Mundo Corporativo, 20 anos: o 5G será uma disrupção na internet das coisas médicas, diz Fernando Paiva

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“O 5g para o ecossistema de saúde, quando a gente pensa em monitoramento remoto, seja de paciente, vai ser totalmente transformador”. 

Fernando Paiva

Uma central de comando que monitora à distância a saúde dos moradores da cidade; que usa as câmeras em áreas públicas não apenas para alertar para riscos na segurança, mas que sejam capazes de identificar, através do reconhecimento facial, que os dados captados de uma pessoa demonstram desvios de padrão e enviem a ela a mensagem de que deve procurar atendimento médico. Ficção científica? No nosso imaginário, com certeza. No campo da tecnologia, nem tanto. Hoje, já existe inteligência suficiente para implantar um sistema semelhante a esse que foi descrito por Fernando Paiva, no programa Mundo Corporativo.

Como a tecnologia influenciará o atendimento aos pacientes e contribuirá com a qualidade de vida dos brasileiros foi o tema escolhido pelo Mundo Corporativo para a estreia desta temporada que marca os 20 anos do programa.

Fernando não é médico por formação. É engenheiro, estudou economia, e administração de empresas; é apaixonado pela tecnologia de informação — talvez resultado das aulas de programação que teve quando ainda estava com apenas 13 anos. Hoje, faz mestrado em internet das coisas na área médica (IoMT), na Faculdade de Medicina da USP:

“Cheguei a um momento da vida que eu gostaria de gerar mais impacto social, que traria realmente algum resultado na vida das pessoas. E a área da saúde é apaixonante porque você sabe que no final do dia, quando você vai dormir, aquele trabalho que você realizou, de maneira direta ou indireta, está salvando uma vida, contribuindo com a longevidade”.

Entusiasmado com a chegada da tecnologia 5G ao país, Fernando identifica uma série de oportunidades que devem surgir nesse mercado; e chama atenção dos empreendedores para a necessidade de se enxergar o ecossistema de saúde no Brasil para entender melhor a jornada do paciente, que se inicia muito antes dele passar por laboratórios, clínicas e hospitais:

“Essa jornada se inicia dentro e fora do ambiente da clínica hospitalar. Quando você está fazendo um tratamento preditivo ou um acompanhamento preventivo, você já está inserido no ecossistema de ‘health care’’.

Se a cidade que monitora a segurança da saúde das pessoas é realidade ainda distante dos nossos olhos, no Brasil – o que ainda exigirá um debate técnico e ético – , existem outras mudanças que logo poderão ser percebidas com a oferta do 5G. A começar pela velocidade e constância na transmissão de dados e informações que pode agilizar o atendimento do paciente ou otimizar a telemedicina, experiência que passou a fazer parte da vida dos pacientes durante a pandemia.  O ‘home care’ – que permite tratamento fora de uma unidade de saúde especializada e oferece ao paciente o conforto de estar em sua própria casa e ao lado da família – será um dos sistemas mais beneficiados. O paciente poderá ser monitorado em tempo real e intervenções poderão ser feitas muito mais rapidamente.

“O 5G será uma disrupção”

Para que empreendedores e investidores entendam melhor como a internet das coisas médicas pode se transformar em oportunidade, além de conhecer o ecossistema da saúde e a jornada do paciente, Fernando Paiva deixa as seguintes sugestões;

  • Faça um mergulho profundo em tecnologia, porque elas são muito dinâmicas e transformadoras. É preciso conhecer o hardware, o software e a infraestutura tecnológica; isso é fundamental para o empreendedor.
  • Se você tem uma base muito forte em tecnologia, busque um consultoria especializada em saúde, converse com médicos e profissionais de saúde; dialogue com o meio para ter um ‘banho de loja’;
  • O ecossistema de saúde brasileiro tem suas peculiaridades e é extremamente conservador; não basta ter bilhões de dólares na conta para convencer que a sua solução é a melhor: é preciso falar a linguagem do setor.

Assista à entrevista completa com Fernando Paiva no Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feira, às 11 horas da manhã, na canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site http://www.cbn.com.br. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h15, no Jornal da CBN. E tem a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.

