Conte Sua História de São Paulo: da Coats Corrente à festa dos 400 anos

Por Maria Aparecida Querino Baron

Ouvinte da CBN

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Tenho 84 anos, moro no Alto da Mooca há 64. Nasci em Guaranésia,  cidade mineira, mas a minha vida, o meu coração está aqui nesta São Paulo. Vim para cá, em 1952, autorizada pelo meu pai, para morar na casa de uma tia, trabalhar e estudar. Era uma época muito difícil, o ramo têxtil estava em desenvolvimento, e consegui um emprego no bairro do Ipiranga, na Cia Brasileira de Linhas para Coser, a “Coats Corrente”  — que chamavam de Inglesa —-, uma das que fizeram história nos primórdios da industrialização: quantas saudades, alegrias … lembro até de ter furado um dedo na máquina de costura, mas, tudo era marcado por muita perseverança e dedicação frente aos desafios.

Após algum tempo, meu pai pediu o meu retorno para Minas. Eu havia conhecido, aqui em São Paulo, e estava namorando um rapaz. Assim que parti, namoramos por cartas durante alguns anos; por fim nos casamos lá em Minas Gerais. E, em 1956, voltamos para São Paulo. Construímos toda nossa família aqui: tenho três filhos, nora, genro, irmãos, sobrinhos e um “pet neto”

Das memórias de São Paulo, guardo com carinho a comemoração dos 400 anos. Um enorme evento que se estendeu de 9 a 11 de julho de 1954 —  o Brasil estava sob o governo de Getúlio Vargas. As comemorações começaram em frente a Catedral da Sé, no dia 9 de Julho quando padres e bispos tocaram os sinos, alertando o início da festa. O Parque Ibirapuera foi inaugurado como presente do Quarto Centenário.

Outro elemento que marcou a celebração foi a Chuva de Prata, uma colaboração da Força Aérea Brasileira, que sobrevoou a cidade diversas vezes despejando pequenos triângulos de papel laminado prateado, iluminados por holofotes do exército.[ 

O 10 de julho, um sábado, foi voltado especialmente para as crianças, com atividades e brincadeiras, em frente a saudosa TV Tupi; apesar de São Paulo inteira estar ocupada por pequenos palcos, os quais iam se modificando e alternando as atividades, conforme mudavam de região da cidade.

No terceiro dia: o fim da festa. Pela manhã, o Estádio do Pacaembu abriu suas portas para diversos números artísticos circenses — palhaços, malabaristas e o Globo da Morte, que divertiram a população. Também foi palco de um jogo de futebol de palhaços, transformando o Estádio Paulo Machado de Carvalho em um grande circo.

Não esqueço quando vi a Miss Martha Rocha, a baiana, que até hoje é sinônimo de beleza, desfilando em carro aberto no Ibirapuera. Ela tornou-se uma entidade: nome de rua, viaduto, torta e tema de marchinha carnavalesca. Martha era a favorita para Miss Mundo mas ficou em segundo lugar naquela famosa história das duas polegadas a mais. 

São Paulo, minha, nossa São Paulo, também conhecida como Terra da Garoa, se aproximando dos cinco séculos de existência, a cidade que abriga todos os povos brasileiros e estrangeiros de diversas partes do mundo. São Paulo, Obrigada por tudo! Pelo seu acolhimento, por sua energia e grande vibração. Continuarei rezando por você, enquanto acordo e durmo nos seus braços escutando o pulsar do seu coração. 

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Maria Aparecida Querino Baron (Cidinha) é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie sua história para contesuahistoria@cbn.com.br  e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Precisamos votar atentos ou vamos necessitar de um Ralph Nader, em São Paulo

 Por Carlos Magno Gibrail

Av Morumbi com Adibo Ares foto: Carlos Magno Gibrail

 

A cidade de São Paulo estará revisando o Plano Diretor e a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo – Zoneamento, na próxima legislatura. Em poucos dias a população estará votando para eleger Prefeito e Vereadores, a quem caberá executar a Revisão do Plano, cuja experiência  desde sua aprovação, em 2014, até hoje deve servir para sinalizar o que deverá ser mantido, acrescido ou descartado.

Da rádio CBN e do portal Ig, duas informações publicadas recentemente geraram um alerta. A primeira é que dos 14 candidatos a prefeito, apenas sete incluíram o Plano Diretor e o Zoneamento em seus programas de governo. No programa “Mais São Paulo” da rádio CBN, Américo Sampaio citou os sete: Andrea Matarazzo, Artur do Val, Guilherme Boulos, Jilmar Tatto, Joice Hasselmann, Mario França e Marina Helou.

Andrea Matarazzo, Guilherme Boulos e Jilmar Tatto, se propõem a focar na aplicação da Lei, enquanto Artur do Val, Joice Hasselmann e Mario França, pretendem efetivar a revisão com a participação da população. 

