Grêmio 3×1 Internacional Copa do Brasil — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Carlos Vinícus marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Eram 56 mil pessoas lotando a Arena nesta noite mágica de quinta-feira. Uma multidão majoritariamente gremista tomou conta das arquibancadas. O 3 de setembro de 2026 entra para a história como a data do maior público desde a inauguração do estádio — sim, esta Arena é verdadeiramente nossa.
O recorde dá a dimensão do Gre-Nal que estava em disputa.
Não valia apenas uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Não valia somente mais uma vitória para as estatísticas dos 454 clássicos disputados desde 1909. Valia muito mais.
Os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul entraram em campo para defender a própria sobrevivência no futebol.
Uma derrota, naquele momento, diante do arquirrival, poderia representar o fim de uma história de glórias. A derrocada definitiva. A pá de cal sobre um clube que enfrenta enormes dificuldades financeiras. O risco de ver ruir um legado vitorioso, construído por gerações e transformado em motivo de orgulho para seus torcedores.
Era isso que estava em jogo.
E, se a disputa era pela sobrevivência, não bastava ser Gigante. Era preciso ser Imortal.
Empurrado pela torcida, o Grêmio correspondeu com eficiência e bravura. Marcou com firmeza, ocupou os espaços e contra-atacou ainda melhor.
O primeiro gol nasceu de um escanteio e terminou nos pés de Carlos Vinícius, o atacante redivivo. Havia oito partidas que ele não marcava. Nesta noite, matou a fome. Insaciável, voltou a balançar a rede 20 minutos depois.
O segundo gol foi resultado de uma jogada veloz, construída com passes precisos e a participação de Amuzu pelo lado esquerdo. O ponta belga, que ainda devia uma atuação à altura das expectativas, também renasceu com a camisa do Grêmio. Puxou o contra-ataque e deu a assistência para Carlos Vinícius ampliar.
Amuzu guardaria sua melhor contribuição para o segundo tempo.
Aos 23 minutos da etapa final, Tetê avançou pela direita e tabelou com o belga. Dentro da área, Amuzu deu um passe à la Ronaldinho Gaúcho: olhou para um lado e tocou para o outro. Encontrou Krovinović, que driblou o marcador e bateu para fazer seu primeiro gol desde que chegou ao clube.
Sim, o croata também escolheu um Gre-Nal para começar a escrever sua história com a camisa do Grêmio.
O time soube sofrer. Weverton voltou a se destacar. Kannemann e Walace foram valentes na defesa. Diego Caito superou a dor provocada por uma lesão no ombro. Noriega dominou a frente da área. Villasanti manteve a firmeza nos desarmes.
O Grêmio de Luís Castro jogou como há muito tempo o torcedor exigia. Com organização, coragem e entrega. Cada jogador pareceu compreender que não estava em campo apenas para conquistar uma classificação. Lutava para impedir que uma parte da história do clube se perdesse naquela noite.
Um feito dessa dimensão, em um clássico que contrariou os analistas empenhados em prever um jogo mal jogado, aconteceu justamente no aniversário de Luís Castro.
O treinador português comandou a equipe quase sempre sob a desconfiança do torcedor. Corria o risco de deixar o clube sem construir vínculos nem deixar saudades. Nesta quinta-feira, também ele renasceu. Luís Castro nasceu para o Grêmio em um Gre-Nal.
A vitória não resolve todas as dificuldades. Não apaga os erros. Não faz desaparecer as dívidas nem garante o futuro. Apenas nos lembra que há clubes que atravessam a história pelo tamanho que alcançaram.
E há outros que sobrevivem porque se recusam a morrer.
Hoje, abri o aplicativo do banco e encontrei dois boletos que não reconhecia.
Um deles, de R$ 595, estava em nome da Sebracom Empresarial. O outro, de R$ 783,60, era da Speed Tecnet. Os dois tinham a mesma data de vencimento e apareciam na área reservada às contas que eu teria de pagar.
A primeira reação foi tentar descobrir se havia alguma despesa esquecida. Não havia. Eu nunca contratei serviços dessas empresas.
Ao pesquisar, encontrei diversos relatos semelhantes. Empresários de várias regiões do país receberam boletos nos mesmos valores, também sem reconhecer qualquer contratação.
As empresas dizem que esses documentos não representam dívidas. Seriam “boletos-proposta”: ofertas comerciais cujo pagamento é facultativo. Quem paga aceita contratar o serviço. Quem não tem interesse pode simplesmente ignorar.
O problema é a maneira como essa oferta aparece. Ela não chega como propaganda. Surge dentro do aplicativo bancário, misturada às contas de condomínio, impostos, mensalidades e serviços efetivamente contratados. Tem nome de empresa, valor e vencimento. Parece uma dívida à espera de pagamento.
E há um risco evidente: alguém menos atento pode pagar todos os boletos apresentados pelo banco sem perceber que, entre eles, existe uma proposta comercial que nunca pediu.
É importante esclarecer que a presença de um boleto no DDA — o sistema que apresenta eletronicamente as cobranças registradas em nosso CPF ou CNPJ — não significa que a dívida foi reconhecida pelo banco. Também não significa que o dinheiro será retirado automaticamente. O pagamento só ocorre com a autorização do cliente.
