Conte Sua História de São Paulo: há cultos sinceros, mas há os vilões, também

Flavio Cruz

Ouvinte da CBN

 

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Tenho saudades da minha cidade. Sei que dizem que ela é violenta, perigosa. Falam tanto dela. Falam que todo mundo é apressado, que as pessoas não têm tempo para nada. Mentira!  À noite as pessoas se reúnem, cantam e contam histórias. Quem quer, sempre tem um amigo; quem não quer, pode ficar sozinho. Não há prazo de adaptação, não há carência. Assim que você chega, você pertence. Todo mundo pertence. E há de tudo!

Há pecados e lugares para se pecar. Há perdão para poder se pecar. É boa de se cantar, é boa para se poetar. Caetano falou que é o avesso do avesso do avesso… e daí eu paro no avesso que quiser, no avesso que melhor me servir.  O Tom Zé canta que nos amamos com todo ódio e que nos odiamos com todo amor. 

E Billy Blanco diz que as portas de aço levantam, todos parecem correr, não correm de, correm para… Para onde, não sei? Sei sim, quero correr para lá. Ela tem de tudo, de todas as formas, todo o tempo. Ela é adulta, ela é criança. É adolescente, também. Às vezes, ela adoece, mas está sempre a se curar. 

Há Consolação, há Socorro, há Liberdade e até uma Casa Verde para não se perder a esperança. À noite, então, nem posso falar. Há gente nos teatros encenando cenas que saciam os cultos e há cinemas ocultos que saciam a vontade de sexo dos incultos. Há cultos sinceros, mas há os vilões do templo também. Há cultos e pastores da noite de quem não quero falar. Há tantas coisas na cidade, em cada canto, em cada esquina. Há dor, muita dor, mas tanta alegria vem junto que às vezes nem sei qual é qual. 

E os sonhos, então?

Tantos sonhos… Tantos segredos, tantas histórias que todos sabem e ninguém quer contar. Há também contos de fada, milagres que acontecem, outros que se compram, alguns que se vendem. 

Há gente de todo lugar, há lugar para todos e em algum lugar sempre algo está para acontecer. Há segredos que não se podem contar. E há contos que não são mais segredos. E há lendas, lendas e mitos. Quase todos são verdade, mas ninguém precisa saber. 

Falam tantas coisas de você… Eu escuto todas e só presto atenção nas que quero. Sinto muito sua falta. Não há cidade igual.  Tenho muitas saudades de você, São Paulo, meu amor…

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Flávio Cruz, um paulistano que vive nos Estados Unidos, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistória@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a gargalhada da velha na porta do Parque Shangai

Por Ulysses Cruz

Ouvinte da CBN

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Ali nos baixios do Glicério, mais pro lado do complexo de viadutos que leva à Radial Leste e à Celso Garcia, onde hoje tem uma igreja evangélica, ficava o Parque Shangai. Era enorme. Eu o via sempre da janela da lotação na volta da loja de departamentos Clipper —- a preferida de minha mãe. Dela pelas roupas e minha também porque tinha a escada rolante.

A lotação fazia uma curva e meu coração saltava com aquela imagem vista rapidamente da janela do enorme carro. Eu enxergava um pedaço da Montanha Russa de madeira, altíssima;  quase toda a Roda Gigante — que era de verdade gigante. E ao torcer o pescoço para trás ainda conseguia olhas  o Trem Fantasma. E só.

Minha mãe era uma morena bonita, peitos fartos, que gostava de se vestir bem — na Clipper, claro. Só agora me dou conta que minha paixão pelo amarelo vem de um vestido dela, usado em ocasiões especiais, como ir à cidade fazer compras, ela adorava, sempre de lotação e comigo ao lado. Naquela época, mulher casada não andava sozinha na lotação.

Não lembro quem me levou ao Parque Shangai pela primeira vez. Papai era sério, policial, não era dado a essas coisas. Minha mãe, talvez. Meu tio Eloi? Era o boêmio da família. Pode bem ter sido ele. Não lembro. 

