Conte Sua História de São Paulo 467: depois de sofrer com a Covid-19, a alegria com as “Amigas da Consolação”

Rita Amaral

Ouvinte da CBN

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Meninas da Aclimação é como nos identificamos até hoje. Atualmente somos seis amigas. Há muito tempo, fomos meninas. Hoje, somos as Senhoras da Aclimação. Perdemos uma das meninas no ano passado.  Sou da Aclimação desde os anos de 1950 quando mudei com a família para a Rua Baturité.  O jardim que leva o nome do bairro já foi chamada de Jardin d Aclimatacion, um belo espaço de Paris que inspirou o dono dessas terras, Carlos Botelho, a criar um zoológico e um local para aclimatação de espécies exóticas. Fica no centro de São Paulo. 

O Jardim estava a uma quadra de distância da nossa rua. Era seguro ir até lá com as meninas. No parque, minha mãe me levava para tomar sol e encontrar outras crianças. Na calçada da rua, brincávamos de amarelinha; pulávamos corda e nossas bonecas nos divertiam. Às seis horas, com o fim da tarde, a mãe de uma de nossas amigas nos chamava para entrar e ouvir no rádio “A benção do Padre Donizete.” Ao lado do rádio, nos esperava um copo de água benzida.

Na adolescência, nos encontrávamos nos bailes de garagem. O som de Ray Conniff, Nat King Cole e Elvis Presley na vitrola foi testemunha dos primeiro namoros — que eram motivos de trocas de informações constantes entre as meninas. Delas fui a última a me casar. 

As meninas da Aclimação tiveram filhos e isso mudou o tema das nossas conversas. Não havia mais bailinhos para os encontros, então nos reuníamos nas festas infantis. Algumas fizeram suas primeiras viagens para o exterior. 

Nossos filhos casaram. Somente duas de nós continuamos morando na Aclimação. Mesmo assim nos encontrávamos em algum restaurante da cidade, sempre próximo do fim do ano. Havia trocas de presentes, de histórias e memórias.

Em 2020, fiquei quatro meses internada em estado muito grave devido a Covid-19. Ao me recuperar, procurei as meninas para encontros virtuais no Zoom, no Google Meet, em alguma dessas plataformas. Ninguém tinha e-mail. Ainda bem que descobrimos as chamadas de vídeo no WhatsApp. E desde lá, há cinco meses, toda terça-feira, às cinco da tarde —- antes da Benção do Padre Donizete —- nos reunimos. Até mesmo uma das meninas que hoje mora no Chile, mas adaptou sua agenda para estar com a gente.

Conversamos sobre nossas famílias, netos, receitas. e cuidados Compartilhamos nossas aflições e nossas conquistas. Em 2020, duas de nós ficaram viúvas. A despeito da pandemia, estamos mais próximas. Nosso encontro de fim de ano agora é toda semana graças as chamadas de vídeo. 

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Rita Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: o direito de ser dançarina

Cida Serafim

Ouvinte da CBN

Estou com 33 anos. E recuperei o direito de dizer que sou dançarina contemporânea. Eu explico. Atuei nos palcos por dez anos. Nos últimos quatro, não dançava mais nem praticava qualquer atividade física. Depressão, lesões, autocrítica exacerbada e a certeza de que a arte aqui estava fadada ao desmonte.

Eu não tinha forças para qualquer luta coletiva ou mesmo segurança para expor o que eu acreditava ser minha expressão. Minha voz estava muda. Dores simbólicas e concretas me assombravam há muito tempo. Ao entrar 2020, após quatro anos trabalhando com produção de eventos e sofrer uma estafa gigantesca, decidi que só trabalharia no ramo de alimentação: restaurantes, cafés. Tinha alguma experiência e bastante jogo de cintura. Era o plano perfeito. Mas lá no fundo uma tristeza gigante me consumia.

Com a pandemia e o isolamento, tive um crise de dores na coluna que me deixou na cama. Um mês isolada e quase imóvel; tempo que levei para reunir forças e pedir ajuda. Um WhatsApp aqui. Uma ligação ali. E numa dessas um amigo me indicou o trabalho de um fisioterapeuta que fazia teleatendimento com artistas do corpo. Teleatendimento em fisio?  Sim!

Semana a semana, ideias equivocadas sobre o corpo, reabilitação, dores crônicas e lesões persistentes foram desconstruídas. Perdi os 10 quilos que acumulei no isolamento. Ganhei confiança. Tomei coragem. Gravei vídeos no Instagram. Retomei contato com as parceiras de dança. E meu corpo respondeu tão bem aos estímulos, ao apoio e a generosidade de Leandro Fukusawa, o fisioterapeuta, que decidi voltar à dança.

De modo quase inexplicável, a vida mostrou meios e caminhos para que isso fosse possível. Hoje, tiro do papel e do campo das ideias, um projeto que vai justamente olhar para essa história de superação através do movimento.

Nunca imaginei que a tecnologia abriria a porta para minha reabilitação, que eu voltaria a dançar e contaria essa história para não ter dúvida de que mesmo em meio ao caos e à falta de esperança, a vida ainda pulsa. E dança. 

Cida Serafim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de SP 467: o grupo de WhatsApp que mexeu no meu bom retiro

Por Betty Boguchwal

Ouvinte da CBN

“Os quadros e as obras de arte marcam

a presença dos moradores numa casa.

Digo isso porque a decoração

podemos encomendar a um profissional,

mas a arte nós que escolhemos”.

Maurício Boguchwal

 

Dentre os inúmeros grupos de WhatsApp e reuniões via plataformas digitais que movimentam e atenuam o isolamento social e, também, diversificam o cotidiano e cenários desta interminável quarentena, seleciono o grupo Bom Retiro — um coletivo com lotação máxima de 256 pessoas com larga faixa etária, comprovada vivência neste bairro — condição sine qua non para marcar presença nesse “hospício”, como é carinhosamente chamado. Daí o slogan:

— Você sai do Bom Retiro, mas ele não sai de você!

O dito bairro carece de uma revitalização digna da história de seus antepassados para, atualmente, marcar a presença da comunidade judaica em São Paulo. Na primeira reunião, agendada para às oito e meia da noite de uma quarta-feira, excepcionalmente eu estava on time. Sabe, com tantas reuniões no Zoom, eu criei um lugar, melhor dizendo, puxo uma mesinha que expõe antiguidades, substituo um telefone quadrado de disco, bege com dourado, pelo meu fiel companheiro notebook Dell, e arrasto a referida mesinha em frente ao sofá, onde me sento sempre no mesmo lugar, óbvio, na esquerda.

Ora, esse tipo de reunião em plataformas digitais tem as mais diversas demandas, com um anfitrião muitas vezes desconhecido, além de muitos outros convivas, que abre a sala Zoom, Google Meet, etc, com uma lista de convidados e agregados. E com esse convite você acaba entrando na residência, local de trabalho, enfim, lugares diversos de pessoas que invariavelmente você irá conhecer ou não, com tudo e todos dispostos na tela vertical. A propósito, a pauta dessa reunião era a revitalização do Pletzl — maneira carinhosa de chamar a esquina da Rua Correia de Mello e Rua da Graça, cercada pelo comércio atacadista, uma sinagoga histórica, hoje convertida no Museu Judaico do Holocausto, e bancos, onde nossos pais, avós se encontravam e sabiam das novidades, negócios e fofocas.

E não é que em meio aos “boa noite”, Mauro me faz uma pergunta bem peculiar:

— Este quadro aí atrás é muito bonito, ele é original?

Olho para trás e respondo:

— Não, este é uma reprodução, afirmei.

— Ah, mas ele é tão lindo, que nem pude identificar que fosse uma cópia, complementou.

De fato, Mauro tinha razão. Trata-se de um Alfredo Volpi. 

Caramba, com tantas reuniões sentadas neste mesmo lugar, como vem este Mauro com esta observação singular?

Pois é, tanto a sala, como o apartamento  inteiro estavam com muito pó, e embora isto não fique visível no Zoom, ele involuntariamente passou um aspirador não somente em todo o imóvel, como também na minha cabeça. No dia seguinte, ele me moveu a um ato, já ensaiado há um considerável tempo. Desembalei todo o acervo de quadros, esculturas, obras de arte, enfeites que vieram da residência da minha mãe, desde sua partida final, há um ano, e que estavam escondidos da minha visão.

Em outra parede, pendurei uma autêntica mulata de Di Cavalcanti. E que mulata! Aos poucos, fui selecionando com a Márcia, a co-herdeira, outros quadros e objetos, os quais, prazerosamente distribui no meu novo ambiente e ela, respectivamente, fez o mesmo no seu. Ou seja, eu simplesmente revitalizei a sala com diversas e singulares imagens em fortes cores. Ah, incluí a presença dos meus pais na minha casa, à minha moda.

Quanto ao objetivo do grupo, revitalizar o Pletzl, a prefeitura se encarregou da obra física e elegemos Artur Lescher, escultor, para criar a obra que contemplará o espaço histórico. 

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Conte Sua História de SP 467: passei de ano com meu Arthur

Por Odnides Pereira 

Ouvinte da CBN

Nasci na Zona Norte da Capital em 21 de abril de 1959. E por aqui sempre morei. Quando estudante, frequentava a escola pública. Você haverá de saber que naquela época não existiam email, Facebook, WhatsApp, Twitter … nem mesmo computador.  Imagine o que foi se adaptar a essa nova escola. Meu neto,  Arthur, hoje com sete anos, mora comigo e minha esposa desde os dois anos de idade. Está no segundo ano fundamental do colégio Palavra Viva, aqui na Zona Norte.

Em 23 de março de 2020, ao levá-lo na escola, como faço todos os dias —- ou fazia —-, fomos avisados que as aulas estavam suspensas devido à pandemia. E o que acontecerá agora? Ninguém sabia dizer ainda.

As respostas a essa dúvida começaram a chegar no WhatsApp. 

Uma semana depois a mensagem recebida dizia que as atividades seriam virtuais e deveríamos esperar mais um ou dois dias pois ainda estavam concluindo o cadastramento dos alunos no Google Meet — Sala de Aula. 

Foi pelo WhatsApp também que fomos chamados na escola para buscarmos livros e cadernos a partir de um sistema de drive-thru organizado pela escola. Chegamos de carro, baixamos o vidro, um funcionário com máscara entregou uma caixa com todo o material do meu neto dentro e voltamos para dentro de casa.

Confesso, em um primeiro momento ficamos todos perdidos tal a transformação tecnológica em nosso entorno. Chegamos a ficar atrasados com as aulas por um semana —- algumas coisas que deveríamos fazer, nós perdemos. Os professores foram compreensivos e o conteúdo que havíamos deixado para trás foi recuperado.

Em casa nos adaptamos, também. Separamos uma mesa para todos os cadernos, livros e os demais materiais a serem usados na escola. Nas provas, Arthur dizia: — “Vô, vó, por favor, saiam daqui de perto, hoje tenho prova pra fazer.”. A gente obedecia.

As aulas virtuais foram de vento em popa. E nós começamos a aprender algumas coisas. Desde os primeiros dias observei o quanto os professores são pacientes e perseverantes. Nessa pandemia, eles estavam dentro da minha casa, viraram nossos parentes. Até sabíamos quando eles tinham algum problema familiar. E aproveitávamos para conversar pelo WhatsApp ou pelo próprio Google Meet nos intervalos de lanche.

Pela tecnologia e o esforço dos professores, foi possível ao meu neto ter recebido todo o conteúdo do ano, da mesma forma que se estivesse na escola. E, felizmente, encerramos o ano letivo. Meu neto Arthur, a vó dele e eu passamos de ano.

Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo em homenagem aos 467 anos da nossa cidade. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e curta outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de SP: o desembarque na cidade após a Segunda Grande Guerra

Anna Maria Amato Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Eu e minha família chegamos no Brasil, em São Paulo, vindos da Itália, em 1950, após a Segunda Grande Guerra Mundial. Tínhamos passado, por determinação de meu pai, cinco anos viajando por muitas cidades e vilarejos em busca de lugares menos perigosos e longe de bombardeios e de objetivos bélicos.

Acabada a guerra, em 1945, voltamos à nossa cidade Messina, na Sicília, encontrando-a quase totalmente destruída. Foi a cidade que mais recebeu bombardeios aéreos e navais, devido a sua posição geográfica estratégica.

A decisão de meu pai, então, foi buscar trabalho em outro país e como ele mantinha contatos no Brasil, não deixou escapar a oportunidade… Naquela época para entrar no país, somente com um prévio contrato de trabalho.  Chegamos aqui depois de 21 dias de viagem de navio, com muitas ilusões e sonhos: o Brasil era notadamente pacífico.                                 

São Paulo logo nos pareceu uma grande metrópole e não demorou para nos inserimos em um ambiente agradável: italianos, filhos e netos de italianos, “quatrocentões” — cujos filhos tinham estudado na Europa —  e outros descendentes de pais asiáticos.  

Povo alegre e colorido!

Eu, com 18 anos, observava que na maioria das vezes prevaleciam costumes afrancesados; de fato havia restaurantes franceses; a Aliança Francesa, muito frequentada que, além de cursos de língua, oferecia espetáculos teatrais. As lojas de moda de prestígio eram francesas. Ditava a moda, a tecelagem Francesa. Em vários programas de rádio eram tocadas música com cantores que faziam sucesso na França. 

Os colégios de freiras, mais conceituados, eram franceses; e  à época dos anos 1950-1960, numa São Paulo cosmopolita de mais de um milhão de habitantes, notava-se uma “média burguesia” em busca de afirmação e com uma boa bagagem intelectual.

Naqueles anos, a população contribuiu muito para o progresso de São Paulo por isso guardo no meu coração com carinho aqueles anos dourados cheios de promessas e ilusões.

Quando me perguntam se a pandemia de hoje se equivale a guerra que eu passei, respondo que esta é mais assustadora. Não obstante os cinco anos de perigo constante, nós conhecíamos o inimigo e suas estratégias. Agora, o vírus é um inimigo cruel, obscuro e imprevisível, mas tenho fé de que a humanidade vai conseguir desmascará-lo e superar este momento mesmo tendo pago um duríssimo preço..!  

Anna Maria Amato Nardellii é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “Pensão no Brás, avenida Mercúrio, reservada por Amigo”

Alceu Sebastião Costa

Ouvinte da CBN

Minha querida São Paulo, que eu escolhi como abrigo,

Há 52 anos, pela primeira vez, aqui desembarquei,

Pensão no Brás, Av. Mercúrio, reservada por Amigo,

Olhos postos no futuro, de lágrimas e esperança inundei.

 

Cidade em franco desenvolvimento, tijolos e cimento,

No teu colo, sem arrependimento, vivi cada momento

Da busca acelerada, mesclando terra, ar, água e fogo

Vezes sem escapatória do arrojo em detrimento do povo.

 

Muito sangue e suor derramados, caminhos sem volta,

Falta de moradia, a rua como último bastião alcançado

Pelo cidadão que, a bem do sucesso e do progresso,

Deu a sua contribuição solidária, voluntária e solitária

Ainda que consciente dos riscos sobre o fio da navalha.

 

Meu Amigo, que como eu, em Sampa um dia aportou,

Seja condescendente, generoso e renove a esperança

De vê-la livre das maracutaias, desrespeitos e mazelas;

Afinal, a nossa Urbe, que, no 25 de janeiro,

Alcançará orgulhosa seus 467 anos de esplendoroso vigor,

Traz também em seu histórico memoráveis feitos de Amor.

