Mundo Corporativo: Carlos Busch convida você a entender o protagonismo do consumidor para ir além das expectativas

“… a gente precisa ser cada dia melhor que a gente mesmo e não melhor que um terceiro”

Carlos Busch

Vivemos épocas em que a única forma de interagir com uma marca era pela caixa postal; a inovação tecnológica deu liberdade às pessoas se comunicarem pelos canais que considerarem mais apropriados. Essas transformações também deram aos indivíduos o poder de escolha e a capacidade de comandar a evolução dos negócios, exigindo respostas do mercado. Uma pressão a mais sobre gestores e executivos que se veem ameaçados neste cenário e precisam reagir sendo protagonistas de suas carreiras e buscando ir além das expectativas.

A ideia que abre este texto é defendida por Carlos Busch, executivo, referência em evolução mercadológica, que atua há mais de vinte anos em multinacionais e ocupa, atualmente, vice-presidente na Sales Force Latin America. No programa Mundo Corporativo, o autor do livro “Muito além das expectativas” (editora Gente) chamou atenção para a necessidade de as empresas entenderem que o consumidor hoje tem muito mais informação e isso lhe confere poder:

“As empresas que entenderem que gerar informação gera relevância, gera empatia junto ao consumidor, são as empresas que vão estar mais próximas a criar um engajamento e, obviamente conseguir, ter as melhores transações comerciais com ele”.

Muitas empresas ainda mantém como parâmetro o mercado que atuam e seus concorrentes —  é o conceito do benchmark que sempre imperou na mente dos executivos. Para Carlos, esse viés do passado que ainda pauta a forma de agir de empresários e executivos, impede que se enxergue o poder do indivíduo:

“Quem conseguir converter a sua visão muito mais para o cliente tem chance de protagonizar muito mais e não vender 1.8 carros para cada dez pessoas que entrarem na loja, mas vender três, quatro, cinco …”

A referência de Carlos é de uma das histórias que conta no livro, na qual o vendedor de carros comemora o fato de alcançar um índice de conversão de vendas maior do que os concorrentes, quando seu objetivo deveria ser ampliar os resultados comparando com o seu próprio desempenho:

“… de nada adianta eu ser o melhor baseado que eu não sou o ótimo Muitos dizem que a minha oportunidade e a tua margem ou a tua margem é minha oportunidade. Nesse mercado de competição quem entender como entregar a melhor experiência para o cliente, dado que ele é o  protagonista , poderá chegar ao cenário de dez pessoas entrarem numa loja e comprarem dez carros. Por que não, né?”

Um dos caminhos para que essa mudança de comportamento ocorra é o método dos 5 Ps, que representam os cinco principais pilares responsáveis pelo protagonismo em sua jornada, segundo Carlos:

  • Propósito – descubra o seu e guie suas ações;
  • Pioneirismo – tenha uma mente inquieta e aja sem se preocupar em alinhar a sua conduta com a da maioria;
  • Pense e faça – tenha a liberdade de buscar algo diferente, ainda que não esteja pronto
  • Performance – desafie-se a todo momento a ser melhor e diferenciado
  • Pessoas – cerque-se de pessoas capazes de enriquecer suas ações e de o ajudar a forjar melhores caminhos.

Assista ao vídeo completo da entrevista de Carlos Buscah, no programa Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Priscila Gubiotti, Bruno Teixeira, Renato Barcelos e Rafael Furugen. 

Conte Sua História de São Paulo: no caminho do saber

Sonária Souza

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay no Pexels

Sou professora de Atendimento Educacional Especializado, trabalho na EMEF Benedito Calixto, unidade escolar na zona leste de São Paulo. A pandemia de Covid – 19 trouxe muitos desafios, e grandes oportunidades de aprendizagens.

No ensino da prefeitura, faz parte do currículo do 9º ano, apresentar no fim do ano o TCA — Trabalho de Conclusão Autoral. Mas com a pandemia como fazer?

