Sua Marca: ecos da pandemia

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“O branding precisa ser alimentado do conhecimento humano, do que as pessoas pensam, sentem, do que ocorre ao nosso redor”

Jaime Troiano

Era junho de 2020, quando bares e cafés de Paris reabriram, na crença de que poderíamos voltar a vivenciar o que perdemos durante a pandemia. O Café de Flore, que já teve entre seus clientes Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, voltou a colocar as mesas na calçada do Boulevard Saint-Germain, inspirando parisienses e outros passantes a ocuparem os espaços abertos. Cena que se repetiu por toda a cidade. Jaime Troiano não estava por lá — bem que gostaria —, o que não o impediu de exercitar sua imaginação para compreender o sentimento que movia aquelas pessoas, após  tantos meses de reclusão e de o medo de ser contaminado pelo coronavírus ainda estar no ar.

A imagem que se espalhou pelo mundo motivou Jaime escrever “A resiliência do desejo ou  partiu Paris!”, um dois capítulos do livro “Ecos na pandemia – impressões sobre como nós, as empresas e as marcas temos nos comportado no novo normal” (CLAeditora), no qual ensaia pensamentos sobre como fomos impactados por essa tragédia sanitária e quais as sequelas que deixará no comportamento humano. 

“As pessoas ficaram maravilhadas com aquilo … parece que era uma descarga de emoções e vontade não realizada que foram se acumulando, explodindo, meio como que elas quisessem tirar o atraso”.

E as marcas com isso? Têm tudo a ver porque, como insistimos em falar em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, o branding trata de gente, de seus pensamentos e atitudes, e das mais diversas dimensões da nossa existência. Para Jaime, as marcas que sempre se comportaram bem durante a pandemia, serão as primeiras a serem procuradas e compradas. 

“Não espere que depois de nós saímos do tal túnel que nós estamos atravessando, as marcas venham a ter outro papel em nossa vida. Não, nada disso! O branding não terá um novo normal. O branding e nós, provavelmente, vamos sim viver o ‘novo velho normal’.”

Dos textos que estão publicados em “Ecos na pandemia”, Cecília Russo destaca “Por trás do Dilema das Redes”, que analisa o documentário de sucesso na Netflix que trás uma denúncia de quanto às redes sociais moldam e controlam nossas vidas. Concordando com o autor —- não o do seriado, mas o do artigo —, Cecília entende que o consumidor não é uma vítima indefesa:

“O branding nos ensina o oposto. Quem controla o mercado, o que vai ser comprado, se aquilo vai ter sucesso, somos nós, os indivíduos, os consumidores. O que fica como mensagem é: o que opera a mente, a alma dos consumidores, na verdade, somos nós mesmos. Não tem algoritmo. Não tem nada disso. E acho que a gente —- no branding — tem que pensar em como vai continuar trazendo coisas que tenham relevância às pessoas. Nós não somos controladores”. 

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com sonorização de Paschoal Júnior

Sua Marca: riscos e benefícios em resgatar personagens ilustres da publicidade

“Há muitas décadas personagens vêm sendo criados para ajudar marcas a se posicionar e criar vínculos com pessoas, segue sendo um recurso valioso mas é preciso saber usá-lo para que seja aliado e não inimigo”

Jaime Troiano

Quando a Galinha Azul aparecer na sua televisão é possível que seus filhos a confundam com a Galinha Pintadinha, mas você, certamente, vai ter sua memória refrescada com aquela personagens que fez sucesso nos anos de 1980 e 1990. Em tempo: é possível que seu filho nem veja a Galinha Azul na televisão, vai deparar com ela na tela do celular —- mais um sinal das mudanças de comportamento e referências. Aliás, mais um grande desafio, também, aos criadores e desenvolvedores de marcas que resgatam essas figuras icônicas e precisam remodelá-las para conquistar os novos públicos.

No caso da Galinha Azul, a Maggi resgata seu desenho e oferece ao público no modelo 3D e com traços mais modernos. Para a empresa, a “pop star” —- é assim que o Jaime se referiu à moça — é muito mais do que uma personagem, “é um ícone que desperta consumidores uma memória afetiva cheia de carinho”, explicou Samara Ferrara, gerente de marketing da Maggi, em entrevista ao Meio e Mensagem.

