Lourdes Gutierres
Ouvinte da CBN
Qual a tribo? Foi o que pensei ao ver um agrupamento de jovens dançando no vão livre do Centro Cultural São Paulo, naquele final de tarde. E se algum deles dirigisse esta pergunta para mim, teria resposta? Adentrar em si mesmo, pode significar abertura de portal inglório, preferi tentar compreender o meu entorno.
Lembrei do sociólogo francês Michel Maffesoli, que ao analisar o novo tipo de organização social na pós-modernidade, trouxe o conceito de mundo tribal; onde pertencer a uma tribo torna-se condição de existência. A aproximação entre indivíduos se dá entre aqueles que pensam e sentem de forma semelhante. Os que estão dentro decidem quem pode entrar e os que devem ser excluídos. Senti necessidade de refletir: com tantos retalhos sociais, como estabelecer a tecelagem da convivência? Quais os princípios de conexão?
Voltando ao Centro Cultural, por certo grau de ousadia que imponho a mim mesma, me vi tentada a um desafio: adentrar a um desses espaços de jovens. Gostaria de saber qual a recepção. Seria considerada a tia mais velha, que poderia trazer algum lance de sabedoria? Ou ouviria algo do tipo “Aqui é nóis, senhora, cai fora!”. Minha escolha dependia da minha habilidade em decifrar os códigos que estavam à minha frente, ou seja, outro desafio, distinguir as diferenças entre os presentes.
Embora não houvesse nenhuma marca no espaço físico, percebi que cada grupo estava em seu quadrado, movimentando-se em espaço delimitado, ao som de uma caixinha instalada no piso.
Em uma roda, o rapaz de bermuda e camiseta larga, mexia os braços e as mãos de maneira rápida, em descompasso com quadris e pernas, enquanto outros do grupo assistiam ou esperavam a vez. Os movimentos amplos e exagerados eram sincronizados com a música.
No espaço ao lado, em outro ritmo, jovens faziam pareciam imitar robôs, com músculos em contração e expansão. Em outro canto, a dança de um dos participantes era acompanhada pelos demais.
Seus pés pareciam riscar o chão, em seguida as pernas se abriam como se estivesse cortando algo no ar, imitando uma tesoura. Seguiam a coreografia do street dance, identifiquei depois. Próximo a este grupo, estava o casal dançando tango, a moça de salto alto, vestido vermelho ajustado ao corpo insinuava-se na dança de sedução ao parceiro, um rapaz forte, de roupa preta. Perto da coluna, quatro moças ensaiavam uma performance diante da divisória de vidro que servia de espelho. Atrás do vidro, a roda de capoeira, com a ginga de dois rapazes no centro, traçando movimentos de defesa e ataque. Configurava-se o jogo da zebra, no qual a imitação do animal produzia marradas e coices, segundo a história que contava mestre Pastinha, o capoeirista.
Onde eu estava mesmo?
Os ponteiros giraram no sentido anti-horário e me vi onde nunca mais gostaria de estar. Minha juventude, passei em tempos sombrios, no qual uma simples palavra podia ser crime; um gesto mal interpretado, levaria à morte. Espiões se infiltravam nas escolas, agremiações, andavam por toda parte, até mesmo em festas. Acontecia de militares cercarem grupo de estudantes em festa, a música era interrompida, todos revistados como criminosos, alguns presos. Um tempo como dizia Chico Buarque, “minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão…” Com a mesma idade daqueles rapazes, um estudante de geologia foi torturado até a morte em março de 1973. Sabe-se que pouco antes de morrer, teve tempo de gritar: “Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, estudo na USP, e só disse meu nome”. A missa em sua memória foi celebrada na Catedral da Sé pelo cardeal Paulo de Evaristo Arns, e ouviu-se lá o canto de Sérgio Ricardo: “Cala boca moço, cala a boca moço…”
Onde eu estava mesmo?
Reconheci naquele centro de cultura uma oca urbana. Cada tribo compartilhava o mesmo espaço, com um interesse comum: a expressão artística. Fora do círculo, o caos da cidade grande, pessoas apressadas, trânsito engarrafado, condução lotada e, o temporal que alagava tudo. Lá fora, violência, desemprego, miséria. Ali dentro, temporariamente, o medo estava suspenso.
Sem conseguir reconhecer minha identidade, nem distinguir o papel de cada grupo, mesmo assim resolvi adentrar na oca – assistir ao show do grupo Bexiga 70. A energia vibrante dos instrumentos musicais de sopro, percussão e corda fez o público se levantar; acompanhava o ritmo com batidas dos pés, remexo dos quadris, sacolejo de corpo. Como ficar imóvel? Entrei no cordão que percorria o palco em trenzinho, o dedo indicador em movimento apontava para o vasto vão da vida, enquanto cantávamos: ôô—ô,ôô—ô.
Entrei em que tribo mesmo?
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Lourdes Gutierres é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler a crônica completa visite o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.









