Conte Sua História de São Paulo: “io sono nato al Brás”

César Campos

Ouvinte da CBN

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“Io sono nato al Brás”. Foi a frase que eu disse ao italiano dono de uma pizzaria ótima em Peruíbe: o “Figlio di Vincenzo”. Falávamos de “il paese” de onde vinha o restauranteur, visto que havia várias flâmulas e cartazes da Bologna espalhados pelo recinto, muito rústico e simpático. Ótima pizza. E, sopratutto, me fez recordar o Brás.

Por ser um bairro que é praticamente extensão do centro, se desenvolveu muito cedo em termos de moradia e serviços. Como a industrialização de São Paulo teve seu início ali e na Mooca, basicamente movida pelos empreendedores italianos, a colônia era muito, muito grande. 

O Brás foi formado pelos italianos. Em parte também por judeus e me recordo que em minha rua havia um grande edifício no qual funcionava A escola israelita. Meus vizinhos? Manfredini, Baldon, Bacci, Tabarini, Morelli, D´Arena, Montoldi … Pela graça da origem, o Brás, tinha muitas, muitas cantinas. Algumas famosas ainda até hoje. Tinha também cinemas — objetos de gratas recordações como no filme de Giuseppe Tornatore. A Não havia, como no filme, uma pracinha com um cinema, mas um profusão de salas de exibição. 

A avenida Celso Garcia, mais próxima da minha casa, tinha o Cine Roxy, que penso ter tido uma das primeiras estruturas de “conveniência”. Para se chegar até as bilheterias, atravessava-se um corredor largo e longo, onde havia algumas lojas. Eu sempre fazia fotos oficiais —- de minha primeira comunhão ou de diplomação da escola — no Foto Roxy, que ficava ali no corredor.

O Cine Universo, também na Celso, era algo a parte: 4.500 assentos. Do foyer, a gente jogava pipoca nos infelizes abaixo, como no filme do Tornatore.  O teto do Cine Universo se abria! Que gloria, nas noites de luar e estreladas, era assistir a um filme olhando para o céu!

Um pouco mais adiante, já na Rangel Pestana, havia o Piratininga. Você pode imaginar uma sala de cinema com mais de 5.000 lugares —- sempre lotados. Os homens vestiam terno e gravata; senhoras e senhoritas, vestido rodado.Cantava-se, assobiava-se, aplaudíamos, falávamos alto, e, infelizmente, se fumava. Ainda havia, na Rua do Hipódromo o Cine Safira, e na  Piratininga, o Oberdan.

Minha mãe me levava para assistir as comédias de Jerry Lewis e os grandes musicais e filmes românticos; e meu pai não perdia os Westers de John Wayne ou Randolph Scott.

Como no filme de Giuseppe Tornatore, tudo acabou. Do Universo você nem encontra sinais; do Safira, nada sei. O Roxy havia se tornado uma igreja. O Oberdan hoje é uma loja e o Piratininga é um estacionamento 

Dizem que todo italiano tem um parente próximo no Brasil. Creio que Tornatore tinha parentes no Brás e veio visitá-los quando se inspirou para produzir Cine Paradiso. Giancaldo não era na Sicilia. Era o Brás no microscópio.

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no bolso da calça, tinha uma moeda de CR$ 0,50

João Coradi Neto

Ouvinte da CBN

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Em dezembro de 1972, eu havia completado 20 anos de vida na querida cidade de Dois Córregos, da qual nunca tinha saído pra conhecer novos lugares, novos horizontes. Tudo ali pra mim bastava. Eu vivia feliz. 

 

Dois meses depois, eu estava descendo na Estação da Luz, na capital. Sozinho, com uma pequena mala de roupas, e apenas um endereço na mão — no qual já estavam vivendo meus pais, dois irmãos e quatro irmãs, que haviam se mudado para lá três meses antes de mim; e tendo deixado para trás duas irmãs que estavam casadas. 

Com dificuldade e de madrugada, encontrei meu destino, que estava escrito em um pedaço de papel —- novo começo, nova vida. 

Assim que o dia clareou percebi a séria dificuldade em que viviam meus familiares. Todos desempregados e ansiosamente me esperando. Eu era o único que tinha trabalho — vim para a capital transferido pelo banco em que era funcionário: o Banco de São Paulo S/A — Emissor, que logo foi incorporado pelo Banco do Estado de São Paulo S/A, o Banespa.

