O universo que vibra em nós

Por Beatriz Breves

Foto Pixabay on Pexels.com

Vamos imaginar que a espécie humana, ao longo de sua evolução, não tivesse desenvolvido o sentido da visão. Como perceberíamos o mundo? Como teria se desenrolado a história da humanidade se pudéssemos falar, ouvir, tocar, sentir o paladar e o cheiro, mas jamais enxergar?

Fica difícil imaginar esse cenário porque as pessoas com deficiência visual de hoje vivem em um mundo projetado por quem enxerga. Por isso, aprendem conceitos moldados pela experiência visual. Ainda assim, algumas desenvolvem técnicas próximas à ecolocalização — o mesmo mecanismo usado por morcegos para identificar objetos por meio do eco de sons de alta frequência. Esse fato revela que, mesmo sem a visão, a humanidade encontraria caminhos próprios de desenvolvimento, ainda que muito diferentes dos que conhecemos.

Ampliando esse exercício, no que diz respeito à audição, imaginemos que a espécie humana, que evoluiu percebendo sons entre 20 e 20 mil ciclos por segundo, tivesse adquirido a capacidade auditiva de um cachorro, capaz de alcançar até 50.mil ciclos por segundo. Ou de certas mariposas, sensíveis a frequências que ultrapassam 100 mil ciclos por segundo? Como teria evoluído nossa cultura, nossa linguagem, nosso conhecimento científico, enfim, a nossa percepção de mundo?

Os limites da percepção humana

Não é difícil concluir que cada ser vivo percebe o universo a partir de um campo sensorial próprio, moldado pela evolução. Assim, um cachorro vive na dimensão C; uma mariposa, na dimensão M; e o ser humano, na dimensão H. Essas dimensões não são lugares, mas modos de recortar o real, filtros que determinam o que existe para cada espécie.

A dimensão H, portanto, não é o universo em si, mas um fragmento do que conseguimos captar. A solidez da matéria, a estabilidade dos objetos, a separação entre o visível e o invisível, tudo isso é, em grande parte, uma construção da nossa forma de perceber.

Para tornar essa ideia ainda mais clara, imaginemos o inverso: e se tivéssemos evoluído para perceber diretamente o microcósmico — o domínio quântico, onde partículas, campos e interações fundamentais constituem a base de tudo? Nesse nível, a realidade não aparece como objetos sólidos, mas como oscilações, probabilidades, padrões vibratórios. O quântico não descreve “coisas”, mas processos vibracionais.

Se esse fosse o nosso campo perceptivo natural, a incerteza não estaria no subatômico, mas nas células, nos genes e nos processos internos do corpo. O que hoje chamamos de “material” seria somente uma manifestação ampliada, ou reduzida, de uma realidade vibracional mais profunda.

Assim, quando dizemos que cada espécie vive em sua própria dimensão, estamos reconhecendo que o universo é um só, mas a natureza que cada ser experimenta é profundamente diferente.

Como escrevi em O Homem Além do Homem (2001):

“A dimensão H é o ponto de origem da criação de todas as concepções humanas, ou seja, a matemática, as ciências, a filosofia, os mitos, tudo o que o ser humano concebeu e ainda irá conceber.” (p. 46, RJ: Mauad X)

Cabe ressaltar que, além da dimensão H, observa-se a dimensão h, aquela que, individualmente, cada ser humano, em sua subjetividade, com os recursos que a natureza lhe concedeu, concebe e interpreta a si e o mundo à sua volta.

Essa perspectiva nos leva a compreender que divisões como massa e energia, psíquico e corpo, início e fim, são efeitos da nossa percepção limitada. É a própria evolução humana que cria a fronteira entre o visível e o não visível, o material e o não material, o macro e o microcósmico. 

Do paradigma material ao paradigma vibracional

Frente a essa constatação, a crítica ao paradigma cartesiano‑materialista se torna inevitável. Ele descreve a realidade como composta por entidades separadas, sólidas e independentes, privilegiando aquilo que é mensurável e visível.

