“É proibido calar!” é lançado durante bate-papo sobre jornalismo, em Araraquara

 

Reportagem publicada no portal ACidadeON/Araraquara

 

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Lançamento do livro “É proibido calar” em Araraquara (Foto: Amanda Rocha – A Cidade On)

 

“É proibido calar precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”: este é o titulo do livro lançado pelo jornalista e âncora da CBN, Milton Jung, na última sexta-feira (17), em Araraquara.

 

O lançamento ocorreu em um happy hour junto a convidados, empresários e amigos da rede CBN e portal A Cidade On, que fazem parte do grupo EPTV. Durante o bate papo, Milton falou sobre o livro, que trata sobre educação e o relacionamento entre pais e filhos, colocando porque é ‘Proibido Calar’.

 

“Eu percebo claramente que hoje existe um silêncio na relação entre pais e filhos, pelos mais diversos motivos: falta de tempo, falta de paciência, diferença de pensamentos, medos. E nós não podemos silenciar numa relação com os nossos filhos. Temos que cultivar o diálogo, falar sobre ética, cidadania e temas que muitas vezes nós tememos. E o que fazemos ao não dialogar com os nossos filhos? Nós terceirizamos a educação deles. Nós entregamos para que os outros os eduquem e resolvam os problemas que não sei resolver dentro de casa”.

 

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Palestra falou de rádio, jornalismo e ética  (Foto: Amanda Rocha – A Cidade On)

 

O jornalista falou ainda sobre a importância do rádio e as redes sociais. “Foi uma aula sobre rádio e a interação do veículo com as mídias sociais, coisa que a gente, que não é do setor, e não está no dia-a-dia pensando sobre esses assuntos”, afirma o empresário, Pedro Tedde.

 

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Araraquara (Sincomercio), Toninho Deliza Neto, diz que acorda todos os dias ouvindo a programação da rádio CBN. Ele gostou do bate papo com Milton Jung. “Eu achei apaixonante. Eu acordo ouvindo o Milton e quando a gente acorda com alguém, você passa a ter uma intimidade. Ele falou e falou com o coração. Quando a pessoa fala com o coração e fala com a verdade, passa credibilidade. Acho que esse é o grande diferencial do jornalismo sério”, afirma.

 

A questão das fake news também foi assunto levantado pelo professor da Uniara, Luis Henrique Rosim. Ele concorda com o ancora Milton Jung quando diz que o jornalismo não concorre com as noticias falsas. “Hoje temos essa situação preocupante das fake news, que parece substituir o jornalismo, o profissional que apura o fato e tal. Mas sou otimista e acho que as pessoas estão se conscientizando e que estão passando a desconfiar das notícias que não têm assinatura. Começam a buscar profissionais e veículos que tragam credibilidade para aquilo que apresenta”, afirma.

 

Milton Jung é jornalista, radialista e palestrante. Na rádio CBN ele apresenta o jornal da CBN primeira edição e aos sábados o programa ‘Mundo Corporativo’. Além do livro ‘É proibido calar’, Milton escreveu ainda ‘Jornalismo de rádio’, ‘Conte sua história de São Paulo’ e ‘Comunicar para liderar’.

Adivinha em quem os brasileiros mais confiam quando querem notícia de verdade?

 

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Em conversa com executivos de empresa de tecnologia, no início desta semana, fui provocado a apresentar uma solução para a enxurrada de falsas informações que circulam pelas redes sociais, assim como para o diálogo tóxico que assistimos nas diferentes plataformas. Os questionamentos também não deixaram de fora o trabalho dos veículos de comunicação tradicionais —- nesse caso, eles queriam saber qual seria o futuro das redações jornalísticas. Como todo tema complexo, não existe resposta simples nem solução fácil. Mas tendo a acreditar na ideia de que vivemos um processo de amadurecimento nessas relações. 

 

Os meios de comunicação que conhecíamos perderam o monopólio da informação —- ainda bem. Hoje, cada cidadão tem a capacidade de produzir e divulgar conteúdo. O alcance dessa mensagem dependerá da estratégia usada, mas os recursos estão em suas mãos. O cidadão conquistou esse direito e tem usufruído dele dizendo o que quer, agindo da maneira que lhe convier e transmitindo mensagens doa a quem doer —- com forte poder de construir ou prejudicar a reputação de pessoas e instituições. Por outro lado, não percebeu, ao menos não a maioria de nós, que também passa a responder pelo poder que exerce. Ao emitir opinião, é responsável pelo que essa possa causar. Ao compartilhar informação, é autor ou coautor dos seus efeitos. 

 

À preocupação dos executivos, reforcei meu discurso de que a  sociedade contemporânea está em estágio de aprendizado, diante das transformações digitais que impactam nossos comportamentos. O tempo nos ensinará a usar de maneira mais responsável os meios modernos de comunicação. E o jornalismo profissional tenderá a prevalecer como principal antídoto aos que publicam falcatruas sob o apelido de “fake news”. 

 

Ao falar do tema ainda não tinha em mãos o resultado de pesquisa sobre a confiança dos brasileiros,  encomendada pela XP Investimentos ao Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). A consulta tinha como uma das intenções saber o que os brasileiros pensam neste momento do presidente Jair Bolsonaro, mas vou me ater ao tema central desta nossa conversa: os meios de comunicação — os tradicionais e os digitais. 

