“A liderança sem essa escuta ativa, é liderança estéril. Ela não promove a construção de novas lideranças, que é o que a gente precisa.”
Uma escola com 115 anos de história decidiu substituir a figura do diretor único por uma gestão compartilhada formada por três diretoras. A mudança reflete uma busca por decisões mais colaborativas, diversidade de perspectivas e maior conexão com os desafios contemporâneos da educação.
Em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, Valdenice Minatel Melo de Cerqueira, diretora institucional e de tecnologia do Colégio Dante Alighieri, disse que a transformação começou a ser desenhada em 2019. Naquele ano, ela assumiu uma posição de liderança mais ampla na instituição. Após um período de estudo e observação da estrutura da escola, surgiu a proposta de criar um colegiado responsável pelas decisões estratégicas.
Segundo a diretora, a experiência acumulada na área de tecnologia ajudou a consolidar a convicção de que uma gestão eficiente não pode depender apenas de uma pessoa. “Não é possível fazer uma boa gestão de forma isolada e de maneira unilateral”, afirmou.
A estrutura atual reúne, além de Valdenice, Angela Martins, diretora pedagógica, e Helenice Ziziotti, diretora de admissões e cursos extracurriculares.
O valor das decisões compartilhadas
Um dos questionamentos mais comuns sobre modelos colaborativos é a possibilidade de tornar os processos mais lentos. Para Valdenice, o risco existe, mas pode ser administrado por meio de critérios claros de urgência e responsabilidade.
Ela reconhece que a mudança exigiu adaptação de todos os envolvidos. “Obviamente que toda mudança que é proposta traz um desconforto. Inclusive para nós, que estávamos habituados a ter uma gestão mais centralizadora.”
Ao mesmo tempo, acredita que o desconforto faz parte da construção de novos caminhos. “Mas é a partir desse desconforto que a gente vai encontrar um conforto para seguir, considerando que a escola é um lugar do coletivo. Ninguém faz nada sozinho.”
A diretora relatou um episódio que ilustra os benefícios da gestão compartilhada. Diante de um aluno que acumulava problemas disciplinares, a equipe optou por oferecer uma nova oportunidade em vez de adotar medidas mais severas. A decisão foi tomada coletivamente.
Anos depois, o estudante se destacou na carreira acadêmica. Para Valdenice, o resultado reforçou a importância de diferentes perspectivas participarem do mesmo processo decisório.
Governança feminina e diversidade
O modelo implantado no Dante Alighieri também tem uma característica particular: é conduzido por três mulheres.
Segundo Valdenice, a composição do grupo não foi resultado de uma escolha planejada, mas da trajetória profissional das líderes que já atuavam na escola. Ainda assim, ela considera que a presença feminina amplia a qualidade das decisões.
A executiva também defende a ampliação da participação das mulheres em conselhos e espaços de governança.
“Eu defendo que essa diversidade é necessária sobre todos os aspectos, porque nós vamos entender o mundo de uma maneira mais plural.”
Para ela, a diversidade não se limita à questão de gênero. Envolve diferentes experiências, trajetórias, origens e formas de interpretar a realidade. Esse conjunto de perspectivas contribui para análises mais completas e decisões mais equilibradas.
Escuta ativa como prática de liderança
Entre os conceitos destacados ao longo da entrevista, a escuta ativa apareceu como um dos pilares da gestão.
Valdenice fez questão de diferenciar ouvir de escutar.
“Nós fazemos muito a escuta ativa. Não é simplesmente estar na sua frente e ouvir o que você vai falar, é genuinamente se interessar pelo que você está trazendo.”
A prática se estende aos alunos, às famílias e aos profissionais da escola. Na avaliação da diretora, organizações que desejam formar novas lideranças precisam criar ambientes em que as pessoas se sintam ouvidas e respeitadas.
Formação humana além dos vestibulares
Com cerca de 4.200 alunos e atividades que se estendem das sete da manhã às nove da noite, o Dante Alighieri, em São Paulo, enfrenta o desafio de equilibrar desempenho acadêmico e formação humana.
Valdenice reconhece que os vestibulares continuam exercendo forte influência sobre o trabalho das escolas. Ao mesmo tempo, considera insuficiente limitar a educação à preparação para exames.
“Não dá para pensar numa escola que só se preocupe com o vestibular. Acho que é muito reducionismo.”
Ela resume a proposta educacional da instituição na expressão “high tech, high touch”: combinar excelência acadêmica, tecnologia, criatividade, empreendedorismo e desenvolvimento socioemocional.
Segundo a diretora, o mercado de trabalho exige cada vez mais competências relacionadas à tomada de decisão, capacidade de colaboração, criatividade e liderança, habilidades que precisam ser desenvolvidas ainda durante a vida escolar.
Inteligência artificial e o papel da escola
Outro tema central da entrevista foi a inteligência artificial.
Valdenice classificou a chegada da IA generativa como um dos momentos mais disruptivos da história recente da educação, comparável ao impacto provocado pela popularização da internet nos anos 1990.
Desde 2023, o Dante Alighieri vem desenvolvendo iniciativas para integrar a tecnologia às atividades pedagógicas. A estratégia inclui formação de professores, orientação às famílias e definição de critérios para o uso das ferramentas pelos alunos.
Segundo ela, o princípio que orienta todas as decisões é simples: a tecnologia deve servir às pessoas.
“A prioridade é o humano. São as relações humanas e a tecnologia vem para melhorar, para potencializar.”
A escola adotou plataformas que permitem aos professores selecionar e organizar os conteúdos utilizados pela inteligência artificial, preservando a autoria e a participação ativa dos educadores no processo de aprendizagem.
Aprender continuamente
Uma lição que considera essencial para qualquer profissional, independentemente da área de atuação, foi destacada por Valdenice ao fim da entrevista: a aprendizagem contínua.
“Eu não vou me cansar. É o lifelong learner. A gente continua aprendendo o tempo todo.”
Para ela, escolas, empresas e profissionais precisam manter uma postura permanente de atualização, buscando novas práticas e novos conhecimentos sem perder de vista a importância das relações humanas.
“A escola é um espaço do coletivo, assim como é qualquer instituição e todos aprendem.”
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