“Claro, ela volta repaginada, numa versão 3D, mas segue tendo sua função básica inalterada, que é a de criar vínculos mais emocionais com as pessoas, indo além do caráter mais tangível dos produtos Maggi”

Jaime Troiano

Ao falar da Galinha Azul, meus colegas de quadro logo lembraram de outros personagens: o Chester, da marca Cheetos; o Zé Gotinha, das campanhas de vacinação; e o Lequetreque, o frango da Sadia. Nossos ouvintes, também. E o primeiro nome que surgiu no e-mail marcasdesucesso@cbn.com.br foi o do Sujismundo, criado por Ruy Perotti, que se transformou em ícone da campanha “povo desenvolvido é povo limpo”, que foi usado até para convencer as pessoas a tomarem vacina.

“O personagem traz um sinal de reconhecimento forte para a marca proprietária; as pessoas fazem uma associação imediata ao ver o personagem. Ouvimos consumidores falando: olha lá o frango da Sadia! Podem nem saber o nome do personagem mas fazem a relação correta com a marca que usa o personagem”

Cecília Russo

Apenas criar mascotes, modernizar seu desenho e torná-lo público, não é suficiente. Jaime e Cecília alertam os criadores de marcas para o risco de usarem essa estratégia de forma excessiva:

“O risco de as marcas usarem personagens é elas se tornarem reféns dessas criações, ou até do personagem ser mais protagonista do que a marca e abafá-la, isso não pode acontecer. Por isso, é importante saber dosar seu uso, estudando onde vale a pena e onde é dispensável usá-lo”

Cecília Russo

Ouça o Sua Marca Vai Ser Sucesso e relembre alguns dos personagens da publicidade que ganham “voz” na edição feita pelo Paschoal Júnior — que é fã da Galinha Azul tanto quando da Galinha Pintadinha. Sim, o Paschoal é um cara bastante diverso (e criativo):

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: respeite os três estágios de lançamento de marca

“Se você está pensando em lançar uma nova marca comece revelando ou demonstrando o que ela tem de característica mais essencial”

Jaime Troiano

Alberto Roberto foi dos personagens de maior sucesso de Chico Anysio e —- desculpe, senhoras e senhoras, mas precisarei apresentá-lo aos mais jovens que, por ventura, estejam lendo este texto —- fazia as vezes de um ator de televisão, pretensioso e metido a galã. Em meio a uma série de gafes linguísticas, se apresentava como sendo um ‘símbalo secsual’, apesar de seu talento bastante questionável

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso voltou aos anos de 1970 e resgatou a imagem do engraçadíssimo Alberto Roberto para ilustrar um erro comum que marcas tendem a cometer quando estão se lançando no mercado, que é  esquecer que existem estágios que precisam ser percorridos sob o risco de o consumidor não absorver a mensagem e a imagem daquela marca não se consolidar, como explica Cecília Russo:

“Marcas não podem fazer o papel de um Alberto Roberto. Ele simulava um prestígio e reconhecimento — que não tinha —- antes de passar por estágios de consolidação”

Que estágios são esses?

Pra falar dessas etapas, o Jaime recorre a outra fonte. Essa, ao contrário de Alberto Roberto, com prestígio consolidado e reconhecimento no mercado internacional: Joe Plummer, da Young & Rubican, que descreve os três estágios de desenvolvimento e reconhecimento de uma marca no mercado: 

  • 1º  A marca diz o que ela é;
  • 2º  A marca diz o que ela faz por você;
  • 3º  A marca diz o que ela significa em sua vida.

Para entender como funciona essa estratégia, vamos a alguns casos reais. 

O Nubank se apresentou ao público apoiado em uma característica essencial: a simplificação — “vou ser mais simples no jeito, nas cores, nos processos”, descreveu Cecília.

A marca Dove, desde o início, trabalhou o tema da hidratação e mantém até hoje esse elemento em uma gama muito grande de produtos, mas expandiu seu repertório de mensagens, porque já está consolidada.

A Tostine apareceu com um lema que se transformou em ícone da publicidade: “é mais fresquinho porque vende mais ou vende mais por que é mais fresquinho”. Começou sua comunicação com o estágio inicial que é o de trabalhar o atributo do produto. E, ao longo do tempo, ampliou esse sentido, sinalizando qualidade e prazer de comer.

“Evite a síndrome de Alberto Roberto. Comece apresentando a sua marca a partir de suas características e atributos, antes de criar uma linguagem mais simbólica e mais abrangente. que ninguém vai entender em um primeiro momento” 

Jaime Troiano

Entenda mais sobre este tema ouvindo o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN:

Mundo Corporativo: para que o negócio tenha a melhor entrega, Guilherme Lemos, do Grupo Rão, sugere ‘pensar grande e andar pequeno’

“Um dos principais conselhos para quem está começando é nunca dê um passo maior que a sua perna, porque se você quebrar você cai. Então, pense grande, pense alto, pense longo e ande pequenininho, para que você possa acertar, errar e corrigir”  Guilherme Lemos, Grupo Rão.

Foto: Divulgação

Foi seguindo os passos —- até então pequenos —- do irmão que o empresário Guilherme Lemos ajudou a construir uma rede pioneira no segmento de delivery de alimentos. Henrique, o mais velho, foi quem fundou o Grupo Rão,  no Rio de Janeiro, em 2013. Guilherme, o mais novo, aproximou-se do negócio como franqueado com uma unidade do SushiRão, seis meses depois. Em 2016, ocupou lugar na diretoria da empresa e, atualmente, é o CEO do grupo. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, ele conta que o ponto de virada se deu quando eles descobriram qual era o seu verdadeiro negócio:

“A gente percebeu ao longo dos três primeiros anos que não éramos especialistas em comida japonesa, a gente dominava a ciência do delivery. E com isso dominado, era natural chegar a outros ramos de comida”.

Hoje, a entrega de comida em casa virou salvação para muitos empreendedores do ramo de bares e restaurantes, devido a pandemia. Guilherme lembra, porém, que bem antes das restrições sanitárias, os irmãos já entendiam que a interação humana diminuiria ou ficaria restrita a pequenos círculos por questões de custo, tempo, segurança e tecnologia:

“Essa pandemia não alterou certos hábitos, ela acelerou hábitos do delivery. O delivery já seria um canal super desenvolvido, só que essa pandemia, por motivos óbvios, obrigou que a gente acelerasse os processos”.

Ao contrário da maioria dos concorrentes, o grupo investe na entrega de alimentos feita por funcionários próprios, evitando o uso de aplicativos que se tornaram comuns nos últimos anos. Aliás, a precisão na entrega é um dos pilares do sucesso do negócio, descritos por Guilherme:

  1. Preço justo
  2. Proximidade com o cliente
  3. Entrega rápida
  4. Produto de qualidade

Para quem imagina empreender no setor, uma das lições aprendidas pelo grupo Rão é que a entrega tende a ser de bastante qualidade quando feita em um raio de até 12 quilômetros do ponto em que está a cozinha:

“A pessoa que está com fome, não pensa assim: “vou ficar com fome daqui uma hora e meia. Estou com fome agora. Vou pedir minha comida agora e quero que o motoboy entregue agora’”.

A rapidez na entrega não deve influenciar na qualidade do produto e no seu custo, porque tudo tem de ser devidamente medido, ensina Guilherme, que vê como um dos principais erros dos empreendedores não saberem fazer contas:

“Tem de ser nos centavos. Na gramatura. Meu sashimi tem de ter 10 gramas. Para 10 gramas, custa um valor. Se o sushiman cortar 12 gramas, entrega para o cliente 20% a mais do que deveria ter feito pela ficha técnica. Eu deixo de ganhar”.

Com todos esses cuidados, o Grupo Rão, recém-chegado a São Paulo, já tem mais de 100 unidades, no Brasil, e três funcionando em cidades de Portugal. Nos planos de Guilherme está a ideia de retornar aos Estados Unidos, onde o irmão mais velho chegou a levar uma das franquias, e entrar na Espanha. Além disso, estão investindo em tecnologia, desenvolvimento de moeda digital própria, novo sistema de pagamento e centro de distribuição. A meta é fechar o ano com faturamento de R$ 300 milhões e abrir mais 50 unidades. As franquias respondem por cerca de 85% do negócio.

Diante dos desafios que surgem, Guilherme aproveita-se do que aprendeu com os erros cometidos —- “a gente sempre errou pequeno, nunca comprometemos a empresa”  —-, e de uma lição que nunca esquece, ensinada por Edu Lyra, fundador e CEO da ONG Gerando Falcões”:

“É preciso ter coragem para empreender. Nós não conhecemos nenhum outro caminho que não seja o empreendedorismo. Vai fazendo. Vai construindo. Tem uma lema que diz que ‘nasceu perfeito, nasceu tarde’. Erre pequeno. Mas faça. O sucesso é inatural, se ficar parado, você não vai atingir o sucesso. Faça acontecer. Tem um mundo para fazer coisas. Como diz o Edu Lyra: ‘vai que dá’”.

Assista à entrevista completa com Guilherme Lemos, CEO do Grupo Rão:

Você pode assistir ao Mundo Corporativo, ao vivo, quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site e nos canais da CBN no Youtube e no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno teixeira, Natacha Mazaro e Débora Gonçalves.

Avalanche Tricolor: o Tetra é nosso, os guris do Grêmio!

Grêmio 1×1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Ferreirinha comemora o gol do título em foto de Lucas Uebel/Grêmio GBPA

Havia um guri no gol, de sorriso largo e braços ainda maiores, que conhece o Gre-Nal como a palma de sua luva —- Brenno fez sua estreia no Grêmio em um clássico, e até hoje não perdeu nenhum. Havia um guri na zaga em lugar de Kannemann: Ruan, que segue a passos largos o futebol maduro de seu companheiro de área, Geromel. Outro guri ocupou a lateral para substituir Rafinha, expulso ainda no primeiro tempo. E Vanderson cumpriu sua função com a seriedade de um veterano e a velocidade de guri que é.

No meio de campo, havia um guri, Matheus Henrique, que sustentado por um craque, Maicon, e um leão de volante, Thiago Santos, pode soltar seu talento com a bola no pé, distribuir o jogo e aparecer dentro da área para impor perigo ao adversário. Foi ele quem soube escapar da marcação na intermediária gremista, deixar seu adversário estatelado no chão e avançar à fronteira inimiga no início da jogada  do gol do título, ainda no primeiro tempo da partida.

No ataque não faltavam guris. Havia Léo Pereira, desde o início, e Ricardinho e Pepê (sim, não esqueça que o nosso atacante que ruma agora à Europa tem apenas 24 anos), que entraram no segundo tempo para dar desespero nos marcadores. 

Havia o maior de todos os guris: o gigante de 1,71 metro de altura, Aldemir dos Santos Ferreira, o Ferreirinha. Com 23 anos, nosso ponta esquerda encanta o torcedor e enlouquece o sofredor.

Foi ele quem recebeu a bola final daquela jogada iniciada por Matheus e distribuída por Diego Souza —- o goleador que aos 35 anos bota a bola na rede e dança como se fosse um menino. Foram dele, Ferreirinha, os dribles que o deixaram na cara da goleira, as gingas que desnortearam seus marcadores, a bola roubada na defesa e a vibração pelo desarme para a lateral, que tiraram o adversário do sério.

Já disse e repito, Ferreirinha é o futebol jogado com prazer:

“Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino”. 

Havia guri no gol, na defesa, no meio de campo e no ataque. Havia guri se desdobrando para salvar nossos vacilos, endiabrando o zagueiro, desarmando o atacante e dominando o jogo com talento e muita garra. Havia Brenno, Vanderson, Ruan, Matheus Henrique, Léo Pereira, Ricardinho, Pepê e Ferreirinha. 

E em cada um desses guris, havia um pouco de mim. Do meu prazer de ser gremista. Das lágrimas que derramei no vestiário do Olímpico no passado. Do choro de alegria naquela vitória de 1977. Da felicidade de uma conquista comemorada. Do quadragésimo título estadual, do tetra Gaúcho, de sete anos sem perder um clássico em casa e de um domínio que —- guris que hoje vestem a camisa do Grêmio não têm ideia — eu nunca havia assistido na época em que eu era realmente um guri lá no Sul.

Obrigado, Grêmio e sua gurizada por me darem a alegria de comemorar mais um título ao lado dos meus guris, aqui em São Paulo.

‘Passaporte contra Covid’ vai demorar a desembarcar no Brasil; a prioridade é outra

Foto de Anna Shvets no Pexels

Sair do Brasil para aquilo que chamavam de ir ao estrangeiro, mesmo que a passeio, nunca foi um projeto de vida enquanto morei no Rio Grande do Sul. Talvez pela formação classe média, econômica e comedida, que tive de meus pais, atravessar a fronteira para o Uruguai e a Argentina me bastava. E dadas as características dos pampas convenhamos não havia nada de estranho naquelas viagens. Isso explica em parte o fato de meu primeiro passaporte somente ter sido emitido depois de chegar a São Paulo, em 1991. Na companhia de minha mulher, e por inspiração dela, passei a viajar para o exterior com mais frequência. Hoje, os passaportes de capa verde se acumulam em uma das gavetas de casa, todos devidamente carimbados pelos guardas de fronteiras.

Há quem passe a vida sem nunca ter expedido um passaporte. Há quem sonhe em ter os diplomáticos que facilitam acessos e fugas quando a coisa aperta por aqui. De várias partes do Brasil, cidadãos se aventuraram nos Estados Unidos, muitos de forma ilegal, na esperança de obter o GreenCard, uma espécie de passaporte para se sonhar o sonho americano.  Enquanto não chega —- e provavelmente nunca chegará —-, vejo alguma conhecidos se satisfazerem em não terem o seu passaporte brasileiro bloqueado na fronteira.

Veio a União Europeia e seu passaporte azul transformou-se em sonho de consumo. Muitos brasileiros passaram a escavar seu passado e a escarafunchar no tronco da árvore genealógica para encontrar algum parentesco perdido por aquelas bandas. Alguns se excedem na busca e encontram na ilegalidade o caminho para atravessar as fronteiras pela fila VIP da alfândega. Pagam um saco de dinheiro estrangeiro para conseguirem certidões de parentes que nunca existiram e para se hospedarem por alguns dias em burgos italianos ou vilarejos lusitanos e serem encontrados pela polícia local, que certifica a sua suposta vivência no país.

Nem verde nem azul, o passaporte que se transformará em objeto de desejo de brasileiros e companhia ilimitada será o imunológico. A instituição que que representa o transporte aéreo internacional, a IATA, está testando um sistema de compartilhamento de informações que oferecerá uma espécie de passe livre para viajantes que enfrentam hoje uma série de barreiras para seguirem em suas atividades devido as proibições impostas por governos que tentam evitar a disseminação da Covid-19.

O Travel Pass Initiative —- que também atenderá pelo singelo nome de FREECOVID — reunirá informações sobre os passageiros: se realizou teste de Covid-19, qual a procedência deste teste, se tem certificado de vacinação contra a doença e se tudo isso está nos conformes —- ou seja, se atende as regras impostas pelo países de destino. Com os dados cruzados e identificados, bastará apresentar o APP no celular para seguir viagem.

Antes de fazer as malas, lamento informar que, se os sintomas persistirem, ainda vai demorar para o “passaporte contra Covid” beneficiar os brasileiros. A política negacionista do Governo Bolsonaro nos deixou mal na foto lá fora. Não bastasse isso, em lugar de combater a doença e garantir vacina para todos, a prioridade agora no País é pela busca de um outro passaporte, o que livra corruptos da prisão. E para consegui-lo é só passar no guichê do STF, da Câmara ou do Palácio do Planalto — órgãos, cada um ao seu modo, que estão emitindo esses passaportes.

Mundo Corporativo: Marco Ornellas diz por que a nova ordem nas empresas é a desordem

Foto de Julia M Cameron no Pexels

A desordem traz um pouco a sensação de que as coisas podem ser diferentes, eu posso fazer diferente; é aí que eu começo a trabalhar o ‘como vou fazer para ser melhor’ e ‘como vou construir um mundo melhor’” 

Marco Ornellas, consultor

As empresas precisam de um novo desenho organizacional para enfrentar a complexidade e o caos que imperam neste momento de pandemia. Não apenas neste momento, pondera o consultor Marco Ornellas, entrevistado do programa Mundo Corporativo. Dedicado a cuidar de desenvolvimento organizacional, Marco lembra que as transformações veem ocorrendo há algum tempo, especialmente com a inserção da tecnologia nos processos de trabalho:

“A complexidade e o caos sempre fizeram parte de alguma forma da nossa vida, hoje de forma mais intensa. A pandemia fez acelerar os processos. Os contatos, os relacionamentos, e as formas de comprar e de trabalhar, tudo isso foi alterado e confirmou o surgimento de uma nova ordem”

A nova ordem é a desordem, diz o psicólogo por formação e professor por dedicação. Foi essa discussão que o inspirou a escrever o livro “Uma nova desordem organizacional”. Marco identifica três grandes movimentos que devem ser feitos pelos profissionais de uma maneira geral:

  1. Desapegar  … de ideias, de objetos, de coisas velhas; as coisas não têm mais valor. O que vale é o que somos;
  2. Se doar … devemos nos entregar às coisas que fazemos e isso tudo precisa fazer sentido para mim. Se doe para o outro, se doe nas relações, se doe para o seu entorno;
  3. Descobrir … com as mãos e com os pés, andar por caminhos que não estou andando, por redes que não vimos, por lugares desconhecidos

A nova ordem organizacional é responsabilidade de todos dentro da organização, segundo Marco Ornellas:

