Por Diego Felix Miguel
Prezada leitora e prezado leitor,
Peço licença para me dirigir especialmente aos homens gays. Todas as pessoas, porém, são bem-vindas a esta conversa.
Nos últimos artigos, escrevi sobre a velhice de homens gays e retratei questões como solidão, isolamento social, desigualdade no acesso à saúde e discriminação. Recebi mensagens que me deixaram profundamente incomodado. Algumas tratavam esses problemas com naturalidade, como se fossem intrínsecos à homossexualidade. Outras negavam a homofobia e atribuíam à própria pessoa uma postura de vitimização ou aprisionamento.
Associar a solidão e a negligência social no cuidado de pessoas LGBT+ idosas ao egoísmo, à suposta liberdade sexual moralmente atrelada à falácia da promiscuidade e à ausência de relacionamentos românticos reforça estigmas. E esses estigmas nos empurram ainda mais para a vulnerabilidade. Devolvem-nos ao conhecido “não lugar”, justamente em uma fase da vida marcada por transformações significativas, tanto biomédicas quanto sociais.
O que me incomodou ainda mais foi perceber que várias dessas falas vieram de homens gays mais jovens ou de pessoas que não vivenciaram a homofobia “nua e crua” enfrentada por boa parte dessa geração. Por isso, falo diretamente aos homens gays: dentro da comunidade LGBT+, esse me parece ser um dos grupos mais expostos ao idadismo e à dificuldade de reconhecer a longevidade como uma oportunidade.
Feita essa contextualização, inicio nossa conversa:
Caro homem gay, você está envelhecendo. Sim, neste exato momento, você está mais velho do que antes.
Negar essa realidade revela uma leitura limitada da vida e o medo das incertezas que atravessam nossa trajetória. A homofobia faz parte dessa trajetória. Por mais que, em virtude de certas estruturas emocionais, sociais ou de privilégio, ela tenha sido vivida de forma mais branda, não deixa de existir nem de afetá-las. Isso pode acontecer em momentos de maior vulnerabilidade emocional, afetiva ou geracional.
Não afirmo isso de forma leviana. Minha leitura se apoia em referenciais teóricos e estudos científicos, aos quais tive acesso a partir de um lugar de privilégio — que, ressalto, não me isenta da homofobia. Em diversos momentos, precisei lutar o dobro ou o triplo para me afirmar na família, na academia e no mercado de trabalho. Essa é uma das formas pelas quais a cisheteronormatividade — a estrutura que toma a heterossexualidade e a identidade cisgênero como norma — deslegitima existências que escapam a esse padrão.
O preço pago por pessoas homossexuais e transgêneras ao ocupar certos espaços de poder costuma ser alto. Depressão, solidão, ideação suicida e diferentes formas de abuso — financeiro, psicológico, afetivo, sexual e social – fazem parte dessa realidade.
Sempre pautei minha leitura social inspirado em um texto do psicodramatista Jacob Levy Moreno:
“Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus;
E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus;
Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus.”
Não é fácil enxergar o outro pelos olhos dele. No entanto, somente assim conseguimos compreender e acolher suas demandas longe de julgamentos ou de justificativas que anulam a responsabilidade social e cultural pela reprodução de estereótipos, preconceitos e discriminações. Também evita que depositemos exclusivamente no indivíduo o peso de suas dificuldades e conquistas.
Tudo isso para dizer: caro homem gay, você está envelhecendo. E, se chegar à velhice — desejo profundamente que chegue –, poderá enfrentar uma dupla violência: a homofobia e o idadismo.
Há muito a a fazer para mudar essa realidade, mas estamos avançando. Em 2017, unido a um grupo de colegas (e hoje grandes amigos), formamos um coletivo que se consolidou como a Associação EternamenteSOU, a primeira no Brasil voltada exclusivamente para as velhices LGBT+. Hoje, fruto do empenho de dezenas de pessoas voluntárias e de pessoas idosas LGBT+, vemos esse tema ocupar cada vez mais espaço na mídia e no debate público. Que bom!
Fica, então, uma reflexão: qual é o impacto, na sua vida, de admitir que você está envelhecendo? Por que negar uma velhice que pode — e deve — ser vista como oportunidade de vida, de redescobertas e nde ovos afetos?
Diego Felix Miguel é doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.









