O relógio já passava dos 90 minutos quando Amuzu recebeu a bola de Krovinović, na cobrança de escanteio, e cruzou para a área. Havia muita gente na disputa: gremistas e adversários. Em meio a todos eles, Braithwaite conseguiu se sobressair e cabecear em direção ao gol. A bola foi ao encontro das redes, embora parecesse teimar em não chegar lá. Encontrou seu destino graças à insistência e, talvez, a algum resquício de misticismo.
Nesta noite em Curitiba, apesar dos tropeços, escorregões e erros crassos, o Grêmio fez uma de suas melhores partidas na competição. Sim, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche: se você só tem contato com o futebol gremista por estas linhas que escrevo, não faz ideia do que tem sido acompanhar meu time, jogo após jogo. Havia sete partidas que não vencíamos. E, neste campeonato, ainda não tínhamos ganhado fora de casa.
Os três pontos são insuficientes para nos tirar daquela zona que você sabe qual é. Mas eram necessários para manter vivo o sonho de deixá-la para trás em algum momento deste Brasileiro. Só isso justifica a festa dos jogadores diante dos torcedores que saíram de Porto Alegre para ocupar as arquibancadas do Couto Pereira.
Ver aquele espaço tomado por gremistas, com seus trapos e faixas estendidos, nos remeteu ao passado recente, quando o estádio da capital paranaense se transformou em nossa casa durante o drama das enchentes de 2024. Nesse exercício de memória, fomos ainda mais longe. O Couto Pereira se parece com o saudoso Olímpico Monumental.
Neste momento em que nos agarramos a qualquer sinal positivo, vencer no Couto Pereira nos faz acreditar que um milagre começa a se realizar. Sei que pode ser apenas um delírio, fruto da paixão alucinada que nunca deixaremos de expressar pelo nosso time do coração. Ainda assim, quero crer que começamos a traçar uma nova trajetória, iluminados pelas lembranças de um tempo em que o cheiro do cimento das arquibancadas do Olímpico nos devolvia as forças e nos levava a conquistas impossíveis.
Escapar da degola não é impossível. Mas pode parecer um milagre para quem, há algumas rodadas, não consegue fazer uma partida bem organizada, sofre gols com frequência — apesar da excelência de seu goleiro — e tem enorme dificuldade para balançar as redes.
Não acredito em bruxas nem em milagres. Mas que eles existem, existem. Espero que o espírito conquistador do Olímpico, moldado nas arquibancadas do Couto Pereira, nos ilumine. E que a vitória desta noite seja o começo de uma nova caminhada.
No caminho para a urna, neste domingo que entra para a história, encontrei eleitores de diferentes colorações políticas. Tive a sensação de que havia uma agitação eleitoral mais intensa do que no primeiro turno. Procuro relativizar essas impressões. As ruas que percorro também são parte do meu ambiente, e o ambiente pode nos fazer confundir a própria bolha com o país.
Em comparação com o primeiro turno, porém, vi mais apoiadores de Lula: roupas vermelhas, camisetas estampadas, adesivos no peito e bandeiras nas mãos.
A presença de apoiadores de Flávio Bolsonaro já não me surpreendia. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, esse grupo costuma se manifestar de forma mais ostensiva, muitas vezes com a camisa da seleção brasileira ou a predominância do amarelo nas vestes.
Foi preciso esperar a apuração, e a confusão eleitoral proporcionada por gestores municipais e ministros dos tribunais, para saber se a impressão das ruas se confirmava nos números. Confirmou-se, ao menos em parte.
A abstenção nacional caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,2% no segundo. Com isso, cerca de 3 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas. Quando se somam também a redução dos votos brancos e nulos, estima-se em 4,7 milhões o aumento de votos válidos e de comparecimentos entre os dois turnos: 2,9 milhões de pessoas que haviam faltado no primeiro e 1,8 milhão que tinham votado em branco ou nulo.
Na cidade de São Paulo, onde voto desde que cheguei, nos anos 1990, a abstenção caiu de 23,4% para 20,36%. Sim, o que vi no meu bairro, era parte do que acontecia na capital paulista. A participação cresceu também em outras regiões. No Nordeste, em sete estados a abstenção ficou abaixo da média nacional de 19,2%. Bahia, Pernambuco e Ceará tiveram índices ainda menores.
Os números confirmam que mais eleitores compareceram. Não dizem propriamente por que cada um deles foi votar. Ainda assim, é difícil separar esse movimento da intensa disputa que tomou as ruas e as redes sociais. As manifestações mostraram que a política voltou a ocupar o espaço público com força. Seja com o verde e amarelo (e algumas bandeiras americanas) seja com o vermelho (não lembro ter visto nenhuma bandeira de Cuba — me corrijam se eu estiver errado), a paisagem política do segundo turno se transformou.
A ciência política brasileira usa a expressão alienação eleitoral para reunir abstenções, votos brancos e nulos. É uma forma de medir a parcela do eleitorado que não valida um candidato — seja por não comparecer, seja por comparecer e não escolher nenhum dos nomes em disputa. O indicador não explica, sozinho, as razões de cada eleitor. A ausência pode expressar desinteresse ou protesto, mas também dificuldade de deslocamento e outros impedimentos.
A alienação eleitoral não surgiu nesta eleição. O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos já empregava a expressão em estudos sobre eleições brasileiras, diante dos riscos autoritários que marcaram nossa história. O tema voltou ao noticiário neste ano, quando pesquisas apontaram eleitores pouco informados ou ainda sem decisão. O primeiro turno, com abstenção maior, reforçou a impressão de distanciamento. O segundo turno, marcado por maior comparecimento, mostrou que esse quadro não era imutável.
Em 2004, criei o Adote um Vereador, em São Paulo, para mobilizar cidadãos a acompanhar e fiscalizar o trabalho dos parlamentares municipais. Talvez eu tenha partido de uma compreensão mais ampla da alienação política. O problema não estava apenas em quem faltava, votava em branco ou anulava o voto. Também me preocupava o eleitor que escolhia um candidato e, depois, se desinteressava pelo mandato. Assim como pelos vereadores que o conjunto dos eleitores havia escolhido.
A ideia era mostrar que a responsabilidade do cidadão não termina na urna. O voto abre uma relação que deveria continuar durante o mandato, com acompanhamento, cobrança e participação nos assuntos da cidade.
Nunca vi sentido em apontar o dedo para o eleitor e culpá-lo pela própria ausência. Partidos e políticos também têm responsabilidade quando só procuram a população em época de eleição, não criam espaços permanentes de participação e tratam demandas coletivas como moeda de troca. A apatia não nasce no vazio.
Neste segundo turno, houve mobilização dos dois lados, embora os dados indiquem que Lula ampliou mais sua votação. Ele recebeu cerca de 10,4 milhões de votos a mais que no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro ganhou cerca de 3,7 milhões. De cada quatro votos novos que apareceram no segundo turno, três teriam ido para Lula, calculou Pedro Doria, meu colega de Jornal da CBN. Com certeza, o presidente reeleito concentrou a maior parte do crescimento dos votos dos dois finalistas.
O que a eleição ensina, então? Que o eleitor pode voltar a participar quando a disputa lhe parece decisiva e quando encontra razões para se envolver — especialmente quando entende que existem ameaças à Democracia. Mas seria precipitado concluir que essa energia se manterá sem escuta, representação e presença política entre uma eleição e outra.
A alienação eleitoral também pode ser lida como um sinal de que a política não está oferecendo perspectivas ou canais de participação que convençam parte do eleitorado. O movimento contrário, que é a participação, exige que o cidadão perceba que sua voz tem consequência e sua presença importa antes e depois da eleição.
O saudoso Adote um Vereador nasceu dessa convicção: a política não acontece apenas no dia da votação nem pertence exclusivamente a quem ocupa um cargo. Ela se realiza na vida pública, onde as pessoas acompanham, perguntam, cobram e propõem.
Quero acreditar — mesmo com toda a desconfiança a que me dou o direito — que os partidos aprenderão a lição: o desafio não é conquistar o voto do eleitor alienado. O desafio é impedir que o político se aliene do eleitor.
Marcas que mostram apenas pessoas parecidas com o público podem deixar de inspirar mudanças e desejos. Essa é a discussão de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, da CBN. Eles trazem para nossa conversa uma ideia que, talvez, surpreenda muitos profissionais que se atentam aos números e esquecem do comportamento.
Jaime parte de uma pergunta: qual é o papel das marcas na vida das pessoas? Para ele, as marcas podem ajudar o consumidor a avançar e a buscar uma versão melhor de si mesmo. Uma faculdade pode abrir horizontes; um banco pode fazer alguém se sentir importante; um sabão em pó pode prometer roupas mais brancas. São benefícios que vão além da função prática: mobilizam desejos e expectativas.
O debate surgiu a partir de uma pesquisa com quase 1.200 mulheres. Segundo os dados citados por Jaime, 54% gostariam de ver diferentes tipos de corpos em propagandas. Em filmes, novelas e séries, esse índice chega a 52%. Já 42% disseram que anúncios com pessoas mais parecidas com elas poderiam influenciar mais suas decisões de compra.
Jaime interpreta essas respostas com cautela: os números registram o que as entrevistadas disseram, mas não provam, por si só, como elas se sentem ou como reagem a cada anúncio. Na avaliação dele, o desejo de se ver representada pode coexistir com a busca por referências que inspirem mudanças. “Isso é o que dizem, mas não é o que sentem”, afirma.
Cecília acrescenta que uma comunicação feita apenas como espelho pode sugerir que o consumidor já está satisfeito com o que é e não espera nada além da marca. Para ela, a publicidade pode construir uma ponte entre a maneira como as pessoas se veem e aquilo que gostariam de melhorar. “Sempre tem que ter alguns passinhos à frente”, diz.
Essa distância, porém, precisa ser possível de alcançar. Uma imagem idealizada e inatingível pode afastar o público. O desafio é apresentar uma referência que desperte vontade de avançar sem sugerir que alguém precisa se transformar por completo para ser aceito.
Como exemplo, Cecília lembra as campanhas da C&A com Gisele Bündchen. As consumidoras não precisavam se imaginar iguais à modelo. A presença dela podia funcionar como inspiração para explorar possibilidades de estilo e se sentir melhor com a própria aparência. A mesma lógica, observa Cecília, continua presente no trabalho de influenciadores: criar desejo e apresentar referências.
A discussão não elimina a importância da diversidade na publicidade. Ela aponta uma questão diferente: representar o público e oferecer aspiração podem caminhar juntos. A marca pode ampliar quem aparece na tela e, ao mesmo tempo, propor uma possibilidade de mudança que pareça próxima e desejável.
A marca do Sua Marca
A comunicação pode reconhecer o consumidor como ele é e, ao mesmo tempo, convidá-lo a dar um passo adiante. Para Jaime e Cecília, marcas que mobilizam esse desejo ajudam a construir vínculos e também podem estimular negócios.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Era início da década de 1970. Eu tinha acabado de chegar do Sul de Minas para morar com meus pais em São Paulo. Fomos viver — e eu moro até hoje — na Vila Monumento. Nossa casa era sempre cheia de amigos, em especial os da minha querida tia Suely, a Sula, que também foi quem me apelidou de Pauleta, nome que carrego até hoje.
Os amigos dela eram colegas da Cásper Líbero, onde cursava jornalismo. Os encontros tinham boa música e muitos brados contra a ditadura militar. Eu, com meus oito anos, achava aquilo tudo o máximo.
Mas o máximo mesmo era quando minha mãe, Teresinha, a Tei, me chamava e dizia: “Hoje vamos na cidade fazer compras”. Ir “na cidade” era ir à Rua Direita, no centro histórico. Um verdadeiro shopping a céu aberto. Lembro dos vendedores gritando: “Calça Lee americana! Jaquetão! Levi’s!”. Subíamos escadinhas estreitas até sobrelojas cheias de montanhas de jeans — muitos, provavelmente, vindos do Paraguai.
Depois de muito “bater perna”, como minha mãe dizia, sentávamos no balcão das Lojas Americanas e nos lambuzávamos de sundae. Outro símbolo dos ventos culturais daquele tempo.
Na volta, descíamos a Ladeira General Carneiro rumo à Praça Fernando Costa, ao lado do Parque Dom Pedro II, para encontrar meu pai. Pelo caminho, o som das catracas dos caminhões carregados de galinhas. Naquela época, frango de granja não existia. As aves vinham de pequenos criadores do interior e eram vendidas vivas nas feiras.
Ao final da ladeira, surgia a movimentação intensa de caminhões. E lá estava ele: meu pai, o Paulo Galinheiro — apelido trazido de Minas. Seu barracão, com fundos para o Pátio do Colégio, tinha de tudo: frango, galinha, galo, porco, cabrito. O movimento era constante.
Eu me orgulhava de ver meu pai comandando aquele vaivém de clientes, carroças e caminhões. Entre uma carga e outra, havia tempo para uma purrinha com os amigos, valendo um café no bar da esquina — que, por sinal, ainda existe.
Assim que o via, corria para abraçá-lo. O cheiro das aves nas roupas não importava. Era como se fosse parte dele. Entrávamos no Fusca cor de café com leite, também com cheirinho de galinha, e voltávamos para casa.
Eu, feliz pelo dia vivido. Meu pai, cansado e louco por um banho. Minha mãe, sonhando com mais um sundae.
Essa história é mais do que lembrança. Foi ali que construí uma relação de admiração e afeto com meu pai, mediada pelo trabalho e pela cidade.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Paulo Sergio Vicentin, filho do Paulo Galinheiro, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Álvaro Schocair no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Empreender sozinho é muito difícil.”
Empreender começa por reconhecer uma necessidade e encontrar quem esteja disposto a pagar por uma solução. A ideia, porém, não basta: é preciso aprender a lidar com clientes, dinheiro, pessoas e os próprios erros. Essas lições foram tema de entrevista com Álvaro Schocair, fundador e CEO da Link School of Business, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Schocair distingue duas motivações para empreender: a necessidade de gerar renda e o desejo de resolver um problema ou criar algo novo. Quem começa por necessidade, afirma, costuma enfrentar mais dificuldade para fazer o negócio crescer. “Quando o empreendedor ele é por necessidade, a chance dele ficar rodando e sem sair do lugar é muito grande”, disse, ao citar a carga tributária, as leis trabalhistas e os juros entre os obstáculos.
A primeira lição que ele extrai da própria experiência é testar se existe demanda. “Um dos maiores erros do empreendedorismo que eu vejo, meu amigo, é você se encantar com o produto ou o serviço que você desenvolveu e não encontrar alguém que esteja disposto a pagar por esse produto, por esse serviço.” Atender o cliente e deixá-lo satisfeito, acrescentou, cria condições para a empresa crescer.
Aprender a empreender também exige prática
A experiência prática está no centro da proposta pedagógica da Link School of Business. Em vez de limitar a formação a aulas teóricas, Schocair diz que a escola combina conteúdos de finanças, marketing, tecnologia e direito com a criação de produtos e serviços e a aplicação do conhecimento em negócios.
A ideia veio, em parte, de uma lacuna que ele identificou na própria formação em administração. Schocair conta que não teve aulas sobre decisões cotidianas de uma empresa, como contratar, demitir, conversar com o gerente do banco ou escolher a estrutura de capital. “Senti falta de vida real”, resumiu.
Na entrevista, ele afirmou que a Link tem 1.100 alunos e, em sete anos, foram criadas 302 empresas dentro do ecossistema da escola. A instituição também oferece bolsas: são 302 alunos bolsistas, segundo Schocair. A escola criada em São Paulo mantém estruturas em Palo Alto, Berlim, Boston e Madri e iniciou uma turma em Miami, em 24 de agosto.
Entre as empresas que surgiram na Link, Schocair citou a Guday, criada por três alunos da graduação. Segundo ele, a empresa de produtos para o mercado fitness faturava R$ 80 milhões; os fundadores tinham 20 e 21 anos. Outro exemplo é a Frayme, fundada por Caio Castro com um professor de Berkeley. A companhia desenvolveu um sistema para verificar transações financeiras e, de acordo com Schocair, fechou contratos de milhões de dólares com empresas brasileiras e americanas.
A Link também investe em parte dos negócios criados por seus alunos. Schocair afirmou que tem participação direta em 23 das 302 empresas. A decisão passa por uma análise de investidores independentes e considera fatores como a equipe, o modelo de negócio, a validação do produto e a necessidade de capital.
Comunicação e curiosidade ajudam na liderança
Para Schocair, empreendedores precisam desenvolver habilidades de comunicação e relacionamento. “Eu acho que os grandes problemas do mundo corporativo vem de falta de comunicação”, afirmou. Ele também defendeu que líderes conheçam o trabalho das equipes e deem o exemplo, em vez de apenas transmitir ordens.
Ao falar sobre a formação dos jovens, destacou o aprendizado sobre inteligência artificial e dados. Mas acrescentou que competências humanas, como empatia, também precisam ser desenvolvidas. “Aí eu acho que empatia, coração, sentir desenvolvido é aquilo que a máquina não pode fazer por você.”
Outra recomendação é selecionar fontes de informação nas redes sociais para transformar a leitura diária em aprendizado. Schocair disse que procura seguir pessoas e veículos que considera capazes de lhe ensinar algo. E defendeu manter a disposição para rever ideias: “Eu quero cada lugar, cada pessoa que eu conheço, eu quero ficar quero sair mais inteligente dos lugares que eu entrei.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Confiar é acreditar na capacidade de alguém. Se acredito na sua capacidade de ser amigo, confio na sua amizade. Se acredito que você consegue guardar um segredo, confio no seu sigilo. Posso também confiar na fidelidade de uma pessoa. Em cada caso, a confiança nasce da credibilidade que atribuímos ao outro e fortalece o vínculo que construímos com ele.
Mas a confiança também pode se voltar para nós mesmos. Podemos acreditar na nossa capacidade de enfrentar uma situação, tomar decisões ou lidar com as dificuldades da vida. Como, então, se constrói esse sentimento?
Para inspirar confiança, é preciso ser verdadeiro. A honestidade e a transparência permitem que o outro conheça aquilo que podemos oferecer. É difícil confiar em alguém que se mostra dissimulado ou diz uma coisa e faz outra.
Quando se trata de confiar em si mesmo, o caminho também passa pela verdade, mas pode ser mais difícil. Muitas vezes, nós nos escondemos de nós mesmos. Olhar para dentro exige reconhecer qualidades e capacidades, mas também limites e aspectos que não gostamos de ver. Se evitamos esse encontro, podemos deixar de perceber os recursos que temos e acabar nos sentindo inseguros.
Confiar em si, portanto, não significa acreditar que somos capazes de tudo. Significa nos conhecer o suficiente para reconhecer nossas possibilidades e nossos limites.
Há também a confiança cega, que, a meu ver, se aproxima mais da idealização do que da confiança. Quando consideramos alguém sempre verdadeiro, sempre fiel, sempre incapaz de falhar, deixamos de enxergar essa pessoa como um ser humano. Além disso, certas situações podem revelar aspectos dela que ainda não conhecíamos. Confiar exige olhar para o outro como ele é, com suas qualidades, dificuldades e contradições.
Quando a confiança se quebra, recuperá-la pode ser muito difícil. Até porque a confiança não se constrói rapidamente; vai se formando aos poucos, nas experiências compartilhadas e na continuidade do vínculo.
Particularmente, gosto de pensar na confiança como uma peça preciosa. Se ela se quebra, talvez seja possível restaurá-la. A peça pode até ficar bonita, e podemos passar longos períodos sem lembrar do que aconteceu. Mas, diante de um pequeno abalo, geralmente volta a lembrança de que ela já foi restaurada.
O perdão pode ajudar a reconstruir uma relação, mas não apaga necessariamente sua história. Há confianças que podem ser restauradas; outras, não. Cada pessoa precisa avaliar o que aconteceu, o que mudou e se deseja continuar aquele vínculo.
A confiança, seja no outro, seja em nós mesmos, não se constrói de uma vez. Ela se forma dia após dia e exige disposição para continuar olhando para si e para o outro, mesmo quando aquilo que encontramos não é fácil de ver. É assim que podemos nos tornar mais verdadeiros conosco e, pouco a pouco, confiar mais em nós mesmos e também no outro.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Você conhece muitas pessoas? Muitos lugares? Muitas situações difíceis da vida?
Com o passar do tempo, temos a sensação de já conhecer bastante. Convivemos sempre com as mesmas pessoas, frequentamos os mesmos lugares e enfrentamos perdas, brigas e mudanças – dificuldades que parecem fazer parte da rotina.
Conhecemos tudo isso. Será?
O marido, a esposa: continuam iguais a ontem, há um ano, há uma década?
O ambiente de trabalho permanece o mesmo, com a mesma equipe e mesma dinâmica? Sua casa não mudou em absolutamente nada?
Perdas, brigas e mudanças acontecem em momentos específicos da vida. Cada demanda exige respostas próprias e causa estragos distintos.
Temos a sensação de que já conhecemos essas situações. Mas é preciso um olhar fresco sobre cada uma delas: o que há de novo aqui? O que preciso perceber, aprender, “re-conhecer”?
Quando não atualizamos nossa percepção, continuamos usando mentalidades e estratégias antigas. E, assim, não conseguimos responder ao que o presente exige e sentir as novas emoções e sensações. Ficamos presos, eternamente, ao passado.
E talvez o principal “re-conhecimento” seja o de nós mesmos.
Convido você a pensar: quantas experiências diferentes você vivenciou da semana passada para esta? Como essas mudanças impactaram sua vida?
Só quando atualizamos nosso jeito de perceber, pensar e agir conseguimos ser coerentes com quem somos hoje e com o que está acontecendo agora. Se mantivermos formas antigas de enxergar a vida, como colher bons frutos e construir o futuro que desejamos?
Não é só o celular que precisa de atualizações. Precisamos fazer uma pausa, quebrar nossos preconceitos, analisar novamente os fatos e “re-conhecer” o que já parecia conhecido. Para que a vida siga em frente, precisamos fluir com os movimentos que ela nos impõe.
E então, qual sua disposição para “re-conhecer”?
Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Peço licença para me dirigir especialmente aos homens gays. Todas as pessoas, porém, são bem-vindas a esta conversa.
Nos últimos artigos, escrevi sobre a velhice de homens gays e retratei questões como solidão, isolamento social, desigualdade no acesso à saúde e discriminação. Recebi mensagens que me deixaram profundamente incomodado. Algumas tratavam esses problemas com naturalidade, como se fossem intrínsecos à homossexualidade. Outras negavam a homofobia e atribuíam à própria pessoa uma postura de vitimização ou aprisionamento.
Associar a solidão e a negligência social no cuidado de pessoas LGBT+ idosas ao egoísmo, à suposta liberdade sexual moralmente atrelada à falácia da promiscuidade e à ausência de relacionamentos românticos reforça estigmas. E esses estigmas nos empurram ainda mais para a vulnerabilidade. Devolvem-nos ao conhecido “não lugar”, justamente em uma fase da vida marcada por transformações significativas, tanto biomédicas quanto sociais.
O que me incomodou ainda mais foi perceber que várias dessas falas vieram de homens gays mais jovens ou de pessoas que não vivenciaram a homofobia “nua e crua” enfrentada por boa parte dessa geração. Por isso, falo diretamente aos homens gays: dentro da comunidade LGBT+, esse me parece ser um dos grupos mais expostos ao idadismo e à dificuldade de reconhecer a longevidade como uma oportunidade.
Feita essa contextualização, inicio nossa conversa:
Caro homem gay, você está envelhecendo. Sim, neste exato momento, você está mais velho do que antes.
Negar essa realidade revela uma leitura limitada da vida e o medo das incertezas que atravessam nossa trajetória. A homofobia faz parte dessa trajetória. Por mais que, em virtude de certas estruturas emocionais, sociais ou de privilégio, ela tenha sido vivida de forma mais branda, não deixa de existir nem de afetá-las. Isso pode acontecer em momentos de maior vulnerabilidade emocional, afetiva ou geracional.
Não afirmo isso de forma leviana. Minha leitura se apoia em referenciais teóricos e estudos científicos, aos quais tive acesso a partir de um lugar de privilégio — que, ressalto, não me isenta da homofobia. Em diversos momentos, precisei lutar o dobro ou o triplo para me afirmar na família, na academia e no mercado de trabalho. Essa é uma das formas pelas quais a cisheteronormatividade — a estrutura que toma a heterossexualidade e a identidade cisgênero como norma — deslegitima existências que escapam a esse padrão.
O preço pago por pessoas homossexuais e transgêneras ao ocupar certos espaços de poder costuma ser alto. Depressão, solidão, ideação suicida e diferentes formas de abuso — financeiro, psicológico, afetivo, sexual e social – fazem parte dessa realidade.
Sempre pautei minha leitura social inspirado em um texto do psicodramatista Jacob Levy Moreno:
“Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus;
E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus;
Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus.”
Não é fácil enxergar o outro pelos olhos dele. No entanto, somente assim conseguimos compreender e acolher suas demandas longe de julgamentos ou de justificativas que anulam a responsabilidade social e cultural pela reprodução de estereótipos, preconceitos e discriminações. Também evita que depositemos exclusivamente no indivíduo o peso de suas dificuldades e conquistas.
Tudo isso para dizer: caro homem gay, você está envelhecendo. E, se chegar à velhice — desejo profundamente que chegue –, poderá enfrentar uma dupla violência: a homofobia e o idadismo.
Há muito a a fazer para mudar essa realidade, mas estamos avançando. Em 2017, unido a um grupo de colegas (e hoje grandes amigos), formamos um coletivo que se consolidou como a Associação EternamenteSOU, a primeira no Brasil voltada exclusivamente para as velhices LGBT+. Hoje, fruto do empenho de dezenas de pessoas voluntárias e de pessoas idosas LGBT+, vemos esse tema ocupar cada vez mais espaço na mídia e no debate público. Que bom!
Fica, então, uma reflexão: qual é o impacto, na sua vida, de admitir que você está envelhecendo? Por que negar uma velhice que pode — e deve — ser vista como oportunidade de vida, de redescobertas e nde ovos afetos?
Diego Felix Miguel é doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Grêmio 2 x 4 Cruzeiro Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Villasanti em lance de ataque Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Acordei neste domingo em João Pessoa, a ensolarada capital da Paraíba. Logo depois do almoço, peguei a estrada rumo ao interior do estado, em direção a Campina Grande, a capital mundial do São João (que nenhum vivente de Caruaru, em Pernambuco, esteja entre os caros e raros leitores desta Avalanche, ao menos hoje). Mais de três mil quilômetros me separam de Porto Alegre, onde o Grêmio jogou essa tarde. Não foram suficientes, porém, para me poupar da sofrência.
A dor que o Grêmio provoca na alma de cada torcedor não diminui com a distância. Maltrata nossa paixão tanto na Arena quanto aqui, de longe, ao vermos o time se desconstruir ao longo de uma partida que seria difícil por natureza, mas que chegou a oferecer alguma esperança de vitória.
É lamentável ver até mesmo nossos ídolos serem tragados pela mediocridade que empurra o Grêmio para a beira do precipício — e, agora, para dentro dele.
A história de Kannemann está sendo exposta. Por mais que nosso capitão lute bravamente, já não consegue impedir a derrocada. Diante desse cenário, perde o controle e acaba expulso, como aconteceu hoje. Haverá quem o culpe pelo resultado. Quem fizer isso ainda não entendeu o que está acontecendo com o Grêmio.
Estou longe do Grêmio. Mais distante ainda, porém, está o Grêmio da própria história. Até aqui, não conseguiu vencer uma só partida fora de casa. E jogar diante da torcida também não tem feito tanta diferença, como mostram os dois últimos jogos na Arena: o empate desesperado no clássico e a virada trágica deste domingo. As estatísticas ainda apontam resultados melhores em casa, mas não faz muito tempo que os adversários tinham medo de jogar na Arena.
A distância que me separa do Grêmio não me preocupa. Hoje, onde eu estiver, consigo assistir aos jogos — mesmo com o sinal ruim de internet no hotel em que estou. O que me deixa desconfortável é perceber quão longe estão os demais adversários a cada rodada do Campeonato Brasileiro.
O Grêmio, ao contrário, parece andar na direção oposta. Não é a distância entre João Pessoa e Porto Alegre que dói. É ver o time se afastar, jogo após jogo, daquilo que já foi — e daquilo que seus torcedores ainda esperam que volte a ser.
As canetas emagrecedoras estão mudando escolhas que vão do supermercado à atividade física, e já influenciam a estratégia de marcas de diferentes setores. O impacto do fenômeno foi tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
A conversa com eles se baseou em um estudo da MindMiners com mais de 2 mil pessoas. Segundo Cecília, cerca de um terço dos usuários ouvidos passou a planejar melhor as compras no supermercado e as escolhas em restaurantes. Uma proporção semelhante afirmou considerar mais a prática de atividade física.
Os efeitos aparecem também nos alimentos escolhidos. Jaime citou dados do levantamento segundo os quais usuários e ex-usuários de medicamentos à base de GLP-1 — hormônio que participa da regulação do apetite e da glicose — relatam aumento no consumo de água mineral, frutas e legumes e carnes brancas. Ao mesmo tempo, dizem consumir menos produtos com açúcar e carboidratos.
A mudança, portanto, vai além da perda de peso. “Os medicamentos à base de GLP-1, chamados canetas emagrecedoras, tornaram visível uma transformação que vai muito além da perda de peso. Eles aceleram mudanças na identidade, nos hábitos e nas prioridades de consumo”, afirmou Cecília, ao reproduzir a conclusão apresentada no relatório.
Jaime destacou outra formulação do estudo: “Estamos observando o nascimento de um consumidor que reorganiza as suas decisões para sustentar a pessoa em quem acredita estar se tornando”. A frase ajuda a explicar por que o efeito pode alcançar áreas como moda, beleza, atividade física e serviços. As empresas precisam observar não apenas o que esse consumidor deixou de comprar, mas também os hábitos e objetivos que passam a orientar suas escolhas.
Para as marcas de alimentos e bebidas, a cautela é essencial. A popularização das canetas não significa que todo produto precise ganhar proteína ou reduzir carboidratos. A tendência pode abrir espaço para novas ofertas, mas uma mudança de embalagem ou um selo de saúde não substitui uma solução que faça sentido para o consumidor.
Jaime apontou três caminhos: rever o que significa valor — porque mais quantidade nem sempre representa uma vantagem —, compreender as novas necessidades do público e evitar o oportunismo. A análise exige que cada marca considere sua própria vocação antes de aderir a uma tendência.
A marca do Sua Marca
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso deixa uma orientação para as empresas: acompanhar as mudanças de comportamento sem correr atrás de modismos. Antes de lançar um produto, é preciso entender o consumidor e avaliar se a proposta combina com aquilo que a marca sabe fazer.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.