Avalanche Tricolor: entre o certo e o incerto, vamos ao que interessa

 

Grêmio 1×1 Fortaleza

Brasileiro — Arena Grêmio

Darlan briga pela bola em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio tem jogado fora boas oportunidades de marcar três pontos, fora e dentro de casa. Lá fora, em partidas que dominava, mas nas quais não conseguiu marcar gols com a mesma frequência de anos anteriores. Cá dentro (ou na Arena), o desperdício chama ainda mais atenção: de 12 pontos disputados ganhou cinco apenas; dos seis últimos pontos, ficamos com um, conquistado no empate deste domingo.

Feitas as contas, o aproveitamento do Grêmio é melhor fora do que dentro de casa. Estranho, não?!? Talvez não!!! Talvez a ausência de público na Arena, desde a retomada do futebol, esteja sendo um dos motivos para o rendimento anormal de um time que costumava amassar o adversário com o empurrão de sua torcida — você há de convir que aqueles gritos programados na caixa de som não enganam ninguém. 

O time troca passe, mas não com a mesma velocidade de antes. Os jogadores se movimentam em ritmo menos intenso no ataque e na defesa. A marcação sofre com tudo isso. O que só me faz ajoelhar e agradecer por termos Geromel e Kannemann na zaga. Sem eles, poderíamos estar ainda mais vulneráveis. Hoje, da dupla titular, o gringo ficou de fora. Que volte logo e em forma.

Somou-se a falta de Kannemann, a ausência de outras peças importantes como Maicon, que ficou pouco tempo em campo (saiu lesionado), e poderia com seu talento fazer a bola rolar mais rapidamente e com sua liderança fazer o time correr; e como Pepê, nosso velocista. 

Luiz Fernando que teve boa atuação nos poucos minutos em campo contra o Bahia, voltou a ser escalado no segundo tempo contra o Fortaleza e dá sinais de que pode se encaixar na equipe. Tem entrado  com vontade e fome de bola —- hoje com vontade além da conta e, ao ser expulso, prejudicou o time que havia feito jogar melhor.

Torcida e time (quase) sempre jogaram juntos nestes anos todos de títulos. Houve até partidas em que a torcida fez mais do que o próprio time. Hoje, essa força motriz está em falta … e tem de ser substituída por outros fatores, porque assim será para todo o ano de 2020. Mais um desafio para Renato que sempre apostou no carisma que tem com o torcedor —- além de seu conhecimento estratégico e comando de grupo —-  para colocar o time no caminho das vitórias.

A perda de pontos importantes, a série de empates e os percalços em casa talvez sejam pela falta do torcedor, talvez sejam pela ausência de alguns jogadores, talvez sejam apenas por que estamos nos reconstruindo em um temporada atípica como essa que vivenciamos. Não temos como saber ao certo.

Dito isso, vamos ao que interessa. 

Nessa sequência de incertezas, a única certeza que tenho é que um bom resultado na retomada da Liberadores, no meio da semana, fará toda a diferença. Que venha a vitória!

Avalanche Tricolor: a Primavera está chegando

 

Bahia 0x2 Grêmio

Brasileiro — Estádio de Pituaçu, Salvador/BA

 

Alisson comemora o primeiro gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Renato é gênio.

Alisson é craque.

Vanderlei, nunca reclamei.

Grêmio mostra a que veio no Campeonato. 

Exagerado?!? Não sou eu, não! 

Exagerados eram os corneteiros que insistiam em pregar a desgraça alheia diante de resultados pouco convincentes. O desempenho estava abaixo do esperado, sem dúvida. Jamais neguei. E se o caro e raro leitor deste blog duvida do que escrevo, basta ler a Avalanche “Que toquem as cornetas”, escrita duas rodadas atrás.

O que não aceitava — e sigo não aceitando — era o exagero da crítica que usava palavras como “fracasso”, “teimosia” e “preguiça” para descrever um time que conquistou o Campeonato Gaúcho, recentemente; mantém a longa invencibilidade contra seu principal rival; vendeu o seu maior craque —- aliás, considerado até então o maior em atuação nos campos brasileiros —-; está em reconstrução porque tem de recolocar peças em lugares de jogadores consagrados; e ainda espera a recuperação física de um grupo que sentiu muito a parada provocada pela pandemia.