 

Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele já esteve outras vezes aqui no quadro, sempre com poesia e realidade. É só procurar lá no meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. E você já é nosso convidado para enviar seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e participar da série especial de aniversário de 467 anosa da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo: o bolo do Natal de 1963

Por Luiz Carlos Silva

Ouvinte da CBN

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Papai adorava ler Karl Marx e mamãe encantava-se com a leitura de Allan Kardec. Eu, aos oito anos de idade, sem entender absolutamente nada do conteúdo daqueles estranhos livros, relia minha cartilha Caminho Suave e alguns gibis do Zorro e do Fantasma, sutilmente  escondidos entre as páginas da cartilha para não serem vistos por mamãe e evitar uma boa surra de vara de marmelo.

Na véspera do Natal de 1963, papai saiu de casa, no pacato bairro Parada Inglesa para participar de uma reunião no Sindicato de Brinquedos e Instrumentos Musicais, na avenida Celso Garcia, no Brás, e prometeu a mamãe que voltaria para a confraternização natalina.

No início da noite, mamãe começou a fazer um bolo de morango e ao terminar o colocou cuidadosamente sobre a mesa. Ato contínuo, disse que só comeríamos o bolo quando papai chegasse.

Desolado, sentei-me diante do bolo e com as mãos no queixo e os cotovelos sobre a mesa, sussurrei uma oração para Jesus pedindo o retorno de papai o mais breve possível. O tique taque do relógio cuco na cozinha e alguns estampidos de fogos que iluminavam o céu, anunciavam a proximidade do dia do nascimento de Jesus e me deixavam inquieto. De soslaio, mirava minha mãe e a porta da cozinha para saber se papai estaria chegando. Entre um olhar e outro, passava o dedo no bolo e o levava rapidamente até a boca.

Alguns minutos para a meia noite, pai chegou com um um embrulho embaixo do braço. Meu sorriso de felicidade iluminou a cozinha. Finalmente, poderia comer o bolo. Papai, me deu o embrulhado acompanhado de um carinhoso beijo na testa. Meus olhos marejaram diante da bolão de capitão, número cinco, cheirando couro cru, que estava embrulhada para presente. Com um abraço muito forte e vários beijos no rosto agradeci ao papai.

Fomos para a mesa, nos demos às mãos e mamãe iniciou uma interminável prece agradecendo a tudo e a todos. Ao fim, nos abraçamos e desejamos um Feliz Natal! O bolo de morango finalmente pode ser cortado, servido e saboreado —-  claro que sem passar despercebido de todos à mesa as inúmeras marcas de dedos, prova inconteste de um menino guloso e ansioso. Logo em seguida, dormi em um velho sofá na varanda, lambuzado de bolo, abraçado na bola de capitão, com o tique taque do relógio e o barulho dos pingos de chuva que se iniciava…. Era o Natal de 1963.

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Conte Sua História de São Paulo: das conversas com meu sogro

Por Pina Boffa

Ouvinte da CBN

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Relembro histórias de João Boffa, meu sogro, nascido em 1925, descendente de imigrantes italianos e espanhóis. Conheceu e viveu coisas em São Paulo que hoje fica difícil de imaginar. Fui apresentada a ele em 1979,  tinha 54 anos e gostava de contar as histórias da infância e juventude e das transformações tecnológicas que vivenciou.

Ele e a irmã mais nova, Melitta, ficavam responsáveis por cuidar dos primos enquanto os tios trabalhavam. O que servia de boa desculpa para passarem os dias brincando, seja nas ruas de barro seja no cortiço onde os primos moravam —- segundo ele, sentindo o cheirinho da comida gostosa que as mamas preparavam em cada cômodo. Apesar de terem uma infância pobre e sacrificada, os natais eram inesquecíveis, todos os primos reunidos; a árvore de Natal decorada com chocolates …era tudo mágico para eles.