 

Atente-se para o que responderam os mil brasileiros ouvidos pelo Ipespe quando os pesquisadores fizeram a seguinte pergunta:

“Na sua opinião, as informações e notícias veiculadas nesses meios que vou ler são, na sua maioria, verdadeiras ou são falsas?”

As piores avaliações foram do Facebook, com apenas 11%, e do WhatsApp, com apenas 12%, respondendo que as notícias veiculadas são verdadeiras. Twitter e Instagram também ficaram na parte de baixo deste ranking. A percepção sobre veracidade de informações para blogs e sites de notícia, assim como jornais de notícias na internet, foi de 28% e 32%, respectivamente.

 

A mídia tradicional, tão bombardeada em redes sociais e com comentários frequentes que colocam em xeque a credibilidade do conteúdo produzido, aparece mais bem posicionada e com índices de confiança bem superiores às novas mídias. Por exemplo, as  notícias publicadas em jornais e televisão são verdadeiras para 61% dos entrevistados.

No topo desta tabela —- e aí você logo vai pensar, eu sabia que o Mílton queria chegar a algum lugar — aparece o rádio:  64% dos brasileiros pesquisados responderam que acreditam no que ouvem no noticiário.

E com isso, esse veículo que me tira da cama todos os dias, às 4 da matina, e me impõe uma série de desafios  no cotidiano —- tais como a apuração dos fatos, a busca constante da verdade, o respeito ao contraditório e o reconhecimento de nossos erros sempre que estes são identificados —- , a partir da opinião dos nossos ouvintes, me dá a certeza de que o esforço diário dos jornalistas de rádio está sendo recompensado.

 

 

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A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

 

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Perda, dor, vazio. São sentimentos que surgem com o luto. Com os quais o jornalista precisa negociar diariamente. O noticiário está sempre nos provocando com os assassinatos na porta de bar, os crimes de família e as tragédias anunciadas.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, e minha rotina era contar a história de mortes ocorridas em desabamentos de terra, comuns nas encostas da cidade de São Paulo, nos períodos de fortes chuvas.

 

Na madrugada, era enviado ao cafundó do Judas para fazer imagens de um assassinato. Ao chegar, lá estava o cadáver estendido na calçada. Coberto por páginas de jornais ou um papel alumínio a esconder seu rosto. Imagens feitas, informação apurada, sonora gravada. Segue para a próxima pauta. Para o próximo assassinato. De madrugada nunca encontramos um batismo a registrar. Só crimes e velórios.

 

A morte não saiu das minhas pautas, mesmo quando deixei as ruas — mesmo quando troquei a reportagem pela apresentação de telejornais, em 1993. Foi-se Ayrton Senna, em 1994. E eu falei por horas da comoção do povo brasileiro, em seu velório. Foi-se Mário Covas, e tive de relatar a tristeza de São Paulo, em 2001. No mesmo ano, transmiti ao vivo o terrorismo do “11 de Setembro”, em Nova Iorque. O primeiro baque surgiu quando parei para pensar nas dezenas de passageiros que estavam dentro do avião arremessado contra o World Trade Center. Depois foi a vez de olhar aquelas pessoas jogando-se do alto dos prédios. E quando as torres vieram abaixo, segurei-me para sustentar a voz e ser fiel aos fatos.

 

No entanto, as mortes passam, os cadáveres são esquecidos, alguns sequer registrados. A perda, a dor e o vazio ficam como legado dos parentes das vítimas —- pessoas que talvez nunca mais na vida você encontrará. E a sua vida, a minha vida, segue. Amanhã tem outra pauta para cobrir, outra história para contar. O salário cai na conta, os boletos chegam, a comida tem de estar no prato. Até uma nova tragédia.

 

Em 2016, a mais difícil delas. O acidente com o avião da Chapecoense, sabendo que entre os passageiros estava um amigo querido e respeitado por todos, Deva Pascovicci. Engoli o choro, engasguei com as lágrimas, parei de falar. Tinha vontade de desistir. Mas apresentei o Jornal da CBN até o fim mesmo sabendo qual seria o fim daquela história. Somente à noite, diante da televisão e abraçado em um dos filhos consegui chorar copiosamente como o coração pedia.

 

No jornalismo, tendemos a disfarçar os sentimentos. Construímos um personagem diante do fato triste porque temos a obrigação de retratar a realidade. Sem envolvimento. Frio. Calculista. Capaz de fazer qualquer pergunta por mais óbvia que pareça. Desconfiando sempre. Questionando na primeira oportunidade. Coisa de jornalista.

 

Dan Harris, correspondente da ABC News e âncora de televisão, cobriu guerras e tragédias. Considerava-se forte o suficiente para encarar as mais tristes situações da humanidade. Preocupava-se apenas com a qualidade do material levado ao ar e com a exposição que alcançaria. Brigava pelas melhores pautas, discutia com editores em busca de mais espaço na cobertura. Era obcecado pelo trabalho. Ao fim e ao cabo, voltava para casa sem se importar com a morte dos outros, sem se preocupar com nada nessa vida — a não ser sua ascensão profissional.

