O Dom e a Ferramenta: a ontologia dos talentos na Era da Técnica

Por Caio Luizetto

A Parábola dos Talentos sofreu, na modernidade, um sequestro utilitarista. Sob a ótica de uma sociedade obcecada por métricas de produtividade, a palavra “talento” foi esvaziada de sua profundidade e reduzida a sinônimo de competência profissional, eficiência ou sucesso financeiro.

Contudo, há um mal-entendido abissal nessa interpretação. As escrituras não operam na lógica do fazer, mas na dimensão da ontologia: o texto bíblico é sobre o ser. Quando o texto ilustra o chamado dos primeiros discípulos, homens que exerciam a ocupação de pescadores, a promessa subsequente não visa o aprimoramento técnico de seu ofício, mas uma transfiguração de suas identidades. O fazer é circunstancial e utilitário; o ser é intrínseco e perene. Multiplicar o talento, portanto, não significa acumular conquistas externas, mas expandir a própria capacidade de manifestar a essência da vida.

Na antiguidade, a distância entre o ser e o instrumento era quase inexistente, pois o artífice imprimia sua própria alma diretamente na matéria que moldava. Hoje, vivemos uma assincronia profunda.

As possibilidades contemporâneas de amplificar o dom são virtualmente infindáveis. Se a essência de um indivíduo reside na capacidade de estruturar o caos, de projetar conexões ou de arquitetar conceitos complexos, a tecnologia moderna oferece ferramentas exponenciais que funcionam como megafones para o ser. Os instrumentos atuais expandiram as fronteiras da multiplicação, permitindo que o dom ecoe com um alcance outrora inimaginável.

Todavia, essa abundância instrumental esconde uma armadilha sutil e perigosa: a ferramenta pode se transformar na prisão do dom. Diante de sistemas altamente complexos, algoritmos rígidos ou estruturas corporativas sedutoras, corre-se o risco de inverter a hierarquia natural, fazendo com que a essência sirva ao instrumento. É o fenômeno em que a visão criativa original acaba sendo deformada para se adequar às limitações de um software, ou quando o indivíduo confunde sua identidade real com o cargo técnico que ocupa.

Quando o instrumento limita o dom, a humanidade retrocede ao erro de confundir o que faz com o que é. Enterrar o talento, sob essa perspectiva contemporânea, não significa necessariamente a inércia, mas a covardia de se deixar anestesiar pela técnica, permitindo que a ferramenta domestique a alma. A verdadeira fidelidade ao talento exige a lucidez de dominar o instrumento sem nunca ser dominado por ele, garantindo que as infinitas possibilidades do presente permaneçam como vias de libertação e expressão do ser, e não como engrenagens de nossa própria limitação existencial.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: geneticista Paulo Zattar Ribeiro explica como os testes genéticos podem mudar a prevenção do câncer

“A genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco.”

Descobrir um risco de câncer antes que a doença apareça pode mudar o destino de uma família inteira. A incorporação de testes genéticos ao Sistema Único de Saúde amplia a possibilidade de identificar predisposições hereditárias e adotar medidas preventivas com antecedência. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Médico geneticista, Dr. Paulo Zattar Ribeiro explicou que os genes BRCA1 e BRCA2 funcionam como mecanismos naturais de proteção contra o câncer. Quando apresentam alterações hereditárias, aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de alguns tipos de tumores, especialmente os de mama e ovário.

Segundo ele, identificar essas mutações permite que pacientes e médicos adotem estratégias de prevenção e acompanhamento mais adequadas. “Se eu conhecer a informação que já está ali desde o meu nascimento, me permite reduzir esse risco”, afirmou.

Quando a genética ajuda a prevenir

Ao longo da entrevista, o especialista recorreu ao caso da atriz Angelina Jolie para ilustrar como o conhecimento genético pode orientar decisões preventivas.

“Entendemos, a partir do caso da Angelina Jolie, que a genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco”, disse.

Ele explicou que mulheres com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 podem optar por diferentes estratégias para reduzir a probabilidade de desenvolver câncer. Entre elas estão cirurgias redutoras de risco, acompanhamento por exames de imagem em intervalos menores e uso de medicamentos específicos.

A chegada do teste ao SUS também poderá beneficiar familiares de pacientes diagnosticadas. A identificação de uma mutação permite que parentes sejam avaliados precocemente e recebam orientação adequada.

Nem todo câncer é hereditário

Um dos pontos destacados pelo médico foi a diferença entre câncer genético e câncer hereditário.

“Todo câncer é genético, acontece por um mecanismo genético. Mas nem todo câncer é hereditário”, explicou.

Segundo ele, aproximadamente 10% dos casos de câncer têm origem hereditária. Alguns sinais podem indicar maior probabilidade de predisposição genética, como tumores em idade jovem, múltiplos casos na mesma família ou tipos específicos de câncer.

Para o especialista, pessoas com histórico familiar relevante devem buscar avaliação médica especializada. “Todo mundo que tem histórico de câncer na família ou que já teve um câncer deveria passar pelo menos em uma consulta com o médico geneticista ou oncogeneticista.”

O teste não é uma sentença

Uma das barreiras que impedem investigações precoces é o receio que muitas pessoas têm de realizar exames genéticos por medo do resultado. Paulo Zattar Ribeiro destacou que descobrir uma predisposição não significa que a doença irá necessariamente se desenvolver.

“As variantes em câncer têm uma penetrância incompleta, ou seja, nem todo mundo que tem alteração genética vai desenvolver câncer.”

Ele acrescentou que o teste pode trazer mais tranquilidade do que preocupação. Segundo pesquisa conduzida por sua equipe, mulheres que receberam informações claras sobre seus riscos apresentaram redução dos níveis de ansiedade após o processo de avaliação genética.

“O vespeiro já está ali. O que o teste genético faz é nos dar os remédios para combater o vespeiro e tirar ele dali”, comparou.

Desafios para a implementação

Embora considere a incorporação dos testes um avanço, o geneticista alertou para os desafios da implementação. De acordo com ele, o Brasil ainda conta com menos de 400 médicos geneticistas, o que exigirá investimento em capacitação profissional e integração entre diferentes áreas da saúde.

“Precisamos de educação em saúde para que os profissionais consigam lidar com essa informação da forma correta”, afirmou.

Ele também defendeu maior atuação multidisciplinar, envolvendo geneticistas, oncologistas, mastologistas, psicólogos e outros profissionais para garantir que os resultados dos exames sejam interpretados adequadamente e transformados em ações concretas de prevenção e tratamento.

A prevenção continua fundamental

Apesar do avanço da genética, Dr. Paulo ressaltou que os hábitos de vida seguem sendo pilares importantes na redução do risco de câncer. Ele citou a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do consumo de álcool, abandono do tabagismo e uso diário de protetor solar como medidas essenciais.

Ao encerrar a entrevista, deixou uma orientação direta para as mulheres:

“Não deixem o medo do câncer vencer a necessidade de fazer os exames.”

Para ele, conhecer o histórico familiar, manter os exames em dia e buscar informações confiáveis são atitudes que podem aumentar as chances de prevenção, diagnóstico precoce e qualidade de vida.

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Avalanche Tricolor na Copa: o gol que faltou

Brasil 3×0 Haiti
Copa do Mundo – Filadélfia, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Faltou um gol.

Não para o Brasil vencer. Não para o Brasil se classificar. Faltou um gol para melhorar meu desempenho no bolão da firma.

Apostei em quatro a zero sobre o Haiti. Parecia um palpite razoável diante da fragilidade do adversário. A Seleção fez quase tudo o que eu esperava. Ficou devendo apenas o quarto gol.

Alguns manuais de jornalismo consideram goleada qualquer vitória por três gols de diferença. No meu manual privado de torcedor, goleada começa no quarto gol. Por isso, assisti aos minutos finais da partida com uma esperança diferente da maioria dos brasileiros. Não buscava a confirmação da vitória. Procurava aquele golzinho extra que me renderia pontos preciosos na classificação do bolão.

O curioso é que o gol que me faltou pode acabar fazendo falta também ao Brasil.

A disputa pela liderança do grupo deverá ser travada com Marrocos na última rodada. Enquanto enfrentaremos a Escócia, os marroquinos terão pela frente justamente o Haiti. Dadas as circunstâncias, os africanos parecem ter uma oportunidade mais favorável para ampliar o saldo de gols e garantir a primeira colocação da chave.

Mesmo sem o quarto gol, a vitória merece ser celebrada.

