A segurança pública é o tema que mais preocupa os brasileiros. Além das mensagens que recebemos dos ouvintes e da sucessão de casos que noticiamos todos os dias, as pesquisas de opinião confirmam essa percepção de forma contundente. Por isso, a série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, dedica mais de um encontro ao assunto, abordando diferentes aspectos relacionados à segurança pública. Neste debate, o foco foi o uso de câmeras corporais por policiais. Participaram da conversa a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, e o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo José Vicente da Silva Filho, que discutiram os efeitos, os desafios e os critérios para a adoção desse recurso.
A primeira questão tratou do impacto das câmeras na atuação policial. Para Samira Bueno, o principal benefício não está apenas na redução de abusos, mas na produção de provas e na proteção jurídica dos próprios agentes. “O uso das câmeras é justamente para a gente ter uma política de segurança em que o policial possa fazer o combate ao crime, fazer a prisão de criminosos, mas que isso também dê segurança jurídica para ele continuar atuando”, afirmou. Segundo ela, experiências nacionais e internacionais mostram que o equipamento fortalece a transparência da atividade policial e amplia a confiança no trabalho realizado.
José Vicente da Silva Filho concordou que o sistema representa um avanço para a atividade policial e atribuiu a maior resistência ao equipamento a uma cultura que ainda rejeita mecanismos de controle. “A resistência é da velha polícia, que acha que o policial tem que fazer tudo que bem entenda nas periferias da vida sem nenhum controle”, disse. Para ele, a gravação das ocorrências complementa a supervisão exercida pelos comandantes e ajuda a verificar se os procedimentos operacionais foram corretamente cumpridos.
Na segunda rodada de perguntas, os debatedores discutiram como um programa de câmeras corporais deve funcionar. Um dos principais pontos foi a gravação contínua, iniciada desde o começo do turno de trabalho. Samira defendeu que esse modelo preserva a integridade das imagens, facilita a produção de provas e permite o compartilhamento do material com instituições como Ministério Público, Defensoria Pública e Judiciário. Ela também destacou estudos que associam a adoção das câmeras à redução da letalidade policial, da vitimização dos próprios policiais e de casos de corrupção.
José Vicente reforçou a defesa da gravação contínua por impedir que o policial escolha quando registrar uma ocorrência. Explicou que o sistema desenvolvido pela Polícia Militar de São Paulo estabelece regras para armazenamento, auditoria e controle de acesso às imagens, preservando sua autenticidade. Acrescentou ainda que a incorporação de recursos de inteligência artificial tende a ampliar a capacidade de análise desse enorme volume de dados e contribuir para aperfeiçoar a relação entre polícia e população. “A sensação de maior ou menor segurança está muito vinculada à confiança que se tem na polícia”, observou.
Embora tenham partido de perspectivas diferentes, os dois especialistas convergiram em aspectos relevantes. Ambos defenderam que as câmeras não impedem a ação policial nem reduzem a capacidade de combate ao crime. Também concordaram que a tecnologia pode aumentar a transparência, fortalecer a produção de provas e oferecer mais segurança para policiais e cidadãos, desde que seja adotada com regras claras e fiscalização permanente. O principal ponto de divergência concentrou-se na avaliação dos modelos atualmente implementados e na necessidade de preservar a gravação contínua como padrão.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.
Jeane Tsutsui em entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O olhar humano ainda é e será fundamental para a saúde do Brasil.”
O Grupo Fleury completa cem anos com mais de 570 unidades em 14 estados, atendimento a laboratórios de 2.200 cidades e o processamento de 368 milhões de exames por ano. A empresa, fundada em 1926 como um pequeno laboratório no centro de São Paulo, ampliou sua atuação para acompanhar diferentes etapas do cuidado com a saúde, da prevenção aos tratamentos ambulatoriais, sem abandonar a medicina diagnóstica. A transformação de uma empresa centenária diante do avanço tecnológico, do envelhecimento da população e das mudanças no comportamento dos pacientes foi tema da entrevista de Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
A executiva afirma que a expansão dos serviços está ligada à própria trajetória da empresa e à escuta dos pacientes e dos médicos. Além dos exames laboratoriais e de imagem, o grupo passou a oferecer vacinação, check-ups, consultas, tratamentos ambulatoriais, telemedicina e atendimento domiciliar.