Outro alerta foi dado pelo portal iG, transcrevendo material da FOLHA, anunciou que “ Covas é patrocinado pelo mercado imobiliário” .

No aspecto da aplicação da lei, é comum a constatação do uso do solo divorciado das restrições originais do loteamento, que por lei, tem que ser cumpridas. Por exemplo o caso atual da Av. Morumbi com a Av. Adibo Ares em que a TEGRA TGSP 39 Empreendimentos Imobiliários desconsiderando o loteamento original projetou e está executando a construção de torres completamente fora dos parâmetros de adensamento permitidos. A obra foi acelerada diante dos protestos iniciais dos moradores, para atingir certamente o tão conhecido estágio  do “ninguém terá coragem de ordenar a demolição”.      

A Revisão com a participação da população é pretensão louvável, mas nem sempre possível, pois é comum nestas sessões a presença de agentes do mercado imobiliário distorcendo objetivos dos reais ocupantes do solo em pauta. 

Quanto ao  Covas estar sendo apontado como beneficiado de construtoras e incorporadoras, ao receber de empresários do setor  aproximadamente R$ 880 mil reais para a campanha, é legal, mas é preciso monitorar as decisões futuras.  Além disso, segundo a reportagem, Covas encaminhou proposta para aumentar no miolo dos bairros o gabarito dos prédios, bem como a flexibilização das vagas de garagem. Medidas que ainda não foram implementadas devido a judicialização que encontraram pelo caminho. 

Convenhamos que este é um cenário de confronto entre várias partes envolvidas,  principalmente entre ambientalistas e negacionistas, em que os agentes imobiliários não exercem o amplo papel que lhes cabe, atuando apenas como comerciantes a curto prazo. Não se importam com impactos ambientais nem com a preservação de recursos escassos. 

Ralph Nader neste contexto é bem lembrado quando partiu dele a vigorosa ação contra a poderosa indústria automobilística americana que fabricava “maravilhosos” automóveis sem o mínimo padrão de segurança.  Conseguiu que as técnicas existentes fossem introduzidas e os automóveis nunca mais foram os mesmos.  

A nossa indústria da construção civil também é poderosa, enquanto não surge um Ralph Nader local, estamos identificando ações de associações de moradores.  Neste momento recebemos material do morador e engenheiro civil Chico Lima sobre o processo citado acima sobre a obra da TEGRA, cuja decisão judicial é embargo e demolição. *

“Ante o exposto e considerando tudo o mais que dos autos consta, JULGO PROCEDENTE a ação que ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO JARDIM GUEDALA, move contra a TGSP – 39 EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA e PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, e o faço para declarar a vigência das restrições convencionais em relação aos lotes objeto do empreendimento. Em consequência, reconheço a nulidade dos atos administrativos consubstanciados nos alvarás de aprovação de obra nova expedidos respectivamente nos processos administrativos 2017-0.108.508-5 e 2018-0.027.294-0 e atos subsequentes. Condeno a requerida à obrigação de fazer consistente na demolição de toda e qualquer obra do empreendimento em questão, repondo-se integralmente o “status quo ante”, bem como na obrigação de não fazer, consistente na não construção dos empreendimentos “Il Faro” e “Il Bosco”. Arcarão as requeridas com as custas processuais e honorários advocatícios, que fixo em vinte por cento do valor atribuído à causa. Oportunamente, ao arquivo.

P. Intime-se. São Paulo, 03 de novembro de 2020.

CYNTHIA THOMÉ Juíza de Direito “

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

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Mundo Corporativo: o futuro das empresas e do emprego, segundo Tiago Mattos

 

“Todas as nossas atividades vão mudar; então, ela vai morrer de certa forma porque ela vai mudar, mas a necessidade de a gente entregar valor como a gente entrega, vai continuar” — Tiago Mattos, futurista da Aerolito

Entender o futuro é enxergar qual o caminho que vamos seguir lá na frente e para que essa trajetória seja percorrida é necessário que hoje se tome as decisões mais adequadas. Ajudar empresas, empreendedores e profissionais a refletirem sobre essas escolhas tem sido o trabalho de Tiago Mattos, um dos fundadores da Aerolito, e entrevistado do programa Mundo Corporativo, da CBN. Mattos se apresenta como futurista e explica o que significa essa profissão:

“O trabalho de futurismo é muito menos prever o futuro e muito mais divagar, refletir, conjecturar sobre as possibilidades do futuro, porque com essas possibilidades a gente pode tomar melhores decisões no presente, fazendo com que a sociedade gere mais impacto positivo”

Com a pandemia, muito se falou da transformação digital que foi acelerada pela necessidade de sobrevivência de empresas e setores da economia. Mattos alerta, no entanto, que é preciso identificar quais são os estágios de digitalização de cada setor que, segundo ele são três: não-digital; digitalizado; e pensadamente digital.

