50 debates para o Brasil: gastos obrigatórios protegem direitos ou engessam o orçamento público?

O governo federal tem pouca liberdade para decidir onde aplicar boa parte do dinheiro previsto no Orçamento. Pelos dados orçamentários de 2026, cerca de 91% das despesas primárias são obrigatórias e aproximadamente 9% são classificadas como discricionárias, parcela sobre a qual existe maior possibilidade de decisão. Mesmo dentro desses 9%, porém, há recursos comprometidos com despesas que, na prática, dificilmente podem ser remanejadas.

Essa diferença entre o que é discricionário no papel e o que está efetivamente disponível para novas escolhas foi um dos pontos do episódio de hoje da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.

Um dos convidados, Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, argumentou que, quando são consideradas também essas despesas rígidas, restariam apenas R$ 3 de cada R$ 100 para decisões mais livres do governo. Ele discutiu o tema com Élida Graziane Pinto, procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo e professora de Administração Pública da FGV, que defende a manutenção das vinculações destinadas a proteger políticas públicas essenciais.

Vinculação orçamentária significa reservar previamente recursos públicos para determinadas finalidades. Saúde e educação são exemplos. A Constituição estabelece pisos de gastos nessas áreas, calculados a partir das receitas públicas. A intenção é impedir que serviços essenciais fiquem sujeitos apenas às prioridades políticas de cada governo.

Para Élida, os pisos não dispensam a cobrança por eficiência, mas oferecem estabilidade financeira para políticas que precisam atravessar diferentes governos. Ela cita a expansão do SUS e da educação pública desde a Constituição de 1988 como exemplos de processos que dependem de financiamento contínuo.

A sustentabilidade de uma agenda de universalização de acesso […] demanda estabilidade de financiamento”, afirmou.

Élida também questionou a ideia de que retirar vinculações necessariamente levaria a uma utilização mais eficiente do dinheiro. Segundo ela, experiências de flexibilização fiscal abriram espaço para despesas pulverizadas, inclusive emendas parlamentares, sem garantia de melhor aplicação dos recursos. Para a procuradora, antes de reduzir os pisos de saúde e educação, seria necessário aproximar os gastos públicos do planejamento de cada política.

Ela também rejeitou a tese de que a redução do número de crianças permita diminuir os recursos destinados à educação. Lembrou que ainda há déficit de vagas em creches, necessidade de ampliar o ensino em tempo integral e elevado analfabetismo funcional.

Pestana argumentou que a classificação entre despesas obrigatórias e discricionárias não revela toda a rigidez do Orçamento. Parte do dinheiro considerado discricionário já tem, na prática, destinação difícil de alterar. Por isso, segundo ele, a margem efetiva para novas escolhas seria ainda menor.

De cada R$ 100, 97 vão para despesas obrigatórias ou rígidas”, afirmou.

O argumento de Pestana é que um orçamento excessivamente comprometido dificulta a adaptação às transformações do país. Ele citou a mudança demográfica: com menos crianças e mais idosos, as necessidades também mudam. Em alguns municípios pode diminuir a pressão por novas vagas escolares, enquanto cresce a necessidade de recursos para saúde e Previdência.

Para ele, a rigidez também reduz o espaço destinado a investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia. A proposta é permitir revisões das prioridades, em vez de reproduzir automaticamente a distribuição dos recursos dos anos anteriores.

Salário mínimo também entrou no debate

Os dois convidados discutiram ainda a vinculação de benefícios ao salário mínimo. Élida defendeu a regra como instrumento de proteção da renda e redução da desigualdade. “Não se pode falar de ajuste fiscal necessariamente sobre a população mais vulnerável”, afirmou.

Pestana reconheceu o papel da valorização do salário mínimo no combate à desigualdade, mas defendeu maior liberdade para avaliar separadamente despesas vinculadas a ele, como piso previdenciário, seguro-desemprego, abono salarial e BPC. “Eu tenho certeza que a rigidez atual não nos levará a bom porto”, disse.

A divergência expõe a escolha central do debate: como garantir recursos para direitos sociais sem retirar do governo a capacidade de responder a novas prioridades? A vinculação protege determinadas políticas das mudanças de governo e das disputas pelo Orçamento. Ao mesmo tempo, quanto maior a parcela previamente comprometida, menor a capacidade de reorganizar os gastos diante das transformações econômicas e sociais.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Aging in place: o que é preciso para envelhecer em casa e na comunidade

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Envelhecer no lugar
Imagem produzida por IA

O envelhecimento é uma experiência heterogênea, marcada por diferentes trajetórias, condições de vida, histórias pessoais e relações sociais. O ambiente físico e o ambiente social participam diretamente da maneira como cada pessoa envelhece.

A casa, a vizinhança e os espaços onde a vida cotidiana acontece acumulam memórias, hábitos, referências e vínculos que contribuem para a construção da identidade e do sentimento de pertencimento.

É nesse contexto que se insere o conceito de aging in place. Entre 2011 e 2021, estudos da American Association of Retired Persons (AARP) identificaram que 77% das pessoas com mais de 50 anos desejavam permanecer em suas próprias casas. Entretanto, “envelhecer no lugar” não significa apenas permanecer fisicamente na mesma residência.

O conceito envolve a possibilidade de continuar vivendo em um lugar significativo, preservando autonomia, segurança, identidade, vínculos sociais e participação na comunidade à medida que as necessidades se transformam.

O pesquisador português António Fonseca amplia essa perspectiva ao destacar que o lugar não se restringe à casa. A vizinhança, os espaços públicos, os serviços, a mobilidade e as relações sociais também fazem parte das condições necessárias para envelhecer no local. Permanecer em casa sem conseguir circular, acessar serviços ou manter relações sociais pode resultar em isolamento, e não necessariamente em aging in place.

Por isso, o aging in place está relacionado à capacidade de o ambiente acompanhar as mudanças funcionais, cognitivas e sociais que ocorrem ao longo do envelhecimento.

Avanços na saúde, na farmacologia, na nutrição e nos hábitos de vida ampliaram a expectativa de vida, ao mesmo tempo que as cidades se tornaram mais complexas. Trânsito, ruído, deslocamentos prolongados, excesso de estímulos e conectividade permanente fazem parte da experiência urbana contemporânea e podem aumentar as exigências físicas e cognitivas impostas ao indivíduo.

Compreender como essas condições repercutem sobre o corpo envelhescente exige uma abordagem que articule arquitetura, desenho urbano, gerontologia e serviços socioassistenciais e de saúde.

Em 1973, os pesquisadores Lawton e Nahemow formularam a Teoria da Pressão–Competência, segundo a qual o comportamento e a adaptação da pessoa ao ambiente resultam da relação entre suas capacidades e as demandas impostas pelo espaço. Quando a competência diminui, ambientes com elevada pressão ambiental podem ampliar dificuldades, insegurança e dependência. A adequação do ambiente, nesse sentido, consiste em compatibilizar suas características com as capacidades do indivíduo, reduzindo barreiras desnecessárias sem eliminar estímulos que favoreçam a autonomia e a participação.

A partir dessa perspectiva, a Teoria Ecológica do Envelhecimento amplia a compreensão da relação entre pessoa e ambiente ao considerar que diferentes níveis de competência exigem diferentes graus de suporte ambiental. Assim, à medida que as capacidades funcionais diminuem, o ambiente passa a exercer maior influência sobre o comportamento. Pequenas alterações nas condições espaciais podem, portanto, produzir efeitos significativos sobre a autonomia, a segurança e a participação cotidiana.

Essa relação é fundamental para o aging in place, uma vez que a permanência no lugar escolhido depende da capacidade de o ambiente acompanhar as transformações decorrentes do envelhecimento.

Nesse contexto, ganha importância o princípio da docilidade ambiental, segundo o qual a influência do ambiente sobre o comportamento tende a aumentar conforme diminuem as competências individuais. Já a proatividade ambiental reflete a capacidade ativa da pessoa idosa de modificar, gerenciar e controlar seu espaço físico e social para atender às suas necessidades e manter a independência. O ambiente, portanto, passa a fortalecer ou enfraquecer a competência do indivíduo em sua própria moradia.

Dentro dessa perspectiva, a percepção também constitui uma peça fundamental da relação entre pessoa e ambiente. Cada indivíduo seleciona, organiza e interpreta os estímulos ao seu redor a partir de experiências, valores, hábitos e referências construídas ao longo da vida.

Uma rua associada ao medo pode ser evitada, enquanto um espaço reconhecido como familiar pode favorecer segurança e confiança. Esses códigos de referência influenciam escolhas, comportamentos e formas de utilização dos lugares.

Essa compreensão deve estar presente no projeto das residências e das instituições destinadas às pessoas idosas. Pequenas decisões podem modificar significativamente a autonomia cotidiana. A altura das janelas, a disposição dos equipamentos, a largura dos percursos, o alcance dos objetos e a relação visual com o exterior interferem na capacidade de realizar atividades sem depender continuamente de outra pessoa.

Uma janela alta, por exemplo, pode restringir a paisagem de quem permanece sentado ou deitado. Uma simples alteração na altura da abertura ou a inclusão de uma faixa transparente pode ampliar o campo visual e favorecer a relação com o entorno.

O mesmo princípio se aplica aos ambientes institucionais. A autonomia não desaparece quando a pessoa passa a viver em uma instituição. Ao contrário, o espaço deve oferecer condições para que ela continue exercendo escolhas. Isso inclui decidir onde sentar, com quem permanecer, quando buscar privacidade e quais atividades realizar.

Ambientes padronizados e com aparência hospitalar podem reforçar a dependência e a institucionalização.

Mobiliário familiar, cores, texturas, objetos pessoais, conforto ambiental, referências visuais e diferentes possibilidades de permanência, por sua vez, ajudam a construir espaços mais próximos da experiência residencial. Vale ressaltar que o conforto ambiental ultrapassa a dimensão física. Temperatura, iluminação, ventilação, acústica, materiais, cores e organização espacial influenciam a experiência corporal, emocional e social.

Um ambiente confortável deve proporcionar descanso, conversa, observação, escolha, circulação e manutenção das relações com outras pessoas, sem exposição ou vigilância excessiva.

Uma mesma área de convivência pode oferecer locais próximos à televisão, espaços mais silenciosos, pontos de observação e áreas destinadas à conversa. Essa variedade permite que cada pessoa escolha como deseja vivenciar aquele momento, respeitando diferentes necessidades e preferências.

Portanto, o aging in place pressupõe construir condições para que a pessoa possa continuar vivendo, escolhendo, circulando, convivendo e reconhecendo-se no lugar onde sua vida acontece.

A arquitetura participa desse processo quando deixa de considerar o envelhecimento apenas como uma questão de acessibilidade e passa a compreender o espaço como parte inerente das condições que sustentam autonomia, independência, pertencimento, segurança e continuidade da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é doutorando e mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, Ceará.

Ser gay aos 40: o preço da nossa longevidade

Por Diego Felix Miguel

Foto de Download a pic Donate a buck! ^ no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos tempos, tenho revisitado as reflexões que compartilhei por aqui. Nesta semana, deparei-me com um texto que publiquei às vésperas de completar 40 anos: “É preciso rever nossos acordos com o tempo”. Dois anos depois, novamente às vésperas de celebrar mais um aniversário, parei para refletir sobre o quanto mudei depois dos 40.

Como especialista em envelhecimento, sempre desconfiei dos clichês que afirmam que, após os 40, ganhamos automaticamente mais assertividade e passamos a saber exatamente o que queremos e, sobretudo, o que não queremos para nossas vidas. Como disse Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra; logo, o pensamento crítico é nossa oportunidade de evitar generalizações que nos distanciam da realidade.

Nem todas as pessoas “quarentonas” têm as oportunidades que tive. Sou um homem branco, cisgênero (identifico-me com o gênero que me foi atribuído ao nascer) e, embora não seja herdeiro — a não ser de boletos e de muita criatividade para pagá-los —, pertenço a um grupo elitizado pelo acesso ao capital intelectual.

Reconheço que, apesar de todos os atravessamentos da homofobia, ainda ocupo um lugar confortável em razão dos privilégios que carrego desde o nascimento. Para outros grupos minorizados, como pessoas negras, pessoas com deficiência e pessoas trans — e aqui podemos pensar também na interseccionalidade entre esses aspectos —, a experiência de envelhecer em uma sociedade estruturalmente preconceituosa pode ser infinitamente mais violenta, traumática e excludente.

Contudo, ser homossexual aos 40 e, especificamente, ser um homem gay coloca-me em um lugar desconfortável diante de determinados estereótipos.

O primeiro deles, que percebi desde cedo, foi a autocobrança imposta pela expectativa social de “dar certo na vida”, um imperativo que questiono profundamente. Ser gay e carregar desde a juventude a pressão para “ser alguém”, sob a ótica de um viés capitalista tacanho, exige um bom salário e um apartamento próprio para garantir um suposto status quando a juventude e o corpo já não são atributos negociáveis nas relações superficiais impulsionadas pela homofobia.

Essa visão materialista e reducionista deposita, mais uma vez, nas costas das pessoas homossexuais a responsabilidade pelo preconceito que sofrem. Nem todas as pessoas dissidentes da norma conseguem cruzar o abismo que nos é imposto desde cedo. Reconheço que minhas conquistas até aqui tiveram um custo altíssimo, apesar de meus privilégios, sobretudo para a minha saúde mental.

Não é fácil manter-se vivo em uma cultura que tenta deslegitimar sua existência e ter de provar constantemente, para si e para os outros, que se é capaz.

O segundo ponto é o corpo. É quase impossível navegar pelas redes sociais e sair ileso, sem se sentir mal por ter um corpo que muda, engorda e envelhece. Parece que o algoritmo reproduz de forma obstinada o que já está enraizado na cultura: a ideia de que precisamos ser mais, dedicar-nos mais e nos tornar um padrão a ser seguido como resultado de um “envelhecimento bem-sucedido”.

A frustração que surge diante de uma suposta “falta de força de vontade” nada mais é do que o próprio cansaço de ter de lutar duas ou três vezes mais para ser minimamente aceito, visto e desejado e, mesmo assim, não alcançar o corpo socialmente idealizado.

Até as relações afetivas mudam nessa fase. Descobrimos que queremos mais do que os modelos superficiais que herdamos da cisheteronormatividade. Precisamos revisitar nossos prazeres, desejos e as ambições de uma vida a dois voltada para o longo prazo, apesar das dores e dos traumas causados pela homofobia. Afinal, queremos viver a velhice, mesmo sendo ela um lugar incerto, já que não temos garantias de proteção contra a homofobia institucional e social.

Recentemente, conversando com amigos que também estão na casa dos 40, notei um fenômeno curioso: a própria comunidade muitas vezes nos enxerga sob o estigma do “sugar daddy”. Para mostrar socialmente que estamos “bem na fita”, espera-se que exibamos um parceiro mais jovem, mas a um preço alto: o da suposição de uma troca puramente mercantil entre aparência e conforto financeiro.

É, minhas amigas e meus amigos, o idadismo consegue ser ainda mais perverso para os grupos minorizados. Não se trata de mensurar quem sofre mais, pois a dor e a exclusão são perversas de qualquer modo. É fato, porém, que certos grupos atravessam essas etapas sob a invisibilidade e o silenciamento impostos pelo sistema, pela ciência, pelo ativismo e pelas políticas públicas.

Não encerro esta conversa dizendo que envelhecer é ruim. Pelo contrário: chegar até aqui é uma conquista, uma grande conquista, e sinto-me profundamente motivado a continuar.

A questão central é: quando, de fato, vamos confrontar essas estruturas e entender que a velhice é plural — assim como são diversas as faces do preconceito e da discriminação —, exercendo uma escuta ativa e assumindo uma postura de aliados para torná-la digna para todas as pessoas?

Diego Felix Miguel é doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

50 debates para o Brasil: educação sexual nas escolas divide opiniões sobre conteúdo e papel das famílias

O Brasil registra seis estupros de menores de 14 anos por hora e, ao mesmo tempo, enfrenta a controvérsia sobre até onde a escola deve ir ao abordar sexualidade com crianças e adolescentes. O tema foi discutido na série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luciana Temer, advogada, professora de Direito Constitucional da PUC-SP e diretora-presidente do Instituto Liberta, e Guilherme Schelb, procurador da República em Brasília, mestre em Direito Constitucional e especialista em infância e educação.

A discussão não se resume a ensinar ou não ensinar educação sexual. Envolve definir o que deve ser abordado, em qual idade, por quem e com quais limites. Também coloca em debate como dividir essa responsabilidade entre escola, família, Estado e sociedade.

Guilherme Schelb defende que qualquer conteúdo deve partir da legislação e respeitar o estágio de desenvolvimento de crianças e adolescentes. Para ele, a escola pode abordar questões relacionadas à sexualidade, mas precisa estabelecer fronteiras claras para evitar a exposição precoce a conteúdos próprios da vida sexual adulta.

O ponto central é respeitar a integridade psicológica e sexual da criança”, afirmou. Schelb argumentou que crianças não devem ser tratadas como “adultos pequenos” e que os conteúdos precisam considerar a vulnerabilidade própria de cada faixa etária.

Luciana Temer prefere fazer uma distinção. Em vez de tratar todo o conteúdo sob o rótulo de educação sexual, defende prevenção da violência sexual para crianças e sexualidade saudável e responsável para adolescentes.

Ela sustentou a posição com dados sobre violência. Segundo Luciana, o Brasil dos estupros de menores de 14 anos registrados, 30% das vítimas têm até nove anos e 60% dos casos acontecem dentro da casa da vítima, praticados por familiares.

Se a criança não tem uma preparação na escola, é (preciso) falar sobre percepções e prevenções de violência. Isso é possível? É possível”, disse.

Para os adolescentes, Luciana citou outro dado: cerca de 30 bebês nascem por dia no Brasil de mães com até 14 anos. Também mencionou pesquisa do IBGE segundo a qual muitos jovens iniciam a vida sexual aos 13 ou 14 anos. Na avaliação dela, deixar de conversar sobre o assunto não impede que adolescentes tenham contato com a sexualidade; apenas aumenta o risco de que recebam informações inadequadas ou distorcidas.

Quem decide o que será ensinado

Um ponto de aproximação entre os debatedores apareceu na necessidade de estabelecer critérios para os conteúdos.

Schelb criticou a falta de padronização. “Cada um faz o que bem acha melhor”, afirmou, ao defender regras que estabeleçam o que pode ser abordado em cada idade. Para ele, as famílias também precisam participar desse processo e ser orientadas para conversar com os filhos.

