Avalanche Tricolor: o Grêmio está na briga

Internacional 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 453
Carlos Vinicius travou boas batalhas Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na tela da TV, o Gre-Nal. Na do celular, a entrevista de Lula, na Globo. Na do computador, o planejamento para a última sabatina com os candidatos à Presidência, que farei amanhã, aqui no Rio.

O momento é de decisão.

No campo, a dupla gaúcha disputava quem permaneceria vivo por pelo menos mais uma etapa da Copa do Brasil. Na política, o calendário avisa que faltam pouco mais de 30 dias para o eleitor fazer sua escolha.

Era preciso estar atento a tudo. Não vacilar. Foco total. No caso, multifoco.

Foi em meio a essa tensão que assisti ao clássico.

No primeiro tempo, fui surpreendido pelo Grêmio. Krovinovic deu qualidade ao passe. O time teve mais organização, ocupou mais os espaços e jogou melhor do que vinha jogando até aqui. Não que precisasse fazer muito para superar as últimas atuações.

Apesar da superioridade, chutou pouco a gol. E quem não faz só não leva se tiver força suficiente para se defender. Foi aí que o Grêmio mostrou algo de que o torcedor não pode reclamar nesta quarta-feira: entrega.

Deu pouco espaço ao adversário. Não havia bola perdida. Cada disputa parecia valer um pouco mais. E, quando a técnica se calou, a alma falou mais alto.

No segundo tempo, o Grêmio caiu de rendimento. Foi pressionado e teve dificuldades para sair jogando. Ainda assim, soube sofrer. E soube se defender. Isso também é mérito. Depois do que temos visto, é até motivo para comemorar.

Chegar vivo à Arena era o principal objetivo. Objetivo alcançado. Agora teremos uma semana para descobrir algo que continua desaparecido: o caminho do gol.

O jogo terminou empatado.

A entrevista, também.

Sabatina com Renan Santos: divida o candidato por três

Renan Santos, Missão
Renan Santos na sabatina Imagem: reprodução YouTube

Renan Santos entrou no estúdio da redação de O Globo com o cabelo penteado. Franja no lugar. Meia erguida. Calça bem esticada.

Uma assessora — sim, uma mulher —-, pente na mão, acompanhava os últimos ajustes. Cabelo, roupa, cada coisa no seu devido lugar.

Cenário pronto para o candidato reclamar:

— Me deixem ser quem eu sou.

A frase ficou comigo.

Quem é Renan Santos?

O candidato que apareceu para a Sabatina Globo, Valor e CBN não parecia o mesmo dos podcasts e do debate na Band. Ou talvez fosse. Apenas estava penteado de outro jeito.

Durante os 90 minutos de conversa com Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes, Lauro Jardim e comigo, Renan foi simpático desde a chegada. E continuou assim na despedida. Fez questão de dizer que estava diante de jornalistas que admirava.

Em algum momento, lembrou que é vocalista de uma banda de rock e brincou:

— Até pareço de esquerda. 

Definitivamente, não é.

Era outro Renan surgindo.

A equipe que o acompanhava era pequena. Fora do ar, falava-se das limitações financeiras da campanha. Nada de avião particular para atravessar o país. Nada de grande comitiva.

Dois dias antes, porém, o candidato havia passado horas fechado numa sala com sete correligionários preparando-se para a entrevista que daria ao Jornal Nacional. Estudaram os temas que poderiam aparecer. Só não imaginaram que a conversa começaria com bomba atômica.

Renan sobreviveu à explosão.

O treinamento e a entrevista da véspera certamente ajudaram a deixá-lo mais à vontade na nossa sabatina.

À vontade não significa passivo.

Quando discorda, sobe o tom. Quando se incomoda, o rosto denuncia. Faz ar de enfado. Argumenta. Interrompe. Pede para não ser interrompido. Depois volta a sorrir.

Renan parece saber qual personagem precisa ocupar em cada momento.

No debate, era o provocador. Na sabatina, surgiu o formulador. Citou Max Weber, falou de história, economia, direito, relações de trabalho, inteligência artificial e segurança pública.

No fim, perguntei sobre essa diferença.

Ele disse que não repetiria num próximo debate a postura do anterior. E explicou que continua sendo a mesma pessoa, embora momentos diferentes exijam comportamentos diferentes.

Talvez esteja aí uma chave para entender sua candidatura.

Renan se apresenta como candidato da ruptura. O slogan é radical. O vocabulário também. Fala em guerra contra o crime organizado, estado de defesa, fim da Justiça do Trabalho e enfrentamento do sistema político.

À medida que as ideias são escrutinadas, aparecem as gradações.

O homem que combate o Centrão admite que terá de negociar com ele. Ou com os “300 bandidos” que o eleitor “vai meter” no Congresso.

Recorre a Max Weber para explicar que sabe distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. Como militante e candidato, sustenta suas convicções. Como presidente, reconhece que precisará negociar.

Renan garante que sabe fazer política. Até com aqueles que costuma chamar de picaretas.

O candidato que admite não cumprir uma decisão judicial também diz que não pretende brigar com o Supremo. Define-se como um futuro presidente pacificador. Se uma decisão determinasse a interrupção de uma operação contra o crime organizado que considerasse legal e necessária, porém, recorreria, mas não retiraria imediatamente as forças de segurança.

— Não vou mandar um tanque e atropelar o Xandão.

O radicalismo encontra o rito processual.

A metamorfose aparece também quando o assunto são mulheres.