Uma loja física, que é o mais comum que temos à disposição, é uma loja não-digital. Quando essa loja vai para o comércio eletrônico, mas mantém o mesmo modelo da física, com produtos expostos e o consumidor fazendo sua escolha em um clique, é considerada uma loja digitalizada. O avanço mesmo acontece quando essa loja se transforma em pensadamente digital, ou seja, oferece ao consumidor a possibilidade de escanear as medidas do seu corpo e a roupa ser fabricada não do tamanho P, M, G e GG, mas na medida certa da pessoa.

“Houve uma aceleração: o e-commerce é um presente já estabelecido e o pensamento digital, que chegaria lá na frente, se acelerou”

Um dos termos cunhados pela Aerolito é o da futuralidade —- que reúne futuro e naturalidade em um mesmo conceito. E parte da ideia de que é preciso acolher de maneira mais natural o futuro, que teve sua passagem antecipada. Para adotar a futuralidade, Tiago Mattos diz que as empresas precisam estar atentas a quatro pontos:

  1. Pensamento “efetual” —- gerir com a cabeça de um empreendedor e não de um gestor educado pela administração clássica, como explica Saras Sarasvathy, no livro “Effectuation”.
  2. Inversão temporal — evitar a linearidade do planejamento que segue a ordem “now, next and future”;  agora, a ordem é “now, future and next”, ou seja, tem de olhar para o presente, para o futuro e, depois, para os próximos passos, porque esse futuro vai chegar antes da hora.
  3. Pós-categorização — não podemos cair na armadilha de usar rótulos conhecidos para os conceitos, comportamento e posturas que surgirem pós-pandemia; esse reducionismo faz com que o novo envelheça antes mesmo de nascer;
  4. Segurança psicológica —- é preciso exorcizar os evitáveis conflitos pessoais para catalisar os inevitáveis conflitos de ideia; tenho de ser genuíno e não sofrer nenhuma pressão; quem tem de ganhar o embate de ideia é a argumentação e não o cargo; não importa a roupa, o sotaque, a raça e o gênero; é diferente de inteligência emocional, que é do indivíduo, enquanto a segurança psicológico é uma construção coletiva.

Diz Mattos:

“A gente tem de pensar no futuro para entender qual é o caminho, para onde vai essa nossa autopista; para que hoje a gente tome decisões adequadas ao nosso tempo; estar no presente hoje, em 2020, não significa que a gente esteja mentalmente em 2020; a gente pode estar com posturas que não sejam de 2020, com uma estética que não seja de 2020, com uma ética que não de 2020, ou com uma gestão que não seja de 2020”

Um dos aspectos que precisam ser melhor administrados pelos gestores do futuro é o da circulação de mensagens para evitar que o excesso de informação prejudique o relacionamento de empresas e colaboradores. Tiago Mattos alerta para os riscos do que chama de infoxicação:

“Se todo link de Whatsapp, se toda notícia de rede social, se tudo que chega a gente considera verdade, o cérebro processa de uma maneira profunda e a gente gasta muita energia. Então, fazer esta curadoria e depois ter essa confiança no conhecimento que nos chega é um dos papeis fundamentais para que a gente não entre nessa loucura contemporânea que é a infoxicação”.

A gravação do Mundo Corporativo pode ser assistida pela site da CBN e pelo canal da CBN no Youtube às quartas-feiras, 11 horas da manhã. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e está disponível, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Juliana Prado, Natalia Motta, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

A construção do envelhecimento

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A redução das taxas de mortalidade em todo o mundo tem promovido um aumento da expectativa de vida, resultando no crescimento da população idosa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 a população idosa com mais de 60 anos era de 14,5 milhões de pessoas. Atualmente, esse número passa dos 29 milhões com projeções de que em 2050 tenhamos uma população de 50 milhões de idosos em nosso país.

O envelhecimento, apesar de ser muito associado ao conceito de perdas físicas ou deterioração do corpo, compreende um processo singular, heterogêneo e influenciado por aspectos socioculturais, cujas definições foram sendo modificadas ao longo da história da humanidade. 

Nas sociedades antigas os idosos eram valorizados, por conta de sua experiência, auxiliando os mais jovens em suas atividades diárias e transmitindo seus conhecimentos adquiridos no transcorrer da vida. Na Grécia, o envelhecimento era compreendido a partir da classe social pertencente. Os idosos da elite tinham o poder político, econômico e cultural e eram reconhecidos como sábios. Por sua vez, os idosos que pertenciam às classe sociais inferiores representavam a invalidez, a doença e a morte. Na sociedade romana os idosos detinham uma posição privilegiada, dotados de autoridade, o que geralmente provocava conflitos com as gerações mais novas.

Na Idade Média, atingir a longevidade era algo raro e a velhice era compreendida como a fase na qual o indivíduo não era mais capaz de trabalhar. No renascimento houve uma valorização da juventude e da beleza.