O paradigma vibracional, por outro lado, parte da premissa de que a vibração é o fundamento comum a todos os níveis da realidade — seja da ordem quântica, biológica, psíquica ou cosmológica. Enquanto o paradigma materialista fragmenta e reduz o real a objetos isolados, o paradigma vibracional compreende a realidade como um sistema — um conjunto de processos em constante interação — no qual nada existe isoladamente, mas somente em relação, movimento e ressonância.

Sob esse olhar, o ser humano, em seus níveis material e quântico, revela‑se como um complexo vibracional macromicro uno, inteiro e indivisível, uma totalidade à qual não temos acesso direto. Da mesma forma, soma e psique deixam de ser causa e efeito, sendo duas expressões distintas de uma mesma realidade vibratória.

Esse é justamente o princípio que fundamenta a Ciência do Sentir: compreender o sentir como a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. Assim, ao acessarmos a totalidade da natureza, não o fazemos pela visão, pela audição ou por qualquer sentido isolado, mas pela capacidade do nosso sistema perceptivo de captar vibrações que se expressam, no sentir, como sensações, sentimentos e pensamentos.

Em última instância, a Ciência do Sentir reconhece que, para compreender a totalidade vibracional que somos, precisamos aprender a sentir o universo que vibra em nós. 

Leia, também, aqui no blog, “A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano”

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Avalanche Tricolor: foi um baile!

Grêmio 3×0 Internacional
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Final Gauchão Ida - Grêmio x Internacional - 01/03/2026
Enamorado comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu não teria pedido tanto. Queria um time jogando melhor do que no Gre-Nal passado. Imaginava uma equipe aguerrida, como tem se mostrado nas últimas partidas. Acreditava no resultado positivo, empurrado pela torcida. O Grêmio me deu muito mais. Deu um baile!

No Gre-Nal 450, foi superior ao longo de toda a partida, antes mesmo de ter se beneficiado da expulsão do adversário. Aliás, é importante que se diga: a expulsão foi resultado dessa imposição tricolor. Marcação lá em cima. Pouco espaço para o adversário. Saídas para o ataque com velocidade. Arriscando dribles pelas pontas.

A defesa dos guris Gustavo Martins e Viery deu pouca chance aos atacantes colorados. E não se limitou a marcar dentro da área. Saiu para o bote. Ganhou nas divididas. E foi numa dessas que Viery, vencendo duas disputas, desarmou o adversário e serviu Amuzu no segundo gol.

Pavon, improvisado na lateral direita mais uma vez, foi preciso na função. Em vez de escolher um dos laterais de ofício, Luis Castro aposta na velocidade do argentino, que consegue acompanhar o ponteiro adversário e aparecer na frente. Um achado. Marlon jogou com a segurança que se espera na esquerda

O meio de campo teve Arthur como maestro, conduzindo a bola para um lado e para o outro, fazendo seus marcadores perderem a passada — só foi parado com faltas (sem que nenhuma tenha sido punida).

Noriega atuou como um “batedor de carteira”, e Monsalve foi a surpresa de Luis Castro. Mais uma demonstração de que o técnico valoriza o que vê nos treinamentos e o que os jogadores entregam em campo. O colombiano vinha bem, se machucou e, recuperado, voltou a ser titular.

Por falar em baile, Enamorado pelo lado direito e Amuzu pelo esquerdo tiraram os marcadores para dançar. E não queriam saber de valsa. Foi em ritmo de rock and roll — ou teria diso reggaeton latino. Impuseram velocidade, driblaram, deram caneta, chegaram à área, fizeram assistência e marcaram os gols que abriram o placar e nocautearam o adversário.

Enamorado fez o seu primeiro gol desde que chegou ao Grêmio, minutos depois de o time ficar em superioridade numérica em campo, com um chute da entrada da área. O colombiano até aqui havia mostrado talento com a bola no pé, mas vinha concluindo mal a gol. Desta vez, estufou a rede.

Amuzu foi protagonista no lance da expulsão, marcou o segundo gol em mais uma escapada veloz e deu assistência para Carlos Vinícius fazer o terceiro. O belga ainda se deu ao luxo de arriscar um cruzamento de letra para desestabilizar de vez o adversário.

