Conte Sua História de São Paulo: meu amigo ascensorista

João Moro

Ouvinte da CBN

Elevators

Foto: Don Harder/Flickr

Estamos no fim do ano de 1976. Para situá-los foi o ano da primeira nota 10 nos jogos olímpicos de verão em Montreal para a Nadia Comaneci e foi também o ano da morte de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.  Eu, com 17 anos, acabara de me formar em Técnico em Eletrônica em uma das escolas mais conceituadas do Estado de São Paulo: a Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo.

Através de CIEE  — Centro de Integração Empresa Escola — fui encaminhado para uma entrevista na Telesp, a Telecomunicações de São Paulo S.A. — que foi estabelecida em maio de 1973 como parte do Grupo Telebras, criado em julho de 1972 pelo governo federal para centralizar, modernizar e controlar as operadoras estaduais, funcionando como uma holding.

Eu, muito jovem, fui para minha primeira entrevista de emprego Jamais vou esquecer daquele senhor que conduziu nosso elevador no imponente prédio da Martiniano de Carvalho — naquele tempo muitos elevadores tinham ascensoristas. Eu o cumprimentei com toda a educação. Puxei conversa.  Ele foi muito simpático e me falou com certa tristeza que muitas pessoas nem percebiam a presença dele dentro do elevador. Assim que a porta abriu, desejou-me sucesso e eu fui para a entrevista. 

Aprovado, fiz os exames de praxe e, duas semans depois, me apresentei para o meu primeiro dia de trabalho. O prédio era atendido por oito elevadores. Qual não foi minha surpresa que ao acionar o botão para chamar um deles, de forma aleatória, a porta que se abriu era a do elevador conduzido por aquele mesmo senhor com quem conversei no dia da entrevista. A alegria no olhar dele foi contagiante. Ele me abraçou e disse que havia torcido muito pela minha contratação. Outras pessoas no elevador ficaram sem entender nada. Quanto a mim, fazia ali minha primeira amizade de trabalho.

Esteja ele hoje onde estiver … que saiba que faz parte da memória que tenho dessa grande cidade. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

João Moro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos se inscreva no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: da altitude de 1983 à realidade de 2026

Bolívar 3×2 Grêmio  

Sul-Americana – Hernando Siles, La Paz – Bolívia

Gremio x Bolivar

Villasanti comemora seu gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje cedo, na conversa diária com Paulo Vinícius Coelho, meu colega no Jornal da CBN e comentarista do jogo na Paramount, ele lembrou que o Grêmio foi o primeiro clube brasileiro a vencer na altitude de La Paz. Aconteceu no histórico ano de 1983, na campanha que nos levou à conquista da nossa primeira Libertadores. Um time de Hugo De León, Renato, China e Osvaldo — estes dois últimos autores dos gols da vitória.

Foi naquele período que o Grêmio começou a construir sua reputação na América. Passou a ser temido por qualquer adversário, independentemente das circunstâncias. Ao vencer na altitude, insalubre para a prática do futebol, ou ao suportar a violência de rivais e torcidas pelo continente, o clube forjou a imagem que mais tarde seria resumida em uma palavra: Imortal.

Enquanto PVC trazia à memória esse passado, outro amigo me enviava uma mensagem indignada pelo WhatsApp. Havia acabado de ver as odds de uma casa de apostas que apontavam amplo favoritismo do Bolívar para a partida desta noite. Para ele, era o fim dos tempos. Para mim, era apenas um sinal dos tempos.

O Grêmio, infelizmente, deixou de produzir atuações capazes de intimidar os adversários. Sobretudo longe de Porto Alegre. As campanhas irregulares no Campeonato Brasileiro e as eliminações precoces em competições continentais desgastaram a imagem construída ao longo de décadas. A impressão é que os rivais já não entram em campo preocupados com o peso da camisa tricolor.