Contou-me que, certa vez, enquanto ele e os amigos nadavam no rio Tietê, os guardas da cavalaria do quartel Tobias Aguiar esconderam suas roupas. Quando saíram do rio, perderam um bom tempo para encontrá-las e se atrasaram para chegar em casa, o que  lhes rendeu uma boa surra. Os clubes de Regatas Tietê, Associação Atlética São Paulo e o Clube Esperia (Floresta) organizavam competições de canoagem. Os juízes ficavam instalados próximo a ponte das Bandeiras. Lá nesses clubes, ele praticou canoagem, nadou e mais tarde criou os filhos. Quando criança adorava jogar futebol e se destacou no time da Macedônia, sendo convidado para participar do grupo de jovens do Palmeiras, mas acabou não aceitando o convite, porque não queria dividir seu salário com o técnico.

Quando entrou na fase adulta, aproveitou a vida noturna, dançava de segunda a sexta nos “dancin” da capital, ali na avenida Ipiranga, na Libero Badaró e na rua São Bento. Ele e alguns amigos abriam os bailes, criando um clima favorável para os cavalheiros mais tímidos. Os “dancin” eram populares com suas dançarinas de cartela em punho que iam sendo picotadas pelos cavalheiros a cada dança executada ao som das grandes bandas, que tocavam Glenn Miller e Tommy Dorsey.

Circulava pela cidade de bonde; tomou o trem das onze muitas vezes; viu a cervejaria Antarctica distribuir suas cervejas de carroça, puxada por quatro cavalos, e o leite em garrafa e o jornal serem entregues na porta da casa. Presenciou o surgimento da geladeira, da televisão; viu o homem chegar à lua. 

Confesso que pelas histórias que ouvi dele, nem tudo mudou para melhor em São Paulo. Hoje, a avenida Tiradentes tem um trânsito infernal e os rios são esgotos a céu aberto, os clubes lutam para sobreviver e alguns não resistiram ao tempo. As pessoas que circulam pelo centro estão longe de estarem vestidas impecavelmente como ele descrevia nos anos 40, 50 e 60. No lugar dos trens e bondes, ônibus e metrô lotados.  A vila que morava, a travessa Lúcia, antes tombada pela prefeitura, devido as suas casas estilo inglês, hoje está desfigurada — perdeu o charme da época. As casas seguem sendo habitadas por imigrantes, a maioria bolivianos que luta para sobreviver nessa selva urbana. 

A cidade, com todas suas transformações, foi palco de uma vida intensa e feliz, onde ele conheceu minha sogra Dona  Maria, casou e teve dois filhos Meu sogro viveu e morreu os 92 anos nesta cidade maluca que ele adorava. 

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Conte Sua História de São Paulo: “pergunta o resultado do jogo, vai …”

De Vanessa Guimarães de Mendonça

Ouvinte da CBN

 

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Naquele tempo, eu morava com minha família no bairro do Ipiranga e todo sábado, com a minha irmã Lúcia, fazíamos aula de espanhol no Butantã. O professor era nosso amigo Adonay. No dia 13 de outubro de 2001, na volta da aula de espanhol resolvemos ir até um shopping de móveis, na Marginal Tietê. Descemos próximo à estação de metrô que na época se chamava apenas Tietê;  hoje é  Portuguesa-Tietê. 

Seguíamos em direção a ponte para transpor o Rio Tietê e ter acesso ao shopping quando de longe vimos vários torcedores do Palmeiras deixando o estádio do Canindé, com suas camisas verdes, e avançando sobre a ponte, em direção ao metrô. 

O Campeonato Brasileiro de Futebol estava na primeira fase e a Portuguesa havia recebido o Palmeiras em seu estádio. Deu para reparar que a torcida vinha quieta e cabisbaixa. Olhei para minha irmã e vi uma sombra no seu olhar. Ela fechou a cara e olhou para o chão. Era uma época em que não havia smartphone, não tínhamos a CBN na palma da mão. Para saber o resultado de um jogo era preciso chegar em casa e ligar o rádio, ou andar com um rádio de pilha. Eu fiquei muito curiosa e pedia para a Lúcia: “pergunta para eles o resultado do jogo. Pergunta quanto foi, vai, vai …”. Minha irmã, mal-humorada nem respondia.  