Nosso centroavante pode até não ficar com a autoria do gol — é preciso ver o que o árbitro colocará na súmula —, mas teve participação importante dentro da área, venceu todas as disputas com os zagueiros e completou sua atuação com um toque por cobertura sobre o goleiro, que proporcionou o gol definitivo da partida.

O Grêmio bailou na Arena como há muito tempo não víamos. E a torcida embalou com seu grito de “olé”. Luis Castro está de parabéns por ter encontrado a fórmula necessária para fazer o Grêmio jogar bola com harmonia.

A história mostra que raramente o time que sai na frente na decisão perde a taça no Campeonato Gaúcho. Nunca houve uma virada com três gols de diferença. Ainda assim, cautela. Não é hora de cantar vitória. É hora de repetir a intensidade, sustentar a vantagem e só transformar confiança em festa quando o árbitro encerrar a decisão.

Conte Sua História de São Paulo: o spaghetti alle vongole do Giordano

Luiz Antonio Rolim de Camargo

Ouvinte da CBN

Foto de Nadin Sh on Pexels.com

Nos anos 1930, meu avô materno, Luiz Vellego, montou o restaurante Giordano, um endereço de sucesso na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, que já despontava como um importante eixo urbano de São Paulo.

A história do Giordano começou muito antes de sua inauguração. Nos corredores do Mercado Municipal, meu bisavô Raphael, um jornaleiro italiano, fez amizade com um cliente ilustre de sua banca, de sobrenome Matarazzo. Reza a lenda que, fascinado pelos aromas das marmitas que minha bisavó Maria Giordano preparava para o marido, Matarazzo insistia para que ele abrisse um restaurante.

Raphael não levou a ideia adiante, mas seu filho, o jovem e empreendedor Luiz, arregaçou as mangas. Copiou as receitas da mãe e, por duas décadas, comandou um restaurante de referência da gastronomia italiana, cujo vasto cardápio destacava clássicos como o spaghetti alle vongole e a vera pizza napolitana.

O Giordano foi palco de almoços, banquetes e encontros de profissionais liberais, comerciantes e políticos, tornando-se um ponto estável de sociabilidade da elite italiana em São Paulo. Quase cem anos depois, nada resta do restaurante além das deliciosas histórias transmitidas oralmente pelas gerações da família.

E se não ficou uma lembrança material, o mesmo não se pode dizer da aptidão inata dos Vellegos, hoje já na quinta geração, em prepararem una buona pastaciutta. Mantivemos a tradição de servir nas ceias de Natal da família o tortelli di zucca, feito à mão, recheado com abóbora e mostarda di mele, iguaria trazida da pequena cidade da Lombardia de onde viemos — terra de bons comensais.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luiz Antonio Rolim de Camargo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: ganhar confiança é importante na Semana Gre-Nal

Grêmio 2×1 Atlético MG

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Atletico-MG
Marlon comemora o gol da vitória Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foi-se o tempo em que eu me esforçava para entregar esta mal-traçada Avalanche no apito final do árbitro. Era um compromisso de início de jornada que fui abandonando por uma série de circunstâncias — especialmente a incompatibilidade entre a hora em que as partidas começam e a hora em que preciso madrugar para apresentar o Jornal da CBN. Às vezes, os resultados me tiram o ânimo da escrita; em outras, falta inspiração mesmo.

Houve um tempo, também, em que semanas como esta que estamos vivendo, à espera do Gre-Nal, eram cobertas pelos jornalistas esportivos no Rio Grande do Sul com a tensão e a solenidade dos grandes eventos. Reportagens de terno e gravata, cartola na cabeça e perfis dos protagonistas da bola. As análises técnicas e táticas recebiam tratamento esmerado. Não faltava espaço para as polêmicas — afinal, sempre gostamos de uma boa fofoca. Os treinos eram secretos, e descobrir a escalação de domingo era tarefa árdua, conduzida com o apuro do mais puro jornalismo investigativo.

A Semana Gre-Nal perdeu espaço no noticiário. Como concentrar forças no clássico que decide o Campeonato Gaúcho no domingo se, na quarta à noite, houve compromisso pelo Campeonato Brasileiro? O olhar do jornalista se dispersa. A atenção do torcedor, efêmera. Se os jogadores mal têm tempo para treinar, ajustar o passe, calibrar o chute e sincronizar movimentos, tampouco o repórter esportivo consegue aprofundar os temas.

Da minha parte, embora o clássico esteja a três dias de distância, ainda encontrei tempo para pensar no resultado da noite passada. Tivemos uma vitória que, se não foi consagradora, ao menos nos trouxe a alegria dos pontos conquistados e algumas revelações. Está claro, por exemplo, o modelo de meritocracia imposto pelo técnico Luís Castro. Jogador que entrega em um jogo é recompensado no seguinte. Viery na zaga, Pavón na lateral, Gabriel Mec no meio e Enamorado na ponta direita são exemplos dessa estratégia.

É verdade que Castro foi compelido a agir assim. Escalou um time com o fim de semana em mente. Precisava poupar fisicamente atletas considerados titulares, sem abrir mão da vitória em casa. Ao mesmo tempo, ganhou a oportunidade de observar como alguns jogadores reagem à titularidade. Se a atuação no meio da semana garantirá presença no time do clássico, só saberemos no domingo.

O importante é que a vitória no Brasileiro, somada à classificação para a final do Gaúcho, fortalece a reconstrução em curso. O time começa a forjar personalidade, a desenhar uma maneira própria de se portar em campo. Vencer reduz a pressão sobre comissão técnica e elenco. Oferece confiança — ativo indispensável numa temporada longa. O gol da vitória, marcado por Marlon, é sinal de quem acredita no seu potencial.

E confiança, em semana de Gre-Nal, vale tanto quanto talento. Talvez até mais.

Mundo Corporativo: Patrícia Macedo, CMO da Suzano, diz que marcas não devem esperar os sinais para se reposicionar

Patrícia Macedo, Suzano
Entrevista com Patrícia Macedo no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“Para mim, essa observação constante da necessidade do consumidor, das motivações do consumidor é que fazem com que a marca suba as escadas.”

Nos últimos anos, a Suzano transformou um projeto estratégico em operação prática e levou seus produtos para dentro da casa de milhões de brasileiros. A empresa, historicamente associada à celulose e ao papel, consolidou uma unidade de bens de consumo com marcas como Neve, Mimo e Max. A mudança de lógica — de uma companhia voltada essencialmente à indústria para uma organização que dialoga diretamente com o consumidor final — foi tema de entrevista de Patrícia Macedo, CMO da unidade de bens de consumo da Suzano, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo a executiva, o movimento combinou inquietação interna e resposta ao mercado. “Nos últimos 7 ou 8 anos, a gente fala que tirou do PowerPoint e virou um projeto concreto que está na casa aí de muitos milhões de brasileiros o que a gente chama da unidade de bens de consumo”, afirmou.

Ela explica que a companhia passou a complementar a gestão baseada em ativos com uma visão centrada no consumidor. “Eu não vou só gerenciar ativos e pensar em escala, em produtividade, mas eu vou olhar necessidade. Eu vou olhar como esse consumidor pensa, qual é a lógica de comportamento e de necessidades desse consumidor.”

Reposicionamento além da estética

O exemplo mais visível dessa estratégia foi o reposicionamento da marca Neve, com mais de 53 anos de mercado. Para Patrícia Macedo, não se trata apenas de mudar embalagem ou campanha. “É uma mudança de olhar para esse consumidor”, disse.

A empresa mapeou novos hábitos e rituais ligados ao banheiro e ao autocuidado. “Tem mais de oito comportamentos que a gente mapeou dentro do banheiro e a partir disso a gente se reposiciona.” O produto passou a dialogar não apenas com atributos funcionais, mas também com significados simbólicos. “A gente começa a falar também não de forma só funcional, mas de forma simbólica também, sobre as camadas do que acontecem na vida do consumidor.”

