Conte Sua História de SP: saí com o guia de ruas em mãos e ao voltar encontrei o meu caminho

Bernardino Santos Filho

Ouvinte da CBN

Imagem de Steve Buissinne por Pixabay 

Tenho 57 anos e nasci na pequena cidade de Igreja Nova, em Alagoas. Vim para São Paulo, em janeiro de 1965. Tinha apenas um ano e meio. Vim com minha mãe, meu pai e meu irmão —- que ainda estava no ventre.

Foi uma viagem difícil. De ônibus. De Alagoas a São Paulo, em um trajeto que durou seis longos dias. Minha mãe conta que passei muito mal durante a viagem. Em São Paulo, assim que chegamos, fomos acolhidos por parentes que moravam no bairro do Campo Limpo.

Aos oito anos, em 1972, fui matriculado na Escola Jockey Club de São Paulo  — hoje, um prédio abandonado.  Tinha bolsa de estudos, pois meu pai trabalhava como cavalariço, pessoa que cuidava dos cavalos no Jockey Club. 

Frequentei essa escola por sete anos, da 2ª até a 8ª série.  Naquela época não existia ensino médio e fundamental. Ao completar 15 anos, fui procurar o meu primeiro emprego para ajudar nas finanças de casa. Havia feito o curso de datilografia e auxiliar de escritório, na crença de que me ajudariam a arrumar um trabalho. 

A primeira entrevista foi na Química Industrial Paulista, que fabricava o “Thinner Audi”. A vaga era de office-boy. Seu Jorge, meu entrevistador, de imediato perguntou se eu conhecia todas as ruas de São Paulo.

Quem diria, em vez de datilografar com velocidade, eles precisavam de alguém que dominasse o guia de ruas da cidade. Após alguns segundos de hesitação, respondi que sim: “conheço, sim”.

Fui contratado pelo departamento de cobrança para entregar os avisos de cobrança para os clientes. No primeiro dia de trabalho, recebi uma série de correspondências, cada uma com um endereço diferente do outro e um guia de ruas. Gelei com a incumbência. Mas, perguntando aqui, errando ali, certificando-se acolá, fiz todas as entregas dentro do prazo previsto.

No dia seguinte, surpresa, fui chamado pelo meu chefe. Ele disse que o contador da empresa queria falar comigo. Será que fiz algo de errado? Não! Ele havia verificado o meu currículo e visto que eu tinha o curso de auxiliar de escritório. Sem perguntar se eu queria, disse que a partir daquele momento eu seria arquivista no departamento de contabilidade.

Fiquei seis anos na empresa. Tomei gosto pela contabilidade. Fiz o curso de técnico e tirei o meu CRC —- a carteirinha do conselho regional. Hoje, sou bacharel em Ciências Contábeis, pós-graduado em Controladoria, Finanças e Auditoria e também tenho MBA na área. 

Se longa e difícil foi a viagem de Alagoas a São Paulo, a jornada aqui nessas terras se estendeu por muito mais tempo e foi marcada por muitas alegrias. Assim, só tenho a agradecer à cidade que acolheu minha família. E à empresa, a Audi, que me deu a primeira oportunidade de trabalhar e me apaixonar por contabilidade e finanças.

Bernardino Santos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe você também: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: paixão ao abrir os olhos

Gi Delabeneta

Ouvinte da CBN

Foto: Mílton Jung


O meu amor por esta cidade é tão grande, que fica até difícil saber por onde começar. Mas quem sabe do início? Foi em 2014, numa viagem com a faculdade. Lembro de eu abrir os olhos após 10 longas horas de  ônibus e deparando com o centro de São Paulo. Pessoas dormindo na rua, bastante lixo no chão, buzinas, trânsito e uma quantidade de pombos que eu nunca tinha visto antes. Eu era uma menina de 20 anos, de Santa Catarina, e com meu faro de jornalista decidi conhecer tudo de uma vez: em três dias, visitei o Brás, a 25, andei de trem e de metrô, conheci veículos de comunicação, o Mercado Municipal, experimentei o sanduíche de mortadela e conheci até o Templo de Salomão. Mas ainda faltava conhecer aquela que se tornaria o meu motivo maior para querer visitar São Paulo para sempre: a Avenida Paulista. 


