O ensino religioso está previsto nas escolas públicas brasileiras, mas a matrícula é facultativa e sua aplicação provoca dúvidas sobre laicidade, diversidade e prioridade curricular. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Adecir Pozzer, coordenador-geral do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso, e Claudia Costin, especialista em políticas públicas e educação.
Embora tenham partido de posições diferentes, os debatedores concordaram em dois pontos: a disciplina não deve servir à conversão religiosa e a participação do estudante deve continuar facultativa. A principal divergência apareceu na forma de oferecer esse conhecimento e no espaço que ele deve ocupar em uma grade escolar já limitada.
Adecir Pozzer defendeu o ensino religioso como uma área de conhecimento dedicada ao estudo das diferentes crenças, tradições e experiências espirituais produzidas pela humanidade. Segundo ele, as religiões influenciam a formação das pessoas, a organização das sociedades e a maneira como diferentes grupos interpretam o mundo.
Para Pozzer, esse conteúdo pode ajudar os estudantes a compreender a diversidade cultural e a conviver com pessoas que professam outras crenças ou não seguem nenhuma religião.
“Não podemos educar para a segregação, do ponto de vista da religião, mas para a integração, para a convivência”, afirmou.
Ele ressaltou que a proposta não deve ser confessional. Isso significa que a escola pública não pode ensinar os princípios de uma religião específica como verdade nem tentar conquistar seguidores. A disciplina deveria apresentar tradições indígenas, afro-brasileiras, asiáticas e de outras matrizes, com base nas ciências da religião.
Pozzer também defendeu a formação específica dos professores e a existência de objetivos pedagógicos claros. Sem esses cuidados, o ensino religioso pode deixar de promover a diversidade e passar a reproduzir preconceitos.
Claudia Costin concordou que os estudantes precisam conhecer diferentes crenças e aprender a respeitá-las. Também defendeu uma abordagem não confessional e sem proselitismo — termo usado para definir a tentativa de converter alguém a determinada religião.
Sua ressalva está na criação de uma disciplina específica em uma escola que dispõe de poucas horas para ensinar conteúdos fundamentais. Claudia lembrou que muitos estudantes brasileiros permanecem apenas quatro horas por dia na escola, enquanto sistemas educacionais com melhores resultados oferecem jornadas mais longas.
“O que me preocupa é que o Brasil tem uma jabuticaba: só quatro horas de aula no ensino fundamental. Nenhum país com bom sistema tem menos de sete”, disse.
Na avaliação da especialista, conhecimentos sobre religião, cultura e diversidade poderiam aparecer em matérias como história e sociologia. Essa alternativa evitaria aumentar a fragmentação da grade e preservaria mais tempo para leitura, escrita, matemática e ciências.
O professor no centro da questão
Os debatedores também convergiram sobre o risco de uma formação inadequada dos educadores. Para Claudia, mesmo um currículo plural pode ser prejudicado pelos preconceitos e pelas preferências pessoais de quem ensina.
O desafio, portanto, não está apenas em decidir se o ensino religioso deve permanecer na escola. É preciso definir quem vai ensiná-lo, com qual preparação e de que maneira serão representadas as crenças minoritárias, além das pessoas ateias e agnósticas.
O debate mostrou que a discussão vai além da oposição entre religião e Estado laico. A questão central é saber se a escola pública consegue transformar o conhecimento sobre as religiões em instrumento de convivência, sem doutrinação e sem retirar espaço de aprendizagens essenciais.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Sentir-se sem graça é um sentimento muito interessante, pois pode provocar diferentes variações na pessoa. Fazendo uma analogia com as cores, é como se não possuísse um colorido próprio e adquirisse a tonalidade dos sentimentos aos quais se agrega.
É justamente aí que, pelo menos em minha experiência subjetiva, pode ser observado o aspecto mais interessante desse sentimento.
Como sentimento originário, antes de se agregar a outros, o sentir-se sem graça parece apresentar-se sem uma cor definida. Talvez seja precisamente essa ausência de cor que provoque certo mal-estar interno: o próprio incômodo de sentir-se sem graça. Pode ser por isso que ele necessite agregar-se a outros sentimentos, a fim de conferir alguma tonalidade ao que está sendo sentido e, quem sabe, modificar aquele incômodo inicial.
As possibilidades são muitas.
Uma pessoa pode se sentir sem graça, e esse sentimento se aliar ao sentir-se desconcertado. Assim como se sentir sem graça e se agregar ao sentimento de vergonha. E também se sentir sem graça diante de determinada situação, e esse sentimento se associar ao de constrangimento. Enfim, são várias as possibilidades.
Em outras circunstâncias, o sentimento de se sentir sem graça pode agregar-se a sentimentos relacionados ao desinteresse ou à falta de vivacidade. Um filme pode gerar o sentimento de sem graça por ter sido experienciado como chato. Uma situação pode ser sentida como insossa, sem brilho ou sem vida. Uma conversa, uma atividade ou um acontecimento podem provocar essa mesma sensação por terem sido percebidos como cansativos ou desinteressantes.
Assim, dependendo do grupo de sentimentos ao qual se agregue, o sentir-se sem graça pode assumir diferentes tonalidades e produzir as mais variadas consequências.
Entretanto, há algo em comum entre todas essas manifestações. Mantendo a analogia com as cores, podemos dizer que o sentimento de se sentir sem graça é, originalmente, incolor. Por isso, de alguma maneira, ele seria “obrigado” a assumir a cor do sentimento ao qual se agrega.
Podemos aprender algo importante com isso.
Como o sentimento de se sentir sem graça se apresenta inicialmente como um incômodo ainda sem contornos definidos, ele pode funcionar como um sinal, ou seja, como um chamado para prestarmos atenção ao que está acontecendo em nós a fim de buscarmos identificar o que precisa ser movimentado para conferir um colorido mais bonito à nossa vida.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Marina Zarvos lançará “Ponto a Ponto — crônicas do cotidiano” (Grupo Editorial Lê) no dia 10 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Distrito Anhembi.
A autora receberá os leitores a partir das 14h30, no estande K-74, próximo à Arena Cultural.
Marina teve dezenas de textos lidos no quadro Conte Sua História de São Paulo. Segundo ela, essa experiência a incentivou a transformar suas histórias em livros. Antes de “Ponto a Ponto”, foi coautora, com Sonia Bittencourt, de “As duas pontas da vida” (Oficina do Livro).
Tive o prazer de escrever a orelha de “Ponto a Ponto”, texto que reproduzo a seguir:
Marina Zarvos é amiga de longa data. É daquelas pessoas que chegam contando histórias e, quando você percebe, já está dentro delas. Eu e o Cláudio Antonio, o Claudinho, a conhecemos desde 2014. Foi quando nos falou do “Seu Tacílio”, que consertava calçados em uma sapataria na Jamaris, em Moema. Logo percebemos que ela faz amizade com facilidade. Em um passeio pelo bairro, nos apresentou Dona Eva, 90 anos, sobrevivente da Segunda Guerra e ainda firme para enfrentar as batalhas de um pedestre na cidade grande. Noutra vez, nos encontramos no Ibirapuera. Marina buscava o relógio perdido da mãe — como se procurasse também o tempo que escapa e insiste em permanecer. Certa vez, sentamos à mesa de um bar que hoje funciona onde antes era a casa de uma amiga de infância.
Como faz amigos essa Marina! Quando você a conhecer, vai entender a razão. Ela observa o mundo com atenção. Vê o que muitos deixam passar. Escuta o que poucos têm paciência para ouvir. E guarda — em crônicas, contos, poesias e textos reflexivos.
Entre um encontro e outro, descobrimos uma paixão em comum: o rádio. Claudinho e eu trabalhamos nesse ofício há décadas. Ele é o maestro que sonoriza cada história. Eu sou o editor e narrador do Conte Sua História de São Paulo, programa da CBN que há 20 anos dá voz aos ouvintes. Marina é ouvinte fiel. Um dia, ouviu seu nome e um de seus textos no ar. O que não sabíamos é que aquela experiência ajudaria a revelar a escritora que ela cultivava no escuro de uma gaveta — embora parte de seus textos já tivesse encontrado o público no rádio.
Neste livro, Marina vai além de Moema e da nossa São Paulo. Amplia esse universo. Em uma travessia feita de memórias e afetos, nos leva às suas origens. A cultura grega, presente na família, surge como referência — nos mitos, nos nomes, nas ideias que atravessam séculos. Ao mesmo tempo, seu olhar ilumina mulheres que sustentam histórias, muitas vezes de forma silenciosa.
Os textos formam uma galeria de personagens. Cada um conduz o leitor a experiências de perda, descoberta, amor e reconstrução. Fragmentos que, costurados, revelam um percurso: o de alguém que escreve para compreender a vida enquanto ela acontece.
Marina é uma narradora de encontros. Este livro é um convite. Ao percorrer suas páginas, o leitor reconhecerá, em muitas histórias, traços da própria vida — porque são essas histórias, as dela e as nossas, que nos deixam em sintonia.
Facções criminosas atuam em vários estados e até fora do país, enquanto as forças responsáveis por investigá-las ainda enfrentam barreiras territoriais e sistemas pouco integrados. O desafio de coordenar o combate ao crime organizado foi tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN.
A discussão reuniu Alberto Kopittke diretor do Instituto Cidade Segura e autor do Manual de Segurança Pública Baseada em Evidências, e Guaracy Mingardi, analista criminal, pesquisador em segurança pública e ex-diretor do Ministério da Justiça.
O ponto de partida foi a federalização da segurança pública. A proposta poderia significar a transferência de atribuições dos estados para a União. Ao longo do debate, porém, os dois especialistas defenderam uma solução intermediária: preservar o comando estadual das polícias e ampliar a coordenação federal sobre investigações, inteligência, financiamento e formação profissional.
Alberto Kopittke afirmou que a União precisa assumir um papel mais forte diante de organizações que operam em diferentes regiões do Brasil. Para ele, isso não exige necessariamente retirar poder dos governos estaduais.
“Não se trata de tirar poder das polícias estaduais. Nós temos é que fortalecer as polícias estaduais, modernizá-las, mas a União tem que ter mais capacidade de induzir as políticas no país”, disse.
Kopittke citou o tráfico de fuzis como exemplo de responsabilidade federal. O controle das fronteiras e o enfrentamento do comércio nacional e internacional de armas dependem de órgãos da União. Ele também defendeu o fortalecimento da Polícia Federal, a criação de uma estrutura nacional permanente para a segurança e investimentos nas polícias civis, responsáveis pelas investigações.
Na avaliação do especialista, a União poderia exercer papel semelhante ao que desempenha no Sistema Único de Saúde. Estados e municípios manteriam suas atribuições, enquanto o governo federal definiria diretrizes, financiaria programas e acompanharia indicadores.
Guaracy Mingardi concordou que crimes de alcance nacional exigem uma participação maior da Polícia Federal. Segundo ele, uma investigação estadual perde eficiência quando identifica pessoas ou atividades criminosas em outra unidade da Federação e precisa iniciar uma nova articulação institucional.
“Não é a Polícia Federal mandando nas outras polícias, mas coordenando essas investigações que ultrapassam fronteiras”, afirmou.
Para Mingardi, o policiamento das ruas deve continuar sob responsabilidade dos estados. A atuação da União seria ampliada principalmente nos casos que envolvem facções presentes em várias regiões, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e drogas, além da troca de informações entre os órgãos de inteligência.
“O policiamento do cotidiano fica por responsabilidade dos estados. Agora, a parte que envolve organizações que atuam em vários locais tem que ter um pouco mais de centralização do conhecimento e do controle”, explicou.
Recursos vinculados a resultados
Os debatedores também defenderam critérios mais claros para a distribuição dos recursos federais. O governo federal, por financiar parte das políticas estaduais de segurança, poderia estabelecer metas, acompanhar resultados e incentivar investimentos em investigação e inteligência.
Mingardi lembrou que as polícias civis costumam receber menos atenção política porque seu trabalho tem menor visibilidade do que o policiamento ostensivo. Kopittke acrescentou que o combate ao crime organizado depende justamente de investigações de longo prazo, análise financeira e integração de dados.
A divergência apareceu mais no método do que no objetivo. Kopittke propôs uma articulação permanente entre a União e os 27 estados. Mingardi considera mais viável iniciar essa coordenação por regiões e ampliá-la gradualmente.
