamos encantados com tudo na tinturaria: os enormes tanques de lavagem de roupas; as mesas de passar com aqueles ferros pesados; tudo era novidade para mim e meus irmãos. 

Na sala da casa da minha avó, havia um telefone e nós adorávamos mexer naquele aparelho. Na cozinha, tinha um rádio enorme no qual ela ouvia suas novelas preferidas…. 

Da sacada da casa, ficávamos assistindo ao movimento da rua, os ônibus elétricos, os carros passando e as pessoas caminhando pela calçada.

A tarde, saíamos nós para passear pelas galerias —- que eram os shoppings daquela época —- com suas lojas elegantes. Lembro que havia escada rolante: era o máximo; subíamos e descíamos correndo. Nosso passeio se encerrava nos divertindo no Parque Trianon. 

No fim do dia fazíamos o caminho de volta para a Vila Maria. Exaustos e felizes, já ansiosos no aguardo do próximo fim de semana.

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Conte Sua História de São Paulo: da locomotiva à Academia, minhas lembranças da cidade

Por José Antonio Braz Sola 

Ouvinte da CBN

 

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Caminho diariamente aqui no Parque do Ibirapuera desde que me aposentei. Estou agora tomando água de coco em frente ao Pavilhão da Bienal. Isso me faz lembrar  de que foi aqui que começou a minha relação com o parque-símbolo de São Paulo. Isso foi em outubro de 1961, quando eu tinha seis anos de idade e minha irmã Lu, três. Fomos conhecer a sensação da época, que causava ansiedade e frisson na criançada  paulistana:  o 1º Salão da Criança!

Tomado pela emoção e recuando no tempo, começo a recordar coisas que vivi na minha querida e amada São Paulo. Meus pais, embora fossem pessoas simples — papai era comerciário e a mamãe, dona de casa —- esforçavam-se para nos mostrar os pontos turísticos e históricos da  nossa cidade .

Foi assim que nos levaram à Estação da Luz, com sua linda arquitetura, onde ficamos extasiados com as  locomotivas, por suas dimensões enormes e ruídos ensurdecedores provocados pelas máquinas em funcionamento.

Também fomos apresentados, um pouco depois, à Catedral Metropolitana de São Paulo, na Praça da Sé; ao Mosteiro de São Bento; e à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde, nunca eu poderia imaginar, me formaria advogado anos depois.

Quando já era recém-alfabetizado, tinha sete anos, lembro-me com satisfação de conseguir ler, sem errar e em voz alta para meus pais, as últimas notícias que apareciam rapidamente  no letreiro luminoso instalado na fachada da  sede do jornal “O Estado de São Paulo”, ali na Rua Major Quedinho, no Centro.

Conheci o estádio  da cidade nos anos de 1960, o maravilhoso e ainda hoje charmoso  Pacaembu. De tanto pedir, papai me levou para assistir ao time que eu já amava e pelo qual chorava nas derrotas, o Palmeiras. Ganhamos de 3 a 0 do Noroeste e nos sagramos “Campeão Paulista de 1963”, com um time que tinha Ademir da Guia, Dudu, Djalma Santos, Djalma Dias, Julinho Botelho e Servílio,

Paulistano autêntico que era, tive que conhecer também a Rua Augusta, famosa pelos seus bares, lanchonetes e lojas da moda —- embora eu e a minha irmã Lu a tenhamos percorrido de ônibus elétrico e a pé, pelas mãos de nossos pais, e não a 120  Km por hora, como dizia a música de sucesso da época que tocava nas rádios sem parar.

Não dá para esquecer, claro, das férias de julho na casa de meus primos Tica, Tico e Danilo, no Jardim São Paulo, onde hoje funciona a Estação Ayrton Senna do Metrô. Naqueles tempos, havia muitos terrenos baldios e parecia que estávamos numa pacata cidade do interior, o que nos possibilitava brincar de tudo quanto era jeito e sem sermos importunados por carros e ônibus —- bem diferente do que eu estava acostumado no bairro de Pinheiros, onde morávamos.

De volta ao presente …. lá se foi a última gota da minha água de coco. Retomo a caminhada matinal interrompida por minhas memórias a tempo de lembrar do poema Tristura de Mário de Andrade que começa com um “São Paulo, minha noiva” …. e eu me atrevo a completar: “Minha noiva, minha vida”.