Logo depois que voltei para Blumenau senti uma saudade inexplicável daquela rotina deliciosamente maluca. Só fui voltar à terra da garoa três anos depois, em 2017, convidada para um trabalho que ficava em plena Avenida Paulista. Senti naquele instante, na primeira vez que eu pisava no asfalto da Avenida, que se estabelecia uma conexão profunda com São Paulo. 


Já deve ter dado para perceber que a Avenida Paulista é o meu lugar favorito no mundo, tanto que o meu pedido de namoro seria lá. Estávamos lá, com as alianças e tudo. Só que deu tudo errado e meu namorado (que, não por acaso, é paulista) acabou me pedindo em namoro dentro da rodoviária do Tietê. Uma longa e cômica história…
São Paulo também é muito especial para mim, porque foi palco da realização de grandes sonhos, alguns de infância: fui ao show do meu grupo preferido e abracei minha cantora favorita. Estudei na cidade. Conheci gente extraordinária.  


São Paulo me inspira, me faz sentir viva, faz meu coração pulsar de felicidade, cada vez que chego na Avenida Paulista, me encanta, me fascina, me conecta com quem sou de verdade.

São Paulo me ensinou a ter coragem, a viajar sozinha:a de avião, de ônibus ou de metrô. São Paulo me ensinou a não me desesperar quando quase perdi meu voo de volta e nem sequer tinha levado cartão de crédito. Como fiz aquilo? Sei lá! Deve ser essa proximidade que São Paulo me faz sentir, mesmo estando a 600 km de distância.


Com a pandemia não pude mais sentir aquele frio na barriga na chegada em Congonhas ou no Tietê. A última vez que estive na cidade foi em agosto de 2019. Imagine como está a saudade no meu peito. Mas assim que puder, volto pra aí ao som de Is This Love, do Whitesnake, música que me acompanhou em um trajeto de volta para o terminal do Tietê, quando, dentro do Uber, eu, eufórica, sentia aquele momento precioso e, fora do carro, assistia ao pôr do sol mais lindo que já vi na vida.


Gislaine Delabeneta é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja voce também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o encontro com a minha companheira solidão

Maria Fernanda Mendes Pereira

Ouvinte da CBN

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Assim que privados da convivência com entes queridos, de encontros a céu aberto, recorremos a nossa herança evolutiva em busca de novas soluções para sobrevivermos à tamanha mudança. Como nos alimentar, nos automedicar e, principalmente, nos comunicar sem sair de casa? Redescobrir novas ferramentas, aprimorar seus usos foi, mais uma vez, a solução encontrada pela espécie humana para se adaptar à nova fase.

Sempre usei a tecnologia com parcimônia, aproveitando de seus benefícios sem correr grandes riscos. Para mim, um universo desconhecido e complexo embalado por uma grossa casca de preguiça e desinteresse. Para que aprender a fazer certas operações comerciais de casa se podia ir a lojas, bancos, supermercados? Quantas conversas agradáveis e cafezinhos não garanti com essas visitas. E os imperdíveis encontros com amigos: “olhos nos olhos”, gargalhadas soltas, paqueras.  

Do período Paleolítico ao período Homopandemicus em menos de três meses, sentada em frente ao computador … Não reluto mais em comprar produtos, pagar contas, baixar aplicativos úteis e inúteis e até assistir às tais lives pelo celular.

Os encontros e reuniões com amigos pela internet são dignos de filmes de ficção cientifica. Com dia e hora marcada, os participantes se arrumam, se enfeitam, camuflam os desembelezamentos da quarentena e se olham cara a cara. Sem lenço, sem máscaras. Os mais prolixos adoram descrever, detalhadamente, como lavar cada pacotinho entregue pelo supermercado, as máscaras depois de utilizadas e inúmeras outras desinfecções. Outros preferem alertar sobre o perigo da contaminação e a irresponsabilidade da população. Alguns, talvez os mais insubordinados, preferem participar das videoconferências com alguma bebida alcoólica na mão. Nossa geração sempre se lembrará de que antes da tal pandemia havia renomadas instituições denominadas bares, onde isso era comum.