O Brasil apresentou um primeiro tempo de boa qualidade e confirmou uma impressão deixada na estreia: Vinicius Junior é, até aqui, o principal jogador da equipe. Marcou seu segundo gol na competição, participou diretamente dos outros dois e mostrou ser o atleta mais capaz de mudar o rumo de uma partida por iniciativa própria. Em uma Copa do Mundo, isso costuma fazer diferença.

Matheus Cunha também cumpriu o que se espera de um centroavante. Fez dois gols. No primeiro, aproveitou o rebote diante do goleiro. No segundo, movimentou-se bem para receber o passe e concluir com precisão. Nada de extraordinário. Apenas aquilo que todo torcedor deseja de quem veste a camisa 9.

A equipe de Carlo Ancelotti mostrou mais mobilidade do meio para a frente e pareceu mais leve do que na estreia. Houve ainda espaço para atender a um desejo da torcida. Endrick entrou no segundo tempo e chegou a balançar as redes. O impedimento impediu que o lance entrasse para a estatística, mas não diminuiu a expectativa em torno do jovem atacante.

Na verdade, não foi apenas o Brasil que me deixou esperando um gol a mais. Marrocos venceu a Escócia por apenas um a zero. Paraguai e Estados Unidos também triunfaram sem colaborar com meus prognósticos. Bastava um golzinho adicional aqui, outro ali, e eu teria gabaritado a rodada.

Apesar disso, não tenho do que reclamar. Pela primeira vez acertei todos os vencedores. Não é exatamente um feito destinado aos livros de história dos bolões, mas já representa algum avanço para quem começou a Copa colecionando tropeços.

Assim como a Seleção Brasileira.

E, quem sabe, tanto eu quanto o Brasil estejamos guardando nossos melhores resultados para os jogos decisivos.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quais marcas têm a cara das festas juninas?

Foto: Alan Kleina Mendes

Poucas celebrações no Brasil conseguem unir tradição, identidade regional e consumo de forma tão intensa quanto as festas juninas. Durante o mês de junho, produtos, receitas, costumes e marcas passam a ocupar um espaço especial na memória afetiva dos brasileiros.

No ritmo da ‘quadrilha, Jaime Troiano e Cecília Russo analisaram como diferentes marcas se conectam às festas juninas em várias regiões do país. A conversa, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, mostrou que, mais do que vender produtos, algumas marcas conseguem se tornar parte da própria experiência cultural vivida pelos consumidores.

Ao lembrar dos santos celebrados no período — Santo Antônio, São João e São Pedro —, Cecília destacou a força dessa tradição na cultura brasileira. Para ela, algumas marcas já estão incorporadas ao imaginário das festas juninas. “Ao falar em Yoki, parece que eu vejo já bandeirinhas de festa junina na embalagem”, afirmou.

A associação não acontece por acaso. Ao longo de décadas, produtos como pipoca, amendoim, canjica e ingredientes usados em receitas típicas passaram a reforçar a presença dessas marcas nas comemorações. O resultado é uma ligação que vai além da propaganda e se estabelece pela repetição de hábitos familiares e experiências compartilhadas.

Entre os exemplos citados por Cecília, além da Yoki, de presença nacional, a Paçoquita, da empresa Santa Helena, e a gaúcha DaColônia. Cada uma delas, à sua maneira, construiu uma relação com elementos tradicionais da festa junina. No caso da DaColônia, ela destacou a preservação de uma identidade regional mesmo após ampliar sua presença pelo país.

Jaime Troiano ampliou o olhar para outras regiões brasileiras e mostrou como as marcas acompanham as características culturais de cada localidade. No Nordeste, onde as festas de São João movimentam cidades inteiras e atraem milhares de visitantes, a relação entre cultura e marcas é ainda mais evidente.

“Se a Yoki é forte no Sudeste, a Vitamilho é a rainha absoluta do Nordeste”, observou Jaime. Segundo ele, a marca conseguiu se tornar referência para produtos como fubá, canjica e misturas utilizadas nas receitas típicas da região.

No Norte do país, a culinária junina incorpora ingredientes associados à floresta e às tradições locais. Nesse contexto, Jaime destacou a presença da Hiléia, empresa paraense que participa das celebrações por meio de produtos amplamente utilizados nas receitas regionais.

no Centro-Oeste, a referência lembrada foi a Piracanjuba. Nascida em Goiás, a marca está associada a ingredientes usados em doces tradicionais, como arroz-doce e doce de leite, muito presentes nas quermesses.

A conversa também revelou uma característica importante da construção de marcas no Brasil: a força da regionalidade. Embora as festas juninas sejam celebradas em todo o território nacional, elas assumem características próprias em cada região. As marcas que conseguem compreender essas diferenças tendem a estabelecer vínculos mais fortes com os consumidores.

Essa lógica vale para empresas de qualquer porte. Uma marca não precisa falar com todo o país da mesma forma. Muitas vezes, a conexão mais consistente surge justamente quando ela reconhece e respeita as particularidades culturais de cada comunidade.

A marca do Sua Marca

As festas juninas mostram que marcas fortes não são construídas apenas por campanhas publicitárias. Elas ganham relevância quando fazem parte da cultura local, respeitam tradições e conseguem criar vínculos autênticos com as pessoas sem perder sua identidade.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: a vilinha era nosso palco de brincadeiras, de encontros e Copas

Débora Ferreira 

Ouvinte da CBN

VILA POMPÉIA
Vila Pompeia. Foto de Eduardo Guarizo Pimentel no Flickr

Capitão Teófilo Marcondes da Silva. O nome é grande. A rua é pequeninha, charmosa, dessas que cabem inteira na lembrança. Era chamada de “vilinha”, assim mesmo, no diminutivo, do jeito carinhoso com que os moradores e vizinhos a tratavam. E foi ali que me encantei pela Vila Pompeia.

Naquela rua, começaram outros amores também: o primeiro namorado, as brincadeiras soltas pela calçada, a febre dos patins, as voltas escondidas de moto pelo bairro (às vezes até mais longe).

Na rua, também tinham os encontros nas casas dos amigos para ouvir as bandas que estavam aparecendo nos anos 80, e os bailinhos improvisados na garagem.

Em uma Copa do Mundo, os vizinhos até fecharam a vilinha pra todos nós asistirmos aos jogos e depois comemorar — até onde a seleção brasileira permitisse. 

Da “vilinha” dava pra ir a pé no Sesc Pompeia, no restaurante Degas, no Shopping Matarazzo e no Clube Palmeiras, onde a gente passava o dia todo durante as férias — ah, se aquele clube  falasse?!?

Até que um dia minha família teve mudar da “vilinha”. Não haveria outra rua igual. Não com os mesmos amigos, as mesmas brincadeiras, os mesmos afetos. Era perfeita demais.

Meus pais encontraram outra casa na Pompeia. Não era a nossa “vilinha “, mas vejam o lado bom: era perto do nosso colégio  o Sagrado Coração, que naquela época, ainda era exclusivamente feminino. A casa era grande, cabiam dois carros na garagem, tinha salão para fazer as festinhas.

Ela tinha lá o seu charme, cheia de roseiras no jardim, padaria na frente — o que ninguém esperava estava logo ao lado. De repente, ônibus começaram a estacionar diante da nossa casa. Dois dias, três, quatro. Às vezes uma semana inteira. Eram ônibus de artistas. Deles desciam músicos, cantores, equipes. Um entra e sai constante na casa vizinha.

O que será que a casa ao lado tem? 

Também frequentavam as bandas de rock, aquelas que a gente escutava na “vilinha”: cantavam “Sonífera Ilha, descansa meus olhos … ”.  Com aquela formação original, aquelas roupas e cabelos diferentes, estacionavam seus carros na frente da nossa casa.

Um dia entrou na casa um dos meus ídolos, Toquinho. E aí uma prima resolveu matar nossa curisiosidade e perguntou o que se fazia naquela casa: era um super estúdio de gravação, onde as grandes duplas sertanejas, as bandas dos anos 80 e 90 e grandes nomes da MPB gravavam seus álbuns. Todos desfilando na nossa calçada, diante dos nossos olhos.  Teve até um dia que um dos artistas chamou as minhas irmãs para participarem como backing vocal em uma música!

E quando a gente já estava se acostumando com aquela rotina improvável , cheia de vozes famosas e melodias que atravessavam o quarteirão, mudamos de casa  de novo: — ”mas vamos ficar na Pompeia “, assim prometeu meu pai.

E lá fomos nós para o  nosso terceiro endereço nesse bairro tão charmoso que nunca deixou de ser nossa casa e onde minha mãe mora até hoje. Um bairro cheio de boas histórias — dessas que continuam pedindo para ser contadas. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Débora Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: saiba qual é a nova etapa de desenvolvimento da IA, segundo Ricardo Mucci, da Cisco

Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil

“A IA deixa de ser algo adicional, um luxo, e passa a ser algo nativo, essencial para o crescimento daquela companhia.”

A inteligência artificial até recentemente ocupava um espaço experimental dentro das empresas. Agora já é tema central das estratégias corporativas. Ricardo Mucci, presidente da Cisco Brasil, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, disse que, de acordo com pesquisas, a tecnologia aplicada aos negócios e cibersegurança passaram a figurar entre as principais preocupações dos CEOs em todo o mundo. Estão diretamente relacionadas ao crescimento das receitas e à sustentabilidade das operações.

Ao longo da conversa, Mucci destacou que a transformação digital não pode mais ser entendida apenas como aquisição de tecnologia. Para ele, as organizações que avançam de forma consistente são aquelas que incorporam a inteligência artificial à estratégia da companhia e não apenas a iniciativas isoladas em departamentos específicos.

“A aplicação da visão da IA em modelo estratégico da companhia e não modelo mais departamental” é o que diferencia as empresas que obtêm resultados mais expressivos, afirmou.

Segundo o executivo, a inteligência artificial atravessa uma nova etapa de desenvolvimento. Se antes predominavam chatbots e sistemas generativos voltados à produção de conteúdo, agora surgem agentes capazes de interagir entre si, trocar informações e executar tarefas sem intervenção humana direta. Essa evolução exige uma infraestrutura tecnológica robusta e uma abordagem mais ampla de governança e segurança.

Infraestrutura e segurança passam a ser prioridades

Para Ricardo Mucci, um dos principais aprendizados dos últimos anos é que não existe transformação digital sustentável sem investimentos em infraestrutura. Redes, processamento de dados e segurança precisam ser tratados como elementos integrados.

“Não há como se dizer agora que você constrói uma camada de segurança separada da infraestrutura convencional de rede.”

Ele explicou que o crescimento do uso da inteligência artificial gera um aumento exponencial no tráfego de dados e na demanda por processamento. Por isso, empresas que investem apenas nas aplicações e ignoram a modernização de sua infraestrutura correm o risco de encontrar limitações operacionais no futuro.

A preocupação com segurança também ganhou nova dimensão. Segundo Mucci, a cibersegurança deixou de ser vista apenas como proteção da reputação corporativa e passou a ser tratada como elemento fundamental para evitar perdas financeiras e interrupções nos negócios.

Entre os riscos estão sequestros de dados, vazamento de informações, roubo de identidade digital e ataques potencializados pelo uso da própria inteligência artificial por agentes mal-intencionados.

O Brasil na vanguarda da adoção da IA

Contrariando a percepção de que o país costuma chegar atrasado às grandes transformações tecnológicas, Ricardo Mucci afirmou que o Brasil ocupa posição de destaque na adoção da inteligência artificial.

“O Brasil hoje está na vanguarda na utilização de IA.”

De acordo com dados apresentados durante a entrevista, 66% das empresas brasileiras já possuem algum nível de implementação ou maturidade na utilização da tecnologia. O executivo também destacou o crescimento do ecossistema de startups voltadas à inteligência artificial e a capacidade dos empreendedores brasileiros de desenvolver aplicações para setores diversos.

Entre os exemplos citados estão soluções para saúde, educação, mineração e petróleo. Na área médica, ele mencionou sistemas capazes de realizar a coleta inicial de informações do paciente, estruturar relatórios e sugerir encaminhamentos ao profissional de saúde, reduzindo tempo de atendimento e aumentando a eficiência dos processos.

O custo da inteligência artificial

A popularização da IA trouxe também um novo desafio: controlar os custos associados ao uso dessas tecnologias.

Durante a entrevista, Mucci chamou atenção para a importância de utilizar de forma eficiente os tokens, unidades de processamento consumidas pelos modelos de inteligência artificial.

“Não dê bom dia para a IA, porque na hora que você der bom dia para a IA, ela vai te responder e você vai consumir um token ali.”

A observação foi usada para ilustrar um problema que muitas empresas começam a enfrentar: a conta do uso intensivo da tecnologia. Segundo ele, organizações mais maduras já buscam modelos híbridos, combinando recursos próprios e serviços em nuvem para equilibrar desempenho e custos.

Pessoas continuam no centro da transformação

Embora a inteligência artificial automatize tarefas e aumente a produtividade, Ricardo Mucci rejeita a ideia de que a tecnologia substituirá amplamente os profissionais.

Segundo ele, a tendência é que as pessoas passem a desempenhar funções mais estratégicas, supervisionando sistemas inteligentes e tomando decisões de maior valor agregado.

“Vai perder o trabalho possivelmente não aquela pessoa que não saiba nada de IA, ou que não conhece o negócio, mas vai perder para aquela pessoa que esteja utilizando melhor as plataformas de IA.”

O executivo destacou ainda a necessidade de investir em capacitação. Citou como exemplo o programa Cisco Networking Academy, iniciativa de formação tecnológica mantida pela companhia há mais de duas décadas, e defendeu maior participação das empresas na preparação dos profissionais para o mercado de trabalho.

Educação, adaptação e liderança

Filho de professora da rede pública e formado em escola técnica estadual, Ricardo Mucci atribui à educação boa parte de sua trajetória profissional. Ao recordar o início da carreira, destacou a influência da mãe, que repetia constantemente uma mensagem que o acompanhou ao longo da vida:

“Só tem uma coisa que vai mudar sua vida: é a educação.”

Ao falar sobre liderança, ressaltou a importância da aprendizagem contínua, da capacidade de adaptação e da abertura às mudanças tecnológicas. Para ele, as transformações são inevitáveis e exigem profissionais preparados para aprender continuamente.

Ricardo Mucci resumiu sua visão sobre o papel da tecnologia na sociedade:

“A transformação só vale a pena se for para melhorar a vida das pessoas.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O metal e a imagem: a subversão diante do usurpador

Por Caio Luizetto

Moeda
Foto: Nucleo Editorial/Flickr

A célebre máxima “Dai a César o que é de César” foi, ao longo da história, domesticada e transformada em um manual de conformismo político ou obediência fiscal. No entanto, quando se resgata o cenário asfixiante da Judeia no século I, a resposta de Jesus deixa de ser uma saída diplomática e revela uma sofisticação psicológica cortante. 

Sob a ótica do contexto real, César não possuía direito legítimo a nada naquele território; era um usurpador que mantinha um povo sob o jugo da força bruta, do sangue e da pilhagem econômica. A questão levada a Jesus, portanto, jamais foi sobre a moralidade dos impostos, mas sobre algo muito mais complexo: como o indivíduo deve se relacionar com o opressor sem permitir que ele colonize a sua alma.

A inteligência da resposta reside na recusa em jogar o jogo simétrico da força. Ao pedir para ver o denário romano e questionar de quem eram a efígie e a inscrição, o contragolpe expõe uma ironia fina que esvazia o poder do império. 

Devolver a César aquela moeda de metal com o rosto de um homem egocêntrico não era um ato de submissão, mas de desdém soberano. Era como dizer que o grande aparato romano, com toda a sua pompa militar, reduzia-se ao controle de pedaços inúteis de metal. Há uma libertação psicológica em entregar ao usurpador o que é perecível para não ter de lhe entregar o que realmente importa.

O verdadeiro xeque-mate existencial, contudo, repousa na segunda metade da sentença: “…e a Deus o que é de Deus”. Se a moeda carregava a imagem gravada de César e, por isso, pertencia a ele, o ser humano — de acordo com a tradição milenar daquele povo — carregava em si a imagem e semelhança do Criador. O limite da opressão era estabelecido ali. O usurpador poderia tomar as terras, confiscar a colheita, controlar o comércio e ditar as leis civis pela ponta da espada; os corpos poderiam estar sob cativeiro econômico, mas a dignidade, a identidade e o espírito permaneciam invioláveis.

