Crime sem castigo

 

Como meu editor, da Contexto, sempre foi caridoso em permitir a reprodução de seus artigos aqui no blog, hoje tomei a liberdade de compartilhar seu pensamento sem antes ter-lhe pedido autorização. Que Deus me perdoe por esse pecado. Se não, que você me absolva deste crime, Jaime, porque estou longe de ser um dos poderosos protegidos pela justiça!

 

Por Jaime Pinsky

 

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim… O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino… Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela… Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair  em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à  democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos  dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.
 
Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.

 

Jaime PinskyHistoriador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto
 

A gratidão e os lírios do campo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologia

 

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”

Beto Guedes

 

Em setembro inicia-se a primavera no hemisfério sul, simbolizando para muitos um novo tempo, momento de renovação e esperança. Depois do inverno, de dias cinzas e curtos, a primavera surge com as flores que nascem nos parques, nos campos, que dão colorido à vida e desabrocham indicando que um novo ciclo começa. Cerimônias para celebrar o começo das estações são  realizadas desde a antiguidade e, na primavera, os rituais eram forma de agradecer por tudo o que a terra oferecia aos povos e para pedir prosperidade para o novo período. O aumento da incidência de luz solar e a gratidão estão entre os fatores que acarretam estados de humor positivos. 

 

Diversos estudos têm mostrado a associação entre a maior incidência de luz natural e o aumento da produção de serotonina — neurotransmissor associado à regulação das emoções e do humor —, bem como a importância da gratidão na redução dos sintomas de depressão e ansiedade, promovendo mudanças a longo prazo na atividade cerebral.

 

A gratidão pode ser compreendida como uma emoção positiva após alguém ter feito algo por nós ou ter nos presenteado. Porém, numa perspectiva mais ampla, a gratidão é considerada como uma emoção, uma atitude e um estilo de vida. Oferece oportunidades para nos apropriarmos das experiências de maneira positiva, reconhecendo a qualidade das coisas, das pessoas e de quem somos.

 

Há quem pergunte: ser grato é fechar os olhos para as coisas ruins? Claro que não! As coisas ruins realmente existem –- e muitas para as quais infelizmente não conseguiremos ser gratos. Mas não é apenas sobre julgar algo como bom ou ruim. É sobre reformular as experiências que poderiam ser negativas, identificando as suas dimensões positivas, com foco naquilo que se considera importante, significativo.  A máxima do copo meio cheio…

 

Na obra “Olhai os lírios do Campo”, Érico Veríssimo narra a história de Eugênio, para quem a felicidade estaria associada aos bens materiais. Ele se envergonhava da família ao invés de ser grato pelas oportunidades que ela o oferecia. Abandonou a possibilidade de um amor em troca de prestígio e de dinheiro. Com o tempo, após conquistar tudo aquilo que um dia julgara relevante, percebeu que, ainda assim, não era feliz, uma vez que sua verdadeira felicidade residia nas coisas simples e cotidianas que já possuía, como a sua filha e o seu trabalho.

 

É isso… A gratidão não está relacionada com o que se tem. Mas como se vive. Não é uma busca por ter mais, mas é cultivar o que se tem. É cuidar dos relacionamentos interpessoais e ter consigo um relacionamento menos crítico, menos punitivo e com mais autocompaixão.

 

Que a chegada de setembro nos permita, como propôs Beto Guedes, inventar uma canção que venha trazer sol de primavera. Assim como faziam os nossos antepassados, que possamos celebrar um novo ciclo, sendo gratos pelo o que a natureza nos oferece, pelos nossos, por nós mesmos. Distantes da busca excessiva por coisas insignificantes, estejamos mais próximos daquilo que nos é essencial. Talvez assim possamos ver como crescem os lírios do campo.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França. Ao lado de Abigail Costa é responsável pelo Canal no You Tube “Dez por cento mais”. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

“Me aceitei como negro aos 27 anos”; e nós com isso?

 

Milwaukee Bucks iniciou movimento de paralisação da NBA
Crédito: Kevin C. Cox/Getty Images/Site CBN

 

A ausência de jogadores da NBA nas quadras, na noite de quarta-feira, em Orlando, foi o gesto mais simbólico e de maior repercussão contra a violência aos negros, nos Estados Unidos, desde que policiais de Kenosha atiraram sete vezes e pelas costas no negro Jacob Blacke, no domingo, no estado do Winsconsin. O primeiro ato foi dos jogadores de basquete do Milwaukee Bucks seguidos pelos demais colegas da liga e se estendeu ao basquete feminino e ao beisebol, com a paralisação das rodadas da WMBA e da MLB.

