Conte Sua História de SP: desde o meu cortiço no Tremembé

 

Osnir G. Santa Rosa
Ouvinte da rádio CBN

 


 

 

Em 1943, ano em que nasci, sem outra opção, meus pais mudaram para o distante, frio e bucólico bairro do Tremembé. Era um cortiço. Minha mãe, que era a caçula de sua grande família, sempre tratada com carinho, chorava todos os dias. Chorava por estar distante de seus pais, de seus irmãos e seus sobrinhos. E chorava pela situação degradante então vivida.

 

Por muitos anos se comentava nas reuniões dominicais das famílias que eu gostava de ficar pelado e assim comecei a engatinhar na Av Nova Cantareira, uns mil e duzentos metros antes de chegar na famosíssima Fazendinha. Não sei se você sabe, mas na Fazendinha, por décadas e décadas funcionou uma padaria.

 

Morar em cortiço é, simplesmente, horrível. Uma vez minha tia foi nos visitar levando seus filhos, meus primos-irmãos, como se diz. Moravam nas imediações, bem junto a um ribeirão fato que lhes trazia enormes transtornos.

 

Eu e meu irmão subimos nas costas dos primos; eu na do mais velho e ele na do mais novo e fomos circular em volta do cortiço. Pois ambos caíram dentro de um fétido córrego ao tentar pular sobre ele com a gente nas costas. Houve um pânico geral. Depois gargalhadas. Só não riam as duas mães ao verem seus rebentos negros de lama poluída e vermes brancos querendo penetrar na pele.

 

Felizmente, não demorou tanto para meu pai conseguir uma casa nas proximidades. Casa que ficava inserida no meio da mata-atlântica, do lado oposto e perto de onde hoje está o Hospital da Polícia Militar de São Paulo.

 

Ali nós conseguíamos pinhões e jabuticabas. Aqueles no inverno; e estas no começo dos verões. Às vezes, ouvíamos tiros de fuzis vindos do estande da Força Pública. Às vezes, víamos grupos de alunos oficiais fazendo treinamento físico pela Nova Cantareira.

 

Em 1953, portanto dez anos depois de ir para o Tremembé, meus país conseguiram comprar um imóvel no extremo oeste da capital e saímos daquela chácara, onde passei os melhores anos de minha vida.

 

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

#CBN26anos – A minha história do rádio

 

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Sou do rádio desde muito pequeno. Aventurei-me no jornal, escrevi em revista, editei, reportei e ancorei em televisão, e atuei na internet. Mas aí já era profissional do jornalismo. E como tal somos de todas as mídias. Temos de ser de todas as mídias para sobreviver. Foi o rádio, porém, que influenciou minha vida desde criança.


 

Lá em casa, em Porto Alegre, o aparelho ficava sobre o balcão, na sala de jantar. A mãe costumava levantar o som sempre que o pai fosse falar. Sim, meu pai é radialista e jornalista, também – como o caro e raro leitor deste blog deve saber. Ao menos o foi até que a falta de sensibilidade dos gestores de rádio o fez ir para casa e aposentar seu talento. Além de narrador de futebol, Milton Ferretti Jung, o pai, foi locutor de notícias. Mais do que isso: foi o melhor locutor de notícias do Rio Grande do Sul. Apresentou por anos o Correspondente Renner, síntese noticiosa da rádio Guaíba, na época uma potência.

 

Sempre que o noticiário estava para começar, era a oportunidade de a mãe por ordem na casa. Para calar a bagunça dos filhos e a “brigalhada” dos irmãos, ela levantava o som do rádio e alertava a todos: “se continuarem gritando, o pai vai ouvir e quando chegar em casa vocês vão se ver com ele!”.

 

Silêncio total na sala. Vai que o pai ouve.

 

Crescemos imaginando que o ouvinte podia ser ouvido pelo radialista. Houve um momento, não sei quando, em que percebemos que aquela interação não era possível, mas entendemos também que tudo que a mãe precisava era de alguns minutos de paz para ouvir o pai falando. Nós também queríamos saber o que o pai tinha pra contar: ele sempre trazia as notícias mais importantes do Brasil e do Mundo. Dava um baita orgulho saber que era o nosso pai que estava ali contando todas aquelas coisas importantes para o Mundo e para o Brasil. Sem exagero. Não tinha internet, mas nas ondas médias e curtas, a Guaíba às vezes era ouvida das partes mais distantes do planeta.