Depois de várias videoconferências, identifiquei um outro novo comportamento recorrente:  a vivência do mito de narciso. Eu, por exemplo, adoro observar meus movimentos e expressões projetados no computador. Cheia de caras e bocas, não deixo de me manifestar sobre o assunto discutido. Adoro ver as linhas que destacam minha imagem quando tomo a palavra. Mesmo não querendo me admirar, é impossível. Lá estou eu, em um dos pequeninos quadrados, me observando, me analisando, dessa vez como meu rigoroso superego.

Também o hábito de compartilhar interesses e habilidades nas redes sociais se tornou corriqueiro e, por consequência, meu gosto por escrever crônicas veio a público.Se a princípio me senti apavorada por ter de enfrentar a mim mesma, conviver com minha lucidez, encarar uma jornada tão enfadonha, longa, solitária e imprevisível; com o passar do tempo passei a olhar melhor ao redor. O silêncio, o canto dos pássaros e o crepúsculo me fascinaram. Estupefata, fui descobrindo horas de prazer em livros, filmes, em mim mesma.

Conclui, após tantos dias de confinamento, preferir a profundidade que encontrei em minha masmorra e a beleza observada de minha torre à superficialidade dos grandes salões.

É na solidão que posso sussurrar minhas meias verdades, meus vacilos de opinião, meus medos, desejos, invejas, sem quaisquer pretensões. É no silêncio que decido o que e como fazer com tal abundância de ócio sem prestar contas. 

Claro que não me imagino deixando de gostar de uma boa prosa com amigos, de frequentar bares, mas, parafraseando, Thoreau, posso dizer que nesta reclusão não poderia  ter encontrado  companhia mais companheira que a solidão.

Maria Fernanda Mendes Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha ser um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, viste o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: vou às nuvens com meus netos a bordo de um tapete voador

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte CBN Valter Santos, no Flickr

Navegar é preciso, viver não é preciso”

Fernando pessoa

Com quatro anos, ele é meu companheiro de quarentena, pois as circunstâncias assim determinaram. Desde o dia em que o mundo parou, nossa diversão tem sido embarcar no tapete voador, inventado às pressas, para alcançarmos lugares e pessoas queridas. Visitamos castelos encantados, príncipes, princesas, praias, fazendas, a outra casa da família no interior de São Paulo, sobrevoamos a casa dos primos e até visitamos a terra dos antepassados, na  distante Grécia.

Quanta alegria e diversão para proteger o pequeno neto, Nikolas, do pesadelo que a humanidade vive! Protegendo-o, esqueço por horas seguidas o fantasma que assusta a todos. Resgato o universo da imaginação, da fantasia e das deliciosas brincadeiras. 

A quarentena atravessou o ano de 2020, já adentra 2021… e nosso tapete decola diariamente, pousando bem ao lado do Aeroporto de Congonhas, em Moema. A mesma Moema que, há alguns meses, quase não nos permitia ouvir os sons dos pássaros ou do silêncio. Ganhamos um pouco de quietude nestes tempos sombrios, o que me fez relembrar quando aqui cheguei, no início da década de 60. 

Apenas um ou outro pássaro, de aço, pousava em sua enorme pista. A avenida Moreira Guimarães permitia que a atravessássemos sem medo, quase de olhos fechados, até que um dia, num piscar de olhos, as máquinas a invadiram e abriram o grande corredor da tão conhecida Avenida 23 de Maio. Acompanhei a transformação do bairro, da cidade. E hoje, na calma triste da pandemia, revisito a transformação de mim mesma. A menina cresceu, casou-se, teve filhos e hoje, netos.

Sim, os netos são nossa oportunidade de visitar a criança que fomos.  E assim sobrevoando São Paulo e o mundo, a bordo do tapete voador, posso dimensionar melhor o tamanho da mudança. 