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é da Débora Gonçalves. Escreva também as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: pedalei meu kart no Largo do Arouche

Por Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Nasci em São Paulo. Hoje, tenho 60 anos. Com oito meses mudei para a Itália e de lá retornei com a família após nove anos, quando meu pai foi convidado para trabalhar aqui no Brasil. Fomos morar em um pequeno apartamento no Largo do Arouche —- lugar bom naquela época. Sem saber falar o português, me virava do jeito que dava, não o suficiente para fazer amizades na escola

Meu pai me deu de presente um kart de pedalar. Eu descia o elevador e o zelador, Seu Frederico, me atravessava até a praça do Arouche, onde podia ficar brincando sozinho —- sem correr riscos. Minha mãe vigiava tudo  pela janela lá do alto do prédio

Houve um ano que a praça foi enfeitada para o Natal com bonecos gigantes de plástico e iluminados. Quando as festas passaram, vi os funcionários da prefeitura desmontando a decoração e fui até eles com meu pai para pedir um dos bonecos. O moço da prefeitura deixou que eu ficasse com um deles. Coloquei na cozinha do apartamento e dentro do boneco liguei um abajur para ficar iluminado como na praça. 

Do Arouche fomos para um apartamento maior na Henrique Schaumann. A rua ainda era estreita. O prédio tinha cinco andares e ficava bem na esquina. Quando decidiram tornar a Henrique Shaumann em uma avenida correu-se o risco dele ser destruído. Mas resistiu em pé. Durante as obras, eu andava de bicicleta na via que começava a ser aberta para a avenida passar.

Foi lá que completei meus 18 anos quando, então decidi sair de casa e morar sozinho. Apesar da Ditadura Militar, não encontrei problemas no meu caminho. Estudei e me diverti. Foram anos em que descobri as belezas da vida de um pós-adolescente, com seus prós e contras. Hoje, posso lhes dizer que tive uma juventude boa e cheia de alegrias, graças a Deus!

Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outras lembrança, visite o meu blog miltonjung.com.br e se inscreva no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o descrente viajante se transforma em distante apaixonado

Por Marco Aurélio de Souza Hilário  

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Para a Lane, sempre linda.

E para a Rosária e o Tata.

Todos cúmplices de paixões e amores.

Para um morador do interior das Minas Gerais, a cidade de São Paulo sempre foi sinônimo de fria grandeza: arranha-céus impedindo o crescimento de vida verde; asfalto pavimentando caminhos desordenados; habitantes acumulando moedas para as férias no ar condicionado de seus carros. E o desejo do encontro com a cidade malvista escamoteado diante de certezas antecipadas. 

Até que um amigo querido, em suas andanças por cidades e tendo a Avenida Paulista cravada na veia familiar decidiu fazer de São Paulo sua moradia. Daí ao convite para dias na cidade grande foi questão de tempo. E em data específica: no carnaval. A metrópole cantada como “túmulo do samba” foi escolhida como destino daquele que sempre imaginou a cidade como “difícil de viver”. E a visita em luxuosa companhia, com as respectivas namoradas, a do visitante e a do amigo. São Paulo aguardava serena a chegada de um descrente.

O amigo não fez da alegria do encontro flecha de cupido na troca de olhares do visitante com a cidade. Mas usou de singela perspicácia para que São Paulo, a cidade mesma, tomasse devagar as entranhas e o afeto daquele que chegava. 

São Paulo foi se apresentando aos poucos, dona de si, silenciosa, em plano geral e em detalhes. Deixar a cidade falar, insinuar seus encantos, mostrou ser sábia condução. As avenidas, ruas, cafés, restaurantes e bares, monumentos, praças, suas gentes, receberam o descrente visitante como um quase local, derramando sutis preciosidades e prazeres em lugares, pratos e copos ofertados. E o visitante, a essa altura constrangido e em crescente encanto pelo jogo da conquista, foi estabelecendo com a cidade elo de compromisso, já nocauteado diante da sedução desmedida. 

