Avalanche Tricolor: antes de os astros se alinharem

Avalanche Tricolor:

CSA 1×1 Grêmio

Brasileiro B – estádio Rei Pelé, Maceio/AL

Janderson comemora o gol de empate, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os astros se alinharam nesta madrugada de sexta-feira, em um desses fenômenos que ocorrem com baixa frequência. A última vez foi há 18 anos e a próxima só em 2040. Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e a Lua, todos a olhos vistos, atuando de forma sintonizada no céu, em uma parceria de dar inveja a quem tenta encontrar o mesmo nos gramados brasileiros —- e aqui não falo exclusivamente do meu Grêmio: o futebol jogado, com as exceções astronômicas de sempre, tem sido de qualidade bem discutível.

Antes do espetáculo no céu, assisti ao jogo do Grêmio, em Alagoas, onde a falta de sintonia dos ‘astros’ esteve evidente no primeiro tempo e melhorou um pouco no segundo, o que logo se percebeu com o gol relâmpago, no primeiro ataque coordenado, com os pontas chegando em velocidade pelos lados e Janderson concluindo para as redes. Dali pra frente, a despeito de alguns sustos — e que sustos —, o time dava sinais de que tinha potencial para virar o placar. Chances apareceram e foram desperdiçadas. Por outro lado, riscos ocorreram e, ainda bem, não se realizaram. 

Ao fim e ao cabo, levar um ponto para Porto Alegre se não era o ideal, era o que tínhamos para a noite de quinta-feira, especialmente depois de sair atrás do placar. Estamos há oito jogos sem saber o que é derrota e espero que essa jornada invicta se estenda por muito mais rodadas, ao menos até estarmos consolidados entre os quatro primeiros colocados da competição. 

Enquanto esse momento não chega, nos cabe levar adiante a máxima italiana que o Zio Ferretti, lá de Caxias do Sul, costumava repetir nas mais diversas situações: piano, piano, se va lontano. E desejar que, da próxima vez, os astros se alinhem em nosso favor — os celestes e os tricolores.

Avalanche Tricolor: achou errado, otário!

Ituano 1×1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Novelli Junior, Itu/SP

Diego Souza, sempre ele! Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

“Achou que seria fácil? Achou errado, otário!”. O bordão consagrado por Rogerinho do Ingá, do Choque de Cultura, me veio à mente ao fim da partida desta noite de segunda (de segunda!). Depois de engatar três vitórias na sequência e pontuar no topo da tabela, o Grêmio reencontrou-se com o revés, com uma derrota e um empate cedido nos minutos finais.  E fica mais uma rodada fora do G4. Foi um choque de realidade!

Camisa e história falam alto, mas não fazem tudo. Assim como impõem respeito, provocam o ânimo do adversário que entra em campo com espírito de decisão. E se a recíproca não for verdadeira, seguirá sendo penosa essa Série B, como tem sido desde a primeira rodada. 

Não adianta reclamar da conivência do árbitro com o jogo mais pesado, do gramado que prejudica o toque de bola, dos buracos que interrompem a corrida e da estrutura acanhada dos estádio em que se joga. É o que temos para hoje e fizemos por merecer.

Hoje, após um primeiro tempo em que o empate parcial foi um alívio diante dos vacilos no meio de campo, com duas bolas no poste e uma defesa gigante de Breno, encontramos um gol graças a habilidade de Diego Souza, logo no início do segundo tempo. Sempre ele!

O futebol do Grêmio até melhorou, mesmo porque a referência era o primeiro tempo de baixa qualidade. E o fato de ficarmos mais tempo com a bola nos pés e de conseguirmos impedir os avanços sobre nosso gol, já eram suficientes para mostrar algum progresso. Ao menos forjavam uma suficiência. 

Sofremos o empate nos acréscimos por mérito de um time que nunca desistiu do gol, mesmo quando a técnica não se fazia mais presente. E assim será partida após partida, jogue onde jogar, dentro ou fora de casa. Todos lutando pela bola como se estivessem atrás de um prato de comida. Se não entendermos essa dinâmica da Série B, a frustração do presente se expressará mais alta do que nossas glórias do passado. 

Como ensinou o ‘filósofo’ Rogerinho do Ingá: achou que seria fácil,  só pelo que já fomos? Achou errado, otário!

