Avalanche Tricolor: os heróis improváveis e o sentimento de ser gremista

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Paulo

Wallace comemora seu primeiro gol no Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os heróis improváveis levaram o Grêmio a uma virada fundamental para o nosso destino na temporada. Wallace, o jovem zagueiro recém-chegado de Alagoas, e Pavón, o argentino tantas vezes criticado pelas arquibancadas, fizeram os gols que nos tiraram daquela-zona-que-você-sabe-qual-é.

Pode parecer exagero de torcedor, considerando a montanha que ainda temos de subir na competição. O fato é que o time de Luis Castro, com todos os limites técnicos e táticos que ainda apresenta, precisava recuperar a confiança perdida em algum ponto da nossa jornada.

Os reveses mais recentes incomodavam especialmente pela forma resignada com que a equipe se comportava. Derrotas nas diferentes competições e a eliminação na Sul-Americana eram recebidas quase como uma fatalidade, como se o elenco estivesse convencido da própria incompetência. Ao torcedor, restava uma mensagem de desalento.

A postura que levou à classificação para as quartas de final da Copa do Brasil já havia sido completamente diferente. Mesmo com todos os defeitos, os jogadores se impuseram diante do adversário e lutaram de forma incessante. Mesmo pressionado mais do que gostaríamos, mostrou que sabir ser resiliente. O que vimos hoje, pelo Campeonato Brasileiro, foi a repetição daquela atitude, especialmente depois de o Grêmio sair atrás no marcador.

Ainda não temos a marcação intensa que rouba a bola no campo do adversário, a organização tática que reduz os riscos dentro da nossa área ou uma circulação de bola mais articulada no meio de campo. O torcedor, porém, consegue perceber jogadores atuando com muito mais intensidade nos três setores do time.

Lá atrás, Wallace é o principal destaque. E, se não se assustar com o próprio sucesso, pode ser importante não apenas para dar mais segurança à defesa, mas também para avançar com a bola e romper a primeira linha de marcação do adversário. A lateral direita, com Diego Caito, está mais bem guarnecida. O entendimento dele com Pavón, à frente, fez diferença nos dois últimos jogos. É por aquele lado que o Grêmio ataca melhor e oferece mais perigo.

O atacante argentino é um personagem à parte neste momento. Parece ter redescoberto o drible depois de passar seis meses jogando mais recuado e improvisado na lateral direita. Não bastasse a chegada forte à linha de fundo, foi responsável pelos gols das duas vitórias recentes. E ambos de falta.

Na cobrança de hoje, a considerar pelo que disse ao fim da partida, Pavón teve plena consciência do movimento que fazia. Percebeu a falta de proteção extra atrás da barreira e chutou forte por baixo para colocar a bola na rede. No jogo anterior, também havia demonstrado inteligência ao identificar o desajuste da barreira adversária.

O Grêmio ainda está distante de apresentar um futebol vistoso. As duas vitórias seguidas, porém, devolvem ao time algo que parecia ter desaparecido: a convicção de que lutar pode valer a pena. E, quando essa disposição aparece em campo, a torcida responde.

Hoje, eram 35 mil gremistas na Arena empurrando o time até a virada. Wallace e Pavón foram os heróis improváveis da noite. A arquibancada tratou de lembrar o que os move — e o que nos move — ao cantar em coro:

“O Grêmio é puro sentimento.”

Avalanche Tricolor: o empate decepciona e a volta de Marlon inspira

Grêmio 1×1 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Fluminense

Marlon parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há quatro meses, diante da cena que chocou os gremistas, roguei para que Marlon encontrasse forças e se recuperasse. Em um lance fortuito, nosso lateral esquerdo sofreu uma fratura no tornozelo, que ficou escancarada na imagem captada pela televisão. Ali mesmo, no sofrimento que se iniciava no gramado, ele já sinalizava a dimensão de sua resiliência. Antes de entrar na ambulância, ergueu o corpo sobre a maca, olhou para os torcedores que gritavam seu nome e agradeceu com aplausos e um sorriso.

Hoje, Marlon estava de volta ao time titular, cumprindo o compromisso que ele próprio havia assumido com o Grêmio e sua torcida. A presença dele oferece maturidade na marcação e segurança na saída de bola pelo lado direito. Tem bom passe e visão de jogo. Antes mesmo de demonstrar que está em plena recuperação — ainda precisará de alguns jogos para retomar o ritmo —, seu nome entre os titulares me deu esperança de que ainda podemos mudar nossa história nesta temporada.

Marlon é gremista de coração. É daqueles jogadores que carregam uma história junto com a camisa e chegaram para viver o que muitos chamam de sonho. Foi o que escrevi em 20 de março, logo depois de me sensibilizar com uma dor que somente ele seria capaz de dimensionar.

Mesmo que o resultado deste domingo tenha sido mais uma frustração — empatamos em casa quando os três pontos se faziam necessários —, vislumbro na volta de Marlon a possibilidade de uma transformação. Não que ele seja o tipo de jogador capaz de desequilibrar uma partida, como costumam fazer os grandes craques do futebol. Tem, porém, personalidade e liderança que serão fundamentais para os desafios que se impõem em nosso caminho.

Na Copa Sul-Americana, precisamos vencer já na próxima quinta-feira para seguirmos em frente. Na Copa do Brasil, enfrentaremos, em dois jogos, um adversário que jamais vencemos na história. No Campeonato Brasileiro, precisaremos voltar a ganhar para, ao menos por algumas rodadas, respirar aliviados e distantes daquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Para este torcedor delirante, que insiste em acreditar que sempre será possível, ter visto Marlon em campo hoje foi o sinal de que eu precisava para suportar mais um revés no Brasileiro. Que sua volta também tenha esse mesmo simbolismo para o elenco gremista.

Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.

Avalanche Tricolor: sucesso, Luís Castro!

Grêmio 1×3 Corinthians
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro em foto de Lucas Uebel/Grêmio FPBA

Fui privilegiado ao conviver com técnicos renomados. Essa experiência foi possível porque meu pai sempre foi muito respeitado pelos treinadores, especialmente pelos que trabalharam no Grêmio. Ao lado dele, assistia aos treinos no campo suplementar ou no gramado do Olímpico. Naquela época isso ainda era possível e oferecia aos cronistas esportivos argumentos mais consistentes para suas análises. Hoje, com quase tudo escondido atrás de portões fechados, é difícil saber se a escolha por determinado jogador se dá por teimosia, convicção ou merecimento.

Ao fim dos treinamentos e depois das entrevistas concedidas ali mesmo, à beira do campo, gente da estatura de Ênio Andrade, Telê Santana, Valdir Espinosa e Cláudio Duarte permanecia na resenha com meu pai. Com Seu Ênio, a conversa frequentemente avançava para a cozinha de um dos bares instalados no Largo dos Campeões. Era lá que eles se sentavam para tomar whisky e falar da vida — geralmente da vida do Grêmio. A mim cabia um copo de refrigerante e o privilégio de observar aquela cena rara e privada.

Ouvir as inconfidências dos treinadores me ensinou cedo que muitas das histórias que movem um clube jamais chegam ao conhecimento do torcedor. Por isso, nossa visão costuma ser parcial. Talvez, se houvesse mais transparência, não idolatrássemos alguns jogadores que em público se comportam de uma forma, mas nos bastidores agem de outra. Entenderíamos por que aquele craque em quem depositamos tantas esperanças fica no banco. Ou por que o técnico prefere um jogador limitado tecnicamente para reforçar a marcação no meio-campo em vez do talentoso garoto da base.

Shakespeare escreveu, em Hamlet, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Arrisco uma adaptação para o futebol: há mais coisas entre o vestiário e o gramado do que pode imaginar nossa vã idolatria. A torcida enxerga os noventa minutos. O jogo, muitas vezes, começa muito antes do apito inicial.

Talvez essa vivência ainda na adolescência explique o respeito que desenvolvi pelos treinadores e o cuidado que procuro ter antes de apontá-los como culpados diante dos primeiros sinais de desorganização em campo. Nem sempre os onze que entram jogando são os preferidos do técnico. Muitas vezes são apenas os onze possíveis dentro das circunstâncias que ele enfrenta. Às vezes, fica no banco justamente o jogador que todos nós julgamos capaz de mudar a partida, mas que o treinador sabe não reunir condições físicas, emocionais ou táticas para suportar aquele desafio.

Vi muitos técnicos serem vaiados e chamados de burros pelas arquibancadas para depois darem a volta por cima. Considero um desrespeito ao profissional, mas também reconheço que a paixão que move o futebol raramente convive com a serenidade. O mesmo torcedor que hoje protesta será o primeiro a aplaudir quando os resultados aparecerem e os títulos chegarem.

Talvez por carregar esse olhar mais cauteloso sobre os treinadores, também seja do tipo de torcedor que reacende a esperança ao menor sinal de recuperação. Há duas Avalanches escrevi sobre minha confiança no processo de reconstrução que o Grêmio parecia iniciar. Bastaram duas vitórias contra adversários tão frágeis quanto nós para me conceder o direito à ilusão.

O Grêmio, porém, desperdiçou a oportunidade de terminar em primeiro lugar em seu grupo na Sul-Americana e terá de disputar duas partidas extras quando a temporada for retomada. Neste sábado, diante de mais de 40 mil torcedores na Arena, sofreu uma derrota de virada para o Corinthians e corre o risco de passar a pausa da Copa do Mundo instalado naquela zona que você sabe qual é — escrevo antes da partida do Vasco.

Dito isso, fica aqui meu desejo de que Luís Castro tenha sucesso nos seus próximos desafios. Onde quer que eles estejam.

Avalanche Tricolor: eu acredito no Grêmio de Luís Castro

Grêmio 3×2 Santos
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro comanda a equipe na vitória de hoje. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio tinha uma missão neste mês que antecede a Copa do Mundo: vencer os quatro jogos que restavam na Sul-Americana e no Brasileiro. Depois da conquista no meio da semana, cumpriu mais uma etapa dessa jornada na noite de sábado. Mesmo com as dificuldades que têm marcado este período de reconstrução, conseguiu se recuperar duas vezes da desvantagem no placar e virar o jogo — feito raro em 2026. A última vez que isso havia acontecido foi em fevereiro.

Independentemente da performance do time, dos tropeços e das pisadas na bola, lutamos pelos três pontos. E como temos lutado! Para mim, essa foi a maior mudança que Luís Castro conseguiu provocar no elenco: mais do que as variações na escalação e na formação tática, percebe-se uma equipe disposta a vencer de qualquer jeito. Há entrega total de cada jogador, apesar das limitações técnicas.

Se a redenção de Pavón marcou a vitória na Sul-Americana, hoje foi a vez de Tetê, que entrou no segundo tempo. Nosso atacante pela direita aproveitou bem o passe recebido na entrada da área, driblou e chutou com precisão para fazer o gol da vitória. A comemoração com os companheiros expressou essa união entre os jogadores que faz diferença dentro de campo.

Pavón, aliás, fez mais uma excelente partida. E não apenas pelas assistências. Foi dele o passe para dois dos três gols do Grêmio. Participativo, intenso e disposto a buscar o jogo o tempo todo, vive talvez seu melhor momento desde que chegou ao clube.

Assistimos ainda a Carlos Vinícius voltar a marcar. E duas vezes. Na primeira, de cabeça, aproveitando cruzamento de Amuzu. Na segunda, fugindo da marcação para receber a bola, dominar com o pé esquerdo e concluir nas redes. O “pastor” é um centroavante muito especial porque não se limita a fazer gols — o que, convenhamos, já seria suficiente. Incomoda os defensores o tempo todo, passa o jogo na resenha, tira os zagueiros do sério e exerce uma liderança importante para o time.

Uma menção especial ao retorno de Arthur, que estava lesionado havia algumas semanas. Saiu do banco e entrou no intervalo. O Grêmio é outra equipe quando a bola passa pelos pés dele. Não importa a pressão que sofra, é capaz de controlar o jogo e encontrar companheiros mais bem posicionados, fugindo do passe “lugar-comum”, aquele que pouco acrescenta à dinâmica da partida. Todas as vezes que sofre uma falta, fico arrepiado ao pensar que possa ter sofrido uma lesão capaz de tirá-lo da próxima partida.

(Será que a FIFA não pode criar uma norma proibindo que os adversários façam falta em Arthur?)

Devaneio à parte, a vitória descomprime a pressão sobre o técnico e sua difícil tarefa de reconstrução do time. As vitórias até a parada para a Copa oferecerão a tranquilidade que Luís Castro precisa para recompor a equipe.

Hoje, por exemplo, ele já pôde trazer Villasanti para o banco de reservas. Em breve, nosso volante paraguaio estará em campo, e poderemos ver como será sua atuação ao lado de Arthur. Na retomada da temporada, Marlon deve voltar para a lateral esquerda. Na zaga, a esperança é que os titulares estejam recuperados fisicamente e que o sistema defensivo ganhe mais consistência, especialmente porque os jovens que vêm ocupando essas posições ainda precisam amadurecer.

Posso parecer otimista demais diante do conjunto da obra até aqui. Talvez seja. Mas é esse sentimento que precisamos recuperar para a retomada da temporada assim que a Copa do Mundo terminar. As vitórias de agora — e só faltam duas — podem ser decisivas para o restante da temporada gremista.

Diga o que disserem, eu acredito no Grêmio – e no trabalho de Luís Castro.

Avalanche Tricolor: o risco de se acostumar

Bahia 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Gremio x Bahia
Viery abriu o placar com gol de cabeça. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ao ver o protesto dos torcedores adversários antes de a partida se iniciar, nas arquibancadas da Arena Fonte Nova, fui conferir a classificação do campeonato. Pensei que a revolta se devesse ao fato de o time da casa estar em uma posição de risco, daquelas em que a zona-você-sabe-qual já aparece no horizonte. Foi o meu Grêmio que encontrei por lá. O adversário, sob protestos, estava em oitavo lugar.

Há muito tempo o Grêmio não ocupa uma posição de destaque na tabela de classificação. Em 2025, terminamos em nono lugar, após uma recuperação na reta final; na temporada anterior, em décimo quarto. Neste ano, lembro de termos ficado entre os dez primeiros talvez uma ou duas rodadas, se muito.

Em abril, logo depois do clássico regional — o pior de todos os tempos —, escrevi nesta Avalanche que o maior risco não estava em empatar um Gre-Nal ruim; estava em se acostumar com ele.

Sou defensor da ideia de que estamos em um processo de reconstrução. Dezenas de jogadores foram embora e outra dezena de jovens passou a formar o elenco. Muita gente chegou neste ano ou ainda está se recuperando fisicamente. Há também os que estão muito aquém da expectativa que criamos. Ao técnico Luis Castro cabe administrar as carências do elenco e se virar com o que tem à disposição.

A despeito de tudo isso, o que estamos assistindo é um Grêmio pouco audacioso para o tamanho da sua história. Se jogamos contra os líderes do campeonato, nos satisfazemos com uma equipe que resiste até onde é possível. Se jogamos fora de casa, o empate vira motivo de comemoração. Quando ganhamos na nossa Arena, tudo bem que tenha sido por pouco. O que vale são os três pontos, nos consolamos.

Na partida desta tarde de domingo, concluímos apenas três vezes a gol. É muito pouco para quem tem a pretensão de subir na tabela de classificação. Por essas coisas que só o futebol é capaz de proporcionar, apesar disso ainda saímos na frente no placar, após a cobrança de escanteio de Pedro Gabriel e o cabeceio de Viery. Obra do acaso.

Antes e depois do nosso gol, fomos pressionados. Sofremos com bolas no travessão e no poste. Assistimos aos atacantes cruzarem na nossa área e aos meio-campistas entrarem tabelando. Contamos, mais uma vez, com o gigantismo de Weverton — quero muito que ele seja premiado com a convocação para a Copa do Mundo.

O fato é que, diante da nossa incapacidade de reter a bola, controlar o jogo e reduzir a pressão, inevitavelmente acabamos levando um gol. E não levamos dois porque contamos com a imprecisão e o azar dos atacantes adversários. Saímos de campo agradecendo o ponto conquistado e, ao menos, o fato de irmos dormir fora daquela zona-você-sabe-qual.

Há algo muito errado quando um clube do tamanho do Grêmio sai de campo satisfeito apenas por não terminar a rodada entre os últimos. Não podemos nos conformar com essa situação.

Avalanche Tricolor: um ponto fora de casa e algumas fatias de torta

Athletico-PR 0x0 Grêmio
Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba PR

Athletico-PR x Grêmio
Gabriel Mec em jogada de ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um ponto ganho ou dois perdidos? Para quem ainda busca estabilidade na temporada, ponto fora de casa deve sempre ser comemorado. Sobretudo diante de um adversário que tem sido imbatível quando está frente à sua torcida. A maioria dos que passam por lá sai de bolso vazio. Não tem o que festejar.

A lamentar, o fato de não sabermos, mais uma vez, usar a nosso favor a superioridade numérica. A expulsão de um dos jogadores adversários poderia ter sido mais bem aproveitada. Luis Castro preferiu ser conservador e manter a principal novidade na escalação: três zagueiros. Ao menos conseguiu conter a força ofensiva do time da casa. Não arrisco dizer que foi esse o motivo que nos impediu de vencer.

Em um raro momento da minha jornada de torcedor, não pude assistir à partida de hoje. Uma amiga querida estava aniversariando, e estar ao lado dela para comemorar esse momento me parecia mais apropriado. Entre conversas divertidas, companhia de amigos e comida de qualidade, fiquei de olho nas atualizações que piscavam na tela do celular. Teria sido a ansiedade que me levou a comer tantas tortas, quitutes e docinhos?

Sem assistir à partida, contentei-me com os melhores momentos quando cheguei em casa. Mas esse resumo do jogo nem sempre está à altura do desempenho de uma equipe. Tanto esconde falhas como pode omitir momentos de qualidade. Fui ler alguns comentários em redes sociais e reportagens. Pouco ajudou. A incerteza sobre a performance gremista nesta noite de sábado ficou mais confusa que o nosso meio de campo sem Arthur.

Consta que Tetê fez sua melhor apresentação desde que retornou à equipe. Por outro lado, houve quem reforçasse as críticas ao nosso atacante. De minha parte, quero crer que ele ainda desencantará e se tornará um jogador decisivo na temporada. Lembre-se: meus níveis de glicose e insulina estão altos neste momento — a torta de chocolate estava deliciosa.

Por mais que ainda estejamos perseguindo três pontos fora de casa, voltar a Porto Alegre com o empate nos mantém praticamente na mesma posição da tabela. Pode ser que seja apenas reflexo da minha felicidade por ter estado com colegas e amigos — e por não ter visto o jogo jogado por nosso time —, mas vou dormir com a sensação de que o ponto conquistado tem seu valor e merece ser comemorado. Entre a mesa cheia e o placar vazio, fico com a sensação de que o empate encontrou seu lugar.

Avalanche Tricolor: no limite!

Grêmio 1×0 Coritiba
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gabriel Mec marcou o primeiro gol como profissional Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio começou a partida neste domingo no limite daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Precisava pontuar. Mais do que isso, precisava conquistar os três pontos, diante dos maus resultados fora de casa. A vitória era uma necessidade.

A despeito de tudo que o torcedor mais exigente esteja pensando — e já li alguns usarem adjetivos como “aterrorizante”, o que considero um tanto exagerado —, terminamos a rodada no limite da zona de classificação para a Copa Sul-Americana. A conquista desta tarde de domingo deixou ao menos cinco adversários próximos da degola — além dos quatro que já estão lá embaixo. Ou seja, passamos a olhar para cima da tabela.

O placar minguado, diante de um adversário que ficou com um a menos ainda no primeiro tempo, não me pareceu justo diante da força ofensiva que apresentamos. Tivemos três gols anulados no ajuste da linha traçada pelo VAR: primeiro com Carlos Vinícius, depois com Wagner Leonardo e, no fim, com Nardoni. Uma goleada iminente, não fossem nossos jogadores estarem milímetros além do limite legal. Sei que gol anulado não conta. O fato, no entanto, de estarmos lá na frente, criando e chutando a gol, é uma demonstração de evolução. Quantos jogos sofremos pela falta de ambição no ataque?

Dizer que o time esteve desorganizado é outro sinal de má vontade de alguns críticos. O Grêmio tinha uma lógica na partida de hoje. Havia uma movimentação mais interessante. A maneira de chegar à frente fazia sentido, aproveitando um meio de campo mais técnico no passe e ponteiros agudos e dribladores. A chegada dos alas à frente também foi importante, sobretudo Pedro Gabriel, que tem ensaiado chutes perigosos de fora da área.

Gabriel Mec, na função de camisa 10, foi o principal destaque do time. Havia escrito na Avalanche anterior que a presença dele no meio de campo cobra de seus companheiros maior esforço na marcação. Ele, no entanto, compensa essa fragilidade no desarme com velocidade, dribles corajosos e passes de qualidade. Hoje, foi além: marcou o primeiro gol com a camisa profissional. Não por acaso, escorando dentro da área o cruzamento feito por Enamorado, outro dos nossos destaques em campo.

Gostei muito de Viery, que foi preciso nos desarmes todas as vezes que o adversário pressionou — isso sim é uma preocupação: o fato de termos permitido tanta pressão de um time em inferioridade numérica. Nosso jovem zagueiro tem tudo para se transformar em um grande nome do setor defensivo do Grêmio. E, se formos capazes de segurá-lo por aqui, pode entrar no rol de ídolos do Imortal.

Wagner Leonardo dá sinais de que poderá recuperar o futebol que o fez ser contratado pelo Grêmio no ano passado. Apareceu mais firme e equilibrado lá atrás, em condições de dar tranquilidade ao torcedor desconfiado após duas expulsões desnecessárias. Enquanto isso, Weverton foi seguro sempre que exigido, como tem sido partida após partida. E pensar que houve quem já o criticasse nas primeiras atuações com a camisa do Grêmio.

A vitória do Grêmio foi no limite. Mas era a vitória que precisávamos.

Agora é recuperar os pontos perdidos na Sul-Americana, na quarta-feira, e, no próximo fim de semana, vencer a primeira partida fora de casa no Brasileiro.

Porque, se o time aprendeu a jogar no limite, chegou a hora de mostrar até onde esse limite pode nos levar.

Avalanche Tricolor: o risco de jogar o bebê fora junto com a água do banho

Cruzeiro 2×0 Grêmio
Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte (MG)

Gremio x Cruzeiro
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Mal a partida havia se encerrado, nesta noite de sábado, e os grupos de WhatsApp e as redes sociais já vociferavam verdades absolutas e julgamentos definitivos. Eu sequer havia conseguido absorver mais uma derrota fora de casa e já era assediado por soluções mágicas e críticas desconectadas da realidade nas plataformas virtuais.

Pedir a cabeça de Luis Castro é o mais comum. Até porque o Grêmio tem se transformado em uma máquina de moer treinadores. O próprio Renato, com tudo o que representa para o clube, não foi poupado. O argentino Gustavo Quinteros durou 20 partidas. Mano Menezes ficou no comando por 39 jogos e se sustentou muito mais pela persistência da direção do clube do que pela simpatia de parte dos torcedores.

Nem mesmo o título gaúcho, com vitória contundente sobre o arquirrival, fez com que Castro diminuísse a pressão sobre o seu trabalho. A dificuldade da equipe em vencer fora de casa e os resultados sofríveis na Arena do Grêmio fazem com que o torcedor não dê trégua ao treinador português. A ausência de jogadores para posições fundamentais e os problemas físicos de atletas que poderiam ser solução viável raramente entram na conta dos críticos de plantão.

Como disse, ouvir o pedido de demissão de treinador não me surpreende. O que me assusta é perceber torcedores usando as redes sociais — financiados ou não por grupos de interesse — para criticar figuras como Arthur.

Sim, foi o primeiro nome que vi sob julgamento em um dos grupos de WhatsApp de que participo, logo após a derrota de hoje. Depois de mais uma atuação ruim do time, houve quem enxergasse no nosso capitão e camisa 8 o defeito a ser corrigido. Arthur é um dos poucos jogadores que exibem talento em campo. Domina a bola e a conduz como poucos. Passa os 90 minutos à espera de um companheiro mais bem posicionado para receber o passe.

Carlos Vinícius, que passou mais uma partida sem marcar, também foi alvo de críticas. É o artilheiro do Campeonato Brasileiro jogando em um time de pouco poder ofensivo. Passa boa parte do tempo lutando sozinho contra os zagueiros e à espera de uma única bola em condições de finalizar.

Aliás, como de costume, vieram do nosso atacante as palavras mais lúcidas ao fim da partida. Provocado pelos repórteres, Carlos Vinícius chamou a atenção para o risco de crucificarem Luis Castro, como fizeram com os técnicos anteriores. Assumiu a responsabilidade e apontou para o elenco, que precisa reagir e dar a resposta que o torcedor exige dentro de campo.

O pior que o Grêmio pode fazer nesta jornada de reconstrução é jogar fora o bebê com a água do banho. Desperdiçar talentos, abrir mão de jogadores essenciais e interromper um projeto que exige tempo. No futebol, a pressa costuma custar caro — e quase nunca resolve o problema que diz combater.

Avalanche Tricolor: o pior Gre-Nal de todos os tempos (ou quase)

Inter 0x0 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre RS

Grenal 452
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Gre-Nal desta noite foi uma sucessão de falhas. De um lado o passe curto saía errado, do outro o passe longo era equivocado. Os dribles morriam antes de nascer, travados pela falta de habilidade; e os cruzamentos pela falta de destino. As raras tentativas de chute pouco exigiram dos goleiros — justiça seja feita, o nosso mostrou segurança quando acionado, enquanto o deles protagonizou um erro constrangedor.

Certamente, entre os 452 Gre-Nais disputados ao longo de 117 anos, houve partidas ruins. Minhas lembranças começam nos anos 1970, quando me entendi como torcedor. Ainda assim, fiquei com a sensação de ter assistido ao pior Gre-Nal de todos os tempos. Senão o pior, um dos que mais decepcionaram.

Verade que Gre-Nal ruim costuma ser aquele que se perde. Para quem aprecia o jogo bem jogado, porém, o que vimos no Beira-Rio foi indigesto. Imagino que o torcedor adversário também não tenha saído satisfeito. Eu, como gremista, espero mais. Sempre espero mais. Insisto em não aceitar a ideia de disputar campeonato apenas para evitar o rebaixamento.

Para não dizer que escrevo movido apenas pelo mau humor de um sábado mal aproveitado, há registros positivos. Weverton foi seguro nas saídas e nas intervenções. O time se entregou. Correu, marcou, disputou cada bola como se fosse a última. Ninguém se omitiu. Ainda assim, essa disposição pareceu nascer mais das dificuldades com a bola nos pés do que de uma proposta consistente de jogo — e também das limitações do adversário.

Sob o olhar da tabela, empatar fora de casa em Gre-Nal pode ser considerado ponto ganho, sobretudo em contraste com o empate anterior na Arena. O problema é que já deixamos pontos demais pelo caminho. Com um mínimo de organização e qualidade, era possível ter vencido.

O que mais incomoda é perceber que o que se viu em campo explica o momento do futebol gaúcho. Um clássico travado, de muita disputa e nenhuma técnica, passou a ser aceito quase como padrão. E isso diz muito sobre clubes e torcedores que já se acostumaram a mirar cada vez mais baixo.

O Grêmio ainda precisa evoluir. Luis Castro terá de ajustar posições, dar clareza ao modelo de jogo e exigir mais coordenação coletiva. Aos jogadores cabe algo mais básico: rever fundamentos. Passe, domínio, decisão. Sem isso, não há estratégia que sobreviva.

Porque, no fim das contas, o maior risco não está em empatar um Gre-Nal ruim. Está em se acostumar com ele.