Cultura organizacional: American Factory e o caso Magazine Luiza

Por Milena Botelho de Moraes

Estudante de psicologia na FMU

Foto: Netflix

 

A chegada do capital chinês para irrigar terras secas de prosperidade onde o ideal americano florescia de forma exuberante no passado, descrita no documentário American Factory, que recebeu o Oscar da categoria, em 2020, revela as transformações que o mundo industrial enfrenta neste século. Os Estados Unidos, potencia maior, assistiram à destruição de parte do seu parque fabril por estarem amarrados em regras operacionais e trabalhistas incapazes de competir com os resultados alcançados por fabricantes chineses que usam a força de um regime que ainda se apresenta como comunista, mesmo que tenha absorvido princípios do capitalismo, conhecido por Capitalismo de Estado.

A câmera não-intrusiva que acompanha os movimentos dos protagonistas do documentário —- da cúpula ao chão de fábrica —-, sem censura, nos mostra muito além dessa luta entre capital e trabalho. Ao passear pela nova fábrica de vidros automotivos da chinesa Fuyao — propositalmente chamada Fuyao Glass America —, construída onde antes flanava a bandeira de um dos maiores símbolos da economia americana, a General Motors, em Moraine, Ohio, os documentaristas desvendam como é difícil construir e desconstruir culturas organizacionais quando o mesmo espaço é ocupado por pessoas que foram forjadas sob regimes tão diversos. 

Os americanos são muito devagar, diz um executivo chinês sem se importar com a câmera ligada ao seu lado. Considera-os mimados:

“tem de fazer como para escovar um burro — sempre a favor do pelo; se for no sentido contrário, há o perigo de levar um coice. ”

Entre máquinas e peças, americanos resmungam pela falta de respeito dos novos donos da fábrica aos direitos dos trabalhadores e se escandalizam com a insegurança física e operacional com que agem os chineses, tanto nas plantas industriais da China quanto na dos Estados Unidos.

Duas realidades que parecem irreconciliáveis. 

Bobby, um negro americano na casa dos 55 anos, com uma só frase resume o drama que todos vivem naquele ambiente:

“A GM me proporcionou uma ótima vida. Isso acabou quando ela fechou as portas. Nunca mais vamos ganhar uma grana tão boa na vida. Aquilo ficou no passado”. 

Para referência: o salário que era de 29 dólares por hora, caiu para 14; os 30 minutos reservados ao almoço, não são remunerados; o trabalho se estende aos fins de semana; desperdícios de segundos são punidos com demissão. A máquina chinesa não para nunca e por isso se submeter às ordens de um sindicato é inconcebível —- os executivos da China não medem esforços para impedir a entrada desta instituição até então sagrada no campo trabalhista americano. E têm sucesso na empreitada.

O documentário observacional —- como os críticos de produção cinematográfica o definem — permite que as diferentes vozes surjam expressando de forma transparente e com o sotaque natural de cada nação o choque de cultura que se trava na fábrica. Ao espectador que assiste ao embate, ora surpreso pela sinceridade das falas ora indignado pelo sofrimento que trabalhadores —- sejam americanos sejam chineses —- são submetidos, recomenda-se que reflita sobre como essa engrenagem cultural funciona no seu ambiente de trabalho.

Mesmo que aparentemente estejamos distantes do embate entre o modo de vida e de produção dos Estados Unidos e da China, sabemos que os processos de gestão extrapolam fronteiras desde sempre. Está aí a história a nos mostrar as muitas tentativas de implantarmos modelos como o Fordismo e o Toyotismo —- não por acaso um de berço americano e outro, asiático —- aqui no Brasil. Algumas vezes com sucesso, outras precisando tropicalizar a forma de agir. 

Além dos processos de produção, uma reflexão necessária —- e ainda mais importante —- neste momento é quão flexível pode ser a cultura da sua organização para entender as transformações inevitáveis da sociedade contemporânea. No Brasil, estamos assistindo a um forte movimento de conscientização que impõe mudanças internas na gestão das empresas com a busca da diversidade de gênero, de raça e social, dando direito ao trabalho a populações discriminadas e a minorias.

As ações mais contundentes e recentes surgiram por iniciativa do Grupo Magazine Luiza e da Bayer que lançaram programas de trainees exclusivamente para negros com o objetivo de incluir minorias nos locais de trabalho. Ao mesmo tempo que o anúncio da iniciativa recebeu o apoio de grupos e indivíduos que defendem a igualdade racial; surgiram críticas ao que passou a ser identificado como discriminação invertida. 

Onze ações por promover prática de racismo foram apresentadas ao Ministério Público do Trabalho de São Paulo sob a justificativa, segundo texto de um dos denunciantes de que a medida adotada pelo Magazine Luiza “impede que pessoas que não tenham o tom de pele desejado pela empresa” participem do processo seletivo. Um integrante da Defensoria Pública da União, Jovino Bento Junior, abriu Ação Civil Pública de R$ 10 milhões contra o grupo de varejo por entender que não se trata de um sistema de cotas mas de “contratação exclusiva de trabalhadores de determinada raça ou etnia em detrimento de outras que ao invés de promover igualdade de oportunidades gera exclusão de determinados (muitos, no caso) grupos de trabalhadores”.

O Ministério Público de Trabalho, em São Paulo, indeferiu todas as ações sob a justificativa de que não houve violação trabalhista, mas uma ação afirmativa de reparação histórica. Onze defensores públicos, do Grupo de Trabalho Políticas Etnorraciais da Defensoria Pública da União, publicaram uma nota de repúdio à postura do defensor Jovino Bento Júnior por não refletir “a missão e posição institucional da Defensoria Pública da União quanto à defesa dos direitos dos necessitados. Mais do que isso, contraria os direitos do grupo vulnerável cuja DPU tem o dever irrenunciável de defender”.

À crítica de que o processo seletivo do Grupo Magazine Luiza e da Bayer é discriminatório, pois permite a contratação apenas de indivíduos de uma raça, contrapõem-se a ideia da Discriminação Positiva, figura que surgiu como forma de oferecer justiça social.

“(A Discriminação Positiva) procura estabelecer equilíbrios e garantias para pessoas que historicamente, encontram-se em grupos excluídos pela sociedade. Tal instituto é o responsável por trazer as ações afirmativas, como a Lei de Cotas, o Estatuto do Deficiente, regras que possuem o intuito de inserir na sociedade aqueles que são excluídos” —- justificam Oliveira e Fagundes, em artigo escrito para o site Consultor Jurídico.

Em entrevista ao jornal O Globo, edição de 15 de outubro de 2020, o vice-presidente de Finanças da Bayer, Maurício Rodrigues, explicou a decisão da multinacional em criar o programa para candidatos negros:

“No passado, tinha a questão de que era preciso formar as pessoas, que não era possível contratar porque os negros não tinham formação etc. Já não era 100% verdade naquela época, mas as pessoas conseguiam ganhar com essa argumentação. Passados 15 anos, hoje a gente tem um contingente de pessoas bem formadas muito grande. E essas pessoas estão cada vez mais demandando espaço, também com as mídias sociais dando voz. E, dentro das empresas, há cada vez mais um interesse genuíno no que a diversidade pode proporcionar”

Em sintonia com a afirmação do executivo da Bayer, o Instituto Identidades Brasil, que atua em defesa da igualdade racial, diz que triplicou o número de negros com ensino superior, nos últimos dez anos no Brasil e isso não se reflete nas corporações sobretudo no alto escalão. É preciso mudar a cultura, torná-la mais inclusiva, disse em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da rádio CBN: 

“É uma pauta que tem de ser transversal; não é uma pauta só de recrutamento; é uma pauta de posicionamento; é uma pauta de comunicação; é uma pauta estratégica para toda a empresa que quer crescer para além de olhar só a metade da população do Brasil. Tem de olhar a população por inteiro”.

A partir dessa afirmação, a reflexão que se faz necessária é se, além das iniciativas empresariais, que buscam incentivar a inserção do negro no mercado de trabalho e, especialmente, a ascensão a postos de liderança, existem trabalhos internos nas corporações para que essas pessoas até então consideradas “estranhas” ao ambiente organizacional sejam recebidas com o devido respeito.

Políticas organizacionais que inspirem a inclusão terão tanto sucesso quanto conseguirem tornar a diversidade um movimento genuíno na base de seus trabalhadores. A inclusão de negros, apenas para ficarmos no campo da igualdade racial, tem de ser absorvida por todos os colaboradores e para tal é necessária uma mudança da cultura das empresas, acostumadas até aqui a manter em um mesmo ambiente pessoas que pensam e agem da mesma maneira. A diversidade é tanto uma necessidade quanto um desafio interno e externo das empresas no Brasil. 

Aos colaboradores que ainda se sentem incomodados com a “nova concorrência”, vale lembrar o que disse Bobby, um dos protagonistas do documentário American Factory, já citado neste trabalho: “aquilo ficou no passado” —- neste caso, ainda bem. Porque o futuro, não tem mais como evitar, é de quem investir na diversidade. E adaptar sua cultura organizacional a essa realidade mais rica e promissora.

Em tempo: a Fuyao Glass American que teve prejuízos no seu primeiro ano de operação nos Estados Unidos, em 2014, lucrou 24 milhões de dólares americanos, em 2018, aumento de 30% em relação ao ano anterior. Tem 2.500 funcionários americanos e chineses, apesar do forte investimento em automação. “Havia uma diferença cultural, mas passamos e conquistamos a confiança deles”, acredita Jeff Liu, CEO da Fuyao Glass American, em entrevista ao site Xinhua, dedicado a notícias da China e publicado em versão em português.

Referências:

CASO Magazine Luiza: MPT rejeita denúncias de racismo por trainee só para negros. Estadão Conteúdo. 24/09/2020. Disponível em https://www.otempo.com.br/brasil/caso-magazine-luiza-mpt-rejeita-denuncias-de-racismo-por-trainee-so-para-negros-1.2389913. Acesso em: 17/10/2020

CEO da Fuyao Glass America prevê tempos difíceis em 2020. site Xihua Português. 09/12/2019. Disponível em http://portuguese.xinhuanet.com/2019-12/09/c_138616691.htm. Acesso em: 17/10/2020

DPU entra com ação de R$ 10 milhões contra Magazine Luiza por programa de trainee exclusivo para negros. Época Negócios. 06/10/2020. Disponível em https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2020/10/dpu-entra-com-acao-de-r-10-milhoes-contra-magazine-luiza-por-programa-de-trainee-exclusivo-para-negros.html Acesso em: 17/10/2020

GRUPO  de defensores públicos repudia ação contra Magazine Luiza. Valor Econômico, 06/10/2020. Acesso em: 17/10/2020

JUNG, Mílton. Mundo Corporativo: ter negros na liderança é estratégico para empresas, diz Luana Genót, do ID_BR. 2020. 11/09/2020 (33min20s). Disponível em https://miltonjung.com.br/2020/09/11/mundo-corporativo-ter-negros-na-lideranca-e-estrategico-para-empresas-diz-luana-genot-do-id_br/. Acesso em: 17/10/2020

HIROSE, Rodrigo. American Factory, que venceu Democracia em Vertigem, é o retrato de um mundo em constante transformação. Jornal Opção. 16/02/2020. Disponível em https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/ponto-de-partida/american-factory-que-venceu-democracia-em-vertigem-e-o-retrato-de-um-mundo-em-constante-transformacao-235847/. Acesso em: 17/10/2020

O defensor Jovino Bento Júnior é o responsável pela ação protocolada na última segunda-feira. Época Negócios, 07/10/2020. Disponível em https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2020/10/dpu-entra-com-acao-de-r-10-milhoes-contra-magazine-luiza-por-programa-de-trainee-exclusivo-para-negros.html. Acesso em: 17/10/2020

OLIVEIRA, Adrielly Letícia Silva & FAGUNDES, Patrícia Fernanda de Albuquerque. O caso Magazine Luiz e a discriminação positiva. CONJUR. 26/09/2020. Disponível em https://www.conjur.com.br/2020-set-26/opiniao-magazine-luiza-discriminacao-positiva Acesso em: 17/10/2020

SETTI, Renan. Executivo da Bayer que criou trainee só pra negros sofreu preconceito na carreira: ‘Perguntaram o que eu fazia ali’. O Globo. 15/10/2020. Disponível em //blogs.oglobo.globo.com/capital/post/executivo-da-bayer-que-criou-trainee-so-pra-negros-sofreu-preconceito-na-carreira-perguntaram-o-que-eu-fazia-ali.html. Acesso em: 17/10/2020

Mundo Corporativo: Daniel Motta, da BMI, fala da importância de a empresa ter cultura sólida e estratégia bem definida

 

“Existe uma ingenuidade talvez das organizações de acreditarem que elas conseguem moldar, forjar o contexto no qual elas atuam. Não é verdade. Na verdade, a força é sempre exógena, e cabe ao grupo de líderes entender isso e ter humildade para entender isso e desafiar suas próprias crenças e paradigmas, o que é bastante difícil” —- Daniel Motta, BMI

O processo de construção da cultura de uma empresa é coletivo e resultado da soma de como que as pessoas que fazem parte da organização pensam, agem, tomam decisões, gerenciam riscos e criam vínculos. Esse foi um dos temas do programa Mundo Corporativo, da CBN, que entrevistou Daniel Motta, CEO da BMI — Blue Management Institute, consultoria dedicada a estratégias e culturas de grandes corporações.

 

Ao longo da entrevista, o jornalista Mílton Jung também falou do resultado de pesquisa realizada pela BMI com 100 executivos que atuam em 71 empresas, no ano passado. Pela quinta edição seguida, o estudo avaliou a performance de CEOS e suas organizações.

 

Uma das constatações, destacada por Daniel Motta, se refere ao fato de esses líderes investirem a maior parte do seu tempo às questões internas da empresa: 52,3% da agenda do C-Levels são gastos com encontros gerais e tarefas operacionais e 22% com assuntos urgentes; somente 25,8% das tarefas estão dedicadas a ações com impacto no longo prazo. Além disso, passam quase dois terços da vida dentro do escritório.

 

Motta recomenda:

“Não olhar só para as questões internas, e a gente sabe que as agendas internas são bastante demandantes, mas se perguntar quanto do meu tempo — e aqui a gente fez uma pesquisa de alocação de tempo —- esta dedicado a algo diferente da minha rotina de gestão do dia a dia. Esse é um ponto fundamental que serve para qualquer tamanho de empresa, para qualquer tipo de controle”.

Mesmo tendo sido gravada antes do início da crise do coronavírus, a entrevista de Daniel Motta nos mostra que empresas com uma cultura sólida e diversificada, assim como com uma estratégia bem definida, tendem a enfrentar com maior firmeza momentos de enorme desafio como agora.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboram com o programa Gabriela Varella, Juliana Prado, Artur Ferreira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

A Moda perde espaço

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Em pé: Vera Fiori, Deise Sabbag, Maria Aparecida Saad, Eleny Kronka, Regina Di Marco e Cristine Yufon.
Sentado: Grazia Lodi, Margarete Abussamra, Meg Guida e Maria Helena Pena.

 

 

 

Há dias, visualizando a foto acima, em “Modos e Modas”,  do blog da jornalista Deise Sabbag, foi convidativo fazer uma reflexão a respeito do momento atual da Moda.

 

Para começar, tenho dúvida, se hoje teríamos esse contingente de fashionistas de mídia — mesmo porque não temos mais a quantidade de veículos especializados em moda aí representados — e  tal  qualidade de jornalistas e veículos de Moda. Em tempo: naquela época poderíamos ter mais um ou dois grupos como o retratado.

 

A busca da explicação pelo fato, menos por saudosismo e mais por preciosismo técnico, vale a pena, pois a perda de espaço da Moda tem trazido prejuízos econômicos, sociais e culturais.

A Moda evoluiu intensamente  na segunda metade do século passado, em termos de acompanhamento dos novos comportamentos dos consumidores, dos formatos de distribuição, na formação de profissionais de nível médio e superior, ficando aquém apenas na confecção, onde sempre encontrou regiões com mão de obra abaixo da linha de pobreza.

Entretanto, a transformação dos meios de comunicação e a disrupção nos veículos tradicionais, em conjunto com a proliferação de propostas distanciadas da qualidade mínima, convergindo com discursos do próprio meio da Moda louvando o “laissez faire”, desorganizou todo o sistema.
Se, na época da foto da Deise, alguém listasse as 10 principais fashionistas, não iria aparecer ninguém que não fosse expert em Moda. Faça isso hoje, no Google, buscando brasileiras —- vai aparecer pouca gente que, efetivamente, seja fashionista.

 

É bem verdade que na esfera internacional aparecerão assumidades como Chiara Ferragni, Anna Wintour, Anna Dello Russo, Kristina Bazan, Aime Song, Giovanna Battaglia e Christine Centenera. Porém, todas com o respaldo de revistas de moda de expressão, entre as quais a Vogue predomina.

Tecnicamente, a Moda é uma forma de comunicação e, como tal, possui uma linguagem, que serve para quem usa e para quem produz. E precisa ser apreendida. Afinal, seres com inteligência precisam usá-la para evoluir sempre, e o caminho é a aprendizagem. Isto vale para a música, para a gastronomia, para a arte, etc.

Na medida em que se propaga que nada disso importa e que a roupa é um mero apetrecho para não ficar nu, aí viramos todos neandertais. E passamos a agir como primatas da moda e do mundo. O que é confirmado pelos dados atuais.
Sob o aspecto econômico e sustentável, o vestuário polui mais que os aviões e os navios. O setor produz a enormidade de 2,4 trilhões de dólares, que corresponde a 3% do PIB mundial, que de acordo com o FMI, para 2020, será de 80 trilhões de dólares. E este PIB da Moda é maior que os PIBs do Brasil, Itália, Rússia, Canadá, Coreia, Espanha, México e Indonésia.

Desse imenso montante, 33% das roupas são usadas por apenas um ano, e a média mundial é usar cada peça sete vezes, onde 500 bilhões de dólares vão para o lixo.

Na questão do comportamento em que a chance de expressar a personalidade e o estilo através da roupa deveria ser bem aproveitada, estão acionando o modo errado, que é copiar ao invés de criar. Tanto de estilistas quanto de consumidores. Porque antes é preciso estudar Moda. Para pelo menos copiar certo. E divulgar.

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: a saudade que sentirei da cidade

 

Iêda Lima
Ouvinte da rádio CBN

 

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Iêda é autora de livro e nos visitou na CBN 

 

 

Pelos idos dos anos 1980, visitava São Paulo com frequência por razões profissionais. Um dia, de carona com um amigo do Metrô, disse que jamais moraria nesta “selva de pedras” — sem vida, poluída e engarrafada. Meu amigo, nascido carioca, porém paulistano até a alma, respondeu: “se eu fosse você não diria isto; um dia você poderá rever esse seu conceito, vir morar aqui e gostar.” Limitei-me a rir do seu comentário pelo absurdo que representava.

 

Passados 30 anos, após sair de Fortaleza e morar em Brasília e Campinas, o destino quis que eu me curvasse perante a realidade e viesse fixar residência nesta terra quatrocentona.

 

Pois bem, aqui eu descobri o Parque do Ibirapuera — que hoje chamo carinhosamente de meu Ibira —, conhecer o Horto Florestal, o Jardim Botânico, o Jardim do Museu do Ipiranga, o Parque Trianon, a Casa das Rosas, o Largo São Francisco, o Pateo do Colégio, o Largo do Arouche, o Parque Aclimação, o Parque Água Branca — e tantos outros lugares aconchegantes que provaram que eu estava errada ao apelidar a cidade de “selva de pedras”.

 

São Paulo foi conquistando um espaço no meu coração, competindo com minha terra natal, Campina Grande, na Paraíba. Fui ficando e, após oito anos, sinto-me tão paulistana quanto alguém que nasceu aqui.

 

Fiz amigos com quem nos encontramos regularmente para passeios ao ar livre ou para experimentar o melhor da gastronomia paulistana na companhia de bons vinhos, sob a condução do maior enófilo que já conheci.

 

Descobri espaços onde posso curtir o que há de melhor em arte cinematográfica no mundo, como a Reserva Cultural, os Espaços Itaú de Cinema e o Cinema Belas Artes. Fui apresentada à Casa do Bordado por uma amiga “japonesa”. Vez em quando, estou na Pinacoteca, no Museu da Língua Portuguesa, no Teatro Municipal, no MASP, no MIS, na Caixa Cultural e no CCBB.

 

Virei assinante da Orquestra Sinfônica de São Paulo — a OSESP, que me leva mensalmente, aos sábados à tarde, a apreciar a esplendorosa arquitetura da Estação da Luz e da Sala São Paulo, embalada pelos clássicos majestosamente interpretados por músicos que andam de ônibus.