O agora apaixonado visitante andou por São Paulo com olhos de curiosidade infantil, sorrindo para o que via, descobria, conhecia, esquecendo-se do confete, da serpentina e das doces marchinhas. São Paulo era megalópole interiorana, ofertando ao desistente carnavalesco seus mais belos préstimos, dignos de uma cidade que não descansa.

Os dias foram passando, o visitante agora arrebatado e capturado por detalhes da cidade, fazendo andanças em uma pauliceia que se deixava descobrir, cúmplice assim do vivo entusiasmo do andarilho. Em momentos preciosos, o visitante apaixonado sentia São Paulo no peito, na respiração, no toque das mãos, como se natural fosse ter a cidade para si, como se não mais estrangeiro fosse. 

Na despedida, a cidade olhou o visitante de frente, sorriu levemente e deixou um até breve no ar. E o visitante, já saudoso do retorno urgentemente programado voltou ao seu interior, sabedor que muitas paixões sobrevivem à distância, na insistência de tornarem-se amores eternos.

Marco Aurélio de Souza Hilário é mineiro de Ubá, terra da manga e de Ary Barroso. Conheceu São Paulo há aproximadamente 30 anos e a cidade não saiu mais de seu pensamento.

N.E: a música usada para sonorizar este texto é “Sinfonia São Paulo” do compositor Ricardo Silva, executada pela Banda Sinfônica Paulista, regência maestro Ricardo Silva.

Marco Aurélio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Escreva o sei texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo    

Conte Sua História de São Paulo: pesquei lambari na praça 14 Bis, na Bela Vista

De Gabriel Whitaker

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Morei desde meu nascimento até me casar, em 1972, na Rua Aracuã — travessa da Avanhandava, na Bela Vista — que foi o primeiro loteamento da Companhia City.  Bem ordenado e, até então, um lugar muito tranquilo.

Tinha muitos amigos na vizinhança —- o Roberto, o Horacinho, a Luiza … jogávamos bola na rua, fazendo as portas de garagem de gol, o que enfurecia uma das moradoras, quando o gol  era convertido. Fazia um barulho danado, pois a porta era destas de metal. Correria para todo lado!

No fim dos anos 1950, iniciou-se a construção de um grande edifício na Rua Paim, que, pelas profundas estacas instaladas para sua fundação, fez subir o lençol freático, que transformou um terreno na Praça 14 Bis em pequeno lago. Tempos depois, descobrimos que havia aparecido lambaris e guarús, que pescávamos com puçás, molhando toda a roupa e fazendo o desespero de nossas mães.

Um pouco adiante dessa praça, havia um avião, da esquadrilha “Senta a Pua” da FAB, num monumento comemorativo da participação do Brasil na II Guerra Mundial. Mais adiante, na entrada do túnel da 9 de julho, nas fontes ali existentes, soltávamos barquinhos e pequenos veleiros, que às vezes ficavam presos nos canos dos chafarizes, nos obrigando a entrar na água para recuperá-los.

A farra maior era na manhã do “9 de julho”, quando acordávamos com o som de clarins, anunciando o começo das paradas comemorativas da Revolução Constitucionalista. Corríamos para a avenida e assistíamos extasiados, sentados nas sarjetas, à passagem dos soldados, canhões e tanques de guerra. Era comum levarmos sustos com os cavalos da polícia montada, que escorregavam do asfalto, empinavam e atrapalhavam o seguimento do desfile.

Bons tempos aqueles, em que nós crianças brincávamos na rua com segurança e tranquilidade.

Gabriel Whitaker é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Para contar a sua história da cidade, escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: homenagem ao seu Jacinto

Jacinto Afonso do Amaral Sobral

in memorian 

Não nasci aqui, cheguei ao Brasil em 1939, no porto de Santos aos 2 anos, juntamente com minha mãe e minha irmã mais velha. Meu pai, Manuel Afonso era um português muito comunicativo e empreendedor. Ele já havia estado no Brasil em anos anteriores, veio trabalhar com seu irmão mais velho ainda na década de 20 e, acredito, vislumbrou São Paulo como uma cidade muito mais promissora do que a pequena Carapito, aldeia na região norte de Portugal onde nascemos. 