Vivíamos com o meu salário de onde saía o dinheiro para pagar aluguel, água,  energia e comida para todos. No dia do pagamento, eu entregava tudo na mão da minha mãe, responsável por controlar as contas. Ela separava moedinhas de CR$ 0,50 centavos de cruzeiros, me dava duas por dia para a passagem de ônibus da Penha ao centro, do centro à Penha, na zona leste de São Paulo. Algumas das moedas eram para meus irmãos saírem de casa em busca de emprego.

Pegava o ônibus logo cedo e passava  o dia apalpando o bolso para me certificar que a outra moeda estava guardada para garantir a viagem de volta. No horário do almoço, para que meus colegas não percebessem que eu não tinha dinheiro para comer, perambulava pelas ruas próximas ao banco, olhando para os restaurantes e lanchonetes com seus pratos e salgados  — o que fazia aumentar ainda mais minha fome. À noite, em casa, geralmente era servido arroz puro. De vez em quando, tínhamos das salsichas, ou dois, três ovos que mamãe cozinhava e dividia em partes iguais para todos na mesa.

Comecei a ficar com raiva da cidade, achava que não era lugar pra morar. Lá no interior, apesar de ter tido uma infância pobre, nunca tinha me faltado algo pra comer. Pensava comigo: “quero voltar, esta cidade é cruel, aqui não dá pra viver”. 

Com o tempo, em casa, alguns arrumaram um emprego aqui outro acolá, às vezes provisório. E cada dinheiro extra nos ajudava a resistir na capital. 

Meus dias foram ficando melhores. O que era raiva virou resiliência. E nessa transformação, surgiu a admiração. Percebi que a cidade nunca havia sido cruel comigo. São Paulo simplesmente me testara para ver seu eu era digno de viver nela.

Aumentou meu círculo de amigos, meus familiares se firmaram no trabalho e fui me apaixonando pela cidade, que havia me recebido de braços abertos e dado todas as oportunidades para que eu e minha família crescesse.  

Hoje, agradeço por tudo que conquistei. Minha esposa, dois filhos, três netas e amigos que moram em meu coração. Sinto-me privilegiado. Nunca deixarei de amar a pequena Dois Córregos, a qual sempre procuro citar nos mais de 800 poemas que escrevi, muitos dos quais publicados em 22 livros, sempre com o apoio da Editora Matarazzo, presidencial pela querida Thaís Matarazzo. 

Da mesma forma que jamais esquecerei de onde nasci, também não deixarei de amar São Paulo que, para mim, é a melhor cidade do mundo.

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Conte Sua História de São Paulo: no pedal da bicicleta, bicho

Ilan Rubinsteinn

Ouvinte da CBN

 

 

Ciclovia? Ciclofaixa? Mountain bike? Não! Desça a avenida São Gualter a toda velocidade. Para diminuir a resistência do ar, saia do selim para o bagageiro. Desastre. Deslize por 50 metros com as mãos e o rosto no asfalto. Não vai sobrar um botão da camisa Franita vermelha, que vai se desgastar inteira como boa parte da pele do rosto. Algumas marcas no dorso das mãos te acompanharão, neste e noutros outros passeios de magrela por São Paulo. 

 

Sobreviveremos, porque são tempos de andar de Fusca, Simca, Galaxie, DKW ou Aero Willys — e só o chefe da casa pode ter um desses. Sobra espaço nas ruas para nossas Monarks e Calóis. Com câmbio, só as de corrida. Capacete? Roupa de ciclismo UV 3XE? Deixa de ser Florisbela, meu! 

 

Vamos por aqui … 

 

Descemos para ao Lapão pela rua Mercedes; tomamos um Colegial na Carmen. Não? Pela lateral do trilho do trem de Santos, passando pelas lagoas, em direção a  Osasco. Não?  Autódromo, cruzando o Rio Pinheiros pelos canos da Sabesp, no Socorro: ali assistimos aos 500 Km de Interlagos e voltamos.  Marginal Pinheiros? O que é isso, xará? Tá louco? Estamos em 1969, bicho!

