Botafogo 3×2 Grêmio Brasileiro — Nilton Santos, Rio de Janeiro
Havia duas lendas no banco do Grêmio nesta noite no Rio de Janeiro.
Luiz Felipe Scolari, que conquistou alguns dos principais títulos da nossa história, entre eles o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América.
E Renato Portaluppi, protagonista das maiores conquistas já alcançadas pelo Grêmio, técnico mais vezes campeão pelo clube — ao lado de Oswaldo Rolla — e único a merecer, até agora, uma estátua de bronze na Arena.
Somados, Felipão e Renato conquistaram 17 títulos como treinadores do Grêmio. Acrescente mais cinco à conta de Renato como jogador, incluindo o Mundial Interclubes de 1983.
A imagem dos dois lado a lado, exatamente na semana em que o Grêmio completou 123 anos de fundação, era suficiente para acelerar o coração. A emoção tomava conta do torcedor e trazia uma tremenda saudade dos tempos em que a ideia da imortalidade se materializava nos gramados do Brasil e do mundo.
Iludidos que somos, apesar de todas as limitações que nos acompanham ao longo do ano, chegamos a imaginar que alguma energia vinda do passado contaminaria o time. Quem sabe resolveria nossos problemas, mesmo que por apenas uma noite.
O Grêmio saiu atrás no placar e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo. Parecia o início da virada. A realidade, porém, se impôs. Permitimos que o Botafogo abrisse dois gols de vantagem e, mesmo assim, continuávamos olhando para o banco de reservas, à espera de alguma intervenção sobrenatural.
O gol milagroso até surgiu. A tecnologia, porém, impediu que ele se realizasse.
A realidade já não permite tamanho romantismo. Quando a bola começa a rolar, as limitações do elenco e a fragilidade tática ficam escancaradas. O time parece ter evoluído muito pouco desde o início da temporada. Faltam organização, segurança e capacidade de reagir sem depender de um lance fortuito ou de alguma lembrança gloriosa.
Felipão e Renato carregam uma parte fundamental da grandeza do Grêmio. Representam aquilo que fomos e tudo o que ainda desejamos voltar a ser. Só não podem entrar em campo. Nem suas histórias são capazes de marcar, organizar a defesa ou corrigir os erros de um time sem rumo.
Para escapar da situação em que estamos, será preciso muito mais do que a força mística de nossos ídolos. O passado pode inspirar, aquecer o coração e até alimentar a esperança. Quem precisa salvar o Grêmio, porém, está no presente.
E, por enquanto, o presente não está à altura da nossa história.
As guardas municipais estão ampliando sua presença na segurança pública, mas ainda há dúvidas sobre os limites dessa atuação, o treinamento dos agentes e o controle das corporações. O assunto foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luís Vecchi da Silva, presidente da Federação Nacional de Sindicatos de Guardas Municipais do Brasil, e Silvia Ramos, cientista social e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.
A discussão envolve uma mudança no papel das guardas. Criadas principalmente para proteger bens, serviços e instalações municipais, essas corporações passaram a atuar com maior frequência no patrulhamento das ruas, na prevenção de crimes e no atendimento de ocorrências. Em algumas cidades, seus integrantes trabalham armados e usam equipamentos semelhantes aos das polícias estaduais.
Luís Vecchi defendeu a participação dos municípios na segurança pública. Segundo ele, as prefeituras reúnem instrumentos que permitem combinar patrulhamento, assistência social, educação, iluminação, fiscalização urbana e monitoramento por câmeras.
Para o dirigente sindical, o objetivo não é substituir as polícias militares, mas integrar as instituições e oferecer respostas mais completas à população. “A população não quer mais saber da cor do uniforme, ela quer resultado prático”, afirmou.
Vecchi também contestou a avaliação de que as guardas municipais não possuem regras de formação e fiscalização. Citou a matriz curricular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, as corregedorias, as ouvidorias e o controle externo exercido pelo Ministério Público. Segundo ele, os agentes também passam por qualificação profissional anual, com atualização sobre legislação, direitos humanos e procedimentos de abordagem.
Silvia Ramos concordou que as guardas devem participar do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, que procura integrar as instituições federais, estaduais e municipais. A cientista social ressaltou, porém, que cada força precisa ter uma função definida.
Para ela, as guardas têm uma tradição comunitária que deve ser preservada.Essa atuação inclui a proteção de escolas, unidades de saúde, praças e áreas ambientais, além da mediação de conflitos. O risco da ampliação do poder de polícia seria transformar as corporações municipais em réplicas das polícias militares.
Silvia mencionou guardas armadas e militarizadas que passaram a usar fuzis e a exercer policiamento ostensivo. Também apontou a falta de informações nacionais sobre o efetivo, o armamento e a organização dessas instituições.
“Cada município está fazendo mais ou menos o que quer. Cada prefeito faz mais ou menos o que quer”, afirmou. Segundo ela, sem uma regulamentação mais clara, prefeitos podem criar forças policiais próprias, definir treinamentos e armamentos de acordo com decisões locais e manter essas corporações desarticuladas das demais instituições de segurança.