O que lembro, passados mais de 60 anos, é da risada da boneca gigante que nos recebia na entrada do parque. Era uma velha com uma bolsa na mão. Ela ria e chacoalhava o corpo para cima e para baixo, sacudindo a bolsa como se fosse uma arma. Tudo era movimento na boneca. Sua roupa, seus cabelos debaixo do chapéu … Ela ficava com em um relicário profano cheio de luzes e cores, lá no alto. Atração até mesmo para quem não tinha dinheiro para entrar no parque. Ela contagiava. Você poderia ficar meia hora ali em frente que não enjoava de rir. Se não ria dela, ria das pessoas que se dobravam de tanto gargalhar.

O curioso é que mesmo com todas as atrações que havia dentro do parque, em minha memória a imagem que ficou foi a da velha com a bolsa. A ponto de eu pensar hoje que minha cidade tem esse som: o da risada da velha da bolsa. Às vezes maligna, às vezes cruel. Na maioria das vezes, uma risada divertida, alta e barulhenta. 

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Ulysses Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a tinturaria da minha avó na rua Augusta

Por Rosângelo Callejo

Ouvinte da CBN

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Nasci no bairro da Vila Maria onde moro até hoje. Da minha infância, recordo com alegria dos passeios de fim de semana onde saíamos eu, meus irmãos e meus pais para visitar a rua Augusta. Era onde minha avó paterna morava. Ela mantinha uma tinturaria, a Gato Branco, onde meu pai também trabalhava .

Nossa aventura começava logo cedo pois tínhamos um longo trajeto pela frente. Pegávamos ônibus na avenida Guilherme Cotching até o Vale do Anhangabaú, gostávamos de dar uma passada pela galeria Prestes Maia. Era fantástico. Depois seguíamos de ônibus elétrico até a Augusta.

Nossa chegada era uma festa. Ficávamos encantados com tudo na tinturaria: os enormes tanques de lavagem de roupas; as mesas de passar com aqueles ferros pesados; tudo era novidade para mim e meus irmãos. 

Na sala da casa da minha avó, havia um telefone e nós adorávamos mexer naquele aparelho. Na cozinha, tinha um rádio enorme no qual ela ouvia suas novelas preferidas…. 

Da sacada da casa, ficávamos assistindo ao movimento da rua, os ônibus elétricos, os carros passando e as pessoas caminhando pela calçada.

A tarde, saíamos nós para passear pelas galerias —- que eram os shoppings daquela época —- com suas lojas elegantes. Lembro que havia escada rolante: era o máximo; subíamos e descíamos correndo. Nosso passeio se encerrava nos divertindo no Parque Trianon. 

No fim do dia fazíamos o caminho de volta para a Vila Maria. Exaustos e felizes, já ansiosos no aguardo do próximo fim de semana.

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Rosangela Callejo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: pedalei meu kart no Largo do Arouche

Por Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Nasci em São Paulo. Hoje, tenho 60 anos. Com oito meses mudei para a Itália e de lá retornei com a família após nove anos, quando meu pai foi convidado para trabalhar aqui no Brasil. Fomos morar em um pequeno apartamento no Largo do Arouche —- lugar bom naquela época. Sem saber falar o português, me virava do jeito que dava, não o suficiente para fazer amizades na escola

Meu pai me deu de presente um kart de pedalar. Eu descia o elevador e o zelador, Seu Frederico, me atravessava até a praça do Arouche, onde podia ficar brincando sozinho —- sem correr riscos. Minha mãe vigiava tudo  pela janela lá do alto do prédio

Houve um ano que a praça foi enfeitada para o Natal com bonecos gigantes de plástico e iluminados. Quando as festas passaram, vi os funcionários da prefeitura desmontando a decoração e fui até eles com meu pai para pedir um dos bonecos. O moço da prefeitura deixou que eu ficasse com um deles. Coloquei na cozinha do apartamento e dentro do boneco liguei um abajur para ficar iluminado como na praça. 

Do Arouche fomos para um apartamento maior na Henrique Schaumann. A rua ainda era estreita. O prédio tinha cinco andares e ficava bem na esquina. Quando decidiram tornar a Henrique Shaumann em uma avenida correu-se o risco dele ser destruído. Mas resistiu em pé. Durante as obras, eu andava de bicicleta na via que começava a ser aberta para a avenida passar.

Foi lá que completei meus 18 anos quando, então decidi sair de casa e morar sozinho. Apesar da Ditadura Militar, não encontrei problemas no meu caminho. Estudei e me diverti. Foram anos em que descobri as belezas da vida de um pós-adolescente, com seus prós e contras. Hoje, posso lhes dizer que tive uma juventude boa e cheia de alegrias, graças a Deus!

Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outras lembrança, visite o meu blog miltonjung.com.br e se inscreva no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o descrente viajante se transforma em distante apaixonado

Por Marco Aurélio de Souza Hilário  

Ouvinte da CBN

 

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Para a Lane, sempre linda.

E para a Rosária e o Tata.

Todos cúmplices de paixões e amores.

Para um morador do interior das Minas Gerais, a cidade de São Paulo sempre foi sinônimo de fria grandeza: arranha-céus impedindo o crescimento de vida verde; asfalto pavimentando caminhos desordenados; habitantes acumulando moedas para as férias no ar condicionado de seus carros. E o desejo do encontro com a cidade malvista escamoteado diante de certezas antecipadas. 

Até que um amigo querido, em suas andanças por cidades e tendo a Avenida Paulista cravada na veia familiar decidiu fazer de São Paulo sua moradia. Daí ao convite para dias na cidade grande foi questão de tempo. E em data específica: no carnaval. A metrópole cantada como “túmulo do samba” foi escolhida como destino daquele que sempre imaginou a cidade como “difícil de viver”. E a visita em luxuosa companhia, com as respectivas namoradas, a do visitante e a do amigo. São Paulo aguardava serena a chegada de um descrente.

O amigo não fez da alegria do encontro flecha de cupido na troca de olhares do visitante com a cidade. Mas usou de singela perspicácia para que São Paulo, a cidade mesma, tomasse devagar as entranhas e o afeto daquele que chegava. 

São Paulo foi se apresentando aos poucos, dona de si, silenciosa, em plano geral e em detalhes. Deixar a cidade falar, insinuar seus encantos, mostrou ser sábia condução. As avenidas, ruas, cafés, restaurantes e bares, monumentos, praças, suas gentes, receberam o descrente visitante como um quase local, derramando sutis preciosidades e prazeres em lugares, pratos e copos ofertados. E o visitante, a essa altura constrangido e em crescente encanto pelo jogo da conquista, foi estabelecendo com a cidade elo de compromisso, já nocauteado diante da sedução desmedida. 

O agora apaixonado visitante andou por São Paulo com olhos de curiosidade infantil, sorrindo para o que via, descobria, conhecia, esquecendo-se do confete, da serpentina e das doces marchinhas. São Paulo era megalópole interiorana, ofertando ao desistente carnavalesco seus mais belos préstimos, dignos de uma cidade que não descansa.

Os dias foram passando, o visitante agora arrebatado e capturado por detalhes da cidade, fazendo andanças em uma pauliceia que se deixava descobrir, cúmplice assim do vivo entusiasmo do andarilho. Em momentos preciosos, o visitante apaixonado sentia São Paulo no peito, na respiração, no toque das mãos, como se natural fosse ter a cidade para si, como se não mais estrangeiro fosse. 

Na despedida, a cidade olhou o visitante de frente, sorriu levemente e deixou um até breve no ar. E o visitante, já saudoso do retorno urgentemente programado voltou ao seu interior, sabedor que muitas paixões sobrevivem à distância, na insistência de tornarem-se amores eternos.

Marco Aurélio de Souza Hilário é mineiro de Ubá, terra da manga e de Ary Barroso. Conheceu São Paulo há aproximadamente 30 anos e a cidade não saiu mais de seu pensamento.

N.E: a música usada para sonorizar este texto é “Sinfonia São Paulo” do compositor Ricardo Silva, executada pela Banda Sinfônica Paulista, regência maestro Ricardo Silva.

Marco Aurélio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Escreva o sei texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo    

Conte Sua História de São Paulo: homenagem ao seu Jacinto

Jacinto Afonso do Amaral Sobral

in memorian 

Não nasci aqui, cheguei ao Brasil em 1939, no porto de Santos aos 2 anos, juntamente com minha mãe e minha irmã mais velha. Meu pai, Manuel Afonso era um português muito comunicativo e empreendedor. Ele já havia estado no Brasil em anos anteriores, veio trabalhar com seu irmão mais velho ainda na década de 20 e, acredito, vislumbrou São Paulo como uma cidade muito mais promissora do que a pequena Carapito, aldeia na região norte de Portugal onde nascemos. 

Não lembro com exatidão das nossas primeiras moradias, mas tenho algumas recordações sobre o convívio com outros familiares (tios, tias, primos, quase todos portugueses). Minhas memórias são mais nítidas a partir do início da década de 40, período em que morávamos numa chácara rodeada por vastos morros — região hoje entre o Bosque da Saúde e o Jardim da Saúde — próximo à avenida do Cursino. Não tínhamos energia elétrica e a água era de poço. Nessa época, meu pai era leiteiro, tínhamos umas dez vacas; o leite era vendido nos bairros vizinhos.

Em 1943, aos sete anos, comecei a frequentar a escola, o grupo escolar Princesa Isabel, na Rua Ibirarema, bem em frente ao trecho em que havia um desvio dos trilhos do bonde da linha 30. Íamos a pé para a escola, eu e minha irmã 2 anos mais velha; tínhamos liberdade total em ir e voltar para casa sozinhos. 

A maioria dos veículos de transportes na região eram carroças puxadas por burros e cavalos. Pouquíssimos veículos automotivos circulavam pelas ruas; era época da 2ª guerra e a gasolina não era tão fácil para se adquirir; as bicicletas também eram muito utilizadas como meio de transporte.

Nossa chácara era relativamente perto de uma grande mata que nós chamávamos de Mata do Governo, onde hoje é o Zoológico de São Paulo. Lembro-me muito bem da inauguração do Zoológico, em 1958. Era perto dali, na Avenida Miguel Estéfano, avenida movimentada por carros que iam sentido Anchieta, onde eu gostava de passear de bicicleta.

Mas a melhor recordação da minha infância é a do dia em que chegou o caminhão que meu pai comprou, importado dos Estados Unidos, no início da década de 50. Ele havia desistido das vacas leiteiras e passou a fazer transporte de mercadorias do porto de Santos para São Paulo. Foi uma alegria só quando vi chegar aquele caminhão novinho, um Chevrolet verde, modelo 1951. E como eu não era muito afeito à escola, decidi lançar-me a aventura de acompanhar meu pai nas viagens durante os anos de 1952 a 1953. Meu pai era semi-analfabeto e precisava de minha ajuda nas negociações que fazíamos para transportar as mercadoria  pela recém-inaugurada Rodovia Anchieta.

Jacinto Afonso do Amaral Sobral é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Jacinto escrevei este texto no início do ano. Em agosto, infelizmente nos deixou. Reproduzo essas lembranças a pedido da filha Renata Afonso Sobral que assim também faz uma homenagem em memória do pai. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ouvir outras história da nossa cidade visite meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “io sono nato al Brás”

César Campos

Ouvinte da CBN

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“Io sono nato al Brás”. Foi a frase que eu disse ao italiano dono de uma pizzaria ótima em Peruíbe: o “Figlio di Vincenzo”. Falávamos de “il paese” de onde vinha o restauranteur, visto que havia várias flâmulas e cartazes da Bologna espalhados pelo recinto, muito rústico e simpático. Ótima pizza. E, sopratutto, me fez recordar o Brás.

Por ser um bairro que é praticamente extensão do centro, se desenvolveu muito cedo em termos de moradia e serviços. Como a industrialização de São Paulo teve seu início ali e na Mooca, basicamente movida pelos empreendedores italianos, a colônia era muito, muito grande. 

O Brás foi formado pelos italianos. Em parte também por judeus e me recordo que em minha rua havia um grande edifício no qual funcionava A escola israelita. Meus vizinhos? Manfredini, Baldon, Bacci, Tabarini, Morelli, D´Arena, Montoldi … Pela graça da origem, o Brás, tinha muitas, muitas cantinas. Algumas famosas ainda até hoje. Tinha também cinemas — objetos de gratas recordações como no filme de Giuseppe Tornatore. A Não havia, como no filme, uma pracinha com um cinema, mas um profusão de salas de exibição. 

A avenida Celso Garcia, mais próxima da minha casa, tinha o Cine Roxy, que penso ter tido uma das primeiras estruturas de “conveniência”. Para se chegar até as bilheterias, atravessava-se um corredor largo e longo, onde havia algumas lojas. Eu sempre fazia fotos oficiais —- de minha primeira comunhão ou de diplomação da escola — no Foto Roxy, que ficava ali no corredor.

O Cine Universo, também na Celso, era algo a parte: 4.500 assentos. Do foyer, a gente jogava pipoca nos infelizes abaixo, como no filme do Tornatore.  O teto do Cine Universo se abria! Que gloria, nas noites de luar e estreladas, era assistir a um filme olhando para o céu!

Um pouco mais adiante, já na Rangel Pestana, havia o Piratininga. Você pode imaginar uma sala de cinema com mais de 5.000 lugares —- sempre lotados. Os homens vestiam terno e gravata; senhoras e senhoritas, vestido rodado.Cantava-se, assobiava-se, aplaudíamos, falávamos alto, e, infelizmente, se fumava. Ainda havia, na Rua do Hipódromo o Cine Safira, e na  Piratininga, o Oberdan.

Minha mãe me levava para assistir as comédias de Jerry Lewis e os grandes musicais e filmes românticos; e meu pai não perdia os Westers de John Wayne ou Randolph Scott.

Como no filme de Giuseppe Tornatore, tudo acabou. Do Universo você nem encontra sinais; do Safira, nada sei. O Roxy havia se tornado uma igreja. O Oberdan hoje é uma loja e o Piratininga é um estacionamento 

Dizem que todo italiano tem um parente próximo no Brasil. Creio que Tornatore tinha parentes no Brás e veio visitá-los quando se inspirou para produzir Cine Paradiso. Giancaldo não era na Sicilia. Era o Brás no microscópio.

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no bolso da calça, tinha uma moeda de CR$ 0,50

João Coradi Neto

Ouvinte da CBN

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Em dezembro de 1972, eu havia completado 20 anos de vida na querida cidade de Dois Córregos, da qual nunca tinha saído pra conhecer novos lugares, novos horizontes. Tudo ali pra mim bastava. Eu vivia feliz. 

 

Dois meses depois, eu estava descendo na Estação da Luz, na capital. Sozinho, com uma pequena mala de roupas, e apenas um endereço na mão — no qual já estavam vivendo meus pais, dois irmãos e quatro irmãs, que haviam se mudado para lá três meses antes de mim; e tendo deixado para trás duas irmãs que estavam casadas. 

Com dificuldade e de madrugada, encontrei meu destino, que estava escrito em um pedaço de papel —- novo começo, nova vida. 

Assim que o dia clareou percebi a séria dificuldade em que viviam meus familiares. Todos desempregados e ansiosamente me esperando. Eu era o único que tinha trabalho — vim para a capital transferido pelo banco em que era funcionário: o Banco de São Paulo S/A — Emissor, que logo foi incorporado pelo Banco do Estado de São Paulo S/A, o Banespa.

Vivíamos com o meu salário de onde saía o dinheiro para pagar aluguel, água,  energia e comida para todos. No dia do pagamento, eu entregava tudo na mão da minha mãe, responsável por controlar as contas. Ela separava moedinhas de CR$ 0,50 centavos de cruzeiros, me dava duas por dia para a passagem de ônibus da Penha ao centro, do centro à Penha, na zona leste de São Paulo. Algumas das moedas eram para meus irmãos saírem de casa em busca de emprego.

Pegava o ônibus logo cedo e passava  o dia apalpando o bolso para me certificar que a outra moeda estava guardada para garantir a viagem de volta. No horário do almoço, para que meus colegas não percebessem que eu não tinha dinheiro para comer, perambulava pelas ruas próximas ao banco, olhando para os restaurantes e lanchonetes com seus pratos e salgados  — o que fazia aumentar ainda mais minha fome. À noite, em casa, geralmente era servido arroz puro. De vez em quando, tínhamos das salsichas, ou dois, três ovos que mamãe cozinhava e dividia em partes iguais para todos na mesa.

Comecei a ficar com raiva da cidade, achava que não era lugar pra morar. Lá no interior, apesar de ter tido uma infância pobre, nunca tinha me faltado algo pra comer. Pensava comigo: “quero voltar, esta cidade é cruel, aqui não dá pra viver”. 

Com o tempo, em casa, alguns arrumaram um emprego aqui outro acolá, às vezes provisório. E cada dinheiro extra nos ajudava a resistir na capital. 

Meus dias foram ficando melhores. O que era raiva virou resiliência. E nessa transformação, surgiu a admiração. Percebi que a cidade nunca havia sido cruel comigo. São Paulo simplesmente me testara para ver seu eu era digno de viver nela.

Aumentou meu círculo de amigos, meus familiares se firmaram no trabalho e fui me apaixonando pela cidade, que havia me recebido de braços abertos e dado todas as oportunidades para que eu e minha família crescesse.  

Hoje, agradeço por tudo que conquistei. Minha esposa, dois filhos, três netas e amigos que moram em meu coração. Sinto-me privilegiado. Nunca deixarei de amar a pequena Dois Córregos, a qual sempre procuro citar nos mais de 800 poemas que escrevi, muitos dos quais publicados em 22 livros, sempre com o apoio da Editora Matarazzo, presidencial pela querida Thaís Matarazzo. 

Da mesma forma que jamais esquecerei de onde nasci, também não deixarei de amar São Paulo que, para mim, é a melhor cidade do mundo.

João Coradi Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no pedal da bicicleta, bicho

Ilan Rubinsteinn

Ouvinte da CBN

 

 

Ciclovia? Ciclofaixa? Mountain bike? Não! Desça a avenida São Gualter a toda velocidade. Para diminuir a resistência do ar, saia do selim para o bagageiro. Desastre. Deslize por 50 metros com as mãos e o rosto no asfalto. Não vai sobrar um botão da camisa Franita vermelha, que vai se desgastar inteira como boa parte da pele do rosto. Algumas marcas no dorso das mãos te acompanharão, neste e noutros outros passeios de magrela por São Paulo. 

 

Sobreviveremos, porque são tempos de andar de Fusca, Simca, Galaxie, DKW ou Aero Willys — e só o chefe da casa pode ter um desses. Sobra espaço nas ruas para nossas Monarks e Calóis. Com câmbio, só as de corrida. Capacete? Roupa de ciclismo UV 3XE? Deixa de ser Florisbela, meu! 

 

Vamos por aqui … 

 

Descemos para ao Lapão pela rua Mercedes; tomamos um Colegial na Carmen. Não? Pela lateral do trilho do trem de Santos, passando pelas lagoas, em direção a  Osasco. Não?  Autódromo, cruzando o Rio Pinheiros pelos canos da Sabesp, no Socorro: ali assistimos aos 500 Km de Interlagos e voltamos.  Marginal Pinheiros? O que é isso, xará? Tá louco? Estamos em 1969, bicho!

 

Ilan Rubinsteinn  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, acompanhe em seu agregador preferido o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: a passageira do Uber

Por Henrique Ribas

Ouvinte da CBN

 

 

Viagem quase finalizada. Entro na rua Professor Picarolo. Nunca havia reparado no nome, apesar de sempre passar no local. Era ali o destino final do meu passageiro, um estudante da GV. Em mim, batia um certo cansaço tanto quanto a fome batia no meu estômago. Estacionei, desci do carro, alonguei o corpo, bati a sujeira dos tapetes. Troquei a estação do rádio da Alpha para CBN — é sempre bom ouvir notícias. Tânia Morales se despedia. Pena. Adoro ouvi-la falar de livros e outros temas.

 

Peguei a mochila com a merenda. Um iogurte, uma maçã e duas bisnaguinhas com queijo. Delícia! Deixei o vidro do carro meio aberto. A brisa era boa, o vento gostoso. A metrópole estava silenciosa a ponto de ouvir o barulho água correndo — era a fonte do Mirante Nove de Julho, deixando a água correr por sua silhueta bela, barroca, iluminada …

 

Lanche terminado, fio dental passado, álcool gel nas mãos, halls refrescando a boca, veículo Ok. Hora de voltar para as pistas. Em 30 segundos, o aplicativo anuncia: buscar passageira na rua dos Franceses. Cheguei lá e duas garotas se aproximam. Jovens, de mãos dadas. A menor de cabelos curtos e saia sensual, pede para eu esperar um minuto. Pelo retrovisor vejo as duas conversando. Devem estar falando palavras de despedido. Não ouço, mas leio seus olhos emitindo cumplicidade. Os lábios se tocaram com ternura, paixão e libido. Eu, culpado pela inconveniência, não consegui deixa de assistir àquele filme no meu retrovisor. 

 

A mais mocinha entrou no carro, com uma má vontade clara e pesada, acomodando-se no banco de traz à minha direita. Conferi o destino, iniciei a corrida e partimos. Destino: Pinheiros, Rua Francisco Leitão. Ela ainda deu uma leve olhada para trás. Viu seu amor parado, em pé na calçada, com o olhar fixo no meu Uber que se tornava cada vez mais distante. Encostou a cabeça no vidro da janela e, depois de alguns segundos, cerrou seusolhos languidos, meio úmidos. Como o amor entre as pessoas é algo que inebria. Fiquei enternecido por aquele clima que invadiu o carro. Duas garotas e um sentimento tão puro ao meu olhar. Como o preconceito torna certas pessoas cegas para aquilo que a vida nos oferece. Duas garotas que se amam. 

 

Passeamos na Paulista de vidros abertos. Início de madrugada, vento fresco que banhava levemente nossas caras. No cruzamento com a Peixoto, um biker curtindo sua magrela. À frente, um casal com sorrisos escancarados faz uma self, com o Trianon ao fundo. No farol seguinte, em frente ao Conjunto Nacional, uma galera trabalhava intensamente.

 

Cheguei ao destino: a mocinha, com a cara de quem um cochilo tinha tirado, disse um obrigado doce e me desejou boa noite. Retribuí por aqueles momentos tão especiais, apaixonados e particulares que vivemos naquele percurso. Ela pelo seu amor, deixado provisoriamente na Rua dos Franceses, eu, pela minha cidade. 

 

Henrique Ribas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.