A exposição constante pode enfraquecer uma marca. Quando a comunicação ultrapassa o limite, ela deixa de gerar lembrança e passa a provocar rejeição. Esse foi o ponto de partida do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
A ideia de que “quanto mais aparece, mais forte a marca fica” ainda circula no mercado. A prática mostra outra coisa. A superexposição gera cansaço. “Quando uma marca não sai da sua frente, ela não vira lembrança. Vira incômodo”, alertou Cecília. O consumidor não se sente lembrado; sente-se invadido. Alerta no celular, e-mail, SMS, WhatsApp e redes sociais ampliaram os canais, mas também ampliaram o risco de excesso.
O efeito aparece no comportamento cotidiano. Silenciar marcas nas redes, desativar notificações ou bloquear mensagens virou hábito. “Hoje, silenciar uma marca virou uma forma de auto-respeito”, disse Jaime. O gesto protege o tempo e a atenção — dois recursos escassos. Nesse cenário, branding deixa de ser disputa por visibilidade a qualquer custo e passa a ser construção de respeito.
Outro ponto sensível é a intimidade artificial. Marcas que tentam se passar por “amigas”, adotam gírias e simulam proximidade forçada costumam gerar estranhamento. A confiança não nasce de emojis ou de excesso de informalidade. Ela se constrói com coerência, eficiência e consistência. Nem toda marca precisa ser próxima; muitas precisam, antes, ser claras e confiáveis.
Há, também, o outro extremo. A ausência total de comunicação causa estranheza. Na pandemia, marcas que desapareceram do radar foram sentidas. Comunicação, no seu sentido básico, informa o público sobre o que é relevante. O desafio está no equilíbrio. Não é entupir nem deixar no vácuo. É dosar.
O caminho proposto é simples e exigente ao mesmo tempo. Não é falar mais, é falar melhor. Não é estar em todo lugar, é ser legítima onde está. Não é automatizar tudo, é colocar intenção em cada contato. A metáfora do coquetel ajuda a entender: quem fica parado é visto; quem gira freneticamente vira distração. Marcas que exageram acabam parecendo “mosca de padaria”, pulando de um espaço a outro sem propósito.
A marca do Sua Marca
Marca forte não grita. Respeita. Presença sem propósito vira ruído e não constrói valor. Cuidar da atenção das pessoas, gerando valor em cada contato, é o aprendizado central do comentário.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Grêmio 1×0 Novo Hamburgo Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Carlos Vinícius, de novo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Uma das últimas vezes em que estive no Estádio Olímpico foi ao lado do meu pai. Repetimos um ritual que nasceu na minha infância, quando ele fazia questão de me levar pela mão para assistir aos treinos coletivos do Grêmio. Eram atividades abertas à imprensa e, vez ou outra, também aos sócios. Eu tinha o privilégio de acompanhar o trabalho à beira do gramado, dividindo espaço com os repórteres que cobriam o dia a dia do clube.
Naquela visita derradeira, eu já morava em São Paulo e estava apenas de passagem por Porto Alegre. Não lembro quem era o técnico do Grêmio naquele momento. Um detalhe, porém, ficou guardado na memória. Mesmo com uma liberalidade que hoje parece improvável — os treinos agora são fechados —, os clubes já começavam a restringir o acesso aos jogadores. Um repórter setorista reclamava do assessor de imprensa porque determinado atleta não havia sido escalado para conceder entrevista na sala de conferências.
A cena me marcou porque eu também fui setorista de clube, nos anos 1980, tanto no Grêmio quanto no tradicional adversário. Naquele tempo, os jogadores circulavam entre os jornalistas sem cerimônia. Falavam ao fim do treino, ainda suados, antes mesmo de trocar de roupa. Das conversas informais surgiam confiança, fontes e uma cobertura esportiva mais rica. O jornalismo se fazia com presença, escuta e convivência.
Ao ouvir a queixa do colega, entendi que a relação entre jornalismo e futebol havia mudado — e não para melhor. Em outros tempos, estaríamos rondando os bastidores do clube. Agora, passávamos a depender da autorização de um intermediário cuja função é, por definição, filtrar o que pode ou não ser dito.
Não demorou muito para que os repórteres também perdessem o acesso aos treinos. Antes, até o placar do coletivo final virava notícia. Hoje, quase tudo se apoia em suposições. Em nome da estratégia e do sigilo tático, deixamos de contar quem foi testado, quem rendeu melhor, quem ganhou espaço. O futebol ficou mais hermético; a informação, mais rarefeita.
Lembrei de tudo isso ao acompanhar as reações de gremistas nas redes sociais após a vitória mirrada — e ainda assim decisiva — sobre o Novo Hamburgo. O 1 a 0 garantiu a classificação à semifinal do Campeonato Gaúcho, cumpriu o objetivo, mas ficou aquém da expectativa em relação ao desempenho do time. Vieram as críticas às escolhas de Luis Castro, tanto na escalação inicial quanto nas alterações do segundo tempo.
É provável que a maioria de nós não saiba o que acontece dentro do clube. Não temos acesso ao ambiente entre os jogadores, às condições físicas individuais, às respostas dadas no treino que antecede o jogo. Ainda assim, nos sentimos autorizados a julgar com convicção, oferecendo soluções simples e evidentes — aquelas que, curiosamente, só os profissionais que trabalham ali parecem incapazes de enxergar.
Não se trata de dizer que o técnico está sempre certo. Há erros de avaliação. Há insistências que custam caro. Há apostas que não se confirmam. Isso faz parte do futebol. O incômodo surge quando a crítica abandona a dúvida e se apresenta como certeza absoluta, adornada por adjetivos agressivos e ataques pessoais. O achismo ocupa o meio de campo. A verdade tem dono. Não há espaço para a hipótese, para o contexto, para o outro.
Imagino que muitas decisões da comissão técnica tenham fundamentos legítimos, ainda que não possam ser expostos publicamente. Às vezes, por proteção ao elenco. Em outras, pela tentativa de recuperar um jogador ou preservar o ambiente interno. Nem tudo cabe numa entrevista pós-jogo. Nem tudo pode ser dito em voz alta.
Que fique claro: o torcedor tem direito à passionalidade. Na arquibancada — ou diante da TV — migramos do aplauso à crítica na velocidade de um contra-ataque. Sempre foi assim. No Olímpico era assim. Hoje continua sendo. O problema é quando trocamos o espaço lúdico do estádio pelo território permanente das redes sociais e esquecemos que a palavra escrita permanece, fere e carrega responsabilidade. Julgamos apenas com base na emoção, sem informação e sem freio.
O Grêmio está na semifinal do Campeonato Gaúcho cumprindo sua obrigação. Fez um jogo no limite do esforço, considerando um calendário atípico e exigente. Luis Castro aprende a cada partida com quem poderá contar ao longo da temporada. Mescla o time porque precisará do elenco inteiro nos momentos decisivos. Às vezes se expõe, estendendo a permanência de um jogador em campo além do ideal — como ocorreu, novamente, com Carlos Vinícius. Em outras, administra riscos e aceita uma performance menos vistosa. Há razões para isso.
Desconsiderá-las por completo é comprometer um projeto que ainda está em construção.
Talvez o maior exercício exigido de nós, hoje, seja confiar no trabalho feito longe dos nossos olhos — mesmo que já não possamos acompanhar os treinos à beira do gramado, como eu fazia, tantos anos atrás, ao lado do meu pai.
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP
Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.
Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.
Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:
“Now you know where to go!”
Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português:
“Agora você sabe onde ir.”
Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.
As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Luiz Serenini Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Bastidor da entrevista com Nelcina Tropardi Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Hoje em dia não é mais o resultado pelo resultado. O resultado a qualquer custo. É o resultado que passe pelo propósito.”
Empresas de grande porte operam sob pressão constante: resultados trimestrais, exposição pública, cobrança de investidores, vigilância social permanente. Nesse cenário, decisões tomadas no calor do momento tendem a ampliar riscos e comprometer reputações construídas ao longo de décadas. Foi a partir dessa tensão entre resultado, propósito e governança que se desenvolveu a entrevista com Nelcina Tropardi, vice-presidente de Assuntos Corporativos, Jurídico e ESG do Carrefour Brasil, no Mundo Corporativo, da CBN.