Integração com identidade própria
Apesar das diferenças, os debatedores se aproximaram em um ponto: as guardas municipais devem integrar o sistema de segurança sem copiar o modelo das polícias militares. Vecchi defendeu uma identidade baseada na proximidade com a população. Silvia ressaltou que as corporações podem cumprir funções que as polícias estaduais nem sempre conseguem desempenhar.
O debate, portanto, não se limita a decidir se as guardas devem ou não atuar na segurança pública. A questão central é definir suas atribuições, estabelecer padrões nacionais de formação e controle e evitar que a ampliação de poderes resulte em corporações armadas submetidas apenas às decisões de cada prefeitura.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Sabe aquelas situações tão inusitadas que, quando acontecem, ficamos sem acreditar?
Uma delas aconteceu de verdade com uma professora primária que trabalhou durante 16 anos em uma escola, lecionando da 2.ª à 4.ª série. Quando chegou o momento de se aposentar e requereu ao INSS a aposentadoria especial de professora, foi informada de que aqueles 16 anos não poderiam ser computados como exercício do magistério porque o CNPJ da instituição não correspondia ao de uma escola.
Há um detalhe que torna a situação ainda mais surpreendente: essa escola funcionou durante cerca de 80 anos na cidade do Rio de Janeiro e já havia encerrado suas atividades havia pelo menos dez anos.
Como pode?
Como é possível alguém ter sido professora de uma escola, milhares de alunos terem passado por suas salas de aula e concluído ali o ensino fundamental e médio e, décadas depois, surgir a informação de que, formalmente, aquela instituição não era uma escola?
A pergunta que imediatamente nos ocorre: e os certificados emitidos durante todos esses anos? Não teriam validade? Estariam milhares de alunos, que ali estudaram ao longo de oito décadas, diante da possibilidade de descobrir que seus estudos não possuíam valor legal?
Não pretendo entrar aqui no mérito jurídico da questão, tampouco no aspecto moral que ela possa envolver. Deixo essas considerações para que cada leitor tire suas próprias conclusões.
O que me interessa é outra coisa.
Interessa-me pensar sobre o improvável que, tantas vezes, atravessa a vida e nos deixa perplexos, justamente porque aquilo que parecia impossível, de repente, torna-se realidade.
E, para compreender isso, talvez seja necessário olhar para a trajetória humana não como uma linha previsível, mas como um sistema não linear e caótico.
Se tudo aquilo que vivemos — nosso passado, nossa história, nossas relações e até nossas expectativas de futuro — encontra-se, de alguma maneira, condensado no instante do Agora, então esse instante necessariamente participará da constituição do instante seguinte.
O fato é que o ser humano se encontra permanentemente inserido em outros sistemas — familiares, afetivos, profissionais, sociais, culturais — e em contínua interação com eles. Por isso, a cada instante, já não somos exatamente aquilo que éramos no instante anterior e tampouco podemos saber, com absoluta certeza, aquilo que seremos no próximo.
Em um sistema não linear e caótico, os acontecimentos não se sucedem simplesmente por uma relação direta e proporcional entre causa e efeito. O sistema se retroalimenta, recebe continuamente novos elementos, sofre interferências e se reorganiza.
Nós também.
A todo instante somos afetados por acontecimentos, encontros, decisões, acasos, escolhas próprias e escolhas de outras pessoas. Cada nova interação passa a integrar o sistema e participa daquilo que acontecerá depois.
É justamente essa dinâmica que introduz uma dimensão de imprevisibilidade na trajetória humana.
Um acontecimento aparentemente insignificante ocorrido hoje pode, ao se articular a uma sucessão de outros acontecimentos, produzir consequências muitos anos mais tarde.
É aqui que podemos compreender o conhecido efeito borboleta.
Uma pequena alteração nas condições iniciais de um sistema pode, ao longo do tempo, produzir efeitos de enorme magnitude.
Em meu livro Entre o Mistério e a Ignorância, ao abordar o efeito borboleta, recorri a um antigo provérbio de George Herbert (1593–1633), citado por Gleick para mostrar como um acontecimento aparentemente mínimo pode desencadear consequências de grande alcance (BREVES, 2021, p. 20):
Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro; por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha; por falta da batalha, perdeu-se o reino.
Portanto, por falta de um minúsculo prego, perdeu-se um reino.
A força desse provérbio está justamente em mostrar que aquilo que parece pequeno no presente pode tornar-se decisivo muito adiante.
E assim também acontece em nossas vidas.
Gostamos de imaginar que possuímos uma rotina relativamente predeterminada: amanhã acordaremos, cumpriremos nossos compromissos, seguiremos nossos projetos e, de alguma maneira, continuaremos a trajetória que já conhecemos. E provavelmente grande parte disso acontecerá.
Mas basta um pequeno acontecimento não previsto para que uma nova sequência se inaugure.
