A paciência é um sentimento geralmente atribuído aos sábios, às pessoas amadurecidas e experientes. Normalmente, o jovem não tem muita paciência. A juventude tende a ser mais impaciente. Vamos adquirindo paciência com o tempo e com as experiências da vida — com suas exceções, naturalmente.
A paciência é um sentimento capaz de acolher e favorecer o estabelecimento de relações marcadas pelo aconchego. Ela agrega outros sentimentos e atitudes, como a tolerância, a perseverança, a confiança e a resignação. Talvez seja por isso que, algumas vezes, dizemos:
— Nossa, fulano tem uma santa paciência!
É a maneira de reconhecer que aquela pessoa consegue administrar determinada situação de um modo que poucos conseguiriam.
Também podemos falar na arte da paciência. Ela se revela na forma como a pessoa lida com a vida: na capacidade de administrar as situações, perceber o tempo certo, saber esperar quando é preciso e avançar quando chega o momento. Conduzir a vida com paciência, calma e tranquilidade é uma arte — e também um aprendizado.
No mundo de hoje, vivemos uma situação muito interessante. A velocidade das informações e das comunicações pela internet exige de nós muita paciência, principalmente das gerações mais antigas.
Se não respondemos imediatamente a uma mensagem, se levamos um pouco mais de tempo, a pessoa do outro lado já começa a ficar impaciente. Eu diria que um minuto, hoje, equivale a um dia ou até a uma semana de antigamente.
Sou do tempo em que telefonávamos para a casa de alguém. A pessoa que atendia anotava o recado e, somente quando o destinatário chegava em casa, tomava conhecimento de que alguém havia ligado. Só então retornava a ligação.
Depois veio a secretária eletrônica — que, provavelmente, muita gente mais jovem nem chegou a conhecer. Hoje, temos o WhatsApp, e tudo se tornou imediato.
A paciência também precisou mudar o seu ritmo, o seu timing. Para as gerações mais antigas, é preciso muita paciência para acompanhar o mundo moderno, pois os jovens já nascem inseridos nele.
Por isso, faço um trocadilho: santa paciência para lidar com tantas transformações, reaprendizados e mudanças de ritmo!
Só mesmo com a arte da paciência.
E, ainda assim, haja paciência!
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
O termo “não lugar” designa espaços nos quais não predominam relações duradouras de identidade, memória e pertencimento. Em contraste com o lugar antropológico, constituído por relações sociais, acontecimentos históricos e referências compartilhadas, o não lugar caracteriza-se pela circulação, pelo trânsito e por interações predominantemente impessoais e temporárias. A expressão foi utilizada pelo antropólogo francês Marc Augé pela primeira vez em 1992, em seu livro Não lugares.
Aeroportos, autoestradas, hotéis, centros comerciais e determinados espaços de consumo são exemplos dessa condição. O não lugar, entretanto, não constitui uma categoria absoluta. Um mesmo espaço pode ser lugar para algumas pessoas e não lugar para outras, dependendo dos vínculos, significados e experiências que nele se estabelecem.
Essa compreensão desloca o olhar das características exclusivamente físicas do ambiente para as relações que se constroem entre pessoas, espaços e coletividades. As transformações decorrentes da globalização modificaram os modos de circular, permanecer e interagir, produzindo ambientes nos quais o indivíduo é frequentemente reconhecido por funções, códigos, documentos, contratos ou práticas de consumo.
Neles, é possível estar fisicamente presente sem, necessariamente, estabelecer vínculos de pertencimento, reconhecimento ou continuidade.
O envelhecimento passa a transformar a relação cotidiana com o espaço à medida que a mobilidade, a percepção, a autonomia, os ritmos de deslocamento e as possibilidades de participação social se modificam. Apesar disso, grande parte das cidades ainda é organizada a partir de referências associadas a um corpo considerado padrão: autônomo, produtivo, veloz e fisicamente capaz.
A partir do momento em que o ambiente não considera a diversidade dos corpos e de seus modos de experienciar a cidade, as barreiras deixam de ser exclusivamente físicas e passam a alcançar dimensões simbólicas, afetivas e sociais.
É nesse contexto que o não lugar pode ser compreendido também como uma experiência de não pertencimento. Uma calçada que dificulta a circulação, uma praça que não oferece condições adequadas de permanência, um transporte público pouco acessível ou um equipamento que desconsidera diferentes necessidades corporais podem transmitir, ainda que silenciosamente, que aquele espaço não foi pensado para determinado corpo.
A pessoa está presente, mas encontra dificuldades para reconhecer o ambiente como parte de sua experiência cotidiana e, sobretudo, para sentir-se reconhecida por ele.
Tal experiência torna-se significativa quando relacionada à solidão e ao isolamento social na velhice. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1 em cada 10 pessoas idosas vivencie solidão, enquanto 1 em cada 4 esteja socialmente isolada. Embora os conceitos não sejam equivalentes — a solidão corresponde à experiência subjetiva de insuficiência ou ausência de conexões significativas, enquanto o isolamento social se refere à reduzida frequência ou quantidade de relações e contatos sociais —, ambos podem ser agravados por condições que restringem a mobilidade, a convivência e a participação na vida coletiva.
É nesse ponto que a noção de dor social, discutida pela neurociência afetiva, amplia a compreensão dessa experiência. A dor social refere-se ao sofrimento associado à rejeição, à exclusão, à perda ou à ruptura de vínculos. Estudos baseados em evidências indicam que experiências dessa natureza envolvem circuitos relacionados ao processamento do sofrimento e da dor, incluindo regiões como o córtex cingulado anterior e a ínsula.
Contudo, isso não significa que a dor social e a dor física sejam neurologicamente equivalentes. Pesquisas posteriores demonstram que essa relação é mais complexa, embora sustentem a existência de mecanismos neurobiológicos associados ao sofrimento produzido pela desconexão social.
Sob essa perspectiva, o isolamento não pode ser compreendido apenas como ausência de companhia. Ele pode representar uma experiência prolongada de redução das oportunidades de encontro, participação e construção de vínculos.
A permanência dessas restrições pode repercutir sobre a qualidade de vida. Ambientes que reduzem a autonomia, dificultam a orientação, produzem insegurança ou limitam as oportunidades de convivência favorecem estados de tensão e vigilância. Quando essas condições se articulam à solidão, ao isolamento social e à perda de autonomia, contribuem para a manutenção de estressores ambientais e sociais, com repercussões sobre o bem-estar físico, psicológico e cognitivo.
O estresse, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma resposta individual, mas como fenômeno produzido na interação entre corpo, ambiente e contexto social.
Em oposição a essa experiência, o lugar pressupõe a possibilidade de estabelecer vínculos, reconhecer referências e construir relações de continuidade com a própria história. Para a pessoa que envelhece, isso significa poder circular, permanecer, descansar, encontrar outras pessoas, recordar, participar e sentir-se parte da vida cotidiana. Bancos, percursos legíveis, iluminação adequada, vegetação, referências visuais, diversidade de usos e espaços de convivência podem contribuir para essa experiência quando concebidos a partir das necessidades e dos modos de uso das pessoas.
A relação entre lugar, não lugar, dor social e corpo envelhecente evidencia que a qualidade de vida também se constitui nas relações entre pessoas e espaços. Pertencimento não significa apenas estar fisicamente presente, mas poder reconhecer-se no ambiente e ser reconhecido por ele.
Projetar para o envelhecimento, portanto, ultrapassa a eliminação de barreiras arquitetônicas. Implica criar condições espaciais para que diferentes corpos possam circular, permanecer, se encontrar, participar e estabelecer vínculos.
O desafio consiste, assim, em compreender a arquitetura e a cidade como estruturas relacionais.
Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará.Ciro escreve a convite do Blog do Mílton Jung
As redes sociais deram voz a milhões de pessoas, e também ampliaram a circulação de desinformação, discursos de ódio e outros conteúdos prejudiciais. O desafio é criar regras para as plataformas sem transformar a proteção dos usuários em instrumento de censura. Esse foi o tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, que teve as participações de Bia Barbosa, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e Rafael Pellon, advogado especializado em Direito Digital.
A principal divergência está menos na existência de regras e mais no alcance delas. Bia defende uma regulação que atue sobre o funcionamento e o modelo de negócios das plataformas. Rafael alerta para o risco de que essas regras avancem sobre o conteúdo publicado pelos cidadãos e restrinjam a liberdade de expressão.
Para Bia nem plataformas nem governos devem receber o poder de determinar o que é verdadeiro ou falso. Para ela, a regulação pode atuar por outros caminhos, como transparência, proteção de dados, combate à violência digital e identificação de conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial.
“Não se trata da gente dar para as plataformas o poder de definir o que que é verdade ou que não é, muito menos para o governo de plantão”, afirmou.
A representante do CGI.br também defendeu que a fiscalização das regras seja feita por uma autoridade independente, a partir de legislação aprovada pelo Congresso e submetida ao debate público.
Rafael concordou que determinadas regras podem existir, mas estabeleceu uma fronteira: elas deveriam se concentrar nos extremos e evitar interferência sobre a comunicação cotidiana entre os cidadãos.
