Cinco coisas chatas quando você sai de férias (e volta)

 

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Estar de volta ao trabalho é sempre um prazer, desde que se goste muito do que se faz. É o meu caso. Por isso, madrugar nesta terça-feira para estar à frente do Jornal da CBN foi uma tarefa agradável, depois de duas semanas de férias.

 

No período em que estive distante do trabalho, aproveitei o que pude cada momento. Especialmente para descansar.

 

Li alguns livros, como de costume. Bebi e comi. Descansei mais um pouco. Fiz passeios por lugares interessantes ao lado da família e sem nos impor uma agenda turística muito intensa. Ou seja, evitamos o excesso de programas e deslocamentos que costuma deixar o viajante mais cansado do que relaxado.

 

Faço esse introdutório para que ninguém pense que sou um chato de galocha daqueles que reclamam de tudo e de todos. Agora, e imagino que você me dará razão no que escreverei a seguir, tirar férias gera algumas situações incomodas.

 

A primeira que listo – e isso não quer dizer que é a mais chata, apenas que foi a que me veio à memória no momento em que escrevo – está relacionada as poltronas de avião. Atravessei o Atlântico em direção à Europa. Portanto, foram mais de 11 horas de voo até o destino final.

 

Fico imaginando quem desenhou aqueles assentos. E bastam alguns minutos no ar para entender porque não temos na lista dos mais renomados designers do mundo nenhum projetista de poltrona de avião. Claro que a situação piora com o espaço que a fabricante de aviões, com a anuência da companhia aérea, oferece para os passageiros. Mas mesmo que você tenha a sorte de marcar assento na saída de emergência ou decida pagar um pouco mais por algo que chamam de “espaço conforto” (ou qualquer outro nome criativo), é impossível relaxar naquelas cadeiras. Quem descobrir uma poltrona de avião que não faça mal às costas, me avise. Não vale a da primeira classe.

 

E como o tema é tamanho, sigo na minha lista de coisas chatas que acontecem nas férias. Antes de sair do Brasil, aluguei um carro para quatro pessoas e três malas. Um modelo que se encaixasse na categoria de “carro grande”, como informava o site de buscas de preços e serviços que consultei. O modelo que aparece na imagem nunca é o mesmo que está à disposição; sem contar que jamais se encaixa no seu conceito de carro grande. Portanto, você e as bagagens só vão caber lá dentro após um esforço extra da família, bancos rebaixados e malas espremidas.

 

O terceiro item da minha lista está diretamente relacionado a compra das passagens e do aluguel do carro. A tecnologia nos permite consultar vários sites que agregam preços de companhias aéreas, locadoras de carro e hotéis, além de programas turísticos. Minha experiência mostra que esses serviços facilitam a compra e costumam oferecer preços razoáveis. Também mostra que depois do negócio fechado, eles nunca mais soltam o seu pé. Além de receber uma quantidade enorme de ofertas por e-mail, basta abrir um site para você se deparar com um banner deles relacionados a sua viagem, sempre propondo mais uma ótima oportunidade, sugerindo um novo roteiro e atrás do seu dinheiro. Sem contar os infalíveis feedbacks: o que você achou da sua experiência? Mas por que está dando nota 0 para o serviço? Como podemos tornar sua vida melhor? Nunca mais mandando nenhum email, por favor!

 

Emails? Claro, eis aí outro item para minha lista de coisas chatas durante as férias. Por mais que você programe sua caixa de correio eletrônico, eles não param de chegar. Ao abrir a minha, havia cerca de 4 mil a espera de uma resposta. Apagar todos de uma só vez pode parecer uma solução. Mas como fica a sua consciência ao imaginar que no meio daquela quantidade enorme de mensagens pode haver ao menos uma realmente importante? As favas com a consciência. Em tempo: se você mandou algum nestes dias de férias e considerava importante, mande de novo, por favor. Já estou na ativa.

 

O quinto, último e não menos importante item da minha lista de coisas chatas nas férias é que elas um dia acabam e a conta chega. No cartão de crédito, debitado diretamente na conta corrente ou no boleto bancário, seja na forma que for, pagar é preciso: as passagens, o hotel, o carro alugado, as compras, almoços e jantares … Esse item pode ficar menos chato se você se programar bem, fizer uma reserva e mantiver o controle nos gastos. Prometo lembrar disso no ano que vem.

 

Tudo posto e listado, fique certo do seguinte: independentemente de qualquer uma dessas ou de outras chatices que você encontrar no seu caminho, tirar férias é muito bom. Tão bom que já estou louco para encarar poltronas apertadas, carros estreitos, emails lotados e spam na minha caixa de correio …

 

Até breve, férias!

Conte Sua História de SP: lembranças de São Roque, nosso galo bom de briga

 

Por João Rodrigues Neto

 

 

Em 1969, eu com 12 e meu irmão com 11 anos passamos por um perrengue por conta da tal briga de galo. Movidos mais pela necessidade do dinheiro do que amor ao esporte, dois adolescentes, quase criança, nos metemos em treinar e levar galo pra brigar.

 

Morávamos num bairro extremo da periferia de São Paulo, em casa com grande quintal, rodeada por terrenos baldios e áreas verdes, parecido com ambiente rural. Nossos pais mantinham uma horta, pequeno pomar, e criação de galinhas. Numa grande ninhada, vingou um pintinho que logo nos primeiros dias de vida deu sinal de estar doente, o pintinho entrava em convulsão, debatia-se por alguns minutos, e depois voltava ao normal. Desenvolvia-se rapidamente tendo crescimento além do normal e sempre com o problema das convulsões, até tornar-se um belo galo, vermelhão, com forte bico e agudas esporas.

 

Minha mãe condoída com a situação resolveu preservar o animal e consagrou-o a São Roque, que ela acreditava ser o padroeiro dos animais. Assim esse galo não poderia ser molestado nem sacrificado devendo viver placidamente até sua morte natural.

 

De tanto brincar com ele, descobrimos como incitá-lo a ter as convulsões, bastava irritá-lo um pouco e o bicho danava a se debater, mas agora ficava extremamente agressivo. Com a noticia que se instalara no bairro uma rinha de galos, fomos até o local, a princípio por curiosidade, mas bastou ver as apostas para despertar nosso interesse, aí decidimos que colocaríamos o “São Roque” para brigar.

 

Dedicamos-nos a treinar o galo, todos os dias por uma hora, o bicho ficava cada vez mais agressivo. Chegou sábado, fomos à rinha e o “São Roque” deu o maior couro no Trovão, e ainda bateu dois outros galos no primeiro round, ali nascia um Campeão.

 

Outras brigas vieram, e nossa euforia só se comparava com o medo da mãe que já andava desconfiada. Naquele dia, a nossa seria a última briga da rinha, briga de campeões. Mas esse duelo não aconteceu, nossa mãe chegou e acabou com a festa.

 

A tragédia aconteceu mesmo foi na hora do jantar, após sentarmos à mesa nossa mãe colocou uma travessa com cheiroso frango (ou galo) ensopado. Ficamos petrificados com a cena, num choro convulsivo saímos da mesa, nosso herói estava ali morto, preparado ao molho pardo. Nos recolhemos tristes por ter quebrado a palavra dada à mãe, e por ter perdido nosso melhor amigo.

 

Pela manhã ouvimos o cantar de um galo, e imaginávamos ser o espírito do “São Roque” se despedindo. Meu irmão foi ao armário pegou uma vela acendeu-a e começou a rezar pedindo a Deus que levasse o “São Roque” para o céu dos Galos, onde a vida deve ser bem melhor. Minha mãe vendo aquela situação se aproximou nos pegou pelo braço, abriu a porta e nos mostrou o “São Roque” que esplendoroso cantava saudando um novo dia. O frango servido à mesa havia sido outro.

 

O “São Roque” viveu ainda por um bom tempo, até desaparecer, provavelmente indo para o céu dos Galos.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30. Tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio.

Avalanche Tricolor: melhor recepção impossível!

 

Grêmio 1×0 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Douglas e cia festejam gol da vitória, em foro de LUCAS UEBEL/GrêmioFBPA

 

Cheguei há pouco a São Paulo. As férias estão terminando. Em dois dias estarei de volta ao trabalho. Reservei o domingo para colocar o fuso horário no eixo, depois de duas semanas com o corpo e a mente “rodando” cinco horas à frente. Fui muito bem recebido em casa, onde Bocelli, o Gato, me deu as boas vindas com um miado alto e forte como se reclamasse de saudades pelo tempo afastado.

 

Fui melhor ainda recebido pelo Grêmio, que mexeu no time para se adaptar as negociações e convocações. Na escalação, algumas surpresas para o torcedor como a preferência de Roger por Negueba para substituir Giuliano. E Roger fez certo. Nosso novo meio-campo foi apontado como um dos destaques da partida.

 

Soube de fonte segura que até meu amigo Teco Medina, são paulino de coração, bateu palmas para ele ao fim do jogo.

 

No time que me deu as boas vindas, tinha também, a confirmação de Jaílson, em lugar de Walace, para formar a dupla de volantes com Maicon, e de Miller Bolaños ocupando o espaço de Luan. Os dois cumpriram muito bem o seu papel, com Miller tendo sido fundamental para a vitória e mostrando que está pronto para reassumir a posição de titular, após convocações, lesões e complicações.

 

Neste meu retorno ao Brasil, o adversário era tradicional e histórico, e mesmo que tenha tropeçado aqui e acolá, nesta temporada, é sempre perigoso. Até agora não o havíamos vencido na Arena, nas quatro partidas até então disputadas.

 

Bem que o goleiro deles se esforçou para manter a escrita. Saltou pra cá, saltou pra lá. Defendeu com uma mão, com as duas, e quando não dava para alcançar a bola, deve ter cruzados os dedos, pois ela teimava em não entrar.

 

Do outro lado do campo, Marcelo Grohe assistiu ao jogo sem qualquer esforço. Na única vez em que o perigo parecia próximo, Geromel surgiu para despachar para escanteio. Aliás, nosso zagueiro segue encantando o torcedor.

 

Na defesa, fiquei muito feliz ainda com a maneira como fui recepcionado por Edílson, para quem o adversário torce o nariz, mas que dá conta do recado e com toques de picardia.

 

Soube das mesmas fontes anteriores que Teco Medina quer ganhar de aniversário uma camisa autografada pelo nosso lateral direito. Se não tiver a dele, pode ser a do Douglas. Apesar de que a deste, guardaria comigo na coleção que estou reconstruindo.

 

A camisa 10 tem sido vestida com genialidade por Douglas. No meio de campo, ele distribui o jogo com qualidade invejável, tem um passe refinado e facilita a vida de seus companheiros como nenhum outro em campo. No jogo de hoje, deu uma sequência de passes, no segundo tempo, que merecia o replay (mas o pessoal da TV prefere repetir pontapés e encontrões). Não bastasse o talento, Douglas tem se consagrado como reboteiro e marcado gols como o deste domingo, semelhante ao que já havia feito contra Santos, Cruzeiro e Inter. Mereceu todas as palmas recebidas quando deixou o gramado (inclusive as do Teco).

 

O Grêmio jogou muito melhor, quebrou um tabu na Arena, venceu um clássico e ficou apenas a dois pontos da liderança do Campeonato Brasileiro, após 16 partidas disputadas. Ainda por cima, tive o direito de brincar com meu grande amigo e colega de trabalho Teco Medina (aquele que sempre acha que eu tiro mais férias do que mereço).

 

Melhor recepção impossível!

Quintanares: Nem sabes como foi naquele dia

 

 

Poema de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

XXXII [NEM SABES COMO FOI NAQUELE DIA]

 

XXXII
Para Pedro Wayne

 

Nem sabes como foi naquele dia…
Uma reunião em suma tão vulgar!
Tu caíste em estado de poesia
Quando o Sr. Prefeito ia falar…

 

O mal sagrado! Que remédio havia?!
E como para nunca mais voltar,
Lá te foste na tarde de elegia,
Por essas ruas a perambular.

 

Paraste enfim junto a um salgueiro doente,
Um salgueiro que espiava sobre o rio
A primeira estrelinha… E, longamente,

 

Também ficaste à espera (quanta ânsia!)…
Mas a estrelinha, como um sonho, abriu,
Longe, no céu azul da tua infância!

 

Quintanares foi originalmente ao ar na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980.

Extensão de marca e a pesquisa IBOPE no varejo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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As empresas quando se encontram em situação intensa de sucesso ou de insucesso, tendem a procurar formas de aumento de mercado.

 

Como se sabe o crescimento dos negócios das empresas pode se dar por categoria, quando a ampliação é feita através de produtos diferentes. Ou por público alvo diferente.

 

A questão maior que se apresenta é criar uma segunda marca ou estender a atual.

 

Em boa parte a opção usada é manter a marca já existente. Os resultados apontam mais erros do que acertos, e há autores como Al Ries, que atribui a extensão de marca como a responsável pela ausência das marcas asiáticas na liderança dos mercados. Afinal, são eles os maiores usuários do expediente da marca única para diversos produtos de diferentes públicos alvo e categorias.

 

É inegável que o posicionamento único de uma só marca é mais sólido e perene. OMO é sabão em pó, GILLETTE é lâmina de barbear ou “gilete”, Xerox é cópia, Harley Davison é motocicleta. Mas, ao lado desta simplificação positiva há outros casos em que a extensão tem apresentado sucesso.

 

A recente pesquisa IBOPE que abordamos anteriormente, nos dá uma informação sobre as marcas únicas e as estendidas.

 

A Le Lis Blanc, a marca melhor avaliada da pesquisa, expandiu com produtos de decoração dentro do guarda-chuva Le Lis Blanc e criou para o masculino a Noir. Conseguiu manter a liderança na moda feminina classe A.

 

A Richards apresenta um raro desempenho de extensão de marca, com a liderança na moda masculina e no calçado masculino classe A.

 

Torra Torra no vestuário feminino e artigos infantis , e Impecável no vestuário masculino e calçados masculinos, ambas na classe C também conseguem os primeiros lugares em categorias diferentes.

 

Ao lado dos casos favoráveis de extensão de marcas, a pesquisa IBOPE mostra marcas únicas liderando: Schutz, Bayard, PUC, Mundo dos Enxovais, Mercatto, Seller, Narciso Enxovais.

 

Este quadro leva a concluir, que criar marca nova para atender novos públicos alvos ou novas categorias de produtos, é a opção mais segura, que, entretanto não invalida a extensão de marca.

 

Leia ainda: “O IBOPE das marcas”

 

Leia, também:  “Varejo internacional: fracasso e oportunidade”

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

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Convenções partidárias: está na hora de os partidos decidirem quem são os candidatos a prefeito e vereador

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

Embora os assuntos dominantes no país sejam as delações premiadas e o impeachment, 2016 também é ano de eleição municipal. Para que os candidatos possam efetivamente disputá-la, necessitam obrigatoriamente serem homologados pelas convenções dos seus partidos políticos.

 

Convenções, para lembrar, são aqueles eventos que oficializam as candidaturas dos filiados aos cargos que estarão em disputa na eleição e deliberam sobre os demais assuntos de interesse dos partidos. Embora geralmente tenham contornos festivos e sirvam para ajustes internos das agremiações, também são atos complexos que tem repercussão no mundo jurídico porque as suas deliberações são soberanas e vinculantes.

 

Calha observar que a redação original da Lei das Eleições estabelecia 21 dias para a realização das convenções. A Lei nº 12.891, de 2013, subtraiu-lhe dois dias. A disciplina atual, de 2015, prevê pouco mais de duas semanas para a sua realização. Sendo esse prazo exíguo e de contagem ininterrupta, todos os dias compreendidos entre 20 de julho e 5 de agosto podem ser utilizados pelas agremiações.

 

Também é importante observar que a lei não estabeleceu datas extras. Logo, se os partidos não as realizarem no prazo estabelecido, estarão impossibilitados juridicamente de apresentar candidatos e de formalizar coligações.

 

Em termos logísticos, geralmente os partidos políticos não dispõem de sedes suficientemente amplas para acomodar todos os convencionais que estão habilitados para votar. Sendo assim, para realizar as suas convenções, eles poderão utilizar gratuitamente qualquer prédio público, responsabilizando-se pelos eventuais danos causados. Neste quesito, a regra vigente possibilita aos interessados escolher o local mais conveniente, não havendo necessidade da solenidade partidária recair exclusivamente nas sedes do Poder Legislativo.