Após um reunião online com a delegacia regional de ensino, nossa gestora, Cíntia, ficou entusiasmada com a ideia de realizar o TCA remoto: fazer um Diário de Bordo. Os professores abraçaram a proposta mesmo com dúvidas se daria certo fazer o trabalho de conclusão pelo Meet no Google Classroom. Começamos a planejar, compartilhar ideias e o trabalho foi ganhando forma, emoção, participação, inspiração…

Nos reuníamos com os alunos pelo Meet todas as quartas feiras das 10 ao meio-dia, abordávamos temas que traria repertório para a produção dos Diários de Bordo. Cada aluno trazia suas reflexões, havia momentos de escuta e escolhiam uma palavra-chave para representar aquele dia, e todos falávamos bem alto juntos. 

Organizamos as audições para apresentação previa dos trabalhos. Os alunos se mobilizaram para ter acesso a internet, contavam com doações de celulares, iam atrás de informações, contavam com parcerias dos colegas para elaboração e apresentação, tudo de forma remota.

As audições online foram espetaculares, cada aluno apresentava de acordo com suas habilidades e especificidades. Houve respeito, comprometimento, empatia, harmonia entre a equipe de docentes e alunos. Os professores faziam observações para contribuir com os trabalhos apresentados. 

Nos dias primeiro, dois e três de dezembro tivemos as apresentações do TCA definitivas, e cada trabalho foi simplesmente maravilhoso! Aprendi muito, conheci os alunos de modo amplo e particular. Nós professores tínhamos uma sintonia mágica, compartilhamos ideias, dávamos suporte um para o outro.

Gratidão por ter participado deste trabalho, com professores incríveis como: Alberto, Filomena, Igor, Jaqueline, Márcia, Maria Sandra, MarInez, Paulo, Rúbia, Tatiane. 

2020 ficará marcado para sempre na vida dos alunos e professores. Parabéns EMEF Benedito Calixto, Escola das oportunidades!

Descobri qualidades nos meus colegas antes não percebidas, pois no cotidiano escolar não tínhamos oportunidades de nos reunirmos com frequência para dialogar, e a tecnologia nos permitiu conhecer melhor os alunos, suas famílias, o grupo de professores e funcionários.

Gratidão a todos por estarmos juntos na caminhada do saber.

Sonária Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “tenho a cor negra no sangue que a pele não mostra”

Rodrigo G. Tomaz

Ouvinte da CBN

foto do autor

Amarelo, preto, vermelho, branco. 

Sua foto o que diz? 

Meu pai foi negrinho engraxate, minha avó preta empregada, a mãe dela escrava, e Zé Índio meu vô.

Tenho cor clara pra quem olha, mas melanina não define quem sou.

Sou ítalo africano brasileiro americano. 

Sou cidadão do mundo, tenho um pouco de tudo.

Já fui menino de rua, do mato, da loja, da escola, agora da Califórnia. 

Tenho uma história mulata que minha aparência sonega. 

Sou o mesmo que eles, aqueles julgados por fora. 

Injustiça que mata. 

Mas foi mais fácil pra mim. 

Subir os vidros do carro, esconder os pertences, sentir o medo no olhar. 

Já estive dos dois lados, se assustar e ser julgado, mas qualquer roupa me muda de patamar.

Posso ser rico, ser pobre, bem vestido ou rasgado. 

Sou apenas o que decido ser.

Tenho a cor negra no sangue, que a pele não mostra.

Mas a vida é injusta, e foi mais fácil pra mim.

Sou igual mas diferente. E é bem mais fácil pra mim.

Eu nunca fui presidente, atleta de elite, ou guitarrista dos bons. Não fui artista famoso, escritor respeitado, ou então pensador. 

Por que eu seria superior? 

Eu sou melhor em quê? 

Se tem um vírus que mata, bota o lenço na cara. 

No espelho o que vê?

A cor do pano te muda?

Você se sente mais forte, mais esperto, mais nobre? 

A cor muda você? 

Se tapamos o rosto, se olhamos no olho, não somos todos iguais?

Você se acha distinto, mas é melhor em quê? 

Rodrigo Tomaz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: diversidade gera inovação, diz Emerson Feliciano, consultor de carreiras

“Se o seu modelo de pensamento não estiver programado para o sucesso profissional, não importa o que você faca, você não vai gerar o resultado que você espera”

Poucos, muito poucos, são os negros que sentam nas cadeiras reservadas aos conselheiros das 500 maiores empresas brasileiras. Nem 5% delas, diz pesquisa do Instituo Ethos. E se você circular por suas sedes, perceberá que o mesmo acontece com os cargos de executivos (4,7%) e gerentes (1,3%). Foi com esses números que Emerson Feliciano iniciou sua entrevista no programa Mundo Corporativo. Mesmo com a ressalva de que prefere as histórias aos números, o consultor recorreu às estatísticas para dar noção do grande caminho que se tem para equilibrar a balança étnico racial no ambiente empresarial.