Conte Sua História de São Paulo 468: o office-boy que nos apresentou a cidade

Francisco Moacir Assunção Filho

Ouvinte da CBN

E lá se vão mais de 40 anos. Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978, ao lado do meu pai, Moacir Assunção, do mano Marcondes e da mana Eva. Éramos todos adolescentes e eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus enormes arranha-céus futuristas, além de cenas gerais que mostravam a selva de pedra que era essa cidade. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “como São Paulo é feia”. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo, na Praça da República, ao lado da qual moro atualmente. Me apaixonei  perdidamente, como era de se esperar.

Enfrentei, de cara, o enorme preconceito que havia contra nordestinos – todos genericamente baianos para os paulistanos. Esses eram sinônimo de burrice, ignorância e brutalidade. Uma vez, na agência em que trabalhava, tive uma discussão com um argentino que criticava os “baianos”, citados por ele com um curioso sotaque portenho que soava assim: “baiános”. Para ele, ignorante como era, baianos eram pouco inteligentes e não eram brasileiros. Tive que esclarecer à curiosa figura que ele é que não era brasileiro e o Brasil havia começado pela Bahia. Respondi assim à acusação de burrice: “os baianos são burros mesmo, lá nasceram uns tais de Ruy Barbosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Amado e Raul Seixas, todos muito burros”. O sujeito se calou e não falou mais comigo, o que me deu muito prazer. Descobri, depois, que os baianos foram os primeiros nordestinos a chegar, de forma organizada, na cidade, a convite do fundador da Nitroquímica, o empresário pernambucano José Ermírio de Morais, na década de 1930.

Curiosamente, nunca mais ouvi falar desse preconceito. Ninguém mais me chamou de baiano ou ouvi essa expressão de forma depreciativa. Atribuo isso ao maior conhecimento do Nordeste por parte dos paulistas e paulistanos e ao grande número de nordestinos, muito deles bem-sucedidos em vários aspectos, que há na cidade, a maior capital “nordestina” do Brasil.  

Logo, comecei a andar pela cidade, pelo Centro, que nem de longe conhecia, embora tivesse dito que conhecia tudo, para conquistar o emprego que me garantiria meio salário mínimo por mês. Salário muito importante para uma família recém-chegada que vivia na periferia e precisava se firmar na cidade grande. Até então meu conhecimento da capital acabava na Penha, zona leste.

Ao andar pela cidade com minha pastinha de boy cheia de documentos, me espantava com a altura dos prédios. Vim de uma cidade pequena do interior, Trindade, em Pernambuco, onde não havia prédios.  Nessas andanças, fui parar na extinta TV Tupi, no Sumaré, berço da TV brasileira, para entregar uma passagem e conheci dois grandes atores: Lima Duarte e Paulo Goulart. Ambos muito simpáticos, conversaram comigo e até pagaram a coxinha que comi na padaria ao lado. 

Tempos depois, subindo a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção à Paulista — eu  pegava o dinheiro pra condução, mas só andava a pé, porque os trocados eram gastos em churrasco grego, cinema e fliperama — vi uma multidão acompanhando a entrada em um prédio, que sabia ser do Exército (era a Segunda Auditoria Militar) de um homem barbudo, algemado e escoltado por dois soldados. Era Lula, conforme dizia, com muito cuidado, alguém na multidão. Tempos depois, já jornalista, o entrevistei como deputado e presidente.

Posteriormente, fui trabalhar na Livraria Saraiva da rua José Bonifácio, no coração do Centro, onde se consolidou o meu gosto pela leitura. Era responsável pelas estantes de História e de Sociologia – nem de longe imaginaria que eram duas das áreas que estudaria  mais à frente. Trabalhava no fundo da livraria e reconhecia o meu público. Quando via um jovem com óculos redondos, bolsa de couro e ar desleixado, tinha certeza que ia procurar livros destas áreas. E sempre acertava.

Fui, aos poucos, apesar dos problemas, me apaixonando por esta enorme cidade. Aqui, estudei, me tornei jornalista e professor e tive a oportunidade de, um dia, retribuir um pouquinho do que ela me ofereceu: mantive durante dois anos a coluna “Conheça seu Bairro” no extinto (e saudoso) jornal Diário Popular, na qual contei a história de mais de 120 bairros de São Paulo, o que me fez gostar mais ainda da maior e mais cosmopolita metrópole brasileira. Enfim, isso tudo é pra dizer que amo São Paulo, para mim a melhor cidade do Brasil, insuperável em todos os aspectos, na qual pretendo viver até o fim dos meus dias e fico feliz em saber que, depois de 42 anos morando aqui, adquiri a “cidadania paulistana”. Abraços a todos os conterrâneos.

