Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: ah, Cambuci, nunca me esquecerei

 

Por Eli Carmo

 

 

Ouço a chuva no fim de tarde — as pessoas reclamam da chuva, eu amo a chuva— lembra a minha infância. Nasci no século passado, início dos anos 1970, no Hospital Nove de Julho, mas vivo na zona Leste de São Paulo a vida inteira.

 

Quando criança, minha mãe sempre levava a gente para a casa dos parentes. Perdi minha mãe este ano, vítima de um AVC. Meu pai já não está conosco há 14 anos. Infarto. Os parentes moravam no bairro da Cambuci. Ah! Cambuci, nunca me esquecerei. Avenida Lins de Vasconcelos.

 

Lembro-me que pegávamos o ônibus, aquele antiguinho da CMTC, e íamos minha irmã do meio e eu — éramos três menininhas —  ajoelhadas no último banco, olhando a paisagem. Como eu gostava de passear na casa dos parentes.

 

Minha vovó, assim a chamávamos, também morava por ali e geralmente íamos em festinhas de aniversário ou para  passar o dia. Tio Toninho morava com ela — que saudades tio!

 

Minha mãe era muito nervosa, a gente não podia fazer nada de errado senão apanhava quando chegasse em casa. Mas minha mãe tinha também seus momentos de nostalgia, ela adorava levar a gente lá na praça da República para ver os patinhos nadando. Ah! Naquele tempo era tudo tão diferente, existia doçura nas coisas.

 

E quando inaugurou o metrô da Sé, em 1978? Eu tinha uns 12 anos e fomos todos, inclusive meu irmãozinho que na época já tinha quatro aninhos, e passeamos para lá e para cá gratuitamente. Nossa, que passeio maravilhoso!

 

Bom, jamais esquecerei também os passeios de escola Íamos no ônibus cantando aquele clássico “vejam essa maravilha de cenário”— Marinho da Vila — brincando com o motorista e com as pessoas na rua, é claro, mas não colocávamos a cabeça fora do ônibus não, a “fessora” chamava atenção.
Nesses passeios, conheci o Zoológico, o Museu do Ipiranga, o Playcenter e até a Teatro Municipal — fiquei encantada.

 

Onde pude levar meus filhos nesses passeios, eu levei. Hoje, já são adultos e trilham seus próprios caminhos.

 

Eli do Carmo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história da cidade para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: viaja dentro da cidade de olho no guia de ruas

 

Por Fabiana Luzio
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci no bairro da Vila Guilherme e passei praticamente toda a minha infância e juventude estudando e trabalhando na zona Norte. Durante esse período, sair da região era um evento. Fazer compras no entorno da 25 de março ou do Brás, ir ao Museu, ao parque ou a algum shopping eram verdadeiras aventuras para mim.

 

Quando me formei em fisioterapia, distribui meu currículo pela cidade e fui contratada para trabalhar no bairro do Itaim Bibi. Fiquei tão empolgada com a novidade que nem me incomodei com a distância ou o tempo que perdia para chegar ao trabalho — quase duas horas de ônibus para ir e mais duas para voltar. Não me importei porque esse não era um tempo perdido, eu estava finalmente conhecendo a grandeza da minha cidade. O trajeto saindo da Avenida Voluntários da Pátria, passando pelo centro na Avenida Tiradentes, seguindo pela Avenida 9 de Julho e chegando a Avenida Faria Lima me deixava encantada, observando cada detalhe mínimo dessa cidade imensa.

 

Dois anos depois, passei a atender no serviço de homecare, dirigindo pelas ruas de São Paulo em uma época que ainda não contava com a facilidade do sistema de GPS. Tinha de olhar no guia de ruas e seguir as instruções para chegar até os pacientes. Não foi fácil, mas foi uma experiência gratificante.

 

Circular pela cidade, contornar a beleza do parque do Ibirapuera, pegar a Avenida Paulista de ponta a ponta,  admirar a imponência do Museu do Ipiranga e do Palácio do Governo, seguir pelas curvas da Vila Madalena com seus bares vibrantes, entender o vai e vem incessante das Marginais… enfim, eu pertencia à cidade.

