Mundo Corporativo: Eduardo Lemos, da Cielo, diz que inovação começa pela dor do cliente

Eduardo Lemos, VP da Cielo
Eduardo Lemos no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves CBN

“Você tem que realmente entender onde dói para o cliente, para você conseguir entregar alguma coisa que vai dar valor real.”

Cerca de 85% dos pagamentos no Brasil já são digitais, segundo Eduardo Lemos, vice-presidente executivo de operações da Cielo. A transformação dos meios de pagamento ajuda a explicar por que uma empresa durante muito tempo identificada pela maquininha precisou ampliar sua atuação para comércio eletrônico, prevenção a fraudes, análise de dados e serviços integrados aos negócios dos clientes. Para Lemos, a tecnologia só faz sentido quando resolve problemas concretos e simplifica a vida de quem está na outra ponta. A transformação da Cielo e os critérios para decidir onde investir em inovação foram temas da entrevista de Eduardo Lemos ao Mundo Corporativo, da CBN.

A mudança começa por uma pergunta que parece simples: quem é o cliente? No caso da Cielo, a resposta vai além do consumidor que aproxima o cartão ou o celular da máquina. A empresa precisa olhar para o estabelecimento comercial que contrata seus serviços, para o consumidor desse estabelecimento e para os parceiros envolvidos na operação.

Essa visão levou a empresa a ampliar as funções de seus equipamentos. Dependendo do negócio, a máquina pode ser usada para controle de estoque, agendamento de clientes, acesso a sistemas de gestão e outras tarefas. No comércio eletrônico, a atuação passa também por segurança, prevenção a fraudes e aumento da conversão das vendas.

A lógica, segundo Lemos, é evitar que a complexidade tecnológica seja transferida para quem usa o serviço.

“A gente conseguir ter soluções de tecnologia que falem a língua desses diversos segmentos e que traduza toda essa complexidade que acontece na nossa cozinha lá da Cielo com simplicidade para a ponta.”

Inovar também significa saber o que não fazer

Diversificar produtos e serviços pode abrir novas fontes de receita. Também pode criar complexidade sem entregar resultado. Lemos afirma que a escolha das iniciativas deve partir de problemas reais enfrentados pelos clientes.

“Você tem que realmente entender onde dói para o cliente. Para você conseguir entregar alguma coisa que vai dar valor real.”

O executivo acrescenta outro desafio: boas ideias podem desaparecer dentro das próprias organizações antes de terem oportunidade de demonstrar resultado. A pressão das operações cotidianas tende a disputar recursos e atenção com projetos que ainda estão começando.

“Às vezes novas ideias, você precisa cuidar muito bem delas, porque se você não cuidar bem delas, elas morrem muito fácil”

Para ele, proteger essas iniciativas até que possam crescer é tão importante quanto escolher corretamente onde investir.

Essa combinação entre dados e observação da realidade aparece em um exemplo aparentemente banal: a bobina de papel das maquininhas. A Cielo passou a usar dados para prever o consumo e enviar novas bobinas antes que acabassem. A modelagem, porém, encontrou dificuldades em postos de gasolina. A análise da operação mostrou um detalhe que os dados, sozinhos, não haviam captado: frentistas costumavam puxar uma quantidade maior de papel a cada transação.

Dados para agir antes do problema

A antecipação de falhas é uma das aplicações dos dados na operação. Segundo Lemos, perto de 50% da manutenção das máquinas pode ser realizada antes mesmo que o equipamento apresente um problema para o cliente. A empresa acompanha informações sobre funcionamento dos equipamentos, bateria e consumo de suprimentos para tentar agir preventivamente. O objetivo é particularmente relevante em uma operação que, segundo Lemos, alcança todo o país.

Ele afirma que 7% do Produto Interno Bruto brasileiro passa pela Cielo. Em algumas regiões, a manutenção exige uma logística bem diferente daquela encontrada nos grandes centros.

“Por exemplo, a gente tem casos que a gente usa rotas fluviais de alguns dias até chegar no meio do Amazonas para conseguir entregar uma máquina, para fazer a manutenção da máquina.”

Nesse contexto, experiência do cliente também significa fazer com que a tecnologia permaneça quase invisível. Para um restaurante lotado no horário do almoço, por exemplo, pouco importa a sofisticação do sistema se a máquina deixar de funcionar justamente quando a conta precisa ser paga.

Iniciativas de inteligência artificial

A inteligência artificial já está distribuída por diferentes áreas da Cielo. Lemos afirma que a empresa mantém mais de 500 iniciativas relacionadas à tecnologia. Na área comercial, sistemas ajudam vendedores a reunir informações sobre o histórico e as necessidades dos clientes. Nas operações, modelos preditivos são usados para antecipar problemas. Na tecnologia, a IA auxilia na identificação e resolução de incidentes.

“Hoje a gente tem uma camada de IA que já faz uma monitoria muito mais clara do que pode ser um incidente ou não, inclusive de controle de respostas para incidentes que reduziu o nosso tempo de resposta para incidentes em 50%.”

Para Lemos, incorporar inteligência artificial não significa simplesmente encaixar a tecnologia nos processos existentes. A mudança pode exigir que a empresa redesenhe a própria maneira de trabalhar.

“Se você simplesmente quer jogar inteligência artificial no teu processo que existe hoje ou na tua maneira de pensar hoje, provavelmente você vai falhar”

A alternativa, segundo ele, é pensar o processo novamente, considerando desde a operação e os produtos oferecidos até a composição das equipes.

