50 debates para o Brasil: aborto até a 12ª semana opõe autonomia da mulher e direito à vida

O debate sobre a legalização do aborto até a 12ª semana de gestação expõe uma das divisões mais profundas da sociedade brasileira: de um lado, a defesa da autonomia da mulher e da saúde pública; de outro, a proteção da vida desde a concepção e a rejeição à ampliação das hipóteses legais de interrupção da gravidez. Este foi o tema da série 50 Debates para o Brasil, realizada pelo Jornal da CBN.

A lei brasileira atualmente considera o aborto um crime, exceto em casos de gravidez resultante de estupro, risco à vida da gestante e gravidez de feto anencéfalo, para os quais o Supremo Tribunal Federal está bem ciente. A discussão sobre a ampliação desse direito envolveu aspectos médicos, legais, éticos e sociais que foram abordados pelos nossos convidados.

O Dr. Olímpio Barbosa de Moraes Filho, professor da Universidade de Pernambuco e vice-presidente regional da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), defendeu a legalização dizendo que a criminalização não resulta na interrupção do aborto e está mais relacionada a levar as mulheres a procedimentos inseguros. O problema, segundo ele, deve ser resolvido em consonância com evidências científicas e políticas públicas de prevenção. “Criminalizar é a forma de resolver o problema? (…) As pessoas não param de fazer abortos. A lei não está funcionando”, disse ele. Mas, para o especialista, os países que legalizaram o procedimento conseguiram reduzir as mortes maternas e ampliar o acesso à informação e aos métodos contraceptivos.

Por outro lado, Lenise Garcia, professora aposentada da Universidade de Brasília e presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil Sem Aborto, colocou de forma diferente: a ciência reconhece o início da vida na concepção e, portanto, que o embrião deve ter seus direitos protegidos desde o primeiro momento da gestação. “O que a ciência nos diz é que a vida começa com a concepção e que temos ali um ser humano que deve ser respeitado em seus direitos desde o início”, disse ela. Ela também rejeitou o argumento de que a legalização reduz o aborto e disse que dados de países como Uruguai e Argentina mostrariam que um aumento nos procedimentos ocorreria após mudanças na lei.

A discussão também abordou como a legalização pode afetar a saúde pública. Olímpio argumentou que o aborto legal e seguro diminuiria as mortes maternas devido ao aborto clandestino, especialmente entre mulheres de baixa renda, e apoiaria o acompanhamento médico e o planejamento reprodutivo. Lenise, no entanto, disse que a ampliação do direito ao aborto significaria mais mortes fetais, e citou estudos que, segundo ela, ligam o aborto a efeitos psicológicos para algumas mulheres.

Os debatedores também discordaram sobre questões como casos legalizados por lei, o cuidado das vítimas de violência sexual, a responsabilidade dos agressores, a autonomia das mulheres e os limites da ação estatal. Embora não tenham chegado a um consenso, apresentaram argumentos que ajudam a entender por que este continua sendo um dos temas mais sensíveis na agenda pública brasileira.

“50 Debates para o Brasil” é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas são realizadas de segunda a sexta-feira, logo após as 8h30, no Jornal da CBN.

Sua Marca Será um Sucesso: Por que a Coca-Cola muda sem perder o reconhecimento?

Coca-Cola Nova Marca

Mudar pode ser uma necessidade para uma marca. O desafio está em fazer isso sem romper a relação de confiança construída com o público ao longo do tempo. Esse foi o tema do ‘Sua Marca Será um Sucesso’ com Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN, inspirado na mudança e visualização da identidade da Coca-Cola.

Sempre que uma marca conhecida globalmente muda sua aparência, há reações instantâneas. Alguns elogiam, outros criticam e alguns argumentam que a mudança era necessária. Para a Coca-Cola, a transformação foi sutil. O logotipo tradicional foi mantido, a faixa branca voltou ao logotipo na embalagem e a identidade visual da família de produtos começou a se alinhar com o antigo.

Cecília Russo diz que o maior risco nem sempre é mudar. Em muitos casos, o perigo é ficar parado enquanto o mercado, os consumidores e a cultura mudam. Ela nos lembra que a evolução da identidade visual não se limita ao design de um logotipo. Trata-se de como a marca acompanha os tempos sem abrir mão do que a tornou reconhecível.

A história da Coca-Cola nos ajuda a entender esse processo. A cor vermelha, os elementos gráficos simplificados, a tipografia reorganizada e a embalagem da empresa foram gradualmente alterados ao longo de mais de um século. Essas são mudanças quase invisíveis por si só, mas que funcionam juntas para manter a marca em funcionamento sem estranhamento.

A estratégia é uma grande expressão de um princípio essencial de branding: inovação não significa romper com o passado. Significa manter o que é a essência da marca para permanecer relevante.

Na verdade, Jaime Troiano expande essa reflexão para uma ideia fundamental de construção de marca: consistência. Ele afirma que os clientes desenvolvem relações de confiança uma vez que conhecem uma marca ao longo do tempo e sabem o que esperar dela. “As pessoas constroem relações de confiança quando reconhecem uma marca ao longo do tempo”, diz Jaime Troiano. “Elas sabem o que esperar dela, sem medo de serem traídas pela marca.”

Para explicar essa ideia, Jaime faz uma comparação com as próprias pessoas. As pessoas evoluem seu modo de vestir, trabalhar e até falar ao longo da vida, mas ainda são identificadas pelo que veem e pelo que são. De certa forma, é assim com as marcas. A identidade visual da marca pode evoluir se o significado da marca ainda for reconhecível.

É essa lógica que nos permite entender por que mudanças muito abruptas tendem a ser recebidas com resistência. Quando uma empresa descarta coisas que simbolizam a história da empresa, corre o risco de romper o vínculo emocional que foi construído ao longo de décadas. Um exemplo foi a Jaguar, marca inglesa de carros de luxo, que foi obrigada a revisar uma mudança de identidade, que havia gerado uma enorme reação pública por não levar em conta coisas consideradas essenciais para o seu público.

No caso da Coca-Cola, a avaliação é que a empresa encontrou um equilíbrio entre renovação e continuidade. Como resumiu Jaime, a marca “promoveu uma mudança, sinalizou que está se movimentando”, mas, como a Cecília falou, preservou o essencial na busca do novo.”

Saiba mais em “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o case infeliz da Jaguar” e no artigo “O Jaguar ferido: se algo pode dar errado, dará”.

A Marca da Sua Marca

Com boas marcas, a evolução é um processo constante. A mudança é possível e deve acontecer se não destruir a confiança, o reconhecimento e o significado que são construídos ao longo do tempo.

Ouça Sua Marca Será um Sucesso

Sua Marca Será um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50, no Jornal da CBN, com apresentação de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: a tempestade perfeita

Grêmio 0x1 Bolívar
Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Bolivar

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tão difícil quanto assistir aos jogos do Grêmio tem sido escrever sobre o Grêmio. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, espero, reconhecerá meu esforço em encontrar esperança em meio ao desalento. Dificilmente deixo de registrar aqui meus sentimentos. Às vezes, preciso driblar minha frustração e resgatar na memória nossa história para encontrar perspectiva no futuro. Em outras, busco no suspiro de um talento a solução para todos os nossos males. Ou apenas procuro na mística uma saída mais honrosa, quem sabe heroica.

Diante de mais uma eliminação nos play-offs da Sul-Americana, perdendo duas vezes para um time boliviano que havia 24 anos não ganhava uma partida em solo brasileiro, não há inspiração que floresça. Na semana passada, com a desculpa de que a derrota estava relacionada à altitude de La Paz, recusei-me a acreditar que essa jornada estava chegando ao fim. Imaginei uma virada em casa, diante do nosso torcedor, daquelas que nos dão orgulho de contar. Uma vitória para sacudir a poeira, dar a volta por cima e reescrever esta temporada.