A vitória contra o Bahia, fora de casa, talvez amenize o toque das cornetas, pois mesmo com todos os desfalques, mostrou que o DNA do time de Renato se mantém. Saber resistir a força do ataque do adversário, apesar de desfalques em boa parte do sistema defensivo, e aproveitar com precisão a única oportunidade real de gol até aquele momento, 25 minutos do primeiro tempo, deram tranquilidade para o Grêmio colocar a bola no chão, trocar passes e se movimentar com um pouco mais de velocidade.

O curioso é que o time que insistia em não cobrar escanteios com bola cruzada dentro da área, acabou marcando seu primeiro gol na cobrança de lateral a longa distância. Na combinação do arremesso feito por Cortez e o cabeceio de Diego Souza, Alisson foi premiado com um chute certeiro da entrada da área. Merecido gol para um cara que se sacrifica em campo para sustentar o esquema de jogo de Renato — e muitas vezes não é reconhecido por sua função.

Daí pra frente, o Grêmio esboçou o futebol que gostamos e que se seguir evoluindo vai calar de vez os corneteiros. A despeito de uma série de outras boas jogadas, o segundo gol bem ilustrou este momento que estamos reconstruindo: o passe de Everton, o recém-chegado, foi especial. Olha para um lado e dá um tapa para o outro, em velocidade e com precisão. Darlan, recém-alçado ao time titular, que havia participado do inicio do lance, deslocou-se no sentido contrário e se colocou livre para receber o presente do colega de ataque. Marcou seu primeiro gol no time principal — que seja o primeiro de muitos.

O Grêmio está distante de ser o time que Renato, seu grupo e os torcedores esperam. Muito mais longe estava, porém, da imagem construída por parte daqueles que o criticam —- e incluo aqui, especialmente, torcedores insatisfeitos com a própria vida, que descontam tudo naqueles que nos representam em campo. 

A retomada da vitória e a recuperação física e psicológica de alguns jogadores serão muito importantes para a sequência  do calendário, com o revezamento entre Brasileiro e Libertadores, neste mês de Setembro —- o que me faz lembrar que depois do Inverno vem a Primavera.

Avalanche Tricolor: por Geromel e Kannemann

 

Atlético GO 1×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Olímpico/Goiânia-GO

 

Kannemann é gigante na área; foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Antes de o domingo acabar, convido você a fazer comigo um exercício de imaginação. Faz de conta que o time para o qual você torce tenha disputado sete partidas em um campeonato de pontos corridos e só tenha perdido uma delas. Você olha os demais adversários e descobre que apenas um deles perdeu menos; três perderam tanto quanto; e os demais 15 perderam mais do que o seu time.

 

Isso não seria motivo de otimismo para você?

 

Depende. 

 

E depende porque no futebol não basta não perder. É preciso ganhar. Mais do que ganhar. É preciso jogar bom futebol. Especialmente se o seu time o acostumou a ver a bola sendo rolada com maestria no gramado, e os jogadores se movimentando em uma coreografia capaz de encher os olhos do torcedor e atrapalhar a visão dos marcadores. 

 

Assim tem sido desde 2016 com o Grêmio. Nosso time entra em campo e, independentemente do resultado, o futebol jogado é de alta qualidade —- com as exceções de praxe. Muitas vezes a perfomance era capaz de nos deixar satisfeitos apesar do revés no placar. Competições foram perdidas, mas nosso time deixava o gramado com a certeza de que enfrentou o bom combate; e de cabeça erguida se preparava para o confronto seguinte.

 

O futebol do Grêmio pós-Covid tem se revelado muito abaixo daquilo que nos acostumamos e do que somos capazes de fazer, levando em consideração os jogadores que integram o elenco. Esse desempenho tem dado espaço a críticas, estimulado teorias de conspiração e levado a escolhas precipitadas — dentro e fora de campo. 

 

Se a você —- caro e raro leitor desta Avalanche —-, no primeiro parágrafo deste texto, convidei a fazer um exercício de imaginação; faço agora um pedido à diretoria gremista, comissão técnica e seus jogadores: um exercício de humildade. 

 

Deixemos as conquistas recentes em seu devido lugar —- na memória e no passado. Encaremos a realidade. Saibamos ouvir uns aos outros. Identificar as fragilidades. Corrigir nossas fraquezas. Solucionar nossa escassez. Fortalecer nossos méritos —- e se há mérito e motivo que ainda me fazem felizes quando assisto ao Grêmio em campo, é saber que Pedro Geromel e Walter Kannemann vestem nossa camisa.

