50 debates no rádio e um espaço para o contraditório

Produtores do Jornal da CBN
Letícia Valente e Carlos Grecco produziram o “50 Debates para o Brasil”

Tudo começou com uma ideia na sala de reunião. A proposta se transformou em um dos projetos mais interessantes — e também mais pretensiosos — da cobertura eleitoral da CBN. Diante da falta de conteúdo no debate político e das certezas que todos temos sobre os diversos assuntos que nos cercam, decidimos abrir espaço no horário nobre do rádio para discutir temas que afetam a vida pública e o cotidiano dos brasileiros.

À ambição do projeto, batizado de 50 Debates para o Brasil, vieram os desafios. Primeiro, selecionar os temas mais relevantes. Depois, encontrar pessoas com autoridade para defender pontos de vista diferentes — nenhuma delas poderia ser candidata a cargo eletivo neste ano. Por fim, convencê-las a apresentar argumentos consistentes, respeitando o tempo do rádio e dos ouvintes: dois minutos para cada uma das duas respostas que faríamos.

Muitos assuntos entraram e saíram da lista até chegarmos à versão definitiva. Para cada tema, era preciso encontrar dois nomes capacitados a defender suas ideias. Houve quem recusasse o convite por receio de não conseguir sustentar seu ponto de vista em tão pouco tempo. Outros não quiseram se expor ao contraditório, tentaram escolher o oponente ou demonstraram desconfiança em relação à liberdade de expressão que propusemos.

Ao fim e ao cabo, os produtores Letícia Valente e Carlos Grecco conversaram com mais de 250 pessoas até chegar ao grupo de 100 debatedores que participaram da série, ao longo de três meses. Os dois também criaram uma gigantesca planilha para organizar e planejar o projeto. Eu não me atrevia a tentar entendê-la; cumpria o que me determinavam.

Os temas passaram por segurança, Justiça e direitos; educação, saúde e proteção social; trabalho, impostos, orçamento e atividade econômica; meio ambiente, recursos naturais e energia; além de democracia, instituições e liberdade de expressão.

Em cada debate, dois especialistas com posições diferentes apresentaram argumentos sobre questões como a escala 6×1, a maioridade penal, o uso de câmeras por policiais, a regulação das redes sociais, a Previdência, as políticas de saúde e os limites da atuação do Estado.

Coube a Cássia Godoy e a mim — com a participação de Nadedja Calado em alguns debates — mediar as conversas. Precisávamos fazer perguntas que levassem cada debatedor a expor seu pensamento sem subterfúgios. Essa, convenhamos, foi a parte mais fácil. Difícil era controlar o tempo das respostas de quem estava entusiasmado com a possibilidade de convencer o cidadão de suas certezas. E fazer isso com elegância e respeito.

Desde que 50 Debates para o Brasil foi ao ar, em 21 de julho, os ouvintes participaram ativamente. Sugeriram novos temas e propuseram abordagens diferentes das apresentadas pelos convidados. Acrescentaram reflexões ao que havia sido dito e lamentaram a falta de tempo para aprofundar a conversa. Também houve quem criticasse os assuntos escolhidos, os entrevistados e os argumentos apresentados.

Chamou minha atenção a dificuldade de algumas pessoas em compreender o próprio conceito do debate de ideias. Criticam a abertura de espaço ao contraditório e não toleram que alguém com opinião diferente seja ouvido. É um retrato da sociedade que a intolerância vem ajudando a construir.

Fico satisfeito ao perceber que o rádio e o jornalismo continuam relevantes na vida dos cidadãos. Projetos como este são possíveis, mesmo quando seguem na contramão do que pensa uma parcela de uma sociedade dividida.

Isso só foi possível porque a CBN conta com uma equipe de jornalistas e radialistas competentes, dispostos a colaborar com a disseminação do conhecimento.

No Jornal da CBN, destaco especialmente o trabalho de Letícia Valente e Carlos Grecco, além dos demais profissionais de produção que estiveram conosco durante todo o projeto. Também contamos com uma infraestrutura técnica que nos deu segurança para realizar os debates com áudio e vídeo. Cito aqui Paschoal Júnior, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti, que estiveram ao nosso lado no estúdio.

Depois de 50 debates, fiquei com a percepção de que o país ainda tem espaço para discutir ideias de maneira saudável, equilibrada e produtiva para os cidadãos. Seria importante que partidos e políticos reconhecessem essa necessidade e ajudassem a promover essas conversas. Lamento que não tenham estado à altura desse desafio durante a campanha eleitoral, que chega agora à sua semana final.

Nós seguiremos fazendo a nossa parte. E contando com a sua companhia, caro  e cara ouvinte.

50 debates para o Brasil: evidências e riscos no uso medicinal da cannabis

Os derivados da cannabis podem ajudar no tratamento de algumas doenças, mas a força das evidências varia conforme a indicação. O tema foi discutido na série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, pelos médicos Pedro Braga, mestre em Saúde Pública e Coordenador Médico da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), e André Malbergier, professor colaborador médico do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e Gerente Médico do Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas (HC).

Braga explicou que a cannabis é usada como complemento a outros tratamentos e ainda não há evidências robustas para recomendá-la como primeira opção na maioria dos casos. “As evidências ainda são bem limitadas”, afirmou. Segundo ele, os estudos são mais consistentes para algumas epilepsias refratárias e raras. Há também pesquisas em curso sobre dor, sobretudo a de origem neuropática, e sobre o alívio de efeitos colaterais da quimioterapia.

O médico citou ainda o uso em diferentes condições, como doenças neurodegenerativas, autismo e dor crônica. Ressalvou, porém, que a presença de relatos de benefício não equivale a comprovação científica. Para Braga, a regulamentação poderia permitir acesso com prescrição e acompanhamento, além de reduzir a dependência de canais informais.

Malbergier concordou que há indicações com evidências consistentes, mas chamou atenção para a confusão entre uso terapêutico e recreativo. Ele relatou que alguns jovens justificam o consumo frequente como medicinal, mesmo quando enfrentam prejuízos na escola, no trabalho ou nas relações sociais. “A grande questão é que esse tema se tornou muito polêmico à medida que se misturou o uso recreativo com o uso medicinal”, disse.

A distinção também importa porque os produtos podem ter composições diferentes. O THC, um dos componentes da cannabis, exige cuidado especial em pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose, esquizofrenia ou transtorno bipolar com sintomas psicóticos. Braga recomendou investigar esse histórico antes da prescrição e, quando indicado, começar com doses baixas e aumentá-las devagar. Produtos com CBD isolado podem ser uma alternativa em alguns casos, mas também precisam de orientação.

Malbergier avaliou que os canabinoides tendem a ser seguros no curto prazo quando usados com acompanhamento médico. Em um estudo com pacientes em tratamento para dependência de cocaína, relatou efeitos adversos como sonolência, sedação e desconforto intestinal. O médico alertou, ainda, que o CBD pode afetar o fígado e que a venda sem controle de dose ou indicação favorece a automedicação.

O debate aponta para uma questão central: ampliar o acesso depende de regras que permitam tratamento acompanhado, pesquisa e controle dos produtos. A cannabis medicinal pode ser útil em situações específicas, mas não deve ser apresentada como solução para qualquer doença nem usada sem avaliação profissional.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Sabatina Augusto Cury: o candidato de canela de fora

Augusto Cury
Cury na sabatina O Globo/Valor/CBN Reprodução do YouTube

Encontrei Escritor Augusto Cury — este é o nome próprio usado pelo candidato — já sentado na poltrona onde seria entrevistado pelos próximos 90 minutos, no estúdio da redação de O Globo. Estava de canela de fora.

Perdão se foi essa a primeira impressão que tive diante de tantas outras curiosidades que envolvem o homem que se apresenta como “o psiquiatra mais lido do mundo”. Fui induzido por uma história ouvida nos bastidores da sabatina de Renan Santos, no dia anterior.

Renan, que chegou de franja penteada, meia erguida e calça bem esticada, compartilhou conosco uma implicância do pessoal do Missão: homem que senta e deixa a canela à mostra não é de confiança.

Segundo essa particularíssima teoria política, políticos pouco confiáveis costumam usar calça curta e mocassim sem meia (ou algo assim). A ciência, até onde se sabe, ainda não se debruçou sobre a relação entre canelas, mocassins e caráter. Augusto Cury talvez possa fazê-lo. Entende da mente humana.

Psiquiatra, escritor, empresário e agora candidato à Presidência, ele passou boa parte da nossa conversa propondo diagnósticos para a política brasileira.

A política está doente. A polarização é esquizofrênica. Há egos demais, muros demais e pontes de menos. Cury se oferece como construtor de pontes.

Enquanto não chega à Presidência, faz o que aparentemente mais gosta: escreve. Escreveu um plano de governo com cerca de 200 páginas e está escrevendo cartas para Lula e Flávio Bolsonaro. Vai pedir aos dois que ajudem a pôr fim à polarização.

Se eleito, fará a segunda coisa de que mais parece gostar: conversar.

Pensa em anistiar condenados pelos atos de 8 de Janeiro, mas antes chamará juristas para analisar os processos. Quer mudar o sistema de governo, mas conversará com constitucionalistas. Quer cortar gastos, mas ainda precisará discutir onde e quanto com economistas.

Se Bolsonaro tinha um Posto Ipiranga, Cury aposta numa rede de postos.

Essa disposição para ouvir especialistas apareceu também quando Malu Gaspar perguntou como funcionaria, na Brasília real, o grande pacto político que ele propõe.

Cury apresentou suas credenciais:

— Eu sou um construtor de pontes. Já tratei psicopatas, sociopatas, pessoas agressivas, egocêntricas, tóxicas.

Foi irresistível imaginar o consultório em Brasília. Ele percebeu a armadilha:

— Não me coloquem nessa fogueira.

Não colocamos. Cury é que decidiu entrar nela.

E descobriu na sabatina que quem disputa a Presidência precisa fazer mais do que construir pontes. Precisa escolher para qual margem pretende atravessar.

Perguntado se houve tentativa de golpe, preferiu aguardar a opinião dos juristas. Questionado sobre quem apoiaria num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, recusou-se a escolher.

— O senhor não quer escolher nada.

Cury não gostou. Afinal, ele escreveu 200 páginas de programa de governo. O problema aparece quando as 200 páginas precisam ser traduzidas em decisões.

Perguntamos quanto custariam suas propostas e onde cortaria despesas. Falou em reduzir talvez 30% dos cargos comissionados. Depois ponderou: podem ser 25%, 35% ou nenhum desses números.

Cury tem respostas abundantes para os males do país e ainda procura algumas respostas sobre como curá-los.

Talvez seja natural para quem estreia numa eleição. Até pouco tempo atrás, sua experiência com política era a de quem conversava e tratava políticos. Agora está do outro lado da mesa.

Neste sábado, estará diante dos entrevistadores do Jornal Nacional.

Quanto mais falar, mais será ouvido. E quanto mais for ouvido, mais terá de mostrar. Talvez, afinal, a canela de fora que me chamou a atenção antes da sabatina não tenha relação alguma com a teoria do pessoal do Missão. Provavvelmente seja apenas uma antecipação do que acontecerá daqui para frente.

Augusto Cury entrou de vez na campanha presidencial. Agora estará cada vez mais exposto. Com suas franquezas à mostra. E suas fragilidades também.

50 debates para o Brasil: especialistas discutem se a repressão às drogas deve mirar o crime organizado ou dar lugar a outra política

A política de combate às drogas no Brasil consome recursos públicos, amplia a população carcerária e, ainda assim, enfrenta organizações criminosas cada vez mais estruturadas. Na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, o especialista em segurança pública Ricardo Gennari e Marina Dias, diretora-executiva do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), discutiram se o país precisa reforçar a repressão ou mudar a estratégia adotada nas últimas décadas.

A legislação brasileira de 2006 buscou separar o tratamento dado ao usuário daquele destinado ao traficante. Na prática, porém, a ausência de critérios objetivos para fazer essa distinção transferiu parte dessa decisão para policiais e juízes, com reflexos sobre o encarceramento.

Gennari defendeu que o Estado precisa ser mais eficiente no enfrentamento às organizações criminosas. Para ele, o problema não se resolve apenas com policiamento nas ruas. A estratégia deveria combinar inteligência, investigação da lavagem de dinheiro, gestão prisional e prevenção.

“Se a gente não tiver realmente um combate efetivo ao crime organizado, a gente já está perdendo”, afirmou.

O especialista chamou atenção também para a população carcerária brasileira, superior a 800 mil pessoas, e questionou se todos deveriam estar presos. Na avaliação dele, enfrentar o tráfico exige ação coordenada dos governos federal, estaduais e municipais e maior capacidade para seguir o dinheiro movimentado pelas facções.

Marina Dias partiu de outro diagnóstico. Para ela, a política adotada pelo país fracassou porque concentrou esforços na repressão sem conseguir reduzir a oferta e o consumo de drogas. O resultado foi o aumento do encarceramento, da violência nas periferias e dos gastos públicos.

“Não é uma guerra contra as drogas, é uma guerra contra pessoas”, afirmou.

Marina citou levantamento do Ipea com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas segundo o qual, entre os presos mencionados na pesquisa, 68% são negros, 72% jovens e 67% não concluíram o ensino básico. Ela argumentou que a prisão de pequenos traficantes e usuários não desestrutura as organizações criminosas, porque essas pessoas são rapidamente substituídas.

Apesar das diferenças, os debatedores convergiram em um ponto: a questão das drogas não pode ser tratada apenas como problema policial.

Gennari defendeu políticas de saúde, educação, prevenção e ressocialização, ao mesmo tempo em que considera necessário manter o combate ao tráfico e às organizações criminosas. “A polícia está no último nível dessa questão”, disse.

Marina propôs separar política de drogas de política de segurança pública. Para usuários, defendeu acesso à saúde, moradia, educação e programas voltados principalmente aos jovens. Para enfrentar o crime organizado, apontou como prioridades a inteligência policial, a integração das forças de segurança, a investigação financeira, o combate à lavagem de dinheiro e o rastreamento de patrimônio.

O debate expõe uma questão que vai além da escolha entre reprimir ou descriminalizar: onde o Estado deve concentrar dinheiro, policiais e políticas públicas para reduzir o poder do tráfico e, ao mesmo tempo, tratar os danos provocados pelo consumo de drogas?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 Debates para o Brasil: especialistas discutem como regular a IA sem frear a inovação

A inteligência artificial já influencia decisões em saúde, educação, finanças, segurança e comunicação, e o debate sobre quais regras devem guiar seu desenvolvimento e uso é inevitável. Por isso levamos o tema para a série “50 Debates para o Brasil” que apresentamos no Jornal da CBN. 

Patrícia Peck, CEO e Fundadora do Peck Advogados, Presidente do Instituto Peck de Cidadania Digital e Membro Titular do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), e Ronaldo Lemos, fundador e Cientista-Chefe do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) discutiram, no programa, se o país deve adotar uma regulação mais preventiva ou focar em um ambiente favorável à inovação.

Patrícia Peck defendeu que a inteligência artificial precisa seguir normas capazes de reduzir riscos sem impedir o avanço tecnológico. Ela alertou que a tecnologia geralmente evolui antes da legislação, mas a velocidade das transformações exige mecanismos que protejam os cidadãos. A especialista afirmou que garantir a transparência da relação entre pessoas e sistemas automatizados é um grande desafio.

“Uma IA bem treinada pode apoiar os seres humanos, mas uma IA mal treinada é pior do que uma criança mal educada”, disse Peck Para ela, o problema não é apenas a tecnologia, mas também a qualidade dos dados e as regras que governam a forma como a IA funciona.

A advogada também argumentou que a legislação brasileira deve deixar claro que os sistemas de inteligência artificial precisam cumprir as leis em vigor ao operar no país ou afetar cidadãos brasileiros. Para ela, não basta inventar novas tecnologias nacionais; é necessário que as ferramentas atualmente em uso respeitem os princípios legais e éticos existentes.

Outro ponto levantado por Patrícia Peck foi que o nível de risco deve ser determinado de acordo com a aplicação. Uma inteligência artificial usada em serviços médicos, jurídicos ou públicos, por exemplo, exigiria padrões de controle diferentes daqueles usados em aplicações de menor impacto.

Ronaldo Lemos focou seus argumentos em outro aspecto do debate: a capacidade do Brasil de desenvolver suas próprias tecnologias. O maior risco, disse ele, era a dependência de sistemas desenvolvidos em outros países e sujeitos a interesses econômicos e geopolíticos externos.

“Meu maior medo com a inteligência artificial é que o Brasil se torne dependente de inteligência artificial externa.”, comentou. Para Ronaldo, a legislação precisa ir além da supervisão e criar condições para fortalecer a produção nacional de inteligência artificial, infraestrutura tecnológica e desenvolvimento profissional.

Lemos também observou o impacto da IA no mercado de trabalho. Como ele explicou, as empresas já estão começando a substituir funções de nível inicial por sistemas de automação, portanto, políticas públicas como qualificação da força de trabalho e adaptação dos profissionais ao mundo em mudança serão necessárias.

Apesar das diferenças de foco, Patrícia Peck e Ronaldo Lemos convergiram em alguns pontos. Ambos defenderam o investimento no desenvolvimento tecnológico no Brasil e reconheceram que a inteligência artificial já está produzindo impacto suficiente no contexto da regulação.

Outra questão também foi discutida na última parte da conversa: eleições. Patrícia Peck alertou que as plataformas de IA precisam ser treinadas para respeitar as normas eleitorais brasileiras. Ronaldo Lemos reiterou isso com um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) dizendo que alguns sistemas ainda recomendam candidatos aos usuários, o que é contra as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O debate mostrou que a discussão sobre inteligência artificial não é apenas sobre regulação de um lado ou inovação do outro. A questão principal é encontrar mecanismos que minimizem riscos, protejam direitos e fortaleçam a capacidade tecnológica do Brasil.

“50 Debates para o Brasil”, realizado pela CBN, é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas serão transmitidas de segunda a sexta-feira, logo após as 8h30 no Jornal da CBN.

Confissão de quem recebeu uma medalha

Medalha Alberto André
Foto Juliano Verardi – DICOM/TJRS

Ameaço escrever este texto desde segunda-feira. Algo indefinido me impedia. Talvez indecisão. Talvez pudor.

Fui escolhido para receber a Medalha Alberto André, um reconhecimento a trajetórias relevantes no jornalismo gaúcho, concedida pela Associação Riograndense de Imprensa.

Uma das razões que me tolhiam o desejo de escrever era a frase que ouvi do falecido ministro Raul Jungmann: medalha não se pede, não se nega e não se conta — ensinamento que me acompanhou desde então. Evidentemente que não a pedi — nem mesmo a vaidade de um leonino teria sido capaz de me levar a cometer essa barbaridade. Menos ainda a neguei. Ao contrário. Aceitei-a. Não imediatamente, porque nos primeiros minutos da ligação que recebi do presidente da ARI, José Nunes, pensei que o convite era para apresentar a cerimônia.

Como não contar? Como não dividir com amigos e conhecidos essa conquista? Há momentos que pedem silêncio. Outros, partilha.

Vaidade à parte — e ela sempre está a nos levar ao pecado —, momentos como esses pedem publicidade. Com escrúpulo e comedimento.

Deixei o Rio Grande do Sul há 35 anos. Vivo em São Paulo há mais tempo do que vivi em minha terra natal. Muitas memórias e valores ainda estão presentes. A casa em que morei da infância até o início da vida adulta segue por lá. Foi onde dormi nas duas noites em que estive em Porto Alegre.

Meus irmãos, Christian e Jacqueline, são presença viva da família criada pela Ruth e pelo Milton. A Saldanha Marinho, a Getúlio Vargas, o viaduto Otávio Rocha, os escombros do estádio Olímpico, a sede da RBS: tudo me remete aos tempos em que morei na capital gaúcha. A linha de ônibus que cruza a perimetral, o ponto de táxi na esquina e alguns endereços que só eu sou capaz de entender o significado me fazem relembrar experiências marcantes — nem sempre positivas, mas bastante representativas.

Voltar à terra para ser homenageado pela trajetória no jornalismo é também um reconhecimento a quem se atreveu a seguir a carreira de meu pai e meus tios. Como fiz questão de lembrar na fala em agradecimento à medalha recebida, sou de uma família de jornalistas. Milton Ferretti Jung é o meu maior referencial — por tudo o que herdei como filho e como jornalista. Meus tios Tito Tajes e Aldo Jung também foram relevantes no trabalho que realizaram nas redações e importantes na minha formação. Dar sequência a essa trajetória me impunha uma enorme responsabilidade.

A Medalha Alberto André foi, para mim, uma certificação. A demonstração de que fui capaz de levar em frente o legado desta família de jornalistas. A certeza de que a escolha, feita em 1981, quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC-RS, apesar de arriscada, foi acertada. Saber que essa mesma medalha esteve no peito de Marques Leonan e Carlos Kober, dois de meus professores na academia, e de Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, duas das minhas referências quando eu ainda era apenas um guri de calça curta, foi motivo de orgulho.

Ver naquele mesmo espaço profissionais com a trajetória de Affonso Ritter, que aos 89 anos destacou em suas palavras o papel preponderante do jornalista, a despeito de todo o avanço tecnológico que assistiu ao longo de sua carreira, me fez acreditar na valorização do ser humano.

Abraçar colegas que estiveram ao meu lado no início de minha carreira, como Flávio Dutra e Cláudia Coutinho, e receber a medalha das mãos de Kátia Hoffman, autora do livro Milton Gol-Gol-Gol Jung, que conta a trajetória de meu pai, foi emocionante.

Diante de todos os sentimentos que se expressaram nesses dias em que estive em Porto Alegre, e mesmo com todas as restrições que me imponho, não registrar esse momento de alegria talvez fosse menos humildade e mais egoísmo. E, neste caso, o silêncio não me pareceria virtude, apenas omissão.

Por isso estou aqui, nesta inconfidência, a dividir com você a felicidade e o orgulho de ser jornalista.

O fim de uma rádio quase centenária quando mais precisamos de informação

Edward R. Murrow e William Shirer, no estúdio da CBS Foto: reprodução NYT

Abri o The New York Times neste sábado como faço tantas vezes — quase no gesto automático de quem liga o rádio antes mesmo de pensar no café. Aliás, o rádio também estava sendo ligado naquele instante no meu pedido de voz matinal: “Alexa, toca CBN ao vivo”.  E lá estava — no jornal que corria na tela do meu celular — a reportagem assinada por Michael M. Grynbaum e Benjamin Mullin. Li o título. Segui adiante. E, ainda assim, fui surpreendido por algo que, no fundo, talvez já devesse ter aprendido a aceitar: o encerramento anunciado para maio da CBS News Radio, depois de 99 anos no ar.

Quase um século. Tempo suficiente para narrar guerras, acompanhar presidentes, contar histórias que atravessaram oceanos antes de chegar aos ouvidos de quem mal saía da própria cidade.

O artigo do Times lembrava que aquela rede ajudou a levar aos americanos os relatos da Blitz em Londres e, depois, os horrores dos campos de concentração. Era uma época em que a voz do repórter carregava o peso do mundo. E o ouvinte, sentado na sala de casa, recebia essa notícia como quem recebe visita, com atenção, silêncio e respeito.

Pensei em Edward R. Murrow. Pensei naquele aviso seco antes de descrever o campo de Buchenwald: quem estivesse almoçando, melhor desligar o rádio. Havia ali um pacto. O jornalista avisava. O ouvinte decidia. E, entre um e outro, havia confiança — essa marca inexorável que devemos conservar a despeito de todas as transformações digitais.

A decisão de encerrar a rede, segundo os executivos, atende a mudanças de mercado e dificuldades econômicas. Um roteiro conhecido. O avanço dos podcasts, das plataformas digitais, da multiplicação de vozes. Tudo isso aparece como argumento. E faz sentido, ao menos na planilha.

Ainda assim, algumas vozes se levantam contra esse fim. Uma delas é a de Harvey Nagler, que vê na decisão a perda de mais um espaço para o jornalismo objetivo. Outra é a de Peter Maer, que reconhece a mudança nos hábitos, o gosto especialmente entre os mais jovens de ouvir podcasts e acessar o TikTok e o Instagram, mas lembra de algo simples: no caminho para o trabalho, as pessoas querem começar o dia informadas. Deus te ouça!

Há uma frase na reportagem que chama atenção e sinaliza contradição. O rádio ainda alcança 93% dos adultos americanos. Noventa e três por cento. Não parece um meio em extinção. Parece um meio que continua presente — talvez mais silencioso, menos celebrado, mas ainda necessário E foi nesse ponto que o texto deixou de ser sobre os Estados Unidos e passou a conversar comigo aqui. Porque, no Brasil, também convivemos com essa sensação de que tudo mudou. De que a informação agora corre pelo dedo que desliza na tela. De que basta rolar o feed para estar informado.

A ilusão é confortável. Rápida. Barulhenta. Até que algo acontece. Uma enchente no Rio Grande do Sul, uma crise no Brasil, uma pandemia no mundo que exige mais do que manchetes fragmentadas. Nesses momentos, o comportamento muda. As pessoas voltam a procurar quem organiza a informação, quem separa o fato do ruído, quem assume a responsabilidade pelo que diz. Voltam ao rádio!

Durante a pandemia, isso ficou evidente. Mais gente passou a ouvir. Por mais tempo. Não era nostalgia. Era necessidade. O rádio tem essa característica curiosa. Ele não disputa atenção com o olhar. Ele acompanha. Está aí no painel do seu carro, em cima da pia da cozinha, tocando na assistente de voz no escritório. E, quando preciso, se transforma em porto seguro.

A decisão de encerrar a CBS News Radio pode ser explicada por números. Mas não se resume a eles. Há ali também uma escolha de caminho. E talvez um erro de leitura sobre o papel que o rádio ainda desempenha. Porque o rádio não depende da moda. Depende da confiança. E confiança não se constrói com rolagem infinita.

Constrói-se com voz. Com presença. Com consistência.

No Facebook, Dan Rather, ex-âncora do CBS Evening News escreve que o encerramento da rede partiu seu coração. Ele lembra de quando ouvia aquelas transmissões ainda menino, no Texas. E de como aquilo ajudou a definir sua escolha profissional.

Fiquei pensando em quantas histórias como essa existem nos Estados Unidos, aqui, em qualquer lugar onde alguém, um dia, tenha parado para ouvir. O rádio pode até sair do ar em uma frequência, mas continua ecoando em quem aprendeu a confiar nele — especialmente quando a informação precisa ser confiável.

Conte Sua História de São Paulo: a lista telefônica que me ensinou para onde ir

Luiz Serenini Prado

Ouvinte da CBN

Orelhão por Ednei Lopes
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP

Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.

Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.

Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:

“Now you know where to go!”

Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português: 

“Agora você sabe onde ir.”

Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.

As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luiz Serenini Prado  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a caneta vermelha do revisor de texto

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Sempre morei em Santo Amaro, mas meu primeiro trabalho com carteira assinada foi na FC Editora, no bairro Santa Cecília. O ano era 1992. Para chegar lá eu pegava um ônibus até a Praça da Bandeira e depois o metrô até a estação Marechal Deodoro. Uma hora e vinte minutos de deslocamento.

Consegui o emprego enviando uma carta para o então diretor da revista Autoesporte, Fernando Calmon, que continua firme e forte como um dos jornalistas mais admirados do setor automotivo. Na carta eu expliquei que era formado pela Faculdade Anhembi Morumbi e sabia muito sobre carros porque lia todas as revistas do gênero.

Dias depois me chamaram para um teste. Fui contratado como revisor de textos. Lembro que meu pai ficou tão feliz quanto eu. A revisão era uma das portas de entrada do jornalismo. Usávamos uma caneta vermelha para apontar os erros, um dicionário Aurélio, uma gramática e o Manual do Estadão.

Dia sim, dia não, chegava algum carrão na garagem da editora. As importações tinham sido reabertas no começo dos anos 1990 e a Autoesporte testava todos.

Em 1998, mudamos de mala e cuia da Santa Cecília para o Jaguaré. Foi quando a Editora Globo adquiriu a Autoesporte e também a Casa&Jardim. Como parte do acordo de venda, todos os funcionários foram desligados de uma empresa e recontratados pela outra. No novo prédio passamos a dividir espaço com outras revistas como Galileu, Pequenas Empresas, Globo Rural, Época e também o jornal Valor.

Saí da editora em 2002 com a profissão já encaminhada, atuando como repórter e também como redator em outras empresas. Hoje, tenho 60 anos e percebo que o jornalismo passa por grandes mudanças. A profissão de revisor perdeu espaço nas redações faz mais de 20 anos, mas ainda resiste na publicação de livros e de outros conteúdos em que não se pode escorregar no português.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo 

Mario Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília