Mundo Corporativo: Maurício Adade, da DSM, diz como investimento em nutrição tem reduzido impacto ambiental na pecuária

 

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“Não existe espaço hoje para nenhuma corporação se esconder atrás de vitrines de sustentabilidade. Tem que atuar. E sustentabilidade é um ótimo negócio”.

Maurício Adade, DSM

O segundo e o mais danoso gás emitido no Brasil é o metano. Boa parte — enorme parte — é emitida pelo arroto do boi. Cerca de 72% das emissões de metano vêm da agropecuária, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Remoções de Gases de Efeito Estufa. Se há um desafio para o Brasil alcançar as metas que assumiu na Conferência do Clima (COP-26), eis aí um dos maiores: reduzir a emissão de metano no campo, especialmente pela importância deste setor na economia.

Uma das soluções é o investimento na ciência, na pesquisa. E a nossa conversa no Mundo Corporativo ESG traz um pedaço dessa história que está sendo construída. Entrevistamos Maurício Adade, presidente da DSM América Latina, uma empresa global que surgiu há 150 anos e, atualmente, trabalha com nutrição humana e animal ou, como a própria se define, uma empresa de saúde, nutrição e biociência:

“Nós somos os maiores produtores, por exemplo, de vitaminas do mundo isso faz com que a gente atue no campo de nutrição animal e humana com ingredientes e soluções para os nossos parceiros estratégicos, parceiros comerciais  … e temos um negócio também que está relacionado com cosméticos”.

A marca DSM é pouco conhecida do público em geral. Não está na gôndola do supermercado nem na plataforma de comércio eletrônico. Mas está na margarina da mesa do café da manhã, no omelete e no cafezinho de cada dia. É, também, uma das líderes mundiais no fornecimento de vitaminas para a indústria de cuidados pessoais e cosméticos, estando entre as  principais indústrias em princípios ativos para emulsificantes, filtros UV e cuidado com a pele.

Dito isso, voltemos ao arroto do boi, que abriu a nossa conversa. De acordo com Maurício Adade, a DSM criou um aditivo para ração de vacas, ovelhas e cabras, com o qual é possível reduzir as emissões de metano. O cálculo que Adade faz é que se essa solução alimentar um milhão de animais seria o equivalente a plantar 45 milhões de árvores.

“Em setembro do ano passado, para orgulho nosso, o Brasil foi o primeiro país a registrar essa solução que chama Bovaer, uma solução que reduz pelo menos em 30% do gás metano em gado de leite e no gado de corte chegamos até 90% de redução de emissão de gás metano. E é uma solução muito simples, totalmente segura, ela foi aprovada recentemente pela comissão europeia, agora em fevereiro, e é muito simples”.

Simplicidade é algo que Adade dá sinais de gostar muito. Em meio a entrevista, quando pedi para que ele nos oferecesse outros exemplos de ações relacionadas ao tema da sustentabilidade, o CEO disse o seguinte:

“Eu gosto de coisa simples, porque complexidade normalmente gera custo e algum tipo de problema”.

Deixo a frase aqui registrada como sugestão para quando você estiver falando com outras pessoas ou pensando em soluções na área em que atua: seja simples!

De volta a entrevista.

Além do desenvolvimento de produtos para parceiros de negócio, pautados pelo tripé ESG, a DSM também investe em economia de baixo carbono internamente. Por exemplo, toda vez que surge a ideia da criação de uma nova fábrica ou nova linha de produtos, inclui-se no cálculo a pegada de carbono, usando como preço básico da tonelada o valor de 150 euros. Segundo Adade, sugestões que aparentemente eram boas deixaram de ser consideradas porque a pegada de carbono era muito grande.

Outro parâmetro dentro da economia de baixo carbono: toda inovação proposta têm de ter pegada de carbono menor do que a da tecnologia que será substituída.

Na área da diversidade e inclusão, Adade destaca o programa de combate a desnutrição que se inicia em pequenas regiões do Paraná e próximo de Lima, no Peru. A DSM oferece transferência de tecnologia e conhecimento para pequenos e microfazendeiros, capacitando-os a produzir ovos, que são usados na alimentação própria e para a venda. 

“Nós já conseguimos produzir oito milhões de ovos e esses ovos têm sido consumidos. Estamos fazendo agora um estudo de impacto nutricional. O que isso tem representado nessas pequenas comunidades. E a nossa ambição é ter, quando esse piloto estiver realmente consolidado, uma diminuição de pelo menos uns 30% da desnutrição na América Latina”.

Assista à entrevista completa do Mundo Corporativo ESG com Maurício Adade, CEO da DSM na América Latina:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Mundo Corporativo: para Roberto Lunardelli, da Fazenda da Mata, ESG se planta com ‘prosperidade compartilhada’

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“Esse é o nosso caminho, né? O nosso grande desejo é esse. É trilhar um novo capitalismo. Um capitalismo muito mais consciente que traz oportunidade para todos” 

Roberto Lunardelli, Fazenda da Mata

Você já ouviu falar em “quebra”? Certamente já, mas talvez não com esse conceito que vou tratar na abertura deste texto para explicar como têm de ser corajoso e idealista o pequeno produtor disposto a ter negócios sustentáveis em todas as dimensões. “Quebra” é como os grandes mercados chamam todos aqueles produtos que estão no estoque e não são vendidos, geralmente porque não estão dentro dos parâmetros considerados ideais, e pelos quais os fornecedores são ressarcidos por valores bem abaixo do negociado (descontos de cerca de 60%). A regra nem sempre é muito clara para o produtor, até porque sabe-se que, parte daquilo que foi considerado “quebra”, segue à venda na gôndola, e sem desconto para o cliente.