Ele próprio encontrou barreiras na sua trajetória profissional, o que somado ao racismo estrutural e a falta de oportunidade que atinge mulheres e homens negros, o levou a se dedicar no treinamento e mentoria de carreiras. Emerson criou o curso Mentoria P&D – Profissional e Diferenciado e trabalha com o objetivo de permitir que profissionais de diversos níveis dentro da empresa alcancem mais rapidamente seus objetivos de promoção.

“Quando a gente fala do negro, o modelo de pensamento não é voltado para o sucesso. Porque quando ele decide fazer uma faculdade, uma pós-graduação, a primeira palavra de cancelamento vem de casa: o que você vai fazer com isso? Isso é muita para você? Na sua família ninguém fez faculdade”.

A falta de referências também é apontada como uma barreira mental que os negros enfrentam no cenário corporativo. Emerson diz que basta fazer o “teste do pescoço”: levante o pescoço e olhe ao seu entorno, veja quantos negros são líderes dentro das empresas, quantos são os que dão aula na universidade, quantos são os militares que ocupam os postos mais altos …

“Claro, se a gente for olhar para trás,  quanto a gente pensa neste racismo estrutural e racismo institucional, vemos que pouco o negro ocupou os lugares de “poder” dentro da sociedade. Isso é uma marca que a gente precisa aos poucos quebrar e eu, dentro do mundo corporativo, converso com os meus colegas diretores para que a gente vá quebrando cada vez mais esse racismo”.

A mudança de mentalidade é um dos cinco pilares com os quais Emerson Feliciano trabalha no desenvolvimento de profissionais e na preparação para a ascensão nas empresas. Vamos a eles:

  1. Mudança de mentalidade
  2. Propósito (por que e por quem você está fazendo aquilo?)
  3. Habilidades comportamentais
  4. Preparação
  5. Ação

“O conhecimento é estático, é como uma moeda de ouro lá no fundo do oceano. Você sabe que está lá, mas no fundo do oceano não vale nada. Você precisa de ação para fazer esse seu conhecimento se destacar”.

Para as empresas, o recado de Emerson é quanto ao potencial que está sendo desperdiçado a medida que se mantém os padrões anteriores e se impede a diversidade étnico-racial. A começar por mudar seus indicadores de lucro pelos indicadores de desempenho: satisfação do cliente, imagem da empresa e diversidade, por exemplo. O instituo McKinsey mostrou em pesquisa realizada em 12 países de que as empresas que investem na diversidade lucram 36% a mais:

“… porque quando você coloca essas pessoas que vêm de culturas diferentes para pensar juntas, cara, isso gera uma inovação que as empresas ainda não conseguiram entender o poder desse ativo. Quando conseguirem certamente a gente vai vai investir muito mais na diversidade.

Assista à entrevista completa com o consultor Emerson Feliciano, no Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo, Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: lições de um cadete do Barro Branco especialista em despedidas

Luiz Eduardo Pesce Arruda

Ouvinte da CBN

reprodução Governo de SP

Quando ingressei na Polícia Militar, em 1977, como cadete da Academia do Barro Branco, havia duas oportunidades de se dar bem: ser atleta de uma das equipes da academia ou na CORP – a Comissão de Relações Públicas da Academia. Como para atleta não servia, restou-se a CORP. E como funcionava: todo sábado, 16 cadetes engalanados e sorridentes dirigiam-se a um baile de debutantes, escalados pela academia. Um dançava com a aniversariantes, os demais com as amigas. Todos elegantemente vestidos, de uniforme azul de gala, quepe branco, e espadim reluzente. Arrasavam corações já na entrada do baile.

Eu bem que tentei, mas nunca era escalado. Não sabia dançar. Restou-me a comissão de pêsames. A despeito do motivo do evento, eu passei até a curtir as saídas da academia para os velórios. A paz, o ritual, a lembrança da finitude humana, a insensatez da vaidade, a fugacidade da beleza física. Tudo aquilo dizia muita à minha alma jovem. Era uma materialização de Esclesíastes, na reprimenda à vaidade. E sempre havia café ou um lanchinho para acompanhar.

No fim do curso, quase cinco anos depois, formado em câmara ardente, nos velórios mais prestigiosos de São Paulo, tornei-me uma referência, uma lenda viva, reconhecida pelos pares como o maior expert no assunto.

— Arruda, conheceu o coronel João, o Aviador?

— Fui no velório dele

— O coronel Pedro, o Paraquedista?

— Não conheci em vida, mas fiz câmara ardente para ele.

E fazia minha recomendações: no cemitério da Quarta parada tem um trailer de lanche e a calabresa com queijo é muito honesta. O Gethsêmani e o Morumbi têm uma lanchonete que é uma beleza, mas leva dinheiro porque é tudo muito caro. Se for escalado no Perus ou Santo Amaro, leva lanchinho de casa, porque o serviço é bem fraquinho.

Ao chegar no local, identifique a viúva e os parentes, faça expressão séria, ofereça os pêsames em nome da Academia e cuidado para não entrar em rodinha de gente inconveniente, bêbada e piadistas —- essa fauna sinatrópica que não vive sem um velorizoinho. Mas também, convenhamos, sem esse povo não tem a menor graça.

Luiz Eduardo Pesce Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: empresas tem de ser onipresentes na jornada do consumidor, diz Lyana Bittencourt

Foto de Mikhail Nilov no Pexels

“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”

Lyana Bittencourt

Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:

“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.

A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:

“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”. 

E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier.  Ou seja, nem só físico nem só digital: figital. 

“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”. 

Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: sonhava ser o motorista do “Papa Fila”

Ismael Medeiros

ismaelmedeitos@outlook.com

Nasci em 13 de julho de 1946, no Hospital Umberto Primo, o Matarazzo, próximo de onde meus pais moravam, na rua Herculano de Freitas, na Bela Vista. Aos dois anos mudamos para São Miguel Paulista, onde a economia girava em torno da Nitro Química, fábrica da Votorantim.  Meus avós maternos seguiram morando nos velhos sobrados da Nove de Julho, ao lado do túnel — o que nos levava a visitar frequentes ao Bexiga.

Sair dos limites da zona leste era uma saga. Pegávamos um ônibus até a Penha. Era o ônibus do Toninho, seu proprietário. Depois de passar pela curva da morte, na Ponte Rasa, desembarcávamos na praça Sete de Setembro para, em seguida, subirmos no bonde —  ou o Camarão,  de cor alaranjada, ou o aberto. Na Praça Clóvis Beviláqua, saltávamos de um bonde para outro, para chegar na rua Manoel Dutra, próximo a praça 14 Bis.

Nos bondes, havia propaganda de produtos no alto. Uma das que não esquece tinha um careca correndo atrás do macaquinho que lhe roubara o vidro da loção capilar: “vem cá Simão! Traga a minha loção”.

O ouvinte Ismael é o menino menor desta foto feita na Praça 14 Bis em 1948

Na praça 14 Bis tinha um jardim que seguia até o túnel, com espaços onde andava de bicicleta com o primo Joãozinho. Havia bancos de assentos para apreciar o movimento de carros, geralmente Ford e Chevrolet. Eu e ele apostávamos se passariam mais carros verdes ou pretos. Ainda por lá, ao lado do túnel, tinham dois chafarizes que davam uma vontade louca de mergulhar. 

Ainda lembro do retorno a São Miguel, no fim da tarde, início da noite, quando a cidade virava uma festa de luminosos, colorindo e encantando as pessoas. O meu preferido era o Elmo do Banco Auxiliar de São Paulo que eu avistava do ponto de ônibus, no parque Dom Pedro II – já era época em que os bondes começavam a ser substituídos. Do lançamento do ônibus ‘Papa Fila’,  uma espécie de carreta da CMTC, guardo a lembrança do motorista que ficava isolado no cavalo mecânico, enquanto os passageiros vinham na parte articulada de trás. 

Sonhava ser o motorista daquele ônibus. Fazia do contorno do assento meu voltante. Com a boca, imitava o ronco do motor. Trocava marchas imaginárias. E seguia conduzindo meus passageiros pela Rangel Pestana, Celso Garcia, Penha e de volta a São Miguel Paulista. 

Ismael Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: quando a marca deve fazer uma harmonização facial

Colégio Bandeirantes ganhou novo logotipo (foto: divulgação)

“Ao longo da história de uma marca é preciso fazer mudanças para preservá-la”

Jaime Troiano

Tá na manchete do site de fofoca. Tá em destaque na televisão. Tá nas páginas de saúde e bem-estar. Harmonização facial é o tema da moda quando o assunto é beleza. É a combinação de uma série de procedimentos estéticos — dizem que suaves e sem cirugia — para corrigir a simetria e a proporcionalidade do rosto. Aplica-se botox, faz-se preenchimento facial, dá-se uma enxugada na papada e um reforço na elasticidade da pele. Bem feito, o resultado é ótimo. E tem quem diga, recupera a auto-estima. Quando dá errado … esquece!

Assim como as pessoas, as marcas também podem passar por uma espécie de harmonização facial, com retoques aqui e ali, capazes de oferecer uma imagem melhor, mais simétrica e moderna. São mudanças que vêm para preservar a marca, explica Jaime Troiano:

“Marcas antigas, tradicionais, algumas com décadas e outras centenárias, não precisam ficar com cara de velha. Devem fazer atualizações e renovações. dentro de certos limites. Por outro lado, não podem, simplesmente, levar uma vida acompanhando a modinha”.

O risco de fazer a harmonização facial da marca sem critério é perder o seu diferencial e ficar com a mesma cara da concorrência, a mesma linguagem e o mesmo conteúdo. A solução é bem parecida com aquela proposta por Jaime e Cecília, quando falamos de inovação das marcas: muda-se sem perder a essência. 

Um bom exemplo, usado pela Cecília Russo para ilustrar o tema, foi a “harmonização facial” do tradicional Colégio Bandeirantes, de São Paulo, fundado em 1944. Há três anos, a escola iniciou uma série de mudanças que passaram pelo nome, logotipo e comunicação com a intenção de expressar melhor a proposta da escola de “olhar à frente”. O colégio assumiu o nome Band, forma como seus alunos se referiam à instituição, e tirou a letra B, símbolo da escola, de dentro de um logotipo quadrado, para dar ideia de flexibilidade. 

“Acho que isso é um bom exemplo de fazer uma renovação: preservar o essencial, e mostrar que essa dualidade, ser tradicional e inovador ao mesmo tempo, é possível”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo, e sonorização de Paschoal Junior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã. Os ouvintes podem participar com mensagens enviadas para marcasdesucesso@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: César Souza apresenta 5 lições que temos de aprender com o sucesso da Magalu

“O líder, hoje, tem que estar ligado com essas palavras, que são bonitas, mas tem que ser praticadas: compaixão e amor. Tem que entender a dificuldade dos outros e buscar soluções para a dificuldade dos outros”

César Souza

Se quiser copiar e colar a frase acima e publicar nas suas redes sociais, sem problema. Agradeço de coração! Agora, se for para copiar e colar fórmulas aplicadas por empresas de sucesso, muito cuidado. O alerta é de César Souza, empreendedor de nascença, consultor por profissão e um fã das boas práticas de gestão. Essa é uma das lições que aprendeu ao longo da carreira e compartilhou com os ouvintes, em entrevista ao Mundo Corporativo, quando falou do seu último livro “O jeito de ser Magalu”, o primeiro de uma série em que analisa a história, a estratégia e o desempenho de algumas das principais empresas brasileiras, que podem inspirar os empreendedores:

“Deve servir de inspiração para cada um olhar para sua realidade, e ver o que é que pode fazer dentro da sua própria realidade; e não, simplesmente, aquela ideia, já desbotada, do benchmark, que muita gente vai atrás para ver como é que funciona uma outra empresa para trazer, para copiar, na minha empresa. Eu acho que copiar não funciona”.