A regulamentação do Banco Central determina que o boleto-proposta deve ser apresentado de forma clara e que sua emissão depende de manifestação prévia do pagador sobre o interesse em recebê-lo. No meu caso, não houve pedido nem manifestação de interesse.
Por isso, fica o alerta: abra o aplicativo do banco, examine cada boleto e não pague nada apenas porque a cobrança apareceu ali. Confira o nome do beneficiário, o valor e a origem da despesa.
Se não reconhecer, não pague. Marque a cobrança como desconhecida, peça a baixa do boleto e comunique o banco.
A tecnologia ajuda a organizar as contas. O cuidado continua sendo nosso. Até porque boleto não cria dívida. E proposta que chega disfarçada de obrigação merece, no mínimo, a nossa desconfiança.
A mineração em terras indígenas pode movimentar bilhões de reais, mas coloca na mesma balança recursos econômicos, proteção ambiental, valores culturais e o direito dos povos originários de decidir sobre seus territórios. O tema esteve no 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Luis Maurício Ferraiuoli, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM), e Juliana de Paula Batista, advogada do Instituto Territórios Vivos.
A Constituição admite a exploração de recursos minerais em terras indígenas, desde que haja autorização do Congresso Nacional, participação das comunidades afetadas e regulamentação específica. Essa legislação, porém, ainda não existe.
Ferraiuoli defendeu que a mineração regulamentada pode gerar recursos para as comunidades e argumentou que experiências internacionais mostram ser possível conciliar a atividade econômica com a preservação dos territórios e das tradições. Citou exemplos dos Estados Unidos e da Austrália, onde comunidades indígenas recebem receitas provenientes da mineração.
Para ele, o ponto central é garantir aos próprios indígenas a possibilidade de decidir: “A pergunta que eu acho que a gente tem que fazer é se o indígena quer a mineração ou não.” Ferraiuoli também afirmou que nem todo território deveria ser explorado e que áreas consideradas sagradas ou fundamentais para povos tradicionais precisam ser preservadas.
Juliana de Paula Batista destacou que a discussão não pode partir da ideia de liberar indiscriminadamente a atividade. Antes de chegar às terras indígenas, segundo ela, o país deveria conhecer melhor seu potencial mineral e verificar se os mesmos recursos podem ser encontrados e explorados em outras regiões.
“A mineração em terra indígena deve ser a exceção da exceção da exceção”, afirmou. Para Juliana, se determinada jazida puder ser explorada fora desses territórios, não haveria razão para levar a atividade para dentro deles.
Ela também argumentou que não basta calcular quanto dinheiro uma comunidade receberia. Existem territórios com significado religioso e cultural que não podem ser avaliados apenas pelo valor econômico do minério existente no subsolo.
Para explicar, comparou lugares sagrados indígenas à Capela Sistina. Se a existência de minerais valiosos sob um patrimônio religioso não justificaria sua destruição, o mesmo princípio deveria ser considerado diante de locais sagrados para os povos indígenas.
Quem decide sobre o território
Nesse ponto, as posições dos debatedores se aproximaram. Ferraiuoli defendeu uma consulta aos povos indígenas e afirmou que a mineração organizada pode ser benéfica em alguns locais e inadmissível em outros.
Juliana também reconheceu que não existe uma posição única entre os indígenas. Algumas comunidades podem considerar os benefícios econômicos legítimos e desejar participar da atividade. Outras podem rejeitá-la por razões ambientais, sociais, culturais ou religiosas.
“A questão mais importante dentro dessa regulamentação é o nível de autonomia que eles vão ter”, afirmou. Para ela, o primeiro passo seria identificar em quais territórios e com quais povos a mineração poderia sequer ser objeto de diálogo.
O debate, portanto, vai além de responder simplesmente “sim” ou “não” à mineração. A questão passa por definir onde ela poderia ocorrer, quais limites seriam impostos, como os benefícios econômicos seriam distribuídos e, sobretudo, quanto poder de decisão teriam as comunidades diretamente afetadas.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Fugir da dieta. Perder horas e horas no celular. Tomar um vinho ou alguns drinks para relaxar.
Comprar “porque eu mereço”. Explodir “porque não aguento mais”. Dormir “porque estou esgotado”.
Quando você faz essas coisas, quem escolhe o que você faz?
Quando você age, quem está na liderança?
Podemos não perceber, mas tomamos centenas de microdecisões ao longo do dia que, no fim, influenciam muitos dos resultados da nossa vida.
De repente, gastamos mais do que deveríamos, comemos mais do que gostaríamos, brigamos por tudo e com todos. Agimos por impulso e perdemos a consciência sobre nossas escolhas.
É gigantesco o preço por não conhecermos nosso mundo interior, por não percebermos o que sentimos e como esses sentimentos influenciam nossas atitudes. Aumentamos o risco de fazer escolhas das quais podemos nos arrepender. Surgem mágoas, perdas e frustrações.
Fugir das emoções também pode nos afastar dos nossos objetivos, nos distanciar de nossos sonhos. Fugir de nós mesmos compromete a autoliderança.
É preciso coragem. Olhar para dentro, perceber os movimentos que ocorrem e entrar em contato com os sentimentos que nos inundam costuma ser assustador. Quanto menos fazemos isso, mais medo temos, mais ficamos presos nos vícios aqui fora.
É aí que entra a coragem emocional. A essência da liberdade e das conquistas. É olhar para as emoções, compreender o que elas têm a dizer e, usando essa força como combustível, acelerar rumo à sua meta — fazer o que precisa ser feito para construir a vida que deseja viver.
Coragem emocional também é trabalhar agora para desfrutar momentos de realização e sucesso. Quem mergulha em seu próprio universo traz à tona uma versão sólida e potente de si mesmo.
Então, me conta: você tem coragem?
Quem lidera você?
Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Leonardo Coelho no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O grande segredo para qualquer pessoa que lida com riscos é não ignorá-los. Você precisa conhecê-los.”
Uma enchente pode interromper uma fábrica, comprometer fornecedores e afetar trabalhadores. Uma guerra distante pode encarecer energia, alterar rotas logísticas e atingir empresas brasileiras. Um ataque cibernético pode paralisar uma operação inteira. O desafio para as empresas é que esses riscos já não aparecem necessariamente de maneira isolada: clima, tecnologia, comércio, geopolítica e força de trabalho se cruzam e ampliam seus efeitos. Como administrar negócios diante dessa combinação foi o tema da entrevista de Leonardo Coelho, CEO da Aon para o Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Coelho usa a expressão “riscos convergentes” para descrever esse ambiente. A lógica é relativamente simples: um acontecimento em determinada área pode desencadear consequências em várias outras. Por isso, mais do que tentar prever a próxima crise, as empresas precisam desenvolver capacidade para reagir quando ela surgir.
Na avaliação do executivo, identificar ameaças já não é necessariamente a parte mais difícil. O desafio está em criar estrutura, governança e planejamento de longo prazo para administrá-las. Segundo ele, mais da metade das empresas brasileiras já trata a gestão de riscos como assunto de conselho de administração ou de governança corporativa.
A existência dessa preocupação, porém, não significa que as empresas estejam suficientemente protegidas. Coelho cita os ataques cibernéticos como exemplo. Segundo os dados apresentados por ele durante a entrevista, apenas cerca de 24% das empresas avaliam proteção em seus contratos de seguro contra esse tipo de ataque.
Da enchente à geopolítica
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul ajudam a compreender a diferença entre reconhecer uma ameaça e estar preparado para suas consequências.
De acordo com estimativa apresentada por Coelho, apenas entre 30% e 35% das perdas físicas provocadas pelo desastre tinham algum tipo de cobertura de seguro. Nesse cálculo entram desde veículos de pessoas físicas até instalações e equipamentos industriais.
O episódio também mostrou que gestão de risco não pode se limitar à contratação de seguro. Prevenção, localização das instalações, planos para continuidade das operações e capacidade de recuperação precisam fazer parte da estratégia.
A mesma lógica vale para acontecimentos geopolíticos. Tensões em rotas internacionais podem atingir a cadeia logística, alterar preços de petróleo e gás e dificultar o acesso a produtos e matérias-primas. Para um país com participação relevante no comércio internacional e no agronegócio, como o Brasil, acontecimentos a milhares de quilômetros de distância podem rapidamente chegar ao balanço das empresas.
É nesse ponto que entram análise de dados, construção de cenários e planejamento. A intenção não é adivinhar qual será a próxima crise, mas calcular vulnerabilidades e preparar alternativas.
Entre os riscos identificados pelas empresas brasileiras nos estudos citados pela Aon está a interrupção dos negócios.
A origem dessa paralisação pode ser bastante diferente daquela que tradicionalmente se associa a uma fábrica fechada por um acidente. Em uma fintech, por exemplo, uma queda de energia ou invasão hacker pode comprometer toda a operação.
Também pode faltar gente com a qualificação necessária para manter o negócio funcionando.
Coelho explica que o surgimento de funções ligadas à inteligência artificial e ao aprendizado de máquina obrigou empresas a rever estruturas de cargos, salários e competências. Atrair e reter esses profissionais passa, portanto, a fazer parte da própria gestão de riscos.
Essa mudança amplia a ideia de proteção empresarial. O patrimônio de uma companhia não se resume a prédios, máquinas e estoques. Pessoas, conhecimento e capacidade de adaptação também determinam se o negócio conseguirá continuar funcionando depois de uma crise.
Inteligência artificial exige investimento nas pessoas
A relação entre tecnologia e trabalho ocupa parte importante dessa discussão.
Comprar uma ferramenta de inteligência artificial não significa automaticamente ganhar produtividade. Sem profissionais preparados para utilizá-la, o investimento pode produzir justamente o contrário: desperdício de dinheiro, ineficiência e perda de competitividade.
“A inteligência humana é insubstituível. Então, a decisão de negócio, ela precisa sempre estar do lado humano”, afirmou Coelho.
Para ele, a contratação também está mudando. As empresas passam a observar mais as habilidades e os comportamentos dos profissionais, e não apenas sua formação tradicional. Senso crítico e capacidade de tomar decisões ganham peso à medida que a inteligência artificial assume parte da execução e do processamento das tarefas.
O risco, portanto, está em investir na máquina e esquecer quem terá de decidir o que fazer com aquilo que ela produz.
“Investimento de tecnologia mal feito, ele gera ineficiência, perda financeira, mas sobretudo eu diria que um atraso estratégico e competitivo no longo prazo quando você coloca esse componente humano nessa combinação.”
A preparação das equipes, na avaliação de Coelho, ainda recebe menos atenção do que a adoção das próprias ferramentas de inteligência artificial.
Quatro gerações dentro da mesma empresa
A força de trabalho acrescenta outra camada de complexidade.
Coelho observa que as empresas convivem hoje com pelo menos quatro gerações trabalhando simultaneamente. Cada uma pode atribuir valores diferentes ao trabalho remoto, aos benefícios oferecidos pela empresa, à carreira e à própria aposentadoria.
Isso obriga os departamentos de recursos humanos a abandonar s.oluções uniformes e observar a trajetória do trabalhador de maneira mais ampla.
O custo da saúde é um exemplo. Segundo Coelho, a inflação médica brasileira permaneceu em dois dígitos durante boa parte dos últimos dez anos e está em torno de 9,5% neste ano, de acordo com os números apresentados por ele na entrevista. Para as empresas, administrar esse benefício tem impacto direto sobre custos e planejamento financeiro.
Ao mesmo tempo, perder profissionais difíceis de substituir ou não conseguir atrair pessoas com determinadas competências também pode comprometer os negócios.
A experiência de Coelho nessa área influencia sua visão sobre gestão. Antes de assumir a presidência da Aon no Brasil, em fevereiro de 2026, ele atuou principalmente com saúde e talentos, embora tenha iniciado a carreira no segmento de seguros patrimoniais.
Ao falar sobre liderança, resume sua lógica em uma sequência:
“Eu sempre tenho um mantra, que é: cultura, pessoas e performance, nessa ordem.”
Gestão de risco não pode virar medo de decidir
Conhecer as ameaças não significa tentar eliminar todas elas.
Coelho reconhece que seria impossível prever e proteger uma organização de todos os riscos existentes. Uma empresa precisa decidir quais ameaças pretende reduzir, quais pode transferir por meio de seguros e quais está disposta a assumir.
Esse processo envolve uma escolha que nem sempre é evidente: gastar mais dinheiro para se proteger também tem custo. Em determinadas situações, não contratar determinada proteção pode ser uma decisão empresarial deliberada.
O perigo aparece quando o mapeamento de riscos produz paralisia.
Por isso, Coelho defende que as empresas acompanhem historicamente sua exposição, meçam os impactos financeiros e avaliem o retorno dos investimentos destinados à proteção. Quanto maior a capacidade de prevenção, menor tende a ser a dependência de mecanismos destinados apenas a reparar o prejuízo depois que ele ocorreu.
Um seguro pode repor um bem ou compensar uma perda financeira. Não consegue, por si só, evitar que o problema aconteça.
Essa diferença ajuda a entender a transformação da gestão de riscos. O objetivo deixa de ser apenas pagar pelo prejuízo depois da crise e passa a incluir a construção de empresas capazes de continuar funcionando quando algo sai do roteiro.
E alguma coisa, cedo ou tarde, sempre sai.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
As apostas esportivas online movimentam milhões de brasileiros e colocam o governo diante de um dilema: como reduzir os danos sociais provocados pelo jogo sem fortalecer as plataformas clandestinas? O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com a economista Juliana Inhasz, do Insper, e Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias.
O mercado de apostas online está regulamentado no Brasil e as empresas autorizadas pagam impostos, geram empregos e patrocinam clubes e competições esportivas. Ao mesmo tempo, crescem as preocupações com endividamento, dependência do jogo e a facilidade de acesso às apostas pelo celular.
O debate, portanto, não é mais simplesmente entre permitir ou proibir as bets. A questão é definir quanto o Estado deve cobrar das empresas e quais controles deve estabelecer sobre a atividade.
Plínio Lemos Jorge argumentou que a carga tributária das empresas de apostas é maior do que costuma aparecer no debate público. Segundo ele, além da destinação incidente sobre o valor arrecadado depois do pagamento dos prêmios, as empresas recolhem tributos comuns às demais atividades econômicas.
Para Plínio, elevar essa carga reduz a capacidade das empresas legalizadas de competir com sites clandestinos, que não pagam impostos nem cumprem as regras estabelecidas pelo governo.
“Nós estamos no limite de tributação para o mercado saudável.”
Ele também contestou a dimensão atribuída ao endividamento provocado pelas apostas e defendeu que o governo ouça empresas e especialistas do setor antes de adotar novas medidas.
Tributação depende do objetivo
Juliana Inhasz concordou que impostos excessivamente altos podem produzir um efeito contrário ao pretendido e levar apostadores para plataformas ilegais. Para ela, a primeira pergunta deve ser outra: qual é o objetivo do governo ao tributar as bets?
Se a intenção for desestimular uma atividade considerada prejudicial à sociedade, uma tributação maior pode fazer sentido. Se a prioridade for arrecadar, sufocar o mercado formal pode reduzir receitas e ampliar justamente a atividade clandestina.
“Uma colocação de um tributo de uma forma pouco racional ou pouco estratégica pode fazer com que esse mercado ilegal cresça.”
A economista destacou, porém, que a discussão não pode ficar restrita aos impostos. Para ela, é preciso acompanhar o crescimento do endividamento, fiscalizar o setor e investir em conscientização.
Outro ponto levantado por Juliana foi a maneira como parte da população enxerga as bets. A aposta deveria ser compreendida como entretenimento, e não como estratégia para complementar renda ou construir patrimônio.
Essa distinção ajuda a explicar por que tributação e fiscalização precisam caminhar juntas. Cobrar mais impostos pode desestimular apostas, mas perde eficácia se o apostador migrar para uma plataforma ilegal. Cobrar menos pode preservar o mercado regulado, mas deixa em aberto a questão de como financiar prevenção, fiscalização e tratamento dos problemas associados ao jogo.
O desafio é encontrar esse ponto de equilíbrio: manter os apostadores no ambiente regulado sem tratar como secundários os custos econômicos e sociais das apostas.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
A dor costuma ser compreendida como um sintoma. Seja física ou emocional, ela é geralmente vista como um sinal de que algo não vai bem no organismo ou na vida psíquica. Entretanto, sob a perspectiva da Ciência do Sentir, a dor não é somente um sintoma. Como todo sentir, ela constitui uma forma de expressão da própria existência.
Ao longo da história da ciência, diferentes paradigmas moldaram a forma como compreendemos o ser humano. Até o fim do século XIX, predominava a visão mecanicista, inspirada na física newtoniana, segundo a qual a natureza funcionaria como uma grande máquina regida por leis determinísticas. Nesse contexto, o corpo humano passou a ser concebido como um mecanismo composto por partes, cujas funções poderiam ser analisadas isoladamente.
No século XX, entretanto, essa visão mostrou-se insuficiente para explicar diversos fenômenos da realidade. A Teoria da Relatividade introduziu a noção de um espaço-tempo dinâmico e dependente do observador. Pouco depois, a Física Quântica revelou que a relação entre observador e fenômeno observado não pode ser completamente dissociada. Mais do que novas teorias físicas, esses desenvolvimentos inauguraram uma forma de compreender a realidade, marcada pela interdependência, pela complexidade e pela superação das separações rígidas.
Inspirada por essa ampliação de perspectiva, a Ciência do Sentir propõe que o ser humano não seja compreendido como uma soma de partes independentes — corpo de um lado e mente de outro —, mas como uma unidade organizada de experiência.
Nesse contexto, a dor física e a dor emocional não constituem fenômenos separados que posteriormente interagem entre si. São diferentes formas pelas quais uma mesma organização existencial se manifesta. O que chamamos de corpo e o que chamamos de psiquismo correspondem a níveis distintos de expressão de uma mesma realidade vivida.
Um exemplo ilustrativo é o caso de Martinha (Breves, 2015). Após o desaparecimento do filho, ela passou anos convivendo com dores abdominais que se intensificaram progressivamente e foram acompanhadas por hipertensão arterial, culminando na necessidade de uma cirurgia de vesícula.
Diferentes perspectivas poderiam interpretar essa situação de maneiras distintas:
Na visão organicista tradicional, a dor seria compreendida exclusivamente como consequência da doença física, entendida como resultado de alterações biológicas localizadas no organismo.
Na visão psicológica clássica, a dor física seria considerada uma manifestação indireta do sofrimento emocional provocado pelo desaparecimento do filho, assumindo-se uma primazia do psicológico sobre o corporal.
Na psicossomática contemporânea, corpo e psiquismo seriam vistos como sistemas distintos, porém interdependentes, cuja interação contribuiria para o aparecimento tanto dos sintomas físicos quanto do sofrimento emocional.
Na perspectiva da Ciência do Sentir, não se trata de estabelecer uma relação causal entre corpo e mente, mas de reconhecer que ambos expressam uma mesma organização vivencial. A dor física e a dor psíquica constituem modos distintos de manifestação de uma experiência existencial profundamente marcada pela perda.
A notícia do desaparecimento do filho não produz somente sofrimento psicológico nem somente alterações corporais. Ela reorganiza a totalidade da experiência da pessoa. Essa reorganização pode manifestar-se simultaneamente como sofrimento emocional, alterações fisiológicas, mudanças relacionais, transformações identitárias e diversos outros desdobramentos.
A dor, portanto, deixa de ser compreendida somente como um sinal de disfunção. Ela passa a ser reconhecida como uma forma de expressão do viver. Não é algo que simplesmente acontece ao indivíduo; é uma experiência que emerge da maneira singular como sua existência se organiza diante das circunstâncias da vida.
Sob essa perspectiva, saúde, doença e sofrimento deixam de ser fenômenos isolados para serem compreendidos como diferentes configurações da experiência humana. A dor torna-se, assim, uma linguagem do existir — uma linguagem que, embora frequentemente associada ao sofrimento, também revela a profundidade dos vínculos, das perdas, dos conflitos e dos processos de transformação que constituem a vida humana.
Referência bibliográfica
BREVES, Beatriz. A fronteira do adoecer — Por que você adoece? 2. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
O governo federal tem pouca liberdade para decidir onde aplicar boa parte do dinheiro previsto no Orçamento. Pelos dados orçamentários de 2026, cerca de 91% das despesas primárias são obrigatórias e aproximadamente 9% são classificadas como discricionárias, parcela sobre a qual existe maior possibilidade de decisão. Mesmo dentro desses 9%, porém, há recursos comprometidos com despesas que, na prática, dificilmente podem ser remanejadas.
