Mundo Corporativo: para Cláudia Vilhena, VP da empresa dona do Outback, ouvir o cliente não é fazer o que ele pede

Cláudia Vilhena, do Ouback, no Mundo Corporativo
Cláudia Vilhena no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Não adianta você criar uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso.”

Cerca de 3 milhões de transações por mês passam pelos 207 restaurantes da Bold Hospitality Company no Brasil, em um sistema que depende diretamente da leitura constante do comportamento do consumidor. Esse movimento, que combina dados, escuta ativa e adaptação contínua, foi tema de entrevista com Cláudia Vilhena, sócia e vice-presidente de Marketing, Vendas e Growth da empresa, ao programa Mundo Corporativo da CBN. 

A empresa reúne marcas conhecidas do público, Outback, Abbraccio e Aussie, e estrutura sua estratégia a partir de um ciclo contínuo que começa na observação do cliente e termina na análise de resultados. Ao longo da conversa, Cláudia descreveu como esse processo exige coerência entre discurso e prática.

“Ouvir o que o cliente tem a dizer não necessariamente é fazer o que ele está pedindo”, afirmou. “Tem que fazer sentido para o seu negócio, seja ele qual for.”

Escuta ativa exige decisão

A escuta ativa aparece com frequência no discurso corporativo. Na prática, segundo Cláudia, ela só funciona quando está integrada à cultura da empresa. “Não adianta você criar dentro da sua organização uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso, porque você criou uma expectativa no seu cliente.”

Esse processo envolve mais do que pesquisas tradicionais. Não se resume a avaliações numéricas ou formulários. Exige interpretação e disposição para rever caminhos. “A sua empresa está aberta a realmente se transformar para o que faz sentido para ela, mas ouvindo o consumidor?”

Do comportamento ao produto

Na Bold, o trabalho começa antes mesmo da criação de produtos. A empresa observa tendências de consumo, avalia se elas se conectam com suas marcas e, só então, inicia o desenvolvimento.

“Como é que a gente entende isso fora das marcas da Bold? Como é que a gente traz isso e conecta com o nosso negócio?”

Esse processo inclui testes com consumidores, ajustes de produto e análise de viabilidade operacional. Só depois dessas etapas o item chega ao cardápio. “Para a gente não sair surfando os hypes e fazendo coisas que eventualmente não têm a cara das nossas marcas.”

Após o lançamento, o acompanhamento continua. A empresa monitora frequência de consumo, adesão ao produto e comportamento do cliente para avaliar se as expectativas foram atendidas. “Então você vê que é realmente um ciclo.”

Um dos pontos centrais da estratégia é fazer o consumidor perceber que participa do processo. “Se o consumidor percebe que ele está sendo ouvido, ele percebe que ele está realmente participando do processo, isso é muito rico.”

Essa percepção fortalece o vínculo com a marca e aumenta a recorrência de consumo. “Faz realmente a conexão da marca ser verdadeira com esse consumidor.”

Liderança começa pela escuta

A lógica da escuta não se limita ao cliente. Ela também orienta a gestão de equipes. Cláudia afirma que o papel principal da liderança é criar condições para que as pessoas consigam trabalhar bem. “Meu papel primordial é ser líder para o meu time. É ouvi-los.”

Esse processo inclui presença no dia a dia da operação. A executiva relata que costuma frequentar os restaurantes para observar o comportamento real dos clientes. “A campanha que eu pensei lá sentadinha na minha mesa, ela está funcionando na ponta?”. A pergunta resume um princípio simples: estratégia só se valida na prática.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Quando o ouvinte é o personagem, o rádio cresce e a entrevista esclarece

No rádio, às vezes, uma pergunta vale mais do que uma resposta longa e cheia de números.

Hoje, ao entrevistar Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, sobre o Desenrola 2.0, escolhi começar a conversa criando um personagem. Um brasileiro que ganha cerca de oito mil reais, tem parte da renda comprometida com consignado, está enrolado no cartão de crédito, no cheque especial e atrasou contas da loja onde costuma comprar.