Não lembro com exatidão das nossas primeiras moradias, mas tenho algumas recordações sobre o convívio com outros familiares (tios, tias, primos, quase todos portugueses). Minhas memórias são mais nítidas a partir do início da década de 40, período em que morávamos numa chácara rodeada por vastos morros — região hoje entre o Bosque da Saúde e o Jardim da Saúde — próximo à avenida do Cursino. Não tínhamos energia elétrica e a água era de poço. Nessa época, meu pai era leiteiro, tínhamos umas dez vacas; o leite era vendido nos bairros vizinhos.

Em 1943, aos sete anos, comecei a frequentar a escola, o grupo escolar Princesa Isabel, na Rua Ibirarema, bem em frente ao trecho em que havia um desvio dos trilhos do bonde da linha 30. Íamos a pé para a escola, eu e minha irmã 2 anos mais velha; tínhamos liberdade total em ir e voltar para casa sozinhos. 

A maioria dos veículos de transportes na região eram carroças puxadas por burros e cavalos. Pouquíssimos veículos automotivos circulavam pelas ruas; era época da 2ª guerra e a gasolina não era tão fácil para se adquirir; as bicicletas também eram muito utilizadas como meio de transporte.

Nossa chácara era relativamente perto de uma grande mata que nós chamávamos de Mata do Governo, onde hoje é o Zoológico de São Paulo. Lembro-me muito bem da inauguração do Zoológico, em 1958. Era perto dali, na Avenida Miguel Estéfano, avenida movimentada por carros que iam sentido Anchieta, onde eu gostava de passear de bicicleta.

Mas a melhor recordação da minha infância é a do dia em que chegou o caminhão que meu pai comprou, importado dos Estados Unidos, no início da década de 50. Ele havia desistido das vacas leiteiras e passou a fazer transporte de mercadorias do porto de Santos para São Paulo. Foi uma alegria só quando vi chegar aquele caminhão novinho, um Chevrolet verde, modelo 1951. E como eu não era muito afeito à escola, decidi lançar-me a aventura de acompanhar meu pai nas viagens durante os anos de 1952 a 1953. Meu pai era semi-analfabeto e precisava de minha ajuda nas negociações que fazíamos para transportar as mercadoria  pela recém-inaugurada Rodovia Anchieta.

Jacinto Afonso do Amaral Sobral é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Jacinto escrevei este texto no início do ano. Em agosto, infelizmente nos deixou. Reproduzo essas lembranças a pedido da filha Renata Afonso Sobral que assim também faz uma homenagem em memória do pai. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ouvir outras história da nossa cidade visite meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Jacarandá da Bahia na sala de casa, no Cambuci

Adalberto Pedromônico

Ouvinte da CBN

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Estávamos por volta de 1958. Eu aos 13 anos, meus irmãos, todos os seis, mais velhos. Morávamos na Rua Backer, 361, no Cambuci, num sobrado de três andares, que meu pai, o bem humorado e popular Migué, alugara, aproveitando uma boa fase. Ele já não residia com a família, pois encontrara uma cabrocha mais alinhada aos seus apetites. 

Apesar da separação, certo dia, trouxe um presente para a família: um jogo de sala de jantar com mesa, oito cadeiras, buffet e cristaleira. Peças de marcenaria dignas de figurar em uma sala de gente rica — coisa que não éramos. Todo orgulhoso, Migué fez as apresentações, frisando tratarem-se de móveis construídos em Jacaranda da Bahia. Não me era compreensível todo aquele orgulho, uma vez que faltava mesmo era o que por em cima da mesa. Sempre recomendava os devidos cuidados com os móveis.

Já desde 1956, meu irmão Angelo, o Lilo, juntara-se a amigos do bairro, com o propósito de criarem um grupo de teatro amador que pudesse preencher essa lacuna que se sentia na comunidade. Conhecíamos vários grupos da Mooca, do Brás, do Ipiranga, de Santana … do Cambuci não se tinha notícia. Além de dispor de palcos em pequenos salões paroquiais, clubes, São Paulo exibia um número grande de teatros, entre eles o João Caetano, o Paulo Eiró e o Arthur Azevedo. Destacava-se o Teatro São Paulo, na Liberdade, beirando a rua da Glória, hoje ocupado pela Av. 23 de Maio.