Nesta noite, o time voltou a confirmar essa sensação. Falhou na marcação, permitiu que o Bolívar chegasse com facilidade à área, teve dificuldade para controlar a posse de bola e cometeu erros desde o primeiro minuto, quando sofreu o gol que abriu o placar. Ainda assim, encontrou forças para marcar duas vezes, com Villasanti e Tetê, e criou oportunidades suficientes para imaginar um resultado diferente. Faltou eficiência para transformar essas chances em empate — ou até em vitória.

Sabemos que disputar uma partida a 3.600 metros de altitude é um desrespeito aos atletas. Falta ar, diminui a capacidade de concentração, alguns sofrem tonturas, e a cabeça passa a exigir de um corpo que já não responde na mesma velocidade. A bola ganha outra dinâmica, o passe perde precisão e o chute exige um cálculo diferente. Tudo isso precisa ser levado em conta ao analisar o desempenho desta noite.

O problema é que a altitude explica os erros deste jogo; não explica os da temporada. A sensação de fragilidade que o time transmite já vinha de antes e tem pouco a ver com o ar rarefeito de La Paz.

Ainda assim, recuso-me a acreditar que essa história tenha terminado. O mesmo Grêmio que um dia transformou a altitude em cenário de uma de suas maiores façanhas continua existindo. Não está nas pernas dos jogadores de 1983, nem pode viver apenas da memória dos títulos. Está na capacidade que este clube sempre teve de se reconstruir quando parecia desacreditado. A camisa perdeu parte do respeito que inspirava; o respeito, porém, pode ser recuperado. Será preciso futebol, organização e coragem. A história mostra que isso já aconteceu outras vezes. E é justamente por conhecer essa história que continuo acreditando que o Grêmio ainda será capaz de virar esse jogo.

Conte Sua História de São Paulo: a casa mal-assombrada da Bela Vista

Iorli Marli Bezerra Pivato

Ouvinte da CBN

Door Lock
Foto: Gustavo Maximo/Flickr

Minha história de São Paulo começa em 1948, quando eu tinha 6 anos, e mudei da casa da minha avó, na Rua Cruzeiro do Sul, para uma casa “mal-assombrada” na Rua Santo Antônio, 104, no bairro da Bela Vista.

No local havia acabado de acontecer um crime que abalou a cidade de São Paulo. Um jovem químico professor da USP, Paulo Ferreira de Camargo, havia matado a mãe e as duas irmãs e jogado os corpos em um poço no quintal da casa. Quando os corpos foram descobertos, ele se matou no banheiro.  Um dos bombeiros que participaram das escavações, sem proteção, morreu por infecção cadavérica.

Todos esses fatos e o exagero da imprensa em criar reportagens sensacionalistas, deram a ideia de que o local era amaldiçoado, mal assombrado, tornando o imóvel desvalorizado. 

Minha mãe viu ali uma oportunidade de negócio, alugou o imóvel, montou seu salão de beleza e relocou quartos e salas fazendo uma espécie de pensão.

Tenho boas lembranças daquela época, da ingenuidade da criança que se divertia observando curiosa os quartos dos inquilinos pelas fechaduras das portas, quando voltava do jardim da Infância, na Cruzada Pró-Infância, na Praça da República. 

Lembro das brincadeiras com os tubos de lança-perfume, comprados por meu avô, para a festa de carnaval, na avenida 9 de Julho, onde o cordão passava cantando “Nega Maluca”, de Linda Batista.

Lembro da curiosidade sobre o teatro de alumínio, instalado em 1952 na Praça da Bandeira, onde a companhia de teatro de Nicete Bruno se apresentava e usava os serviços do salão de beleza da minha mãe.

Lembro da festa do quadricentenário de São Paulo, dos papéis picados sendo jogados do alto dos prédios.

Vivemos na casa muito felizes, até 1954, quando foi demolida. Mudamos então para o bairro da Vila Rosa, perto do Horto Florestal, mas não abandonamos o Centro. Trabalhamos no Largo do Arouche, na Praça Patriarca, na Praça da República, mas aí são outras histórias.

