Arquivo Guaíba faz homenagem a Milton Ferretti Jung, que completaria 85 anos

De uma crônica que jamais havia ouvido, de gritos de gols inesquecíveis, de narrações que contam a história da humanidade e de histórias que foram contadas na minha intimidade —- o programa Arquivo Guaíba, que foi ao no sábado, dia 31 de outubro, me fez reviver as mais diversas passagens do pai pelo rádio brasileiro —- foram 60 anos dedicados e respeitando o microfone, dos quais quatro na rádio Canoas e os demais 56 na Guaíba.

A homenagem se deu pela passagem do aniversário de Milton Ferretti Jung que completaria 85 anos, no dia 29 de outubro. Como você sabe, caro e raro leitor deste blog, o pai morreu no ano passado, no dia 28 de julho. Assim, aproveito a generosidade de Luis Magno e da equipe de profissionais da rádio Guaíba que relembraram alguns dos momentos da carreira dele para reproduzir o programa aqui entre nós,, nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, dia que dedicamos aos mortos que permanecem na nossa memória.

Antes de clicar no arquivo para ouvir o programa, me permita dizer muito obrigado aos profissionais que se dedicaram a fazer esta homenagem e aos ouvintes que sempre se referem ao pai com muito respeito e carinho:

O programa apresentado pelo jornalista Luis Magno foi criado em maio deste ano e explora o rico arquivo de áudio que a rádio Guaíba ainda preserva no prédio da rua Caldas Junior, centro de Porto Alegre. Vai ao ar aos sábados à noite, tem produção de Pedro Alt, edição de Davis Rodrigues, com José Moacir Bittencourt responsável pelos arquivos.

Conte Sua História de São Paulo: no bolso da calça, tinha uma moeda de CR$ 0,50

João Coradi Neto

Ouvinte da CBN

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Em dezembro de 1972, eu havia completado 20 anos de vida na querida cidade de Dois Córregos, da qual nunca tinha saído pra conhecer novos lugares, novos horizontes. Tudo ali pra mim bastava. Eu vivia feliz. 

 

Dois meses depois, eu estava descendo na Estação da Luz, na capital. Sozinho, com uma pequena mala de roupas, e apenas um endereço na mão — no qual já estavam vivendo meus pais, dois irmãos e quatro irmãs, que haviam se mudado para lá três meses antes de mim; e tendo deixado para trás duas irmãs que estavam casadas. 

Com dificuldade e de madrugada, encontrei meu destino, que estava escrito em um pedaço de papel —- novo começo, nova vida. 

Assim que o dia clareou percebi a séria dificuldade em que viviam meus familiares. Todos desempregados e ansiosamente me esperando. Eu era o único que tinha trabalho — vim para a capital transferido pelo banco em que era funcionário: o Banco de São Paulo S/A — Emissor, que logo foi incorporado pelo Banco do Estado de São Paulo S/A, o Banespa.

Vivíamos com o meu salário de onde saía o dinheiro para pagar aluguel, água,  energia e comida para todos. No dia do pagamento, eu entregava tudo na mão da minha mãe, responsável por controlar as contas. Ela separava moedinhas de CR$ 0,50 centavos de cruzeiros, me dava duas por dia para a passagem de ônibus da Penha ao centro, do centro à Penha, na zona leste de São Paulo. Algumas das moedas eram para meus irmãos saírem de casa em busca de emprego.

Pegava o ônibus logo cedo e passava  o dia apalpando o bolso para me certificar que a outra moeda estava guardada para garantir a viagem de volta. No horário do almoço, para que meus colegas não percebessem que eu não tinha dinheiro para comer, perambulava pelas ruas próximas ao banco, olhando para os restaurantes e lanchonetes com seus pratos e salgados  — o que fazia aumentar ainda mais minha fome. À noite, em casa, geralmente era servido arroz puro. De vez em quando, tínhamos das salsichas, ou dois, três ovos que mamãe cozinhava e dividia em partes iguais para todos na mesa.

Comecei a ficar com raiva da cidade, achava que não era lugar pra morar. Lá no interior, apesar de ter tido uma infância pobre, nunca tinha me faltado algo pra comer. Pensava comigo: “quero voltar, esta cidade é cruel, aqui não dá pra viver”. 