A inteligência artificial amplia o espaço para as pessoas

Mesmo com a expansão da automação, Lemos não prevê uma operação na qual as pessoas desapareçam. A expectativa é de uma combinação entre profissionais, modelos de inteligência artificial e agentes capazes de executar determinadas tarefas.

“O modelo híbrido realmente é a resposta”

Segundo ele, a experiência da empresa mostra que a adoção da inteligência artificial, em vez de simplesmente eliminar tarefas, também revela problemas e oportunidades que anteriormente não eram sequer alcançados pelas equipes.

“E o que a gente tá descobrindo é que conforme você vai criando essas camadas de inteligência artificial, você descobre mais oportunidade, ou seja, você tem cada vez mais oportunidade para atacar, mais coisa para fazer e você consegue colocar o teu elemento humano em coisas que você não tava conseguindo nem cobrir.”

Essa transformação também deverá chegar à própria experiência de compra. Lemos cita o agent commerce, no qual agentes de inteligência artificial poderão conversar com sistemas dos varejistas, escolher produtos e participar do processo de pagamento.

Para ele, parte desse futuro já começou. A digitalização dos pagamentos, o avanço do Pix e o comércio eletrônico mostram como hábitos podem mudar em poucos anos. A resposta das empresas, afirma, não deveria ser simplesmente acrescentar novas tecnologias ao que já existe, mas repensar produtos e processos a partir das novas possibilidades.

Uma carreira sem linha reta

A trajetória profissional de Lemos também entrou na conversa sobre transformação. Formado em marketing, ele passou por setores como bancos, tecnologia, saúde e meios de pagamento e trabalhou em áreas de vendas, marketing, finanças e operações.

Um dos movimentos citados foi a saída do HSBC para trabalhar na Uber quando a empresa ainda precisava explicar aos brasileiros qual era seu modelo de negócio. Lemos contou que o próprio pai questionou a decisão de trocar um banco por uma empresa ainda pouco conhecida. A experiência reforçou uma característica que ele diz ter buscado ao longo da carreira: oportunidades que exigissem aprendizado.

“Eu nunca imaginei minha carreira como sendo um movimento linear e isso que foi legal, né?”

Ao falar para profissionais que hesitam diante de uma mudança de área ou função, Lemos relacionou desenvolvimento profissional à disposição para enfrentar situações desconhecidas.

“A zona de conforto é o pior lugar para você estar. Então, toda vez que você tiver a chance de se desafiar, fazer algo novo, faça e sabendo que vai gerar dor”

A frase conecta a trajetória pessoal à transformação empresarial discutida ao longo da entrevista. Tanto para organizações quanto para profissionais, a inovação descrita por Lemos depende menos de acumular novidades e mais de identificar problemas que merecem ser resolvidos, experimentar caminhos e aprender com aquilo que acontece na prática.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

50 debates para o Brasil: prisão perpétua divide opiniões sobre punição, segurança e ressocialização

A prisão perpétua poderia proteger a sociedade de autores de crimes extremamente graves ou apenas acrescentaria mais rigor a um sistema penal que já enfrenta dificuldades para investigar, condenar e ressocializar?

O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, pelos advogados Fernando Capez, ex-procurador do Ministério Público de São Paulo e professor de Direito Penal, e Felippe Angeli, coordenador de Advocacy do JUSTA. A Constituição proíbe penas de caráter perpétuo e estabelece, como regra, que ninguém pode permanecer preso indefinidamente. O Código Penal limita a 40 anos o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade.

Capez defendeu que a prisão perpétua seja discutida para crimes de extrema gravidade, embora tenha ressaltado que o aumento das penas, isoladamente, não resolve o problema da violência. Para ele, seria necessário combinar punição com educação, redução das desigualdades, oportunidades e maior capacidade do Estado de investigar e responsabilizar criminosos.

Quem apostar que se combate criminalidade apenas com a elevação da pena está apostando errado”, afirmou. Ainda assim, Capez argumentou que determinados integrantes de organizações criminosas e autores de crimes de extrema crueldade deveriam permanecer presos por toda a vida.

O professor também colocou em discussão a finalidade da pena. Para ele, o Estado fracassou na tentativa de ressocialização dentro das prisões brasileiras. “Determinados criminosos deveriam entrar e nunca mais sair de lá”, disse, ao defender que a resposta penal também considere a vítima e seus familiares.

Felippe Angeli apresentou posição contrária. Segundo ele, o principal fator capaz de desestimular o crime não é necessariamente a severidade da pena, mas a certeza de que o autor será identificado e responsabilizado.

Angeli lembrou que o Brasil ampliou o encarceramento e endureceu a legislação penal nas últimas décadas sem conseguir impedir a expansão das organizações criminosas. “Não me parece que isso trouxe segurança a ninguém”, afirmou. Para ele, insistir apenas no aumento das penas significa repetir uma estratégia que não produziu os resultados esperados.

O representante do JUSTA também diferenciou punição de vingança. “O Estado não pode agir a partir da perspectiva da vingança, de retribuir a violência com mais violência”, disse. Na avaliação dele, a prioridade deveria ser ampliar a capacidade de investigação, especialmente das polícias civis e técnico-científicas, para aumentar a identificação dos responsáveis por homicídios, tráfico de armas, lavagem de dinheiro e atuação do crime organizado.