Foi contra medidas como essa que o pessoal do Fazenda da Mata decidiu se rebelar e se reinventar, focando outros mercados, especialmente lá fora, e não aceitando negociação a qualquer custo. Por pessoal, estamos nos referindo a Daniella e Roberto Lunardelli, casal fundador da fazenda dedicada a produtos orgânicos, que iniciou o projeto em terras que mantinham na região de Goiânia. No Mundo Corporativo ESG, entrevistamos Roberto que falou da inspiração que tiveram quando trocaram São Paulo por Goiás:

“Logo no início, planejamos a empresa em alguns alicerces básicos. Seria uma empresa que pudesse produzir alimentos íntegros — lógico, orgânicos — a preços acessíveis a todos. E para isso nós tivemos que fazer uma produção em grande escala e preços acessíveis com disponibilidade de produtos de alta qualidade o ano todo”

Dos 400 hectares de terras que tinham à disposição, metade é preservada; a outra é dedicada a plantação dos orgânicos. Para ampliar a capacidade de negócios, se aproximaram de agricultores familiares assentados da reforma agrária, o que abriu para estes a possibilidade de levar seus produtos ao exterior. Para garantir ao mercado que as práticas usadas estão de acordo com as regras internacionais de sustentabilidade, buscaram certificação no Sistema B, a partir de um processo, bastante complexo e minucioso, que identifica se a empresa tem modelo de negócio que visa o desenvolvimento social e ambiental de comunidades e trabalha em soluções para problemas climáticos e ambientais.  

Após a frustração com as negociações feitas com os grandes compradores do país, a Fazenda da Mata entendeu que o tema da sustentabilidade era muito mais desafiador e exigia decisões assertivas. Roberto recorreu, então, a experiência da época em que era executivo de terno e gravata, em terras paulistas, e atuava com comércio exterior para encontrar parceiros lá fora. Segundo ele, especialmente na Europa, no Canadá, nos Estados Unidos e na China, antes de negociarem preços, as empresas querem saber, por exemplo, qual o nível de desmatamento na sua área, quais são os impactos relacionados ao meio ambiente ou quais as ações sociais que você promove:

“Lógico que eles vão sempre buscar a comprar com preços competitivos. Lógico que eles sempre vão buscar a melhor qualidade possível. Essa questão é negocial. Eles não vão fugir disso, mas há uma preocupação muito mais alinhada com uma agenda ESG”.

Na mudança de estratégia, a Fazenda da Mata deixou de entregar orgânicos para 80 pontos de vendas em redes de varejo no Brasil. Hoje, existe um parceiro nacional, em uma rede de mercados que tem quatro lojas, em Brasília, todas abastecidas por um programa batizado Frutos da Mata, graças aquele acordo com os assentados:

“Nós trabalhamos num formato semelhante a cooperativa, onde há um equilíbrio de ganhos. Os assentados são os produtores e nós entramos com uma estrutura que faz toda a gestão comercial, financeira, contábil, logística, etc. É uma alegria enorme dar a oportunidade a esses assentados que produzem com uma qualidade espetacular; e nós conseguimos dar acesso a um mercado que, em outras condições, talvez eles não teriam”. 

Roberto diz que o resultado deste trabalho tem atraído o interesse de gestores no desenvolvimento de politicas públicas que permitam a ampliação dos negócios das famílias de pequenos agricultores, e está sintonizado com o lema da Fazenda: prosperidade compartilhada.

“Você faz negócios com empresas preocupadas com o meio ambiente, preocupadas com questões mais humanizadas, e isso te dá uma um retorno, uma satisfação maravilhosa de você saber que você tá lidando com pessoas que tenham uma preocupação com relação ao impacto ao legado que você vai deixar para o planeta”

Assista à entrevista completa com Roberto Lunadelli, da Fazenda da Mata, ao Mundo Corporativo ESG

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: pesquisa da Grant Thornton mostra que apenas 8% das empresas divulgam metas de ESG, segundo Adriana Moura

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“Não é mais uma questão de boas práticas, não é mais uma questão é desejável, é uma questão de sobrevivência. Precisamos todos nós fazermos as nossas partes enquanto pessoas, enquanto profissionais, e as empresas estão sendo desafiadas a ter uma maior responsabilidade corporativa”. 

Adriana Moura, Grant Thornton Brasil 

 

As empresas ainda não estão estruturadas para avançar em todos os pilares ESG nem para divulgar os dados de sustentabilidade de maneira a conquistar a confiança de investidores. Essa é uma das conclusões de auditores e consultores da Grant Thornton Brasil após estudo que avaliou as práticas e relatórios de sustentabilidade de 328 empresas de capital aberto. De acordo com a Adriana Moura, líder de governança, riscos e compliance da auditoria, a ideia foi analisar tanto a quantidade quanto a qualidade dos dados divulgados.

No Mundo Corporativo ESG, Adriana disse que pouco menos da metade das empresas pesquisadas divulgaram o relatório anual de sustentabilidade (48%), mas o  que mais chamou atenção foi o fato de apenas 8% desse material ter sido auditado ou revisado por entidades independentes.:

“Isso tem direta relação com a credibilidade que tem esses relatórios. Só para você ter uma ideia da importância dessa questão de credibilidade de uma auditoria por empresa independente: a CVM publicou uma resolução que, a partir deste ano, se as empresas optarem por utilizar um relatório integrado elas têm a obrigatoriedade de submeter esses relatórios a um auditor independente”.

No estudo, vê-se que os temas materiais são divulgados por 31% das empresas em seus relatórios ESG, porém apenas 8% informaram as metas relacionadas a esses temas, com destaque para setores de energia, transporte e saneamento. Diante disso, como saber se o caminho traçado pelas empresas está sendo percorrido na velocidade que planejaram?

“Esse é o questionamento que nós nos fazemos, quando a gente se debruça num resultado de um estudo onde as empresas afirmam o interesse e as iniciativas, publicam que existem iniciativas, que financiam essas iniciativas. Mas por outro lado não determinam metas claras e objetivas em relação as ODS. 35% da nossa amostra se compromete com um ou mais objetivo de desenvolvimento sustentável, porém a gente se questiona: sem as metas, sem as informações específicas, sem quais são os itens materiais, como essas empresas conseguem realmente aderir a esses objetivos, a essas ODS”.

A pauta “trabalho decente e crescimento econômico”  está no topo da lista dos objetivos de desenvolvimento sustentável propostas pela maioria das empresas que tiveram seus dados consultados pela Grant Thornton Brasil . Seguida de “ação contra mudança global do clima” (26%) e “indústria, inovação e infraestrutura”, (25%). 

“Estamos numa fase inicial, mas crescente. Acredito que se fizermos esse estudo no próximo ano, daqui a dois anos, os resultados serão bem diferentes no sentido positivo. Então, é um desafio de todos nós e, especialmente, de nós consultores e auditores que temos aí uma missão em em apoiar nossos clientes dessa jornada”. 

Assista ao Mundo Corporativo ESG com Adriana Moura, da Grant Thorton Brasil:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Leandro Melnick, da Even, diz como construir a ideia de sustentabilidade no canteiro de obras

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“Não é que a gente investe, a gente atua de forma sustentável, porque a gente entende que é o melhor formato. Não somos uma empresa muito preocupada com essa visão do quanto vai ser o retorno para cada projeto; nós olhamos de forma mais amplificada o resultado”

Leandro Melnick, Even

Mão de obra intensa, grande número de fornecedores e um volume considerável de resíduos são apenas alguns dos muitos desafios que o setor de incorporação e construção tem diante das demandas da pauta ESG. No caso de Leandro Melnick, entrevistado do Mundo Corporativo, uma peculiaridade se expressa nessa lista: equilibrar-se na governança de duas empresas que atuam no mesmo segmento e com participação mútua na sociedade. Leandro é CEO da Melnick, criada pelo pai dele, no Rio Grande do Sul, e da paulista Even, com quem fechou sociedade, em 2008. 

“Em um  mercado tão supervisionado e analisado, com vários bancos e entidades que cobrem as empresas de capital aberto, esse assunto tinha que ser muito transparente. Então, a gente foi exaustivo, fomos vigilantes no processo de transparência de relatórios, de comitês de apoio e de governança para dar segurança. E isso foi muito bem aceito por todos os stakeholders, o que deu muita tranquilidade para a empresa seguir o trabalho”.

Outra característica destacada por Leandro, que deve ser consideradas nas boas práticas de sustentabilidade, é o fato de as incorporadoras trabalharem com produtos de vida longa — conforme a qualidade, apartamentos e casas podem durar além dos 50 anos. Ou seja, não basta implantar sistemas que reduzam o consumo de energia ou o volume de resíduos durante a construção, é importante pensar na eficiência energética do ambiente, na arquitetura sustentável e no tipo de material a ser usado, entre outros aspectos.

A política de gestão de resíduos da Even promove o total aproveitamento da madeira que sobra nas obras, que é separada em contêineres  exclusivos, que são coletados por cooperativas, que limpam essa madeira e a fornecem para a indústria novamente para fazer, por exemplo, compensados. De acordo com o relatório de sustentabilidade da construtora e incorporadora, 98% dos resíduos gerados nas obras são reaproveitados de diversas formas. Desse total, 20% entram no ciclo da logística reversa, como é o caso da sucata  oriunda dos blocos de concreto e de cerâmica e das estruturas metálicas:

“Quando ela (a fornecedora do material) vai fazer o fornecimento de uma nova carga, ela traz para sua origem toda a sucata, todo o material que foi gerado por essa mesma industria “.

Leandro Melnick disse que ao longo dos dez anos em que essa estratégia está sendo usada, a Even conseguiu devolver ao mercado 46 toneladas de sucatas de resíduos metálicos, 100 toneladas de blocos de concreto, cinco toneladas da embalagem de papelão das cerâmicas e 15 toneladas de embalagens plásticas.

Na relação com os colaboradores, um dos objetivos é ampliar a diversidade de gênero em um setor com intensa mão de obra masculina.  Atualmente, no escritório e na gestão das obras, já existem 40% das vagas de escritório ocupadas por mulheres e 39% nas obras. Leandro destaca ainda os projetos na área da educação que oferecem ensino básico para todas as pessoas que trabalham no canteiro de obra; cursos técnicos, pelos quais já passaram cerca de 600 profissionais que começam como serventes; e a oportunidade de os colaboradores atuarem na área de voluntariado, onde aplicam o conhecimento desenvolvido dentro da empresa.

“Já temos a adesão de 26% dos nossos profissionais que participam em mutirões para reformar uma escola, para moradias populares e para dar aulas em entidades”.

Para Leandro, o investimento em ESG aumenta o engajamento dos funcionários que tendem a oferecer novas ideias para a evolução do tema no canteiro de obras e nas unidades habitacionais entregues. Uma consciência que é levada para além dos tapumes, construindo uma consciência coletiva que impactará de forma positiva as pessoas que esses colaboradores são capazes de alcançar.

Assista à entrevista completa com Leonardo Melnick, CEO da Even incorporadora e construtora, ao Mundo Corporativo ESG:

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no Canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às dez da noite e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Maurício Salton fala de como harmonizar o vinho de qualidade com as práticas ESG

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“A gente evita trabalhar com aquelas soluções de curtíssimo prazo que eventualmente não são sustentáveis. Então, basicamente a gente olha para medidas que são corretas mas que elas fundamentam uma mudança, que elas são estruturantes”

Maurício Salton, Família Salton

A história começa na Itália, onde nasceu Antonio Domenico Salton, mas foi escrita no Brasil, quando os filhos decidiram profissionalizar a produção de vinho que o patriarca havia iniciado de maneira informal —- como era comum entre os imigrantes que trocaram a terra natal pela terra brasilis. Desde 1910, a Família Salton expandiu seus negócios, em especial no sul do país, e mais de um século depois é considerada uma das principais vinícolas brasileiras.

Por si só, a longevidade alcançada pelo grupo nos remeteria a ideia de sustentabilidade que marca as pautas da série especial do Mundo Corporativo ESG, que chega ao seu nono episódio. A Salton, porém, foi parar no centro da nossa conversa porque, além de ser centenária, decidiu ser pioneira no setor vitivinícola ao elaborar o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul (UCS), divulgado recentemente. Para Maurício Salton, diretor-presidente da empresa, a iniciativa está em sintonia com a preocupação do grupo com a governança ambiental, social e corporativa:

“A gente tem dentro da nossa estrutura de empresa propósitos bem definidos nesse aspecto, que conversa muito com o ESG. Nós elencamos  esse trabalho como um trabalho protagonista para essa estratégia”.

As quatro unidades da Salton foram escrutinadas pelos pesquisadores: duas delas no Rio Grande do Sul  — Bento Gonçalves e Santana do Livramento — e duas em São Paulo — em Jarinu e na capital. No inventário, foram considerados nesta primeira etapa do projeto emissões de atividades agrícolas, processos industriais, gerações de resíduos e compra de energia elétrica. A vinícola identificou a emissão de 950,54 toneladas de CO²; em contrapartida, devido as práticas implantadas, foram removidas 15.786,91 de toneladas de CO². Ou seja, ao puxar o traço, o resultado foi positivo em 14.836,38 toneladas.

“Esse primeiro escopo de trabalho acabou sendo bastante representativo para a empresa. Trouxe já alguma luz de melhorias que a gente poderia executar, e a gente tem feito isso. Ele traz essa visão então preliminar dessa trajetória da empresa que no nosso entendimento é uma trajetória de médio e longo prazo” 

Dos projetos que a Salton pretende desenvolver, a partir do levantamento realizado, Maurício destacou o que tem como conceito a economia circular, transformando parte dos resíduos que a empresa gera em um composto que substituirá a lenha e oferecerá potencial calorífico às caldeiras das unidades fabris. 

Em outra ação em parceria com universidades, agora com a Federal de Santa Maria, a Salton fez um mapeamento ambiental do Bioma Pampa, onde se tem a Campanha Gaúcha, área fronteiriça com o Uruguai, que atualmente é a segunda maior produtora de uvas do Brasil, atrás apenas da Serra Gaúcha. Com esse projeto, foi possível desenvolver técnicas sustentáveis no manejo vitícola, ajudando a preservar a área e não criando atividades que pudessem competir ou prejudicar o bioma:

“Na nossa propriedade em Santana do Livramento, fizemos uma ação para entender algumas vegetações, algumas culturas que a gente poderia utilizar nos nossos vinhedos para que a gente mantivesse esse equilíbrio. Isso foi muito interessante porque a gente também teve uma redução de utilização de herbicidas” 

A vitivicultura é a cultura que menor impacto ambiental gera no Bioma Pampa, segundo informa a própria Salton. Nos estudos desenvolvidos com as universidades conclui-se que os vinhedos mantém o equilíbrio natural do Bioma Pampa por se tornam sumidouros de carbono, ou seja, absorvem CO2 da atmosfera e contribuem diretamente para preservação da fauna e flora local, evitando impactos no efeito estufa.

“Um negócio hoje precisa ter um equilíbrio muito forte. A gente não pode priorizar elementos que são voltados especialmente para a questão econômica, deixando outras frações que são importantes para o crescimento da empresa e para uma sustentação do negócio no que diz respeito à nossa postura no aspecto social, no aspecto ambiental, no aspecto de governança.”

Assista à entrevista completa com Maurício Salton, diretor-presidente da Família Salton, ao Mundo Corporativo ESG:

Colaboram com o programa Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Mundo Corporativo: Rodrigo de Aquino fala de bem-estar e felicidade na estratégia ESG

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“Grande desafio é a gente conseguir fazer com que os líderes eles abracem esse novo pensamento e levem em cascata para os seus departamentos, para a diretorias pra gerências para a gente conseguir construir novas gerações capazes de terem esse comportamento mais humano e feliz”  

Rodrigo de Aquino, comunicólogo

Transformar o ‘ganhar, ganhar e ganhar’ em “ganha-ganha-ganha” é bem mais do que um jogo de palavras, é uma transformação cultural que a empresa precisa encarar para se tornar sustentável, oferecendo a oportunidade para que as relações de negócios sejam baseadas em valores humanos. E se é de humanidade que estamos falando, é preciso trazer para a discussão interna nas empresas os temas da felicidade e do bem-estar que são tão necessários quanto complexos; tão complexos quanto subjetivos.

No Mundo Corporativo ESG, Rodrigo de Aquino, comunicólogo, consultor e fundador do Instituto DignaMente, destacou que um dos pilares da felicidade é o estudo das virtudes, onde encontramos o caminho do meio com mais Justiça, Sabedoria e Temperança: 

“E aí, onde é que moram as virtudes na filosofia? Elas têm morada na Ética. Então, quando eu tenho uma conduta ética, quando eu tenho uma conduta mais digna, eu acabo gerando relações mais positivas e eu tenho um impacto diretamente na governança e, obviamente, eu também tenho um impacto no meio ambiente. Então, esse é o primeiro ponto que a gente pode trazer para falar sobre essa relação entre felicidade e o ESG”.

Assim que o Rodrigo trouxe esse olhar para a nossa conversa, a primeira coisa que me veio à mente foram as reclamações frequentes de colaboradores e funcionários das mais diversas empresas com a maneira com que os relacionamentos se dão no ambiente profissional — ou isso não acontece aí na sua empresa?  Você é uma pessoa de sorte! De maneira geral, há muitas queixas aos processos e formas impostos na realização do trabalho, mesmo naquelas organizações que dizem estar comprometidas com a governança ambiental, social e corporativa. Para quem se apresenta ao mercado como uma empresa dedicada às práticas ESG, não pautar o tema da felicidade e o bem-estar é abdicar de parcela da responsabilidade que assumiu. 

“A gente vive nesse mundo tão polarizado, entre o bem e o mal, o positivo e o negativo que, às vezes, não tem esse momento de respirar olhar e falar assim: ‘deixa eu entender qual é o caminho do meio‘. A gente começa a pensar em em uma palavra que está muito em voga que é a empatia. Como que eu consigo parar e olhar a realidade do outro, calçar o sapato do outro, antes de eu sair metralhando verdades, antes de eu sair cuspindo impropérios”. 

No esforço de olhar a vida pela ótica do outro, descobre-se que muitos dos nossos comportamentos — às vezes, bem intencionados — são prejudiciais ao crescimento dos nossos parceiros de negócio e colaboradores. Ao trazer esse ponto para a nossa conversa, Rodrigo lembra frase clássica de Peter Druker, papa da administração e gestão moderna: “a cultura come a estratégia no café da manhã“. Ou seja, as práticas criadas para tornar a empresa mais humanas são inúteis diante dos padrões culturais enraizados na organização, diante do comportamento dos líderes, dos valores éticos e morais que pautam as decisões e dos métodos de trabalho impostos aos funcionários.

Um exemplo são as empresas que para combater o excesso de trabalho criam mecanismos que desconectam da rede corporativa o computador do colaborador  nos horários fora de expediente ou desligam as luzes da sede ao fim deste expediente. Se os processos internos não mudarem e a pressão excessiva por entregas e resultados for mantida, em breve, os funcionários estarão encontrando formas de burlar essas barreiras, porque sabem que o estresse pela cobrança será maior.

Das formas para substituir o círculo vicioso em círculo virtuoso nas relações de trabalho e de negócios, Rodrigo sugere que se comece por entender a jornada do empregado dentro da empresa e se identifique os pontos de tensão e atrito, atuando diretamente neles com pequenas mudanças que —- assim como uma pedra jogada dentro de um lago — podem ganhar uma enorme dimensão. 

Investir na comunicação é fundamental, também. A começar por criar canais de escuta e incentivar os funcionários a falarem o que sentem e precisam, sem barreiras hierárquicas; oferecendo segurança para que hajam assim, sem medo de represálias. A informação sobre as práticas implantadas também têm de circular e ser absorvida por todos, sob o risco  de haver constrangimentos que prejudiquem qualquer política de bem-estar. Um exemplo usado por Rodrigo é o das empresas que decidem criar ações afirmativas para incentivar a diversidade, mas se esquecem de investir no letramento de seus colaboradores para colocar todos na mesma sintonia. 

Sobre medida que precisam ser trabalhadas internamente nas corporações, Rodrigo de Aquino faz um alerta:

“Cada organização tem um conjunto de pessoas diferentes que precisam então de soluções diferentes. A gente tem que tomar muito cuidado com coisas de prateleira: ‘vamos tentar reproduzir em série essas ações’. Porque cada pessoa é uma pessoa. Quando a gente fala de felicidade e bem-estar é um conceito subjetivo e isso, quando eu coloco para uma organização, também preciso pensar na subjetividade desses conceitos”.

Assista à entrevista completa com Rodrigo de Aquino ao Mundo Corporativo ESG.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no YouTube e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às dez da noite, e fica disponível em podcast.

Mundo Corporativo: Marcella Ungaretti, da XP, diz que a agenda ESG reflete no valor da empresa

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“…talvez a primeira coisa que nos vêm em mente seja um pouco dos desafios que as companhias eventualmente possam ter nessa agenda, mas a grande verdade é que também tem muita oportunidade a ser capturada por essas companhias que estão bem posicionadas”. 

Marcella Ungaretti, XP Investimento

Impactada com a tragédia causada pelo rompimento de uma barragem da empresa Samarco, em Mariana MG, em 2015, a então estudante Marcella Ungaretti foi a campo para entender o preço que empresas envolvidas em crises ambientais pagam —- especialmente, ter resposta para a pergunta que veio à sua mente: quanto tempo essas empresas levam para se recuperar? 

“Noventa dias para mais”, foi o que descobriu ao pesquisar uma série de casos ocorridos nas mais diversas partes do mundo. Há situações ainda mais drásticas em que essa recuperação tende a não acontecer, como nos contou no Mundo Corporativo ESG. Formada em Administração de Empresas pela FEA-USP e vencedora do prêmio Ruy Leme de Excelência Acadêmica da USP, Marcella atualmente é sócia da XP Investimentos e ocupa o cargo de ‘head de research ESG” — ou seja, é responsável por analisar o compromisso das empresas com a pauta da sustentabilidade:

“Esse estudo conclui que a agenda ambiental, social e de governança não anda em separado da agenda financeira da companhia. Muitas pessoas tendem a ver a temática ESG como uma coisa, a temática de investimento como outra. Não! Na nossa percepção, aqui, na XP é que a companhia é uma só e, consequentemente, as ações que tiver no que tange o meio ambiente, a sociedade e a governança vão refletir diretamente nos resultados e no valor de mercado dela, no quanto que ela vale”.

Em entrevista à CBN, Marcella destacou que as empresas estão conscientes da relevância do tema ESG, mesmo que muitas ainda não tenham encontrado o melhor caminho da sustentabilidade. Para ela, essa é uma agenda que já passou do ponto de “não retorno”. As empresas que não olharem para essa questão provavelmente ficarão para trás, perderão mercado e serão desvalorizadas. 

“O mercado de capitais no Brasil tem evoluído de forma significativa, de forma que a gente tem mais players atuando no mesmo mercado, e isso significa para o consumidor uma opção de escolha, e nessa nessa decisão de escolha, a geração mais recente traz cada vez mais os critérios socioambientais como parte desse processo”

Marcella identificou três razões que tornam a agenda ESG fundamental para as empresas: há um interesse maior de investidores e de cidadãos de uma maneira geral; há uma regulação que vai exigir cada vez mais que essas regras sejam cumpridas; e, finalmente, o retorno que se tem no mercado tem sido alto. A partir disso, se impõe um desafio às empresas:

“Parece simples pelo fato de serem três letras, mas a grande verdade é que é tanto no E, na questão ambiental, isso se desdobra em uma série de fatores; no S a gente sempre diz que tem uma agenda interna, mas também uma agenda externa; e há a  frente de governança que é de extrema importância … A abrangência dessa temática se coloca como um desafio”.

Um segundo desafio às empresas, identificado pela executiva da XP Investimento, é a divulgação das companhias das ações adotadas e resultados obtidos nos relatórios enviados aos investidores. Apenas 24% das bolas de valores no mundo impõem a divulgação de relatórios de sustentabilidade — na B3, em São Paulo, por exemplo, a publicação desses dados não é obrigatória.

“… consequentemente parte das empresas brasileiras ainda não tem esse documento público; ao mesmo tempo que, por parte do investidor, a demanda por esse documento é bastante clara. A gente fica menos tangível para o investidor poder ter qualquer compreensão de como essa companhia está evoluindo nessa agenda”. 

Assista ao vídeo completo da entrevista do Mundo Corporativo ESG com Marcella Ungaretti, da XP Investimentos:

O Mundo Corporativo tem a colaboração do Renato Barcellos, do Bruno Teixeira, da Débora Gonçalves e do Rafael Furugen. O programa é gravado às quartas-feiras, às 11 horas, e pode ser assistido pelo canal da CBN no Youtube.

Mundo Corporativo: Edison Carlos, do Instituto Aegea, defende que empresas de saneamento têm de ir além de seu serviço para atender à demanda ESG

Foto: Prolagos/Divulgação

“Nós não queremos só cumprir com os nossos contratos, mas, de forma, também, ambientalmente correta e, também, com critérios de governança muito fortes” 

Edison Carlos, Instituto Aegea

Sem saneamento básico, as cidades não se desenvolvem, a saúde das pessoas é precária e a qualidade de vida é fortemente impactada. Investir no tratamento da água e do esgoto tem sido fundamental para que o ambiente urbano se torne um espaço mais generoso com o cidadão. Diante desse cenário, empresas que atuam no setor já estariam, por sua própria finalidade, colaborando para um crescimento mais sustentável. Porém, apenas isso não é suficiente para que atendam as demandas da pauta de governança ambiental, social e corporativa.

Edison Carlos, do Instituto Aegea, em entrevista ao Mundo Corporativo ESG, demonstrou ter clareza desse desafio, a ponto de, ao assumir o cargo de presidente da instituição, ter decidido ampliar o campo de atuação da organização que comanda. Se no início, o instituto tinha como foco as ações de responsabilidade social, a partir da sua chegada passou a cuidar de toda a área de sustentabilidade:

“A gente não quer só entregar água em esgotamento sanitário no menor prazo possível, na melhor tarifa que a população possa pagar. A gente quer ir além. A gente quer desenvolver projetos sociais de melhoria da renda, melhoria da educação, melhoria da saúde, que são os pilares do IDH da cidade. A gente quer desenvolver projetos ambientais que melhorem o dia a dia daquela cidade”.

A Aegea é líder no setor privado de saneamento básico no Brasil, está em 154 cidades, e oferece água potável, coleta e tratamento de esgoto há mais de 21 milhões de pessoas. Para uma empresa que tem como missão melhorar a vida de cerca de 10% da população brasileira, chama atenção que recorra a imagem de um minúsculo cavalo-marinho para explicar os resultados que tem alcançado. Ilustração que se justifica nas palavras de Edison Carlos:

“Quando a gente chegou na Lagoa de Arauama, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, há alguns anos, as condições eram péssimas por conta do lançamento de esgoto. Hoje, ao ver cavalos-marinhos retornando naquela área, um animal muito sensível às condições do oceano, isso mostra como é como é bom, como é saudável, como a gente fica feliz de ver o resultado na prática”.

Ver esse mesmo resultado na Baía de Guanabara é um dos desafios que a empresa enfrenta nesse momento, segundo o presidente do instituto. Para recuperar as áreas em que a Aegea atua serão investidos, nos próximos cinco anos, cerca de R$ 3 bilhões na construção de coletores para bloquear o esgoto.

De acordo com Edison Carlos, a governança social se destaca com ações de impacto interno e externo da empresa. Do lado de fora, são mais de 100 mil famílias ou 400 mil pessoas beneficiadas com a tarifa social — número que excede em muito o que está previsto nos contratos assinados pela empresa para explorar o serviço de saneamento nas cidades.

“A gente verifica que  se tem essa possibilidade de encaixar faixas de renda menores na tarifa social, melhor, porque essas pessoas vão ser ‘ fiscais da companhia’. Elas vão olhar se está tendo vazamento de água naquela comunidade, se estourou uma determinado cano …eles informam muito mais a gente. Quanto mais a sociedade está bem atendida, mas eles funcionam a favor do serviço”. 

Internamente, o Instituto Aegea promove programas de diversidade que incentivam a equidade racial e de gênero nos cargos de liderança. Edison Carlos ressalta que para essas ações terem êxito, é importante o comprometimento do comando da empresa, essencial para que os demais colaboradores se engajem nas iniciativas. 

“Não tem um Planeta B. Ou seja, não temos um Plano B de Planeta. O que a gente, então, tem de fazer é entregar o melhor para as próximas gerações, não só como executivos, profissionais, mas como cidadãos, também, esses pilares têm de estar incorporados no nosso dia  a dia”

Na entrevista ao Mundo Corporativo ESG, Edison Carlos também chamou atenção para os cuidados que as empresas devem ter para que as iniciativas de gestão ambiental, social e corporativa passem a fazer parte da cultura da organização. E explicou como funciona essa estratégia de comunicação na Aegea.