No fim do século XVIII, com a industrialização e o surgimento do capitalismo, o poder econômico se centralizou nas pessoas mais jovens e os idosos, por sua vez, passaram a ser vistos como mendigos, em virtude da dificuldade de conseguir um emprego. Isso favoreceu uma associação da velhice com a incapacidade física, acentuando a perda da importância social do idoso, que ficou marginalizado na sociedade.

No século XX, novas regras de aposentadoria e pensões reduziram a associação da velhice com a incapacidade de produzir, uma vez que todas as pessoas, a partir de uma determinada idade, foram dispensadas da necessidade de trabalhar.

Novas mudanças aconteceram e ao fim do século XX o idoso recebeu maior atenção da indústria do consumo, englobando também o lazer e o turismo. A busca por um modelo de envelhecimento ideal, fez surgir o conceito de “melhor idade” vinculado à ideia de se ter um envelhecimento saudável, no qual se manteria a autonomia, a liberdade, a tomada de decisão e comportamentos capazes de preservar a saúde. 

Ser idoso e estar na “melhor idade” passou a exigir um repertório de atitudes que contemplassem a capacidade de manter-se fisicamente ativo, ter uma alimentação saudável, fazer treinos cognitivos para exercitar o cérebro, controlar os sinais de envelhecimento físico, como a utilização de cosméticos ou cirurgias estéticas. 

Se houve um tempo no qual à margem da sociedade estavam aqueles que não eram produtivos, a culpabilização passou a recair sobre os idosos que não adotassem o estilo de vida capaz de “retardar” a velhice e suas consequências. Numa sociedade marcada pelo consumo e pela negação das situações mais incômodas, como adoecimento ou morte, deixar a vida seguir seu ritmo passou a soar como passividade, beirando a irresponsabilidade.

Isso não significa que não se possa construir um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. Pelo contrário, há muito a ser feito. Mas esse processo dever começar muito antes do envelhecimento.

Diversos estudos apontam que envelhecer de forma saudável envolve fatores genéticos e uma série de comportamentos adotados ao longo da vida, como controle da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue, evitar o tabagismo e o etilismo, manter uma prática regular de atividades físicas e intelectuais. 

Atualmente, diversas pesquisas procuram compreender a importância da  reserva cognitiva no processo de envelhecimento, como um fator de proteção para o cérebro.  Reserva cognitiva compreende a capacidade de ativação das redes neuronais em resposta às diversas atividades realizadas. Essas atividades intelectuais desenvolvidas durante a vida, como leitura, cálculos matemáticos e aprendizagem de idiomas, aumentam a reserva cognitiva e, de certo modo, permitem que tais competências cognitivas se mantenham em idades mais tardias, minimizando as manifestações clínicas de doenças neurodegenerativas, como as demências. Além das atividades intelectuais, atividades físicas, sociais e de lazer também estão envolvidas na construção da reserva cognitiva. 

Apesar desses fatores de proteção, a velhice trará consigo as perdas funcionais e estas serão progressivas. Portanto, as atitudes adotadas para uma vida equilibrada e saudável não devem ser concebidas como uma batalha contra o envelhecimento, mas como facilitadoras para que essa fase se desenvolva de maneira tão natural quanto nascer e crescer, de modo ativo e com propósitos. 

Envelhecer de forma saudável não é sinônimo de juventude. Envelhecer saudável é envelhecer com dignidade, com políticas públicas que se preocupam com a população desde idades mais precoces, favorecendo medidas que promovam a saúde física e mental, que garantam a escolaridade, ocupação e renda aos cidadãos. É a promoção de atenção, cuidado e proteção à população idosa de maneira acessível a todos e não um privilégio de poucos. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: fragilidade, solidariedade e individualismo se revelam na pandemia

Assine e ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso em podcast

“Esse é o momento de separar as empresas que são nossas alinhadas das empresas oportunistas” —- Jaime Troiano

A surpresa com a falta de controle das nossas vidas e a revelação de dois lados da nossa personalidade apareceram com destaque no estudo aplicado para entender o comportamento do consumidor e o impacto sobre as marcas em seis meses de pandemia. O trabalho foi realizado por Jaime Troiano e Cecília Russo com base na técnica ZMET, criada pelo doutor Gerald Zaltmam, da Harvard Business School. 

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília explicou que o método “Zaltman Metaphor Elicitation Technique” usa conceitos de neurociência e a aplicação de metáforas para acessar conteúdos que vão além da nossa racionalidade. Com isso se consesgue mapear os caminhos mentais que estão associados a determinados temas. No Brasil, apenas a Troianobranding tem autorização para aplicar essa técnica.