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Iorli Marli Bezerra Pivato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

O metal e a imagem: a subversão diante do usurpador

Por Caio Luizetto

Moeda
Foto: Nucleo Editorial/Flickr

A célebre máxima “Dai a César o que é de César” foi, ao longo da história, domesticada e transformada em um manual de conformismo político ou obediência fiscal. No entanto, quando se resgata o cenário asfixiante da Judeia no século I, a resposta de Jesus deixa de ser uma saída diplomática e revela uma sofisticação psicológica cortante. 

Sob a ótica do contexto real, César não possuía direito legítimo a nada naquele território; era um usurpador que mantinha um povo sob o jugo da força bruta, do sangue e da pilhagem econômica. A questão levada a Jesus, portanto, jamais foi sobre a moralidade dos impostos, mas sobre algo muito mais complexo: como o indivíduo deve se relacionar com o opressor sem permitir que ele colonize a sua alma.

A inteligência da resposta reside na recusa em jogar o jogo simétrico da força. Ao pedir para ver o denário romano e questionar de quem eram a efígie e a inscrição, o contragolpe expõe uma ironia fina que esvazia o poder do império. 

Devolver a César aquela moeda de metal com o rosto de um homem egocêntrico não era um ato de submissão, mas de desdém soberano. Era como dizer que o grande aparato romano, com toda a sua pompa militar, reduzia-se ao controle de pedaços inúteis de metal. Há uma libertação psicológica em entregar ao usurpador o que é perecível para não ter de lhe entregar o que realmente importa.

O verdadeiro xeque-mate existencial, contudo, repousa na segunda metade da sentença: “…e a Deus o que é de Deus”. Se a moeda carregava a imagem gravada de César e, por isso, pertencia a ele, o ser humano — de acordo com a tradição milenar daquele povo — carregava em si a imagem e semelhança do Criador. O limite da opressão era estabelecido ali. O usurpador poderia tomar as terras, confiscar a colheita, controlar o comércio e ditar as leis civis pela ponta da espada; os corpos poderiam estar sob cativeiro econômico, mas a dignidade, a identidade e o espírito permaneciam invioláveis.

Compreender esse episódio sob esse prisma muda a dinâmica da resistência. Não se trata de passividade diante da tirania, mas de uma recusa absoluta em validar a autoridade moral do opressor. Ao delimitar o que pertencia ao metal e o que pertencia ao sagrado, estabeleceu-se um manual de sobrevivência interior: pode-se entregar o tributo exigido pela força para preservar a vida, desde que se mantenha a mente e o coração sob uma assinatura que nenhum império do mundo é capaz de rasurar.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: as conversas alheias nas linhas do metrô

Cristina Schachtitz
Ouvinte da CBN

Foto de Andre Moura no Pexels.com

O ano era 2007. Eu trabalhava na Vila Olímpia e morava em Santo Amaro. O trajeto de carro para o trabalho não demorava mais que 12 minutos. Até que uma obra, que não leva nada a lugar nenhum, começou a ser construída ao lado do Parque do Povo, em contrapartida a uma construção monumental na região.

Passei a levar 40 minutos para chegar ao trabalho e mais de uma hora para voltar para casa. A obra travou o bairro. Num desses momentos de desespero, tédio e raiva, parada no meio de um mar de carros, olho para o lado e vejo um trem: por que não?

No dia seguinte, estava eu na Linha Esmeralda, ainda da CPTM, saindo da Granja Julieta em direção à estação Vila Olímpia e chegando ao escritório em 8 minutos — e o mesmo na volta. Era eu e eu no trem. A cada partida, um trecho de uma música clássica. No futuro, com a ligação com a Linha Lilás, o trem lotou, o serviço piorou; com a concessão, piorou ainda mais — e a música parou. Liguei e me explicaram que tiraram porque os usuários não gostavam. Eu gostava, mas não fui ouvida.

Foi nessa época que comecei a prestar atenção nas conversas no trem. Confesso que sempre fiz isso em filas de mercado, em restaurantes, mas no trem era diferente. Muitas vezes, eu só ouvia uma parte das histórias.

Ainda sem as facilidades dos smartphones e sem os aplicativos de mensagens, as pessoas falavam ao telefone. Eu ouvia uma parte e imaginava as respostas.

Muita gente falando mal da chefia, reclamando da patroa, fofocando sobre colegas de trabalho. E eu só criando os diálogos na minha cabeça. Gente que dizia que estava numa estação, chegando já, já, mas que ainda estava umas três antes… E eu até torcia para a voz no alto-falante não anunciar a estação e dedurar a pessoa… Também prestava atenção aos diálogos e a outras histórias compartilhadas.

As pessoas esquecem que estão tornando sua vida pública — afinal, estamos num trem! Então veio a ideia de escrever microcontos, tentando reproduzir o que ouvia e inventando a outra parte ou, simplesmente, escrevendo o que vi e ouvi.

Vamos a algumas dessas histórias:

E no trem, ao celular, a amiga aconselha: “Presta atenção, porque daqui a pouco você estará vivendo um triângulo amoroso e vai ser a última a saber. O seu problema é a comodidade”. E assim começa a semana.

A moça lê no trem Orações e Bênçãos. Uma formiga atravessa as páginas. A moça esmaga a formiga. Que Deus a tenha. A formiga.

A moça segue em direção ao Grajaú. Vai a um velório. Morreu a mãe de uma amiga. O pai também já morreu. Sei porque ela contou para um outro passageiro. Ela liga para três pessoas para “convidar” para o tal velório. Sua mãe, inclusive. Ouve três nãos. Pouco prestígio. Dela e da falecida.

Hoje acompanhei a história de uma babá criticando muito, muito a sua patroa para uma amiga, ao celular. Hilário. Sei o nome da patroa, de uma das crianças, do motorista, da cozinheira demitida e da faxineira da casa da praia… E sei também o preço da diária da folguista.

O rapaz liga para a chefe e avisa que está atrasado. Confessa que perdeu a hora, vai chegar logo. Incrível a mágica que transforma 40 minutos em 40 minutinhos.

E sigo a vida, de estação em estação!

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Conte Sua História de São Paulo: o padre da minha nonna

Silvia Cristina Tiezzi
Ouvinte da CBN

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Quando eu era criança, minha nonna mudou-se de Adamantina para a então distante São Bernardo do Campo. Religiosa, como sempre foi, logo encontrou um lugar para depositar a sua fé: a “Igrejinha da Record”. Simples, acolhedora, quase escondida no cotidiano da cidade.

Anos depois, já adolescente, fui eu quem se mudou para São Paulo, vinda de Adamantina — Adamantina, no interior paulista, não Diamantina, em Minas Gerais. Passei no vestibular da Faculdade Paulistana, na Vila Mariana, e ali mesmo consegui meu primeiro emprego. No segundo ano, transferi-me para a Universidade Metodista. Ainda assim, continuei trabalhando na Paulistana. Naquele momento, eu não imaginava que essas duas fases da minha vida — a da fé herdada e a da formação profissional — guardavam uma ligação invisível.

Anos atrás, movida pela memória, resolvi visitar a igrejinha da minha nonna. Entre pesquisas na internet e conversas com pessoas da igreja, descobri algo que me surpreendeu profundamente. O padre que celebrava as missas frequentadas por minha avó era o professor Azurem Ferreira Pinto, fundador e dono da Faculdade Paulistana. A mesma faculdade em que passei no vestibular, naquele distante janeiro de 1982, e onde tive meu primeiro emprego.

Quando trabalhava na Paulistana, eu sabia que o professor Azurem havia sido padre. O que eu jamais imaginei é que ele fosse justamente o padre da igrejinha que minha nonna frequentou até o seu falecimento. Coincidência? Obra do destino? Coisa de Deus?

A pequena igrejinha cresceu e hoje é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A antiga capela foi preservada, quase como um relicário da cidade. Foi reconstruída no mesmo terreno onde hoje está o Santuário, no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo.

Conversando com uma funcionária do Santuário, soube de outro detalhe tocante. Na época em que minha avó assistia às missas, a igreja ficava dentro de um pátio da Mercedes-Benz, ali ao lado. Foi desmontada tijolo por tijolo e reconstruída no local atual.

Com tristeza nos olhos, ela contou que nem todos os tijolos chegaram ao novo endereço. Alguns foram levados por pessoas que quiseram guardar um pedaço da história como lembrança.

Talvez São Paulo seja feita disso: encontros improváveis, caminhos que se cruzam sem aviso. Fé, trabalho e memória assentados, literalmente, sobre os mesmos tijolos.

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Silvia Cristina Tiezzi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fiz concurso para a Light

Francisco J. Camilo Hernandes 

Ouvinte da CBN

sao paulo downtown
À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns

Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light. 

Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.

Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.

No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.  

Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.

Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.

Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos. 

Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os caminhos que me levaram a ser economista

João Oswaldo Esotico

Ouvinte da CBN

Impostômetro
Fachada de prédio na rua Boa Vista Foto: CBNSP/Flickr

O que é do homem o bicho não come. Esta expressão representa muito bem aquilo que está destinado a alguém e, que, nos chega por meios estranhos; aquilo que parece ser coincidência, na realidade é, talvez, o universo trabalhando em seu favor.

Eu era office boy, numa pequena indústria de tintas, ali no Jabaquara. Era um emprego simples sem grandes aprendizados nem muito esforço da minha parte. No fim de 1968, eu precisava me dedicar aos estudos. Estava no cursinho Visconde de Cairu, na confluência da rua Quirino de Andrade com a Ladeira da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú.

Combinei com meu pai que largaria o emprego até entrar na faculdade. Vieram os exames vestibulares e consegui uma vaga na Álvares Penteado. Em economia.

Estudava pela manhã e meu tio me ajudou a encontrar um emprego no Banco da Bahia, na rua Boa Vista. Fui ser operador de lançamento de FGTS nas fichas de funcionários da Volkswagem. O trabalho, de seis horas, era de produção incessante e extenuante. Me sobressai como operador de máquina e fui promovido: transferido para o departamento de controle de contas correntes da sucursal do banco. Entrava às cinco da tarde e saía quando o trabalho terminava, pura mamata. Trabalhava em média quatro horas por dia. No fim do mês apertava: de oito a nove horas, saindo de madrugada.

Certo dia, meu chefe disse que queriam falar comigo lá na sede da sucursal do Banco. Cheguei e me apresentei ao gerente. Uma figura magra, simpática e com olhar penetrante, Benedito Otaviano. Queria que eu trabalhasse no departamento dele com análise de balanços, algo que não me era todo estranho, pois foi matéria do curso de contabilidade.

Transferência feita, para tristeza do outro chefe, comecei a rever conceitos de análise de balanços diretamente com o Benê, e ele já tinha contratado outro colega o Paulo Nashiro. Depois de algum tempo o Benê, contente com o meu desenvolvimento no trabalho, me contou que eu não estava na lista de estudantes de Economia e Contabilidade que o RH do banco lhe fornecera. Eu, intrigado, perguntei, como ele havia me encontrado em outro departamento.

Aí é que a gente vê que o universo conspira a nosso favor. O Benê havia entrevistado um colega meu da faculdade que ao sair da entrevista perguntou se ele chamaria, também, o Esotico. Foi então que o Benê pediu para o RH encontrar o tal de Esotico dentro do banco. 

Este foi o pontapé inicial para me deslanchar na carreira de economista, fazendo análises para investimentos e empréstimos bancários.

E pensar que tudo isso se desenrolou nessas ruas que agora completam 472 anos. O mesmo Anhangabaú que eu atravessava apressado para o cursinho, a mesma Rua São Bento onde minha vida profissional mudou de rumo.

O que é do homem o bicho não come.

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Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: nos Correios, trabalhei com telegrama fonado

Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios

Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”

Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex. 

O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado. 

O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama  fonado.  Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas. 

Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.

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Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.