Moacir Assunção  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: minha cidade tem praia, sim senhor!

Julio Araújo

Ouvinte da CBN

Era adolescente nos anos 1960 e gostava de folhear o Guia de Ruas  da Cidade de São Paulo. Se não me engano se chamava “Guia Levi”, e era vendido em bancas de jornal. Me detinha nos pontos para visita ou turísticos. Certa vez, folheando o guia, dois desses pontos me chamaram a atenção: Praia Azul e Praia do Sol.

Como assim?  São Paulo não tinha praia! Na minha cabeça, praia era algo grandioso. A praia que conhecíamos de verdade ficava longe, embora já existisse a rodovia Anchieta juntamente a Estrada Velha de Santos. Era viagem de pelo menos duas horas e meia.

Não lembro  como consegui  a informação, se foi no próprio guia, que as praias Azul e do Sol ficavam em Guarapiranga, pra lá de Santo Amaro.  Eu morava na  Vila Prudente. Santo Amaro era como se fosse outra cidade, de tão longe.

Num domingo resolvi encarar a aventura. Peguei ônibus para o largo Sete de Setembro; em seguida, embarquei no bonde na avenida Liberdade. O trajeto era interessante: passava pela Vila Mariana, São Judas, Moema, Aeroporto de Congonhas, Campo Belo, numa linha reta, no meio da via, e demorava  bastante, embora não houvesse trânsito. Em Santo Amaro, no Largo Treze, peguei outra condução para Guarapiranga. E depois outra, em direção à represa, onde estavam eu e mais um senhor acompanhado de dois meninos, pareciam ser seus netos. 

Perguntei a ele sobre a represa e a resposta foi de que eles estavam exatamente indo pra lá. Para a praia. Ele até levava varas de pesca. Quando descemos do ônibus, do outro lado da avenida  o senhor me disse: “aqui é o autódromo de Interlagos”, que era  bem rudimentar na época.

Descendo pela rua de frente, que mais parecia uma trilha, havia muitas casas noturnas. Uma delas chamava-se Chez Nous, que o senhor traduziu do francês: Para nós. Não era pra mim, não! Aliás, aquele  senhor  explicava cada detalhe; era como se fosse um guia de turismo.

Juntos chegamos. Havia crianças brincando, pessoas pescando, alguns barcos ao fundo. Caminhei pela beira para conhecer a orla. E ainda fui convidado para o lanche em família. Nos divertimos bastante. Conheci as Praias Azul e do Sol, apesar de não ter nenhuma placa indicando seus nomes. Mas eram praias. Fluviais. Mas praias paulistanas.

Quanto ao senhor e aos meninos nos despedimos, nem ao menos o nome deles fiquei sabendo, mas me marcaram muito até hoje.

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o papel estratégico do RH

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“Marcas sem um propósito são marcas sem alma” 

Jaime Troiano

“Você está sendo chamado no RH!”. Eita frase que ainda deixa muita gente de cabelo em pé na firma, não?!? Vem de um tempo que ao setor de recursos humanos só cabia contratar e demitir — também fazia folha de pagamento, cuidava do cartão de ponto e, em alguns casos, da festa de fim de ano. Isso é passado. Ainda bem. Até porque muitos dos profissionais da área têm formação de ciências humanas e dispõem de uma sensibilidade que não se limita mais as “quatro linhas”.  Foi desta disposição e conhecimento que surgiu o conceito do RH estratégico que, se estratégico o é, tem responsabilidade, também, sobre a marca da empresa. 

“Eles (o pessoal do RH) sabem melhor do que ninguém, dentro da organização, como a cultura e os significados da marca são como se fosse um ‘cola’ que mantém os colaboradores integrados e engajados”

Cecília Russo

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo chamaram atenção para o papel estratégico do Recursos Humanos que, ao fazer gestão de pessoas, também assume protagonismo na gestão da cultura da empresa. Jaime identificou três origens para que este movimento surgisse no cenário corporativo:

  1. A evolução técnica e profissional dos profissionais e do setor de RH dentro das empresas, com consequente empoderamento que ocorre a partir dos níveis mais altos de gestão.
  2. Os profissionais entenderam que a marca é algo que preenche o pensamento cultural da organização 
  3. A emergência do valor do Propósito na vida das empresas

“Os setores de marketing sempre viram o Propósito com um viés ou uma importância mercadológica, o que não deixa de ser muito relevante também. A turma de RH pensa no Propósito como uma argamassa que organiza a empresa do lado de dentro, que une as  pessoas”

Jaime Troiano

Na próxima vez que você for chamado no RH, vai pensando em como seu conhecimento e inteligência podem colaborar na construção de uma marca relevante: sim, assim como a turma da comunicação, do marketing e do recursos humanos, você também tem papel estratégico nessa área. A marca é uma construção coletiva. E quanto maior a participação, mais consistente fica.

Ouça o comentário completo de Jaime Troiano e Cecília sobre o papel estratégico do RH na gestão da marca: 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h55 da manhã.

Conte Sua História de São Paulo 468: saudades do meu bairro de São João Clímaco

Djalma Bom

Ouvinte da CBN

Imagem do bairro de São João Clímaco, SP

Saudades da minha infância e juventude nas décadas de 1950 e 1960, no bairro de São João Clímaco, na zona sul de São Paulo. Foi lá, na estrada de  São João Clímaco com a estrada das Lágrimas, o meu segundo emprego: na fábrica de Fogos de Artifício Albanese.

Lembro da minha caixa de engraxar sapatos. Profissão que adotei  para receber alguns trocados e ajudar a família, no Bar do Antonio Costa, também ali na São João Clímaco.

Na época, nadava no rio dos Parentes, na divisa com São Caetano do Sul; frequentava a paróquia do bairro, aos domingos; e estudava no Grupo Escolar São João Clímaco – sim, lá tudo leva esse nome. Foi onde aprendi o ABC, em uma predinho de madeira, atrás da paróquia. Na escola tinha a nossa querida diretora Dona Maria José e zeladora Dona Leontina. Tenho boas lembranças delas.

Aos domingos, além da missa, havia matinê, no Cine Cristal e no Cine Seckler. À noite, era hora do fotting que acontecia na própria estrada de São João Clímaco com a Rua São Silvestre.

Fui dar meus primeiros passos na dança nos bailes do Floresta, no Flor do Pinhal e no Carnaval, no Alencar de Araripe.

O que hoje é a favela de Heliópolis, ontem foi a maior várzea de futebol amador da capital: Floresta, Flor de São João Clímaco, Copa Rio, Flor do Pinhal, Guarani, Alencar de Araripe, Milionários, Sacomã, Flamenguinho e a Portuguesinha. Grandes craques foram revelados nessa várzea: Geraldo Scotto e Celso, do Palmeiras; Mosca e Rodelão, do Corinthians; Zé Luís da Ferroviária de Araraquara. O auge era o jogo de futebol de confraternização no fim do ano.

Quanta saudade do meu bairro de São João Clímaco.

Djalma Bom é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: o charme da av. São Luiz

Neusa Stranghette

Ouvinte da CBN

Nasci no Ipiranga e com dois anos de idade, a família mudou -se para São Caetano do Sul. Lá cresci, estudei e tive meu primeiro emprego, em uma multinacional, que ficava no meio do mato, mas que eu adorava. Em 1970, sai da empresa e retornamos para São Paulo, no bairro de Santa Cecilia. Foi a primeira vez que entrei num supermercado que eu e minha mãe frequentávamos como se fosse o um parque de diversões! 

Morar em São Paulo era só novidades! Mas precisava arrumar um emprego.

Num domingo li os classificados do jornal e achei uma agência de empregos na Praça da República, que pelo menos eu sabia onde era. Dia seguinte, me apresentei, preenchi uma ficha e recebi duas indicações: uma na avenida São Luiz e outra em Santo Amaro, que eu não tinha a menor ideia de onde ficava nem  como chegar….. 

Na hora, fui para a São Luiz. Quando entrei naquela avenida maravilhosa, arborizada — que prédios lindos —, decidi, naquele momento, que era ali que eu iria trabalhar.

Fui aprovada na entrevista e comecei na quarta-feira. Os colegas de trabalho foram se tornando amigos! Na galeria Copan, ali do lado, tomávamos café no Floresta, que existe até hoje. Almoçávamos todos os e dias e nas sextas fazíamos nosso happy-your, no Balloon. Na galeria, também, havia uma boutique, que todas as minhas colegas e amigas frequentavam. Tínhamos crédito com as donas, que sabiam direitinho quando teríamos aumento de salário. 

Gostávamos ainda de almoçar no Eduardo’s, no Franciscano e, quando recebíamos o vale-refeição,  na excelente feijoada do Brasilton.  Algumas vezes tinha almoço no Circolo Italiano, no Edificio Itália, e o maitre Mário nos tratava como VIPs. Mas o top era a primeira sexta-feira após o pagamento, quando a balada era no London Tavern, no Hilton Hotel. Éramos recebidas pelo Léo e ficávamos até a madrugada, sem medo de ser feliz!  

Hoje a  avenida São Luiz ainda mantém um pouco do charme da época. Bem pouquinho.  Só sobrevivem o Floresta e o Circolo Italiano. Nada mais de Balloon, Brasilton, lojinha de roupas, Eduardo’s, muito menos o Hilton. Nem a empresa onde trabalhei por  20 anos está mais ali.  Perdemos nossas referências. Ficaram fotos, os amigos, as memórias  … e viramos saudosistas.

Neusa Stranghette é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.


A fantasia das federações partidárias

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

As coligações que historicamente viabilizavam o acesso às cadeiras de deputados foram riscadas da legislação e substituídas pelas federações partidárias. Para instituir essa nova modalidade de consórcio político no Brasil, a Lei nº 14.208, de 28 de setembro de 2021, adicionou um artigo à Lei nº 9.096/95, que disciplina os partidos políticos, e outro à Lei nº 9.504/97, que é a lei eleitoral propriamente dita. Em vista das suas peculiaridades, algumas considerações se justificam.

 De início, importa esclarecer que a partir desse novo e escancaradamente exótico regramento jurídico, dois ou mais partidos têm o direito de reunir-se através de federação. Após ser formalizada e averbada pelos interessados perante o TSE, juntamente com um programa e um estatuto, a mesma passará a existir e atuar como se fosse uma única agremiação. Até aqui, conforme se constata sem maior esforço, as características descritas remetem à ideia de uma coligação reciclada. 

Relativamente ao padrão de vínculo estabelecido entre as siglas, a par de inédito e pouco convincente, caracteriza-se pela sua despropositada rigidez num país onde os partidos se aproximam ou se afastam conforme a direção e o odor dos ventos.

Afinal, enquanto as coligações eram alianças locais e transitórias, fadadas ao desaparecimento após o pleito, as federações têm abrangência nacional e perduram por no mínimo quatro anos.

Nesse contexto com ares de ficção, o partido que optar pelo rompimento prematuro do pacto e, com isso, se retirar do condomínio, sofrerá sanções severas, cumulativas e nitidamente desproporcionais: estará proibido de ingressar em outra federação, não poderá celebrar coligação majoritária nas duas eleições seguintes e, por fim, ficará impossibilitado de acessar o fundo partidário até que aquele prazo escoe.

  Pretensiosa, a lei nova também dispôs que as federações, tanto no curso das campanhas eleitorais quanto posteriormente, no âmbito do funcionamento parlamentar, estarão submetidas a todas as normas que regem a escolha e registro de candidatos, arrecadação e aplicação de recursos, propaganda, contagem de votos, obtenção de vagas, prestação de contas e convocação de suplentes. E aqui é que estão as maiores probabilidades de desavenças e escaramuças entre os sócios: fatiar a grana pública, os carguinhos nos parlamentos e as suplências – que deixam de ser partidárias para pertencer à federação.

 Se se trata de mais uma jabuticaba no país de Macunaíma ou da (improvável) evolução do sistema limando arestas, somente as urnas e o tempo evidenciarão. Entretanto, o caráter forçado e de burla à proibição constitucional das coligações emerge explícito. Porém, o mais patético, senão grotesco de tudo, é que as bancadas que lideraram a aprovação da salvação da própria pele no Congresso Nacional são exatamente as mesmas que agora mais reclamam dos efeitos derivados da lei. Alea jacta est.

Nota do editor: neste domingo, o jornalista Lauro Jardim, em sua coluna em O Globo, informa que partidos interessados em criar uma federação para este ano, estudam mudanças na lei para permitir que o consórcio se encerre no ano seguinte à eleição: “se tal ideia prosperar a federação de partidos seria uma ficção que valeria somente para 2022”

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e Prática” (Verbo Jurídico).

Conte Sua História de São Paulo 468: postal do Bixiga

Amaryllis Schloenbach

Ouvinte da CBN

Bairro do Bixiga em foto de Gabriel Fernandes no Flickr
Do alto da escadaria
uma paisagem bizarra
se desnuda ante meus olhos.
Reflexo de meu fascínio
pelo bairro que tanto amo,
de onde retiro o alimento
para os sonhos que sustento.
Como poeta solitária
em um mundo tão povoado,
os fantasmas do passado
acalento entre meus braços.
Bixiga tradicional,
por contraste, de vanguarda.
Região de tantas luzes
e de sons alucinados.


De pureza e sedução
de extravagantes pecados,
prostitutas, travestis,
parzinhos apaixonados.
De casais bem comportados,
de motéis sempre lotados.
De prédios ensolarados,
de becos, vilas, malocas
de malandragens, macumbas,
de entusiastas do samba,
de paulistas de costado,
de imigrantes arraigados.
De pizza, macarronada,
de vinhos, queijos, salames,
de um chopinho bem gelado.

De feiras, festas e crimes,
teatros, bares, cantinas,
buzinas, vaga ocupada,
guarda-carros e ambulantes.
Da Achiropita famosa,
de campanários e fé.
Da via expressa, da pressa,
dos passeios demorados.
De encontros despreocupados,
de luar, de serenata,
de meus antigos cismares,
de meus projetos futuros.
Do meu fervor, do meu pranto,
do meu gáudio, do meu riso,
Bixiga do meu encanto!

Amaryllis Schloenbach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Janeiro Branco: a importância dos cuidados com a saúde mental

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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Ao longo da história da humanidade, diferentes conceitos sobre o adoecimento mental conduziram a práticas desumanas que em muito contribuíram para os estigmas e preconceitos sofridos pelas pessoas que têm transtornos mentais.

Doentes mentais já foram considerados hereges; foram colocados em embarcações que vagavam à deriva por rios europeus; foram considerados perigosos e levados à prisão; já foram trancafiados em hospícios, excluídos do convívio social.

O avanço científico, especialmente o desenvolvimento das neurociências, permitiu novas compreensões e tratamentos dos transtornos mentais. Além disso, fenômenos sociais têm alertado sobre a necessidade de prevenção e promoção da saúde mental, conduzindo a estudos científicos que compreendam seus fatores de risco e proteção. 

A saúde mental de uma pessoa está relacionada ao seu bem-estar, ao autoconhecimento e a maneira como reage às situações de adversidades e conflitos, com o menor impacto sobre o seu funcionamento.

Alguns fatores de risco à saúde mental são apontados por estudiosos, como a experiência individual do estresse, a vulnerabilidade genética e fatores de risco ambientais, dentre os quais destacam-se: condições socioeconômicas desfavoráveis, como pobreza e falta de habitação segura, desemprego, baixa remuneração e violência.

Diante de tantos desafios e adversidades, o que permite que alguém se mantenha mentalmente saudável?

Ter esperança, satisfação em vários domínios da vida, autoaceitação, bons relacionamentos, maior capacidade de resiliência, maior tolerância à frustração, empatia, criatividade e espiritualidade são apontados nos estudos, como recursos e estratégias de enfrentamento mais positivas para o desenvolvimento da saúde mental. Esses recursos podem ser compreendidos como habilidades individuais para o enfrentamento, percepção de rede de apoio e engajamento social e autoconceito positivo.

Algumas atividades também estão relacionadas à redução do estresse, dos níveis de ansiedade e de depressão, tais como alimentação saudável, prática regular de atividade física, sono adequado, atividades de lazer, de relaxamento e de autocuidado.

Como cultivar essas práticas, quando há escassez de emprego, moradias inadequadas e tantas outras desigualdades sociais?

Cuidar da saúde mental não pode ser um modismo ou privilégio de alguns grupos sociais. É uma necessidade urgente e para todos, exigindo que programas preventivos sejam implementados, como políticas de saúde pública, tendo em vista o sofrimento que os transtornos mentais geram em pacientes e seus familiares e o elevado custo dos tratamentos.

Promover a saúde mental não é sinônimo de excluir das experiências de vida alguns sentimentos mais desagradáveis, como tristeza, raiva ou ansiedade. É colocar em prática ações preventivas que possam criar estratégias para que tais sentimentos sejam vividos, validados e superados sem o adoecimento emocional.

Cuidar da saúde mental não é uma ação individual. É coletiva, cuja responsabilidade recai sobre pessoas e organizações, sobre famílias, escolas, empresas e governantes. 

Somente é possível cuidar daquilo que se valoriza.

Mas qual é a medida de valor da nossa sociedade? Sucesso profissional? Dinheiro? Produtividade?

Enquanto houver negligência do autocuidado, privação dos momentos de lazer e aprendizagens que não priorizam o desenvolvimento de habilidades sociais, seremos levados à exaustão e nos manteremos adoecidos.

Que possamos criar uma cultura de saúde mental, como proposto pela campanha ‘Janeiro Branco’, não apenas como uma meta para esse mês, mas como uma cultura de saúde para o ano todo. 

Por um ano mais saudável, por um ano mais feliz!

Assista ao programa Dez Por Cento Mais sobre saúde mental, ao vivo,

nesta quarta-feira, dia 19 de janeiro, às 20 horas

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo 468: de canto em canto da cidade, desde o nascimento no Bexiga

Por Durval Pedroso

Ouvinte da CBN

Foto da Rua Augusta, em 1973

Desde o nascimento no Bexiga, no inicio dos anos 1950, esta cidade está impregnada na minha alma. Em cada momento me apaixonei por uma região, por um lugar da cidade. 

Na infância, Santo Amaro. Foi onde residi. Tinha mais do que um “appeal” todo especial. Era uma região bucólica onde o adensamento populacional era incipiente, onde as matas e a grande quantidade de campos futebol, se estendiam desde muito próximo do Largo Treze de Maio, o Largo da Matriz, até as cercanias do bairro do Socorro, onde hoje predomina o autódromo de Interlagos. 

Pescar na Ilha do Bororé, na represa Billings, era comparado a hoje ir para Mato Grosso ou até a Amazônia, pela virgindade da mata e quantidades de peixes. Sem falar das onças e dos macacos que ocupavam o imaginário infantil das crianças. Naquela época pegar o bonde dos botinas amarelas de Santo Amaro até a Praça Clovis Bevilácqua no centro da cidade era mais que a glória. 

No fim dos anos 1960 e por toda a década de 70, me apaixonei pela região dos Jardins, onde a Rua Augusta tinha um fascínio extra.

Os clubes esportivos e os locais de dança trouxeram ao adolescente o que esta cidade tinha de mais pungente. Não posso deixar de ressaltar a Praça do Por do Sol no Alto de Pinheiros, cujo o amanhecer junto a amada juvenil trazia deleites de uma leve taquicardia. 

Já os campus da USP na cidade universitária e o da PUC, tão efervescentes no período militar, traziam um sentimento de liberdade, e em muitos momentos nos davam a sensação de estarmos vivendo na Woodstock brasileira. 

Dessa época, tenho um registro grafado a fogo no meu coração, num jardim que ficava entre a Praça do Por do Sol e a Avenida Pedroso de Moraes. Por falta de dinheiro, estava roubando umas margaridas para dar à minha namorada. Fui pego em fragrante pelo guarda que fazia a ronda. Depois que contei minha história ele parou de me reprimir e me ajudou montar um ramalhete de margaridas. 

Nos anos 80 e 90 a região que mais me atraiu foi a da Avenida Paulista até os centros, velho e novo da cidade, onde a busca diária por um lugar ao sol na futura vida profissional, me fez conhecer as maravilhas da região. As praças da Sé, da República e Roosevelt formavam um triângulo onde tudo podia acontecer. Conhecer bares, restaurantes, boates e teatros, aliviavam as tensões de mais de dez horas de trabalho intenso de segunda à sexta. 

A virada do ano dois mil e os que se seguiram neste século 21, talvez em função da minha maturidade, me fez voltar atenção para a região expandida da alegria, da cultura, do entretenimento e do bom viver, que vai da glamorosa Vila Madalena até o charme do mais importante parque da cidade de São Paulo, o do Ibirapuera. 

Andar e viver as Ruas da Vila Madalena, é de fazer inveja ao público do badalado Soho, em Nova Iorque, porque aqui o encontro com os frequentadores, conhecidos ou não, são muito mais calorosos. 

Tomo a liberdade para parafrasear o grande Millôr Fernandez que dizia brincando “que só haveria justiça social se todos pudessem morar em Ipanema “.  Como paulistano da gema garanto que só se todos pudessem morar na Vila Madalena. 

Durval Pedroso é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.