50 debates para o Brasil: imposto sobre grandes fortunas divide especialistas sobre justiça tributária e crescimento econômico

A forma de tributar os mais ricos voltou ao centro do debate sobre o futuro da economia brasileira. Embora previsto na Constituição desde 1988, o imposto sobre grandes fortunas nunca foi regulamentado. Seus defensores afirmam que a medida tornaria o sistema tributário mais justo ao aumentar a contribuição de quem concentra maior patrimônio. Os críticos argumentam que a experiência internacional demonstra baixa eficiência na arrecadação, dificuldades de fiscalização e risco de desestímulo aos investimentos.

A criação do imposto sobre grandes fortunas e a justiça tributária foram discutidas, na série 50 Debates Para o Brasil, no Jornal da CBN, com a participação de Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp, e o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria.

Ao defender mudanças na tributação brasileira, Fagnani sustentou que o problema central está na baixa incidência de impostos sobre renda e patrimônio e na elevada carga sobre o consumo. Segundo ele, esse modelo penaliza principalmente a população de menor renda. “O Brasil nesse sentido é quase que um paraíso fiscal para os super-ricos”, afirmou. Para o economista, o país precisa ampliar a tributação sobre altas rendas, rever a isenção sobre lucros e dividendos e tornar o Imposto de Renda mais progressivo.

Fagnani ressaltou ainda que pessoas de renda muito elevada pagam proporcionalmente menos impostos do que trabalhadores assalariados. Como exemplo, citou a tributação sobre dividendos distribuídos a acionistas e comparou as alíquotas brasileiras do Imposto de Renda com as praticadas em diversos países desenvolvidos, defendendo que a redução dos impostos sobre o consumo deve ser acompanhada por maior tributação dos contribuintes de maior capacidade econômica.

Maílson da Nóbrega concordou que o Brasil precisa reformar o Imposto de Renda, mas rejeitou a criação de um imposto sobre grandes fortunas. Segundo ele, diversos países abandonaram essa modalidade de tributação por causa da baixa arrecadação, dos custos administrativos e dos efeitos negativos sobre investimentos e poupança. “É o imposto encantador, porque ele promete tributar os super-ricos, promete redistribuir renda, promete fazer justiça tributária, mas a experiência internacional mostra que não é nada disso que aconteceu”, afirmou.

O ex-ministro defendeu que o país corrija distorções existentes na tributação da renda, especialmente mecanismos que favorecem planejamento tributário e reduzem a carga efetiva paga pelos contribuintes mais ricos. Ao mesmo tempo, ponderou que a estrutura tributária brasileira precisa levar em conta as características da economia nacional e não pode simplesmente reproduzir modelos adotados por países mais desenvolvidos.

O debate mostrou que há convergência quanto à necessidade de aperfeiçoar o sistema tributário brasileiro, mas forte divergência sobre o caminho para alcançar esse objetivo. Enquanto um lado vê a tributação das grandes fortunas como instrumento de justiça fiscal, o outro considera que uma reforma do Imposto de Renda seria mais eficiente e menos prejudicial ao ambiente de investimentos.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Quem cuida do homem gay quando ele envelhece?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos meses vivi algumas situações que me provocaram uma reflexão especial sobre o cuidado.

Ao longo deste texto, compartilho uma narrativa baseada na minha experiência como homem gay. O que apresento aqui, porém, também alcança — em diferentes nuances e, talvez, de forma ainda mais intensa — pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneras e não binárias.

Durante esse período, recorri aos abraços e à escuta de pessoas que pudessem, ao menos, acolher a ansiedade que eu enfrentava. Por sorte, ou por mérito, tenho por perto amigas e amigos que não mediram esforços para estar comigo e me fortalecer naquele momento.

Um aspecto, porém, chamou especialmente a minha atenção: a dificuldade de compreender, na prática, o contexto da interseccionalidade. E vejam: grande parte das minhas amizades é formada por pessoas que estudam esse tema, atuam na defesa dos direitos humanos e participam do ativismo.

A interseccionalidade é a compreensão de como diferentes dimensões que moldam nossa identidade — como gênero, raça, classe social, geração e orientação sexual, entre outras — se cruzam e produzem experiências específicas.

Ainda assim, vale o velho ditado: é fácil medir a intensidade da pimenta quando ela está no corpo do outro. Não por maldade, evidentemente, mas porque reproduzimos comportamentos socialmente aprendidos sem o exercício permanente da empatia.

Não escrevo isso por ingratidão nem para desmerecer esses encontros. Muito pelo contrário. Vejo essa experiência como um laboratório social que nos convida — e me convida também — a refletir sobre a forma como acolhemos as pessoas. Afinal, o mundo não se resume à nossa própria realidade.

O que mais me incomodou foi perceber que, ao expor meus medos e vulnerabilidades, eu precisava reiterar constantemente algo fundamental: como homem gay da geração dos anos 1980, minha rede de apoio e minhas perspectivas para o futuro não são as mesmas vividas, em sua maioria, por pessoas heterossexuais.

Não me refiro apenas aos aspectos econômicos. Refiro-me a uma pergunta que se torna cada vez mais urgente com o passar do tempo: com quem realmente podemos contar quando precisamos ser cuidados, sem ter de justificar uma existência que tantas vezes já foi colocada em xeque?

Contar com o apoio de uma família de origem homofóbica, que não nos aceita em nossa plenitude, jamais deveria ser visto como uma possibilidade. Quem nunca experimentou a violência da homofobia dificilmente compreenderá toda a dor e o adoecimento que ela produz ao longo da vida.

Também nem sempre encontramos pessoas amigas capazes de formar uma família afetiva — a família de escolha — que ofereça suporte emocional e prático nos momentos de fragilidade e durante o envelhecimento.

A nós também costuma ser negado o conforto religioso. Em muitos espaços de fé, perpetuam-se a discriminação e o incentivo à autonegação. E não me refiro apenas às religiões cristãs. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda são guiados por concepções ultrapassadas e autoritárias, que reforçam desigualdades de poder e restringem o acesso ao acolhimento espiritual.

O letramento em direitos humanos ainda é insuficiente, sobretudo quando se limita a práticas meramente ritualísticas e deixa de considerar os aspectos socioculturais e políticos que sustentam as estruturas de opressão.

No mundo do trabalho, a garantia de emprego formal com proteção social também está longe de ser uma realidade para todos. Ainda persiste um silêncio em torno da homofobia velada nos processos seletivos e em práticas corporativas que padronizam identidades e anulam a diversidade. Nem todo discurso inclusivo vem acompanhado de ações efetivamente comprometidas com a equidade e com a segurança de pessoas LGBT+ no acesso e na permanência no mercado de trabalho.

Como se isso não bastasse, a reprodução de estereótipos sobre a homossexualidade continua sendo perversa. Quando alguém acredita estar acolhendo ao dizer frases como “eu amo meus amigos gays, eles são os mais divertidos e confiáveis”, revela uma espécie de “homofobia cordial”. Esse lugar de adereço ou de “gay funcional” reduz nossa humanidade, como se não tivéssemos direito às vulnerabilidades, às fraquezas e à necessidade de sermos cuidados. É mais uma forma de desumanizar quem não corresponde ao padrão da cisheteronormatividade — estrutura social hegemonicamente organizada a partir da cisgeneridade e da heterossexualidade.

A estrutura tradicional de cuidado foi construída tendo como referência a família nuclear heteronormativa. À medida que o tempo passa, a pergunta sobre quem cuida de quem ganha contornos dramáticos para a população LGBT+, exigindo redes de apoio que a sociedade e o Estado ainda relutam em construir.

Não pretendo reduzir essa dor a uma questão de privilégio velado. Sei que fui acolhido, sou amado e disponho de uma rede de apoio importante. Minha reflexão vai além disso. Se alguém com as condições que tenho já atravessa esse processo deixando marcas profundas, o que acontece quando essa realidade se cruza com marcadores como raça, identidade de gênero, classe social e velhice? Se o acolhimento já falha em espaços relativamente protegidos, ele se transforma em um abismo de invisibilidade para quem vive às margens.

Até quando fingiremos que a solidão e o desamparo no envelhecimento de pessoas LGBT+ são falhas individuais de trajetória, e não resultado de uma estrutura social que insiste em descartar corpos que não reproduzem o modelo heteronormativo?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

50 debates para o Brasil: eutanásia em casos terminais coloca autonomia do paciente e limites da medicina em discussão

O debate sobre a eutanásia desafia princípios éticos, jurídicos e médicos ao colocar em questão quem deve decidir sobre o fim da vida de uma pessoa em situação terminal. Para discutir este tema na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, reunimos a advogada e bioeticista Luciana Dadalto, presidente da Associação Eu Decido, e o médico gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade.

A primeira questão apresentada aos convidados tratou do conflito entre a autonomia do paciente e o dever da medicina de preservar a vida. Para Luciana Dadalto, a discussão exige uma compreensão mais ampla do significado de viver. Ela defendeu que a medicina precisa considerar não apenas a sobrevivência biológica, mas também a história e a dignidade da pessoa. “Estar vivo não é só estar biologicamente vivo, mas é estar também biograficamente vivo”, afirmou. Segundo ela, a morte assistida deve ser discutida a partir da realidade de pacientes com doenças incuráveis, em fase terminal e submetidos a sofrimento que consideram insuportável.

Alexandre Kalache ressaltou que o envelhecimento da população tornará esse debate cada vez mais frequente. Antes de discutir posições favoráveis ou contrárias, ele defendeu a necessidade de diferenciar conceitos que costumam ser confundidos. Explicou que a eutanásia corresponde à antecipação intencional da morte por um profissional de saúde, enquanto a ortotanásia consiste em permitir que a morte ocorra em seu tempo natural, sem tratamentos desproporcionais para prolongar artificialmente a vida. Já o suicídio assistido ocorre quando o próprio paciente administra o medicamento prescrito. Para Kalache, “esse debate é absolutamente imprescindível” diante do aumento do número de pessoas que viverão com doenças sem possibilidade de cura.

Na sequência do debate, o foco passou a ser a regulamentação da morte assistida. Luciana Dadalto argumentou que a discussão não deve permanecer limitada à divisão entre quem é contra ou a favor. Na avaliação dela, o desafio está em definir quem teria direito ao procedimento e quais mecanismos poderiam impedir abusos. A proposta inclui critérios rigorosos, como diagnóstico de doença incurável e terminal, avaliações médicas independentes, análise da capacidade de decisão do paciente e fiscalização por órgãos responsáveis. “O debate no Brasil precisa ser: o direito à morte assistida é um direito de quem?”, resumiu.

Kalache concordou que a existência de salvaguardas é possível e necessária, mas chamou atenção para outro aspecto: a formação dos profissionais de saúde. Segundo ele, muitos médicos não são preparados para lidar com o processo de morrer. Defendeu maior presença da bioética nos cursos de Medicina e destacou a importância das diretivas antecipadas de vontade — documento em que uma pessoa registra previamente quais cuidados deseja receber caso perca a capacidade de decidir. Ao lembrar a médica Cláudia Burlá, afirmou que, “quando a cura já não é possível, o dever da medicina continua sendo cuidar com competência, compaixão e respeito à dignidade humana”.

O debate mostrou que a discussão sobre eutanásia vai muito além da autorização ou da proibição da prática. Ela envolve conceitos médicos, direitos individuais, proteção de pessoas vulneráveis, responsabilidade do Estado e a forma como a sociedade compreende a dignidade no fim da vida. Independentemente da posição adotada, ficou evidente que o tema exige informação, precisão conceitual e diálogo.

Mais do que responder se a eutanásia deve ou não ser permitida, a discussão evidenciou que o desafio está em construir um debate público qualificado, capaz de distinguir conceitos, estabelecer limites claros e colocar a dignidade da pessoa no centro das decisões sobre o fim da vida.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Dez Por Cento Mais: Ciro Férrer explica como arquitetura pode favorecer um envelhecimento com mais autonomia

“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”

O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.

O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.

“A casa passou a dominá-la”, resume.

A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.

Leia, também, os artigos de Ciro Férrer no Blog do Mílton Jung

Adaptações simples fazem diferença

Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.

Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.

“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”

Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.

Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.

“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”

Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.

A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.

Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.

Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.

Cidades também precisam envelhecer

Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.

“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”

Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.

Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.

Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.

“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”

Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.

Assista ao Dez Por Cento Mais

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Avalanche Tricolor: o empate decepciona e a volta de Marlon inspira

Grêmio 1×1 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Fluminense

Marlon parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há quatro meses, diante da cena que chocou os gremistas, roguei para que Marlon encontrasse forças e se recuperasse. Em um lance fortuito, nosso lateral esquerdo sofreu uma fratura no tornozelo, que ficou escancarada na imagem captada pela televisão. Ali mesmo, no sofrimento que se iniciava no gramado, ele já sinalizava a dimensão de sua resiliência. Antes de entrar na ambulância, ergueu o corpo sobre a maca, olhou para os torcedores que gritavam seu nome e agradeceu com aplausos e um sorriso.

Hoje, Marlon estava de volta ao time titular, cumprindo o compromisso que ele próprio havia assumido com o Grêmio e sua torcida. A presença dele oferece maturidade na marcação e segurança na saída de bola pelo lado direito. Tem bom passe e visão de jogo. Antes mesmo de demonstrar que está em plena recuperação — ainda precisará de alguns jogos para retomar o ritmo —, seu nome entre os titulares me deu esperança de que ainda podemos mudar nossa história nesta temporada.

Marlon é gremista de coração. É daqueles jogadores que carregam uma história junto com a camisa e chegaram para viver o que muitos chamam de sonho. Foi o que escrevi em 20 de março, logo depois de me sensibilizar com uma dor que somente ele seria capaz de dimensionar.

Mesmo que o resultado deste domingo tenha sido mais uma frustração — empatamos em casa quando os três pontos se faziam necessários —, vislumbro na volta de Marlon a possibilidade de uma transformação. Não que ele seja o tipo de jogador capaz de desequilibrar uma partida, como costumam fazer os grandes craques do futebol. Tem, porém, personalidade e liderança que serão fundamentais para os desafios que se impõem em nosso caminho.

Na Copa Sul-Americana, precisamos vencer já na próxima quinta-feira para seguirmos em frente. Na Copa do Brasil, enfrentaremos, em dois jogos, um adversário que jamais vencemos na história. No Campeonato Brasileiro, precisaremos voltar a ganhar para, ao menos por algumas rodadas, respirar aliviados e distantes daquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Para este torcedor delirante, que insiste em acreditar que sempre será possível, ter visto Marlon em campo hoje foi o sinal de que eu precisava para suportar mais um revés no Brasileiro. Que sua volta também tenha esse mesmo simbolismo para o elenco gremista.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: seis princípios essenciais para fortalecer a sua marca

Foto de Olya Kobruseva on Pexels.com

Construir uma marca sólida depende menos de fórmulas prontas e mais da capacidade de ouvir, comunicar, aprender e manter coerência ao longo do tempo. Esse foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN. Após mais de uma década de conversas com os ouvintes, eles decidiram revisitar conceitos que consideram fundamentais para quem deseja desenvolver uma marca consistente. 

Jaime Troiano inicia a lista de recomendações lembrando que uma marca precisa, antes de tudo, saber escutar: “Não só ouça, porque ouvir é uma coisa fisiológica. Escuta exige empatia e compreender o que de fato elas estão sentindo e querendo dizer.” A diferença entre ouvir e escutar parece sutil, mas faz toda a diferença. Ouvir é perceber sons; escutar significa interpretar sentimentos, necessidades e expectativas das pessoas que se relacionam com a marca.

O segundo ponto trata da comunicação. Jaime compara essa atividade à proteína que fortalece os músculos do corpo. Na visão dele, a comunicação fortalece a identidade da marca e está presente em cada detalhe da experiência do consumidor. A forma de receber um cliente, a apresentação dos funcionários, a organização da loja, o funcionamento do site e o atendimento fazem parte da mensagem transmitida pela empresa. Comunicação, portanto, não depende apenas de campanhas publicitárias ou grandes investimentos.

Outro aspecto essencial envolve quem trabalha dentro da organização. Jaime lembra que “são os seus colaboradores os primeiros que precisam acreditar no que essa marca promete.” Quando a equipe conhece os valores da empresa e acredita neles, torna-se a principal embaixadora da marca perante clientes e parceiros.

Na sequência, Cecília Russo destaca a importância das histórias. Para ela, contar uma boa narrativa não significa criar um discurso bonito, mas construir uma promessa capaz de resistir ao teste da realidade. Como resume, “ela precisa sempre contar uma história. É o famoso storytelling. E uma história que seja sustentável.” Em outras palavras, aquilo que a marca comunica precisa ser confirmado pela experiência do consumidor.

A quinta recomendação é medir regularmente a percepção do público. Cecília cita o NPS (Net Promoter Score), indicador que avalia a disposição dos clientes em recomendar uma empresa. A pergunta é simples: de zero a dez, qual a probabilidade de indicar essa marca para outra pessoa? Quem responde nove ou dez tende a ser promotor; quem atribui notas de zero a seis demonstra insatisfação; já as notas sete e oito representam neutralidade. O acompanhamento periódico desse indicador ajuda a identificar pontos fortes e fragilidades antes que pequenos problemas se transformem em obstáculos maiores.

Por fim, Cecília reforça a necessidade de acompanhar o mercado com humildade. Observar concorrentes não significa copiar estratégias, mas compreender que nenhuma empresa evolui isoladamente. Conhecer boas práticas, identificar mudanças de comportamento dos consumidores e entender os movimentos do setor são atitudes que contribuem para decisões mais consistentes.

A marca do Sua Marca

Uma marca forte não nasce de uma única campanha nem de um investimento elevado. Ela é construída diariamente por meio da escuta ativa, da coerência entre discurso e prática, da comunicação presente em cada contato, do compromisso das pessoas que representam a empresa, da avaliação constante da experiência do cliente e da disposição para aprender com o mercado.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

50 debates para o Brasil: a expansão das escolas cívico-militares divide opiniões sobre a educação

A busca por uma escola mais segura e capaz de garantir aprendizagem de qualidade está no centro do debate sobre a expansão das escolas cívico-militares no Brasil. Hoje, são cerca de 1.500 escolas desta modalidade, em mais de 800 cidades. Na série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, discutimos esse tema com o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba, Jevuks Mateus de Araújo, favorável à adoção desse modelo em determinadas situações, e a presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, que defendeu o fortalecimento da gestão pedagógica tradicional.

Ao defender as escolas cívico-militares, Jevuks ressaltou que elas não devem ser tratadas como uma solução para todos os problemas da educação, mas como uma alternativa para contextos específicos. Segundo ele, um estudo realizado sobre a experiência de Goiás identificou efeitos positivos sobre o desempenho dos estudantes. “O programa se insere em um leque de programas e oportunidades de políticas públicas. Ele não é uma solução mágica que vai resolver todos os problemas”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, os resultados estão associados principalmente à redução da violência nas escolas. A pesquisa identificou queda nas ameaças a profissionais da educação, na presença de drogas e armas e nos casos de roubo, fatores que contribuíram para melhorar o ambiente escolar e favorecer a aprendizagem. Para ele, diferentes redes de ensino enfrentam desafios distintos e, por isso, devem dispor de diferentes instrumentos de gestão. “Esses programas não sejam excludentes e que atendam a realidades diferentes, a objetivos diferentes”, resumiu.

Priscila Cruz reconheceu a importância de estudos que avaliam políticas públicas, mas questionou se esse modelo responde aos objetivos mais amplos da educação. Segundo ela, a escola precisa formar cidadãos preparados para viver em diferentes ambientes sociais e profissionais, desenvolvendo autonomia, criatividade e liderança. “A escola tem que formar para um ambiente mais amplo, para uma gama muito maior de situações que esse jovem vai encontrar fora da escola”, afirmou.

Na avaliação da presidente-executiva do Todos Pela Educação, parte dos resultados obtidos em Goiás também pode estar relacionada ao maior investimento e à atenção recebida por essas unidades. Ela citou experiências em estados como Ceará e municípios como Sobral e Vitória, onde avanços na aprendizagem e na redução da violência ocorreram por meio da melhoria da gestão escolar e da formação de professores, sem recorrer à militarização. “A militarização não é a solução”, concluiu.

Ao longo do debate, os dois convidados convergiram em um ponto: a violência nas escolas representa um desafio que precisa ser enfrentado. A divergência esteve na estratégia. Enquanto Jevuks defendeu que o modelo cívico-militar pode ser uma resposta eficaz em determinados contextos, Priscila sustentou que os mesmos objetivos podem ser alcançados com investimento em gestão, formação docente e integração entre as áreas de educação e segurança pública.

A principal marca deste debate foi mostrar que a discussão não se resume a escolher entre dois modelos de escola. Ela passa por uma questão mais ampla: quais políticas públicas conseguem oferecer segurança, melhorar a aprendizagem e formar estudantes preparados para exercer a cidadania e enfrentar os desafios da vida.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: um amor que nasceu à distância e nas ondas do rádio

Neusa Prata Vieira

Ouvinte da CBN

Nos idos de 1960 e 1963, meu pai, caminhoneiro, começou a transportar pedras para São Paulo, a nossa Capital, que tanto eu ansiava conhecer. À distância, eu já amava esta cidade, a minha Capital, mesmo sem a conhecer.

E o que tudo dela eu ouvi era transmitido pela rádio Bandeirantes, na rua Paula Souza, número 181. Todas as notícias do mundo e as narrações dos jogos de futebol.

Um belo dia, sem saber qual, fui para o batismo: São Paulo à vista! Ah! Que expectativa! Não cabia dentro de mim tamanhas a satisfação e a felicidade. Ao entrar na cidade, com tantos veículos por ruas e avenidas que não tinham fim, com uma incontável quantidade de prédios que nunca acabavam, fiquei fascinada, deslumbrada!

Fui tomada por um bem-estar imenso que jamais havia experimentado. E tudo isso, dentro de mim, me fortalecia, me empoderava e me completava.

Lembro-me tanto da emoção de estar pisando naquelas poucas ruas por onde caminhei … caminhei? Não, eu flutuei! Queria delas saber os nomes. Não encontrei uma só placa para guardar na memória.

Os policiais vestidos a rigor no centro dos cruzamentos das avenidas. Ficavam em cabines de madeira abertas, com seus apitos para comandar um trânsito, a meus olhos, assustador.

Achei lindo tudo aquilo. Que me transportava para um clima de festa, como se eu estivesse num parque de diversão.

Retornei de lá até triste porque queria que viesse comigo toda aquela gostosa intimidade que com ela mantive, naquele único dia que lá passei. Mas o que de emoção senti e guardei dessa inusitada viagem foi muito forte e surpreendente para mim mesma. 

Em 1976, fiz um concurso público para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e, a partir de então e durante 27 anos, prestei serviços no Fórum de São Carlos, onde já me aposentei.

Veja só como São Paulo me acolheu! Olha só o presente que me deu!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Neusa Prata Vieira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: da altitude de 1983 à realidade de 2026

Bolívar 3×2 Grêmio  

Sul-Americana – Hernando Siles, La Paz – Bolívia

Gremio x Bolivar

Villasanti comemora seu gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje cedo, na conversa diária com Paulo Vinícius Coelho, meu colega no Jornal da CBN e comentarista do jogo na Paramount, ele lembrou que o Grêmio foi o primeiro clube brasileiro a vencer na altitude de La Paz. Aconteceu no histórico ano de 1983, na campanha que nos levou à conquista da nossa primeira Libertadores. Um time de Hugo De León, Renato, China e Osvaldo — estes dois últimos autores dos gols da vitória.

Foi naquele período que o Grêmio começou a construir sua reputação na América. Passou a ser temido por qualquer adversário, independentemente das circunstâncias. Ao vencer na altitude, insalubre para a prática do futebol, ou ao suportar a violência de rivais e torcidas pelo continente, o clube forjou a imagem que mais tarde seria resumida em uma palavra: Imortal.

Enquanto PVC trazia à memória esse passado, outro amigo me enviava uma mensagem indignada pelo WhatsApp. Havia acabado de ver as odds de uma casa de apostas que apontavam amplo favoritismo do Bolívar para a partida desta noite. Para ele, era o fim dos tempos. Para mim, era apenas um sinal dos tempos.

O Grêmio, infelizmente, deixou de produzir atuações capazes de intimidar os adversários. Sobretudo longe de Porto Alegre. As campanhas irregulares no Campeonato Brasileiro e as eliminações precoces em competições continentais desgastaram a imagem construída ao longo de décadas. A impressão é que os rivais já não entram em campo preocupados com o peso da camisa tricolor.

Nesta noite, o time voltou a confirmar essa sensação. Falhou na marcação, permitiu que o Bolívar chegasse com facilidade à área, teve dificuldade para controlar a posse de bola e cometeu erros desde o primeiro minuto, quando sofreu o gol que abriu o placar. Ainda assim, encontrou forças para marcar duas vezes, com Villasanti e Tetê, e criou oportunidades suficientes para imaginar um resultado diferente. Faltou eficiência para transformar essas chances em empate — ou até em vitória.

Sabemos que disputar uma partida a 3.600 metros de altitude é um desrespeito aos atletas. Falta ar, diminui a capacidade de concentração, alguns sofrem tonturas, e a cabeça passa a exigir de um corpo que já não responde na mesma velocidade. A bola ganha outra dinâmica, o passe perde precisão e o chute exige um cálculo diferente. Tudo isso precisa ser levado em conta ao analisar o desempenho desta noite.

O problema é que a altitude explica os erros deste jogo; não explica os da temporada. A sensação de fragilidade que o time transmite já vinha de antes e tem pouco a ver com o ar rarefeito de La Paz.

Ainda assim, recuso-me a acreditar que essa história tenha terminado. O mesmo Grêmio que um dia transformou a altitude em cenário de uma de suas maiores façanhas continua existindo. Não está nas pernas dos jogadores de 1983, nem pode viver apenas da memória dos títulos. Está na capacidade que este clube sempre teve de se reconstruir quando parecia desacreditado. A camisa perdeu parte do respeito que inspirava; o respeito, porém, pode ser recuperado. Será preciso futebol, organização e coragem. A história mostra que isso já aconteceu outras vezes. E é justamente por conhecer essa história que continuo acreditando que o Grêmio ainda será capaz de virar esse jogo.

50 debates para o Brasil: especialistas discutem o uso das câmeras corporais pelas policias

A segurança pública é o tema que mais preocupa os brasileiros. Além das mensagens que recebemos dos ouvintes e da sucessão de casos que noticiamos todos os dias, as pesquisas de opinião confirmam essa percepção de forma contundente. Por isso, a série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, dedica mais de um encontro ao assunto, abordando diferentes aspectos relacionados à segurança pública. Neste debate, o foco foi o uso de câmeras corporais por policiais. Participaram da conversa a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, e o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo José Vicente da Silva Filho, que discutiram os efeitos, os desafios e os critérios para a adoção desse recurso.

A primeira questão tratou do impacto das câmeras na atuação policial. Para Samira Bueno, o principal benefício não está apenas na redução de abusos, mas na produção de provas e na proteção jurídica dos próprios agentes. “O uso das câmeras é justamente para a gente ter uma política de segurança em que o policial possa fazer o combate ao crime, fazer a prisão de criminosos, mas que isso também dê segurança jurídica para ele continuar atuando”, afirmou. Segundo ela, experiências nacionais e internacionais mostram que o equipamento fortalece a transparência da atividade policial e amplia a confiança no trabalho realizado.

José Vicente da Silva Filho concordou que o sistema representa um avanço para a atividade policial e atribuiu a maior resistência ao equipamento a uma cultura que ainda rejeita mecanismos de controle. “A resistência é da velha polícia, que acha que o policial tem que fazer tudo que bem entenda nas periferias da vida sem nenhum controle”, disse. Para ele, a gravação das ocorrências complementa a supervisão exercida pelos comandantes e ajuda a verificar se os procedimentos operacionais foram corretamente cumpridos.

Na segunda rodada de perguntas, os debatedores discutiram como um programa de câmeras corporais deve funcionar. Um dos principais pontos foi a gravação contínua, iniciada desde o começo do turno de trabalho. Samira defendeu que esse modelo preserva a integridade das imagens, facilita a produção de provas e permite o compartilhamento do material com instituições como Ministério Público, Defensoria Pública e Judiciário. Ela também destacou estudos que associam a adoção das câmeras à redução da letalidade policial, da vitimização dos próprios policiais e de casos de corrupção.

José Vicente reforçou a defesa da gravação contínua por impedir que o policial escolha quando registrar uma ocorrência. Explicou que o sistema desenvolvido pela Polícia Militar de São Paulo estabelece regras para armazenamento, auditoria e controle de acesso às imagens, preservando sua autenticidade. Acrescentou ainda que a incorporação de recursos de inteligência artificial tende a ampliar a capacidade de análise desse enorme volume de dados e contribuir para aperfeiçoar a relação entre polícia e população. “A sensação de maior ou menor segurança está muito vinculada à confiança que se tem na polícia”, observou.

Embora tenham partido de perspectivas diferentes, os dois especialistas convergiram em aspectos relevantes. Ambos defenderam que as câmeras não impedem a ação policial nem reduzem a capacidade de combate ao crime. Também concordaram que a tecnologia pode aumentar a transparência, fortalecer a produção de provas e oferecer mais segurança para policiais e cidadãos, desde que seja adotada com regras claras e fiscalização permanente. O principal ponto de divergência concentrou-se na avaliação dos modelos atualmente implementados e na necessidade de preservar a gravação contínua como padrão.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.