Conte Sua História de São Paulo: em busca da minha tribo

Lourdes Gutierres

Ouvinte da CBN

Centro Cultural Vergueiro
Centro Cultural de São Paulo Foto: MAURO CATEB/ Flickr


Qual a tribo? Foi o que pensei ao ver um agrupamento de jovens dançando no vão livre do Centro Cultural São Paulo, naquele final de tarde. E se algum deles dirigisse esta pergunta para mim, teria resposta? Adentrar em si mesmo, pode significar abertura de portal inglório, preferi tentar compreender o meu entorno. 

Lembrei do sociólogo francês Michel Maffesoli, que ao analisar o novo tipo de organização social na pós-modernidade, trouxe o conceito de mundo tribal; onde pertencer a uma tribo torna-se condição de existência. A aproximação entre indivíduos se dá entre aqueles que pensam e sentem de forma semelhante. Os que estão dentro decidem quem pode entrar e os que devem ser excluídos. Senti necessidade de refletir: com tantos retalhos sociais, como estabelecer a tecelagem da convivência? Quais os princípios de conexão? 

Voltando ao Centro Cultural, por certo grau de ousadia que imponho a mim mesma, me vi tentada a um desafio: adentrar a um desses espaços de jovens. Gostaria de saber qual a recepção. Seria considerada a tia mais velha, que poderia trazer algum lance de sabedoria? Ou ouviria algo do tipo “Aqui é nóis, senhora, cai fora!”. Minha escolha dependia da minha habilidade em decifrar os códigos que estavam à minha frente, ou seja, outro desafio, distinguir as diferenças entre os presentes. 

Embora não houvesse nenhuma marca no espaço físico, percebi que cada grupo estava em seu quadrado, movimentando-se em espaço delimitado, ao som de uma caixinha instalada no piso. 

Em uma roda, o rapaz de bermuda e camiseta larga, mexia os braços e as mãos de maneira rápida, em descompasso com quadris e pernas, enquanto outros do grupo assistiam ou esperavam a vez. Os movimentos amplos e exagerados eram sincronizados com a música. 

No espaço ao lado, em outro ritmo, jovens faziam pareciam imitar robôs, com músculos em contração e expansão. Em outro canto, a dança de um dos participantes era acompanhada pelos demais. 

Seus pés pareciam riscar o chão, em seguida as pernas se abriam como se estivesse cortando algo no ar, imitando uma tesoura. Seguiam a coreografia do street dance, identifiquei depois. Próximo a este grupo, estava o casal dançando tango, a moça de salto alto, vestido vermelho ajustado ao corpo insinuava-se na dança de sedução ao parceiro, um rapaz forte, de roupa preta. Perto da coluna, quatro moças ensaiavam uma performance diante da divisória de vidro que servia de espelho. Atrás do vidro, a roda de capoeira, com a ginga de dois rapazes no centro, traçando movimentos de defesa e ataque. Configurava-se o jogo da zebra, no qual a imitação do animal produzia marradas e coices, segundo a história que contava mestre Pastinha, o capoeirista. 

Onde eu estava mesmo? 

Os ponteiros giraram no sentido anti-horário e me vi onde nunca mais gostaria de estar. Minha juventude, passei em tempos sombrios, no qual uma simples palavra podia ser crime; um gesto mal interpretado, levaria à morte. Espiões se infiltravam nas escolas, agremiações, andavam por toda parte, até mesmo em festas. Acontecia de militares cercarem grupo de estudantes em festa, a música era interrompida, todos revistados como criminosos, alguns presos. Um tempo como dizia Chico Buarque, “minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão…” Com a mesma idade daqueles rapazes, um estudante de geologia foi torturado até a morte em março de 1973. Sabe-se que pouco antes de morrer, teve tempo de gritar: “Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, estudo na USP, e só disse meu nome”. A missa em sua memória foi celebrada  na Catedral da Sé pelo cardeal Paulo de Evaristo Arns, e ouviu-se lá o canto de Sérgio Ricardo: “Cala boca moço, cala a boca moço…” 

Onde eu estava mesmo? 