 

A despeito de o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter feito comentário crítico e dito que é por isso que a NBA está perdendo audiência — o assunto ganhou espaço no noticiário esportivo, avançou pelas demais editorias dos jornais, destacou-se nas manchetes dos telejornais e de programas de rádio pelo mundo.

 

Eram 5h50 da manhã, aqui no Brasil, quando o apresentador Frederico Goulart nos provocava a refletir sobre o feito, no quadro que fazemos ao lado de Cássia Godoy, no CBN Primeiras Notícias. Ressaltei que foi a jogada mais marcante do basquete americano já vista nas quadras — esporte que quando jogado é um espetáculo por si só. E foi a forma de revelar a força antirracista que se expressa nos Estados Unidos com protestos nas ruas e manifestações nem sempre pacíficas — porque pacíficos também jamais foram os atos contra os negros.

 

Voltamos em seguida, às 6h, no Jornal da CBN com o noticiário e as reações pelo Mundo, para ainda antes das 7 da manhã, ouvirmos Juca Kfouri comentar que o esporte americano encestou o racismo:

 

 

A notícia foi destaque a cada meia hora, no Repórter CBN e tema único do bate-papo com Dan Stulbach, Zé Godoy e Luiz Gustavo Medina, no Hora de Expediente, no qual sempre preferimos ser diversos e divertidos nas notícias abordadas.  Os três haviam conversado com Roque Júnior, ex-jogador de futebol, com títulos na Europa e campeão do Mundo pelo Brasil, na sexta-feira passada — oportunidade em que ele destacou as diferenças de reações contra o racismo que se tem nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil; e justificou que o campo reflete a sociedade da qual faz parte.

 

 

Ao longo do Jornal da CBN ainda lembrei de entrevista que gravei nessa quarta-feira, com Luana Génot, do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), que vai ao ar no dia 12 de setembro, no programa Mundo Corporativo. Ela e sua organização fazem trabalho de excelência na busca da diversidade e da igualdade racial nas empresas.

 

Sem spoiler — mesmo porque o vídeo da gravação pode ser visto no Facebook e no canal da CBN no You Tube –, Luana constatou que desde o assassinato de George Floyd, em Maio, e as manifestações que se seguiram nos Estados Unidos, aumentou o número de empresários brasileiros em busca de informações do ID_BR para entender como podem se transformar em agentes desta luta contra o racismo, que restringe a entrada de negros no mercado de trabalho e reduz as chances deles ascenderem aos cargos mais altos da hierarquia corporativa.

 

 

Chama atenção que este interesse de empresas e organizações foi impulsionado por atos de violência nos Estados Unidos quando aqui no Brasil a morte de negros alcança números vergonhosos — e todos os dias. O Atlas da Violência, divulgado hoje, mostra que os assassinatos de negros aumentaram 11,5% em dez anos e de não negros caíram 12,9% no mesmo período.

 

Reprodução G1

 

Isso não acontece só com líderes empresarias; nós da mídia também somos culpados por, na maioria das vezes, somente sermos alertados para a gravidade dessa injustiça racial quando o noticiário no exterior fala mais alto —- Luana também aborda essa questão no Mundo Corporativo. 

 

Nesse ciclo de crueldade, em que não se vêem representadas nos diversos espaços da sociedade, muitas crianças negras crescem na descrença de que são capazes de mudar esta história, com dificuldade até mesmo de se reconhecerem como cidadãos e negros. Foi o que me disse um ouvinte da CBN em e-mail que fiz questão de ler na íntegra durante o Jornal e compartilho com você, caro e raro leitor deste blog. 

 

Leia até o fim, pense sobre o assunto, busque outras fontes que se expressam sobre o racismo e leve essa discussão à frente. Se uma palavra sua inspirar uma outra pessoa a seguir na mesma direção, tornaremos essa jornada menos árdua. 

 

Foi o que Vitor Del Rey fez hoje e a ele agradeço pela generosidade da mensagem e pela sinceridade em compartilhar com o público da CBN que, frente ao preconceito e racismo estrutural que vivemos, só se aceitou como negro, aos 27 anos:

 

“Mílton, bom dia!

