Viver a vida com Alzheimer: entre estigmas, cuidados e possibilidades de participação

Viver a vida com Alzheimer
Ilustração criada por IA pelo autor

A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva associada ao comprometimento de funções cognitivas, isto é, de processos mentais relacionados à percepção, atenção, memória, linguagem, orientação, tomada de decisão e execução de atividades cotidianas.

Entre as demências, a doença de Alzheimer é a forma mais prevalente. Embora ainda não exista cura, os avanços nas estratégias farmacológicas, não farmacológicas e de reabilitação têm ampliado as possibilidades de manejo da condição e de manutenção da funcionalidade por diferentes períodos.

O envelhecimento populacional tem contribuído para o aumento do número de pessoas que vivem com demência. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras (Renade) estima que aproximadamente 8,5% da população com 60 anos ou mais conviva com a condição, o que corresponde a cerca de 2,71 milhões de pessoas.

As projeções indicam que esse número poderá alcançar 5,6 milhões de casos até 2050. Ou seja, a demência não constitui apenas uma questão clínica, mas também um desafio social, assistencial, econômico e urbano.

Nesse contexto, o cuidado não pode ser compreendido exclusivamente a partir das intervenções farmacológicas ou dos atendimentos realizados pelos serviços de saúde.

O ambiente construído também participa da experiência cotidiana da pessoa com demência. A residência, os espaços de convivência, os equipamentos públicos, os meios de transporte e os percursos pela cidade podem favorecer ou restringir sua autonomia, orientação, segurança e participação social.

A configuração espacial da residência, a disposição dos móveis, a organização dos percursos, a iluminação, os níveis de ruído, os contrastes visuais, a sinalização e até mesmo elementos aparentemente simples, como o desenho e o sistema de acionamento de uma torneira, podem interferir na realização das atividades cotidianas.

Uma barreira ambiental aparentemente pequena pode dificultar uma tarefa habitual, enquanto uma adaptação planejada de acordo com as capacidades e necessidades da pessoa pode contribuir para a preservação de sua funcionalidade. Por essa razão, pensar o cuidado também significa pensar os ambientes nos quais ele acontece.

Essa perspectiva dialoga com o conceito de Aging in Place, segundo o qual permanecer em casa e na comunidade pode constituir um importante recurso para a qualidade de vida das pessoas idosas, inclusive após o diagnóstico de demência.

Permanecer no ambiente conhecido, manter vínculos sociais e continuar realizando atividades significativas podem contribuir para a preservação de referências espaciais, relações de pertencimento e possibilidades de participação. Isso, entretanto, não significa ausência de apoio. Ao contrário, pressupõe uma rede capaz de oferecer diferentes níveis de assistência conforme as necessidades da pessoa se modificam.

A restrição da vida cotidiana ao espaço doméstico, motivada pelo receio dos familiares, pela falta de informação ou pelo despreparo dos cuidadores, pode produzir consequências que ultrapassam a proteção pretendida.

Quando a pessoa com demência deixa de circular, encontrar outras pessoas, realizar atividades e participar da vida comunitária, ocorre uma redução de estímulos sociais, físicos, cognitivos e sensoriais.

Essa privação pode contribuir para o agravamento da dependência, para o aparecimento ou a intensificação de alterações comportamentais e psicológicas e, consequentemente, para o aumento das demandas relacionadas ao cuidado de longa duração.

A responsabilidade por esse cuidado também não pode permanecer concentrada exclusivamente nas famílias.

Dados do cenário brasileiro evidenciam a dimensão desse problema. Atualmente, parcela expressiva das pessoas idosas depende do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto os custos associados à demência aumentam conforme a progressão da condição.

Segundo dados do Renade, a participação dos gastos públicos é elevada nos diferentes estágios da demência, e aproximadamente 73% dos custos recaem sobre os familiares. Esse cenário torna evidente a necessidade de ampliar as políticas públicas de apoio às pessoas com demência e àqueles que delas cuidam.

A sobrecarga familiar torna-se ainda mais complexa diante das transformações demográficas e sociais contemporâneas. O aumento da população com 80 anos ou mais ocorre simultaneamente a mudanças na composição das famílias, na participação das mulheres no mercado de trabalho e na disponibilidade de pessoas para exercer atividades de cuidado não remunerado.

Dessa forma, pressupor que a família será capaz de absorver de maneira isolada todas as necessidades decorrentes da progressão de uma demência torna-se cada vez menos compatível com a realidade social brasileira.

Algumas experiências internacionais demonstram que existem alternativas para a construção de redes de cuidado mais distribuídas.