 

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Nem havia crescido muito quando conheci o estúdio de uma emissora de rádio. O pai fazia questão de nos levar à Guaíba, especialmente nos fins de semana. Acho que era para dar uma folga para mãe. Às vezes, enquanto ele lia o noticiário, os colegas nos distraíam proporcionando jogos de futebol no corredor da rádio, onde a bola era feita de papel das laudas de notícias embrulhadas aos montes por durex.

 

Demorou pouco para o pai cometer um sacrilégio: abrir a porta do estúdio da rádio e me permitir sentar ao lado dele, durante a locução do Correspondente Renner. Naquela época, o estúdio era lugar sagrado. Só os Deuses da Voz tinham o direito de permanecer lá dentro. Eu sequer para anjo servia. Mas fazia enorme esforço para não decepcioná-lo. Ficava ao lado dele em silêncio, total silêncio. Mal respirava durante os 10 minutos de duração do Correspondente. Ver o pai com os cotovelos sobre a mesa do estúdio e as mãos colocadas em formato de concha, enquanto pronunciava com precisão e expressividade cada palavra, me emocionava.

 

Havia dias em que o pai me deixava visitar a redação do jornal Correio do Povo, que ficava no andar de baixo, do mesmo prédio da rádio, onde meu tio trabalhava com editor-fechador da edição de domingo. Era ele quem tinha de atualizar as últimas informações e acompanhar o jornal rodando nas esteiras antes de começar a ser distribuído por todo o estado do Rio Grande do Sul. Tio Tito Tajes me deixava dedilhar nas máquinas de datilografia, pedia para recolher as notícias que chegavam na sala de teletipos – espécies de computadores da Idade da Pedra – e me levava a passear entre as rotativas do jornal. Foi lá naquela redação que conheci Mário Quintana, o poeta.

 

Era lindo, mas era o rádio que me fascinava.

 

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Meu primeiro estágio em jornalismo foi na Guaíba, por obra do meu pai, claro. De lá sai para trabalhar em outras mídias e retornei ao rádio quando já havia desembarcado, em São Paulo, há algum tempo. Vim para trabalhar em TV e foi na redação da TV que conheci Heródoto Barbeiro que, ao saber de meu passado e desejo, me convidou para apresentar programa na CBN, onde permanecerei até segunda ordem.

 

Tantos anos depois, descobri que minha mãe tinha razão quando nos mandava calar porque o pai podia ouvir. Era como se ela estivesse prevendo o que viria a acontecer. Hoje, os jornalistas de rádio trabalham com os ouvidos (e os olhos) bem abertos porque o ouvinte fala o tempo todo. Fala no e-mail, fala no WhatsApp, fala no Facebook e fala no Twitter. Ainda fala por carta. Fala quando encontra você na rua, no shopping, na Igreja, onde quer que você esteja.

 

Ai de você que não ouça o que ele pensa. Pode se livrar de algumas chateações, mas, tenha certeza, estará desperdiçando ótimas oportunidades de se desenvolver na carreira e realizar jornalismo qualificado, que atenda as demandas do cidadão. Sem contar que esses ouvintes que “falam” são, atualmente, fontes importantes de informação, que não podem ser desdenhadas.

 

Quanto ao pai, segue em Porto Alegre. Respeitado por aqueles que conheceram seu trabalho. Na memória dos que cresceram ouvindo os jogos de futebol e as notícias do dia. E na história dos que se preocupam em estudar a trajetória do rádio brasileiro.

 

Como disse lá no início, sou do rádio desde pequeno. E o pai tem tudo a ver com isso. Obrigado, pai!

Conte Sua História de SP: na terra em que “benção” é “bom dia”

 

Por Izaura Costa do Prado
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Sou de Paripiranga, estado da Bahia. De lá fui para Aracaju, em Sergipe, mas o grande passo foi vir para  São Paulo, mesmo sem ter, até então, parente algum morando aqui. Eu queria conhecer a cidade sobre a qual tinha lido na cartilha escolar,  onde o personagem paulistano dizia:

 

– Bom dia, titio!

 

Fiquei admirada pois na minha terra, em vez de bom dia titio, dizíamos:

 

– Sua benção, tio!