“Todo mundo vai ter de cuidar dessas questões. As organizações do jeito que estão estruturadas não vão sobreviver dessa maneira, precisarão se reorganizar —- é preciso um novo desenho organizacional. Novos modelos de trabalho, de relacionamento, de gestão e de interface. Em um primeiro momento todo mundo é responsável por fazer um novo desenho organizacional olhando para fora e para o futuro, que está aí, presente na nossa realidade”

Com a pandemia, muitas empresas começaram a rever o modelo de trabalho. Algumas já entregaram seus escritórios porque vão investir no trabalho remoto. Outras mantém espaços menores e seus colaboradores que ocupavam o local cinco vezes por semana talvez só voltem a se encontrar uma única vez. Para Marco Ornellas é preciso buscar uma forma flexível de trabalho, investir na troca de experiência entre os diversos setores e transformar o escritório em uma espécie de co-working. 

Para o consultor, não haverá espaço para empresas que mantém departamentos competindo entre si, que não revelam suas vulnerabilidades para não perderem espaço para outros setores:

“Temos um novo desenho do trabalho, uma nova relação da liderança dos colaboradores. De alguma forma, eu preciso trabalhar com mais autonomia e mais liberdade. Muitas áreas vão se integrar com outras. Por exemplo, os departamentos de recursos humanos e de tecnologia da informação”

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, às 11 hora, no canal da CBN no Youtube, no site da emissora e na página do Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN e pode ser ouvido em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e o Rafael Furugen.

Sem emoção, aos empresários!

                   

Por Augusto Licks

Foto de Foto de RF._.studio no Pexels

Ouço com tristeza que Porto Alegre, onde vivi minha juventude, está praticamente em colapso, a exemplo de outras cidades brasileiras. Um hospital já recorre a contêiner para armazenar cadáveres, e me pergunto se haverá valas coletivas em cemitérios? A que ponto chegamos. 

Ao longo de 2020, procurei escrever artigos úteis sobre a necessidade de a população exagerar medidas de proteção, e de o poder público acelerar planejamento antecipando-se a etapas mais críticas. Infelizmente muitos nunca jogaram xadrez, ficam esperando as coisas acontecerem. Tivemos tímidas campanhas de conscientização, graças a meios de comunicação, esses que alguns atacam enquanto espalham mentiras por redes sociais. 

Observei que após a comoção dos primeiros óbitos a explosão de casos acabou anestesiando a percepção popular, tornando as vítimas anônimas a cada nova estatística diária. Fiz “Lives” para estender palavra útil a confinados e confinadas. Gravei trilha musical para o poema “Canção Póstuma” de Cecília Meirelles recitado por Zezé Motta em homenagem às vitimas de uma categoria profissional, advogados(as), um esforço para resgatar do anonimato dos números a memória de seres humanos.

Constatei como aquilo que identificamos como “mal” se esconde e se banaliza na tragédia, como nos ensinou Hannah Arendt. Indaguei se crimes praticados na pandemia terão algum tribunal futuro a lhes fazer justiça, à la Nuremberg. Detalhei como e porque se desenvolveu o escândalo de Watergate para reforçar a importância de ainda termos imprensa livre e sem censura. Discerni a política entre exercício de poder e convencimento eleitoral, à luz de princípios que são éticos e universais e valores que nem sempre são. Denunciei a distorção massiva de fatos e conceitos por redes sociais que visam a confundir inocentes, levando muitos a se apegarem a crendices. 

Como orientar provou ser insuficiente, sugeri campanhas para assustar a população, como foi nos EUA contra o tabagismo, não custaria tentar. Alertei para o inevitável efeito-verão dos criminosos que “não querem nem saber”, “não estão ouvindo nada”, e mentem que se deve confiar em Deus e não na ciência, atitude  nada cristã, reprovada pontualmente pelo Cardeal Odilo Scherer.

O perspicaz Comandante do Exército, General Edson Pujol, proclamou que estamos em guerra, e que os profissionais de saúde são nossa linha de frente. O governo federal não concordou, em nada se empenhou para um plano eficaz de combate nessa guerra, pelo contrário, negou a gravidade.

Se é estratégia eleitoral, seu único efeito para 2022 será prolongar a pandemia inibindo manifestações de protesto. Mas não adianta tratar isso como questão política, é mais além, é institucional, estrutural, cultural, é urgência de guerra.

Essa subestimação negacionista foi e ainda é exemplo “que vem de cima”. Talvez explique porque para alguns a ficha só caia “quando o raio cair em casa”. Outro dia, após sobreviver à Covid-19, um moderado radialista retornou ao trabalho com um tom bem diferente: cobrou do poder público ações repressoras contra os que se aglomeram, incluindo uso de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, coisas que policiais às vezes utilizam em manifestações.

Fica a pergunta: por que a polícia não reprime tais atos, se representam ameaça a muitas vidas? Alguém alegou que “não adianta colocar lá meia dúzia de policiais diante de milhares”. Pois então que não se coloque meia-dúzia, e sim um contingente. Ah, mas a polícia não dispõe de suficientes soldados? Ora, que entrem então em ação as Forças Armadas, afinal elas existem para nos defender de inimigos. Assim mesmo, reprimir ajudaria mas não resolveria.

A pandemia nos ensinou que a sociedade prioriza mais a economia do que a vida humana. É compreensível a preocupação de trabalhadores e empresas com consequências do distanciamento social. Home office e serviços de entrega não são alternativas para todos. É imperioso que o poder público ofereça auxílio-socorro aos que necessitam, só que isso acaba tornando-se insustentável. 

Origina-se daí a tese de se “flexibilizar”, mas desde meados de 2020 já prevíamos seu efeito de onda: cada flexibilização causa expansão da pandemia, que obriga a retomar restrições. Agora talvez nem tenhamos escolha: se não pararmos, os hospitais seguirão lotados, gente já morre em filas de espera. Ainda assim, nem um “lockdown” resolveria, apenas retardaria as consequências. 

Esperamos meses e meses por vacinas, única esperança contra todo esse mal. Laboratórios mundiais dedicaram esforço sem precedentes, com prazo para “antes de antes”. O governo federal não se empenhou pela mesma causa, foi meramente protocolar, preferiu investir em medicamentos duvidosos, e perdeu chance de garantir doses da vacina que acabou sendo a mais eficaz de todas. Restaram os esforços heróicos do Instituto Butantã e da Fundação Oswaldo Cruz, que lamentavelmente viraram objetos de rinha eleitoral entre o Presidente da República e o Governador de São Paulo.

O Ministério da Saúde, em vez de médico tem um militar paraquedista, e da ativa. Assim mesmo, a logística conduzida por aquela pasta, convenhamos, não é nem de longe a logística de uma guerra. Falta pressa, lucidez e senso de emergência, e sobra então para a ANVISA a batata quente de ter que dar todo tipo de explicação para se esquivar diante da urgência de se acelerar a vacinação.

O Brasil precisa de socorro, S.O.S. !  Como socorrer, como atacar a causa e não apenas maquiar as consequências devastadoras ? Tecnicamente falando, talvez seja mais simples do que se imagina. Depende de entendimento para uma decisão administrativa e que não deveria ser política. Chegou a ser reivindicada mas, tímida, não prosperou. Agora, deveria ser retomada e com urgência, mesmo que demande emenda constitucional, pois é o caminho tecnicamente lógico: a aquisição de vacinas pelo setor privado

É que contra todos argumentos normalmente sensatos, a velocidade da pandemia faz da atual vacinação pública uma peneira para tapar sol. Barreiras legais existentes à aquisição empresarial não se justificam mais nessa calamidade. É semelhante à chantagem que sofrem estados e municípios quando tentam agir diante do imobilismo federal, só que é ainda mais grave pois na prática funciona como obstrução à livre iniciativa. 

É inevitável a discussão sobre estado versus iniciativa privada: economia não pode parar, estado não tem dinheiro e/ou é incompetente para vacinar. Não seria então a iniciativa privada mais eficiente ?  Ora, a economia só não vai parar se as empresas não pararem, e para isso precisam urgentemente imunizar seus funcionários, não existe mágica. 

Conclusão: na prática, Ministério da Saúde e ANVISA estão freando a economia. Deveriam autorizar, e logo, a vacinação empresarial, facilitando em vez de dificultar. Já se esperou tempo demais, e não se pode ficar à mercê dessa embromação que é o Plano Nacional de Vacinação. Alguém irá gritar “ah, mas aí os ricos vão comprar tudo e os pobres ficarão sem”. Claro que não, é só garantir estoques, questão de orçamento, matemática, cálculo, planejamento, estabelecer condições, será que nossos governantes não entendem dessas coisas ? 

Está na hora de o empresariado ser menos contemplativo e assumir seu protagonismo, saindo em defesa de seus lucros, dos empregos que proporcionam e dos salários de seus funcionários. Parar as atividades temporariamente talvez seja inevitável a essa altura, e servirá apenas para ganhar-se tempo. O caminho é um só: vacinar para poder retomar atividades, em vez de flexibilizar sem vacina. E vacina tem ! Estados e municípios empobrecidos podem ter dificuldades, mas a iniciativa privada não, outro dia pagou-se 1 milhão de reais para um jogador de futebol entrar em campo

Então, empresários, vão deixar as coisas assim como estão e assistir omissos? O que esperam ganhar com uma economia que nesse andar da carruagem continuará amarrada? O que esperam para retomar negociações com o governo? Que ao menos se associem aos esforços de vacinação dos estados e municípios.

