Sou um carioca de 54 anos. Minha relação com São Paulo começou ainda pequeno, nas décadas de 1970 e 1980. Meus bisavós italianos migraram para cá no início do século XX. Dos irmãos, apenas minha avó decidiu viver na cidade do Rio de Janeiro. Por isso, com alguma regularidade, visitávamos nossos parentes em São Paulo.
Lembro, inclusive, de ter vindo em uma dessas viagens no antigo Trem de Prata, que ligava a Estação Barão de Mauá, no Rio, à Barra Funda, em São Paulo. Também estava na cidade quando soube das mortes de Elis Regina, em 1982, e do zagueiro Daniel González, do meu Vasco, em 1984.
Na juventude, essa relação se intensificou, mas de maneira diferente. Entre 1993 e 1999, fiz diversas viagens para o Sul do país, sempre passando por São Paulo. Eu seguia pela Dutra para acessar a Régis Bittencourt. Não existia Rodoanel, a Marginal era mais estreita e o trânsito, muito pesado. Perdíamos horas apenas atravessando a cidade. Foi nesse período que prometi a mim mesmo que nunca moraria em São Paulo.
O “nunca”, porém, decidiu se vingar. Por causa do meu emprego, fui transferido para São Paulo no início de 2000. Vim já casado, com minha esposa, que é de Fortaleza. Aqui moramos até 2009. Nesse período nasceram nossas três filhas e vivi um momento de grande crescimento profissional. Foi uma fase marcante das nossas vidas.
Em 2009, tentei “fazer as pazes com o nunca”. Surgiu a oportunidade de voltar ao Rio e fizemos a mudança com tranquilidade, já que as meninas ainda eram pequenas. Aproveitamos bastante aqueles anos em que o Rio vivia um ciclo otimista, pré-Copa e pré-Olimpíadas, com o Cristo estampando a capa da revista The Economist, em 2009.
Alguns anos depois, o país e o Rio entraram em um período difícil. A mudança de clima foi simbolizada, novamente, pela Economist, agora com o Cristo despencando. E o “nunca” reapareceu. Em 2017, fui convidado a trabalhar outra vez em São Paulo. Aqui estou desde então, agora com filhas se formando e construindo suas vidas nesta cidade que nunca para.
Os cariocas não costumam ser fãs de São Paulo. Guardo meu saudosismo do Rio, é claro. Reconheço, porém, que a cidade e os paulistanos me acolheram muito bem. Depois de tantos anos, aprendi a lidar com essa metrópole intensa e complexa, cheia de possibilidades. Hoje sou feliz aqui e não tenho motivos para pensar em sair.
Só que, desta vez, prometo não dizer mais “nunca”. Vai que ele resolve se vingar de novo.
André Luiz Marques é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Palmeiras 2×1 Grêmio Brasileiro – Arena Barueri, São Paulo
Pedro Gabriel desarma o adversário. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio teve chances de sair com ao menos um ponto, apesar de jogar fora de casa e diante do líder do campeonato. Infelizmente, a desatenção em uma cobrança de lateral e a guarda baixa da defesa no momento de afastar a bola permitiram a vitória do adversário.
O jogo, porém, não foi perdido por completo. O Grêmio tem lições a tirar e aspectos positivos a ressaltar. Referir-se a Carlos Vinicius é chover no molhado. Nosso atacante não precisa de mais de três bolas no pé para marcar. Hoje, foi efetivo novamente. Na mínima chance que teve, e no espaço quase inexistente entre os zagueiros, livrou-se da marcação e bateu de fora da área para as redes.
O que mais gostei de ver nesta noite foi a aposta de Luis Castro na juventude gremista. O treinador levou a campo ao menos oito jogadores com, no máximo, 24 anos. Cinco vieram da base, e três foram contratados nos últimos tempos.
Na zaga, Viery, com 21 anos, e Gustavo Martins, com 23, têm se consagrado como titulares. A lateral esquerda foi ocupada por Pedro Gabriel, que, aos 18 anos, fazia apenas sua segunda partida entre os profissionais. No meio de campo, Noriega (24), Nardoni (23), Monsalve (22), Zortéa (19) e Gabriel Mec (17) completaram a legião de jovens que esteve em campo. No banco, ainda havia Roger (17), Tiago (18) e Riquelme (19).
Se o Grêmio e sua torcida tiverem paciência, podemos estar assistindo ao nascimento de uma geração de talentos capaz de nos trazer muitas alegrias. São jogadores que ainda precisarão passar por ajustes de posicionamento, desenvolvimento físico e maior entendimento tático para atender às estratégias pensadas pelo treinador. Por isso, ter colegas experientes ao lado e um técnico com visão de futuro será importante.
Com os valores das contratações cada vez mais altos, os times que melhor souberem aproveitar a base tendem a colher resultados significativos. É preciso dar condições para que esses jogadores cresçam e para que os erros e tropeços, inevitáveis nesse processo, sejam vistos como lições próprias do amadurecimento.
Letícia Pavim em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Só do jovem agir, ser proativo, ter mais auto-responsabilidade, inovar, trazer ideias, oferecer ajuda, pedir ajuda, tudo isso já agrega, já te coloca para frente.”
A presença cada vez maior de jovens da geração Z nas empresas tem exposto dificuldades de comunicação, diferenças de expectativa e novos padrões de comportamento no ambiente de trabalho. Para líderes, o desafio passa a ser entender como integrar essas mudanças sem perder produtividade e alinhamento nas equipes. O tema foi discutido em entrevista de Letícia Pavim, cofundadora da Rede Pavim, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
A Rede Pavim atua na formação de líderes e no desenvolvimento de jovens talentos, com foco na relação entre diferentes gerações dentro das empresas. O trabalho é conduzido por Letícia e Igor Chohfi, que se conheceram em um programa de voluntariado no Egito. Eles apoiam organizações na criação de ambientes mais preparados para integrar profissionais jovens às equipes e alinhar expectativas entre líderes e liderados.
Segundo ela, a convivência entre diferentes gerações exige ajustes dos dois lados. Jovens chegam ao mercado com disposição para participar mais ativamente das decisões e com expectativa de desenvolvimento acelerado. Ao mesmo tempo, enfrentam limites impostos pelo tempo de carreira e pela dinâmica das organizações.
Letícia afirma que a postura individual tem impacto direto no crescimento profissional. Para ela, atitudes simples no dia a dia já contribuem para maior visibilidade dentro das equipes.
Tempo de carreira e expectativas
A ansiedade por resultados rápidos aparece como um ponto de atenção. Letícia observa que muitos jovens esperam avanços em um ritmo que nem sempre corresponde à realidade das empresas. Essa diferença de ritmo pode gerar ruídos entre líderes e liderados. Enquanto gestores lidam com metas e prazos de longo prazo, parte dos jovens busca respostas imediatas e reconhecimento constante. O desafio, segundo Letícia, está em equilibrar essas expectativas para manter o engajamento sem comprometer o desempenho coletivo.
Outro ponto destacado por Letícia é a importância da colaboração dentro das equipes. Ambientes em que as pessoas se sentem à vontade para pedir ajuda e compartilhar dificuldades tendem a funcionar melhor. “Então, quando a gente tem equipes integradas que tem esse ambiente até de segurança psicológica de eu poder trazer as minhas vulnerabilidades, eu poder falar onde eu quero me desenvolver, poder levantar a mão para o meu time, pedir ajuda, e todo mundo ir se ajudando, a gente vai ter um time que vai andar mais rápido.”
A integração, nesse contexto, deixa de ser apenas um discurso e passa a influenciar diretamente os resultados. Equipes que trocam mais informações e trabalham de forma colaborativa conseguem responder com mais agilidade às demandas do negócio.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Luis Delboni, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
O dia 1º de abril é consagrado como o Dia da Mentira. Nessa data, as pessoas se autorizam a mentir e ainda se divertem com o “caiu no 1º de abril”, quando suas vítimas acreditam no que é falso. No entanto, mentir é uma prática socialmente censurada. Quem nunca ouviu frases como: “mentir é feio”, “diga sempre a verdade”, “a verdade dói, mas ainda é melhor que a mentira”, “cuidado, a mentira tem perna curta”?