Lá, nas alturas encontramos nuvens e somos por elas engolidos. Lá nos diz o comandante:

“Informo aos senhores passageiros que estamos atravessando uma área de instabilidade, favor observarem os sinais luminosos de atar os cintos e seguir a orientação dos comissários”. 

Aqui, no meu espaço de proteção, respiro fundo e confio que passará logo. Tudo passa. Tudo evolui e, na “nuvem” – aquela que a tecnologia me apresentou – vislumbro meu outro neto, Joaquim, um pouco mais longe, nessa ausência imposta. 

Percebo, então, que tenho de inventar em mim outra criança. Não a que fui, mas a que ele é. Vejo e revejo suas fotos, vídeos e alegres encontros virtuais de 2020, que parecem ter acontecido em outro século. Tempos se confundem, espaços se estreitam… dias, semanas, meses ganham uma outra percepção da passagem do tempo. 

Os espaços? Ficaram vazios, atônitos. Porém, eu os vejo paradoxalmente encurtados, agora, pelo tapete voador do Nikolas, 4 anos, e pelo tapete virtual do Joaquim, 9 anos, que, com rapidez impressionante, decola, percorre avenidas virtuais, conecta-se com seus pares, brinca, joga, explora países, continentes, descobre fórmulas, faz suas aulas on-line, oferece algumas aulas à sua avó – vovó-criança, desdobrada entre o tapete voador e a quase impossibilidade do tapete virtual. 

Nessa nuvem em que tudo cabe, receio entrar. No entanto, é nela que o mundo do meu neto primogênito está. Mundo digital que vai se descortinando, dia após dia, na viagem que parece não ter fim. Sigo como uma navegante perdida em mares turbulentos. Sem bússola, navegar não é preciso, não é certo, não é seguro. Mas sigo vivendo na imprecisão e mistério infinitos da vida, só agora entendendo a filosofia de Petrarca nos versos de Fernando Pessoa. Sim, viver é navegar de olhos cegos e sem rumo. 

Mas há instrumentos, sim, meu pequeno grande comandante informa: “Coloca o “Easy”, vovó! Você vai ver, é bem mais fácil saber o caminho”. Não digo nada, só me perco no encantamento, As crianças, em sua inocência de anjos, nos fazem sempre encontrar um porto seguro, Há muitas perguntas a serem respondidas, muitas descobertas. Dizem os entendidos que “não há pergunta sem resposta no mundo da internet”. Será mesmo? Então… quando passará essa pandemia, respondam-me, por favor!!?

Volto o olhar para o Nikolas que, parecendo ouvir meu grito mudo, afirma certeiro: “Quando a gripe passar, vamos brincar lá fora, por enquanto vamos “se divertir” aqui mesmo”. E dá de ombros, num trejeito só seu.  

Nikolas e Joaquim, com suas observações e dicas, conduzem-me ao melhor porto: minha família, amigos, trabalho on-line, nossos alegres encontros virtuais. Vida. Vivendo e aprendendo, com os pequenos mestres, que as nuvens se dissiparão, o sol voltará a aquecer nossos corações e a iluminar os novos caminhos da humanidade.                                                           

Naveguemos na esperança ou na certeza de que, sob as nuvens do céu de São Paulo, há muitos tapetes voadores, driblando lindamente a tempestade. E de que há, na nuvem da internet do mundo todo, tapetes virtuais generosos, com que enganamos a saudade. 

E seguimos repetindo, como num mantra, que vai passar.

Viver não é preciso, poeta, mas é urgente.

Marina Zarvos Ramos de Oliveira  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: sinto o pulso da cidade ao levantar com o sabiá

Por Fernando Dezena

Ouvinte da CBN

Foto: André Pereira/Flickr

Confesso que São Paulo sempre me amedrontou quando menino, mas, ao mesmo tempo, imantava meus pensamentos, como o canto da sereia. Há dez anos, era junho, convidado a trabalhar por estas bandas, não pestanejei. Troquei as ondas do Atlântico, que quebravam sob minha janela, pelos prédios inumeráveis.