Em Portugal, o Projeto RADAR, desenvolvido inicialmente em Lisboa no âmbito da iniciativa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, foi estruturado para identificar pessoas idosas em situação de isolamento ou vulnerabilidade e aproximá-las dos recursos disponíveis na comunidade.

Um de seus aspectos relevantes é o fato de não depender exclusivamente da iniciativa da própria pessoa para solicitar ajuda. A rede de proximidade envolve profissionais, instituições, vizinhos, estabelecimentos comerciais e outros integrantes da comunidade, que podem reconhecer situações de vulnerabilidade e acionar os serviços ou recursos necessários. A lógica do projeto pode ser sintetizada nos movimentos de reconhecer, avaliar, direcionar e ativar.

Uma estrutura dessa natureza amplia a compreensão de autonomia. A autonomia não precisa significar que a pessoa realize todas as atividades sem auxílio, mas que possa continuar participando das decisões e da vida cotidiana dentro de suas possibilidades.

Uma comunidade que conhece seus moradores e estabelece relações de proximidade pode oferecer apoio sem retirar da pessoa o direito de circular, escolher e participar.

Assim, caso uma pessoa com demência se desoriente durante um percurso conhecido, por exemplo, uma rede comunitária preparada pode contribuir para sua localização e seu retorno ao ambiente familiar, reduzindo a necessidade de restringir previamente sua circulação.

No Brasil, também existem experiências que apontam para formas de cuidado que não implicam o afastamento precoce da pessoa idosa de sua família e comunidade.

O Centro de Atendimento para Pessoa Idosa com Alzheimer e Familiares — Centro-Dia Synval Santos, da Prefeitura de Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2014 e constitui uma experiência de atendimento público especializado a pessoas idosas com doença de Alzheimer e a seus familiares.

O serviço oferece atendimento durante o dia, possibilitando que a pessoa permaneça vinculada ao ambiente familiar enquanto recebe acompanhamento especializado. Em 2024, o equipamento completou dez anos de funcionamento.

Experiências como essa demonstram a importância de ampliar as modalidades de cuidado para além da dicotomia entre permanecer exclusivamente sob a responsabilidade da família ou ser encaminhado para uma instituição de longa permanência.

Centros-dia, atendimento domiciliar, programas de apoio aos cuidadores, transporte acessível e serviços comunitários podem compor uma rede capaz de distribuir responsabilidades e preservar, tanto quanto possível, a participação da pessoa com demência em seu território.

A Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída em 2024, também oferece uma base para o desenvolvimento de ações voltadas à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento, à reabilitação, ao cuidado e ao apoio às famílias e aos cuidadores.

Portanto, parte dos instrumentos necessários para enfrentar a demência já está disponível em políticas públicas, experiências territoriais e referências internacionais.

O desafio está em transformá-los em ações articuladas nos estados e, principalmente, nos municípios, considerando as características de cada território e as necessidades de sua população.

Viver com Alzheimer não significa interromper automaticamente a vida social, familiar ou comunitária. O diagnóstico modifica necessidades e pode exigir diferentes níveis de apoio ao longo do tempo, mas não elimina a possibilidade de participação.

Para que isso seja viável, o cuidado precisa ultrapassar os limites da residência e dos serviços de saúde, incorporando a comunidade, os espaços públicos, a mobilidade, a habitação e as políticas de proteção social.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque Arquiteto e urbanista. Doutorando e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Pós-graduado em Neurociência, Geriatria e Gerontologia e Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI) e coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, em Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na pós-graduação em Gerontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

50 debates para o Brasil: nova lei divide opiniões sobre agilidade e proteção ambiental

A simplificação do licenciamento ambiental pode acelerar investimentos, mas também ampliar os riscos de desmatamento e degradação dos biomas brasileiros. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com o advogado e professor George Humbert e o cientista Carlos Nobre, professor titular da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia.

Favorável à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Humbert afirmou que o Brasil precisava de uma legislação federal para organizar procedimentos que eram orientados principalmente por resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama. Segundo ele, a nova lei oferece segurança jurídica e atualiza o processo diante dos recursos tecnológicos disponíveis.

“O Brasil estava atrasado com relação a essa norma. Nós não tínhamos uma lei geral de licenciamento ambiental”, afirmou.

Humbert argumentou que ferramentas como imagens de satélite, drones e inteligência artificial podem contribuir para a fiscalização. Na avaliação dele, a simplificação dos processos de menor impacto permitirá que os órgãos públicos concentrem recursos e equipes nas atividades que oferecem maior risco.

Para o advogado, a legislação procura equilibrar proteção ambiental, desenvolvimento econômico e progresso social. Ele citou os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho para sustentar que o modelo anterior não foi suficiente para evitar grandes desastres ambientais.