O debate mostrou que federalizar a segurança não significa necessariamente subordinar todas as polícias a Brasília. Pode significar criar uma estrutura nacional capaz de reunir informações, coordenar investigações e impedir que as divisas estaduais sirvam de proteção para organizações criminosas.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
A maior rede pública de ensino dos Estados Unidos decidiu restringir o uso da inteligência artificial nas escolas. Em Nova Iorque alunos da educação infantil ao oitavo ano não poderão usar essas ferramentas. No ensino médio, o acesso será limitado, com programas selecionados e supervisão dos professores.
A decisão alcança cerca de 600 mil estudantes e levanta uma pergunta para os pais aqui no Brasil: qual seria a sua reação se medida semelhante fosse adotada na escola do seu filho?
O Brasil já restringiu o uso de celulares nas escolas públicas e particulares. A regra procura reduzir distrações, melhorar a concentração e recuperar a convivência entre os estudantes. O aparelho pode ser utilizado em atividades pedagógicas autorizadas pelo professor e em situações específicas.
O celular, porém, é um objeto. Pode ser guardado na mochila. A inteligência artificial é mais difícil de trancar no armário.
Ela já está presente em mecanismos de busca, editores de texto, aplicativos de estudo, programas de tradução e plataformas educacionais. Proibir a IA por completo seria como tentar fechar uma porta enquanto a tecnologia entra pelas janelas, pelo telhado e, provavelmente, pela própria lousa digital.
Há motivos legítimos para preocupação. Um estudante pode pedir à máquina que escreva a redação, resolva o exercício ou resuma um livro que não leu. Se entregar à inteligência artificial todo o esforço de pensar, corre o risco de economizar justamente aquilo que deveria desenvolver.
Crianças menores também precisam de proteção. Elas ainda estão formando o vocabulário, aprendendo a organizar ideias, conviver com dúvidas, errar e tentar novamente. Nenhum aplicativo deve substituir esse processo nem ocupar o lugar dos professores e dos colegas.
A proibição absoluta, porém, pode ser um pouco demais?
A escola não tem apenas a tarefa de proteger os alunos da tecnologia. Precisa ensiná-los a conviver com ela. Isso inclui saber fazer perguntas, conferir informações, identificar erros, reconhecer preconceitos reproduzidos pelos sistemas e entender por que uma resposta convincente pode estar completamente errada.
Talvez a discussão não deva ser simplesmente entre liberar e proibir. A questão é definir com que idade, para qual finalidade, durante quanto tempo e sob a orientação de quem a inteligência artificial pode ser utilizada.
Pais e professores precisam participar dessa escolha.
Se uma proibição como a de Nova Iorque fosse proposta no Brasil, você seria favorável? Consideraria a medida uma proteção necessária ou entenderia que a escola estaria afastando os alunos de uma ferramenta que eles precisarão aprender a usar?
Proibir pode parecer uma resposta simples. Educar para o uso responsável dá mais trabalho. E talvez seja exatamente esse trabalho que não possa ser terceirizado para uma máquina.
Vitória 1×0 Grêmio Brasileiro — Barradão, Salvador (BA)
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Durante quatro dias, minhas redes sociais foram inundadas pelas imagens da vitória gremista no clássico pela Copa do Brasil. Eram os gols de Carlos Vinícius, os desarmes de Kannemann e as molecagens de Amuzu, driblando e cruzando de cara virada. Havia torcedores dançando valsa nas arquibancadas e jogadores exibindo alegria no vestiário.
O algoritmo agia a meu favor. Enchia de dopamina a mente do torcedor e me fazia acreditar que a história começava a ser reescrita nesta temporada. Depois da classificação para a semifinal da Copa do Brasil, viria a redenção no Brasileiro. Abrir o celular era motivo de satisfação — e retenção.
Assim foi durante o fim de semana e boa parte deste feriado de 7 de setembro. Ao menos até a bola começar a rolar na penumbra do Barradão, em Salvador.
A luz que atingiu nosso goleiro antes mesmo do apito inicial, derrubando-o no gramado, parecia um prenúncio: o brilho tricolor exibido nas redes sociais estava prestes a dar lugar à escuridão.
No primeiro tempo, mesmo oferecendo espaços para o adversário, o Grêmio se portou bem quando avançava. O meio de campo trocava passes, e as bolas esticadas encontravam seu destino. Faltava transformá-las em chutes a gol — detalhe que, no futebol, costuma separar intenção de perigo, expectativa de realidade.
Ainda havia em campo uma sombra do time que nos havia alegrado na quinta-feira. Era apenas sombra.
No segundo tempo, a realidade ficou escancarada. Mal atacávamos e nos defendíamos como era possível. O futebol mediano praticado pelas duas equipes não fluía. Em uma partida mergulhada na falta de criatividade, foi premiado quem demonstrou algum ímpeto para avançar.
O Grêmio segue sem vencer fora de casa no Brasileiro, uma competição de pontos corridos que já chegou à 25ª partida. A situação só não custa mais caro porque a concorrência também tropeça. Há uma multidão tentando fugir do escuro, e ninguém parece saber exatamente onde fica o interruptor.
A classificação na Copa do Brasil permanece. A vitória no Gre-Nal também. Não foram invenções do algoritmo. O problema é que aquelas imagens mostravam apenas a parte iluminada de um time que ainda convive demais com as próprias sombras.
Agora, por favor, deixem-me voltar à ilusão das redes sociais.
“É deixar a culpa e deixar a vergonha de lado. E colocar esse assunto em discussão na sociedade porque é muito importante.”
Durante 19 anos, Irene Vucovix acompanhou à distância a vida do filho, Marcelo, depois de decidir interromper uma convivência marcada pela dependência química, pela violência e pelo medo. Ela só voltaria a vê-lo quando ele morreu, aos 39 anos, vítima de uma overdose. Jornalista e escritora, Irene contou como enfrentou a culpa, o silêncio e um luto iniciado muito antes da morte — assunto de sua entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
Marcelo começou a usar drogas por volta dos 12 anos e logo passou da maconha para o crack. Antes disso, alguns comportamentos já preocupavam a família. Ele era agressivo, envolvia-se em brigas e cometia pequenas transgressões, como tirar dinheiro da carteira do avô e levar objetos de casa.
Naquele momento, esses episódios eram vistos como problemas da infância. Anos depois, ao reler avaliações escolares guardadas, Irene percebeu que alguns comportamentos se repetiam.
A família procurou diferentes formas de tratamento. Houve psicólogos, psiquiatras, terapias, internações e clínicas de recuperação. Irene também buscava reportagens sobre dependência química e entrava em contato com famílias que diziam ter encontrado um caminho.
“Eu tentei de tudo que me diziam que podia funcionar, eu tentei”, afirmou.
Cada internação alimentava a expectativa de mudança. Marcelo recuperava o peso, aparentava estar saudável e deixava a família novamente confiante. A recuperação, porém, não se sustentava. Ele abandonava os tratamentos, fugia das clínicas e voltava a usar drogas.
“Todas as vezes você tem essa impressão”, contou Irene, ao recordar o pensamento que se repetia nesses períodos: “Gente, agora, ele tá muito bem.”
Quando o amor convive com o medo
Com o agravamento da dependência, Irene passou a temer o próprio filho. Marcelo tinha 1,93 metro, praticava luta e se tornava agressivo quando era contrariado. Aos 16 ou 17 anos, ela dormia com a porta do quarto trancada e uma cadeira segurando a maçaneta.
Em um dos episódios relatados, o filho apareceu em casa com um pé de maconha e anunciou que faria uma pequena plantação no apartamento. Irene recusou e jogou a planta fora. Quando voltou do trabalho, na véspera do Dia das Mães, encontrou a porta do quarto pichada com a frase: “Que você tenha um péssimo Dia das Mães”. Marcelo também levou a televisão, o videocassete e outros objetos.
A dependência passou a se misturar com prisões, dívidas com traficantes, roubos e falsidade ideológica. Irene pagava terapeutas, advogados e, algumas vezes, traficantes, por temer que o filho fosse morto.
Aos 20 anos, Marcelo recebeu uma avaliação que destruiu parte das esperanças da mãe. Depois de analisar os exames, um profissional disse que ele dificilmente chegaria à vida adulta. Para que o rapaz tivesse alguma possibilidade de assumir as consequências das próprias escolhas, Irene teria de estabelecer limites.
