“Quanto mais cedo eu fizer o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.”
O câncer colorretal pode crescer sem produzir sintomas e, quando descoberto no estágio inicial, apresenta até 90% de possibilidade de cura. A doença, que atinge o intestino grosso e o reto, tem aparecido em pessoas cada vez mais jovens, segundo o médico coloproctologista Carlos Matheus Rotta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce foram temas de entrevista no Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
O médico explicou que o câncer se desenvolve a partir de uma alteração nas células, que passam a crescer de maneira desordenada. No caso do câncer colorretal, fatores relacionados à alimentação e ao estilo de vida podem contribuir para o aumento do risco.
“Na fase inicial do câncer colorretal, ele é curável. Isso que é o mais importante. Se nós pegarmos na fase inicial, nós chegamos a ter 90% de cura”, afirmou.
De acordo com Rotta, a incidência da doença é maior a partir dos 50 anos, mas a idade recomendada para iniciar a investigação vem sendo reduzida. Ele defendeu que pessoas a partir dos 45 anos conversem com um médico sobre o rastreamento, principalmente quando existem casos de câncer na família.
Uma das formas de rastreamento é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. O teste consegue identificar pequenos sangramentos que não são percebidos a olho nu.
Um resultado positivo não significa que a pessoa esteja com câncer. Indica, porém, que existe um sangramento e que a causa precisa ser investigada. A partir desse resultado, o paciente pode ser encaminhado a um coloproctologista ou cirurgião do aparelho digestivo. A colonoscopia é o principal exame para observar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos.
Colonoscopia também previne a doença
A maioria dos casos de câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos, pequenas formações que surgem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns precisam ser retirados e analisados.
Segundo Carlos Matheus Rotta, um pólipo com potencial de malignidade pode levar pelo menos cinco anos para se transformar em câncer. Esse intervalo oferece uma oportunidade para identificar e retirar a lesão antes que a doença se desenvolva.
“Que melhor tratamento para o câncer do que você tirar a chance de ser? Não existe. Então, a colonoscopia é feita para isso”, disse.
A frequência com que o exame deve ser repetido varia de pessoa para pessoa. Depende do tipo e da quantidade de pólipos encontrados, do histórico familiar e do intervalo em que novas lesões aparecem.
O médico também abordou o medo da colonoscopia. Ele explicou que o preparo intestinal, necessário para eliminar as fezes e permitir a visualização da parede do intestino, costuma causar mais incômodo do que o exame.
“Se não sair tudo, pode ser que bem no local onde ficou um pouco de fezes ali está o tumor e você não vê”, alertou.
A presença de sangue nas fezes é um dos principais sinais de alerta. Rotta ressaltou que muitas pessoas atribuem o sangramento à hemorroida e adiam a procura por atendimento médico.
“Tirar isso da cabeça que só hemorroida sangra. Sangrou, o médico tem que pensar primeiro num câncer”, afirmou.
Outro sintoma é a sensação persistente de que a evacuação não foi completa, mesmo depois de a pessoa sair do banheiro. Esse quadro é conhecido como tenesmo. Fezes mais finas também merecem atenção, pois podem indicar uma redução do espaço interno do intestino.
Mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisam ser investigadas. Uma pessoa pode evacuar mais de uma vez por dia ou passar dois ou três dias sem ir ao banheiro sem que isso represente uma doença. O sinal de alerta aparece quando o ritmo habitual se altera sem uma explicação conhecida.
“Todo mundo um dia teve diarreia, um dia ficou preso. Então, são sintomas que são normais, mas, se persistentes, não são”, explicou.
Emagrecimento sem causa aparente e anemia sem origem identificada também podem estar relacionados ao câncer colorretal.
Histórico familiar exige atenção antecipada
Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal devem iniciar o acompanhamento mais cedo. O médico citou ainda a relação com históricos familiares de câncer de mama e de útero.
Pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, também precisam de acompanhamento médico regular.
O medo do diagnóstico, segundo Rotta, pode levar algumas pessoas a ignorar os sinais. Essa demora reduz as possibilidades de tratamento.
“A melhor coisa é vir aqui e eu falar: ‘Não é nada’”, afirmou. Nos estágios mais avançados, as possibilidades de cura diminuem, embora o tratamento ainda possa beneficiar parte dos pacientes.
O médico também fez um alerta sobre o abandono do tratamento indicado em favor de terapias alternativas. Para ele, práticas complementares não devem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou qualquer outra conduta definida pela equipe médica.
Alimentação, atividade física e rotina intestinal
A prevenção também passa pelo estilo de vida. Rotta recomendou uma alimentação com frutas, verduras, legumes, grãos e produtos integrais. Esses alimentos fornecem fibras, que ajudam a formar o bolo fecal e facilitam o funcionamento do intestino.
“A laranja não se chupa, se come. Se você chupar, você não ingere fibra nenhuma”, exemplificou. Segundo ele, a parte branca da fruta e as cascas comestíveis são fontes de fibras.
O médico sugeriu variar os alimentos para que a mudança possa ser mantida. Em vez de concentrar a dieta em uma única fruta, a pessoa pode alternar frutas, verduras, legumes e grãos.
“A alimentação saudável está mais na feira que no supermercado. Lembre-se disso”, disse.
O consumo de carnes processadas, como salsicha, presunto, salame e mortadela, deve ser reduzido. Rotta também recomendou evitar o cigarro, o excesso de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.
A atividade física não depende necessariamente de uma academia. “Uma caminhada diária de 20 minutos já é o suficiente para o intestino funcionar”, afirmou.
Criar um horário para ir ao banheiro, de preferência depois de uma refeição, também pode ajudar. Quando a comida chega ao estômago, o organismo produz um estímulo para o funcionamento do intestino. Respeitar essa vontade e evitar segurar a evacuação contribui para estabelecer uma rotina intestinal.
Observar as fezes faz parte desse cuidado. Sangue, alterações persistentes no formato, na consistência ou na frequência devem ser levados ao médico.
“Mais importante que tudo para o câncer de colo é informação. Você sabendo, você procura e nós vamos diminuir as mortes por câncer de colo”, concluiu.
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