Luciana também defendeu conteúdos adequados às diferentes fases do desenvolvimento. Citou como exemplo que, com crianças pequenas, a prevenção pode ocorrer por meio de atitudes protetivas, enquanto crianças maiores podem receber orientações sobre violência digital e adolescentes podem discutir responsabilidade e sexualidade.

O que nós não podemos mais é não fazer esta conversa”, afirmou. Para ela, a responsabilidade não deve ficar exclusivamente com a família nem exclusivamente com a escola. A Constituição estabelece que a proteção de crianças e adolescentes é dever compartilhado pela família, pela sociedade e pelo Estado.

A divergência, portanto, está menos na necessidade de proteger crianças e adolescentes e mais em como transformar essa proteção em conteúdo escolar. De um lado, há o receio de que a escola ultrapasse limites e exponha alunos precocemente a temas inadequados. Do outro, o argumento de que o silêncio também produz riscos, especialmente diante da violência sexual e do início da vida sexual na adolescência.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: por que oferecer menos pode aumentar o desejo por uma marca

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Quando tudo está disponível o tempo todo, o excesso pode produzir um efeito inesperado: em vez de aumentar o desejo, pode provocar indiferença. A relação entre abundância, expectativa e valor foi tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN.

A ideia parte de um princípio da psicologia: desejamos aquilo que ainda não temos ou não conquistamos. A falta cria espaço para expectativa, descoberta e imaginação. Quando a satisfação é imediata, parte desse processo desaparece.

O excesso também pode gerar indiferença”, afirma Cecília Russo.

Essa lógica ajuda a entender por que algumas marcas não apresentam todas as novidades de uma só vez. Edições limitadas, lançamentos revelados aos poucos e produtos que chegam ao mercado em quantidades restritas podem aumentar a expectativa do consumidor.

Cecília ressalta que isso não significa manipular as pessoas. Trata-se de reconhecer que o desejo também precisa de tempo. “O excesso banaliza. E aí, a gente perde o desejo, que vai por água abaixo”, diz.

Escassez não pode ser artificial

O cuidado está em não transformar essa estratégia em dificuldade para o consumidor. Jaime Troiano faz uma distinção importante: o princípio pode valer para todas as marcas, mas não deve ser tratado como uma receita.

Nós não estamos dizendo que uma marca deva criar escassez artificial ou obsolescência artificial, que é um perigo, ou dificultar a vida do consumidor”, afirma.

A questão está menos na quantidade disponível e mais no significado atribuído ao produto. Marcas capazes de despertar expectativa não conseguem esse resultado apenas porque limitam a oferta. Existe uma história construída anteriormente.

É essa trajetória que ajuda a explicar por que determinados lançamentos provocam filas ou permitem preços mais altos. O consumidor não está comprando apenas um objeto. Compra também os significados associados a ele.

O desejo não se fabrica numa campanha publicitária. Ele é construído ao longo de muitos encontros entre a marca e as pessoas”, diz Jaime.

Menos pode comunicar mais

Na tentativa de conquistar consumidores, empresas podem cair na armadilha de oferecer todas as versões, ocupar todos os espaços e falar com todos os públicos. O risco é perder aquilo que as diferencia.

Jaime recorre ao Oráculo de Delfos para resumir a questão. Além do conhecido “Conhece-te a ti mesmo”, havia outra inscrição no templo grego: “Nada em excesso”.

Para as marcas, as duas recomendações se complementam. Conhecer a própria identidade ajuda a decidir o que oferecer, para quem falar e, principalmente, o que não precisa ser feito. Desejo não depende de ausência pela ausência. Depende da capacidade de preservar significado.

A marca do Sua Marca

Uma marca desejada não precisa oferecer tudo, o tempo inteiro, para todo mundo. O desejo cresce quando há expectativa, descoberta e significado. Escassez artificial pode afastar o consumidor; excesso também pode banalizar a relação. Entre uma coisa e outra está o desafio de construir valor sem fabricar desejo — até porque, como lembra Jaime, “nós somos seres humanos com uma fábrica de desejo dentro de nós”.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: o Grêmio é um caso de divã

Grêmio 3×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Chapecoense
Gustavo Martins marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio saiu atrás na partida em que enfrentava o lanterna do Campeonato Brasileiro. Permitiu ao adversário finalizar 32 vezes contra seu gol, enquanto chutou apenas 12. Precisou de Weverton para impedir que a noite se transformasse em desastre. E contou com o voluntarismo de Gustavo Martins, o zagueiro que voltou ao time para marcar duas vezes na vitória deste domingo — apesar de haver quem insista que o primeiro gol tenha sido de Enamorado.

Ganhamos por 3 a 1.

E talvez nada explique melhor o Grêmio atual do que esse contraste.

Um time que vence por dois gols de diferença e termina a partida deixando a impressão de que poderia ter perdido. Que sofre diante do lanterna, dentro de casa, e ainda assim consegue construir uma vitória que lhe dá algum alívio no Brasileiro e ânimo para o jogo mais importante da semana.

Os três pontos nos levaram aos 28 e permitiram alguns passos à frente daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Ainda estamos distantes dos 45 pontos que, teoricamente, nos livrariam de qualquer risco maior. Ao menos deixamos para trás o arquirrival — o mesmo com quem disputaremos, na quinta-feira, uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

A situação do time e as circunstâncias de cada partida transformaram a vida do torcedor numa montanha-russa emocional.

Ainda no primeiro tempo, a Arena vaiava para, minutos depois, aplaudir. O gremista roía as unhas a cada ataque da Chapecoense, mesmo quando já tínhamos vantagem no placar. Desesperava-se com os erros de passe no campo defensivo, que ofereciam ao adversário oportunidades para nos atacar, e logo depois comemorava com Wallace cada corte providencial de nosso promissor zagueiro.

Weverton fazia defesas que mantinham a vantagem. Gustavo Martins, escalado para impedir gols, aparecia na área adversária para fazê-los. Pavón, tantas vezes contestado, marcou um golaço e ainda cobrou o escanteio para o terceiro. O Grêmio sofria. O Grêmio fazia sofrer. E o Grêmio vencia.

Contradições.

Quando o árbitro apitou pela última vez, a torcida fazia festa com os jogadores. A mesma torcida que havia vaiado durante a partida agora já vislumbrava a Arena cheia para o Gre-Nal decisivo de quinta-feira.

E, no meio da comemoração, uma pergunta continuava incomodando: afinal, o que Luís Castro está fazendo com esta equipe que, depois de tanto tempo, ainda parece incapaz de deslanchar técnica e taticamente?

Talvez seja justamente isso que nos desoriente.

Quando estamos prontos para desistir, o Grêmio vence. Quando começamos a acreditar, o Grêmio nos oferece 32 motivos para desconfiar. Quando parece frágil, encontra força. Quando deveria nos tranquilizar, nos atormenta.

E quinta-feira tem Gre-Nal.

O Grêmio me deixa louco.

É um caso de divã.

50 debates para o Brasil: a “taxa das blusinhas” protege empregos ou pesa no bolso do consumidor?

A cobrança de imposto sobre pequenas compras feitas em sites internacionais coloca em confronto a proteção aos empregos no Brasil e o preço pago pelo consumidor. A “taxa das blusinhas” foi discutida na série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, por Jorge Gonçalves Filho, presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo, e Henrique Lian, CEO da Proteste Euroconsumers Brasil.

O debate ocorre enquanto o Congresso analisa a medida provisória que suspendeu a cobrança do Imposto de Importação sobre compras de pequeno valor feitas em plataformas internacionais. A questão vai além de decidir se uma blusa, um tênis ou um acessório comprado no exterior deve ficar mais caro. A discussão é sobre quem deve arcar com o custo de proteger a produção e o comércio brasileiros.

Jorge Gonçalves Filho defendeu a tributação como forma de reduzir a diferença entre as condições enfrentadas pelas empresas brasileiras e pelos produtos vendidos por plataformas estrangeiras. Segundo ele, a retirada do imposto já teria reflexos sobre o emprego.

Estamos exportando empregos, estamos exportando divisas”, afirmou. Ele citou dados segundo os quais o varejo teria perdido cerca de 63,4 mil postos de trabalho, sendo aproximadamente 30 mil no setor de vestuário. Também argumentou que produtos brasileiros estão submetidos a impostos, testes e certificações que nem sempre alcançam mercadorias importadas vendidas diretamente ao consumidor.

Para Jorge, portanto, não cobrar o imposto cria uma concorrência desigual. Ele afirmou que estudo realizado com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, a partir de mais de 150 mil notas fiscais, encontrou uma carga tributária acumulada de 92% na cadeia do vestuário.

Henrique Lian contestou a ideia de que a tributação produza igualdade. Seu argumento é que o Imposto de Importação não é pago pela plataforma estrangeira, mas pelo brasileiro que faz a compra.

Essa proteção não pode nunca, em hipótese alguma, recair sobre os ombros do consumidor”, afirmou. Para Henrique, empresas e consumidores são agentes diferentes e não deveriam receber o mesmo tratamento tributário. Se indústria e comércio nacionais enfrentam custos excessivos, disse, o governo deveria buscar outras formas de reduzir essa desvantagem.

Henrique também questionou se a cobrança anterior trouxe os resultados prometidos. Segundo os dados apresentados por ele, durante um ano e nove meses de vigência da tributação, os preços do varejo brasileiro não caíram: roupas subiram 7%, calçados, 9%, e cosméticos, 17%. O crescimento do emprego nesses setores também teria ficado abaixo da média nacional.

A divergência, portanto, não está apenas em cobrar ou não cobrar imposto. Está em como equilibrar três interesses: oferecer preços acessíveis ao consumidor, preservar empregos e permitir que empresas brasileiras concorram com produtos vendidos por plataformas internacionais.

De um lado, a tese de que não tributar significa importar produtos e exportar empregos. Do outro, o argumento de que proteger empresas colocando a conta no colo do consumidor aumenta a desigualdade tributária.

É essa escolha que está agora nas mãos do Congresso.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Sabatina Augusto Cury: o candidato de canela de fora

Augusto Cury
Cury na sabatina O Globo/Valor/CBN Reprodução do YouTube

Encontrei Escritor Augusto Cury — este é o nome próprio usado pelo candidato — já sentado na poltrona onde seria entrevistado pelos próximos 90 minutos, no estúdio da redação de O Globo. Estava de canela de fora.

Perdão se foi essa a primeira impressão que tive diante de tantas outras curiosidades que envolvem o homem que se apresenta como “o psiquiatra mais lido do mundo”. Fui induzido por uma história ouvida nos bastidores da sabatina de Renan Santos, no dia anterior.

Renan, que chegou de franja penteada, meia erguida e calça bem esticada, compartilhou conosco uma implicância do pessoal do Missão: homem que senta e deixa a canela à mostra não é de confiança.

Segundo essa particularíssima teoria política, políticos pouco confiáveis costumam usar calça curta e mocassim sem meia (ou algo assim). A ciência, até onde se sabe, ainda não se debruçou sobre a relação entre canelas, mocassins e caráter. Augusto Cury talvez possa fazê-lo. Entende da mente humana.

Psiquiatra, escritor, empresário e agora candidato à Presidência, ele passou boa parte da nossa conversa propondo diagnósticos para a política brasileira.

A política está doente. A polarização é esquizofrênica. Há egos demais, muros demais e pontes de menos. Cury se oferece como construtor de pontes.

Enquanto não chega à Presidência, faz o que aparentemente mais gosta: escreve. Escreveu um plano de governo com cerca de 200 páginas e está escrevendo cartas para Lula e Flávio Bolsonaro. Vai pedir aos dois que ajudem a pôr fim à polarização.

Se eleito, fará a segunda coisa de que mais parece gostar: conversar.

Pensa em anistiar condenados pelos atos de 8 de Janeiro, mas antes chamará juristas para analisar os processos. Quer mudar o sistema de governo, mas conversará com constitucionalistas. Quer cortar gastos, mas ainda precisará discutir onde e quanto com economistas.

Se Bolsonaro tinha um Posto Ipiranga, Cury aposta numa rede de postos.

Essa disposição para ouvir especialistas apareceu também quando Malu Gaspar perguntou como funcionaria, na Brasília real, o grande pacto político que ele propõe.

Cury apresentou suas credenciais:

— Eu sou um construtor de pontes. Já tratei psicopatas, sociopatas, pessoas agressivas, egocêntricas, tóxicas.

Foi irresistível imaginar o consultório em Brasília. Ele percebeu a armadilha:

— Não me coloquem nessa fogueira.

Não colocamos. Cury é que decidiu entrar nela.

E descobriu na sabatina que quem disputa a Presidência precisa fazer mais do que construir pontes. Precisa escolher para qual margem pretende atravessar.

Perguntado se houve tentativa de golpe, preferiu aguardar a opinião dos juristas. Questionado sobre quem apoiaria num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, recusou-se a escolher.

— O senhor não quer escolher nada.

Cury não gostou. Afinal, ele escreveu 200 páginas de programa de governo. O problema aparece quando as 200 páginas precisam ser traduzidas em decisões.

Perguntamos quanto custariam suas propostas e onde cortaria despesas. Falou em reduzir talvez 30% dos cargos comissionados. Depois ponderou: podem ser 25%, 35% ou nenhum desses números.

Cury tem respostas abundantes para os males do país e ainda procura algumas respostas sobre como curá-los.

Talvez seja natural para quem estreia numa eleição. Até pouco tempo atrás, sua experiência com política era a de quem conversava e tratava políticos. Agora está do outro lado da mesa.

Neste sábado, estará diante dos entrevistadores do Jornal Nacional.

Quanto mais falar, mais será ouvido. E quanto mais for ouvido, mais terá de mostrar. Talvez, afinal, a canela de fora que me chamou a atenção antes da sabatina não tenha relação alguma com a teoria do pessoal do Missão. Provavvelmente seja apenas uma antecipação do que acontecerá daqui para frente.

Augusto Cury entrou de vez na campanha presidencial. Agora estará cada vez mais exposto. Com suas franquezas à mostra. E suas fragilidades também.

Conte Sua História de São Paulo: amor à primeira viagem

Roseanne Decanini

Ouvinte da CBN

Foto de Sergio Souza on Pexels.com

Meu amor por São Paulo começou cedo, quando eu tinha apenas seis anos de idade. Foi naquela primeira viagem, ao lado da minha mãe, que a cidade me conquistou para sempre. Viajávamos de trem, em vagão-leito, privilégio de filha de ferroviário. Foram doze horas de expectativa até chegar à Estação da Luz — um cenário que até hoje mora na minha memória.

Ficamos hospedadas no apartamento dos meus tios, em Pinheiros. Enquanto minha mãe ia ao hospital visitar meu irmão, que estava internado devido a um tumor na cabeça, eu permanecia no apartamento, encantada, observando a cidade pela janela do quarto. 

Via a movimentação da rua, os troleibus passando, as pessoas indo e vindo, a garoa fina caindo… Tudo aquilo era moderno, vibrante, fascinante para uma criança do interior. Naquele momento, pensei: “Gostaria de morar aqui.”

Achava lindas as mulheres sempre bem arrumadas, os homens elegantes, as pizzas deliciosas que comíamos. Mas, como tudo na vida, aquela temporada chegou ao fim e voltamos para Assis, minha cidade natal.

Anos depois, quando minha irmã se formou em Enfermagem, ela me convidou para ir com ela para São Paulo, onde haveria mais oportunidades. Não pensei duas vezes. Embarquei novamente rumo à cidade que já morava no meu coração.

E São Paulo me abraçou. Foi ali que cresci de verdade como pessoa. De uma caipira do interior, tornei-me uma paulistana antenada. Tive boas oportunidades de trabalho, estudei, me formei, amadureci. Trabalhei no centro de São Paulo, em banco, e morava próxima à Marechal Deodoro, perto do Minhocão e da antiga sede da Rede Globo.

Vivi intensamente a cidade: ia ao Mappin admirar vitrines e promoções, conheci o Museu do Ipiranga, caminhei pelo Largo São Bento, frequentei o Shopping Ibirapuera, fui ao cinema — ah, que delícia ir ao cinema! — ao teatro, às pizzarias, andei pela Avenida Paulista, onde também trabalhei, e aproveitei o Parque do Ibirapuera.

São Paulo é isso: cultura, movimento, oportunidades, acolhimento. É uma metrópole linda, pulsante, que transforma e impulsiona quem nela vive. São Paulo é, sem dúvida, a cidade do meu coração. E a quem fala mal dela, só lamento. Gostaria que nossos políticos tivessem o mesmo olhar carinhoso que nós, paulistanos de alma, temos por ela, e a tratassem tão bem quanto ela nos trata e acolhe.

Uma cidade que não apenas se visita — se vive, se ama e se leva para sempre na alma.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo


Roseanne Decanini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está na briga

Internacional 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 453
Carlos Vinicius travou boas batalhas Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na tela da TV, o Gre-Nal. Na do celular, a entrevista de Lula, na Globo. Na do computador, o planejamento para a última sabatina com os candidatos à Presidência, que farei amanhã, aqui no Rio.

O momento é de decisão.

No campo, a dupla gaúcha disputava quem permaneceria vivo por pelo menos mais uma etapa da Copa do Brasil. Na política, o calendário avisa que faltam pouco mais de 30 dias para o eleitor fazer sua escolha.

Era preciso estar atento a tudo. Não vacilar. Foco total. No caso, multifoco.

Foi em meio a essa tensão que assisti ao clássico.

No primeiro tempo, fui surpreendido pelo Grêmio. Krovinovic deu qualidade ao passe. O time teve mais organização, ocupou mais os espaços e jogou melhor do que vinha jogando até aqui. Não que precisasse fazer muito para superar as últimas atuações.

Apesar da superioridade, chutou pouco a gol. E quem não faz só não leva se tiver força suficiente para se defender. Foi aí que o Grêmio mostrou algo de que o torcedor não pode reclamar nesta quarta-feira: entrega.

Deu pouco espaço ao adversário. Não havia bola perdida. Cada disputa parecia valer um pouco mais. E, quando a técnica se calou, a alma falou mais alto.

No segundo tempo, o Grêmio caiu de rendimento. Foi pressionado e teve dificuldades para sair jogando. Ainda assim, soube sofrer. E soube se defender. Isso também é mérito. Depois do que temos visto, é até motivo para comemorar.

Chegar vivo à Arena era o principal objetivo. Objetivo alcançado. Agora teremos uma semana para descobrir algo que continua desaparecido: o caminho do gol.

O jogo terminou empatado.

A entrevista, também.