O debate expõe uma escolha que vai além do tamanho da pena. De um lado, está a ideia de que crimes de extrema gravidade justificam retirar definitivamente determinados condenados do convívio social. De outro, o argumento de que segurança depende menos de penas cada vez maiores e mais da capacidade de investigar crimes, produzir provas e garantir que os responsáveis sejam efetivamente punidos.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

O sentimento de paciência

Por Beatriz Breves

Si creo en mi plan, no habrá por que estar de otra manera

Foto: Ed Visoso Flickr

A paciência é um sentimento geralmente atribuído aos sábios, às pessoas amadurecidas e experientes. Normalmente, o jovem não tem muita paciência. A juventude tende a ser mais impaciente. Vamos adquirindo paciência com o tempo e com as experiências da vida — com suas exceções, naturalmente.

A paciência é um sentimento capaz de acolher e favorecer o estabelecimento de relações marcadas pelo aconchego. Ela agrega outros sentimentos e atitudes, como a tolerância, a perseverança, a confiança e a resignação. Talvez seja por isso que, algumas vezes, dizemos:

— Nossa, fulano tem uma santa paciência!

É a maneira de reconhecer que aquela pessoa consegue administrar determinada situação de um modo que poucos conseguiriam.

Também podemos falar na arte da paciência. Ela se revela na forma como a pessoa lida com a vida: na capacidade de administrar as situações, perceber o tempo certo, saber esperar quando é preciso e avançar quando chega o momento. Conduzir a vida com paciência, calma e tranquilidade é uma arte — e também um aprendizado.

No mundo de hoje, vivemos uma situação muito interessante. A velocidade das informações e das comunicações pela internet exige de nós muita paciência, principalmente das gerações mais antigas.

Se não respondemos imediatamente a uma mensagem, se levamos um pouco mais de tempo, a pessoa do outro lado já começa a ficar impaciente. Eu diria que um minuto, hoje, equivale a um dia ou até a uma semana de antigamente.

Sou do tempo em que telefonávamos para a casa de alguém. A pessoa que atendia anotava o recado e, somente quando o destinatário chegava em casa, tomava conhecimento de que alguém havia ligado. Só então retornava a ligação.

Depois veio a secretária eletrônica — que, provavelmente, muita gente mais jovem nem chegou a conhecer. Hoje, temos o WhatsApp, e tudo se tornou imediato.

A paciência também precisou mudar o seu ritmo, o seu timing. Para as gerações mais antigas, é preciso muita paciência para acompanhar o mundo moderno, pois os jovens já nascem inseridos nele.

Por isso, faço um trocadilho: santa paciência para lidar com tantas transformações, reaprendizados e mudanças de ritmo!

Só mesmo com a arte da paciência.

E, ainda assim, haja paciência!

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Não lugar: entre a exclusão subjetiva e a dor social

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Mulher idosa e pedestre
Imagem criada com IA

O termo “não lugar” designa espaços nos quais não predominam relações duradouras de identidade, memória e pertencimento. Em contraste com o lugar antropológico, constituído por relações sociais, acontecimentos históricos e referências compartilhadas, o não lugar caracteriza-se pela circulação, pelo trânsito e por interações predominantemente impessoais e temporárias. A expressão foi utilizada pelo antropólogo francês Marc Augé pela primeira vez em 1992, em seu livro Não lugares.

Aeroportos, autoestradas, hotéis, centros comerciais e determinados espaços de consumo são exemplos dessa condição. O não lugar, entretanto, não constitui uma categoria absoluta. Um mesmo espaço pode ser lugar para algumas pessoas e não lugar para outras, dependendo dos vínculos, significados e experiências que nele se estabelecem.

Essa compreensão desloca o olhar das características exclusivamente físicas do ambiente para as relações que se constroem entre pessoas, espaços e coletividades. As transformações decorrentes da globalização modificaram os modos de circular, permanecer e interagir, produzindo ambientes nos quais o indivíduo é frequentemente reconhecido por funções, códigos, documentos, contratos ou práticas de consumo.

Neles, é possível estar fisicamente presente sem, necessariamente, estabelecer vínculos de pertencimento, reconhecimento ou continuidade.

O envelhecimento passa a transformar a relação cotidiana com o espaço à medida que a mobilidade, a percepção, a autonomia, os ritmos de deslocamento e as possibilidades de participação social se modificam. Apesar disso, grande parte das cidades ainda é organizada a partir de referências associadas a um corpo considerado padrão: autônomo, produtivo, veloz e fisicamente capaz.

A partir do momento em que o ambiente não considera a diversidade dos corpos e de seus modos de experienciar a cidade, as barreiras deixam de ser exclusivamente físicas e passam a alcançar dimensões simbólicas, afetivas e sociais.



É nesse contexto que o não lugar pode ser compreendido também como uma experiência de não pertencimento. Uma calçada que dificulta a circulação, uma praça que não oferece condições adequadas de permanência, um transporte público pouco acessível ou um equipamento que desconsidera diferentes necessidades corporais podem transmitir, ainda que silenciosamente, que aquele espaço não foi pensado para determinado corpo.

A pessoa está presente, mas encontra dificuldades para reconhecer o ambiente como parte de sua experiência cotidiana e, sobretudo, para sentir-se reconhecida por ele.

