Nas últimas conversas, o sarcasmo com a vida: “olha onde me meti”, escreveu Xexéo

Lá se vai mais um amigo levado pela morte. E para que não haja nenhum mal-entendido, minha amizade com Artur Xexéo não era daquelas de mesa de bar. Nem mesmo mesa de redação tive oportunidade de compartilhar com ele, apesar de há dez anos dividirmos espaço no Jornal da CBN. O rádio, que me fixou em São Paulo, enquanto ele morava no Rio, permitiu que fossemos colegas sem nunca nos termos visto pessoalmente por muito tempo. Adoraria o privilégio de tê-lo tido como editor em alguma passagem de minha vida profissional. Ou a ter convivido no ambiente de trabalho, o que teria me ajudado a aprender mais. Nem que fosse pela observação

A amizade com Xexéo, eu cultivava à distância. Como admirador. Era quase que uma relação de mão única. Porque ele próprio não deveria ter meu nome no rol de amigos. No máximo, eu era um colega por quem ele sempre foi muito generoso —- o que não diferenciava em nada da relação que ele sempre teve por boa parte daqueles com quem trabalhou. Generosidade é uma das marcas de Xexéo como podemos ler e ouvir nas muitas declarações dadas desde o anúncio da morte dele nesse domingo.

Ouça a entrevista com Astrid Fontenelle, no Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo.

Quando ligava para falar pessoalmente, eu tinha uma certa cerimônia. Tê-lo acompanhado desde as primeiras edições do Liberdade de Expressão, sob o comando de Heródoto Barbeiro e ao lado de Carlos Heitor Cony, além de ter consumido livros e peças de sua autoria, me fez elevá-lo ao altar dos intelectuais —- daquelas pessoas que não nos atrevemos interromper ou discordar; de quem só queremos absorver. Xexéo, sem dúvida, era responsável por manter em alta o nosso PIB — o Produto Intelectual Bruto, do Brasil, tão dilapidado neste mais de ano de pandemia. A cada ligação, porém, Xexéo me persuadia e me colocava ainda mais próximo dele —- mérito desses seres humanos que, a despeito de sua estatura, sabem exercitar a humildade.

No lançamento do livro É proibido calar! tive a honra de recebê-lo, ao lado do companheiro Paulo, com quem viveu por 30 anos, na fila de autógrafos, no Rio de Janeiro. Entregar nas mãos de Xexéo um exemplar autografado do meu livro, confesso, me pareceu um ato de atrevimento —- uma espécie de Mané repassando sua camisa suada ao fim do jogo para Garrincha. Ele, novamente, aquiesceu. E agradeceu. Generoso e humilde Xexéo!

Com a nova função no Jornal da CBN, titular do quadro Crônica de Sexta, nossos contatos ficaram mais frequentes e ganhei a prerrogativa de ser o primeiro leitor do texto que iria ao ar no dia seguinte.

Ao fim da quinta-feira, ele me enviava uma sugestão de tema já com o artigo praticamente todo rascunhado. E, assim, às 4h30 da manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ler a crônica do Xexéo. Nos últimos tempos, andava incomodado com a repetição de assunto que se fazia necessária diante de tantos descalabros no combate à Covid-19 e intolerância aos diferentes. Pelas circunstâncias de um programa de rádio, algumas vezes Cássia Godoy e eu desviávamos do assunto prescrito por ele que, com talento e improviso, refazia seu roteiro no ar. E eu me tornaria o único leitor daquela crônica original

Há duas semanas, recém-saído da cama, peguei o WhatsApp e comecei a ler o texto do Xexéo. Pensava estar diante de mais uma de suas crônicas, sempre escrita de forma leve, com palavras bem apuradas, frases de efeito e ironias perfeitas. Demorei um pouco para perceber que ele escrevia ali a crônica do momento que estava vivendo, depois de algumas semanas de exames e diagnósticos. Compartilhava comigo a doença recém-descoberta: “olha onde me meti”, escreveu. Uma semana depois, quando perguntei, “como estaremos para amanhã?”, ele tascou: “estaremos internado”. Sarcástico e com pitadas de mal-humor —- “o mal-humorado mais engraçado que conheci”, me disse Ancelmo Gois, em entrevista de hoje no Jornal da CBN. 

Ouça a entrevista de Ancelmo Gois, ao Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo

Xexéo sempre foi assim. Sempre encontrou uma palavra, uma expressão ou uma frase para fugir do lugar-comum do texto e da vida. Fazia isso com maestria em suas crônicas no jornal O Globo, minha primeira leitura dominical. Nesse domingo, quando abri o jornal e não a encontrei, senti um aperto no peito. Apaziguei meu coração, relendo a última mensagem que me mandou, ainda na quinta-feira, antes do início da quimioterapia, quando me consolou dizendo que em dois meses voltaria a trabalhar normalmente de casa. Eu ainda não sabia que ele estava providenciando sua passagem.

E lá se foi mais um amigo levado pela morte!