Estávamos ensaiando uma peça de Amaral Gurgel, o drama “Os Transviados”, que exigia um grande esmero na montagem cênica e tínhamos reservado o Teatro São Paulo para a estreia. A ação se passava em dois ambientes, um tribunal do júri, e o salão principal da residência da família. Na semana da estreia, conseguimos montar o tribunal e parte da sala: faltavam algumas peças fundamentais como a mesa de jantar, buffet e cristaleira.

A única solução visível era transferir o Jacaranda da Bahia para o teatro, tendo o cuidado de obter a concordância de Dona Angelina, minha mãe. Claro que estávamos apostando que papai não viesse naquele domingo. Mas, veio. Como tirar os móveis sem que ele visse? Convidei-o a ir até a cozinha para me ajudar a consertar um velho relógio Patec Corona que pertencera ao pai dele. E eu havia ganhado de presente.

Enquanto representava minha cena na cozinha, meu irmão e amigos retiravam a mobília da sala e a carregavam em um Chevrolet. Dali zarparam para o teatro. Passada meia hora, Patec vistoriado, Migué saiu da cozinha e se deparou com a sala vazia.  Senti ímpetos de me esconder em algum buraco que não achei e só fiquei observando meu pai trocando de cor várias vezes, feito um lagarto de São Roque. Ainda tentei uma desculpa, mas sem sucesso.

Tudo o que me ocorreu, foi sair em disparada até a Rua da Independência e pegar um bonde rumo à Praça João Mendes, descendo às portas do Teatro São Paulo, a poucas horas da estreia do espetáculo salvo pelo seu contra-regra: eu ….

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “io sono nato al Brás”

César Campos

Ouvinte da CBN

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“Io sono nato al Brás”. Foi a frase que eu disse ao italiano dono de uma pizzaria ótima em Peruíbe: o “Figlio di Vincenzo”. Falávamos de “il paese” de onde vinha o restauranteur, visto que havia várias flâmulas e cartazes da Bologna espalhados pelo recinto, muito rústico e simpático. Ótima pizza. E, sopratutto, me fez recordar o Brás.

Por ser um bairro que é praticamente extensão do centro, se desenvolveu muito cedo em termos de moradia e serviços. Como a industrialização de São Paulo teve seu início ali e na Mooca, basicamente movida pelos empreendedores italianos, a colônia era muito, muito grande. 

O Brás foi formado pelos italianos. Em parte também por judeus e me recordo que em minha rua havia um grande edifício no qual funcionava A escola israelita. Meus vizinhos? Manfredini, Baldon, Bacci, Tabarini, Morelli, D´Arena, Montoldi … Pela graça da origem, o Brás, tinha muitas, muitas cantinas. Algumas famosas ainda até hoje. Tinha também cinemas — objetos de gratas recordações como no filme de Giuseppe Tornatore. A Não havia, como no filme, uma pracinha com um cinema, mas um profusão de salas de exibição. 

A avenida Celso Garcia, mais próxima da minha casa, tinha o Cine Roxy, que penso ter tido uma das primeiras estruturas de “conveniência”. Para se chegar até as bilheterias, atravessava-se um corredor largo e longo, onde havia algumas lojas. Eu sempre fazia fotos oficiais —- de minha primeira comunhão ou de diplomação da escola — no Foto Roxy, que ficava ali no corredor.

O Cine Universo, também na Celso, era algo a parte: 4.500 assentos. Do foyer, a gente jogava pipoca nos infelizes abaixo, como no filme do Tornatore.  O teto do Cine Universo se abria! Que gloria, nas noites de luar e estreladas, era assistir a um filme olhando para o céu!

Um pouco mais adiante, já na Rangel Pestana, havia o Piratininga. Você pode imaginar uma sala de cinema com mais de 5.000 lugares —- sempre lotados. Os homens vestiam terno e gravata; senhoras e senhoritas, vestido rodado.Cantava-se, assobiava-se, aplaudíamos, falávamos alto, e, infelizmente, se fumava. Ainda havia, na Rua do Hipódromo o Cine Safira, e na  Piratininga, o Oberdan.

Minha mãe me levava para assistir as comédias de Jerry Lewis e os grandes musicais e filmes românticos; e meu pai não perdia os Westers de John Wayne ou Randolph Scott.