Magazine Luiza surge quando o casal Luiza Trajano e Pelegrino José Donato compra a Loja Cristaleira, em Franca, no interior de São Paulo, em 1957. Antes mesmo de inaugurar o novo negócio, Luiza revela uma característica que marcaria o grupo ao longo de sua trajetória: foi a uma rádio local e lançou concurso para que os ouvintes escolhessem o nome da loja. Essa prática está dentro do conceito que César Souza identifica como o da clientividade, que é “colocar o cliente no centro do seu modelo mental, no centro do seu coração, no centro das suas decisões” 

Da ação no fim dos anos 1950 à expansão da rede, da loja do interior paulistano que se transformou em marca nacional à transformação digital, a Magazine Luiza passou por três sucessões —- o que, por si só, já é um tremendo desafio poucas vezes vencido pelas organizações, no Brasil. A fundadora Luiza Trajano entregou o comando para a sobrinha, Luiza Helena. Por um período, a empresa esteve nas mãos de um profissional de mercado, fora da família, Marcelo Silva, que fez a transição para Frederico Trajano, filho de Luiza Helena, e responsável pelo avanço tecnológico que levou a empresa a um outro patamar.

A sucessão exemplar é a primeira de cinco lições elencadas por César Souza que se deve aprender ao analisar a história da Magazine Luiza.  Outra — e já falamos dela — é colocar o cliente no centro do negócio. A lista se completa com a paixão pelas pessoas e equipes, a tecnologia humanizada e o senso de propósito:  

“A Magalu não é uma empresa grande é uma grande empresa. É uma neo empresa … as verdadeiras empresas do século 21. Porque ainda vemos empresas grandes aqui no Brasil que estão no século 20. A Magalu está em 2030. E tem capacidade de servir de exemplo para muitos empreendedores que estão começando os seus negócios”.

Para aprender com as lições ensinadas pela Magalu — sem precisas apenas copiar e colar —-, ouça a entrevista completa com César Souza, no Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo Edinho, o Macalé

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

O menino trajava calça curta azul-marinho, camisa branca e, nos pés, exibia um conga — esse talvez novinho. Avistei-o na empoeirada ladeira da antiga Estrada 4, numa manhã de fevereiro de 1964. O período letivo estava começando e nos encontrávamos na estrada que, anos depois, deixaria de ser número e passaria a se chamar Avenida José Joaquim Seabra, no Rio Pequeno, na região do Butantã, em São Paulo.

Aproximei-me e fiz ao menino a mais óbvia de todas as perguntas naquelas circunstâncias: — Você está indo para a escola? De imediato, ele respondeu sim, reforçando a fala com o movimento da cabeça. Depois dessa “densa e longa” conversa, fizemos em silêncio o restante do caminho. Aquele era meu segundo ano na escola e, como se repetiria em todo início de período, estava na expectativa de fazer novos amigos entre a turma da classe — era assim que a gente chamava a sala de aula. As instalações do grupo escolar resumiam-se a dois galpões de madeira, que um dia tinham recebido uma demão de tinta azulada, com vidraças quebradas, tetos sem forro e buracos nas telhas de amianto, por onde entrava a luz matinal. Por coincidência, o garoto que eu acabara de conhecer fazia parte da nova turma.

Nesse breve espaço de tempo teve início uma amizade que perdurou até os dias atuais. Foi também nessa mesma ocasião que descobrimos que apenas algumas quadras separavam nossas casas, e isso contribuiu para que nos tornássemos amigos quase inseparáveis. Edson — nome com o qual eu o conheci — era um menino esperto e se tornou companheiro de incontáveis jornadas. Um dos primeiros talentos que nele percebi e parecia lhe ser inato era a habilidade com a bola de futebol. Enquanto ele a tratava com intimidade, eu só tentava jogar. À dupla original, se juntaram outros garotos da vizinhança — nessa época, era comum que os pais conhecessem quase todos nossos amigos, mesmo que as famílias não se relacionassem ou sequer se vissem. Dos familiares do Edinho — diminutivo pelo qual todos o tratavam — carrego boas recordações do Sr. Antônio, o pai, das feijoadas da Dona Raimunda, a mãe, e das irmãs Cidinha, Lili e Edna, além dos primos Dudu e Carlinhos.

Dele, uma das lembranças frescas em minha memória é sua quase indestrutível farda de bombeiro — enquanto coube em seu corpo, foi usada como fantasia de diversos carnavais. Com o Edson, o Tute — assim eu era conhecido pelos amigos — cursou o primário e o ginasial. Nesse período, exploramos terrenos baldios onde jogávamos futebol e disputávamos partidas de taco e nos aventurarmos a ir mais longe, como nas partidas de futebol aos domingos à tarde no Morumbi, estádio então recentemente concluído.