 

É claro que também sofro com os problemas urbanos  como poluição,  trânsito,  insegurança,  falta de estrutura, mas eu prefiro ver a nossa São Paulo com um olhar de encantamento, de um lugar em constante movimento, onde os outdoors foram retirados, as ciclofaixas foram pintadas e os jardins verticais hoje emolduram grandes avenidas — esse lugar que é uma “metamorfose ambulante”, promovendo sempre surpresas aos seus moradores e visitantes. 

 

Hoje, moro no bairro da Aclimação, mas me sinto em casa em todos os lugares que frequento. Admito: amo essa cidade e não tem nenhum outro lugar que gostaria de chamar de lar.

 


Fabiana Luzio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração é de Mílton Jung. Conte você a sua história de São Paulo, escreva para milton@cbn.com.br

O patrimônio de Paraty vai além da arquitetura: saiba por quê?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Paraty concorre agora a Patrimônio da Humanidade, cuja candidatura foi aceita pela UNESCO na categoria de sítio misto, paisagem cultural e natural.

 

Se vencer a eleição datada para 2019, terá seu segundo reconhecimento cultural, pois, em 2017, obteve o título internacional de Cidade Criativa para a Gastronomia.

 

A cidade de Paraty apresenta perfil histórico com múltiplas facetas, através de nuances culturais, econômicas e sociais. Paraty foi o maior porto exportador de ouro no período colonial – 1530 a 1815 – condição que contribuiu para a sua formação urbana e rural.

 

O romance biográfico “Ana em Veneza” de João Silvério Trevisan dá ideia da riqueza cultural da região ao descrever a estada da família alemã de Julia da Silva Bruhns Mann, nascida em Paraty e mãe do escritor Thomas Mann.

 

O patriarca da família Luiz Bruhns, de Lubeck, bem relacionado com D. Pedro II, pelo prazer do imperador em treinar o alemão, estendia sua avançada visão social e cultural a sociedade paratiense. O jantar de despedida em Paraty, quando decidiu voltar para a Alemanha, deixou os ilustres convidados extasiados diante da gastronomia local:

Salada de palmito, salada de lagosta, pimenta cumari, pimenta malagueta, batata doce, arroz ao molho de tomate, feijão preto, angu, moqueca de peixe, galinha ao molho pardo, pernil de porco assado. Compotas de caju, banana e goiaba, melado, baba de moça, manuê de bacia feito de farinha de trigo, melado e ovos, chuvisco, bolinho de massapão, broa de mãe benta, cocada, bala de ovos, pão de ló.

 

Deixou-os, também, assustados com as benesses sociais, pois Bruhns não só alforriou seus escravos como doou suas terras a eles. E alertou a todos que não havia futuro para a escravidão.

 

 

A força da passagem do ouro ficou marcada também na cidade de forma original ao desenhar as construções com o propósito comercial. As edificações tem sempre a função de loja. Ou a loja fica na frente e a residência atrás ou o térreo é para a loja e o sobrado para a família.

 

O longo e duro período de ostracismo da região redundou positivamente em preservar o antigo. Mas não foi fácil para a população. Houve até um momento em que a carência de recursos básicos urbanos como eletricidade e água foi tão grande que surgiu movimento separatista do estado do Rio de Janeiro, buscando guarida em São Paulo. Se de direito não conseguiram, hoje o afluxo de turistas paulistas é compensador à economia de Paraty.

 

Se, caro leitor, visitar Paraty, consulte o extenso calendário turístico e intelectual da cidade. Recomendo também buscar o cardápio que a mãe de Thomas Mann presenciou ainda criança quando da despedida da cidade.

 

Não deixe de incluir o camarão casadinho e a cachaça.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a chuva de prata no Viaduto do Chá

 

 

Por Julio Tannus
Ouvinte da rádio CBN

  

 

  

 

Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante.

  

 

Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 1940, morei na São Lázaro, travessa da São Caetano, hoje a “Rua das Noivas”. Era movimentadíssima com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz.