 

Em dias de inverno com céu azul, saio por ai com minha câmera fotográfica, registrando os contrastes entre o novo e o velho da sua arquitetura e a diversidade que faz o povo paulistano.

 

No caminho para o Metrô — a minha principal opção de deslocamento pela qualidade do serviço —, aprecio as árvores, as flores e as pessoas que encontro no caminho, confirmando a profecia do meu amigo. São Paulo me fisgou!

 

Agora, que talvez tenha que retomar o caminho de volta, será que aguentarei a saudade!

 

Iêda Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Você é o melhor antídoto para o mau humor corporativo

 

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Uma das colunas do TweetDeck, aplicativo que uso para administrar minhas contas do Twitter, reúne todos as publicações que incluem a expressão “mundo corporativo”. É uma maneira simples de saber o que comentam sobre programa que apresento na rádio CBN e leva este nome, e ao mesmo tempo uma forma de identificar como as pessoas encaram o cenário corporativo.

 

Sei que indignados escrevem mais e mais alto, mas é surpreendente a quantidade de pessoas que reclamam do que fazem e onde fazem. “Nojento”, “mafiosos”, “decepções”e “não é o meu mundo” foram apenas algumas das palavras que encontrei em uma rápido olhar na coluna antes de escrever este texto.

 

Se este não é o meu mundo, qual será? Para viver temos de ter algum dinheiro no bolso, por menos que seja. E para ter esse dinheiro, é preciso produzir. E para produzir, trabalhar. Pode ser em casa, na garagem, na oficina, no consultório ou na casa de máquinas. Trabalhar é preciso. E cada vez mais e por mais tempo. Portanto, cabe a nós mudarmos este ambiente.

 

Lembrei-me deste assunto porque nesta última semana entrevistei dois caras que me ajudaram muito a pensar como é possível transformar este cenário, mesmo que não sejamos os donos da empresa ou um líder de departamento.

 

O primeiro deles foi do Dr. Esdras Guerreiro Vasconcellos, psicólogo que recebi no Mundo Corporativo e trouxe algumas ideias sobre como conviver com o estresse. Ele fala em convívio porque não há como nem se deve eliminá-lo. Sem o estresse não se produz nada; já a perda do controle dele, pode destruir tudo. Foi um dos alertas que fez.

 

Quanto as dificuldades que levam tantos funcionários a reclamar do seu trabalho e da sua empresa, uma frase de Vasconcellos que nos ajuda a pensar como somos fundamentais nesta transformação:

 

“Se você sabe que na segunda-feira vai enfrentar tais e tais problemas na empresa, e você ainda não tem uma solução para eles, pare um instante e cuide pelo menos de você”

 

(leia mais e assista a entrevista completa com Dr. Esdras Vasconcellos)

 

Outra entrevista que me ajudou a refletir sobre essa relação de ódio com o mundo corporativo foi a gravada, nesta terça-feira pela manhã, com João Paulo Pacífico, do Grupo Gaia, convidado da série de podcast CBN Professional. Ele é adepto da psicologia positiva e trouxe vários rituais que os 60 funcionários do grupo são incentivados a realizar.

 

A identificação de momentos de gratidão no seu cotidiano, a importância de trocas de sorrisos, o convite para que se espalhe gentileza e a necessidade de se celebrar cada passo à frente são movimentos marcados pela simplicidade, mas capazes de mexer com algo muitas vezes doloroso: a falta de motivação para fazer o que fazemos.

 

Pode parecer ingênuo diante da crueza com que as relações de trabalho são mantidas, mas no caso da Gaia a coisa está funcionando, convenceu-me Pacífico.

 

Com você, vai depender do seu desejo genuíno de mudar.

 

Nem sempre haverá condições de trocar de empresa ou cargo, mas sempre será possível trocar a sua disposição. Independentemente do chefe mala, do colega marrento, do salário pífio e do cliente que não olha no seu olho, comece essa transformação na sua atitude diante das tarefas marcadas e das pessoas com as quais se relaciona.

 

Afinal, o problema já está posto e não vai mudar porque você reclama dele.

 

Mude você!

 

PS: a entrevista com o João Paulo Pacífico estará disponível, em breve, na lista de podcast da CBN

Noel Rosa sabia mesmo das coisas

 

 

Os 80 anos da morte de Noel Rosa, lembrados em reportagem especial no Jornal da CBN, produzida pelo colega Gabriel Sabóia, desta quinta-feira (4/5), trouxeram à memória algumas das mais belas músicas produzidas pelo ‘Poeta da Vila’, que fez muito e fez bem, apesar de ter vivido pouco. Foram mais de 200 letras compostas com tom de poesia, em um dos maiores legados do samba brasileiro. A boemia e seus excessos, porém, deixaram-lhe doente, e de tuberculose Noel morreu aos 27 anos, no auge da carreira.

 

Gosto de uma música em especial, talvez sem a mesma fama de “Conversa de Botequim”, “Fita Amarela” e “Com Que Roupa?”, que levaram o samba para o rádio e até hoje tocam nas emissoras que dão preferência à qualidade. Gosto de “Seja Breve”, que teria sido gravada em 1932 e me foi apresentada por um ouvinte da CBN há cerca de cinco ou seis anos.

 

O ouvinte acabara de acompanhar uma entrevista que tentei fazer com um médico. Era coisa importante. O doutor havia publicado pesquisa em revista científica no exterior. Mestre da ciência, porém, exagerou nas explicações e em seis minutos de entrevista foi incapaz de descrever para mim e para o público o significado de seu trabalho. Era craque na saúde. Não tinha o mesmo desempenho na oratória.

 

Perdemos a oportunidade de esclarecer o assunto, mas ganhei um ‘causo’ para minhas palestras. Pelo Twitter, o caro ouvinte – lamentavelmente não guardei o nome dele – me sugeriu Noel Rosa e a letra a seguir:

 

Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(E não adianta)
Seja breve (conversa de teso)
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

 

A letra reforça a genialidade de Noel. Lá nos anos de 1930, ele já nos ensinava como nos comunicarmos de maneira eficiente nos tempos de agora em que o excesso de mensagem deixa tudo nebuloso e sem relevância.

Mais uma tarde nos museus

 

 

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“ComCiência” de Piccinini, no CCBB/RJ

 

 

Ainda inspirado em  “Uma tarde no museu” do meu colega e colaborador de blog, Carlos Magno Gibrail, me deparei com a reportagem publicada pelo site de O Globo, na qual estão listadas as dez exposições mais populares de 2016. Curiosamente, quatro estão aqui no Brasil, três no Rio de Janeiro e apenas uma delas em São Paulo. Os dados são do site The Art Newspaper e o ranking leva em consideração o número médio de visitantes por dia.

 

 

Foi o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, que ocupou o topo da lista ao receber as três exposições mais populares do ano, segundo critérios do ranking: “O triunfo da cor: o pós-impressionismo”, teve 9,7 mil visitantes por dia; “ComCiência”, de Patricia Piccinini, 8,34 mil; e “Castelo Rá-Tim-Bum”, 8,28 mil. Todas as mostras são de graça no CCBB.

 

 

São Paulo aparece em sexto lugar com a exposição “Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México”, montada no Instituto Tomie Ohtake, com média de 6,5 mil espectadores por dia.

 

 

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Tabela reproduzida do The Art Newspaper

 

 

Os números chamam atenção e devem ser comemorados, mesmo que se tenha de levar em consideração o fato de outras mostras pelo mundo terem levado muito mais pessoas às suas dependências , porém como ficaram abertas por mais tempo tiveram a média diária empurrada para baixo.

 

 

Exemplo: “Picasso Sculpture”, no Museu de Arte Moderna de Nova York, foi a exposição que, conforme o próprio ranking, recebeu o maior número total de visitantes, com 851 mil pessoas, apesar de aparecer apenas em nono lugar no ranking com 5,8 mil visitantes por dia.

 

 

Outro exemplo:  a mostra do “Castelo Rá-Tim-Bum” teve 410 mil espectadores durante os seis meses no MIS, em São Paulo, e 38,2 mil, no CCBB no Rio. Só os números do museu carioca aparecem com destaque na lista.

 

 

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Frida Kahlo foi destaque positivo em SP (foto divulgação)

 

A presença de turistas para os Jogos Olímpicos e o fato de ser a mais conhecida cidade brasileira no exterior colaboraram para que o Rio de Janeiro se destacasse no ranking. O protagonismo do CCBB,  sua localização privilegiada e ingressos de graça, também.  De qualquer forma, é importante pensar sobre os motivos que deixam São Paulo mais atrás nessa classificação, mesmo tendo um número relevante de museus e rico acervo artístico.