Compreender esse episódio sob esse prisma muda a dinâmica da resistência. Não se trata de passividade diante da tirania, mas de uma recusa absoluta em validar a autoridade moral do opressor. Ao delimitar o que pertencia ao metal e o que pertencia ao sagrado, estabeleceu-se um manual de sobrevivência interior: pode-se entregar o tributo exigido pela força para preservar a vida, desde que se mantenha a mente e o coração sob uma assinatura que nenhum império do mundo é capaz de rasurar.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: estudo inédito revela tendências na indústria farmacêutica

Oura ring
Lançamento do Oura Ring é tendência no setor Foto: Jeroen Sangers, no Flickr

A indústria farmacêutica brasileira vive uma transformação que vai muito além do desenvolvimento de medicamentos. O foco passou a incluir, cada vez mais, a experiência, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas — em lugar de se ater apenas aos produtos desaenvolvidos e lançados no mercado.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, da CBN, Jaime Troiano e Cecília Russo falaram deste tema que faz parte do relatório “O Pulso do Mercado”, produzido pela TROIANO para analisar tendências e movimentos que estão redesenhando o setor farmacêutico.

Os números ajudam a dimensionar a relevância desse mercado. Segundo Jaime Troiano, a indústria farmacêutica brasileira encerrou 2025 com faturamento de R$ 246 bilhões, crescimento de 11% em relação ao ano anterior. Além disso, o Brasil concentra 42% de todo o faturamento do setor na América Latina. Outro dado revelador é que a indústria farmacêutica se tornou, em 2024, o quarto setor que mais investe em compra de mídia no país.

Para Jaime, essa mudança está associada a uma transformação mais profunda. “É perceptível como o paciente saiu da posição de coadjuvante e tornou-se protagonista. Antes, a molécula estava no centro de tudo. Hoje, também estão as pessoas.”

O relatório identifica cinco forças que estão moldando o futuro do setor, todas conectadas a um mesmo conceito: a humanização da saúde. Em vez de olhar apenas para o tratamento das doenças, as empresas passam a considerar a jornada completa do indivíduo, suas necessidades, hábitos e expectativas.

Dentro desse contexto surge uma mudança de perspectiva resumida em duas palavras da língua inglesa: lifespan e healthspan. A primeira está relacionada ao tempo de vida. A segunda, à qualidade desse tempo. Como explicou Jaime Troiano, a preocupação deixa de ser apenas viver mais para incluir também viver melhor.

Essa mudança abre espaço para novos modelos de negócio e para marcas que atuam em áreas antes distantes da indústria farmacêutica tradicional.

Cecília Russo citou como exemplo a empresa finlandesa Oura Ring, que desenvolveu um anel inteligente capaz de monitorar sono, frequência cardíaca e padrões de comportamento. Com o apoio da inteligência artificial, o dispositivo oferece recomendações personalizadas para melhorar a saúde e o bem-estar.

Outro caso mencionado foi o da britânica Zoe. A empresa transformou o monitor contínuo de glicose, antes associado quase exclusivamente ao tratamento do diabetes, em uma ferramenta de acompanhamento para pessoas interessadas em hábitos mais saudáveis. “Tiraram o estigma de doença e abriram uma nova categoria”, observou Cecília.

Ela destacou ainda um trabalho realizado pela TROIANO no Brasil com a marca Sany D, do laboratório Aché. O reposicionamento buscou ampliar o significado da vitamina D, conectando o produto a conceitos como energia, disposição e qualidade de vida.

Na avaliação de Cecília Russo, a principal consequência desse movimento é que a diferenciação das empresas passa cada vez mais pela construção da marca. “Num mercado onde os produtos ficam cada vez mais parecidos do ponto de vista técnico, a marca que faz toda a diferença.”

A afirmação ajuda a compreender um fenômeno que não se limita ao setor farmacêutico. Quando a tecnologia se dissemina e os produtos se aproximam em qualidade e desempenho, confiança, identificação e vínculo emocional tornam-se fatores decisivos na escolha do consumidor.

A marca do Sua Marca

A principal lição do Sua Marca é que a saúde está deixando de ser tratada apenas como combate à doença para ser entendida como promoção de qualidade de vida. Nesse cenário, as marcas que enxergam pessoas em vez de diagnósticos ampliam sua relevância e fortalecem sua conexão com o público.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche na Copa: nem o Brasil salvou meu bolão

Brasil 1 x 1 Marrocos
Copa do Mundo — New Jersey/New York, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Peck/Flickr

A parada da Copa me deixou com saudades desta Avalanche, espaço em que divido com o caro — e cada vez mais raro — leitor alegrias e angústias provocadas pelo meu time. Sem o Grêmio em campo desde o fim de maio, não via a hora de o Mundial de Seleções começar. Copa do Mundo é sempre um grande evento. Até mesmo esta, em que a FIFA ampliou o número de participantes, prejudicando a competitividade, e Donald Trump se esforça para estragar a festa.

Confesso que comecei mal nos palpites. Minha participação no bolão que criamos lá na rádio é pífia — consegue ser mais sofrível do que o desempenho do Grêmio na primeira parte da temporada. Próximo do encerramento do terceiro dia de jogos, alcancei míseros 20 pontos de 150 possíveis.

Antes de me zoar pelo aproveitamento irrisório, saiba que a culpa não é minha. Minhas apostas eram muito boas, calçadas na lógica e sustentadas pelo histórico de cada seleção. Que responsabilidade tenho eu se os protagonistas não entregam o que deles se espera?

Veja o caso do Catar. Chegou à Copa predestinado a ser goleado no Grupo B. Não apenas resistiu à pressão da Suíça, que chutou 27 vezes, dez delas no gol, como ainda surpreendeu os astros europeus ao empatar a partida nos minutos finais. E a Coreia? Em vez de se contentar com uma derrota simples — que me garantiria 25 pontos —, virou o jogo sobre a Tchéquia. Sem contar o Paraguai, seleção que sempre foi aguerrida, vendia caro suas derrotas, tinha uma defesa firme e uma marcação no limite da violência permitida. Levou quatro gols dos Estados Unidos.

Eu havia apostado em uma vitória brasileira. Palpite enviesado, é lógico. É difícil registrar um placar desfavorável para o Brasil. O coração fala mais alto. Fui de 2 a 1, considerando que Marrocos era o adversário mais forte da chave e vinha se destacando positivamente — atual campeão mundial sub-20 e quarto colocado na Copa de 2022.

Levar um gol de contra-ataque, com os dois zagueiros sendo surpreendidos pela velocidade do atacante adversário aos 21 minutos do primeiro tempo, não me espantou. Estava na conta. E, convenhamos, os marroquinos dominavam a partida até aquele momento. Mal conseguíamos organizar um ataque, errávamos passes na saída de bola e o risco era iminente. Apesar disso, bastaria uma virada, como a Coreia havia conseguido diante da Tchéquia. Por que o Brasil não seria capaz?

O empate não demorou a chegar, especialmente pelo talento de Vini Jr., que desde o início era o principal jogador brasileiro. Era Vini e mais dez. Ou seria Vini e menos dez? Aos 32 minutos, em um dos raros momentos em que a seleção conseguiu trocar passes com qualidade, ele recebeu a bola, driblou um marcador, deixou outro para trás e estufou a rede. Era o empate abrindo caminho para a virada e para a confirmação do meu bolão.

Ledo engano. Mesmo com Marrocos reduzindo o ritmo, seguia sendo a seleção mais organizada em campo. O Brasil até aumentou a intensidade, mas a dificuldade para articular jogadas, trocar passes com precisão e demonstrar força ofensiva impediu a virada.

Para piorar, à medida que assistia ao Brasil de Ancelotti e àquele latifúndio sem dono no meio de campo, relâmpagos iluminavam minha mente e me faziam imaginar a utilidade que teria um jogador com a qualidade de Arthur, do Grêmio. Como pode o Brasil, essa máquina de exportar jogadores, não ter alguém capaz de segurar a bola, cadenciar o ritmo conforme a partida exige e distribuir o jogo de maneira organizada e produtiva?

Cheguei a delirar em alguns momentos. Imaginei Pavón ocupando a ala direita, diante da ineficiência dos laterais utilizados por Ancelotti. E até Carlos Vinícius dentro da área para aproveitar alguma bola alçada sobre os zagueiros adversários.

Sim, eu sei. Essas alucinações talvez expliquem por que meus palpites no bolão têm sido um desastre. Mas, se a seleção tivesse jogado um pouquinho melhor, provavelmente essas ideias malucas nem teriam passado pela minha cabeça.

Que Ancelotti tenha mais sorte do que eu — ou mais critério — nas próximas escalações.