Reconheci naquele centro de cultura uma oca urbana. Cada tribo compartilhava o mesmo espaço, com um interesse comum: a expressão artística. Fora do círculo, o caos da cidade grande, pessoas apressadas, trânsito engarrafado, condução lotada e, o temporal que alagava tudo. Lá fora, violência, desemprego, miséria. Ali dentro, temporariamente, o medo estava suspenso. 

Sem conseguir reconhecer minha identidade, nem distinguir o papel de cada grupo, mesmo assim resolvi adentrar na oca – assistir ao show do grupo Bexiga 70. A energia vibrante dos instrumentos musicais de sopro, percussão e corda fez o público se levantar; acompanhava o ritmo com batidas dos pés, remexo dos quadris, sacolejo de corpo. Como ficar imóvel? Entrei no cordão que percorria o palco em trenzinho, o dedo indicador em movimento apontava para o vasto vão da vida, enquanto cantávamos: ôô—ô,ôô—ô. 

Entrei em que tribo mesmo? 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Lourdes Gutierres é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler a crônica completa visite o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: doce de banana em casquinha de sorvete

Vera Helena Gasparotti Praxedes

Ouvinte da CBN

classificados
Classificado de jornal Foto: Guilherme Appolinário Flickr

Em 1958, terminei o primário no interior e, no fim do ano, voltamos para São Paulo. Éramos uma família grande: meus avós, tios e primos, além de nós seis — meu pai, minha mãe e quatro meninas. Eu era a mais velha.

Depois de um ano sem estudar, fui fazer o quinto ano no Grupo Escolar Caramuru, que tinha classes espalhadas pela Vila Nova York. Naquela época, era preciso fazer cursinho para entrar no ginásio. Como era muito difícil conseguir vaga em escola pública, entrei no Ginásio Comercial Excelsior.

Minha mãe trabalhava como copeira no Hospital Emílio Ribas, e pagar a mensalidade era uma luta. No fim do mês, muitas vezes faltava dinheiro até para a condução. À mesa, também era preciso escolher: às vezes havia arroz, mas não feijão; a mistura era uma verdura do quintal, couve ou almeirão. De vez em quando, íamos à horta do senhor Sakamoto, um japonês que plantava perto do rio Aricanduva. Ele fazia um maço de brócolis por dois cruzeiros — o mesmo preço de um doce de abóbora ou de um copinho de sorvete com doce de banana, servido numa casquinha e com pazinha de madeira, no bar da esquina.

Fiz o primeiro e o segundo anos do ginásio com boas notas. Quando passei para o terceiro, decidi procurar emprego nas férias para juntar o dinheiro da matrícula. Eu já tinha feito um curso de datilografia perto de casa. No domingo, comprei o Diário Popular, recortei anúncios de auxiliar de escritório e recepcionista, colei numa folha e organizei o roteiro. Na segunda-feira, saí cedo para procurar trabalho no centro.

Na terça, já estava empregada numa agência de publicidade na Rua Dom José de Barros. O prédio tinha uma linda entrada de mármore branco, em estilo art nouveau. Anos depois, reconheci aquela entrada no filme A Dama do Cine Shanghai, com Maitê Proença. Uma pena que não exista mais.

Comecei em janeiro. Recortava anúncios publicados nos jornais, atendia telefonemas e encaminhava os anúncios dos clientes. Saía cedo de casa e almoçava na Liga das Senhoras Católicas, nos baixos do Viaduto do Chá. Quase sempre, minha refeição era sopa. Às vezes, sobrava dinheiro para um copo de leite.

Naquele verão, chovia muito. Eu usava uma sapatilha chamada maria-mole, feita de napa, inclusive no solado. Um dia, desci do ônibus no Parque Dom Pedro, subi a Rua Rangel Pestana, atravessei a Rua Direita e o Viaduto do Chá. Na Barão de Itapetininga, virei à direita, na Dom José de Barros. A chuva deixou a sapatilha escorregadia. Eu avançava dançando pelas ruas, como bailarina numa pista de gelo, sem patins.

Cheguei ao escritório aos prantos. Era sábado, e trabalhávamos até o meio-dia. Contei o que tinha acontecido ao office-boy. Solidário, ele encontrou um par de sapatos de crochê, grandes para os meus pés, mas que me permitiram voltar para casa em segurança. Prometi devolvê-los na segunda-feira: eram da secretária da agência.