 

 

O esvaziamento do MAC SP, citado por Gibrail em seu texto aqui no Blog, é perceptível em outros espaços.  O MASP, mesmo diante da riqueza de suas obras, tornou-se irrelevante.

 

 

Para meu colega de rádio José Godoy, a quem pedi ajuda para refletir sobre o tema, “São Paulo passa por uma crise importante em seus principais museus”.

 

 

As salas vazias possivelmente ecoam o abandono da gestão e a falência do Estado. O mal do MASP pode ser visto também no Museu de Arte Moderna e na OCA, que tiveram passado glorioso  na cidade, mas estão cambaleando. Assim como a Pinacoteca que após conquistar o coração do paulistano tornou-se secundária.

 

 

A acessibilidade desses espaços, seja pelo transporte seja pelo preço, é fundamental para que se redescubra a riqueza das obras nos acervos à disposição. São Paulo ganha na cultura, na educação e na renda se investir no setor.

 

 

O turismo cultural é importante para o desenvolvimento econômico e não pode ser negligenciado. Explorar todo e o seu melhor potencial é preciso.

O que se espera é que o Ministério da Cultura seja realmente de todos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A reação dos artistas à incorporação do Ministério da Cultura ao da Educação teve  repercussão não prevista por Michel Temer e  equipe.

 

Além da primeira vitória ao conseguir o retorno como Ministério, os artistas obtiveram  posse diferenciada, pela extensa cobertura e concorrida solenidade do ato.

 

Marcelo Carelo ao assumir, ontem, o Ministério conseguiu holofotes de ponta à pasta da Cultura. E no ritmo de arte e festa, iniciado com citação à Aquarela do Brasil de Ary Barroso, prestou contas àqueles artistas que reagiram contra a medida inicial do novo governo, ao mesmo tempo que respondeu aos que os criticaram como aproveitadores:

 

“os artistas são trabalhadores que tecem os fios que desenvolvem a economia do País”.

 

É exatamente por esse caminho que gostaria de aproveitar e lembrar que como “trabalhadores” deveriam ser tanto eles, artistas, quanto as organizações, entidades e companhias que os empregam. E, consequentemente, seguir as regras de mercado.

 

No competitivo mundo das artes cênicas, plásticas, musicais, literárias etc é preciso ter competência técnica na essência do produto, mas também na operação. É preciso ter talento, mas também a qualificação organizacional, necessária quando se oferta serviços e produtos. É o que popularmente se diz: não basta inspiração; a transpiração é fundamental.

 

Não vejo por que um tratamento de espécime dependente. No passado, sem nenhum apoio governamental, tivemos gênios musicais, literários, teatrais etc … Não concordo com Caetano Veloso, que protestou veementemente contra a medida atual, pois ele teve seus grandes momentos artísticos quando havia repressão. Naquela época apoio e financiamento nem pensar.

 

Apenas acredito na razão de Caetano quando diz :

 

“O MinC é nosso. É uma conquista do estado brasileiro, não é de nenhum governo”

 

Não é de nenhum governo nem de nenhum grupo de artistas privilegiados.

 

É o que esperamos!

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Mundo Corporativo: Artur Bezerra, do Berlitz Brasil, fale de cultura e aprendizado de línguas estrangeiras

“( ….) antigamente o conteúdo era rei. Hoje, se diz que se o conteúdo é rei, o contexto é Deus. Você tem de entender o contexto onde o aluno está inserido, a corporação está inserida. Então, ele precisa do inglês porque é um executivo? Qual a área funcional dele – a área comercial? Como é que ele vai executar as funções do dia a dia? Negociar com quais culturas?”. A afirmação é de Artur Bezerra, presidente do Berlitz Brasil, ao defender a ideia de que para falar outras línguas, não basta conhecer o idioma. Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no Mundo Corporativo, da rádio CBN, Bezerra tratou das estratégias na preparação de executivos e lideranças, atém de apontar as principais barreiras para o aprendizado de línguas estrangeiras.

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, quartas-feiras, 11 horas, no site cbn.com.br. Os ouvintes-internautas participam com perguntas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. Colaboraram com este quadro Paulo Rodolfo, Douglas Matos e Débora Gonçalves.