Uma das imagens que surgiram na pesquisa com os consumidores foi a de peças de dominó, umas caindo sobre as outras, sem que se conseguisse parar aquele movimento. Uma metáfora que expressa como as pessoas ficaram surpresas com a pandemia, pois imaginavam ter controle sobre suas vidas, especialmente diante de toda a tecnologia disponível: big data, algoritmo, drones, satélites, carros autônomos, engenharia digital. 

“…de repente nos vimos com a vida como se estivesse em ‘modo avião’ … tínhamos a visão da onipotência e de repente o dominó escancara a nossa impotência diante de um inimigo invisível” —- Cecília Russo

Se a primeira ideia que surgiu no estudo foi a da evidência da nossa fragilidade, a segunda identificou os dois lados do ser humano: a solidariedade e a empatia em contrapartida a comportamentos individualistas de autopreservação. 

“… diante da iminência de sermos dizimados, buscamos novas formas de nos salvar”  — Jaime Troiano

Para as marcas, as lições a ser aprendidas, a partir dos resultados alcançados com a técnica ZMET:

  1. Esse é um momento que exige sensibilidade das marcas, ajuste de linguagem, não tão piegas nem tão agressivo. É preciso ajustar o tom.
  2. Darwin não está mais vivo, mas o que ele descobriu sim: as mais adaptadas, as que souberam navegar melhor nessa fase, sobreviverão e serão positivamente lembradas. 

Uma das sugestões de Jaime Troiano ao gestores de marcas é que façam o mesmo exercício que as pessoas estão fazendo diante da pandemia: um balanço de suas atitudes e de como se relacionam com as outras pessoas.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. E pode ser ouvido, também, em podcast.

Crime sem castigo

 

Como meu editor, da Contexto, sempre foi caridoso em permitir a reprodução de seus artigos aqui no blog, hoje tomei a liberdade de compartilhar seu pensamento sem antes ter-lhe pedido autorização. Que Deus me perdoe por esse pecado. Se não, que você me absolva deste crime, Jaime, porque estou longe de ser um dos poderosos protegidos pela justiça!

 

Por Jaime Pinsky

 

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim… O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino… Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela… Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair  em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à  democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos  dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.
 
Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.

 

Jaime PinskyHistoriador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto
 

A gratidão e os lírios do campo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologia

 

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”

Beto Guedes

 

Em setembro inicia-se a primavera no hemisfério sul, simbolizando para muitos um novo tempo, momento de renovação e esperança. Depois do inverno, de dias cinzas e curtos, a primavera surge com as flores que nascem nos parques, nos campos, que dão colorido à vida e desabrocham indicando que um novo ciclo começa. Cerimônias para celebrar o começo das estações são  realizadas desde a antiguidade e, na primavera, os rituais eram forma de agradecer por tudo o que a terra oferecia aos povos e para pedir prosperidade para o novo período. O aumento da incidência de luz solar e a gratidão estão entre os fatores que acarretam estados de humor positivos. 

 

Diversos estudos têm mostrado a associação entre a maior incidência de luz natural e o aumento da produção de serotonina — neurotransmissor associado à regulação das emoções e do humor —, bem como a importância da gratidão na redução dos sintomas de depressão e ansiedade, promovendo mudanças a longo prazo na atividade cerebral.

 

A gratidão pode ser compreendida como uma emoção positiva após alguém ter feito algo por nós ou ter nos presenteado. Porém, numa perspectiva mais ampla, a gratidão é considerada como uma emoção, uma atitude e um estilo de vida. Oferece oportunidades para nos apropriarmos das experiências de maneira positiva, reconhecendo a qualidade das coisas, das pessoas e de quem somos.

 

Há quem pergunte: ser grato é fechar os olhos para as coisas ruins? Claro que não! As coisas ruins realmente existem –- e muitas para as quais infelizmente não conseguiremos ser gratos. Mas não é apenas sobre julgar algo como bom ou ruim. É sobre reformular as experiências que poderiam ser negativas, identificando as suas dimensões positivas, com foco naquilo que se considera importante, significativo.  A máxima do copo meio cheio…

 

Na obra “Olhai os lírios do Campo”, Érico Veríssimo narra a história de Eugênio, para quem a felicidade estaria associada aos bens materiais. Ele se envergonhava da família ao invés de ser grato pelas oportunidades que ela o oferecia. Abandonou a possibilidade de um amor em troca de prestígio e de dinheiro. Com o tempo, após conquistar tudo aquilo que um dia julgara relevante, percebeu que, ainda assim, não era feliz, uma vez que sua verdadeira felicidade residia nas coisas simples e cotidianas que já possuía, como a sua filha e o seu trabalho.

 

É isso… A gratidão não está relacionada com o que se tem. Mas como se vive. Não é uma busca por ter mais, mas é cultivar o que se tem. É cuidar dos relacionamentos interpessoais e ter consigo um relacionamento menos crítico, menos punitivo e com mais autocompaixão.