Carlos Nobre contestou a ideia de que a simplificação represente avanço. Segundo o cientista, a nova lei pode ampliar os impactos sobre a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga. Esses biomas enfrentam perda de vegetação, degradação e mudanças no regime de chuvas.

O ponto de não retorno, citado por Nobre, ocorre quando a destruição de um ecossistema ultrapassa determinado limite e ele perde a capacidade de manter suas características naturais, mesmo que o desmatamento seja interrompido.

“Essa nova lei pode significar um aumento muito grande do impacto ambiental nos biomas brasileiros, principalmente nos biomas que estão muito próximos do ponto de não retorno”, alertou.

Nobre defendeu o fim do desmatamento e da degradação, acompanhado de projetos de restauração ambiental. Como exemplo, afirmou que, nos últimos 30 anos, a Caatinga avançou cerca de 230 mil quilômetros quadrados sobre áreas do Cerrado, especialmente no oeste da Bahia e no Piauí. Também lembrou que 52% da vegetação original do Cerrado já foi desmatada.

Autodeclaração concentra as críticas

Um dos principais pontos de divergência foi a possibilidade de licenças baseadas na declaração do próprio empreendedor. Humbert sustentou que o procedimento deve ser adotado em atividades de menor impacto e acompanhado por mecanismos de controle.

Nobre considera o modelo arriscado. Para ele, a experiência com atividades de mineração e exploração de ouro na Amazônia mostra que declarações podem esconder irregularidades, inclusive dentro de terras indígenas.

“É muito arriscado imaginar que toda autodeclaração de desmatamento, infraestrutura e mineração esteja totalmente dentro da lei”, afirmou.

O debate expõe uma escolha que vai além da simples oposição entre burocracia e desenvolvimento. A questão é saber quais empreendimentos podem receber licenças simplificadas, como fiscalizar as informações prestadas e quais limites devem ser mantidos para evitar danos que, depois de consumados, podem ser irreversíveis.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: planos de saúde populares ampliam o acesso ou deixam pacientes desprotegidos

Planos de saúde com mensalidades mais baixas podem facilitar o acesso a consultas e exames, mas deixar de fora internações, cirurgias e tratamentos complexos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), e Lígia Bahia, professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os planos populares ofereceriam uma cobertura mais limitada do que os convênios tradicionais. A principal dúvida é o que aconteceria quando um exame identificasse uma doença grave. Sem cobertura para as etapas seguintes, o paciente teria de recorrer ao Sistema Único de Saúde.

Mais acesso a consultas e exames

Bruno Sobral defendeu a regulamentação de serviços que já são oferecidos por cartões de desconto e clínicas populares. Segundo ele, essas empresas não estão sujeitas às mesmas exigências impostas às operadoras de planos de saúde, como garantias financeiras, obrigações com os clientes e regras para a rede de atendimento.

“Esse produto, esse serviço, já existe. Ele não está sendo inventado”, afirmou.

Na avaliação do diretor da FenaSaúde, permitir a oferta regulada de planos mais baratos aumentaria o número de pessoas atendidas e facilitaria a realização de exames preventivos. Ele citou a mamografia como exemplo de procedimento capaz de identificar precocemente uma doença e ampliar as possibilidades de tratamento.

Sobral reconheceu que esses planos não resolveriam todas as necessidades do paciente. Por isso, defendeu uma articulação com o SUS para dar continuidade ao atendimento quando fossem necessários procedimentos não cobertos. Para ele, o diagnóstico precoce também poderia reduzir os custos futuros do sistema público.

O risco da assistência fragmentada

Lígia Bahia afirmou que planos com cobertura reduzida podem criar uma falsa sensação de segurança. O paciente paga para realizar consultas e exames, mas pode descobrir que não tem proteção justamente quando precisa de cirurgia, internação, medicamentos caros ou tratamento contra o câncer.

“Você está colocando sua vida em risco. Isso é uma enganação”, disse.

A professora lembrou que a Constituição define a saúde como um direito e prevê atendimento integral. Na visão dela, separar o diagnóstico do tratamento fragmenta o cuidado e transfere ao SUS as etapas mais caras da assistência.

Lígia defendeu uma articulação entre os setores público e privado, desde que as políticas de saúde sejam orientadas pelo interesse público. “Os negócios têm que se encaixar na Constituição de 1988, não o contrário”, afirmou.

O debate expõe uma escolha que vai além do preço da mensalidade. Planos populares podem abrir uma porta para consultas e exames, mas essa porta precisa levar a algum lugar.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Dez Por Cento Mais: Matheus Rotta explica como prevenir o câncer colorretal

“Quanto mais cedo eu fizer o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.”

O câncer colorretal pode crescer sem produzir sintomas e, quando descoberto no estágio inicial, apresenta até 90% de possibilidade de cura. A doença, que atinge o intestino grosso e o reto, tem aparecido em pessoas cada vez mais jovens, segundo o médico coloproctologista Carlos Matheus Rotta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce foram temas de entrevista no Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

O médico explicou que o câncer se desenvolve a partir de uma alteração nas células, que passam a crescer de maneira desordenada. No caso do câncer colorretal, fatores relacionados à alimentação e ao estilo de vida podem contribuir para o aumento do risco.

“Na fase inicial do câncer colorretal, ele é curável. Isso que é o mais importante. Se nós pegarmos na fase inicial, nós chegamos a ter 90% de cura”, afirmou.

De acordo com Rotta, a incidência da doença é maior a partir dos 50 anos, mas a idade recomendada para iniciar a investigação vem sendo reduzida. Ele defendeu que pessoas a partir dos 45 anos conversem com um médico sobre o rastreamento, principalmente quando existem casos de câncer na família.

Uma das formas de rastreamento é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. O teste consegue identificar pequenos sangramentos que não são percebidos a olho nu.

Um resultado positivo não significa que a pessoa esteja com câncer. Indica, porém, que existe um sangramento e que a causa precisa ser investigada. A partir desse resultado, o paciente pode ser encaminhado a um coloproctologista ou cirurgião do aparelho digestivo. A colonoscopia é o principal exame para observar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos.

Colonoscopia também previne a doença

A maioria dos casos de câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos, pequenas formações que surgem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns precisam ser retirados e analisados.

Segundo Carlos Matheus Rotta, um pólipo com potencial de malignidade pode levar pelo menos cinco anos para se transformar em câncer. Esse intervalo oferece uma oportunidade para identificar e retirar a lesão antes que a doença se desenvolva.

“Que melhor tratamento para o câncer do que você tirar a chance de ser? Não existe. Então, a colonoscopia é feita para isso”, disse.

A frequência com que o exame deve ser repetido varia de pessoa para pessoa. Depende do tipo e da quantidade de pólipos encontrados, do histórico familiar e do intervalo em que novas lesões aparecem.

O médico também abordou o medo da colonoscopia. Ele explicou que o preparo intestinal, necessário para eliminar as fezes e permitir a visualização da parede do intestino, costuma causar mais incômodo do que o exame.

“Se não sair tudo, pode ser que bem no local onde ficou um pouco de fezes ali está o tumor e você não vê”, alertou.

A presença de sangue nas fezes é um dos principais sinais de alerta. Rotta ressaltou que muitas pessoas atribuem o sangramento à hemorroida e adiam a procura por atendimento médico.

“Tirar isso da cabeça que só hemorroida sangra. Sangrou, o médico tem que pensar primeiro num câncer”, afirmou.

Outro sintoma é a sensação persistente de que a evacuação não foi completa, mesmo depois de a pessoa sair do banheiro. Esse quadro é conhecido como tenesmo. Fezes mais finas também merecem atenção, pois podem indicar uma redução do espaço interno do intestino.

Mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisam ser investigadas. Uma pessoa pode evacuar mais de uma vez por dia ou passar dois ou três dias sem ir ao banheiro sem que isso represente uma doença. O sinal de alerta aparece quando o ritmo habitual se altera sem uma explicação conhecida.

“Todo mundo um dia teve diarreia, um dia ficou preso. Então, são sintomas que são normais, mas, se persistentes, não são”, explicou.

Emagrecimento sem causa aparente e anemia sem origem identificada também podem estar relacionados ao câncer colorretal.

Histórico familiar exige atenção antecipada

Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal devem iniciar o acompanhamento mais cedo. O médico citou ainda a relação com históricos familiares de câncer de mama e de útero.

Pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, também precisam de acompanhamento médico regular.

O medo do diagnóstico, segundo Rotta, pode levar algumas pessoas a ignorar os sinais. Essa demora reduz as possibilidades de tratamento.

“A melhor coisa é vir aqui e eu falar: ‘Não é nada’”, afirmou. Nos estágios mais avançados, as possibilidades de cura diminuem, embora o tratamento ainda possa beneficiar parte dos pacientes.

O médico também fez um alerta sobre o abandono do tratamento indicado em favor de terapias alternativas. Para ele, práticas complementares não devem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou qualquer outra conduta definida pela equipe médica.

Alimentação, atividade física e rotina intestinal

A prevenção também passa pelo estilo de vida. Rotta recomendou uma alimentação com frutas, verduras, legumes, grãos e produtos integrais. Esses alimentos fornecem fibras, que ajudam a formar o bolo fecal e facilitam o funcionamento do intestino.