 

Na década de 1950, a cidade já era agitada e os bondes circulavam cheios de trabalhadores. Assim que cheguei, mesmo sem experiência, consegui emprego como aprendiz de costureira na Rua Prates, região da José Paulino. Trabalhei no mesmo local por 17 anos. Fazia horas extras, economizava tudo o que podia e mesmo sem os benefícios do vale-transporte, cesta básica ou tíquete refeição – na época não existia nada disso – consegui guardar o dinheiro suficiente para dar entrada no imóvel que moro até hoje, no bairro da Casa Verde.

 

Era um terreno com dois cômodos inacabados mas pelo menos era meu canto. Alguns anos depois conheci meu marido, me casei e tenho uma filha que teve a oportunidade que não tive: concluir o ensino superior.

 

Ela diz que a melhor decisão que tomei na vida foi vir para São Paulo, diz ter sido um ato de coragem pois cidade grande pode assustar. É verdade, mas quando a gente é nova nem pensa nisso.

 

Aqui era e ainda é a cidade das realizações para quem se dispõe a trabalhar duro e lutar em busca dos objetivos. Os problemas podem ser grandes mas a cidade é  maior que todos eles.

 

Izaura Costa do Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: quando a italiana descobre que o não é um sim

 

Ariella Segre
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Hoje, lembrei de um episódio que aconteceu comigo há muito tempo, logo que cheguei em São Paulo. Sou italiana e vim para cá há 50 anos. Acreditava que entendia perfeitamente o português, não teria o que temer.

 

Pois é … um dia entrei em uma linda loja na rua Augusta. Não lembro bem o que fui comprar. Mas pedi alguma coisa. A princípio, o vendedor meu ouviu com a máxima atenção. E assim que encerrei o pedido, ele disse: – pois, não! Virou as costas e foi embora para o interior da loja. Sem entender aquela reação e suas palavras, fiquei muito chateada e decidi fazer o mesmo, só que no sentido contrário. Virei as costas e fui-me embora.

 

De repente, o vendedor ressurgiu ofegante. E foi me alcançar quando eu já estava na calçada. Nas mãos, ele carregava o produto que eu havia pedido. Entendendo menos ainda, perguntei a ele por que afinal ele havia me respondido com um “não” tão seco, se tinha o produto a oferecer. Foi então, graças a explicação do vendedor, que descobri que no Brasil “pois não”não era não, era sim …

 

Ariella Segre é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar a sua história, também. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o dia em que recebi a Rainha Elizabeth no meu bairro

 

Por Elizabeth Montero
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era muito pequena e esta história que vou contar hoje faz parte de um passado distante. Saí da Aclimação para morar perto do Aeroporto de Congonhas.

 

Tinha muito medo do novo, mas não sabia que descobriria um outro mundo. Acordava no meio da madrugada com um barulho de um super trovão: o avião aterrissando! Era uma novidade para mim.

 

Ali onde morava, ao voltar da escola, encontrava pelo caminho artistas e pedia autógrafos em um caderninho que desapareceu, assim como o estúdio da Record.

 

Mas o melhor presente foi viver, em 1968, e saber que eu tinha o nome da Rainha da Inglaterra. Sim, lá estava eu pequenina na avenida Rubem Berta balançando as bandeirinhas para a Rainha desfilar. Naquele dia eu me senti feliz de morar ali.

 

Hoje tenho 58 anos, mas esta memória ainda é bem vívida.

 

Elizabeth Montero é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o dia em que Chico Buarque recebeu meu cravo branco

 

Maria Antônia Vargas de Faria
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Vinda de Socorro, estância hidromineral do Estado de São Paulo, de ônibus, sozinha, a convite das três irmãs mais velhas que já residiam na capital,  eu aos 13 anos estava mais feliz do que nunca, na expectativa de assistir a um show do meu grande ídolo Chico Buarque.

 

No show estariam todos os expoentes da Música Popular Brasileira daquela época, ano de 1967, e seria realizado no velho Teatro Paramount, na Rua Brigadeiro Luiz Antonio, que depois virou Teatro Abril e hoje é Teatro Renault.

 

Fomos de ônibus do pensionato onde elas moravam, no Bixiga, até o Largo São Francisco, onde havia uma floricultura enorme chamada Dierberger, em que uma das minhas irmãs comprou-me um cravo branco, dizendo: “quem sabe você oferece esse cravo ao Chico”.

