Mantenha o foco, sem perder a ternura!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

 

Permita-me começar esse texto apresentando três situações: você está indo da sala para a cozinha e quando chega lá percebe que não se recorda o que foi fazer; está trabalhando online e quando se dá conta tem várias janelas abertas no computador e se vê entretido com um produto em promoção e esquece a tabela que estava fazendo para entregar para o seu chefe; se propõe a arrumar o seu armário, encontra umas fotos antigas, começa a vê-las… e o armário? Puxa! A hora passou depressa e você percebe que não dá mais tempo para arrumá-lo.

Alguma dessas situações lhe parece familiar?

Se essas experiências não ocorrem com frequência e não causam prejuízos significativos no dia a dia, como no trabalho ou nos estudos, na maioria das vezes não indicam uma falha no funcionamento cerebral, apenas uma dificuldade esporádica da memória de trabalho.

A memória de trabalho refere-se à capacidade de reter informações que serão usadas em ações que estão em curso ou que acontecerão num futuro próximo, mantendo essa informação enquanto ela é útil. Isso acontece, por exemplo, enquanto você lê esse texto. Você não memoriza cada uma das palavras na ordem que estão escritas, como uma lista de palavras que deva decorar, mas armazena cada uma delas até chegar ao fim da frase, de modo que consiga compreender o sentido do texto.

A memória de trabalho não se limita ao armazenamento temporário de informações; também envolve o controle atencional, como manter o foco numa tarefa e inibição do comportamento. 

Para a maioria das pessoas, as falhas na memória de trabalho serão casuais, podendo ser decorrentes do aumento do estresse, ansiedade ou uso de bebidas alcóolicas, e não caracterizam um problema persistente. Entretanto, prejuízos na memória de trabalho podem estar associados a algumas condições clínicas, como esquizofrenia, síndromes demenciais e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

O Transtorno de Déficit Atencional com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com início na infância, caracterizado por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade. 

A desatenção e desorganização envolvem, entre outras coisas, a dificuldade de prestar atenção a detalhes, cometer erros por descuido, iniciar tarefas e não concluir, dificuldades no manejo do tempo, relutância em atividades que exijam esforço mental prolongado e esquecimentos relacionados a atividades cotidianas. 

A hiperatividade e impulsividade envolvem, por exemplo, dificuldades em permanecer sentado, remexer ou batucar mãos e pés, inquietude, responder antes que uma pergunta tenha sido concluída e dificuldades para aguardar sua vez, como numa fila.

Diversos estudos têm sido publicados mostrando os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, indicando um aumento da irritabilidade, da desatenção e agitação, independentemente da faixa etária, exigindo desafios que podem ser mais acentuados para os que têm TDAH.

Crianças e adolescentes com TDAH parecem mais vulneráveis ao confinamento, possivelmente pelas dificuldades no estabelecimento de rotina, organização e conclusão das tarefas, com tendência à procrastinação.

Adolescentes mais ansiosos, entediados ou apáticos, podem apresentar alterações comportamentais, aumentando a probabilidade de conflitos familiares, como as brigas. 

Quando olhamos para esse cenário, percebemos que mesmo adultos que não apresentam TDAH, em decorrência do isolamento social e das mudanças provocadas pela COVID-19, também têm experimentado sintomas semelhantes, seja na capacidade atencional, na memória de trabalho ou nos comportamentos, mais ansiosos ou com aumento da irritabilidade.

Se por um lado corremos o risco de patologizar todas as características cognitivas ou comportamentais apresentadas na pandemia, por outro lado, corremos o risco de negligenciar sintomas que podem sugerir condições clínicas que demandam tratamento especializado. Na dúvida, uma avaliação médica ou psicológica deve ser feita. Porém, se algumas falhas forem corriqueiras e não trouxerem maiores prejuízos, talvez seja o momento de aproveitar aquela liquidação — numa das muitas abas abertas no seu computador — ou resgatar boas memórias naquelas fotos que você encontrou!  

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O desafio de alinhavar retalhos de coração e mente rasgados por traumas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

 

“Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la”

Rabindranath Tagore

 

O filme “Reine sobre mim” (2007) conta as dificuldades de Charlie Fineman para lidar com a dor após a morte da mulher, filhas e cachorro no atentando de 11 de setembro de 2001. Charlie abandona a carreira de dentista, se torna recluso e apavorado com a possibilidade de encontrar qualquer pessoa que o faça lembrar de sua família. Com um quadro grave de depressão, Charlie tenta se matar e como não encontra as balas do revólver, vai para a rua para criar uma confusão com policiais, na esperança que eles o matem e acabem com sua dor. 

Diversos filmes abordam situações de intenso sofrimento, semelhantes às de Charlie Fineman, com experiências traumáticas envolvendo violência sexual, desastres naturais, acidentes ou guerras.

Se a obra cinematográfica é capaz de representar a dimensão do sofrimento humano, a realidade, infelizmente, não é diferente e reflete o que acontece com inúmeras pessoas que sofrem por terem sido vítimas, terem presenciado ou tido conhecimento de situações traumáticas que colocaram em risco a vida ou a integridade física de si ou de outros.