Uma pessoa que encontramos por acaso; um telefonema; uma decisão aparentemente banal; um documento preenchido décadas antes; uma informação incorreta em um cadastro. E o instante seguinte já será outro.
No caso daquela professora, algo ocorrido — ou deixado de ocorrer — muitos anos antes permaneceu silencioso durante toda uma trajetória profissional. Ela trabalhou, ensinou crianças, participou da vida de uma escola e construiu sua história como professora.
Décadas depois, aquele pequeno elemento administrativo reapareceu e interferiu diretamente em seu instante do Agora, em seu momento presente.
Talvez seja justamente isso que a teoria do caos possa nos ajudar a compreender sobre a experiência humana: a vida possui continuidade, mas não possui uma trajetória inteiramente previsível.
Somos história, somos relações, somos escolhas, mas também somos acontecimentos.
E o Agora, embora carregue tudo aquilo que fomos, permanece sempre aberto às inúmeras possibilidades daquilo que ainda poderemos ser.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva associada ao comprometimento de funções cognitivas, isto é, de processos mentais relacionados à percepção, atenção, memória, linguagem, orientação, tomada de decisão e execução de atividades cotidianas.
Entre as demências, a doença de Alzheimer é a forma mais prevalente. Embora ainda não exista cura, os avanços nas estratégias farmacológicas, não farmacológicas e de reabilitação têm ampliado as possibilidades de manejo da condição e de manutenção da funcionalidade por diferentes períodos.
As projeções indicam que esse número poderá alcançar 5,6 milhões de casos até 2050. Ou seja, a demência não constitui apenas uma questão clínica, mas também um desafio social, assistencial, econômico e urbano.
Nesse contexto, o cuidado não pode ser compreendido exclusivamente a partir das intervenções farmacológicas ou dos atendimentos realizados pelos serviços de saúde.
O ambiente construído também participa da experiência cotidiana da pessoa com demência. A residência, os espaços de convivência, os equipamentos públicos, os meios de transporte e os percursos pela cidade podem favorecer ou restringir sua autonomia, orientação, segurança e participação social.
A configuração espacial da residência, a disposição dos móveis, a organização dos percursos, a iluminação, os níveis de ruído, os contrastes visuais, a sinalização e até mesmo elementos aparentemente simples, como o desenho e o sistema de acionamento de uma torneira, podem interferir na realização das atividades cotidianas.
Uma barreira ambiental aparentemente pequena pode dificultar uma tarefa habitual, enquanto uma adaptação planejada de acordo com as capacidades e necessidades da pessoa pode contribuir para a preservação de sua funcionalidade. Por essa razão, pensar o cuidado também significa pensar os ambientes nos quais ele acontece.
Essa perspectiva dialoga com o conceito de Aging in Place, segundo o qual permanecer em casa e na comunidade pode constituir um importante recurso para a qualidade de vida das pessoas idosas, inclusive após o diagnóstico de demência.
Permanecer no ambiente conhecido, manter vínculos sociais e continuar realizando atividades significativas podem contribuir para a preservação de referências espaciais, relações de pertencimento e possibilidades de participação. Isso, entretanto, não significa ausência de apoio. Ao contrário, pressupõe uma rede capaz de oferecer diferentes níveis de assistência conforme as necessidades da pessoa se modificam.
A restrição da vida cotidiana ao espaço doméstico, motivada pelo receio dos familiares, pela falta de informação ou pelo despreparo dos cuidadores, pode produzir consequências que ultrapassam a proteção pretendida.
Quando a pessoa com demência deixa de circular, encontrar outras pessoas, realizar atividades e participar da vida comunitária, ocorre uma redução de estímulos sociais, físicos, cognitivos e sensoriais.
Essa privação pode contribuir para o agravamento da dependência, para o aparecimento ou a intensificação de alterações comportamentais e psicológicas e, consequentemente, para o aumento das demandas relacionadas ao cuidado de longa duração.
A responsabilidade por esse cuidado também não pode permanecer concentrada exclusivamente nas famílias.
Dados do cenário brasileiro evidenciam a dimensão desse problema. Atualmente, parcela expressiva das pessoas idosas depende do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto os custos associados à demência aumentam conforme a progressão da condição.
Segundo dados do Renade, a participação dos gastos públicos é elevada nos diferentes estágios da demência, e aproximadamente 73% dos custos recaem sobre os familiares. Esse cenário torna evidente a necessidade de ampliar as políticas públicas de apoio às pessoas com demência e àqueles que delas cuidam.
A sobrecarga familiar torna-se ainda mais complexa diante das transformações demográficas e sociais contemporâneas. O aumento da população com 80 anos ou mais ocorre simultaneamente a mudanças na composição das famílias, na participação das mulheres no mercado de trabalho e na disponibilidade de pessoas para exercer atividades de cuidado não remunerado.
Dessa forma, pressupor que a família será capaz de absorver de maneira isolada todas as necessidades decorrentes da progressão de uma demência torna-se cada vez menos compatível com a realidade social brasileira.
Algumas experiências internacionais demonstram que existem alternativas para a construção de redes de cuidado mais distribuídas.
Em Portugal, o Projeto RADAR, desenvolvido inicialmente em Lisboa no âmbito da iniciativa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, foi estruturado para identificar pessoas idosas em situação de isolamento ou vulnerabilidade e aproximá-las dos recursos disponíveis na comunidade.
Um de seus aspectos relevantes é o fato de não depender exclusivamente da iniciativa da própria pessoa para solicitar ajuda. A rede de proximidade envolve profissionais, instituições, vizinhos, estabelecimentos comerciais e outros integrantes da comunidade, que podem reconhecer situações de vulnerabilidade e acionar os serviços ou recursos necessários. A lógica do projeto pode ser sintetizada nos movimentos de reconhecer, avaliar, direcionar e ativar.
Uma estrutura dessa natureza amplia a compreensão de autonomia. A autonomia não precisa significar que a pessoa realize todas as atividades sem auxílio, mas que possa continuar participando das decisões e da vida cotidiana dentro de suas possibilidades.
Uma comunidade que conhece seus moradores e estabelece relações de proximidade pode oferecer apoio sem retirar da pessoa o direito de circular, escolher e participar.
Assim, caso uma pessoa com demência se desoriente durante um percurso conhecido, por exemplo, uma rede comunitária preparada pode contribuir para sua localização e seu retorno ao ambiente familiar, reduzindo a necessidade de restringir previamente sua circulação.
No Brasil, também existem experiências que apontam para formas de cuidado que não implicam o afastamento precoce da pessoa idosa de sua família e comunidade.
O serviço oferece atendimento durante o dia, possibilitando que a pessoa permaneça vinculada ao ambiente familiar enquanto recebe acompanhamento especializado. Em 2024, o equipamento completou dez anos de funcionamento.
Experiências como essa demonstram a importância de ampliar as modalidades de cuidado para além da dicotomia entre permanecer exclusivamente sob a responsabilidade da família ou ser encaminhado para uma instituição de longa permanência.
Centros-dia, atendimento domiciliar, programas de apoio aos cuidadores, transporte acessível e serviços comunitários podem compor uma rede capaz de distribuir responsabilidades e preservar, tanto quanto possível, a participação da pessoa com demência em seu território.
Portanto, parte dos instrumentos necessários para enfrentar a demência já está disponível em políticas públicas, experiências territoriais e referências internacionais.
O desafio está em transformá-los em ações articuladas nos estados e, principalmente, nos municípios, considerando as características de cada território e as necessidades de sua população.
Viver com Alzheimer não significa interromper automaticamente a vida social, familiar ou comunitária. O diagnóstico modifica necessidades e pode exigir diferentes níveis de apoio ao longo do tempo, mas não elimina a possibilidade de participação.
Para que isso seja viável, o cuidado precisa ultrapassar os limites da residência e dos serviços de saúde, incorporando a comunidade, os espaços públicos, a mobilidade, a habitação e as políticas de proteção social.
Ciro Férrer Herbster Albuquerque Arquiteto e urbanista. Doutorando e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Pós-graduado em Neurociência, Geriatria e Gerontologia e Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI) e coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, em Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na pós-graduação em Gerontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).
A simplificação do licenciamento ambiental pode acelerar investimentos, mas também ampliar os riscos de desmatamento e degradação dos biomas brasileiros. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com o advogado e professor George Humbert e o cientista Carlos Nobre, professor titular da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia.
Favorável à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Humbert afirmou que o Brasil precisava de uma legislação federal para organizar procedimentos que eram orientados principalmente por resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama. Segundo ele, a nova lei oferece segurança jurídica e atualiza o processo diante dos recursos tecnológicos disponíveis.
“O Brasil estava atrasado com relação a essa norma. Nós não tínhamos uma lei geral de licenciamento ambiental”, afirmou.
Humbert argumentou que ferramentas como imagens de satélite, drones e inteligência artificial podem contribuir para a fiscalização. Na avaliação dele, a simplificação dos processos de menor impacto permitirá que os órgãos públicos concentrem recursos e equipes nas atividades que oferecem maior risco.
Para o advogado, a legislação procura equilibrar proteção ambiental, desenvolvimento econômico e progresso social. Ele citou os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho para sustentar que o modelo anterior não foi suficiente para evitar grandes desastres ambientais.
Carlos Nobre contestou a ideia de que a simplificação represente avanço. Segundo o cientista, a nova lei pode ampliar os impactos sobre a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga. Esses biomas enfrentam perda de vegetação, degradação e mudanças no regime de chuvas.
O ponto de não retorno, citado por Nobre, ocorre quando a destruição de um ecossistema ultrapassa determinado limite e ele perde a capacidade de manter suas características naturais, mesmo que o desmatamento seja interrompido.
“Essa nova lei pode significar um aumento muito grande do impacto ambiental nos biomas brasileiros, principalmente nos biomas que estão muito próximos do ponto de não retorno”, alertou.
Nobre defendeu o fim do desmatamento e da degradação, acompanhado de projetos de restauração ambiental. Como exemplo, afirmou que, nos últimos 30 anos, a Caatinga avançou cerca de 230 mil quilômetros quadrados sobre áreas do Cerrado, especialmente no oeste da Bahia e no Piauí. Também lembrou que 52% da vegetação original do Cerrado já foi desmatada.
Autodeclaração concentra as críticas
Um dos principais pontos de divergência foi a possibilidade de licenças baseadas na declaração do próprio empreendedor. Humbert sustentou que o procedimento deve ser adotado em atividades de menor impacto e acompanhado por mecanismos de controle.
Nobre considera o modelo arriscado. Para ele, a experiência com atividades de mineração e exploração de ouro na Amazônia mostra que declarações podem esconder irregularidades, inclusive dentro de terras indígenas.
“É muito arriscado imaginar que toda autodeclaração de desmatamento, infraestrutura e mineração esteja totalmente dentro da lei”, afirmou.
O debate expõe uma escolha que vai além da simples oposição entre burocracia e desenvolvimento. A questão é saber quais empreendimentos podem receber licenças simplificadas, como fiscalizar as informações prestadas e quais limites devem ser mantidos para evitar danos que, depois de consumados, podem ser irreversíveis.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Planos de saúde com mensalidades mais baixas podem facilitar o acesso a consultas e exames, mas deixar de fora internações, cirurgias e tratamentos complexos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), e Lígia Bahia, professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os planos populares ofereceriam uma cobertura mais limitada do que os convênios tradicionais. A principal dúvida é o que aconteceria quando um exame identificasse uma doença grave. Sem cobertura para as etapas seguintes, o paciente teria de recorrer ao Sistema Único de Saúde.
Mais acesso a consultas e exames
Bruno Sobral defendeu a regulamentação de serviços que já são oferecidos por cartões de desconto e clínicas populares. Segundo ele, essas empresas não estão sujeitas às mesmas exigências impostas às operadoras de planos de saúde, como garantias financeiras, obrigações com os clientes e regras para a rede de atendimento.
“Esse produto, esse serviço, já existe. Ele não está sendo inventado”, afirmou.
Na avaliação do diretor da FenaSaúde, permitir a oferta regulada de planos mais baratos aumentaria o número de pessoas atendidas e facilitaria a realização de exames preventivos. Ele citou a mamografia como exemplo de procedimento capaz de identificar precocemente uma doença e ampliar as possibilidades de tratamento.
Sobral reconheceu que esses planos não resolveriam todas as necessidades do paciente. Por isso, defendeu uma articulação com o SUS para dar continuidade ao atendimento quando fossem necessários procedimentos não cobertos. Para ele, o diagnóstico precoce também poderia reduzir os custos futuros do sistema público.
O risco da assistência fragmentada
Lígia Bahia afirmou que planos com cobertura reduzida podem criar uma falsa sensação de segurança. O paciente paga para realizar consultas e exames, mas pode descobrir que não tem proteção justamente quando precisa de cirurgia, internação, medicamentos caros ou tratamento contra o câncer.
“Você está colocando sua vida em risco. Isso é uma enganação”, disse.
A professora lembrou que a Constituição define a saúde como um direito e prevê atendimento integral. Na visão dela, separar o diagnóstico do tratamento fragmenta o cuidado e transfere ao SUS as etapas mais caras da assistência.
Lígia defendeu uma articulação entre os setores público e privado, desde que as políticas de saúde sejam orientadas pelo interesse público. “Os negócios têm que se encaixar na Constituição de 1988, não o contrário”, afirmou.
O debate expõe uma escolha que vai além do preço da mensalidade. Planos populares podem abrir uma porta para consultas e exames, mas essa porta precisa levar a algum lugar.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
“Quanto mais cedo eu fizer o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.”
O câncer colorretal pode crescer sem produzir sintomas e, quando descoberto no estágio inicial, apresenta até 90% de possibilidade de cura. A doença, que atinge o intestino grosso e o reto, tem aparecido em pessoas cada vez mais jovens, segundo o médico coloproctologista Carlos Matheus Rotta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce foram temas de entrevista no Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
O médico explicou que o câncer se desenvolve a partir de uma alteração nas células, que passam a crescer de maneira desordenada. No caso do câncer colorretal, fatores relacionados à alimentação e ao estilo de vida podem contribuir para o aumento do risco.
“Na fase inicial do câncer colorretal, ele é curável. Isso que é o mais importante. Se nós pegarmos na fase inicial, nós chegamos a ter 90% de cura”, afirmou.
De acordo com Rotta, a incidência da doença é maior a partir dos 50 anos, mas a idade recomendada para iniciar a investigação vem sendo reduzida. Ele defendeu que pessoas a partir dos 45 anos conversem com um médico sobre o rastreamento, principalmente quando existem casos de câncer na família.
Uma das formas de rastreamento é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. O teste consegue identificar pequenos sangramentos que não são percebidos a olho nu.
Um resultado positivo não significa que a pessoa esteja com câncer. Indica, porém, que existe um sangramento e que a causa precisa ser investigada. A partir desse resultado, o paciente pode ser encaminhado a um coloproctologista ou cirurgião do aparelho digestivo. A colonoscopia é o principal exame para observar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos.
Colonoscopia também previne a doença
A maioria dos casos de câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos, pequenas formações que surgem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns precisam ser retirados e analisados.
Segundo Carlos Matheus Rotta, um pólipo com potencial de malignidade pode levar pelo menos cinco anos para se transformar em câncer. Esse intervalo oferece uma oportunidade para identificar e retirar a lesão antes que a doença se desenvolva.
“Que melhor tratamento para o câncer do que você tirar a chance de ser? Não existe. Então, a colonoscopia é feita para isso”, disse.
A frequência com que o exame deve ser repetido varia de pessoa para pessoa. Depende do tipo e da quantidade de pólipos encontrados, do histórico familiar e do intervalo em que novas lesões aparecem.
O médico também abordou o medo da colonoscopia. Ele explicou que o preparo intestinal, necessário para eliminar as fezes e permitir a visualização da parede do intestino, costuma causar mais incômodo do que o exame.
“Se não sair tudo, pode ser que bem no local onde ficou um pouco de fezes ali está o tumor e você não vê”, alertou.
A presença de sangue nas fezes é um dos principais sinais de alerta. Rotta ressaltou que muitas pessoas atribuem o sangramento à hemorroida e adiam a procura por atendimento médico.
“Tirar isso da cabeça que só hemorroida sangra. Sangrou, o médico tem que pensar primeiro num câncer”, afirmou.
Outro sintoma é a sensação persistente de que a evacuação não foi completa, mesmo depois de a pessoa sair do banheiro. Esse quadro é conhecido como tenesmo. Fezes mais finas também merecem atenção, pois podem indicar uma redução do espaço interno do intestino.
Mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisam ser investigadas. Uma pessoa pode evacuar mais de uma vez por dia ou passar dois ou três dias sem ir ao banheiro sem que isso represente uma doença. O sinal de alerta aparece quando o ritmo habitual se altera sem uma explicação conhecida.
“Todo mundo um dia teve diarreia, um dia ficou preso. Então, são sintomas que são normais, mas, se persistentes, não são”, explicou.
Emagrecimento sem causa aparente e anemia sem origem identificada também podem estar relacionados ao câncer colorretal.
Histórico familiar exige atenção antecipada
Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal devem iniciar o acompanhamento mais cedo. O médico citou ainda a relação com históricos familiares de câncer de mama e de útero.
Pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, também precisam de acompanhamento médico regular.
O medo do diagnóstico, segundo Rotta, pode levar algumas pessoas a ignorar os sinais. Essa demora reduz as possibilidades de tratamento.
“A melhor coisa é vir aqui e eu falar: ‘Não é nada’”, afirmou. Nos estágios mais avançados, as possibilidades de cura diminuem, embora o tratamento ainda possa beneficiar parte dos pacientes.
O médico também fez um alerta sobre o abandono do tratamento indicado em favor de terapias alternativas. Para ele, práticas complementares não devem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou qualquer outra conduta definida pela equipe médica.
Alimentação, atividade física e rotina intestinal
A prevenção também passa pelo estilo de vida. Rotta recomendou uma alimentação com frutas, verduras, legumes, grãos e produtos integrais. Esses alimentos fornecem fibras, que ajudam a formar o bolo fecal e facilitam o funcionamento do intestino.
“A laranja não se chupa, se come. Se você chupar, você não ingere fibra nenhuma”, exemplificou. Segundo ele, a parte branca da fruta e as cascas comestíveis são fontes de fibras.
O médico sugeriu variar os alimentos para que a mudança possa ser mantida. Em vez de concentrar a dieta em uma única fruta, a pessoa pode alternar frutas, verduras, legumes e grãos.
“A alimentação saudável está mais na feira que no supermercado. Lembre-se disso”, disse.
O consumo de carnes processadas, como salsicha, presunto, salame e mortadela, deve ser reduzido. Rotta também recomendou evitar o cigarro, o excesso de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.
A atividade física não depende necessariamente de uma academia. “Uma caminhada diária de 20 minutos já é o suficiente para o intestino funcionar”, afirmou.
Criar um horário para ir ao banheiro, de preferência depois de uma refeição, também pode ajudar. Quando a comida chega ao estômago, o organismo produz um estímulo para o funcionamento do intestino. Respeitar essa vontade e evitar segurar a evacuação contribui para estabelecer uma rotina intestinal.
Observar as fezes faz parte desse cuidado. Sangue, alterações persistentes no formato, na consistência ou na frequência devem ser levados ao médico.
“Mais importante que tudo para o câncer de colo é informação. Você sabendo, você procura e nós vamos diminuir as mortes por câncer de colo”, concluiu.
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Ensinar os filhos em casa coloca em confronto a liberdade de escolha das famílias e o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar e à proteção contra abusos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Carlos Vinícius Reis, presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar, e Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB.
Carlos Vinícius defendeu que os pais possam escolher a educação domiciliar, desde que a prática seja regulamentada, avaliada e fiscalizada pelo poder público. Segundo ele, a modalidade permite um ensino mais personalizado e oferece uma alternativa às famílias que não consideram a escola convencional a melhor opção para os filhos.
“Quando falamos de educação domiciliar, estamos falando de liberdade educacional”, afirmou. Para Carlos, a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2018 reconheceu a compatibilidade da prática com a Constituição, embora sua adoção dependa de uma lei que estabeleça regras. Ele ressaltou que a proposta não significa abandonar a supervisão estatal: “Estamos falando de liberdade com responsabilidade.”
Questionado sobre o risco de crianças submetidas a abusos ficarem afastadas de uma rede capaz de identificá-los, Carlos disse não haver dados que associem famílias adeptas da educação domiciliar à violência. Acrescentou que as escolas também registram episódios de agressão e sustentou que o debate deve oferecer opções às famílias, sem transformar o ensino em casa em oposição à educação escolar.
A escola como espaço de proteção
Ariel de Castro Alves afirmou que a educação dos filhos não está sob decisão exclusiva dos pais. Pela Constituição e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, explicou, família, Estado e sociedade compartilham a obrigação de proteger crianças e adolescentes e garantir sua formação.
“A escola, além do papel do ensino formal, do ensino curricular, tem o papel de formar crianças e adolescentes para a cidadania”, disse. Para ele, a convivência com colegas de diferentes origens, etnias e condições prepara o estudante para as relações sociais, para o mercado de trabalho e para as frustrações da vida adulta.
Ariel ressaltou ainda que professores e outros profissionais da educação ajudam a perceber sinais de violência doméstica, exploração do trabalho infantil e abuso sexual. “Dificilmente esses dados vão aparecer porque geralmente as escolas possuem protocolos específicos”, afirmou ao responder por que podem faltar registros de violência envolvendo crianças educadas apenas em casa.
O centro do debate está nos limites da autoridade familiar. Os defensores da educação domiciliar entendem que os pais devem poder escolher a forma de ensino, sob acompanhamento do Estado. Os críticos consideram que a escola oferece algo que não pode ser plenamente reproduzido dentro de casa: contato com a diversidade, formação cidadã e uma rede externa de proteção.
A discussão, portanto, não se resume ao lugar onde a criança aprende português ou matemática. Trata de quem decide sua educação, de como o Estado acompanha esse processo e de quais garantias devem prevalecer quando a escolha dos adultos pode afetar os direitos das crianças.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Peço desculpas à direção do Grêmio e ao técnico Luís Castro. Durante quase duas horas, interpretei como incompetência aquilo que, agora percebo, era estratégia.
O Grêmio não perdeu de virada para o Vasco por acaso. Havia um plano. Um plano ousado, engenhoso e, sobretudo, perigosíssimo: ajudar a empurrar o Internacional para a Série B, mesmo que, para isso, sacrificássemos nossa permanência na Série A.
O primeiro tempo já oferecia pistas da artimanha. O Vasco, que nunca havia vencido na Arena, estava havia um ano sem ganhar fora de casa e entrou em campo na zona de rebaixamento, era o adversário perfeito para o projeto.
O Grêmio fez sua parte. Recuou, cedeu espaços e permitiu que os cariocas chutassem várias vezes contra nosso gol. O Vasco, porém, parecia não ter sido avisado do acordo. Atacava, finalizava e errava. Há adversários que não colaboram nem quando a gente estende o tapete, abre a porta e aponta o caminho.
Foi então que aconteceu o imprevisto.
Mesmo sem atacar muito, o Grêmio marcou.
Confesso que temi pelo fracasso da operação. Um gol gremista não estava no roteiro. Poderia dar confiança ao time, animar a torcida e, num descuido ainda mais grave, produzir uma vitória. Seria um desastre para os objetivos ocultos da tarde.
No intervalo, Luís Castro certamente precisou reorganizar a estratégia. Se o Vasco não conseguia vencer sozinho, seria necessário ajudá-lo um pouco mais.
Veio, então, o movimento decisivo. O treinador colocou Nardoni no meio-campo e despachou Krovinović, o jogador mais criativo da equipe, para a ponta direita. Ali, isolado e distante da região onde poderia pensar o jogo, ele deixou de representar perigo.
Foi uma jogada de mestre.
De um só golpe, Luís Castro facilitou a retomada dos ataques do Vasco e reduziu drasticamente o risco de o Grêmio fazer outro gol. O tabuleiro estava montado. Faltava apenas o adversário compreender seu papel.
Com algum atraso, o Vasco compreendeu.
Vieram o empate e a virada. O passe de Nardoni no pé do adversário, no segundo gol, não foi erro. Foi planejamento. A Arena assistiu à conclusão de uma obra cuidadosamente construída: a primeira vitória vascaína naquele estádio, o fim de um jejum de um ano sem ganhar fora de casa e três pontos fundamentais para complicar ainda mais a vida do Internacional.
Parte da torcida não percebeu a grandeza do projeto e vaiou. Foi injusta.
As vaias tratavam a derrota como se tivesse sido provocada por erros, desorganização ou escolhas incompreensíveis do treinador. Faltou enxergar mais longe. O verdadeiro gremista precisa aceitar alguns sacrifícios. Se o preço para ajudar a derrubar o Internacional for entregar três pontos ao Vasco, colocar em risco nossa própria campanha e flertar com a mesma Série B, que assim seja.
Rivalidade exige desprendimento.
O Grêmio decidiu que não basta ver o vizinho cair. É preciso acompanhá-lo até a porta, carregar suas malas e, se necessário, entrar junto no elevador.
Seremos rebaixados? O risco é grande.
O Internacional também correrá esse risco? Então o plano terá valido a pena.
Parabéns à direção e à comissão técnica. Onde a torcida enxergou uma derrota vergonhosa, agora identifico estratégia, renúncia e devoção à causa.
Só faço uma recomendação: na próxima vez, avisem antes.
Assim, não desperdiço meu tempo sofrendo diante da televisão.
A tecnologia multiplica as possibilidades de comunicação, mas não substitui a força de uma história capaz de emocionar e produzir significado. Esse foi o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
Inteligência artificial, vídeos personalizados, influenciadores e algoritmos ajudam as marcas a alcançar públicos específicos e produzir conteúdo em grande escala. Essas ferramentas ampliam a distribuição da mensagem. Não garantem, porém, que ela será lembrada.
A explicação está na maneira como os seres humanos compreendem o mundo. Antes mesmo da escrita, histórias eram usadas para transmitir conhecimentos, valores e experiências. Elas organizam acontecimentos, despertam empatia e ajudam o cérebro a guardar informações.
“Faz todo sentido. A tecnologia mudou muito, mas o cérebro humano mudou pouco”, afirmou Cecília.
Essa permanência pode ser percebida nas crianças, que pedem repetidamente a mesma história. A repetição oferece segurança, permite antecipar acontecimentos e reforça vínculos afetivos. Com as marcas, o mecanismo é semelhante: uma narrativa associada a uma emoção tem mais possibilidade de permanecer na memória do que uma mensagem limitada às características de um produto.
Da propaganda para a memória
Cecília citou campanhas que atravessaram gerações, como “Não é assim uma Brastemp”, o primeiro sutiã da Valisere e as histórias de Natal da Coca-Cola. Também lembrou o filme “Tormenta”, de O Boticário, sobre a relação entre uma mãe e o filho. A peça circulou tanto nas mídias tradicionais quanto pelo WhatsApp.
Em todos esses exemplos, o público não guarda apenas o anúncio. Guarda os personagens, os conflitos e as emoções construídas pela narrativa. O slogan pode desaparecer. A história continua circulando.
Isso ajuda a explicar por que contar histórias não é uma alternativa à propaganda. É uma maneira de fazer propaganda sem transformar a mensagem em uma interrupção.
“Uma boa história não interrompe a atenção das pessoas, ela conquista essa atenção”, disse Jaime.
Quando o produto deixa de ser o único protagonista, a marca consegue falar sobre sonhos, desafios e experiências humanas. O vínculo nasce dessa identificação. A pessoa não se reconhece em uma lista de atributos técnicos, mas pode se reconhecer na trajetória de um personagem.
A inteligência artificial já escreve textos, produz imagens e ajuda a criar filmes. Ainda assim, permanece uma decisão anterior à ferramenta: qual história merece ser contada?
Para Jaime, “tecnologia é ferramenta, o significado continua sendo uma construção humana”. Ele recorreu ao psicólogo Jerome Bruner, que identificava duas formas de organizar a experiência: o pensamento lógico e o narrativo. O primeiro apresenta razões e evidências. O segundo conecta acontecimentos e atribui sentido a eles.
Ao final, Jaime citou a permanência da Odisseia, de Homero. A obra atravessou séculos porque trata de temas humanos, como viagem, coragem, perda e desejo de voltar para casa. Mudam o suporte, a linguagem e a tecnologia. A necessidade de encontrar sentido nas histórias permanece.
A marca do Sua Marca
As ferramentas ampliam o alcance da comunicação, mas não criam, por si, relevância ou memória. Marcas lembradas são aquelas que transformam produtos e valores em histórias nas quais as pessoas reconhecem emoções, conflitos e aspirações. A tecnologia pode construir o palco. A narrativa é o que faz o público permanecer na plateia.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.