Aos sábados de manhã, era com ele que eu e outros amigos nos dirigíamos a uma feira livre no Itaim-Bibi para fazer carretos. Ainda nem éramos exatamente adolescentes quando tivemos que abrir mão das brincadeiras de crianças e encarar o batente. Agora era trabalho de dia e estudo à noite. Mesmo assim, continuávamos próximos e juntos concluímos o antigo ginasial e ingressamos no ensino técnico em administração no Colégio Fernão Dias, em Osasco. Nesse período, nos víamos quase que apenas em sala de aula: cada um saía do trabalho direto para a escola.

Edinho estava trabalhando numa empresa do ramo alimentício. Já com mais de 18 anos, a empresa havia colocado um carro à sua disposição. Foi nesse fusca branco que, por vezes, eu e o Keko — outro amigo do bairro — pegávamos carona para voltar pra casa.  O fusca foi também testemunha de nosso primeiro “enquadro”. Numa dessas noites, quando voltávamos da escola, uma viatura da Rota — divisão da Polícia Militar do Estado de São Paulo que já na época era reconhecida pela truculência — nos abordou na Avenida Rio Pequeno, — esquina da Avenida Corifeu de Azevedo Marques. “Delicadamente”, com a arma — uma calibre 12 — engatilhada e apontada para a cabeça do Edinho, o policial gritou: — Parou, parou! Mãos na cabeça, negão! Eu disse as duas mãos.

Enquanto isso, outros dois soldados apontavam suas escopetas para os caronas. Saímos do carro com as mãos levantadas. Grosseiro como só os policiais sabem ser, o trio nos empurrou de cara para o muro e passou a nos revistar. Da minha bolsa, retiraram a marmita, abriram, constataram que estava vazia e, aos risos, abandonaram-na no chão da calçada.

—  Negão, de quem é esse carro e cadê os documentos? — indagou um dos soldados. Calmamente, Edinho entregou os documentos e, de imediato, foi questionado pela “autoridade”: —  Quem me garante que o fusca não é roubado? Sem exibir qualquer traço de nervosismo, Edinho mostrou sua carteira funcional.  Terminada a abordagem, os policiais entraram na viatura e arrancaram sem esboçar um mero pedido de desculpas.

A humilhação de ter a marmita exposta foi até insignificante diante das evidências de racismo praticado pelos militares ao abordar o motorista e tratá-lo sem nenhum respeito. Percebi certo constrangimento na expressão do Edinho. O ato preconceituoso tornou-se marcante em minha vida, pois, se, de um lado, revelou como a polícia tratava jovens da periferia, de outro mostrou a dignidade de meu amigo.

Algumas vezes eu e o Edson saímos juntos à procura de emprego. Em uma dessas jornadas, acabamos indo parar na zona norte de São Paulo. Ali a fome bateu e decidimos almoçar num boteco da Rua Voluntários da Pátria, que tinha no cardápio um prato chamado feijoada. Não tínhamos ideia da qualidade e do que pudesse ser, assim mesmo resolvemos experimentar. A novidade era tão ruim que, ao fim do almoço, meu amigo observou que o melhor daquela feijoada fora o pãozinho, para, em seguida, soltar uma tremenda gargalhada.

Concluído o colegial, seguimos caminhos diferentes e acabamos nos afastando. Nunca, porém, deixamos de nos encontrar. Faculdade, trabalho, casamento e filhos nos tornaram ainda mais responsáveis do que éramos nos distantes anos de nossa infância e juventude. Nos últimos anos, algumas vezes conseguimos almoçar e tomar café juntos. Dele, preservo diversas e boas lembranças — só o fato de me apresentar Billy Paul, mostra o quanto o cara era conhecedor de boa música. Infelizmente, vitimado pelo Covid, Edinho partiu, mas deixou muitas recordações. Ao menos três coisas com ele não consegui aprender: jogar futebol, sambar e tratá-lo por Macalé.

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler o texto completo desta lembrança dele com o amigo Macalé, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie o seu texto também: contesuahistoira@cbn.com.br