 

Ilan Rubinsteinn  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, acompanhe em seu agregador preferido o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: a passageira do Uber

Por Henrique Ribas

Ouvinte da CBN

 

 

Viagem quase finalizada. Entro na rua Professor Picarolo. Nunca havia reparado no nome, apesar de sempre passar no local. Era ali o destino final do meu passageiro, um estudante da GV. Em mim, batia um certo cansaço tanto quanto a fome batia no meu estômago. Estacionei, desci do carro, alonguei o corpo, bati a sujeira dos tapetes. Troquei a estação do rádio da Alpha para CBN — é sempre bom ouvir notícias. Tânia Morales se despedia. Pena. Adoro ouvi-la falar de livros e outros temas.

 

Peguei a mochila com a merenda. Um iogurte, uma maçã e duas bisnaguinhas com queijo. Delícia! Deixei o vidro do carro meio aberto. A brisa era boa, o vento gostoso. A metrópole estava silenciosa a ponto de ouvir o barulho água correndo — era a fonte do Mirante Nove de Julho, deixando a água correr por sua silhueta bela, barroca, iluminada …

 

Lanche terminado, fio dental passado, álcool gel nas mãos, halls refrescando a boca, veículo Ok. Hora de voltar para as pistas. Em 30 segundos, o aplicativo anuncia: buscar passageira na rua dos Franceses. Cheguei lá e duas garotas se aproximam. Jovens, de mãos dadas. A menor de cabelos curtos e saia sensual, pede para eu esperar um minuto. Pelo retrovisor vejo as duas conversando. Devem estar falando palavras de despedido. Não ouço, mas leio seus olhos emitindo cumplicidade. Os lábios se tocaram com ternura, paixão e libido. Eu, culpado pela inconveniência, não consegui deixa de assistir àquele filme no meu retrovisor. 

 

A mais mocinha entrou no carro, com uma má vontade clara e pesada, acomodando-se no banco de traz à minha direita. Conferi o destino, iniciei a corrida e partimos. Destino: Pinheiros, Rua Francisco Leitão. Ela ainda deu uma leve olhada para trás. Viu seu amor parado, em pé na calçada, com o olhar fixo no meu Uber que se tornava cada vez mais distante. Encostou a cabeça no vidro da janela e, depois de alguns segundos, cerrou seusolhos languidos, meio úmidos. Como o amor entre as pessoas é algo que inebria. Fiquei enternecido por aquele clima que invadiu o carro. Duas garotas e um sentimento tão puro ao meu olhar. Como o preconceito torna certas pessoas cegas para aquilo que a vida nos oferece. Duas garotas que se amam. 

 

Passeamos na Paulista de vidros abertos. Início de madrugada, vento fresco que banhava levemente nossas caras. No cruzamento com a Peixoto, um biker curtindo sua magrela. À frente, um casal com sorrisos escancarados faz uma self, com o Trianon ao fundo. No farol seguinte, em frente ao Conjunto Nacional, uma galera trabalhava intensamente.

 

Cheguei ao destino: a mocinha, com a cara de quem um cochilo tinha tirado, disse um obrigado doce e me desejou boa noite. Retribuí por aqueles momentos tão especiais, apaixonados e particulares que vivemos naquele percurso. Ela pelo seu amor, deixado provisoriamente na Rua dos Franceses, eu, pela minha cidade. 

 

Henrique Ribas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha primeira e única viagem de bonde, para entrar na história

Por Fátima M.R.F. Antunes

Ouvinte da CBN

 

 

No fim dos anos 1960, o prefeito Faria Lima começou a retirar os bondes de circulação. A desativação do bonde Fábrica, que fazia o trajeto Praça João Mendes e Sacomã, no Ipiranga, foi anunciada para janeiro de 1967. O nome Fábrica se referia à indústria que havia no início da linha, Estabelecimento Cerâmico Saccoman-Frèresa, onde trabalharam o vovô João e o tio José. 

 

Desde 1900, os bondes elétricos eram o meio de transporte popular na cidade. Grandes e pesados, correndo sobre trilhos e dependendo de fiação elétrica aérea, destoavam dos ágeis e maleáveis ônibus, que apareceram décadas depois. Naqueles anos 1960, os bondes estavam sendo substituídos por ônibus.  Ao longo da década, as linhas foram sendo suprimidas. A última viagem de um bonde passou pelas avenidas Ibirapuera, Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro até Santo Amaro — em 27 de março de 1968.

