Sua Marca Será um Sucesso: Por que a Coca-Cola muda sem perder o reconhecimento?

Coca-Cola Nova Marca

Mudar pode ser uma necessidade para uma marca. O desafio está em fazer isso sem romper a relação de confiança construída com o público ao longo do tempo. Esse foi o tema do ‘Sua Marca Será um Sucesso’ com Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN, inspirado na mudança e visualização da identidade da Coca-Cola.

Sempre que uma marca conhecida globalmente muda sua aparência, há reações instantâneas. Alguns elogiam, outros criticam e alguns argumentam que a mudança era necessária. Para a Coca-Cola, a transformação foi sutil. O logotipo tradicional foi mantido, a faixa branca voltou ao logotipo na embalagem e a identidade visual da família de produtos começou a se alinhar com o antigo.

Cecília Russo diz que o maior risco nem sempre é mudar. Em muitos casos, o perigo é ficar parado enquanto o mercado, os consumidores e a cultura mudam. Ela nos lembra que a evolução da identidade visual não se limita ao design de um logotipo. Trata-se de como a marca acompanha os tempos sem abrir mão do que a tornou reconhecível.

A história da Coca-Cola nos ajuda a entender esse processo. A cor vermelha, os elementos gráficos simplificados, a tipografia reorganizada e a embalagem da empresa foram gradualmente alterados ao longo de mais de um século. Essas são mudanças quase invisíveis por si só, mas que funcionam juntas para manter a marca em funcionamento sem estranhamento.

A estratégia é uma grande expressão de um princípio essencial de branding: inovação não significa romper com o passado. Significa manter o que é a essência da marca para permanecer relevante.

Na verdade, Jaime Troiano expande essa reflexão para uma ideia fundamental de construção de marca: consistência. Ele afirma que os clientes desenvolvem relações de confiança uma vez que conhecem uma marca ao longo do tempo e sabem o que esperar dela. “As pessoas constroem relações de confiança quando reconhecem uma marca ao longo do tempo”, diz Jaime Troiano. “Elas sabem o que esperar dela, sem medo de serem traídas pela marca.”

Para explicar essa ideia, Jaime faz uma comparação com as próprias pessoas. As pessoas evoluem seu modo de vestir, trabalhar e até falar ao longo da vida, mas ainda são identificadas pelo que veem e pelo que são. De certa forma, é assim com as marcas. A identidade visual da marca pode evoluir se o significado da marca ainda for reconhecível.

É essa lógica que nos permite entender por que mudanças muito abruptas tendem a ser recebidas com resistência. Quando uma empresa descarta coisas que simbolizam a história da empresa, corre o risco de romper o vínculo emocional que foi construído ao longo de décadas. Um exemplo foi a Jaguar, marca inglesa de carros de luxo, que foi obrigada a revisar uma mudança de identidade, que havia gerado uma enorme reação pública por não levar em conta coisas consideradas essenciais para o seu público.

No caso da Coca-Cola, a avaliação é que a empresa encontrou um equilíbrio entre renovação e continuidade. Como resumiu Jaime, a marca “promoveu uma mudança, sinalizou que está se movimentando”, mas, como a Cecília falou, preservou o essencial na busca do novo.”

Saiba mais em “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o case infeliz da Jaguar” e no artigo “O Jaguar ferido: se algo pode dar errado, dará”.

A Marca da Sua Marca

Com boas marcas, a evolução é um processo constante. A mudança é possível e deve acontecer se não destruir a confiança, o reconhecimento e o significado que são construídos ao longo do tempo.

Ouça Sua Marca Será um Sucesso

Sua Marca Será um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50, no Jornal da CBN, com apresentação de Jaime Troiano e Cecília Russo.

50 Debates para o Brasil: especialistas discutem se o fim da reeleição pode melhorar o sistema político brasileiro

A reeleição para cargos do executivo foi aprovada em 1997 e testada pela primeira vez no Brasil no pleito do ano seguinte. Desde sua implantação o tema dividiu opiniões, seja pela forma como foi implementada seja pelos resultados que trouxe à democracia brasileira. Atualmente, existe projeto de emenda à constituição prevendo o fim da reeleição com ampliação de mandato para cinco anos. Este foi o tema da série 50 Debates para o Brasil apresentada no Jornal da CBN.

Nossos convidados foram Flávio de Leão Bastos, professor de Direito Constitucional da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que é a favor do fim da reeleição, e Cláudio Couto, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), que defende o modelo atual.