Trabalhei o mês inteiro. Quando chegou a hora de receber, pedi as contas para fazer a matrícula. Minha avó, que tinha vindo do interior para tratar da saúde, estava muito doente.

Ao sair do escritório, encontrei minha mãe e minhas três irmãs à minha espera. Ela me disse: “Verinha, vou pegar o seu dinheiro e comprar sapatos para suas irmãs. No começo do mês, recebo meu salário e devolvo o dinheiro da matrícula”.

Voltamos pela Ladeira General Carneiro e paramos numa loja de calçados. Todas saímos de sapatos novos, pagos com o meu salário.

Poucos dias depois, minha avó faleceu. No começo de março, minha mãe me devolveu o dinheiro. Mas, quando cheguei à escola, me disseram que não havia mais vagas. Voltei para casa triste e desconsolada. Para mim — e talvez também para minha mãe — parecia que não existia outro colégio onde eu pudesse estudar.

Não voltei à escola naquele momento. Só muitos anos depois concluí o primeiro e o segundo graus. Afinal, sempre há tempo para os desígnios de Deus. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vera Helena Gasparotti Praxedes  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os passeios da família mineira na capital paulista

Hamilton Oliveira

Ouvinte da CBN

Túnel 9 de Julho, em São Paulo Foto: arquivo

Era o início dos anos 1960.

Saíamos de Belo Horizonte bem cedinho, com destino à cidade de São Paulo, pela rodovia Fernão Dias, em um pequeno veículo, um DKW-Vemag. Na direção, meu avô. No banco ao lado, minha avó. Atrás, minha mãe, eu, com dez anos, e mais duas primas, também crianças.

Na metade do trajeto, em Campanha, onde havia uma parada da Cometa, estacionávamos na beira da estrada e, à sombra de eucaliptos, a vovó estendia uma toalha xadrez para um lanche com farofa e quitutes.

Chegávamos a São Paulo à noitinha e nos hospedávamos na casa de uma tia, no bairro da Bela Vista, talvez na Rua Dr. Plínio Barreto.

Da varanda, no sexto andar, eu avistava a boca do túnel da 9 de Julho e, na praça, via aqueles pequenos carrinhos Romi-Isetta e também os Fuscas da polícia, pintados de preto e branco. Era tudo novidade para o mineirinho.

Fazíamos passeios pelo centro da cidade, pelo Viaduto do Chá e pelo Vale do Anhangabaú. As compras eram no Mappin e na Sears. Não existiam os shoppings.

No fim de semana, descíamos a serra pela Via Anchieta, apreciando a mata, os viadutos e os túneis, com destino a Praia Grande, passando por Santos, São Vicente e pela ponte estaiada, até uma pequena casa de praia da tia, bem ao lado de um pequeno aeroclube.

Os banhos de mar eram em água limpa, numa praia de areia limpa e plana. Era um passeio maravilhoso que deixou saudades.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Hamilton P. Oliveira  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: um caso de polícia

Osnir Geraldo Santa Rosa

Ouvinte da CBN

Photo by Efrem Efre on Pexels.com

Meu pai era motorista de táxi. Morávamos no bucólico bairro do Tremembé. Ele nunca foi de contrariar as leis. Uma noite, chegando em casa cansado, recebeu uma intimação policial. E era de um órgão temido: o D.I., ou D.E.I.C., que, por sinal, ficava bem próximo de seu ponto de táxi.

Claro que meu pai não teve uma noite tranquila.

No dia seguinte, em pleno verão, chegou antes da hora marcada. Lá estava ele, naquele prédio um tanto tenebroso, sentado em um banco no imenso corredor. Passavam pela sua cabeça as situações mais horríveis: choques elétricos, ameaças e até pau de arara.

E fazia um calor asfixiante.

Foi quando aconteceu uma coincidência já difícil naquela época e quase impossível hoje. De uma das extremidades do corredor surgiu um cidadão que, tudo indicava, era funcionário graduado daquele órgão. Sapatos pretos, terno preto, gravata, camisa branca e o paletó seguro na mão direita.

Meu pai narrava esse caso em detalhes nos encontros familiares, aos domingos. E tinha enorme facilidade para guardar fisionomias.

Quando o homem avançou mais alguns passos, meu pai o reconheceu. Era um amigo de infância dos tempos de Itajobi!

Levantou-se e os dois se abraçaram efusivamente.