Era um personagem fictício apenas no nome. Porque, na prática, ele representa milhares de pessoas que estavam ouvindo o rádio naquele instante. Aliás, milhões de brasileiros sufocados por dívidas e que podem se beneficiar das regras anunciadas pelo Governo Federal.

Sempre gostei desse tipo de entrevista. Ela transforma um assunto técnico em uma conversa possível. Sai o economês. Entra a vida real.

Quando o ouvinte consegue se enxergar dentro da pergunta, ele entende melhor a resposta. A entrevista deixa de ser apenas uma prestação de serviço e passa a cumprir uma das funções mais bonitas do rádio: criar companhia, identificação e acolhimento.

O rádio tem essa força. Ele fala com milhões, mas preserva a sensação de conversa individual. Como se cada pergunta fosse feita da mesa da cozinha, do volante do carro ou no caminho para o trabalho.

Talvez por isso eu goste tanto do rádio e dessas entrevistas. Elas nos lembram que comunicação não é despejar informação. É construir pontes para que a mensagem faça sentido na vida de alguém.

Quanto à entrevista com o secretário do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, que teve o mérito de ser didático nas respostas e ajudar o ouvinte a ficar mais bem informado, você pode acompanhar o vídeo disponível neste post.

O eleitor busca candidato independente mas vota na polarização, analisa Felipe Nunes, da Quaest

A pesquisa Genial/Quaest mais recente, feita em dez estados, que mediu a opinião do eleitor para as disputas estaduais trouxe um dado curioso. Mesmo com a polarização forte na disputa nacional, o eleitor demonstra cansaço desse ambiente dividido.

Segundo Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, que entrevistamos hoje pela manhã, no Jornal da CBN, há uma preferência por governadores mais independentes, menos ideológicos e focados nos problemas locais. Um desejo que nem sempre se transforma em voto.

Tenho a impressão de que essa dissociação entre o que o eleitor diz ao pesquisador e o que decide na urna tem a ver com uma frase muito usada pelo meu colega e especialista em branding Jaime Troiano: o consumidor diz o que pensa e faz o que sente.

O entrevistado garante que vai escolher um produto mais saudável ou mais sustentável. Na hora da decisão, porém, leva para casa aquilo que desperta desejo, hábito ou confiança. Diante do entrevistador, a pessoa defende o consumo de produtos que respeitam o meio ambiente; na gôndola, leva aquele que cabe no bolso, a despeito dos ingredientes usados.

Ao ouvir Felipe Nunes não resisti à comparação. Quando exposto a pergunta se prefere um candidato ao governo do seu estado mais lulista, independente ou bolsonarista, a maioria fica na coluna do meio. Foi assim em São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Rio de Janeiro, Minas, Paraná e Pará. 

A pergunta que fica é: será que é isso que ele fará?

A política tem uma particularidade que a diferencia do consumo. No supermercado, a prateleira está cheia de opções. Na eleição, o cardápio é limitado. Quem escolhe o que está disponível não é o eleitor — são os partidos, explica Nunes E, até aqui, eles seguem oferecendo opções fortemente alinhadas aos polos tradicionais.

Esse desencontro entre desejo e oferta cria um ruído interessante. O eleitor declara preferência por um caminho mais moderado, mas pode não encontrar uma alternativa viável que represente essa escolha. Diante disso, tende a voltar ao conhecido. Não necessariamente por convicção, mas por falta de opção.

Há também o fator emoção, que não pode ser subestimado. A identidade política, o sentimento de pertencimento, a rejeição ao adversário, tudo isso pesa na decisão final. Muito mais do que a resposta racional dada ao pesquisador.

Na política, a metáfora ganha outra dimensão. O eleitor pode afirmar que quer equilíbrio, mas, diante da urna, pode ser guiado por lealdades, medos ou expectativas que não aparecem com a mesma clareza na pesquisa.