Declarações antigas dele e de companheiros políticos são apresentadas como brincadeiras de rapazes que cresceram — apesar de seguirem repetindo o discurso nas festinhas com os amigos e algumas aparições públicas. Renan diz que gosta de mulheres e oferece uma regra curiosa para interpretar certas conversas masculinas:

— Se um homem diz alguma coisa, divida por três, porque homens exageram.

A frase provocou risos.

E talvez explique mais sobre a candidatura do que Renan pretendia.

Divida por três.

Há o militante que aprendeu a chamar atenção nas redes e nas ruas. O candidato que precisa conquistar votos. E o político que pretende convencer o eleitor de que sabe governar.

Um provoca. Outro formula. O terceiro negocia.

Qual deles é o verdadeiro?

Talvez os três.

O rapaz que provoca para conseguir atenção, o candidato que penteia o discurso para ampliar o eleitorado e o político que já calcula as concessões necessárias para governar podem habitar a mesma pessoa.

Ao fim de uma hora e meia, a franja já não estava tão no lugar quanto na chegada.

Ou talvez estivesse exatamente onde Renan Santos queria que ela estivesse.

Na dúvida, divida por três.

50 debates para o Brasil: proibir redes sociais para menores protege crianças e adolescentes?

Crianças e adolescentes estão expostos a plataformas digitais projetadas para disputar sua atenção, estimular permanência e influenciar comportamentos. A discussão sobre proibir o acesso dos mais jovens às redes sociais foi tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com a educadora e terapeuta Amanda Zanetti e Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil.

Rafael argumentou que o Brasil já dispõe de um caminho diferente com o ECA Digital, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre os pontos destacados por ele estão o combate ao design abusivo — recursos construídos para induzir comportamentos ou prolongar o uso das plataformas —, a verificação de idade, a supervisão dos pais e limites à exploração comercial dos mais jovens.

Para ele, a proibição pode produzir uma sensação de segurança sem resolver o problema. Jovens poderiam contornar as barreiras usando VPNs, que permitem mascarar a localização do usuário, ou documentos de parentes. “O banimento parece uma resposta boa, mas é uma resposta muito simples, muito pobre”, afirmou.

Amanda defendeu que é preciso diferenciar inclusão digital de acesso às redes sociais. Restringir determinadas plataformas, argumentou, não significa afastar crianças e adolescentes do mundo digital. Para ela, não se pode transferir apenas às famílias e aos jovens a responsabilidade de enfrentar ambientes desenvolvidos para capturar atenção e explorar a busca por aprovação social.

“Uma restrição mais forte, uma política que vem regulamentando isso é necessário para que a gente não deixe isso só na mão ali dos adolescentes e das famílias”, disse. Amanda lembrou que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo a capacidade de autorregulação, o que aumenta a responsabilidade da sociedade e das empresas sobre os ambientes oferecidos a esse público.

O debate também avançou para uma questão anterior à proibição: o problema está no acesso ou na maneira como as plataformas funcionam?

Rafael sustentou que a prioridade deve estar no desenho das redes. Algoritmos de recomendação, feeds contínuos e outros mecanismos podem ser construídos para aumentar o tempo de permanência e estimular consumo. Para ele, responsabilizar as empresas por escolhas abusivas ataca diretamente esse modelo.

Amanda acrescentou outro elemento: educação digital. Para ela, famílias e escolas precisam preparar crianças desde cedo para compreender segurança, consentimento, proteção e os riscos do ambiente digital. Restringir o acesso, portanto, não elimina a necessidade de ensinar o jovem a lidar com essas plataformas quando tiver idade para utilizá-las.

As posições revelaram também uma área de convergência. Embora discordem sobre a necessidade de proibição, os dois debatedores defenderam maior responsabilidade das plataformas, proteção dos menores e educação para o uso do ambiente digital. A divergência principal está em até onde deve chegar a restrição e se o banimento é uma ferramenta necessária ou uma solução excessivamente simples para um problema mais complexo.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: Erika Magalhães, da Camil Alimentos, explica como integrar culturas após aquisições

Érika Magalhães, Camil Alimentos
Erika Magalhães em entrevisa online no Mundo Corporativo Foto: Débora Gonçalves CBN

“A gente não pode ter soberba de achar que somente quem tá comprando é o dono da razão.”

A Camil Alimentos realizou cinco aquisições no Brasil em cerca de quatro anos, ampliando sua atuação para categorias que vão de arroz e açúcar a pescados, massas, café e biscoitos. A expansão trouxe um desafio que não aparece necessariamente nas planilhas de uma operação desse tipo: como integrar pessoas, práticas e culturas diferentes sem destruir conhecimentos construídos pelas empresas adquiridas. A experiência da companhia na condução desses processos foi tema da entrevista de Erika Magalhães, diretora executiva de Gente e Gestão da Camil Alimentos, ao Mundo Corporativo, da CBN.

A executiva afirma que o trabalho de recursos humanos começa antes de a aquisição estar concluída. Assim que a operação permite o envolvimento das demais diretorias, o RH participa do planejamento, analisa políticas e procedimentos da empresa que será incorporada e procura entender como eles se relacionam com os processos da Camil.

Depois da assinatura, começa uma etapa que Erika define como os “primeiros 100 dias”. São estabelecidas atribuições e reuniões semanais para acompanhar a integração. O RH também se aproxima das lideranças e das equipes da empresa adquirida.

Essa presença tem uma razão prática: uma aquisição costuma ser acompanhada de dúvidas sobre empregos, funções, processos e mudanças na rotina.

