50 debates para o Brasil: porte de armas coloca em confronto defesa pessoal e segurança coletiva

Ampliar o número de pessoas autorizadas a circular armadas pode aumentar a capacidade de defesa individual, mas também traz a discussão sobre os riscos de colocar mais armas em circulação. O tema, sempre polêmico, foi debatido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN. Nós convidamos para participar da discussão o coronel André Batista, especialista em Segurança Pública e ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e André Zanetic, doutor em Ciência Política e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A lei brasileira diferencia posse e porte. A posse permite manter uma arma legalmente registrada em casa ou no local de trabalho. O porte, mais restrito, autoriza o cidadão a circular armado e depende do cumprimento de requisitos e de autorização da Polícia Federal.

Para o coronel André Batista, pessoas legalmente habilitadas devem ter a possibilidade de portar armas para defesa pessoal. Ele argumenta que a Constituição estabelece a segurança como dever do Estado, mas isso não significa que o poder público consiga proteger todas as pessoas permanentemente, especialmente em áreas dominadas pelo crime.

“O cidadão que vive nessas áreas não tem o Estado para protegê-lo 100% do tempo e não tem direito a se proteger”, afirmou. Para Batista, negar a possibilidade de defesa nessas circunstâncias compromete o próprio direito à vida.

André Zanetic reconhece que uma arma pode ser usada com sucesso para defesa pessoal. Sua divergência está na transformação dessa decisão individual em política pública. Segundo ele, é preciso avaliar o efeito produzido quando milhares ou milhões de pessoas passam a circular armadas.

“A gente pode tomar uma decisão pensando na própria proteção, mas uma política pública tem que sempre perguntar qual é o efeito dessa decisão quando ela é aplicada para milhares ou para milhões de pessoas”, disse.

Zanetic cita situações cotidianas em que a presença da arma pode aumentar a letalidade de um conflito. Em um roubo, por exemplo, uma reação armada da vítima pode transformar um crime contra o patrimônio em um episódio com mortes. Por isso, defende critérios rigorosos e fiscalização eficaz.

Para sustentar sua posição em favor de maior flexibilidade para o porte de armas, Batista lembrou o referendo de 2005, quando mais de 63% dos eleitores rejeitaram a proibição da comercialização de armas de fogo e munição. Também ressaltou que defender o porte não significa apoiar acesso indiscriminado. Para ele, treinamento e capacitação devem fazer parte das exigências impostas aos cidadãos.

Zanetic concentrou sua preocupação em outra etapa: o que acontece com uma arma depois que ela entra legalmente em circulação. Segundo ele, parte do armamento adquirido de maneira regular pode ser desviada para a ilegalidade, em um país que ainda apresenta dificuldades de controle e fiscalização.

A divergência, portanto, não se limita ao direito de possuir uma arma. Batista enfatiza a possibilidade de autodefesa diante das limitações do Estado. Zanetic chama a atenção para o efeito coletivo da maior circulação de armamentos. Entre a proteção individual e o risco social está a pergunta que permanece aberta: mais cidadãos armados significam mais segurança?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: viver aqui é aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio

Ricardo Cordeiro

Ouvinte da CBN

Parque da Luz

Vista aérea do Parque da Luz. Foto: Renata Carvalho/CBN

Nasci em 1963, em plena ditadura militar, quando São Paulo crescia sob concreto, fumaça e silêncios impostos. Vim ao mundo no bairro da Ponte Pequena, região que hoje abriga a estação Armênia do metrô. Eu, também, descendente desse pequeno país na região do Cáucaso, a Armênia, talvez por isso traga comigo, desde cedo, o sentimento de pertencimento misturado à resistência.

Minha infância foi marcada pelo Colégio Prudente de Moraes, que hoje abriga a Pina Contemporânea, anexo da Pinacoteca. Onde antes havia salas de aula, hoje há arte — e eu gosto de pensar que essa transformação também diz muito sobre São Paulo e sobre mim. O Parque da Luz fazia parte do meu cotidiano, um respiro verde em meio à cidade dura, um espaço onde o tempo parecia desacelerar.

Aos nove anos, minha família se mudou para a então Vila Sônia, região que hoje atende pelo nome de Jardim Trussardi, próxima ao estádio do Morumbi, o que me fez são paulino. Fomos morar em uma pequena vila, carinhosamente apelidada de “vilinha”, um lugar pitoresco, acolhedor, que até hoje preserva sua identidade. Ali aprendi o valor da convivência, da rua, do bairro como extensão da casa, fiz inúmeros amigos, que até hoje me acompanham

Comecei a trabalhar cedo. Fui contínuo em banco — o motoboy da época — circulando pela cidade, conhecendo São Paulo por dentro, nos seus corredores, calçadas e contradições. Estudei, me formei em Comunicação e, como a própria cidade, mudei muitas vezes de caminho. Trabalhei em jornais, como a Folha de São Paulo, vivi o ritmo intenso das redações nos tempos do fim da ditadura, e também passei por grandes montadoras, como a Mercedes-Benz, experimentando outros mundos dentro da mesma metrópole.

Casei, me separei, tive um filho, que hoje tem 34 anos, e mais tarde fui presenteado com uma filha linda, que hoje tem 10. Duas gerações separadas pelo tempo, mas unidas por essa mesma cidade que nunca dorme.

Hoje sou empreendedor na área de design digital e impresso, criando, reinventando, comunicando. E como São Paulo também é festa e resistência cultural, criei um bloco de carnaval de rua: o Perdendo a Linha, porque às vezes é preciso se perder para se encontrar.

São Paulo sempre esteve presente nas minhas conquistas e nas minhas derrotas. Uma cidade dura, generosa, caótica e acolhedora. Cresci com ela, envelheci com ela, e sigo caminhando ao seu lado. Minha história se mistura com a dela — porque viver em São Paulo é, acima de tudo, aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ricardo Cordeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

50 debates para o Brasil: diversidade no serviço público exige critérios, mérito e avaliação

A busca por maior diversidade no serviço público coloca em discussão como combinar igualdade de oportunidades, representatividade e mérito na seleção de servidores. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Alessandra Benedito, vice-presidente de Equidade Racial da Fundação Lemann, e Luiz Henrique Antunes Alochio, doutor e mestre em Direito e especialista em Direitos dos Servidores Públicos.

A legislação federal reserva 30% das vagas em concursos públicos para pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas. Também existem regras específicas para pessoas com deficiência. A discussão proposta no debate foi até que ponto essas políticas são necessárias para corrigir desigualdades e quais critérios devem determinar sua aplicação e duração.

Alessandra Benedito defendeu que ações afirmativas precisam partir de dados capazes de demonstrar quais grupos estão sub-representados no Estado. Para ela, essas políticas não devem ser permanentes por definição. Precisam ser acompanhadas e reavaliadas durante sua execução.

“Quando a condição que gerou a incidência não existir mais, definitivamente o recurso deve ser realocado”, afirmou.

Na avaliação de Alessandra, o desafio aumenta quando uma mesma pessoa reúne diferentes características que podem produzir desigualdades. É o que se denomina interseccionalidade — por exemplo, quando gênero, raça e deficiência se sobrepõem. Por isso, argumentou, não basta criar cotas: é necessário medir seus resultados e verificar periodicamente se continuam necessárias.

Luiz Henrique Alochio fez críticas à maneira como algumas ações afirmativas são formuladas, mas ressaltou que não é contrário a elas. Sua principal preocupação está nos critérios utilizados e no risco de essas políticas serem apropriadas pelo discurso político.

“Ação afirmativa não é, nunca foi, nunca deve, nunca deveria ter sido antagônica à noção de mérito”, afirmou.

Alochio citou como exemplo o Exame Nacional da Magistratura. Segundo ele, candidatos da ampla concorrência precisam alcançar 70% de aproveitamento, enquanto candidatos beneficiados por ações afirmativas precisam atingir 50%. Para o jurista, a diferença deveria ser questionada porque o exame não distribui um número limitado de vagas: quem alcança a nota exigida fica habilitado a participar posteriormente de concursos para juiz.

Apesar das divergências, os debatedores encontraram um ponto de convergência. Alessandra também afirmou que mérito e ação afirmativa não são conceitos incompatíveis. Para ela, competências e habilidades precisam ser avaliadas para determinar se uma pessoa está preparada para exercer determinada função.

A diferença está principalmente na interpretação sobre o papel das políticas públicas diante das desigualdades existentes. Alessandra sustenta que ações afirmativas devem funcionar como políticas de Estado, independentemente de quem esteja no governo, com acompanhamento contínuo de seus resultados. Alochio defende que o mérito seja o primeiro critério da seleção e cobra maior rigor na definição dos mecanismos de inclusão.

O debate, portanto, não se resumiu à escolha entre diversidade e mérito. A discussão avançou para uma questão mais complexa: como ampliar a presença de grupos sub-representados no Estado sem perder critérios objetivos de seleção — e como saber quando uma política afirmativa cumpriu sua função?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: empresas precisam derrubar rótulos para aproximar jovens do mercado de trabalho, defende Daniela Redondo, do Instituto Coca-Cola

Daniela Redondo, Instituto Coca-Cola

Daniela Redondo em entrevisa online no Mundo Corporativo Foto: Débora Gonçalves/CBN

“Tira o rótulo. A gente está ouvindo tanto que essa geração não quer trabalhar. Tira isso da frente, que vai abrir um mundo com muita gente querendo trabalhar.” — Daniela Redondo

O mercado de trabalho muda rapidamente. As empresas assistem à essa transformação acontecendo agora ao mesmo tempo que olham para o futuro sem ter certeza do que será do amanhã. Pensam qual será a próxima tecnologia a influenciar a forma de produzir e trabalhar e se esquecem de que será preciso ter pessoas preparadas para os próximos desafios. 

Nesse cenário, uma das contradições identificadas no mercado de trabalho é a dificuldade de as empresas contratarem profissionais, enquanto há uma legião de jovens em busca do primeiro emprego. Em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Daniela Redondo, diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, alertou que o debate sobre o futuro do trabalho costuma concentrar-se na inteligência artificial, mas o maior desafio permanece humano.

“A tecnologia acelera mudanças, mas a conexão entre as pessoas continua sendo determinante para construir equipes, desenvolver talentos e criar oportunidades.”

À frente do Instituto, Daniela lidera programas voltados principalmente para jovens entre 16 e 29 anos em situação de vulnerabilidade social. O objetivo, além da qualificação profissional, é conectar esses jovens a vagas reais de emprego. Na avaliação da executiva, existe um desencontro entre empresas e candidatos. Enquanto muitos empregadores afirmam que faltam profissionais preparados, milhares de jovens relatam dificuldade para conquistar a primeira oportunidade. Parte dessa distância, segundo Daniela, está nos processos seletivos.

Ela explica que muitas empresas estabelecem exigências incompatíveis com quem está iniciando a carreira. Ao mesmo tempo, os jovens precisam desenvolver competências relacionadas à comunicação, ao relacionamento e ao entendimento do ambiente profissional.  

O Instituto Coca-Cola Brasil decidiu ampliar o alcance de seus programas a partir de 2019. Daniela conta que, alguns anos antes, eram atendidas cerca de 30 mil pessoas por ano. Em 2025, esse número chegou a aproximadamente 250 mil. Ao longo da história do programa, mais de 860 mil jovens foram capacitados em mais de 4 mil cidades

Aumentar o número de participantes, porém, não é suficiente. Para saber se a formação produz uma mudança concreta na vida dos jovens, o Instituto acompanha também a entrada deles no mercado de trabalho. Segundo Daniela, seis em cada dez participantes conseguem emprego depois de concluir o programa

O impacto pode chegar à renda de toda a família. A maioria dos participantes pertence a famílias que vivem com até dois salários mínimos. Nesse caso, explica Daniela, a contratação de um jovem por um salário mínimo pode representar um acréscimo equivalente a 50% da renda que aquela família tinha até então. Se o emprego oferece remuneração maior e possibilidade de crescimento profissional, o efeito tende a aumentar. 