 

De nada serviriam os lamentos da população. A hora tinha chegando. E o bonde Fábrica, que rasgava o bairro do Ipiranga pela rua Silva Bueno, seria desativada. Tia Tereza, irmã caçula de minha mãe, assim como outros milhões de paulistanos, estava agitada com a mudança. Afinal, o famoso bonde Fábrica, presença constante nas boas e más ocasiões, sempre estivera ali, companheiro e solidário. 

 

A família de minha mãe morara no Ipiranga. Primeiro na Rua Lima e Silva; depois na das Juntas Provisórias. Tia Tereza tomava o bonde na Silva Bueno para ir às compras no centro e à infinidade de salas de cinema que havia nas avenidas São João e Ipiranga. No Fábrica, ela, mamãe e vovó visitavam os parentes no Pari, com baldeação na Praça João Mendes. No Fábrica, se ia ao médico; até o Sacomã, aos sábados e domingo, para o footing, ou o“vai e vem”: os rapazes ficavam parados nas calçadas, enquanto as moças caminhavam pra lá e pra cá, de olho num pretendente. 

 

Os velhos bondes atravancavam o trânsito. Retirá-los das ruas parecia uma medida drástica, mas diziam que era necessária para a melhoria da circulação urbana.

 

Tia Tereza sempre foi uma entusiasta do progresso e da renovação, mas lá no fundo, sabia que os bondes deixariam saudade. Em janeiro de 1967, ela decidiu:  

 

“Vou levar a Fatima para um paseio no Fábrica antes que ele pare de rodas. Essa menina nunca andou de bonde! Quando for moça, vai poder dizer que andou de bonde em São Paulo.

 

Na Vila das Mercês, zona Sul, onde morávamos, só havia ônibus — eram pintados de amarelo clarinho, com faixas vermelhas na parte inferior.  Tia Tereza planejou com detalhes a aventura. Ajudou-me a escolher um vestido bem bonito. Do portão de casa, na antiga Rua B  — hoje Rua Caloji — nos acenavam a avó Dolores e minha mãe, Rafaela, com meu irmão Vanderlei no colo, enquanto íamos para o ponto.  Junto com a gente, foi a prima Eliana, filha da Tia Tereza, que sequer tinha completado um ano.

 

Descemos do ônibus no Sacomã e logo pegamos o bonde no ponto inicial. Sentei num daqueles bancos compridos, que ficavam nas laterais —- eram de madeira envernizada, duros, que faziam a gente escorregar, quando o freio era acionado. Confesso que achei escuro o interior do bonde, desconfortável. 

 

Antes do bonde deixar a Silva Bueno, descemos, atravessamos a rua e tomamos o ônibus de volta pra casa.  Eu tinha apenas quatro anos e jamais esqueci desse passeio. Mais do que a lembrança do bonde, ficou o carinho de minha tia. Penso que tia Tereza era uma mulher de visão. Ela já sabia, lá em 1967, que 53 anos depois, minha única e última viagem de bonde seria um capítulo do Conte Sua História de São Paulo. 

 

Fatima Martin R. F. Antunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para o contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça também em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: o sonho do soldado Dadá

 

Por Duarte Alves da Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci em 1959, no Brás. Deixei o bairro após a morte de meu pai. Minha mãe, dois irmãos e eu, fomos para o Ipiranga onde meus tios e três primos moravam, em um sobrado. Lembro quando meu tio nos levou para ver a inauguração da iluminação da avenida Dom Pedro I, que liga o Ipiranga ao Cambuci. Nos anos de 1970 havia também um espetáculo de luz e som, no Museu do Ipiranga, que eu adorava. No Ipiranga passei minha juventude, brinquei na rua, joguei bola no campinho perto de casa

 

 

Aos 18 anos, me alistei no Exército. Na minha turma, havia mais 25 soldados, cada um de um canto da cidade. Treinamos no quartel do Ibirapuera e fomos para uma corporação, na Liberdade, a 4ª CSM — Circunscrição do Serviço Militar. Foi um período bom com os novos amigos. Um ano depois, demos baixa e nenhum seguiu carreira militar.

