Conte Sua História de SP 467: o direito de ser dançarina

Cida Serafim

Ouvinte da CBN

Estou com 33 anos. E recuperei o direito de dizer que sou dançarina contemporânea. Eu explico. Atuei nos palcos por dez anos. Nos últimos quatro, não dançava mais nem praticava qualquer atividade física. Depressão, lesões, autocrítica exacerbada e a certeza de que a arte aqui estava fadada ao desmonte.

Eu não tinha forças para qualquer luta coletiva ou mesmo segurança para expor o que eu acreditava ser minha expressão. Minha voz estava muda. Dores simbólicas e concretas me assombravam há muito tempo. Ao entrar 2020, após quatro anos trabalhando com produção de eventos e sofrer uma estafa gigantesca, decidi que só trabalharia no ramo de alimentação: restaurantes, cafés. Tinha alguma experiência e bastante jogo de cintura. Era o plano perfeito. Mas lá no fundo uma tristeza gigante me consumia.

Com a pandemia e o isolamento, tive um crise de dores na coluna que me deixou na cama. Um mês isolada e quase imóvel; tempo que levei para reunir forças e pedir ajuda. Um WhatsApp aqui. Uma ligação ali. E numa dessas um amigo me indicou o trabalho de um fisioterapeuta que fazia teleatendimento com artistas do corpo. Teleatendimento em fisio?  Sim!

Semana a semana, ideias equivocadas sobre o corpo, reabilitação, dores crônicas e lesões persistentes foram desconstruídas. Perdi os 10 quilos que acumulei no isolamento. Ganhei confiança. Tomei coragem. Gravei vídeos no Instagram. Retomei contato com as parceiras de dança. E meu corpo respondeu tão bem aos estímulos, ao apoio e a generosidade de Leandro Fukusawa, o fisioterapeuta, que decidi voltar à dança.

De modo quase inexplicável, a vida mostrou meios e caminhos para que isso fosse possível. Hoje, tiro do papel e do campo das ideias, um projeto que vai justamente olhar para essa história de superação através do movimento.

Nunca imaginei que a tecnologia abriria a porta para minha reabilitação, que eu voltaria a dançar e contaria essa história para não ter dúvida de que mesmo em meio ao caos e à falta de esperança, a vida ainda pulsa. E dança. 

Cida Serafim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Avalanche Tricolor: que voltem as vitórias

Grêmio 1×1 Atlético MG

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon, o Criador em campo, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

“Vamos para mais um empate”, foi o que disse quando sentei ao lado de meu filho-torcedor, para assistir ao segundo tempo da partida desta noite. O primeiro, vi de revesgueio, porque tinha de atender ao compromisso assumido com meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco. Havíamos marcado para hoje uma conversa, ao vivo, no Instagram, sobre cuidados financeiros que devemos tomar em busca de um equilíbrio na vida. Por descuidar o calendário de jogos e não prestar atenção na agenda, enquanto o Grêmio estava em campo, eu me divertia no bate-papo. Mesmo assim pude ver pela tela do computador o pênalti convertido contra nós e a falta de criação no ataque.

O segundo tempo —- contou-me o companheiro de torcida —- começou da mesma forma que o primeiro: sem troca de passe, sem profundidade e sem chutes a gol. Até que os criadores entraram em campo. Não foram necessárias muitas tentativas —- se não me engano a que entrou foi a única bola que havia sido chutada em direção ao gol até aquele momento, quando já havíamos jogado 85 minutos.

A bola rodou de pé em pé, e passou pelo de Maicon, o Criador; Ferreirinha usou de seu talento para driblar; Diego Souza dividiu dentro da área; e na sobra Everton, o Improvável, encontrou um chute capaz de passar em um espaço estreito entre os marcadores, o goleiro e a goleira. Era o empate que eu havia previsto, não porque sou adivinho ou tenho bola de cristal, apenas porque tem sido esta a lógica gremista no Campeonato Brasileiro. Foram 15 empates até aqui e uma sequência de 16 partidas sem derrota. Uma série invicta que nos fez subir em direção ao topo da tabela, mas que não nos aproxima da liderança da competição. 

Se a derrota está fora de opção e o empate se torna a saída para jogos nem sempre bem jogados, que a vitória volte quando for realmente necessária. Domingo será.

O livro “É proibido calar!” ganha arte e resumo no projeto reLeitura

Com arte, criação e produção de Renato Avanzi e sua equipe,“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” foi apresentado na série reLeitura, com um resumo dos principais pontos abordados no livro que lancei em 2018. Falo da construção de uma relação saudável entre pais e filhos para que possamos criar um ambiente ético na sociedade. Assista ao vídeo, compre o livro agora e depois deixe a sua opinião aqui no Blog

Conte Sua História de SP 467: o grupo de WhatsApp que mexeu no meu bom retiro

Por Betty Boguchwal

Ouvinte da CBN

“Os quadros e as obras de arte marcam

a presença dos moradores numa casa.

Digo isso porque a decoração

podemos encomendar a um profissional,

mas a arte nós que escolhemos”.

Maurício Boguchwal

 

Dentre os inúmeros grupos de WhatsApp e reuniões via plataformas digitais que movimentam e atenuam o isolamento social e, também, diversificam o cotidiano e cenários desta interminável quarentena, seleciono o grupo Bom Retiro — um coletivo com lotação máxima de 256 pessoas com larga faixa etária, comprovada vivência neste bairro — condição sine qua non para marcar presença nesse “hospício”, como é carinhosamente chamado. Daí o slogan:

— Você sai do Bom Retiro, mas ele não sai de você!

O dito bairro carece de uma revitalização digna da história de seus antepassados para, atualmente, marcar a presença da comunidade judaica em São Paulo. Na primeira reunião, agendada para às oito e meia da noite de uma quarta-feira, excepcionalmente eu estava on time. Sabe, com tantas reuniões no Zoom, eu criei um lugar, melhor dizendo, puxo uma mesinha que expõe antiguidades, substituo um telefone quadrado de disco, bege com dourado, pelo meu fiel companheiro notebook Dell, e arrasto a referida mesinha em frente ao sofá, onde me sento sempre no mesmo lugar, óbvio, na esquerda.

Ora, esse tipo de reunião em plataformas digitais tem as mais diversas demandas, com um anfitrião muitas vezes desconhecido, além de muitos outros convivas, que abre a sala Zoom, Google Meet, etc, com uma lista de convidados e agregados. E com esse convite você acaba entrando na residência, local de trabalho, enfim, lugares diversos de pessoas que invariavelmente você irá conhecer ou não, com tudo e todos dispostos na tela vertical. A propósito, a pauta dessa reunião era a revitalização do Pletzl — maneira carinhosa de chamar a esquina da Rua Correia de Mello e Rua da Graça, cercada pelo comércio atacadista, uma sinagoga histórica, hoje convertida no Museu Judaico do Holocausto, e bancos, onde nossos pais, avós se encontravam e sabiam das novidades, negócios e fofocas.

E não é que em meio aos “boa noite”, Mauro me faz uma pergunta bem peculiar:

— Este quadro aí atrás é muito bonito, ele é original?

Olho para trás e respondo:

— Não, este é uma reprodução, afirmei.

— Ah, mas ele é tão lindo, que nem pude identificar que fosse uma cópia, complementou.

De fato, Mauro tinha razão. Trata-se de um Alfredo Volpi. 

Caramba, com tantas reuniões sentadas neste mesmo lugar, como vem este Mauro com esta observação singular?

Pois é, tanto a sala, como o apartamento  inteiro estavam com muito pó, e embora isto não fique visível no Zoom, ele involuntariamente passou um aspirador não somente em todo o imóvel, como também na minha cabeça. No dia seguinte, ele me moveu a um ato, já ensaiado há um considerável tempo. Desembalei todo o acervo de quadros, esculturas, obras de arte, enfeites que vieram da residência da minha mãe, desde sua partida final, há um ano, e que estavam escondidos da minha visão.

Em outra parede, pendurei uma autêntica mulata de Di Cavalcanti. E que mulata! Aos poucos, fui selecionando com a Márcia, a co-herdeira, outros quadros e objetos, os quais, prazerosamente distribui no meu novo ambiente e ela, respectivamente, fez o mesmo no seu. Ou seja, eu simplesmente revitalizei a sala com diversas e singulares imagens em fortes cores. Ah, incluí a presença dos meus pais na minha casa, à minha moda.

Quanto ao objetivo do grupo, revitalizar o Pletzl, a prefeitura se encarregou da obra física e elegemos Artur Lescher, escultor, para criar a obra que contemplará o espaço histórico. 

Betty Boguchwal é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Animais terapêuticos: de um sorriso no rosto ao aumento da empatia

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Luke faz festa ao ver a família

 

Uma das coisas que eu mais admiro no meu cachorro, o Luke, é a sua disposição. Se na sua chegada em nossa casa isso causou um reboliço na dinâmica doméstica por conta da sua energia e poder de destruição – comia de rodapés a roupas –, hoje é algo que me causa certa inveja. Me explico: O Luke pode ter dormido pouco ou estar cansado, mas quando ouve o barulho das chaves anunciando que alguém chegou, se levanta e vem prontamente, abanando o rabo, feliz por estar conosco. Não existe cansaço que o impeça de se alegrar na nossa presença.

 Todas as manhãs, ele vem animado, chega pertinho, pede um afago, como se não nos víssemos há tempos. Não existe mau humor, desânimo, indiferença. Busca um brinquedo para que a gente corra atrás dele. Chego a pensar que faz isso por nós… pega o brinquedo e nos distrai, nos diverte, acreditando que aguardamos por esse momento (e no fundo aguardamos).

  Fontes históricas revelam que a interação entre os humanos e os animais acontece há milhares de anos. 

Quando o homem assumiu o sedentarismo, começou a domesticar animais numa tentativa de ter uma fonte de alimento mais acessível, já que se alimentava basicamente de caça e de alguns frutos. Aos poucos essa relação foi se modificando, e alguns animais também assumiram a função de ajudar na preservação da espécie humana, protegendo mulheres e crianças.

Evidências arqueológicas registram a relação entre os humanos e os cachorros. No sul da França, foram encontradas pegadas de uma criança que caminhou ao lado de um cão, há aproximadamente 26 mil anos. No Egito, pinturas encontradas na tumba de Ramsés retrataram o Faraó com seus cães de caça. Os cães eram enterrados com seus donos para fazer companhia aos faraós após a morte. Na Grécia Antiga, os cães eram criados para companhia, proteção e caça. Na Roma Antiga, o cachorro não apenas protegia as pessoas de animais selvagens, mas era visto como capaz de afastar ameaças sobrenaturais.

A relação entre humanos e animais evoluiu para funções afetivas, capazes de promover, inclusive, benefícios terapêuticos. 

Diversos estudos demonstram que a utilização terapêutica de animais promove ganhos em diversas condições clínicas, como transtornos mentais, com benefícios no bem-estar, na saúde física e mental, na socialização e nos aspectos cognitivos.

Um estudo realizado por pesquisadores do Espírito Santo mostrou que sessões semanais de Terapia Assistida por Animais (TAA) com idosos institucionalizados promoveu maior controle da pressão arterial, além de momentos de alegria e relaxamento naquele grupo.

Em dezembro de 2020, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Missouri, nos Estados Unidos, indicando que a adoção de gatos por famílias com crianças autistas promoveu uma melhora nas habilidades sociais, com aumento da empatia, e redução da ansiedade de separação nessas crianças. Esse estudo também chama a atenção para o fato de que crianças com autismo podem ter problemas sensoriais, sendo mais sensíveis a ruídos altos, sendo o gato um animal reconfortante, especialmente se tiver um temperamento mais calmo.

Muitas pessoas têm histórias incríveis para contar sobre seus animais. Permita-me revelar um pouco a minha: durante muitos anos eu senti um medo inexplicável por animais. Não conseguia me aproximar ou conviver com eles. Isso me rendeu situações de vergonha, especialmente quando eu visitava pessoas que tinham animais. Eu desejava conviver com os ´´pets“, mas não conseguia. 

Um dia, ouvi da minha filha que era muito difícil, por mais que desejasse, modificar um comportamento, adotar uma nova postura e superar uma condição que lhe causava muito sofrimento. Eu estava pronta para dizer que sempre podemos mudar e superar uma condição, mas me vi ali, aprisionada pelos meus medos e com dificuldades em enfrentá-los. Imediatamente perguntei: você acha que seria possível eu superar o meu medo de cachorros?

Fiz-me essa mesma pergunta várias vezes. 

Foram alguns meses elaborando a ideia, me aproximando dos animais – não sem sofrimento.

A chegada do Luke foi planejada, desejada e calculada. Não exatamente nessa ordem. Os primeiros dias foram difíceis. Não por ele, mas pelo meu medo que ainda insistia em se fazer presente. Mas eu não desisti. Insisti e não resisti ao amor que ele ia despertando em mim, numa proporção que eu não imaginava ser possível.

Luke foi terapêutico, não apenas para mim, mas para todos em casa. Ganhamos em conversas, em risadas, em momentos de recreação em família.

Não tenho mais medo de animais. Não apenas do Luke, mas dos outros também. Às vezes olho para ele e penso: sorte a minha, Luke! Sorte de todos aqueles que podem sentir um amor tão genuíno que um animal de estimação nos é capaz de oferecer.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP 467: dos passeios fotográficos ao olhar afiado no Skype

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

As ruas de São Paulo são o nosso cenário. Somos sete amigos apaixonados por fotografia. Nossos encontros são frequentes. Alguns do grupo se reúnem semanalmente para fotografar São Paulo. Quem vê as imagens que captamos logo percebe que somos adeptos ao estilo “street photography” —- fotografia de rua, já que estamos aqui conversando em paulistanês. Imagine manter esse estilo com a Covid-19 nos mandando para dentro de casa. Impossível, né. 

Algumas semanas de susto e pandemia foram necessárias para encontrarmos novos caminhos. A saída foram encontros promovidos pelo Skype. Desde nove de maio de 2020 nos reunimos todos os sábados das duas às cinco da tarde para apreciarmos e discutirmos fotografia.

No início tivemos alguns tropeços nessa caminhada digital. Com o tempo aprendemos a usar o Skype, como falar, compartilhar as fotos e resolvemos problemas de atraso de áudio e imagem. 

André, Aretusa, Eduardo, Maria Luiza, Norma, Rose e eu somos fotógrafos amadores — amador avançado — e decidimos trocar experiências. Cada um apresenta duas imagens para o debate. Os colegas sugerem melhorias aqui, um retoque ali, falamos de técnicas a serem usadas, recursos que podemos lançar mão. Também conversamos de livros fotográficos; fazemos a leitura de fotos de profissionais renomados —- uma espécie de engenharia reversa, identificando e desmontando a foto de modo a aprender com eles. 

Os encontros sempre remotos são regados de aprendizado, generosidade, companheirismo e muita, muita diversão. Agora, estamos como a fábula do lenhador que enquanto não está cortando lenha, está afiando o machado. Quando tudo se acalmar, voltaremos a nos encontrar presencialmente e sairemos às ruas para seguir nosso passeio fotografando São Paulo e sua gente.

Claudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: passei de ano com meu Arthur

Por Odnides Pereira 

Ouvinte da CBN

Nasci na Zona Norte da Capital em 21 de abril de 1959. E por aqui sempre morei. Quando estudante, frequentava a escola pública. Você haverá de saber que naquela época não existiam email, Facebook, WhatsApp, Twitter … nem mesmo computador.  Imagine o que foi se adaptar a essa nova escola. Meu neto,  Arthur, hoje com sete anos, mora comigo e minha esposa desde os dois anos de idade. Está no segundo ano fundamental do colégio Palavra Viva, aqui na Zona Norte.

Em 23 de março de 2020, ao levá-lo na escola, como faço todos os dias —- ou fazia —-, fomos avisados que as aulas estavam suspensas devido à pandemia. E o que acontecerá agora? Ninguém sabia dizer ainda.

As respostas a essa dúvida começaram a chegar no WhatsApp. 

Uma semana depois a mensagem recebida dizia que as atividades seriam virtuais e deveríamos esperar mais um ou dois dias pois ainda estavam concluindo o cadastramento dos alunos no Google Meet — Sala de Aula. 

Foi pelo WhatsApp também que fomos chamados na escola para buscarmos livros e cadernos a partir de um sistema de drive-thru organizado pela escola. Chegamos de carro, baixamos o vidro, um funcionário com máscara entregou uma caixa com todo o material do meu neto dentro e voltamos para dentro de casa.

Confesso, em um primeiro momento ficamos todos perdidos tal a transformação tecnológica em nosso entorno. Chegamos a ficar atrasados com as aulas por um semana —- algumas coisas que deveríamos fazer, nós perdemos. Os professores foram compreensivos e o conteúdo que havíamos deixado para trás foi recuperado.

Em casa nos adaptamos, também. Separamos uma mesa para todos os cadernos, livros e os demais materiais a serem usados na escola. Nas provas, Arthur dizia: — “Vô, vó, por favor, saiam daqui de perto, hoje tenho prova pra fazer.”. A gente obedecia.

As aulas virtuais foram de vento em popa. E nós começamos a aprender algumas coisas. Desde os primeiros dias observei o quanto os professores são pacientes e perseverantes. Nessa pandemia, eles estavam dentro da minha casa, viraram nossos parentes. Até sabíamos quando eles tinham algum problema familiar. E aproveitávamos para conversar pelo WhatsApp ou pelo próprio Google Meet nos intervalos de lanche.

Pela tecnologia e o esforço dos professores, foi possível ao meu neto ter recebido todo o conteúdo do ano, da mesma forma que se estivesse na escola. E, felizmente, encerramos o ano letivo. Meu neto Arthur, a vó dele e eu passamos de ano.

Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo em homenagem aos 467 anos da nossa cidade. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e curta outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo

Lágrimas pela vacina

Enfermeira é primeira brasileira vacinada. FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo

Morei em um sobrado, na Saldanha, em Porto Alegre. Em cima, ficávamos nós. Na parte de baixo, Seu Juvenal e Dona Mulata. Eles estavam lá desde antes de a minha família se mudar para o Menino Deus, assim que nasci. Eram os padrinhos do meu irmão mais novo; ele era um senhor com ar divertido, ela, enfermeira. Atendia em um hospital e nas horas vagas, acudia a gente, especialmente quando tínhamos de tomar injeção.

Apesar de serem vizinhos de teto, a mãe nos levava pela mão, pois sabia que se tivéssemos oportunidade sairíamos em disparada —- você haverá de concordar comigo que injeção nunca foi do agrado das crianças. Ficou na memória o cheiro do álcool e da água fervendo, usados para esterilizar a seringa e a agulha em um caixa de metal. Naquela época, era comum as famílias terem um equipamento próprio, que passava de pai para filho, de um irmão para outro. Aplicada a injeção, lavava-se, esterilizava-se e … próximo. Fazia o máximo para ficar por último na fila, sob a ilusão de que pudesse adiar a sessão para outro dia. Não tinha como escapar, era cerrar os dentes, sentir a lágrima escorrendo no rosto e aguentar a picada da agulha.

Como a família segue morando na mesma casa, em Porto Alegre, quando vou visitá-la e entro no corredor do andar de baixo, onde viviam Seu Juvenal e a Dona Mulata, o cheiro característico da injeção exala da minha memória. O mesmo cheiro que transpassou minhas narinas na tarde desse domingo, enquanto assistia à cena mais desejada desde o início dessa tragédia que vivemos. A agulha aplicada no braço esquerdo de Mônica Calazans, enfermeira, como Dona Mulata, negra e voluntária nos testes da Coronavac,  abria uma célula de esperança em cada um de nós que sonhamos em nos ver livre dessa desgraça que se transformou o Sars-Cov-2.

As vacinas de agora não são mais aplicadas em seringas e agulhas reaproveitáveis; a caixinha de alumínio foi substituída pelo plástico e virou peça de antiquário; o cheiro de álcool e água fervendo é dispensável; e a tecnologia disponível nos laboratórios para produzir remédios injetáveis está centenas de vezes mais desenvolvida do que na minha infância. Se naqueles anos havia negacionistas, não circulavam na minha casa. Meus pais sempre tiveram a preocupação de nos oferecer o que havia de mais apropriado para proteger nossa saúde —- doesse a quem doesse. 

Lembro porém de anúncios na televisão para convencer às famílias a participarem das campanhas de vacinação. Sujismundo, o moço de cara simpática e maus hábitos dos comerciais produzidos pelo Regime Militar, era o protagonista e aparecia na tela dizendo que “não quero tomar espetadas inúteis, afinal não estou doente”. Era convencido pelo filho, pelas palavras do médico e pela lei imposta pelo Governo que suspendia o salário-família se as crianças não fossem vacinadas. Isso mesmo, os militares daquela época —- mesmo diante de todas as atrocidades cometidas e de crimes contra os direitos humanos —- eram a favor da vacinação, faziam campanha publicitária e obrigavam as pessoas a tomar a injeção.

Com um mês de atraso, em relação aos principais países do Mundo, o Brasil iniciou hoje a vacinação contra a Covid-19 —- ainda temos poucas doses e apenas um tipo de vacina, apesar de a Anvisa também ter aprovado o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Como você, caro e raro leitor deste blog, já deve saber, o Governo Federal —- leia-se Jair Bolsonaro e General Pazuello —  foi incompetente para colocar a vacina à disposição dos brasileiros e mesmo com acesso a Coronavac, importada pelo Instituto Butantan, vai guardar os frascos para iniciar seu programa de vacinação na quarta-feira, nas capitais brasileiras. “Não entendo essa ansiedade”, deve pensar com os botões de seu pijama o General da Banda.

Perdão, não quero incomodar você neste momento com um discurso contra a insensatez, por mais relevante que seja. Quero reservar este domingo para agradecer a quem construiu essa história, pesquisou no laboratório, aprofundou seus estudos, compartilhou conhecimento e nos proporcionou uma vacina que reduzirá o risco de continuarmos diante desta mortandade que já nos levou cerca de 210 mil pessoas, apenas no Brasil. Quero guardar na memória — assim como o cheiro do álcool e da água fervendo — esse dia em que a vacina me levou mais algumas lágrimas — diferentes daquelas de uma criança medrosa, na casa da Dona Mulata. Lágrimas de alegria por ver que a riqueza e inteligência do ser humano ainda podem nos salvar; e de saudades por aqueles que se foram sem ter tido essa oportunidade.

Avalanche Tricolor: um empate que vale bem mais do que um ponto

Palmeiras 1×1 Grêmio

Brasileiro — Allianz Parque, SP/SP

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Ninguém empatou tanto quanto o Grêmio. Ninguém perdeu tão pouco quanto o Grêmio. Assim como ninguém está tanto tempo invicto no Brasileiro —- são 15 jogos marcando pontos. Nada disso ainda foi suficiente para nos colocar na liderança ou próximo dela, assim como não nos garantiu aquela vaga que nos devolverá a Libertadores —  a despeito do fato de que vamos dormir nesta sexta-feira no G4 e se quiserem nos tirar de lá, os adversários que façam a sua parte.

O empate de hoje —- o décimo quarto na competição —- valeu muito mais pontos do que outros tantos. Bem mais do que o ponto somado na tabela e que nos deixou a seis do topo do campeonato. Foi um teste de resiliência contra aquele que será o adversário na final da Copa do Brasil, em fevereiro ou março — a data ainda está aberta. A derrota, da forma como estava sendo construída no primeiro tempo, seria acachapante no ânimo e no moral do time. Daria a impressão de incapacidade, o que nos derrotaria antes mesmo de disputarmos as decisões da Copa.

Ter resistido ao atropelo inicial e conseguido chegar ao intervalo com uma desvantagem pequena, permitiu que Renato reposicionasse o time, colocasse cada jogador no seu devido lugar e os fizesse entender que no gramado sintético a bola rola em velocidade diferente e oferece vantagem a quem está acostumado ao piso. 

Assim que voltamos do vestiário, era evidente que o Grêmio seria outro time. Os riscos diminuíram apesar de Vanderlei, gigante no primeiro tempo, ter voltado a brilhar quando exigido no segundo. Passamos a ter mais a bola e a nos movimentarmos com mais velocidade. Arriscávamos no ataque enquanto nossos zagueiros tinham de imprimir um esforço redobrado lá atrás —- o que Kannemann sabe fazer muito bem.

A entrada de Maicon, diante da lesão de Matheus Henrique, mudou o toque de bola. Se um prefere carregá-la próximo do pé, o outro privilegia o passe rápido e consegue enxergar com precisão companheiros mais bem posicionados. Foi em um desses lances que Maicon pisou dentro da área adversária e encontrou Luis Fernando correndo por trás da marcação na linha de fundo. O cruzamento foi na medida para Diego Souza cabecear e decretar o empate —- os gols de Diego deveriam valer dobrado na tabela de goleadores, porque é incrível como todo gol que ele marca é aquele que decide ou ajuda a decidir a partida; dificilmente faz gol em jogos já resolvidos.

Por pouco, muito pouco mesmo —- como diria José Geraldo de Almeida, antigo locutor esportivo —-, não levamos a vitória em um último lance da partida, no qual Diego Souza, sempre Diego, cobrou falta por cima da barreira e buscou o ângulo; e a bola só não chegou ao seu destino porque foi a hora de o goleiro adversário brilhar. 

Na maratona decisiva de Janeiro, evitamos a derrota contra um adversário forte e com pretensão de chegar ao título. Teremos ao menos mais três jogos que serão definitivos nas próximas rodadas. Por hoje, fizemos nossa parte, arrancamos um empate difícil e saímos de campo confiantes de que a Copa do Brasil está ao nosso alcance. Mérito de Renato que fez as substituições certas tanto quanto soube mudar o time no vestiário — como admitiram em entrevista Diego Souza e Victor Ferraz.

Conte Sua História de São Paulo: de véu, grinalda e flor de laranjeira

Ivani Dantas 

Ouvinte da CBN

Das lembranças que trago da infância quase nada se parece com os dias de hoje. Foi um tempo tão transformador que me parece razoável contá-lo no formato “ Era uma vez!…“.

Quando os códigos morais e éticos valiam igualmente para os mais e para os menos abastados, pessoas circulavam com a mesma elegância e dignidade pelas ruas, bondes e pelas largas avenidas de São Paulo. O trânsito de automóveis era de se contar nos dedos.  A vida corria lenta e os acontecimentos eram muito mais esmiuçados, o que muitas vezes era mesmo cuidar da vida alheia. 

As  Marocas (personagem fofoqueira das tirinhas de jornal), tinham um “cuidado especial” com as jovens casadoiras! O estado civil era notado não só pela aliança brilhando na mão esquerda, mas também pelas roupas, de colorido mais sutil, e comportamento mais contido.

Moças subiam ao altar de véu e grinalda, conduzidas, até a igreja, por um carro, decorado com rendas e rococós (corríamos ao portão para ver passar).  E, chegavam o altar, pelas mãos do pai, feliz ao som da marcha nupcial. A noiva, vestida de branco – pureza, véu, grinalda e flor de laranjeira.

Outros tempos! Os namoros e noivados eram vigiados pela família e… vizinhos. Casar uma filha era um bem disfarçado alívio! Teria, agora, um marido que dela cuidaria “para sempre”. 

O bairro, a paróquia, toda a vizinhança se punha a contar os meses que levaria para surgir o rebento… que algumas vezes chegava “prematuro”, mas muito parrudo…

Tudo tão distante, mas as recordações permanecem… 

Pois é,

Era uma vez…

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