Foi justamente a busca por alcançar mais pessoas sem perder de vista esses resultados que levou o Instituto a desenvolver uma metodologia de crescimento em escala. O modelo, denominado “exponencialidade para impacto”, reúne ferramentas, dados e formas de organização que podem ser aplicadas por outras empresas, organizações sociais e governos. O material é disponibilizado gratuitamente pelo Instituto.

Ao falar diretamente aos gestores, Daniela fez um convite para rever preconceitos sobre a nova geração. Segundo ela, muitos jovens querem trabalhar, aprender e crescer profissionalmente. O primeiro passo é abandonar generalizações e construir processos seletivos mais abertos à diversidade de experiências.

Para quem procura a primeira oportunidade, a recomendação também é clara: continuar estudando, ampliar a rede de contatos e buscar diferentes perspectivas.

“Conecte-se. Expanda a perspectiva para além do seu grupo, porque é essa diferença de perspectiva que vai fazer você ser visto e se destacar.”

Assista ao Mundo Corporativo

Assista à entrevista completa com Daniela Redondo no canal da CBN no YouTube. Você também pode ouvir o Mundo Corporativo no Spotify ou no podcast de sua preferência. Colaboram com o programa Carlos Grecco, Letícia Valente, Priscila Gubiotti, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

50 debates para o Brasil: crescimento da dívida põe o arcabouço fiscal à prova

O crescimento da dívida pública expõe os limites da regra criada para organizar as contas do governo e reacende a discussão sobre quanto o Brasil pode gastar sem comprometer o futuro. O arcabouço fiscal foi o tema do “50 Debates para o Brasil”, série do Jornal da CBN que reúne especialistas para apresentar diferentes perspectivas sobre questões centrais do país.

Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre, e Elena Landau, economista e consultora, concordam que o país precisa de regras para controlar as despesas. A divergência entre os dois covnidados aparece no diagnóstico sobre o atual modelo e na dimensão das mudanças necessárias.

Criado em 2023 para substituir o teto de gastos, o arcabouço limita o crescimento das despesas e estabelece metas para o resultado das contas públicas. Samuel Pessôa considera correto o desenho geral, mas identifica problemas que precisam ser corrigidos.

“O desenho do arcabouço fiscal é correto”, afirmou. Para ele, uma das inconsistências está nos pisos constitucionais de saúde e educação. Como essas despesas seguem regras próprias de crescimento, podem avançar mais rapidamente do que o limite geral dos gastos e reduzir o espaço disponível para outras políticas públicas.

Pessôa também defendeu mudanças na política de valorização do salário mínimo. Isso porque benefícios previdenciários e outras despesas públicas estão vinculados ao piso nacional. Quando o salário mínimo cresce acima da inflação, essas despesas também aumentam. Segundo ele, o problema se agrava quando o gasto público cresce mais rapidamente do que a própria economia.

Elena Landau fez uma crítica mais ampla. Para ela, o arcabouço nasceu com problemas e perdeu credibilidade porque o governo passou a retirar determinadas despesas dos limites usados para avaliar o cumprimento das metas. “O que importa é que as pessoas não cumprem regra”, afirmou. Na avaliação da economista, qualquer mecanismo de controle será insuficiente se o governo continuar aumentando gastos e recorrendo a exceções.

Landau também contestou a interpretação de que o crescimento da dívida decorre principalmente dos juros elevados. Para ela, o aumento das despesas e a necessidade de buscar recursos para financiá-las pressionam a dívida e dificultam a redução dos juros.

Apesar das diferenças, os dois economistas convergiram em um ponto. Pessôa resumiu: “A questão é menos a regra e mais haver um acordo na sociedade para que a regra seja cumprida.” O desafio, segundo ele, é compatibilizar despesas que a sociedade considera importantes — como saúde, educação e benefícios vinculados ao salário mínimo — com a capacidade da economia de financiá-las.

O debate, portanto, vai além de escolher entre manter ou substituir o arcabouço. A questão é decidir quais gastos cabem no orçamento, como financiá-los e que limites o país está disposto a respeitar para impedir que a dívida continue crescendo.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

O sentir e o sentido

Por Beatriz Breves

Foto de Khoa Võ no Pexels

De onde viemos? Para onde vamos? Existe vida além da morte? A morte é o fim? O universo possui um propósito? Existe um sentido para a existência?

Essas perguntas acompanham a humanidade desde seus primórdios. Filósofos, cientistas, religiosos, poetas e pessoas comuns, em diferentes épocas e culturas, buscaram respostas para os grandes mistérios da vida. Talvez porque, em algum momento, todos nós nos deparamos com a mesma inquietação: qual é o sentido de existir?

A busca por respostas costuma acontecer por meio do pensamento. Refletimos, formulamos teorias, construímos explicações e criamos narrativas capazes de dar significado à experiência humana. Entretanto, por mais importantes que sejam, as respostas intelectuais parecem nunca encerrar completamente a questão.

Talvez isso aconteça porque o sentido da vida não seja somente algo a ser pensado, mas, quem sabe, também algo a ser vivido.

Existe uma dimensão da existência que antecede as palavras, os conceitos e as explicações. É a dimensão do sentir.

O sentir atravessa os tempos, as culturas, as crenças e as diferenças entre os povos. Sabemos reconhecer o amor, a tristeza, a alegria, o medo, a esperança ou a saudade em relatos escritos há séculos, mesmo quando pertencem a sociedades muito diferentes da nossa. Os conceitos mudam. As teorias mudam. As formas de interpretar o mundo mudam. Mas o sentir permanece como uma das experiências mais universais da condição humana.

Se nos sentimos em paz, o mundo parece mais acolhedor. Se estamos tomados pela angústia, tudo ao redor pode parecer ameaçador. Quando amamos, a vida ganha cores diferentes. Quando sofremos uma perda, o próprio tempo parece modificar seu ritmo.

Isso acontece porque não vivemos somente em um mundo de fatos. Vivemos em um mundo de experiências.

É o amor que sentimos por alguém, a ternura por um animal, a amizade compartilhada, a alegria de um encontro, a dor de uma despedida ou a esperança diante do futuro que vão tecendo o sentido singular de cada existência.

Por isso, talvez não exista um único sentido da vida válido para todos. Existem sentidos que emergem da forma como cada pessoa vive, sente e se relaciona com o mundo.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, o sentido não é algo que encontramos pronto, escondido em algum lugar do universo. Ele nasce da própria experiência de existir, da condição de estar vivo. Surge dos vínculos que construímos, das escolhas que fazemos, dos desafios que enfrentamos e da maneira como somos afetados pela vida.

Os sentimentos funcionam como uma espécie de bússola existencial. Eles não apenas revelam o que é importante para nós; também orientam nossa relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Talvez o sentido da vida não seja uma resposta definitiva para uma pergunta eterna, mas o próprio movimento de sentir, viver, transformar-se — enfim, de estar vivo.

E talvez seja justamente por meio do sentir que cada um de nós possa experimentar algo maior: a percepção de que não estamos separados da vida, mas somos uma de suas expressões singulares, uma forma única pela qual o universo se torna experiência de si mesmo.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

50 debates para o Brasil: legalização de bingos e cassinos divide opiniões sobre controle e danos sociais

A legalização de bingos e cassinos coloca frente a frente duas promessas difíceis de conciliar: ampliar o controle do Estado sobre uma atividade que já existe na clandestinidade e evitar que uma oferta maior de jogos aumente os problemas provocados pela dependência. Esse foi o tema do “50 Debates para o Brasil”, série do Jornal da CBN que reuniu Wesley Cardia, advogado e ex-presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias, e Hermano Tavares, professor associado do Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador do Programa Ambulatorial do Jogo.

Cardia defendeu a legalização como instrumento de controle. Segundo ele, a proibição não impede a existência de cassinos e bingos clandestinos, que funcionam sem fiscalização, restrições de acesso ou pagamento de impostos. Para o advogado, regulamentar permitiria estabelecer regras para identificar jogadores, impedir o acesso de menores e ampliar a supervisão do poder público.

“A regulamentação faz com que haja um ordenamento que, no final das contas, impede todos os malefícios”, afirmou. Cardia usou como referência a experiência recente das apostas esportivas pela internet e argumentou que regras excessivamente restritivas também podem produzir efeito contrário ao pretendido, empurrando jogadores para plataformas ilegais.

Hermano Tavares contestou a ideia de que legalizar seja suficiente para reduzir os danos. Para o psiquiatra, quanto maior a oferta e a exposição ao jogo, maior o risco para pessoas vulneráveis à compulsão. Ele também criticou modelos nos quais as próprias empresas ficam responsáveis por identificar e limitar clientes com comportamento problemático.

“Isso aí é convidar a raposa para tomar conta do galinheiro”, disse. Na avaliação de Tavares, cabe ao Estado estabelecer mecanismos obrigatórios de proteção, incluindo limites para apostas, encerramento de contas de jogadores com sinais de compulsão e restrições à publicidade.

A propaganda, aliás, apareceu como um dos pontos centrais da divergência. Tavares chamou a atenção para a presença constante de anúncios de apostas em transmissões esportivas e para o uso de influenciadores na divulgação das plataformas. Segundo ele, a associação entre remuneração de divulgadores e perdas dos apostadores cria conflito de interesse e exige regras mais rigorosas.

Cardia sustentou que o mercado ilegal continuará existindo independentemente da proibição e que a política pública deve tornar o ambiente regulamentado suficientemente seguro e competitivo para reduzir a procura pela clandestinidade. Para ele, o desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio: fiscalizar sem criar restrições que acabem fortalecendo operadores ilegais.

Tavares colocou outro elemento nessa conta. Segundo sua experiência no tratamento de pessoas com transtorno do jogo, o aumento da oferta legalizada amplia a procura por atendimento. “Aumenta o jogo legalizado, aumenta em quatro vezes a demanda de tratamento”, afirmou. Por isso, defendeu uma regulamentação que obrigue as plataformas a informar periodicamente quanto o jogador ganhou e perdeu e estabeleça pausas compulsórias.

O debate deixa uma questão que vai além de ser a favor ou contra cassinos e bingos. Se o jogo já faz parte da realidade brasileira, a discussão passa também por definir quanto o país está disposto a permitir, quem fiscalizará a atividade e quem pagará a conta dos danos que ela eventualmente produzir.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

“Sinto Muito!”: puxe a cadeira e sente-se com Nina Ferreira

Sinto Muito, livro de Nina Ferreira

Nina Ferreira se expõe nas páginas deste blog. Mensalmente passa por aqui, planta uma semente, oferece uma dose de conhecimento e nos ajuda a nos reconhecermos. Em seus textos, ela nos convida a pensar a vida. Não a dos outros. A nossa. Essa que temos de encarar assim que levantamos da cama — ou, para falar a verdade, quando ainda estamos nela e, às vezes, de onde não queremos jamais sair. A vida que acontece na realidade, como ela escreveu em um dos artigos publicados aqui desde junho de 2023. 

Leia os textos da Dra. Nina Ferreira publicados no Blog do Mílton Jung

Feitos seus ensaios, Dra. Nina entendeu que precisava ir além. E lançou ‘Sinto Muito’ (Ed Labrador), livro no qual conta a história de nove sentimentos: tristeza, medo, raiva, vergonha, mágoa, culpa, vaidade, inveja e preconceito. Para isso, arrisca-se no terreno da ficção. Transforma-os em personagens. Os batiza com nomes próprios e cria narrativas que os tornam gente como a gente. Assim como nós, enfrentam dilemas no trabalho, na família e no casamento. Têm de encarar suas dúvidas e encontrar coragem para seguir em frente. 

À medida que avançamos pelos capítulos, deparamo-nos com um espelho no qual surge nossa imagem e semelhança. Nina também está naqueles personagens e sofrimentos. Ao narrar o que o outro sente, a médica revela algo de si mesma. E permanece ao nosso lado durante a leitura, oferecendo caminhos, nos orientando, a partir do conhecimento acumulado em mais de 16 anos dedicados à saúde mental e da experiência construída na medicina e na psicoterapia.

Médica psiquiatra, Nina trabalhou em diferentes ambientes da saúde mental, de plantões de emergência e internações psiquiátricas ao atendimento em CAPS e consultório. Sua formação ajuda a explicar uma característica que aparece no livro.  Ela própria reconhece que carrega, de um lado, a estruturação lógica e pragmática vinda da formação médica, e, de outro, uma atuação terapêutica centrada na emoção e nos sentimentos. “Sinto Muito!” surge desse encontro. Há método na organização dos capítulos e sensibilidade na maneira de contar histórias. E há uma preocupação de teronar o conhecimento acessível.

Li “Sinto muito!” antes de o livro estar impresso. Nina me deu a oportunidade de escrever o prefácio. Uma tarefa arriscada, que requer sensibilidade. Prefaciar um livro é se intrometer na relação entre o autor e seus leitores. Dá medo, vergonha, um pouco de culpa pelo estrago que podemos cometer involuntariamente. É preciso cuidar para que a vaidade e a inveja não se expressem na tentativa de ser mais importante que o autor e sua obra. Para evitar que esses sentimentos intereferissem na minha tarefa, aceitei o convite e ocupei a cadeira vazia que aguarda cada leitor na mesa em que os personagens do livro se encontram no capítulo final.

Aproveite esta oportunidade que a Dra Nina nos oferece. Puxe a cadeira, sente-se com a gente e leia “Sinto Muito!” (Editora Labrador) que está em pré-venda na Amazon.

50 debates para o Brasil: especialistas discutem se a repressão às drogas deve mirar o crime organizado ou dar lugar a outra política

A política de combate às drogas no Brasil consome recursos públicos, amplia a população carcerária e, ainda assim, enfrenta organizações criminosas cada vez mais estruturadas. Na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, o especialista em segurança pública Ricardo Gennari e Marina Dias, diretora-executiva do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), discutiram se o país precisa reforçar a repressão ou mudar a estratégia adotada nas últimas décadas.

A legislação brasileira de 2006 buscou separar o tratamento dado ao usuário daquele destinado ao traficante. Na prática, porém, a ausência de critérios objetivos para fazer essa distinção transferiu parte dessa decisão para policiais e juízes, com reflexos sobre o encarceramento.

Gennari defendeu que o Estado precisa ser mais eficiente no enfrentamento às organizações criminosas. Para ele, o problema não se resolve apenas com policiamento nas ruas. A estratégia deveria combinar inteligência, investigação da lavagem de dinheiro, gestão prisional e prevenção.

“Se a gente não tiver realmente um combate efetivo ao crime organizado, a gente já está perdendo”, afirmou.

O especialista chamou atenção também para a população carcerária brasileira, superior a 800 mil pessoas, e questionou se todos deveriam estar presos. Na avaliação dele, enfrentar o tráfico exige ação coordenada dos governos federal, estaduais e municipais e maior capacidade para seguir o dinheiro movimentado pelas facções.

Marina Dias partiu de outro diagnóstico. Para ela, a política adotada pelo país fracassou porque concentrou esforços na repressão sem conseguir reduzir a oferta e o consumo de drogas. O resultado foi o aumento do encarceramento, da violência nas periferias e dos gastos públicos.

“Não é uma guerra contra as drogas, é uma guerra contra pessoas”, afirmou.

Marina citou levantamento do Ipea com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas segundo o qual, entre os presos mencionados na pesquisa, 68% são negros, 72% jovens e 67% não concluíram o ensino básico. Ela argumentou que a prisão de pequenos traficantes e usuários não desestrutura as organizações criminosas, porque essas pessoas são rapidamente substituídas.

Apesar das diferenças, os debatedores convergiram em um ponto: a questão das drogas não pode ser tratada apenas como problema policial.

Gennari defendeu políticas de saúde, educação, prevenção e ressocialização, ao mesmo tempo em que considera necessário manter o combate ao tráfico e às organizações criminosas. “A polícia está no último nível dessa questão”, disse.

Marina propôs separar política de drogas de política de segurança pública. Para usuários, defendeu acesso à saúde, moradia, educação e programas voltados principalmente aos jovens. Para enfrentar o crime organizado, apontou como prioridades a inteligência policial, a integração das forças de segurança, a investigação financeira, o combate à lavagem de dinheiro e o rastreamento de patrimônio.

O debate expõe uma questão que vai além da escolha entre reprimir ou descriminalizar: onde o Estado deve concentrar dinheiro, policiais e políticas públicas para reduzir o poder do tráfico e, ao mesmo tempo, tratar os danos provocados pelo consumo de drogas?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: os heróis improváveis e o sentimento de ser gremista

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Paulo

Wallace comemora seu primeiro gol no Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os heróis improváveis levaram o Grêmio a uma virada fundamental para o nosso destino na temporada. Wallace, o jovem zagueiro recém-chegado de Alagoas, e Pavón, o argentino tantas vezes criticado pelas arquibancadas, fizeram os gols que nos tiraram daquela-zona-que-você-sabe-qual-é.

Pode parecer exagero de torcedor, considerando a montanha que ainda temos de subir na competição. O fato é que o time de Luis Castro, com todos os limites técnicos e táticos que ainda apresenta, precisava recuperar a confiança perdida em algum ponto da nossa jornada.

Os reveses mais recentes incomodavam especialmente pela forma resignada com que a equipe se comportava. Derrotas nas diferentes competições e a eliminação na Sul-Americana eram recebidas quase como uma fatalidade, como se o elenco estivesse convencido da própria incompetência. Ao torcedor, restava uma mensagem de desalento.

A postura que levou à classificação para as quartas de final da Copa do Brasil já havia sido completamente diferente. Mesmo com todos os defeitos, os jogadores se impuseram diante do adversário e lutaram de forma incessante. Mesmo pressionado mais do que gostaríamos, mostrou que sabir ser resiliente. O que vimos hoje, pelo Campeonato Brasileiro, foi a repetição daquela atitude, especialmente depois de o Grêmio sair atrás no marcador.

Ainda não temos a marcação intensa que rouba a bola no campo do adversário, a organização tática que reduz os riscos dentro da nossa área ou uma circulação de bola mais articulada no meio de campo. O torcedor, porém, consegue perceber jogadores atuando com muito mais intensidade nos três setores do time.

Lá atrás, Wallace é o principal destaque. E, se não se assustar com o próprio sucesso, pode ser importante não apenas para dar mais segurança à defesa, mas também para avançar com a bola e romper a primeira linha de marcação do adversário. A lateral direita, com Diego Caito, está mais bem guarnecida. O entendimento dele com Pavón, à frente, fez diferença nos dois últimos jogos. É por aquele lado que o Grêmio ataca melhor e oferece mais perigo.

O atacante argentino é um personagem à parte neste momento. Parece ter redescoberto o drible depois de passar seis meses jogando mais recuado e improvisado na lateral direita. Não bastasse a chegada forte à linha de fundo, foi responsável pelos gols das duas vitórias recentes. E ambos de falta.

Na cobrança de hoje, a considerar pelo que disse ao fim da partida, Pavón teve plena consciência do movimento que fazia. Percebeu a falta de proteção extra atrás da barreira e chutou forte por baixo para colocar a bola na rede. No jogo anterior, também havia demonstrado inteligência ao identificar o desajuste da barreira adversária.

O Grêmio ainda está distante de apresentar um futebol vistoso. As duas vitórias seguidas, porém, devolvem ao time algo que parecia ter desaparecido: a convicção de que lutar pode valer a pena. E, quando essa disposição aparece em campo, a torcida responde.

Hoje, eram 35 mil gremistas na Arena empurrando o time até a virada. Wallace e Pavón foram os heróis improváveis da noite. A arquibancada tratou de lembrar o que os move — e o que nos move — ao cantar em coro:

“O Grêmio é puro sentimento.”