 

Que a chegada de setembro nos permita, como propôs Beto Guedes, inventar uma canção que venha trazer sol de primavera. Assim como faziam os nossos antepassados, que possamos celebrar um novo ciclo, sendo gratos pelo o que a natureza nos oferece, pelos nossos, por nós mesmos. Distantes da busca excessiva por coisas insignificantes, estejamos mais próximos daquilo que nos é essencial. Talvez assim possamos ver como crescem os lírios do campo.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França. Ao lado de Abigail Costa é responsável pelo Canal no You Tube “Dez por cento mais”. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

“Me aceitei como negro aos 27 anos”; e nós com isso?

 

Milwaukee Bucks iniciou movimento de paralisação da NBA
Crédito: Kevin C. Cox/Getty Images/Site CBN

 

A ausência de jogadores da NBA nas quadras, na noite de quarta-feira, em Orlando, foi o gesto mais simbólico e de maior repercussão contra a violência aos negros, nos Estados Unidos, desde que policiais de Kenosha atiraram sete vezes e pelas costas no negro Jacob Blacke, no domingo, no estado do Winsconsin. O primeiro ato foi dos jogadores de basquete do Milwaukee Bucks seguidos pelos demais colegas da liga e se estendeu ao basquete feminino e ao beisebol, com a paralisação das rodadas da WMBA e da MLB.

 

A despeito de o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter feito comentário crítico e dito que é por isso que a NBA está perdendo audiência — o assunto ganhou espaço no noticiário esportivo, avançou pelas demais editorias dos jornais, destacou-se nas manchetes dos telejornais e de programas de rádio pelo mundo.

 

Eram 5h50 da manhã, aqui no Brasil, quando o apresentador Frederico Goulart nos provocava a refletir sobre o feito, no quadro que fazemos ao lado de Cássia Godoy, no CBN Primeiras Notícias. Ressaltei que foi a jogada mais marcante do basquete americano já vista nas quadras — esporte que quando jogado é um espetáculo por si só. E foi a forma de revelar a força antirracista que se expressa nos Estados Unidos com protestos nas ruas e manifestações nem sempre pacíficas — porque pacíficos também jamais foram os atos contra os negros.

 

Voltamos em seguida, às 6h, no Jornal da CBN com o noticiário e as reações pelo Mundo, para ainda antes das 7 da manhã, ouvirmos Juca Kfouri comentar que o esporte americano encestou o racismo:

 

 

A notícia foi destaque a cada meia hora, no Repórter CBN e tema único do bate-papo com Dan Stulbach, Zé Godoy e Luiz Gustavo Medina, no Hora de Expediente, no qual sempre preferimos ser diversos e divertidos nas notícias abordadas.  Os três haviam conversado com Roque Júnior, ex-jogador de futebol, com títulos na Europa e campeão do Mundo pelo Brasil, na sexta-feira passada — oportunidade em que ele destacou as diferenças de reações contra o racismo que se tem nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil; e justificou que o campo reflete a sociedade da qual faz parte.

 

 

Ao longo do Jornal da CBN ainda lembrei de entrevista que gravei nessa quarta-feira, com Luana Génot, do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), que vai ao ar no dia 12 de setembro, no programa Mundo Corporativo. Ela e sua organização fazem trabalho de excelência na busca da diversidade e da igualdade racial nas empresas.

 

Sem spoiler — mesmo porque o vídeo da gravação pode ser visto no Facebook e no canal da CBN no You Tube –, Luana constatou que desde o assassinato de George Floyd, em Maio, e as manifestações que se seguiram nos Estados Unidos, aumentou o número de empresários brasileiros em busca de informações do ID_BR para entender como podem se transformar em agentes desta luta contra o racismo, que restringe a entrada de negros no mercado de trabalho e reduz as chances deles ascenderem aos cargos mais altos da hierarquia corporativa.

 

 

Chama atenção que este interesse de empresas e organizações foi impulsionado por atos de violência nos Estados Unidos quando aqui no Brasil a morte de negros alcança números vergonhosos — e todos os dias. O Atlas da Violência, divulgado hoje, mostra que os assassinatos de negros aumentaram 11,5% em dez anos e de não negros caíram 12,9% no mesmo período.

 

Reprodução G1

 

Isso não acontece só com líderes empresarias; nós da mídia também somos culpados por, na maioria das vezes, somente sermos alertados para a gravidade dessa injustiça racial quando o noticiário no exterior fala mais alto —- Luana também aborda essa questão no Mundo Corporativo. 

 

Nesse ciclo de crueldade, em que não se vêem representadas nos diversos espaços da sociedade, muitas crianças negras crescem na descrença de que são capazes de mudar esta história, com dificuldade até mesmo de se reconhecerem como cidadãos e negros. Foi o que me disse um ouvinte da CBN em e-mail que fiz questão de ler na íntegra durante o Jornal e compartilho com você, caro e raro leitor deste blog. 