 

Um dia, Harris congelou na frente das câmeras. Teve um ataque de pânico diante de milhões de telespectadores. Em rede nacional. Descobriu depois que era como se todos os fantasmas das mortes registradas por ele se realizassem dentro de sua mente ao mesmo tempo. Foi o início de uma profunda reflexão sobre a vida. E o começo de uma odisseia pelo mundo da espiritualidade.

 

Ele conta essa história no livro “10% mais feliz”, publicado pela Sextante, no Brasil, no qual relata como driblou todos os seus preconceitos e medos em relação a meditação. Daniel Goleman, jornalista científico e psicólogo, apresenta-o “como o melhor livro sobre meditação para os não iniciados, os céticos e os curiosos”. Para mim, um livro que ajuda a pensar o jornalismo. A nossa tarefa de contar ao público o que vimos. O que sabemos. A verdade. Doa a quem doer. E entender que muitas dessas verdades vão doer dentro de nós e precisamos administrar esses sentimentos.

 

Harris medita. Eu não consigo. Não tentei. Mas choro. Foi assim quando soube da barragem que soterrou centenas e centenas de pessoas, em Brumadinho. Chorei baixinho na minha casa. Foi assim quando a repórter confirmou a morte de 10 meninos no Ninho do Urubu. Chorei em silêncio diante do microfone e se revelei minha dor foi na voz embargada.

 

Hoje, não estava mais na redação quando soube da morte de Ricardo Boechat.

 

Se um dia chorei por centenas, noutro por dezenas, hoje chorei por um colega. E essa dor é mais dolorida do que todas porque é uma dor muito próxima da gente. De alguém que estava ali ao nosso lado —- um pouco além do dial onde sou sintonizado todas as manhãs, no Jornal da CBN. Alguém que com seu jeito de fazer jornalismo na Band News FM, nos obrigava a pensar que jornalismo estávamos fazendo. Que radiojornalismo estávamos realizando. Que poucas horas atrás, estava diante do microfone fazendo aquilo pelo qual somos apaixonados: jornalismo.

 

E com a morte de Boechat lá vieram novamente aquelas sensações impertinentes do luto: perda, dor, vazio. Sensações que não tenho dúvida serão muito mais fortes no coração da Veruska, sua “doce Veruska”, e dos seis filhos que perderam o pai — o cara que a gente pode contar naquela hora em que pinta um dilema na nossa vida, naquele momento de felicidade que precisa ser compartilhado ou que vai dar um abraço revelador para conter nossa tristeza. A eles toda nossa solidariedade e o pedido que Deus amenize esse sofrimento e os console.

 

Pouco antes de sentar diante deste computador para compartilhar com você esse momento de tristeza que encaro —- e imagino que seja a de milhares de admiradores e colegas — deparei com a fala de Flora Tucci, psicanalista e filósofa, sobre o luto, registrada pelo jornal O Globo:

 

“Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse “adeus”, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o novo chegar”.

 

Seja lá o que for esse novo que nos foi reservado, que jamais deixemos que a perda, a dor e o vazio caiam no lugar-comum dos sentimentos. Eu choro. Jornalistas choram, sim. Chorar é preciso!

Acabou a mamata!

 

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Acompanhei o noticiário de revesgueio nestes últimos 20 e poucos dias em que estive de férias. Olhando meio de lado, enviesado, sem me aprofundar muito, tendo a atenção chamada apenas para uma coisa aqui e outra acolá. Era de descanso que eu precisava, depois de um ano intenso como foi 2018.

 

Descansei da maneira que mais gosto: conhecendo lugares e ao lado da família. Desta vez, fomos longe para fazer amigos. Conhecemos o Japão, um sonho de criança —- no caso das crianças aqui de casa, que, aliás, de criança não têm mais nada.

 

Descansei cansando-me de andar. Está registrado no aplicativo do celular que foram 191.552 passos e mais de 133 quilômetros percorridos a pé, em 14 dias. São estatísticas suficientes para deixar o Márcio Atalla sorrindo de satisfação. Bem verdade que esse é um cansaço diferente, sem a pressão do relógio, sem o estresse da meta a ser alcançada e sem a necessidade de provar nada para ninguém — essas coisas que o mundo corporativo (e comunicativo) nos cobra diariamente.

 

Fui para o Japão sob a recomendação de que deveria ter muito cuidado com a gentileza que os japoneses dedicam aos visitantes. É coisa de nos deixar chocado, disseram alguns amigos com quem conversei antes da partida. Envergonhado, falaram outros. O professor Clóvis Barros Filho chama de shinsetsu e escreveu livro recente no qual fala de o poder da gentileza —- foi um dos livros que li nessas férias, outra coisa que gosto de fazer. Diante da falta de amabilidade no nosso cotidiano, em que a regra que vale é “farinha pouca, meu pirão primeiro”, assistir ao comportamento oriental nem chocou nem envergonhou, me ensinou. E ensinou muito.

 

Já fazia referência a forma de os japoneses se portarem, em minhas palestras sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, desde o ano passado. O exemplo que uso é o do hábito deles limparem o espaço público que ocupam. Assistimos a isso na Copa do Mundo, em 2014, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Lembro que a cena de turistas japoneses com sacos de plástico em mãos e recolhendo o lixo que deixaram cair no chão sempre provoca por aqui uma onda de elogios. Em seguida, criticamos nosso comportamento, a falta de educação e os políticos que não se dão respeito. Em lugar de iniciarmos a mudança individualmente, em casa ou na família, repetindo o gesto no nosso cotidiano, damos continuidade a prática do descaso e do desrespeito, porque o Brasil não tem jeito —- é a nossa desculpa. Se o Brasil não tem jeito que os brasileiros deem um jeito no Brasil. Aprendamos com os japoneses.

 

Uma das mensagens mais impactantes que encontrei nas muitas caminhadas estava em placa ao pé de um dos monumentos, no Parque do Memorial da Paz, em Hiroshima — cidade que em seis de agosto de 1945 foi palco da maior tragédia atômica que o homem poderia ter construído: “Superando o ódio, perseguindo a harmonia e a prosperidade e desejando ardentemente uma longa e genuína paz no mundo”. Pense nos resultados que poderíamos alcançar se aplicarmos essa ideia na nossa vida. Comprometo-me a tentar. E você?

 

Tudo posto e com o sabor do melhor tempura que já comi na minha vida ainda na boca— encontrado em um pequeno restaurante, o Tendon Makino, em Quioto —, confesso que foi difícil de acreditar que havia acabado a mamata. Por favor, entenda bem o contexto em que a expressão está sendo usada. Nada a ver com arranjos, marmeladas e achegos ou ganho desonesto, vantagens indevidas e propina, como aparecem nos dicionários oficiais. Digo mamata no sentido figurado, de dias livres, de diversão e de relaxamento.

 

Nesta segunda-feira, depois de duas xícaras de café preto para acordar e um omelete para manter a energia, a realidade se impôs: tive de colocar o crachá no pescoço e me apresentar na firma. Gosto — e muito — do trabalho que realizo. Tenho prazer em levantar da cama para apresentar o Jornal da CBN. Mesmo que ainda seja madrugada, cumprimento o guarda da rua, saúdo o porteiro do prédio da empresa, gesticulo a cabeça para as poucas pessoas que esperam o elevador e converso com os ouvintes com um sorriso no rosto —- ao menos quando o clima permite. Desta vez, porém, voltar ao trabalho foi um pouco mais difícil, porque ainda estou na ressaca das férias, devido ao fuso horário e, principalmente, a tudo que vivenciei.

 

Ao mesmo tempo, 35 anos de trabalho me ensinaram que a máquina não para de girar — especialmente se estivermos falando em jornalismo, que tem como matéria-prima a notícia. O ouvinte não quer saber se você ainda está sob o ritmo das férias ou se naquele dia alguma coisa o tirou do sério. Assim que o microfone abre, tudo tem de voltar a ser como antes. Apuração dos fatos, precisão no relato, equilíbrio na abordagem, justiça na análise, cuidado para não errar e humildade para admitir o erro.

 

Não tem jeito. Às cinco para às seis da manhã, o luminoso com a expressão “No ar” acendeu dentro do estúdio e a mensagem que li foi muito clara: acabou a mamata. Ao menos a minha, porque, conforme as notícias que li na seqüência, já soube que a mamata continua pra muita gente importante que anda solta por aí — e aqui, mamata, sim, naquele sentido mais conhecido da palavra.

Dia 2 de abril, o Dia Internacional da Checagem #FactCheckIt

 

 

Foi bom enquanto durou. Agora, resolveram estragar a brincadeira dos tempos de criança. E a coisa perdeu a graça, ficou séria demais e com impacto incalculável na vida das pessoas e na reputação das organizações.

 

Falo do 1º de abril, Dia da Mentira, lembrado ontem, em meio a distribuição dos ovos de Páscoa. Quem nunca caiu numa lorota contada pelos amigos? Na escola, em casa ou lá na Saldanha Marinho, onde morei na minha infância, fui vítima da gurizada um sem-número de vezes.

 

Lembro dos jornais, revistas e programas de rádio que sempre abriam páginas e falas para trazer uma informação ridiculamente falsa, que todos sabiam que era mentira. Na maioria das vezes, nos divertiam. Em outras, pensamos: pena que não é verdade!

 

Os maus-caracteres tomaram para si a prática, profissionalizaram o negócio e passaram a espalhar a ideia para propositalmente influenciar a opinião pública e prejudicar pessoas e instituições.

 

Com a ajuda digital, a mentira, que sempre identificamos como sendo algo com perna curta, passou a alcançar facilmente seus alvos no outro lado do mundo. E ganhou nome e sobrenome: fake news.

 

Hoje, nós que fazemos jornalismo sofremos duplamente com essa história: os que não não gostam de notícias contrárias, dizem que somos fabricantes de fake news; os que não gostam do outro lado, ao forjarem informação confundem as coisas e tentam nos levar para a vala comum.

 

Na contra-mão das notícias fraudulentas ou forjadas, se fortaleceram grupos especializados em checar fatos: Agência Lupa, O Truco e Aos Fatos, apenas para citar algumas empresas que atuam aqui no Brasil. A maioria delas faz parte da International Fact-checking Network (IFCN), que reúne 140 membros pelo mundo, e promove nesta segunda-feira, dia 2 de abril, o Dia Internacional da Checagem.

 

Como se percebe, a data é proposital. Vem logo depois do Dia da Mentira. Quer chamar atenção para a importância de termos jornalistas capacitados apurando informações e em busca da verdade.

 

Na campanha #FactCheckIt produziram um vídeo, que você assiste na abertura deste post, resultado de ação desenvolvida em várias partes do mundo, nas quais o cidadão foi provocado a responder se para ele a verdade importa ou não.

 

No site da IFCN, você encontra ainda uma série de artigos que nos ajudam a refletir sobre o tema e desconfiar quando estamos sendo alvos de uma notícia mentirosa.

 

Uma boa maneira de você, que não é jornalista, ajudar no combate a mentira, é pensar duas vezes antes de dar cliques, likes e compartilhar as informações que recebe nas redes sociais.

 

Afinal, tenho certeza que para você a verdade importa.

É preciso estar atento às mudanças nos padrões éticos

 

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Na leitura em busca de inspiração para novo projeto que inicio nesta semana – sobre o qual a gente conversa mais à frente – deparei-me com “Ética e imprensa“, livro de Eugênio Bucci, publicado pela Companhia das Letras. Dentre conflitos de interesse descritos, o professor lembra de privilégios que jornalistas mantiveram por anos no Brasil tais como ser isento de imposto de renda, imposto predial e de transmissão de imóveis.

 

A Constituição Federal de 1946 determinava em seu artigo 203: “Nenhum imposto gravará diretamente os direitos de autor, nem a remuneração de professores e jornalistas”. No mesmo texto constitucional, lia-se no artigo 27 das Disposições Transitórias: “Durante o prazo de quinze anos, a contar da instação da Assembléia Constituinte, imóvel adquirido, para sua residência por jornalista que outro não possua, será isento do imposto de transmissão e, enquanto servir ao fim previsto neste artigo, do respectivo imposto predial”.

 

Privilégios para jornalistas, institucionalizados e aceitos pela maioria dos profissionais e órgãos de imprensa. Provavelmente a maior parcela da sociedade sequer soubesse desses agrados àqueles que por ofício devem, entre tantas outras funções, identificar, investigar e relatar fatos que não estejam de acordo com as normas na gestão pública. E se soubesse talvez não fizesse oposição, apesar de um evidente conflito de interesse.

 

Sim, caro e raro leitor deste blog, os jornalistas, assim como os juízes, procuradores e promotores públicos nos dias de hoje, também recebiam uma espécie de auxílio-moradia; além da isenção de imposto de renda. As regras, consideradas normais para aquela época, vieram a cair a medida que o grau de exigência ética da sociedade evoluiu. A independência na cobertura jornalísticas foi demanda crescente; os veículos de comunicação, seus proprietários e profissionais, perceberam ou foram levados a perceber que o privilégio era inconcebível.

 

Historicamente, registram-se mudanças nos padrões éticos que costumam ser percebidas mais rapidamente ou tardiamente conforme a instituição. Algumas pagam um preço muito alto e terão dificuldades para recuperar sua reputação. A crise de representatividade de políticos e partidos é um exemplo. Há a expectativa que a conta será cobrada pelo eleitor no pleito de outubro. A conferir.

 

A Justiça brasileira também está diante deste desafio: a insistência de juízes em receber o auxílio-moradia de R$ 4.377,73, – mesmo aqueles que têm residência própria, alguns com várias delas, inclusive – sinaliza a dificuldade que os magistrados têm de traduzir as novas demandas do cidadão. Ao reivindicar o pagamento com base na lei e sob a justificativa que é uma compensação aos reajustes escassos para o serviço público, distorcem a discussão.

 

Primeiro, porque os que pedem salários mais justos que levem o debate aos fóruns competentes, encontrem espaço no Orçamento para vencimentos mais próximos das suas necessidades e, claro, dentro da capacidade finita do Estado remunerá-los.

 

Segundo, porque os que pedem o fim do privilégio sabem o que está escrito na lei e é esta lei que questionam devido aos novos padrões éticos exigidos no poder público.

 

Assim como no passado perdeu o sentido benesses do estado aos jornalistas diante da necessidade de se manter a independência e a credibilidade, a Justiça e seus juízes, tanto quanto o Ministério Público e seus procuradores e promotores, que se apressem em entender o grito do cidadão contra seus privilégios. A falta de apoio popular e o desconsideração com os novos padrões éticos enfraquecerão lutas justas e necessárias que estão em andamento no país, como as que travam contra a corrupção. E não podemos perder esta luta de maneira alguma.

O impacto da tecnologia e do populismo na produção jornalística

 

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Dia desses, convocado pela CBN para ancorar programa que comemorava os 26 anos da emissora, tive a oportunidade de conversar com algumas figuras que admiro muito no jornalismo. Reunimos no estúdio em São Paulo e Rio de Janeiro, e colocamos por telefone, comentaristas da rádio além de convidados. Sejam os da casa, sejam os de fora, todos foram motivados a falar sobre o rádio e o jornalismo, momento em que tratamos do impacto que a tecnologia e o populismo têm provocado no desenvolvimento do nosso trabalho.

 

Se você visitar os links que ofereço ao fim deste texto, terá a chance de ouvir o bate-papo com Arthur Xexeo, Renata Loprete, Luis Gustavo Medina, Pedro Doria, Zuenir Ventura, Eugênio Bucci e Thiago Barbosa. Cada um a seu tipo contou histórias relacionadas ao rádio, tenha este a forma do radinho de pilha, que acompanha o Xexeo em suas tarefas caseiras, tenha o desenho das caixas de sons mais modernas com capacidade de conectar todos os equipamentos, usadas pelo Doria.

 

Quero, porém, dedicar esta nossa conversa, caro e raro leitor deste blog, para tema que tem preocupado jornalistas e deveria estar na pauta de todo o cidadão interessado no fortalecimento da democracia: a profusão de notícias falsas, estas que correm mais rápido do que rastilho de pólvora, como dizíamos antigamente. Consta que muito mais rápido do que notícia verdadeira, como nos explicou Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

 

Embrulhado em nome novo – fake news -, a velha prática de inventar histórias para prejudicar desafeto ou promover amigo se potencializa nas redes sociais pela agilidade que esta nos proporciona, permitindo sua multiplicação apenas com um clique no botão de compartilhar ou com o acionamento de robôs que espalham o fato para computadores e celulares em todo o mundo – ou para regiões previamente estabelecidas, onde se pretende impactar a opinião pública.

 

Para dar o nome certo a esse fenômeno, Bucci recorre a outro mestre da comunicação e, tanto quanto ele, preocupado com a ética nas relações humanas: o professor Carlos Eduardo Lins da Silva. Para que ninguém tenha dúvida do que estamos falando, eles preferem transgredir a tradução natural do temo em inglês fake news. Em lugar de notícia falsa, usam notícia fraudulenta. E isso faz uma baita diferença.

 

 

A notícia errada é como uma peça estragada na linha de produção que surge de uma falha na sua execução. Pode ocorrer pela qualidade do material usado, pela manufatura, pelo descuido ou irresponsabilidade do profissional que realiza o trabalho. Causa prejuízos a quem consome e a quem fabrica.

 

A notícia fraudulenta é a peça que foi estragada com a intenção de boicotar alguém. É ato proposital. Erro baseado na má-fé de quem o executa. Que surge de autor desconhecido, escondido por mecanismos automáticos e uso de tecnologia e, por isso, prejudica apenas seu alvo.

 

Como jornalista, e jornalista de rádio, veículo que pressupõe a agilidade e velocidade na informação, o risco de publicarmos uma informação errada é imenso. Já aconteceu e, infelizmente, acontecerá outras vezes. Está lá no meu livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), publicado em 2004, que nosso desafio é equilibrar agilidade e precisão na apuração dos fatos. Todas as vezes que abrimos mão da precisão em nome da agilidade, pagamos com o que há de mais caro na carreira do jornalista (e do jornalismo): a credibilidade. Por longo tempo, o rádio, pressionado pela ascensão da televisão, trabalhava com a ideia que o ouvinte queria a notícia em primeira mão. Demorou para perceber que o desejo dele era ter a notícia certa em primeira mão.

 

Reduzir os riscos de erro na cobertura jornalística é o desafio que se impõe e para tal é preciso respeitar a hierarquia do saber – conceito trabalhado por Zuenir Ventura em conversa que já havíamos tido há cerca de um ano na CBN. O jornalista é aquele que procura ouvir quem sabe mais do que ele, que sabe usar o saber do outro para esclarecer os fatos e apurar a verdade. Nossa busca constante é pela verdade possível, a verdade que somos capazes de construir naquele instante em que o caso é relatado. A verdade absoluta apenas o tempo nos oferecerá.

 

Se não vejamos: quando o primeiro avião se chocou no prédio do WTC em Nova Iorque, em 2001, noticiamos um acidente aéreo. Estávamos mentindo? Não. Contávamos a verdade daquele momento. Assim que um segundo avião se chocou na torre, um terceiro despencou sob o pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, outras verdades passaram a se revelar ao longo do dia.

 

 

Em meio a pressão oferecida pela revolução tecnológica que mudou comportamentos e quintuplicou o número de mensagens recebidas por uma cidadão, nos últimos 30 anos, e os interesses de grupos políticos dispostos a distorcer a verdade em busca do poder, o jornalismo tem obrigação de resistir e seguir o seu curso. Intensificar a checagem dos fatos, aprofundar a apuração e proporcionar o contato de posições divergentes, promovendo o diálogo entre os diversos atores de uma mesma cena.

 

 

Encerro essa nossa conversa lembrando frase dita por Eugênio Bucci no início de sua participação no programa da CBN:

 

“O jornalismo não pode faltar na sociedade democrática … e a maior ameaça para o jornalismo é o populismo”

………………………………………

 

Ouça a seguir, o Jornal da CBN especial, em comemoração aos 26 anos da rádio CBN:

 

 

 

 

#CBN26anos – A minha história do rádio

 

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Sou do rádio desde muito pequeno. Aventurei-me no jornal, escrevi em revista, editei, reportei e ancorei em televisão, e atuei na internet. Mas aí já era profissional do jornalismo. E como tal somos de todas as mídias. Temos de ser de todas as mídias para sobreviver. Foi o rádio, porém, que influenciou minha vida desde criança.


 

Lá em casa, em Porto Alegre, o aparelho ficava sobre o balcão, na sala de jantar. A mãe costumava levantar o som sempre que o pai fosse falar. Sim, meu pai é radialista e jornalista, também – como o caro e raro leitor deste blog deve saber. Ao menos o foi até que a falta de sensibilidade dos gestores de rádio o fez ir para casa e aposentar seu talento. Além de narrador de futebol, Milton Ferretti Jung, o pai, foi locutor de notícias. Mais do que isso: foi o melhor locutor de notícias do Rio Grande do Sul. Apresentou por anos o Correspondente Renner, síntese noticiosa da rádio Guaíba, na época uma potência.

 

Sempre que o noticiário estava para começar, era a oportunidade de a mãe por ordem na casa. Para calar a bagunça dos filhos e a “brigalhada” dos irmãos, ela levantava o som do rádio e alertava a todos: “se continuarem gritando, o pai vai ouvir e quando chegar em casa vocês vão se ver com ele!”.

 

Silêncio total na sala. Vai que o pai ouve.

 

Crescemos imaginando que o ouvinte podia ser ouvido pelo radialista. Houve um momento, não sei quando, em que percebemos que aquela interação não era possível, mas entendemos também que tudo que a mãe precisava era de alguns minutos de paz para ouvir o pai falando. Nós também queríamos saber o que o pai tinha pra contar: ele sempre trazia as notícias mais importantes do Brasil e do Mundo. Dava um baita orgulho saber que era o nosso pai que estava ali contando todas aquelas coisas importantes para o Mundo e para o Brasil. Sem exagero. Não tinha internet, mas nas ondas médias e curtas, a Guaíba às vezes era ouvida das partes mais distantes do planeta.

 

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Nem havia crescido muito quando conheci o estúdio de uma emissora de rádio. O pai fazia questão de nos levar à Guaíba, especialmente nos fins de semana. Acho que era para dar uma folga para mãe. Às vezes, enquanto ele lia o noticiário, os colegas nos distraíam proporcionando jogos de futebol no corredor da rádio, onde a bola era feita de papel das laudas de notícias embrulhadas aos montes por durex.

 

Demorou pouco para o pai cometer um sacrilégio: abrir a porta do estúdio da rádio e me permitir sentar ao lado dele, durante a locução do Correspondente Renner. Naquela época, o estúdio era lugar sagrado. Só os Deuses da Voz tinham o direito de permanecer lá dentro. Eu sequer para anjo servia. Mas fazia enorme esforço para não decepcioná-lo. Ficava ao lado dele em silêncio, total silêncio. Mal respirava durante os 10 minutos de duração do Correspondente. Ver o pai com os cotovelos sobre a mesa do estúdio e as mãos colocadas em formato de concha, enquanto pronunciava com precisão e expressividade cada palavra, me emocionava.

 

Havia dias em que o pai me deixava visitar a redação do jornal Correio do Povo, que ficava no andar de baixo, do mesmo prédio da rádio, onde meu tio trabalhava com editor-fechador da edição de domingo. Era ele quem tinha de atualizar as últimas informações e acompanhar o jornal rodando nas esteiras antes de começar a ser distribuído por todo o estado do Rio Grande do Sul. Tio Tito Tajes me deixava dedilhar nas máquinas de datilografia, pedia para recolher as notícias que chegavam na sala de teletipos – espécies de computadores da Idade da Pedra – e me levava a passear entre as rotativas do jornal. Foi lá naquela redação que conheci Mário Quintana, o poeta.

 

Era lindo, mas era o rádio que me fascinava.

 

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Meu primeiro estágio em jornalismo foi na Guaíba, por obra do meu pai, claro. De lá sai para trabalhar em outras mídias e retornei ao rádio quando já havia desembarcado, em São Paulo, há algum tempo. Vim para trabalhar em TV e foi na redação da TV que conheci Heródoto Barbeiro que, ao saber de meu passado e desejo, me convidou para apresentar programa na CBN, onde permanecerei até segunda ordem.

 

Tantos anos depois, descobri que minha mãe tinha razão quando nos mandava calar porque o pai podia ouvir. Era como se ela estivesse prevendo o que viria a acontecer. Hoje, os jornalistas de rádio trabalham com os ouvidos (e os olhos) bem abertos porque o ouvinte fala o tempo todo. Fala no e-mail, fala no WhatsApp, fala no Facebook e fala no Twitter. Ainda fala por carta. Fala quando encontra você na rua, no shopping, na Igreja, onde quer que você esteja.

 

Ai de você que não ouça o que ele pensa. Pode se livrar de algumas chateações, mas, tenha certeza, estará desperdiçando ótimas oportunidades de se desenvolver na carreira e realizar jornalismo qualificado, que atenda as demandas do cidadão. Sem contar que esses ouvintes que “falam” são, atualmente, fontes importantes de informação, que não podem ser desdenhadas.

 

Quanto ao pai, segue em Porto Alegre. Respeitado por aqueles que conheceram seu trabalho. Na memória dos que cresceram ouvindo os jogos de futebol e as notícias do dia. E na história dos que se preocupam em estudar a trajetória do rádio brasileiro.

 

Como disse lá no início, sou do rádio desde pequeno. E o pai tem tudo a ver com isso. Obrigado, pai!

Generosidade multiplica minha satisfação pelo Comunique-se em “empreendedorismo”

 

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Felipe Andreoli (apresentador), Natalia Viana (Agência Pública), Peter Fernandez (99), eu e Serginho Groisman (apresentador)

 

Há quem apresente o Prêmio Comunique-se como o Oscar do Jornalismo. Foi assim que os organizadores o auto-intitularam lá no início, há 15 anos. É assim que muitos dos meus colegas de profissão se referem a ele. Hoje cedo, no Jornal da CBN, ouvi Arnaldo Jabor fazer esta referência quando enalteceu o prêmio pelo fato dele celebrar uma das maiores conquistas da democracia: o jornalismo livre. Esse jornalismo que incomoda da direita à esquerda. Que não é poupado pelos que estão no poder, os que querem assumi-lo e, às vezes, até mesmo pelos que se sentem subjugados por ele (pelo poder, lógico).

 

Exageros à parte, o Comunique-se transformou-se em um prêmio relevante para os profissionais da comunicação tendo seus vencedores superado três etapas de votação. Neste ano, foram mais de 600 mil eleitores no total, a maior parte jornalistas, estudantes e gente ligada ao segmento.

 

 

Ao longo do tempo, estive no palco como finalista por inúmeras vezes e conquistei o troféu de Melhor Âncora de Rádio, em 2009 e 2014. Na noite de terça-feira, ao lado das repórteres Maria Desidério (Exame) e Vivian Codogno (Estadão) fomos finalistas da categoria jornalismo de empreendedorismo, criada nesta edição para destacar os profissionais que fazem a cobertura do tema através de reportagens, entrevista e edição em TV, rádio, jornal, revista ou internet. A diretora da Agência Pública, Natalia Viana, venceu a categoria “jornalista empreendedora”.

 

Muito em função do trabalho que realizo no programa Mundo Corporativo, e pela própria popularidade que a rádio CBN nos oferece, venci a recém-criada categoria, o que me fez, aos mais de 50 anos, sentir-me como um pioneiro. Fiquei especialmente feliz porque há algum tempo tenho me dedicado a olhar o campo do empreendedorismo de forma especial. Lá mesmo na rádio, estive à frente do CBN Young Professional e agora sou parceiro de Thiago Barbosa no CBN Professional, produzido exclusivamente em podcast, em parceira com a HSM Educação Corporativa.

 

Faz parte deste trabalho voltado ao empreendedorismo, o livro “Comunicar para liderar”, escrito em co-autoria com a fonoaudióloga Leny Kyrillos, e lançado pela editora Contexto, em 2015. Nele falamos da importância em se desenvolver a capacidade da comunicação quando se pretende comandar uma empresa, um grupo de trabalho ou a sua própria carreira. Parte do sucesso dos empreendedores está relacionada a forma como interagem com seus diferentes públicos, desde sócios, parceiros de negócios até clientes e a própria mídia.

 

Cobrir o tema do empreendedorismo e das corporações também nos oferece um tremendo desafio pois caminhamos por uma linha tênue que jamais pode ser ultrapassada. Temos de tratar de empresas, de negócios e de profissionais, sempre com o viés jornalístico sem permitir que interesses comerciais influenciem a cobertura.

 

Nessa área, costumamos ter na mídia impressa profissionais especializados fazendo trabalho de excelência e com muito apuro, e tive ao meu lado como finalista dois belos exemplos – a Mariana e a Vivian. Na mídia eletrônica, por muito tempo surgiram programas com tendência comercial que deixavam de lado os critérios jornalísticos. O Mundo Corporativo, criado há 15 anos, tem a intenção de apresentar o conhecimento e a experiência de líderes empresariais e do empreendedorismo, de gestores, consultores e coachs com atuação nas mais diversas áreas da economia. Uma cobertura pautada pelo interesse público e com foco no desenvolvimento profissional.

 

No caso específico do empreendedorismo, o Brasil sempre foi um campo fértil, na maioria das vezes, porém, proveniente de uma ação voluntariosa de pessoas que, sem encontrar espaço no mercado de trabalho, partiam para negócios próprios. Gente que, por falta de conhecimento e dificuldades estruturais, abrem empresas e lançam negócios insustentáveis. Esse cenário tem sido alterado com o surgimento de personagens e casos de sucesso que empreendem com profissionalismo, investem na inovação e transformam a sociedade.

 

Minha colega Miriam Leitão, na conversa que tivemos logo cedo no Jornal da CBN, lembrou que o empreendedorismo “libera a criatividade do povo brasileiro, ocupa um espaço importante e privatiza a economia brasileira”. Ela salientou que a prática resulta em empresas que nascem por conta própria, se financiam com fundos na maior parte das vezes privados, disponíveis no mercado: “isso é que atualiza e moderniza a economia brasileira”.

 

 

Usar o jornalismo para incentivar o empreendedorismo é uma boa forma de fazer parte deste processo de desenvolvimento no país, sem jamais perder a independência, o equilíbrio e o olhar crítico sobre os fatos.

 

Minha satisfação em receber o Comunique-se na categoria “cobertura em empreendedorismo” se multiplicou a partir das várias mensagens recebidas, nesta quarta-feira, de ouvintes pelo Twitter, Facebook, WhatsApp e e-mail. É o maior incentivo que eu poderia ter. E sou muito grato pela generosidade de todos.