 

Os dois seguem sendo a maior dupla de zaga do futebol latino americano. Jogadores que se diferenciam pela maneira de se portar em campo. Ao contrário da maior parte dos zagueiros brasileiros, não têm medo de atacar o adversário, de dar o bote — como se diz no jargão do futebol. E o fazem com precisão, na maior parte das vezes. Se necessário for, dão a vida pelo time. Foi o que fizeram neste domingo de futebol muito mal jogado em Goiânia.

 

Geromel entregou-se a uma rara expulsão em sua carreira para evitar o mal maior. Kannemann sacrificou seus músculos. Os dois foram gigantes para manter vivo o desejo de vermos o Grêmio ser o time que admirávamos — aquele Grêmio que já jogou o melhor futebol do Brasil e da América do Sul. Que um dia haverá de voltar aos estádios.

 

Avalanche Tricolor: que toquem as cornetas

Grêmio 1×2 Sport

Brasileiro — Arena Grêmio

 

Foto LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Acordei bem cedo alertado pelo incomodo som das cornetas que chegava até aqui, onde aproveito o fim da minha folga, trazido pelo vento sul que sopra na montanha, antes de o sol se aprochegar pelo leste. Conheço bem essas cornetas, seus tocadores e o que os motiva. Cinquenta e sete anos de vida e muitos deles passados nas arquibancadas do saudoso Olímpico, deixam os ouvidos calejados. 

 

O Grêmio teve 74% de posse de bola, finalizou 30 e tantas vezes e fez 55 cruzamentos para dentro da área adversária. Fez apenas um gol e levou dois —- nos dois únicos lances de ataque do adversário, se não perdi algum.

 

Ninguém saiu de campo feliz. Dos gandulas —- aqueles que são gremistas, e muitos somos —- a jogador; de segurança a diretoria; do porteiro da Arena aos comentaristas. Todos viram que mesmo com todo o domínio que se pode ter, fomos incapazes de chegar à vitória, mais uma vez.

 

O Grêmio já havia dominado o Corinthians e o Flamengo —- dois dos grandes do Brasil —- e voltou a fazê-lo contra o Sport, que era o lanterna da competição. O resultado não foi alcançado como merecíamos ou gostaríamos em nenhuma dessas partidas. Aliás, no Brasileiro, tivemos apenas uma vitória e mantínhamos uma enganosa invencibilidade com a sequência de empates que nos deixava no meio da tabela de classificação. 

 

Evidentemente que quem pode mudar esta situação sabe o que está acontecendo e está batendo cabeça para tentar resolver as peças em campo, engrenar o passe, ajustar o chute a gol e achar uma saída para este momento. Tem jogadores em falta e outros desconsertados pelo baixo desempenho.

 

No jogo da noite de ontem, as vaias não ecoaram na Arena porque o DJ era clubista (mais até do que eu) — apesar de já ter assistido à cena nos espetáculos da NBA em que acordes da marcha fúnebre soaram diante de um resultado negativo do time da casa. Houvesse torcedores presentes, haveria as vaias individuais, voltadas para um ou outro jogador; os que ofenderiam o time por inteiro; e os insanos que gritariam “Fora Renato”.

 

O silêncio das críticas na Arena migrou para as redes sociais, onde as hipérboles negativas sempre ganharão mais força pela forma como ecoam nos diversos perfis de gente incomodada e indignada —- tivessem esse mesmo incomodo e indignação com o que estão fazendo com o Brasil talvez as coisas melhorassem mais rapidamente por aqui.

 

Longe de mim reclamar de quem reclama; ou dizer que o torcedor deve aceitar o resultado ruim de boca calada. Somos assim, amamos e odiamos em questões de minutos. Aplaudimos e vaiamos quase ao mesmo tempo, conforme o resultado final do drible e do chute. E os resultados não têm sido bons especialmente após a volta da pandemia.

 

Eu, na frente da televisão, também faço das minhas; mas há muito tempo, abri mão do meu desejo de vaiar; prefiro sofrer calado a espera da vitória —- que, convenhamos, nos últimos anos tem aparecido com frequência. Vai ver que é meu instinto de solidariedade, pois como você — caro e raro leitor desta Avalanche —- deve saber, sou alvo de vaias, críticas e ofensas diariamente, por jornalista que sou.

 

Agora, acordar logo cedo nesses dias de folga e ler o que li, me deu um certo fastio. Fracasso, teimosia, preguiça, desastre e até quem já enxergue no horizonte a queda para a Segunda Divisão, como maldição do titulo Gaúcho. Fora os que acusam Renato por tudo de errado que esteja acontecendo. Temo que em breve haverá quem reivindique a derrubada da estátua dele, na Arena. 

 

Há os que analisam de cabeça fria para entender a queda de rendimento —- e isso é importante; os que pesam na tinta por torcedores que são —- e o coração fala mais alto; e, claro, tem os inimigos de plantão, que nunca aceitaram que Renato chegasse onde chegou. E o Grêmio voltasse a ser um campeão com futebol bem jogado e elogiado pelo Brasil.

 

Esse coro faz parte do futebol e pode ajudar se for ouvido como um sinal de alerta.

 

Pelo que se conhece daqueles que lideram o Grêmio nesses últimos tempos, não tenho dúvida, o mesmo som que me acordou logo cedo, nesta sexta-feira, já passou das ruas e das redes, atravessou as arquibancadas da Arena e chegou aos ouvidos de quem está no vestiário. Experiente, criativo e talentoso, nosso maestro fará com que todos os demais instrumentos passem a tocar no mesmo ritmo e o som estridente das cornetas encontre o tom certo e se integre a harmonia de um futebol bem jogado, mais bem afinado. 

Avalanche Tricolor: se eu troquei o Grêmio pela final da Liga? Você não me conhece mesmo!

Vasco 0x0 Grêmio

Brasileiro — São Januário RJ/RJ

 

Alisson em jogada de ataque; foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Houve quem duvidasse das minhas escolhas futebolísticas. Apostava que meu programa dominical seria assistir à decisão da Liga dos Campeões da Europa. Uma final que colocou frente à frente um projeto de clube, em que a organização é a principal estratégia, e um projeto de time, em que o dinheiro é estratégico. Oportunidade rara: alguns dos maiores jogadores do planeta se enfrentando em partida que prometia emoção do início ao fim, em competição das mais organizadas e caras do Mundo, e readaptada às novas condições impostas pela pandemia.

 

Um jogo com expectativa de audiência gigantesca na maior parte dos países para onde e por onde fosse transmitido: na tela da TV, do computador ou do celular.  Com tal interesse aqui no Brasil, especialmente pela presença de Neymar com a camisa do PSG, que o clássico paulista marcado para esta rodada do Campeonato Brasileiro teve de mudar de endereço. No estádio em que deveria ser jogado, preferiu-se a transmissão da final europeia no telão —- assistida no modelo drive-in.

 

Apesar de afirmar categoricamente aos meus colegas de rádio que me dedicaria a partida do Grêmio, em São Januário, disputada no mesmo horário que a final da Liga, a dúvida persistiu. E ao fim desta Avalanche, você —- caro e raro leitor deste blog —- talvez se mantenha no time dos descrentes. Duvidarem do meu comportamento e intenções não chega a ser novidade por jornalista que sou. 

 

O curioso é que esse jamais foi um dilema para mim. Minha agenda dominical estava bloqueada para ver a partida válida pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro desde o rearranjo do calendário, necessário para se ajustar a parada forçada pelo coronavírus. Nem mesmo a escolha de Renato em escalar um time mezzo a mezzo, meio titular e meio reserva, já que temos decisão do Campeonato Gaúcho na quarta-feira, me demoveria da ideia de ver o Grêmio em campo.

 

Eu gosto muito de futebol. E futebol bem jogado, gosto mais ainda. Mas assistir a qualquer outra partida de futebol que não seja a do Grêmio, jamais será uma opção. Pelo Grêmio, eu torço; e torço muito.

 

Tá bom, me perguntará o incrédulo: se você antes do jogo soubesse que Vasco e Grêmio fariam uma partida medíocre, com muitos passes errados, bolas desperdiçadas e sem gols, nem assim você aceitaria trocar o programa desse domingo?

 

Incrédulos e crentes, minha resposta é não. Vou repetir: eu gosto de futebol mas antes eu torço para o Grêmio; e se é pelo Grêmio que torço, é com ele que estarei onde o Grêmio estiver! 

 

PS: bem que poderia ter me dado uma força também jogando um pouquinho melhor.

Avalanche Tricolor: que baita zagueiro é esse Geromel!

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã/RJ

 

 

Geromel nas alturas, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio saiu do Maracanã lamentando a perda de dois dos três pontos que pareciam garantidos ao menos até o VAR e o árbitro da partida negarem o princípio que deveria mover suas decisões —- o mesmo que sustenta a justiça brasileira: in dubio pro reo. Na dúvida se a bola bateu na cabeça de Kannemann e depois no braço, que sequer as imagens conseguiram esclarecer, os senhores do apito e da telinha interpretaram contra o acusado. 

 

Tem de lamentar mesmo — nem tanto pelo árbitro e seus colegas, deles não costumo esperar muita coisa —- , mas principalmente porque foi superior ao adversário desde os 10 minutos do primeiro tempo. Aliás, que primeiro tempo. Coisa para ver, rever, repetir e ensinar.  Controlou o adversário quando este estava com a bola, a defesa foi muita segura e desarmou de maneira precisa e a saída para o ataque foi qualificada, mesmo que faltando um pouco mais de lances pelas laterais.

 

O gol de Pepê em uma jogada típica da equipe de Renato, com velocidade, deslocamento e passes precisos, fez justiça ao nosso domínio — e foi pelo lado.

 

Antes do gol já havíamos realizado duas ou três belas jogadas que mereceriam terminar na rede, mas que foram desperdiçadas por nossos atacantes. 

 

Aliás, como temos perdido gols ultimamente —- e não estou falando apenas de pênaltis, não. Jogadas bem elaboradas, às vezes de mais, que pecam no acabamento. Na última partida, em casa, passamos pela mesma situação. E também fomos punidos com um empate em jogo que tinha a cara da vitória.

 

No segundo tempo, faltou gás. Foi a impressão que tive. Alguns caíram antes do jogo terminar: casos de Maicon e Diego Souza, que preocupam pelas lesões que tiveram. Outros, se mantiveram em pé, mas revelaram cansaço, resultado da intensidade de jogo, da marcação acirrada e de um preparo físico ainda prejudicado pela parada fora de época, imposta pela pandemia.

 

A despeito de todos os lamentos. e considerando que seguimos invictos a 14 jogos e sem derrota no Campeonato Brasileiro, peço licença para encerrar essa nossa conversa —- caro e raro leitor —- com um expressão que tem me acompanhado jogo após jogo, especialmente após a volta da temporada. Uma frase que soa forte na minha garganta como se fosse grito de gol. Capaz de assustar a vizinhança e a turma aqui em casa. 

 

A cada desarme que faz dentro ou fora da área, por cima ou por baixo, com os pés ou com a cabeça; quando domina a bola em meio a confusão proporcionada pelo ataque adversário, livra-se de todos eles, ergue os olhos e encontra um companheiro para que este de início a jogada seguinte, comemoro com um só grito:

 

Que baita zagueiro é esse Geromel!

Avalanche Tricolor: como escolho meus próprios caminhos, prefiro falar da Portuguesa

 

 

Grêmio 0x0 Corinthians
Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Memórias de um das vezes em que a Lusa esteve no meu caminho (Foto: Canindé, 2013)

 

Jogar em casa, obriga à busca dos três pontos. E o Grêmio buscou pelos caminhos que gosta de percorrer no campo. Com bola tocada, passe trocado, tentativas pelo meio e investidas pelos lados. Às vezes, fico com a impressão de que preferimos refinar o lance a chutar a gol — como se ele fosse surgir a qualquer momento, de forma natural, resultado do domínio da bola. Quase surgiu, em um cabeceio aqui, um bate e rebate acolá, e um pênalti desperdiçado.

 

Aqui um parênteses: alguém sabe me dizer quantos pênaltis nos perdemos em um ano? Pode ser implicância minha. Mas há algum tempo que reclamo o pênalti em favor do Grêmio — como hoje no carrinho imprudente do marcador de Diego Souza —, mas não comemoro antecipadamente pelo alto risco de frustração. Parênteses fechado.

 

De volta ao jogo.Ou melhor. Não vou falar do jogo, não. Se em campo os dois times fizeram pouco para vencer e saíram com cara de “melhor assim do que perder”, prefiro seguir esta Avalanche pelos meus próprios caminhos. E carinhos.

 

Durante a transmissão da TV, o locutor de esportes lembrou que o último título de Brasileiro conquistado pelo Grêmio foi em 1996, na final contra a Portuguesa, no estádio Olímpico. Isso me remeteu às cenas que ainda estavam na minha memória do filme “Lusitanos — o centenário da Portuguesa” que assisti pela internet na sexta-feira, dia 14 de agosto, data de nascimento da Lusa. A produção é de meu colega Luiz Nascimento e Cristiano Fukuyama, ambos torcedores da Portuguesa, é claro.

 

O filme é um primor, pois relembra momentos incríveis vivenciados por torcedores resilientes; e revela na voz embargada e no olhar mareado da maior parte dos depoentes, a única razão pela qual a Portuguesa sobrevive a tudo que enfrentou na história —- de injustiças a falcatruas; de lances imperdíveis a momentos impensáveis. É uma gente apaixonada. Que revive cenas que talvez jamais tenha vivido, mas que ouviu dos bisavós, dos avós, dos pais ou de algum lusitano com quem um dia sentou à mesa para dividir um prato de sardinha, saborear um bacalhau ou um cozido à portuguesa.

 

A colcha de lembranças muito bem costurada pelos produtores, a partir de depoimentos de torcedores, sócios, ex-jogadores e admiradores da Lusa, me envolveu de tal maneira que passei a pensar como a Portuguesa fez parte da minha vida paulistana, que se iniciou em 1991 — muito mais do que qualquer outro time daqui; e não foi por falta de grandes confrontos com os paulistas nestes últimos anos todos.

 

Logo que cheguei, a primeira partida de futebol que assisti foi a final da Copinha, em que o Grêmio enfrentava a Lusa. Perdemos de 4×0 para um time que tinha como maior destaque Dener, que um dia tive a alegria de ver vestindo a camisa gremista. O talento da gurizada lusitana era tal que nem mesmo a goleada e a perda do título me fizeram tristes naquela manhã, no estádio do Pacaembu.

 

Danrlei era o goleiro naquela final de jovens que acompanhei com resignação e admiração. E estava no gol em outro momento histórico que colocou a Portuguesa no meu caminho, cinco anos depois. Foi a final do Brasileiro em que na primeira partida perdemos por 2 a 0 em São Paulo — jogo que não pude assistir no estádio mas que acompanhei com o rabo do olho em um monitor ligado embaixo da câmera em que apresentava, no mesmo horário, o Jornal da Cultura.

 

No domingo seguinte, coube a mim a tarefa de editar os melhores momentos da final, que seria disputada em Porto Alegre, para o Cartão Verde, programa esportivo da Cultura. Minha escala naquele plantão tinha requintes de crueldade, pois meus colegas de redação apostavam todas suas fichas no time lusitano e queriam ver minha cara editando a conquista da Portuguesa em cima do Grêmio.

 

O fim da história você —- caro e raro leitor desta Avalanche —- haverá de lembrar. Faltando oito minutos para o fim do jogo, no estádio Olímpico, o Grêmio marcou o segundo gol que deixava o confronto igual e nos dava o título pela melhor campanha no campeonato. Minha felicidade não cabia naquela fita Betacam que, com o sorriso de um campeão, entreguei ao diretor do programa para ser reproduzida para todo o Brasil.

 

Apesar de nunca ter assistido nada muito empolgante em campo, desde as finais, em 1991 e 1996, os confrontos entre Portuguesa e Grêmio sempre foram os meus preferidos, aqui em São Paulo. Eram os poucos que conseguia ver, ao vivo, no estádio, e levar meus filhos, por considerar mais fácil de entrar e torcer no Canindé, a despeito da fila interminável na bilheteria e da fúria dos Leões da Fabulosa.

 

Lamento apenas ter sido testemunha do mais triste momento da Portuguesa na série A do Campeonato Brasileiro, em 2013, quando na última partida da rodada, em que o empate deixava todos felizes — o Grêmio, na Libertadores, e a Lusa na primeira divisão — um erro administrativo fez o time paulista ser rebaixado, por escalar irregularmente um jogador (e deixo para os torcedores da Portuguesa a explicação das razões que levaram a escalação equivocada). Era o início de uma longa jornada de decepções lusitanas.

 

Neste momento em que a Portuguesa comemora seu centenário, todo meu carinho aos torcedores da Lusa. E o desejo de que, o mais breve possível, eu possa voltar à assistir ao Grêmio jogando no Canindé, ao lado de meus filhos.

Avalanche Tricolor: gostou do nosso time, pai?!?

 

Grêmio 1×0 Fluminense
Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Diego Souza comemora gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

“Esse guri aí no ataque é muito bom”

Sou capaz de ouvir a voz do pai ao telefone descrevendo Diego Souza, que apesar de veterano para o futebol, com os seus 35 anos, ainda assim seria definido como um guri para o velho que já passava da casa dos 80 anos. Já estava com a idade avançada e ainda sofria como um garoto à frente da televisão sempre que assistia ao Grêmio jogar —- fosse futebol de botão, em que ele era craque, fosse no campo. Telefonar para ele ao fim das partidas era quase um ritual que se iniciava com uma pergunta típica:

“E aí, pai, que tu achastes do nosso time?”

Mesmo com a idade avançada e a doença lhe tirando de forma cruel parte das lembranças do cérebro, o pai sempre arrumava um jeito de compartilhar sua percepção sobre a perfomance gremista em campo. Jogadores não tinham mais nomes, eram descritos por suas características: “esse carequinha que corre que nem o diabo da cruz” —- era como se referia a Everton em início de carreira. “Esse número 10, barrigudinho, é bom demais, heim!?” — era a senha para falarmos de Douglas. “Que baita zagueiro” era a expressão que mais me deixava em dúvida: não sabia se falava de Kannemann ou de Geromel — os dois, convenhamos, merecem a deferência.

 

Ligava para ele na vitória e na derrota. Pra nossa felicidade, os últimos anos que convivemos, falamos muito mais de títulos e conquistas. Campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, da Libertadores ….  teve ainda a homenagem que fizemos a ele na final do Mundial.  Foram assuntos que dominaram nossas conversas até o momento em que o pai ainda era capaz de entender o que falávamos e, principalmente, se fazia entender com seus códigos mentais.

 

O dia em que percebi que nossas conversas passariam a não fazer mais sentido foi quando, juntos, na sala da casa de Porto Alegre, o pai quis iniciar uma bom papo sobre futebol e foi incapaz de pronunciar o nome do Grêmio. Tudo que conseguiu foi dizer “o azul”, que era o que o cérebro dele conseguia decodificar daquela história que nos uniu desde pequeno, iniciada ali mesmo na Saldanha Marinho, rua que fica a poucos metros do estádio Olímpico.

 

Fiquei triste naquele dia. Muito triste. Entendi que a vida e a memória estavam me tirando o único cara que foi capaz de me acolher mesmo quando cometi os maiores erros —- e nunca me negou um abraço, apesar das injustiças que lhe proporcionei. Talvez a única pessoa que, se viva estivesse, me receberia com carinho e generosidade diante das piores situações que eu possa enfrentar na vida.

 

O pai morreu há um ano. Há mais tempo já apresentava dificuldades de se comunicar. Mesmo assim, ficava sentado à frente da TV vendo o Grêmio jogar. A última vez foi em abril do ano passado, quando disputamos um Gre-nal. Vestiu a camisa do Grêmio e mesmo no silêncio que a doença o impôs foi possível vê-lo, em alguns momentos, reconectado com a realidade: talvez uma das últimas vitórias dele contra vida, apesar do empate em 0 a 0 (para saber mais, leia Avalanche Tricolor: uma vitória no Gre-nal).

 

Hoje não tive para quem ligar e falar da vitória gremista na estreia do Campeonato Brasileiro. Não tive um pai para dar os parabéns pelo seu dia. Mas tive as boas lembranças que ele me deixou em vida. E me faz sorrir por dentro, mesmo que meus olhos se encham de lágrima a cada parágrafo que escrevo nesta Avalanche.

 

Avalanche Tricolor: sem jamais perder a alegria de jogar bola

 

Goiás 3×2 Grêmio
Brasileiro — Serra Dourada, Goiânia/GO

 

Gremio x Goias

A gurizada se diverte em campo, em foto de LUCASUEBEM/GRÊMIOFBPA

 

Foi divertido, não foi?
Eu achei.

 

Sabia que era jogo sem pretensões. A classificação para chegar pela porta da frente da Libertadores estava garantida há algumas rodadas e a posição final na tabela era apenas uma questão de ajustes —- e de alguns milhões de reais a mais, também.

 

Os titulares tiraram férias mais cedo — nem Renato apareceu — e deixaram o jogo final para gurizada da base. Em campo, a média de idade era pouco acima dos 20 anos. Uma turma que foi jogar bola como se tivesse descendo na quadra do prédio ou no campinho do bairro. Para se divertir.

 

E a gurizada não fez feio, não.

 

Ferreirinha —- que seja logo chamado de Ferreira —, então, jogou como gente grande mais uma vez. Na estreia, no meio da semana já havia marcado um gol. Hoje, deu assistência para os dois e só não saiu consagrado por um detalhe —- a bola final da partida bateu no travessão quando bem que poderia premiá-lo seguindo o caminho das redes. Ele merecia.

 

No primeiro tempo, colocou seus marcadores no bolso pelo lado direito. Na primeira disparada, foi para dentro da área, dominando a bola e driblando com velocidade. E serviu Patrick que voltou a marcar com a camisa do Grêmio —. esse guri sempre que entra me lembra aqueles moleques de rua que jogam pelo prazer de jogar.

 

Na segunda arrancada, Ferreirinha voltou a driblar com talento e encontrou Isaque no meio dos zagueiros. E seu colega de ataque não deixou por menos. De letra. Sim, de letra. Sem vergonha de arriscar, marcou o primeiro gol dele no time titular…

 

Isaque é grandão e tem presença na área. Joga tranquilo mesmo acossado pelos zagueiros, e surge sempre bem colocado. Deixou a impressão de que logo, logo pode ser o centroavante que nos fez falta durante toda a temporada.

 

Ao fim e ao cabo, vimos uma série de jovens talentos pedindo passagem. Muitos ainda precisando ser mais bem trabalhados no vestiário, sendo lançados aos poucos ao lado dos titulares e ganhando a maturidade necessária para assumir as grandes responsabilidades que teremos em 2020. E Renato sabe bem como fazer isso.

 

Meu desejo é  que todos eles —- e é o que peço ao bom deus do futebol neste fim de ano —- jamais percam essa felicidade de jogar bola. Vê-los em campo me fez sorrir, também.

Avalanche Tricolor: com todo o respeito e com o talento dos guris

 

 

Grêmio 2×0 Cruzeiro
Brasileiro — Arena Grêmio

 

Gremio x Cruzeiro

Pepê e Ferreira, a nova geração em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Havia pouco a ganhar na partida desta noite, em Porto Alegre. Nosso destino já estava traçado quando entramos na Arena. Em 2020, mais uma vez estaremos na Libertadores da América — a 12ª vez no século e a 20ª na história — e, novamente, pela porta da frente. Os três pontos diante de um adversário desesperado eram previstos. E, provavelmente, viriam com naturalidade. Sem muito esforço. Com calma, toque de bola — mesmo que alguns desses toques sem a precisão com a qual nos acostumamos — e um pouco de pressão, alcançaríamos a vitória.

 

O destino porém quis nos mandar um recado. Um feliz recado. Mostrar que mais importante do que a vitória era comemorar o futuro do Grêmio que se apresentava em campo.

 

Renato já havia iniciado a partida com um dos nossos talentos emergentes, Pepê, que está com 22 anos e fez uma temporada incrível com gols em momentos decisivos. Um atacante que está pronto para ser titular ao lado ou —- dependendo o que acontecer — no lugar de Everton, o “veterano” de 23 anos, considerado o melhor jogador em atividade no Brasil.

 

Nosso guri Pepê foi quem deu a arrancada para a vitória, levando a bola pelo lado esquerdo e enxergando um companheiro livre do outro lado da área. Quem apareceu por lá foi Ferreira, ou Ferreirinha, ou Aldemir Ferreira —- seu nome ainda será melhor escolhido no ano que vem —- que entrou no segundo tempo e demorou pouco para ratificar sua fama de goleador, construída nos times de base: aos 21 anos marcou seu primeiro gol com a camisa profissional do Grêmio. Ainda deu drible, chapéu e nova dinâmica a um ataque que estava acomodado frente à apatia do adversário.

 

O mesmo Pepê nos encaminhou à vitória definitiva ao driblar, cair e voltar a driblar marcadores desnorteados com sua velocidade. Ele passou por quatro até ser derrubado dentro da área e conquistar o direito de cobrar o pênalti e se estabelecer como um dos principais goleadores da temporada, mesmo ainda não tendo ganhado o crachá de titular.

 

Além de Pepê e Ferreira, ainda tivemos o privilégio de assistir aos primeiros passos de Isaque, também com 22 anos, e rever Patrick, com 21 e jeito de moleque. Todos esses jovens comandados no meio de campo por outro que amadureceu mais cedo do que eles, mas divide a mesma idade: Matheus Henrique apesar de jogar como um “senhor volante”, não esqueça, caro e raro leitor desta Avalanche, tem apenas 22 anos.

 

O futuro do Grêmio se apresentou na Arena nesta noite de quinta-feira. E ouviu das arquibancadas uma mensagem bastante positiva quando nossos torcedores, no segundo tempo, aplaudiram a entrada de Pedro Rocha no time adversário e, ao fim, gritaram o nome de Edílson —  a mensagem de que aqueles que se dedicarem à camisa tricolor serão respeitados para todo e sempre.