— Que bom te ver! Vamos para a minha sala. Sou delegado e responsável por tal área.

Já na sala, perguntou:

— O que te trouxe aqui?

— Não sei. Recebi ontem uma intimação.

O delegado chamou uma servente e pediu água e café. Em seguida, mandou um assessor descobrir o motivo daquela intimação.

Quando recebeu o documento e passou os olhos pelo papel, perguntou:

— Santa Rosa, quantos anos tem seu pai?

Meu pai, ainda meio atônito, respondeu.

O delegado então explicou:

— Bobeira, Santa Rosa. Uma pessoa fez queixa de que, certa tarde, seu pai urinou na cerca viva dela.

Cercas vivas eram muito comuns naquele bairro, naquele tempo.

Meu pai subiu ao céu, como se diz.

Quando voltou à Terra, despediu-se do amigo delegado.

Novamente, com um forte abraço.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: minha trajetória de office-boy a advogado no banco

José Antonio Braz Sola

Ouvinte da CBN

Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.

Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.

Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.

A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.

Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.

E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.

Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.

Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.

E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.

Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.

Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.

Uma verdadeira Academia!

Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.

Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.

O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.

Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.

Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.

No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.

Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:

— Um dia vou estudar aqui.

E estudei.

Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.

O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.

A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.

E, para terminar, parafraseio Tom Zé:

“São, São Paulo, quanta dor,

São, São Paulo, meu amor!”

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José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Inspirada no Conte Sua História, ouvinte lança livro na Bienal em São Paulo

Livro Ponto a Ponto de Marina Zarvos

Marina Zarvos lançará “Ponto a Ponto — crônicas do cotidiano” (Grupo Editorial Lê) no dia 10 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Distrito Anhembi.

A autora receberá os leitores a partir das 14h30, no estande K-74, próximo à Arena Cultural.

Marina teve dezenas de textos lidos no quadro Conte Sua História de São Paulo. Segundo ela, essa experiência a incentivou a transformar suas histórias em livros. Antes de “Ponto a Ponto”, foi coautora, com Sonia Bittencourt, de “As duas pontas da vida” (Oficina do Livro).

Tive o prazer de escrever a orelha de “Ponto a Ponto”, texto que reproduzo a seguir:

Marina Zarvos é amiga de longa data. É daquelas pessoas que chegam contando histórias e, quando você percebe, já está dentro delas. Eu e o Cláudio Antonio, o Claudinho, a conhecemos desde 2014. Foi quando nos falou do “Seu Tacílio”, que consertava calçados em uma sapataria na Jamaris, em Moema. Logo percebemos que ela faz amizade com facilidade. Em um passeio pelo bairro, nos apresentou Dona Eva, 90 anos, sobrevivente da Segunda Guerra e ainda firme para enfrentar as batalhas de um pedestre na cidade grande. Noutra vez, nos encontramos no Ibirapuera. Marina buscava o relógio perdido da mãe — como se procurasse também o tempo que escapa e insiste em permanecer. Certa vez, sentamos à mesa de um bar que hoje funciona onde antes era a casa de uma amiga de infância.

Como faz amigos essa Marina! Quando você a conhecer, vai entender a razão. Ela observa o mundo com atenção. Vê o que muitos deixam passar. Escuta o que poucos têm paciência para ouvir. E guarda — em crônicas, contos, poesias e textos reflexivos.

Entre um encontro e outro, descobrimos uma paixão em comum: o rádio. Claudinho e eu trabalhamos nesse ofício há décadas. Ele é o maestro que sonoriza cada história. Eu sou o editor e narrador do Conte Sua História de São Paulo, programa da CBN que há 20 anos dá voz aos ouvintes. Marina é ouvinte fiel. Um dia, ouviu seu nome e um de seus textos no ar. O que não sabíamos é que aquela experiência ajudaria a revelar a escritora que ela cultivava no escuro de uma gaveta — embora parte de seus textos já tivesse encontrado o público no rádio.

Neste livro, Marina vai além de Moema e da nossa São Paulo. Amplia esse universo. Em uma travessia feita de memórias e afetos, nos leva às suas origens. A cultura grega, presente na família, surge como referência — nos mitos, nos nomes, nas ideias que atravessam séculos. Ao mesmo tempo, seu olhar ilumina mulheres que sustentam histórias, muitas vezes de forma silenciosa.