 

Eu conheci a irmã de um soldado que servia comigo. Eles moravam na Nove de Julho com a São Gabriel. Casamos três anos depois e fomos morar na estrada de Itapecerica da Serra, na Vila das Belezas. Tivemos dois filhos.

 

Trinta e nove anos depois do serviço militar, recebi um convite pelo Facebook, de um ex-colega Humberto Souza, o Dadá, perguntando se eu havia servido o Exército, em 1978. Ele e o soldado Ripari, tinham decidido reunir a todos para comemorar 40 anos de turma. Os dois foram em busca da lista completa dos jovens que tinham feito serviço militar juntos naquele ano. O quartel já havia mudado da Liberdade para o Cambuci. Após um pedido oficial de informação, tiveram acesso a lista completa de nomes e partiram atrás de cada um dos integrantes. Formaram um grupo de WhatsApp, justo no aniversário de São Paulo, em 2017.

 

Foram vários almoços com o Ripari para organizar o evento; e descobri que ele havia trabalhado no mesmo grupo que eu, o Machline, apesar de nunca termos nos encontrado. Infelizmente, às vésperas da comemoração de 40 anos, Humberto Souza, o Dadá, morreu, mas nós decidimos levar em frente o desejo dele. Reunimos dez dos 26 soldados. Como cada um vivia em uma região diferente da outra, marcamos nosso reencontro no centro de São Paulo, o que ocorreu no dia 24 de novembro de 2018 —- em uma demonstração de que a imensidão da cidade não é suficiente para afastar velhos conhecidos.

Duarte Alves da Silva  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da cidade e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Coloque o podcast do Conte Sua História de São Paulo entre os seus favoritos.

Conte Sua História de São Paulo: “estas pensando que é o Pintacuda?”

 

 


Por Maria Helena Leonel de Queiroz
Ouvinte da CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte Maria Helena Leonel Gandolfo:

 

Meu pai havia se casado com a filha de um comerciante português. O tio Carlos, irmão do papai, com a filha de um rico industrial italiano. Em 1936, morávamos em um sobradinho na Lapa. E meu tio num belo palacete na Rua Estados Unidos. No dia 12 de julho um importante acontecimento marcava a estreia da cidade de São Paulo no cenário automobilístico internacional: o I Grande Prêmio de São Paulo.

 

Pilotos europeus e sulamericanos, que um mês antes haviam participado do IV GP Cidade do Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea, inscreveram-se para a prova que iria se realizar nas ruas do Jardim América. O circuito, com cerca de 2.500 metros, tinha sua linha de largada e de chegada na Av. Brasil, em frente ao prédio do Automóvel Clube e formava o quadrilátero com as ruas Colômbia, Estados Unidos e Canadá. Um percurso de 60 voltas, totalizando 150 quilômetros.

 

Alguns corredores, os mais renomados, eram o italiano Carlo Pintacuda, com sua Alfa Romeo 8C35, o argentino Augusto MacCarthy com um Crysler V-8; e os brasileiros Manuel de Teffé, com sua Alfa Romeo 6C1750 e Chico Landi, com um Fiat. Mas a estrela, sem dúvida, era a francesa Hellé-Nice, que disputava a corrida com seu Alfa Romeo 8C35, pintado de azul — artista de teatro, acrobata e dançarina no Cassino de Paris, Mariette Hélène Delangle, nascida em 15 de dezembro de 1900, havia iniciado sua carreira como piloto nos anos 30.

 

Carro 1

 

Meu tio, por morar na Rua Estados Unidos, mandou fazer no jardim um palanque para assistir à corrida com todo o conforto junto com seus amigos. Meus pais, obviamente, figuravam entre os convidados. Nós, as crianças, ora brincando no jardim, ora subindo no palanque, estávamos na maior excitação, ouvindo o barulhão dos carros que passavam.

 

Até que, lá pela 50ª volta, aconteceu o acidente. Dizem uns que foi quando Helenice tentou ultrapassar Manuel de Teffé e os carros se entrechocaram. Outros, que ela perdeu a direção para não atropelar um policial que atravessou a pista. Outros ainda contam que uma fã de Teffé, para atrapalhar Helenice, empurrou contra seu carro um fardo de feno.