 

Acerca daqueles filiados eventualmente insatisfeitos com os rumos da convenção, os mesmos dispõem do direito de impugná-la arguindo a ocorrência de desvios ou casuísmos. Nestes casos, a Justiça Eleitoral detém competência para conhecer de litígio onde é suscitada uma possível ilegalidade de ato praticado no âmbito partidário com reflexos no processo eleitoral.

 

Por fim, é de se destacar que não há, na legislação, veto ao uso de faixas, balões, banners e cartazes para a propaganda intrapartidária no dia da convenção, desde que afixada em local próximo ou no interior do prédio onde será realizada, com as mensagens sendo direcionadas exclusivamente aos correligionários e não ao público em geral.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e prática” (2016).Escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: tropeço nas férias, não muda humor nem busca pelo título

 

Sport 4×2 Grêmio
Brasileiro – Ilha do Retiro/Recife

 

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A lua quase cheia me acompanhou pela madrugada enquanto assistia ao Grêmio, na Itália (foto: Abigail Costa)

 

Havia um tempo em que assistir aos jogos do Grêmio quando estávamos no exterior era um desafio à parte. A internet não havia se expandido, a tecnologia era precária e as transmissões pela televisão não alcançavam tão longe. Alguns sites com endereços duvidosos e arquivos maliciosos pirateavam as imagens da TV, que nem sempre chegavam com a qualidade desejada.

 

Os tempos são outros. O sinal de internet está muito mais acessível e os aplicativos estão disponíveis, desde que você tenha a assinatura da TV a cabo ou do pay-per-view. Já havia visto partida a bordo de um avião, cruzando o Oceano Atlântico, na tela do meu celular, portanto minha estada na Toscana, na costa do Tirreno, não seria motivo para me deixar longe do Grêmio.

 

De estranho mesmo, apenas o horário, pois aqui na Itália estamos cinco horas na frente do Brasil, e, assim, o que era final da tarde de domingo para você, já era fim de noite para mim. O jogo se iniciaria antes da meia noite e se estenderia pela madrugada. Como meu compromisso nessas férias é esperar o sol chegar e descansar na beira da praia, dormir tarde também não seria um problema.

 

Ipad conectado à internet, tela ampliada, transmissão iniciada e uma noite de verão europeu agradável, com lua quase cheia no céu: o cenário era perfeito para curtir meu Grêmio neste meio de férias. Pra deixar a turma com inveja: o vinho estava servido, também.

 

Aquela bola no poste assim que o jogo começou era o sinal para que aumentassem meu entusiasmo pelo time e a expectativa pelos três pontos que nos colocariam na vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Os fatos que se sucederam, porém, frustraram meu programa de férias.

 

Depois de estarmos perdendo por dois a zero e desperdiçando muitos gols, no primeiro tempo, bem que Geromel se esforçou para me devolver a satisfação nesta noite, na volta para o segundo tempo. A reação durou pouco e nossos erros defensivos se repetiram.

 

Deixar de somar três pontos fora de casa, não é uma tragédia. Tem gente desperdiçando esses pontos diante da sua própria torcida. Mas como temos pretensões que vão bem além da maioria dos que estão disputando este campeonato, não devemos simplesmente aceitar o resultado passivamente.

 

Roger terá muito que conversar e treinar, conversar mais ainda e treinar ainda mais, nos próximos dias, para ajustar o que nos falta e darmos o salto maior nesta competição: chegar à liderança e lá permanecermos.

 

Como confio no trabalho de Roger e do elenco, sigo em frente com minhas férias, tranquilo, porque não será um tropeço no caminho que irá me tirar o bom humor nem estragar o sabor do vinho.

Quintanares: É outono. E é Verlaine…o Velho outono

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos, 1940
Interpretado por Milton Ferretti Jung

 

XXXI [É OUTONO. E É VERLAINE… O VELHO OUTONO]
XXXI

 

É outono. E é Verlaine… O Velho Outono
Ou o Velho Poeta atira-me à janela
Uma das muitas folhas amarelas
De que ele é o dispersivo dono…

 

E há uns salgueiros a pender de sono
Sobre um fundo de pálida aquarela.
E há (está previsto) este abandono…
Ó velhas rimas! É acabar com elas!

 

Mas o Outono apanha-as… E, sutil,
Com o rosto a rir-se em rugazinhas mil,
Toca de novo o seu fatal motivo:

 

Um quê de melancólico e solene
─ E para todo o sempre evocativo ─
Na frauta enferrujada de Verlaine…

 

Quintanares foi produzido e apresentado, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre, nos anos de 1980

Conte Sua História de SP: vinha pra vida, no coração da cidade

 

Por Silvio de Melo Martins
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci e moro em São Paulo há 61 anos.

 

“Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João” – Caetano Veloso

 

Sim! Alguma coisa aconteceu no meu coração quando cruzei o centro velho de São Paulo. Estava exatamente no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João. Não foi melancolia! Foi o que fizeram com a minha cidade.

 

Lembrei dos tempos de faculdade, vinha de Guarulhos onde estudava. Saía no meio da aula noturna, já cansado de um dia de trabalho, mas com o vigor da juventude vinha para a vida, no coração da cidade de São Paulo. Demorava duas horas para chegar.

 

Éramos quatro: eu, Robertão, Mishio e Jessé. Às vezes, vínhamos na Brasília velha do Robertão, mas para economizarmos preferíamos mesmo o ônibus. Parávamos no Parque Dom Pedro II, subíamos a Ladeira Porto Geral, logo a rua Direita, a praça Patriarca, depois Viaduto do Chá. Passávamos pelo Teatro Municipal, sempre fervilhando de gente elegante. Pela Pitt, com sua vitrine e luminoso imensos. Descíamos a Conselheiro Crispiniano e estávamos na São João.

 

Lembro das ruas cheias de vida, as pessoas que desciam apressadas para o Largo do Paissandú ou Praça do Correio, talvez para pegarem o ultimo ônibus ou quem sabe a última sessão de cinema.

 

A avenida São João com seus cinema: o Art Palácio, tão imponente. Havia outros, Olido, Comodoro, Ritz …

 

Nossas vidas estavam ligadas à São João. Viam-se as pessoas entrando nos cinemas, felizes para a sessão. Falando alto. Os filmes eram os últimos lançamentos de Hollywood. Casais que passavam por nós, por vezes caminhavam na noite quente se deliciando com um sorvete ou apenas comendo pipoca. O mundo não importava a eles! Nem a nós!

 

Nosso “point” era a livraria Avenida com sua entrada discreta, seus engraxates, a charutaria e a lanchonete. Sentávamos para tomar café e jogarmos conversa fora. Por vezes uma paquera, nada mais que isso. Às vezes, folheávamos uma revista, ríamos e comprávamos livros, principalmente os de química.

 

Andávamos pela São João, uma ou outra vez um filme ou uma caminhada até a Alameda Nothman com suas casas noturnas. Tomávamos mais café, refrigerantes … Quando a fome apertavam descíamos para comer um lanche frio no Largo do Paissandú. Andávamos pela madrugada despreocupados. E as pessoas sem qualquer vontade de ir embora, lotavam a avenida e as ruas laterais, davam vida ao lugar. Grupos vindo de um lado, outros no sentido contrário. Riam! Brincavam entre eles.

 

Muitas vezes saíamos em direção a Ipiranga, o Bar Brahma. Quantas vezes pudemos ver o Adoniram por lá. Sentado, tomando sua cerveja rodeado de amigos. Acredito que muitos sucessos tenham tido inspiração ali.

 

Fim de madrugada, às vezes chegávamos à Ipiranga e alguns bares estavam fechando. A população noturna das boates da região tomava seu rumo, por vezes em direção a São Luís ou República para pegar um táxi ou mesmo o elétrico que ali faziam ponto.

 

Nós, agora como outros, íamos em direção ao Parque Dom Pedro II. Jessé tinha um longo caminho, era o único que morava em Guarulhos. A noite tinha sido boa. Afinal fugíamos de uma semana trivial. Tínhamos nos divertido como tantos naquela noite.

 

Após a despedida do Jessé, tomávamos o ônibus rumo a zona leste. Pelo caminho íamos nos despedindo. Hoje nem sei por onde eles andam. A vida nos fez perder contato.

 

Hoje, alguma coisa acontece no meu coração, a cidade que eu amo, tão abandonada foi tomada pelos drogados e camelôs. Cada esquina está marcada pela violência e degradação. Hoje, porém, eu vi que tenho muito a ver com essa cidade e sou um dos responsáveis, pela omissão, no que ela se tornou.

 

Agora cruzo a Ipiranga e a Avenida São João, como cruzo as ruas do centro de São Paulo, e alguma coisa acontece no meu coração.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, após às 10h30. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Para participar, envie texto para milton@cbn.com.br

Desligar é preciso!

 

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Foi-se o tempo em que nas férias tínhamos permissão para o isolamento,  era o momento de descansar o corpo e a mente. Do trabalho ficava-se afastado. Dos problemas do cotidiano, também. Todos a quilômetros de distância, que podia ser medida por linhas telefônicas precárias e caras. Para ligar em casa, ficávamos horas na fila e a conversa tinha de ser rápida para não inviabilizar o orçamento das férias. Estivéssemos no exterior, era mais fácil enviar um cartão postal, que tendia chegar ao destino depois de nós.

 

As notícias não circulavam. Quando muito apareciam estampadas na banca de jornal. Dependendo o lugar, chegavam à tarde. Em outros, só se alguém estivesse chegando à cidade. Lembro que em Nova York costumávamos ir até a rua dos brasileiros onde algumas tabacarias vendiam o Estadão, único jornal que desembarcava por lá nas asas das extintas Varig e Vasp. O que líamos tinha o sabor da novidade.

 

Hoje, assim que acordo, a tela do celular estampa as últimas do dia. O Twitter já me contou pedaços da história. E a caixa de correio eletrônico está cheia de pedidos e ofertas enviados por quem não sabe que você tem direito a férias.

 

Nestes últimos dias, os primeiros das férias, tenho sido bombardeado por tragédias.

 

Aqui na Itália, dois trens se chocam e 27 pessoas morrem. Teria havido falha humana, dizem os investigadores. Um agente de tráfego ferroviário não avisou ao outro que deixou passar despercebido e todos permitiram que dois trens pegassem a mesma via em sentidos contrários. Falha desse diacho da comunicação, o que nos remete a uma contradição moderna: ao mesmo tempo que estamos sufocados de informação, deixamos as essenciais de lado.

 

Além da comunicação, o acidente pode ter sido provocado pela corrupção, também. É o que diz a Autoridade Nacional Anti-Corrupção, Raffaele Cantone: o dinheiro roubado deixa de financiar obras de infraestrutura como as que duplicariam a linha onde ocorreu o acidente, que deveriam ter sido concluídas até o ano passado. Ainda não se iniciaram. Para ele, este é “um problema atávico do nosso país”. Do nosso também.

 

A imagem dos dois trens fundidos em ferro e morte destacada nos jornais e internet em seguida foi substituída pela de um caminhão conduzido por um terrorista, em Nice, na França. Ele atropelou e atirou contra a multidão que comemorava o 14 de julho, feriado nacional para celebrar os valores da Revolução Francesa. São 84 mortos até a última atualização. O motorista é um franco-tunisiano e foi morto por policiais.

 

Claro que eu poderia simplesmente desligar-me de tudo. Ao menos tentar. Deixar o computador fora do alcance ou o celular sem bateria. Talvez tivesse de restringir meu contato com as pessoas a um buongiorno ou uma buona sera, sem abertura para conversas do tipo: “che cosa succede?”.

 

Quem disse que consigo?

 

Aqui estou no computador, atualizando o blog para compartilhar com você, caro e raro leitor, as coisas que se sucedem – como se você não soubesse de tudo isso e mais um pouco. A impressão é que se não fizer isto, o cérebro vai transbordar de informação, o que me remete a percepção de Alain de Botton, filósofo do cotidiano, que  diz sermos todos viciados em notícia.

 

Para relaxar talvez a opção seja se ligar na sensação do momento e se transformar em um caçador de Pokemon. Aqui na Itália, aí no Brasil, ou em qualquer lugar que você navegar no noticiário, vai se deparar com informações sobre o novo jogo da Nintendo. Até autoridades públicas entraram na brincadeira como o prefeito Eduardo Paes pedindo que os monstrinhos cheguem para a Rio2016.

 

O problema é que pra se divertir tem de se conectar. E desligar é preciso!