Por Simone Domingues
“Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”
João Guimarães Rosa
Em 1990, durante uma viagem de trem entre Manchester e Londres, uma jovem teve uma ideia que mudaria completamente sua vida. O trem estava atrasado e, sem uma caneta à mão, ela passou o tempo imaginando a história de um garoto que cresceu sem saber que era bruxo, até descobrir que pertencia a um mundo mágico. A jovem se chamava Joanne Rowling, e aquele personagem se tornaria conhecido mundialmente como Harry Potter.
Nos sete anos que se seguiram àquela viagem, até a publicação do primeiro livro, em 1997, muita coisa aconteceu. Rowling perdeu a mãe, enfrentou o fim de um casamento, tornou-se mãe solo e passou por dificuldades financeiras importantes. Continuou escrevendo, apesar das adversidades, e recebeu diversas recusas de editoras antes de conseguir publicar seu livro.
É curioso pensar que, durante aqueles anos, ela não tinha como imaginar o que estava por vir. Possivelmente tinha sonhos, fazia planos e desejava que seu trabalho fosse reconhecido. Enquanto tentava encontrar seu caminho, a vida lhe apresentava dificuldades e possibilidades que ela não poderia antecipar.
A trajetória de Rowling me fez lembrar de uma frase que costumo repetir e na qual acredito profundamente: uma hora a vida nos alcança.
Gosto de pensar que, enquanto seguimos nossos caminhos, a vida também acontece, trazendo encontros, oportunidades e acontecimentos que não planejamos e que, por vezes, mudam completamente o rumo da nossa história.
Não se trata de um otimismo ingênuo, daqueles que nos fazem acreditar que tudo vai dar certo ou que, depois de muito sofrimento, a vida necessariamente nos recompensará. Afinal, as coisas ruins também nos alcançam, geralmente sem aviso e sem que possamos fazer algo para evitá-las.
Por mais que façamos planos e nos esforcemos para construir a vida que desejamos, existe uma parte importante do que vivemos que não está sob nosso controle. E isso não precisa ser, necessariamente, uma má notícia.
Desde cedo, somos incentivados a estabelecer objetivos: estudar, escolher uma profissão, construir uma carreira, encontrar alguém para compartilhar a vida, formar uma família, adquirir estabilidade financeira… E fazemos bem em ter projetos. Eles nos mobilizam, orientam nossas escolhas e dão sentido à nossa vida. O problema talvez comece quando estabelecemos prazos para realizar nossos desejos, como se houvesse uma idade certa para cada conquista e uma sequência que a vida fosse obrigada a seguir.
E, quando as coisas não acontecem no tempo que imaginamos, podemos sentir que estamos ficando para trás. Mas quem disse que existe um tempo certo para cada coisa acontecer?
Basta olhar para trás para perceber quantas coisas importantes surgiram sem que pudéssemos antecipá-las: pessoas que hoje ocupam um lugar fundamental em nossa vida e que, alguns anos atrás, sequer conhecíamos; amizades inesperadas; relações afetivas que começaram por acaso; encontros que modificaram nossa maneira de pensar ou de compreender o mundo.
O mesmo acontece na vida profissional. Podemos passar anos imaginando uma carreira e, de repente, receber um convite, descobrir um interesse ou encontrar uma oportunidade que não havíamos considerado.
Por vezes, uma mudança de direção acaba nos conduzindo a experiências que não teríamos vivido de outra maneira.
Isso não significa que toda dificuldade esconda uma oportunidade ou que as perdas precisem trazer algum aprendizado. Há acontecimentos simplesmente dolorosos, diante dos quais precisamos de tempo para nos reorganizar. Nem mesmo nesses momentos conseguimos antecipar tudo o que ainda está por vir.
O futuro também é feito de pessoas que ainda não conhecemos, lugares onde nunca estivemos e possibilidades que sequer aprendemos a imaginar. E, quem sabe, de versões de nós mesmos que ainda não tivemos a chance de descobrir.
Guimarães Rosa nos lembra que aprender a viver é o próprio viver. E talvez seja justamente assim: não aprendemos primeiro para depois enfrentar a vida. Vamos aprendendo enquanto ela acontece, com aquilo que escolhemos e com o que não estava nos nossos planos.
Afinal, não sabemos o que vamos encontrar na próxima estação.
E, às vezes, quando menos esperamos, a vida nos alcança.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.