Tal experiência torna-se significativa quando relacionada à solidão e ao isolamento social na velhice. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1 em cada 10 pessoas idosas vivencie solidão, enquanto 1 em cada 4 esteja socialmente isolada. Embora os conceitos não sejam equivalentes — a solidão corresponde à experiência subjetiva de insuficiência ou ausência de conexões significativas, enquanto o isolamento social se refere à reduzida frequência ou quantidade de relações e contatos sociais —, ambos podem ser agravados por condições que restringem a mobilidade, a convivência e a participação na vida coletiva.

É nesse ponto que a noção de dor social, discutida pela neurociência afetiva, amplia a compreensão dessa experiência. A dor social refere-se ao sofrimento associado à rejeição, à exclusão, à perda ou à ruptura de vínculos. Estudos baseados em evidências indicam que experiências dessa natureza envolvem circuitos relacionados ao processamento do sofrimento e da dor, incluindo regiões como o córtex cingulado anterior e a ínsula.

Contudo, isso não significa que a dor social e a dor física sejam neurologicamente equivalentes. Pesquisas posteriores demonstram que essa relação é mais complexa, embora sustentem a existência de mecanismos neurobiológicos associados ao sofrimento produzido pela desconexão social.

Sob essa perspectiva, o isolamento não pode ser compreendido apenas como ausência de companhia. Ele pode representar uma experiência prolongada de redução das oportunidades de encontro, participação e construção de vínculos.

A permanência dessas restrições pode repercutir sobre a qualidade de vida. Ambientes que reduzem a autonomia, dificultam a orientação, produzem insegurança ou limitam as oportunidades de convivência favorecem estados de tensão e vigilância. Quando essas condições se articulam à solidão, ao isolamento social e à perda de autonomia, contribuem para a manutenção de estressores ambientais e sociais, com repercussões sobre o bem-estar físico, psicológico e cognitivo.

O estresse, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma resposta individual, mas como fenômeno produzido na interação entre corpo, ambiente e contexto social.

Em oposição a essa experiência, o lugar pressupõe a possibilidade de estabelecer vínculos, reconhecer referências e construir relações de continuidade com a própria história. Para a pessoa que envelhece, isso significa poder circular, permanecer, descansar, encontrar outras pessoas, recordar, participar e sentir-se parte da vida cotidiana. Bancos, percursos legíveis, iluminação adequada, vegetação, referências visuais, diversidade de usos e espaços de convivência podem contribuir para essa experiência quando concebidos a partir das necessidades e dos modos de uso das pessoas.

A relação entre lugar, não lugar, dor social e corpo envelhecente evidencia que a qualidade de vida também se constitui nas relações entre pessoas e espaços. Pertencimento não significa apenas estar fisicamente presente, mas poder reconhecer-se no ambiente e ser reconhecido por ele.

Projetar para o envelhecimento, portanto, ultrapassa a eliminação de barreiras arquitetônicas. Implica criar condições espaciais para que diferentes corpos possam circular, permanecer, se encontrar, participar e estabelecer vínculos.

O desafio consiste, assim, em compreender a arquitetura e a cidade como estruturas relacionais.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Ciro escreve a convite do Blog do Mílton Jung

50 debates para o Brasil: como regular as redes sociais sem ameaçar a liberdade de expressão

As redes sociais deram voz a milhões de pessoas, e também ampliaram a circulação de desinformação, discursos de ódio e outros conteúdos prejudiciais. O desafio é criar regras para as plataformas sem transformar a proteção dos usuários em instrumento de censura. Esse foi o tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, que teve as participações de Bia Barbosa, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e Rafael Pellon, advogado especializado em Direito Digital.

A principal divergência está menos na existência de regras e mais no alcance delas. Bia defende uma regulação que atue sobre o funcionamento e o modelo de negócios das plataformas. Rafael alerta para o risco de que essas regras avancem sobre o conteúdo publicado pelos cidadãos e restrinjam a liberdade de expressão.

Para Bia nem plataformas nem governos devem receber o poder de determinar o que é verdadeiro ou falso. Para ela, a regulação pode atuar por outros caminhos, como transparência, proteção de dados, combate à violência digital e identificação de conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial.

Não se trata da gente dar para as plataformas o poder de definir o que que é verdade ou que não é, muito menos para o governo de plantão”, afirmou.

A representante do CGI.br também defendeu que a fiscalização das regras seja feita por uma autoridade independente, a partir de legislação aprovada pelo Congresso e submetida ao debate público.

Rafael concordou que determinadas regras podem existir, mas estabeleceu uma fronteira: elas deveriam se concentrar nos extremos e evitar interferência sobre a comunicação cotidiana entre os cidadãos.

Na medida em que a gente tenta criar qualquer tipo de regulação que preveja algum tipo de avaliação prévia, a gente entra num risco de censura”, disse.

Outro ponto do debate foi a transparência algorítmica. Algoritmos são sistemas usados pelas plataformas para decidir, entre outras coisas, quais publicações serão recomendadas e ganharão maior visibilidade.

Bia argumentou que conhecer os critérios dessas decisões pode proteger o próprio exercício da liberdade de expressão. Ela citou casos de jornalistas e veículos que tiveram contas ou conteúdos suspensos sem explicações claras sobre os motivos ou sobre os mecanismos disponíveis para recorrer.

Para ela, o problema também está no modelo econômico das redes, construído para aumentar o tempo de permanência do usuário e, consequentemente, a coleta de dados e a receita. A regulação, portanto, deveria atuar sobre a arquitetura e os incentivos das plataformas, e não sobre cada conteúdo individualmente.