“Lembrando que o Grupo Fleury começou em 1926 como um pequeno laboratório no centro de São Paulo, ao longo do tempo se reinventou e hoje nós somos uma empresa que olha para a jornada de cuidado da saúde”, disse.
Segundo Jeane Tsutsui, o objetivo é acompanhar as pessoas durante mais tempo e contribuir para que o aumento da expectativa de vida venha acompanhado de autonomia e qualidade.
“Nós queremos estar presentes na vida das pessoas, cuidando para que elas tenham uma longevidade saudável.”
A mudança também responde a uma transformação na relação dos brasileiros com a própria saúde. Os pacientes passaram a buscar mais informações, serviços integrados, conveniência e formas de prevenção. Essa movimentação levou o Fleury a desenvolver, ainda na década de 1980, o modelo de centros diagnósticos, reunindo exames laboratoriais e de imagem no mesmo local.
Em 1998, segundo a CEO, o grupo tornou-se a primeira empresa do mundo a enviar resultados de exames pela internet. Durante a pandemia de Covid-19, o atendimento domiciliar ganhou impulso.
“Isso veio de ouvir muito o cliente ao longo de toda a nossa trajetória”, afirmou. “Esta cultura de foco no cliente, para atender as suas necessidades, e também uma cultura baseada em excelência e acolhimento, que é traduzido como ciência e confiança, fez parte dessa trajetória e certamente isso nos levará para o futuro.”
Inovar sem transformar a empresa em um museu
Empresas centenárias enfrentam um equilíbrio delicado. Precisam se adaptar às mudanças sem abandonar os valores que sustentaram sua trajetória. Para Jeane Tsutsui, o foco no cliente funciona como uma referência para orientar essa transformação.
“Ter foco no cliente não é só olhar para a experiência, para o acolhimento, para indicadores de experiência como Net Promoter Score. Foco no cliente é se adaptar e mudar para poder atender esta demanda.”
O Net Promoter Score, conhecido pela sigla NPS, é um indicador usado pelas empresas para medir a disposição dos consumidores em recomendar uma marca, produto ou serviço.
A adaptação, segundo a executiva, envolve acompanhar as alterações no comportamento dos pacientes, os avanços tecnológicos e a velocidade com que o conhecimento médico se desenvolve.
“Foco no cliente é incorporar tecnologia, mas também com muita responsabilidade para atender a necessidade do médico e do cliente. Foco no cliente é se adaptar para todo esse avanço do conhecimento que a medicina vem trazendo para a gente oferecer isso para o paciente, para o médico como a melhor solução e sustentável para o sistema.”
O crescimento do Grupo Fleury ocorreu tanto pela expansão das operações próprias quanto pela compra de outras empresas. Desde 2002, foram realizadas 49 aquisições.
A integração desses negócios exige atenção às diferenças culturais. Jeane Tsutsui explica que, antes de uma aquisição, a empresa avalia não apenas os aspectos estratégicos e financeiros, mas também a convergência de valores.
“A gente costuma dizer que as empresas têm culturas diferentes, porque cada cultura é própria de uma determinada empresa ou organização. Mas, quando avaliamos uma aquisição, o aspecto cultural é muito importante.”
Entre os pontos observados estão a relação com o cliente, a qualidade dos serviços e a reputação da organização adquirida.
“Quando existe essa convergência, nós conseguimos fazer uma integração adequada.”
Longevidade exige mudança de hábitos
A expectativa de vida do brasileiro passou de cerca de 34 anos, em 1926, para aproximadamente 76 anos atualmente, segundo os dados citados por Jeane Tsutsui na entrevista. A tendência é que continue aumentando nas próximas décadas.
A mudança demográfica levou o Grupo Fleury a criar um centro dedicado à longevidade saudável. Instalado na unidade Marco 100, na Avenida Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, o serviço Life Care é voltado para pessoas com mais de 35 anos.
A proposta é trabalhar fatores que influenciam diretamente a saúde ao longo da vida, como sono, alimentação, exercício físico, movimento, controle do estresse, saúde sexual, menopausa e vínculos sociais.
“Todos esses pilares pautados na ciência estão voltados para mudança de hábito, para que as pessoas realmente tenham mais qualidade de vida, para que as pessoas consigam maior autonomia a partir do momento que você avança com relação à longevidade.”