Os textos formam uma galeria de personagens. Cada um conduz o leitor a experiências de perda, descoberta, amor e reconstrução. Fragmentos que, costurados, revelam um percurso: o de alguém que escreve para compreender a vida enquanto ela acontece.

Marina é uma narradora de encontros. Este livro é um convite. Ao percorrer suas páginas, o leitor reconhecerá, em muitas histórias, traços da própria vida — porque são essas histórias, as dela e as nossas, que nos deixam em sintonia.

Conte Sua História de São Paulo: o cabelo cortado por ordem do senhor Natal

Rubens Batista Rodrigues

Ouvinte da CBN

Foto: Jean depocas on Pexels.com

A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.

Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.

Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.

Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.

A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.

Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.

Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:

— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.

No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.

Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.

Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.

No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.

A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.

Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.

Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.

E teve uma despedida que ficou na memória.

Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.

Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.

Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.

Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.

A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.

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Conte Sua História de São Paulo: amor à primeira viagem

Roseanne Decanini

Ouvinte da CBN

Foto de Sergio Souza on Pexels.com

Meu amor por São Paulo começou cedo, quando eu tinha apenas seis anos de idade. Foi naquela primeira viagem, ao lado da minha mãe, que a cidade me conquistou para sempre. Viajávamos de trem, em vagão-leito, privilégio de filha de ferroviário. Foram doze horas de expectativa até chegar à Estação da Luz — um cenário que até hoje mora na minha memória.

Ficamos hospedadas no apartamento dos meus tios, em Pinheiros. Enquanto minha mãe ia ao hospital visitar meu irmão, que estava internado devido a um tumor na cabeça, eu permanecia no apartamento, encantada, observando a cidade pela janela do quarto. 

Via a movimentação da rua, os troleibus passando, as pessoas indo e vindo, a garoa fina caindo… Tudo aquilo era moderno, vibrante, fascinante para uma criança do interior. Naquele momento, pensei: “Gostaria de morar aqui.”

Achava lindas as mulheres sempre bem arrumadas, os homens elegantes, as pizzas deliciosas que comíamos. Mas, como tudo na vida, aquela temporada chegou ao fim e voltamos para Assis, minha cidade natal.

Anos depois, quando minha irmã se formou em Enfermagem, ela me convidou para ir com ela para São Paulo, onde haveria mais oportunidades. Não pensei duas vezes. Embarquei novamente rumo à cidade que já morava no meu coração.

E São Paulo me abraçou. Foi ali que cresci de verdade como pessoa. De uma caipira do interior, tornei-me uma paulistana antenada. Tive boas oportunidades de trabalho, estudei, me formei, amadureci. Trabalhei no centro de São Paulo, em banco, e morava próxima à Marechal Deodoro, perto do Minhocão e da antiga sede da Rede Globo.

Vivi intensamente a cidade: ia ao Mappin admirar vitrines e promoções, conheci o Museu do Ipiranga, caminhei pelo Largo São Bento, frequentei o Shopping Ibirapuera, fui ao cinema — ah, que delícia ir ao cinema! — ao teatro, às pizzarias, andei pela Avenida Paulista, onde também trabalhei, e aproveitei o Parque do Ibirapuera.

São Paulo é isso: cultura, movimento, oportunidades, acolhimento. É uma metrópole linda, pulsante, que transforma e impulsiona quem nela vive. São Paulo é, sem dúvida, a cidade do meu coração. E a quem fala mal dela, só lamento. Gostaria que nossos políticos tivessem o mesmo olhar carinhoso que nós, paulistanos de alma, temos por ela, e a tratassem tão bem quanto ela nos trata e acolhe.

Uma cidade que não apenas se visita — se vive, se ama e se leva para sempre na alma.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo


Roseanne Decanini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: olhares para a cidade

Silvana Menezes

Ouvinte da CBN

Metrópole nacional

Trilhar São Paulo,

a capital nacional do Brasil,

é ter um olhar múltiplo

Ora você observa lindos museus

palco de exposições,

Grafites do mestre kobra

O vai e vem da massa humana

O frenesi nas avenidas

O contraste do urbano chique com o urbano miserável

O olhar vê a realidade de cada esquina, com os humanos nas ruas,

com suas tralhas e coisas que carregam para todo canto, no espaço público: suas casas.