 

Leia até o fim, pense sobre o assunto, busque outras fontes que se expressam sobre o racismo e leve essa discussão à frente. Se uma palavra sua inspirar uma outra pessoa a seguir na mesma direção, tornaremos essa jornada menos árdua. 

 

Foi o que Vitor Del Rey fez hoje e a ele agradeço pela generosidade da mensagem e pela sinceridade em compartilhar com o público da CBN que, frente ao preconceito e racismo estrutural que vivemos, só se aceitou como negro, aos 27 anos:

 

“Mílton, bom dia!

 

Acredito ser diferente no Brasil, porque, ainda criança, os negros americanos ouvem sobre Luther King, Rosa Parks, Malcoln X e tantos outros. Aqui no Brasil, ainda criança, nós somos condicionados a odiar a nossa cor. Quando cresce, o ideal  é ser moreno, não negro..

 

Eu me aceitei como negro aos 27 anos, mesmo sendo um negro retinto, ou seja, bem escuro. Na verdade, eu sempre soube que era negro, não tinha como não saber: a polícia jogava isso bem na minha cara. A questão é que eu não tinha estímulo nenhum para amar a minha cor. 

 

Daí, conheci a EDUCAFRO, que além de me trazer a possibilidade do ensino superior me entregou algo bem maior: a oportunidade de conhecer a minha história, os heróis reais que nós temos, e a lutar por igualdade.

 

Hoje, sou formado em Ciências Sócias pela FGV, faço mestrado lá. em Administração Pública, trabalho com o ex-ministro da Educação Jose Henrique Paim e tenho um instituto: Instituto GUETTO — Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada. Sou ponta de lança no combate ao racismo no Brasil e no mundo.

 

Paz!!

 

Vítor Del Rey

Presidente do GUETTO”

Mundo Corporativo: “vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”, diz Carlos Marinelli, do Grupo Fleury

 

O que essa pandemia nos mostrou é que nós já tínhamos várias ferramentas, várias tecnologias, e, talvez, nós não estivéssemos utilizando a sua total potencialidade; e mesmo as pessoas, quão resilientes as pessoas estão sendo durante esta pandemia” 

 

Um dos processos digitais impulsionados pelas restrições impostas pela pandemia foi o da telemedicina; o que antes se resumia a trocas eventuais de mensagens entre médico e paciente, através do WhatsApp, transformou-se em canal de atendimento e consulta. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury, falou de como a empresa, o setor de saúde e seus profissionais tiveram de se adaptar desde que os primeiros casos de Covid-19 chegaram ao Brasil.

 

“Desde o primeiro momento, o foco sempre foi na segurança dos nossos colaboradores porque a gente sabia que, uma vez esses colaboradores estivessem seguros, nós iríamos trazer essa segurança também para os nossos clientes”.

 

Dentro das mudanças realizadas pelo Grupo Fleury, também houve a aplicação do serviço de atendimento móvel com a inclusão de procedimentos, como o de ultrassom e exame de imagens, medida que fez diminuir a necessidade de pacientes terem de se deslocar até as unidades de saúde. De acordo com Carlos Marinelli, foi criada uma área de consultoria às empresas que precisavam desenvolver suas atividades dentro de normas mais rígidas de segurança sanitária. Em 50 dias, aderiram ao programa 300 empresas e cerca de 400 mil pessoas foram atendidas por esses serviços, muitos para a realização de testes de Covid-19. 

 

O executivo destacou, ainda, a participação de seus laboratórios e profissionais em projetos de sequenciamento da mutação do Sars-Cov-2 e de desenvolvimento da vacina de Oxford:

 

“Esse é um momento em que o conhecimento precisa ser constituído, precisa ser elaborado; e quanto mais a gente passar rapidamente o conhecimento que a gente elabora, que a gente constrói, melhor para todo mundo. Essa é uma responsabilidade que também a gente trouxe para a gente”.

 

Um aspecto que tem desafiado os gestores é o de entender o que vai acontecer com as empresas e os negócios após a pandemia. Apesar de apostar na ideia de que as pesquisas com uma ou mais vacinas estarão concluídas até o fim do ano, o que identifica como sendo libertador para o cidadão, Carlos Marinelli alerta que isso não significará que voltaremos a nos comportar como antes da pandemia. Nem devemos. O executivo acredita que diminuirá a necessidade de todos os profissionais estarem todos os dias dentro do escritório, o que restringirá a frequência de deslocamentos e colaborará com a redução da pegada de carbono, com impacto positivo na questão ambiental: 

 

“Já estamos identificando pessoas que não voltarão para a sua principal forma de trabalho. Elas vão trabalhar de casa, elas vão trabalhar remotamente a maior parte do tempo e aquelas pessoas que vão trabalhar parte do tempo no escritório, vão trabalhar muito mais por missão. Essa história de jobs description — ou descrição de função — cada vez vai existir menos. Cada vez mais vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, no Canal da CBN no You Tube, às quartas-feiras, às 11 horas. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados; domingo,  às 10 da noite, em horário alternativo; ou a qualquer momento em podcast.

O digital fez o Agro tremer

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Cooper-expo

Foto: divulgação

 

“Fizemos o Agro tremer” — a expressão foi usada por Flávio Machado, da Pixit, para exprimir a Fernando Degobbi, da Coopercitrus, o momento em que a COOPERCITRUS EXPO DIGITAL definitivamente identificava o sucesso do empreendimento.

 

Monitorando o mundo digital, pela certeza da obrigatoriedade da sua prática, busquei a receita do sucesso dessa feira de negócios, que vai revolucionar o já revolucionário mundo Agro. Conversei com o próprio Fernando Degobbi, CEO da Coopercitrus e responsável pelo evento.

 

Falamos do resultado e da estratégia, baseados em fatos e números  — como ensina Hans Roling, autor do best-seller Factfulness.

 

O Sucesso

 

A Coopercitrus é a maior Cooperativa Singular do país, com 38.500 associados, que é constituída por pequenos e médios agricultores — cuja escala dos médios fica de R$ 250 mil  a R$ 1 milhão por produção, enquanto os pequenos ficam concentrados numa faixa em torno de R$ 100 mil  para menos.

 

Em fins de abril foi decidido que a 21ª COOPERCITRUS EXPO não seria realizada devido a pandemia, o que impediria que os associados pudessem utilizar o evento para usufruir das compras necessárias de insumos para a próxima safra. Assim como deixariam de obter os conhecimentos técnicos e de se inteirar das novidades operacionais e tecnológicas, normalmente absorvidas na Expo.

 

Degobbi optou então pelo formato digital em vez de adiar ou cancelar  para não deixar de atender as demandas dos associados. Os números demonstraram que o novo formato cumpriu a expectativa — foi  além: o resultado superou os alcançados na Expo de 2019.

A venda de R$ 800 milhões, ano passado, chegaram a R$ 1 bilhão neste ano. Os visitantes passaram de 12 mil para 80 mil — gente de  25 países, com predominância de americanos e  presença de todo o Brasil.

Os agricultores sem internet visitaram os 80 totens colocados nas lojas físicas. Tiveram 10 atendimentos por dia. Os 420 vendedores, com informações do CRM, estiveram à disposição 24hs por dia em cobertura global, para negociação e encaminhamento técnico.

 

Se o custo da expo de 2019 foi de R$ 1,8 milhão, o deste ano chegou a R$ 2 milhões. Entretanto, as informações armazenadas estão em número muito superior, a começar pelo cadastramento atualizado de 42 mil associados — há sócios com mais de uma propriedade, chegando ao total de 50 mil.

 

Existe uma relação de melhorias qualitativas em função da digitalização, tais como atendimento permanente, atenção direta ao que interessa ao associado, eliminação de despesas para a visita e otimização de tempo. Além disso,  a Expo Digital ganhou flexibilização e, graças ao sucesso, pode ser estendida por mais uma semana, o que seria impossível em evento físico.

 

A receita

 

Cultura digital pré-existente da direção. O CRM foi implantado há 10 anos.

 

Corpo de 420 vendedores habilitados e com informações.

 

Escolha da plataforma da Pixit, com 3D e 360º, com capacidade de 1 milhão de acessos simultâneos.

 

Digitalização permitindo acesso a satélite, uso de drones, diagnóstico de análise de solo, orientação para plantio e armazenamento na Amazon.

 

Democracia no atendimento aos agricultores sem internet através dos totens nas lojas físicas.

A ferramenta tecnológica é sempre acompanhada do apoio digital personalizado pelo atendente habilitado, possibilitando a negociação quando o comprador desejar.

Facilitação para divulgação do conhecimento através da “Arena de tecnologia digital”, onde foram apresentadas 100 palestras.

 

Disponibilização de 2.000 conteúdos de interesse técnico.

 

Atenção especial aos fertilizantes, seguidos pelos defensivos e tratores.

 

Espaço diferencial para o poder feminino, tão desequilibrado universalmente.

 

“Mulheres do Campo” integra positivamente o formato de sucesso do evento.

 

Cumprir a máxima de Degobbi: “Soluções integradas e Resultados Sustentáveis”

 

Conclusão

 

O final da entrevista é surpreendente. Ao perguntar o Fernando Degobbi se faria
novamente a Expo Digital, em 2021, ele respondeu;

“A dúvida não é sobre a Digital, a dúvida é sobre a Expo física”

Esperamos que a percepção de Flavio, da Pixit, contamine o Agro e demais setores que até então dormem em berço esplendido e acordem para o digital.

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.