 

Acredito ser diferente no Brasil, porque, ainda criança, os negros americanos ouvem sobre Luther King, Rosa Parks, Malcoln X e tantos outros. Aqui no Brasil, ainda criança, nós somos condicionados a odiar a nossa cor. Quando cresce, o ideal  é ser moreno, não negro..

 

Eu me aceitei como negro aos 27 anos, mesmo sendo um negro retinto, ou seja, bem escuro. Na verdade, eu sempre soube que era negro, não tinha como não saber: a polícia jogava isso bem na minha cara. A questão é que eu não tinha estímulo nenhum para amar a minha cor. 

 

Daí, conheci a EDUCAFRO, que além de me trazer a possibilidade do ensino superior me entregou algo bem maior: a oportunidade de conhecer a minha história, os heróis reais que nós temos, e a lutar por igualdade.

 

Hoje, sou formado em Ciências Sócias pela FGV, faço mestrado lá. em Administração Pública, trabalho com o ex-ministro da Educação Jose Henrique Paim e tenho um instituto: Instituto GUETTO — Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada. Sou ponta de lança no combate ao racismo no Brasil e no mundo.

 

Paz!!

 

Vítor Del Rey

Presidente do GUETTO”

Mundo Corporativo: “vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”, diz Carlos Marinelli, do Grupo Fleury

 

O que essa pandemia nos mostrou é que nós já tínhamos várias ferramentas, várias tecnologias, e, talvez, nós não estivéssemos utilizando a sua total potencialidade; e mesmo as pessoas, quão resilientes as pessoas estão sendo durante esta pandemia” 

 

Um dos processos digitais impulsionados pelas restrições impostas pela pandemia foi o da telemedicina; o que antes se resumia a trocas eventuais de mensagens entre médico e paciente, através do WhatsApp, transformou-se em canal de atendimento e consulta. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury, falou de como a empresa, o setor de saúde e seus profissionais tiveram de se adaptar desde que os primeiros casos de Covid-19 chegaram ao Brasil.

 

“Desde o primeiro momento, o foco sempre foi na segurança dos nossos colaboradores porque a gente sabia que, uma vez esses colaboradores estivessem seguros, nós iríamos trazer essa segurança também para os nossos clientes”.

 

Dentro das mudanças realizadas pelo Grupo Fleury, também houve a aplicação do serviço de atendimento móvel com a inclusão de procedimentos, como o de ultrassom e exame de imagens, medida que fez diminuir a necessidade de pacientes terem de se deslocar até as unidades de saúde. De acordo com Carlos Marinelli, foi criada uma área de consultoria às empresas que precisavam desenvolver suas atividades dentro de normas mais rígidas de segurança sanitária. Em 50 dias, aderiram ao programa 300 empresas e cerca de 400 mil pessoas foram atendidas por esses serviços, muitos para a realização de testes de Covid-19. 

 

O executivo destacou, ainda, a participação de seus laboratórios e profissionais em projetos de sequenciamento da mutação do Sars-Cov-2 e de desenvolvimento da vacina de Oxford:

 

“Esse é um momento em que o conhecimento precisa ser constituído, precisa ser elaborado; e quanto mais a gente passar rapidamente o conhecimento que a gente elabora, que a gente constrói, melhor para todo mundo. Essa é uma responsabilidade que também a gente trouxe para a gente”.

 

Um aspecto que tem desafiado os gestores é o de entender o que vai acontecer com as empresas e os negócios após a pandemia. Apesar de apostar na ideia de que as pesquisas com uma ou mais vacinas estarão concluídas até o fim do ano, o que identifica como sendo libertador para o cidadão, Carlos Marinelli alerta que isso não significará que voltaremos a nos comportar como antes da pandemia. Nem devemos. O executivo acredita que diminuirá a necessidade de todos os profissionais estarem todos os dias dentro do escritório, o que restringirá a frequência de deslocamentos e colaborará com a redução da pegada de carbono, com impacto positivo na questão ambiental: 

 

“Já estamos identificando pessoas que não voltarão para a sua principal forma de trabalho. Elas vão trabalhar de casa, elas vão trabalhar remotamente a maior parte do tempo e aquelas pessoas que vão trabalhar parte do tempo no escritório, vão trabalhar muito mais por missão. Essa história de jobs description — ou descrição de função — cada vez vai existir menos. Cada vez mais vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, no Canal da CBN no You Tube, às quartas-feiras, às 11 horas. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados; domingo,  às 10 da noite, em horário alternativo; ou a qualquer momento em podcast.

O digital fez o Agro tremer

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Cooper-expo

Foto: divulgação

 

“Fizemos o Agro tremer” — a expressão foi usada por Flávio Machado, da Pixit, para exprimir a Fernando Degobbi, da Coopercitrus, o momento em que a COOPERCITRUS EXPO DIGITAL definitivamente identificava o sucesso do empreendimento.

 

Monitorando o mundo digital, pela certeza da obrigatoriedade da sua prática, busquei a receita do sucesso dessa feira de negócios, que vai revolucionar o já revolucionário mundo Agro. Conversei com o próprio Fernando Degobbi, CEO da Coopercitrus e responsável pelo evento.

 

Falamos do resultado e da estratégia, baseados em fatos e números  — como ensina Hans Roling, autor do best-seller Factfulness.

 

O Sucesso

 

A Coopercitrus é a maior Cooperativa Singular do país, com 38.500 associados, que é constituída por pequenos e médios agricultores — cuja escala dos médios fica de R$ 250 mil  a R$ 1 milhão por produção, enquanto os pequenos ficam concentrados numa faixa em torno de R$ 100 mil  para menos.

 

Em fins de abril foi decidido que a 21ª COOPERCITRUS EXPO não seria realizada devido a pandemia, o que impediria que os associados pudessem utilizar o evento para usufruir das compras necessárias de insumos para a próxima safra. Assim como deixariam de obter os conhecimentos técnicos e de se inteirar das novidades operacionais e tecnológicas, normalmente absorvidas na Expo.

 

Degobbi optou então pelo formato digital em vez de adiar ou cancelar  para não deixar de atender as demandas dos associados. Os números demonstraram que o novo formato cumpriu a expectativa — foi  além: o resultado superou os alcançados na Expo de 2019.

A venda de R$ 800 milhões, ano passado, chegaram a R$ 1 bilhão neste ano. Os visitantes passaram de 12 mil para 80 mil — gente de  25 países, com predominância de americanos e  presença de todo o Brasil.

Os agricultores sem internet visitaram os 80 totens colocados nas lojas físicas. Tiveram 10 atendimentos por dia. Os 420 vendedores, com informações do CRM, estiveram à disposição 24hs por dia em cobertura global, para negociação e encaminhamento técnico.

 

Se o custo da expo de 2019 foi de R$ 1,8 milhão, o deste ano chegou a R$ 2 milhões. Entretanto, as informações armazenadas estão em número muito superior, a começar pelo cadastramento atualizado de 42 mil associados — há sócios com mais de uma propriedade, chegando ao total de 50 mil.

 

Existe uma relação de melhorias qualitativas em função da digitalização, tais como atendimento permanente, atenção direta ao que interessa ao associado, eliminação de despesas para a visita e otimização de tempo. Além disso,  a Expo Digital ganhou flexibilização e, graças ao sucesso, pode ser estendida por mais uma semana, o que seria impossível em evento físico.

 

A receita

 

Cultura digital pré-existente da direção. O CRM foi implantado há 10 anos.

 

Corpo de 420 vendedores habilitados e com informações.

 

Escolha da plataforma da Pixit, com 3D e 360º, com capacidade de 1 milhão de acessos simultâneos.

 

Digitalização permitindo acesso a satélite, uso de drones, diagnóstico de análise de solo, orientação para plantio e armazenamento na Amazon.

 

Democracia no atendimento aos agricultores sem internet através dos totens nas lojas físicas.

A ferramenta tecnológica é sempre acompanhada do apoio digital personalizado pelo atendente habilitado, possibilitando a negociação quando o comprador desejar.

Facilitação para divulgação do conhecimento através da “Arena de tecnologia digital”, onde foram apresentadas 100 palestras.

 

Disponibilização de 2.000 conteúdos de interesse técnico.

 

Atenção especial aos fertilizantes, seguidos pelos defensivos e tratores.

 

Espaço diferencial para o poder feminino, tão desequilibrado universalmente.

 

“Mulheres do Campo” integra positivamente o formato de sucesso do evento.