  

 

IMG_1140

Julio passeia ao lado do irmão, Carlos, no Viaduto do Chá

  

 

Após alguns dias na cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhar na São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na avenida Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo. Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo. Aquele monumento hoje está na Cidade Universitária. Quando o vi, exclamei do alto de meus cinco anos de vida: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. “Fica quieto menino!” foi a reação de mamãe diante da imagem daquela mulher de peito nu na estátua.

  

 

Fui flamenguista por herança de pai. E de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas … até que na celebração do Quarto Centenário da cidade, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração. Por curiosidade, essa final contra o Palmeira só foi disputada em 6 de fevereiro de 1955.

  

 

O Quarto Centenário é de 1954. E teve imensa participação de toda a população, que invadiu as ruas de nossa cidade. Ocorreram festas maravilhosas. Recordo-me nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, da Rádio Record, descreveu com precisão:

  

 

“O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o Viaduto do Chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o Viaduto do Chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.”

 
 

 

Palavras que me levam a recordar o hino do Quarto Centenário:
 

 

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 
 

 

Julio Tannus é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos contar outros capítulos desses 464 anos: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: minha primeira decepção de criança ao fim da II Grande Guerra

 

Por Aldo Bertolucci
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, para comemorar os 464 anos da nossa cidade, o texto do ouvinte da CBN Aldo Bertolucci, que completa 78 anos de vida e de São Paulo:
 

 

Meus pais eram italianos e morávamos na Alameda Ribeirão Preto, paralela a Paulista. De nossa casa, afinal o bairro era Bela Vista, víamos os prédios Martinelli e do Banespa, com toda uma várzea e casas pequenas aos nossos pés. Nossa rua era de paralelepípedos por onde todos os dias passava a velha Amulari – uma portuguesa que ficou assim conhecida porque ao trazer suas cabras para vender o leite sempre se desculpava que estava ali para “amulari as pessoas” ou incomodar as pessoas. Soube-se depois que ela, andrajosa e maltrata, era dona de várias casas de aluguel no bairro.

 

Do outro lado do vale havia um campo de futebol, ali perto da Rua dos Ingleses, onde os times do bairro jogavam peladas nos fins de semana. Durante a guerra, os poucos automóveis a gasogênio não nos incomodavam e jogávamos futebol na rua mesmo. Às vezes, éramos interrompidos pelo Salomão, o verdureiro, que vinha com sua carroça puxada pelo Caxambu, um cavalo alazão que estacionava à espera dos clientes. Quando o cavalo fazia cocô, meu avô saia correndo de casa para catar o esterco que ele punha nas suas plantas. Alguns meninos mais corajosos de nossa rua entravam em um bueiro de um lado da rua, passavam pelo cano que ia até o outro lado e saiam pelo outro bueiro.
 

 

Em frente de casa havia um convento de freiras de clausura, cercado de muros muito altos, que ocupava todo o quarteirão desde a Ribeirão Preto até a São Carlos do Pinhal, a Rua Pamplona a Alameda Campinas. Parte desse espaço é ocupado agora pelo Hotel Maksoud. Nós garotos subíamos até o segundo andar de nossas casas para espiar alguns movimentos das freiras que mantinham uma horta. Havia uma capela onde íamos à missa. Mas era construída em duas asas. Nós ficávamos em uma e as freiras em outra sem que pudéssemos vê-las.

 

Um dos passeios mais esperados era atravessar a Paulista em direção aos Jardins – que não tinham ainda se consolidado – e chegar ao ponto final do bonde 40 – Jardim Paulista, na Rua Veneza. Do ponto final seguíamos a pé em direção ao que é hoje o Itaim Bibi, andando no meio do mato e do brejo para chegar aos sítios onde se criavam os cavalos que corriam no Jóquei. Hoje a Avenida São Gabriel substituiu as chácaras.
 

 

Lembro o fim da guerra mundial com as rádios festejando a paz e meu pai com uma bomba manual enchendo os pneus de seu Chevrolet 1938, que estava parado havia vários anos, para ir comprar gasolina e darmos uma primeira volta. Ficamos decepcionados, meu irmão e eu, porque nossa mãe se apoderou do assento da frente que achávamos ser de nosso direito.

 

Lembro também que, naquela época, a Cruz Vermelha abriu um posto ao lado do Correio Central para receber doações para vários países europeus. Fomos com minha mãe levar um saco de roupas para nossos avós e tios que tinham sobrevivido ao conflito, na Itália.
  