A CEO ressalta que realizar exames não é suficiente. Os resultados precisam retornar ao médico, orientar decisões e, quando necessário, provocar mudanças concretas no cotidiano do paciente.
A vacinação também aparece como um dos elementos da prevenção. Jeane Tsutsui destacou a importância de adultos manterem as vacinas em dia e lembrou que algumas delas, como a vacina contra o HPV, ajudam a prevenir determinados tipos de câncer.
Ao mesmo tempo, o incentivo à prevenção não deve estimular o excesso de exames. Segundo a executiva, é necessário seguir as evidências científicas e avaliar se cada procedimento terá utilidade na tomada de decisão médica.
“O que nós queremos é fazer o exame correto para o paciente correto e no momento adequado.”
Essa preocupação também tem impacto econômico. O Brasil destina aproximadamente 9,5% do Produto Interno Bruto aos serviços de saúde, considerando os sistemas público e privado, conforme o dado apresentado na entrevista.
“Temos que utilizar adequadamente esses recursos”, afirmou.
Inteligência artificial reduz tempo de exames
O Grupo Fleury já utiliza mais de 50 aplicações de inteligência artificial em diferentes áreas. A tecnologia está presente tanto nos exames quanto nos processos administrativos e logísticos.
Em equipamentos de ressonância magnética, a inteligência artificial permite reduzir em até 50% o tempo necessário para a captura das imagens. A diminuição representa ganho de produtividade e reduz o período em que o paciente precisa permanecer dentro do equipamento.
“Isso traz um benefício em termos de eficiência, mas uma melhor experiência para o cliente.”
No atendimento domiciliar, a tecnologia ajuda a organizar os trajetos das equipes. De acordo com Jeane Tsutsui, o uso da ferramenta aumentou em 15% a disponibilidade de horários, elevou em 32% a produtividade dos profissionais responsáveis pelas coletas e produziu crescimento de 4% na satisfação dos clientes.
A inteligência artificial também é usada na análise inicial de exames de tomografia. O sistema pode identificar sinais de situações graves, como hemorragia cerebral e tromboembolismo pulmonar, e alertar o médico para que a avaliação seja priorizada.
“É o uso da inteligência artificial como um sinal de alerta. Ela não substitui o laudo médico, é um médico que vai fazer a leitura, mas ela consegue já fazer uma detecção muito rápida e avisar o médico que aquele exame precisa ser priorizado.”
A aplicação da tecnologia em saúde exige cuidados adicionais, especialmente porque envolve informações sensíveis dos pacientes. A CEO destacou a necessidade de estruturar bancos de dados adequados e cumprir as regras da Lei Geral de Proteção de Dados.
“Obviamente, nós acompanhamos todo esse avanço da tecnologia, mas com muito cuidado, uma vez que você tem informações sensíveis que devem ser usadas adequadamente.”
Dados e medicina personalizada
Cardiologista e pesquisadora, Jeane Tsutsui afirma que sua formação médica contribuiu para a gestão ao reforçar a conexão com o cuidado, a necessidade de uma visão ampla do sistema de saúde e a importância das decisões baseadas em dados.
“Nas nossas atitudes do ponto de vista de tomada de decisão, nós precisamos resolver o problema pontualmente, mas sempre com o olhar sistêmico.”
A análise de informações clínicas pode ajudar a identificar grupos de maior risco, orientar medidas preventivas e aumentar a sustentabilidade do sistema. Áreas como genômica, proteômica e metabolômica tendem a ampliar a capacidade de personalizar diagnósticos e tratamentos.
A genômica estuda o conjunto do material genético de uma pessoa. A proteômica analisa as proteínas produzidas pelo organismo. A metabolômica observa pequenas moléculas geradas pelos processos metabólicos. Reunidas, essas áreas ajudam a compreender diferenças individuais e podem orientar uma medicina mais precisa.
“Nós temos a oportunidade de fazer uma medicina cada vez mais precisa e personalizada. O uso de dados também será cada vez mais presente na área de saúde.”
Comunicação e equipes complementares
Na gestão, Jeane Tsutsui aponta três elementos centrais: equipes com conhecimentos complementares, clareza de direcionamento e conexão com o propósito da organização.
“O CEO não precisa resolver tudo. O time de alta performance é muito importante.”