O símbolo da miséria nas ruas da metrópole.

Mudando o rumo do olhar

olhando para cima

A arte de rua em grafites que estampam mensagens

Os arranha céus esplêndidos da avenida Paulista,

O extravagante Copan de Nyemeyer

O Terraço Itália tocando o céu da metrópole

O olhar do ritmo capta o fluxo de pessoas indo e vindo,

intenso e pulsante dos trens que partem da Estação da Luz,

dos metrôs que cruzam a cidade,

da intensa movimentação da Paulista

Imagine, então, mais de 11 milhões de habitantes, numa cidade que encanta, canta, segrega, pouco dorme, faz negócios, lidera em áreas como a saúde e a pesquisa, faz eventos culturais.

Olhando essa mesma cidade lá do alto, 45º andar, do Terraço Itália, o olhar fica extasiado, da imensidão das construções, muros, pontes, edifícios, casas, aeroporto, parques, viadutos e do ponto mais alto: o Pico do Jaraguá.

Lá de cima, tudo é silêncio e contemplação. Assim, olhar São Paulo é ter a oportunidade de vivenciar o urbano com suas mazelas e suas grandezas alegóricas. Em São Paulo, o seu nome pode ser solidão, liberdade, alegria, riscos, violência, autenticidade e cada indivíduo pode ter a sua própria verdade.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Silvana Menezes Calixto, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: viver aqui é aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio

Ricardo Cordeiro

Ouvinte da CBN

Parque da Luz

Vista aérea do Parque da Luz. Foto: Renata Carvalho/CBN

Nasci em 1963, em plena ditadura militar, quando São Paulo crescia sob concreto, fumaça e silêncios impostos. Vim ao mundo no bairro da Ponte Pequena, região que hoje abriga a estação Armênia do metrô. Eu, também, descendente desse pequeno país na região do Cáucaso, a Armênia, talvez por isso traga comigo, desde cedo, o sentimento de pertencimento misturado à resistência.

Minha infância foi marcada pelo Colégio Prudente de Moraes, que hoje abriga a Pina Contemporânea, anexo da Pinacoteca. Onde antes havia salas de aula, hoje há arte — e eu gosto de pensar que essa transformação também diz muito sobre São Paulo e sobre mim. O Parque da Luz fazia parte do meu cotidiano, um respiro verde em meio à cidade dura, um espaço onde o tempo parecia desacelerar.

Aos nove anos, minha família se mudou para a então Vila Sônia, região que hoje atende pelo nome de Jardim Trussardi, próxima ao estádio do Morumbi, o que me fez são paulino. Fomos morar em uma pequena vila, carinhosamente apelidada de “vilinha”, um lugar pitoresco, acolhedor, que até hoje preserva sua identidade. Ali aprendi o valor da convivência, da rua, do bairro como extensão da casa, fiz inúmeros amigos, que até hoje me acompanham

Comecei a trabalhar cedo. Fui contínuo em banco — o motoboy da época — circulando pela cidade, conhecendo São Paulo por dentro, nos seus corredores, calçadas e contradições. Estudei, me formei em Comunicação e, como a própria cidade, mudei muitas vezes de caminho. Trabalhei em jornais, como a Folha de São Paulo, vivi o ritmo intenso das redações nos tempos do fim da ditadura, e também passei por grandes montadoras, como a Mercedes-Benz, experimentando outros mundos dentro da mesma metrópole.

Casei, me separei, tive um filho, que hoje tem 34 anos, e mais tarde fui presenteado com uma filha linda, que hoje tem 10. Duas gerações separadas pelo tempo, mas unidas por essa mesma cidade que nunca dorme.

Hoje sou empreendedor na área de design digital e impresso, criando, reinventando, comunicando. E como São Paulo também é festa e resistência cultural, criei um bloco de carnaval de rua: o Perdendo a Linha, porque às vezes é preciso se perder para se encontrar.

São Paulo sempre esteve presente nas minhas conquistas e nas minhas derrotas. Uma cidade dura, generosa, caótica e acolhedora. Cresci com ela, envelheci com ela, e sigo caminhando ao seu lado. Minha história se mistura com a dela — porque viver em São Paulo é, acima de tudo, aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ricardo Cordeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.