“Na medida em que a gente tenta criar qualquer tipo de regulação que preveja algum tipo de avaliação prévia, a gente entra num risco de censura”, disse.
Outro ponto do debate foi a transparência algorítmica. Algoritmos são sistemas usados pelas plataformas para decidir, entre outras coisas, quais publicações serão recomendadas e ganharão maior visibilidade.
Bia argumentou que conhecer os critérios dessas decisões pode proteger o próprio exercício da liberdade de expressão. Ela citou casos de jornalistas e veículos que tiveram contas ou conteúdos suspensos sem explicações claras sobre os motivos ou sobre os mecanismos disponíveis para recorrer.
Para ela, o problema também está no modelo econômico das redes, construído para aumentar o tempo de permanência do usuário e, consequentemente, a coleta de dados e a receita. A regulação, portanto, deveria atuar sobre a arquitetura e os incentivos das plataformas, e não sobre cada conteúdo individualmente.
Rafael fez uma ressalva. O algoritmo também constitui parte do segredo comercial das empresas. Exigir sua abertura completa poderia prejudicar inovação e concorrência. A alternativa, segundo ele, seria exigir informações suficientes para compreender os efeitos do sistema sem obrigar as empresas a revelar todos os detalhes técnicos.
“Eu consigo divulgar os efeitos, mas não as regras exatas em que se trabalha”, afirmou.
O debate mostra que a discussão não cabe apenas na pergunta “regular ou não regular”. A questão central é definir o que regular, quem fiscaliza, quais informações as plataformas devem fornecer e onde estabelecer a fronteira para preservar a liberdade de expressão.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Mais de R$ 60 bilhões do Orçamento federal deste ano estão autorizados para emendas parlamentares, instrumento que ampliou o poder de deputados e senadores sobre a distribuição do dinheiro público. As emendas permitem que parlamentares indiquem onde uma parcela dos recursos do Orçamento será aplicada. Mais da metade do valor previsto neste ano corresponde a emendas impositivas, cujo pagamento é obrigatório.
Na série 50 Debates para o Brasil, realizada no Jornal da CBN, nós reunimos Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política e sócio da consultoria Think Policy, e Guilherme France, gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional Brasil. E propusemos a eles que se discutisse o limite desse poder concedido pelos parlamentares: de um lado, a defesa da autonomia do Congresso; de outro, os questionamentos sobre transparência, eficiência e influência eleitoral.
Leonardo Barreto argumenta que as emendas estão relacionadas ao próprio modelo de representação política brasileiro. Deputados e senadores assumem compromissos com suas bases eleitorais e precisam de recursos para atendê-los. Antes das emendas impositivas, lembra ele, os parlamentares dependiam mais diretamente do governo para conseguir liberar verbas.
Para Barreto, esse mecanismo ajudou a reduzir a dependência do Legislativo em relação ao Executivo. “O Congresso, e a gente conservar a autonomia dele, independência dele, e a emenda é relevante nesse sentido, isso é importante”, afirmou. Na avaliação do cientista político, eliminar ou reduzir drasticamente esse instrumento poderia novamente aumentar o poder do governo sobre deputados e senadores.
Isso não significa, segundo ele, que o sistema deva permanecer como está. Barreto reconhece problemas de transparência e defende maior responsabilização do parlamentar pela aplicação dos recursos que indica. Uma possibilidade seria aproximar sua responsabilidade daquela atribuída ao ordenador de despesas, tornando-o corresponsável pelo acompanhamento do dinheiro.
Guilherme France chama atenção para outra dimensão do problema: o volume de recursos sob controle do Congresso. Segundo ele, as emendas representam entre um quinto e um quarto do orçamento discricionário da União — a parcela sobre a qual o governo tem maior liberdade de decisão, depois das despesas obrigatórias.
O representante da Transparência Internacional Brasil afirma que o problema não se limita aos casos de suspeita de corrupção. Pesquisas citadas por ele indicam que municípios que recebem mais recursos de emendas em determinadas áreas não necessariamente apresentam melhores resultados nas políticas públicas.
“Esses recursos não têm produzido resultados eficazes em termos de políticas públicas”, afirmou France. Para ele, a destinação do dinheiro precisa considerar critérios técnicos e permitir que a sociedade acompanhe tanto a escolha dos projetos quanto sua execução.
Emendas e disputa eleitoral
Outro ponto levantado no debate foi o impacto das emendas sobre as eleições. France argumenta que parlamentares que já exercem mandato chegam à disputa com a vantagem de terem destinado recursos às suas bases, enquanto candidatos sem mandato não dispõem do mesmo instrumento.
“A gente vê hoje as emendas sendo um mecanismo de abuso do poder político e econômico muitas vezes, que acaba prejudicando a disputa eleitoral”, disse.
Barreto reconhece a necessidade de aprimorar os controles, mas questiona se concentrar novamente as decisões nos ministérios produziria necessariamente resultados melhores. Para ele, o parlamentar eleito também tem legitimidade para identificar necessidades de municípios e regiões.
O debate, portanto, não se resume a ser a favor ou contra as emendas. A questão é definir quanto do Orçamento deve ficar sob influência direta do Congresso, quais critérios devem orientar a distribuição e quem responderá pela fiscalização e pelos resultados. Em um orçamento pressionado e com pouco dinheiro disponível para novos investimentos, cada emenda representa também uma escolha sobre aquilo que deixará de ser financiado.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, isolamento e a sensação de acordar cansado mesmo depois de descansar podem ser sinais de fadiga emocional. Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbizan, esses sintomas podem aparecer quando os excessos do cotidiano se acumulam sem que a pessoa perceba. A exposição contínua às redes sociais, a busca por validação e a pressão para demonstrar produtividade, felicidade e equilíbrio fazem parte desse processo. O assunto foi tema de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
Thaís define a fadiga emocional como “uma exaustão psíquica que a gente pode ter de acordo com os excessos do dia a dia e que a gente não vai percebendo”. Segundo ela, um dos problemas é justamente a dificuldade de reconhecer que o limite foi ultrapassado. A pessoa continua trabalhando, cuidando da família, respondendo mensagens e cumprindo compromissos. Por fora, a rotina segue funcionando. Por dentro, porém, pode haver um desgaste crescente.
Entre os sinais citados pela psicóloga estão alterações no sono, maior irritabilidade, vontade de se afastar das relações sociais e cansaço persistente. “Existe aquela vontade de descansar, mas você acorda cansada”, afirma.
A necessidade de validação
As redes sociais não são apresentadas por Thaís como responsáveis isoladas pelo problema. Ela reconhece seu papel na comunicação, no trabalho e na circulação de informação. A questão está na forma e na intensidade com que são incorporadas ao cotidiano.
A psicóloga chama a atenção especialmente para a diferença entre compartilhar momentos da vida e depender da reação dos outros para avaliar a própria vida. “Quando você vive tendo o tempo todo que ser validado pelo outro, por uma curtida, por um encaminhamento, por quantas pessoas que te seguem, quem tem mais seguidores”, diz.
Essa lógica pode ser mais intensa para quem depende profissionalmente da exposição digital. Produzir vídeos, acompanhar o engajamento e permanecer disponível transforma o celular em instrumento de trabalho, mas também dificulta estabelecer uma fronteira entre vida profissional e pessoal. Para Thaís, essa fronteira merece atenção: “Até que ponto é o tempo que a pessoa só vai usar para ela e para o trabalho, onde fica o público e o privado?”
A psicóloga também chama a atenção para a comparação permanente. Nas redes, as pessoas normalmente encontram recortes da vida dos outros. Um vídeo de poucos minutos ou uma fotografia não revelam o conjunto da experiência de quem aparece na tela.
A comparação entre a vida cotidiana e essas imagens editadas pode afetar a autoestima. “Há um rebaixamento dessa autoestima, sim. Há tendência à depressão, há tendência a transtornos de ansiedade, a necessidade o tempo todo de pertencimento, de sentimento de inadequação, de vazio”, afirma.
O piloto automático e a anestesia emocional
Outro ponto abordado por Thaís é a dificuldade de perceber o próprio estado emocional. Quando trabalho, mensagens, compromissos e estímulos digitais se sucedem sem interrupção, a pessoa pode entrar no que ela descreve como “piloto automático”. Nesse processo, até distinguir bem-estar de mal-estar pode se tornar mais difícil.
“A partir do momento que você vive nesse piloto automático, você não sabe mais diferenciar o que é estar bem ou o que é não estar bem.”
Thaís relaciona essa situação a uma espécie de anestesia emocional. A pessoa cumpre suas obrigações, participa de atividades e mantém a rotina, mas pode não conseguir identificar claramente prazer, tristeza, cansaço ou insatisfação.
O problema, segundo ela, se agrava quando qualquer sensação de vazio precisa ser imediatamente preenchida. “Esse vazio que precisa existir, mas que não é olhado, porque precisa ser preenchido com estímulos, com vídeos, com engajamento, com curtidas e com validações.”
Reconhecer e nomear o que se sente passa, portanto, a ser parte importante do cuidado emocional. “Tudo que a gente dá nome, a gente consegue ajudar, a gente consegue se ajudar. O nomear é muito importante”, diz.
Descansar exige aprendizado
A pressão por produtividade pode alcançar até os momentos destinados ao descanso. Fazer nada passa a produzir culpa porque existe a sensação de que todo período disponível deveria ser preenchido por alguma atividade.
Thaís propõe questionar essa lógica. “O nada é uma arte”, afirma. Esse “nada” não significa necessariamente permanecer imóvel. Pode envolver ouvir música, ler ou simplesmente passar algum tempo sem a obrigação de produzir um resultado. A questão central é permitir que nem todas as atividades sejam avaliadas por produtividade, exposição ou aprovação externa.
A psicóloga também sugere observar a frequência com que aparece a expressão “ter que” na rotina: ter que responder, ter que produzir, ter que publicar, ter que demonstrar alguma coisa. “Sempre quando a gente tem que algo, a gente acaba saindo do ser”, diz.
A hora de prestar atenção
Não existe uma quantidade única de minutos ou horas nas redes sociais que determine quando o uso se tornou prejudicial. Thaís sugere olhar para as consequências. É preciso observar quanto tempo se passa nas redes, que tipo de conteúdo é consumido e, principalmente, o efeito desse uso sobre a vida cotidiana.
Problemas de sono, ansiedade, irritabilidade, perda de concentração, isolamento e prejuízos nos relacionamentos aparecem entre os sinais mencionados. A necessidade de curtidas e engajamento para se sentir bem também merece atenção.
“Até que ponto isso tá tomando a sua vida, o seu sono, as suas relações?”, questiona.
Na experiência clínica relatada por Thaís, muitas pessoas não procuram ajuda porque perceberam que estão usando demais as redes sociais. Elas chegam pelas consequências: estão mais irritadas, não conseguem conversar com a família, sentem necessidade de se isolar ou têm dificuldade para se desligar do celular.
Quando a exaustão e o sofrimento começam a interferir na vida profissional, familiar ou afetiva, a psicóloga recomenda buscar uma rede de apoio e ajuda especializada.
Ao fim da conversa, Thaís resume sua orientação pela busca de equilíbrio e pela preservação da própria identidade diante das pressões externas.
“Tá tudo bem você querer estar virtualmente, tá tudo bem você querer estar presencialmente, tá tudo bem não ter nenhuma rede social. Isso não é ser normal. Ser normal é ser você.”
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A solidão deixou de ser apenas uma experiência individual e passou a ser tratada como um problema social e de saúde pública. Essa transformação também coloca novas questões para empresas e marcas, como destacaram Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.
A discussão parte de uma característica básica das relações humanas: quando consumimos, nem sempre procuramos apenas produtos ou serviços. Também buscamos reconhecimento, convivência e a sensação de pertencer a algum grupo.
É nesse espaço que, segundo Cecília, as marcas podem desempenhar um papel que vai além da venda. “A gente não busca apenas produtos quando a gente vai comprar, mas a gente busca também aquele espaço de reconhecimento, de pertencimento.”
Um exemplo está nos grupos de corrida organizados ou estimulados por marcas esportivas. As pessoas chegam interessadas em exercício, saúde ou desempenho, mas muitas permanecem pela convivência. Aos poucos, surgem amizades, hábitos compartilhados, formas de vestir e até um vocabulário próprio. A corrida deixa de ser apenas uma atividade individual e se transforma em experiência coletiva.
Para Cecília, essa convivência tem impacto direto na relação com as marcas. A publicidade pode ajudar a comunicar valores e reforçar uma identidade, mas a experiência compartilhada cria outro tipo de memória. “A memória afetiva nasce dessa convivência e a marca precisa estar nesses espaços e promover essa visão de viver em grupo.”
Autonomia não substitui conexão
Jaime Troiano chama a atenção para um paradoxo. Durante anos, empresas investiram para dar autonomia aos consumidores. Vieram caixas eletrônicos, aplicativos, autoatendimento e, mais recentemente, ferramentas baseadas em inteligência artificial. Ganhamos independência para resolver tarefas sem depender de outras pessoas. Isso não significa, porém, que tenhamos deixado de precisar das pessoas.
“Embora a gente adore a autonomia, a gente precisa, de alguma forma, de conexão para viver bem”, diz Jaime.
O Sesc aparece como exemplo dessa capacidade de promover encontros. Esporte, cultura, shows, viagens, cursos e oficinas são atividades oferecidas pela instituição, mas seu efeito vai além de cada serviço isoladamente. Esses espaços aproximam pessoas, estimulam relacionamentos e produzem memórias.
Jaime recorre à própria experiência para ilustrar essa relação. Durante dez anos, frequentou com a família a colônia de férias do Sesc em Bertioga, litoral paulista. Dali ficaram amizades e lembranças construídas pela convivência. Ele também cita a Osesp e a Sala São Paulo como espaços em que a experiência cultural é acompanhada pelo encontro com outras pessoas.
A questão para as marcas, portanto, não é substituir produtos por relacionamentos nem transformar empresas em responsáveis por resolver a solidão. É perceber que, ao lado da eficiência, da tecnologia e da autonomia, existe uma necessidade humana que nenhuma tela consegue eliminar por completo: a de estar com os outros.
A marca do Sua Marca
Preço e tecnologia podem ser reproduzidos pela concorrência. Relações, memórias e senso de pertencimento são mais difíceis de copiar. A principal marca deste comentário é justamente essa: empresas capazes de criar experiências que aproximem pessoas podem construir vínculos que ultrapassam a relação tradicional entre consumidor e produto. Quanto mais a tecnologia nos permite fazer tudo sozinhos, maior pode ser o valor de uma marca que nos dê bons motivos para estarmos juntos.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Krovinović entrou no segundo tempo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Domingo é dia de missa. Na minha paróquia, começa às seis da tarde. Costumo ir pela manhã a outra igreja próxima de casa quando as agendas cristã e futebolística se confundem. Nas rodadas dominicais em que o Grêmio entra em campo às quatro da tarde, assisto aos minutos derradeiros na tela do celular, na porta da igreja. Só desconecto no apito final do árbitro ou no sinal da cruz do padre — o que vier primeiro.
Hoje, confesso que cometi um sacrilégio. Não com Deus. Com o meu time. Nem nos piores momentos do Grêmio aceitei a ideia de abandonar a arquibancada antes do encerramento. Hoje, quando percebi que a partida ainda se estenderia até perto das seis da tarde (ou da noite), apaguei a TV e fui rezar. Não para o meu time. A Deus.
A minha desistência antecipada deste domingo é o sinal claro da desilusão que o Grêmio insiste em impor ao seu torcedor. Após a classificação à semifinal da Copa do Brasil e a vitória de virada na última rodada do Brasileiro, cheguei a me entusiasmar — e deixe isso registrado nesta Avalanche. A chegada de dois reforços menos badalados, mas que rapidamente entregaram bom desempenho também trouxe otimismo. Refiro-me a Wallace e Caito. A ressureição de Pavón, com dois gols de falta em duas partidas seguidas, era de fazer qualquer descrente se converter. A contratação do croata Filip Krovinović, em condições de estrear hoje, alimentava a esperança de que finalmente teríamos um camisa 10 capaz de dar qualidade ao meio de campo.
Já começamos a partida cientes da ausência de Villasanti, o volante mais qualificado do time. Assim como da de Marlon, único lateral esquerdo em quem podemos confiar. Controle de carga foi a justificativa que nos deram. Sei que é preciso preservar os jogadores fisicamente, mas não me parece que o Grêmio esteja em condições de pensar no que será o amanhã. Precisa de resultado — principalmente fora de casa — aqui e agora.
A escolha de Dodi em lugar de Villasanti — com todo o respeito que este abnegado meio-campista merece — era a indicação de que Luis Castro, antes de pensar na vitória, queria evitar uma derrota. Time com três volantes e nenhum deles com qualidade para sair jogando não poderia oferecer muito mais do que nos ofereceu no primeiro tempo. Pobre dos nossos atacantes, que passaram 45 minutos à espera de um milagre. Que, como se sabe, não aconteceu. A bola mal chegava aos pés deles para que desse sequência às jogadas em direção ao gol.
No segundo tempo, Krovinović veio para o jogo. Teríamos, enfim, um meio de campo mais criativo. Kanneman substituiu Gustavo Martins, provavelmente por questões físicas. E Tetê entrou no lugar de Pavón. Não me pergunte a razão. Talvez a crença do técnico que dali viria a redenção.
E realmente o Grêmio melhorou em relação ao primeiro tempo — não que precisase fazer muito para isso. Chegou mais próximo da área. Pressionou mais. E, aos 14 minutos, quase empatou o jogo após a única ótima jogada do time. Caito desceu com velocidade até a linha de fundo e cruzou para Amuzu completar de primeira. Esperança à vista, pensou este sempre crente torcedor.
Ledo engano.
Em seguida, a realidade ficou escancarada. Com um volante a menos e atacantes que não sabem voltar para ajudar na marcação, tomamos dois gols de contra-ataque em três minutos.
Houve uma época em que, mesmo sem qualquer lógica, éramos capazes de superar todos os reveses. Ao menos acreditávamos que seríamos capazes. Quem sabe uma reação que nos permitisse continuar sonhando? Um gol que nos levasse a ficar grudado na televisão, cruzando os dedos, clamando aos deuses mundanos do futebol? Um empate heroico na casa do adversário?
Desculpe, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não encontrei em campo nenhum sinal de que algo parecido pudesse acontecer. Desliguei a TV, abandonei meu time antes de a partida terminar e fui à Igreja. O desalento é tamanho que sequer tive coragem de pedir dias melhores para o meu time. Penso que Deus tem coisa mais importante a fazer. O Grêmio que trabalhe e jogue um futebol capaz de nos fazer voltar a acreditar em milagres.
Ampliar o número de pessoas autorizadas a circular armadas pode aumentar a capacidade de defesa individual, mas também traz a discussão sobre os riscos de colocar mais armas em circulação. O tema, sempre polêmico, foi debatido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN. Nós convidamos para participar da discussão o coronel André Batista, especialista em Segurança Pública e ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e André Zanetic, doutor em Ciência Política e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A lei brasileira diferencia posse e porte. A posse permite manter uma arma legalmente registrada em casa ou no local de trabalho. O porte, mais restrito, autoriza o cidadão a circular armado e depende do cumprimento de requisitos e de autorização da Polícia Federal.
Para o coronel André Batista, pessoas legalmente habilitadas devem ter a possibilidade de portar armas para defesa pessoal. Ele argumenta que a Constituição estabelece a segurança como dever do Estado, mas isso não significa que o poder público consiga proteger todas as pessoas permanentemente, especialmente em áreas dominadas pelo crime.
“O cidadão que vive nessas áreas não tem o Estado para protegê-lo 100% do tempo e não tem direito a se proteger”, afirmou. Para Batista, negar a possibilidade de defesa nessas circunstâncias compromete o próprio direito à vida.
André Zanetic reconhece que uma arma pode ser usada com sucesso para defesa pessoal. Sua divergência está na transformação dessa decisão individual em política pública. Segundo ele, é preciso avaliar o efeito produzido quando milhares ou milhões de pessoas passam a circular armadas.
“A gente pode tomar uma decisão pensando na própria proteção, mas uma política pública tem que sempre perguntar qual é o efeito dessa decisão quando ela é aplicada para milhares ou para milhões de pessoas”, disse.
Zanetic cita situações cotidianas em que a presença da arma pode aumentar a letalidade de um conflito. Em um roubo, por exemplo, uma reação armada da vítima pode transformar um crime contra o patrimônio em um episódio com mortes. Por isso, defende critérios rigorosos e fiscalização eficaz.
Para sustentar sua posição em favor de maior flexibilidade para o porte de armas, Batista lembrou o referendo de 2005, quando mais de 63% dos eleitores rejeitaram a proibição da comercialização de armas de fogo e munição. Também ressaltou que defender o porte não significa apoiar acesso indiscriminado. Para ele, treinamento e capacitação devem fazer parte das exigências impostas aos cidadãos.
Zanetic concentrou sua preocupação em outra etapa: o que acontece com uma arma depois que ela entra legalmente em circulação. Segundo ele, parte do armamento adquirido de maneira regular pode ser desviada para a ilegalidade, em um país que ainda apresenta dificuldades de controle e fiscalização.
A divergência, portanto, não se limita ao direito de possuir uma arma. Batista enfatiza a possibilidade de autodefesa diante das limitações do Estado. Zanetic chama a atenção para o efeito coletivo da maior circulação de armamentos. Entre a proteção individual e o risco social está a pergunta que permanece aberta: mais cidadãos armados significam mais segurança?
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Vista aérea do Parque da Luz. Foto: Renata Carvalho/CBN
Nasci em 1963, em plena ditadura militar, quando São Paulo crescia sob concreto, fumaça e silêncios impostos. Vim ao mundo no bairro da Ponte Pequena, região que hoje abriga a estação Armênia do metrô. Eu, também, descendente desse pequeno país na região do Cáucaso, a Armênia, talvez por isso traga comigo, desde cedo, o sentimento de pertencimento misturado à resistência.
Minha infância foi marcada pelo Colégio Prudente de Moraes, que hoje abriga a Pina Contemporânea, anexo da Pinacoteca. Onde antes havia salas de aula, hoje há arte — e eu gosto de pensar que essa transformação também diz muito sobre São Paulo e sobre mim. O Parque da Luz fazia parte do meu cotidiano, um respiro verde em meio à cidade dura, um espaço onde o tempo parecia desacelerar.
Aos nove anos, minha família se mudou para a então Vila Sônia, região que hoje atende pelo nome de Jardim Trussardi, próxima ao estádio do Morumbi, o que me fez são paulino. Fomos morar em uma pequena vila, carinhosamente apelidada de “vilinha”, um lugar pitoresco, acolhedor, que até hoje preserva sua identidade. Ali aprendi o valor da convivência, da rua, do bairro como extensão da casa, fiz inúmeros amigos, que até hoje me acompanham
Comecei a trabalhar cedo. Fui contínuo em banco — o motoboy da época — circulando pela cidade, conhecendo São Paulo por dentro, nos seus corredores, calçadas e contradições. Estudei, me formei em Comunicação e, como a própria cidade, mudei muitas vezes de caminho. Trabalhei em jornais, como a Folha de São Paulo, vivi o ritmo intenso das redações nos tempos do fim da ditadura, e também passei por grandes montadoras, como a Mercedes-Benz, experimentando outros mundos dentro da mesma metrópole.
Casei, me separei, tive um filho, que hoje tem 34 anos, e mais tarde fui presenteado com uma filha linda, que hoje tem 10. Duas gerações separadas pelo tempo, mas unidas por essa mesma cidade que nunca dorme.
Hoje sou empreendedor na área de design digital e impresso, criando, reinventando, comunicando. E como São Paulo também é festa e resistência cultural, criei um bloco de carnaval de rua: o Perdendo a Linha, porque às vezes é preciso se perder para se encontrar.
São Paulo sempre esteve presente nas minhas conquistas e nas minhas derrotas. Uma cidade dura, generosa, caótica e acolhedora. Cresci com ela, envelheci com ela, e sigo caminhando ao seu lado. Minha história se mistura com a dela — porque viver em São Paulo é, acima de tudo, aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio.
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Ricardo Cordeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
A busca por maior diversidade no serviço público coloca em discussão como combinar igualdade de oportunidades, representatividade e mérito na seleção de servidores. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Alessandra Benedito, vice-presidente de Equidade Racial da Fundação Lemann, e Luiz Henrique Antunes Alochio, doutor e mestre em Direito e especialista em Direitos dos Servidores Públicos.
A legislação federal reserva 30% das vagas em concursos públicos para pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas. Também existem regras específicas para pessoas com deficiência. A discussão proposta no debate foi até que ponto essas políticas são necessárias para corrigir desigualdades e quais critérios devem determinar sua aplicação e duração.
Alessandra Benedito defendeu que ações afirmativas precisam partir de dados capazes de demonstrar quais grupos estão sub-representados no Estado. Para ela, essas políticas não devem ser permanentes por definição. Precisam ser acompanhadas e reavaliadas durante sua execução.
“Quando a condição que gerou a incidência não existir mais, definitivamente o recurso deve ser realocado”, afirmou.
Na avaliação de Alessandra, o desafio aumenta quando uma mesma pessoa reúne diferentes características que podem produzir desigualdades. É o que se denomina interseccionalidade — por exemplo, quando gênero, raça e deficiência se sobrepõem. Por isso, argumentou, não basta criar cotas: é necessário medir seus resultados e verificar periodicamente se continuam necessárias.
Luiz Henrique Alochio fez críticas à maneira como algumas ações afirmativas são formuladas, mas ressaltou que não é contrário a elas. Sua principal preocupação está nos critérios utilizados e no risco de essas políticas serem apropriadas pelo discurso político.
“Ação afirmativa não é, nunca foi, nunca deve, nunca deveria ter sido antagônica à noção de mérito”, afirmou.
Alochio citou como exemplo o Exame Nacional da Magistratura. Segundo ele, candidatos da ampla concorrência precisam alcançar 70% de aproveitamento, enquanto candidatos beneficiados por ações afirmativas precisam atingir 50%. Para o jurista, a diferença deveria ser questionada porque o exame não distribui um número limitado de vagas: quem alcança a nota exigida fica habilitado a participar posteriormente de concursos para juiz.
Apesar das divergências, os debatedores encontraram um ponto de convergência. Alessandra também afirmou que mérito e ação afirmativa não são conceitos incompatíveis. Para ela, competências e habilidades precisam ser avaliadas para determinar se uma pessoa está preparada para exercer determinada função.
A diferença está principalmente na interpretação sobre o papel das políticas públicas diante das desigualdades existentes. Alessandra sustenta que ações afirmativas devem funcionar como políticas de Estado, independentemente de quem esteja no governo, com acompanhamento contínuo de seus resultados. Alochio defende que o mérito seja o primeiro critério da seleção e cobra maior rigor na definição dos mecanismos de inclusão.
O debate, portanto, não se resumiu à escolha entre diversidade e mérito. A discussão avançou para uma questão mais complexa: como ampliar a presença de grupos sub-representados no Estado sem perder critérios objetivos de seleção — e como saber quando uma política afirmativa cumpriu sua função?
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.