A orientação foi resumida em uma imagem: ela precisaria “virar uma parede”. Dizer não, suportar as tentativas de manipulação e deixar de resolver os problemas criados pelo filho.
“Era para virar uma parede. Então vou virar uma parede”, recordou.
Irene se afastou radicalmente. Não atendia aos telefonemas, não entregava dinheiro e não pagava mais as dívidas. Marcelo tinha 20 anos. Ela só o veria novamente depois de sua morte, aos 39.
“Eu brinco que tinha um não na minha testa”, afirmou.
O afastamento não rompeu o vínculo
A distância física não significou indiferença. A irmã de Irene passou a manter contato com Marcelo e levava notícias à família. Algumas vezes, dizia que ele estava trabalhando, namorando e vivendo no interior de São Paulo. Pouco tempo depois, chegava a informação de que havia sido preso novamente.
A esperança mudava de tamanho. Irene já não esperava que o filho cursasse uma faculdade ou seguisse o futuro imaginado durante a infância. Desejava apenas que ele conseguisse trabalhar, respeitar os outros e levar uma vida que definiu como “minimamente digna”.
Mesmo afastada, procurava saber se ele estava seguro. Quando Marcelo foi preso por envolvimento com uma caminhonete roubada, Irene decidiu não contratar um advogado para tirá-lo da cadeia. Diante da notícia de que ele poderia correr risco de vida, pediu a um jornalista que visitasse o presídio e verificasse a situação.
A contradição foi resumida por ela em uma frase: “Eu larguei, mas não larguei.”
O afastamento também veio acompanhado de culpa e tristeza. Irene escondia a situação dos amigos. Quando perguntavam pelo filho, respondia que ele estava bem e morava no interior. Dentro da família, a dependência química tornou-se um assunto difícil de pronunciar.
“Virou um tabu esse assunto. Um negócio louco, é um silêncio. Ainda hoje, com o livro publicado, a gente tem dificuldade de falar”, disse.
Segundo Irene, a vergonha era mais intensa no início. Com o agravamento dos problemas, ela se sentiu cada vez mais fragilizada e vulnerável. A experiência permaneceu guardada durante anos, mesmo depois da morte do filho, em dezembro de 2017.
Da oficina literária ao livro
A escrita surgiu dois anos depois. Irene participava de uma oficina literária quando leu o conto “Onze filhos”, de Franz Kafka. No dia seguinte, escreveu cerca de 30 linhas sobre a infância de Marcelo. Deu ao texto o título “Um filho” e encerrou a narrativa informando que ele havia morrido por overdose.
O professor considerou o texto apenas um embrião. Irene decidiu, então, contar a história da relação com o filho. O processo exigiu que revisitasse escolhas, medos e lembranças.
“Eu tava meio como espectadora de mim mesma. Tava me escrevendo”, explicou.
A experiência deu origem ao livro O filho perdido. O título foi sugerido pelo editor. Irene resistiu porque considerava a expressão dura. Com o tempo, reconheceu que as palavras sintetizavam sua história: “Eu perdi meu filho.”
Entre as poucas lembranças materiais de Marcelo, ela conserva desenhos, avaliações escolares, fotografias e a cópia da mão do menino feita em uma máquina de xerox na redação do jornal em que trabalhava. Irene costumava levá-lo ao trabalho durante os plantões de sábado.
A escrita não alterou o desfecho, mas mudou a relação da autora com o passado.
“Hoje eu me sinto assim, me sinto em paz”, afirmou. “Eu acho que eu fiz o que foi possível. Não sei se eu fiz o certo, eu não me cobro mais.”
A esperança depois da perda
Durante os anos de afastamento, cada aniversário de Marcelo representava uma vitória contra a previsão de que ele não chegaria à vida adulta. Mesmo de longe, Irene comemorava: “Mais um ano, ele tá vivo.”
A morte interrompeu essa contagem e deixou uma sensação de vazio. Questionada sobre o significado atual da esperança, respondeu: “Eu acho que ela muda de forma. Porque até para a gente sobreviver, você precisa acreditar em alguma coisa.”
A publicação do livro abriu outra possibilidade. Irene passou a receber mensagens de mães, filhas e irmãos que convivem com a dependência química dentro da família. Muitas procuram conforto e relatam histórias semelhantes, marcadas pelo isolamento, pelo medo e pela culpa.
Ela procura responder, embora deixe claro que não oferece um caminho pronto.
“Eu não tenho nenhuma receita”, afirmou. “O que eu fiz foi porque eu acreditei. Foi o que eu pude fazer e eu acreditei que podia dar certo.”
Para Irene, o silêncio torna a experiência ainda mais pesada. A vergonha isola a família e mantém o sofrimento escondido dentro de casa. Ao contar a própria história, ela espera ajudar outras pessoas a perceber que não estão sozinhas.
“Tem muita gente sofrendo com isso. Não é justo”, disse. “Queria que essas mães sentissem aqui um pouquinho de alento com o meu livro, um mínimo de conforto talvez.”
A decisão de compra não começa quando o consumidor entra na loja, acessa um site ou coloca um produto no carrinho. Entender tudo o que acontece antes desse momento — desejos, hábitos, dúvidas, experiências e interpretações — foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN.
No branding, esse caminho é conhecido como jornada do consumidor. A ideia é acompanhar as diferentes etapas pelas quais uma pessoa passa até escolher uma marca, comprar, usar e avaliar determinado produto ou serviço. Para Jaime, compreender esse percurso significa abandonar a perspectiva de quem está dentro da empresa e tentar enxergar a realidade com os olhos de quem está do outro lado.
“A jornada dos consumidores começa muito antes do ato da compra”, afirmou.
Um exemplo contado por Jaime mostra por que essa observação pode revelar aspectos que pesquisas e dados dificilmente explicam sozinhos. Durante um estudo sobre cachaça em Salvador, ele conversou com um homem que dizia beber porque, caso contrário, o médico poderia descobrir que ele tinha “pouco álcool” e receitar pílulas. A explicação não fazia sentido do ponto de vista médico, mas fazia sentido dentro da narrativa construída por aquele consumidor.
Outro episódio ocorreu em uma pesquisa na qual Cecília perguntou a uma consumidora se determinado produto era sustentável. A mulher pegou a embalagem, colocou-a em pé e respondeu que sim: era sustentável porque parava em pé e não caía.
As duas histórias mostram um desafio para as marcas: o significado pretendido por quem comunica nem sempre é o significado compreendido por quem recebe a mensagem.
“A primeira coisa que a gente aprende nessa profissão, se você quiser que sua marca seja de fato um sucesso, é entender o ponto de vista do outro”, disse Jaime.
Tecnologia ajuda, observação também
Dados e inteligência artificial ampliaram muito a capacidade das empresas de conhecer comportamentos. Ainda assim, Cecília chama atenção para aquilo que números e telas não necessariamente revelam: observar as pessoas em seu ambiente e conversar com elas.
Esse trabalho tem inspiração na etnografia, método tradicionalmente utilizado pela antropologia para compreender comportamentos, hábitos e relações a partir da observação das pessoas em seu contexto. Aplicada ao branding, essa abordagem permite acompanhar desde a pesquisa inicial por um produto até a decisão de compra e seu uso.
“Uma das coisas mais importantes para a gente saber o que passa na mente e no coração das pessoas é estar junto, é ouvir conversa”, afirmou Cecília.
É nesse ponto que aparece uma frase recorrente de Jaime: “Noiva não se escolhe no altar.” A metáfora ajuda a explicar a jornada. Quando a compra acontece, boa parte da história já foi escrita. Houve experiências anteriores, referências, expectativas e contatos com outras marcas que influenciaram aquela escolha.
Para Cecília, portanto, o consumidor não pode ser analisado apenas como alguém que aparece diante do caixa ou na tela do comércio eletrônico. “Entender a jornada dos consumidores é recuperar a totalidade desses sentimentos e preocupações a respeito das necessidades físicas, sociais e emocionais”, explicou.
A marca do Sua Marca
A principal marca do comentário é simples: uma compra é o ponto visível de uma história muito mais longa. Dados mostram o que as pessoas fizeram; observar e conversar ajuda a compreender por que fizeram. A marca escolhida no fim dessa jornada não chega à vida do consumidor por acaso. Como resumiu Jaime, ela é parte de “uma longa conversa, de uma longa jornada”. Para as empresas, conhecer essa história pode ser tão importante quanto conhecer o número que aparece no caixa.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.
Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.
Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.
Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.
A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.
Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.
Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:
— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.
No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.
Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.
Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.
No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.
A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.
Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.
Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.
E teve uma despedida que ficou na memória.
Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.
Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.
Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.
Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.
A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Rubens Batista Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Melhorar os serviços públicos não exige necessariamente o fim da estabilidade, mas cobra mudanças na maneira como o Estado seleciona, avalia e administra seus profissionais. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Tatiana Ribeiro, diretora-executiva do Movimento Brasil Competitivo, e Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores.
O debate partiu de uma questão central: para modernizar a administração pública, o país deve flexibilizar a estabilidade e ampliar a cobrança por resultados ou preservar as atuais proteções oferecidas aos servidores?
Embora representassem posições diferentes, os dois convidados concordaram em um ponto: a estabilidade não deve ser simplesmente eliminada. A divergência apareceu na definição dos mecanismos de avaliação, nas possibilidades de desligamento e nas formas de contratação.
Ricardo Patah afirmou que a estabilidade protege os servidores das mudanças provocadas pela alternância de poder. Sem essa garantia, argumentou, cada eleição poderia resultar na substituição de profissionais por razões políticas.
“Não se pode abrir mão da estabilidade”, disse. Para ele, isso não significa conservar a administração pública sem alterações. Patah defendeu uma gestão mais transparente, maior uso da tecnologia e medidas contra os supersalários, sobretudo no Judiciário.
O presidente da UGT também reconheceu que alguns municípios destinam uma parcela elevada de suas receitas ao pagamento de pessoal. Segundo ele, o desequilíbrio precisa ser enfrentado para que sobrem recursos para investimentos em saúde, educação e outras áreas.
Tatiana Ribeiro também considerou a estabilidade importante para assegurar a continuidade das políticas públicas, especialmente diante da polarização política. Sua defesa, porém, está condicionada à criação de um sistema estruturado de avaliação.
“Eu não posso ter o mesmo tratamento para um servidor que tem entregas excelentes e para um servidor que não entrega”, afirmou.
Na proposta apresentada por Tatiana, os servidores teriam metas claras e avaliações baseadas em critérios objetivos. Aqueles com desempenho insuficiente receberiam oportunidades de aperfeiçoamento. Se os resultados ruins se repetissem, poderia haver desligamento, mesmo nos casos em que o profissional tivesse estabilidade.
A avaliação de desempenho, nesse modelo, não deveria se limitar à cobrança. Também serviria para reconhecer quem trabalha bem, identificar dificuldades e colocar profissionais com as qualificações adequadas nas funções em que são mais necessários.
Contratos temporários e risco de precarização
Tatiana defendeu ainda a discussão de formas mais flexíveis de contratação. Citou os contratos temporários usados por estados e municípios, especialmente na educação, quando é necessário contratar professores com rapidez.
Ela ponderou que o país precisa de uma regulamentação nacional para essas contratações. Atualmente, estados e municípios adotam regras próprias, o que pode produzir insegurança jurídica e tratamentos desiguais.
A flexibilidade, contudo, preocupa sindicatos por poder abrir espaço para vínculos mais frágeis, redução de direitos e interferência política. Patah propôs que as mudanças sejam acompanhadas pela regulamentação da Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho, que trata da negociação coletiva no serviço público.
Para o sindicalista, a participação das entidades representativas permitiria que governo e servidores negociassem condições de trabalho antes que os conflitos resultassem em paralisações.
O serviço público acontece nos municípios
Outro ponto de convergência foi a necessidade de olhar além do governo federal. Tatiana ressaltou que cerca de 90% da força de trabalho do setor público está nos estados e municípios, onde são prestados os serviços que chegam diretamente à população.
Municípios pequenos, porém, costumam ter menos estrutura técnica para planejar, contratar e avaliar. Por isso, ela defendeu que o governo federal ofereça apoio institucional às administrações locais.
O debate mostrou que a reforma administrativa não se resume a decidir se o servidor deve ou não ter estabilidade. A discussão inclui critérios de avaliação, qualificação profissional, controle de gastos, combate a privilégios, negociação coletiva e proteção contra perseguições políticas. O desafio é mudar o Estado sem enfraquecer justamente quem entrega os serviços públicos à população.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.