Para Flávio, a reeleição quebrou uma tradição da República Brasileira e criou uma competição desigual entre os que estão no cargo e seus oponentes. O acesso à estrutura do estado favorece o governante que deseja permanecer no poder e influencia decisões ao longo do mandato, disse ele. “O uso assimétrico e o acesso à máquina pública por aqueles que já estão no cargo tornam a competição desigual”, disse.

Para o constitucionalista, a possibilidade de concorrer a uma nova eleição significa que algumas decisões são movidas por interesses eleitorais em vez das necessidades da população. Ele também argumentou que a alternância de poder fortalece a renovação da liderança política e lembrou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que fez a emenda que estabeleceu a reeleição em 1997, disse anos depois que se arrependeu da mudança.

Cláudio Couto entende que a possibilidade de reeleição amplia o poder de decisão do eleitor e atua como uma avaliação da gestão realizada nos primeiros quatro anos de governo. “A reeleição acaba sendo, em grande medida, um plebiscito que avalia se aquele governo teve um bom desempenho ou não durante seus primeiros quatro anos”, disse ele.

O cientista político afirmou que a eliminação da reeleição não remove os incentivos para o uso político da máquina pública. Ele também disse que governantes podem fazer isso para eleger um sucessor ou concorrer a outro cargo. Couto ainda apontou que as administrações municipais têm demonstrado mais responsabilidade fiscal quando os prefeitos estão concorrendo à própria reeleição, pois terão que gerenciar as contas deixadas para um possível segundo mandato.

Na segunda parte do debate, os especialistas se basearam em exemplos nacionais e internacionais para apoiar seus argumentos. Flávio de Leão Bastos referiu-se ao México, que tem apenas um mandato presidencial com duração de seis anos, e explicou que a experiência brasileira desde 1997 é um estudo de caso para abuso de poder político e econômico por políticos em campanhas.

Cláudio Couto observou que diferentes democracias têm modelos diferentes. Ele citou a Argentina, que começou a permitir a reeleição após a reforma constitucional de 1994, os Estados Unidos, que limitaram a reeleição presidencial a dois mandatos, e países parlamentares onde primeiros-ministros podem permanecer no poder por muitos anos. Para ele, nenhum desenho institucional sozinho poderia prevenir abusos de poder.

O que ficou claro ao final da conversa foi que a questão da reeleição vai além dos mandatos. Trata-se do equilíbrio entre a alternância de poder, continuidade das políticas públicas, igualdade na competição eleitoral e o direito do eleitor de confirmar ou substituir um governante através do voto.

“50 Debates para o Brasil” é produzido por Carlos Grecco e Letícia Valente. As entrevistas acontecem de segunda a sexta-feira, após as 8h30 da manhã no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo ascensorista

João Moro

Ouvinte da CBN

Elevators

Foto: Don Harder/Flickr

Estamos no fim do ano de 1976. Para situá-los foi o ano da primeira nota 10 nos jogos olímpicos de verão em Montreal para a Nadia Comaneci e foi também o ano da morte de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.  Eu, com 17 anos, acabara de me formar em Técnico em Eletrônica em uma das escolas mais conceituadas do Estado de São Paulo: a Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo.

Através de CIEE  — Centro de Integração Empresa Escola — fui encaminhado para uma entrevista na Telesp, a Telecomunicações de São Paulo S.A. — que foi estabelecida em maio de 1973 como parte do Grupo Telebras, criado em julho de 1972 pelo governo federal para centralizar, modernizar e controlar as operadoras estaduais, funcionando como uma holding.

Eu, muito jovem, fui para minha primeira entrevista de emprego Jamais vou esquecer daquele senhor que conduziu nosso elevador no imponente prédio da Martiniano de Carvalho — naquele tempo muitos elevadores tinham ascensoristas. Eu o cumprimentei com toda a educação. Puxei conversa.  Ele foi muito simpático e me falou com certa tristeza que muitas pessoas nem percebiam a presença dele dentro do elevador. Assim que a porta abriu, desejou-me sucesso e eu fui para a entrevista. 

Aprovado, fiz os exames de praxe e, duas semans depois, me apresentei para o meu primeiro dia de trabalho. O prédio era atendido por oito elevadores. Qual não foi minha surpresa que ao acionar o botão para chamar um deles, de forma aleatória, a porta que se abriu era a do elevador conduzido por aquele mesmo senhor com quem conversei no dia da entrevista. A alegria no olhar dele foi contagiante. Ele me abraçou e disse que havia torcido muito pela minha contratação. Outras pessoas no elevador ficaram sem entender nada. Quanto a mim, fazia ali minha primeira amizade de trabalho.

