Avalanche Tricolor: tempos estranhos

 

 

Ceará 2×1 Grêmio
Brasileiro — Castelão/Fortaleza-CE

 

 

EVERTON

Everton comemora (reprodução SporTV)

 

 
Campeão da Copa do Brasil, em 2016
Campeão da Libertadores e vice-Mundial, em 2017
Campeão Gaúcho e da Recopa Sul-Americana, em 2018
Campeão Gaúcho e da Recopa Gaúcha, em 2019

 

 
Comecei a fazer a lista acima pouco antes do fim da partida desta noite de domingo. Não que o jogo não estivesse interessante. Até que estava, apesar de o placar desfavorável — especialmente no segundo tempo quando jogamos o tempo todo no campo do adversário. Mas entre um cruzamento sem finalização e uma troca de passe interrompida, resolvi listar nossos títulos nos últimos anos porque muitas vezes a foto do dia esconde a beleza do álbum de fotografias.

 

 
Ao folhá-lo, relembrei os momentos lindos que vivemos juntos, o sorriso bonito no rosto do atacante que acabara de marcar seu gol e o brilho do troféu que nossos jogadores ofereceram aos torcedores no palco dos campeões. A foto mais marcante desta temporada, aliás, nem era da comemoração de nosso último título estadual, mas da classificação às oitavas-de-final da Libertadores, que —- não se perca no tempo — aconteceu agora há pouco, há dez dias para ser mais preciso.

 

 
A camisa, o técnico, o time que aparece no meu álbum de fotografias são os mesmos —- ou quase —- que estiveram em campo, neste domingo. Lá no Ceará, via-se a tentativa de trocar passe com aquela precisão que nos levou a vitórias incríveis. Esboçava-se uma movimentação triangular entre os jogadores do meio de campo e os atacantes. Arriscava-se alguns dribles para superar a marcação forte do adversário. Mas o resultado final não era o mesmo de “antigamente”.

 

 
Com um erro aqui e outro acolá, com uma falha atrás e um defeito na frente, com vacilos e tropeços, somamos erros em vez de somarmos pontos. Patinamos na grama molhada tanto quanto na classificação — a ponto de eu ter comemorado o empate do concorrente que nos acompanha no pé da tabela. E, confesso, achei isso muito estranho de minha parte. Por isso, voltei a olhar a lista de títulos recentes e a folhear na memória as imagens de nossas conquistas.

 

 
Sei que vivemos tempos estranhos e estamos muito mal acostumados com o revés, mas deixar de confiar no time e no grupo que nos fez tão felizes no futebol é desmerecer nossa capacidade de recuperação. E se tem um coisa que já aprendi há algum tempo torcendo pelo Grêmio é que aqueles que apostam pelo pior tendem a se dar muito mal com a gente.

 

 
Paciência, cabeça no lugar e bola no pé! Eis o caminho para a retomada das vitórias no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: respeito é bom e eu gosto

 

Corinthians 0x0 Grêmio
Brasileiro — Arena Itaquera

 

Gremio x Corinthians

Everton em mais uma arrancada, em foto de LUCASUEBEL/GREMIOSFBPA

 

O Grêmio e Corinthians mais importante da minha vida foi em 2001. Fomos campeões da Copa do Brasil. E antes que você pense que exagero, levando em consideração que as duas equipes já se enfrentaram em outras grandes decisões, preciso lembrar que na partida final, disputada no estádio do Morumbi, apresentava-me ao público na versão narrador de futebol.

 

Sim, já narrei jogos de futebol —- e de tênis, também —- em uma experiência que vivenciei na Rede TV!, nos anos de 2000 e 2001. Foi uma oportunidade incrível, proporcionada pelo colega e amigo Juca Kfouri — agradeço a ele até hoje essa chance, lamento apenas não ter sido capaz de retribuir tudo que ele merece. Juca me convidou para transmitir partidas de futebol, na época em que a emissora estava começando.

 

O convite foi resultado de conversas que já havíamos tido sobre modelos de transmissão de jogos pela TV, das quais meu pai também chegou a participar. Acreditávamos na ideia de que o narrador deveria ter uma interferência menor no espetáculo já bastante valorizado pela qualidade tecnológica à disposição e a quantidade de imagens disponíveis. Podemos falar sobre isso em outra oportunidade se assim você pedir, caro e raro leitor desta Avalanche.

 

Vamos ao que interessa —- ao menos ao que me interessa agora: imagine que desde pequeno assistia a meu pai narrar jogos no rádio e na TV; arriscava alguns gritos de gol ao lado da mesa de botão, no quarto de casa; e de repente passo a ter a chance de narrar partidas, ao vivo, pela TV, como gente grande. Era um sonho de criança se realizando.

 

Para esse sonho ficar ainda mais maravilhoso, depois de narrar partidas pela Champions League e Campeonato Paulista — além de uma final de Grande Slam, no Torneio de Wimbledon —-, a Rede TV! teve o direito de transmitir a Copa do Brasil de 2001. E exatamente naquele ano, a equipe, então treinada por Tite, chegou à final contra o Corinthians.

 

O primeiro jogo foi em Porto Alegre e empatamos em 2 a 2. A disputa do título seria em São Paulo, diante da torcida adversária que lotava o Morumbi e tendo o adversário como favorito —- era o que diziam os críticos da crônica esportiva. Escalado para narrar o jogo, tive de controlar a ansiedade e a torcida pelo Grêmio, em respeito ao telespectador.

 

Aos poucos, porém, o Grêmio dominou a partida. Terminou o primeiro tempo na frente e quando mal se iniciava o segundo já ampliava a vantagem. Fechou a conquista do título com um 3×1 que calou o estádio e levou este locutor ao delírio —- possível de se identificar no grito desafinado de alguns gols gremistas.

 

Aquele foi sem dúvida o Grêmio x Corinthians mais importante da vida —- não bastasse ter sido a última partida de futebol que narrei.

 

Independentemente dos fatos relacionados à minha carreira —- de profissional e de torcedor —-, a verdade é que os dois times já protagonizaram momentos memoráveis no futebol brasileiro. Com vitórias de um lado, vitórias de outro e muitos empates, semelhantes ao desta noite, em Itaquera.

 

Tenho a impressão de que existe entre os dois times um respeito mútuo que os faz comemorar quando saem de campo sem serem derrotados, estejam jogando em casa ou não. Respeito, aliás, foi a palavra usada por um dos jogadores corintianos ouvidos pela TV ao fim da partida. Revelou que o importante era não ter tomado gol e conseguido somar ao menos um ponto contra um adversário do tamanho do Grêmio.

 

Sempre bom saber o quanto nossas conquistas e nossa dimensão são respeitadas pelos adversários.

 

Melhor se conseguíssemos transformar esse excesso de respeito deles em vitórias para nós, mas sair de Itaquera com um ponto ganho não é ruim, não — mesmo com a insistência de alguns em lembrar que já estamos na quarta rodada e ainda não vencemos um só jogo neste Campeonato Brasileiro. A esses — entre os quais alguns dos nossos torcedores que se expressam nas redes sociais —, quero apenas fazer um pedido: respeitem a nossa história, parem de fazer projeções desesperadas e se lembrem que até um mês atrás muitos de vocês estavam apostando que estaríamos fora da Libertadores.

 

Às vezes, tenho a impressão de que a turma não aprende a lição. Respeitem, apenas respeitem. 

Avalanche Tricolor: chega pra lá, bruxa!

 

Grêmio 4×5 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Gremio x Fluminense

Kannemann comemora um dos gols em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

“No creo en brujas, pero que las hay, las hay” diz o ditado espanhol que ouvi meu pai repetir algumas centenas de vezes, geralmente quando revelava ceticismo em relação a alguma coisa da vida. Lembrei-me dele não apenas pela oportunidade de estar ao lado do pai nestes últimos cinco dias, em visita a Porto Alegre. Mas pelos fatos que se sucederam desde que fui embarcar em um avião de volta a São Paulo.

 

O atraso do voo, por motivos jamais explicado pela companhia aérea, nos fez embarcar no avião quase 40 minutos depois do combinado — o que já seria suficiente para atrapalhar minha agenda desta noite de domingo: assistir ao jogo do Grêmio pela televisão.

 

Como desgraça pouca é bobagem — perdão, hoje esta Avalanche está cheia de ditados —-, assim que as portas do avião fecharam, o céu em Porto Alegre fechou junto, e um temporal de vento passou a balançar a aeronave na pista do aeroporto Salgado Filho. A torre cancelou decolagens e aterrisagens. E lá ficamos todos presos a espera da liberação.

 

Costumo não ser ansioso nessas horas, mesmo porque a segurança é a prioridade. Mas estava na cara que meus planos tinham ido por água abaixo —- opa, lá foi mais um lugar-comum. Na melhor das hipóteses assistiria ao segundo tempo da partida. A chuva só se acalmou depois de uma hora e 45 de atraso.

 

Assim que desembarquei no aeroporto de Congonhas, liguei meu “radinho de pilha” do celular e fui surpreendido com um 3×0 acachapante, conquistado em 21 minutos, como exaltava o locutor esportivo. Feliz com aquela que seria a primeira vitória gremista no Campeonato Brasileiro me dirigi para o estacionamento onde um carro me aguardava.

 

Nem bem havia chegado ao estacionamento, ouvi o primeiro e o segundo gols adversários. No caminho para a casa veio o terceiro. E quando me sentei diante da televisão, pude ver o 3×4, o 4×4 e o 4×5. E tudo que consegui pensar era que “la bruja” no caso era eu, pois enquanto não acompanhava a partida estava tudo bem. Bastou começar a ouvir o jogo e o meu time desandou.

 

A me apaziguar o coração o fato de “el diablo saber más de viejo que por diablo” —- outro ditado que meu pai repetia à exaustão ao se referir à experiência que só o tempo nos oferece. Pois de tanto assistir ao futebol também sei que nem sempre é o nosso pé frio que muda o placar da partida. Às vezes “la bruja está suelta” no pé de um goleiro desastrado, de um atacante atabalhoado, de um time desconcentrado ou no apito de um juiz mal-intencionado (longe de mim levantar suspeita contra qualquer um dos personagens dessa última frase).

 

Independentemente onde “la bruja” tenha pousado, terminei o fim de semana com o desejo que ela já tenha feito todos os seus feitiços em campo e vá voar para bem longe da Arena, porque na quarta-feira, não pode haver espaço para o azar: “arriba y avante porque la Libertadores viene adelante“.

Avalanche Tricolor: viajei no tempo

 

Avaí 1×1 Grêmio
Brasileiro – Ressacada/Florianópolis-SC

 

 

Gremio x Avai

Thaciano é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Viajei muitas vezes ao lado de meu pai atrás do Grêmio. Ele, profissionalmente. Era escalado para narrar os jogos pela rádio Guaíba de Porto Alegre, onde trabalhou por quase 60 anos. Eu, apaixonadamente. Pegava carona nas Kombis e Veraneios que transportavam a equipe de esportes da emissora. Era sempre um sensação bacana chegar ao estádio a bordo daquelas viaturas, pois a turma da rádio era muito respeitada pelos torcedores-ouvintes. Ficava orgulhoso de ver a maneira como meu pai e seus colegas eram recebidos.

 

Nos anos de 1970, lembro de o pai ter sido escalado para narrar uma partida do Grêmio em Florianópolis. Aproveitou que sairia de férias em seguida, mandou a família arrumar as malas, colocou todos nós no seu Corcel azul marinho e pegou a estrada em direção a Santa Catarina. Deixou a turma em um hotel assim que chegou à capital catarinense e foi comigo para o estádio Adolfo Konder, que também atendia pelos apelidos Majestoso e Pasto do Bode. O adversário era o Avaí, time do qual eu pouco havia ouvido falar.

 

O Grêmio passou fácil pelo adversário. Se não me engano aplicou-lhe uma goleada, o que levou alguns torcedores que nos encontraram após a partida a fazer brincadeiras relacionando o placar do jogo com um seriado famoso da época, chamado Havaí 5.0, protagonizado por uma força especial de policiais que combatia o crime  no estado do Havaí, nos Estados Unidos.

 

Uma das imagens que tenho na memória é a de um passeio de mãos dadas com o pai e ao lado de parte da equipe de esportes da Guaíba, que fizemos à noite pelas ruas de Florianópolis. Guri de calça curta, eu ficava sempre muito alegre naqueles momentos em que tinha a oportunidade de acompanhá-lo com seus colegas —- eu praticamente não abria a boca, apenas ouvia o que eles conversavam, mas era o suficiente para ter a sensação de que fazia parte daquele time de craques. Curiosamente, muitos anos depois trabalhei com alguns deles, no início da minha carreira, já na metade dos anos de 1980.

 

Alguns desses momentos voltaram à mente na noite dessa quarta-feira quando fui ao apartamento do pai, aqui em Porto Alegre, para assistir, pela televisão, ao segundo jogo do Grêmio, no Campeonato Brasileiro. Viajei no tempo, enquanto a bola rolava no Estádio da Ressacada, batizado Aderbal Ramos da Silva. Relembrei do passeio à Florianópolis e de muitos outros que fizemos juntos, quase sempre a caminho das partidas do Grêmio. De como nos divertíamos com as histórias que ouvíamos, de como comemorávamos as vitórias e arrumávamos justificativas para as derrotas.

 

Eram tantas lembranças que surgiam que tive a impressão de não ter me dedicado à partida como estou acostumado. Sabe quando a gente está em um lugar mas a cabeça está em outro? Pois é, foi o que aconteceu comigo nesse fim de feriado do Dia do Trabalho. Verdade que eu tinha um bom motivo para tal. Estou vivendo um momento em que tenho o desejo de recuperar cada experiência ao lado do pai. E nada parece ser mais importante agora.

 

Quem não podia ter perdido o foco mesmo era o Grêmio. Pois isso sempre acaba cobrando um preço alto ou nos tirando pontos preciosos, como aconteceu nessa noite, em Florianópolis — até porque o adversário há algum tempo deixou de ser aquele time desconhecido para o qual fui apresentado lá nos anos de 1970.

Avalanche Tricolor: nem sempre ganhando

 

 

 Grêmio 1×2 Santos
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

 

Gremio x Santos

Everton faz o gol do Grêmio em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

A música de Elis Regina me acompanhou ao longo de todo esse domingo que se iniciou cedo no futebol. A voz dessa artista genial —- e gremista —- balbuciou a letra de “Aprendendo a jogar” em meus ouvidos até que eu sentasse para escrever esta Avalanche que você, caro e raro leitor, lê a partir de agora.

 

O Grêmio entrou em campo quando muita gente ainda curava a ressaca do sábado à noite. E se não conseguiu acordar em tempo, desperdiçou um belíssimo jogo — ainda que o resultado final não tenha sido positivo para nós.

 

Duas equipes que sabem tratar a bola deram espetáculo de variação de jogadas, movimentação intensa, marcação efetiva e talento individual. O Grêmio demorou um pouco para entender o tamanho do futebol do adversário e pagou caro demais para quem tem o time que tem e fez o segundo tempo que fez.

 

O gol que marcamos já ao fim do jogo, foi um gol com a nossa cara. Tabela pela direita e troca de passes precisos entre Diego Tardelli e Maicon, e a agilidade no drible e a velocidade no chute de Everton. Mas quando marcamos, já era tarde para uma reação.

 

Aliás, foi o próprio Everton quem lembrou ao fim da partida e ainda ao lado do gramado que a impressão que tinha é que o Grêmio jogaria mais 90 minutos e a bola não entraria —— estava certamente impactado pela quantidade de vezes que viu a bola rondar o gol adversário, bater no travessão depois de uma bicicleta, escorregar para fora após um chute esperto, esbarrar no goleiro e se desviar de seu destino.

 

Por mais curioso que fosse —- mas não injustificável —- mesmo com a diferença que se manteve no placar a maior parte do tempo em favor do adversário, não conseguia me irritar com o Grêmio. E se esse sentimento não se fazia em mim é porque soube reconhecer tanto o talento de quem nos enfrentava quanto o esforço gremista em reproduzir o futebol aprendido nestes tempos de Renato.

 

O campeonato está apenas se iniciando e o Grêmio já declarou que conquistá-lo faz parte do cardápio que pretendemos oferecer nesta temporada de 2019. Portanto, claro que se lamenta a perda de três pontos logo no seu começo, em casa. Mas é injusto imaginar que esses serão determinantes na competição.

 

O mais importante neste momento é perceber que nem sempre venceremos mas não podemos jamais abrir mão de jogar o futebol que aprendemos a jogar — e jogar muito bem.

 

Sobe o som porque quero ouvir um pouco mais de Elis Regina:

Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas, aprendendo a jogar

Avalanche Tricolor: Renato sabe o que faz

 

 

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro – Arena Condá, Chapecó-SC

 

GREMIO 3

 

Um tem 19, outro 20, outro 21 e tinha um ainda com 22 anos. Essa gurizada que entrou em campo hoje para representar o Grêmio tem a idade — ou quase — dos meus filhos. Gente muito nova, precisando ganhar cancha, como se diz na minha terra. Inexperiente ainda. E para tornar o desafio ainda maior entraram em uma equipe que não costuma jogar junto — em função da maratona de partidas que se inicia com a chegada de agosto, preferimos escalar 11 reservas.

 

Um dos meninos fez bonito logo no início: Pepê, 21 anos, trocou passe no contra-ataque com Hernane Brocador e com um tapa na bola encobriu o goleiro adversário quando tínhamos pouco mais de dois minutos de partida — é o primeiro gol dele entre os profissionais. Mais uma vez a escolha de Renato dava certo, pois todos apostavam que o titular seria Thonny Anderson e nosso técnico preferiu o outro guri. Deu certo. Dizem que é a estrela do técnico que brilha. Para mim, é a sabedoria.

 

O de 19 anos estava na lateral, era Guilherme Guedes; o de 20, Thony Anderson que entrou no segundo tempo; assim como Derlan, que aos 22 anos, substitui Bressan, lesionado.

 

Verdade que no nosso meio de campo havia um “veterano”: Douglas que está voltando ao time aos poucos, depois de um ano e meio parado devido a lesão e cirurgia. O “10”, como é chamado pelos colegas, ou o “Maestro”, como o chamam os torcedores, demonstra seu talento sempre que toca na bola. É uma enfiada entre os zagueiros, um passe de três dedos ou um toque para desmontar a marcação. Dá gosto de vê-lo em campo.

 

Entre os guris e o “velho” havia ainda muita gente tentando conquistar um espaço na equipe, mas com entrosamento insuficiente para dar ao time reserva a mesma movimentação dos titulares. Com isso, o que sempre foi nosso mérito, a posse de bola, ficou nos pés do adversário que pressionou, com o apoio de sua torcida e o desespero da ameaça de rebaixamento — e ainda contou com a falta de atenção dos árbitros que validaram gol iniciado com o atacante que estava em posição de impedimento como bem mostrou a televisão.

 

Saímos com um empate quando o que queríamos mesmo eram os três pontos — porque sempre queremos os três pontos. Diante das circunstâncias, porém, o resultado ficou de bom tamanho e encerraremos a rodada na zona da Libertadores.

 

A partir de agora é olhar para a Copa do Brasil, nesta semana que se inicia, e na Libertadores, na semana seguinte. Quanto ao Campeonato Brasileiro (bem que eu gostaria de ver os titulares atropelando o adversário e se aproximando ainda mais do líder) ….  Renato tem muito crédito com a gente. Que faça o que achar melhor para o Grêmio!

Avalanche Tricolor: salve, salve gurizada!

 

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Ser torcedor gremista como sou e estar radicado em São Paulo como estou —- já falei sobre isso com você caro e raro leitor deste blog — me remete a situações estranhas. Quando você mora na terra do seu time do coração, a maior preocupação é com o clássico regional. Não dá pra perder de jeito nenhum. Quando mora fora, aumentam as chances de encontrar corneteiros no caminho.

 

Aqui na capital paulista, para ter ideia, tenho torcedores de ao menos quatro grandes querendo tirar uma da minha cara na primeira tropeçada do Grêmio contra o time deles. Por isso, a cada rodada contra um representante paulista, sofro uma espécie de Gre-Nal fora de época.

 

Desde o início da semana já era fácil de perceber o sorriso maroto de alguns amigos tricolores —- tricolores paulistas, é lógico. Esfregavam as mãos, analisavam estratégias e faziam contas: uma vitória e estaremos na liderança do Campeonato. Tinham razão para o otimismo, afinal a equipe está embalada e tem muitos méritos.

 

Dentre eles, com as cautelas de ocasião, estava o meu companheiro de todas as manhãs no Jornal da CBN, Teco Medina, que, no ar, chegou a dizer que ficaria satisfeito com o empate na Arena —- quem o conhece sabe que o gosto da vitória era o seu preferido. Foi mais sincero no Instagram, quando pediu para seu guri mandar um recado a este escriba: “Salve, salve, Miltinho, o São Paulo vai vencer, por 1 a 0, e com gol de Diego Souza.

 

Mal começada a partida deste início de noite, em Porto Alegre, em uma rara falha de Geromel, a visão do pequeno são-paulino se realizava, com o ex-atacante gremista marcando 1 a 0 e assustando a torcida do lado de cá. Deve ter sido bonita a comemoração do meu amigo Teco e seu pimpolho. Eu e ele sabemos como é legal comemorar um gol abraçado no filho. O que eles não contavam, porém, é que o Grêmio também tinha suas armas.

 

O Grêmio tem Everton. Tem Everton enlouquecido com a bola no pé, capaz de encontrar espaço onde este não existe. Que passa correndo por um lado enquanto a bola vem pelo outro. E o pobre coitado do seu marcador não sabe para que lado vai. Pede ajuda para um companheiro, olha desesperado para o técnico, reclama qualquer coisa do árbitro — nada mais do que manobras para ver se ninguém percebe que ele está mesmo é perdido, sem saber o que fazer diante daquele guri endiabrado.

 

Everton resolveu uma vez, nos acréscimos do primeiro tempo, colocando justiça no placar, afinal o Grêmio — exceção ao gol logo no início e um contra-ataque abortado pelo incrível Kanennman quase no fim — controlou o jogo. Chegou a ter 79% de posse de bola.

 

Na volta do segundo tempo, Everton resolveu outra vez, aos 15 minutos, em lance com as mesmas características do gol anterior. Balança para cá, balança para lá e quando parece que não há mais o que fazer, ele chuta no canto mais improvável e marca.

 

Verdade seja dita: Everton só consegue resolver dessa maneira porque, além de jogar muita bola, tem ao seu lado um time talentoso, inteligente e paciente. Capaz de trocar um número incrível de passes antes de decidir a jogada. Um tipo de jogo que irrita o adversário e o obriga a cometer uma sucessão de faltas para tentar alcançar a bola —- é isso que explica os cartões amarelos distribuídos pelo árbitro.

 

Graças a Everton e ao estilo de jogo do Grêmio a festa aqui em casa foi mais completa e eu pude por duas vezes comemorar abraçado com os meus guris. E assim como eu, Teco, você sabe como é mais legal ainda comemorar dois gols com os nossos filhos. 

 

Salve, salve!

Avalanche Tricolor: um futebol que vai deixar saudades

 

Grêmio 1×0 América-MG
Brasileiro – Arena Grêmio

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Eram 37 minutos do segundo tempo e o Grêmio já vencia a partida. Havia uma lateral a nosso favor — daqueles lances que na maior parte das vezes é marcado pela burocracia de um arremesso com a mão para alguém que esteja mais próximo e sem marcação. Cortez arremessou a bola para Thaciano, que havia escapado por trás dos zagueiros ao lado da grande área. Nosso atacante dominou e devolveu a bola para Cortez, que passou para Cícero, que recuou para Luan, que viu Cortez correndo entre os zagueiros em direção ao gol. Nosso lateral voltou a receber a bola pelo alto e de cabeça procurou Jael. O marcador foi mais rápido e fez o corte, mas Arthur recuperou em seguida, passou para Everton e nosso atacante chutou para a defesa parcial do goleiro adversário (veja o lance acima).

 

Como disse, tudo aconteceu aos 37 minutos do segundo tempo e o Grêmio já vencia a partida. O lance talvez apareça no resumo do jogo que as emissoras de televisão costumam mostrar nos programas esportivos — caso contrário corre o risco de ficar esquecido diante do gol que marcamos aos 32 do primeiro tempo, que por sinal foi uma pintura: Cícero, que estava no campo de defesa, foi capaz de ver a disparada de Everton e com um lançamento preciso o colocou dentro da área em condições de empurrar a bola para dentro do gol.

 

O gol foi realmente belíssimo, mas preferi destacar o lance descrito no primeiro parágrafo desta Avalanche — e destacado no vídeo que ilustra este post — porque vejo nele muito do que é o Grêmio dos tempos atuais — do que é o Grêmio de Renato: jogadores que impõem uma dinâmica muito veloz de troca de posições, que passam a bola com confiança e têm coragem de arriscar jogadas de efeito, sem medo de errar.

 

Nem sempre tudo isso se realiza em gol, mas confesso minha felicidade em ver meu time jogando dessa maneira, valorizando a posse de bola e a tratando com o talento que somente os grandes times do futebol mundial são capazes de fazer. Houve outros tantos momentos interessantes na partida, como o drible de Everton na lateral de campo, aos 33 do segundo tempo, quando girou no ar, trocou a bola de um pé para o outro e deixou seu marcador caído no gramado.

 

Mais importante ainda é saber que esses não são lances raros de serem vistos nas partidas jogadas pelo Grêmio, mesmo quando o resultado não é o que desejamos. Digo tudo isso para registrar aqui, caro e raro leitor desta Avalanche, que independentemente da posição que estejamos até a parada do Campeonato Brasileiro — que acontecerá no meio dessa semana que se inicia —, terei de encontrar algo para conter minha ansiedade em ver novamente o Grêmio em campo. A competição nem parou para a Copa do Mundo e eu, confesso, já estou com saudades.

Avalanche Tricolor: o futebol tem dessas coisas

 

Bahia 0x2 Grêmio
Brasileiro – Arena Fonte Nova/Salvador-BA

 

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Everton em mais uma tentativa de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O futebol tem dessas coisas.

 

Fizemos jogos incríveis nesta temporada e saímos lamentando a falta de gol, o empate injusto, o erro do árbitro ou o campo maltratado. Desperdiçamos pontos e perdemos a oportunidade de estar no topo da tabela.

 

Na tarde em que tivemos o pior desempenho do ano, esquecemos de trocar passe no ataque, perdemos o controle do jogo — chegamos a tropeçar na bola, coisa rara neste time — e efetuamos chutes distorcidos, saímos do gramado com uma vitória de 2 a 0 e na vice-liderança da competição.

 

Verdade que os dois gols que fizemos foram resultado daquilo que temos de melhor: a velocidade com que se trabalha a bola e com que se escapa da marcação.

 

No primeiro, Everton foi talentoso para driblar e preciso ao encontrar Ramiro no meio da área, onde sofreu o pênalti. Por curioso, só fizemos o gol depois de Maicon errar a cobrança — outra raridade nestes últimos tempos.

 

No segundo, Everton, o “imparável” voltou a funcionar com uma escapada que deixou marcadores estatelados no chão. Depois foi uma corrida para ver quem conseguia empurrar a bola para dentro. Entre Pepê e Thaciano, ficou com esse último a tarefa de decidir o jogo.

 

Fora esses lances, pouca coisa se tirou da partida. Para não ser injusto, destacou-se a defesa que pressionada em boa parte do jogo soube afastar os perigos que se avizinhavam.

 

Torcedores devem estar a se perguntar: é melhor jogar bem e empatar ou jogar mal e ganhar os três pontos? A quem ainda tem essa dúvida, minha resposta: jogar o melhor futebol do Brasil como vínhamos fazendo até aqui e ganhar. Essa é a nossa missão e voltaremos a cumpri-la assim que as principais peças estiverem em forma novamente. Porque jogar bem e não conseguir o resultado até acontece — o futebol tem dessas coisas. Agora, jogar mal e vencer, é muito mais difícil — apesar de que o futebol, como vimos hoje, também apronta dessas. Ainda bem que dessa vez foi a nosso favor.

Avalanche Tricolor: crise? que crise?

 

Grêmio 0x0 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Everton contra três marcadores em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Sem crise. Sem gols, também. Mas sem crise. E se alguém pensa na possibilidade de que uma possa se instalar, está muito enganado. O Grêmio é campeão Gaúcho e da Recopa Sul-Americana. Está classificado às quartas-de-final da Copa do Brasil, segue firme e forte na Libertadores e se mantém na luta pelo Brasileiro

 

Mas está em oitavo? Sim, está mesmo. E pode ficar em nono, dependendo a combinação de resultados. Para quem só enxerga futebol pelo buraco da fechadura pode parecer um problema. Mas é preciso olhar de maneira mais ampla.

 

Começa que a distância para o topo da tabela é pequena — e pode mudar em duas ou três rodadas no máximo. Ao contrário de anos anteriores, ninguém disparou na liderança, apesar de haver times com campanhas consistentes — alguns inclusive com campanha dedicada ao Brasileiro, diferentemente do Grêmio.

 

O mais importante é que a falta de gols nas últimas partidas, que tanto incomoda o time e os torcedores, não ocorre pela falta de futebol —- a bola segue rolando de pé em pé a maior parte do jogo e com passes precisos acima da média dos adversários. A quantidade de finalizações também é significativa, mesmo estando abaixo do esperado pelo tempo que mantemos o controle da partida.

 

As lesões, principalmente no ataque, tiraram opções de Renato que, neste momento, está com jogadores de características semelhantes para colocar dentro da área. Sem essa variação, o adversário se fecha, e os caminhos para chegar ao gol ficam limitados. À medida que os machucados retornarem, os gols voltarão, também.

 

O curioso nesse empate de quarta-feira foi perceber que se antes a retranca era o antídoto usado por times que ocupavam a zona de rebaixamento, agora passou a sê-lo daqueles que estão no topo da tabela. Ou seja, a fórmula encontrada para parar o futebol bem jogado do Grêmio é impedir que se jogue futebol.

 

Se você estiver apostando em crise, não perca seu tempo. O futebol de qualidade haverá de perseverar.