“A laranja não se chupa, se come. Se você chupar, você não ingere fibra nenhuma”, exemplificou. Segundo ele, a parte branca da fruta e as cascas comestíveis são fontes de fibras.

O médico sugeriu variar os alimentos para que a mudança possa ser mantida. Em vez de concentrar a dieta em uma única fruta, a pessoa pode alternar frutas, verduras, legumes e grãos.

“A alimentação saudável está mais na feira que no supermercado. Lembre-se disso”, disse.

O consumo de carnes processadas, como salsicha, presunto, salame e mortadela, deve ser reduzido. Rotta também recomendou evitar o cigarro, o excesso de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.

A atividade física não depende necessariamente de uma academia. “Uma caminhada diária de 20 minutos já é o suficiente para o intestino funcionar”, afirmou.

Criar um horário para ir ao banheiro, de preferência depois de uma refeição, também pode ajudar. Quando a comida chega ao estômago, o organismo produz um estímulo para o funcionamento do intestino. Respeitar essa vontade e evitar segurar a evacuação contribui para estabelecer uma rotina intestinal.

Observar as fezes faz parte desse cuidado. Sangue, alterações persistentes no formato, na consistência ou na frequência devem ser levados ao médico.

“Mais importante que tudo para o câncer de colo é informação. Você sabendo, você procura e nós vamos diminuir as mortes por câncer de colo”, concluiu.

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50 debates para o Brasil: educação domiciliar divide opiniões sobre liberdade e direitos das crianças

Ensinar os filhos em casa coloca em confronto a liberdade de escolha das famílias e o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar e à proteção contra abusos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Carlos Vinícius Reis, presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar, e Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB.

Carlos Vinícius defendeu que os pais possam escolher a educação domiciliar, desde que a prática seja regulamentada, avaliada e fiscalizada pelo poder público. Segundo ele, a modalidade permite um ensino mais personalizado e oferece uma alternativa às famílias que não consideram a escola convencional a melhor opção para os filhos.

“Quando falamos de educação domiciliar, estamos falando de liberdade educacional”, afirmou. Para Carlos, a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2018 reconheceu a compatibilidade da prática com a Constituição, embora sua adoção dependa de uma lei que estabeleça regras. Ele ressaltou que a proposta não significa abandonar a supervisão estatal: “Estamos falando de liberdade com responsabilidade.”

Questionado sobre o risco de crianças submetidas a abusos ficarem afastadas de uma rede capaz de identificá-los, Carlos disse não haver dados que associem famílias adeptas da educação domiciliar à violência. Acrescentou que as escolas também registram episódios de agressão e sustentou que o debate deve oferecer opções às famílias, sem transformar o ensino em casa em oposição à educação escolar.

A escola como espaço de proteção

Ariel de Castro Alves afirmou que a educação dos filhos não está sob decisão exclusiva dos pais. Pela Constituição e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, explicou, família, Estado e sociedade compartilham a obrigação de proteger crianças e adolescentes e garantir sua formação.

“A escola, além do papel do ensino formal, do ensino curricular, tem o papel de formar crianças e adolescentes para a cidadania”, disse. Para ele, a convivência com colegas de diferentes origens, etnias e condições prepara o estudante para as relações sociais, para o mercado de trabalho e para as frustrações da vida adulta.

Ariel ressaltou ainda que professores e outros profissionais da educação ajudam a perceber sinais de violência doméstica, exploração do trabalho infantil e abuso sexual. “Dificilmente esses dados vão aparecer porque geralmente as escolas possuem protocolos específicos”, afirmou ao responder por que podem faltar registros de violência envolvendo crianças educadas apenas em casa.

O centro do debate está nos limites da autoridade familiar. Os defensores da educação domiciliar entendem que os pais devem poder escolher a forma de ensino, sob acompanhamento do Estado. Os críticos consideram que a escola oferece algo que não pode ser plenamente reproduzido dentro de casa: contato com a diversidade, formação cidadã e uma rede externa de proteção.

A discussão, portanto, não se resume ao lugar onde a criança aprende português ou matemática. Trata de quem decide sua educação, de como o Estado acompanha esse processo e de quais garantias devem prevalecer quando a escolha dos adultos pode afetar os direitos das crianças.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: o plano era perder, só pode!

Grêmio 1×2 Vasco

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Chapecoense
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Peço desculpas à direção do Grêmio e ao técnico Luís Castro. Durante quase duas horas, interpretei como incompetência aquilo que, agora percebo, era estratégia.

O Grêmio não perdeu de virada para o Vasco por acaso. Havia um plano. Um plano ousado, engenhoso e, sobretudo, perigosíssimo: ajudar a empurrar o Internacional para a Série B, mesmo que, para isso, sacrificássemos nossa permanência na Série A.