 

Aldo Bertolucci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a praça com o nome do meu pai

 

Por Natanael Boldo

 

 

Sou o filho mais novo de uma família de sete irmãos: seis homens e uma mulher. Meu pai, Sr. João Boldo, veio de Itapira, no interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, instalou-se na Freguesia do Ó, acolhido pelo cunhado dele, irmão da minha mãe, o Tio Paulino. Foi na Freguesia que trabalhou como almoxarife por 35 anos até se aposentar. Foi seu único emprego aqui em São Paulo.

 

Passados alguns anos da sua chegada, comprou terreno no Jardim Cidade Pirituba, na rua Silvino de Godoy, onde construiu a casa que moro até hoje com minha mãe, Dona Teresinha, que está com 89 anos. Meu pai foi um dos primeiros moradores do lugar, chegou ao bairro em 1966. Eu tinha apenas um mês de vida. Era uma casa humilde, com dois quartos, cozinha, sala e banheiro. No quintal, tínhamos galinheiro e várias arvores frutíferas. Da porta de casa, tínhamos uma vista privilegiada do Pico do Jaraguá, lugar onde passeávamos com frequência. Juntava toda a molecada da rua. As mães faziam lanches de mortadela e suco. E por lá passávamos o dia.

 

Criou os filhos com muita dificuldade. Éramos muito humildes. E sempre nos cobrou que fossemos pessoas honradas, honestas … e exigiu que estudássemos. Ao lado da minha mãe, que também é uma mulher guerreira, que nunca frequentou os bancos da escola, puderam nos orientar pelo melhor caminho que a vida tinha a oferecer. Como recompensa, viram seus filhos se formarem.

 

Meu pai também era um músico dos bons, tocava bandolim como ninguém. Aos sábados bem cedo, íamos a Praça da República passear pela feira de artesanato e depois passávamos na loja de instrumentos Del Vecchio, na Rua Aurora. Ali se encontrava com Evandro do Bandolim e seu regional. Não tinha hora pra sair, pois a música rolava solta.

 

Eu ainda era muito criança, mas lembro que aos domingos depois da missa meu pai reunia a família antes do almoço para tocar. Era maravilhoso, música de qualidade e família reunida. Era um autodidata, estudou bem pouco, mas sabia de coisas que doutores não tinham conhecimento. Era um homem que lia muito e estava sempre à frente do seu tempo.

 

Perto de casa havia um brejo onde começou a plantar árvores. Hoje, este mesmo local foi transformado em um parque municipal, o Rodrigo de Gaspari. Fez o mesmo na rua onde moro, a Silvino de Godoy. No terreno que chegou a ter um campo de futebol, passou a plantar todo tipo de árvore: ipês, paineiras, jambo. De tão verde que ficou, transformou-se em praça: a Praça João Boldo, em Pirituba, bairro considerado o segundo mais arborizado de São Paulo.

 

Natanael Boldo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar os 464 anos da nossa cidade juntos: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: os primeiros passos com meu avô

 

Por Carlos Garabet Giovoglanian

 

 

Nasci nessa cidade, que já foi chamada de São Paulo de Piratininga, em 7 de janeiro de 1958. Filho do Senhor Kaspar, imigrante da Grécia, descendente de armênios, que aqui chegou em 31 de outubro de 1951 e da Dona Maria que também aqui nasceu.

 

No Cambuci, bem perto do Pátio do Colégio, dei meus primeiros passos junto com minha avó que me levava para passear. Encantava-me escorregar em caixas de papelão, no jardim diante da Paróquia São Joaquim, igreja imponente que se destaca naquele velho bairro. Era dia de festa quando íamos caminhar no Jardim da Aclimação, com seu lindo lago, que recebeu esse nome inspirado pelo ”Jardin d’Acclimatation”, de Paris. Era lá que aves e gados trazidos do interior se aclimatavam na Capital, daí Jardim da Aclimação.