 

Elas eram universitárias e para minha sorte bastante antenadas com a então efervescente MPB. Do Largo São Francisco até o teatro, fomos caminhando. 

 

Vale aqui um parêntese: meu encantamento por Chico Buarque já vinha desde os 11 anos quando o ouvi no rádio cantando ‘Olê olá’. Daí em diante, só foi crescendo a minha admiração por ele. E eu era a única fã de Chico Buarque no meio das amigas. Todas só queriam saber da turma da Jovem Guarda.

 

Ao chegar ao teatro, meu coração pulava e no início do show, já disparava. E vieram os outros cantores: Edu Lobo, MPB-4, Elis Regina, Elisete Cardoso, Nara Leão, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Márcia, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, até que chegou a vez do Chico. Ele foi o último. Imaginem o meu deslumbramento. Estava em completo êxtase.

 

Chico cantou “A Rita” e “Pedro Pedreiro”. O público aplaudia muito. Nessa hora eu parei de bater palmas, me levantei e atirei, da sétima fila em que estávamos sentadas, o cravo pra ele. O cravo caiu na sua frente. Ele se abaixou e o pegou. Eu gritava: “Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo!”

 

As pessoas que estavam por ali riam de mim, de tamanha tietagem.

 

Depois que Chico Buarque cantou, voltaram todos os artistas para o palco para receber os aplausos finais de despedida e agradecimento e o Chico Buarque, sempre com o meu cravo na mão. Até fecharem as cortinas.

 

Na minha ilusão adolescente, eu respondia: “tomara que seja pra mãe dele: Dona Maria Amélia”.
 

 

Maria Antonio Vargas de Faria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: sem medo, partimos com uma pequena mala

 

Por Sônia Santos
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

 
Quando eu era jovem havia muita gente a minha volta, muitos com quem conversar, família, as amigas do colégio, os vizinhos da minha rua. Suzana e Margareth moravam na esquina, duas casas planas cheias de luz, cercadas por um magnífico jardim e toda a nobreza de um quintal de amoras e pitangas. Cresceram ali, na companhia de numerosos irmãos e mais uma dezena de primos, todos aos cuidados da avó, uma senhorinha amorosa e dedicada, enquanto os pais e os tios tomavam conta da fazenda da família.

 

A casa da Hercília e Tomás quase sempre, toda fechada, guardava certo mistério, os móveis escuros, austeros, as paredes forradas de sisudas fotografias, a penumbra, o silêncio… Era o cenário perfeito aos segredos da nossa efervescente juventude.

 

Contava também com a cumplicidade de vovó Vicentina, com quem passava eternas tardes ouvindo as histórias de um passado de tantos risos e lágrimas, como só as avós podem ter. E eu, com o mais insignificante presente.
 

 

Foram uns poucos anos, mas duraram toda uma vida! Nada, não havia nada que fizesse despertar em alguém qualquer curiosidade, vida leve de adolescente sem outra preocupação que a própria felicidade. Assim seguia o tempo, trocando de vez em quando alguns nomes, poucos lugares e quase sem pensar eu já estava mudando o rumo dos acontecimentos.

 

Certo dia, com o solene apoio da minha avó e o olhar espantado do meu irmão, eu e minha irmã decidimos ir morar em São Paulo. Era fim de ano e havia um justo propósito, Ano Novo, vida nova! O futuro sorria-nos maravilhoso e a cidade grande nos fascinava…

 

Poucos dias depois, com todos os nossos pertences numa pequena mala partimos sem medo, nossa vida acabara de começar!
 

 

Sônia Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: uma carta escrita pelo livreiro da cidade

 

Por José Xavier Cortez
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Esta é uma carta de alguém que se tornou editor e livreiro nessa cidade.
Cidade que acolhe pessoas que aqui aportam, vindas desse mundão de meu Deus, e o fazem sem indagar, sem exigir, sem distinguir se sua busca quer o bem ou não. Aqui nos fixamos.

 

Chegamos às vezes trazendo apenas uma única indicação, ou simples carta de apresentação para nos mostrarmos aos residentes daqui. Indicação ou apresentação obtidas por vezes junto a alguém conhecido na nossa origem, parente ou não.

 

As incertezas, o pavor, o medo, nos acompanham. De repente você se vê tão pequeno, diminuído, com pouco ou nenhum saber no meio dessa multidão, que está a disputar e a conviver com todas as bondades, riquezas e mazelas da grande cidade.