 

Corrida 2

 

Tenha sido esta ou aquela a causa, a conseqüência foi que, correndo a 160 km/h, o carro capotou duas vezes e investiu contra a multidão que assistia à corrida, matando cinco pessoas e ferindo mais de 30. Helenice, lançada fora do carro, foi hospitalizada, recuperando-se após ter ficado três dias em coma. Traumatizada, ela deixou de participar de corridas de grande prêmio passando a disputar apenas provas de ralis.

 

A corrida de São Paulo chegou ao fim com a vitória de Pintacuda mas o acidente causou grande agitação. Durante dias e dias não se falava de outra coisa. Por isso é que Helenice e Pintacuda são dois nomes que logo me vêm à cabeça quando se fala em Fórmula 1. Naquela época, quando alguém pisava exageradamente no acelerador era certo ouvir o comentário: “Está pensando que é o Pintacuda?”

 


Maria Helena Leonel Gandolfo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a coragem além-mar da vó Antônia

 

Por Neusa Pereira
Ouvinte da CBN

 

 

Antônia senta–se à porta da cozinha e olha pro terreiro. Pensativa vê sua horta. As galinhas ciscam aqui e ali. A parreira de uva que começa a cachear. Sente uma enorme tristeza. Como que uma saudade antecipada. Talvez nunca mais veja tudo aquilo. Já pensara na situação. Uma grande guerra havia chegado à Europa. A primeira de muito tempo. Não se lembrava de ouvir falar de uma assim. E tudo a assusta. Chora quando vê a fila de moços da vizinhança passar pela sua porta. Seguem pra ajudar as tropas de Portugal. Ela, com um único filho ainda adolescente, o Jaime, não tem, no momento, essa preocupação. Mas, seu coração se condói ao ver as famílias vizinhas chorosas e aflitas. Tinha raiva dos ingleses.
Ouvira dizer que, era por culpa deles que seu país se aventurava no inferno.

 

Aos pés de Nossa Senhora da Conceição, ao lado da cama, Antônia reza. Que proteja aquelas crianças que já empunham um fuzil. Que conforte, dê esperança e força. Ora também por ela e pela família. Que encontrem uma alternativa. Uma saída pra fugir da guerra. Com olhos fixos na santa, espera. Uma mensagem. Um alento. Olhos nos olhos. Pensamentos nos pensamentos. E, Antonia, então, silenciosamente, abaixa a cabeça e, como que respondesse a alguém murmura pra si mesma: sim, farei isso.

 

Naquela noite, na mesa do jantar: pão, sopa de fubá com couve, azeite e vinho caseiro. O de quase sempre. Silenciosa, Antônia faz seu prato e, com ele ainda parado no ar, arranja forças e sentencia: “A guerra está a chegar cada vez mais perto. Vamos ter que ir embora. Deixar nossa casa. E, vamos para o Brasil.”. O filho apenas olha pra ela. O marido, Pompeu, homem de saúde frágil, de pouca conversa e, de muito respeito pela mulher, naquele dia diz zangado: “Estás a variar mulher? Sabes onde é o Brasil? Tens ideia que vamos a atravessar um oceano inteiro pra lá chegar? Sabe-se lá quantos dias, com a saúde que tenho?”
Sei, sei, respondeu Antônia impaciente. Sabia que o marido era doente. Ia ser penoso. Mas não ia esmorecer. “Raios, diz ela, e vamos pra onde homem de Deus? Queres ficar aqui? Esperar bomba a cair em nossa porta? Soldados a fuçar a casa? A nos matar? Exageras, fala o marido. Então, ficas. Vou e levo Jaime”, finaliza Antonia. Silêncio. Marido e mulher se olham. Começam a jantar. Como se o assunto houvesse terminado. Pra lá iremos! Pensava ela.

 

Longe sabia que era. Ela já ouvira falar. Mais de mês de viagem. Mas, lá, tudo havia de se arrumar. Brasil não era a terra que um português legítimo, o Cabral, havia posto no mapa? Terra onde até a mesma língua se falava? E, quantos patrícios sabia estarem por lá! Sofria ao pensar. Talvez mais que todos. A decisão era dela.