O primeiro tempo já oferecia pistas da artimanha. O Vasco, que nunca havia vencido na Arena, estava havia um ano sem ganhar fora de casa e entrou em campo na zona de rebaixamento, era o adversário perfeito para o projeto.

O Grêmio fez sua parte. Recuou, cedeu espaços e permitiu que os cariocas chutassem várias vezes contra nosso gol. O Vasco, porém, parecia não ter sido avisado do acordo. Atacava, finalizava e errava. Há adversários que não colaboram nem quando a gente estende o tapete, abre a porta e aponta o caminho.

Foi então que aconteceu o imprevisto.

Mesmo sem atacar muito, o Grêmio marcou.

Confesso que temi pelo fracasso da operação. Um gol gremista não estava no roteiro. Poderia dar confiança ao time, animar a torcida e, num descuido ainda mais grave, produzir uma vitória. Seria um desastre para os objetivos ocultos da tarde.

No intervalo, Luís Castro certamente precisou reorganizar a estratégia. Se o Vasco não conseguia vencer sozinho, seria necessário ajudá-lo um pouco mais.

Veio, então, o movimento decisivo. O treinador colocou Nardoni no meio-campo e despachou Krovinović, o jogador mais criativo da equipe, para a ponta direita. Ali, isolado e distante da região onde poderia pensar o jogo, ele deixou de representar perigo.

Foi uma jogada de mestre.

De um só golpe, Luís Castro facilitou a retomada dos ataques do Vasco e reduziu drasticamente o risco de o Grêmio fazer outro gol. O tabuleiro estava montado. Faltava apenas o adversário compreender seu papel.

Com algum atraso, o Vasco compreendeu.

Vieram o empate e a virada. O passe de Nardoni no pé do adversário, no segundo gol, não foi erro. Foi planejamento. A Arena assistiu à conclusão de uma obra cuidadosamente construída: a primeira vitória vascaína naquele estádio, o fim de um jejum de um ano sem ganhar fora de casa e três pontos fundamentais para complicar ainda mais a vida do Internacional.

Parte da torcida não percebeu a grandeza do projeto e vaiou. Foi injusta.

As vaias tratavam a derrota como se tivesse sido provocada por erros, desorganização ou escolhas incompreensíveis do treinador. Faltou enxergar mais longe. O verdadeiro gremista precisa aceitar alguns sacrifícios. Se o preço para ajudar a derrubar o Internacional for entregar três pontos ao Vasco, colocar em risco nossa própria campanha e flertar com a mesma Série B, que assim seja.

Rivalidade exige desprendimento.

O Grêmio decidiu que não basta ver o vizinho cair. É preciso acompanhá-lo até a porta, carregar suas malas e, se necessário, entrar junto no elevador.

Seremos rebaixados? O risco é grande.

O Internacional também correrá esse risco? Então o plano terá valido a pena.

Parabéns à direção e à comissão técnica. Onde a torcida enxergou uma derrota vergonhosa, agora identifico estratégia, renúncia e devoção à causa.

Só faço uma recomendação: na próxima vez, avisem antes.

Assim, não desperdiço meu tempo sofrendo diante da televisão.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: boas histórias valem mais do que a tecnologia

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A tecnologia multiplica as possibilidades de comunicação, mas não substitui a força de uma história capaz de emocionar e produzir significado. Esse foi o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.

Inteligência artificial, vídeos personalizados, influenciadores e algoritmos ajudam as marcas a alcançar públicos específicos e produzir conteúdo em grande escala. Essas ferramentas ampliam a distribuição da mensagem. Não garantem, porém, que ela será lembrada.

A explicação está na maneira como os seres humanos compreendem o mundo. Antes mesmo da escrita, histórias eram usadas para transmitir conhecimentos, valores e experiências. Elas organizam acontecimentos, despertam empatia e ajudam o cérebro a guardar informações.

“Faz todo sentido. A tecnologia mudou muito, mas o cérebro humano mudou pouco”, afirmou Cecília.

Essa permanência pode ser percebida nas crianças, que pedem repetidamente a mesma história. A repetição oferece segurança, permite antecipar acontecimentos e reforça vínculos afetivos. Com as marcas, o mecanismo é semelhante: uma narrativa associada a uma emoção tem mais possibilidade de permanecer na memória do que uma mensagem limitada às características de um produto.

Da propaganda para a memória

Cecília citou campanhas que atravessaram gerações, como “Não é assim uma Brastemp”, o primeiro sutiã da Valisere e as histórias de Natal da Coca-Cola. Também lembrou o filme “Tormenta”, de O Boticário, sobre a relação entre uma mãe e o filho. A peça circulou tanto nas mídias tradicionais quanto pelo WhatsApp.

Em todos esses exemplos, o público não guarda apenas o anúncio. Guarda os personagens, os conflitos e as emoções construídas pela narrativa. O slogan pode desaparecer. A história continua circulando.

Isso ajuda a explicar por que contar histórias não é uma alternativa à propaganda. É uma maneira de fazer propaganda sem transformar a mensagem em uma interrupção.

“Uma boa história não interrompe a atenção das pessoas, ela conquista essa atenção”, disse Jaime.

Quando o produto deixa de ser o único protagonista, a marca consegue falar sobre sonhos, desafios e experiências humanas. O vínculo nasce dessa identificação. A pessoa não se reconhece em uma lista de atributos técnicos, mas pode se reconhecer na trajetória de um personagem.

A inteligência artificial já escreve textos, produz imagens e ajuda a criar filmes. Ainda assim, permanece uma decisão anterior à ferramenta: qual história merece ser contada?

Para Jaime, “tecnologia é ferramenta, o significado continua sendo uma construção humana”. Ele recorreu ao psicólogo Jerome Bruner, que identificava duas formas de organizar a experiência: o pensamento lógico e o narrativo. O primeiro apresenta razões e evidências. O segundo conecta acontecimentos e atribui sentido a eles.

Ao final, Jaime citou a permanência da Odisseia, de Homero. A obra atravessou séculos porque trata de temas humanos, como viagem, coragem, perda e desejo de voltar para casa. Mudam o suporte, a linguagem e a tecnologia. A necessidade de encontrar sentido nas histórias permanece.

A marca do Sua Marca

As ferramentas ampliam o alcance da comunicação, mas não criam, por si, relevância ou memória. Marcas lembradas são aquelas que transformam produtos e valores em histórias nas quais as pessoas reconhecem emoções, conflitos e aspirações. A tecnologia pode construir o palco. A narrativa é o que faz o público permanecer na plateia.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

50 debates para o Brasil: fim das saidinhas divide opiniões sobre segurança e ressocialização

Cerca de 4% a 5% dos presos autorizados a sair temporariamente apresentam alguma irregularidade no retorno ao sistema prisional. O significado desses números e os efeitos da proibição das visitas familiares foram discutidos na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.

Participaram do debate César Dario Mariano da Silva, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo e professor de Direito Penal e Processual Penal, e Renato Vieira, mestre e doutor em Direito Processual Penal e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

A saída temporária foi incorporada à legislação brasileira em 1977 e organizada pela Lei de Execução Penal, de 1984. Destinava-se a presos do regime semiaberto e permitia, mediante autorização judicial, visitas à família, frequência a cursos e participação em atividades de reintegração social.

Em 2024, o Congresso derrubou vetos presidenciais e proibiu as saídas para visitas familiares e atividades de retorno ao convívio social. A legislação manteve a autorização relacionada aos estudos. O debate, portanto, é sobre preservar essa restrição ou recuperar o instrumento com novos critérios.

Evasões e riscos para a população

César Dario afirmou que trabalhou por mais de 15 anos na área de execução penal e citou um índice de evasão próximo de 4%. Segundo ele, diante da liberação de aproximadamente 30 mil presos em cada período, o percentual representava cerca de 1.200 pessoas que não retornavam.

“Se nós tivermos mais presos na rua e a grande maioria deles sem a devida fiscalização, nós teremos o aumento da prática de crime”, afirmou.

O procurador também criticou a forma ampla como o benefício era concedido e a falta de fiscalização. Sua posição, porém, não é favorável a uma proibição sem exceções. Ele defendeu a possibilidade de saída para presos sem periculosidade, condenados por crimes sem violência ou grave ameaça, com bom comportamento, exame criminológico e monitoramento eletrônico.

Para César Dario, restringir as visitas familiares não elimina a individualização da pena, porque o condenado ainda pode progredir do regime fechado para o semiaberto e, depois, para o aberto. Ele também lembrou que a pena não tem apenas a função de ressocializar, mas procura desestimular a prática de novos crimes.

Fiscalização e retorno à sociedade

Renato Vieira reconheceu que os dados oficiais indicam irregularidades no retorno de 4% a 5% dos beneficiados. Ressalvou, contudo, que esse grupo inclui presos que voltaram com atraso. Portanto, o número não pode ser apresentado automaticamente como percentual de fugitivos ou de autores de novos crimes.

Para ele, falhas de fiscalização exigem uma resposta do Estado, e não a eliminação de um instrumento destinado a pessoas que já cumprem pena no regime semiaberto e se aproximam da liberdade.

“Quando nós cassamos esse benefício, nós estamos tirando a possibilidade de uma progressão do regime como manda a Constituição, que é a individualização da pena”, afirmou.

Renato defendeu o monitoramento dos presos e lembrou que o atraso ou o descumprimento das condições da saída pode ser considerado falta grave, com a regressão para um regime mais rigoroso. Na avaliação dele, impedir o contato familiar aproxima o regime semiaberto do fechado e pode prejudicar a preparação para a liberdade.

O confronto entre os dois argumentos expõe o centro da discussão. A saída temporária precisa proteger a sociedade, prever critérios rigorosos e permitir fiscalização. Ao mesmo tempo, o sistema penal terá de decidir como preparar o preso para voltar ao convívio social. Afinal, para a maioria dos condenados, a porta da prisão um dia será aberta de forma definitiva.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: minha trajetória de office-boy a advogado no banco

José Antonio Braz Sola

Ouvinte da CBN

Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.

Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.

Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.

A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.

Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.

E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.

Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.

Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.

E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.

Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.

Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.

Uma verdadeira Academia!

Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.

Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.

O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.

Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.

Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.

No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.

Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:

— Um dia vou estudar aqui.

E estudei.

Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.

O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.

A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.

E, para terminar, parafraseio Tom Zé:

“São, São Paulo, quanta dor,

São, São Paulo, meu amor!”

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

50 debates para o Brasil: demarcação de terras indígenas exige conciliar direitos e segurança jurídica

A demora na demarcação de terras indígenas mantém comunidades e produtores rurais presos a conflitos que atravessam gerações. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Maurício Guetta, professor de Direito Ambiental e diretor da Avaaz, e Gustavo Passarelli da Silva, advogado especializado em questões relacionadas ao agronegócio.

A Constituição de 1988 reconhece aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Também determinou que a União concluísse as demarcações em cinco anos. O prazo terminou em 1993, sem que todos os processos fossem finalizados.

O impasse envolve ainda produtores que receberam do próprio Estado títulos de propriedade sobre áreas posteriormente identificadas como terras indígenas. Nesse caso, surge uma pergunta prática: quem deve pagar pela decisão equivocada do poder público?

Maurício Guetta defendeu a aceleração das demarcações e afirmou que as terras indígenas protegem os povos originários, colaboram para o equilíbrio climático e ajudam a produzir a água utilizada pela agropecuária.

Para ele, o reconhecimento do território não deve ficar condicionado ao encerramento da discussão sobre o valor da indenização aos produtores. Os dois processos deveriam avançar separadamente.

“Assim, nós permitiremos as duas coisas ao mesmo tempo: que se acelerem as demarcações e, ao mesmo tempo, que se garantam os direitos aos proprietários de terra que tenham títulos de boa-fé”, afirmou.

Guetta explicou que o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito à indenização de quem recebeu um título válido e agiu de boa-fé. Na avaliação dele, esse pagamento não decorre da demarcação, mas da responsabilidade do Estado por ter concedido um documento de propriedade sobre uma terra tradicionalmente indígena.

O professor também criticou a criação de novas etapas administrativas: “A gente tem que ter um processo de demarcação que seja justo, adequado, respeite a ampla defesa, como sempre aconteceu, mas que não tenha amarras burocráticas que dificultem ou impeçam o avanço e a conclusão desse processo”.

Pagamento deve acompanhar a demarcação

Gustavo Passarelli destacou a insegurança enfrentada pelo produtor que possui uma cadeia de documentos de cem anos ou mais e, posteriormente, é informado de que sua propriedade está dentro de uma área indígena.

Segundo o advogado, o reconhecimento do direito à indenização representou um avanço. Ele considera, porém, que o pagamento deve ocorrer simultaneamente à demarcação. Separar os procedimentos poderia obrigar o produtor a deixar a terra antes de receber o valor integral.

“Entendemos que os processos devem caminhar, ainda que paralelamente, mas de forma simultânea e, como condição para que seja finalizada uma demarcação, que o produtor seja indenizado integralmente”, disse.

Passarelli também contestou a associação direta entre demarcação e conservação ambiental. Para ele, a legislação já impõe aos produtores rurais obrigações de preservação. O ponto central do debate, portanto, deveria ser a compatibilização entre os direitos indígenas e o direito de propriedade.

O debate revelou uma convergência: os dois participantes reconhecem que os povos indígenas têm direitos constitucionais e que proprietários de boa-fé devem ser indenizados pelos erros cometidos pelo Estado. A divergência está no caminho. Guetta defende que a demarcação avance sem esperar pelo fim da disputa financeira. Passarelli sustenta que ninguém deve ser retirado antes de receber a indenização integral.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.