Talvez isso nos seja ensinado porque, diante da mentira, predomina o sentimento de traição — algo profundamente doloroso, por envolver a quebra da confiança e, portanto, a ruptura de um vínculo. Dependendo do grau de investimento afetivo, essa ruptura pode doer muito. Além disso, mentir também implica questões éticas e morais.
Entretanto, parece haver uma tendência humana a mentir. Será?
Importante ressaltar que não estou me referindo a pessoas que vivem imersas na mentira, o que já seria algo da ordem psicopatológica. Refiro-me, sim, àquelas pessoas que, no dia a dia, mentem — digamos — por bobagens, criando justificativas para atenuar suas mentiras, com denominações alternativas. E aqui convido: atire a primeira pedra quem nunca disse uma “meia-verdade”, a tal “mentira do bem”, quem sabe “alguma mentirinha” ou mesmo uma “falsa verdade”.
A pergunta que talvez devêssemos fazer é: por que, diante de uma atitude tão censurada, cria-se um dia em que a pessoa não só está autorizada a mentir, como sua mentira se torna motivo de risos — tanto para o mentiroso quanto para sua vítima?
Para tentar responder, recorro primeiro a Freud. Em O Futuro de uma Ilusão (1927), ele propõe que a civilização impõe três grandes sofrimentos ao ser humano: reconhecer a superioridade da natureza; admitir a fragilidade do próprio corpo; e, por fim, submeter-se às normas sociais. Segundo Freud, os dois primeiros sofrimentos são aceitos com relativa facilidade, mas o terceiro não — o ser humano estaria constantemente tentando burlar as regras que a sociedade lhe impõe.
Sob essa perspectiva, as mentiras cotidianas poderiam ser entendidas como pequenas tentativas de transgressão das normas sociais.
Por essa visão, aceitar com senso de humor as limitações impostas pelas regras da sociedade estaria demonstrando amadurecimento pessoal.
Unindo essas duas perspectivas — a tendência humana de burlar regras e a capacidade de senso de humor diante das próprias limitações —, torna-se mais fácil compreender o Dia da Mentira: um dia em que, por meio do humor, a pessoa experimenta a sensação de libertar-se, ainda que ilusoriamente, de seu aprisionamento social. E essa ilusão é divertida, por produzir a sensação de força e poder. Afinal, não é todo dia que se pode transgredir uma norma social e ainda ser celebrado por isso.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Prezada leitora e prezado leitor, muito obrigado por tirar alguns minutos do seu precioso tempo para conversarmos. Não sei o quanto será agradável este assunto, mas, de fato, é algo que tem me incomodado bastante. Possivelmente você se encontre nesta situação, seja de um lado ou de outro. Por isso, pare, respire, tome um cafezinho enquanto dialogamos.
Não é segredo para ninguém que vivi um processo depressivo nos últimos anos –– talvez tenha sido até este momento para você que está me lendo pela primeira vez; sempre deixei aberta essa situação porque acredito que ainda há muito receio de se falar de forma transparente sobre isso. Mesmo fazendo tratamento há um bom tempo, somente em 2025 tive uma recuperação significativa. Obviamente com a ajuda de profissionais: médico psiquiatra, médico de família e comunidade, nutricionista e profissional de educação física.
Neste período, em menos de um ano, perdi mais de 30 quilos.
Sim, eu estava gordo e, apesar de me sentir bem fisicamente, os comentários das pessoas referentes ao meu corpo me machucavam. Vinham em forma de “preocupação” e até “conselhos” nunca solicitados — não pedi sua opinião, muito menos a ajuda, pensava no meu íntimo. Os discursos tentavam sempre me colocar em um lugar de inferioridade, sob um suposto “incentivo” ao autocuidado. Mas o que de fato me machucava, que apenas algumas pessoas mais próximas percebiam, era a ausência do brilho nos olhos.
Em maio de 2025, vivenciei uma espécie de ressuscitação. Na busca do ar para sobreviver, encontrei forças (e motivação) para focar no autocuidado e recuperar um amor que, há alguns anos, estava perdido. Desde então, mudei totalmente minha rotina, aprendi a priorizar o que realmente importa e a fazer boas escolhas.
O brilho nos olhos ressurgiu. Voltei a sorrir, a amar e a ver a beleza de um dia colorido, mesmo quando está nublado. Como consequência, meu corpo mudou totalmente. Como disse meu amigo Fred, recentemente, em um café delicioso e uma conversa empática: perdi peso, mas não foi somente o corporal. Foi o simbólico. Aquele que ninguém vê, mas que faz a gente se arrastar pela vida.
Hoje, com 30 quilos a menos e um corpo de quem se dedica ao autocuidado, tenho recebido muitos elogios, o que faz bem para a autoestima. O que me incomoda, ainda, é que pouquíssimas pessoas perceberam que a mudança mais significativa, e talvez a mais importante, foi o brilho nos meus olhos.
Não entendo muito a necessidade de falar do corpo. O que mais importa é o “conjunto da obra” ou, como costumamos falar na Gerontologia, os aspectos biopsicossociais. Estou envelhecendo. Agora ainda mais próximo da velhice, já que completei 41 anos. O meu investimento não é apenas para garantir músculos e ser um velho com funcionalidade preservada ou para que meu corpo funcione corretamente. É, principalmente, para que esses cuidados, somados à saúde mental, minimamente garantam que eu chegue à velhice.
Obrigado por chegar até aqui. Apenas um curiosidade final: o seu cafezinho acabou ou esfriou?
Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.
Nenhuma marca consegue agradar a todo mundo, e insistir nisso é um erro estratégico. Esse foi o ponto de partida da conversa que tive com Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que você pode ouvir todos os sábados, no Jornal da CBN.
A ideia central é simples de entender e difícil de praticar: escolher com clareza para quem a marca deve falar. “Não dá para falar com todos e esperar que a marca seja um sucesso geral”, me disse Jaime Troiano, ao introduzir o conceito de segmentação. Esse é termo usado no marketing para definir a divisão do público em grupos com características semelhantes.
Para explicar como isso funciona na prática, Jaime recorreu a um método desenvolvido a partir de um estudo da Universidade de Stanford, liderado pelo professor Arnold Mitchell, nos anos 1980. Jaime tem autoridade para tratar do assunto. Ele foi um dos responsáveis por disseminar esse conhecimento desenvolvendo o conceito em empresas, na América do Sul. O trabalho do professor Mitchell identificou diferentes perfis de consumidores com base em estilos de vida — um modelo que segue atual, mesmo décadas depois.
Entre os grupos citados está o dos integrados, consumidores que valorizam aceitação social e preferem marcas já consolidadas. Há também os emuladores, movidos pelo desejo de ascensão e diferenciação, que buscam produtos que sinalizem status. Já os vencedores são aqueles que se sentem realizados e priorizam qualidade, sem necessidade de provar algo aos outros.
Cecília Russo ampliou o olhar ao apresentar outros perfis. Um deles é o dos inquietos, que funcionam como ponte para a inovação. “Eles estão sempre buscando novos caminhos, novas marcas que ainda não foram adotadas por muita gente”, explicou. Esse grupo costuma testar novidades antes que elas se popularizem.
Outro segmento é o dos reformadores ou transformadores, pessoas engajadas em causas sociais, que orientam suas escolhas de consumo a partir desse compromisso. “Eles têm uma convicção de que o mundo precisa mudar e não só eu preciso mudar”, disse Cecília.
A descrição desses públicos é interessante até para que nós mesmos sejamos capazes de entender de qual fazemos parte.
Um ponto importante destacado por Jaime e Cecília é que esses perfis não são rígidos. Uma mesma pessoa pode ter características de mais de um grupo, embora geralmente exista um traço predominante.
O que fica para nós a partir deste raciocínio é que marcas precisam fazer escolhas. Tentar agradar todos os públicos ao mesmo tempo dilui a mensagem e reduz a chance de conexão real com alguém.
Quaseo ao fim da nossa conversa, Jaime reforçou: “Você não consegue encantar todos ao mesmo tempo”. A alternativa é decidir com precisão quem se quer atingir — e construir a comunicação a partir desse foco.
A marca do Sua Marca
Segmentar é dar direção, jamais limitar o alcance. Marcas que sabem para quem falam aumentam suas chances de serem ouvidas e adotadas.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Ela se chamaria Marina. Na época, eu era fã da cantora de mesmo nome e tinha certeza de que esse seria o nome da minha filha. Bastou uma ida ao parque e ouvir uma mãe chamando sua pequena de Vitória para que eu e a Lúcia, imediatamente, optássemos pela troca. Estava definido: seria Vitória. Talvez a força do nome já premeditasse o que estava por vir.
Gestação normal, rompimento da bolsa, ida para o hospital. Não demoraram muitas horas após o nascimento para que surgissem os primeiros sintomas de que algo não ia bem. Nós, pais, não tínhamos a mínima ideia de que, daquele dia em diante, passaríamos a viver, a cada nova fase, uma nova descoberta.
Vitória apresentou um quadro de encefalite herpética. E não me perguntem como, porque isso ninguém consegue explicar. Aconteceu. Ficou em coma induzido e houve uma corrida dos médicos para barrar o que aquele vírus fazia, tentando preservar ao máximo o pequeno cérebro que estava pronto para se desenvolver.
Naquele tempo, não se falava em pais atípicos, filhos atípicos ou nos termos técnicos de hoje. Era um pequeno ser humano lutando com o que tinha para se manter vivo, sem saber o que aquele estrago inicial traria para o resto da vida.
De lá para cá, cada fase é uma nova adaptação. Há poucos dias, a levamos para consultar o neurologista — hoje ela está com 31 anos. E ela, na sua possibilidade de interação e necessidade de se comunicar, que nunca lhe faltou, disse para o médico: “Tu que me conhece desde criança…”.
“17 horas”. Sim, foi esse número que ele me trouxe à reflexão.
“Eu te conheço desde as tuas 17 horas de vida”. Foi quando ele foi chamado para tratar, na UTI pediátrica, aquele pequeno ser que precisava de alguém com visão profissional e desbravadora. Desde aquelas 17 horas, ele atuou diariamente, ministrando o que via como possibilidade e nos dando pequenas cápsulas de esperança em suas palavras.
Foi um caos em nossas vidas. Um caos na família. Dois meses em coma, e eu tendo de voltar para casa e olhar para o quarto onde tinha pintado cada detalhe. Tínhamos planejado o espaço necessário para ela ser uma criança feliz.
Desde essas “17 horas”, tivemos a oportunidade de conhecer um ser humano que surgiu entre tantos outros anjos em nossas vidas. Lembro-me como se fosse agora: após ser avisado pelo hospital sobre os custos de uma UTI pediátrica — e salvo pelo plano de saúde do Estado, o que é bom frisar —, perguntei a ele quanto custaria tudo o que ele tinha feito pela Vitória, já que no dia seguinte ela teria alta.
Ele desceu a escada rapidamente e disse para eu não me preocupar. Voltou-se e me disse: “Se tu soubesse o que representa para mim tratar uma criança e ter esse tipo de resultado… isso não tem preço”. Senti a mesma vontade de chorar que sinto agora, enquanto escrevo. Aliás, sempre que falo sobre aquele momento, não consigo terminar a história sem me emocionar.
Depois disso, foram muitas consultas, tratamentos, indicações e orientações. Uma gincana de possibilidades que se transformam de acordo com a idade e a necessidade.
Nessa história não há nada de “propaganda de margarina”, nada de mundo encantado ou de anjos que vieram do céu para nos ensinar algo de forma romântica. Somos nós, nossos problemas e algumas pessoas encantadoras, como o Dr. Rudimar Riesgo. Alguém que soube ser herói sem ter capa, psicólogo sem ter divã e ser humano acima de qualquer coisa.
De lá para cá, passaram-se 31 anos. E Dr Rudimar continua tratando as tantas “vitórias” dele — e a Vitória, minha filha — com a mesma atenção e tranquilidade que nos transmite sempre que abre a porta do seu consultório.
Christian Müller Jung é o pai da Vitória — e, por hoje, é o que interessa.
Tenho 66 anos. Sou paulistano. Moro no Alto de Pinheiros. Minha história em São Paulo não começa comigo. Inicia-se antes, bem antes, no fim do século XIX, em Piracicaba, com meu avô materno, Olégario José de Godoy.
Ainda moço, ele já dedilhava a viola e compunha suas próprias modas. A música, naquela época, não era sonho distante — era destino Olegário veio para São Paulo para fazer história: gravou, em 1934, o primeiro disco de música sertaneja do Brasil. Ficou conhecido como Sorocabinha, com a dupla Mandy e Sorocabinha. E, sem saber, deixou gravado não só uns discos, mas um legado.
Tempos depois, já instalado na capital, trouxe a família. Foi aqui que, nos anos 1940, minha mãe conheceu meu pai, na frente da igreja do Calvário, em Pinheiros — um jovem recém-chegado de Franca, como tantos outros, tentando a vida na cidade grande.
Meu pai montou uma oficina mecânica, trabalhou muito, como se trabalhava naquela época: com as mãos, com o corpo e com esperança. Em 1943, ele e minha mãe se casaram. Construíram uma família simples, sólida, cheia de valores.
Tiveram três filhos. Eu fui a rapa do tacho. Nasci em 1959. Cresci aprendendo pelo exemplo o valor do trabalho, da honestidade e do afeto. Honro profundamente meus pais por isso — pela educação, pela formação e, sobretudo, pelo carinho.
A vida seguiu seu curso. Quase aos 50 anos, me casei com uma mulher maravilhosa. Trabalhamos bastante, sou engenheiro, viajamos pelo mundo, conhecemos muitos lugares. Mas há algo curioso: por mais bonitas que sejam outras cidades, o coração sempre bate mais forte quando o avião pousa em São Paulo.
Foi aqui que nasci. Aqui fui criado. Aqui trabalho. Aqui me casei. E é aqui que exercemos um dos maiores aprendizados da vida: o de servir. Somos voluntários do Grupo Solidar, uma ONG onde preparamos e servimos café da manhã para pessoas em situação de rua. Em cada xícara de café, em cada pão entregue, há respeito, dignidade e humanidade — valores que São Paulo também carrega, mesmo em meio ao concreto.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Valmir Roney da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”
Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.
Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.
A violência que nasce dentro de casa
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.
Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.
Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.
Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.
Escutar sem revitimizar
A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.
Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”
Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”
A palavra da vítima como prova
A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”
Um problema maior do que os números
Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.
A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.
Ângelo Guerra em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Nós tivemos 12 milhões de interações no mês de janeiro.”
O setor de atendimento ao cliente no Brasil reúne mais de 1 milhão de empregos formais e processa milhões de contatos todos os dias. Deixou de ser um serviço baseado em telefone e passou a operar como um sistema amplo de relacionamento com o consumidor. Esse movimento, impulsionado por tecnologia, dados e novas demandas do público, foi tema de entrevista com Ângelo Guerra, presidente da Atento Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Ao explicar essa transformação, Guerra recorreu à memória do próprio setor. Citou o 102, serviço de auxílio à lista telefônica, e as Páginas Amarelas. Hoje, segundo ele, o modelo mudou na base: “Quando a gente fala desse setor de atendimento, a gente fala que é de contact center, não mais de telemarketing; nós podemos desde ajudar com uma dúvida técnica sobre um produto que você acabou de comprar, como também uma assessoria financeira para fazer uma aplicação, um investimento, uma marcação de uma consulta”.
Os números ajudam a entender a mudança. “Desses12 milhões de interações, 70% são através de canal de voz e 30% canal digital, chat, e-mail, o que seja. Todos foram receptivos”, afirmou. E acrescentou: “Menos de 3% hoje delas são relacionadas com o que nós chamávamos antigamente de telemarketing”.
Dados, tecnologia e escuta
Cada contato com o cliente gera informação. E essa informação passou a orientar decisões. A qualidade dessa informação é muito rica, de acordo com Guerra. E o volume de dados permite corrigir processos e ajustar operações. Ao mesmo tempo, exige mudança de comportamento.
“Se você me pergunta hoje quais das três prioridades que eu tenho como líder, eu acho que a escuta ativa é um ponto primordial”, afirmou.
O treinamento acompanha essa exigência, explica o executivo. O novo colaborador passa por cerca de 25 dias de capacitação inicial. Depois, o aprendizado segue na prática: “Isso é on the job training, você vai treinando ele continuamente”.
A inteligência artificial entrou nesse processo. Atua desde a seleção de candidatos até o atendimento: “Posso emular o Milton através de uma inteligência artificial”, explicou, o que torna o treinamento mais efetivo. A tecnologia também apoia o operador com informações em tempo real. Sugere respostas, interpreta o comportamento do cliente e ajuda na tomada de decisão. “A gente tem convertido bastante vendas em chamadas que não são para vendas”, disse.
Esse modelo levou a criação de um agente de IA, batizado de Robocop — permitindo que o assistente seja potencializado pela inteligência artificial. O Robocop já estará em teste em cinco mil das 45 mil posições de atendimento da empresa.
Imagem do setor e chamadas indesejadas
O setor ainda convive com um problema de reputação. As constantes ligações feitas de forma indiscriminada geram um quantidade enorme de reclamações às empresas que atuam neste mercado: “Qualquer pessoa que eu encontro na rua me pede ajuda para parar de receber chamadas que são inconvenientes”, relatou. Guerra esclarece que essas ligações não são feitas pelas empresas de atendimento ao cliente. São centrais clandestinas que atuam para coletar dados ilegalmente e dar golpes nas pessoas.
Ao apontar a atuação de grupos criminosos, ele separa essas práticas do trabalho das empresas estruturadas. Entende que uma das respostas está na regulação: “A Anatel colocou uma norma regulatória e as empresas têm até 2028 para criar o que se chama de chamada autenticada”. Quando o sistema estiver funcionando plenamente, o número que aparecerá no celular da pessoa estará acompanhando de uma espécia de selo de verificação.
A experiência internacional com este modelo indica resultado relevante: “A gente viu uma redução de 80% dessas chamadas inconvenientes”.
Emprego, inclusão e pressão de custos
O setor mantém papel relevante na geração de emprego. São mais de 1 milhão de trabalhadores com carteira assinada. Na Atento, cerca de 45 mil. As centrais de atedimento ao cliente têm por caracaterística serem o primeiro emprego de milhares de trabalhadores: “… você pega um primeiro emprego, treina e fica um período, depois está apto para coisas diferentes”, disse Guerra chamando atenção para a altar rotatividade.
A empresa também investe em inclusão. Segundo Guerra, 70% dos colaboradores são mulheres. Há equipes formadas por imigrantes, com atuação em outros idiomas.
Ao mesmo tempo, há pressão sobre custos. Ele cita o impacto da reforma tributária. “Se o meu custo é mão-de-obra, como é que nessa jornada eu consigo fazer uso de crédito (tributário)”, questionou, lembrando as mudanças que estão em andamento no sistema tributário e a dificuldade para o setor se beneficiar das compensações previstas na nova lei.
A jornada de trabalho também entra no debate. “Nós hoje fazemos 36 horas semanais, são jornadas de 6 horas com pausas”, explicou.
Atendimento como área estratégica
O atendimento passou a ocupar espaço na estratégia das empresas. Nem todas perceberam. “Tem algumas empresas que ainda não perceberam que é importante sentar e entender o que que está acontecendo no dia a dia para ajustar a jornada do seu cliente”, disse. A análise dessas interações permite corrigir falhas e melhorar a experiência, tornando-a customizada, o que resultará em maior satisfação e retenção do cliente.
Ao falar de liderança, Guerra aponta a presença como fator central. “Eu diria para você hoje que talvez o meu papel mais importante hoje é estar disponível, escutar, ajudar, apoiar”. E resume a responsabilidade: “44.999 pessoas me tirando da cama todo dia cedinho porque eu represento tudo isso”.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Luiz Delboni, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.