De olho na vida alheia, você ainda descobrirá muito sobre você mesmo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Cena do filme “A vida dos outros”

O filme alemão “A vida dos outros” foi lançado em 2006 e retrata a época anterior à queda do muro de Berlim, quando a Alemanha estava dividida e a Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, monitorava de maneira rígida a vida da população.

O destaque do filme fica por conta da interpretação do ator alemão Ulrich Mühe, no papel do agente incumbido de vigiar os passos de um dramaturgo e sua namorada, porém ele acaba se envolvendo com suas vidas, passando por uma transformação de seus próprios referenciais.

Na vida real, longe da espionagem realizada para controlar ou censurar a vida dos cidadãos, existe, muitas vezes, uma curiosidade em conhecer a vida de outras pessoas, seus segredos e intimidades.

Em outros momentos, talvez a maneira de se fazer isso seria ouvindo atrás das portas ou olhando pelo buraco da fechadura. Na atualidade, as redes sociais têm facilitado esse processo, numa exposição excessiva de imagens e informações.

Sabemos para onde fulano viajou, quem se separou, quem teve filho, o prato preferido daquela celebridade… a mesma que treina todos os dias para manter a boa forma.

Esse interesse exagerado em saber da vida alheia pode impactar a percepção que temos de nós mesmos, promovendo comparações injustas que desconsideram a nossa individualidade e história de vida.

As comparações injustas acontecem, por exemplo, quando interpretamos os acontecimentos em termos de padrões irrealistas, colocando um foco ampliado naquilo que as outras pessoas se destacam ou se saem melhores, gerando um sentimento de inferioridade.

A comparação entre a nossa vida real, essa com algumas conquistas e também cheia de limitações e tropeços, e a vida que apresenta padrões ideais, editada em fotos e narrativas, pode promover a impressão de que estamos sempre em débito e — como já ouviamos há muitos anos — a grama do vizinho é sempre mais verde.

O problema de se interessar excessivamente pela vida dos outros, é conhecer em demasia o que se passa do lado de fora, deixando de enriquecer, com experiências próprias, o que está dentro de cada um.

Entretanto, o interesse pelos outros também tem seus aspectos positivos: conhecer realidades tão distintas possibilita derrubar muros e romper com os preconceitos. Isso nos aproxima, nos torna mais humanos. Expande nossos horizontes e nos permite enxergar a vida, de tão ampla que é, para além de nós mesmos.

Isso seria a diferença entre a bisbilhotagem da vida alheia e o interesse genuíno pelas pessoas, nem sempre algo tão simples de ser atingido.

Com uma delicadeza ímpar, o filme “A vida dos outros” nos remete a essa reflexão. De um lado, nos apresenta como a vida pode ser grampeada e controlada apenas para se obter dados, como num regime ditatorial. De outro, revela como a aproximação e a descoberta de um universo distinto, de pessoas diferentes, de realidades diferentes, podem ser transformadores e nos conduzir a um conhecimento mais profundo. Não sobre o outro, mas acerca de nós mesmos.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A vida nos apresenta oportunidades disfarçadas de limitações

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A autora e sua arte

Na minha infância, às vezes, me sentia um pouco diferente de outras crianças. Explico: nunca pude comer doces.

— ´´Mas nem um docinho? “

— “Não, nenhum.”

Lembro-me de algumas situações: quando a aula terminava e na saída da escola estava o “tio” do carrinho de doces. Eu dava uma passada com os olhos naqueles pirulitos coloridos e achava o máximo, mas ia embora sem comprar nenhum. Nas festas de aniversário, todos aguardavam ansiosos o momento de cantar parabéns, porque isso significava a hora do bolo e dos docinhos. Para mim, era encantador ver a decoração do bolo e dos doces, imaginando como teriam sido feitos. Na Páscoa, quando todos recebiam um ovo de chocolate, eu gostava mesmo era de ganhar um queijo bem gostoso!

Eu e um dos meus irmãos temos frutosemia, uma alteração genética caracterizada pela incapacidade de metabolizar a frutose, um tipo de açúcar presente em frutas, alguns legumes e inúmeros alimentos industrializados que contenham açúcar ou adoçantes em sua composição. No nosso caso, o grau de intolerância é grave, o que nos restringe totalmente o consumo desses alimentos, desde que éramos bebês, provocando náuseas, vômitos, suores frios, dentre outros sintomas. 

Não sei se o fato de comer doces e passar mal foi o que causou a aversão, mas não tenho nenhuma atração por doces. É realmente aversivo. No entanto, a restrição ao consumo de doces, na prática, nunca foi um problema. O verdadeiro desafio sempre foram os alimentos que, mascarados por outros sabores e temperos, continham açúcar dentre seus ingredientes.

Talvez a aversão nos conduza à paixão.