A diversidade de experiências e pontos de vista, segundo ela, ajuda a tomar decisões em ambientes marcados por incertezas. A comunicação também precisa ser adaptada aos diferentes públicos de uma companhia, como colaboradores, médicos, investidores, pacientes e sociedade.
“Essa comunicação com clareza também é muito importante numa empresa que tem uma atuação nacional.”
O Grupo Fleury tem 79,5% de mulheres no quadro geral de profissionais e 70% de mulheres nas posições de liderança. A empresa também trabalha com diversidade étnico-racial, etária, LGBT e de formas de pensamento.
“Essa diversidade acaba sendo um fator competitivo importante. Nós estamos em diferentes regiões do Brasil, com diferentes culturas.”
Ao projetar os próximos cem anos, Jeane Tsutsui afirma que a empresa pretende acompanhar os avanços da medicina, incorporar tecnologias com responsabilidade e manter a confiança de pacientes, médicos, colaboradores e investidores.
“A confiança que nós temos de que o olhar de fazer o correto, de fazer com excelência, mas principalmente com olhar humano, é o que vai nos direcionar para os próximos 100 anos.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
A forma como o Banco Central exerce suas funções interfere diretamente na inflação, nos juros, no crédito e na estabilidade da economia brasileira. A discussão sobre ampliar sua autonomia, portanto, vai muito além de um tema técnico e afeta o cotidiano de toda a população. O preço dos produtos no supermercado é impactado por decisões tomadas na instituição, o custo do empréstimo que o empreendedor toma para ampliar o seu negócio, também. E jamais vamos esquecer que o Banco Central foi responsável pela criação, funcionamento e manutenção do PIX.
O assunto foi debatido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, que reuniu o professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, e o economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.
Desde 2021, a legislação brasileira garante mandatos fixos para a diretoria do Banco Central. Atualmente, o Congresso discute uma nova etapa desse processo: conceder também autonomia administrativa e financeira à instituição. A proposta reacende um debate sobre até que ponto o Banco Central deve atuar com maior distância das decisões do governo.
Para Belluzzo, a discussão não pode ser reduzida a uma oposição entre autonomia e interferência política. Segundo ele, política monetária e política fiscal são instrumentos que precisam atuar de forma coordenada. “São duas formas de gestão da economia e da riqueza que são interdependentes”, afirmou. Na avaliação do economista, a estabilidade depende dessa coordenação, especialmente em momentos de crise, quando bancos centrais precisam dispor de instrumentos para preservar o funcionamento da economia.
O professor também chamou atenção para a influência do cenário internacional. Em sua análise, um país com economia aberta sofre os efeitos dos fluxos globais de capitais e das diferenças entre taxas de juros, o que limita a capacidade de atuação de qualquer banco central. Por isso, defendeu que a autonomia da instituição deve ser analisada dentro desse contexto mais amplo.
Armínio Fraga concordou que política monetária e política fiscal precisam caminhar juntas, mas sustentou que a autonomia operacional do Banco Central é um mecanismo importante para proteger a economia dos efeitos da inflação e das pressões políticas de curto prazo. “A ideia de independência é uma concessão que se faz por lei para que o Banco Central administre a política monetária pensando no bem-estar da população”, afirmou.
Ao avaliar os resultados da legislação em vigor desde 2021, Fraga considerou que o modelo trouxe benefícios. Segundo ele, o Brasil enfrentou diferentes crises nesse período e conseguiu atravessá-las com menos impactos do que em momentos anteriores. Também destacou que a autonomia não significa ausência de controle. “Não é uma independência para o Banco Central fazer o que der na telha. É para ele cumprir a determinação que é feita por um governo eleito”, disse.
Embora tenham chegado a conclusões diferentes sobre a ampliação da autonomia da instituição, os dois economistas convergiram em um ponto: a política monetária não pode ser analisada isoladamente. O funcionamento do Banco Central depende da relação com a política fiscal, das condições econômicas do país e do ambiente financeiro internacional.
A intenção deste debate foi mostrar que a discussão sobre a autonomia do Banco Central não pertence apenas aos economistas. Ela ajuda a compreender como decisões tomadas pela autoridade monetária influenciam a inflação, o custo do crédito, a atividade econômica e a renda das famílias. Ao reunir visões distintas sobre o mesmo tema, o debate oferece elementos para que cada cidadão construa sua própria avaliação.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
O sentimento de aceitação funciona como um fertilizante que se mistura à irrigação dos demais sentimentos. E não importa se são considerados prazerosos ou não, como o amor e o carinho ou o ódio e a inveja. Sentir aceitação é necessário para um sentimento poder germinar e se desenvolver, caso contrário, nenhum deles encontraria terreno emocional fértil para crescer.