Ao reunir sob a mesma liderança áreas que tradicionalmente funcionam de forma isolada, o Carrefour optou por tratar reputação como um ativo transversal. Segundo Nelcina Tropardi, jurídico, ESG e assuntos corporativos têm um ponto em comum: “elas cuidam, protegem a reputação da companhia”. A decisão de integrá-las responde à necessidade de coerência entre discurso, processos internos e práticas do dia a dia.
Governança como base do ESG
Na conversa, Nelcina defendeu que governança não é um elemento acessório das estratégias de sustentabilidade. É a base. Sem regras claras, processos bem definidos e responsabilidades estabelecidas, iniciativas ambientais e sociais perdem consistência. “Não existe uma estratégia que olhe para o meio ambiente e para o social que seja bem-sucedida se não estiver calcada numa boa governança”, afirmou.
Ela observou que, muitas vezes, a governança é confundida com burocracia. Para Nelcina, trata-se de um equívoco comum. Regras internas não servem para travar decisões, mas para garantir que elas sejam tomadas por quem tem competência e responsabilidade para isso. Quando esses mecanismos falham, o resultado costuma aparecer mais adiante, em crises que poderiam ter sido evitadas.
Crise exige escuta e racionalidade
Responsável por áreas que atuam diretamente na gestão de crises, Nelcina destacou que o primeiro risco, em situações extremas, é o descontrole emocional. “Para você fazer uma boa gestão de crise, você precisa manter a calma, manter a capacidade de ouvir e manter a capacidade de raciocinar. Seu desespero, por pior que seja a situação, não leva a lugar nenhum”, disse.
A escuta, segundo ela, não pode ser apenas formal. É preciso ouvir de forma desarmada, sem preparar respostas enquanto o outro fala. Esse tipo de postura, afirmou, amplia a capacidade de compreender cenários complexos e reduz a chance de decisões precipitadas.
Reputação, aprendizado e responsabilidade
Ao ser perguntada sobre episódios críticos enfrentados pelo Carrefour nos últimos anos, Nelcina reconheceu a gravidade dos casos e afirmou que eles não devem ser apagados da memória da organização. “São episódios terríveis, que não podem ser apagados e não devem ser apagados”, disse. Para ela, o aprendizado passa pela criação de processos mais robustos, treinamentos contínuos e monitoramento permanente.
Ela lembrou que o grupo opera mais de mil lojas no país, recebe cerca de dois milhões de clientes por dia e emprega aproximadamente 120 mil pessoas. Essa escala amplia a responsabilidade da empresa e exige atenção constante à cultura interna. Programas de letramento racial, uso de câmeras corporais por equipes de segurança e revisão de procedimentos fazem parte desse esforço, que, segundo ela, precisa ser contínuo.
Maturidade e diversidade geracional
Outro ponto abordado foi a convivência entre diferentes gerações no ambiente corporativo. Nelcina afirmou que empresas precisam valorizar tanto profissionais mais jovens quanto aqueles com mais de 50 anos. Para ela, maturidade e resiliência são ativos relevantes em contextos de instabilidade. “A empresa de sucesso do futuro será a empresa que souber lidar com essas diferenças geracionais”, afirmou.
Ao falar de carreira, destacou que trajetórias profissionais são construídas por escolhas conscientes. Relatou o momento em que decidiu ampliar sua formação para permanecer no mundo corporativo, buscando conhecimentos além do direito. Segundo ela, gostar de pessoas, saber traduzir conceitos técnicos e atuar como facilitador são condições essenciais para quem ocupa funções estratégicas.
Sustentabilidade na prática
Nelcina também detalhou os três pilares da estratégia de ESG do Carrefour Brasil: combate à fome e às desigualdades sociais, diversidade e inclusão, e enfrentamento das mudanças climáticas. Entre as iniciativas citadas estão programas de doação de alimentos, contratação de beneficiários do Bolsa Família, metas de diversidade e monitoramento da cadeia de fornecimento de carne para evitar desmatamento.
Ela destacou ainda o acordo firmado com o governo do Pará para apoiar produtores rurais na regularização ambiental, com uso de monitoramento em tempo real. Segundo Nelcina, essas ações só se sustentam no longo prazo quando estão integradas à estratégia de negócios e apoiadas por governança sólida.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Grêmio 5×3 Botafogo Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Carlos Vinícius comemora seu terceiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O que vier depois pode esperar. Nesta noite, eu só quero ser feliz. Dúvidas e tropeços existirão — outras dúvidas e tropeços ainda virão. Para o gremista, porém, é dia de comemorar. Queríamos ao menos uma vitória. O Grêmio de Luis Castro entregou mais do que se podia esperar.
Antes da bola rolar, me agradou a decisão do treinador. Foi a campo com o que havia funcionado melhor até aqui. Evitou insistir no que não rendia. Colocou Noriega como volante, Monsalve mais adiantado. No ataque, voltou a apostar em Pavón pela esquerda, coerente com o que ele havia mostrado na partida anterior.
Curiosamente, o caminho da vitória apareceu nas mudanças do segundo tempo. William entrou no lugar de Monsalve, que saiu lesionado ainda no fim da primeira etapa. A virada de chave veio, sobretudo, com Amuzu pela esquerda. O belga soltou a perna, partiu para o drible, incomodou os marcadores e encontrou Carlos Vinícius dentro da área — o seu habitat.
Vini da Pose fez um, fez dois, fez três. Gols que colocaram o Grêmio em vantagem. A bola procura Carlos Vinícius. Ele responde com faro e presença. Forte no corpo a corpo, cria espaço onde parece não existir. Diante do gol, decide. Neste início de temporada, é o atacante que mais balançou a rede no Brasil.
Carlos Vinícius faz gols, faz pose e contagia. O sorriso largo denuncia a alegria de quem ama o que faz. E nos faz felizes também. Tetê, com o primeiro gol com a camisa tricolor, e Edmílson, incansável, completaram uma vitória importante no Campeonato Brasileiro. Daquelas que dão confiança e personalidade. Daquelas que ajudam a afirmar um time ainda em construção.
Há ajustes a fazer. Reforços seguem necessários. Luis Castro precisa de tempo para implantar sua estratégia. Tropeços e dúvidas nos esperam. Hoje, porém, só me deixa ser feliz. Com Grêmio vencendo o Botafogo.
Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.
Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.
Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.
O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.
Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.
O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.
Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.
Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor.
Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Sempre achei curiosa aquela cena de aeroporto: alguém equilibrando a mala, a mochila, o celular… e um travesseiro debaixo do braço. A imagem se repete no avião, no carro, no ônibus. Para mim, adepto confesso das bagagens enxutas — e motivo recorrente de aflição para minha esposa —, aquilo sempre pareceu um exagero. Um carinho supérfluo consigo mesmo. Um capricho portátil.
Demorei a entender que talvez eu estivesse enganado.
A ficha começou a cair depois da leitura de um texto de Armando Oliveira, publicado no LinkedIn, no qual ele compartilha uma conversa com Amyr Klink. Ali, o navegador fala de travessias longas, dessas que exigem mais do corpo do que estamos acostumados a admitir. E fala do conforto não como luxo, mas como estratégia. Um detalhe que sustenta o todo.
Armando relata que Amyr, mestre do planejamento e dos checklists, já se viu no meio de uma travessia sem um item básico por uma simples distração: o travesseiro. Tudo calculado. Rotas, mantimentos, combustível. Faltava justamente aquilo que garantiria uma noite melhor, um corpo menos castigado, uma cabeça mais lúcida no dia seguinte.
Foi ali que o travesseiro deixou de ser objeto e virou metáfora.