Augusto Licks é jornalista e músico

Conte Sua História de São Paulo: tudo bem ficar de pijama

Lidia Amorim

Ouvinte da CBN

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Nasci em São Paulo, na infância fui para o interior e adulta retornei para estudar e trabalhar. Casei, fui mãe e para encurtar distâncias entre casa, creche e trabalho voltei ao interior. Fui viver em São Carlos.

Por um ano estive em uma indústria nada adaptada ao teletrabalho, que nos foi imposto pela pandemia. A jornada nos últimos meses estava exaustiva, com mais de dez horas de trabalho e reuniões atrás de reuniões. Foi então que resolvi arriscar, para manter a sanidade mental e encontrar conforto na vida pessoal. 

O ‘tiro no escuro’ foi certeiro. Encontrei na nova empresa um ambiente mais progressista e trabalhar em casa virou um conforto. Além de jornada mais flexível deparei com gestores confiantes, que entendem que a produtividade está estritamente relacionada ao bem estar social. 

Com duas semanas de empresa, ainda em período de experiência, descobriram o meu hobbie e me incentivaram a escrever um texto para o evento virtual de fim de ano da diretoria, com cerca de 200 pessoas assistindo online. 

Foi quando escrevi algo como: 

“A vida parecia bem mais simples quando não exigia longas presenças com nós mesmos ou com as pessoas de nossa casa ..

“Alguns especialistas insistem em nos ensinar a simular no trabalho remoto o mesmo comportamento de trabalhar em escritório. Se arrumar, se isolar em um cômodo da casa, comer comidas saudáveis, se exercitar, alongar…”

“E para as pessoas reais? Como a gente! Que precisa cozinhar o próprio almoço; que sente falta de conversar e rir com os colegas”  

“O padrão deveria ser feito para quem não é sempre perfeito; que precisar retomar a concentração mil vezes por dia, na casa barulhenta; que dá o seu melhor mesmo nas quedas do sinal da internet ou da falta de energia”

“Tudo bem ficar de pijama! Estamos todos na mesma, tentando sobreviver a um período fora do contexto. E são as pessoas de verdade que fazem do negócio, extraordinário; feito para servir gente”

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Lídia Amorim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung@cbn.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: dos passeios fotográficos ao olhar afiado no Skype

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

As ruas de São Paulo são o nosso cenário. Somos sete amigos apaixonados por fotografia. Nossos encontros são frequentes. Alguns do grupo se reúnem semanalmente para fotografar São Paulo. Quem vê as imagens que captamos logo percebe que somos adeptos ao estilo “street photography” —- fotografia de rua, já que estamos aqui conversando em paulistanês. Imagine manter esse estilo com a Covid-19 nos mandando para dentro de casa. Impossível, né. 

Algumas semanas de susto e pandemia foram necessárias para encontrarmos novos caminhos. A saída foram encontros promovidos pelo Skype. Desde nove de maio de 2020 nos reunimos todos os sábados das duas às cinco da tarde para apreciarmos e discutirmos fotografia.

No início tivemos alguns tropeços nessa caminhada digital. Com o tempo aprendemos a usar o Skype, como falar, compartilhar as fotos e resolvemos problemas de atraso de áudio e imagem. 

André, Aretusa, Eduardo, Maria Luiza, Norma, Rose e eu somos fotógrafos amadores — amador avançado — e decidimos trocar experiências. Cada um apresenta duas imagens para o debate. Os colegas sugerem melhorias aqui, um retoque ali, falamos de técnicas a serem usadas, recursos que podemos lançar mão. Também conversamos de livros fotográficos; fazemos a leitura de fotos de profissionais renomados —- uma espécie de engenharia reversa, identificando e desmontando a foto de modo a aprender com eles. 

Os encontros sempre remotos são regados de aprendizado, generosidade, companheirismo e muita, muita diversão. Agora, estamos como a fábula do lenhador que enquanto não está cortando lenha, está afiando o machado. Quando tudo se acalmar, voltaremos a nos encontrar presencialmente e sairemos às ruas para seguir nosso passeio fotografando São Paulo e sua gente.

Claudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.