 

Ainda me lembro de todos aqueles trabalhadores que passavam diante de casa vendendo leite quentinho, ordenhado diretamente das cabras com seus sinos badalando anunciando sua chegada; do vendedor de biju com sua matraca; do floricultor espanhol com suas lindas rosas e palmas e do verdureiro Argemiro com sua carroça.

 

Fui estudar no Externato José Bonifácio, escola de idioma armênio, no bairro do Bom Retiro, que fica atrás da Catedral São Jorge na Avenida Santos Dumont. Depois no Colégio Nossa Senhora da Glória, dos irmãos Maristas, cuja imagem do Irmão Justino me acompanhará pelo resto dos meus dias.

 

Visitar meu primo que morava em Santo Amaro era uma viagem emocionante. De táxi alcançava o Largo Ana Rosa e de lá tomava o bonde que me levava até a Estátua do Bandeirante Borba Gato, pertinho do Clube Banespa com suas lindas piscinas onde no verão íamos nos refrescar. Santo Amaro parecia muito distante pois era repleto de áreas verdes, matas e riachos que ainda não haviam sido devastadas pelas construções. Na volta, a passagem pelo Parque do Ibirapuera era obrigatória para nos divertir e nos instruir, com seus jardins, balanços, sorveterias, Museu da Aviação, que já não está mais lá, o planetário e o Pavilhão Japonês, homenagem a esse povo que tanto fez por nossa cidade.

 

Todos os meses ia ao centro e descia na Praça da Sé, caminhava pela Rua Direita até alcançar a Praça do Patriarca e entrava na Galeria Prestes Maia para comprar passe de ônibus da CMTC. A cidade se modernizava e em plena Praça da Sé tive o enorme prazer de fazer uma chamada por telefone diretamente da cabine recém instalada, em 1972.

 

Em 1974, já estudando no Colégio Arquidiocesano, no bairro da Vila Mariana, fiz minha primeira viagem pelo metrô recém-inaugurado que nos levava da Estação Santa Cruz até a Estação Jabaquara. Em 1976, ingressei na Escola de Engenharia Mauá onde me formei. E em 1992, me casei com a Rose, que vinda de Marília também adotou São Paulo.

 

Carlos Garabet Giovoglanian é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: não era comum menina no estádio

 

Por Dalva Rodrigues

 

 

Uma das primeiras paixões na cidade foi o futebol. Desde menininha, ouvia meu pai contar histórias do time da empresa na qual trabalhava; das encrencas  e brigas que arrumavam. Dos jogadores viajando na carroceria do caminhão até o campo do adversário.

 


Já casado e com seus dois filhos, papai jogou e dirigiu o Anchieta Futebol Clube, time de várzea da Vila Liviero, onde morávamos. Domingo na periferia era  dia de futebol, de alegria, de almoços caprichados, e de sacos cheios de uniformes sujos, uniformes que minha mãe e minha avó lavavam e reclamavam.

 


Naqueles tempos não me interessava realmente pelo esporte. Achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que contava.

 

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras, apesar de meu pai ser são-paulino. Não era comum mulheres em estádios nem mesmo meninas jogarem futebol. Mesmo assim sonhava ser goleira. E treinava para isso. Queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época junto com Ademir da Guia.

 


Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva; o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo; dormia com o radinho de pilha ouvindo programas esportivos. Aprendi tudo sobre o esporte e passei a entender porque ele era uma paixão.

 

Nunca esquecerei meu primeiro passeio a um estádio de futebol.

 

Foi em um clássico: Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas.

 

Enfim, chegou o grande dia: era um domingo, pegamos o ônibus até o centro, caminhamos até o Vale do Anhangabau – onde filas imensas de ônibus esperavam os torcedores para os levarem até perto do estádio. O resto do caminho era feito a pé.

 


Descemos depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões. Esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

 

A multidão descia a avenida larga que não me recordo o nome… Meu coração que já batia forte acelerava ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

 


Meu pai, como muitos torcedores, levava um rádio de pilha nas mãos. No caminho, ouvíamos Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade. A música ao fundo era Bailarina Solitária… Até hoje essa música me remete aquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina que veria pela primeira vez seu time jogar.

 


E a emoção continuou lá dentro. O medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as opções, embora minha mãe tivesse preparado um lanchinho tipo piquenique para nós… Coisa de mãe, que na época me causou vergonha durante a revista para entrar no estádio, mas na hora que a fome apertou, agradeci.