O desenvolvimento envolveu pesquisas, testes e ajustes técnicos. “Quando a gente testa papel higiênico dentro das nossas fábricas, além dos equipamentos, a gente testa na mão, que é o que a gente chama de handfeel, que é o toque da mão.” A executiva ressalta que a entrega precisa acompanhar o discurso. “Não adianta eu falar, escutar e não entregar.”

Tecnologia e sensibilidade

A estratégia inclui o uso de tecnologia e inteligência artificial, tanto na produção quanto na comunicação. “A inteligência artificial entra também não só nas ferramentas que a gente tem no dia a dia, mas também na produção dos nossos conteúdos”, afirmou.

Ela, no entanto, faz uma ressalva. “Eu não posso perder sensibilidade, porque a sensibilidade humana, a intuição, o discernimento têm que estar a favor do ser humano.” Para Patrícia Macedo, tecnologia e empatia precisam caminhar juntas.

Não esperar o sinal vermelho

Perguntada sobre o momento certo de reposicionar uma marca, a executiva defende acompanhamento contínuo do consumidor. “Para mim não tem que esperar um sinal, você tem que acompanhar o consumidor.” E complementa: “Você não precisa esperar perder share.”

Ela reforça que marcas consolidadas devem preservar seus pilares, mas atualizar conexões. “Uma marca não vai ficar flat para o resto do tempo.” O cuidado é não abandonar a identidade construída ao longo dos anos. “Eu posso preservar os ícones, posso preservar os valores dessa marca, mas as conexões dessa marca vão ser atualizadas de acordo com o movimento do consumidor.”

Carreira e comportamento

Ao falar sobre liderança em marketing, Patrícia Macedo destacou duas características que considera essenciais. “Ele precisa ser uma pessoa de negócio e não dá para ser só uma pessoa de comunicação.” E acrescentou: “Que escute, que veja e que se use os nossos sentidos humanos a favor da estratégia.”

No conselho final aos profissionais, resumiu a postura que defende: “Esteja aberto 100% do tempo a enxergar o que está acontecendo.” Para ela, acompanhar comportamento é tarefa permanente. “Se eu não ficar conectado com a missão interna de observar os comportamentos, as motivações 100% do tempo e ser incansável, eu não consigo seguir.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

A Vitória da Permanência

Por Caio Luizetto

Foto Pixabay on Pexels.com

Se Deus ama

e não retira do humano a liberdade,

então a redenção não pode acontecer pela força.

Porque o mundo vence eliminando,

dominando,

impondo.

Mas o amor não vence assim.

Quando Jesus diz que venceu o mundo,

não diz que o destruiu,

nem que o corrigiu,

nem que o colocou sob controle.

Ele diz que não foi absorvido pela sua lógica.

Deus não vence o mundo dominando-o.

Ele o vence permanecendo onde poderia se retirar.

A redenção não é o fim imediato do mal,

mas a recusa em vencê-lo pela violência.

Deus não salva exterminando o problema,

salva sustentando a relação.

Por isso o mal não é punido de imediato,

mas suportado.

Não porque seja aceito,

mas porque não pode ser eliminado

sem destruir aquilo que é amado.

O mundo continua ferido,

continua instável,

continua injusto.

Mas não é absoluto.

Não é soberano.

Não tem a última palavra.

A vitória de Deus não está em fazer o mundo funcionar,

mas em impedir que o mundo determine o que é Deus.

Ele vence recusando-se a amar menos.

Vence atravessando o caos

sem se tornar caótico.

Vence permanecendo fiel

onde tudo tenta romper.

A redenção não acontece contra o mundo,

mas dentro dele.

E acontece toda vez que o amor não cede

à lógica da destruição.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quem a sua marca é no galinheiro?

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Nem todas as marcas disputam o mercado em pé de igualdade. Algumas lideram, impõem preço e ditam referência; outras sobrevivem tentando escapar da comparação direta. Esse foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.

A conversa partiu de um estudo clássico da etologia — área que observa o comportamento animal — realizado em 1920 pelo norueguês Thorleif Schjelderup-Ebbe. Ao acompanhar galinhas em um aviário, ele identificou uma hierarquia clara: havia aves que só eram bicadas, outras que bicavam mais do que apanhavam, até chegar ao topo, onde uma galinha bicava todas e não era bicada por nenhuma. Nascia ali a teoria conhecida como “ordem das bicadas”.

Jaime Troiano explicou que essa lógica ajuda a compreender o funcionamento do mercado. “A ordem das bicadas é um indicador de prestígio, poder e admiração”, afirmou. A metáfora é simples e direta: marcas fortes “bicam” mais do que são bicadas; marcas frágeis são substituídas com facilidade.

O conceito aparece no dia a dia do consumidor, mesmo sem que ele perceba. Influenciadores digitais ocupam posições distintas na hierarquia de relevância. O mesmo ocorre com produtos e serviços. Quando uma marca é vista como referência, ela sustenta preço mais alto e reduz o risco de troca na hora da compra. Já as que estão abaixo precisam competir por desconto ou conveniência.

Cecília Russo reforçou que essa organização não é apenas racional. “As nossas preferências por alguma marca, por outra e até falta de interesse ou rejeição por outras, é essa organização mental, perceptual dessa hierarquia”, disse. Em outras palavras, o consumidor classifica marcas na mente, criando uma escala de prestígio.

Exemplos ajudam a tornar o conceito concreto. No mercado de construção, a Quartzolit costuma ser tratada como padrão de qualidade por profissionais da área. Em culinária, há quem insista no fermento Fleischmann para garantir que o bolo cresça. São casos em que a posição hierárquica está consolidada: a marca do topo é pouco questionada.

A diferença entre galinheiro e mercado está na possibilidade de mudança. Enquanto, no estudo original, a posição das aves era difícil de alterar, no branding — gestão estratégica de marcas — há espaço para reposicionamento. Exige consistência, entendimento profundo do consumidor e proposta de valor clara.

Jaime sintetizou a lógica com uma provocação: “A marca que você tem, o da qual você cuida, você tem uma marca que bica mais ou que é mais bicada?” A pergunta vale para empresas de todos os portes.

A marca do Sua Marca

O principal aprendizado: toda marca ocupa um lugar na hierarquia mental do consumidor. Reconhecer essa posição é o primeiro passo para fortalecê-la. Quem ignora essa dinâmica corre o risco de competir apenas por preço. Quem entende a lógica da hierarquia pode trabalhar para ganhar prestígio e reduzir vulnerabilidades.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: coragem para seguir

Juventude 1 (1) x (4) 1 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul (RS)

Gremio x Juventude
Weverton defendeu uma das cobranças de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está na final do Campeonato Gaúcho. Para muitos, não fez mais do que a obrigação. Eu comemoro. Especialmente diante das circunstâncias. Estar fora da decisão seria um desastre logo no início da temporada. O time está em reconstrução. Busca nova identidade. Testa jogadores recém-chegados. Investe em talentos muito jovens. E tenta superar carências que ainda existem no elenco.

O trabalho realizado por Luis Castro, a quem foi entregue a responsabilidade de refazer o Grêmio, corria riscos caso caíssemos diante do Juventude. E tudo o que o treinador português necessita, consideradas as condições, é tempo, paciência e equilíbrio para promover as mudanças.

A classificação, da forma como veio, ainda não oferece a tranquilidade desejada. Foram dois empates. O primeiro, em casa, quando não conseguimos sustentar a vantagem e fomos incapazes de superar um adversário que terminou com um jogador a menos. O segundo, saindo atrás no placar e escapando, no primeiro tempo e no início da etapa final, de sofrer mais gols. O time tem fragilidades evidentes e carece de definições em algumas posições.

O resultado, ainda assim, pode ser transformador. Oferece ao técnico e aos seus comandados um sinal de confiança. Mostra que a luta insistente e a resiliência diante dos reveses podem ser recompensadas. A coragem de alguns jogadores se sobressaiu.

Na partida desta noite, em Caxias do Sul, houve momentos de superação. Caso de Viery, zagueiro de apenas 21 anos. Em um lance estabanado na área, cometeu pênalti que deixou o Grêmio em desvantagem. Não se abateu. Avançou ao ataque e, sem medo de errar, acertou um chute de virada, de fora da área, para marcar o gol de empate.

Houve lances de revelação. Gabriel Mec, com apenas 17 anos, soltou o talento e deu novo ritmo ao ataque gremista, atuando como um meio-campista mais avançado. Com dribles, finalizações e valentia para enfrentar marcação dura, assumiu protagonismo — como lhe pediu o treinador pouco depois de sua entrada no segundo tempo, recado revelado pela repórter da transmissão do canal Premier. O guri ainda teve personalidade para converter um dos pênaltis na série decisiva.

Houve instantes de confirmação. Weverton, goleiro recém-empossado, sobressaiu-se. Defendeu a primeira cobrança e impôs pressão imediata ao adversário. A bola no travessão, na segunda penalidade, carrega a marca do temor que um goleiro multicampeão costuma provocar.

Houve cenas que só os atentos perceberam. Quando Luis Castro escolhia os batedores, o volante Noriega, posicionado logo atrás, pediu para cobrar. Ao ouvir a confirmação do técnico, respirou fundo, soltou o ar, relaxou os ombros — ritual de quem se prepara para decidir. E decidiu, convertendo a segunda cobrança.

O Grêmio precisará de coragem para atravessar essa longa reconstrução. Mostrou, ao menos nesta noite, que está disposto a merecer a confiança de seus torcedores — inclusive dos que ainda observam com desconfiança.

Dez Por Cento Mais: Carol Campos, do Vozes da Educação, fala da culpa que atravessa a maternidade

“Nasce alguém, nasce a culpa.”

A cada geração, a régua da maternidade muda — e quase sempre sobe. Se antes o desafio era garantir a sobrevivência dos filhos, depois veio a exigência de fazê-los trabalhar, formar família ou conquistar independência. Hoje, soma-se a tudo isso a pressão por desempenho profissional, equilíbrio emocional e presença constante. A culpa, diz Carol Campos, acompanha essa trajetória histórica e se instala como parte do modo de existir feminino. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Professora, advogada, mestre em políticas públicas e diretora executiva do Vozes da Educação, Carol analisa como a culpa atravessa a maternidade contemporânea, a escola e o esgotamento feminino.

Culpa que não depende do erro

Para Carol, a culpa não surge apenas quando algo dá errado. Ela aparece, inclusive, quando tudo parece funcionar. “Quando tudo está funcionando, a gente pensa: ‘Nossa, por que que eu não tô fazendo melhor?’ E aí a culpa vem ainda mais forte.”

Segundo ela, mulheres foram socializadas para se cobrar permanentemente. “A gente aprendeu na nossa sociedade que nós nunca somos bons o suficiente.” No ambiente profissional, relata, a exigência é elevada. “Enquanto profissionais, a gente tem que se provar 10 vezes mais do que um homem.” Em casa, a cobrança se amplia: sucesso não é apenas carreira consolidada, mas também família harmoniosa.

Carol observa esse padrão na própria empresa, formada apenas por mulheres. “Não tem uma que fale para mim: Eu acho que eu não fiz bem o suficiente.” Ela compara com experiências anteriores em equipes mistas e afirma que o nível de detalhamento e autocobrança costuma ser maior entre elas. Para a entrevistada, trata-se de um traço aprendido desde a infância.

Escola, mães e a sobrecarga invisível

A escola, na avaliação de Carol, ainda reforça essa sobrecarga. Comunicados, cobranças e convites são, em geral, direcionados às mães. “Mensagem na agenda ou no aplicativo, vai para a mãe.” Ela questiona a ausência paterna nas interações formais: “O grupo de WhatsApp da escola é de mães, é o grupo das mães. Cadê os pais?”

A crítica não ignora a responsabilidade masculina, mas aponta um padrão institucional. Para ela, pequenas mudanças — como incluir pai e mãe igualmente nas comunicações — já alterariam a dinâmica.

Carol também chama atenção para a tendência de famílias buscarem escolas com perfis semelhantes aos seus. “Escola é espaço de diversidade.” Ao restringir a convivência a grupos com valores e condições socioeconômicas parecidos, perde-se a oportunidade de ampliar repertórios. A diversidade, argumenta, faz parte do processo formativo.

Falha ou esgotamento?

Quando se fala em crise da parentalidade, Carol vê dois fatores combinados. De um lado, a comparação constante entre mães. “Existe uma culpa velada.” De outro, o isolamento na criação dos filhos. “A gente entendeu que cada um tinha que criar seu filho.” Para ela, isso contraria a história humana. “Crianças sempre foram criadas no coletivo.”

A ausência de rede de apoio gera esgotamento. Carol defende a construção de comunidade, seja presencial ou à distância. “Se a gente faz tudo sozinha, a gente vai esgotar, não tem jeito.”

Ela também aborda o conceito de “mãe suficientemente boa”. A expressão, conhecida na psicologia, ganha contornos práticos em sua fala. “Eu tive que aprender que tava tudo bem eu ser essa mãe.” Mãe que trabalha, que esquece a cartolina, que compra pão de queijo na padaria para a festa da escola. Para ela, reconhecer limites é parte do processo.

Aprender a mudar

Um episódio pessoal marca essa virada. Ao ajudar o filho a lidar com uma frustração escolar, Carol percebeu, dias depois, que ele reproduziu a mesma estratégia para acalmá-la. “Mãe, vamos tomar uma aguinha, vamos respirar três vezes.” A cena, segundo ela, redefiniu sua forma de maternar.

Carol ressalta que o conhecimento sobre desenvolvimento humano é recente e ainda pouco presente na formação docente. “Criança tem manual de instrução.” Para ela, compreender o funcionamento do cérebro e das emoções transforma a relação entre adultos e crianças.

Vozes da Educação

À frente do Vozes da Educação, Carol atua com redes públicas e privadas em situações de emergência, como violência, bullying e crises climáticas. Também desenvolve projetos para fortalecer o vínculo entre família e escola. O objetivo, afirma, é criar ambientes mais seguros e harmoniosos.

Para encerrar, ela deixa duas recomendações. Às escolas, investir no relacionamento com as famílias. Às famílias, buscar informação qualificada sobre parentalidade. “Tem jeito certo e tem jeito errado de criar filho. E é muito bom quando a gente vai pelo certo.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify. A apresentação é de Abigail Costa e a produção de Amanda Alves Costa.

Conte Sua História de São Paulo: o teatro das segundas-feiras no fim de expediente

Cintia Capello Rezende

Ouvinte da CBN

Foto de Gustavo Denuncio on Pexels.com

Em 1980, conquistei meu primeiro emprego com carteira assinada. Tinha 18 anos, morava no Imirim com meus pais e minha irmã. O Centro da cidade parecia um território distante, um mundo enorme para ser desvendado.

Fui trabalhar no Banco Noroeste, na rua Boa Vista. Era a mais jovem do departamento. Observava, aprendia e tentava me adaptar à rotina daquele mundo novo. 

Logo percebi que meus colegas mantinham uma tradição, um hábito curioso. Às segundas-feiras, saíam rapidamente do trabalho, atravessavam o Viaduto do Chá e seguiam para o Teatro Municipal. Ali assistiam às apresentações gratuitas de música, teatro e balé — um presente inesperado no começo da semana.

Resolvi acompanhar o grupo. Na primeira vez, assisti à peça Pedro e o Lobo, com participação de uma orquestra cujo nome, infelizmente, não guardei. Guardei, no entanto, algo muito mais importante: a emoção. Até hoje me faltam palavras para descrever o que sentiu aquela menina da periferia ao entrar no Teatro Municipal e ouvir uma orquestra ao vivo. Era mais do que cultura; era pertencimento.

Passei a ser presença constante nas segundas-feiras do Municipal. O trabalho me abriu portas que eu sequer sabia que existiam. Caminhar do banco até o teatro era atravessar não apenas o centro da cidade, mas também limites pessoais que eu imaginava intransponíveis. 

Um dia, sem aviso, as apresentações foram interrompidas. O ritual terminou. A lembrança, não. Ela segue viva como você pode perceber nesta história de conto de São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Cintia Capello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.