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica caracterizada pelo surgimento de alguns sintomas após a exposição a um evento traumático que cause medo intenso, impotência ou terror, envolvendo ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual.

Nessa condição, a pessoa apresenta uma tendência a reviver constantemente o trauma, na forma de lembranças persistentes, involuntárias, intrusivas e pesadelos; e a se sentir ou agir como se o trauma estivesse acontecendo novamente. Em geral, a pessoa evita atividades, pessoas e lugares que lembrem o acontecimento traumático, mantendo-se mais isolada. Dificuldades para dormir, irritabilidade, inquietude, hipervigilância e dificuldades de concentração também são frequentes.

A prevalência do TEPT está estimada entre 1% e 3% na população geral, podendo atingir níveis mais elevados em populações de risco, como combatentes de guerra.

Em alguns países, o TEPT está mais associado a desastres naturais — terremotos ou furacões, guerras ou atentados terroristas. No Brasil, no entanto, a violência urbana — agressões e estupro — tem sido apontada como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático.

Segundo dados do Ministério Público do Paraná, em 2018, o Brasil registrou pelo menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Além das consequências, físicas, emocionais e comportamentais, crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual podem apresentar diversos quadros psicopatológicos, sendo o TEPT o transtorno mais prevalente nessas situações.

Em decorrência da pandemia de COVID-19 e dos agentes estressores envolvidos nessa situação, tais como risco de morte e isolamento social, diversos estudos têm sido desenvolvidos para avaliar um possível aumento na prevalência do TEPT.

Uma pesquisa realizada na Itália apontou que 1 em cada 5 pessoas tem apresentado sintomas de TEPT associada à pandemia. Na China, um estudo comparou crianças mantidas em quarentena com outras que não foram colocadas em quarentena e identificou 4 vezes mais sintomas de TEPT nas que ficaram em quarentena. O aumento dos sintomas de TEPT também tem sido verificado em profissionais de saúde, possivelmente pelos riscos de contaminação, medo de contaminar familiares, perdas de colegas e o número elevado de óbitos.

Ainda não se sabe exatamente por que um evento traumático pode desencadear o TEPT em uma pessoa e não causar nenhum sintoma em outra, mas alguns fatores de risco para essa condição envolvem características individuais: transtorno mental prévio, fatores genéticos, personalidade; bem como características do evento em si e características ambientais, como apoio familiar e social.

Dentre os fatores de proteção para a saúde mental, a resiliência —  capacidade de reagir ao estresse de maneira saudável — tem sido apontada como uma condição capaz de minimizar o impacto de eventos traumáticos e, portanto, reduzir os sintomas de TEPT. 

Situações traumáticas causam sofrimento e dor que de tão imensos parecem não caber em uma vida. E muitas vezes não cabem. Adoecem.

Penso nos meus colegas psicólogos e nos psiquiatras… escolhemos profissões que permitem o atendimento de quem sofre com TEPT. Desejamos aliviar as dores, construir novas possibilidades, auxiliar a superação de um trauma.

Penso nos pacientes… vidas impactadas, com rumos tão duramente modificados e o desejo de ter sua dor abrandada.

Penso nos versos de Cora Coralina…

“Às vezes o coração rasgado pela dor vira retalho”.

Permito-me parafrasear e finalizo: tomara a gente possa ser a linha capaz de costurá-lo, juntando pedacinhos, suficientes para superar a dor e permitir o recomeço.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Giovanni Cerri, do HC, fala de inteligência artificial e oportunidades para startups na saúde

 

“A saúde é o mercado que mais cresce e que a população mais necessita, então existem grandes oportunidades tanto na área de saúde pública como na área de saúde privada para desenvolver startups e desenvolver soluções; ‘w por isso que nós temos percebido grande interesse de investidores e grande interesse de empreendedores” — Giovanni Cerri 

Uma plataforma que reúne dados de pacientes com Covid-19 e será estendida para centralização das informações de pessoas em busca de atendimento hospitalar. O avanço sem volta do uso da telemedicina para consultas médicas. E a melhoria da gestão hospitalar com o uso da inteligência artificial. Essas são algumas das transformações digitais que o setor de saúde assistiu desde o início da pandemia, de acordo com o médico Giovanni Guido Cerri, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da CBN.

Giovanni Cerri é presidente do Conselho Diretor do Instituto de Radiologia (InRad), de São Paulo, e presidente da Comissão de Inovação (InovaHC) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele conta que ainda antes da crise sanitária que paralisou boa parte das atividades no mundo, já era possível identificar interesse das instituições de saúde em abrir as portas para startups e empreendedores que acreditam na inovação:

“O HC é muito complexo e por isso nós chamamos os empreendedores da área da saúde para traze soluções para esse problemas do dia a dia: comunicação do paciente, o monitoramento, o usoda a inteligência artificial — tudo isso ajuda a dar mais acesso ao cidadão, melhora a jornada do paciente, ajuda a indústria nacional e reduz o Custo Brasil na saúde”

O Distrito InovaHC, por exemplo, é um hub de inovação que reúne pessoas, empresas e ideias que levam ao desenvolvimento de produtos e serviços, baseados na tecnologia, para criar, testar e expor soluções de saúde. De acordo com Guilherme Cerri, em um ano cerca de 120 conexões foram realizadas entre empreendedores, aceleradores e organizações da área de saude:

“A introdução da tecnologia no sistema de saude é um grande desafio .. É muito importante criar a cultura do empreendedorismo”

Experiência desenvolvida a partir da pandemia foi a plataforma RadVid-19 de inteligência artificial para diagnóstico da Covid-19 que tem ajudado médios e instituições de saúde a otimizarem diagnóstico e tratamento contra a doença. A solução foi criada pelo Instituto de Radiologia da USP e pelo InovaHC que informam ter havido, desde sua criação, mais de 28 mil acessos e foram cadastrados mais de 14 mil exames de imagens enviados por radiologogistas de 12 estados, com média de 70% de resultados positivos para a Covid-19”

“Tecnologia da transformação digital democratiza e facilita muito o acesso à saúde e torna o custo muito menor”

As oportunidade para empreendedores e startups se expandem com a criação de centros de inovação anexados a instituições de saúde, que podem ser usados como laboratórios para se testar e ideias  e soluções. Além disso, esse trabalho compartilhado permite acesso a aceleradoras e investidores.

“Nós temos que estimular o desenvolvimento de soluções de tecnologia customizados ao mercado brasileiro, que vai permitir um acesso maior e um custo menor, eu acho que isso vai fazer a grande trabsformacao da saude no país”

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às dez da noite, em horário alternativo. O programa está disponível, também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Izabela Ares, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e da Débora Gonçalves.

As mulheres e a pandemia: desafios que ultrapassam a luta contra o vírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

Foto: Pixabay

 

Em março de 2020, após a Organização Mundial de Saúde declarar como pandemia a doença causada pelo SARS-COV-2, a COVID-19, diversos países determinaram o isolamento social ou o “lockdown” como forma de reduzir a transmissão do vírus.

Isso causou uma modificação significativa na vida cotidiana, como restrições à mobilidade, impossibilidade de sair de casa para estudar ou trabalhar, perdas financeiras e redução do convívio social mais amplo. Possivelmente em decorrência desses fatores, as preocupações com a saúde física foram somadas à crise psicossocial, causada em grande parte pelo aumento dos transtornos mentais e da violência contra a mulher.

Relatórios policiais indicam que durante a pandemia as ligações para solicitar ajuda em decorrência da violência doméstica aumentaram em diferentes países, como na Argentina, Canadá, França, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Além disso, diversos estudos apontam que muitas vezes a mulher não solicita ou não reporta o ocorrido, especialmente quando a violência sofrida é psicológica. Como fator de agravamento, o controle do uso de redes sociais ou de acesso aos telefones e celulares também dificulta o pedido de ajuda, caracterizando a violência tecnológica.

Dados da província de Hubei na China, epicentro inicial da epidemia de coronavírus, mostraram que a violência doméstica havia triplicado em fevereiro de 2020, durante o lockdown. 

Na França, o período de isolamento social iniciou-se em 17 de março e em menos de um mês as denúncias feitas à polícia já mostravam um aumento de 30% nos índices de violência doméstica.

No Brasil, dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostraram um aumento de 3,8% no número de ligações efetuadas para o telefone de emergência da Polícia Militar relacionadas à violência doméstica e um aumento de 1,9% dos casos de feminicídio no primeiro semestre de 2020. Entretanto, houve uma redução no registro de outros crimes, como lesão corporal dolosa ou ameaça contra vítimas do sexo feminino, possivelmente pela dificuldade enfrentada pela mulher, durante o isolamento social,  para registrar o ocorrido, corroborando os dados encontrados em outros países. 

Um estudo realizado com 751 mulheres na Tunísia, durante o lockdown, identificou um aumento na violência contra a mulher de 4,4% para 14,8%, sendo o abuso psicológico o tipo de violência mais frequente, presente em 96% dos casos relatados. As mulheres que já tinham um histórico de doenças mentais e sofreram violência durante o lockdown apresentaram sintomas mais graves de depressão, ansiedade e estresse.

Dados sobre prevalência de transtornos mentais indicam que a ansiedade e a depressão acontecem com maior frequência nas mulheres do que nos homens. As causas dessa diferença não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que isso resulte da interação entre fatores biológicos, como alterações hormonais, e fatores psicossociais.

Se por um lado existem fatores biológicos que aumentam a vulnerabilidade da mulher para os transtornos mentais, por outro, mulheres que são vítimas de abuso e violência apresentam um risco maior para depressão e suicídio, alertando sobre os efeitos nocivos de estressores ambientais para a saúde mental. 

A literatura sobre violência contra a mulher aponta que em todas as situações de crise, como guerras, desastres naturais ou epidemias graves, independentemente do país, a violência doméstica tende a aumentar. Na época do furacão Katrina, que atingiu os Estados Unidos em 2009, a ocorrência de violência física sofrida pelas mulheres quase dobrou (passando de 4,2% para 8,3%). Na Nova Zelândia, durante o fim de semana após o terremoto de 2010, a polícia relatou um aumento de 50% nas ligações sobre violência doméstica. Após o desastre de Fukushima, a violência física contra mulheres grávidas foi quatro vezes maior do que em outras regiões japonesas durante o mesmo período. 

O desemprego, problemas financeiros, dificuldades da vítima para buscar ajuda e o uso de álcool e drogas são apontados como fatores de risco para aumento da violência doméstica.

Um estudo realizado em 2014 por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo em parceria com a Universidade Federal de Pelotas, com 938 mulheres na cidade de Vitória (ES), mostrou que quando seus parceiros usavam drogas ou álcool, elas ficavam mais vulneráveis à violência doméstica.

Com ou sem álcool, a violência masculina muitas vezes é aceita como um comportamento “normal” em situações de crise, como se a resposta agressiva contra a mulher fosse consequência natural de um momento de raiva ou sofrimento pessoal. Por outro lado, nessas situações, as mulheres são acusadas de reações exageradas ou o seu pedido de ajuda é simplesmente ignorado.

A violência contra a mulher é um fenômeno social complexo cuja questão central se concentra na desigualdade de poder nas relações, caracterizadas por subordinação, medo, dependência e intimidação para a mulher. Os comportamentos agressivos dirigidos à mulher têm a intenção de dominar o seu corpo, mente, vontade e liberdade, provocando danos físicos, morais e psicológicos.

Não se pode afirmar que a violência contra a mulher seja consequência direta da pandemia de COVID-19, mas há uma consequência da pandemia na saúde pública, causada pela intensificação desse tipo de violência, historicamente estruturada e muitas vezes silenciada, agravada pelo distanciamento social.

A violência contra a mulher não escolhe cultura, etnia, religião, classe ou escolaridade, mas a possibilidade de acesso à justiça e aos serviços de saúde pode ser diferente e promover desfechos também diferentes de uma mulher para outra. Triste realidade.  A impunidade aumenta o risco de feminicídio. A impunidade do agressor aumenta o sofrimento psicológico na vítima, com graves consequências para a sua saúde mental.

Enquanto alguns países se preparam para o fim do isolamento social, outros reiniciam o processo de lockdown pelo aumento de novos casos. A pandemia de COVID-19 continua exigindo medidas de prevenção: contra o vírus invisível, imperceptível; mas também contra comportamentos que não podem mais ser aceitos, que causam danos terríveis às vítimas.  A violência contra a mulher faz adoecer e pode ser fatal,  porém medidas de prevenção também podem ser adotadas e, assim como na pandemia, exigem atitudes de todos, numa ação conjunta, que se mostre capaz de promover o respeito e a igualdade de direitos.

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A Saúde Mental pede socorro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

O dia Mundial da Saúde Mental é celebrado no dia 10 de outubro, e tem se consagrado por ser uma data marcada por alertas e preocupações. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental —- a maioria não tem acesso a tratamentos. Em países de baixa renda, cerca de 75% das pessoas que têm um transtorno mental não recebem nenhum tipo de tratamento. 

Além da falta de investimentos públicos, outro fator que impacta diretamente o acesso ao tratamento é a desinformação, sustentada pela forma histórica como as doenças mentais foram tratadas ao longo dos anos, favorecendo atitudes preconceituosas e discriminatórias.

No Brasil, até meados do século XIX a doença mental era objeto da justiça. Os pacientes psiquiátricos violentos iam para as prisões e os mais pacíficos vagavam pelas ruas, sem tratamento. Em função de mudanças que aconteceram em outras partes do mundo, as Santas Casas de Misericórdia começaram a admitir esses pacientes, porém, por serem numerosos, não foram mantidos por muito tempo. Em seguida, alguns hospitais psiquiátricos foram construídos, os Hospícios, para onde os pacientes eram levados e permaneciam isolados do convívio social. 

Somente após a década de 80, o surgimento de novos medicamentos permitiu que pacientes que permaneciam em internações por longos períodos pudessem ser tratados de maneira ambulatorial. Somando-se a isso, a mobilização de profissionais de saúde e de familiares de pessoas com transtornos mentais denunciando as péssimas condições da maioria dos hospitais e os maus tratos sofridos, como violências e torturas aos pacientes, permitiram o crescimento dos movimentos antimanicomiais, levando ao fechamento dos grandes hospitais psiquiátricos. 

O avanço da ciência favoreceu que muitas crenças associadas ao paciente psiquiátrico fossem revistas, porém, não impediu que ainda hoje estigmas e preconceitos estejam presentes.

Se em outras doenças os tratamentos são preconizados e seguidos, para as  doenças psiquiátricas há uma tendência coletiva de desvalorização dos sintomas, ainda associados a alterações do comportamento que envolvem escolhas pessoais e tentativas terapêuticas não comprovadas cientificamente. 

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Diversas ações podem ser adotadas na direção de promoção e prevenção em saúde mental. Dentre essas ações destacam-se políticas públicas que promovam melhoria das condições socioeconômicas da população, redução dos níveis de desemprego, incentivo à escolaridade, redução da violência e habitação segura; fatores apontados como os principais riscos à saúde mental de adultos.  

 A educação sobre os transtornos mentais também compreende promoção e prevenção em saúde mental, uma vez que a divulgação de informações em escolas, empresas, comunidades e mídias pode aumentar a identificação dos primeiros sinais da doença, permitindo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. 

Falar sobre transtornos mentais não aumenta a sua incidência e tende a reduzir significativamente os números supracitados associados à falta de tratamento. Buscar ajuda pode mudar o curso da doença, reduzindo a sua cronicidade, além de promover uma vida mais equilibrada e saudável, com menos sofrimento para os pacientes e seus familiares.

Demoramos muitos séculos para compreender que a saúde mental não é prêmio nem privilégio, não é escolha nem castigo. A união dos avanços terapêuticos às políticas públicas adotadas não nos permite mudar a história já construída, mas escrevê-la daqui por diante, com ações planejadas que mudem não apenas os números, mas a vida de tantas pessoas.  

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: seis dicas de embalagens para atender o cliente, na pandemia

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“Embalagens são um veículo importante — não o único, claro — para apoiar o consumidor nesse momento difícil”, Cecília Russo

A preocupação com os riscos de contaminação devido a Covid-19 levou o consumidor a ficar mais atento às embalagens usadas nos produtos que compram, especialmente no comércio eletrônico. Para entender esse novo comportamento, a Narita Strategic Design, tradicional empresa do mercado brasileiro, que tem seu foco na identificação visual das marcas e embalagens, desenvolveu estudo exploratório que envolveu entrevistas em profundidade com consumidores.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília Russo chamou atenção para a relevância deste trabalho diante do protagonismo das embalagens na relação da marca com seu cliente: 

“As  embalagens são pontos importantes de contato das marcas com seus consumidores. E estamos em um momento em que muitas pessoas querem evitar contato com o outro”.

Jaime Troiano e Cecília Russo destacaram seis pontos do levantamento feito pela Narita, alguns que já vinham se expressando mesmo antes da pandemia e outros que surgem agora para se tornarem permanentes:

  1. Cores e logo sempre foram importantes indicadores de reconhecimento das marcas mas nas compras online eles se tornam ainda mais relevantes. A Narita sugere cuidado com o branco, que pode ser bom para o ponto de venda físico mas “morre” no digital, confundindo-se com o fundo da tela;
  2. Imagens que demonstram como é o produto dentro da embalagem são bem-vindas. Consumidores querem “transparência” de diversas formas e essas imagens ajudam a trazer esse sentido. Nessa mesma linha, menos informações e menos texto — mais leitura e mais agilidade para entender o produto.  Uma referência é a estratégia da marca Mãe Terra que ilustra suas embalagens, por exemplo, com metade da imagem de um batata doce in natura e a outra metade como são os chips que a pessoa vai encontrar na embalagem.
  3. O uso do selo que garante 99,99% de eficácia no combate as bactérias não surte mais o efeito esperado, pois caiu no lugar-comum. Transmitem a imagem de algo promocional e sem confiança. O consumidor prefere selem que mostrem que produto e embalagem seguem normas de higiene, segurança e etc …
  4. A preferência deve ser por embalagens que facilitem o segurar, que tenha a anatomia da “pegada” e a simplicidade para abrir. Quanto menos contato com a embalagem, no sentido de precisar usar as duas mãos, apertar ou rodar, melhor.
  5. O consumidor sente-se mais seguro manipulando vidro e alumínio pois entende que é mais fácil a limpeza e evita a contaminação. O papel não permite essa mesma desinfecção, amolece quando úmido. 
  6. A segurança no fechamento das embalagens é essencial, especialmente em alimentos, pois transmite a mensagem de que não houve contaminação. Usar “zip lock” e selos de segurança, são recomendáveis. 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, e pode ser ouvido também em podcast.

A volta à escola e o desafio de proteger os sonhos e a esperança dos jovens do poder destruidor do coronavírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A pandemia de COVID-19 tem promovido mudanças em todas as esferas — sociais, educacionais e econômicas — com consequências que ultrapassam os impactos provocados pela infecção. Recentemente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou que a pandemia pode aumentar os fatores de risco para suicídio, convocando ações efetivas para sua prevenção. Isso se torna urgente, uma vez que os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam o suicídio como a segunda causa de morte entre pessoas jovens.

Estudos iniciais sugerem que apesar de crianças e adolescentes serem menos propensos à infecção pelo coronavírus e permanecerem assintomáticos ou com sintomas mais leves da doença, sofrem diretamente seus impactos psicológicos, podendo apresentar ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), com consequências que podem se estender mesmo após o término do isolamento social.

Se por um lado as medidas de distanciamento tornaram-se necessárias, com evidências de eficácia na contenção da doença, reduzindo a propagação do vírus; por outro lado, têm sido associadas com piora nos sentimentos de solidão, desencadeando quadros de depressão e ansiedade. Isso se torna mais acentuado especialmente entre os jovens, tendo em vista a importância das interações sociais nessa fase da vida.

Diversos fatores são apontados como aqueles que impactam a saúde mental durante a pandemia, dentre os quais: incertezas em relação à doença, medidas rígidas de distanciamento social, perda de entes queridos e o fechamento prolongado das escolas.

Atualmente, a escola é considerada uma das principais instituições sociais, uma condição que começou a ser ocupada lá atrás, após a Idade Média. Até aquela época, o meio social, em seu conjunto, era o contexto educativo e todos os adultos eram responsáveis por promover a aprendizagem a partir das experiências pessoais. 

O desenvolvimento da industrialização trouxe mudanças significativas nos séculos XIX e XX, alterando o local de trabalho das residências para as fábricas. As casas passaram a ser locais privativos, com espaços individuais, como quartos e áreas de estudo, e o trabalho passou a fazer parte da vida pública, deslocado para lugares na cidade, exigindo nova organização urbana. 

Isso gerou mudanças na família, que não conseguia mais preparar as crianças para as novas exigências de trabalho, diferente de como era feito anteriormente, muitas vezes em ofícios transmitidos de pais para filhos. Além de preparar o indivíduo para o trabalho, a escola passou a ter uma função social, à medida que possibilitou o convívio com outros indivíduos, além dos familiares, favorecendo as interações e preparando para a vida em sociedade. 

Com a inserção da mulher no mercado de trabalho, novas mudanças aconteceram, como o aumento no tempo de permanecia dos alunos no ambiente escolar.

Considerando a importância atual que a escola representa nos processos de socialização e o impacto do isolamento social na saúde mental de crianças e adolescentes, a OMS tem alertado aos governantes que analisem com cautela o período pelo qual as escolas permanecerão fechadas. 

Pensar em políticas públicas que envolvam crianças e adolescentes durante a pandemia exige maturidade dos governantes e da sociedade. Impõe afastamento de ideias simplistas, amadoras ou partidárias. Exige ponderação e decisão séria, tendo em vista os perigos desse vírus, que ainda conhecemos tão pouco, e suas consequências nas diversas esferas da vida. 

A COVID-19 já matou quase um milhão de pessoas. Paralelamente, os estudos mostram que a pandemia gerou um aumento de depressão e de TEPT em crianças e adolescentes, considerados fatores de risco para o suicídio.

Como tantos desafios já impostos pelo coronavírus, não parece haver uma resposta fácil sobre a abertura ou manutenção do fechamento das escolas. 

Pais, professores, governantes… somos todos responsáveis pela promoção do bem estar físico, psíquico e social de nossos jovens. Penso no poder devastador do coronavírus nas vidas e na saúde mental… e sem a presunção de propor uma solução definitiva, torço para que as medidas adotadas impeçam que o poder destruidor desse vírus atinja ainda mais os jovens, quer seja em sua saúde física quer seja em sua saúde mental, permitindo seus sonhos e esperanças.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Tonny Martins, presidente da IBM, fala da inteligência artificial no combate à Covid-19

 

 

“A penetração de tecnologia como elemento fundamental para a sociedade, tanto no comércio, na indústria, na educação, saúde e entretenimento, esse mundo mais híbrido é algo que veio para ficar” —Tonny Martins, IBM Brasil

 

Em 48 horas, 90% dos colaboradores estavam trabalhando remotamente, com segurança física e psicológica; em seguida, foi oferecida a estrutura necessária para que os parceiros de negócios trabalhassem com a mesma produtividade e capacidade; e, finalmente, houve a colaboração no amadurecimento dessas empresas diante da transformação digital que se acelerou durante a pandemia. Esses foram três aspectos destacados pelo presidente da IBM Brasil, Tonny Martins, na avaliação que fez sobre como a empresa agiu diante da crise sanitária e econômica, que se iniciou em março.

 

“Nesse primeiro momento, nós trabalhamos com nossos clientes para checar o que nós chamamos de sinais vitais: a conectividade, a capacidade de se abrir para o mundo externo, escalabilidade da sua tecnologia —- do dia para a noite, o canal digital ficou entupido —-, ajudar esses clientes a terem uma operação resiliente que funcionasse de forma consistente e contínua foi nossa preocupação”

 

Na entrevista, falamos de tecnologia e de como a forma acelerada com que a digitalização atua nos diversos segmentos —- da educação à saúde, da indústria ao entretenimento —- está mudando o comportamento de empresas e pessoas. Para Tonny Martins, um dos esforços foi tornar os canais digitais mais próximos dos clientes:

“A tecnologia mais humanizada, mais personalizada, e mais próxima do indivíduo, você consegue, em escala, gerar um nível de eficiência nas relações e nas operações, nunca antes vista”

 

A IBM tem participado de uma série de projetos nas áreas de educação e saúde em parceria com outras empresas de tecnologia, startups e governos. Em um desses programas, ao lado da Cisco, cerca de 9.400 professores e mais de 160 mil estudantes foram beneficiados, com a redução dos entraves para as aulas online. Na área da saúde, entre outras ações, foram desenvolvidos o APP Enfermeiro Virtual e o Portal Corona BR, que já teria alcançado 20 milhões de pessoas.

 

Tonny Martins mostrou-se entusiasmado com os resultados do uso da inteligência artificial que ajudou a desenvolver mais rapidamente o conhecimento de médicos e pesquisadores sobre o Sars-Cov-2, permitindo estratégias eficazes para o combate à doença. Aliás, das tecnologias que passaram por um processo de aceleração desde o inicio da pandemia, uma das apostas do presidente da IBM Brasil é a inteligência artificial:

 

“Existe um estudo da IBM que mostra que o nível de penetração da Inteligência Artificial nas empresas no nosso dia a dia é só de 4% … hoje, você tem uso da Inteligência Artificial mais na parte do  atendimento, colaboração, automação do depósito, nas suas áreas de suporte; e a gente vai ver uma evolução exponencial dessa Inteligência Artificial, que a gente chama de empresa cognitiva na nossa vida, no nosso dia a dia”.

 

Assista ao vídeo completo do Mundo Corporativo aqui no blog. Aproveite e se inscreva no canal da CBN no You Tube para ser informado sempre que um novo programa estiver sendo gravado. Acompanhe, também, o podcast do Mundo Corporativo. Colaboraram com o programa Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: Rafael Lucchesi, do SESI, defende novas relações de produção e trabalho, para superar a pandemia

 

 

 

“As sociedade que se adaptarem mais rápido a essas novas tendências, seguramente vão subir o elevador da produtividade; as suas empresas vão crescer; vão ganhar mercado e, é claro, a sociedade vai se desenvolver. É o que nós chamamos de um círculo virtuoso de desenvolvimento” — Rafael Lucchesi, SESI

A indústria brasileira precisa estar pronta para se adaptar às tendências de mercado que surgiram ou se aceleraram devido a pandemia do coronavírus. Se muitos setores sofreram com a queda de produtividade, também é preciso entender as oportunidades que se apresentam, como a descentralização da fabricação de algumas linhas de produto —- o que ficou evidente a partir das dificuldades de compra, venda e distribuição de equipamentos de saúde. Ao mesmo tempo, é necessário aproveitar as possibilidades que surgem com as transformações digitais e treinar os funcionários para esse novo momento.

 

No programa Mundo Corporativo, da CBN, Rafael Lucchesi, diretor-superintendente do Serviço Social da Indústria — SESI falou de temas que têm sido o foco das discussões do setor industrial brasileiro.

“Como tendência, seguramente nós vamos ter maiores cuidados com saúde, uma agenda maior de capacitação, de uso mais intensivo de tecnologia e, também, uma agenda voltada a novas ferramentas que têm ganho de produtividade e que vão impactar os resultados das empresas”.

O dirigente do SESI lembrou que o mundo vive a quarta revolução industrial, com digitalização, uso de inteligência artificial e de algoritmos, por exemplo. Soma-se a isso a produção industrial aditiva em que é possível fabricar produtos com o uso de impressoras 3D tornando desnecessário que a empresa mantenha uma grande manufatura, concentrada em uma determina região do mundo, substituindo esse modelo por uma estrutura industrial muito mais distribuída, criando uma cadeia de fornecedores próxima do seu mercado:

“Com três fotografias do seu pé, você poderá adquirir um tênis feito sob medida da mesma maneira que se faz com os atletas de alta performance, ajustado a sua biometria, e não em função de uma biometria padrão … com isso, a escala de produção será um fator menos relevante no futuro e muito mais a logística de produção distribuída. Isso vai mudar o ambiente de escritório e de chão de fábrica”.

A pandemia obrigou a indústria a acelerar esses processos que já estavam em andamento, segundo Rafael Lucchesi. A medida que as empresas têm mudado seu modelo operacional, o dirigente entende que essa transformação levará a uma revisão nos contratos de trabalho —- o que chama de modernização na relação de emprego. Apesar da reforma trabalhista, que entrou em vigor há pouco mais de um ano, outras questões estarão na pauta:

“… seguramente há um consenso que une as lideranças empresariais e dos trabalhadores, que é estabelecer algo que permita que a sociedade gere mais emprego e mais renda … é preciso construir uma agenda de futuro para o Brasil”

O aumento da preocupação dos profissionais e seus familiares com as questões sanitárias, por causa da pandemia, além de um número crescente de afastamentos das funções, por doenças relacionadas ao trabalho, vão exigir um acompanhamento maior das empresas, de acordo com o dirigente. Isso traz outro desafio ao setor produtivo devido aos custos em relação a assistência médica dos profissionais:

“Esse é um problema grave porque é a inflação que mais cresce no Brasil e tem sido um dos maiores custos das empresas brasileiras, por isso o SESI com a CNI tem apoiado às empresas a estabelecerem um entendimento melhor nas negociações com os planos de saúde”.

Independentemente dos novos desafios que se se apresentam, ele chama atenção para o fato de a indústria ter de estar atenta a relação com seus colaboradores:

“As organizações mais produtivas são aquelas que melhor cuidam do principal talento das organizações, dos seus trabalhadores, dos seus colaboradores. Então, aquelas que vão melhor performar, serão seguramente as mais abertas ao diálogo daquilo que mais preocupa que são hoje as questões de cuidados à saúde”.

O Mundo Corporativo pode ser ouvido aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às dez da noite, em horário alternativo; ou a qualquer momento em podcast. Colaboram com o programa Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Diário de uma viajante mascarada

 

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Tower Bridge, Londres Foto: Pixabay

 

Eu a vi pela tela do celular. Ainda estava no saguão do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Nem mesmo as duas máscaras que vestia —- sim, eram duas —- ou a boina que cobria a cabeça e segurava parte dos longos e crespos cabelos que estavam trançados para diminuir a área de contágio me impediram de enxergar o sorriso que a acompanha por onde vai. E ela já foi a muitos lugares neste mundo. Sempre em busca de conhecimento e amigos. Nunca lhes faltaram — um ou outro —- e sempre que colocada à prova, ela demonstrou habilidade em conquistá-los.

 

Quando conversamos estava a algumas horas de embarcar  para Londres de onde havia retornado no início desta pandemia, assim que as aulas se encerraram. Com o ano letivo prestes a começar daqui um mês, preferiu voltar no primeiro voo disponível —- o risco de ter a viagem cancelada aumenta a medida que cresce o número de casos da Covid-19, no Brasil.

 

Saiu daqui com um pedido do tio e cumpriu o combinado assim que chegou à Inglaterra: descrever a experiência da travessia de um continente ao outro, em tempos de ….. (perdão, mas me nego a cair nesse lugar-comum) …. você sabe que tempos são esse, certo?

 

O relato que você, caro e raro leitor deste blog, vai ler a partir de agora é baseado na história que ouvi da minha viajante mascarada.

 

Em Guarulhos, deu de cara com cartazes pedindo o uso de máscaras e álcool em gel. Para os poucos passageiros e acompanhantes que circulavam pelos corredores largos do saguão do aeroporto, o distanciamento social era involuntário. O principal aeroporto brasileiro está superdimensionado para o cenário atual da aviação. Com capacidade para até 40 pousos e decolagens por hora, naquela noite havia apenas quatro voos programados.

 

A encrenca estaria por vir, a medida que as filas se fazem necessárias para parte do atendimento. A primeira foi no setor de check-in, obrigatório nas viagens internacionais. Foi ali que começou o exercício aeróbico que consistia em prender a respiração quanto mais próximas as pessoas tivessem e respirar aliviada sempre que havia respeito às marcações de piso e distanciamento.

 

Para despachar as malas, um sufoco. O aperto de pessoas e bagagens era constrangedor. Para atrapalhar, muitos não tinham preenchido o formulário exigido pelo Reino Unido no qual é obrigatório declarar por onde esteve e informar seus contatos. Os esquecidos ao menos tinham a facilidade de acessar o formulário on-line e salvar as informações no celular.

 

O distanciamento voltou a ser respeitado no controle de segurança e passaportes. Sabe como é que é, né! Tem segurança, tem lei, a gente respeita nem que seja na marra. Mesmo com a distância, o acesso foi rápido, provavelmente porque o aeroporto estava vazio. Respirar com tranquilidade ajudou na longa caminhada até o portão de embarque.

 

Foi a companhia aérea chamar os passageiros e aquela sensação de asfixia voltou. Seja pela ansiedade seja pela desatenção —- ou seria por falta de seguranças observando? —-, o distanciamento foi esquecido. Todos queriam entrar logo no avião e devem ter pensando que, sem cartão de embarque, o vírus não teria lugar no voo.

 

Ainda bem que nossa viajante pode soltar o ar logo em seguida, na passarela que dá acesso ao avião: sem que ninguém precisasse pedir por favor, os passageiros voltaram a se distanciar um dos outros, mesmo aqueles que estavam acompanhados. Vai entender essa gente!

 

O voo não estava lotado, talvez com 70 a 80% de sua capacidade. Os assentos, na medida do possível, foram alocados de forma a deixar um passageiro distante do outro. Era possível, porém, perceber que algumas pessoas que não estavam viajando juntas, sentaram lado a lado. A tripulação lembrou a todos de usarem máscaras, permitindo a retirada apenas para comer e beber.

 

Nossa viajante que partiu do Brasil com duas máscaras, com duas máscaras ficou até chegar a Londres. Preferiu uma dieta forçada, sem pão nem água, por mais de 11 horas e meia, a arriscar qualquer contágio. Assim que o avião aterrissou em solo britânico, talvez a mudança mais significativa e civilizada das jornadas aéreas: o desembarque foi realizado por fileiras, impedindo aquela aglomeração do corredor, com gente se esticando para pegar malas, mochilas e bugigangas nos bagageiros acima das poltronas.

 

O que não mudou foi a correria para ver quem chega antes na fila da imigração que sempre termina com os corredores parados na mesma fila da imigração. Os passageiros eram lembrados da obrigatoriedade do uso de máscara — obedecida por todos — e havia placas solicitando o distanciamento entre as pessoas — cumprido por poucos. Mesmo com os guichês abertos e o número de vôos bem abaixo do normal, além do exercício de respiração —- prende e solta, conforme o vizinho da fila se aprochegava —- foi necessário, exercitar a paciência porque o tempo de espera foi longo, como nos velhos tempos.

 

Entre um sufoco e outro, ainda com as duas máscaras e receio do que viria pela frente, minha viajante pôs o pé para fora do aeroporto, sorriu mais uma vez e constatou: “ao contrário do que dizem, o céu estava azul em Londres!”.

 

Obrigado por compartilhar essa experiência, Valentina! E jamais permita que as máscaras que usamos na vida tirem o sorriso do seu rosto, minha sobrinha. Com ele, mesmo à distância, sempre teremos a esperança de enxergar um horizonte mais azul — até no céu de Londres.