“Eu vou pessoalmente naquela empresa adquirida, conversar com todas as lideranças e deixá-los à vontade também para se colocarem e colocarem suas questões do ponto de vista daquele momento, que é um momento que traz muita insegurança para quem tá sendo adquirido”, afirma.

Quem compra também precisa mudar

Um dos aprendizados relatados por Erika é que a integração não pode ser entendida como uma adaptação unilateral. Não basta ensinar aos profissionais que chegam como funciona a empresa compradora. A organização que recebe essas pessoas também precisa se preparar.

Ela usa a imagem de uma casa que receberá uma visita por bastante tempo. Os visitantes precisam compreender as regras daquele lugar, mas quem já mora ali terá de adaptar sua rotina à presença dos novos integrantes.

“Então, nunca num processo de aquisição é somente quem tá vindo que tem que se adequar. Quem tá aqui também precisa se adequar”, diz.

A lógica aparece também na capacitação profissional. A Camil criou mecanismos para preparar tanto os funcionários incorporados quanto aqueles que já estavam na companhia. Erika cita o exemplo de vendedores que passaram a trabalhar com categorias diferentes depois das aquisições.

“Não é só capacitar quem tá vindo para essa cultura Camil. É capacitar quem tá aqui dentro para absorver esse time e essa categoria ou essa nova empresa”, afirma.

Preservar o que funciona

A integração também exige decidir o que deve mudar e o que merece ser preservado. Um dos exemplos apresentados na entrevista surgiu com a aquisição da Mabel. A empresa tinha um programa de capacitação denominado Escola do Biscoito. Em vez de eliminá-lo para impor exclusivamente seus próprios processos, a Camil incorporou a iniciativa à Camil Academia.

Para Erika, o episódio traduz um princípio que deve orientar aquisições.

“A gente não pode ter soberba de achar que somente quem tá comprando é o dono da razão.”

Segundo ela, uma empresa adquirida pode ter processos próprios que carregam conhecimento e valor para o negócio.

“É uma fusão, é uma aquisição de conhecimento, de capital intelectual. Você não pode jogar tudo isso fora”, afirma.

A decisão sobre o que incorporar, segundo Erika, passa pelos valores e pelo propósito da companhia. Práticas compatíveis podem ser aproveitadas. As que entram em conflito com os valores da organização não são integradas.

Cultura colaborativa para aproximar empresas diferentes

A sequência de aquisições levou a Camil a reforçar internamente a discussão sobre cultura. A empresa desenvolveu uma jornada de cultura colaborativa, com pesquisas, grupos de discussão, revisão de competências, metas compartilhadas e treinamento de lideranças.

A proposta é estimular áreas e profissionais de origens diferentes a trabalhar em torno de objetivos comuns. O trabalho chegou também às equipes das fábricas, com jogos educativos presenciais e palestras online.

Os resultados da integração são acompanhados por diferentes indicadores. A companhia utiliza pesquisas de clima e engajamento, NPS, índices de rotatividade, avaliações por competências e planos de sucessão. Também observa a trajetória de profissionais provenientes das empresas adquiridas que passaram a ocupar outras funções e posições de liderança dentro da Camil.

Rotatividade zero não é necessariamente uma boa meta

Erika também contesta a ideia de que uma empresa deveria perseguir a ausência completa de rotatividade de funcionários. Para ela, mudanças fazem parte da vida profissional e podem ocorrer porque um ciclo terminou, o trabalhador deseja conhecer outro setor ou decidiu empreender.

“Você dizer que você não vai ter turnover, eu acho que é quase que romântico. Eu acho que nenhuma empresa não tem rotatividade de pessoas”, afirma.

O ponto central, segundo ela, é a maneira como as saídas são conduzidas. Isso vale também para aquisições, nas quais podem surgir sobreposições de funções e necessidade de reorganização das equipes.

“Acho que o mais importante para as áreas de recursos humanos, para as pessoas que trabalham com gente, é entender como este turnover que existe pode ser conduzido da forma mais respeitosa e correta possível.”

Quando o problema está na liderança

Um lugar-comum nas discussões sobre os motivos que levam os colaboradores a trocarem de emprego: as pessoas não deixam empresas, deixam seus chefes. Para reduzir esse risco, a Camil procura identificar problemas de liderança por meio de avaliações 360 graus, nas quais gestores são avaliados por subordinados, pares, superiores e por eles próprios.

Erika explica que algumas situações exigem intervenções específicas. A empresa utiliza programas de mentoria para gestores que precisam rever comportamentos e práticas de liderança.

“Existem gestores que precisam ser mentorados de forma metodológica, eles precisam passar por um mentor, seja externo, seja interno, para ele corrigir determinadas atitudes”, diz.

Para a executiva, tecnologia e inteligência artificial ampliam os recursos disponíveis às organizações, mas não eliminam a dimensão humana da gestão. Ela considera mais simples desenvolver conhecimentos técnicos do que modificar comportamentos.

“Eu acho que desenvolver o técnico é mais fácil. Você treina, você desenvolve uma habilidade técnica, mas as habilidades comportamentais são as mais difíceis. Esse é um papel que é indelegável, tanto do RH quanto da liderança.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Sabatina com Ronaldo Caiado: uma corrida contra o tempo

Ronaldo Caiado
Caiado na sabatina Foto: reprodução do vídeo no YouTube

Caiado chegou reclamando do tempo e foi embora clamando por mais tempo.