Essa diferença entre o que é discricionário no papel e o que está efetivamente disponível para novas escolhas foi um dos pontos do episódio de hoje da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.
Um dos convidados, Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, argumentou que, quando são consideradas também essas despesas rígidas, restariam apenas R$ 3 de cada R$ 100 para decisões mais livres do governo. Ele discutiu o tema com Élida Graziane Pinto, procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo e professora de Administração Pública da FGV, que defende a manutenção das vinculações destinadas a proteger políticas públicas essenciais.
Vinculação orçamentária significa reservar previamente recursos públicos para determinadas finalidades. Saúde e educação são exemplos. A Constituição estabelece pisos de gastos nessas áreas, calculados a partir das receitas públicas. A intenção é impedir que serviços essenciais fiquem sujeitos apenas às prioridades políticas de cada governo.
Para Élida, os pisos não dispensam a cobrança por eficiência, mas oferecem estabilidade financeira para políticas que precisam atravessar diferentes governos. Ela cita a expansão do SUS e da educação pública desde a Constituição de 1988 como exemplos de processos que dependem de financiamento contínuo.
“A sustentabilidade de uma agenda de universalização de acesso […] demanda estabilidade de financiamento”, afirmou.
Élida também questionou a ideia de que retirar vinculações necessariamente levaria a uma utilização mais eficiente do dinheiro. Segundo ela, experiências de flexibilização fiscal abriram espaço para despesas pulverizadas, inclusive emendas parlamentares, sem garantia de melhor aplicação dos recursos. Para a procuradora, antes de reduzir os pisos de saúde e educação, seria necessário aproximar os gastos públicos do planejamento de cada política.
Ela também rejeitou a tese de que a redução do número de crianças permita diminuir os recursos destinados à educação. Lembrou que ainda há déficit de vagas em creches, necessidade de ampliar o ensino em tempo integral e elevado analfabetismo funcional.
Pestana argumentou que a classificação entre despesas obrigatórias e discricionárias não revela toda a rigidez do Orçamento. Parte do dinheiro considerado discricionário já tem, na prática, destinação difícil de alterar. Por isso, segundo ele, a margem efetiva para novas escolhas seria ainda menor.
“De cada R$ 100, 97 vão para despesas obrigatórias ou rígidas”, afirmou.
O argumento de Pestana é que um orçamento excessivamente comprometido dificulta a adaptação às transformações do país. Ele citou a mudança demográfica: com menos crianças e mais idosos, as necessidades também mudam. Em alguns municípios pode diminuir a pressão por novas vagas escolares, enquanto cresce a necessidade de recursos para saúde e Previdência.
Para ele, a rigidez também reduz o espaço destinado a investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia. A proposta é permitir revisões das prioridades, em vez de reproduzir automaticamente a distribuição dos recursos dos anos anteriores.
Salário mínimo também entrou no debate
Os dois convidados discutiram ainda a vinculação de benefícios ao salário mínimo. Élida defendeu a regra como instrumento de proteção da renda e redução da desigualdade. “Não se pode falar de ajuste fiscal necessariamente sobre a população mais vulnerável”, afirmou.
Pestana reconheceu o papel da valorização do salário mínimo no combate à desigualdade, mas defendeu maior liberdade para avaliar separadamente despesas vinculadas a ele, como piso previdenciário, seguro-desemprego, abono salarial e BPC. “Eu tenho certeza que a rigidez atual não nos levará a bom porto”, disse.
A divergência expõe a escolha central do debate: como garantir recursos para direitos sociais sem retirar do governo a capacidade de responder a novas prioridades? A vinculação protege determinadas políticas das mudanças de governo e das disputas pelo Orçamento. Ao mesmo tempo, quanto maior a parcela previamente comprometida, menor a capacidade de reorganizar os gastos diante das transformações econômicas e sociais.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
O envelhecimento é uma experiência heterogênea, marcada por diferentes trajetórias, condições de vida, histórias pessoais e relações sociais. O ambiente físico e o ambiente social participam diretamente da maneira como cada pessoa envelhece.
A casa, a vizinhança e os espaços onde a vida cotidiana acontece acumulam memórias, hábitos, referências e vínculos que contribuem para a construção da identidade e do sentimento de pertencimento.
É nesse contexto que se insere o conceito de aging in place. Entre 2011 e 2021, estudos da American Association of Retired Persons (AARP) identificaram que 77% das pessoas com mais de 50 anos desejavam permanecer em suas próprias casas. Entretanto, “envelhecer no lugar” não significa apenas permanecer fisicamente na mesma residência.
O conceito envolve a possibilidade de continuar vivendo em um lugar significativo, preservando autonomia, segurança, identidade, vínculos sociais e participação na comunidade à medida que as necessidades se transformam.
O pesquisador português António Fonseca amplia essa perspectiva ao destacar que o lugar não se restringe à casa. A vizinhança, os espaços públicos, os serviços, a mobilidade e as relações sociais também fazem parte das condições necessárias para envelhecer no local. Permanecer em casa sem conseguir circular, acessar serviços ou manter relações sociais pode resultar em isolamento, e não necessariamente em aging in place.
Por isso, o aging in place está relacionado à capacidade de o ambiente acompanhar as mudanças funcionais, cognitivas e sociais que ocorrem ao longo do envelhecimento.
Avanços na saúde, na farmacologia, na nutrição e nos hábitos de vida ampliaram a expectativa de vida, ao mesmo tempo que as cidades se tornaram mais complexas. Trânsito, ruído, deslocamentos prolongados, excesso de estímulos e conectividade permanente fazem parte da experiência urbana contemporânea e podem aumentar as exigências físicas e cognitivas impostas ao indivíduo.
Compreender como essas condições repercutem sobre o corpo envelhescente exige uma abordagem que articule arquitetura, desenho urbano, gerontologia e serviços socioassistenciais e de saúde.
Em 1973, os pesquisadores Lawton e Nahemow formularam a Teoria da Pressão–Competência, segundo a qual o comportamento e a adaptação da pessoa ao ambiente resultam da relação entre suas capacidades e as demandas impostas pelo espaço. Quando a competência diminui, ambientes com elevada pressão ambiental podem ampliar dificuldades, insegurança e dependência. A adequação do ambiente, nesse sentido, consiste em compatibilizar suas características com as capacidades do indivíduo, reduzindo barreiras desnecessárias sem eliminar estímulos que favoreçam a autonomia e a participação.
A partir dessa perspectiva, a Teoria Ecológica do Envelhecimento amplia a compreensão da relação entre pessoa e ambiente ao considerar que diferentes níveis de competência exigem diferentes graus de suporte ambiental. Assim, à medida que as capacidades funcionais diminuem, o ambiente passa a exercer maior influência sobre o comportamento. Pequenas alterações nas condições espaciais podem, portanto, produzir efeitos significativos sobre a autonomia, a segurança e a participação cotidiana.
Essa relação é fundamental para o aging in place, uma vez que a permanência no lugar escolhido depende da capacidade de o ambiente acompanhar as transformações decorrentes do envelhecimento.
Nesse contexto, ganha importância o princípio da docilidade ambiental, segundo o qual a influência do ambiente sobre o comportamento tende a aumentar conforme diminuem as competências individuais. Já a proatividade ambiental reflete a capacidade ativa da pessoa idosa de modificar, gerenciar e controlar seu espaço físico e social para atender às suas necessidades e manter a independência. O ambiente, portanto, passa a fortalecer ou enfraquecer a competência do indivíduo em sua própria moradia.
Dentro dessa perspectiva, a percepção também constitui uma peça fundamental da relação entre pessoa e ambiente. Cada indivíduo seleciona, organiza e interpreta os estímulos ao seu redor a partir de experiências, valores, hábitos e referências construídas ao longo da vida.
Uma rua associada ao medo pode ser evitada, enquanto um espaço reconhecido como familiar pode favorecer segurança e confiança. Esses códigos de referência influenciam escolhas, comportamentos e formas de utilização dos lugares.
Essa compreensão deve estar presente no projeto das residências e das instituições destinadas às pessoas idosas. Pequenas decisões podem modificar significativamente a autonomia cotidiana. A altura das janelas, a disposição dos equipamentos, a largura dos percursos, o alcance dos objetos e a relação visual com o exterior interferem na capacidade de realizar atividades sem depender continuamente de outra pessoa.
Uma janela alta, por exemplo, pode restringir a paisagem de quem permanece sentado ou deitado. Uma simples alteração na altura da abertura ou a inclusão de uma faixa transparente pode ampliar o campo visual e favorecer a relação com o entorno.
O mesmo princípio se aplica aos ambientes institucionais. A autonomia não desaparece quando a pessoa passa a viver em uma instituição. Ao contrário, o espaço deve oferecer condições para que ela continue exercendo escolhas. Isso inclui decidir onde sentar, com quem permanecer, quando buscar privacidade e quais atividades realizar.
Ambientes padronizados e com aparência hospitalar podem reforçar a dependência e a institucionalização.
Mobiliário familiar, cores, texturas, objetos pessoais, conforto ambiental, referências visuais e diferentes possibilidades de permanência, por sua vez, ajudam a construir espaços mais próximos da experiência residencial. Vale ressaltar que o conforto ambiental ultrapassa a dimensão física. Temperatura, iluminação, ventilação, acústica, materiais, cores e organização espacial influenciam a experiência corporal, emocional e social.
Um ambiente confortável deve proporcionar descanso, conversa, observação, escolha, circulação e manutenção das relações com outras pessoas, sem exposição ou vigilância excessiva.
Uma mesma área de convivência pode oferecer locais próximos à televisão, espaços mais silenciosos, pontos de observação e áreas destinadas à conversa. Essa variedade permite que cada pessoa escolha como deseja vivenciar aquele momento, respeitando diferentes necessidades e preferências.
Portanto, o aging in place pressupõe construir condições para que a pessoa possa continuar vivendo, escolhendo, circulando, convivendo e reconhecendo-se no lugar onde sua vida acontece.
A arquitetura participa desse processo quando deixa de considerar o envelhecimento apenas como uma questão de acessibilidade e passa a compreender o espaço como parte inerente das condições que sustentam autonomia, independência, pertencimento, segurança e continuidade da vida.
Ciro Férrer Herbster Albuquerque é doutorando e mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, Ceará.
Nos últimos tempos, tenho revisitado as reflexões que compartilhei por aqui. Nesta semana, deparei-me com um texto que publiquei às vésperas de completar 40 anos: “É preciso rever nossos acordos com o tempo”. Dois anos depois, novamente às vésperas de celebrar mais um aniversário, parei para refletir sobre o quanto mudei depois dos 40.
Como especialista em envelhecimento, sempre desconfiei dos clichês que afirmam que, após os 40, ganhamos automaticamente mais assertividade e passamos a saber exatamente o que queremos e, sobretudo, o que não queremos para nossas vidas. Como disse Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra; logo, o pensamento crítico é nossa oportunidade de evitar generalizações que nos distanciam da realidade.
Nem todas as pessoas “quarentonas” têm as oportunidades que tive. Sou um homem branco, cisgênero (identifico-me com o gênero que me foi atribuído ao nascer) e, embora não seja herdeiro — a não ser de boletos e de muita criatividade para pagá-los —, pertenço a um grupo elitizado pelo acesso ao capital intelectual.
Reconheço que, apesar de todos os atravessamentos da homofobia, ainda ocupo um lugar confortável em razão dos privilégios que carrego desde o nascimento. Para outros grupos minorizados, como pessoas negras, pessoas com deficiência e pessoas trans — e aqui podemos pensar também na interseccionalidade entre esses aspectos —, a experiência de envelhecer em uma sociedade estruturalmente preconceituosa pode ser infinitamente mais violenta, traumática e excludente.
Contudo, ser homossexual aos 40 e, especificamente, ser um homem gay coloca-me em um lugar desconfortável diante de determinados estereótipos.
O primeiro deles, que percebi desde cedo, foi a autocobrança imposta pela expectativa social de “dar certo na vida”, um imperativo que questiono profundamente. Ser gay e carregar desde a juventude a pressão para “ser alguém”, sob a ótica de um viés capitalista tacanho, exige um bom salário e um apartamento próprio para garantir um suposto status quando a juventude e o corpo já não são atributos negociáveis nas relações superficiais impulsionadas pela homofobia.
Essa visão materialista e reducionista deposita, mais uma vez, nas costas das pessoas homossexuais a responsabilidade pelo preconceito que sofrem. Nem todas as pessoas dissidentes da norma conseguem cruzar o abismo que nos é imposto desde cedo. Reconheço que minhas conquistas até aqui tiveram um custo altíssimo, apesar de meus privilégios, sobretudo para a minha saúde mental.
Não é fácil manter-se vivo em uma cultura que tenta deslegitimar sua existência e ter de provar constantemente, para si e para os outros, que se é capaz.
O segundo ponto é o corpo. É quase impossível navegar pelas redes sociais e sair ileso, sem se sentir mal por ter um corpo que muda, engorda e envelhece. Parece que o algoritmo reproduz de forma obstinada o que já está enraizado na cultura: a ideia de que precisamos ser mais, dedicar-nos mais e nos tornar um padrão a ser seguido como resultado de um “envelhecimento bem-sucedido”.
A frustração que surge diante de uma suposta “falta de força de vontade” nada mais é do que o próprio cansaço de ter de lutar duas ou três vezes mais para ser minimamente aceito, visto e desejado e, mesmo assim, não alcançar o corpo socialmente idealizado.
Até as relações afetivas mudam nessa fase. Descobrimos que queremos mais do que os modelos superficiais que herdamos da cisheteronormatividade. Precisamos revisitar nossos prazeres, desejos e as ambições de uma vida a dois voltada para o longo prazo, apesar das dores e dos traumas causados pela homofobia. Afinal, queremos viver a velhice, mesmo sendo ela um lugar incerto, já que não temos garantias de proteção contra a homofobia institucional e social.
Recentemente, conversando com amigos que também estão na casa dos 40, notei um fenômeno curioso: a própria comunidade muitas vezes nos enxerga sob o estigma do “sugar daddy”. Para mostrar socialmente que estamos “bem na fita”, espera-se que exibamos um parceiro mais jovem, mas a um preço alto: o da suposição de uma troca puramente mercantil entre aparência e conforto financeiro.
É, minhas amigas e meus amigos, o idadismo consegue ser ainda mais perverso para os grupos minorizados. Não se trata de mensurar quem sofre mais, pois a dor e a exclusão são perversas de qualquer modo. É fato, porém, que certos grupos atravessam essas etapas sob a invisibilidade e o silenciamento impostos pelo sistema, pela ciência, pelo ativismo e pelas políticas públicas.
Não encerro esta conversa dizendo que envelhecer é ruim. Pelo contrário: chegar até aqui é uma conquista, uma grande conquista, e sinto-me profundamente motivado a continuar.
A questão central é: quando, de fato, vamos confrontar essas estruturas e entender que a velhice é plural — assim como são diversas as faces do preconceito e da discriminação —, exercendo uma escuta ativa e assumindo uma postura de aliados para torná-la digna para todas as pessoas?
Diego Felix Miguel é doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.