Assim, quando um sentimento permanece ecoando na gente, sempre é interessante pensar qual o sentimento que está sendo irrigado com o de aceitação. Até porque, dependendo dos sentimentos que estiverem investidos com aceitação, seja em dupla, trio, etc., essa reflexão poderá servir de grande ajuda tanto na amplificação daqueles que estão nos dando bons frutos, quanto na transformação daqueles que estão nos dando maus frutos.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
A redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate público e expõe uma questão que vai além da legislação: como equilibrar qualidade de vida, competitividade das empresas e crescimento econômico. O tema abriu a série 50 Debates para o Brasil, promovida pelo Jornal da CBN, que reúne especialistas com visões diferentes sobre assuntos que devem ocupar espaço na campanha eleitoral.
O primeiro encontro discutiu a proposta de extinguir a escala 6×1, modelo em que o trabalhador descansa um dia após seis dias consecutivos de trabalho. Participaram do debate o professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Cesit, José Dari Krein, favorável à mudança, e Alexandre Furlan, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que defendeu a manutenção da legislação atual, com ajustes negociados entre trabalhadores e empregadores.
Para José Dari Krein, a redução da jornada responde a uma transformação necessária nas relações de trabalho. Segundo ele, embora o desemprego tenha diminuído, muitos trabalhadores continuam enfrentando baixos salários, jornadas extensas e dificuldade para planejar o futuro. “Não basta só gerar empregos, é preciso gerar empregos que permitam às pessoas viver, preservar a saúde, qualificar-se e contribuir para a construção de um futuro diferente para o nosso país”, afirmou.
O pesquisador destacou que a medida teria impacto especialmente sobre trabalhadores de menor renda, jovens, mulheres e população negra, além de contribuir para enfrentar o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais. Na avaliação dele, reduzir o tempo de trabalho é também uma forma de diminuir desigualdades e ampliar as oportunidades de estudo, convivência familiar e descanso.
Alexandre Furlan concordou que a discussão sobre melhores condições de trabalho é legítima, mas argumentou que uma mudança constitucional pode produzir efeitos negativos se não for precedida por estudos técnicos mais amplos. “O objetivo da discussão é legítimo. O que ocorre é que os efeitos dessas medidas precisam ser avaliados com base em evidências e em análise técnica”, disse.
Ao responder sobre produtividade, ponto central do debate, Krein lembrou que a redução da jornada de 48 para 44 horas semanais, prevista na Constituição de 1988, não provocou os problemas econômicos que muitos previam na época. Para ele, há espaço para uma nova redução e as empresas tendem a adaptar seus processos. O professor também defendeu que produtividade não deve ser medida apenas pela produção gerada, mas também pela remuneração e pelas condições oferecidas aos trabalhadores.
Furlan apresentou uma avaliação diferente. Segundo ele, o Brasil ocupa uma posição baixa nos rankings internacionais de produtividade e reduzir a jornada antes de aumentar a eficiência pode elevar custos, pressionar preços e estimular a informalidade. “Produtividade precisa ser aumentada. A redução sustentável da jornada deve ser consequência do aumento da produtividade e não um ponto de partida para isso”, afirmou.
O representante da CNI também ressaltou que diferentes setores enfrentam realidades distintas. Citou exemplos como siderúrgicas, indústrias de transformação, pequenos restaurantes, padarias e salões de beleza para defender que uma regra única pode gerar dificuldades operacionais e financeiras, especialmente para micro e pequenas empresas.
O debate evidenciou que a discussão sobre o fim da escala 6×1 envolve mais do que o número de dias trabalhados. Ela reúne questões relacionadas à saúde, renda, produtividade, competitividade, organização da economia e papel da negociação entre empresas e trabalhadores.
A principal marca deste primeiro debate foi mostrar que decisões sobre jornada de trabalho exigem equilíbrio entre direitos sociais e impactos econômicos. Ao apresentar argumentos sustentados por perspectivas diferentes, a discussão amplia as informações disponíveis para que o ouvinte forme sua própria avaliação.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Há uma tensão dramática e silenciosa que atravessa as Escrituras: a colisão inevitável entre o Reino proposto por Jesus e os reinos estruturados pelo mundo. Essa dinâmica não se resume a uma disputa territorial ou política, mas, sim, a uma subversão radical do próprio conceito de poder. No centro dessa contradição repousa uma ambiguidade filosófica profunda sobre o que significa, verdadeiramente, exercer a soberania. Existe o senhor de fato e existe o senhor de direito; e o abismo que separa essas duas condições é o que define a linha entre a ilusão da força e a permanência da verdade.
O senhorio de fato é aquele compreendido e reverenciado pelos impérios humanos. Representado historicamente por figuras como César ou Pilatos, ele opera na camada imediata e visível da realidade. É o poder que se impõe pelo monopólio da força bruta, pelo controle das leis, da economia e do medo. No entanto, a lógica do texto bíblico expõe, sutilmente, a fragilidade intrínseca desse domínio factual. O senhor de fato depende inteiramente das circunstâncias, das espadas que o defendem e do tempo, que inevitavelmente o corrói. É uma soberania emprestada, um teatro de autoridade que Pilatos descobriu ser impotente quando confrontado por Alguém que não se dobrava ao seu poder de vida e morte.
Em contrapartida, o senhorio de direito manifesta-se na contramão dessa simetria. Quando Jesus afirma a Pilatos que o seu Reino não é deste mundo, ele não está situando sua soberania em uma dimensão mística ou distante, mas, sim, definindo a sua natureza. O senhor de direito possui uma realeza inata e invisível que não carece de exércitos para se sustentar, pois não deriva da coerção, mas da própria essência da existência e da verdade. É a autoridade que permanece intacta mesmo quando o rei se encontra despido, açoitado e pregado a uma cruz. Enquanto os tiranos precisam do mundo para ser senhores, o senhorio de direito se exerce pela mera presença, esvaziando a autoridade moral de quem governa apenas pela força.
Essa contradição de métodos inverte completamente a pirâmide do poder humano. Nos reinos do mundo, a grandeza é medida por quantos indivíduos se consegue subjugar e governar; no outro Reino, a soberania máxima é alcançada por meio do serviço e da entrega voluntária. Ao expor a falência do senhorio de fato, essa perspectiva nos convida a uma lucidez cortante: um império pode possuir o controle prático da história, mas continuará sem direito algum sobre o coração, a mente e a eternidade humana. No grande tabuleiro da existência, os senhores de fato passam como poeira, enquanto o senhorio de direito permanece gravado naquilo que a força bruta jamais será capaz de alcançar.
Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Bancos na praça são para promover o encontro, a permanência e a convivência
A arquitetura hostil, também denominada arquitetura defensiva, reúne estratégias projetuais e elementos físicos incorporados ao espaço urbano com o objetivo de restringir determinados usos e afastar grupos considerados indesejados no espaço público.
Em vez de promover acolhimento, convivência e permanência, esse tipo de intervenção utiliza o desenho da cidade como instrumento de controle, condicionando quem pode permanecer, descansar ou circular em determinados espaços.
Sob a perspectiva do geógrafo Milton Santos, o espaço urbano resulta da interação permanente entre os fixos e os fluxos. Os fixos correspondem aos elementos materiais da cidade, como edifícios, praças, calçadas, mobiliário urbano, vias e equipamentos públicos. Os fluxos representam a circulação de pessoas, informações, mercadorias e serviços que dão vida a esses lugares.
Quando os fixos são concebidos para restringir determinados usos, também passam a controlar os fluxos, influenciando quem pode transitar, permanecer e exercer plenamente o direito à cidade.
Essa lógica torna-se evidente na arquitetura hostil. Bancos divididos por barras metálicas, superfícies inclinadas sob marquises, grades pontiagudas, blocos de concreto instalados em áreas de permanência e obstáculos distribuídos ao longo das calçadas são exemplos de fixos urbanos que limitam os fluxos cotidianos.
Embora frequentemente justificados por razões de segurança ou ordenamento urbano, esses dispositivos produzem uma seleção silenciosa dos usuários do espaço público, restringindo a presença daqueles considerados inconvenientes ou economicamente “improdutivos”.
As pessoas em situação de rua, hoje estimadadas entre 365 mil a 389 mil no Brasil, são as mais diretamente atingidas por essas intervenções. Seus efeitos, porém, alcançam um conjunto muito mais amplo da população. Pessoas idosas, com deficiência e mobiliade reduzida, além de gestantes e crianças, também encontram dificuldades para caminhar, descansar e utilizar os espaços urbanos com autonomia e segurança.
Dessa maneira, a arquitetura hostiltransforma elementos que deveriam promover o encontro, a permanência e a convivência — como um simples banco de praça — em barreiras físicas e simbólicas que restringem a acessibilidade e dificultam o direito de ir e vir.
Esse direito, embora formalmente assegurado há 38 anos, torna-se um privilégio cada vez mais distante da experiência cotidiana dos grupos vulnerabilizados.
No caso das pessoas idosas, que hoje representam cerca de 16,6% dos brasileiros, essa realidade é ainda mais preocupante. O envelhecimento, especialmente nas idades mais avançadas, pode estar associado à redução da velocidade da marcha, ao aumento do tempo de resposta diante de obstáculos, à necessidade de pausas durante os deslocamentos, à diminuição da acuidade visual e ao maior risco de quedas, sobretudo entre pessoas sedentárias.
Essas mudanças, por si sós, não comprometem a autonomia nem a independência. Tornam, entretanto, os indivíduos mais suscetíveis às barreiras impostas por ambientes urbanos pouco acessíveis e inadequadamente desenhados.
A partir do momento em que a cidade oferece bancos desconfortáveis, calçadas repletas de obstáculos e espaços concebidos para desencorajar a permanência, os deslocamentos a pé tornam-se mais difíceis e inseguros.
Como consequência, os moradores tendem a caminhar menos, permanecer mais tempo em casa e recorrer com maior frequência ao transporte motorizado, mesmo para percursos curtos. Os fixos urbanos passam a interromper os fluxos cotidianos dessas pessoas, restringindo sua independência, reduzindo as oportunidades de interação social e desencorajando a ocupação dos espaços públicos.
Essa dinâmica evidencia que o espaço urbano não é neutro. As escolhas projetuais influenciam diretamente a forma como os diferentes grupos vivenciam a cidade. Quando os fixos são planejados para excluir, os fluxos tornam-se seletivos, favorecendo determinados usuários em detrimento de outros. O resultado é uma cidade menos diversa, menos acessível e menos democrática — realidade presente na maior parte dos municípios brasileiros.
O direito de circular,permanecer e participar da vida urbana deixa de ser uma condição universal para transformar-se em um privilégio condicionado às características do corpo, à condição social e à capacidade funcional de cada indivíduo.
Enfrentar a arquitetura hostil exige repensar os elementos que estruturam o espaço urbano para que os fixos deixem de atuar como mecanismos de exclusão e passem a favorecer fluxos mais diversos, seguros e inclusivos.
Para as atuais e futuras pessoas idosas, isso significa preservar a independência, ampliar o acesso aos serviços públicos, fortalecer os vínculos sociais e participar ativamente da vida comunitária.
Assim, o direito à cidade deixa de depender apenas da garantia legal e passa a exigir uma ambiência urbana capaz de promover mais saúde, autonomia e dignidade ao longo da vida de cada cidadão.
Ciro Férrer Herbster Albuquerqueé mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
O crescimento do comércio digital não eliminou a importância do contato presencial. Pelo contrário: quanto mais a tecnologia avança, maior parece ser o valor das experiências que aproximam pessoas e marcas. Esse foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN.
Durante muito tempo, acreditou-se que o varejo físico perderia espaço para os aplicativos e para o comércio eletrônico. A realidade, porém, mostra um movimento diferente. Empresas que nasceram na internet passaram a abrir lojas, criar espaços de convivência e investir em experiências presenciais. A explicação está naquilo que a tecnologia ainda não consegue reproduzir plenamente: a emoção.
Para Cecília Russo, a eficiência do ambiente digital não é suficiente para construir vínculos duradouros. “O algoritmo consegue entregar o produto, mas ele não entrega o encantamento.” Ela lembra que uma loja pode oferecer muito mais do que um ponto de venda. O consumidor pode tocar os produtos, sentir aromas, tomar um café e criar uma lembrança positiva daquela experiência.
Esse processo está ligado ao branding sensorial,estratégia que procura estimular diferentes sentidos para fortalecer a relação entre consumidor e marca. Como resume Cecília, “quanto mais sentidos uma marca for capaz de ativar, mais memória ela deixa”. Quando essa memória é positiva, aumentam as chances de o cliente retornar.
Isso não significa abandonar o ambiente digital. A proposta é integrar os diferentes canais de relacionamento. O conceito de omnicanalidade descreve exatamente essa presença em múltiplos espaços, permitindo que o consumidor escolha como deseja interagir com a empresa, seja pelo celular, pelas redes sociais, por aplicativos ou em uma loja física.
Jaime Troiano observa que esse investimento não pode ser analisado apenas pelos resultados financeiros imediatos de uma unidade comercial. A experiência presencial produz efeitos que alcançam toda a percepção da marca. “Quando você entra em um ambiente planejado, por exemplo, com um cheiro específico, um atendimento humano, sua percepção sobre o valor da marca sobe instantaneamente.”
O conceito debranding sensorial, desenvolvido por estudiosos como Martin Lindstrom, de acordo com Jaime, explica por que elementos como aroma, textura, iluminação e atendimento influenciam diretamente o valor percebido pelos consumidores. “No digital, a briga é por preço; no físico, a briga por prestígio, experiência e memória.”
Esse princípio também vale para pequenos negócios. Humanizar o relacionamento não depende necessariamente de uma loja. Um bilhete escrito à mão, uma embalagem preparada com cuidado ou um encontro com clientes podem transmitir atenção e criar conexões que dificilmente surgem apenas na tela do celular.
Ao longo da conversa, Jaime resume o desafio das empresas nos próximos anos em uma única palavra: “figital”, união entre físico e digital. A ideia é combinar a rapidez proporcionada pela tecnologia com a proximidade do relacionamento humano. Como ele afirma, “as pessoas estão exaustas de falar só com robôs e navegar em feeds infinitos. Elas querem encontros.”
A marca do Sua Marca
A principal lição do comentário é que tecnologia e contato humano não competem entre si. As marcas mais preparadas para o futuro serão aquelas capazes de unir eficiência digital com experiências presenciais que despertem emoções, fortaleçam a confiança e construam relações duradouras.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Mirassol 2×1 Grêmio Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA
Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.
Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.
Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.
Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.
Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!
Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.
Minha história de São Paulo começa em 1948, quando eu tinha 6 anos, e mudei da casa da minha avó, na Rua Cruzeiro do Sul, para uma casa “mal-assombrada” na Rua Santo Antônio, 104, no bairro da Bela Vista.
No local havia acabado de acontecer um crime que abalou a cidade de São Paulo. Um jovem químico professor da USP, Paulo Ferreira de Camargo, havia matado a mãe e as duas irmãs e jogado os corpos em um poço no quintal da casa. Quando os corpos foram descobertos, ele se matou no banheiro. Um dos bombeiros que participaram das escavações, sem proteção, morreu por infecção cadavérica.
Todos esses fatos e o exagero da imprensa em criar reportagens sensacionalistas, deram a ideia de que o local era amaldiçoado, mal assombrado, tornando o imóvel desvalorizado.
Minha mãe viu ali uma oportunidade de negócio, alugou o imóvel, montou seu salão de beleza e relocou quartos e salas fazendo uma espécie de pensão.
Tenho boas lembranças daquela época, da ingenuidade da criança que se divertia observando curiosa os quartos dos inquilinos pelas fechaduras das portas, quando voltava do jardim da Infância, na Cruzada Pró-Infância, na Praça da República.
Lembro das brincadeiras com os tubos de lança-perfume, comprados por meu avô, para a festa de carnaval, na avenida 9 de Julho, onde o cordão passava cantando “Nega Maluca”, de Linda Batista.
Lembro da curiosidade sobre o teatro de alumínio, instalado em 1952 na Praça da Bandeira, onde a companhia de teatro de Nicete Bruno se apresentava e usava os serviços do salão de beleza da minha mãe.
Lembro da festa do quadricentenário de São Paulo, dos papéis picados sendo jogados do alto dos prédios.
Vivemos na casa muito felizes, até 1954, quando foi demolida. Mudamos então para o bairro da Vila Rosa, perto do Horto Florestal, mas não abandonamos o Centro. Trabalhamos no Largo do Arouche, na Praça Patriarca, na Praça da República, mas aí são outras histórias.
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Iorli Marli Bezerra Pivato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.