Antes de a nossa sabatina começar, contou que os 40 minutos destinados a ele na noite anterior, na TV Globo, eram poucos para detalhar seu plano de governo. Por isso, precisou ser mais genérico. Na abertura da conversa, voltou ao assunto: “a eleição é muito curta”.

Pensei que a hora e meia das nossas sabatinas saciasse a fome de falar do candidato.

Ledo engano.

Ao encerrarmos, Caiado ainda sugeriu que poderia ficar com o tempo destinado a Lula e Flávio Bolsonaro, que não aceitaram nosso convite. “Você poderia ter me dado as três horas que eles teriam direito para eu poder continuar aqui o debate”, disse.

O tempo é realmente um problema para o ex-governador de Goiás.

Não apenas porque ele gosta de falar. E fala muito. Caiado parece apreciar o exercício da oratória. A pergunta oferece o ponto de partida; ele escolhe o percurso. Há respostas que começam em Brasília, fazem escala em Goiás e precisam ser conduzidas de volta ao assunto original.

O problema maior é que o relógio eleitoral não tem a mesma paciência.

Faltam 39 dias para o primeiro turno. Caiado precisa convencer o eleitor de que é uma alternativa a Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, de que seria capaz de derrotar Lula no segundo turno.

Na sabatina promovida por Globo, Valor e CBN, ao lado de Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes e Lauro Jardim, ficou claro que ele decidiu não economizar palavras nem adversários.

Bateu forte em Lula. Criticou Flávio Bolsonaro e sua família. Atacou decisões e comportamentos de ministros do Supremo. E, quando dados negativos de Goiás eram apresentados, frequentemente contestava os dados, a interpretação ou a fonte.

Foi assim na discussão sobre o crescimento dos feminicídios no estado. Caiado relativizou a estatística, recorreu à conhecida imagem da pessoa com a cabeça no forno e os pés no freezer (mesmo que a analogia estivesse fora do tempo) e, em seguida, enumerou as políticas que adotou para proteger mulheres.

Também reagiu quando uma pesquisa acadêmica colocou sob escrutínio mortes em intervenções policiais em Goiás. Em vez de se limitar aos números, questionou o trabalho e sugeriu que seu autor pudesse ter vínculos com grupos ligados à defesa de integrantes de facções.

Caiado não gosta de perder o controle da narrativa sobre Goiás.

E compreende-se por quê. Seu estado é o principal argumento de sua campanha.

Na economia, lembra as dificuldades fiscais que encontrou. Na educação, fala das escolas, dos computadores, da alimentação e até da grama esmeralda — para falar dela encontrou tempo, repetiu o feito umas três vezes. Na segurança, cita a redução dos homicídios. Sempre que perguntamos sobre o Brasil que pretende governar, Goiás aparece como prova de que ele sabe fazer.

A questão é saber como transformar Goiás em Brasil.

Esse desafio apareceu quando cobramos detalhes do programa econômico. Caiado promete estabilizar a dívida pública, preservar ganhos do salário mínimo, aposentadorias e pisos de saúde e educação, além de manter políticas sociais. Para fechar a conta, fala em combater excessos, rever incentivos fiscais e reorganizar gastos.

Quando pedimos definições mais concretas, porém, algumas ficaram para depois.

Na discussão sobre a escala 6×1, por exemplo, declarou-se favorável à redução da jornada, mas disse que ainda seria preciso encontrar uma solução para pequenas e microempresas. Instado a apresentar essa solução, não a apresentou. Pouco depois, resumiu sua personalidade política numa frase: “Eu sou sim ou não? Quente ou frio? Morno eu vomito.”

Talvez tenha sido o melhor retrato daqueles 90 minutos.

Caiado gosta das temperaturas altas do discurso. Fala com convicção, repete palavras, interpela os entrevistadores, conta histórias, usa exemplos médicos e imagens religiosas. Às vezes responde à pergunta com outra pergunta. Outras vezes contesta a premissa.

Não é um candidato de voz baixa.

Nem de respostas pequenas.

Quando perguntamos como pretende conquistar os eleitores que hoje estão com Flávio Bolsonaro, ele praticamente apresentou sua estratégia: gostaria de ter oportunidades frequentes para falar por uma hora e meia.

Voltamos, portanto, ao tempo.

Talvez Caiado acredite que seu principal problema eleitoral seja de exposição: se tiver minutos suficientes, conseguirá explicar quem é; se explicar quem é, convencerá o eleitor; se convencer o eleitor, romperá a polarização.

Há uma crueldade no calendário eleitoral.

Pode-se pedir mais cinco minutos ao entrevistador. Pode-se lamentar os 40 minutos da televisão. Pode-se reivindicar as horas deixadas na mesa pelos candidatos ausentes.

Não se pode pedir mais 39 dias ao calendário.

Para Ronaldo Caiado, a questão talvez não seja conseguir mais tempo para falar.

É descobrir, antes que o tempo acabe, o que precisa dizer.

Assista à sabatina Globo, Valor e CBN com Ronaldo Caiado

50 debates para o Brasil: casamento homoafetivo opõe igualdade de direitos e concepções sobre a família

Há 15 anos, casais do mesmo sexo podem formar uma família reconhecida juridicamente no Brasil, mas esse direito ainda não está expresso em uma lei aprovada pelo Congresso Nacional. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Maria Berenice Dias, vice-presidente nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), e Dienny Riker, doutora em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

O ponto central do debate foi se o Congresso deve incluir expressamente na legislação o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o tema deve permanecer submetido às regras atuais e à interpretação consolidada pela Justiça?