Com o tempo, em casa, alguns arrumaram um emprego aqui outro acolá, às vezes provisório. E cada dinheiro extra nos ajudava a resistir na capital. 

Meus dias foram ficando melhores. O que era raiva virou resiliência. E nessa transformação, surgiu a admiração. Percebi que a cidade nunca havia sido cruel comigo. São Paulo simplesmente me testara para ver seu eu era digno de viver nela.

Aumentou meu círculo de amigos, meus familiares se firmaram no trabalho e fui me apaixonando pela cidade, que havia me recebido de braços abertos e dado todas as oportunidades para que eu e minha família crescesse.  

Hoje, agradeço por tudo que conquistei. Minha esposa, dois filhos, três netas e amigos que moram em meu coração. Sinto-me privilegiado. Nunca deixarei de amar a pequena Dois Córregos, a qual sempre procuro citar nos mais de 800 poemas que escrevi, muitos dos quais publicados em 22 livros, sempre com o apoio da Editora Matarazzo, presidencial pela querida Thaís Matarazzo. 

Da mesma forma que jamais esquecerei de onde nasci, também não deixarei de amar São Paulo que, para mim, é a melhor cidade do mundo.

João Coradi Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Psicologia: sua construção histórica e as histórias construídas

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

 

“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.

 Aaron Beck

 

A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?

 

Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga

 

Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.

 

No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.

 

No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.

 

Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.

 

Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.

 

Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.

 

No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.

 

Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.

 

Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…

 

Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!

 

Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.

 

Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.

 

Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!

 

Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida.  Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.

 

Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Há 36 anos comecei a costurar esta colcha de retalhos feita de amigos, paixão e jornalismo

 

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Reprodução de foto do jornal Zero Hora, em dezembro de 1988

 

Foi há 36 anos. Tanto tempo assim faz de nossa memória uma colcha de retalhos em que pedaços são tecidos da vida real e outros, coloridos pela imaginação. Descrever agora o que aconteceu naquele 10 de agosto de 1984 talvez não condiga com a verdade dos fatos —- mas, tenha certeza, revela a memória autobiográfica que fui capaz de armazenar ao longo dos anos.

 

Foi meu primeiro dia de trabalho como jornalista ou aprendiz de jornalista, porque viria a me formar somente um ano depois. Era o início do estágio na profissão que escolhi por inércia, admiração e paixão.

 

O jornalismo fazia parte do meu cotidiano, não escapava dele nem nos almoços de domingo com a família. Filho de jornalista, afilhado de jornalista e sobrinho de jornalista, experimentei o ritmo das redação de rádio e jornal desde muito pequeno. Em minha defesa, o fato de meu irmão e minha irmão terem experimentado o mesmo ambiente e seguido por outros caminhos.

 

Minha admiração vinha da maneira como meu pai e seus colegas de trabalho eram recebidos nos locais que frequentavam. Havia um respeito em relação a eles que me deixava feliz e orgulhoso. O impacto que as notícias divulgadas no Correspondente Renner — do qual foi o titular por muito anos —- tinham na sociedade gaúcha, impressionava. A emoção que o grito de gol dele gerava no torcedor era indescritível.

 

Cheguei a me enxergar como professor de educação física —- a ponto de estudar na federal do Rio Grande do Sul —- mas havia alguma coisa no jornalismo que se expressava de maneira mais forte no meu coração.

 

A inércia, a admiração e a paixão construíram o jornalista que teve o privilégio —- pela influência do pai —- de fazer estágio em uma das mais respeitadas redações do radiojornalismo do Brasil, a da Guaíba de Porto Alegre. Era função não remunerada. Sem carteira assinada. O pagamento vinha em créditos para a conclusão da faculdade de jornalismo, realizada na Famecos, da PUC do Rio Grande do Sul. E em experiência pela convivência com alguns dos maiores nomes do jornalismo esportivo.

 

A arquitetura do prédio, que trazia características do século 19, sede da Companhia Jornalística Caldas Júnior, era imponente. Para subir os três ou quatro andares do Edifício Hudson, ao lado da Praça da Alfândega, usava-se um elevador com porta sanfonada e maquinário à mostra —- mantido assim, apenas com algumas adaptações, até ao menos a última vez em que visitei o local. Apesar da pompa e da circunstância, era como se estivesse entrando em casa. Do elevador aos corredores, das salas de redação ao bar —- que hoje não existe mais no segundo andar —-, tudo eu já havia explorado, embalado pela curiosidade de um guri de calças curtas, solto em um parque de diversões.

 

Naquele dia 10 de agosto, entrei no prédio ao lado de meu pai —- não mais de mãos dadas como fazíamos durante minha infância —-, vestindo uma uma camisa de mangas curtas, uma calça de abrigo esportivo e calçando alpargatas. Com ele fui até a sala do departamento de esportes que ficava ao fim do corredor, com janelas voltadas para a esquina da rua Caldas Júnior com a rua dos Andradas. Seria incapaz de reproduzir aqui qualquer palavra que o pai tenha dirigido a mim naquele instante; certo mesmo, pelo que conheci do velho, é que ele estava tomado pela alegria de ver seu filho dando o primeiro passo na profissão no lugar em que se consagrou como jornalista.

 

Fui apresentado ao Alexandre Pussieldi, produtor do único programa dedicado exclusivamente ao esporte amador do rádio rio-grandense. Hoje muito mais conhecido por ‘Coach’, pelos anos em que foi treinador de natação nos Estados Unidos e agora comentarista de natação da SporTV, Pussieldi foi um baita professor. Não bastasse ter sido o criador do programa em que sempre sonhei trabalhar —- afinal joguei basquete por 13 anos e, lembre-se, imaginei seguir o curso de educação física —, Alex Pussieldi foi meu mentor naquele início de carreira. Ajudou-me a construir fontes, escrever textos, produzir reportagens, fazer entrevistas e apresentar o “Esporte Amador na Guaíba”.

 

Do esporte amador para o futebol profissional; do departamento de esportes para o de jornalismo; da redação de rádio para a de jornal. Minha carreira seguiu em frente a ponto de me trazer para São Paulo. Aqui comecei pela televisão, trabalhei na internet e fui redescoberto pelo rádio. Ganhei reconhecimento e prêmios. Sinto-me privilegiado pelo espaço que me oferecem e pelo jornalismo que realizo.

 

Nestes 36 anos de profissão, em meio a tropeços e aprendizados, memórias afetivas foram construídas e alguns nomes foram essenciais para essa jornada. Assim como o pai foi o primeiro a me abrir a porta do elevador do Edifício Hudson, em Porto Alegre, teve o Alex e a Sandra que me acolheram; o Flávio que me levou para o jornalismo; o Afonso que me apresentou à vida; o Zezo que me trouxe para São Paulo; a Dina que me encaminhou para a Globo; o Montenegro que cuidou de mim na madrugada; o Marco que me aceitou na Cultura; o Everton, a Malice, a Maria e o Tato que moderaram meu ego; o Sérgio que foi minha referência como família; o Heródoto que me convidou para a CBN; o Juca que me inventou narrador na Rede TV!; o Toledo que me ensinou como funcionava a internet; a Mariza que apostou no meu talento. E, claro, a Abigail, que é o amor da minha vida.

 

Por mais distante que esteja de muitos daqueles que me ajudaram nesses anos todos —- e de tantos outros que sequer citei neste artigo —- quero que saibam o quanto os admiro pela paciência, experiência e conhecimento que compartilharam comigo. E que a colcha que minha memória está costurando desde aquele 10 de agosto de 1984, certamente, só se faz possível por sua causa.

O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

 

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A caminho da rádio, cedo, mas não tanto quanto hoje, preso no congestionamento, em São Paulo, a sintonia do meu rádio migrava da CBN para a Bandeirantes; do Zé Paulo para o Hérodoto. Foi a estratégia que encontrei para conhecer mais o rádio e a cidade. Na CBN, apresentava o CBN São Paulo. E na audiência deles procurava o caminho para fazer minha própria carreira por aqui.

 

Zé Paulo tinha voz forte, opinião contundente, não se deixava enganar pela fala mansa do entrevistado —- especialmente se fosse um político. Mesmo que fosse qualquer político. Não fazia distinção partidária. A pergunta era incisiva, bem embasada, e se mal respondida, não aceitava.

 

Fez do microfone instrumento plural, ouviu vozes divergentes em uma época em que não havia no rádio espaço para tantas —- especialmente pela dureza do regime em vigor. Promoveu debates improváveis, com gente que não queria se falar. E aceitou fazer uma conexão inédita de rádio entre o entrevistado dele no Pulo do Gato, na Bandeirantes, e o do Heródoto, no Jornal da CBN, em 1992 — já que de um lado havia um  acusador e de outro um acusado.

 

Depois de ouvir a força da voz e a contundência da opinião, fui apresentado ao coração generoso que batia no peito de Zé Paulo.

 

Foi quando o conheci pessoalmente. Ele estava sentando na cadeira de um restaurante. Levantou-se para me cumprimentar, assim que me apresentei. Uma reverência ao meu pai, Milton Ferretti Jung, que conhecia desde muito tempo. E a cena se repetiu todas às vezes que nos encontrávamos. Zé Paulo falava do pai e eu, orgulhoso de ouvi-lo, pensava: a lenda falando da lenda.

 

A carreira dele e a do pai, estiveram muito sintonizadas. Narraram futebol e brilharam no jornalismo. Foram longevos à frente dos programas que apresentaram: Zé Paulo no “Pulo do Gato” e o pai no “Correspondente Renner”. E apesar de todo o sucesso que fizeram jamais deixaram que isso se transformasse em prepotência. Respeitavam a força do microfone, encaravam a profissão com humildade e assim conquistaram a admiração dos ouvintes e o respeito dos colegas.

 

Encontrei-me no microfone com ele apenas uma vez, durante programa especial, em homenagem aos 90 anos de rádio, apresentado pelo Haissen Abaki, na rádio Estadão. Sentei-me à mesa ao lado do Heródoto Barbeiro, que já estava na RecordNews e do Joseval Peixoto, da Jovem Pan. Zé Paulo estava em casa e conversou com a gente por telefone. Senti-me um guri de calça curta diante daquelas feras. Fui muito mais para ouvir do que falar. E nas poucas vezes que falei, tive vontade de chorar de emoção pela alegria que aquele momento provocava no meu coração. A história do rádio estava ali na minha frente.

 

Hoje cedo, coube-me anunciar a morte de José Paulo de Andrade, aos 78 anos, por Covid-19. Ele vinha há algum tempo enfrentando dificuldades respiratórias devido a doença pulmonar obstrutiva crônica. Mesmo em casa, desde antes da pandemia, não escapou desse vírus que leva embora mais um talento brasileiro. Foi impossível não me emocionar e chorar, com lágrimas que me tiraram do microfone por instantes. Chorei, sim. O rádio chora a perda de uma de suas maiores referências. Seus admiradores, também. Todos nós devemos muito à jornada que Zé Paulo teve em vida ao nosso lado.

 

À família, nossa solidariedade diante do luto!

Conte Sua História de São Paulo: o passeio ao centro tinha o sabor do guaraná caçula

 

Por José Antonio Braz Sola
Ouvinte da CBN

 

 

 

Início da década de 1960. Morávamos em Pinheiros, perto do Largo. Eu tinha uns 7 anos e minha irmã, 4. Nos domingos em que meu pai — um simples comerciário — tinha folga, ele nos  levava para passear, de ônibus ou de  bonde, enquanto a mamãe ficava em casa cuidando do almoço mais caprichado da semana.

 

Íamos com frequência ao Parque da Água Branca, onde podíamos ver e tocar  os bichinhos que tanto nos encantavam — especialmente bois, vacas e cavalos. Lembro-me de que ficava particularmente feliz quando o ônibus passava em frente ao Estádio Palestra Itália, sede do clube pelo qual já era apaixonado, o Palmeiras.

 

Fazíamos passeios  também no centro, onde ficávamos maravilhados com as vitrines das lojas mais conceituadas da cidade, localizadas nas Ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, do Arouche e na Praça da República. Era uma época pré-shopping centers.

 

Seguíamos, também, até a Praça do Patriarca, para admirar a vitrine da Kopenhagen, que estava sempre ornamentada maravilhosamente, sobretudo em datas especiais como Páscoa e Natal. Em dezembro, claro, era obrigatório ver e falar com o Papai Noel no Mappin, além de ir apreciar o maravilhoso presépio mecanizado, montado na Galeria Prestes Maia.

 

O dinheiro do papai era curto, mas ele dava um jeitinho de nos oferecer um lanche, sempre acompanhado do insubstituível Guaraná Caçula Antárctica. Sinto muitas saudades daqueles tempos, de todas aquelas coisas e especialmente daquela São Paulo.  

 

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o cavalo do sorveteiro da Pompeia

 

Por Marcello Pizo
Ouvinte da CBN

 

 

Falta meia dúzia de anos para meio século. Isso não me faz tão velho assim, porém sou chamado diariamente de tio e, às vezes, me lembro de umas coisas que me fazem sentir o peso de ser de outro milênio. O sorvete é uma dessas lembranças da minha antiguidade.

 

Quando garoto, costumava tomar um sorvete que era vendido nas feiras livres e também de porta em porta, nas ruas da Pompéia. O vendedor era um senhor que andava numa carroça pintada de vermelho e branco, puxada por um cavalo marrom. Ele vendia sorvete de dois sabores somente: limão e morango. Geralmente ficava numa das extremidades da feira durante todo tempo que as barracas estavam montadas. Nos outros dias e horários, ele saía com a charretinha e tocava uma buzina prateada, que brilhava muito e anunciava a aproximação daquela guloseima tão especial.

 

— “Mãe, é o sorveteiro do cavalo, corre.”

 

Minha mãe sempre cedia aos meus pedidos, exceto quando as amígdalas me impediam de tomar gelado – aliás, até hoje não entendo o por que daquele lenço velho empapado de álcool no meu pescoço, quando a garganta atacava. Ela também era fascinada por aquele som de buzina e contava sempre que quando garota, o meu avô comprava para ela o sorvete vendido pelo pai do mesmo sorveteiro nas ruas de Higienópolis.

 

Será que o cavalo também era filho do cavalo antecessor?

 

A cada comprador ele descia da charrete, se dirigia para a parte posterior onde ficavam os apetrechos e perguntava se era morango, limão ou misto. Pegava a casquinha e com uma habilidade inimaginável para aquelas mãos tão rústicas, manuseava uma faca de mesa que preenchia a casquinha de biscoito com o sabor escolhido. Só vi algo parecido com o seu método de servir muitos anos depois, quando a Parmalat se instalou na esquina da Sumaré com a Aimberê, nos tempos que os palmeirenses eram felizes. As atendentes usavam umas pás para servir o sorvete, igualzinho ele fazia com aquela faquinha herdada do pai.

 

Quando ele parava próximo às feiras, ficava de plantão atrás da boléia esperando os fregueses. Nessas situações, o cavalo ficava sempre em três patas – não que ele fosse portador de necessidades especiais, mas preste atenção: todo cavalo quando “estacionado” alterna uma das patas para ficar suspensa. O mais incrível é que esses eqüinos têm um temporizador melhor que qualquer cronômetro de Fórmula 1, trocando a pata suspensa por outra mais cansada, com uma precisão cavalar. Andei ruminando uma explicação e acho que a contagem deles é feita pela mastigação…

 

Ainda falando do cavalo ( ou seria uma égua?) era comum ver o carroceiro dando as casquinhas de sorvete defeituosas para o equino como guloseimas carinhosas. Hoje em dia choveriam denúncias nas redes sociais contra a alimentação inadequada para o bicho, dos perigos da poluição para os pulmões do quadrúpede, além de algum vereador desocupado fazer uma lei para a coleta do estrume em sacos recicláveis. O mundo politicamente incorreto era menos estressante.

 

Marcello Pizo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a turma do Dunga agitava os bailes na Vila Mariana

 

 

 

Por Roseli Nabarrete
Ouvinte da CBN

 

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A turma do Dunga reunida para comemorar mais um ano juntos

 

 

O ano era 1967, a revolução cultural es­tava no seu auge. “The Beatles” coman­dando a massa de jovens no mundo, Chi­co Buarque aparecendo nos festivais da TV Record, Roberto Carlos invadindo os domingos — tudo em plena Ditadura Mili­tar no país e nós, vizinhos na Vila Maria­na, não éramos diferentes dos jovens do resto do mundo. Queríamos paz, amor, respeito, dignidade e transformar nossos sonhos em realidade.

 

Certa vez, nosso amigo e vizinho Mo­acir decidiu que deveríamos formar uma turma, batizada de Equipe Dunga. Juntos frequentávamos todos os bailes para os quais éramos convidados. E quando não havia nenhum, a gente inventava um. Era sempre aos sábados e a maior na garagem da casa do Kalu e da Celinha. Se não, na casa de qualquer colega da turma. A condição era de que no domingo os rapazes teriam que ajudar na arrumação da casa. Cuba Libre era a be­bida da moda, claro com mais Coca-Cola do que rum, mas era “ser moderninho” e a gente se sentia adulto — porém sempre sob os olhares atentos dos donos da casa, sede do baile.