No fim das contas, a frase que nasceu no marketing parece dialogar bem com o cenário eleitoral: o eleitor diz o que pensa. Resta saber o que ele vai sentir na hora de votar.

E, principalmente, se haverá, de fato, uma opção que permita transformar esse desejo em escolha real.

Dez Por Cento Mais: psiquiatra Wimer Bottura Jr alerta para o excesso de diagnósticos em saúde mental

“O sofrimento precisa gerar mudanças.”

A tristeza profunda, a ansiedade persistente ou o esgotamento emocional fazem parte da vida de muitas pessoas. Nem sempre, porém, esses estados significam doença. A diferença entre um sofrimento natural da existência e um transtorno que exige tratamento pode ser sutil. Compreender esse limite é fundamental para evitar diagnósticos precipitados ou tratamentos inadequados. Esse foi o tema da conversa com o psiquiatra Dr. Wimer Bottura Jr., em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Para começo de conversa, Bottura destacou que o sofrimento psíquico merece atenção, independentemente de sua origem. Segundo ele, muitas vezes experiências difíceis — como frustrações, perdas ou o fim de um relacionamento — provocam dor emocional intensa, mas não configuram necessariamente um quadro clínico. O psiquiatra lembra que ignorar o sofrimento pode trazer consequências. “Se a pessoa leva em conta o sofrimento e busca ajuda no momento do sofrimento, ela evita que a doença se instale”, explicou.

Informação em excesso e diagnósticos apressados

O Dez Por Cente Mais também abordou a transformação na relação entre pacientes e profissionais de saúde mental. O acesso à informação ampliou o conhecimento das pessoas sobre transtornos psicológicos, e trouxe um efeito colateral: a tendência ao autodiagnóstico.

Bottura observa que muitos pacientes chegam ao consultório já convencidos de que possuem determinado transtorno. “Hoje qualquer pessoa faz diagnóstico respondendo algumas perguntas na internet”, disse. Para ele, esse processo pode gerar confusão, porque sintomas isolados não são suficientes para definir um quadro clínico.

O psiquiatra chamou atenção para o crescimento de diagnósticos de transtornos como ansiedade, TDAH e autismo. Parte desse aumento reflete maior acesso à informação e redução do preconceito. Ao mesmo tempo, segundo ele, existe o risco de avaliações superficiais. “Aumentou o número de diagnósticos, aumentou a informação, mas também aumentou a meia informação.”

O risco do excesso de remédios

A discussão sobre o uso de medicamentos ocupou parte importante da conversa. Bottura afirma que os remédios têm papel relevante na psiquiatria, desde que usados com diagnóstico adequado. “Eu sou favorável ao remédio. Eu sou favorável a um diagnóstico preciso”, afirmou.

Segundo ele, há situações em que a medicação é indispensável e outras em que seu uso pode ser excessivo. Um dos riscos, explicou, é medicar pessoas que não têm o transtorno diagnosticado. Nesse caso, o tratamento não produz efeito e pode gerar descrédito:. “O problema é que depois a pessoa diz: ‘O remédio não funciona’. E isso cria resistência em quem realmente precisa do medicamento.”

Outro ponto destacado pelo psiquiatra é que o diagnóstico deve considerar não apenas o transtorno, mas também o contexto de vida da pessoa. Em alguns casos, acrescenta, o sofrimento está ligado às circunstâncias em que a pessoa vive. Medicá-la sem mudar essas condições pode apenas prolongar o problema.

A arte como caminho de compreensão

Ao longo da entrevista, Bottura ampliou a reflexão sobre saúde mental ao falar do papel da arte no desenvolvimento emocional. Para ele, cinema, literatura e música ajudam as pessoas a compreender experiências humanas complexas. “A arte chega ao conhecimento muito antes que a ciência”, afirmou.

O psiquiatra relatou que há quase três décadas conduz um projeto chamado Cine Debate, no qual exibe filmes e promove discussões com o público. A proposta é estimular o aprendizado indireto, ou seja, quando alguém aprende observando a experiência de outras pessoas ou personagens.

“Eu aprendo com a dor do outro”, explicou. “No cinema, no romance, no teatro, eu vejo o sofrimento do personagem, me identifico com ele e me desenvolvo a partir dessa experiência.”

A música também ocupa espaço central na visão de Bottura sobre saúde emocional. Além de psiquiatra, ele compõe canções e estuda os efeitos da música no comportamento humano. Cantar e dançar são atividades que favorecem vínculos afetivos e bem-estar. “Não precisa cantar bem. Precisa cantar”, afirmou. “Cantar aproxima pessoas.”

O médico ressalta que a música pode ajudar a reduzir o estresse, fortalecer relações sociais e estimular a curiosidade, fator que considera essencial para a vitalidade ao longo da vida. “Quando eu não tenho mais curiosidade, eu morro”, disse.

A importância de ser quem se é

Bottura resumiu sua visão sobre saúde mental e desenvolvimento humano. Para ele, a vida emocional não se resolve apenas com diagnósticos ou medicamentos. O processo envolve também autoconhecimento, expressão e relações afetivas. “A coisa mais importante da nossa vida é saber ser a gente mesmo”, afirmou. “As pessoas precisam se permitir expressar seus sentimentos, suas opiniões, o que vem da sua alma.”

Na avaliação do psiquiatra, atitudes simples — como cultivar vínculos, manter curiosidade e abrir espaço para a arte — podem contribuir de forma significativa para o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

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Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como Bad Bunny transformou a latinidade em um ativo cultural de massa

A latinidade ganhou escala global, entrou no centro do entretenimento e passou a funcionar também como marca cultural. O tema foi discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir do impacto provocado pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny no mercado da música e no imaginário do público.

O caso chama atenção porque rompe uma barreira antiga no Brasil. Durante muito tempo, artistas latino-americanos de língua espanhola tiveram dificuldade de ocupar espaço amplo por aqui. Cecília observa que esse cenário mudou de patamar. “A latinidade deixa de ser algo marginal e passa a ser algo de massa, de apelo mais democrático, furando todas as bolhas”, disse. A frase ajuda a entender por que o debate vai além da música. Não se trata apenas de um artista popular, mas de um fenômeno que desloca referências culturais e reposiciona símbolos latinos no consumo global.

No comentário, Cecília lembra que os números reforçam essa mudança. O crescimento de ouvintes brasileiros de Bad Bunny e a disparada de execuções após o Super Bowl mostram como uma presença artística pode ampliar seu alcance quando reúne identidade, repertório visual e conexão geracional. Na leitura dela, o artista “reforça várias lentes do que é o latino”, combinando marca-país, vínculo com a geração Z e os millennials e até um traço político em sua forma de se apresentar.

Essa análise ajuda a entender um ponto importante do universo das marcas: elas não são feitas só de produto, nome ou logotipo. Também são construídas por símbolos, linguagem, comportamento e contexto. No caso de Bad Bunny, entram nessa conta a defesa explícita de sua origem porto-riquenha, o uso do espanhol, a estética vibrante, a dança, as gírias e a sensação de pertencimento que ele oferece ao público.

Jaime acrescenta uma camada que torna o debate mais interessante. Para ele, o sucesso da marca latina de Bad Bunny no Brasil também passou por uma espécie de chancela cultural dos Estados Unidos. “Foram os americanos, ou foi a cultura americana e mais especificamente o maior evento mundial americano, o Super Bowl, quem catapultou o Bad Bunny”, afirmou. A observação traz certa ironia: parte do público brasileiro pode ter se aproximado da latinidade depois de vê-la validada no palco mais poderoso da indústria cultural americana.

A provocação de Jaime toca num traço histórico do Brasil. Muitas vezes, o país se relaciona com a América Latina de maneira ambígua: geograficamente inserido, culturalmente próximo em vários aspectos, mas nem sempre disposto a se reconhecer plenamente como parte desse conjunto. Quando ele diz que é “como se nós tivéssemos de costas para a América Latina”, aponta para uma resistência antiga, agora tensionada pelo sucesso de um artista que transformou sua identidade em força de mercado.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso ensisna que fenômenos culturais não se explicam por uma única causa. A força de uma marca nasce do encontro entre identidade, contexto, linguagem, visibilidade e circulação social. A latinidade, hoje, parece ter deixado de ser apenas uma referência periférica para disputar espaço no centro da cultura de massa. Resta saber se esse movimento é passageiro ou se veio para ficar.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: mais confiança, menos certezas

Grêmio 1×0 Novo Hamburgo
Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Novo Hamburgo
Carlos Vinícius, de novo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Uma das últimas vezes em que estive no Estádio Olímpico foi ao lado do meu pai. Repetimos um ritual que nasceu na minha infância, quando ele fazia questão de me levar pela mão para assistir aos treinos coletivos do Grêmio. Eram atividades abertas à imprensa e, vez ou outra, também aos sócios. Eu tinha o privilégio de acompanhar o trabalho à beira do gramado, dividindo espaço com os repórteres que cobriam o dia a dia do clube.

Naquela visita derradeira, eu já morava em São Paulo e estava apenas de passagem por Porto Alegre. Não lembro quem era o técnico do Grêmio naquele momento. Um detalhe, porém, ficou guardado na memória. Mesmo com uma liberalidade que hoje parece improvável — os treinos agora são fechados —, os clubes já começavam a restringir o acesso aos jogadores. Um repórter setorista reclamava do assessor de imprensa porque determinado atleta não havia sido escalado para conceder entrevista na sala de conferências.

A cena me marcou porque eu também fui setorista de clube, nos anos 1980, tanto no Grêmio quanto no tradicional adversário. Naquele tempo, os jogadores circulavam entre os jornalistas sem cerimônia. Falavam ao fim do treino, ainda suados, antes mesmo de trocar de roupa. Das conversas informais surgiam confiança, fontes e uma cobertura esportiva mais rica. O jornalismo se fazia com presença, escuta e convivência.

Ao ouvir a queixa do colega, entendi que a relação entre jornalismo e futebol havia mudado — e não para melhor. Em outros tempos, estaríamos rondando os bastidores do clube. Agora, passávamos a depender da autorização de um intermediário cuja função é, por definição, filtrar o que pode ou não ser dito.

Não demorou muito para que os repórteres também perdessem o acesso aos treinos. Antes, até o placar do coletivo final virava notícia. Hoje, quase tudo se apoia em suposições. Em nome da estratégia e do sigilo tático, deixamos de contar quem foi testado, quem rendeu melhor, quem ganhou espaço. O futebol ficou mais hermético; a informação, mais rarefeita.

Lembrei de tudo isso ao acompanhar as reações de gremistas nas redes sociais após a vitória mirrada — e ainda assim decisiva — sobre o Novo Hamburgo. O 1 a 0 garantiu a classificação à semifinal do Campeonato Gaúcho, cumpriu o objetivo, mas ficou aquém da expectativa em relação ao desempenho do time. Vieram as críticas às escolhas de Luis Castro, tanto na escalação inicial quanto nas alterações do segundo tempo.

É provável que a maioria de nós não saiba o que acontece dentro do clube. Não temos acesso ao ambiente entre os jogadores, às condições físicas individuais, às respostas dadas no treino que antecede o jogo. Ainda assim, nos sentimos autorizados a julgar com convicção, oferecendo soluções simples e evidentes — aquelas que, curiosamente, só os profissionais que trabalham ali parecem incapazes de enxergar.

Não se trata de dizer que o técnico está sempre certo. Há erros de avaliação. Há insistências que custam caro. Há apostas que não se confirmam. Isso faz parte do futebol. O incômodo surge quando a crítica abandona a dúvida e se apresenta como certeza absoluta, adornada por adjetivos agressivos e ataques pessoais. O achismo ocupa o meio de campo. A verdade tem dono. Não há espaço para a hipótese, para o contexto, para o outro.

Imagino que muitas decisões da comissão técnica tenham fundamentos legítimos, ainda que não possam ser expostos publicamente. Às vezes, por proteção ao elenco. Em outras, pela tentativa de recuperar um jogador ou preservar o ambiente interno. Nem tudo cabe numa entrevista pós-jogo. Nem tudo pode ser dito em voz alta.

Que fique claro: o torcedor tem direito à passionalidade. Na arquibancada — ou diante da TV — migramos do aplauso à crítica na velocidade de um contra-ataque. Sempre foi assim. No Olímpico era assim. Hoje continua sendo. O problema é quando trocamos o espaço lúdico do estádio pelo território permanente das redes sociais e esquecemos que a palavra escrita permanece, fere e carrega responsabilidade. Julgamos apenas com base na emoção, sem informação e sem freio.

O Grêmio está na semifinal do Campeonato Gaúcho cumprindo sua obrigação. Fez um jogo no limite do esforço, considerando um calendário atípico e exigente. Luis Castro aprende a cada partida com quem poderá contar ao longo da temporada. Mescla o time porque precisará do elenco inteiro nos momentos decisivos. Às vezes se expõe, estendendo a permanência de um jogador em campo além do ideal — como ocorreu, novamente, com Carlos Vinícius. Em outras, administra riscos e aceita uma performance menos vistosa. Há razões para isso.

Desconsiderá-las por completo é comprometer um projeto que ainda está em construção.

Talvez o maior exercício exigido de nós, hoje, seja confiar no trabalho feito longe dos nossos olhos — mesmo que já não possamos acompanhar os treinos à beira do gramado, como eu fazia, tantos anos atrás, ao lado do meu pai.

Avalanche Tricolor: as poucas boas notícias no empate

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Monsalve comemora o gol no retorno ao time Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi apenas a sétima partida de Luis Castro como técnico do Grêmio, e essa realidade não pode ser ignorada. Ele ainda merece paciência, virtude cada vez menos presente na Arena. Para iniciar o jogo, o treinador português recorreu a um time alternativo, com poucos jogadores considerados titulares. A escolha fazia sentido: a classificação à próxima fase estava garantida, a manutenção do primeiro lugar na chave parecia tranquila e o jogo vinha espremido entre dois compromissos importantes do Campeonato Brasileiro.

Ainda assim, esperava-se mais do Grêmio, sobretudo por jogar em casa. Faltou pressão na saída de bola do Juventude e sobrou lentidão quando a posse era nossa. O primeiro tempo foi pobre. Quase não se criaram jogadas de ataque. Nada daquilo a que se assistiu animou o torcedor que foi à Arena.

A entrada do trio titular — Arthur, Amuzu e Carlos Vinícius — ao lado de Monsalve, que retornava de um longo período de lesão, abriu outra perspectiva, no segundo tempo. O time ganhou presença ofensiva e passou a ocupar melhor o campo adversário. A expulsão precoce de Arthur, porém, voltou a desorganizar o Grêmio. Mais do que o prejuízo imediato, a ausência do volante pesa na disputa pela vaga na semifinal, no próximo fim de semana. Com ele, o meio de campo ganha equilíbrio. Sem ele, o sistema entra em colapso.

Entre as poucas boas notícias, Miguel Monsalve foi a principal. Há tempos o torcedor aposta no colombiano como o jogador capaz de assumir o papel do camisa 10. Em dois ou três lances — especialmente no golaço que marcou — o jovem de 21 anos reacendeu a esperança de que esse protagonismo, enfim, possa se consolidar.

A outra rara boa notícia foi Noriega como volante. Forte na marcação e seguro no domínio da bola, mostrou credenciais que merecem atenção. Com o retorno de Balbuena — toc, toc, toc — talvez o nipo-peruano de 24 anos possa se firmar como parceiro de Arthur, oferecendo ao meio de campo uma alternativa mais consistente.

Aos trancos e barrancos, o Grêmio segue no Campeonato Gaúcho. No meio da semana, o compromisso pelo Campeonato Brasileiro exigirá entrega máxima. Com pouco tempo de trabalho e quase nenhum espaço para treinar, Luis Castro precisa ajustar o time sob a pressão de uma torcida ainda marcada pelos fracassos do ano passado e pelos tropeços deste início de temporada. O relógio corre mais rápido do que o calendário.

Mundo Corporativo: o consultor Guilherme Athia olha para o que não aparece nas planilhas das fusões

Mundo Corporativo com Guilherme Athia, consultor, e apresentação de Mílton Jung
Bastidor da entrevista online com Guilherme Athia no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A parte humana é fundamental. Eu diria que ela está acima dos números na maioria dos casos, tanto para o sucesso, quanto para um eventual problema dessa fusão ou aquisição.”

Renault e Nissan, Daimler-Benz e Chrysler, Dow Chemical e DuPont, ou ainda, Brahma e Antarctica. São marcas e empresas que participaram de algumas das maiores ou mais conhecidas fusões e aquisições no mundo. A despeito disso, cerca de 30% desses processos no Brasil estão concentrados no setor de tecnologia, o que demonstra que este é um tema que interessa também às pequenas e médias empresas.

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, o consultor Guilherme Athia identifica um erro recorrente nos processos de M&A — sigla inglesa para Mergers and Acquisitions. Muitas dessas operações são conduzidas como exercícios de planilhas, contratos e valuation, quando o que realmente define o sucesso ou o fracasso das integrações está fora da matemática: cultura, relações e confiança entre as pessoas.

Quando o contrato fecha e o trabalho começa

Consultor em confiança, governança e assuntos públicos, Athia afirma que o impacto dessas operações aparece rapidamente no dia a dia das equipes. Medo de perder espaço, insegurança e quebra de referências fazem parte do processo. Ele ilustra com um exemplo direto: “imagina que você é um empregado de um hospital aí em São Paulo ou lá em Brasília e esse hospital foi adquirido por um outro grupo e esse outro grupo tem uma pessoa que faz a mesma coisa que você faz. Você pode se sentir ameaçado em termos do seu emprego.”

As consequências não se limitam às pessoas. Clientes e produtos também sentem os efeitos. “Às vezes os produtos são mudados, alterados dados, às vezes são cancelados.” Por isso, ele defende uma estratégia clara para lidar com os principais stakeholders antes e depois do anúncio do negócio.

Ao tratar da diligência prévia, Athia propõe ampliar o olhar técnico com uma etapa adicional, que chama de trust due diligence. “Se eu estou comprando uma empresa que tem um problema de confiança com empregados, como é que eu meço isso?”, questiona, ao descrever o risco de assumir um negócio sem legitimidade interna para liderar.

Liderança: rumo claro, escuta e ego sob controle

Perguntado sobre a taxa de sucesso das fusões e aquisições, Athia evita números absolutos. “Esse dado não existe.” Para ele, o erro mais comum é medir apenas o que cabe na planilha. “A questão é como é que a gente mede outras questões que não são apenas essas de gestão de caixa e valor de mercado.”

Na prática, isso exige um tipo específico de liderança. “É preciso ter uma liderança que saiba para onde está indo, mas que também saiba ouvir atentamente as informações ao longo do processo. É preciso tirar o ego.” Em negociações carregadas de história e emoção, o alerta é direto: “ego nos negócios é como na vida: atrapalha muito mais do que ajuda”.

Confiança como método, não como discurso

Athia recorre à própria história para explicar seu trabalho. Filho temporão, conta que precisava chegar ao jantar com assunto para ser ouvido. “Eu tinha que ler jornal, ouvir rádio, ver televisão para trazer alguma coisa que eles pudessem me ouvir.” A lembrança sustenta a ideia central da consultoria: confiança nasce da capacidade de escutar e de ser levado a sério.

Grande parte de seus projetos envolve “stakeholders não transacionais”, como imprensa, governos e ONGs. Nessas relações, não há troca comercial, mas circulação de ideias e dados. Por isso, ele separa conceitos que costumam aparecer misturados: “As relações governamentais são reais, elas existem. Lobby existe. E existe a corrupção, que a gente é completamente contra.”

A partir daí, ele amplia o raciocínio e trata a confiança como condição básica de convivência. Não é apenas um tema corporativo. É também um tema humano, de pertencimento: “sem confiança você vive sozinho. Sem confiança em si mesmo, na vida não tem muito sentido. E sem confiança nas pessoas, você está sozinho, não tem solidão maior do que a desconfiança.”

O livro Get the M.E.M.O., que terá versão em português lançada em breve, inspira-se em uma expressão em inglês que significa: olha, presta atenção, o mundo mudou. A obra ensina líderes organizacionais a tomar decisões responsáveis diante do que Athia chama de “era da opinião”. Para ele, falas isoladas podem ganhar proporções maiores do que antes. E dá um exemplo do impacto desse ambiente: “um comentário errado, equivocado, fora de contexto, pode levar a demissão de um CEO”. .

Ao tratar de governança, o autor propõe uma síntese própria: “quatro P’s: pessoas, processos, performance e propósito”, organizados no método MEMO: “mapear, executar, mensurar e otimizar”.

Inteligência artificial e a insegurança acelerada

A confiança, segundo Athia, enfrenta um novo desafio com o avanço da inteligência artificial. “Nós não sabemos aonde isso vai dar”, afirma, ao alertar para o crescimento exponencial da tecnologia. Ele observa que o uso da IA já ultrapassou o apoio operacional e começa a interferir em decisões, na memória e, no futuro, nas emoções.

Ao fim, deixa uma orientação prática para líderes: “confiança começa por si mesmo”. E conclui com a ideia que atravessa toda a conversa: “não vai existir 100% certo ou errado. Errar é humano. Aprender é o que um líder faz”.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: fui estafeta do Dr. Waldemar

José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Foto do bonde reproduzida do site São Paulo Antiga

Quando eu tinha oito anos, por volta de 1940, morávamos na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria de Figueiredo, entre o Ibirapuera e a Avenida Paulista. Minha mãe era governanta e cozinheira da família do Dr. Waldemar Mercadante, famoso médico da cidade. Meu pai era funcionário da RAE, Repartição de Água e Esgoto, atual Sabesp. 

O sobrado que habitávamos era enorme, com grandes varandas, porão, sótão com vista para o Ibirapuera, seus lagos, campos de futebol, muito verde no qual cavalos, vacas e cabras pastavam. Não tinha a estrutura de hoje, mas era lindo e despoluído.

O Dr. Waldemar tinha a rotina de solicitar que eu fosse buscar um carro de aluguel na Av. Paulista e também pegar soro no Instituto Pasteur.

Certa vez, após muitas explicações, principalmente sobre disciplina ambiental, fui incumbido de levar uma carta para um colega dele de medicina. Deu-me duas moedas para pegar o bonde. 

Lembro-me bem do bonde camarão com almofadas em vinil e lustres; motorneiro e condutores impecavelmente vestidos. Peguei o bonde na confluência da Av. Paulista com Brig. Luiz Antonio, onde erguia a estátua do índio Caçador. O bonde deslizava sobre os trilhos e dividia a rua estreita com alguns automóveis. 

Enfim, cheguei ao destino; desci perto do Trianon; localizei a mansão cuja frente era igual as demais: os portões eram enormes, feitos de bronze com bocas de onça e carrancas talhadas em ferro batido; a sinaleta era muito alta para o meu um metro de altura; subi colocando os pés entre os vãos e puxei a corrente; ouvi o badalar do sino ao fundo. Adiante, um verdadeiro bosque com árvores, matas, plantas e flores, hoje só vista na região do Parque Trianon.  E assim seguiam os meus dias de menino — fazendo as vezes de estafeta.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Luiz da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br