Rafael fez uma ressalva. O algoritmo também constitui parte do segredo comercial das empresas. Exigir sua abertura completa poderia prejudicar inovação e concorrência. A alternativa, segundo ele, seria exigir informações suficientes para compreender os efeitos do sistema sem obrigar as empresas a revelar todos os detalhes técnicos.

Eu consigo divulgar os efeitos, mas não as regras exatas em que se trabalha”, afirmou.

O debate mostra que a discussão não cabe apenas na pergunta “regular ou não regular”. A questão central é definir o que regular, quem fiscaliza, quais informações as plataformas devem fornecer e onde estabelecer a fronteira para preservar a liberdade de expressão.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: emendas parlamentares dividem especialistas sobre distorção do orçamento e independência do legislativo

Mais de R$ 60 bilhões do Orçamento federal deste ano estão autorizados para emendas parlamentares, instrumento que ampliou o poder de deputados e senadores sobre a distribuição do dinheiro público. As emendas permitem que parlamentares indiquem onde uma parcela dos recursos do Orçamento será aplicada. Mais da metade do valor previsto neste ano corresponde a emendas impositivas, cujo pagamento é obrigatório.

Na série 50 Debates para o Brasil, realizada no Jornal da CBN, nós reunimos Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política e sócio da consultoria Think Policy, e Guilherme France, gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional Brasil. E propusemos a eles que se discutisse o limite desse poder concedido pelos parlamentares: de um lado, a defesa da autonomia do Congresso; de outro, os questionamentos sobre transparência, eficiência e influência eleitoral.

Leonardo Barreto argumenta que as emendas estão relacionadas ao próprio modelo de representação política brasileiro. Deputados e senadores assumem compromissos com suas bases eleitorais e precisam de recursos para atendê-los. Antes das emendas impositivas, lembra ele, os parlamentares dependiam mais diretamente do governo para conseguir liberar verbas.

Para Barreto, esse mecanismo ajudou a reduzir a dependência do Legislativo em relação ao Executivo. “O Congresso, e a gente conservar a autonomia dele, independência dele, e a emenda é relevante nesse sentido, isso é importante”, afirmou. Na avaliação do cientista político, eliminar ou reduzir drasticamente esse instrumento poderia novamente aumentar o poder do governo sobre deputados e senadores.

Isso não significa, segundo ele, que o sistema deva permanecer como está. Barreto reconhece problemas de transparência e defende maior responsabilização do parlamentar pela aplicação dos recursos que indica. Uma possibilidade seria aproximar sua responsabilidade daquela atribuída ao ordenador de despesas, tornando-o corresponsável pelo acompanhamento do dinheiro.

Guilherme France chama atenção para outra dimensão do problema: o volume de recursos sob controle do Congresso. Segundo ele, as emendas representam entre um quinto e um quarto do orçamento discricionário da União — a parcela sobre a qual o governo tem maior liberdade de decisão, depois das despesas obrigatórias.

O representante da Transparência Internacional Brasil afirma que o problema não se limita aos casos de suspeita de corrupção. Pesquisas citadas por ele indicam que municípios que recebem mais recursos de emendas em determinadas áreas não necessariamente apresentam melhores resultados nas políticas públicas.

“Esses recursos não têm produzido resultados eficazes em termos de políticas públicas”, afirmou France. Para ele, a destinação do dinheiro precisa considerar critérios técnicos e permitir que a sociedade acompanhe tanto a escolha dos projetos quanto sua execução.

Emendas e disputa eleitoral

Outro ponto levantado no debate foi o impacto das emendas sobre as eleições. France argumenta que parlamentares que já exercem mandato chegam à disputa com a vantagem de terem destinado recursos às suas bases, enquanto candidatos sem mandato não dispõem do mesmo instrumento.

“A gente vê hoje as emendas sendo um mecanismo de abuso do poder político e econômico muitas vezes, que acaba prejudicando a disputa eleitoral”, disse.

Barreto reconhece a necessidade de aprimorar os controles, mas questiona se concentrar novamente as decisões nos ministérios produziria necessariamente resultados melhores. Para ele, o parlamentar eleito também tem legitimidade para identificar necessidades de municípios e regiões.

O debate, portanto, não se resume a ser a favor ou contra as emendas. A questão é definir quanto do Orçamento deve ficar sob influência direta do Congresso, quais critérios devem orientar a distribuição e quem responderá pela fiscalização e pelos resultados. Em um orçamento pressionado e com pouco dinheiro disponível para novos investimentos, cada emenda representa também uma escolha sobre aquilo que deixará de ser financiado.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Dez Por Cento Mais: Thaís Barbizan fala sobre o preço invisível de parecer bem o tempo todo

“Ser normal é ser você.”

Irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, isolamento e a sensação de acordar cansado mesmo depois de descansar podem ser sinais de fadiga emocional. Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbizan, esses sintomas podem aparecer quando os excessos do cotidiano se acumulam sem que a pessoa perceba. A exposição contínua às redes sociais, a busca por validação e a pressão para demonstrar produtividade, felicidade e equilíbrio fazem parte desse processo. O assunto foi tema de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Thaís define a fadiga emocional como “uma exaustão psíquica que a gente pode ter de acordo com os excessos do dia a dia e que a gente não vai percebendo”. Segundo ela, um dos problemas é justamente a dificuldade de reconhecer que o limite foi ultrapassado. A pessoa continua trabalhando, cuidando da família, respondendo mensagens e cumprindo compromissos. Por fora, a rotina segue funcionando. Por dentro, porém, pode haver um desgaste crescente.