Assista à entrevista completa de Edison Carlos, do Instituto Aegea, ao programa Mundo Corporativo ESG:

O Mundo Corporativo tem as participações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: João Paulo Figueira, da Special Dog, ensina como fazer uma transformação cultural em empresas que não têm o ESG no DNA

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“Inovação é premissa para sustentabilidade” 

João Paulo Figueira, Special Dog Company

A sustentabilidade está no DNA da empresa. Quantas vezes, você já ouviu essa frase? Dezenas? Talvez, centenas de vezes! A ideia é convencer as pessoas de que a empresa nasceu predestinada a atuar dentro das normas que pautam a governança ambiental, social e corporativa — mesmo que nem sempre a afirmativa expresse a verdade. De tão comum na fala de presidentes, CEOs e gestores, quando algum líder começa a entrevista dizendo o inverso disso, ficamos surpresos. Foi o que aconteceu na conversa com João Paulo Figueira, gerente de desenvolvimento sustentável na Special Dog Company, no quinto episódio do Mundo Corporativo ESG:

“A Special Dog Company vem de uma trajetória de 21 anos e se eu falasse aqui que a sustentabilidade está no DNA da Special Dog, eu estaria mentindo”.

João Paulo disse que a ideia de sustentabilidade foi sendo construída ao longo do tempo. Em 2014, por exemplo, a empresa entendeu que a gestão voltada para o lucro e rentabilidade faria sentido se esta fosse um meio para se conquistar algo maior, se estivesse pautada na responsabilidade socioambiental, na mitigação do impacto ambiental e no aprofundamento de uma relação mais harmoniosa com as pessoas e o planeta. Um ano depois, foi criado o departamento de desenvolvimento sustentável, liderado por ele com a proposta de impulsionar uma transformação cultural no grupo, que nasceu há duas décadas na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo:

“Inicialmente (transformação cultural) do nosso público interno, dos nossos colaboradores, mas com o passar dos anos isso foi extrapolando os muros da empresa e chegando até a nossa cadeia de valor, fornecedores, clientes, a nossa comunidade”. 

Foi em 2017, que o ESG passou a fazer parte da estratégia de negócio da Special Dog, com as intenções e ações ocorrendo de forma transversal, ou seja, com cada gestor e líder assumindo a responsabilidade de incluir atitudes sustentáveis em suas áreas e ‘cascateando’ isso para todos os públicos que estão ao seu alcance.

Zootecnista por formação, tendo migrado para a área de sustentabilidade após nove anos atuando dentro de sua especialidade na Special Dog, João Paulo identifica dois movimentos que exemplificam o compromisso assumido pela empresa na agenda ESG. 

Um deles é a redução do uso da água nos seus processos e a consequente resiliência hídrica, causada por essa mudança. Até 2020, a gestão hídrica era vista de forma parcial, com o consumo de água atrelado ao volume de produção; agora, a empresa passou a olhar o consumo de água de forma absoluta, o que permite que se identifique o impacto real provocado na bacia hídrica e se tenha metas mais apropriadas para se alcançar redução no consumo de água. 

“Nós queremos aumentar em 60% o uso de fontes alternativas de água até 2025 e reduzir em 50% o uso de água potável, até 2030”.

O outro projeto destacado por João Paulo, batizado de “igual para igual”,  tem como foco a diversidade e a inclusão:

“Estamos no estágio inicial para a equidade de gênero. Assumimos um  compromisso público com a Rede Brasil do Pacto Global de avançar com o número de mulheres em cargos de alta liderança até 30%, em 2025. Nós estávamos, em 2019, com 18%, ja chegamos a 23,3%, e esperamos atingir 25% ainda este ano”.

Uma indústria voltada para a fabricação de alimentos PETs não poderia deixar de atuar em frentes que beneficiam os animais de estimação. Um dos programas desenvolvidos dentro da agenda ESG é o ‘Doe Amor’, em que a Special Dog incentiva, através de serviços de comunicação, cerca de 3 mil médicos veterinários e púbico em geral a levarem seus cães e gatos a doarem sangue, beneficiando cerca de 60 instituições, tais como hemocentros e bancos de sangue.

Já falei parágrafos acima que João Paulo é zootecnista por ‘nascença’ e gestor de sustentabilidade por ‘vivença’. A trajetória profissional dele, é motivo de inspiração para outros profissionais que estejam, neste momento, prospectando o mercado de trabalho e identificando oportunidades de emprego que o tema ESG, cada vez mais presente nas empresas, possa gerar:

“O guarda-chuva de sustentabilidade ou ESG, ele é muito amplo, então é um conhecimento genérico que é importante de entender todas as interfaces, de conhecimento, mas sem dúvida nenhuma é necessário trazer foco e priorização ao trabalho. Ter um conhecimento amplo, mas focar naquilo que tem mais sinergia com o negócio da empresa”.

Assista à entrevista de João Paulo Figueira, gerente de desenvolvimento sustentável na Special Dog Company e tutor de dois cães, a Belinha e a Pandora — das quais mantém ‘guarda compartilhada’ com a esposa e as filhas.

O Mundo Corporativo tem a colaboração do Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. O programa vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às dez da noite, em horário alternativo; e a qualquer momento em podcast.

Mundo Corporativo: “empresas sustentáveis, são mais rentáveis:”, diz Fabio Alperowitch, da Fama, pioneiro na agenda ESG

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“Muitas empresas acham que mudar o logotipo no mês de junho para um arco-íris ou se posicionar em relação a um ou outro tema, já seja o suficiente. Quando na verdade, a gente está longe disso. Então, vejo muito bons exemplos, sim; mas ainda muito circunscritos a determinadas empresas”.