Passamos a vida fazendo planos grandiosos. Projetos bem desenhados, cronogramas ambiciosos, metas robustas. No meio disso, esquecemos do básico. Do conforto possível. Do cuidado mínimo que sustenta a travessia. Apostamos que o esforço dá conta de tudo. Nem sempre dá.
O planejamento reduz incertezas, mas não elimina a nossa condição humana. Corpo cansa. Atenção falha. Disciplina não substitui descanso. E método nenhum sobrevive por muito tempo quando ignora o essencial.
Talvez aquelas pessoas que eu via circulando com travesseiros pelos corredores dos aeroportos soubessem disso antes de mim. Talvez estivessem apenas cuidando do que importa para seguir adiante — inteiras.
Na próxima viagem já programada, começo a considerar levar um travesseiro. Não por moda. Nem por conforto ostentatório. Por aprendizado tardio.
Em tempo. Amyr Klink foi uma das entrevistas mais marcantes que fiz no início da minha carreira, ainda na Rádio Guaíba, em Porto Alegre. Anos depois, o projeto de Armando Oliveira em parceria com o navegador me proporcionou um reencontro com Amyr, agora no programa Mundo Corporativo. Algumas conversas atravessam o tempo. Outras atravessam oceanos. As melhores fazem as duas coisas.
E quase sempre deixam uma pergunta no ar: qual é o travesseiro que está faltando no nosso checklist hoje?
Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com
Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.
O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.
Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.
Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.
O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.
Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.
A marca do Sua Marca
Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Monsalve comemora o gol no retorno ao time Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Foi apenas a sétima partida de Luis Castro como técnico do Grêmio, e essa realidade não pode ser ignorada. Ele ainda merece paciência, virtude cada vez menos presente na Arena. Para iniciar o jogo, o treinador português recorreu a um time alternativo, com poucos jogadores considerados titulares. A escolha fazia sentido: a classificação à próxima fase estava garantida, a manutenção do primeiro lugar na chave parecia tranquila e o jogo vinha espremido entre dois compromissos importantes do Campeonato Brasileiro.
Ainda assim, esperava-se mais do Grêmio, sobretudo por jogar em casa. Faltou pressão na saída de bola do Juventude e sobrou lentidão quando a posse era nossa. O primeiro tempo foi pobre. Quase não se criaram jogadas de ataque. Nada daquilo a que se assistiu animou o torcedor que foi à Arena.
A entrada do trio titular — Arthur, Amuzu e Carlos Vinícius — ao lado de Monsalve, que retornava de um longo período de lesão, abriu outra perspectiva, no segundo tempo. O time ganhou presença ofensiva e passou a ocupar melhor o campo adversário. A expulsão precoce de Arthur, porém, voltou a desorganizar o Grêmio. Mais do que o prejuízo imediato, a ausência do volante pesa na disputa pela vaga na semifinal, no próximo fim de semana. Com ele, o meio de campo ganha equilíbrio. Sem ele, o sistema entra em colapso.
Entre as poucas boas notícias, Miguel Monsalve foi a principal. Há tempos o torcedor aposta no colombiano como o jogador capaz de assumir o papel do camisa 10. Em dois ou três lances — especialmente no golaço que marcou — o jovem de 21 anos reacendeu a esperança de que esse protagonismo, enfim, possa se consolidar.
A outra rara boa notícia foi Noriega como volante. Forte na marcação e seguro no domínio da bola, mostrou credenciais que merecem atenção. Com o retorno de Balbuena — toc, toc, toc — talvez o nipo-peruano de 24 anos possa se firmar como parceiro de Arthur, oferecendo ao meio de campo uma alternativa mais consistente.
Aos trancos e barrancos, o Grêmio segue no Campeonato Gaúcho. No meio da semana, o compromisso pelo Campeonato Brasileiro exigirá entrega máxima. Com pouco tempo de trabalho e quase nenhum espaço para treinar, Luis Castro precisa ajustar o time sob a pressão de uma torcida ainda marcada pelos fracassos do ano passado e pelos tropeços deste início de temporada. O relógio corre mais rápido do que o calendário.
À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns
Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light.
Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.
Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.
No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.
Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.
Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.
Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos.
Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Francisco Camilo Hernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.