Avalanche Tricolor: a cumplicidade da Dona Ruth

Cruzeiro 1×0 Grêmio

Brasileiro B – Independência, BH/MG

Biel em destaque na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

É Dia das Mães! Dia de lembrar da Dona Ruth, que nos deixou cedo para os tempos atuais, estava com apenas 49 anos. Apesar de a despedida precoce, ensinou muito, ofereceu carinho e compartilhou gentileza aos filhos, parentes e amigos. Tinha personalidade forte, tomava à frente nas grandes batalhas da vida e cultivou uma incrível capacidade de unir a família. Saudade daquela feijoada de domingo, mãe!

De futebol entendia pouco, e torcia muito. Era gremista, como todos nós. Mas torcia muito mais pela felicidade do pai e dos filhos do que propriamente para o time pelo qual torcíamos. Sabia que um bom resultado, nos faria voltar para a casa com sorriso no rosto e comentários animados. Era a garantia de um jantar dominical recheado de histórias que eu não cansava de reproduzir à mesa como se fosse eu o narrador de futebol da família. 

Entendia, como poucos e poucas, o coração deste que lhe escreve —- talvez o que mais sofria na família diante de reveses futebolísticos.

Seu abraço assim que eu retornava do Olímpico ou alguma partida pelo interior do Rio Grande do Sul, após uma derrota, era apaziguador. Nenhuma palavra de consolo era melhor do que o aconchego de seus braços. Bastavam-me!

O ápice da sensibilidade vinha na manhã seguinte, quando eu acordava ainda entristecido pelo resultado do dia anterior. A mãe sabia bem o que se passava dentro de mim, em especial diante das perdas mais retumbantes para aquela época — a derrota em um clássico regional ou, pior, de um título gaúcho. Ter de encontrar-me com os amigos na rua ou nas atividades extra-escolares aumentaria minha dor. Era a certeza de que seria “corneteado” pelos torcedores adversários. 

Cúmplice do meu abatimento, Dona Ruth se antecipava a qualquer pedido de súplica para me ausentar dos compromissos externos e me propunha alguns convites irrecusáveis: “hoje o tempo não está muito bom, quer voltar pra cama?”; você não parece muito bem, será que está resfriado? Fica em casa hoje!”. Era a maneira dela dizer que entendia meu sofrimento e estava ali para me proteger. 

Dona Ruth não está mais por aqui para me consolar das derrotas gremistas. Não que hoje necessitasse desse afago. O tempo me ensinou a encarar as perdas de uma forma diferente, em especial no futebol. Mostrou-me que ganhar e perder é do jogo. O importante é aprender com os altos e baixos. Mas bem que ela poderia estar aqui com a gente, seria uma ótima maneira de passar este domingo e dizer a ela o quanto eu sempre a amei!

Avalanche Tricolor: felicidade é viver na sua companhia! 

Grêmio 2×0 CRB

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

A felicidade de Biel e Bitello em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Felicidade é viver na sua companhia 

Felicidade é estar contigo todo dia …”

Felicidade, Seu Jorge

Que Seu Jorge canta “Felicidade” pra mulher amada, eu sei muito bem. E tenho bons motivos para cantar com ele —- mesmo que meu canto desafine na primeira nota. Ao longo desta tarde, porém, a música ressoou na minha mente enquanto assistia ao Grêmio jogando com alegria — essa emoção escassa nos tempos atuais, que se fez rara diante da performance do nosso futebol, desde o ano passado. 

Felicidade, eu cantava baixinho vendo Bitello, Biel e Elias se movimentando com destreza, apesar do gramado ruim da Arena. Era o sentimento que me tomava diante da movimentação do meio de campo gremista que dominou o adversário e fez a bola chegar ao ataque com rapidez, aproveitando-se do avanço dos nossos laterais.

O gol de Elias, aos 13 do primeiro tempo, chegando forte dentro da área, pelo lado direito, foi a conclusão da velocidade e habilidade de Biel na esquerda, que forçou o erro do adversário e fez a bola alcançar Diego Souza. Nosso atacante, mesmo sendo assediado por quatro marcadores, com um toque de leve deixou Elias livre para marcar. 

Aos 39 minutos, nova jogada de Biel, que após driblar o marcador acionou Bitello deixando-o de frente para o gol. O guri mais avançado do meio de campo gremista bateu de fora da área com a perna esquerda colocando a bola —- como diziam os locutores antigos — lá onde dorme a coruja. 

Mesmo que mais gols não tenham sido marcados —- cá entre nós, aquela linha virtual do VAR é fake, não?!? —, a felicidade extrapolou os momentos de bola na rede. Esteve na primeira tentativa em que Biel, de letra, tentou o passe para Bitello. Esteve no passe de peito de Rodrigo Ferreira para Elias; no toque de bola rápido que deixou muitos dos nossos na cara do gol; esteve  até mesmo nos incríveis gols perdidos no segundo tempo, porque se os perdemos é porque os criamos aos montes. E isso me deixa feliz.

Mais feliz ainda por ver o nome do Grêmio no topo da tabela de classificação. Somos líderes sabe-se lá por quanto tempo. Pouco me importa. Quero mesmo é aproveitar a felicidade que o momento me oferece. Sou feliz hoje por viver na sua companhia, Liderança! E quero seguir feliz, estando contigo todo dia!

Em tempo: feliz já estava desde que ouvi Roger falar nesta semana sobre combate ao racismo. Você não tem ideia como tenho orgulho de torcer por um time treinado por um profissional que têm consciência social e sabedoria!

Avalanche Tricolor: Grêmio faz a lição “fora” de casa

Operario PR 0x1 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Germano Krüger, Ponta Grossa PR

Elias comemora o gol da vitória, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

Estádio acanhado. Distante de oferecer o conforto das Arenas. Torcida motivada, quase no cangote dos jogadores. Adversário entusiasmado diante da #BatalhaDos110 — marca usada para comemorar o aniversário do time. Em campo, uma equipe aguerrida, disposta a manter a invencibilidade iniciada em outubro do ano passado e a conquistar a primeira vitória de sua história contra o Grêmio.

Começo essa Avalanche de forma inédita. Pelo outro. Pelo adversário. Pelo coadjuvante. E não pense que falo assim por desmerecimento. É que dedico esse espaço ao time do meu coração. O Grêmio é o protagonista. Mesmo que nem sempre o seja com a bola no pé, como aconteceu em boa parte do ano passado, a tal ponto que chegamos onde estamos. Por isso mesmo, aliás, iniciei essa Avalanche descrevendo o cenário que encontramos nesta quarta rodada do Brasileiro B. 

A situação de rival a ser batido, do grande a ser superado ou de deparar com estruturas nem sempre apropriadas para a partida, vai se repetir a cada rodada — ou na maioria delas. Na última vez que estivemos nessa condição, demoramos para aprender a lição antes de sermos protagonistas da nossa própria batalha, a dos Aflitos. Você talvez não lembre, mas só mudamos nossa história após sofrermos uma impressionante goleada. Neste ano, temi pelos primeiros resultados. Pensei que as dificuldades de adaptação para o tipo de jogo a ser jogado e de competição a ser disputada fossem se estender por mais tempo. 

Na noite desta quarta, em Ponta Grossa, interior do Paraná, o Grêmio deu sinais de que está ciente de seus limites e de como deve se comportar diante da situação a que se expôs ao não ser capaz de permanecer na primeira divisão. Mesmo com a escassez de jogadas de ataque, foi competente na marcação, dobrando em cima do adversário, encurtando espaço para o toque de bola e sendo firme nas divididas. Jogadores foram substituídos por exaustão —- provocada porque precisam fazer o dobro do que estavam acostumados. 

Não por acaso, Campaz, que seria um talento a ser preservado à frente, apareceu duas ou três vezes despachando a bola na defesa. E Rodrigo Ferreira, novidade na temporada, escalado para dar consistência lá atrás, foi quem proporcionou o primeiro chute de grande perigo a gol. Sem exagero, cito Benitez, que entrou já no segundo tempo. Meio-campo sempre lembrado pelo toque de bola e distribuição de jogo. Não se fez de rogado: apareceu três vezes desarmando com carrinho os adversários.

Depois de resistir ao empate no primeiro tempo, Roger armou a equipe para impor velocidade. E em dois lances, logo no início do segundo tempo, o Grêmio mostrou a que veio. Biel pela esquerda, soltou o drible e usou de agilidade para chegar na área. Na primeira jogada, colocou Diego Souza na cara do gol. Na segunda, deu assistência para Elias marcar o nosso gol. Nosso único e suficiente gol. Gol com o valor de goleada. Porque valeu os três pontos que precisávamos para botar o pé no grupo dos quatro mais bem classificados.

Sem querer me precipitar: tenho a impressão de que o Grêmio entendeu que está disputando o Brasileiro B. E esse é o primeiro passo para todo e qualquer time se livrar dela o mais cedo possível.

Avalanche Tricolor: Diego, O Grande!

Grêmio 3×1 Guarani

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

lDiego comemora o terceiro gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Aos 36 anos …”. É sempre assim que se iniciam as frases para enaltecer o maior goleador da Arena, como se a idade o definisse. Não é culpa de quem escreve. Somos assim mesmo. Não gostamos de sermos chamados de velhos — aplicamos botox, tomamos vitamínicos, tiramos as bolsas embaixo dos olhos e recolocamos fios de cabelo. Não aceitamos o passar dos anos.

Diego Souza não é grande pela idade que tem. O é pela forma como se reinventou no futebol. Em sua primeira passagem no Grêmio, jogava no meio de campo, mais avançado pela direita, o que já era metamorfose em relação a seus primeiros momentos de glória na carreira, quando fazia a função de volante, lá no Fluminense — um dos muitos times pelos quais passou e deixou marcas importantes —, quando foi convocado para a seleção brasileira sub-20.

Quando foi embora do Imortal, disse a um motorista de táxi, amigo de um grande amigo meu, que por ele teria ficado. E esperava um dia voltar. Foi Renato quem o trouxe de volta, em 2020, e propôs ao atacante, restringir sua área de atuação para ampliar seu potencial. Na mosca. Ou melhor, no alvo. 28 vezes no alvo. No ano seguinte, com todas as dificuldades sofridas pelo Grêmio marcou 24 vezes.

Os gols de cabeça, o ótimo posicionamento dentro da área e a sensibilidade para atalhar o caminho e chegar antes na bola não foram suficientes para superar a pecha de velho que lhe impuseram, a ponto de ter sido dispensado ao fim da temporada. Era preciso renovar, diziam os críticos, esquecendo-se de que a juventude não se mede pelo tempo de vida, e, sim, pelo espírito daquele que sabe se reinventar, inovar. 

Os deuses do futebol, que nos castigaram com um sarcasmo incompreensível no ano passado, decidiram então nos dar uma chance. E na dificuldade de se encontrar alguém capaz de substituir o centroavante que havia sido dispensado, foram buscá-lo de volta. E Ele aceitou!

Do Campeonato Gaúcho foi o melhor atacante. E foi autor do gol mais bonito. Foi Diego mais uma vez, sempre que conseguiu estar em campo. Neste Brasileiro, voltou apenas hoje, na terceira rodada, e em 60 minutos marcou os três gols — o três primeiros gols do Grêmio na competição — que nos deram a primeira vitória e o colocaram no topo da tabela de goleadores, mais um vez. Fez um com os pés, quando era marcado de cima pelo zagueiro, fez um de cabeça à distância —- que mais parecia um chute pela força e precisão — e fechou o placar subindo bem mais alto do que todos os seus marcadores.

E ainda há quem ache que Diego é grande porque tem 36 anos.

Avalanche Tricolor: “nos f…..”, mas tô feliz!

Grêmio 0x1 Chapecoense

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Mal havia estraçalhado um X gigantesco na mesa mambembe de uma lanchonete da Cidade Baixa, quando o rapaz vestindo o casaco da Torcida Jovem, evidentemente embriagado, olhou para nós, reconheceu as cores de nossas camisas e tascou em alto e constrangedor som: “nos fudemo (sic)“. Respondemos com uma gargalhada à sentença definitiva sobre o que havia acontecido horas antes no bairro do Humaitá.

Rir da desgraça própria, dizem, é sinal de inteligência. Ali, foi a reação possível pelo inusitado da fala e uma combinação estranha entre a má-digestão proporcionada pela derrota na estreia do Grêmio na Série B, diante de sua torcida, e a difícil digestão de um sanduíche turbinado de  coração, calabresa, bacon, ovo, queijo, maionese, ervilha e milho, que aqui, em Porto Alegre, costumamos chamar intimamente de X —- apesar de o queijo que dá origem ao neologismo ser apenas um imperceptível detalhe. 

A passagem do moço gremista, bêbado e desbocado, tanto quanto certeiro, foi rápida. Em segundos, ele já havia se voltado a outro interesse, enquanto nós ficamos à mesa lembrando alguns dos momentos vivenciados na Arena. Ao lado de meus filhos, sobrinho e irmão tive o prazer de voltar a um estádio de futebol e assistir, ao vivo, a um jogo do Grêmio. A despeito da performance de nosso time e da frustração do resultado, estar na Arena me fez um cara feliz, nessa sexta-feira. A presença no estádio move com minha memória afetiva, e me afasta de realidades que prefiro esquecer. 

Cresci em um estádio de futebol, no caso o Olímpico, que agora é apenas ruínas na vizinhança de onde escrevo essa Avalanche. Foi lá que forjei minha personalidade, aprendi a trabalhar em equipe, entender o valor de uma amizade, conviver com os diferentes, saborear as vitórias sem ser prepotente e tolerar as derrotas. Sentar-me ao lado das pessoas que amo para ver uma partida na “arquibancada” —- e as aspas se justificam porque hoje preferem dar nomes mais chiques para os espaços que os torcedores ocupam —  tem um significado que vai além do do jogo em si. Ainda bem, porque se minha alegria dependesse dos resultados alcançados até aqui, convenhamos, só me restaria dizer o mesmo que o torcedor anônimo que encontrei na lanchonete.

Avalanche Tricolor: a velha imagem na minha TV do quarto

Ponte Preta 0x0 Grêmio

Brasileiro – Moisés Lucarelli, Campinas/SP

O quarto que escolhi para assistir à estreia do Grêmio na série B era o mesmo da final de 2005. Está bem mais mobiliado e decorado, com espaços distribuídos para o vestir e o dormir, móveis bem acabados e feitos à medida. Antes era um vazio com uma cama de casal em uma ponta, um armário de roupa que quase não era capaz de acolher todas as vestes e, do outro lado, uma bancada simples de duas portas para sustentar a televisão de tubo — a que está pendurada na parede, atualmente, não traz as mais modernas funcionalidades nem apresenta-se com imagem de mega, ultra, super-qualidade, mas dá para o gasto.

Confesso que não fui parar no quarto por escolha própria. Foi a dinâmica da casa, no sábado à tarde, que  me fez deixar a sala onde costumo torcer pelo Grêmio — lá onde mantenho a cadeira do Olímpico  e as camisas de meus ídolos, que já foram assunto recente desta Avalanche. Porém, quando percebi que o espaço que ocupava era o mesmo em que assisti à “Batalha dos Aflitos”, entendi que poderia haver ali um sinal positivo, afinal, mesmo que por linhas tortas —- tivemos de contar com a incompetência do adversário, a destreza de Galatto e uma sorte inacreditável —, naquele ano nos tornamos campeões da Série B e fizemos história com um resultado aparentemente impossível, diante das circunstâncias.

Claro que os tempos são outros. O Grêmio mudou. Nós todos mudamos. Sou 17 anos mais maduro —- não que isso faça diferença quando eu esteja com o modo torcedor ativado. E os meninos, que acolheram o pai que chorava com o título de 2005, têm hoje vida própria. Dos dois, o mais velho foi quem se manteve ao meu lado nas partidas do Grêmio. Esteve comigo nesse sábado. E ficou bastante incomodado com o comentário que fiz pouco antes da cobrança de pênalti por Lucas Silva. Não que ele seja superticioso, mas parece ser adepto da máxima “no creo en brujas pero que las hay las hay”. Falei em voz alta: esse pênalti vai dizer muito do que será a Série B para o Grêmio, em 2022.

Minha sensação era que a chance de marcar um gol na metade do primeiro tempo, em partida que tínhamos superioridade técnica e contra uma equipe ainda abalada pelo rebaixamento no campeonato estadual, daria uma enorme tranquilidade na estreia do campeonato e começaríamos na ponta da tabela, mesmo jogando fora de casa. Ao mesmo tempo que desperdiçar aquela oportunidade seria a demonstração de que o destino está disposto a nos proporcionar mais uma saga forjada por sofrimento e dor. 

O que aconteceu na cobrança, o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, já deve saber a essa altura do campeonato — se não, basta olhar o placar no alto deste texto. Por sua vez, se minha premonição se confirmará, somente as próximas rodadas dirão. Por via das dúvidas, sexta-feira que vem já me programei: estarei na Arena para torcer pelo Grêmio. Quem sabe a imagem que verei, ao vivo, seja melhor do que a que passou na tela da minha velha televisão do quarto. 

Avalanche Tricolor: se é para morrer, que seja de aflição

Corinthians 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena de Itaquera, SP/SP

Geromel, Gigante, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O locutor da TV falou em rebaixamento virtual. Confesso que não sei bem o que isso significa. Fosse no esporte eletrônico, faria algum sentido. No futebol de verdade – este disputado no gramado, com suor e inspiração; no qual vencer as bolas divididas é preciso; em que lutar é essencial e driblar é fazer a diferença – os fatos só se concretizam no apito final. 

No dicionário, virtual é o que existe apenas em potência. É o que poderá vir a ser, existir, acontecer ou praticar-se. Virtual era a derrocada gremista, em 2005. E o que assistimos foi a maior de todas as conquistas, porque foi a superação do inacreditável, do inimaginável. 

Quem imaginaria um time com essa campanha jogar o fino da bola como temos feito em muitos desses últimos jogos que disputamos. Jogos como o de hoje, em que uma torcida inteira se armou para nos vencer e teve de sair de seu estádio comemorando um pífio e insuficiente empate conquistado com um gol mágico, na bacia das almas. 

Confesso: sempre que vejo reações como essas no adversário – e estou aqui lembrando dos encardidos que nos venceram uma vez e festejaram como se fosse o título que não ganharam em toda uma temporada -, só me sinto ainda maior, a despeito da pequenez de nosso desempenho na maior parte da temporada. E se me sinto assim é porque acredito na ideia que um clube não é grande pelo resultado de uma partida ou temporada. O é por sua história. E a nossa é enorme. Isso ninguém é capaz de negar. 

O capítulo final do Campeonato Brasileiro de 2021 ainda não foi escrito. Disseram-me que para reverter a tragédia, precisaremos vencer o último jogo e esperar que dois times que estão na parte baixa da tabela não marquem um só ponto nos dois jogos – a começar pelos que disputarão nessa segunda-feira. Enquanto não o fizerem, estamos na disputa. Aflitos, mas na batalha. E se é para morrer, que seja de aflição, como em 2005.

Avalanche Tricolor: Imortalidade posta à prova

Grêmio 3×0 São Paulo

Brasileiro – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

Thiago marca seu gol, em foto de Lucas UebelGrêmio FBPA

O gol desperdiçado por Thiago Santos, com a goleira escancarada, no momento em que o Grêmio dominava o adversário, oferecia aos descrentes a prova provada de que nosso destino já estava traçado, neste 2021. Apenas mais um dos muitos indícios de uma jornada fadada à desgraça. Antes disso, bem antes disso, a performance no campeonato e os jogos perdidos, mesmo quando o time dava alguns sinais de reação, somavam-se a pênaltis não sinalizados, ao VAR enviesado, às derrotas improváveis e aos jogadores desorientados. A mensagem era clara: entregue os pontos, beije a lona e aceite a derrota. 

Thiago não aceitou. Lamentou, esbravejou e voltou à luta. Resignou-se a marcar pressão, forçar a roubada de bola e reiniciar a retomada para o ataque. Com ele, havia ao menos mais dez em campo e um tanto mais no banco. Uma gente disposta a mostrar para si mesmo que se havia uma só chance por esta chance batalhariam em cada pedaço do gramado. Independentemente do que viesse acontecer, desistir não era verbo a ser conjugado.

Coube ao próprio Thiago provar de sua força. Apareceu mais uma vez na cara do gol, onde se reencontrou com a bola, lançada por Diogo Barbosa, e de cabeça começou a reescrever a história. Colocou o Grêmio à frente no placar e conduziu o time à vitória necessária, diante de sua torcida. Verdade que a bola seguiu tentando nos pregar surpresas. Nos levar à descrença. Desviou em um poste. Chocou-se com o outro. Foi para fora, mesmo após ter sido tratada com o talento e a generosidade de Ferreira.

Foi, então, que o improvável voltou a se impor. Diogo, criticado pela torcida, escanteado do time, que deu assistência para Thiago no primeiro gol, assistiu a si mesmo, no segundo. Driblou com o pé esquerdo e serviu ao direito, que fez a bola tomar uma trajetória circular e se aconchegar no ângulo. Nem mesmo a dupla vantagem parecia tranquilizar os incrédulos que tinham na memória os empates cedidos e as derrotas entregues, em resultados que nos levaram a atual condição. Foi, então, que a perspicácia e precisão de Jonathan Robert enterrou a desesperança em um golaço marcado do meio de campo e por cobertura. 

O que assistimos na noite desta quinta-feira, que se desenhava trágica, pode não ser suficiente para nos manter vivos na primeira divisão. Temos de vencer as duas últimas partidas e esperar que a combinação dos resultados nos tire deste martírio. Uma tarefa mais complicada do que a outra, considerado a condição de nossos próximos adversários e a inconstância de nossa sorte (e futebo. Mas, com certeza, mostramos a incrédulos e crentes de que estamos dispostos, mais uma vez, a colocar a Imortalidade à prova.