Esteja ele hoje onde estiver … que saiba que faz parte da memória que tenho dessa grande cidade. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

João Moro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos se inscreva no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: a tempestade perfeita

Grêmio 0x1 Bolívar
Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Bolivar

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tão difícil quanto assistir aos jogos do Grêmio tem sido escrever sobre o Grêmio. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, espero, reconhecerá meu esforço em encontrar esperança em meio ao desalento. Dificilmente deixo de registrar aqui meus sentimentos. Às vezes, preciso driblar minha frustração e resgatar na memória nossa história para encontrar perspectiva no futuro. Em outras, busco no suspiro de um talento a solução para todos os nossos males. Ou apenas procuro na mística uma saída mais honrosa, quem sabe heroica.

Diante de mais uma eliminação nos play-offs da Sul-Americana, perdendo duas vezes para um time boliviano que havia 24 anos não ganhava uma partida em solo brasileiro, não há inspiração que floresça. Na semana passada, com a desculpa de que a derrota estava relacionada à altitude de La Paz, recusei-me a acreditar que essa jornada estava chegando ao fim. Imaginei uma virada em casa, diante do nosso torcedor, daquelas que nos dão orgulho de contar. Uma vitória para sacudir a poeira, dar a volta por cima e reescrever esta temporada.

A tempestade perfeita se formou, porém. Antes mesmo de entrarmos em campo hoje, assistimos à nossa queda para aquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro. O empate no fim de semana e a combinação de resultados das partidas disputadas neste meio de semana nos colocaram na obrigação de vencer o próximo compromisso.

Com a bola rolando, o que assistimos foi um time com medo de atacar, apequenando-se diante do adversário, mesmo estando na Arena e precisando de dois gols de diferença. Pior do que isso: o setor defensivo, desengonçado, foi surpreendido por um contra-ataque e pela abertura do placar em favor do adversário. Dali em diante, foi um Deus nos acuda.

Levamos 45 minutos para entender que ou matava ou morria. Ou seja, era preciso atacar e atacar, tirar defensores e se atirar para a frente. No mínimo, demonstrar coragem para reconquistar o torcedor, que já está cansado de tanto revés. Mesmo assim, o time ainda foi comedido nas ações ofensivas e, desconfiado de si mesmo, quando chegava próximo ao gol, não era capaz de concluir com precisão.

Com seu moral destruído, sua coragem corrompida e sem qualquer tipo de organização, o Grêmio saiu de campo mais do que derrotado: saiu desconstruído. Jogou sua história no lixo, desrespeitou a camisa tricolor e agora terá de rever às pressas como será a caminhada daqui até o fim do ano — se é que pretende oferecer ao seu torcedor um mínimo de consolo.

Das arquibancadas vieram os clássicos gritos contra o treinador de plantão e o pedido pela volta ao passado. Infelizmente, sequer essa lição aprendemos. Insistimos na ideia de que é possível construir um futuro com as ferramentas de antes. Não conseguimos entender que não dá mais para viver da história pretérita, da mística de uma camisa, de resultados que nos fizeram grandes, mas que não nos salvarão de um desastre iminente.

Precisamos começar por nos livrar das picuinhas políticas semeadas pela diretoria. Fazê-la entender que o Grêmio está acima dos seus interesses ideológicos. Que é necessário rever seus conceitos de investimento. Entender que o futebol hoje exige organização, inteligência, talento e muita inspiração. O Grêmio precisa voltar a pensar grande.

50 Debates para o Brasil: especialistas discutem se mandato de ministros do STF deve ser reduzido

O mandato dos ministros do Supremo Tribunal Federal voltou ao centro do debate sobre o funcionamento das instituições brasileiras. O tema foi discutido na série “50 Debates para o Brasil” do Jornal da CBN, com o advogado e ex-presidente da OAB Nacional, Ophir Cavalcante, que também enfatiza o modelo atual, e o advogado, professor e ex-Ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, que defende um mandato com duração definida.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal são indicados pelo Presidente da República e aprovados pelo Senado, e servem até a aposentadoria compulsória aos 75 anos de idade. No Congresso Nacional, há propostas que estabelecem mandatos de oito, 12 ou 15 anos. Para os defensores da mudança isso favoreceria a renovação do Tribunal. Os críticos dizem que aumentaria a influência política sobre o tribunal.