Assim, fui me empenhando no estudo da confeitaria. Desde pequena, fazia meus bolos confeitados e descobri na elaboração e preparo de receitas doces, uma ótima maneira de me divertir, me distrair, de usar a criatividade e, de certo modo, ir além das minhas próprias limitações. Uso as cores, odores e a textura dos alimentos para chegar à versão final de uma receita, visto que experimentar é uma impossibilidade. Além disso, conto com ajuda das pessoas com as quais convivo na tarefa de provarem e opinarem, a fim de aprimorá-la.

Um dia, já adulta, conheci a história do chefe americano Grant Achatz. Durante sua ascensão profissional nos Estados Unidos, em decorrência de um câncer na língua, perdeu o paladar. Achatz contratou quatro subchefes, que experimentavam suas receitas, e, no ano seguinte, foi considerado o melhor chefe americano, sem conhecer o sabor de suas criações.

Sem a pretensão de aproximar-me dessa história incrível, compreendi que podemos nos valer de vários recursos para atingirmos um objetivo, ainda que tenhamos limitações ou restrições.

Todas as privações, de algum modo, nos causam incômodos. Talvez a diferença esteja em obter algum grau de satisfação, apesar desse desconforto experimentado.

Para mim, preparar os doces é uma atividade que me traz inúmeras alegrias, mas a maior gratificação fica por conta de ver a satisfação das pessoas que os consomem.

As restrições não impedem o engajamento.

Nesse caso, falo de doces, mas poderia discutir sobre o uso de máscara, sobre ficar em casa ao invés de ir a uma festa ou viagem, sobre uma gentileza ou uma ação na qual podemos nos engajar socialmente. A vida, frequentemente, nos apresenta oportunidades disfarçadas de limitações. Longe de buscar a romantização dessa trágica situação que vivemos, é importante nortearmo-nos a partir daquilo que podemos aprender com ela. Ao aprimorar nossa capacidade de enxergar o outro, muitas vezes a visão sobre o propósito da vida torna-se nítida.

Aproveito e preparo um bolo. Envio para amigos, esperando que possam comemorar como se estivéssemos próximos apesar da distância imposta e necessária, que se sintam queridos e que isso lhes traga um pouco de doçura, num momento tão amargo. E, embora não duvide de sua alegria ao receber o presente, guardo a certeza de que quem mais ganhou fui eu.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Maria Lucia Solla fez a passagem

Perde-se vidas todos os dias. Algumas sabemos pelo número. Outras pela história. Há aquelas que conhecemos de perto. Na sexta-feira, fui informado que Maria Lucia Solla “fez a passagem” — foi assim que um dos filhos dela comunicou a morte da mãe. Maria Lucia foi colaboradora de primeira semana neste blog. Em 10 de junho de 2007, escreveu a primeira coluna dominical — espaço em que testou várias de suas formas, sempre mantendo uma linguagem rica, sincera e provocativa. Fez crônica e poesia, fez texto, vídeo e áudio. Não tinha vergonha de se expor, mesmo que às vezes preferisse aparecer na penumbra. Escreveu de tudo: de amor e desabafo — sobre este disse um dia:

“…é vapor que assobia pela válvula, quando se está prestes a explodir. é o que está acumulado há tanto tempo que não dá para represar. É um descarrilar inesperado que faz a gente escorregar, meter as mãos pelos pés, cair, se ralar, levantar, e mesmo sangrando gritar. Para não engasgar, para não sufocar”

“De desabafo”

Conheci Maria Lucia nas aulas particulares de inglês. Ela me apresentou não apenas à língua de Shakespeare. Me fez aprofundar na de Camões. Pois tinha profundeza e generosidade na fala e na escrita. Em 2002, havia lançado “De bem com a vida mesmo que doa” (Editora Libratres), livro que me presenteou no início de nossa relação e me motivou a convidá-la a escrever semanalmente no blog recém-criado.

Aceitou o desafio e o cumpriu com maestria até dezembro de 2015, quando se despediu dos caros e raros leitores deste blog:

“Tem o dia da chegada e tem aquele da partida

É assim com tudo na vida

sem morte depois dela

que disso eu estou convencida”

“De vidas e suas rimas”

Se você se dedicar a escolher um ou outro texto —- ou todos, se desejar e tiver tempo para a boa leitura —-, você conhecerá melhor Maria Lucia Solla. Ela sempre foi transparente nos seus sentimentos. E mesmo que indignada com o que acontecia em seu entorno, mais íntimo ou não, sabia oferecer uma palavra de esperança. Era uma companhia agradável, que se distanciou com o passar do tempo, das viagens e da minha rotina. 

Em meio a tantas mortes que noticiamos e sofremos, registro aqui a da  Maria Lucia Solla porque além de ter sido amiga, fez deste blog algo bem melhor do que seria se tivesse apenas minha presença. É a segunda morte de um colaborador apenas este ano. A primeira foi do amigo Carlos Magno Gibrail de quem tenho saudade diária, pois se não bastasse tudo que já escrevi até hoje sobre ele, também foi meu companheiro de pandemia, com quem conversava semanalmente —- o telefone não tem tocado mais aqui em casa.

Tinha poucas notícias da Maria Lucia nestes últimos anos. Espero, de coração, que a morte — que ela sabia chegaria um dia — tenha chegado como ela desejou em texto de outubro de 2010

“Mas que venha depressa

seja ela o que for

que chegue com muita calma

dançando

rodopiando

sapateando

pra que eu tenha tempo de arrematar da vida

todos os fios

até então tecidos

outros tecer

e resgatar os esquecidos”

“De morte e vida”

Carta ao Presidente: “conversar sobre o suicídio é medida de conscientização, expor publicamente o relato de alguém é colocar em risco a vida de pessoas”

Foto: Pixabay

Carta ao Exmo Sr Presidente Jair Bolsonaro,

Senhor presidente, sobre a carta lida na última quinta-feira, em live publicamente realizada, gostaria de propor algumas considerações que são fundamentais quando falamos sobre o suicídio. Espero, como profissional da saúde mental, que o senhor nunca tenha experimentado em sua vida pessoal, sobre si  ou referente as pessoas a quem o senhor ama, a dor que essa situação  provoca.

Nós, profissionais da saúde, trabalhamos para amenizar a dor de milhares de pessoas que sofrem no mundo inteiro, sem distinção de gênero, raça ou credo e auxiliá-las a conseguirem comportamentos mais saudáveis, mais ajustados, que impeçam a concretização do suicídio.

Vidas são vidas. Salvá-las é nosso dever.

Todos os anos, senhor presidente, aproximadamente 800 mil pessoas morrem por suicídio e, para cada um concretizado, há um número ainda maior de tentativas. Esses dados são especialmente alarmantes, quando sabemos que o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens na faixa etária de 15 a 29 anos em nosso país.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, em média a  cada 46 minutos uma pessoa tira a própria vida. 

Infelizmente, há muitos casos de suicídio no momento atual, mas esse fenômeno não é observado exclusivamente por conta da pandemia ou de medidas restritivas.

Dentre os fatores que podem levar ao suicídio, estudos apontam que aproximadamente 90% dos casos estão relacionados a transtornos mentais, na maioria das vezes a depressão, que embora acometa pessoas de todos os níveis socioeconômicos, é mais prevalente em países de baixa renda, por estar associada à pobreza e à violência. 

Os dados apontam um aumento da prevalência dos transtornos mentais em decorrência da pandemia, especialmente depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Em geral, os sintomas podem estar associados às perdas econômicas, mas incluem ainda o medo do adoecimento, as  medidas invasivas adotadas  e risco à vida, como a necessidade de intubação e a morte de familiares. 

Há ainda um fator para o qual precisamos nos atentar, que se refere ao desgaste excessivo a que são submetidos os profissionais da linha de frente, motivo pelo qual tem havido um aumento dos transtornos mentais nesse grupo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), medidas  preventivas em saúde mental podem reduzir em até 90% os casos de suicídio.

Permita-me dizer, senhor presidente, medidas preventivas não englobam colocar três máscaras e sair no meio do povo, como sugerido em sua live. Isso não é uma medida preventiva ou apoio à população. Isso é politicagem. 

Usar o exemplo da perda da vida de alguém por suicídio, na tentativa de evidenciar qual político está certo em suas decisões, é, no mínimo, uma banalização da vida, uma tentativa de superficializar questões que são mais densas e profundas e que desconsideram o sofrimento emocional e a saúde mental da população. 

Medidas preventivas englobam ações de saúde pública, como campanhas de conscientização sobre os riscos do suicídio e, principalmente, o acesso ao diagnóstico e intervenções eficazes, ou seja, o acesso a serviços de saúde mental, como aqueles oferecidos nos CAPSs.

Conversar sobre o suicídio é uma medida de conscientização importante. Entretanto, expor publicamente o relato de alguém que escreveu uma carta antes de cometê-lo, numa ação não planejada e espetaculosa, pode ser um fator precipitante para pessoas mais vulneráveis e que não veem saída para sua dor insuportável e desesperança, além de tirar a própria vida. 

A dor causada pelo suicídio não é exclusiva de quem o comete. Há uma dor imensa de pais e mães que não poderão mais abraçar os seus filhos e que todos os dias, ao colocarem suas cabeças no travesseiro, vão pensar o que poderiam ter feito para evitá-lo. 

Há filhos que sofrerão a ausência de seu pai ou sua mãe, muitas vezes em idades tão precoces, que precisarão amadurecer e cuidar de si, experimentando uma enorme sensação de desamparo. Não terão nunca mais esse ente querido para dividir suas alegrias ou receber um afago nos momentos de angústia.

Reitero senhor presidente que espero,  verdadeiramente, que o senhor e sua família nunca experimentem a devastação e a dor que o suicídio provoca.

Finalizo, como psicóloga e mãe,  me solidarizando com essas famílias que passam por essa terrível situação, e posso dizer ao senhor que por vezes os dias são muito difíceis, especialmente quando precisamos nos manter inteiros, apesar de estarmos em cacos, fragmentados pelo que nos assola e pela nossa própria impotência em auxiliar os que estão a nossa volta.  

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A morte do amigo Carlos

Éramos tricolores, um de São Paulo e o outro do Rio Grande do Sul. Isso não nos separava. Era ponte para conversas. Nem só de futebol falávamos em almoços anuais, telefonemas esporádicos e trocas de mensagens frequentes. Carlos era muito bem informado de tudo que acontecia e escreviam. Daí que a fronteira do futebol era facilmente ultrapassada para a política, a economia, a história, o comportamento, a moda, o meio ambiente … uma quantidade desafiadora de assuntos que ele provocava e eu me esforçava para acompanhar.

“Você leu … ?” era a pergunta que o Carlos costumava fazer quando queria comentar de algum artigo publicado na imprensa —- ele jamais abandonaria o hábito de ler jornais e tinha, claramente, preferência pela Folha, assim como era assíduo ouvinte do Jornal da CBN. Demorei para escapar da armadilha da minha ignorância. Aprendi que o melhor a fazer era responder com outra pergunta: “o que ele disse?”.  Dali pra frente vinha o resumo e a análise crítica independente — e esse era outro privilégio de conversar com o Carlos, porque seu pensamento não estava envencilhado a dogmas e mitos. Sabia discernir  certo e errado por conta própria.

Pelo tempo do verbo em que escrevo este artigo ou se você, caro e raro leitor deste blog, já tiver lido o post anterior haverá de saber que o Carlos não está mais com a gente. Morreu no primeiro do ano. Era “o amigo que agoniza, ainda não sei” — lembrado na crônica que abriu este blog em 2021. Se havia tristeza naquele texto, muito dela era pela dor que sentia no coração desde que soube que ele foi internado na noite de Natal após ter sofrido um AVC, em estado grave.

Leia “Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo”, escrito por André Gibrail

Triste mas cultivando esperança nas reservas intelectuais e físicas que o Carlos acumulou em seus 78 anos de vida, pedia a Deus todas as manhãs que o trouxesse de volta. Repeti a súplica na manhã de primeiro de Janeiro —- seria minha última tentativa. Carlos morreu à tarde. Soube depois que a pandemia havia consumido boa parte de sua energia, que vinha tentando recuperar nos treinos de tênis supervisionados pela filha Elaine. 

Que vergonha! Durante todo este tempo, o Carlos ouviu minhas queixas, meus relatos de ansiedade, depressão e tristeza, e eu não lhe dei espaço para contar de seus desafios. Ou não soube entender sua mensagem ou ele próprio tomou cuidado de me proteger de más notícias ao perceber meu desalento. Ele nunca baixava a guarda, sempre me reconfortava e depositava confiança na retomada das atividades, acreditava que poderíamos sair melhores desta crise e lembrava de como as ideias que cultivou no passado se realizavam neste momento —- há muito, defendia, por exemplo, que o varejo migrasse para o eletrônico e reinventasse o conceito de loja física. Estava entusiasmado com o filho mais novo, Rodolfo, que fazia vestibular online e acabara de passar no curso de Direito. Eu não fui capaz de ver que nesse esforço para manter a minha, a nossa energia, o Carlos estava se desabastecendo. Seu tempo estava se encerrando.

“Todos sabem que o tempo é um dos mais preciosos bens à nossa disposição. E, por isso, é algo escasso, que deve ser bem administrado”

Com essa frase iniciou seu primeiro texto publicado neste blog, em 11 de junho de 2008 — era o mais longevo dos colaboradores. Transformou a prática da escrita em missão semanal e a usou para provocar temas, defender ideias inovadoras, criticar propostas retrógradas e relembrar histórias. Nos últimos tempos, sua atenção, nos textos e no trabalho, estava dedicada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, participava do pacto Global no Grupo de Excelência do CRA-SP e incentivava o debate no mercado de moda para reduzir o impacto ambiental das confecções.

Sua preocupação com o meio ambiente vem de épocas distantes — cultivada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde nasceu, e estendida a São Paulo, cidade em que viveu, desde 1947, e nos aproximou. Atuava em defesa da preservação do espaço verde nos bairros, denunciou derrubada de árvores na região do Morumbi, em que morou, e fazia de sua indignação textos capazes de mobilizar centenas de pessoas.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo de Carlos Magno Gibrail 

Um dia antes de iniciar o seu martírio, conversou com o Alexandre, um de seus quatro filhos, sobre Grêmio e São Paulo que jogariam à noite, pela Copa do Brasil. Ouviu considerações, fez observações e chegou a conclusão que Renato tinha capacidade de montar um time que anularia o seu tricolor e isso seria fatídico: “… pelo menos o Mílton estará contente”, concluiu. 

Se a generosidade que o Carlos me ofereceu, eu nunca mereci, a confiança que depositou em mim, mudou meu comportamento; sua inteligência em pensar, me desafiou; sua opinião, me pautou e sua elegância em vestir e se comportar, foi referência.

Carlos, obrigado por tudo que me ensinou; desculpe-me, por tudo que não aprendi!

