Débora Ferreira
Ouvinte da CBN
Capitão Teófilo Marcondes da Silva. O nome é grande. A rua é pequeninha, charmosa, dessas que cabem inteira na lembrança. Era chamada de “vilinha”, assim mesmo, no diminutivo, do jeito carinhoso com que os moradores e vizinhos a tratavam. E foi ali que me encantei pela Vila Pompeia.
Naquela rua, começaram outros amores também: o primeiro namorado, as brincadeiras soltas pela calçada, a febre dos patins, as voltas escondidas de moto pelo bairro (às vezes até mais longe).
Na rua, também tinham os encontros nas casas dos amigos para ouvir as bandas que estavam aparecendo nos anos 80, e os bailinhos improvisados na garagem.
Em uma Copa do Mundo, os vizinhos até fecharam a vilinha pra todos nós asistirmos aos jogos e depois comemorar — até onde a seleção brasileira permitisse.
Da “vilinha” dava pra ir a pé no Sesc Pompeia, no restaurante Degas, no Shopping Matarazzo e no Clube Palmeiras, onde a gente passava o dia todo durante as férias — ah, se aquele clube falasse?!?
Até que um dia minha família teve mudar da “vilinha”. Não haveria outra rua igual. Não com os mesmos amigos, as mesmas brincadeiras, os mesmos afetos. Era perfeita demais.
Meus pais encontraram outra casa na Pompeia. Não era a nossa “vilinha “, mas vejam o lado bom: era perto do nosso colégio o Sagrado Coração, que naquela época, ainda era exclusivamente feminino. A casa era grande, cabiam dois carros na garagem, tinha salão para fazer as festinhas.
Ela tinha lá o seu charme, cheia de roseiras no jardim, padaria na frente — o que ninguém esperava estava logo ao lado. De repente, ônibus começaram a estacionar diante da nossa casa. Dois dias, três, quatro. Às vezes uma semana inteira. Eram ônibus de artistas. Deles desciam músicos, cantores, equipes. Um entra e sai constante na casa vizinha.
O que será que a casa ao lado tem?
Também frequentavam as bandas de rock, aquelas que a gente escutava na “vilinha”: cantavam “Sonífera Ilha, descansa meus olhos … ”. Com aquela formação original, aquelas roupas e cabelos diferentes, estacionavam seus carros na frente da nossa casa.
Um dia entrou na casa um dos meus ídolos, Toquinho. E aí uma prima resolveu matar nossa curisiosidade e perguntou o que se fazia naquela casa: era um super estúdio de gravação, onde as grandes duplas sertanejas, as bandas dos anos 80 e 90 e grandes nomes da MPB gravavam seus álbuns. Todos desfilando na nossa calçada, diante dos nossos olhos. Teve até um dia que um dos artistas chamou as minhas irmãs para participarem como backing vocal em uma música!
E quando a gente já estava se acostumando com aquela rotina improvável , cheia de vozes famosas e melodias que atravessavam o quarteirão, mudamos de casa de novo: — ”mas vamos ficar na Pompeia “, assim prometeu meu pai.
E lá fomos nós para o nosso terceiro endereço nesse bairro tão charmoso que nunca deixou de ser nossa casa e onde minha mãe mora até hoje. Um bairro cheio de boas histórias — dessas que continuam pedindo para ser contadas.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Débora Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.