Ophir Cavalcante contrapôs, dizendo que a questão não é a duração dos mandatos dos ministros, mas a forma como são selecionados. Aumentar a participação da sociedade e estabelecer uma base mais objetiva para a seleção ajudaria a reduzir a percepção de politização, disse ele. “Precisamos mudar o processo de seleção e não efetivamente o critério de estabilidade, o critério de vitaliciedade com esse limite de idade de 75 anos”, afirmou.

O ex-presidente da OAB considerou que um mandato fixo aumentaria a frequência das nomeações presidenciais e, por sua vez, as disputas políticas sobre a composição do Supremo Tribunal Federal. Ele também argumentou que a estabilidade é necessária para manter a independência dos juízes e preservar a jurisprudência estabelecida ao longo dos anos.

Miguel Reale Júnior, por outro lado, adotou uma posição diferente. Em sua visão, um mandato de 12 anos seria suficiente para permitir que os ministros tenham autonomia e, por sua vez, garantir a renovação regular do tribunal. “É necessário renovar o Supremo Tribunal Federal”, disse ele. Todos os novos membros acrescentarão à diversidade e reduzirão a influência de ministros que estão no tribunal há décadas.

O ex-Ministro da Justiça também disse que a seleção dos ministros continuará a ser de natureza política, independentemente da duração. Mas ele defendeu um melhor processo de nomeação com mais participação pública e audiências públicas mais amplas durante a avaliação.

Embora discordassem sobre a duração do mandato, os dois debatedores concordaram em uma coisa: o processo de seleção dos ministros precisa ser melhorado. Tanto os critérios mais transparentes quanto o maior envolvimento das instituições e da sociedade garantem a legitimidade das nomeações.

O ponto principal do debate foi mostrar que a discussão não se limita ao mandato dos ministros no Supremo Tribunal Federal. Isso envolve independência judicial, renovação institucional e mecanismos para tornar a seleção dos membros do tribunal mais transparente e confiável para a sociedade.

“50 Debates para o Brasil” é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas são transmitidas de segunda a sexta-feira, antes das 8h30, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: Daniele Kleiner, da Alandar, alerta que ignorar a regulação da tecnologia pode comprometer os negócios

Daniele Kleiner, sócia-fundadora da Alandar

Daniele Kleiner em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves/CBN

“Hoje eu vejo como primordial que as empresas entendam que a regulação, por exemplo, de inteligência artificial, que é algo que impacta todos os setores, não é algo de um setor específico, ela não é mais um problema só do jurídico.”

A inteligência artificial, a proteção de dados e as novas regras para o ambiente digital passaram a influenciar diretamente o desenvolvimento de produtos, a estratégia de negócios e a competitividade das empresas. Diante desse cenário, acompanhar a evolução da regulação deixou de ser uma tarefa restrita ao departamento jurídico e passou a envolver executivos, engenheiros, profissionais de produto e comunicação. O tema foi discutido em entrevista de Daniele Kleiner, sócia-fundadora da Alandar, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo Daniele Kleiner, a regulação da tecnologia vive uma nova etapa. Depois de um período marcado por princípios gerais, as normas passaram a estabelecer exigências concretas que afetam a rotina das organizações.

“Dependendo da regulação, isso vai requerer adaptação do próprio produto e da forma como você vai oferecer esse produto, comunicar esse produto para os consumidores finais.”

Ela explica que o desafio das empresas vai além de compreender a legislação, é preciso traduzir suas exigências para quem desenvolve as soluções tecnológicas. Por isso, defende um trabalho integrado entre advogados, engenheiros e equipes de produto para evitar que novas regras se tornem obstáculos ao negócio.

Regulação exige atuação preventiva

Na avaliação da especialista, um dos principais erros das empresas é tratar o tema apenas como uma questão de conformidade legal, deixando de lado o planejamento preventivo.

“Eu acho que é importante acompanhar de perto essas mudanças e ter um time que tenha uma intersecção maior (…), porque ao ficar isolado no jurídico, a gente só vai conseguir fazer o compliance. A gente não vai conseguir fazer o preventivo.”

Ela afirma que esse acompanhamento permite incorporar requisitos regulatórios ainda na fase de desenvolvimento dos produtos, reduzindo riscos de sanções, adaptações futuras ou até da retirada de soluções do mercado.

Ao conversar com executivos, Daniele identifica uma dificuldade recorrente.

“No nível de CEO, o que eu mais percebo é que eles não acompanham a regulação.”

Como exemplo, Daniele citou o caso da empresa Tools for Humanity, que desenvolveu uma tecnologia para diferenciar seres humanos de inteligências artificiais por meio da leitura da íris. Segundo ela, o funcionamento do produto foi mal compreendido e a percepção de que a empresa coletaria e comercializaria dados biométricos acabou ganhando espaço no debate público, embora esse não fosse o propósito da tecnologia.

A repercussão levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a restringir parte da operação da empresa no Brasil.

Para Daniele, o episódio demonstra que explicar corretamente o funcionamento e o valor social de um produto é tão importante quanto desenvolvê-lo. “A gente precisa explicar o produto”, afirmou. “Se a gente não souber explicar com clareza o valor social que esse produto cria para o Brasil, a gente corre o risco de acabar com uma regulação que vai prejudicar o negócio.”

Inteligência artificial amplia oportunidades e desafios

Daniele destaca que a inteligência artificial representa uma transformação comparável ao surgimento da eletricidade, por seu potencial de alterar diversos setores da economia. Ela lembra que os desafios envolvem mercado de trabalho, direitos autorais, soberania tecnológica, infraestrutura digital e formação de profissionais.

Ao mesmo tempo, vê espaço para o Brasil ampliar sua presença no desenvolvimento dessa tecnologia.

“Nós temos um mercado extremamente rico de empresas que estão criando IA e exportando IA.”

Ela cita como exemplo o crescimento das startups brasileiras que utilizam a API da OpenAI e empresas nacionais que já exportam soluções baseadas em inteligência artificial para outros países.

Comunicação também protege os negócios

Outro ponto abordado na conversa foi a relação entre comunicação, reputação e regulação.

Daniele afirma que empresas inovadoras precisam explicar com clareza seus produtos para consumidores, imprensa e órgãos reguladores. A falta dessa comunicação pode gerar interpretações equivocadas capazes de afetar diretamente o negócio.

Ela lembra casos em que tecnologias foram mal compreendidas pela opinião pública, provocando forte pressão regulatória.

“A comunicação é essencial. Na proteção do próprio negócio, na verdade.”

Para ela, preparar executivos para explicar produtos, antecipar dúvidas e dialogar com a sociedade faz parte da estratégia empresarial.

Críticas fazem parte do processo

Ao comentar sua experiência em empresas globais de tecnologia, Daniele defende uma postura preventiva na gestão da reputação.

“O que eu mais aprendi é que quanto mais você trabalha preventivamente para criar um colchão reputacional, melhor.”

Ela também considera que críticas não devem ser encaradas como ameaça.

“Eu falo para encarar as críticas ao seu produto com muita naturalidade, porque afinal de contas, isso é uma forma de diálogo também.”

Segundo a especialista, compreender essas manifestações e responder de forma transparente fortalece a relação entre empresas, consumidores e reguladores.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

50 debates para o Brasil: a exploração de Terras Raras requer um equilíbrio entre desenvolvimento, soberania e proteção ambiental

As reservas de terras raras do Brasil colocam o país em um ponto estratégico: transformar esses minerais em um vetor de desenvolvimento ou limitar-se a exportar matérias-primas. Este foi o tema dos 50 Debates para o Brasil, apresentado na série do Jornal da CBN que reuniu Luiz Ugeda, doutor em Geografia e Direito, e Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-preisdente do Ibama, para explorar os desafios da utilização desses recursos.

Terras raras são uma classe de minerais usados em carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, tecnologias de defesa e outros produtos de alto valor agregado. O Brasil possui grandes reservas, mas a exploração desses recursos envolve questões econômicas, ambientais, legais e geopolíticas.

Luiz Ugeda defendeu o envolvimento de capital internacional, argumentando que o país já possui instrumentos legais para lidar com esse tipo de investimento. Ele disse que o problema é a origem do capital e não o capital em si, mas as regras estão mudando para uma atividade com seu próprio caráter e conjunto de características. “O que importa é que o subsolo pertence à União. Isso está na nossa Constituição, e o Brasil não quer abrir mão disso”, afirmou. Ugeda acredita que o país precisa melhorar seu modelo de concessão, para estabelecer regras aplicáveis às preocupações ambientais, territoriais e tecnológicas do século XXI.

Suely Araújo argumentou que a entrada de investidores estrangeiros pode contribuir para o desenvolvimento do setor, se o processo for conduzido de acordo com leis transparentes e no interesse do país. O capital internacional pode entrar, mas deve ser regulado, disse. Ela pediu controle sobre os investimentos, evitando influência externa e o desenvolvimento de uma cadeia produtiva que agregue valor aos minerais extraídos no Brasil.

Os debatedores concordaram que a regulamentação precisa considerar muito mais do que aspectos econômicos. O licenciamento ambiental, a participação de comunidades afetadas, a distribuição de royalties e o monitoramento das atividades são essenciais para qualquer modelo de exploração.

Luiz Ugeda, ao discutir a regulamentação, disse que o Brasil já tem experiência na supervisão de grandes empreendimentos e a questão é o conhecimento sobre terras raras. Para ele, será necessária a integração de agências ambientais e de mineração, a expansão do conhecimento sobre o subsolo brasileiro e uma política pública que possa transformar a exploração mineral em desenvolvimento regional.

Suely Araújo se mostrou desanimada com as recentes mudanças na legislação ambiental. O relaxamento dos procedimentos de licenciamento pode prejudicar ecossistemas e comunidades locais, disse ela. “O que pega é como operar tudo isso e como garantir também que os recursos advindos dessa exploração sejam destinados da forma mais justa possível”.

O debate mostrou que a questão crucial, além da escolha entre capital nacional ou internacional, é como estabelecer regras que possam combinar segurança jurídica com preservação ambiental, respeito às populações impactadas e uso econômico de um recurso considerado estratégico para o futuro da indústria.

O fato é que a riqueza mineral por si só não garante desenvolvimento. Os benefícios para o país dependerão da qualidade da regulamentação, da capacidade de supervisão e de como transformar esses recursos em oportunidades para a sociedade.

50 Debates para o Brasil é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas também são transmitidas diariamente de segunda a sexta-feira às 8h30, no Jornal da CBN.

Enxergando a pessoa


Por Beatriz Breves

Foto de Anna Shvets

Ao longo da história, o sofrimento humano, inclusive aquele que se manifesta por meio das doenças, foi explicado de maneiras muito diferentes. Ora era atribuído a castigos divinos, à influência de espíritos ou ao desequilíbrio dos humores corporais; ora, a defeitos biológicos ou a alterações psicológicas.

Cada época desenvolveu suas próprias formas de compreender o sofrimento. Existe, porém, algo particularmente significativo nesse percurso: toda concepção de doença reflete uma concepção de ser humano.

Quando predominava a crença de que o mundo era governado por forças sobrenaturais, as doenças eram atribuídas à ação dos deuses ou dos espíritos.

Na Grécia Antiga, ocorreu uma mudança importante. Filósofos e médicos passaram a buscar explicações naturais para as doenças. A própria histeria, por exemplo, era compreendida como decorrente de alterações relacionadas ao útero, que se acreditava deslocar-se pelo corpo feminino e provocar diversos sofrimentos. Embora hoje essa explicação nos pareça estranha, ela revela como cada época procura interpretar o sofrimento humano a partir dos conhecimentos e das concepções de que dispõe.

Hipócrates, considerado o pai da medicina, procurou compreender o adoecimento como resultado de desequilíbrios próprios da natureza humana, inaugurando uma forma de pensar que influenciaria a medicina por séculos.

Quando a ciência moderna passou a compreender a natureza como uma máquina, o corpo humano também passou a ser visto dessa forma: uma máquina composta por peças que poderiam falhar. Essa visão trouxe avanços extraordinários para a medicina. Entretanto, ao separar corpo e mente, também contribuiu para uma compreensão fragmentada do ser humano.

Durante muito tempo, a doença física foi tratada como um problema do corpo, e o sofrimento psíquico, como um problema da mente, como se fossem duas realidades distintas que apenas ocasionalmente se influenciassem. Hoje, porém, essa separação mostra-se cada vez mais insuficiente.

Quando uma pessoa enfrenta uma grande perda, uma situação de estresse intenso ou um sofrimento prolongado, não é apenas sua mente que é afetada. Seu corpo também responde. Da mesma forma, uma doença física importante modifica aquilo que a pessoa sente, seus pensamentos, suas relações e a maneira como percebe a própria vida.

A questão mais importante talvez não seja descobrir se a doença começou no corpo ou na mente, mas reconhecer que estamos falando da mesma pessoa.

É a partir dessa compreensão integrada do ser humano que se desenvolve a Ciência do Sentir: uma perspectiva que procura compreender a experiência humana sem separar aquilo que, na vida vivida, se manifesta de maneira indissociável.

Sob essa perspectiva, o ser humano não é um corpo que possui uma mente, nem uma mente que habita um corpo. É uma unidade de experiência. Aquilo que chamamos de físico e aquilo que chamamos de psíquico são formas diferentes pelas quais a vida se manifesta.

Isso não significa negar a importância da medicina, da biologia ou da psicologia. Significa reconhecer que nenhuma dessas áreas, isoladamente, consegue dar conta de toda a complexidade do viver humano.

O maior desafio da atualidade talvez não seja escolher entre corpo e mente, nem apenas conhecer cada vez mais as partes que compõem o ser humano. O desafio é recuperar a capacidade de enxergar a pessoa em sua totalidade.

Exames revelam órgãos. Diagnósticos descrevem doenças. Tratamentos combatem sintomas. Tudo isso é necessário e fundamental.

Mas quem sofre, quem espera, quem teme, quem luta e quem sonha é sempre um ser humano.

Por trás de cada diagnóstico existe uma história, uma forma singular de sentir, de amar, de sofrer e de existir. E talvez seja justamente aí que resida o maior desafio: cuidar sem perder de vista a pessoa.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

50 debates para o Brasil: imposto sobre grandes fortunas divide especialistas sobre justiça tributária e crescimento econômico

A forma de tributar os mais ricos voltou ao centro do debate sobre o futuro da economia brasileira. Embora previsto na Constituição desde 1988, o imposto sobre grandes fortunas nunca foi regulamentado. Seus defensores afirmam que a medida tornaria o sistema tributário mais justo ao aumentar a contribuição de quem concentra maior patrimônio. Os críticos argumentam que a experiência internacional demonstra baixa eficiência na arrecadação, dificuldades de fiscalização e risco de desestímulo aos investimentos.

A criação do imposto sobre grandes fortunas e a justiça tributária foram discutidas, na série 50 Debates Para o Brasil, no Jornal da CBN, com a participação de Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp, e o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria.

Ao defender mudanças na tributação brasileira, Fagnani sustentou que o problema central está na baixa incidência de impostos sobre renda e patrimônio e na elevada carga sobre o consumo. Segundo ele, esse modelo penaliza principalmente a população de menor renda. “O Brasil nesse sentido é quase que um paraíso fiscal para os super-ricos”, afirmou. Para o economista, o país precisa ampliar a tributação sobre altas rendas, rever a isenção sobre lucros e dividendos e tornar o Imposto de Renda mais progressivo.

Fagnani ressaltou ainda que pessoas de renda muito elevada pagam proporcionalmente menos impostos do que trabalhadores assalariados. Como exemplo, citou a tributação sobre dividendos distribuídos a acionistas e comparou as alíquotas brasileiras do Imposto de Renda com as praticadas em diversos países desenvolvidos, defendendo que a redução dos impostos sobre o consumo deve ser acompanhada por maior tributação dos contribuintes de maior capacidade econômica.

Maílson da Nóbrega concordou que o Brasil precisa reformar o Imposto de Renda, mas rejeitou a criação de um imposto sobre grandes fortunas. Segundo ele, diversos países abandonaram essa modalidade de tributação por causa da baixa arrecadação, dos custos administrativos e dos efeitos negativos sobre investimentos e poupança. “É o imposto encantador, porque ele promete tributar os super-ricos, promete redistribuir renda, promete fazer justiça tributária, mas a experiência internacional mostra que não é nada disso que aconteceu”, afirmou.

O ex-ministro defendeu que o país corrija distorções existentes na tributação da renda, especialmente mecanismos que favorecem planejamento tributário e reduzem a carga efetiva paga pelos contribuintes mais ricos. Ao mesmo tempo, ponderou que a estrutura tributária brasileira precisa levar em conta as características da economia nacional e não pode simplesmente reproduzir modelos adotados por países mais desenvolvidos.

O debate mostrou que há convergência quanto à necessidade de aperfeiçoar o sistema tributário brasileiro, mas forte divergência sobre o caminho para alcançar esse objetivo. Enquanto um lado vê a tributação das grandes fortunas como instrumento de justiça fiscal, o outro considera que uma reforma do Imposto de Renda seria mais eficiente e menos prejudicial ao ambiente de investimentos.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Quem cuida do homem gay quando ele envelhece?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos meses vivi algumas situações que me provocaram uma reflexão especial sobre o cuidado.

Ao longo deste texto, compartilho uma narrativa baseada na minha experiência como homem gay. O que apresento aqui, porém, também alcança — em diferentes nuances e, talvez, de forma ainda mais intensa — pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneras e não binárias.

Durante esse período, recorri aos abraços e à escuta de pessoas que pudessem, ao menos, acolher a ansiedade que eu enfrentava. Por sorte, ou por mérito, tenho por perto amigas e amigos que não mediram esforços para estar comigo e me fortalecer naquele momento.

Um aspecto, porém, chamou especialmente a minha atenção: a dificuldade de compreender, na prática, o contexto da interseccionalidade. E vejam: grande parte das minhas amizades é formada por pessoas que estudam esse tema, atuam na defesa dos direitos humanos e participam do ativismo.

A interseccionalidade é a compreensão de como diferentes dimensões que moldam nossa identidade — como gênero, raça, classe social, geração e orientação sexual, entre outras — se cruzam e produzem experiências específicas.

Ainda assim, vale o velho ditado: é fácil medir a intensidade da pimenta quando ela está no corpo do outro. Não por maldade, evidentemente, mas porque reproduzimos comportamentos socialmente aprendidos sem o exercício permanente da empatia.

Não escrevo isso por ingratidão nem para desmerecer esses encontros. Muito pelo contrário. Vejo essa experiência como um laboratório social que nos convida — e me convida também — a refletir sobre a forma como acolhemos as pessoas. Afinal, o mundo não se resume à nossa própria realidade.

O que mais me incomodou foi perceber que, ao expor meus medos e vulnerabilidades, eu precisava reiterar constantemente algo fundamental: como homem gay da geração dos anos 1980, minha rede de apoio e minhas perspectivas para o futuro não são as mesmas vividas, em sua maioria, por pessoas heterossexuais.

Não me refiro apenas aos aspectos econômicos. Refiro-me a uma pergunta que se torna cada vez mais urgente com o passar do tempo: com quem realmente podemos contar quando precisamos ser cuidados, sem ter de justificar uma existência que tantas vezes já foi colocada em xeque?

Contar com o apoio de uma família de origem homofóbica, que não nos aceita em nossa plenitude, jamais deveria ser visto como uma possibilidade. Quem nunca experimentou a violência da homofobia dificilmente compreenderá toda a dor e o adoecimento que ela produz ao longo da vida.

Também nem sempre encontramos pessoas amigas capazes de formar uma família afetiva — a família de escolha — que ofereça suporte emocional e prático nos momentos de fragilidade e durante o envelhecimento.

A nós também costuma ser negado o conforto religioso. Em muitos espaços de fé, perpetuam-se a discriminação e o incentivo à autonegação. E não me refiro apenas às religiões cristãs. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda são guiados por concepções ultrapassadas e autoritárias, que reforçam desigualdades de poder e restringem o acesso ao acolhimento espiritual.

O letramento em direitos humanos ainda é insuficiente, sobretudo quando se limita a práticas meramente ritualísticas e deixa de considerar os aspectos socioculturais e políticos que sustentam as estruturas de opressão.

No mundo do trabalho, a garantia de emprego formal com proteção social também está longe de ser uma realidade para todos. Ainda persiste um silêncio em torno da homofobia velada nos processos seletivos e em práticas corporativas que padronizam identidades e anulam a diversidade. Nem todo discurso inclusivo vem acompanhado de ações efetivamente comprometidas com a equidade e com a segurança de pessoas LGBT+ no acesso e na permanência no mercado de trabalho.

Como se isso não bastasse, a reprodução de estereótipos sobre a homossexualidade continua sendo perversa. Quando alguém acredita estar acolhendo ao dizer frases como “eu amo meus amigos gays, eles são os mais divertidos e confiáveis”, revela uma espécie de “homofobia cordial”. Esse lugar de adereço ou de “gay funcional” reduz nossa humanidade, como se não tivéssemos direito às vulnerabilidades, às fraquezas e à necessidade de sermos cuidados. É mais uma forma de desumanizar quem não corresponde ao padrão da cisheteronormatividade — estrutura social hegemonicamente organizada a partir da cisgeneridade e da heterossexualidade.

A estrutura tradicional de cuidado foi construída tendo como referência a família nuclear heteronormativa. À medida que o tempo passa, a pergunta sobre quem cuida de quem ganha contornos dramáticos para a população LGBT+, exigindo redes de apoio que a sociedade e o Estado ainda relutam em construir.

Não pretendo reduzir essa dor a uma questão de privilégio velado. Sei que fui acolhido, sou amado e disponho de uma rede de apoio importante. Minha reflexão vai além disso. Se alguém com as condições que tenho já atravessa esse processo deixando marcas profundas, o que acontece quando essa realidade se cruza com marcadores como raça, identidade de gênero, classe social e velhice? Se o acolhimento já falha em espaços relativamente protegidos, ele se transforma em um abismo de invisibilidade para quem vive às margens.

Até quando fingiremos que a solidão e o desamparo no envelhecimento de pessoas LGBT+ são falhas individuais de trajetória, e não resultado de uma estrutura social que insiste em descartar corpos que não reproduzem o modelo heteronormativo?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.