 

Minhas lembranças voltam no tempo. Só hoje, não sei porque não pensei nisso antes. Resolvi agradecer de coração por tudo o que de bom o povo dessa cidade de São Paulo me proporcionou e ainda me proporciona.

 

Quando aqui cheguei, no dia 05 de janeiro de 1965 não imaginava que quarenta anos depois, em 2005, receberia o tão honroso título de cidadão paulistano concedido a mim pela Câmara Municipal de São Paulo.

 

E não imaginava também que essa honra, 51 anos após minha chegada, se ampliaria a ponto de ver uma escola pública estadual da cidade de São Paulo ser denominada Escola Estadual José Xavier Cortez, homenagem sancionada pelo Governador de São Paulo, Gerald Alckimin, em 2016, ambas as indicações formuladas pelo vereador e posteriormente deputado estadual Carlos Giannazi.

 

Por que a mudança para São Paulo?

 

A punição que me impôs o regime militar em 1964 me fez mudar do Rio de Janeiro para cá. Não tinha profissão, mas tinha vontade ferrenha e muita disposição para ir à luta, para crescer, para me desenvolver como pessoa e como cidadão.

 

O que eu não queria mesmo era voltar para o local de onde saíra dez anos antes, o sertão do Rio Grande do Norte, sem conhecimentos, a não ser aqueles que você adquire observando o cotidiano das grandes cidades e que se traduzem no corre corre das pessoas, nas enchentes, nas favelas, na miséria, na riqueza não distribuída, nos crimes, etc.

 

Foi dentro desse contexto que consegui meu primeiro emprego sem carteira assinada, como lavador de carro num estacionamento que ainda existe hoje, na Rua Asdrubal do Nascimento, no centro de São Paulo.

 

Tenho apreço e orgulho de viver e trabalhar com minha família nessa cidade.
Foi ela que me ofereceu toda infraestrutura para minha aprendizagem e meu crescimento, tendo contribuído decisivamente para que eu construísse e consolidasse aquilo que sou e que faço hoje: ser um editor e livreiro em permanente comunhão com a metrópole.

 

José Xavier Cortez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: na loucura da cidade, um tempo para cuidar de pessoas

 

Por Maria José Fernandes Amaral dos Santos
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Me conhecem por Zezé Amaral. Hoje sou psicóloga. Cheguei em São Paulo com 5 anos, sou da Bahia, fui criada aqui: estudei, trabalhei, namorei, casei, tive um filho e montei um trabalho maravilhoso.

 

Há 13 anos, um amigo me chamou para atendermos dependentes químicos e seus familiares. Esse trabalho existe, totalmente de graça, até hoje. Todas às sextas-feiras das oito às dez da noite, eu e mais uma equipe de seis voluntários nos reunimos e oferecemos esse atendimento, individualmente e em grupo. Desde então, já fizemos mais de 8.000 atendimentos, todos registrados, com lista de presença e ficha de cada pessoa que passou por lá.

 

Com toda essa loucura que é a cidade, conseguimos separar um pouco do nosso tempo para dedicarmos a essas pessoas. Pessoas carentes e sem perspectivas de vida. Conseguimos muitas vitórias, claro, muitos fracassos, também, pois parar de usar drogas não é fácil, é um trabalho contínuo, para o resto da vida, exige sacrifício do dependente e auxílio da família.

 

Damos assistência por telefone, internamos quando é necessário, temos alguns contatos para internação gratuita e outros quando podem e estão desesperados procuram internação paga. Ocupamos o espaço do Centro Espírita Meimei, não falamos de religião, não é este o objetivo, trabalhamos à prevenção de recaída das drogas dos dependentes e da emocional da família.

 

Porque não falamos de religião, porque atendemos qualquer uma, muitas vezes alguns evangélicos nos procuram escondidos de seus pastores, mas o que importa para nós é que não voltem a usar drogas.

 

E acredite: isso acontece na cidade de São Paulo. Nessa cidade maravilhosa que acolhe todos que chegam. Essa é a minha história, de fazer a diferença em São Paulo.

 

Zezé Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua histórias, também: envie o texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: conduzido pela bengala branca do cego

 

Por Suely A. Schraner
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Era um dia nublado quando chegamos para a primeira reunião na Fundação Dorina Nowill para Cegos. O sonho da mobilidade e maior autonomia, na ponta da bengala.