Desde 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça determinou que os cartórios não podem se recusar a celebrar casamentos civis homoafetivos ou converter uniões estáveis em casamento.

Contrária à mudança na legislação, Dienny Riker argumentou que a divergência não está no valor afetivo das relações homoafetivas, mas no próprio conceito de casamento. Para ela, historicamente o Estado regulamenta o casamento por sua relação com a formação da família, a geração de filhos e a responsabilidade dos pais.

“O Estado não tem interesse em regular a nossa afetividade”, afirmou. Segundo Riker, redefinir o casamento apenas a partir do vínculo afetivo enfraquece a relação histórica entre casamento, sexualidade e parentalidade.

Ela também argumentou que a preservação do casamento como união entre homem e mulher está relacionada à liberdade religiosa e de consciência. Na sua avaliação, pessoas que adotam essa concepção por razões religiosas ou filosóficas devem ter o direito de manifestá-la sem serem tratadas como homofóbicas.

Maria Berenice Dias contestou a ideia de que a finalidade principal do casamento seja a procriação. Para ela, essa interpretação não corresponde à realidade das famílias brasileiras.

“O casamento não tem a finalidade de procriação”, afirmou. Ela lembrou que casais heterossexuais podem se casar mesmo quando não desejam ou não podem ter filhos. Também destacou que casais homoafetivos podem exercer a parentalidade por adoção ou reprodução assistida.

Na sua interpretação, o Estado deve reconhecer relações que criam direitos, deveres e consequências patrimoniais, independentemente da orientação sexual dos integrantes do casal. “Essa é a finalidade do Estado”, disse.

Outro ponto de divergência foi o papel do Legislativo. Riker sustentou que a ausência de uma lei aprovada pelo Congresso indica que não houve consenso social suficiente para alterar o conceito tradicional de casamento. Ela questionou o fato de uma mudança dessa dimensão ter ocorrido pela via judicial e não por votação dos representantes eleitos.

Maria Berenice rejeitou a interpretação. Segundo ela, a resistência parlamentar pode refletir o receio dos congressistas de contrariar parcelas conservadoras do eleitorado, e não necessariamente a posição da maioria da população. Para a jurista, deixar essas relações sem reconhecimento expresso na legislação contribui para manter famílias juridicamente vulneráveis.

O debate coloca frente a frente diferentes concepções sobre família, igualdade perante a lei, liberdade religiosa e o papel do Congresso e do Judiciário na definição de direitos civis.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

A CBN lidera entre as rádios de notícias preferidas pelos principais executivos do país

Radio CBN

Pesquisa sobre os hábitos de informação de presidentes, vice-presidentes e diretores de empresas mostra que 54% dos entrevistados citam a CBN entre suas rádios de notícias favoritas.

O percentual era de 52% em 2021.

A CBN aparece bem à frente das demais emissoras citadas: a Rádio Bandeirantes tem 25% das menções e a Jovem Pan, 23%.

O levantamento foi feito pela agência InPress Porter Novelli e pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, o IBPAD.

Foram entrevistados 107 executivos de 13 setores da economia, entre abril e julho deste ano. Nove em cada dez trabalham em empresas de grande porte.

A pesquisa revela também uma mudança interessante no consumo de informação: jornais e podcasts ganharam espaço nos últimos cinco anos.

Os sites e portais de notícias continuam sendo a principal fonte de informação geral, citados por 64% dos executivos.

Os jornais impressos aparecem com 22%, um crescimento de 12 pontos percentuais desde 2021.

O maior avanço foi dos podcasts. Eles passaram de apenas 3% para 17% das preferências — aumento de 14 pontos percentuais.

E a CBN também aparece nesse formato.

Entre 93 podcasts diferentes mencionados pelos executivos, os podcasts da CBN ficaram com 7% das citações, empatados com os da Market Makers. À frente aparecem O Assunto, do g1, e Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, ambos com 10%.

A pesquisa mostra ainda que 84% dos executivos têm um jornal impresso favorito. Em 2021, eram 47%.

O Valor Econômico lidera, citado por 63% dos entrevistados que apontaram jornais favoritos. Em 2021, eram 32%.

Na televisão, a GloboNews lidera entre os canais e telejornais mencionados, com 45% das citações.

E há presença da CBN também entre os jornalistas considerados mais influentes.

Lauro Jardim, de O Globo e comentarista da CBN, lidera a lista, com 15% das citações. Malu Gaspar, de O Globo, CBN e GloboNews, aparece logo depois, com 14%. Míriam Leitão, que também participa da programação da CBN, tem 12%.

O levantamento indica que, mesmo com o crescimento das redes sociais e da inteligência artificial, executivos continuam recorrendo a veículos jornalísticos para confirmar informações e tomar decisões.

Em média, os entrevistados passam duas horas por dia consumindo informação. Desse total, 73 minutos são dedicados ao noticiário geral.

Puxadores de votos: o partido oferece, mas quem escolhe é o eleitor

Por Christian Müller Jung

Nezinho do Jegue

A busca por votos no ambiente digital transformou as redes sociais na principal vitrine da política moderna. Quando partidos abrem espaço para influenciadores e personagens populares em suas listas de candidatos a deputado estadual e federal, porém, essa estratégia pode ir muito além da simples busca por popularidade: está relacionada também ao funcionamento do nosso sistema eleitoral.

Para entender essa dinâmica, vale olhar para o modo como as vagas na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas são distribuídas e para o impacto que esse modelo produz no debate público.

No Brasil, a eleição para deputado é proporcional. Isso significa que os votos dados aos candidatos de um mesmo partido ou federação, somados aos votos dados diretamente à legenda, ajudam a definir quantas cadeiras aquele grupo político terá direito de ocupar.

É aí que entram os candidatos de grande apelo popular. Uma votação expressiva aumenta o total de votos do partido ou da federação e pode contribuir para que o grupo conquiste mais cadeiras. Por isso, candidatos com grande capacidade de atrair eleitores são conhecidos como “puxadores de votos”. O sistema atual, porém, estabelece limites para que candidatos com votação individual muito baixa sejam beneficiados pelo desempenho da legenda.

Para os partidos, uma votação expressiva também pode produzir efeitos que vão além da eleição daquele candidato, aumentando sua representação política e influenciando a distribuição de dinheiro e espaços destinados às legendas. Essa estratégia, porém, traz efeitos colaterais e pode transformar a política em um espetáculo de entretenimento.

A popularidade, por si só, não prepara ninguém para a rotina parlamentar, que envolve análise de orçamentos, fiscalização do Executivo, negociação política e votação de reformas e leis de grande impacto. Quando a notoriedade é o principal atributo eleitoral de um candidato, surge uma questão legítima: ele está preparado para exercer as responsabilidades do mandato?

Ao mesmo tempo, impor regras rígidas ou testes para medir a capacidade técnica de um candidato esbarra no coração da democracia: o direito de todo e qualquer cidadão de votar e ser votado. Exigências de escolaridade, renda ou outras formas de qualificação já foram usadas historicamente para restringir a participação política de parcelas da população. O Parlamento não foi desenhado para ser um conselho de doutores, mas um espelho da sociedade, aberto a diferentes vozes, experiências e manifestações do eleitorado.

O sistema já passou por ajustes para reduzir algumas dessas distorções, inclusive com a exigência de votação individual mínima em determinadas etapas da distribuição das cadeiras. Ainda assim, permanece uma questão que nenhuma regra eleitoral resolve sozinha: a responsabilidade dos partidos na seleção de seus candidatos e a dos eleitores na escolha de seus representantes.

Diante desse cenário, fica a provocação central: de quem é a responsabilidade pela desvalorização do processo político no Brasil?

É dos partidos, quando apostam em figuras públicas de grande popularidade na expectativa de transformar notoriedade em votos, mesmo quando existem dúvidas sobre o preparo desses candidatos para a complexidade do cargo?

Ou é do eleitor, quando escolhe um candidato pelo protesto, pela fama ou pela identificação com um personagem, sem considerar suas propostas e sua capacidade para exercer o mandato?

Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: até onde vai a responsabilidade de quem oferece o candidato e onde começa a responsabilidade de quem deposita o voto?

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

Relacionamentos em transformação

Por Beatriz Breves

Sou do tempo em que era o homem quem pedia a moça em namoro. Se o namoro “firmasse”, viria o noivado — com aliança na mão direita —, seguido do casamento de véu e grinalda, quando a aliança passaria para a mão esquerda.

Simples assim. Ou, pelo menos, assim parecia.

A separação já existia, mas era chamada de desquite. O casal deixava de viver junto, porém o vínculo matrimonial não era dissolvido. O divórcio somente se tornou possível no Brasil em 1977, quando eu já tinha 20 anos.

Sou também do tempo em que o homem era considerado o chefe da família e detinha poder legal sobre a mulher. O Código Civil de 1916 incluía a mulher casada entre as pessoas relativamente incapazes. Para trabalhar, viajar e praticar diversos atos da vida civil, ela dependia da autorização do marido.

Em 1962, quando eu tinha cinco anos, o Estatuto da Mulher Casada modificou essa condição. A mulher deixou de ser considerada civilmente incapaz em razão do casamento e passou a ter maior autonomia sobre sua vida.

Entretanto, foi somente com a Constituição de 1988, quando eu tinha 31 anos, que a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres foi plenamente estabelecida.

O novo Código Civil, em vigor desde 2003, consolidou essa igualdade nas responsabilidades conjugais e, em 2006, a Lei Maria da Penha ampliou a proteção da mulher contra a violência doméstica.

Portanto, durante boa parte da minha vida, convivi com modelos sociais bastante rígidos, que determinavam como homens e mulheres deveriam se comportar, o que lhes era permitido desejar e até que lugar deveriam ocupar dentro de uma relação.

Isso não significa que os relacionamentos fossem verdadeiramente simples. Significa apenas que havia um roteiro previamente estabelecido. As relações já recebiam uma forma antes mesmo de as pessoas começarem a vivê-las.

Hoje, aos 69 anos, percebo quanto esse cenário mudou.

Não pretendo discutir se mudou para melhor ou para pior. Houve ganhos fundamentais e também surgiram novos desafios. O que me chama a atenção é que, enquanto antes havia praticamente um único caminho reconhecido, hoje encontramos inúmeras formas, circunstâncias e dinâmicas de relacionamento.

Diante de tantas possibilidades, fiz o que costumamos fazer quando queremos compreender alguma coisa: perguntei à internet quais tipos de relacionamento existem atualmente. Encontrei pelo menos 34 denominações.