 


Vi meu Palmeiras vencer por  2×1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão.

 

Nesse dia, tive o privilégio de assistir a duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha. Eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime!

 


E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria.

 

Realizara meu sonho.

 


Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo.. Ao som dos passos apressados, fizemos o caminho de volta pela cidade semi-adormecida. Cada um rumo ao seu destino. Amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

 


Naquela noite nem dormi direito. Que domingo feliz! Cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente. Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, guardei com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.

 

Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: os passeios de cavalo em Pinheiros

 

Por Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Sempre gostei de cavalos. Não sei o por quê? Nasci na cidade, fui criado na cidade, meus pais naturais de Campinas, ela farmacêutica, ele dentista, nada ligados ao campo, mas eu nasci ligado aos cavalos.

 

Quando tinha por volta de 10 a12 anos, morávamos na Rua Simão Álvares, próximo a Teodoro Sampaio. Entre as ruas Mourato Coelho e Pedroso de Morais, e Teodoro Sampaio e Arthur de Azevedo, funcionava a Hípica Paulista, que havia se mudado há pouco tempo para o local onde está até hoje, na Rua Quintana, no Brooklin Paulista. Ocupando uma das cocheiras da antiga Hípica, na rua Mourato Coelho, instalou-se a Escola de Equitação São Paulo, pertencente a um dos maiores cavaleiros que o Brasil já conheceu, o Prof. Jorge Furtado Coelho, ex-oficial da cavalaria em Portugal. O professor Furtado era casado com uma senhora bastante pesada, que montava todos os dias: Dona Amália.

 

Eu estudava pela manhã no Grupo Escolar Godofredo Furtado e, à tarde, depois de fazer os deveres escolares, ia para a beira da cerca da escola e ficava namorando os cavalos que passavam montados por elegantes ginetes, a maioria pertencente à fina sociedade. Lembro-me de um rapaz de sobrenome Fazzanelo cuja família era proprietária de uma rede de casas lotéricas que também chamávamos de “chalé do jogo do bicho”; e me lembro de outro jovem que mais tarde apareceu muito como político, José Bonifácio Coutinho Nogueira.

 

Nessa época, comecei a trabalhar como office Boy no consultório de meu pai e recebia uma semanada pelo trabalho. Quando recebi a paga pela primeira semana, vi, cheio de alegria, que era exatamente o que cobravam por uma hora de cavalo na escola de equitação. Eu não conseguia imaginar melhor aplicação para o meu dinheiro. Procurei o Senhor Carlos, um senhor de origem alemã que era o gerente, e contei a ele que havia ganhado aquele dinheiro pelo meu trabalho e queria aplicá-lo no passeio a cavalo. Ele foi e contou a história para Dona Amália que respondeu: O quê? Vai receber o salário de uma semana de um menino?! Não, dê o Douradinho para ele andar. Não cobre nada!

 

Desse dia em diante, eles já sabiam o que queria dizer aquele meu olhar comprido e me davam o Douradinho para andar. Quando fiquei sabendo montar um pouco, comecei a ser útil também. Cavalos de boa raça, não podem ficar dentro da cocheira a semana toda, sem trabalho, pois no final de semana quando seus donos fossem montá-los estariam muito inquietos e até mesmo bravos. Precisavam trabalhar e aí juntou-se o útil ao agradável: davam-me dois ou três cavalos todos os dias para montar.

 

Muitos anos mais tarde – eu tinha um avião Cesna Skylane angarado no Campo de Marte – quando pousei, guardei o avião e fui tomar um café no bar do Aeroclube de São Paulo. Ao entrar, avistei em uma mesa o Professor Furtado e a Dona Amália. Me dirigi a eles e perguntei: Professor Furtado, Dona. Amália, posso me sentar? Quero lhes contar uma coisa! Eles me indagaram: quem é o senhor? E eu lhes respondi: os senhores não vão se lembrar, mas quero lhes agradecer porque fizeram com que eu tivesse uma infância muito feliz, aqui em São Paulo.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar juntos mais um aniversário da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br.