Antes da cidade, do todo, quem primeiro me acolheu foi a Mooca. No labor, o Brás; a Letícia, nos estudos em Higienópolis pelo Mackenzie e o Lucas terminando o colegial. A Mooca guarda um pedaço que a cidade perdeu: algo de humano, de brisa, de andar pelas calçadas. Pode ser que em outros bairros aconteça assim: na Penha, na Vila Maria, em Santo Amaro, em Heliópolis; em cada canto dentro de suas verdades. A identidade do bairro sussurra, às vezes grita:

– Olhem para mim! 

Gosto — pena que o isolamento não mais permita — de encontrar a cidade.

Em alguns lugares é possível. A Avenida Paulista, reduto dos milionários do café, virou um misturador de todas as raças e credos, mas é no centro que brota algo mais forte, genuíno. Se na Paulista respiramos folhas e flores, no centro tem-se o gosto de raiz, o cheiro forte da terra, de minhocas, de rios, de histórias que construíram a cidade. 

Não é a primeira vez, mas repito que gosto de andar por suas ruas.

Aos domingos, em especial, como a cidade demora a acordar, as janelas tardam a abrir, aproveito, interiorano que sou, madrugadinha, para correr por suas ruas; depois, ao volante, ando pelos bairros como a escutar a cidade. Já fiz tal questionamento em um poema e, como na crônica, não encontro resposta.

E a cidade continua se expandindo, subindo, por vezes morrendo, alagando, alongando tentáculos de concreto, barro, tijolos, madeiras, para além de seus limites.

A cidade tem fome e vai engolindo o entorno; ela tem fome e vai ganhando os céus; muita fome e desce por sob a terra com seus túneis, metrôs em subsolos sombrios. 

São Paulo pulsa e é possível senti-lo. Não ao meio-dia, no turbilhão de milhões de pessoas à procura de sobrevivência. Quem pensa que é nesta hora, engana-se. Para sentir o pulso da cidade é preciso levantar-se de madrugadinha, junto com o sabiá, abrir a janela, colher a brisa fresca, fechar os olhos e respirar pausadamente. Ao se escutar um canto estranho, por vezes sem melodia, saiba que ele não vem das sereias, mas da coragem de teu povo que em boa parte nesta hora dorme e sonha com a luta por um dia melhor. Assim pulsa a cidade!

Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: Santa Lourdes!

Maria de Lourdes Cocozza

Ouvinte da CBN

Estamos em 1980.


Sou uma universitária que faço a graduação na Unicamp. Vou de manhã de carona para Campinas com amigos que fazem pesquisa — eles têm até carro! — e retorno de ônibus até a rodoviária de São Paulo. De lá, pego um ônibus para o apartamento onde moro.

Estamos em abril. 

Cheguei na Rodoviária e como sempre, sinto-me meio perdida pois a capital é nova para mim. Sou do interior. Ao pegar a carteira para tirar o dinheiro da passagem, não a encontro. Minha bolsa está rasgada e a carteira sumiu. Me desespero e uma pessoa generosa me dá o dinheiro da passagem e me orienta a procurar nos achados e perdidos, meus documentos. 

Acho estranho e a pessoa fala: “sabe garota, muitas vezes o ladrão pega apenas o dinheiro e joga o resto fora”. Fui para casa e no dia seguinte, no mesmo horário, retornando de Campinas, vou até o balcão. 

Várias caixas com embrulhos feito carinhosamente, com elástico de “dinheiro” embalam pertences. As caixas são organizadas pelo alfabeto e há muitas Marias. Eu, uma delas.

Estava lá! O meu nome estava em um embrulho. Entre curiosa e esperançosa, o abri.

O que encontrei? 

Minha carteira de Identidade. Duas imagens de Santo Antônio, o santo de devoção da minha família,  há gerações. E uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes que ganhei em 1975, de minha Madrinha de Crisma, a Dona Chica, pois ela achou interessante o fato de eu ter sido batizada Maria de Lourdes e ter nascido em 1958, ano de comemoração do centenário da Santa. Desde então, essa imagem eu guardo com meus documentos.