Entre os sinais citados pela psicóloga estão alterações no sono, maior irritabilidade, vontade de se afastar das relações sociais e cansaço persistente. “Existe aquela vontade de descansar, mas você acorda cansada”, afirma.

A necessidade de validação

As redes sociais não são apresentadas por Thaís como responsáveis isoladas pelo problema. Ela reconhece seu papel na comunicação, no trabalho e na circulação de informação. A questão está na forma e na intensidade com que são incorporadas ao cotidiano.

A psicóloga chama a atenção especialmente para a diferença entre compartilhar momentos da vida e depender da reação dos outros para avaliar a própria vida. “Quando você vive tendo o tempo todo que ser validado pelo outro, por uma curtida, por um encaminhamento, por quantas pessoas que te seguem, quem tem mais seguidores”, diz.

Essa lógica pode ser mais intensa para quem depende profissionalmente da exposição digital. Produzir vídeos, acompanhar o engajamento e permanecer disponível transforma o celular em instrumento de trabalho, mas também dificulta estabelecer uma fronteira entre vida profissional e pessoal. Para Thaís, essa fronteira merece atenção: “Até que ponto é o tempo que a pessoa só vai usar para ela e para o trabalho, onde fica o público e o privado?”

A psicóloga também chama a atenção para a comparação permanente. Nas redes, as pessoas normalmente encontram recortes da vida dos outros. Um vídeo de poucos minutos ou uma fotografia não revelam o conjunto da experiência de quem aparece na tela.

A comparação entre a vida cotidiana e essas imagens editadas pode afetar a autoestima. “Há um rebaixamento dessa autoestima, sim. Há tendência à depressão, há tendência a transtornos de ansiedade, a necessidade o tempo todo de pertencimento, de sentimento de inadequação, de vazio”, afirma.

O piloto automático e a anestesia emocional

Outro ponto abordado por Thaís é a dificuldade de perceber o próprio estado emocional. Quando trabalho, mensagens, compromissos e estímulos digitais se sucedem sem interrupção, a pessoa pode entrar no que ela descreve como “piloto automático”. Nesse processo, até distinguir bem-estar de mal-estar pode se tornar mais difícil.

“A partir do momento que você vive nesse piloto automático, você não sabe mais diferenciar o que é estar bem ou o que é não estar bem.”

Thaís relaciona essa situação a uma espécie de anestesia emocional. A pessoa cumpre suas obrigações, participa de atividades e mantém a rotina, mas pode não conseguir identificar claramente prazer, tristeza, cansaço ou insatisfação.

O problema, segundo ela, se agrava quando qualquer sensação de vazio precisa ser imediatamente preenchida. “Esse vazio que precisa existir, mas que não é olhado, porque precisa ser preenchido com estímulos, com vídeos, com engajamento, com curtidas e com validações.”

Reconhecer e nomear o que se sente passa, portanto, a ser parte importante do cuidado emocional. “Tudo que a gente dá nome, a gente consegue ajudar, a gente consegue se ajudar. O nomear é muito importante”, diz.

Descansar exige aprendizado

A pressão por produtividade pode alcançar até os momentos destinados ao descanso. Fazer nada passa a produzir culpa porque existe a sensação de que todo período disponível deveria ser preenchido por alguma atividade.

Thaís propõe questionar essa lógica. “O nada é uma arte”, afirma. Esse “nada” não significa necessariamente permanecer imóvel. Pode envolver ouvir música, ler ou simplesmente passar algum tempo sem a obrigação de produzir um resultado. A questão central é permitir que nem todas as atividades sejam avaliadas por produtividade, exposição ou aprovação externa.

A psicóloga também sugere observar a frequência com que aparece a expressão “ter que” na rotina: ter que responder, ter que produzir, ter que publicar, ter que demonstrar alguma coisa. “Sempre quando a gente tem que algo, a gente acaba saindo do ser”, diz.

A hora de prestar atenção

Não existe uma quantidade única de minutos ou horas nas redes sociais que determine quando o uso se tornou prejudicial. Thaís sugere olhar para as consequências. É preciso observar quanto tempo se passa nas redes, que tipo de conteúdo é consumido e, principalmente, o efeito desse uso sobre a vida cotidiana.

Problemas de sono, ansiedade, irritabilidade, perda de concentração, isolamento e prejuízos nos relacionamentos aparecem entre os sinais mencionados. A necessidade de curtidas e engajamento para se sentir bem também merece atenção.

“Até que ponto isso tá tomando a sua vida, o seu sono, as suas relações?”, questiona.

Na experiência clínica relatada por Thaís, muitas pessoas não procuram ajuda porque perceberam que estão usando demais as redes sociais. Elas chegam pelas consequências: estão mais irritadas, não conseguem conversar com a família, sentem necessidade de se isolar ou têm dificuldade para se desligar do celular.

Quando a exaustão e o sofrimento começam a interferir na vida profissional, familiar ou afetiva, a psicóloga recomenda buscar uma rede de apoio e ajuda especializada.

Ao fim da conversa, Thaís resume sua orientação pela busca de equilíbrio e pela preservação da própria identidade diante das pressões externas.

“Tá tudo bem você querer estar virtualmente, tá tudo bem você querer estar presencialmente, tá tudo bem não ter nenhuma rede social. Isso não é ser normal. Ser normal é ser você.”

