O fim de uma rádio quase centenária quando mais precisamos de informação

Edward R. Murrow e William Shirer, no estúdio da CBS Foto: reprodução NYT

Abri o The New York Times neste sábado como faço tantas vezes — quase no gesto automático de quem liga o rádio antes mesmo de pensar no café. Aliás, o rádio também estava sendo ligado naquele instante no meu pedido de voz matinal: “Alexa, toca CBN ao vivo”.  E lá estava — no jornal que corria na tela do meu celular — a reportagem assinada por Michael M. Grynbaum e Benjamin Mullin. Li o título. Segui adiante. E, ainda assim, fui surpreendido por algo que, no fundo, talvez já devesse ter aprendido a aceitar: o encerramento anunciado para maio da CBS News Radio, depois de 99 anos no ar.

Quase um século. Tempo suficiente para narrar guerras, acompanhar presidentes, contar histórias que atravessaram oceanos antes de chegar aos ouvidos de quem mal saía da própria cidade.

O artigo do Times lembrava que aquela rede ajudou a levar aos americanos os relatos da Blitz em Londres e, depois, os horrores dos campos de concentração. Era uma época em que a voz do repórter carregava o peso do mundo. E o ouvinte, sentado na sala de casa, recebia essa notícia como quem recebe visita, com atenção, silêncio e respeito.

Pensei em Edward R. Murrow. Pensei naquele aviso seco antes de descrever o campo de Buchenwald: quem estivesse almoçando, melhor desligar o rádio. Havia ali um pacto. O jornalista avisava. O ouvinte decidia. E, entre um e outro, havia confiança — essa marca inexorável que devemos conservar a despeito de todas as transformações digitais.

A decisão de encerrar a rede, segundo os executivos, atende a mudanças de mercado e dificuldades econômicas. Um roteiro conhecido. O avanço dos podcasts, das plataformas digitais, da multiplicação de vozes. Tudo isso aparece como argumento. E faz sentido, ao menos na planilha.

Ainda assim, algumas vozes se levantam contra esse fim. Uma delas é a de Harvey Nagler, que vê na decisão a perda de mais um espaço para o jornalismo objetivo. Outra é a de Peter Maer, que reconhece a mudança nos hábitos, o gosto especialmente entre os mais jovens de ouvir podcasts e acessar o TikTok e o Instagram, mas lembra de algo simples: no caminho para o trabalho, as pessoas querem começar o dia informadas. Deus te ouça!

Há uma frase na reportagem que chama atenção e sinaliza contradição. O rádio ainda alcança 93% dos adultos americanos. Noventa e três por cento. Não parece um meio em extinção. Parece um meio que continua presente — talvez mais silencioso, menos celebrado, mas ainda necessário E foi nesse ponto que o texto deixou de ser sobre os Estados Unidos e passou a conversar comigo aqui. Porque, no Brasil, também convivemos com essa sensação de que tudo mudou. De que a informação agora corre pelo dedo que desliza na tela. De que basta rolar o feed para estar informado.

A ilusão é confortável. Rápida. Barulhenta. Até que algo acontece. Uma enchente no Rio Grande do Sul, uma crise no Brasil, uma pandemia no mundo que exige mais do que manchetes fragmentadas. Nesses momentos, o comportamento muda. As pessoas voltam a procurar quem organiza a informação, quem separa o fato do ruído, quem assume a responsabilidade pelo que diz. Voltam ao rádio!

Durante a pandemia, isso ficou evidente. Mais gente passou a ouvir. Por mais tempo. Não era nostalgia. Era necessidade. O rádio tem essa característica curiosa. Ele não disputa atenção com o olhar. Ele acompanha. Está aí no painel do seu carro, em cima da pia da cozinha, tocando na assistente de voz no escritório. E, quando preciso, se transforma em porto seguro.

A decisão de encerrar a CBS News Radio pode ser explicada por números. Mas não se resume a eles. Há ali também uma escolha de caminho. E talvez um erro de leitura sobre o papel que o rádio ainda desempenha. Porque o rádio não depende da moda. Depende da confiança. E confiança não se constrói com rolagem infinita.

Constrói-se com voz. Com presença. Com consistência.

No Facebook, Dan Rather, ex-âncora do CBS Evening News escreve que o encerramento da rede partiu seu coração. Ele lembra de quando ouvia aquelas transmissões ainda menino, no Texas. E de como aquilo ajudou a definir sua escolha profissional.

Fiquei pensando em quantas histórias como essa existem nos Estados Unidos, aqui, em qualquer lugar onde alguém, um dia, tenha parado para ouvir. O rádio pode até sair do ar em uma frequência, mas continua ecoando em quem aprendeu a confiar nele — especialmente quando a informação precisa ser confiável.

O fim de uma rádio quase centenária quando mais precisamos de informação

Edward R. Murrow e William Shirer, no estúdio da CBS Foto: reprodução NYT

Abri o The New York Times neste sábado como faço tantas vezes — quase no gesto automático de quem liga o rádio antes mesmo de pensar no café. Aliás, o rádio também estava sendo ligado naquele instante no meu pedido de voz matinal: “Alexa, toca CBN ao vivo”.  E lá estava — no jornal que corria na tela do meu celular — a reportagem assinada por Michael M. Grynbaum e Benjamin Mullin. Li o título. Segui adiante. E, ainda assim, fui surpreendido por algo que, no fundo, talvez já devesse ter aprendido a aceitar: o encerramento anunciado para maio da CBS News Radio, depois de 99 anos no ar.

Quase um século. Tempo suficiente para narrar guerras, acompanhar presidentes, contar histórias que atravessaram oceanos antes de chegar aos ouvidos de quem mal saía da própria cidade.

O artigo do Times lembrava que aquela rede ajudou a levar aos americanos os relatos da Blitz em Londres e, depois, os horrores dos campos de concentração. Era uma época em que a voz do repórter carregava o peso do mundo. E o ouvinte, sentado na sala de casa, recebia essa notícia como quem recebe visita, com atenção, silêncio e respeito.

Pensei em Edward R. Murrow. Pensei naquele aviso seco antes de descrever o campo de Buchenwald: quem estivesse almoçando, melhor desligar o rádio. Havia ali um pacto. O jornalista avisava. O ouvinte decidia. E, entre um e outro, havia confiança — essa marca inexorável que devemos conservar a despeito de todas as transformações digitais.

A decisão de encerrar a rede, segundo os executivos, atende a mudanças de mercado e dificuldades econômicas. Um roteiro conhecido. O avanço dos podcasts, das plataformas digitais, da multiplicação de vozes. Tudo isso aparece como argumento. E faz sentido, ao menos na planilha.

Ainda assim, algumas vozes se levantam contra esse fim. Uma delas é a de Harvey Nagler, que vê na decisão a perda de mais um espaço para o jornalismo objetivo. Outra é a de Peter Maer, que reconhece a mudança nos hábitos, o gosto especialmente entre os mais jovens de ouvir podcasts e acessar o TikTok e o Instagram, mas lembra de algo simples: no caminho para o trabalho, as pessoas querem começar o dia informadas. Deus te ouça!

Há uma frase na reportagem que chama atenção e sinaliza contradição. O rádio ainda alcança 93% dos adultos americanos. Noventa e três por cento. Não parece um meio em extinção. Parece um meio que continua presente — talvez mais silencioso, menos celebrado, mas ainda necessário E foi nesse ponto que o texto deixou de ser sobre os Estados Unidos e passou a conversar comigo aqui. Porque, no Brasil, também convivemos com essa sensação de que tudo mudou. De que a informação agora corre pelo dedo que desliza na tela. De que basta rolar o feed para estar informado.

A ilusão é confortável. Rápida. Barulhenta. Até que algo acontece. Uma enchente no Rio Grande do Sul, uma crise no Brasil, uma pandemia no mundo que exige mais do que manchetes fragmentadas. Nesses momentos, o comportamento muda. As pessoas voltam a procurar quem organiza a informação, quem separa o fato do ruído, quem assume a responsabilidade pelo que diz. Voltam ao rádio!

Durante a pandemia, isso ficou evidente. Mais gente passou a ouvir. Por mais tempo. Não era nostalgia. Era necessidade. O rádio tem essa característica curiosa. Ele não disputa atenção com o olhar. Ele acompanha. Está aí no painel do seu carro, em cima da pia da cozinha, tocando na assistente de voz no escritório. E, quando preciso, se transforma em porto seguro.

A decisão de encerrar a CBS News Radio pode ser explicada por números. Mas não se resume a eles. Há ali também uma escolha de caminho. E talvez um erro de leitura sobre o papel que o rádio ainda desempenha. Porque o rádio não depende da moda. Depende da confiança. E confiança não se constrói com rolagem infinita.

Constrói-se com voz. Com presença. Com consistência.

No Facebook, Dan Rather, ex-âncora do CBS Evening News escreve que o encerramento da rede partiu seu coração. Ele lembra de quando ouvia aquelas transmissões ainda menino, no Texas. E de como aquilo ajudou a definir sua escolha profissional.

Fiquei pensando em quantas histórias como essa existem nos Estados Unidos, aqui, em qualquer lugar onde alguém, um dia, tenha parado para ouvir. O rádio pode até sair do ar em uma frequência, mas continua ecoando em quem aprendeu a confiar nele — especialmente quando a informação precisa ser confiável.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: escritores ensinam como consistência constrói valor

Photo by Min An on Pexels.com

Alguns escritores conseguem transformar seu nome em referência antes mesmo de o leitor abrir o livro. O tema foi discutido no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.

A conversa parte de uma constatação simples: autores também operam como marcas. Eles constroem uma identidade que combina estilo, temas e forma de narrar. Essa identidade cria expectativa no público. Como explica Cecília Russo, “as pessoas sabem o que esperar dessa autora, desse autor e por isso eles vão atrás de um novo livro lançado”.

Essa previsibilidade não significa repetição mecânica. Trata-se de coerência. O leitor reconhece traços comuns — linguagem, profundidade dos personagens, tipo de conflito — e se conecta com essa entrega. É o que acontece com autores como Carla Madeira, que mantém uma assinatura emocional marcada por relações humanas intensas, ou Itamar Vieira Junior, cuja obra carrega um olhar social enraizado na realidade brasileira.

O mesmo raciocínio vale para nomes internacionais, como Colleen Hoover, Elena Ferrante e Haruki Murakami. Cada um construiu um território próprio. Quem lê já entra na história com uma expectativa formada. Esse é um ativo poderoso.

Jaime Troiano amplia o olhar ao lembrar que isso não é novidade. “Mesmo antes de nós falarmos de branding pessoal, autores mais clássicos também representam marcas, com estilos próprios, antecipando expectativas do próprio leitor”. Machado de Assis, por exemplo, consolidou uma escrita marcada pela ironia, pela análise psicológica e pela crítica social. Ao manter esses elementos, fortaleceu sua identidade ao longo do tempo.

Há outro ponto importante: autores, assim como marcas, não buscam agradar a todos. Escolhem um público, ainda que de forma intuitiva. Isso ajuda a consolidar uma base fiel de leitores, que acompanha lançamentos, recomenda obras e até valoriza edições especiais. Forma-se uma comunidade em torno da marca.

Essa relação também traz um desafio. Quando a identidade está bem definida, o autor passa a ser cobrado por ela. Mudanças bruscas podem gerar estranhamento. É o preço de ter construído uma promessa clara.

A marca do Sua Marca

Consistência e identidade são pilares de valor. Seja um escritor ou uma empresa, quem mantém coerência no que entrega cria expectativa, fideliza público e fortalece sua marca.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: o padre da minha nonna

Silvia Cristina Tiezzi
Ouvinte da CBN

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Quando eu era criança, minha nonna mudou-se de Adamantina para a então distante São Bernardo do Campo. Religiosa, como sempre foi, logo encontrou um lugar para depositar a sua fé: a “Igrejinha da Record”. Simples, acolhedora, quase escondida no cotidiano da cidade.

Anos depois, já adolescente, fui eu quem se mudou para São Paulo, vinda de Adamantina — Adamantina, no interior paulista, não Diamantina, em Minas Gerais. Passei no vestibular da Faculdade Paulistana, na Vila Mariana, e ali mesmo consegui meu primeiro emprego. No segundo ano, transferi-me para a Universidade Metodista. Ainda assim, continuei trabalhando na Paulistana. Naquele momento, eu não imaginava que essas duas fases da minha vida — a da fé herdada e a da formação profissional — guardavam uma ligação invisível.

Anos atrás, movida pela memória, resolvi visitar a igrejinha da minha nonna. Entre pesquisas na internet e conversas com pessoas da igreja, descobri algo que me surpreendeu profundamente. O padre que celebrava as missas frequentadas por minha avó era o professor Azurem Ferreira Pinto, fundador e dono da Faculdade Paulistana. A mesma faculdade em que passei no vestibular, naquele distante janeiro de 1982, e onde tive meu primeiro emprego.

Quando trabalhava na Paulistana, eu sabia que o professor Azurem havia sido padre. O que eu jamais imaginei é que ele fosse justamente o padre da igrejinha que minha nonna frequentou até o seu falecimento. Coincidência? Obra do destino? Coisa de Deus?

A pequena igrejinha cresceu e hoje é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A antiga capela foi preservada, quase como um relicário da cidade. Foi reconstruída no mesmo terreno onde hoje está o Santuário, no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo.

Conversando com uma funcionária do Santuário, soube de outro detalhe tocante. Na época em que minha avó assistia às missas, a igreja ficava dentro de um pátio da Mercedes-Benz, ali ao lado. Foi desmontada tijolo por tijolo e reconstruída no local atual.

Com tristeza nos olhos, ela contou que nem todos os tijolos chegaram ao novo endereço. Alguns foram levados por pessoas que quiseram guardar um pedaço da história como lembrança.

Talvez São Paulo seja feita disso: encontros improváveis, caminhos que se cruzam sem aviso. Fé, trabalho e memória assentados, literalmente, sobre os mesmos tijolos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Silvia Cristina Tiezzi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: mais que vitória, um grito por Marlon

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Vitoria
Antes da lesão, Marlon participou da comemoração do segundo gol Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A vitória do Grêmio, nesta noite de quinta-feira, era obrigação. O contexto pedia mais do que três pontos. Pedia resposta. O Grêmio entregou. E entregou bem. O time de Luis Castro não apenas venceu. Levou ao gramado da Arena um futebol qualificado, dominante.

A ideia que o treinador tem para esta temporada fica cada vez mais clara. Há sinais evidentes de um modelo em construção. A bola esticada pelas pontas, a tentativa constante de acelerar o jogo, a crença no poder do drible, a marcação alta que distribui responsabilidade a todos. Não é um desenho pronto, mas já tem traços reconhecíveis. E isso, no futebol, costuma ser meio caminho andado.

O resultado, no entanto, perdeu tamanho diante de uma cena que chocou a Arena – e todos nós apaixonados por futebol. Aos 25 minutos do segundo tempo, Marlon caiu. Não foi uma queda qualquer. Foi daquelas que fazem o estádio inteiro prender a respiração antes mesmo de entender o que aconteceu.

A imagem é difícil de esquecer. Preso entre dois adversários, tentando escapar em direção ao ataque, ele teve a perna retida no gramado, o corpo por cima, o pé em posição que não deveria existir. Há lances que dispensam laudo médico. O olhar já antecipa a gravidade.

Marlon é gremista de coração. É daqueles que carregam história junto com a camisa. Chegou aos 28 anos para viver o que muitos chamam de sonho. E tratou esse sonho com a seriedade de quem sabe o peso que ele tem.

Foi voz quando o silêncio seria mais confortável. Questionou arbitragem, assumiu responsabilidades em momentos difíceis, não se escondeu em uma temporada irregular. Dentro de campo, cresceu. Fora dele, se posicionou. Assim se constrói liderança — não com braçadeira, mas com atitude. A faixa, aliás, que carregava na noite de hoje, foi apenas um detalhe coerente com o papel que já exercia.

O estádio reagiu como se espera de quem reconhece os seus. Houve mãos na cabeça, olhos fechados, lágrimas soltas na arquibancada. Willian tentou esconder o choro sob a camisa. Cada um lidou à sua maneira com a cena. Nenhum de nós, no entanto, alcança a dor que ficou ali, naquele gramado.

A resposta veio em forma de canto. O nome de Marlon ecoou nas arquibancadas, transformando angústia em apoio. Um gesto simples, direto, que o futebol ainda sabe produzir quando tudo mais parece pequeno. E então, mesmo na dor, ele respondeu. Quando era levado para a ambulância, encontrou força, ergueu o corpo na maca, e com palmas agradeceu. Um gesto curto, mas cheio de significado. Há momentos em que o caráter se revela sem precisar de discurso.

A vitória fica registrada. O desempenho também. A noite, porém, será lembrada por outra razão.

Que Marlon encontre força para atravessar esse capítulo. O Grêmio e a sua gente estarão à espera. Não apenas pelo jogador. Pelo líder que fez da camisa algo maior do que um uniforme.

Mundo Corporativo: Ana Buchaim, VP da B3, revela o investimento que mudou o rumo da bolsa

Ana Buchaim, B3
Ana Buchaim é entrevistada no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“70% das fusões, elas dão errado, porque as pessoas negligenciam aspectos humanos.”

Em 2017, a fusão entre BM&FBovespa e Cetip criou uma das maiores infraestruturas de mercado financeiro do país e deu origem à atual B3. A operação uniu negócios complementares e exigiu uma transformação cultural estruturada para integrar equipes, sistemas e estratégias. O processo e seus desdobramentos foram tema de entrevista com Ana Buchaim, vice-presidente de pessoas, marketing, comunicação, sustentabilidade e investimento social da B3, ao Mundo Corporativo, da CBN.

Ao explicar o papel da instituição, Ana lembra que a “B3 é muito mais do que a bolsa do Brasil.” Segundo ela, além da negociação de ações, a empresa atua como uma plataforma que conecta investidores e investimentos com segurança, eficiência e transparência. “Quanto mais transparência no mercado, melhor é a negociação entre as partes.”

Hoje, a B3 conta com cerca de 4 mil funcionários e fatura perto de R$ 11 bilhões por ano, de acordo com executiva.

A integração das duas empresas foi tratada como prioridade cultural desde o início. Para Ana, ignorar esse aspecto compromete resultados. “Se você não cuidar das pessoas que trabalham ali dentro, você não consegue prestar um bom serviço para quem está fora.”

O processo envolveu a definição de propósito e valores com ampla participação interna. A companhia utilizou análise de redes organizacionais para mapear relações e identificar influências dentro da estrutura. “Quando você olha e conhece quem fala com quem, quem influencia quem, você consegue trazer as vozes que estão dentro da companhia para decidir junto que cultura que a gente queria.”

Ao longo do tempo, mecanismos de gestão foram ajustados para reforçar os valores definidos. “Mudamos remuneração, mudamos mecanismo de reconhecimento de time, mudamos práticas, rituais, símbolos para que as pessoas vivenciassem a cultura.”

Um dos eixos dessa transformação foi a agenda de diversidade vinculada a metas públicas e remuneração variável. Essas metas impactavam a remuneração de gestores, inclusive do presidente. Os resultados apareceram nos indicadores internos. “A gente saiu, por exemplo, de 8% de pessoas pretas e pardas na organização, para chegar no número de 28% num curto período, sendo 15% de líderes pretos e pardos na organização.” Para Ana, diversidade é parte da estratégia, “não é um favor.”

A B3 também criou o índice iDiverse, que mede a performance de empresas com boas práticas na área, e estruturou instrumentos financeiros vinculados a metas de diversidade. “A ideia é valorizar quem faz.”

Democratização do acesso ao mercado

A mudança cultural também influenciou a comunicação com investidores. Ao reconhecer a complexidade do mercado financeiro, a B3 buscou simplificar a linguagem. “Quando você começa a entender que o investidor pode vir de qualquer lugar, com qualquer renda, com qualquer informação, você muda a forma que você fala.”

A plataforma Bora Investir foi criada com esse objetivo. “A gente simplificou a notícia, que é dura, que às vezes está no jornal e que é difícil de ler.” O resultado aparece na ampliação da base de investidores. “Hoje a gente tem quase 5.5 milhões de brasileiros que investem e aplicam em renda variável.” O valor médio de entrada também caiu. “Saiu de 800 mil CPFs para quase 6 milhões de investidores em renda variável.”

Ao tratar da gestão de pessoas, Ana destaca a importância de metas claras e diálogo aberto. “Eu tenho que ser capaz de falar com o meu time o que tá funcionando, o que não tá, e não falar da pessoa, mas falar do fato.” Para ela, definir metas exige equilíbrio entre clareza e viabilidade. Se não puderem ser cumpridas, o caminho é negociar com base em dados. “Imagina que eu sou um funcionário e recebi uma meta que eu entendo que eu não consigo alcançar. O que eu deveria fazer? Eu deveria conversar, eu deveria mostrar números, fatos e dados para conseguir negociar também com meu gestor, porque isso é uma via de mão dupla”.

A liderança, segundo Ana, exige proximidade e governança. “Ninguém faz nada sozinho e ninguém sabe tudo sozinho.” Ela também ressalta a relevância de reduzir assimetria de informação. “Quando eu tenho melhor informação, eu tenho uma melhor decisão.”

Dados e inteligência artificial

Com grande volume de dados operacionais, a B3 criou a unidade Trillia para desenvolver soluções baseadas em análise de dados e inteligência artificial. “A gente usa muito intensamente AI para fazer isso.” Internamente, a empresa disponibilizou ferramentas para experimentação em ambiente controlado. “Existe o B3 GPT ali dentro, em que as pessoas podem olhar e testar.”

A estratégia combina estímulo individual e colaboração com clientes. “A gente tem as boas perguntas ali dentro.” Para Ana, o aprendizado ocorre com testes, ajustes e diálogo constante.

Ao fim da entrevista, ela resume o principal desafio atual. “Eu acho que é conviver num ambiente em que as pessoas tendem a se polarizar cada vez mais rápido.” A resposta, segundo ela, está na comunicação. “Abrir o diálogo dentro da companhia para posições divergentes, abrir o diálogo com o mercado.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Como diferenciar frustração de toxicidade e proteger suas relações

Por Beatriz Breves

Foto de RDNE Stock project on Pexels.com

Quem nunca percebeu que, ao conviver com certas pessoas, alguns sentimentos ou comportamentos parecem ganhar força; com outras, simplesmente estes sentimentos não surgem? Isso acontece porque, quando duas ou mais pessoas se encontram, seus aspectos individuais entram em interação. Elementos semelhantes ressoam e se influenciam mutuamente, moldando a forma como cada um sente, reage e se posiciona naquele vínculo.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que há relações que evoluem para a harmonia, enquanto há aquelas que deslizam para a toxicidade. O encontro entre duas subjetividades pode tanto gerar um campo fértil para o crescimento, quanto ativar padrões que ferem, limitam e desgastam.

Muitas pessoas confundem uma relação harmoniosa com uma relação perfeita. Harmonia não é sinônimo de perfeição, e perfeição, por sua vez, está longe de ser garantia de saúde. Se imaginássemos um casal “perfeito”, provavelmente veríamos uma convivência marcada pela monotonia, pela ausência de espaço para movimento, tensão criativa ou crescimento pessoal. Isso porque o ser humano amadurece justamente nas diferenças, ou seja, nas ausências, nos desencontros e nos contrastes que geram movimento.

Usando uma metáfora musical, é no intervalo entre as notas que o corpo encontra espaço para dançar. Da mesma forma, é no espaço entre as certezas, entre os pequenos atritos, que a relação se constrói e amadurece.

As frustrações cotidianas não significam que a relação está ruim; elas apenas indicam que algo precisa ser ajustado. Podem surgir do desejo por mais atenção ou da expectativa de mudança em algum comportamento, entre outras situações. Enfim, são ocorrências comuns, que costumam se resolver com diálogo, empatia e, em certos momentos, com a aceitação madura de que nem tudo pode, ou deve, ser transformado.

As frustrações cotidianas são inevitáveis e naturais; portanto, são frustrações saudáveis. Em qualquer relação, o não atendimento ocasional das expectativas faz parte do fluxo saudável entre duas pessoas, porque ninguém consegue corresponder integralmente ao que o outro deseja o tempo todo. O que realmente importa é como cada pessoa lida com esses pequenos desencontros — se eles se transformam em espaço para o diálogo e passam a fazer parte do amadurecimento do vínculo.

A frustração tóxica não segue esse padrão. Como o próprio nome sugere, ela intoxica. Enquanto a frustração cotidiana aponta para ajustes possíveis dentro de um vínculo que permanece respeitoso, a frustração tóxica corrói, desorganiza e fere. Manifesta-se por comportamentos repetitivos gerando sofrimento psicológico constante e, por vezes, físico. Nessas relações, os conflitos se tornam a base da convivência, pois prevalecem o desrespeito, o controle e a manipulação.

Uma relação tóxica drena a vitalidade emocional, porque funciona por repetição de padrões que machucam, desgastam e desorganizam o bem‑estar de quem está envolvido. O sofrimento deixa de ser pontual e é constante, criando um ambiente de tensão, insegurança e exaustão afetiva, gerando intenso desgaste emocional.

A frustração saudável abre espaço para conversa e reajuste; a que contém toxicidade, instala medo, insegurança e perda de autonomia. A frustração cotidiana funciona como um remédio amargo que, mesmo causando incômodo, favorece o crescimento, a reorganização e a maturidade emocional. Já a tóxica age como um veneno que corrói lentamente, enfraquece a capacidade de discernimento e paralisa a iniciativa.

Transformar uma relação tóxica é um processo complexo porque exige que ambos reconheçam o padrão e se comprometam com a mudança. Esses padrões costumam estar profundamente enraizados, muitas vezes construídos ao longo de anos, e, por isso, não se desfazem somente com boa vontade ou promessas. O primeiro passo é admitir a necessidade de mudança; o segundo, identificar os comportamentos que sustentam a dinâmica tóxica; e o terceiro, buscar apoio para reconstruir a forma de pensar, sentir e se relacionar.

Entre os comportamentos tóxicos mais conhecidos estão o gaslighting, quando um dos parceiros distorce a realidade do outro a ponto de fazê‑lo duvidar da própria sanidade; o manterrupting, caracterizado por interrupções constantes e desnecessárias que impedem o outro de concluir seu raciocínio; e o mansplaining, que ocorre quando um dos parceiros fala condescendentemente, explicando o óbvio como se o outro fosse incapaz de compreender.

Estão nesta lista de comportamentos tóxicos também o love bombing, marcado pelo excesso de carinho no início da relação para, mais tarde, exercer controle; o silêncio punitivo, usado como forma de castigo que gera insegurança; e o ciúme possessivo, que funciona como controle disfarçado de cuidado.

Compreender a diferença entre frustração cotidiana e frustração tóxica ajuda a nutrir relações mais saudáveis, sensíveis e respeitosas. Essa compreensão fortalece os vínculos e amplia a nossa potência de amar.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Avalanche Tricolor: há futebol além do empate

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó SC

Gremio x Chapecoense
Nardoni fez seu primeiro gol pelo Grêmio. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ponto fora de casa se comemora. Ao menos esse é o comportamento padrão no futebol, principalmente em uma competição de longo alcance como o Brasileiro. Apesar dessa máxima, o torcedor do Grêmio não saiu satisfeito da partida desta segunda-feira à noite.

Especialmente depois de ter desperdiçado dois pontos na rodada anterior dentro de casa — jogo sobre o qual decidi não desperdiçar minha escrita —, o Grêmio precisava recuperar terreno em relação àqueles que estão na parte mais alta da tabela. Não foi capaz.

Apesar de ter sido superior na maior parte do tempo, o time de Luis Castro não conseguiu transformar esse domínio em vitória. Não fosse uma falha grosseira do goleiro adversário talvez estivéssemos até agora tentando marcar um gol.

O curioso é que, se olharmos momentos específicos da partida, encontraremos motivos para acreditar no potencial deste time.

Ao contrário de outras jornadas nas quais nada se via de produtivo, o Grêmio dá sinais de que pode encontrar boas soluções dentro do próprio elenco. Há um esboço de futebol que permite imaginar uma caminhada mais consistente neste ano de 2026.

Que Arthur, lesionado, faz tremenda falta ao time é inquestionável. Nosso volante mais ofensivo tem uma capacidade de organizar as jogadas acima da média. O meio de campo perde muito na ausência dele. Não significa, porém, que o trio Nardoni, Noriega e Monsalve não possa apresentar qualidade. Em alguns instantes houve troca de passes interessante. Faltou a conclusão.

Nossos ponteiros são atrevidos. Amuzu, Tetê e Enamorado arriscam dribles, encaram os marcadores e chegam perto da área. Precisam caprichar mais nos cruzamentos. Carlos Vinícius, por mais perdigueiro de gols que seja, depende da ajuda deles para transformar presença na área em bola na rede.

William, que tem entrado no segundo tempo, aparece tanto pelo meio quanto pelos lados do campo. Tem um toque de bola diferenciado. Falta acertar a definição das jogadas.

Temos carências nas laterais. Marlon é o melhor deles e fez muita falta na partida de hoje. Pavón me comove pelo esforço, mas não é da posição. Também tem demonstrado dificuldade no toque final para os companheiros dentro da área — o que já acontecia quando atuava como atacante.

O Grêmio não perde há sete jogos. Destes, porém, venceu apenas dois — é verdade que um deles valeu o título do Campeonato Gaúcho. Ainda assim, para quem quer subir na tabela do Brasileiro, empatar virou pouco.

Empate fora de casa pode ser motivo de comemoração. Mas também pode ser o sinal de que ainda falta ao time transformar promessas de futebol em vitórias de verdade.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: seis regras para destruir uma marca

Foto de Andrea Piacquadio on Pexels.com

Ignorar o consumidor, fechar os olhos para a concorrência e improvisar a identidade visual da marca são caminhos rápidos para comprometer um negócio. O tema foi discutido no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN, a partir de uma provocação curiosa: o que fazer para que uma marca fracasse?

A proposta partiu de uma inversão de lógica. Em vez de listar atitudes que levam ao sucesso, Jaime e Cecília apresentaram regras que levariam ao resultado oposto. A estratégia lembra um raciocínio usado em matemática, quando se parte de uma hipótese absurda para demonstrar o caminho correto.

Jaime Troiano explicou a ideia logo no início: “Às vezes, é mais fácil chegar ao positivo partindo do negativo.”

A primeira regra para o fracasso é ouvir apenas o que se fala dentro da empresa. A sugestão, naturalmente, deve ser entendida ao contrário. Jaime Troiano brinca que os executivos deveriam evitar circular pelo mercado ou escutar clientes e consumidores. O recado implícito é claro: marcas fortes nascem da escuta ativa do público.

A segunda regra sugere ignorar completamente os concorrentes. Olhe apenas para a própria empresa e seus produtos. A provocação revela uma prática comum em gestão de marcas: acompanhar o mercado é essencial para entender tendências, movimentos estratégicos e mudanças de comportamento dos consumidores.

A terceira regra mira um problema recorrente em empresas: a improvisação na identidade visual. Jaime ironiza a prática de confiar a tarefa a alguém sem formação na área. “Acredite que a sobrinha do diretor é quem tem razão… Evite contratar designers para cuidar disso.” A frase mostra como decisões aparentemente simples podem comprometer a consistência de uma marca.

A quarta regra para o fracasso trata da extensão exagerada de marcas. A ideia, segundo Cecília Russo, seria usar uma marca conhecida para vender qualquer tipo de produto, mesmo que não tenha relação com o negócio original. Ela lembra um dos muitos casos que deram errado: “No caso da Sadia quando criou água mineral, não funcionou.”

A quinta regra propõe economizar na comunicação. Se o produto for bom, basta esperar que o público descubra sozinho. Na prática, empresas consolidadas fazem exatamente o contrário: investem em comunicação para reforçar reputação e presença na mente do consumidor.

A sexta e última regra — se é que sua marca já não fracassou por completo — é abandonar as raízes da marca em busca permanente de modernização. Em mercados acelerados, muitas empresas acreditam que precisam reinventar tudo o tempo todo. O risco é perder identidade e história — dois ativos que ajudam a construir confiança.

A marca do Sua Marca

A principal lição do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é fazer exatamente o oposto das seis regras apresentadas. Ouvir o mercado, acompanhar concorrentes, investir em design e comunicação, respeitar a essência da marca e manter coerência nas decisões são atitudes que ajudam a construir valor ao longo do tempo.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.