Fico muito feliz, saio radiante sabendo que meus Santos me protegeram.

Você deve estar pensando: o que tem de especial esta história de São Paulo? Isso acontece com milhares de pessoas, todos os dias. Sim! Acontece mesmo. Aconteceu comigo, de novo, e de novo, e de novo. Quatro vezes em três anos. E em todas as vezes lá estavam a carteira de identidade, Santo Antônio e Nossa Senhora de Lourdes.

Hoje, estou com 63 anos, já tenho carro, e o Conte Sua História de São Paulo me desafia a abrir a carteira e revelar as memórias agencias que acalantam a alma.  Com imensa gratidão a vocês da CBN e enorme respeito a São Paulo e a alguns patrícios habilidosos que socializaram meus recursos, mas respeitaram a minha fé, me despeço!

Maria de Lourdes Patrocínio da Silva Cocozza Simoni, Lou Cocozza, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: trabalhei na fábrica de chocolates da Joaquim Floriano

Marta Alves

Ouvinte da CBN

Imagem: divulgação

Tenho 64 anos, nasci em Canaã, zona da Mata Mineira. Com seis anos, mudamos para São Paulo —- o que naquela época correspondia a ir para outro planeta.

Lá em casa, vivíamos muito humildemente. Éramos uma família, com seis irmão, sendo eu a mais velha. Morávamos na zona sul de São Paulo, no bairro de Pedreira, região de Santo Amaro. 

Minha mãe trabalhava de doméstica no Itaim Bibi, na rua Bandeira Paulista, esquina com a Tabapuã, na casa de dona Amélia. Como ela arrumou um outro emprego e pediu demissão, dona Amélia perguntou se não tinha uma filha que pudesse ficar no seu lugar só pra fazer as tarefas mais leves e ajudar com as crianças. Doce ilusão!

Eu estava com 12 anos e havia terminado o primário, então minha mãe, acreditando que fazia um bem para mim, permitiu que eu fosse trabalhar por lá. Como era muito longe de casa,  ficou acertado que eu dormiria no emprego e fosse pra casa só aos sábados, retornando na segunda-feira. As semanas eram infinitamente grandes. Devo dizer que sofri bastante naquela época, sem contar pra minha mãe as humilhações pelas quais eu passava. 

Quase um ano se foi, até que um dia, minha mãe, que continuava trabalhando em outra casa, também no Itaim, viu uma placa em uma imensa fábrica branca, na Joaquim Floriano: “precisa-se de menores” …. sim, naqueles anos era permitido.

Imediatamente, minha mãe foi até a portaria buscar informações. Em uma semana, fiz minha malinha na casa da Bandeira Paulista, dei tchau para a Dona Amélia, voltei para o bairro de Pedreira, onde morava minha família, e comecei no meu primeiro emprego com carteira assinada.

Imagine. A fábrica era da Kopenhagen. Sim, uma fábrica de chocolates. Dá pra imaginar o encanamento de um grupo de jovens e adolescentes adentrando aquele mundo no qual para todo lado que se olhava havia chocolate. 

O curioso é que a empresa tinha como regra que não poderíamos levar nada lá de dentro. Mas lá dentro, não era proibido comer as guloseimas. Claro que eles sabiam que depois de poucos dias convivendo com aquela esbórnia de delícias logo estaríamos saturados.

Foram poucos, mas foram inesquecíveis e doces aqueles meses de 1971.

Marta Alves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias  visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: “comunicar é namorar”

Reproduçao da cena de “Breakfast at Tiffany’s”

“Esqueçam aquele mito de que marca se escolhe é na hora da compra” 

Jaime Troiano

Audrey Hepburn, no papel de Holly, tem uma bebida em uma das mãos e come um sanduíche diante da vitrine da loja de luxo Tiffany, em Nova Iorque. O olhar está vidrado nas joias de uma das marcas mais desejadas do mundo. Essa cena que abre o filme “Breakfast at Tiffany’s” ou “Bonequinha de Luxo”, como foi batizado no Brasil, ilustra como funciona a relação das pessoas com as marcas.

Jaime Troiano e Cecília Russo, especialistas em branding e comentaristas do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso dizem que a transformação do consumidor em cliente se assemelha a aproximação de duas pessoas que descobrem que têm coisas em comuns ou complementares:

“Não se escolhe noiva no altar. Ou seja, consumidores namoram marcas, ficam noivos e a compra é apenas a celebração do compromisso” — Cecília Russo

Aproveitando o sábado, em que se comemora o Dia dos Namorados, Jaime lembra que independentemente das formas que os namoros têm assumido, existem coisas que são clássicas:

“Uma certa química que aproxima: o olhar, o jeito, o toque ou qualquer elemento que o outro projeta e que te engancha …. o namoro não acontece porque se tem uma necessidade fria pelo outro, acontece porque tem os ingredientes típicos de um enamoramento”

As marcas também emitem sinais, mensagens, traços de sua personalidade, que são valorizados e compreendidos pelos consumidores. Cecília Russo ensina que para essa relação ser um sucesso é preciso alimentar esses sentimentos e a comunicação tem papel essencial:

“A comunicação traz esses ingredientes do namoro. Comunicar é namorar”.

Como o casal que apresenta o programa também está enamorado há muitos anos, sabe que a manutenção desta atração é sensível e precisa ser cuidada no dia a dia para que, se a relação não for eterna, ao menos seja “infinita enquanto dure”, como escreveu Vinícius de Moraes.

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso e saiba, também como a ideia de transformar o namorado em noivo, ou melhor, o consumidor em cliente funciona nos relacionamentos digitais:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ao ar, sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN 

Conte Sua História de São Paulo: o sino azul tocou no coração da telefonista

Sílvia Pohiani dos Santos

(in memorial)

Aos dezoito anos, minha mãe, Diva Pohiani, deixou a cidade do interior onde morava para trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira, em São Paulo. O mundo estava em guerra e ela deixou seus pais trazendo junto de si o salvo conduto — uma autorização especial que permitia que viajasse apesar de ser de origem italiana e, portanto, considerada inimiga por nosso país que apoiava os aliados.

Em São Paulo, na cidade que mais crescia no mundo,  ela se sentiu uma rainha. Com seus saltos altos, cabelos cuidadosamente arrumados trabalhava no setor mais moderno da nossa economia que era o de prestação de serviços. 

Ela era uma telefonista.

Fizera os testes e fora aprovada graças a sua boa dicção, capacidade de atenção e delicadeza no trato com o público. 

O trabalho exigia muita prontidão para realizar as ligações que eram pedidas quando as luzinhas vermelhas se acendiam no painel, além de muita discrição para não ouvir os diálogos que se iniciavam ou também para interromper, gentilmente, qualquer tentativa de conversa com os clientes mais ousados.

Durante o horário de almoço, ela e suas amigas visitavam o Parque do Trianon, já que trabalhavam ao lado do bairro do Paraíso. Lá faziam caminhadas e leituras —- liam, entre outras publicações, a revista Sino Azul, editada pela Companhia Telefônica Brasileira, entre os anos de 1928 e 1973. Leituras e passeios que permitiam que ela e suas amigas descobrissem uma fascinante cidade.

Foi no caminho do trabalho que foi marcado o primeiro encontro entre Dona Diva e Seu Joaquim —- Joaquim Henriques dos Santos, aquele que viria a ser o meu pai. 

Na Praça da Sé, no mais famoso relógio público da cidade, ela desceu do bonde no ponto final onde ele a esperava para acompanhá-la ao Paraíso —- digo, o bairro do Paraíso. Em plena praça, provavelmente pela emoção ou pelo salto muito alto,  ela caiu no chão. Seu Joaquim hesitou entre correr para auxiliá-la ou fingir que não tinha visto para não constrangê-la. Como minha mãe foi rápida em se levantar, ele optou pela segunda ideia.

Beijaram-se assim que se viram. Dona Diva jura ter ouvido sinos azuis. 

Casaram-se e minha mãe deixou o emprego tão querido, porque, por contrato, ela deveria trabalhar em diferentes turnos, com o que meu pai não concordava. Era preciso cuidar da casa e dos filhos que viriam a seguir. 