 

Cumprir a máxima de Degobbi: “Soluções integradas e Resultados Sustentáveis”

 

Conclusão

 

O final da entrevista é surpreendente. Ao perguntar o Fernando Degobbi se faria
novamente a Expo Digital, em 2021, ele respondeu;

“A dúvida não é sobre a Digital, a dúvida é sobre a Expo física”

Esperamos que a percepção de Flavio, da Pixit, contamine o Agro e demais setores que até então dormem em berço esplendido e acordem para o digital.

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

O digital permite, sim, a retomada das feiras de negócios

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Screen Shot 2020-07-21 at 12.58.57

Reprodução da fachada virtual da feira

 

De 27 a 31 de julho estará em operação uma reprodução online da feira física da Coopercitrus-Cooperativa de Produtores Rurais de Bebedouro/SP. A Coopercitrus Expo Digital exibirá um ambiente 360º desenvolvido em 3D, recriado em computação gráfica, para possibilitar ao visitante virtual, caminhar pelos corredores e stands dos expositores, numa réplica do mundo físico.

 

Como observador da movimentação dos empreendedores de Feiras de Negócios, a notícia da Coopercitrus me surpreendeu. Pois embora de forma geral há um entendimento de que o mundo digital veio para ficar, não é o que tenho verificado ao acompanhar as lives dos grandes players das feiras de negócios. A ponto de considerar que Bebedouro veio em boa hora me acordar do pesadelo “De volta ao futuro” que estava acometido.

 

Ou seja, em 2000, ao aderir ao mundo digital, e atuando em Moda e no Varejo enfrentei a barreira do experimento. A incredulidade de compras sem provar, tocar, cheirar, saborear.

“Não há como comprar roupa sem provar”, ou “a internet é só prejuízo, veja a Amazon”. Eram as sentenças corriqueiras.

Hoje, como se sabe, as peças de moda são as mais vendidas no mundo digital, e a Amazon, de Bezos, o coloca como o homem mais rico do mundo.

 

Aquelas barreiras que imaginava vencidas, decorridos 20 anos, mesmo com o auxílio do devastador Covid-19, que pensava ter ajudado a curar a miopia de marketing do início do século, não foram superadas.

 

A verdade é que a evidência de que a digitalização pode enfrentar o desastre econômico e social do vírus, ainda não é entendida, e os empreendedores de sucesso das feiras do mundo físico não têm a visão da essencialidade do digital. Nem como função compulsória de atualidade e agindo como substituição ao físico, nem como omnicanalidade quando o físico estiver liberado. Em suma, o mundo físico das feiras de negócios não acredita no mundo digital para a sua operação.
Portanto, o pioneirismo dos citricultores de Bebedouro é fato a destacar e acompanhar.

 

A Coopercitrus Expo Digital, terá 130 expositores, com produtos e serviços agrícolas dentro das tendências atualizadas, para servir aos 37 mil associados da Coopercitrus e demais interessados, neste setor do agronegócio nacional e internacional — agora facilitado pela disponibilização no mundo digital.
A Feira destacará 100 consultores agrícolas que estarão apresentando os mais recentes conhecimentos da área em palestras e painéis técnicos. Programas subordinados ao sistema ILPF – Integração, Lavoura, Pecuária, Floresta, e relacionados aos Hortifrúti e à Agricultura de precisão. Ao mesmo tempo, trará um espaço destinado ao empreendedorismo feminino, para atender a demanda e oferta de ações, focando no empoderamento das “Mulheres do Campo”.

Afinal, para quem ouviu um dia que “O Brasil será o celeiro do mundo”, o AGRO sair na frente não é de todo surpreendente.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Sua Marca: o que as marcas regionais ensinaram às grandes do mercado

 

“Os grandes não vão morrer, é claro, mas têm de ficar bem atentos para cobrir algumas deficiências que são bem atendidas pelos pequenos” —- Jaime Troiano

As pequenas marcas e os negócios regionais que souberam se adaptar às necessidades de seus clientes, sairão melhores e mais fortes desta pandemia. A opinião é de Jaime Troiano e Cecília Russo comentaristas do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. Um dos aspectos que beneficiaram nessa relação foi o atendimento personalizado:

“Tem facilidade para entregar o produto, é mais barato e você conversa com a atendente ou o gerente por WhatsApp; você sabe com quem está falando”, diz Cecília Russo.

