Por Christian Müller Jung

Desde o primeiro momento em que comecei a trabalhar na política — ou melhor dizendo, com a política —, como mestre de cerimônias do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, sempre surge a mesma pergunta em almoços, jantares e reuniões de família: “E aí, como é que estão as coisas por lá?”.
Embora meu assunto preferido seja a comunicação como um todo, o que atinge de forma direta os cidadãos é a política. Mesmo que não se viva um segundo sequer sem as três formas de linguagem — verbal, não verbal e vocal —, o impacto da política em nossas vidas domina as conversas do dia a dia, quase sempre recheadas da velha dicotomia entre direita e esquerda.
Por conviver com agentes políticos e ter passado por tantos governadores, minha visão ganhou um ingrediente adicional. Eu conheço muita gente de perto. O que meu cérebro processa vai da realidade do fato vivenciado — da obra anunciada, da inacabada e da concluída — até a forma, hostil ou gentil, com que fulano ou beltrano trata as pessoas ou se dirige a mim.
Confesso que tenho sorte nesse quesito. Talvez por procurar lidar com as pessoas de forma gentil, muitos chegam até mim mais abertos a um sorriso e ao entendimento do que fechados à comunicação.
Viver em meio à política me faz perceber, na prática, algo curioso: existem pessoas legais, mas pouco funcionais no plano concreto do trabalho; outras que não são tão agradáveis, mas são resolutivas; e tantas outras que conseguem reunir essas duas qualidades com naturalidade. E veja bem: com pensamentos diferentes, com leituras distintas e olhares enviesados à esquerda e à direita.
De volta às reuniões em família. Quando a política vira um “nós contra eles”, nosso cérebro para de buscar a verdade e passa a buscar vitória e pertencimento. A neurociência explica isso. Não se trata de certo ou errado, mas de como nossa mente protege a própria identidade. É nesse momento que, às vezes, o “tiozão do churrasco” se perde no assado — e quem está em volta precisa se cuidar com o espeto.
Para minha sorte, nunca me deparei com confrontos diretos. Talvez porque a experiência acumulada, somada ao cotidiano do trabalho, me faça suprimir algum comentário que só acabaria estragando o sabor da carne.
Querendo ou não, mesmo quando acreditamos ser super-racionais, pertencemos a grupos. Ler notícias que confirmam o que já queremos acreditar libera dopamina — aquela substância ligada à sensação de prazer e satisfação. Desce tão bem quanto um copo de cerveja gelada.
Na prática, quem tem enchido nosso copo são os algoritmos. Eles aprenderam a alimentar nossas previsões com tanta precisão que passamos a julgar notícias e acontecimentos antes mesmo de ler sobre o assunto ou checar a fonte. Assim, vamos formando realidades paralelas que parecem tão “perfeitas” e rígidas que qualquer prova em contrário surge como uma grande mentira orquestrada.
E assim agimos — e nos dividimos. Transformamos reuniões em debates ferrenhos, defendendo quem sequer sabemos “da missa a metade”. Mudar de opinião dói fisicamente. O cérebro interpreta a perda de uma convicção política como uma ameaça à própria identidade. E ninguém quer se isolar do grupo nem colocar em risco a relação com gente querida da família ou do círculo de amizades.
O churrasco está quase pronto. À medida que a temperatura do imbróglio sobe, como a brasa que assa a carne, precisamos ativar outras áreas do cérebro para furar a bolha em que acreditamos viver e baixar a guarda. Duvide da sua indignação!
No momento em que o batimento acelera e o tom de voz sobe, seu cérebro deixa de processar dados e passa a jogar lenha na brasa. Pare. Mude o foco. Procure uma memória afetiva comum aos convivas. Pense no prazer de estar reunido e, ao sentir o cheiro do assado chegando à mesa, solte aquela frase clássica que faz todos voltarem ao mesmo terreno:
“Política à parte, a qualidade desse assado lembra muito os almoços lá no sítio da vó, né?”
Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).