A tempestade perfeita se formou, porém. Antes mesmo de entrarmos em campo hoje, assistimos à nossa queda para aquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro. O empate no fim de semana e a combinação de resultados das partidas disputadas neste meio de semana nos colocaram na obrigação de vencer o próximo compromisso.

Com a bola rolando, o que assistimos foi um time com medo de atacar, apequenando-se diante do adversário, mesmo estando na Arena e precisando de dois gols de diferença. Pior do que isso: o setor defensivo, desengonçado, foi surpreendido por um contra-ataque e pela abertura do placar em favor do adversário. Dali em diante, foi um Deus nos acuda.

Levamos 45 minutos para entender que ou matava ou morria. Ou seja, era preciso atacar e atacar, tirar defensores e se atirar para a frente. No mínimo, demonstrar coragem para reconquistar o torcedor, que já está cansado de tanto revés. Mesmo assim, o time ainda foi comedido nas ações ofensivas e, desconfiado de si mesmo, quando chegava próximo ao gol, não era capaz de concluir com precisão.

Com seu moral destruído, sua coragem corrompida e sem qualquer tipo de organização, o Grêmio saiu de campo mais do que derrotado: saiu desconstruído. Jogou sua história no lixo, desrespeitou a camisa tricolor e agora terá de rever às pressas como será a caminhada daqui até o fim do ano — se é que pretende oferecer ao seu torcedor um mínimo de consolo.

Das arquibancadas vieram os clássicos gritos contra o treinador de plantão e o pedido pela volta ao passado. Infelizmente, sequer essa lição aprendemos. Insistimos na ideia de que é possível construir um futuro com as ferramentas de antes. Não conseguimos entender que não dá mais para viver da história pretérita, da mística de uma camisa, de resultados que nos fizeram grandes, mas que não nos salvarão de um desastre iminente.

Precisamos começar por nos livrar das picuinhas políticas semeadas pela diretoria. Fazê-la entender que o Grêmio está acima dos seus interesses ideológicos. Que é necessário rever seus conceitos de investimento. Entender que o futebol hoje exige organização, inteligência, talento e muita inspiração. O Grêmio precisa voltar a pensar grande.

Avalanche Tricolor: o empate decepciona e a volta de Marlon inspira

Grêmio 1×1 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Fluminense

Marlon parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há quatro meses, diante da cena que chocou os gremistas, roguei para que Marlon encontrasse forças e se recuperasse. Em um lance fortuito, nosso lateral esquerdo sofreu uma fratura no tornozelo, que ficou escancarada na imagem captada pela televisão. Ali mesmo, no sofrimento que se iniciava no gramado, ele já sinalizava a dimensão de sua resiliência. Antes de entrar na ambulância, ergueu o corpo sobre a maca, olhou para os torcedores que gritavam seu nome e agradeceu com aplausos e um sorriso.

Hoje, Marlon estava de volta ao time titular, cumprindo o compromisso que ele próprio havia assumido com o Grêmio e sua torcida. A presença dele oferece maturidade na marcação e segurança na saída de bola pelo lado direito. Tem bom passe e visão de jogo. Antes mesmo de demonstrar que está em plena recuperação — ainda precisará de alguns jogos para retomar o ritmo —, seu nome entre os titulares me deu esperança de que ainda podemos mudar nossa história nesta temporada.

Marlon é gremista de coração. É daqueles jogadores que carregam uma história junto com a camisa e chegaram para viver o que muitos chamam de sonho. Foi o que escrevi em 20 de março, logo depois de me sensibilizar com uma dor que somente ele seria capaz de dimensionar.

Mesmo que o resultado deste domingo tenha sido mais uma frustração — empatamos em casa quando os três pontos se faziam necessários —, vislumbro na volta de Marlon a possibilidade de uma transformação. Não que ele seja o tipo de jogador capaz de desequilibrar uma partida, como costumam fazer os grandes craques do futebol. Tem, porém, personalidade e liderança que serão fundamentais para os desafios que se impõem em nosso caminho.