Apesar de sair da Companhia Telefônica, Dona Diva nunca esqueceu essa experiência profissional, naquele momento efervescente e glamouroso. Época em que ela, uma mulher independente e dinâmica, ajudava a escrever a história das comunicações de São Paulo.

Em sua memória também ficou a imagem e a companhia de uma gerente, chamada Sílvia, de origem alemã. Mulher elegante. Inteligente. Muito fina. Que orientava e tratava as jovens telefonistas de forma humana e com muita competência. 

Uma admiração que justifica meu nome de batismo, Sílvia, filha da Dona Diva — mulher corajosa e moderna que muito me ensinou e a quem lembro no momento em que faço aquilo que mais gosto: contar a história.

Diva Pohiani é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi escrito pela filha da Dona Diva, Silvia Pohiani dos Santos, historiadora, que morreu há oito anos. Seu filho, Renato Santomauro, ouvinte da CBN, compartilhou com a gente um capítulo das histórias escritas por Dona Silvia. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br E ouça outras histórias da cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo 

Conte Sua História de SP: fui aluna da professora Zelinda, no Liceu

Odila Vitória Rocha da Costa

Ouvinte da CBN

Você encontra alguém na rua, descobre que estudou no Liceu. E a pergunta é inevitável:

— Foi aluno da Zelinda?

Professora Zelinda. É assim que a gente a conheceu. É assim que ela será para sempre. 

Zelinda Casella lecionava história, moral filosófica e filosofia, no Liceu Pasteur, em São Paulo, na Vila Mariana, zona sul. Deu aula para várias gerações. Muita gente famosa aprendeu a pensar com ela. Juizes de direito, prefeitos de São Paulo, doutores … tudo bem, até o Doca Street passou na sala de aula dela. Ela tentou, mas cada um é responsável pelo seu próprio destino. 

Séria, reservada, não se intimidava com nada. Quando alguém conversava durante a aula, ela chamava atenção: “oh, fulano!” e dava batidinhas na lateral da mesa com a caneta. Ninguém mais ousava respirar.  Rita Lee, sua aluna, também a descreveu: ”Mestra-fera que não engolia qualquer deslize dos alunos”

Nunca soubemos dela ter faltado a um dia de trabalho. Sabia tanto que jamais usou um livro em suas aulas. A lousa ficava vazia. Era a professora Zelinda, seu conhecimento e sua fala. E ela falava e a gente anotava. Palavra por palavra. Parecia ter vivido cada uma daquelas histórias que contava.

Impecável e elegante. Ano após ano o mesmo modelito. Cabelo curto, bem ajeitado, sempre preto — mesmo com o passar do tempo. Saia reta: azul marinho, marrom e raríssimas vezes branca. Uma variedade de casos de crochê coloridos. Combinava camisa, sapato e brinco.  Foi motivo de comentário na revista Marie Clarie, claro lá também trabalhava uma ex-aluna dela.

Professora Zelinda era vaidosa e extremamente elegante: no falar, no agir e no pensar. Irônica, a la Voltaire, nos fazia pensar muito antes de perguntar. E nos ajudou no exercício da reflexão.

Tivemos oportunidade de revê-la em alguns reencontros de turma. Sempre pontual. E reclamava que cada um chegava em um horário diferente para o que seria apenas um descontraído almoço. Mantinha-se atualizada e bastante crítica. Seguia nos oferecendo o espaço do pensar

O que falaria do momento atual na sala de aula? Deixa pra lá. Porque, hoje, queremos homenagear nossa professora, que morreu de morte morrida no dia 17 de abril, aos 92 anos. Uma personagem de São Paulo que participou da construção do que pode haver de melhor em uma cidade, ajudou a formar cidadãos.

E antes de me despedir, um aviso aos anjinhos no céu: “acabaram as conversas paralelas” …

Professora Zelinda Casella é personagem do Conte Sua História de São Paulo, em texto escrito por sua ex-aluna Dila Rocha. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto sobre a nossa cidade e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.