Fabio Alperowitch, Fama Investimentos

O que sua empresa estava fazendo em 1993? Sustentabilidade já era assunto na roda de conversa da diretoria? As ações, produtos e serviços consideravam o impacto que causavam no meio-ambiente? Ok, ok! Você pode dizer que naquela época — se é que a sua empresa já existia —- ainda era “tudo mato” no que se refere ao tema da preservação, escassez de recursos e responsabilidade ambiental, social e corporativa. Não dá pra negar, porém, que muita gente já estava preocupada com o futuro do planeta.,

Para refrescar a sua memória, o país acabara de sair da Eco 92, a primeira  Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que reuniu 178 chefes de governo, uma quantidade incrível de estudiosos e curiosos, divulgou pesquisas e metodologias de preservação e teve uma cobertura jornalística internacional —- ou seja, todos nós havíamos sido alertados de forma contundente sobre o que se avizinhava, os perigos que estávamos causando ao planeta, a necessidade de revisão no modo de produção e os impactos na qualidade de vida (na nossa qualidade de vida). Quem teve ouvido e coração, entendeu o recado.

Fabio Alperowitch e mais 19 amigos, parece, foram sensibilizados por esse debate. Em 1993, com cada um colocando sobre a mesa US$ 500, formaram um fundo de investimento para ser gerenciado por ele e Mauricio Levi, que tinham acabado de fundar a Fama Investimentos. Quando os dois criaram a empresa, assinaram um compromisso com 10 mandamentos, dentre os quais, o de não investir em empresas que ferissem seus princípios.

“Eu acho que a gente precisa desconstruir a imagem de que o ESG seja algo novo. Os fundamentos e pilares do ESG já existem há muito tempo. A primeira vez que foi utilizada a palavra sustentabilidade, e de uma maneira formal, foi no século XVIII, mas o mundo corporativo e o mercado financeiros tiveram muito distantes dessa pauta até muito pouco tempo”.

Na entrevista ao programa Mundo Corporativo ESG, Fabio Alperowitch revelou uma certa ambiguidade de sentimentos diante do assunto da governança ambiental, social e corporativa. Assim como revela entusiasmo pela trabalho que desenvolve — até hoje, se mantém à frente da Fama, fiel a seus princípios e promotor da causa —, também se faz reticente quanto ao envolvimento das empresas no assunto:

“No Brasil, ainda predomina uma dicotomia falaciosa de que empresas e investidores entendem que existem dois caminhos antagônicos, no sentido de, ou você é responsável ou você é rentável — o que não é verdadeiro. É exatamente o contrário: as empresas mais rentáveis, também são as mais responsáveis. Então, o caminho da responsabilidade traz também rentabilidade”.

Não dá para negar que o envolvimento das empresas na agenda ESG —- pelo amor ou pela dor — aumentou. Os números da Fama mostram isso: hoje R$ 2,8 bilhões estão sob gestão num fundo de ações, em que apenas empresas que passam pela rigidez dos critérios de governança são aceitas. Ainda é pouco e a maioria do aporte financeiro que está no fundo vem do exterior, de investidores que confiam na seleção de ativos feita pelos gestores. A despeito desse interesse, nem sempre genuíno, Alperowitch lamenta a pouca evolução alcançada:

“Os grandes indicadores ambientais e sociais, apesar de tudo que a gente tem ouvido sobre ESG, não estão melhorando … e os poucos que melhoram são a passos bastante tímidos. O mundo não está emitindo menos gases de efeito estufa; a diversidade está melhorando de forma muito periférica; a gente não está reduzindo a desigualdade social;  não está melhorando o nível de acidentes do trabalho”

Aos que ainda não perceberam que o mundo mudou e as exigências e necessidades são outras —- sendo a gestão sustentável em todas as suas dimensões o único caminho viável —-, Alperowitch alerta para a transformação que está por vir com a chegada da Geração Z no mercado de consumo. Há tendência de uma redução e uma revisão na maneira de consumir, com compras sendo feitas baseadas nos valores que pautam esses jovens:

“Ela (Geração Z) não vai comprar produtos de empresas que estejam na cadeia do desmatamento ou que, na sua cadeia de suprimentos, tenham empresas que violam direitos humanos, como trabalho análogo à escravidão ou trabalho infantil; ou que façam testes em animais e, assim, excessivamente; ou que sejam de combustíveis fósseis”. 

Ao não olhar de maneira estratégica e de longo prazo, as empresas também perderão em engajamento e produtividade, diz Alperowitch. Colaboradores de talento serão desperdiçados, porque não estão interessados apenas no salário que cai na conta. Querem saber se a empresa é antirracista, se combate a homofobia, se investe na diversidade e se está lutando contra os efeitos da mudança climática. Para ilustrar essa verdade, recomenda-se que se olhe com carinho para estudo desenvolvido por  Robert Eccler, ex-professor da Universidade de Harvard, que aos 70 anos é uma referência mundial no tema. Ao analisar por 18 anos, 180 empresas de 90 subsetores da economia, nos Estados Unidos, a conclusão foi de que as empresas sustentáveis tiveram performance muito melhor do que as outras:

“Esse estudo foi feito entre 1993 e 2009 quando não se falava em ESG, não se precificava as externalidades, por exemplo as empresas não tinham que pagar a taxa de carbono, a Geração Z ainda não existia e etc. Então, eventualmente se a gente repetir esse mesmo estudo daqui pra frente, eu imagino que o resultado seja ainda mais favorável para as empresas responsáveis”.

Antes de você assistir ao vídeo com a entrevista completa do Fabio Alperowitch, no Mundo Corporativo ESG: você lembra onde estava sua empresa em 1993? Eu, já estava por aqui, em São Paulo; trabalhava na TV Cultura e, por curiosidade, a pauta da sustentabilidade era frequente em especial pelo trabalho do conceito de jornalismo público que desenvolvíamos na redação. E, sim, naquela época não falávamos de ESG ainda.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas, 11 horas da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da CBN. Colaboram com o programa: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Vinícius Passarelli.