Como no filme de Giuseppe Tornatore, tudo acabou. Do Universo você nem encontra sinais; do Safira, nada sei. O Roxy havia se tornado uma igreja. O Oberdan hoje é uma loja e o Piratininga é um estacionamento 

Dizem que todo italiano tem um parente próximo no Brasil. Creio que Tornatore tinha parentes no Brás e veio visitá-los quando se inspirou para produzir Cine Paradiso. Giancaldo não era na Sicilia. Era o Brás no microscópio.

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no bolso da calça, tinha uma moeda de CR$ 0,50

João Coradi Neto

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Em dezembro de 1972, eu havia completado 20 anos de vida na querida cidade de Dois Córregos, da qual nunca tinha saído pra conhecer novos lugares, novos horizontes. Tudo ali pra mim bastava. Eu vivia feliz. 

 

Dois meses depois, eu estava descendo na Estação da Luz, na capital. Sozinho, com uma pequena mala de roupas, e apenas um endereço na mão — no qual já estavam vivendo meus pais, dois irmãos e quatro irmãs, que haviam se mudado para lá três meses antes de mim; e tendo deixado para trás duas irmãs que estavam casadas. 

Com dificuldade e de madrugada, encontrei meu destino, que estava escrito em um pedaço de papel —- novo começo, nova vida. 

Assim que o dia clareou percebi a séria dificuldade em que viviam meus familiares. Todos desempregados e ansiosamente me esperando. Eu era o único que tinha trabalho — vim para a capital transferido pelo banco em que era funcionário: o Banco de São Paulo S/A — Emissor, que logo foi incorporado pelo Banco do Estado de São Paulo S/A, o Banespa.

Vivíamos com o meu salário de onde saía o dinheiro para pagar aluguel, água,  energia e comida para todos. No dia do pagamento, eu entregava tudo na mão da minha mãe, responsável por controlar as contas. Ela separava moedinhas de CR$ 0,50 centavos de cruzeiros, me dava duas por dia para a passagem de ônibus da Penha ao centro, do centro à Penha, na zona leste de São Paulo. Algumas das moedas eram para meus irmãos saírem de casa em busca de emprego.

Pegava o ônibus logo cedo e passava  o dia apalpando o bolso para me certificar que a outra moeda estava guardada para garantir a viagem de volta. No horário do almoço, para que meus colegas não percebessem que eu não tinha dinheiro para comer, perambulava pelas ruas próximas ao banco, olhando para os restaurantes e lanchonetes com seus pratos e salgados  — o que fazia aumentar ainda mais minha fome. À noite, em casa, geralmente era servido arroz puro. De vez em quando, tínhamos das salsichas, ou dois, três ovos que mamãe cozinhava e dividia em partes iguais para todos na mesa.

Comecei a ficar com raiva da cidade, achava que não era lugar pra morar. Lá no interior, apesar de ter tido uma infância pobre, nunca tinha me faltado algo pra comer. Pensava comigo: “quero voltar, esta cidade é cruel, aqui não dá pra viver”. 

Com o tempo, em casa, alguns arrumaram um emprego aqui outro acolá, às vezes provisório. E cada dinheiro extra nos ajudava a resistir na capital. 

Meus dias foram ficando melhores. O que era raiva virou resiliência. E nessa transformação, surgiu a admiração. Percebi que a cidade nunca havia sido cruel comigo. São Paulo simplesmente me testara para ver seu eu era digno de viver nela.

Aumentou meu círculo de amigos, meus familiares se firmaram no trabalho e fui me apaixonando pela cidade, que havia me recebido de braços abertos e dado todas as oportunidades para que eu e minha família crescesse.  

Hoje, agradeço por tudo que conquistei. Minha esposa, dois filhos, três netas e amigos que moram em meu coração. Sinto-me privilegiado. Nunca deixarei de amar a pequena Dois Córregos, a qual sempre procuro citar nos mais de 800 poemas que escrevi, muitos dos quais publicados em 22 livros, sempre com o apoio da Editora Matarazzo, presidencial pela querida Thaís Matarazzo. 

Da mesma forma que jamais esquecerei de onde nasci, também não deixarei de amar São Paulo que, para mim, é a melhor cidade do mundo.

João Coradi Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.