Marcas maiores que entenderam esse diferencial, também passaram a investir na proximidade de seus funcionários com os clientes, inclusive gerando vínculo com trocas de mensagens pessoais. E essa é uma das lições que ficarão assim que passar esse período de restrições.

“Deve-se estar muito atento neste momento porque as deficiências ficam mais evidentes …. como já dissemos, outras vezes, até ‘tropicão’ leva a gente para frente. Então, vamos aprender”, comentou Jaime Troiano.

Algumas dicas que podem ajudar o seu negócio a ficar mais próximo do cliente: treinei a sua equipe para prestar atendimento personalizado; crie canais de comunicação que facilitem o diálogo; e torne mais simples e respeitável o processo de trocas de produto —- há casos em que o cliente parece estar sendo punido porque precisou trocar a compra.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55, e está disponível também em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: as rotas de fuga da cidade no som da rádio e no guia de ruas

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da CBN

 

 

 

Em 1997, havia três anos que eu já trabalhava como Agente de Segurança no Tribunal do Trabalho, em Campinas —- o que significa ser motorista. Aprendi a guiar caminhões; dirigia ônibus, utilitários e automóveis. Era um tremendo prazer. Só ficava em pânico quando tinha de buscar magistrados na capital. Tinha medo de me perder na imensidão de São Paulo —- para mim, um mar de prédios entre ruas e avenidas.

 

Em junho, tive de buscar o vice-presidente do Tribunal, no bairro da Aclimação, às 9 e meia da manhã. Acho que ele entrou no carro por volta das 10 horas —- a falta de pontualidade era hábito nos magistrados, ao menos naquela época.

 

“Otoridade” a bordo, segui para Campinas. Passei na praça Campo de Bagatelle, rumo a pista logal da Marginal Tietê. Até aí tudo normal. Desviei para a expressa e tudo parou. Parou, fiquei travado! E o tempo, andando. E o trânsito parado.

 

Pedi licença ao magistrado para ligar o rádio. Ele autorizou, só se fosse na Cultura. Liguei, Mas nada de informação sobre o trânsito.

 

Tomei coragem e pedi licença novamente: pode ser na CBN? Aqui em São Paulo sempre me viro bem ligando nessa rádio.

 

Sintonia autorizada! Nem isso me salvou. A informação que queria não chegava. Recorri ao Guia de Ruas, no porta luvas do carro — era o Google da época. Sugeri uma escapada pela Vila Nova Cachoeirinha, na Brasilândia. Ouvi um autoritário “não”! Poucos minutos depois, o “não” virou “sim” — meio a contragosto.

 

Quando estávamos quase chegando, através de ruelas clandestinas com acesso à rodovia Bandeirantes, ele mandou eu voltar à Marginal: “já deve estar livre, depois de três horas”.

 

Ledo engano. Negociei outro caminho. E o peso da toga falou mais alto. Segue por aqui —- mesmo que tudo estivesse parado.

 

De Campinas, meu “tijólokia” —- um celular ainda dos tempos analógicos —- chamava a todo momento. Era do Tribunal, preocupado com os prazos processuais do magistrado que ocupava cargo de alto escalão.

 

Após horas de atraso e cansados de congestionamentos, entramos na Bandeirantes —- eu preocupado com a missão a ser cumprida e o magistrado orgulhoso de supostamente conhecer os caminhos da cidade, que insistia em dizer que conhecia como a palma de sua mão.

 

Chegamos a tempo, antes do fim do expediente jurídico. No caminho ainda sugeri a criação de um serviço de informação do tipo 0800 para auxiliar motoristas e taxistas. Um sugestão em tom de ironia, porque se tivesse me deixado seguir as rotas indicadas pelo Guia de Ruas e atento às notícias da CBN, teríamos chegado bem mais cedo ao nosso destino. E descoberto que naquele três de junho de 1997, a Ponte dos Remédios tinha sofrido uma rachadura.

 


Pedro Lúcio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

 

Screen Shot 2020-07-17 at 08.08.28

 

A caminho da rádio, cedo, mas não tanto quanto hoje, preso no congestionamento, em São Paulo, a sintonia do meu rádio migrava da CBN para a Bandeirantes; do Zé Paulo para o Hérodoto. Foi a estratégia que encontrei para conhecer mais o rádio e a cidade. Na CBN, apresentava o CBN São Paulo. E na audiência deles procurava o caminho para fazer minha própria carreira por aqui.

 

Zé Paulo tinha voz forte, opinião contundente, não se deixava enganar pela fala mansa do entrevistado —- especialmente se fosse um político. Mesmo que fosse qualquer político. Não fazia distinção partidária. A pergunta era incisiva, bem embasada, e se mal respondida, não aceitava.

 

Fez do microfone instrumento plural, ouviu vozes divergentes em uma época em que não havia no rádio espaço para tantas —- especialmente pela dureza do regime em vigor. Promoveu debates improváveis, com gente que não queria se falar. E aceitou fazer uma conexão inédita de rádio entre o entrevistado dele no Pulo do Gato, na Bandeirantes, e o do Heródoto, no Jornal da CBN, em 1992 — já que de um lado havia um  acusador e de outro um acusado.

 

Depois de ouvir a força da voz e a contundência da opinião, fui apresentado ao coração generoso que batia no peito de Zé Paulo.

 

Foi quando o conheci pessoalmente. Ele estava sentando na cadeira de um restaurante. Levantou-se para me cumprimentar, assim que me apresentei. Uma reverência ao meu pai, Milton Ferretti Jung, que conhecia desde muito tempo. E a cena se repetiu todas às vezes que nos encontrávamos. Zé Paulo falava do pai e eu, orgulhoso de ouvi-lo, pensava: a lenda falando da lenda.

 

A carreira dele e a do pai, estiveram muito sintonizadas. Narraram futebol e brilharam no jornalismo. Foram longevos à frente dos programas que apresentaram: Zé Paulo no “Pulo do Gato” e o pai no “Correspondente Renner”. E apesar de todo o sucesso que fizeram jamais deixaram que isso se transformasse em prepotência. Respeitavam a força do microfone, encaravam a profissão com humildade e assim conquistaram a admiração dos ouvintes e o respeito dos colegas.

 

Encontrei-me no microfone com ele apenas uma vez, durante programa especial, em homenagem aos 90 anos de rádio, apresentado pelo Haissen Abaki, na rádio Estadão. Sentei-me à mesa ao lado do Heródoto Barbeiro, que já estava na RecordNews e do Joseval Peixoto, da Jovem Pan. Zé Paulo estava em casa e conversou com a gente por telefone. Senti-me um guri de calça curta diante daquelas feras. Fui muito mais para ouvir do que falar. E nas poucas vezes que falei, tive vontade de chorar de emoção pela alegria que aquele momento provocava no meu coração. A história do rádio estava ali na minha frente.

 

Hoje cedo, coube-me anunciar a morte de José Paulo de Andrade, aos 78 anos, por Covid-19. Ele vinha há algum tempo enfrentando dificuldades respiratórias devido a doença pulmonar obstrutiva crônica. Mesmo em casa, desde antes da pandemia, não escapou desse vírus que leva embora mais um talento brasileiro. Foi impossível não me emocionar e chorar, com lágrimas que me tiraram do microfone por instantes. Chorei, sim. O rádio chora a perda de uma de suas maiores referências. Seus admiradores, também. Todos nós devemos muito à jornada que Zé Paulo teve em vida ao nosso lado.

 

À família, nossa solidariedade diante do luto!

No rebobinar da memória, lembranças de meu cotidiano matinal no rádio

 

 

micro-5086414_960_720

Foto: Pixabay

 

 

Era cedo — mais uma vez. Tudo parece acontecer logo cedo comigo. Não só parece. Acontece mesmo, porque cedo é que o meu dia começa. Começou, nesta quarta-feira, em 15 de julho de 2020 com as principais notícias do dia. Para logo em seguida uma estranha reversão do tempo atingir minha mente.

 

 

Às 6h45 da manhã, voltei dois ou três anos ao informar que no centro da cidade a temperatura era de 14°C. Nem a sede da rádio, em São Paulo, está por lá — é na zona Sul — nem meu estúdio avançado da quarentena fica na região — é na Oeste. Costumava usar a expressão quando trabalhava no tradicional endereço da rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília — este sim no Centro —, onde ficavam os estúdios da CBN e da rádio Globo. Foi lá que comecei a trabalhar. Onde cometi meus  erros e enganos. Onde também tive experiências profissionais memoráveis. Onde pratiquei jornalismo por 20 anos.

 

 

Imagino que tenha sido reflexo de outro recuo que minha memória me proporcionou um pouco mais cedo — não disse que tudo acontece muito cedo comigo?

 

 

Ainda eram 6h15 da manhã quando voltei mais de 30 anos no tempo. Já no bom dia da Aline Tochio, que atualiza a previsão do tempo no Jornal da CBN, e sempre recebe os ouvintes com muita simpatia e precisão, em vez de falar de São Paulo — como fazemos todos os dias —, resolvi perguntar sobre a temperatura em Porto Alegre, onde havia visto, minutos antes, que fazia um frio de renguear cusco — perdão pelo gauchismo.

 

 

Nossa meteorologista, sempre atenta aos monitores e radares, além de bem informada, confirmou que o frio era intenso: “neste momento, temos 5°C no Aeroporto Salgado Filho”.  Foi a senha para a fita rebobinar uns 30 e pouco anos. E eu me enxergar com 23 ou 24 anos de idade, época em que trabalhava na rádio Guaíba, e era o primeiro repórter a entrar no ar no programa matinal — sim, lá também as coisas aconteciam muito cedo para mim. Os termômetros do aeroporto de Porto Alegre faziam parte da minha fala na rádio, assim como as condições dos voos e uma ou outra notícia que surgisse no saguão do Salgado Filho.

 

A Cássia Godoy logo me cobrou que contasse essa história no ar. Não tive tempo. Preferimos tratar de coisas mais relevantes para os ouvintes.  Aqui no blog o espaço é livre e pode ser ocupado com reminiscência, por isso, reproduzo trecho de texto que publiquei no início desta pandemia, quando fui levado à reclusão. No qual comparava o momento que estou vivenciando com a apresentação do Jornal da CBN de casa e aquele tempo em que, de casa, entrava ao vivo na Guaíba:

“É estranho mas não inusitado. Em meus primeiros anos de rádio, nos anos de 1980, tive uma experiência curiosa. Na época, trabalhava na rádio Guaíba de Porto Alegre e fazia minha primeira participação, logo depois das seis da manhã, com informações do aeroporto Salgado Filho. Diante da necessidade de reduzir custos, a rádio combinou que eu continuaria atualizando as notícias do aeroporto — condições para voar, voos atrasados, lotação dos aviões entre outros assuntos —, mas diretamente de casa.

 

Era fim de madrugada quando acordava e ligava para os balcões das companhias aéreas — Varig, Vasp e Transbrasil —, para a torre de controle e para o telefone do ponto de táxi que ficava em frente ao aeroporto. Os motoristas descreviam o movimento de passageiros e informavam a temperatura registrada pelo termômetro de rua. Com esse arsenal de informações, me preparava para entrar no ar na Guaíba.

 

Encerrava meus boletins informando a temperatura na cabeceira da pista, uma forma que encontrei para dar um pouco mais de realidade aos fatos, quando de verdade eu estava falando, ao vivo, da cabeceira da minha cama. Registre-se que
em nenhum momento, no bate-papo com o âncora do Jornal, dizia que estava no aeroporto para não perder a confiança do ouvinte assim como não comentava que estava em casa — algumas vezes fui traído pelo nosso cachorro de estimação, que latia “diretamente do pátio”.

 

Se no ar tudo transcorria normalmente e a prestação de serviço atendia a expectativa do público, lá na minha casa, em Porto Alegre, eu me tornei um estorvo para meu irmão. Imagine que nós dividíamos um quarto e, portanto, todos os dias, às seis da manhã, ele era acordado aos berros por minhas notícias sobre saídas e chegadas de aviões e, claro, a temperatura na cabeceira da pista. Foi difícil para ele e constrangedor para mim, mas nada que estragasse nosso companheirismo, mantido até os dias de hoje”

Tantas lembranças, tão cedo e em tão pouco tempo talvez se justifiquem pelo que a psicóloga Simone Domingues nos ensinou recentemente em outro texto publicado neste blog. Escreveu que diante das restrições que vivemos, com o mundo praticamente parado, incapazes que estamos de projetar o futuro, tendemos a resgatar o passado. Um cenário de saudades que põe nossa memória em ação.

 

Ao menos desta vez, a memória levou-me a momentos felizes que vivenciei. Nem sempre tem sido assim.