“Para quem você cria valor, não necessariamente é com quem você deveria monetizar.”
Só cerca de 15% das prescrições médicas no Brasil são digitais, enquanto a maior parte do sistema de saúde ainda opera em um modelo fragmentado, no qual médicos, farmácias, laboratórios, hospitais e planos de saúde trocam pouca informação entre si. Foi a partir desse diagnóstico que a Memed estruturou seu negócio e buscou crescer conectando atores que, em geral, trabalham de forma isolada. O assunto foi tema de entrevista com Rodolfo Chung, CEO da Memed, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
Chung descreveu um setor em que há muitos participantes, mas pouca integração. “É impressionante como são tantos atores na saúde e parece que ninguém conversa com ninguém. Ninguém parece que coopera com ninguém. É tudo quebrado, tudo separado”, afirmou. Na visão dele, esse cenário abre espaço para modelos que unam diferentes agentes em torno de um mesmo processo. “Eu acho que tem uma oportunidade enorme nesse setor de saúde da gente unir mais cada um desses atores, são todos importantes, mas são todos isolados.”
A Memed nasceu nesse ponto de encontro. A plataforma, conhecida pela receita médica digital enviada ao paciente por SMS ou WhatsApp, precisa operar em contato com médicos, pacientes, farmácias, laboratórios, clínicas, hospitais, planos de saúde, órgãos reguladores e indústria farmacêutica. “A Memed ela é especial porque ela toca em vários, quase todos os atores da saúde”, disse Chung.
Um negócio que decidiu não cobrar de médico nem de paciente
Um dos pontos centrais da entrevista foi a lógica de negócio da empresa. Fundada por médicos da cidade de Avaré, no interior de São Paulo, há 15 anos, a Memed optou por ampliar a adoção de sua plataforma antes de buscar faturamento. Havia a convicção de que o negócio não deveria priorizar a cobrança do serviço nem dos médicos nem dos pacientes. Esse modelo foi mantido por anos. “A Memed durante muitos anos, ela passou sem faturamento, sem receita”, afirmou.
A mudança veio quando a empresa definiu quem financiaria a operação sem alterar a proposta original. E isso ocorre com a chegada de Rodolgo Chung ao comando da Memed. “Hoje ela já sabe como se manter e ela sempre vai ser de graça para o médico, para o paciente, para a farmácia. Ela nunca vai precisar cobrar do paciente nem do médico.”
Segundo Chung, quem sustenta esse modelo é a indústria farmacêutica, interessada em se comunicar com médicos que estão espalhados por todo o país — mais de 500 mil profissionais. Hoje, cerca de 150 mil utilizam a Memed todos os meses. Nesse contexto, a plataforma funciona como uma espécie de “Google da prescrição”: ao indicar um medicamento, o médico visualiza alternativas terapêuticas disponíveis no mercado. Parte dessas opções ganha maior visibilidade a partir de acordos com os fabricantes, em uma lógica que lembra os links patrocinados dos buscadores, aplicada ao ambiente médico.
A lógica por trás desse arranjo resume a visão de parceria defendida pelo executivo. “Você pode muito bem criar valor para um ator, para uma entidade e cobrar ou criar valor para uma outra. Não tem que ser linear dessa forma.” E completou: “A Memed é assim, por isso que ela pensa que ela cria valor para o médico, mas não necessariamente ela precisa cobrar do médico.”
Parceria no lugar da verticalização
O presidente da Memed argumentou que nem todo elo da cadeia precisa se transformar em fonte direta de receita. Em muitos casos, o ganho está na cooperação e na integração. “Na maioria das vezes é uma troca de integração, de parceria, eu faço o negócio dele ser melhor, ele faz o meu negócio ser melhor e não precisa ter uma troca monetária nisso.”
Essa ideia aparece, por exemplo, na relação com as farmácias. Embora a Memed tenha testado o varejo farmacêutico, decidiu não seguir por esse caminho. “A Memed escolheu não fazer o varejo farmacêutico, não entrar nesse setor de compra e venda de remédios”, afirmou. A avaliação da empresa foi direta: havia especialistas mais preparados para essa etapa do processo. “Eu não acho que a gente tem uma competência de fazer esse negócio melhor do que a própria farmácia.”
Em vez de concorrer, a opção foi cooperar. “A gente reconhecendo a fortaleza desse setor achou que era muito melhor ajudar a conectar, a integrar, a digitalizar do que concorrer com eles”, disse. É dessa escolha que nasce a defesa de um modelo mais horizontal. “Foca no que você faz bem feito e procura parceiros para as outras coisas. Dessa forma, você consegue fazer com que a jornada seja mais fluída.”
A digitalização ainda avança devagar
Mesmo após 15 anos de operação, a digitalização da prescrição médica ainda enfrenta resistência. Chung reconheceu que a mudança de hábito é lenta, especialmente entre profissionais mais experientes. “Os mais experientes usam menos e acho que é uma curva natural”, afirmou. Ainda assim, ele vê crescimento consistente: “Eu estimo que ela cresça 35% todo ano.”
Na avaliação do executivo, o digital já oferece vantagens objetivas em relação ao papel. Uma delas está na segurança. Ao tratar das receitas de medicamentos de controle especial, ele defendeu que o sistema eletrônico deveria ocupar posição central. “Digital é mais seguro. Digital você traqueia, você monitora as fraudes”, disse. E reforçou: “O digital deveria ser melhor.” A nova regulamentação da Anvisa pode acelerar essa transição. Provavelmente em abril, os remédios tarjas preta poderão ser prescritos também pelo sistema digital.
A prescrição digital também resolve situações práticas do dia a dia do paciente. Chung citou o caso de tratamentos longos, em que a pessoa não consegue comprar toda a medicação de uma vez. “No digital, não”, respondeu, ao explicar que o saldo remanescente da receita pode ser reutilizado eletronicamente. “Você pode reutilizar o saldo que sobrar.” Ou seja, se você recebeu uma receita para usar o remédio por três meses, obrigatoriamente você não precisar comprar três caixas do remédio de uma só vez. Poderá comprar mês a mês, sem necessitar de uma nova receita.
Inteligência artificial e o futuro da saúde
O impacto da inteligência artificial no setor também foi tema discutido com Rodolfo Chung. Para ele, a tecnologia deve ampliar a capacidade de médicos e pacientes, sem substituir a decisão humana. “A gente sempre vai achar que a IA é um superpoder para o médico, nunca para substituir o médico”, afirmou.
Ele vê a saúde como uma das áreas mais afetadas por essa transformação, seja na redução da burocracia, seja no apoio à decisão clínica, seja no acesso do paciente à informação. “O paciente vai se beneficiar muito com IA … o nível de informações, de engajamento, o empoderamento do paciente; isso vai ser muito importante.”
Ao relacionar essa visão ao modelo da Memed, Chung deixa claro que a empresa pretende seguir apostando na combinação entre tecnologia e cooperação. Numa área em que cada ator costuma cuidar apenas do seu pedaço, a estratégia é construir conexões duradouras. A receita, nesse caso, não sai apenas do consultório. Ela depende da capacidade de fazer setores diferentes trabalharem juntos.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.