Na ponte, os pedestres tinham de caminhar espremidos nas laterais, numa passarela de no máximo 1,60 m, com o Rio Tietê abaixo e entre as pistas da Marginal, uma das avenidas mais movimentadas da América do Sul. Eu e minha irmã avançando e a torcida caminhando em nossa direção.  Os torcedores passavam calados como em um cortejo. Minha irmã se somava àquela tristeza. Eu cutucava a Lúcia: “Pergunta, pergunta!”. Para meu azar, a expressão de tristeza e decepção da minha irmã era inversamente proporcional ao triunfo que se desenhava na minha face, porque faltando cinco metros para terminar a passarela, um torcedor veio em minha direção e disse: “tô sentindo cheiro de corintiano!”. Agarrei no braço da minha irmã e logo revelei: “Ela é palmeirense! Ela é palmeirense!”. O moço não se deu por contente —- nada o deixaria contente naquele diz: “e você?”

Eu, bem, eu tinha abaixo o rio Tietê, à frente a Marginal, tava logo ali, a cinco metros da rota de fuga. Então, arrisquei: “Eu? Eu sou corinthiana, graças a Deus!”. E corri o máximo que eu podia em direção ao shopping.

Naquela tarde, a Lusa havia vencido o Palmeiras por 2 a 0

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Vanessa Guimaraes de Mendonça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: há cultos sinceros, mas há os vilões, também

Flavio Cruz

Ouvinte da CBN

 

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Tenho saudades da minha cidade. Sei que dizem que ela é violenta, perigosa. Falam tanto dela. Falam que todo mundo é apressado, que as pessoas não têm tempo para nada. Mentira!  À noite as pessoas se reúnem, cantam e contam histórias. Quem quer, sempre tem um amigo; quem não quer, pode ficar sozinho. Não há prazo de adaptação, não há carência. Assim que você chega, você pertence. Todo mundo pertence. E há de tudo!

Há pecados e lugares para se pecar. Há perdão para poder se pecar. É boa de se cantar, é boa para se poetar. Caetano falou que é o avesso do avesso do avesso… e daí eu paro no avesso que quiser, no avesso que melhor me servir.  O Tom Zé canta que nos amamos com todo ódio e que nos odiamos com todo amor. 

E Billy Blanco diz que as portas de aço levantam, todos parecem correr, não correm de, correm para… Para onde, não sei? Sei sim, quero correr para lá. Ela tem de tudo, de todas as formas, todo o tempo. Ela é adulta, ela é criança. É adolescente, também. Às vezes, ela adoece, mas está sempre a se curar. 

Há Consolação, há Socorro, há Liberdade e até uma Casa Verde para não se perder a esperança. À noite, então, nem posso falar. Há gente nos teatros encenando cenas que saciam os cultos e há cinemas ocultos que saciam a vontade de sexo dos incultos. Há cultos sinceros, mas há os vilões do templo também. Há cultos e pastores da noite de quem não quero falar. Há tantas coisas na cidade, em cada canto, em cada esquina. Há dor, muita dor, mas tanta alegria vem junto que às vezes nem sei qual é qual. 

E os sonhos, então?

Tantos sonhos… Tantos segredos, tantas histórias que todos sabem e ninguém quer contar. Há também contos de fada, milagres que acontecem, outros que se compram, alguns que se vendem. 

Há gente de todo lugar, há lugar para todos e em algum lugar sempre algo está para acontecer. Há segredos que não se podem contar. E há contos que não são mais segredos. E há lendas, lendas e mitos. Quase todos são verdade, mas ninguém precisa saber. 

Falam tantas coisas de você… Eu escuto todas e só presto atenção nas que quero. Sinto muito sua falta. Não há cidade igual.  Tenho muitas saudades de você, São Paulo, meu amor…

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Flávio Cruz, um paulistano que vive nos Estados Unidos, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistória@cbn.com.br.