 

Bengala branca. Esta bengala é um recurso fundamental para garantir a mobilidade do deficiente visual. Mantém a postura ereta. É como uma extensão do braço. Adepta da geometria. Com sua ponta ela toca linhas retas, linhas curvas e suas subdivisões. E toca também o lixo, pernas distraídas, entulho na calçada. Encaixa copos descartáveis jogados no chão. ..

 

A bengala, muitas vezes, é rejeitada e dá medo. Remete ao preconceito. Sinônimo de velhice. Haja vista o logotipo no bilhete do idoso, aquele, simbolizado pelo bonequinho curvado, segurando uma bengala e simulando dor nos quadris. Ai, ai…

 

Sensibilizar os espaços. Desafiar inseguranças, vencer o medo. Compartilhar vias públicas e multiplicar respeito, um desafio permanente.

 

Na sala de reuniões, um grupo ávido por mais autonomia para finalmente poder circular por aí.

 

Um disse que a mobilidade está dentro da gente. Outro sonha ter três bengalas: uma para direcionar, outra para apoiar, e uma terceira para buzinar. Ideal de outro com as vistas avariadas: nunca fazer sinal para o caminhão do lixo parar pensando que era o ônibus.

 

Aprendi que, na Atividade Vida Diária (AVD), a terapeuta ocupacional, dá condições ao deficiente visual para fazer o que quer, com mais segurança. Por exemplo, fritar um ovo sem se queimar.

 

Na Fisioterapia, o objetivo é fortalecer os músculos e desenvolver um bom padrão de marcha, ou seja, pisar primeiro o calcanhar e em seguida a planta do pé. Além disso, trabalhar a lateralidade: esquerda e direita.

 

No Programa de Orientação e Mobilidade, a importância da auto-segurança. Enfim, todas as áreas estão interligadas.

 

Neste compartilhar, um olhar mais apurado pela região da Vila Clementino. Uma legião aflui para aquele quadrilátero hospitalar: ruas Borges Lagoa, Pedro de Toledo, Marselhesa, Napoleão de Barros, Botucatu e Diogo de Faria.

 

Brigando com postes, saídas de garagem, reformas e calçadas esburacadas. Superando preconceitos. Construindo dias melhores.

 

Na condição de Guia Vidente. Aprendo a verbalizar a lateralidade: ao invés de dizer de dizer “tem um lugar aqui”, falar: “tem um lugar à sua frente, à direita”.

 

Que a pessoa com deficiência visual, deve segurar na altura do cotovelo do guia vidente, no pulso ou ombro, dependendo da diferença de altura entre ambos. Facilitar a acessibilidade.

 

Eu e ela atravessamos as mesmas ruas, percorremos estes caminhos. A geografia do cego é um mundo visto pelos ouvidos, vozes, cheiros e toques.

 

Não é um cajado de Moisés ou um cetro de Reis. É a sua bengala branca que a conduz. Segue compartilhando a via pública, os pisos táteis. Tateando vida afora, multiplicando respeito. Driblando preconceito e a falta de respeito de alguns. Ser incluída é poder circular pelo mundo com desenvoltura.

 

Outro dia, pedi a uma jovem no ônibus para dar o lugar para ela. A moça recusou dizendo que o banco para cegos era o outro, mais atrás. No fim, uma senhora que estava lá, levantou-se espontaneamente e cedeu o lugar. Percebi depois, que além de idosa ela estava indo para uma quimioterapia, no Hospital São Paulo.

 

Dias destes, ouvi de uma deficiente visual:  “tenho a preferencial, mas, se não me cuidar, me derrubam no chão”. Há néscios dos direitos e da solidariedade .Há também os que multiplicam respeito. Menos mal.

 

No quadro da recepção da Fundação há uma inscrição que diz mais ou menos isso: a melhor maneira de agradecermos por enxergar é ajudar quem não vê. Uma maneira inefável de levar a vida. Na guerra contra o preconceito, compartilhando a via pública e multiplicando respeito.

 

Nota: “Uma em cada cinco vítimas de quedas atendidas no Hospital das Clínicas, (em agosto de 2012), se acidentou nas calçadas de São Paulo.”FSP 05.11.2012

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Claudio Antonio e narração de Mílton Jung. O programa vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP.