Alecir, um cidadão que reclamava por amor

Lá se foi nosso Alecir. Companheiro de primeira hora no Adote um Vereador, perdeu a batalha contra Covid-19. O coração sempre apaixonado pela mulher Virgínia e pela sobrinha Amanda tanto quanto pelas lutas em favor da cidadania não resistiu o esforço para respirar e o tempo de internação. Nesta madrugada, morreu aos 62 anos, em São Paulo.

Alecir Macedo esteve na primeira reunião do Adote, mais ou menos nesta mesma época do ano, em 2008, quando sentamos juntos em torno das mesa do Centro Cultural São Paulo. Eram lá os encontros presenciais que surgiram por iniciativa daqueles que aceitaram o convite para que atuássemos no controle do trabalho dos vereadores da nossa cidade. 

Depois fomos para o Pateo do Collegio. E o Alecir foi junto com a gente. Muitos ficaram pelo caminho. Desistiram da luta, mudaram o foco de atuação, desacreditaram no nosso trabalho ou tinham mais o que fazer na vida. O Alecir, não. Todo segundo sábado do mês costumava ser o primeiro a chegar depois de uma longa jornada de ônibus e metrô que se iniciava na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, onde morou por mais de 40 anos —- na época em que desembarcou na Cachoeirinha ainda existia a água correndo que dava nome ao bairro, me contou uma vez.

Alecir é de Jaguariaíva, interior do Paraná, onde também existem  cachoeiras. Chegou a São Paulo, em 1978. Sem dinheiro nem conhecimento e apenas com o convite de um cunhado, deixou a mulher e o filho pequeno na casa da mãe e se bandeou para a capital paulista. Aqui tinha apenas a indicação do parente: “desce perto do hospital da Vila Nova Cachoeirinha, atravessa a avenida e pergunta por mim no bar do outro lado”. Eram seis da manhã. O bar estava fechado. Sorte que o cunhado havia comentado que para chegar no endereço dele, bastava atravessar a avenida nova — a Inajar de Souza —- e procurar a casa verde, no alto de um barranco: “é a quarta casa”. Na divisa com a favela da Divineia.

O instinto de sobrevivência o fez encontrar o lugar, e do lugar arrumou emprego de auxiliar do departamento pessoal em uma transportadora, na avenida Marques de São Vicente. Lá trabalhou por 12 anos até chegar ao cargo de gerente de filial. Nem enchente nem todo tipo de encrenca que encontrou pelo caminho — e desde novo fazia questão de denunciá-las —, atrapalhou a construção de uma relação que se transformou em paixão pelo bairro.

Nosso amigo era um tipo curioso: poucos reclamavam tanto quanto ele; mas sempre reclamou por amor. Pelo verde da praça que os “nóias” ocupavam na frente de casa; pelo meio ambiente que os carros poluíam e as pessoas desrespeitavam; pela calçada que as concessionárias tornavam irregular; pelo céu que os prédios encobriram; pela cidade, que os políticos não cuidavam.

Ah, os políticos! 

Controlá-los e cobrá-los era seu esporte preferido. Enquanto pode, foi a Câmara para assistir às sessões, fuçou nas reuniões de comissões e tomava a palavra nas audiências públicas. De casa, monitorava os parlamentares pelo computador, gravava as imagens geradas pela TV Câmara na internet, editava vídeos, denunciava abusos e absurdos ditos em plenário, reproduzia brigas e publicava tudo no blog que levava o nome da Vila Nova Cachoeirinha. Quando percebia a ausência de algum vereador no trabalho, mandava e-mails e cobrava a resposta.  Na rua, fotografava a falta de semáforo, de luz, de cuidado e de respeito — enviava para jornais e vereadores.

Por amor, esteve com a gente até quanto pode. Até ser superado pelo desânimo há cerca de um ano. Mesmo assim, nos falávamos por telefone e trocávamos mensagens. Ele me ajudava a manter o site do Adote um Vereador que criou lá no início da nossa história. Até recentemente dava seus pitacos. Dia desses li e me ri: “político fazendo campanha de máscara economiza óleo de peroba…”, escreveu em uma rede social. Foi na rede que encontrei, também, como ele se definia: “cidadão brasileiro, com muito orgulho, cansado de sofrer nas mãos de políticos inescrupulosos”. 

Alecir se foi. Era um amigo. Sincero como devem ser os amigos. Engraçado de tanto que reclamava. Um daqueles caras que deixará saudade eterna pelo abraço que me dava, pelo carinho que sempre demonstrou e pelos puxões de orelha diante da minha desatenção a algo dito no rádio —- sim, além de tudo era um ouvinte frequente dos meus programas, desde os tempos do CBN São Paulo.

Se o Adote perdeu uma referência e São Paulo, um cidadão, posso lhe garantir que Deus arrumou sarna para se coçar. Mas não se incomode, Senhor: quando ele reclamar vai ser por amor!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo, escrito por Alecir Macedo, que foi ao ar em abril de 2013

O jornalismo precisa respeitar o tempo de apurar e de noticiar; senão deixa de ser jornalismo

Foto Pixabay

Nunca o jornalismo foi tão imediato como agora. Do microfone no rádio à câmera na televisão, o tempo para publicar a notícia é o tempo de acionar o botão do … NO AR. Na internet, a urgência aparece em alertas na tela do celular antes mesmo do texto ter sido publicado. Os jornais sem tempo para imprimir o fato, atualizam o site com manchete em letras garrafais, mesmo que o repórter ainda não tenha dado ponto final; e usam as redes sociais para levar ao público a informação com o crédito que a história lhes concedeu. 

Confundem aqueles que, primeiro, identificam o fazer jornalismo apenas como o ato de publicar um fato, quando há uma série de ações que precede a esse ato. Confundem mais ainda — seja lá com qual for a intenção, talvez apenas desconhecimento — quando veem no avanço tecnológico a necessidade de mudanças em características que são próprias do jornalismo: a busca incessante da verdade, o apuro dos fatos, a relevância no que é interesse público e o direito ao contraditório. Essa jornada exige tempo e responsabilidade —- em uma equação que desafia o cotidiano de repórteres, editores e analistas, pois a medida que diminui o tempo entre o fato e a sua publicação, aumenta a responsabilidade de quem publica o fato. 

Estruturas menores, profissionais com menos experiência, crescimento da competitividade e investidores preferindo o entretenimento ao enfrentamento, típico do jornalismo, têm prejudicado essa dinâmica nas redações —- e isso ninguém nega, é fato e nós jornalistas gostamos de trabalhar com fatos: em dez anos, 83% dos jornais brasileiros reduziram o número de profissionais, 13% mantiveram a equipe no mesmo tamanho e apenas 3% declararam ter aumentado seu time, conforme estudo feito pelo jornalista Ricardo Gandour e publicado no livro “Jornalismo em retração, poder em expansão” (Summus Editorial).

As redes sociais tornaram o processo ainda mais complexo ao dar agilidade na entrega da informação —- confirmada ou não —- e a oferecer a todos o mesmo poder e espaço, diferenciado-os apenas pelo alcance que cada um capacitou-se a ter e pela forma como os algoritmos impulsionam ou não essa mensagem. Esse cenário gera uma concorrência desleal; enquanto uns se alvoroçam nas redes publicando o que bem entendem, se satisfazendo em traduzir tuítes e replicar fatos sem confirmação, desde que tenham potencial de agitar a galera a espera do engajamento da arquibancada digital, sem se preocuparem com a responsabilidade de seus atos e opiniões;  outros —- e os jornalistas fazem parte desses outros, ou deveriam fazer —- têm compromisso ético imposto pela profissão que exercem. “Eu acho”, “ouvi falar”, “dizem por aí”, “não tenho certeza, mas …” são expressões que se repetem com frequência no dia a dia das nossas conversas, no bate papo de boteco, na troca de mensagem entre amigos e colegas e dominam as redes sociais; porém jamais podem ocupar o espaço destinado a objetividade jornalística,  um dos fundamentos no exercício de noticiar. 

O jornalista é refém da verdade e esta nem sempre é encontrada na mesma velocidade exigida pela sociedade contemporânea que sofre de ansiedade informacional. Porém, assim como o tempo de maturação da notícia, do levantamento de dados e da confirmação de versões tem de ser respeitado, equilibrar os três pilares que sustentam o trabalho jornalístico —- isenção, correção e agilidade —- é essencial para nossa sobrevivência. É preciso, sim, noticiar de forma livre e independente, sem cumplicidade com governos e empresas; ser correto na apuração e na relação com a fonte; tanto quanto ágil na publicação —- entendendo que essa rapidez no informar tem de estar pautada na razoabilidade do tempo entre o fato ocorrido e o fato publicado. Quanto menor o tempo, mais correta for a apuração e mais precisa a notícia, melhor para o jornalismo e para a sociedade.

Mantenha o foco, sem perder a ternura!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

 

Permita-me começar esse texto apresentando três situações: você está indo da sala para a cozinha e quando chega lá percebe que não se recorda o que foi fazer; está trabalhando online e quando se dá conta tem várias janelas abertas no computador e se vê entretido com um produto em promoção e esquece a tabela que estava fazendo para entregar para o seu chefe; se propõe a arrumar o seu armário, encontra umas fotos antigas, começa a vê-las… e o armário? Puxa! A hora passou depressa e você percebe que não dá mais tempo para arrumá-lo.

Alguma dessas situações lhe parece familiar?

Se essas experiências não ocorrem com frequência e não causam prejuízos significativos no dia a dia, como no trabalho ou nos estudos, na maioria das vezes não indicam uma falha no funcionamento cerebral, apenas uma dificuldade esporádica da memória de trabalho.

A memória de trabalho refere-se à capacidade de reter informações que serão usadas em ações que estão em curso ou que acontecerão num futuro próximo, mantendo essa informação enquanto ela é útil. Isso acontece, por exemplo, enquanto você lê esse texto. Você não memoriza cada uma das palavras na ordem que estão escritas, como uma lista de palavras que deva decorar, mas armazena cada uma delas até chegar ao fim da frase, de modo que consiga compreender o sentido do texto.

A memória de trabalho não se limita ao armazenamento temporário de informações; também envolve o controle atencional, como manter o foco numa tarefa e inibição do comportamento. 

Para a maioria das pessoas, as falhas na memória de trabalho serão casuais, podendo ser decorrentes do aumento do estresse, ansiedade ou uso de bebidas alcóolicas, e não caracterizam um problema persistente. Entretanto, prejuízos na memória de trabalho podem estar associados a algumas condições clínicas, como esquizofrenia, síndromes demenciais e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

O Transtorno de Déficit Atencional com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com início na infância, caracterizado por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade. 

A desatenção e desorganização envolvem, entre outras coisas, a dificuldade de prestar atenção a detalhes, cometer erros por descuido, iniciar tarefas e não concluir, dificuldades no manejo do tempo, relutância em atividades que exijam esforço mental prolongado e esquecimentos relacionados a atividades cotidianas. 

A hiperatividade e impulsividade envolvem, por exemplo, dificuldades em permanecer sentado, remexer ou batucar mãos e pés, inquietude, responder antes que uma pergunta tenha sido concluída e dificuldades para aguardar sua vez, como numa fila.

Diversos estudos têm sido publicados mostrando os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, indicando um aumento da irritabilidade, da desatenção e agitação, independentemente da faixa etária, exigindo desafios que podem ser mais acentuados para os que têm TDAH.

Crianças e adolescentes com TDAH parecem mais vulneráveis ao confinamento, possivelmente pelas dificuldades no estabelecimento de rotina, organização e conclusão das tarefas, com tendência à procrastinação.

Adolescentes mais ansiosos, entediados ou apáticos, podem apresentar alterações comportamentais, aumentando a probabilidade de conflitos familiares, como as brigas. 

Quando olhamos para esse cenário, percebemos que mesmo adultos que não apresentam TDAH, em decorrência do isolamento social e das mudanças provocadas pela COVID-19, também têm experimentado sintomas semelhantes, seja na capacidade atencional, na memória de trabalho ou nos comportamentos, mais ansiosos ou com aumento da irritabilidade.

Se por um lado corremos o risco de patologizar todas as características cognitivas ou comportamentais apresentadas na pandemia, por outro lado, corremos o risco de negligenciar sintomas que podem sugerir condições clínicas que demandam tratamento especializado. Na dúvida, uma avaliação médica ou psicológica deve ser feita. Porém, se algumas falhas forem corriqueiras e não trouxerem maiores prejuízos, talvez seja o momento de aproveitar aquela liquidação — numa das muitas abas abertas no seu computador — ou resgatar boas memórias naquelas fotos que você encontrou!  

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: exclamação!

Grêmio 2×1 Goiás

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon comemora em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Que baita jogador é esse Jean Pyerre! O que Pepê faz com a bola é uma barbaridade! Geromel é imbatível dentro da área! São tantas as exclamações neste começo de Avalanche que quase esqueço de reverenciar Renato que se consagrou como o técnico que mais vezes comandou o Grêmio: 384 vezes, superando o eterno Osvaldo Rolla. Suas marcas vão além: hoje, alcançou a vitória de número 200, apenas como treinador. Desde que estreiou na casamata, em 2010, contra o mesmo adversário desta noite de segunda-feira, conquistou sete título, de Campeonato Gaúcho a Libertadores. É a terceira passagem de Renato pelo time e, sem dúvida, a melhor.

Se Geromel é quem é, claro, tem muito a ver com ele próprio —- um cara com aquele caráter e semblante merece todo o mérito —, mas também porque Renato sabe montar um sistema defensivo e permite que nosso zagueiro se expresse com talento. Se Jean Pyerre e Pepê jogam o que jogam, Renato é um dos responsáveis. Se o time voltou a jogar o futebol qualificado que encantou o Brasil, tem a mão de Renato.

Se tudo isso não bastasse para começarmos a semana com a alegria que o futebol pode nos proporcionar, ainda tivemos o prazer de ver o sorriso estampado no rosto de Maicon. Nosso capitão vinha de uma sequência de lesões e estava incomodado com o seu desempenho e o do time. O olhar cerrado e o esbravejar com os colegas eram preocupantes. Ficou fora três semanas e, segundo o próprio, teve tempo de com a equipe de profissionais do Grêmio — médicos, preparadores físicos e fisioterapeutas — analisar os motivos de suas lesões e trabalhar especificamente para reforçar o que era fragilidade. Voltou bem e confiante. Comandou o meio de campo fechando um triângulo de ouro com Matheus Henrique e Jean Pyerre (que baita jogador é o …. ops, já escrevi sobre isso). E completou sua performance chegando forte na frente para fazer o gol da vitória. Maicon sorriu bonito após o gol. E nós sorrimos com ele.

Se o jogo teve momentos de risco, perdemos mais gols do que gostaríamos e desperdiçamos a oportunidade de dar tranquilidade mais cedo ao torcedor, também teve o domínio na maior parte do tempo e um esforço redobrado para recuperar a bola quando o adversário se atrevia na frente, que nos levaram a 14ª partida sem perder —- incluindo Brasileiro e Libertadores —- nas quais 11 com vitória. E, sim, Renato tem tudo a ver com isso. Exclamação!

Conte Sua História de São Paulo: há cultos sinceros, mas há os vilões, também

Flavio Cruz

Ouvinte da CBN

 

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Tenho saudades da minha cidade. Sei que dizem que ela é violenta, perigosa. Falam tanto dela. Falam que todo mundo é apressado, que as pessoas não têm tempo para nada. Mentira!  À noite as pessoas se reúnem, cantam e contam histórias. Quem quer, sempre tem um amigo; quem não quer, pode ficar sozinho. Não há prazo de adaptação, não há carência. Assim que você chega, você pertence. Todo mundo pertence. E há de tudo!

Há pecados e lugares para se pecar. Há perdão para poder se pecar. É boa de se cantar, é boa para se poetar. Caetano falou que é o avesso do avesso do avesso… e daí eu paro no avesso que quiser, no avesso que melhor me servir.  O Tom Zé canta que nos amamos com todo ódio e que nos odiamos com todo amor. 

E Billy Blanco diz que as portas de aço levantam, todos parecem correr, não correm de, correm para… Para onde, não sei? Sei sim, quero correr para lá. Ela tem de tudo, de todas as formas, todo o tempo. Ela é adulta, ela é criança. É adolescente, também. Às vezes, ela adoece, mas está sempre a se curar. 

Há Consolação, há Socorro, há Liberdade e até uma Casa Verde para não se perder a esperança. À noite, então, nem posso falar. Há gente nos teatros encenando cenas que saciam os cultos e há cinemas ocultos que saciam a vontade de sexo dos incultos. Há cultos sinceros, mas há os vilões do templo também. Há cultos e pastores da noite de quem não quero falar. Há tantas coisas na cidade, em cada canto, em cada esquina. Há dor, muita dor, mas tanta alegria vem junto que às vezes nem sei qual é qual. 

E os sonhos, então?

Tantos sonhos… Tantos segredos, tantas histórias que todos sabem e ninguém quer contar. Há também contos de fada, milagres que acontecem, outros que se compram, alguns que se vendem. 

Há gente de todo lugar, há lugar para todos e em algum lugar sempre algo está para acontecer. Há segredos que não se podem contar. E há contos que não são mais segredos. E há lendas, lendas e mitos. Quase todos são verdade, mas ninguém precisa saber. 

Falam tantas coisas de você… Eu escuto todas e só presto atenção nas que quero. Sinto muito sua falta. Não há cidade igual.  Tenho muitas saudades de você, São Paulo, meu amor…

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Flávio Cruz, um paulistano que vive nos Estados Unidos, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistória@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: Felipe Mansano diz o que é preciso para sua startup ser descoberta por investidores

“Normalmente, os investimentos em startup têm esta característica: quem investe está procurando empresas que podem escalar, e, geralmente, a maneira mais eficaz é uma solução que é ancorada em um aspecto relevante de tecnologia”  — Felipe Mansano, Equitas VC

Mudar a maneira como profissionais de tecnologia são recrutados, migrar uma escola de programação para o cenário online e desenvolver conteúdo para provas de residência médica. Essas são algumas das ideias surgidas em startups que tiveram seus negócios alavancados com a participação de fundos de venture capital ou de investimento de risco. Todos esses projetos foram desenvolvidos no Brasil, país que tem assistido ao longo da última década um crescimento acentuado no número de empreendedores que se pautam em negócios digitais. Para Felipe Mansano, da Equitas VC, é importante ter esse ecossistema, do qual fazem parte  fundos, empresas e pessoas dispostas a investir em startups.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Felipe falou de oportunidades que existem atualmente no Brasil para quem cria e para quem investe:

“Na hora de fazer negócio é muito importante que as duas partes, tanto a gente como o empreendedor, além do dinheiro, avalie como esse investidor vai me ajudar a fazer para que o meu negócio alcance seu potencial. Nós acreditamos que é neste aspecto que mora a oportunidade, porque no Brasil tem mais escassez de conhecimento e de execução do que de capital — especialmente no cenário agora de juros muito baixo”

Os fundos de venture capital buscam empresas com foco na tecnologia porque são negócios que podem crescer em escala, o que atrai investidores dispostos a colocar o seu dinheiro em empreendimentos que estão em estágio inicial e a aguardar de sete a dez anos para terem o retorno financeiro: 

“É um jogo de longo prazo, mas para a empresa que dá certo, o retorno é 50 a 70 vezes o investido”.

Algumas dicas de Felipe Mansano que facilitam a atração de investidores para o seu negócio:

Como a maioria dos negócios está se iniciando, boa parte da aposta do investidor é na qualidade do time que está envolvido no projeto, portanto atenção na equipe de trabalho.

Identifique o diferencial competitivo deste time em relação ao desafio que a empresa está disposta a resolver,

Não adianta ser o maior peixe em um aquário pequeno, ou seja, é importante que você tenha solução para um problema grande; lembre-se, o investidor quer empresas com potencial de crescimento em escala.

—  Tenha clareza da concorrência; se houver muitas empresas oferecendo solução para aquele problema que você se propõe a resolver a chance de se destacar é menor

—  Mostre como a receita da empresa vem crescendo mês a mês; essa informação permite que o investidor avalie a adesão do mercado ao seu negócio, o quanto o mercado está vendo de valor na sua ideia.

Erros que podem atrapalhar o seu negócio:

Os fundadores da empresa terem apenas uma parcela do negócio: quanto menor a participação, menor é a disposição para enfrentar os desafios 

Não ter clareza do tamanho do seu mercado: o investidor precisa desta informação.

Ter empresas que não têm potencial de crescer em escala, geralmente não estão inseridas em tecnologia, uma característica que permite que o negócio se desenvolva de maneira rápida.

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, no Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e pode ser ouvido em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

John Kerry vem aí! E a sua empresa, está preparada?

Por Carlos Magno Gibrail

 

“Não há mal que nunca se acabe e nem bem que sempre dure” –Provérbio popular

O pesadelo Trump está passando, principalmente na esfera de Sustentabilidade. O planeta agradece. Será substituído por gente que acredita, tem crédito e conhecimento para cuidar do meio ambiente e das relações sociais. John Biden ao nomear John Kerry como enviado especial para o meio ambiente sinaliza a importância que atribuirá à Sustentabilidade. 

As metas da ONU para 2030, consubstanciadas nas 169 Metas dos ODS — Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que estavam com poucas perspectivas de serem alcançadas, tomam novas esperanças.

Oportunamente, a reportagem do jornalista Renato Krausz, diretor da Loures Consultoria, publicada na revista Exame, é explícita para entender a mudança de cenário que o mundo civilizado espera vivenciar.  

Há um ano, o PGNU — Pacto Global das Nações Unidas realizou pesquisa em 99 países com 1.000 CEOs e extraiu que 92% deles consideravam a Sustentabilidade importante para os seus negócios, mas apenas 48% afirmaram que ela estava sendo implantada em suas empresas. Desses, apenas 21% sentem que a empresa tem papel fundamental para alcançar os ODS — Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 

Krausz lembra que o papel das empresas para o alcance dos ODS é fundamental, e por isso o início da década de 2020 já sinalizava que o mundo não estava caminhando na rota certa, e que em dez  anos as metas não seriam alcançadas.

Por isso, ao constatar a epidemia da Covid-19, que evidenciava a necessidade de ações diretas, foi lançado pelo PGNU o “Leadership for the Decade of Action” —  Liderança para a Década de Ação. Um documento para acertar a rota das organizações através da ação de seus CEOs.   

O PGNU fez um extenso e profundo estudo para mapear os atributos, a origem e a tipologia  dos líderes das corporações que estavam aplicando com sucesso as práticas ambientais, sociais e de governança para transformar a realidade de seus negócios. 

Foram buscar em todos os continentes, e elencaram 55 CEOs e membros de Conselhos, considerados pioneiros na ação com o meio ambiente, com as práticas sociais e de governança — ESG Environment Social Governance.   

A pesquisa detectou 4 atributos destes CEOs:

– Pensamento multinível

Inclusão de stakeholders nas decisões

Ativação de longo prazo

Inovação disruptiva

O estudo encontrou as origens destes CEOs

Born believers — desde a infância com paixão por aspectos ambientais e sociais

Convinced — desenvolveram durante a carreira o interesse pela sustentabilidade

Awoken — passaram a ter interesse na sustentabilidade devido a algum fato marcante, ou experiência significativa

E quanto são esses CEOs?

Born believers  45%

Convinced”      43%

Awoken           12%    

Evidentemente para nós brasileiros essa nova perspectiva é uma esperança na mudança de atitude com relação à Sustentabilidade que a política atual do país tomou. Precisamos retomar a valorização daquilo acima definido como ESG Environment, Social, Governance, e voltar a liderar as posições que nos cabe como reserva ecológica do planeta.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

Avalanche Tricolor: vitória no Chaco e homenagem a Maradona

Guarany 0x2 Grêmio

Libertadores

Defensores del Chaco, Assunção/Paraguai

 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Na Guerra do Chaco, os paraguaios enfrentaram bolivianos e 100 mil caíram mortos dos dois lados. Batizado com nome histórico, o estádio, palco da partida desta noite, também foi protagonista naquela batalha, abrigando soldados recém-recrutados e prisioneiros inimigos. O tempo se foi, a mística ficou. Naquele gramado foram decididas ao menos dez Libertadores, além de disputas acirradas terem sido travadas entre adversários sul-americanos. 

De nome bélico e histórico futebolístico semelhante, o estádio quase sempre foi cenário de bons resultados para o Grêmio — talvez porque nossa saga guerreira  e imortal esteja sintonizada com aquele ambiente. A conquista do Tricampeonato da Libertadores passou por lá quando jogamos com um time reserva para empatar com o mesmo adversário desta noite, em 2017. Ano passado, ganhamos duas vezes de outro time local.

Hoje, mantivemos a jornada vitoriosa no Chaco em uma partida que se não foi uma batalha daquelas típicas do futebol sul-americano, marcada por violência e deslealdade, foi, certamente, um jogo difícil de se vencer, mesmo que o domínio tenha sido quase todo gremista. 

Nossos guris se impuseram em campo com talento e bom futebol. Por muito pouco, no primeiro tempo, deixamos de abrir o placar. Na defesa, a presença de Geromel eliminava qualquer risco. Nossos volantes triangulavam com Jean Pyerre e lá na frente, Pepê, o Menino Maluquinho, enlouquecia os marcadores. Faltava acertar o “último passe”, como costumam dizer os boleiros e comentaristas.

No segundo tempo, curiosamente, foi quando mais sofremos — momentos em que Vanderlei se agigantou no gol, novamente. A primeira grande defesa foi daquelas de guardar no DVD, em um tiro a queima roupa que ele evitou que chegasse ao nosso gol. Na segunda, encenou uma ponte para a alegria dos fotógrafos e alívio do torcedor gremista. Não bastasse a segurança dele lá atrás, ainda ajudou a colocar o time na frente. Com duas bolas lançadas por Vanderlei, o Grêmio chegou rapidamente ao ataque, surpreendeu a marcação e fez os dois gols que nos deixam muito próximos de mais uma quarta de final da Libertadores.

No primeiro, Pepê, de tão veloz, deixou o marcador com a  cara no chão e Jean Pyerre, de tão técnico, paralisou o goleiro, que teve apenas a oportunidade assistir à bola entrando no fundo do poço, sem se mexer. No segundo, Churín lutou pelo alto e na sobra de bola e com a cabeça conseguiu colocar Pepê na frente do goleiro. A categoria de nosso guri completou para as redes.

A vitória nos dá tranquilidade para o segundo jogo, na Arena. E mostra que o time está amadurecendo no momento certo —- mérito de Renato Portaluppi que completou 383 partidas como técnico do Grêmio, igualando o recorde de Oswaldo Rolla. Nosso treinador, além de deixar sua marca no time, também foi destaque ao lado do campo: vestiu a  camisa 10 da Argentina para homenagear outro craque e seu amigo, Diego Armando Maradona, que se fosse brasileiro jogaria no Grêmio — duvida? Eu não!

Galeano, Piazzola, Blazquez e o grito sonoro do gol para homenagear Maradona

 

Eduardo Galeano, que me inspirou em post anterior, foi resgatado em crônica “O parto”, na qual conta o nascimento de Diego Maradona, no encerramento da edição do Jornal da CBN. Por criação de Paschoal Júnior, ouvimos o segundo e impressionante gol do “Diez” contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, em três vozes: Roberto Hernandes Júnior, do México, Samuel Souza Santos , da Guaíba, e Osmar Santos, na Globo. Tudo sonorizado por Adios Nonino , de Astor Piazzolla Y Eladia Blazquez, com interpretação de Mariana Avena.

As palavras que definem Maradona

Reprodução de vídeo do site Clarín

 

A notícia da morte de Diego chegou em um alerta no celular. Daquela chamada curta que dizia o necessário e definitivo até agora, não tive coragem de escrever uma só linha sobre a morte de “Diez”. Nada que eu pensasse já não haveria de ter sido pensado por gente muito mais habilidosa com as letras. Temos cronistas, esportivos ou não, qualificados para homenagear com seu talento o talento de Maradona. A leitura dos jornais nesta manhã, as publicações na internet e as homenagens no rádio e na televisão deixam isso bem claro. E faço o convite para que você vá na banca mais próxima e compre todas as edições de jornais deste 26 de novembro de 2020 — serão históricas.

Para bloquear qualquer criatividade que me restasse, ainda ouvi a pergunta de minha mulher, na mesa do jantar: “o que o pai escreveria sobre a morte de Maradona?”. O pai ao qual ela se refere é o meu pai, Milton Ferretti Jung, mais conhecido por narrador de esportes e de notícias, mas, também, cronista de qualidade irretocável. Não bastasse o prazer de ouvi-lo interpretando textos que escrevia na rádio Guaíba, de Porto Alegre — preferia datilografar suas ideias no papel em lugar de fazer de improviso, em respeito às palavras –, por algum tempo publicou crônicas nos jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Não me atrevo a arriscar o que o pai escreveria de Maradona, o craque que nasceu na Argentina, país pelo qual ele — o pai — sempre admirou pelas carnes, pelos vinhos, pela cultura, pelas ruas de Buenos Aires e por Maradona, também. No armário, onde ficaram as roupas deixadas pelo pai, quando morreu, no ano passado, encontrei a camisa do Boca Junior — certamente comprada na Bombonera em uma das muitas visitas que fez ao estádio que aplaudiu o futebol de Maradona. Provavelmente escreveria texto memorável e o leria com todas as letras e caprichando na pronúncia espanhola.

Sem palavras — por comedimento, respeito e não me sentir a altura dessa turma boa de cronistas que temos —, recorri a biblioteca que tenho aqui em casa e encontrei o livro “Fechado por motivo de futebol”, de Eduardo Galeano, uruguaio que escreve como poucos sobre a vida e o futebol. Foi Galeano, como lembrado em muitas das reportagens publicadas desde ontem, que definiu Maradona como “o mais humano dos deuses”. No livro, a primeira crônica é Galeano revelando o sonho de ser jogador de futebol; a segunda, é do nascimento de Maradona — que li ao fim do Jornal da CBN, desta quinta-feira; e a terceira é a homenagem eternizada que reproduzo a seguir, porque Galeano, em 221 palavras, fez o que nenhum de nós conseguiria fazer tão bem: descreveu Maradona, do início ao fim.

Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório. Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”