Na Copa Sul-Americana, precisamos vencer já na próxima quinta-feira para seguirmos em frente. Na Copa do Brasil, enfrentaremos, em dois jogos, um adversário que jamais vencemos na história. No Campeonato Brasileiro, precisaremos voltar a ganhar para, ao menos por algumas rodadas, respirar aliviados e distantes daquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Para este torcedor delirante, que insiste em acreditar que sempre será possível, ter visto Marlon em campo hoje foi o sinal de que eu precisava para suportar mais um revés no Brasileiro. Que sua volta também tenha esse mesmo simbolismo para o elenco gremista.

Avalanche Tricolor: da altitude de 1983 à realidade de 2026

Bolívar 3×2 Grêmio  

Sul-Americana – Hernando Siles, La Paz – Bolívia

Gremio x Bolivar

Villasanti comemora seu gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje cedo, na conversa diária com Paulo Vinícius Coelho, meu colega no Jornal da CBN e comentarista do jogo na Paramount, ele lembrou que o Grêmio foi o primeiro clube brasileiro a vencer na altitude de La Paz. Aconteceu no histórico ano de 1983, na campanha que nos levou à conquista da nossa primeira Libertadores. Um time de Hugo De León, Renato, China e Osvaldo — estes dois últimos autores dos gols da vitória.

Foi naquele período que o Grêmio começou a construir sua reputação na América. Passou a ser temido por qualquer adversário, independentemente das circunstâncias. Ao vencer na altitude, insalubre para a prática do futebol, ou ao suportar a violência de rivais e torcidas pelo continente, o clube forjou a imagem que mais tarde seria resumida em uma palavra: Imortal.

Enquanto PVC trazia à memória esse passado, outro amigo me enviava uma mensagem indignada pelo WhatsApp. Havia acabado de ver as odds de uma casa de apostas que apontavam amplo favoritismo do Bolívar para a partida desta noite. Para ele, era o fim dos tempos. Para mim, era apenas um sinal dos tempos.

O Grêmio, infelizmente, deixou de produzir atuações capazes de intimidar os adversários. Sobretudo longe de Porto Alegre. As campanhas irregulares no Campeonato Brasileiro e as eliminações precoces em competições continentais desgastaram a imagem construída ao longo de décadas. A impressão é que os rivais já não entram em campo preocupados com o peso da camisa tricolor.

Nesta noite, o time voltou a confirmar essa sensação. Falhou na marcação, permitiu que o Bolívar chegasse com facilidade à área, teve dificuldade para controlar a posse de bola e cometeu erros desde o primeiro minuto, quando sofreu o gol que abriu o placar. Ainda assim, encontrou forças para marcar duas vezes, com Villasanti e Tetê, e criou oportunidades suficientes para imaginar um resultado diferente. Faltou eficiência para transformar essas chances em empate — ou até em vitória.

Sabemos que disputar uma partida a 3.600 metros de altitude é um desrespeito aos atletas. Falta ar, diminui a capacidade de concentração, alguns sofrem tonturas, e a cabeça passa a exigir de um corpo que já não responde na mesma velocidade. A bola ganha outra dinâmica, o passe perde precisão e o chute exige um cálculo diferente. Tudo isso precisa ser levado em conta ao analisar o desempenho desta noite.

O problema é que a altitude explica os erros deste jogo; não explica os da temporada. A sensação de fragilidade que o time transmite já vinha de antes e tem pouco a ver com o ar rarefeito de La Paz.

Ainda assim, recuso-me a acreditar que essa história tenha terminado. O mesmo Grêmio que um dia transformou a altitude em cenário de uma de suas maiores façanhas continua existindo. Não está nas pernas dos jogadores de 1983, nem pode viver apenas da memória dos títulos. Está na capacidade que este clube sempre teve de se reconstruir quando parecia desacreditado. A camisa perdeu parte do respeito que inspirava; o respeito, porém, pode ser recuperado. Será preciso futebol, organização e coragem. A história mostra que isso já aconteceu outras vezes. E é justamente por conhecer essa história que continuo acreditando que o Grêmio ainda será capaz de virar esse jogo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quais marcas têm a cara das festas juninas?

Foto: Alan Kleina Mendes

Poucas celebrações no Brasil conseguem unir tradição, identidade regional e consumo de forma tão intensa quanto as festas juninas. Durante o mês de junho, produtos, receitas, costumes e marcas passam a ocupar um espaço especial na memória afetiva dos brasileiros.

No ritmo da ‘quadrilha, Jaime Troiano e Cecília Russo analisaram como diferentes marcas se conectam às festas juninas em várias regiões do país. A conversa, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, mostrou que, mais do que vender produtos, algumas marcas conseguem se tornar parte da própria experiência cultural vivida pelos consumidores.

Ao lembrar dos santos celebrados no período — Santo Antônio, São João e São Pedro —, Cecília destacou a força dessa tradição na cultura brasileira. Para ela, algumas marcas já estão incorporadas ao imaginário das festas juninas. “Ao falar em Yoki, parece que eu vejo já bandeirinhas de festa junina na embalagem”, afirmou.

A associação não acontece por acaso. Ao longo de décadas, produtos como pipoca, amendoim, canjica e ingredientes usados em receitas típicas passaram a reforçar a presença dessas marcas nas comemorações. O resultado é uma ligação que vai além da propaganda e se estabelece pela repetição de hábitos familiares e experiências compartilhadas.

Entre os exemplos citados por Cecília, além da Yoki, de presença nacional, a Paçoquita, da empresa Santa Helena, e a gaúcha DaColônia. Cada uma delas, à sua maneira, construiu uma relação com elementos tradicionais da festa junina. No caso da DaColônia, ela destacou a preservação de uma identidade regional mesmo após ampliar sua presença pelo país.

Jaime Troiano ampliou o olhar para outras regiões brasileiras e mostrou como as marcas acompanham as características culturais de cada localidade. No Nordeste, onde as festas de São João movimentam cidades inteiras e atraem milhares de visitantes, a relação entre cultura e marcas é ainda mais evidente.

“Se a Yoki é forte no Sudeste, a Vitamilho é a rainha absoluta do Nordeste”, observou Jaime. Segundo ele, a marca conseguiu se tornar referência para produtos como fubá, canjica e misturas utilizadas nas receitas típicas da região.

No Norte do país, a culinária junina incorpora ingredientes associados à floresta e às tradições locais. Nesse contexto, Jaime destacou a presença da Hiléia, empresa paraense que participa das celebrações por meio de produtos amplamente utilizados nas receitas regionais.

no Centro-Oeste, a referência lembrada foi a Piracanjuba. Nascida em Goiás, a marca está associada a ingredientes usados em doces tradicionais, como arroz-doce e doce de leite, muito presentes nas quermesses.

A conversa também revelou uma característica importante da construção de marcas no Brasil: a força da regionalidade. Embora as festas juninas sejam celebradas em todo o território nacional, elas assumem características próprias em cada região. As marcas que conseguem compreender essas diferenças tendem a estabelecer vínculos mais fortes com os consumidores.

Essa lógica vale para empresas de qualquer porte. Uma marca não precisa falar com todo o país da mesma forma. Muitas vezes, a conexão mais consistente surge justamente quando ela reconhece e respeita as particularidades culturais de cada comunidade.

A marca do Sua Marca

As festas juninas mostram que marcas fortes não são construídas apenas por campanhas publicitárias. Elas ganham relevância quando fazem parte da cultura local, respeitam tradições e conseguem criar vínculos autênticos com as pessoas sem perder sua identidade.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

O idadismo da “abominável classe média”: moradores não querem casa de repouso na vizinhança

Bengala de idoso
Foto de Mohamed Larbi Larouk no Pexels


Por Diego Felix Miguel

Prezada leitora e prezado leitor, peço que não me julguem pelo título deste texto — não antes de chegarem à última linha.