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Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando as marcas ajudam a transformar solidão em pertencimento

A solidão deixou de ser apenas uma experiência individual e passou a ser tratada como um problema social e de saúde pública. Essa transformação também coloca novas questões para empresas e marcas, como destacaram Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

A discussão parte de uma característica básica das relações humanas: quando consumimos, nem sempre procuramos apenas produtos ou serviços. Também buscamos reconhecimento, convivência e a sensação de pertencer a algum grupo.

É nesse espaço que, segundo Cecília, as marcas podem desempenhar um papel que vai além da venda. “A gente não busca apenas produtos quando a gente vai comprar, mas a gente busca também aquele espaço de reconhecimento, de pertencimento.”

Um exemplo está nos grupos de corrida organizados ou estimulados por marcas esportivas. As pessoas chegam interessadas em exercício, saúde ou desempenho, mas muitas permanecem pela convivência. Aos poucos, surgem amizades, hábitos compartilhados, formas de vestir e até um vocabulário próprio. A corrida deixa de ser apenas uma atividade individual e se transforma em experiência coletiva.

Para Cecília, essa convivência tem impacto direto na relação com as marcas. A publicidade pode ajudar a comunicar valores e reforçar uma identidade, mas a experiência compartilhada cria outro tipo de memória. “A memória afetiva nasce dessa convivência e a marca precisa estar nesses espaços e promover essa visão de viver em grupo.”

Autonomia não substitui conexão

Jaime Troiano chama a atenção para um paradoxo. Durante anos, empresas investiram para dar autonomia aos consumidores. Vieram caixas eletrônicos, aplicativos, autoatendimento e, mais recentemente, ferramentas baseadas em inteligência artificial. Ganhamos independência para resolver tarefas sem depender de outras pessoas. Isso não significa, porém, que tenhamos deixado de precisar das pessoas.

“Embora a gente adore a autonomia, a gente precisa, de alguma forma, de conexão para viver bem”, diz Jaime.

O Sesc aparece como exemplo dessa capacidade de promover encontros. Esporte, cultura, shows, viagens, cursos e oficinas são atividades oferecidas pela instituição, mas seu efeito vai além de cada serviço isoladamente. Esses espaços aproximam pessoas, estimulam relacionamentos e produzem memórias.

Jaime recorre à própria experiência para ilustrar essa relação. Durante dez anos, frequentou com a família a colônia de férias do Sesc em Bertioga, litoral paulista. Dali ficaram amizades e lembranças construídas pela convivência. Ele também cita a Osesp e a Sala São Paulo como espaços em que a experiência cultural é acompanhada pelo encontro com outras pessoas.

A questão para as marcas, portanto, não é substituir produtos por relacionamentos nem transformar empresas em responsáveis por resolver a solidão. É perceber que, ao lado da eficiência, da tecnologia e da autonomia, existe uma necessidade humana que nenhuma tela consegue eliminar por completo: a de estar com os outros.

A marca do Sua Marca

Preço e tecnologia podem ser reproduzidos pela concorrência. Relações, memórias e senso de pertencimento são mais difíceis de copiar. A principal marca deste comentário é justamente essa: empresas capazes de criar experiências que aproximem pessoas podem construir vínculos que ultrapassam a relação tradicional entre consumidor e produto. Quanto mais a tecnologia nos permite fazer tudo sozinhos, maior pode ser o valor de uma marca que nos dê bons motivos para estarmos juntos.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: entre o apito final e o sinal da cruz

Atlético MG 3×0 Grêmio

Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Gremio x Atletico-MG
Krovinović entrou no segundo tempo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Domingo é dia de missa. Na minha paróquia, começa às seis da tarde. Costumo ir pela manhã a outra igreja próxima de casa quando as agendas cristã e futebolística se confundem. Nas rodadas dominicais em que o Grêmio entra em campo às quatro da tarde, assisto aos minutos derradeiros na tela do celular, na porta da igreja. Só desconecto no apito final do árbitro ou no sinal da cruz do padre — o que vier primeiro.

Hoje, confesso que cometi um sacrilégio. Não com Deus. Com o meu time. Nem nos piores momentos do Grêmio aceitei a ideia de abandonar a arquibancada antes do encerramento. Hoje, quando percebi que a partida ainda se estenderia até perto das seis da tarde (ou da noite), apaguei a TV e fui rezar. Não para o meu time. A Deus.

A minha desistência antecipada deste domingo é o sinal claro da desilusão que o Grêmio insiste em impor ao seu torcedor. Após a classificação à semifinal da Copa do Brasil e a vitória de virada na última rodada do Brasileiro, cheguei a me entusiasmar — e deixe isso registrado nesta Avalanche. A chegada de dois reforços menos badalados, mas que rapidamente entregaram bom desempenho também trouxe otimismo. Refiro-me a Wallace e Caito. A ressureição de Pavón, com dois gols de falta em duas partidas seguidas, era de fazer qualquer descrente se converter. A contratação do croata Filip Krovinović, em condições de estrear hoje, alimentava a esperança de que finalmente teríamos um camisa 10 capaz de dar qualidade ao meio de campo.

Já começamos a partida cientes da ausência de Villasanti, o volante mais qualificado do time. Assim como da de Marlon, único lateral esquerdo em quem podemos confiar. Controle de carga foi a justificativa que nos deram. Sei que é preciso preservar os jogadores fisicamente, mas não me parece que o Grêmio esteja em condições de pensar no que será o amanhã. Precisa de resultado — principalmente fora de casa — aqui e agora.

A escolha de Dodi em lugar de Villasanti — com todo o respeito que este abnegado meio-campista merece — era a indicação de que Luis Castro, antes de pensar na vitória, queria evitar uma derrota. Time com três volantes e nenhum deles com qualidade para sair jogando não poderia oferecer muito mais do que nos ofereceu no primeiro tempo. Pobre dos nossos atacantes, que passaram 45 minutos à espera de um milagre. Que, como se sabe, não aconteceu. A bola mal chegava aos pés deles para que desse sequência às jogadas em direção ao gol.

No segundo tempo, Krovinović veio para o jogo. Teríamos, enfim, um meio de campo mais criativo. Kanneman substituiu Gustavo Martins, provavelmente por questões físicas. E Tetê entrou no lugar de Pavón. Não me pergunte a razão. Talvez a crença do técnico que dali viria a redenção.  

E realmente o Grêmio melhorou em relação ao primeiro tempo — não que precisase fazer muito para isso. Chegou mais próximo da área. Pressionou mais. E, aos 14 minutos, quase empatou o jogo após a única ótima jogada do time. Caito desceu com velocidade até a linha de fundo e cruzou para Amuzu completar de primeira. Esperança à vista, pensou este sempre crente torcedor.

Ledo engano. 

Em seguida, a realidade ficou escancarada. Com um volante a menos e atacantes que não sabem voltar para ajudar na marcação, tomamos dois gols de contra-ataque em três minutos. 

Houve uma época em que, mesmo sem qualquer lógica, éramos capazes de superar todos os reveses. Ao menos acreditávamos que seríamos capazes. Quem sabe uma reação que nos permitisse continuar sonhando? Um gol que nos levasse a ficar grudado na televisão, cruzando os dedos, clamando aos deuses mundanos do futebol? Um empate heroico na casa do adversário?

Desculpe, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não encontrei em campo nenhum sinal de que algo parecido pudesse acontecer. Desliguei a TV, abandonei meu time antes de a partida terminar e fui à Igreja. O desalento é tamanho que sequer tive coragem de pedir dias melhores para o meu time. Penso que Deus tem coisa mais importante a fazer. O Grêmio que trabalhe e jogue um futebol capaz de nos fazer voltar a acreditar em milagres.

50 debates para o Brasil: porte de armas coloca em confronto defesa pessoal e segurança coletiva

Ampliar o número de pessoas autorizadas a circular armadas pode aumentar a capacidade de defesa individual, mas também traz a discussão sobre os riscos de colocar mais armas em circulação. O tema, sempre polêmico, foi debatido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN. Nós convidamos para participar da discussão o coronel André Batista, especialista em Segurança Pública e ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e André Zanetic, doutor em Ciência Política e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A lei brasileira diferencia posse e porte. A posse permite manter uma arma legalmente registrada em casa ou no local de trabalho. O porte, mais restrito, autoriza o cidadão a circular armado e depende do cumprimento de requisitos e de autorização da Polícia Federal.

Para o coronel André Batista, pessoas legalmente habilitadas devem ter a possibilidade de portar armas para defesa pessoal. Ele argumenta que a Constituição estabelece a segurança como dever do Estado, mas isso não significa que o poder público consiga proteger todas as pessoas permanentemente, especialmente em áreas dominadas pelo crime.

“O cidadão que vive nessas áreas não tem o Estado para protegê-lo 100% do tempo e não tem direito a se proteger”, afirmou. Para Batista, negar a possibilidade de defesa nessas circunstâncias compromete o próprio direito à vida.

André Zanetic reconhece que uma arma pode ser usada com sucesso para defesa pessoal. Sua divergência está na transformação dessa decisão individual em política pública. Segundo ele, é preciso avaliar o efeito produzido quando milhares ou milhões de pessoas passam a circular armadas.

“A gente pode tomar uma decisão pensando na própria proteção, mas uma política pública tem que sempre perguntar qual é o efeito dessa decisão quando ela é aplicada para milhares ou para milhões de pessoas”, disse.

Zanetic cita situações cotidianas em que a presença da arma pode aumentar a letalidade de um conflito. Em um roubo, por exemplo, uma reação armada da vítima pode transformar um crime contra o patrimônio em um episódio com mortes. Por isso, defende critérios rigorosos e fiscalização eficaz.

Para sustentar sua posição em favor de maior flexibilidade para o porte de armas, Batista lembrou o referendo de 2005, quando mais de 63% dos eleitores rejeitaram a proibição da comercialização de armas de fogo e munição. Também ressaltou que defender o porte não significa apoiar acesso indiscriminado. Para ele, treinamento e capacitação devem fazer parte das exigências impostas aos cidadãos.

Zanetic concentrou sua preocupação em outra etapa: o que acontece com uma arma depois que ela entra legalmente em circulação. Segundo ele, parte do armamento adquirido de maneira regular pode ser desviada para a ilegalidade, em um país que ainda apresenta dificuldades de controle e fiscalização.

A divergência, portanto, não se limita ao direito de possuir uma arma. Batista enfatiza a possibilidade de autodefesa diante das limitações do Estado. Zanetic chama a atenção para o efeito coletivo da maior circulação de armamentos. Entre a proteção individual e o risco social está a pergunta que permanece aberta: mais cidadãos armados significam mais segurança?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.