  1. Monogâmico – Exclusividade entre duas pessoas.
  2. Longa duração – Vínculo mantido por muitos anos.
  3. Intercultural – União entre culturas diferentes.
  4. À distância – Parceiros vivem em lugares distintos.
  5. Distância temporária – Separação física por período limitado.
  6. LAT – Casal que não divide residência.
  7. Slow dating – Aproximação afetiva gradual.
  8. Poligâmico – União com vários cônjuges.
  9. Poliamoroso – Múltiplos amores consensuais.
  10. Trisal – Relação amorosa entre três pessoas.
  11. Aberto – Casal com liberdade sexual acordada.
  12. Namoro não exclusivo – Namoro sem exclusividade acordada.
  13. Solo-poliamor – Poliamor com autonomia individual.
  14. Anarquia relacional – Vínculos sem hierarquias predefinidas.
  15. Híbrido – Combinação de diferentes formatos relacionais.
  16. Casual – Envolvimento sem compromisso duradouro.
  17. Amizade colorida – Amizade com envolvimento sexual.
  18. Friends with benefits – Amizade com benefícios sexuais.
  19. Situationship – Vínculo afetivo sem definição.
  20. Relação de conveniência – União mantida por vantagens práticas.
  21. Relação de fachada – União sustentada pelas aparências.
  22. Virtual – Relacionamento vivido principalmente online.
  23. Sugar – Companhia associada a benefícios materiais.
  24. Coparentalidade – Parceria voltada à criação dos filhos.
  25. Contrato relacional – Vínculo baseado em acordos explícitos.
  26. BDSM – Práticas consensuais de poder e prazer.
  27. Espiritual – União baseada em conexão espiritual.
  28. Dependência financeira – Vínculo sustentado por necessidade econômica.
  29. Agamia – Vínculos fora do modelo de casal.
  30. Assexual – Relação sem centralidade do sexo.
  31. Queerplatônica – Vínculo profundo além da amizade convencional.
  32. Apoio mútuo – Relação baseada em cuidado recíproco.
  33. Codependente – Dependência emocional com perda de autonomia.
  34. Tóxico – Vínculo que provoca danos recorrentes.

A lista é longa e provavelmente ainda está incompleta. Sob a expressão “tipos de relacionamento”, a internet reúne formatos de vínculo, circunstâncias de vida, acordos afetivos, práticas sexuais e também maneiras saudáveis ou prejudiciais de se relacionar.

Essa mistura revela, por si só, a complexidade do nosso tempo e mostra que o nome dado a uma relação já não é suficiente para compreendermos como ela se constitui.

Se antes havia um roteiro único, agora existem muitos caminhos possíveis.

A liberdade conquistada foi fundamental. Ela permitiu que as pessoas questionassem papéis impostos, reconhecessem diferentes formas de amar e construíssem vínculos mais compatíveis com aquilo que sentem e desejam.

Entretanto, a liberdade não elimina a necessidade de alguma organização. Talvez a sensação de que hoje “vale tudo” não resulte da diversidade dos relacionamentos, mas da confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade. Um vínculo pode assumir muitas formas, mas todas elas produzem efeitos sobre as pessoas envolvidas.

Quando duas pessoas se vinculam, algo começa a se constituir entre elas. Formam-se maneiras de se aproximar e de se afastar, ritmos de convivência, expectativas, limites, silêncios, acordos explícitos e acordos que jamais foram pronunciados.

Pouco a pouco, cada relação adquire um modo próprio de existir, que não pertence inteiramente a uma pessoa nem à outra, mas àquilo que ambas produzem no encontro.

Essa organização não é definida pelo nome dado ao relacionamento. Todo vínculo, tradicional ou não, organiza-se de alguma maneira. A diferença não está entre relações organizadas e desorganizadas, mas nas formas de organização que elas assumem e nos efeitos que produzem sobre as pessoas envolvidas.

Um casamento pode organizar-se de maneira rígida, assimétrica ou dolorosa, enquanto um vínculo que não corresponde aos modelos tradicionais pode organizar-se com clareza, reciprocidade e cuidado.

O desafio contemporâneo talvez seja justamente este: não retornar à rigidez do passado, mas compreender que relações flexíveis não precisam ser relações sem forma.

Sou do tempo em que a forma vinha antes do encontro. Hoje, é o encontro que precisa descobrir a sua forma.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sabatina com Romeu Zema: entre a camiseta e a realidade

Romeu Zema
Romeu Zema no estúdio de O Globo Foto: reprodução do video no YouTube

A primeira pergunta da sabatina de Romeu Zema começou a ser respondida antes mesmo de ele se sentar diante de nós. O candidato do Novo à Presidência chegou vestindo uma camisa preta. No peito, em letras grandes, uma mensagem que dispensava interpretação: “Chega de Bet.”

Uma hora e meia depois, eu havia entendido que a camiseta dizia mais do que parecia.

Não apenas sobre as casas de apostas.

Ao lado de Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes e Lauro Jardim, entrevistei Zema na primeira sabatina promovida em conjunto por Globo, Valor e CBN. Foram 90 minutos de perguntas sobre contas públicas, Previdência, relações com o Congresso, privatizações, segurança, educação, trabalho, corrupção e, claro, bets.

Zema fala como empresário. Gosta de exemplos do varejo, compara governo com empresa, emprego com casamento, política pública com administração doméstica. E gosta de propostas que chegam ao eleitor sem precisar de manual de instruções.

“Chega de Bet” é uma delas.

Só que governar costuma ser mais complicado do que estampar uma camiseta.

Quando Malu Gaspar perguntou se ele realmente pretendia acabar com as casas de apostas, a resposta foi ganhando condicionantes. Zema criticou a publicidade, comparou o vício em apostas a uma “cocaína psíquica” e defendeu restrições severas. Diante da pergunta direta sobre a proibição, veio a ressalva: quer acabar; se não for possível, pretende impor limites muito rigorosos.

Há ainda uma ironia nessa história. Como governador, Zema concedeu a Loteria Mineira, que passou a operar também apostas online. Questionado sobre a aparente contradição, argumentou que o Estado seguia a legislação federal e que, como governador, tinha a obrigação de buscar receitas para Minas.

A camiseta dizia “chega”. A resposta dizia algo mais próximo de “vamos ver como”.

Esse movimento apareceu outras vezes durante a conversa.

O programa de governo do Novo fala em privatização completa das estatais. Carlos da Costa, que cuida do programa econômico de Zema, havia sido enfático nesta questão, semana passada, em entrevista no Jornal da CBN.

“Tudo” é outra dessas palavras que funcionam muito bem em campanha. É curta, forte e não deixa espaço para dúvidas.

Até aparecerem as dúvidas.

Perguntamos se “tudo” incluía a Embrapa.

Não.

E a Caixa Econômica Federal?

Também não.

Zema disse que a Caixa exerce uma função social e a comparou a um braço da assistência social do governo. Banco do Brasil e Petrobras, sim, entrariam no projeto. E não simplesmente como estão hoje: ele cogita dividir o Banco do Brasil em três ou quatro instituições e fatiar a Petrobras, inclusive por refinarias e regiões, com o argumento de ampliar a concorrência.

Portanto, privatizar tudo não é exatamente privatizar tudo.

É nessas horas que uma sabatina cumpre uma de suas funções mais interessantes. O slogan chega inteiro. A pergunta vai retirando as embalagens.

A Previdência ofereceu outro exemplo.

O programa promete uma reforma “definitiva”. Quando Lauro Jardim pediu números — qual seria a nova idade mínima, quanto seria necessário aumentar, qual seria a conta — Zema não apresentou uma idade.

Sua proposta é outra: criar um mecanismo automático que ajuste as regras à medida que aumentar a expectativa de vida dos brasileiros.

E aí surgiu uma informação importante. A mudança valeria essencialmente para quem está entrando no mercado de trabalho e produziria efeitos ao longo de 20, 30 ou 40 anos. O próprio candidato apresentou o projeto como um legado, um mecanismo destinado a evitar que o país precise fazer uma grande reforma da Previdência a cada alguns anos.

A reforma “definitiva”, portanto, não é uma grande tesourada imediata. É uma régua que se moveria com o tempo.

No salário mínimo, o ajuste do discurso foi ainda mais explícito.

Diante da discussão sobre a necessidade de controlar as despesas obrigatórias, perguntamos se mudaria a política de reajuste. Zema respondeu que não. Disse que o salário mínimo terá, no mínimo, reposição da inflação e, questionado especificamente sobre a regra atual de ganho real, afirmou que ela não mudaria. Também garantiu que aposentadorias e BPC continuariam vinculados ao reajuste do mínimo.

Isso cria uma questão que provavelmente acompanhará sua campanha: onde estará, afinal, o corte capaz de produzir o ajuste fiscal que ele apresenta como ponto de partida para seu governo?

No começo da sabatina, fiz justamente essa pergunta. Todos os candidatos dizem que precisam cortar gastos. O difícil é dizer onde e quanto.

Zema citou reforma administrativa, combate a fraudes, redução de despesas e sua experiência em Minas. Apresentou exemplos de contratos que, segundo ele, foram renegociados por valores muito menores. O número concreto do corte federal, porém, não apareceu.

Essa talvez seja uma das contradições mais interessantes de sua candidatura.

Zema vende a imagem do gestor disposto a fazer aquilo que a política tradicional não faz. É o candidato do Estado menor, das privatizações, do corte de gastos e da redução de privilégios. Quando a conversa passa do princípio para a execução, porém, aparecem as exceções, as transições e as dificuldades políticas.

Nem sempre isso significa contradição. Muitas vezes significa apenas que a realidade entrou na sala.

A segurança pública mostrou algo semelhante.

Zema cita El Salvador como referência e esteve pessoalmente no país para conhecer a política de Nayib Bukele. Quando perguntamos quais medidas salvadorenhas traria para o Brasil, afastou justamente os instrumentos mais controversos do modelo: não defendeu restrições ao habeas corpus nem a adoção das medidas de exceção que permitiram prisões em massa.

O que pretende importar, disse, é o conceito de retomada de territórios dominados pelo crime organizado. Entre as mudanças concretas, propôs prisão preventiva a partir da terceira reincidência e regras mais duras para quem rompe tornozeleira eletrônica.

De novo: El Salvador, pero no mucho.

Talvez seja inevitável. Campanhas eleitorais vivem de frases curtas; governos vivem de letras miúdas. A primeira precisa caber na camiseta. A segunda precisa caber na Constituição, no Orçamento, no Congresso e, de preferência, na realidade.

Ao final de uma hora e meia, Zema brincou dizendo que nós quatro havíamos preparado uma “metralhadora” de perguntas contra ele e que, apesar disso, estava saindo vivo. Depois voltou à imagem que pretende levar à campanha: a do empresário que recuperou Minas e agora quer repetir a experiência no Brasil. Disse que havia tirado “o Titanic do fundo do mar” e que faria o mesmo com o país.

Saí da sabatina pensando menos no Titanic e mais na camiseta.

Ela continuava dizendo “Chega de Bet”.

Depois de 90 minutos de conversa, eu acrescentaria mentalmente uma linha menor, dessas que quase nunca aparecem nos slogans eleitorais:

Chega. Desde que seja possível.

Assista à sabatina com Romeu Zema