Minha reflexão parte do cruzamento de duas situações. A primeira evoca o célebre e controverso pensamento do filósofo Marilena Chauí, proferido em 2013:

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética, porque é violenta, é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.”

A segunda é a reportagem publicada na Folha de S.Paulo, em 25 de maio de 2026, sob o título: “Moradores pressionam a gestão Nunes e ocupas casas de repouso para idosos da Lapa”.

No vídeo publicado pelo jornal em suas redes sociais, moradores exaltados alegam que as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) ocupam uma área estritamente residencial e manter um serviço como esse retira a tranquilidade do local devido à circulação de ambulâncias e carros funerários — fatores que, segundo eles, desvalorizariam os imóveis da região.

Agressividade, falta de empatia e discriminação são ocorrências do dia a dia do idadismo — bem como as condições de saúde e sociais de pessoas que demandam cuidados de longa duração — emergem nos gritos histéricos de uma suposta elite que busca, a todo custo, higienizar o seu reino.

Essas mesmas pessoas manifestam-se posicionando suas casas de forma ostensiva, com música alta, para deliberadamente prejudicar o funcionamento das instituições. Interferem, assim, diretamente no bem-estar e no cuidado de pessoas idosas, principalmente daquelas que vivem com demências ou outras condições que comprometem sua autonomia e exigem um ambiente calmo, sem estímulos.

A filósofa aborda duramente isso quando conceitua a “classe média”.

Chauí não limita esse termo a uma condição meramente econômica, mas sim a uma postura política e existencial. A polêmica de sua fala, de 2013, ecoa, finalmente, no absurdo da Geriatria e da Gerontologia — e no ativismo pelos direitos humanos da pessoa idosa — neste ano de 2026, servindo como um exemplo didático e doloroso da postura que ela denunciava.

Testemunhamos ali o autoritarismo do fascismo social, que desconsidera a convivência democrática, o respeito às diferenças e a valorização da vida. Presenciamos a abominação ética que violenta, por meio de palavras e atitudes, pessoas vulnerabilizadas que necessitam de suporte especializado — sabendo-se que a complexidade logística e assistencial de uma ILPI é enorme e que uma mudança intempestiva, sem planejamento e investimento, pode trazer transtornos gravíssimos e riscos à saúde dos residentes.

Por fim, vemos a abominação cognitiva: a ignorância que banaliza a vida, colocando o valor patrimonial e o metro quadrado acima da dignidade humana, incomodada pela mera passagem de uma ambulância que socorre ou de um carro funerário que acolhe a finitude.

A questão aqui tratada não é burocrática ou sobre a regularização dessas instituições; é sobre a forma violenta e desumanizadora como a situação é posta, sem qualquer respeito à longevidade. Prosperar economicamente não é um problema — quem dera todas as pessoas tivessem as condições necessárias para transformar suas realidades —, mas a arrogância e a violência legitimadas pelo poder socioeconômico, sim, são problemas crônicos. São posturas que acentuam a exclusão de grupos historicamente minorizados e silenciados pelas políticas públicas que, quando finalmente se tornam visíveis, são tratados como um estorvo urbano a ser arremessado para além da linha abissal.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Avalanche Tricolor: o risco de se acostumar

Bahia 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Gremio x Bahia
Viery abriu o placar com gol de cabeça. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ao ver o protesto dos torcedores adversários antes de a partida se iniciar, nas arquibancadas da Arena Fonte Nova, fui conferir a classificação do campeonato. Pensei que a revolta se devesse ao fato de o time da casa estar em uma posição de risco, daquelas em que a zona-você-sabe-qual já aparece no horizonte. Foi o meu Grêmio que encontrei por lá. O adversário, sob protestos, estava em oitavo lugar.