 

Dia nublado, sacos, sacolas, malas, caixotes. Rosário preto nas mãos. Com sua saia comprida e lenço na cabeça, Antônia, Pompeu e Jaime, embarcam para o Brasil. Terceira classe com dezenas de outras famílias. Está aliviada.
Dias e dias a viajar. Olhar o mar. Pensar no futuro. Esperar. Então, ao longe, sombras no horizonte. Terra. Brasil, ali! Emocionada, ajoelha e reza. Agradecimento, alegria, esperança. Chora. Na fila do desembarque, segura firme a mão de Jaime. Se sente forte, protetora, capaz.

 

Assim, a mulher analfabeta, camponesa de Trancoso, começa uma nova vida. Enfrenta dificuldades. Encontra soluções. Trabalha. É mão forte no orçamento e nas decisões da casa. Como milhões de outras mulheres corajosas e valentes do mundo daquela época, Antonia, sem saber, engrossa as fileiras dos que aprendem na necessidade. Na luta. Na briga pela sobrevivência. E, ela, aprendeu ,porque decidiu. Empreendeu, construiu. Criou uma nova família brasileira. Empoderavam-se as mulheres do mundo. Empoderava-se dona Antônia da Conceição Pereira, minha avó.

 

Neusa Pereira e dona Antônia da Conceição Pereira são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreve você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: as rotas de fuga da cidade no som da rádio e no guia de ruas

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da CBN

 

 

 

Em 1997, havia três anos que eu já trabalhava como Agente de Segurança no Tribunal do Trabalho, em Campinas —- o que significa ser motorista. Aprendi a guiar caminhões; dirigia ônibus, utilitários e automóveis. Era um tremendo prazer. Só ficava em pânico quando tinha de buscar magistrados na capital. Tinha medo de me perder na imensidão de São Paulo —- para mim, um mar de prédios entre ruas e avenidas.

 

Em junho, tive de buscar o vice-presidente do Tribunal, no bairro da Aclimação, às 9 e meia da manhã. Acho que ele entrou no carro por volta das 10 horas —- a falta de pontualidade era hábito nos magistrados, ao menos naquela época.

 

“Otoridade” a bordo, segui para Campinas. Passei na praça Campo de Bagatelle, rumo a pista logal da Marginal Tietê. Até aí tudo normal. Desviei para a expressa e tudo parou. Parou, fiquei travado! E o tempo, andando. E o trânsito parado.

 

Pedi licença ao magistrado para ligar o rádio. Ele autorizou, só se fosse na Cultura. Liguei, Mas nada de informação sobre o trânsito.

 

Tomei coragem e pedi licença novamente: pode ser na CBN? Aqui em São Paulo sempre me viro bem ligando nessa rádio.

 

Sintonia autorizada! Nem isso me salvou. A informação que queria não chegava. Recorri ao Guia de Ruas, no porta luvas do carro — era o Google da época. Sugeri uma escapada pela Vila Nova Cachoeirinha, na Brasilândia. Ouvi um autoritário “não”! Poucos minutos depois, o “não” virou “sim” — meio a contragosto.

 

Quando estávamos quase chegando, através de ruelas clandestinas com acesso à rodovia Bandeirantes, ele mandou eu voltar à Marginal: “já deve estar livre, depois de três horas”.

 

Ledo engano. Negociei outro caminho. E o peso da toga falou mais alto. Segue por aqui —- mesmo que tudo estivesse parado.

 

De Campinas, meu “tijólokia” —- um celular ainda dos tempos analógicos —- chamava a todo momento. Era do Tribunal, preocupado com os prazos processuais do magistrado que ocupava cargo de alto escalão.

 

Após horas de atraso e cansados de congestionamentos, entramos na Bandeirantes —- eu preocupado com a missão a ser cumprida e o magistrado orgulhoso de supostamente conhecer os caminhos da cidade, que insistia em dizer que conhecia como a palma de sua mão.

 

Chegamos a tempo, antes do fim do expediente jurídico. No caminho ainda sugeri a criação de um serviço de informação do tipo 0800 para auxiliar motoristas e taxistas. Um sugestão em tom de ironia, porque se tivesse me deixado seguir as rotas indicadas pelo Guia de Ruas e atento às notícias da CBN, teríamos chegado bem mais cedo ao nosso destino. E descoberto que naquele três de junho de 1997, a Ponte dos Remédios tinha sofrido uma rachadura.

 


Pedro Lúcio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.