Leia os artigos de Carlos Magno Gibrail que escreveu em 11 anos dedicados ao Blog

As notícias de jornal no primeiro do ano

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Comecei cedo o ano, como começo todos os meus dias. Se o despertador não chama, os gatos chamam. Querem comida —- apesar de que desconfio de que, como eu, buscam é companhia, porque a comida está lá a espera deles, nos dois pratos espalhados no chão da cozinha, com direito a água ao lado da geladeira. Desço, converso em voz baixa para não acordar os de casa, eles fazem de conta que me entendem e seguem seu destino. A mim cabe dar início ao ritual dessas manhãs de folga na redação: preparar o café na máquina e abrir o jornal no celular. 

Espero o apito da cafeteira, que marca o fim de seu trabalho e o início de uma maratona de cafés que servirei para mim mesmo durante toda a manhã, e estou curioso para ver a primeira página dos jornais neste primeiro do ano —- geralmente é uma edição limitada a fotos de festas nos principais pontos turísticos do mundo. Mas hoje é “2021”.

Este ano foi diferente —- caramba, vamos continuar usando essa frase para descrever o ano em que vivemos —, havia mais notícias de saúde e doença do que fotos de réveillon. Até ensaiaram um colorido nas estátuas, pontes e praças históricas que nos acompanham desde sempre, mas o vazio de pessoas anuviou a imagem da festa. Nem o Brexit que finalmente começou — e seria motivo de escandalosas manchetes —- convenceu os editores a mexer na diagramação do primeiro de ano.

Menos mal, porque assim havia pouco espaço para reproduzir mais uma asneira do presidente de plantão que dentre tantas bobagens ditas ao vivo, chamou de ilusão o uso de máscara para combater a Covid-19 —- em mais uma negação a tudo que o conhecimento científico nos ensinou ao longo dos tempos. Se o moço tem um mérito é o fato de ser ignóbil convicto, do primeiro ao último dia do ano.

Nesta primeira edição de 2021 dos jornais também encontrei reportagens sobre a esperança que novas administrações municipais nos oferecem e os tremendos desafios que os prefeitos terão de enfrentar —— pouco me importa, eles sabiam o que os esperavam, e se douraram a pílula para angariar votos, que tratem de mantê-la brilhando em punho próprio e com o pouco dinheiro que têm em caixa.

Por sua vez, os colunistas —- cada vez mais fundamentais para a existência dos jornais —- tendem a nos oferecer textos bem acabados, pensamentos provocadores e um tanto de conhecimento. Costumo parar por mais tempo diante dos meus favoritos. Gosto dos que tratam do cotidiano, mas não só deles. Às vezes, sou surpreendido com autores para os quais nunca havia dado atenção —- por preguiça, por falta de tempo ou pelo hábito de sempre ler os mesmos.

Enquanto leio e já entornei minha terceira xícara de café, o céu ficou nublado e as primeiras gotas de 2021 começam a cair sobre mim  — e aqui não há nenhum exercício poético ou mensagem subliminar, é a chuva mesmo. Sou obrigado a trocar de cadeira sem trocar de tarefa: encontrar em meio aos textos uma mensagem que me revigore para enfrentar o ano. Desejo fugaz. 

Nada que encontrar no dia de hoje vai mudar o que foi o de ontem. E o que será o de amanhã. Os amigos que perdi não voltarão; o amigo que agoniza, ainda não sei. A vida não zera no primeiro do ano  —  como se fosse um jogo eletrônico —, até porque seria muito chato termos de repetirmos todas as fases, aprendermos tudo de novo, reconhecer as pessoas que amamos, e descobrir, em tempo, que são elas a quem devemos o nosso amor. Imagine cometer os mesmos erros de antes, encarar toda a jornada de enganos até aprender a lição final —- logo agora em que estou em um momento da vida em que só peço a Deus que me livre dos meus pecados e se quiser que eu preste contas pelo que fiz que o faça quando encontrá-Lo e não aqui em vida. Que Deus me ouça!

Até amanhã!

Sou maricas, sim!

Foto: Pixabay

 

Foi o presidente Jair Bolsonaro quem disse: somos um país de maricas! Somos não! Se o significado for a covardia, como no espanhol, não somos, não!  Este é um país de brava gente. Porque é preciso muita coragem para sair da cama todas as manhãs sem saber o que será do amanhã. Se lá fora o vírus vai me matar. Uma bala vai me atingir. Um louco resolve se vingar porque ao fim da saliva apela à pólvora. Tem de ter muita coragem para enfrentar os desafios do escritório, do armazém e da rua; do medo do desemprego, da falta de educação e do hospital sem leito para me atender.

Agora, presidente, se maricas é ser afeminado, sou sim, maricas. Porque ter alma fêmea, feminina nos faz melhor. Nos torna acolhedor, solidário. Em Alma Feminina, canta Daniela Mercury: “… porque sou guerreira; tenho alma de mulher; sou fé, sou brasileira … tenho alma de menina e uso a força da voz para falar de amor”.

Então, sou maricas, sim!

E isso não me faz pior: tenho coragem de assumir minhas fragilidades. Não tenho medo de compartilhar essas fraquezas. De ter desejo de chorar diante da covardia de quem ataca os mais fracos. De sofrer ao assistir pusilames travestidos de líderes desdenhando  o peso de uma morte — uma não, mais de 163 mil mortes —; incapazes que são de identificar o quanto a violência por atos e palavras impacta a saúde mental de jovens, especialmente de jovens que na sala de aula, no pátio da escola ou na plataforma digital são vítimas de ataques, que agora chamamos de bullying —- palavra que para o presidente não faz sentido, porque com ele é na pólvora, é na porrada. 

Ele é machão — da pior espécie. Eu sou maricas, sim!

Tomado por essa alma feminina que todos devemos preservar sem medo, preocupo-me com a maneira como tratamos a morte de um rapaz de 33 anos que havia se colocado à disposição da ciência para salvar vidas e desistiu da sua própria vida, sabe-se lá por quê. Nesse caso, não apenas pelo presidente — que comemorou, sem aspas, a morte e a paralisação de testes de uma vacina que poderia dar vida a outras pessoas — mas pela maioria de nós que tratou o suicídio como algo banal, descreveu com detalhes o laudo e a jornada à morte. Uma morte sempre difícil de explicar, que leva embora jovens, muitos vítimas do bullying, do desrespeito, dos machões de taverna. 

É preciso que estejamos atentos em casa, com sensibilidade para ouvir o que nossos filhos, nossos jovens não são capazes de falar; nos mostrarmos sempre acolhedores para entender como está batendo o coração desse menino ou dessa menina; uma gurizada que tem seus sentimentos tolhidos por essa cultura machista em que tristeza é frescura, depressão é coisa de vagabundo. Depressão, tristeza, solidão …. um caminho que se for percorrido com gente acolhedora —- como somos os maricas, nós de alma feminina —- se torna mais fácil. E pode ser transformador no rumo que vamos tomar em vida.

O suicídio jamais pode ser tratado com a irresponsabilidade com que se tratou este tema nas últimas horas aqui no Brasil. É coisa muito séria. Quem tiver dúvidas de como abordar o assunto, seja politicamente seja jornalisticamente, busque orientação nos manuais da Organização Mundial de Saúde. Quem tiver dificuldade para falar do tema, busque o Centro de Valorização da Vida, que tem uma experiência incrível, formada por pessoas que estão sempre à disposição para ouvir, abraçar e ajudar. Para nos salvar!

Sem blog e sem solução, mas com direito a mais um pôr do sol na minha vida

 

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Uma barbeiragem burocrática tirou este blog do ar por três dias —- menos do que isso até, porque o problema apareceu no meio do sábado e foi resolvido ao longo da segunda-feira. Pareceu-me uma eternidade. O recado que recebi era de que o administrador tentava avisar o proprietário do site dos motivos que impediam sua publicação e pedia para que os leitores do blog —- ou aqueles que tentassem acessá-lo —, o avisassem: “queremos garantir que eles recebam a mensagem”.

 

O fim de semana foi de rara paz no coração —- proporcionada por uma escapadela para uma área pouco habitada, distante de qualquer pessoa e com acesso à moradia sem risco de contaminação — nem de vírus nem de gente. Higienizada com 72 horas de antecedência e acesso remoto, cercada por uma reserva ambiental privada e todo sua flora e fauna à solta, a casa era o que, nestes tempos de paranoia sanitária, sem pestanejar, eu definiria de paraíso — com direito a pôr do sol, até porque não há paraíso sem pôr do sol (e outro dia podemos falar sobre isso).

 

Tinha até Wi-Fi e sinal 4G conectando você ao mundo. Abri mão desse privilégio e preferi afastar-me do celular na medida do possível — minha gurizada, como trabalha no remoto, mesmo no fim de semana, precisava dessa tecnologia à disposição.

 

Claro que caí em tentação. Já passavam das duas da tarde quando resolvi dar uma olhadela na tela do celular e me chamou atenção entre as centenas de notificações do WhatsApp a mensagem do Ric, amigo querido e colaborador deste blog (há algum tempo ele tem dado preferência ao Instagram). Foi ele quem me alertou para as dificuldades de acessar o blog — confesso que fiquei feliz, não pelo bloqueio, mas por saber que o Ricardo Ojeda Marins (é assim, com nome e sobrenome que ele assina seus texto) segue me seguindo. Aliás se você quiser ler as inúmeras colaborações que o Ric já fez ao blog, acesse este link.

 

Dali em diante foi aquela maratona que você conhece bem quando dá problema na sua internet, no seu perfil em uma rede social ou em qualquer outro serviço digital ou não. Escreve para quem você acha que entende. Espera que quem você acha que entende escreva para quem ele acredita realmente entender. E de repente você é surpreendido por alguém que você achava que entendia lhe fazendo uma pergunta típica de quem não entende o que você, claro, entende menos ainda, caso contrário não precisava sequer fazer a pergunta que deu início aquele círculo de desentendimento.

 

O círculo de desentendimento persistiu no fim de semana todo e invadiu a segunda-feira. O blog seguiu alertando aos caros e raros leitores que “o mapeamento deste domínio expirou e precisa ser renovado” — que no balcão do bar significava que “esse cara que você curte ler, é caloteiro ou esquecido, porque até agora não pagou a conta da renovação do contrato”.

 

Mais de quatro meses de quarentena, dezenas de sessões de terapia e algumas caixas de remédio —- tarja preta, vermelha, rosa e todas demais cores que pintam como solução terapêutica —-, me ensinaram que se não tem como resolver o problema agora, o problema está resolvido (nem que seja por agora). E só voltará a sê-lo quando a busca por uma solução estiver a seu alcance.

 

Joguei o celular sobre as roupas que estavam espalhadas no chão do quarto, fechei o computador e o deixei descansando sobre o edredom emaranhado que cobria os pés da cama. Desliguei-me da tecnologia. E conectei-me comigo mesmo.

 

Troquei as tramas do passado, as encrencas do futuro e os problemas sem solução do presente pela grama que se estendia da porta da casa até a beirada da montanha —- uma geografia que se transformava em mirante natural para apreciar a figueira e todos os seus majestosos galhos que cresceram alguns andares abaixo.

 

Aproveitei um tiquinho de vida que ainda se faz presente no nosso cotidiano tão cheio de morte e luto — e fiquei feliz em saber que depois de me sentir cidadão privilegiado por ter uma família ao lado, uma saúde, física e mental, capaz de sempre se recuperar, e o direito a apreciar mais um dia que fosse de pôr do sol, aquele problema tecnológico deixou de ser problema, a solução foi oferecida nesta segunda-feira e o blog segue seu rumo, conversando todos os dias com seus caros e raros leitores — cada vez mais caros e raros.

O espetáculo não pode parar?

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

  

 

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Tales Cotta em desfile na SPFW foto: Instagram

  

 

Há 25 anos, Ayrton Senna abandonava a corrida em Imola para falecer no hospital. A corrida não foi interrompida, afinal a F1 é o espetáculo em que a convivência com a morte é real. E a morte não foi espetacularizada. A espetacularização veio pelo carisma internacional de Senna e pela paixão nacional que despertava no Brasil. Foi natural. Um fenômeno de popularidade.

  

 

Há 5 dias, na passarela da SPFW, o modelo Tales Cotta saiu do desfile da OCKSA após ter caído na passarela para o hospital. A direção da marca continuou a apresentação, sem alarde. A seguir, às 18h50, veio a informação à direção do SPFW que Cotta tinha falecido, às 18h40m.

  

 

Paulo Borges, diretor da SPFW, evitando a espetacularização da morte do modelo tomou a decisão de continuar com o evento. E decisão tomada após consulta com as pessoas envolvidas nas duas marcas que deveriam seguir com o espetáculo. Entretanto, a espetacularização começou pelas mídias sociais em seu ritmo característico:

“Via o evento fora do mundo tóxico da moda, mas era ilusão”
 

 

“Chega a ser macabro, desfilando no mesmo espaço do morto”
 

 

“Dinheiro e aparência é mais importante que uma vida”

O auge coube ao cantor Rico Dalasam que contratado para atuar no desfile da CAVALERA, o último desta edição do SPFW, exaltado, disse:

“Não era para ninguém estar aqui. O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada. Enquanto os vivos não lamentarem a morte dos negros, dos brancos e da humanidade das pessoas, a agonia vai estar no travesseiro de todo mundo agonia no travesseiro de todo mundo”

O contraponto veio da mãe do modelo, Heloísa Cotta.
 

 

Paulo Borges, em sua mensagem pela internet, destacou a compreensão e o apoio da mãe de Cotta na relação que mantiveram durante os momentos difíceis que vivenciaram — o que pode ser constatado no Instagram em que a OCKSA se desculpa por ter continuado o desfile e a mãe deixou registrado o seu pensamento:
 

 

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Os desfiles de moda que servem como centros de evolução da moda têm alguma similaridade com a F1 que é um contribuinte para a evolução do automóvel.
 

 

Assim como na F1, que progride na segurança dos pilotos estudando inclusive os acidentes, a MODA precisa tomar esse episódio de Cotta e checar as condições físicas e emocionais dos modelos, cuja atuação exige muito equilíbrio pela carga de exposição e emoção.
 

 

Em resposta a enorme quantidade de críticas contra a MODA, ressalto que a MODA é um raro produto que não corre risco de extinção. As funções psicológicas, sociais e econômicas não podem ser ignoradas. Os players de sucesso são, por obrigação do mercado, pessoas que se preocupam com as pessoas.
 

 

Paulo Borges em sua explanação reafirmou com categoria esta convicção:

”Estou na MODA pelas pessoas e não pelas ROUPAS”

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung