Maratona Piauí CBN de podcast: um novo modelo de negócio

 

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Adriana Salles Gomes, Ana Paula Wehba e Fernanda de Paula e eu em FOTO DE MARCELO SARAIVA

 

A reportagem a seguir foi publicada originalmente no site da Revista Piauí, onde você encontra a cobertura completa da Maratona Piauí CBN de podcast, que se realizou nesse sábado, dia 17 de agosto, em São Paulo:
 

Por que apostar em um podcast e como conseguir financiamento? Ao mesmo tempo, como democratizar o acesso aos podcasts? Foram essas algumas das questões discutidas na abertura da 2ª Maratona Piauí CBN de Podcast, que acontece neste sábado em São Paulo, no campus da ESPM na Vila Mariana. Adriana Salles Gomes, editora-chefe da Revista HSM Management e apresentadora do podcast CBN Professional, Ana Paula Wehba, diretora de eventos, projetos e negócios da revista Trip, e Fernanda de Paula, gerente de marketing de produtos do laboratório Boehringer Ingelheim, conversaram sobre estratégias de negócios para criar podcasts. A mediação foi do jornalista Milton Jung, da CBN. Na plateia e pelas redes, o público participou enviando perguntas para os participantes de mesa. A maratona tem apoio do Google News Iniciative.

 

A menstruação e suas dores motivaram a criação do podcast Seu Forte é Ser Mulher, parceria entre a Trip e o laboratório Boehringer Ingelheim, que fabrica os medicamentos Buscopan e Buscofem, usados contra cólicas menstruais. O podcast é uma ação típica de branded content, conteúdo de marca, quando a empresa financia o projeto.

 

“Toda mulher menstrua, e ainda assim o tema é um tabu. Resolvemos falar disso de forma muito autêntica. É um tema que conversa com a marca, nem preciso colocar o nome do produto”, afirmou Fernanda de Paula.

 

A partir de uma pergunta da plateia, as participantes discutiram o risco de o conteúdo patrocinado prejudicar a isenção jornalística e, por consequência, a qualidade do produto.

 

“Há um risco, claro, e não se pode transformar o programa em uma propaganda”, respondeu Wehba. “A gente queria trazer as dores reais das mulheres. Se a gente interferisse, ia prejudicar a naturalidade da vida real.”

 

Apresentadora do podcast CBN Professional, Salles Gomes disse que a HSM Management, uma plataforma de educação corporativa, viu nos podcasts uma chance de ampliar seu público e tornar a marca mais conhecida. O modelo de negócio é o patrocínio tradicional.

 

“O podcast permite manter a profundidade para abordar os assuntos, num tom mais leve e com participação do público”, afirmou Salles Gomes. Ela destacou, porém, a necessidade de uma boa interação entre os parceiros responsáveis pelo projeto. “A gente tem de abrir mão de uma coisa para ter outra coisa. Negociar, enfim.”

 

As três participantes defenderam a necessidade de democratizar o acesso aos podcasts. “Acho que a gente deve olhar para o podcast como uma ferramenta de democratização da informação”, afirmou Wehba. Ela criticou as dificuldades para localizar os podcasts nos tocadores. “Ainda precisamos de uma plataforma de distribuição na qual você consiga ver tudo que está sendo produzido de podcasts.”

 

“Não se pode tratar o áudio como se fosse um cidadão de segunda classe”, cobrou Jung. Para quem quer começar um podcast, as dicas da mesa foram: ouvir podcasts do Brasil e do exterior, escolher um tema “verdadeiro, legítimo”, ou seja, pelo qual a pessoa tenha interesse genuíno, e, por fim, ter o que dizer. A dica de Jung também foi precisa: falar com cada ouvinte individualmente, para que ele se sinta próximo. “É preciso chamar o ouvinte de você”, concluiu.

Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas; quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas

 

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Texto publicado pelo colega Lourival Sant’Anna

Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas. Quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas. Quanto mais estrada, mais humildade e silêncio. Quanto mais ideologia, mais arrogância e estridência. O prazer do repórter está em ser surpreendido todos os dias pela realidade, em ver o mundo desmentir suas pautas, suposições e planos.

 

O jornalismo habita o mundo do ser, não do dever ser. Sem pretensão de objetividade, porque temos uma dimensão simbólica, subjetiva; nem de imparcialidade, porque é impossível ver o todo. Mas tendo a isenção como desejo, tarefa, ideia reguladora, consciente de que não a alcançará. Como escrevi em 2008, no “Destino do Jornal”: quem acredita que alcançou a isenção se torna ingênuo; quem desiste dela se torna cínico.

 

A reportagem é uma estrada. Nela, o percurso importa tanto quanto o destino. O fim, a verdade, inatingível, serve de rumo. Essa analogia entre a reportagem e a vida é parte de seu encanto. Jornalismo e doutrina vivem em campos opostos.

 

Nosso princípio é a honestidade; nosso negócio, a credibilidade. Precisamos mudar o recorte do jornalismo brasileiro. As pessoas não reconhecem a realidade no que consideramos notícia. Ao redor do crime, há também segurança. De trás das declarações absurdas e fantasiosas, há decisões e medidas reais. Fora do extraordinário, há o comum, o cotidiano. É preciso contemplar o entorno, contextualizar. A campanha de descrédito do jornalismo é parte de um plano para proteger os que vivem da mentira, da manipulação. O jornalismo é o seu grande obstáculo, sua permanente frustração. Daí o empenho em destruí-lo ou substituí-lo por “jornalistas” de aluguel.

 

Esse ambiente torna o jornalismo mais importante e mais difícil. É preciso lucidez, humildade e amor à reportagem. Quem tem auto-estima e dignidade não precisa de vaidade e prepotência. #minhaguerracontraomedo

Quando a manchete vira notícia

 

O Guilherme Caetano, repórter de O Globo e revista Época, conversou com seus leitores pelo Twitter sobre a reação do público a uma manchete que ele escreveu em reportagem que tratou das declarações do presidente Jair Bolsonaro idolatrando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Diante das críticas que recebeu, Caetano reavaliou o trabalho que havia feito e refez a manchete para ser mais preciso e justo com os fatos na abordagem.

 

Caetano aproveitou a oportunidade para mostrar como funciona a construção de uma manchete e o risco que corremos sempre que precisamos traduzir uma informação em espaços mais curtos —- especialmente em um cenário no qual a maior parte dos consumidores de informação leem apenas o título ou a chamada, não se aprofundam no caso (e isso sou eu quem estou dizendo, não o Caetano).

 

Reproduzo o texto dele no Twitter por considerar uma boa aula sobre o trabalho que realizamos diariamente, os cuidados que devemos ter e a obrigação de estarmos sempre reavaliando nossas palavras, observações e opiniões — manchetes, também.

 

No passado, havia mais filtros entre a informação apurada e a notícia publicada. No jornal impresso, por exemplo, o texto passava pelas mãos do repórter, do editor e do corretor. A manchete ficava a cargo de uma pessoa que não havia se envolvido diretamente na reportagem — e todos esses olhares sempre ajudavam o repórter que pela proximidade com os fatos relatados talvez não tivesse percebido sutilezas de uma frase, uma expressão ou um título.

 

A humildade em admitir erros é uma marca necessária para quem faz jornalismo profissional — é um dos pontos que nos diferenciam daqueles que investem na criação de “fake news” para manipular a opinião pública.

 

Reproduzo a seguir, o que escreveu Guilherme Caetano:

 

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O gancho da matéria foi a visita da viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, um dos mais conhecidos centros de repressão na ditadura militar, onde houve crimes, violações dos direitos humanos, tortura, ao presidente Jair Bolsonaro.

 

A ideia da pauta era falar com pessoas das Forças Armadas e dos grupos de direita e descobrir o que eles pensam do Ustra, sabendo que o coronel é visto como ídolo pelo presidente. E também responder à dúvida: por que só vemos a esquerda, de uma forma geral, bater no Ustra?

 

Conversei com generais e lideranças da direita. Apuração feita, constatei que muitos segmentos da direita poupam Ustra, que já foi condenado por tortura, de críticas. E aí redigi o título de uma forma muito questionável. Na correria da redação, essas coisas acontecem.

 

Depois de ver que a matéria estava sendo massacrada, fui reler e também reparei no erro. Alterei-o para “Condenado por tortura na ditadura militar, Ustra segue poupado por segmentos da direita”. Conceitualmente mais correta, sem atenuar a gravidade do personagem.

 

Nesta mesma semana, o New York Times foi criticado por uma frase também mal feita. A manchete da terça-feira, após a tragédia no Texas e em Ohio, era “Trump urges unity vs. racism”. E gerou uma repercussão bem negativa.

 

O maior jornal do mundo foi massacrado e mudou a manchete na segunda edição para “Assailing Hate but Not Guns”. O Nelson de Sá escreveu na Folha uma coluna sobre o caso: “NYT alivia para Trump e é forçado a recuar após revolta“.

 

Tom Jones escreveu sobre: É fácil criticar a manchete do Times, mas é preciso parar por um segundo e pensar como é difícil redigir manchetes. Essa história do Trump, por exemplo. Você tem tiroteios que mataram 31 em duas cidades. Então, Trump discursa por 10 minutos sobre (…)

 

(…) uma epidemia que ninguém concorda e ninguém pode resolver. E alguém, em um deadline curto, precisa juntar tudo isso em sete palavras cuja soma precisa ter um número exato de caracteres.

 

Muita gente criticou O Globo pelo meu péssimo título. Queria dizer que muito do que as pessoas acham que é manipulação, mau caratismo e parcialidade da imprensa muitas vezes é só pressa, inexperiência e descuido de um jornalista atarefado. Mas isso não nos exime da culpa.

Por que escolho Miriam Leitão

 

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Na reta final de ‘É proibido calar!’, livro que lancei ano passado, a editora pediu que eu convidasse alguém em quem confiasse e admirasse para escrever o prefácio. O primeiro nome que me veio à cabeça foi o de Miriam Leitão, mas confesso que ao mesmo tempo em que tinha certeza de que ela seria a pessoa ideal para apresentar meu trabalho, morria de medo.

 

O prefaciador pode ser considerado o primeiro leitor do seu livro. É a primeira pessoa de fora do projeto a ter contato com o texto. Antes dele, tem-se o autor que imerso emocionalmente no trabalho tem uma visão parcial. O editor e o corretor também participam dessa etapa inicial do processo e têm envolvimento profissional, enviam algumas recomendações e fazem os ajustes necessários.

 

E para “primeiro leitor” de ‘É proibido calar!’ fui escolher logo a Miriam que tem uma produção literária de altíssima qualidade, é detentora de merecido Prêmio Jabuti e tem olhar tão preciso quanto crítico.

 

Quanto atrevimento de minha parte, logo pensei. Que cara de pau, repetia minha consciência. Quando ela aceitou o convite e me pediu para enviar os originais, as pernas tremeram e o coração bateu mais forte. Uma sensação que se repetiria assim que Mário Sérgio Cortella aceitou escrever a orelha do livro — mas este é um outro capítulo.

 

O tempo entre o envio dos originais e o prefácio chegar foi marcado pela ansiedade, que só foi superada pela alegria de ler as palavras que ela havia dedicado. Emocionei-me também ao conhecer um pouco mais das histórias que Miriam vivenciou em família, a começar pela relação com o pai, tão marcante na construção de sua personalidade:

 

“Meu pai, ao contrário dos pais de várias amigas minhas no interior de Minas Gerais, jamais me disse que o destino da mulher era casar e ter filhos. Pelo contrário, dizia que eu me casaria apenas se quisesse, o importante era fazer um curso superior, ter uma profissão e um sonho” —- escreveu

 

Miriam sonhou alto e para alcançar seus sonhos estudou muito, dedicou-se como poucas pessoas e forjou uma carreira impecável no jornalismo —- ela também casou, e teve filhos, e teve netos. Fez-se mulher independente e corajosa. Enfrentou a estupidez dos ditadores. Superou seus torturadores. Lições que reforçaram seu viés humanista. Acreditou na construção de um Brasil melhor e mais justo.

 

Tenho o prazer de tê-la como parceira no Jornal da CBN, onde ocupa seu espaço dedicado à economia com informação apurada e análise crítica — sempre disposta a levar a conversa para além da fronteira dos números que muitas vezes contaminam o noticiário econômico. Olha o ser humano em suas várias dimensões. Em lugar das estatísticas prefere as pessoas. Em lugar de gráficos, privilegia a vida.

 

Foi essa mulher, jornalista, corajosa, crítica, justa e humana, que vimos ser atacada na semana passada. Ataques que partiram de gente intolerante e de autoridade pouco comprometida com a verdade dos argumentos. Ataques que são corroborados por uma turba indisposta ao contraditório e incapaz de entender o papel de um jornalista diante da verdade dos fatos. Que esqueceu que Miriam, ao longo de toda sua carreira, sempre se comportou assim, firme, forte e independente, a despeito de quem esteja no poder.

 

Por ser quem é e por ter enfrentado o que já enfrentou, Miriam, com certeza seguirá sua trajetória que começou a ser percorrida lá atrás, na pequena Caratinga, em Minas Gerais.

 

E por tudo isso, eu sempre vou escolher Miriam Leitão!

“É proibido calar!” é lançado durante bate-papo sobre jornalismo, em Araraquara

 

Reportagem publicada no portal ACidadeON/Araraquara

 

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Lançamento do livro “É proibido calar” em Araraquara (Foto: Amanda Rocha – A Cidade On)

 

“É proibido calar precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”: este é o titulo do livro lançado pelo jornalista e âncora da CBN, Milton Jung, na última sexta-feira (17), em Araraquara.

 

O lançamento ocorreu em um happy hour junto a convidados, empresários e amigos da rede CBN e portal A Cidade On, que fazem parte do grupo EPTV. Durante o bate papo, Milton falou sobre o livro, que trata sobre educação e o relacionamento entre pais e filhos, colocando porque é ‘Proibido Calar’.

 

“Eu percebo claramente que hoje existe um silêncio na relação entre pais e filhos, pelos mais diversos motivos: falta de tempo, falta de paciência, diferença de pensamentos, medos. E nós não podemos silenciar numa relação com os nossos filhos. Temos que cultivar o diálogo, falar sobre ética, cidadania e temas que muitas vezes nós tememos. E o que fazemos ao não dialogar com os nossos filhos? Nós terceirizamos a educação deles. Nós entregamos para que os outros os eduquem e resolvam os problemas que não sei resolver dentro de casa”.

 

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Palestra falou de rádio, jornalismo e ética  (Foto: Amanda Rocha – A Cidade On)

 

O jornalista falou ainda sobre a importância do rádio e as redes sociais. “Foi uma aula sobre rádio e a interação do veículo com as mídias sociais, coisa que a gente, que não é do setor, e não está no dia-a-dia pensando sobre esses assuntos”, afirma o empresário, Pedro Tedde.

 

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Araraquara (Sincomercio), Toninho Deliza Neto, diz que acorda todos os dias ouvindo a programação da rádio CBN. Ele gostou do bate papo com Milton Jung. “Eu achei apaixonante. Eu acordo ouvindo o Milton e quando a gente acorda com alguém, você passa a ter uma intimidade. Ele falou e falou com o coração. Quando a pessoa fala com o coração e fala com a verdade, passa credibilidade. Acho que esse é o grande diferencial do jornalismo sério”, afirma.

 

A questão das fake news também foi assunto levantado pelo professor da Uniara, Luis Henrique Rosim. Ele concorda com o ancora Milton Jung quando diz que o jornalismo não concorre com as noticias falsas. “Hoje temos essa situação preocupante das fake news, que parece substituir o jornalismo, o profissional que apura o fato e tal. Mas sou otimista e acho que as pessoas estão se conscientizando e que estão passando a desconfiar das notícias que não têm assinatura. Começam a buscar profissionais e veículos que tragam credibilidade para aquilo que apresenta”, afirma.

 

Milton Jung é jornalista, radialista e palestrante. Na rádio CBN ele apresenta o jornal da CBN primeira edição e aos sábados o programa ‘Mundo Corporativo’. Além do livro ‘É proibido calar’, Milton escreveu ainda ‘Jornalismo de rádio’, ‘Conte sua história de São Paulo’ e ‘Comunicar para liderar’.

Adivinha em quem os brasileiros mais confiam quando querem notícia de verdade?

 

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Em conversa com executivos de empresa de tecnologia, no início desta semana, fui provocado a apresentar uma solução para a enxurrada de falsas informações que circulam pelas redes sociais, assim como para o diálogo tóxico que assistimos nas diferentes plataformas. Os questionamentos também não deixaram de fora o trabalho dos veículos de comunicação tradicionais —- nesse caso, eles queriam saber qual seria o futuro das redações jornalísticas. Como todo tema complexo, não existe resposta simples nem solução fácil. Mas tendo a acreditar na ideia de que vivemos um processo de amadurecimento nessas relações. 

 

Os meios de comunicação que conhecíamos perderam o monopólio da informação —- ainda bem. Hoje, cada cidadão tem a capacidade de produzir e divulgar conteúdo. O alcance dessa mensagem dependerá da estratégia usada, mas os recursos estão em suas mãos. O cidadão conquistou esse direito e tem usufruído dele dizendo o que quer, agindo da maneira que lhe convier e transmitindo mensagens doa a quem doer —- com forte poder de construir ou prejudicar a reputação de pessoas e instituições. Por outro lado, não percebeu, ao menos não a maioria de nós, que também passa a responder pelo poder que exerce. Ao emitir opinião, é responsável pelo que essa possa causar. Ao compartilhar informação, é autor ou coautor dos seus efeitos. 

 

À preocupação dos executivos, reforcei meu discurso de que a  sociedade contemporânea está em estágio de aprendizado, diante das transformações digitais que impactam nossos comportamentos. O tempo nos ensinará a usar de maneira mais responsável os meios modernos de comunicação. E o jornalismo profissional tenderá a prevalecer como principal antídoto aos que publicam falcatruas sob o apelido de “fake news”. 

 

Ao falar do tema ainda não tinha em mãos o resultado de pesquisa sobre a confiança dos brasileiros,  encomendada pela XP Investimentos ao Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). A consulta tinha como uma das intenções saber o que os brasileiros pensam neste momento do presidente Jair Bolsonaro, mas vou me ater ao tema central desta nossa conversa: os meios de comunicação — os tradicionais e os digitais. 

 

Atente-se para o que responderam os mil brasileiros ouvidos pelo Ipespe quando os pesquisadores fizeram a seguinte pergunta:

“Na sua opinião, as informações e notícias veiculadas nesses meios que vou ler são, na sua maioria, verdadeiras ou são falsas?”

As piores avaliações foram do Facebook, com apenas 11%, e do WhatsApp, com apenas 12%, respondendo que as notícias veiculadas são verdadeiras. Twitter e Instagram também ficaram na parte de baixo deste ranking. A percepção sobre veracidade de informações para blogs e sites de notícia, assim como jornais de notícias na internet, foi de 28% e 32%, respectivamente.

 

A mídia tradicional, tão bombardeada em redes sociais e com comentários frequentes que colocam em xeque a credibilidade do conteúdo produzido, aparece mais bem posicionada e com índices de confiança bem superiores às novas mídias. Por exemplo, as  notícias publicadas em jornais e televisão são verdadeiras para 61% dos entrevistados.

No topo desta tabela —- e aí você logo vai pensar, eu sabia que o Mílton queria chegar a algum lugar — aparece o rádio:  64% dos brasileiros pesquisados responderam que acreditam no que ouvem no noticiário.

E com isso, esse veículo que me tira da cama todos os dias, às 4 da matina, e me impõe uma série de desafios  no cotidiano —- tais como a apuração dos fatos, a busca constante da verdade, o respeito ao contraditório e o reconhecimento de nossos erros sempre que estes são identificados —- , a partir da opinião dos nossos ouvintes, me dá a certeza de que o esforço diário dos jornalistas de rádio está sendo recompensado.

 

 

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A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

 

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Perda, dor, vazio. São sentimentos que surgem com o luto. Com os quais o jornalista precisa negociar diariamente. O noticiário está sempre nos provocando com os assassinatos na porta de bar, os crimes de família e as tragédias anunciadas.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, e minha rotina era contar a história de mortes ocorridas em desabamentos de terra, comuns nas encostas da cidade de São Paulo, nos períodos de fortes chuvas.

 

Na madrugada, era enviado ao cafundó do Judas para fazer imagens de um assassinato. Ao chegar, lá estava o cadáver estendido na calçada. Coberto por páginas de jornais ou um papel alumínio a esconder seu rosto. Imagens feitas, informação apurada, sonora gravada. Segue para a próxima pauta. Para o próximo assassinato. De madrugada nunca encontramos um batismo a registrar. Só crimes e velórios.

 

A morte não saiu das minhas pautas, mesmo quando deixei as ruas — mesmo quando troquei a reportagem pela apresentação de telejornais, em 1993. Foi-se Ayrton Senna, em 1994. E eu falei por horas da comoção do povo brasileiro, em seu velório. Foi-se Mário Covas, e tive de relatar a tristeza de São Paulo, em 2001. No mesmo ano, transmiti ao vivo o terrorismo do “11 de Setembro”, em Nova Iorque. O primeiro baque surgiu quando parei para pensar nas dezenas de passageiros que estavam dentro do avião arremessado contra o World Trade Center. Depois foi a vez de olhar aquelas pessoas jogando-se do alto dos prédios. E quando as torres vieram abaixo, segurei-me para sustentar a voz e ser fiel aos fatos.

 

No entanto, as mortes passam, os cadáveres são esquecidos, alguns sequer registrados. A perda, a dor e o vazio ficam como legado dos parentes das vítimas —- pessoas que talvez nunca mais na vida você encontrará. E a sua vida, a minha vida, segue. Amanhã tem outra pauta para cobrir, outra história para contar. O salário cai na conta, os boletos chegam, a comida tem de estar no prato. Até uma nova tragédia.

 

Em 2016, a mais difícil delas. O acidente com o avião da Chapecoense, sabendo que entre os passageiros estava um amigo querido e respeitado por todos, Deva Pascovicci. Engoli o choro, engasguei com as lágrimas, parei de falar. Tinha vontade de desistir. Mas apresentei o Jornal da CBN até o fim mesmo sabendo qual seria o fim daquela história. Somente à noite, diante da televisão e abraçado em um dos filhos consegui chorar copiosamente como o coração pedia.

 

No jornalismo, tendemos a disfarçar os sentimentos. Construímos um personagem diante do fato triste porque temos a obrigação de retratar a realidade. Sem envolvimento. Frio. Calculista. Capaz de fazer qualquer pergunta por mais óbvia que pareça. Desconfiando sempre. Questionando na primeira oportunidade. Coisa de jornalista.

 

Dan Harris, correspondente da ABC News e âncora de televisão, cobriu guerras e tragédias. Considerava-se forte o suficiente para encarar as mais tristes situações da humanidade. Preocupava-se apenas com a qualidade do material levado ao ar e com a exposição que alcançaria. Brigava pelas melhores pautas, discutia com editores em busca de mais espaço na cobertura. Era obcecado pelo trabalho. Ao fim e ao cabo, voltava para casa sem se importar com a morte dos outros, sem se preocupar com nada nessa vida — a não ser sua ascensão profissional.

 

Um dia, Harris congelou na frente das câmeras. Teve um ataque de pânico diante de milhões de telespectadores. Em rede nacional. Descobriu depois que era como se todos os fantasmas das mortes registradas por ele se realizassem dentro de sua mente ao mesmo tempo. Foi o início de uma profunda reflexão sobre a vida. E o começo de uma odisseia pelo mundo da espiritualidade.

 

Ele conta essa história no livro “10% mais feliz”, publicado pela Sextante, no Brasil, no qual relata como driblou todos os seus preconceitos e medos em relação a meditação. Daniel Goleman, jornalista científico e psicólogo, apresenta-o “como o melhor livro sobre meditação para os não iniciados, os céticos e os curiosos”. Para mim, um livro que ajuda a pensar o jornalismo. A nossa tarefa de contar ao público o que vimos. O que sabemos. A verdade. Doa a quem doer. E entender que muitas dessas verdades vão doer dentro de nós e precisamos administrar esses sentimentos.

 

Harris medita. Eu não consigo. Não tentei. Mas choro. Foi assim quando soube da barragem que soterrou centenas e centenas de pessoas, em Brumadinho. Chorei baixinho na minha casa. Foi assim quando a repórter confirmou a morte de 10 meninos no Ninho do Urubu. Chorei em silêncio diante do microfone e se revelei minha dor foi na voz embargada.

 

Hoje, não estava mais na redação quando soube da morte de Ricardo Boechat.

 

Se um dia chorei por centenas, noutro por dezenas, hoje chorei por um colega. E essa dor é mais dolorida do que todas porque é uma dor muito próxima da gente. De alguém que estava ali ao nosso lado —- um pouco além do dial onde sou sintonizado todas as manhãs, no Jornal da CBN. Alguém que com seu jeito de fazer jornalismo na Band News FM, nos obrigava a pensar que jornalismo estávamos fazendo. Que radiojornalismo estávamos realizando. Que poucas horas atrás, estava diante do microfone fazendo aquilo pelo qual somos apaixonados: jornalismo.

 

E com a morte de Boechat lá vieram novamente aquelas sensações impertinentes do luto: perda, dor, vazio. Sensações que não tenho dúvida serão muito mais fortes no coração da Veruska, sua “doce Veruska”, e dos seis filhos que perderam o pai — o cara que a gente pode contar naquela hora em que pinta um dilema na nossa vida, naquele momento de felicidade que precisa ser compartilhado ou que vai dar um abraço revelador para conter nossa tristeza. A eles toda nossa solidariedade e o pedido que Deus amenize esse sofrimento e os console.

 

Pouco antes de sentar diante deste computador para compartilhar com você esse momento de tristeza que encaro —- e imagino que seja a de milhares de admiradores e colegas — deparei com a fala de Flora Tucci, psicanalista e filósofa, sobre o luto, registrada pelo jornal O Globo:

 

“Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse “adeus”, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o novo chegar”.

 

Seja lá o que for esse novo que nos foi reservado, que jamais deixemos que a perda, a dor e o vazio caiam no lugar-comum dos sentimentos. Eu choro. Jornalistas choram, sim. Chorar é preciso!

Acabou a mamata!

 

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Acompanhei o noticiário de revesgueio nestes últimos 20 e poucos dias em que estive de férias. Olhando meio de lado, enviesado, sem me aprofundar muito, tendo a atenção chamada apenas para uma coisa aqui e outra acolá. Era de descanso que eu precisava, depois de um ano intenso como foi 2018.

 

Descansei da maneira que mais gosto: conhecendo lugares e ao lado da família. Desta vez, fomos longe para fazer amigos. Conhecemos o Japão, um sonho de criança —- no caso das crianças aqui de casa, que, aliás, de criança não têm mais nada.

 

Descansei cansando-me de andar. Está registrado no aplicativo do celular que foram 191.552 passos e mais de 133 quilômetros percorridos a pé, em 14 dias. São estatísticas suficientes para deixar o Márcio Atalla sorrindo de satisfação. Bem verdade que esse é um cansaço diferente, sem a pressão do relógio, sem o estresse da meta a ser alcançada e sem a necessidade de provar nada para ninguém — essas coisas que o mundo corporativo (e comunicativo) nos cobra diariamente.

 

Fui para o Japão sob a recomendação de que deveria ter muito cuidado com a gentileza que os japoneses dedicam aos visitantes. É coisa de nos deixar chocado, disseram alguns amigos com quem conversei antes da partida. Envergonhado, falaram outros. O professor Clóvis Barros Filho chama de shinsetsu e escreveu livro recente no qual fala de o poder da gentileza —- foi um dos livros que li nessas férias, outra coisa que gosto de fazer. Diante da falta de amabilidade no nosso cotidiano, em que a regra que vale é “farinha pouca, meu pirão primeiro”, assistir ao comportamento oriental nem chocou nem envergonhou, me ensinou. E ensinou muito.

 

Já fazia referência a forma de os japoneses se portarem, em minhas palestras sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, desde o ano passado. O exemplo que uso é o do hábito deles limparem o espaço público que ocupam. Assistimos a isso na Copa do Mundo, em 2014, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Lembro que a cena de turistas japoneses com sacos de plástico em mãos e recolhendo o lixo que deixaram cair no chão sempre provoca por aqui uma onda de elogios. Em seguida, criticamos nosso comportamento, a falta de educação e os políticos que não se dão respeito. Em lugar de iniciarmos a mudança individualmente, em casa ou na família, repetindo o gesto no nosso cotidiano, damos continuidade a prática do descaso e do desrespeito, porque o Brasil não tem jeito —- é a nossa desculpa. Se o Brasil não tem jeito que os brasileiros deem um jeito no Brasil. Aprendamos com os japoneses.

 

Uma das mensagens mais impactantes que encontrei nas muitas caminhadas estava em placa ao pé de um dos monumentos, no Parque do Memorial da Paz, em Hiroshima — cidade que em seis de agosto de 1945 foi palco da maior tragédia atômica que o homem poderia ter construído: “Superando o ódio, perseguindo a harmonia e a prosperidade e desejando ardentemente uma longa e genuína paz no mundo”. Pense nos resultados que poderíamos alcançar se aplicarmos essa ideia na nossa vida. Comprometo-me a tentar. E você?

 

Tudo posto e com o sabor do melhor tempura que já comi na minha vida ainda na boca— encontrado em um pequeno restaurante, o Tendon Makino, em Quioto —, confesso que foi difícil de acreditar que havia acabado a mamata. Por favor, entenda bem o contexto em que a expressão está sendo usada. Nada a ver com arranjos, marmeladas e achegos ou ganho desonesto, vantagens indevidas e propina, como aparecem nos dicionários oficiais. Digo mamata no sentido figurado, de dias livres, de diversão e de relaxamento.

 

Nesta segunda-feira, depois de duas xícaras de café preto para acordar e um omelete para manter a energia, a realidade se impôs: tive de colocar o crachá no pescoço e me apresentar na firma. Gosto — e muito — do trabalho que realizo. Tenho prazer em levantar da cama para apresentar o Jornal da CBN. Mesmo que ainda seja madrugada, cumprimento o guarda da rua, saúdo o porteiro do prédio da empresa, gesticulo a cabeça para as poucas pessoas que esperam o elevador e converso com os ouvintes com um sorriso no rosto —- ao menos quando o clima permite. Desta vez, porém, voltar ao trabalho foi um pouco mais difícil, porque ainda estou na ressaca das férias, devido ao fuso horário e, principalmente, a tudo que vivenciei.

 

Ao mesmo tempo, 35 anos de trabalho me ensinaram que a máquina não para de girar — especialmente se estivermos falando em jornalismo, que tem como matéria-prima a notícia. O ouvinte não quer saber se você ainda está sob o ritmo das férias ou se naquele dia alguma coisa o tirou do sério. Assim que o microfone abre, tudo tem de voltar a ser como antes. Apuração dos fatos, precisão no relato, equilíbrio na abordagem, justiça na análise, cuidado para não errar e humildade para admitir o erro.

 

Não tem jeito. Às cinco para às seis da manhã, o luminoso com a expressão “No ar” acendeu dentro do estúdio e a mensagem que li foi muito clara: acabou a mamata. Ao menos a minha, porque, conforme as notícias que li na seqüência, já soube que a mamata continua pra muita gente importante que anda solta por aí — e aqui, mamata, sim, naquele sentido mais conhecido da palavra.

Dia 2 de abril, o Dia Internacional da Checagem #FactCheckIt

 

 

Foi bom enquanto durou. Agora, resolveram estragar a brincadeira dos tempos de criança. E a coisa perdeu a graça, ficou séria demais e com impacto incalculável na vida das pessoas e na reputação das organizações.

 

Falo do 1º de abril, Dia da Mentira, lembrado ontem, em meio a distribuição dos ovos de Páscoa. Quem nunca caiu numa lorota contada pelos amigos? Na escola, em casa ou lá na Saldanha Marinho, onde morei na minha infância, fui vítima da gurizada um sem-número de vezes.

 

Lembro dos jornais, revistas e programas de rádio que sempre abriam páginas e falas para trazer uma informação ridiculamente falsa, que todos sabiam que era mentira. Na maioria das vezes, nos divertiam. Em outras, pensamos: pena que não é verdade!

 

Os maus-caracteres tomaram para si a prática, profissionalizaram o negócio e passaram a espalhar a ideia para propositalmente influenciar a opinião pública e prejudicar pessoas e instituições.

 

Com a ajuda digital, a mentira, que sempre identificamos como sendo algo com perna curta, passou a alcançar facilmente seus alvos no outro lado do mundo. E ganhou nome e sobrenome: fake news.

 

Hoje, nós que fazemos jornalismo sofremos duplamente com essa história: os que não não gostam de notícias contrárias, dizem que somos fabricantes de fake news; os que não gostam do outro lado, ao forjarem informação confundem as coisas e tentam nos levar para a vala comum.

 

Na contra-mão das notícias fraudulentas ou forjadas, se fortaleceram grupos especializados em checar fatos: Agência Lupa, O Truco e Aos Fatos, apenas para citar algumas empresas que atuam aqui no Brasil. A maioria delas faz parte da International Fact-checking Network (IFCN), que reúne 140 membros pelo mundo, e promove nesta segunda-feira, dia 2 de abril, o Dia Internacional da Checagem.

 

Como se percebe, a data é proposital. Vem logo depois do Dia da Mentira. Quer chamar atenção para a importância de termos jornalistas capacitados apurando informações e em busca da verdade.

 

Na campanha #FactCheckIt produziram um vídeo, que você assiste na abertura deste post, resultado de ação desenvolvida em várias partes do mundo, nas quais o cidadão foi provocado a responder se para ele a verdade importa ou não.

 

No site da IFCN, você encontra ainda uma série de artigos que nos ajudam a refletir sobre o tema e desconfiar quando estamos sendo alvos de uma notícia mentirosa.

 

Uma boa maneira de você, que não é jornalista, ajudar no combate a mentira, é pensar duas vezes antes de dar cliques, likes e compartilhar as informações que recebe nas redes sociais.

 

Afinal, tenho certeza que para você a verdade importa.