 

Nos fins de semana, jogávamos vô­lei na Rua Trabiju, ouvíamos a vitrola ma­nual na casa do Roberto ou ou ainda nadávamos e jogávamos vôlei no CEI, onde todos éramos sócios.

 

No fim do ano, seguíamos de mãos dadas, de casa em casa, para dese­jar feliz Ano Novo. E era muito bom, aquele bando de jovens chegando depois da ceia para cumprimentar os vizinhos.

 

Íamos aos bailes de ônibus, pois nin­guém tinha carro. Só nossa amiga Nidia é que, depois dos 18 anos, ganhou um fus­ca, chamado de “Herby”, é claro.

 

Muitas ve­zes ficávamos sentados no muro das casas conversando; e o Marcos tocando violão. Tudo era motivo para rirmos sem parar.
Em época de provas no colégio e depois nos vestibulares, era comum nos verem sentados no chão com livros na mão, estudando.

 

Aos domingos, logo depois do almo­ço, era sagrado ver um filme no cinema Sabará ou no Jamour. Quando a turma chegava, ocupávamos fileiras inteiras para nos acomodar.

 

Amores existiram, mas não passaram de amores da juventu­de, como uma chuva no verão, que vem e rapidamente se esvai.

 

Quando nos tornamos adultos, nos separamos e cada um seguiu seu rumo, mas, felizmente, depois de 30 anos, con­seguimos nos reunir novamente graças a Internet. E como é emocionante lembrar como a vida era boa naquele tempo e de quanto foi boa nossa convi­vência.

 

Ainda moro na Vila Mariana tanto quanto ainda amo os Beatles e os Rolling Stones.

 


Roseli Nabarrete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: ah, Cambuci, nunca me esquecerei

 

Por Eli Carmo

 

 

Ouço a chuva no fim de tarde — as pessoas reclamam da chuva, eu amo a chuva— lembra a minha infância. Nasci no século passado, início dos anos 1970, no Hospital Nove de Julho, mas vivo na zona Leste de São Paulo a vida inteira.

 

Quando criança, minha mãe sempre levava a gente para a casa dos parentes. Perdi minha mãe este ano, vítima de um AVC. Meu pai já não está conosco há 14 anos. Infarto. Os parentes moravam no bairro da Cambuci. Ah! Cambuci, nunca me esquecerei. Avenida Lins de Vasconcelos.

 

Lembro-me que pegávamos o ônibus, aquele antiguinho da CMTC, e íamos minha irmã do meio e eu — éramos três menininhas —  ajoelhadas no último banco, olhando a paisagem. Como eu gostava de passear na casa dos parentes.

 

Minha vovó, assim a chamávamos, também morava por ali e geralmente íamos em festinhas de aniversário ou para  passar o dia. Tio Toninho morava com ela — que saudades tio!

 

Minha mãe era muito nervosa, a gente não podia fazer nada de errado senão apanhava quando chegasse em casa. Mas minha mãe tinha também seus momentos de nostalgia, ela adorava levar a gente lá na praça da República para ver os patinhos nadando. Ah! Naquele tempo era tudo tão diferente, existia doçura nas coisas.

 

E quando inaugurou o metrô da Sé, em 1978? Eu tinha uns 12 anos e fomos todos, inclusive meu irmãozinho que na época já tinha quatro aninhos, e passeamos para lá e para cá gratuitamente. Nossa, que passeio maravilhoso!

 

Bom, jamais esquecerei também os passeios de escola Íamos no ônibus cantando aquele clássico “vejam essa maravilha de cenário”— Marinho da Vila — brincando com o motorista e com as pessoas na rua, é claro, mas não colocávamos a cabeça fora do ônibus não, a “fessora” chamava atenção.
Nesses passeios, conheci o Zoológico, o Museu do Ipiranga, o Playcenter e até a Teatro Municipal — fiquei encantada.

 

Onde pude levar meus filhos nesses passeios, eu levei. Hoje, já são adultos e trilham seus próprios caminhos.

 

Eli do Carmo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história da cidade para milton@cbn.com.br.