Há muito tempo o Grêmio não ocupa uma posição de destaque na tabela de classificação. Em 2025, terminamos em nono lugar, após uma recuperação na reta final; na temporada anterior, em décimo quarto. Neste ano, lembro de termos ficado entre os dez primeiros talvez uma ou duas rodadas, se muito.

Em abril, logo depois do clássico regional — o pior de todos os tempos —, escrevi nesta Avalanche que o maior risco não estava em empatar um Gre-Nal ruim; estava em se acostumar com ele.

Sou defensor da ideia de que estamos em um processo de reconstrução. Dezenas de jogadores foram embora e outra dezena de jovens passou a formar o elenco. Muita gente chegou neste ano ou ainda está se recuperando fisicamente. Há também os que estão muito aquém da expectativa que criamos. Ao técnico Luis Castro cabe administrar as carências do elenco e se virar com o que tem à disposição.

A despeito de tudo isso, o que estamos assistindo é um Grêmio pouco audacioso para o tamanho da sua história. Se jogamos contra os líderes do campeonato, nos satisfazemos com uma equipe que resiste até onde é possível. Se jogamos fora de casa, o empate vira motivo de comemoração. Quando ganhamos na nossa Arena, tudo bem que tenha sido por pouco. O que vale são os três pontos, nos consolamos.

Na partida desta tarde de domingo, concluímos apenas três vezes a gol. É muito pouco para quem tem a pretensão de subir na tabela de classificação. Por essas coisas que só o futebol é capaz de proporcionar, apesar disso ainda saímos na frente no placar, após a cobrança de escanteio de Pedro Gabriel e o cabeceio de Viery. Obra do acaso.

Antes e depois do nosso gol, fomos pressionados. Sofremos com bolas no travessão e no poste. Assistimos aos atacantes cruzarem na nossa área e aos meio-campistas entrarem tabelando. Contamos, mais uma vez, com o gigantismo de Weverton — quero muito que ele seja premiado com a convocação para a Copa do Mundo.

O fato é que, diante da nossa incapacidade de reter a bola, controlar o jogo e reduzir a pressão, inevitavelmente acabamos levando um gol. E não levamos dois porque contamos com a imprecisão e o azar dos atacantes adversários. Saímos de campo agradecendo o ponto conquistado e, ao menos, o fato de irmos dormir fora daquela zona-você-sabe-qual.

Há algo muito errado quando um clube do tamanho do Grêmio sai de campo satisfeito apenas por não terminar a rodada entre os últimos. Não podemos nos conformar com essa situação.

Mundo Corporativo: para Cláudia Vilhena, VP da empresa dona do Outback, ouvir o cliente não é fazer o que ele pede

Cláudia Vilhena, do Ouback, no Mundo Corporativo
Cláudia Vilhena no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Não adianta você criar uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso.”

Cerca de 3 milhões de transações por mês passam pelos 207 restaurantes da Bold Hospitality Company no Brasil, em um sistema que depende diretamente da leitura constante do comportamento do consumidor. Esse movimento, que combina dados, escuta ativa e adaptação contínua, foi tema de entrevista com Cláudia Vilhena, sócia e vice-presidente de Marketing, Vendas e Growth da empresa, ao programa Mundo Corporativo da CBN. 

A empresa reúne marcas conhecidas do público, Outback, Abbraccio e Aussie, e estrutura sua estratégia a partir de um ciclo contínuo que começa na observação do cliente e termina na análise de resultados. Ao longo da conversa, Cláudia descreveu como esse processo exige coerência entre discurso e prática.

“Ouvir o que o cliente tem a dizer não necessariamente é fazer o que ele está pedindo”, afirmou. “Tem que fazer sentido para o seu negócio, seja ele qual for.”

Escuta ativa exige decisão

A escuta ativa aparece com frequência no discurso corporativo. Na prática, segundo Cláudia, ela só funciona quando está integrada à cultura da empresa. “Não adianta você criar dentro da sua organização uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso, porque você criou uma expectativa no seu cliente.”

Esse processo envolve mais do que pesquisas tradicionais. Não se resume a avaliações numéricas ou formulários. Exige interpretação e disposição para rever caminhos. “A sua empresa está aberta a realmente se transformar para o que faz sentido para ela, mas ouvindo o consumidor?”

Do comportamento ao produto

Na Bold, o trabalho começa antes mesmo da criação de produtos. A empresa observa tendências de consumo, avalia se elas se conectam com suas marcas e, só então, inicia o desenvolvimento.

“Como é que a gente entende isso fora das marcas da Bold? Como é que a gente traz isso e conecta com o nosso negócio?”

Esse processo inclui testes com consumidores, ajustes de produto e análise de viabilidade operacional. Só depois dessas etapas o item chega ao cardápio. “Para a gente não sair surfando os hypes e fazendo coisas que eventualmente não têm a cara das nossas marcas.”

Após o lançamento, o acompanhamento continua. A empresa monitora frequência de consumo, adesão ao produto e comportamento do cliente para avaliar se as expectativas foram atendidas. “Então você vê que é realmente um ciclo.”

Um dos pontos centrais da estratégia é fazer o consumidor perceber que participa do processo. “Se o consumidor percebe que ele está sendo ouvido, ele percebe que ele está realmente participando do processo, isso é muito rico.”

Essa percepção fortalece o vínculo com a marca e aumenta a recorrência de consumo. “Faz realmente a conexão da marca ser verdadeira com esse consumidor.”

Liderança começa pela escuta

A lógica da escuta não se limita ao cliente. Ela também orienta a gestão de equipes. Cláudia afirma que o papel principal da liderança é criar condições para que as pessoas consigam trabalhar bem. “Meu papel primordial é ser líder para o meu time. É ouvi-los.”

Esse processo inclui presença no dia a dia da operação. A executiva relata que costuma frequentar os restaurantes para observar o comportamento real dos clientes. “A campanha que eu pensei lá sentadinha na minha mesa, ela está funcionando na ponta?”. A pergunta resume um princípio simples: estratégia só se valida na prática.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Quando o ouvinte é o personagem, o rádio cresce e a entrevista esclarece

No rádio, às vezes, uma pergunta vale mais do que uma resposta longa e cheia de números.

Hoje, ao entrevistar Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, sobre o Desenrola 2.0, escolhi começar a conversa criando um personagem. Um brasileiro que ganha cerca de oito mil reais, tem parte da renda comprometida com consignado, está enrolado no cartão de crédito, no cheque especial e atrasou contas da loja onde costuma comprar.

Era um personagem fictício apenas no nome. Porque, na prática, ele representa milhares de pessoas que estavam ouvindo o rádio naquele instante. Aliás, milhões de brasileiros sufocados por dívidas e que podem se beneficiar das regras anunciadas pelo Governo Federal.

Sempre gostei desse tipo de entrevista. Ela transforma um assunto técnico em uma conversa possível. Sai o economês. Entra a vida real.

Quando o ouvinte consegue se enxergar dentro da pergunta, ele entende melhor a resposta. A entrevista deixa de ser apenas uma prestação de serviço e passa a cumprir uma das funções mais bonitas do rádio: criar companhia, identificação e acolhimento.

O rádio tem essa força. Ele fala com milhões, mas preserva a sensação de conversa individual. Como se cada pergunta fosse feita da mesa da cozinha, do volante do carro ou no caminho para o trabalho.

Talvez por isso eu goste tanto do rádio e dessas entrevistas. Elas nos lembram que comunicação não é despejar informação. É construir pontes para que a mensagem faça sentido na vida de alguém.

Quanto à entrevista com o secretário do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, que teve o mérito de ser didático nas respostas e ajudar o ouvinte a ficar mais bem informado, você pode acompanhar o vídeo disponível neste post.