Conte Sua História de São Paulo: o tricô e o rádio na vida da Dona Nilzinha

Por Eliana Lima, filha de Dona Nilza

Ouvinte da CBN

Nilzinha tem 92 anos. Santista de nascimento, chegou em São Paulo ainda menina.  Trouxe duas paixões na bagagem: os livros e o rádio. 

Aos 73 anos, perdeu 98% da visão e o rádio passou a ser o principal companheiro. 

Ouvinte desde os tempos da antiga Excelsior, adorava as seleções musicais. Com a chegada da CBN, Nilzinha sentiu-se saciada sua necessidade  pelas notícias do cotidiano. 

Uma de suas paixões é o Jornal da CBN. Acorda às seis da manhã, com o Mílton e a Cássia, que teve o prazer de conhecer pessoalmente. 

No rádio, segue até o Noite Total e só dorme depois de ouvir a Tânia Morales, por quem também tem carinho especial. Fernando Andrade, Tatiana Vasconcelos, Pétria Chaves …  são outros companheiros sobre os quais ela fala com admiração.

O rádio passeia por todos os cantos da casa. Onde ela vai, ele está. 

A atenção só fica dividida enquanto conta os pontinhos do tricô, um hábito que mantém desde os 20 e poucos anos. E do qual tricota roupas infantis maravilhosas. As roupinhas de bebê são puro encanto. 

Hoje, por conta da baixa visão, tricotar se transformou em mais um desafio, vencido dia após dia. Da vida,  dona Nilzinha nada tem a pedir. É só gratidão.

Nilza Barbosa Lima e a filha Eliana Lima são personagens do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog agora: miltonjung.com.br

Onze de setembro: a necessidade de se investir na reportagem

Foto Wikipedia

(4a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro)

ÚLTIMA PALAVRA

Duas guerras de cobertura global se seguiram ao atentado de 11 de setembro, uma no Afeganistão, outra no Iraque. Em ambas, o rádio brasileiro ficou à mercê dos meios de comunicação estrangeiros. As imagens das emissoras de televisão e as informações emitidas pelas agências internacionais municiaram o noticiário. Nossos homens não estava, no campo de batalha, mas diante do aparelho de TV. para consertar os desvios provocados pela visão tendenciosa da cobertura restou a permanente discussão com “especialistas”— que poderia ser alguém dotado de excepcional saber ou um palpiteiro de plantão, dependendo da qualidade da agenda do produtor.

Da batalha contra Osama bin Laden, em 2001, para a que derrubou Saddan Hussein dois anos depois, os brasileiros se beneficiaram em parte pela presença de um repórter de língua portuguesa, em Bagd. Carlos Fino foi o correspondente da RTP – Rádio e Televisão Portuguesa — e, graças ao acordo que essa emissora pública mantinha com a TV Cultura de São Paulo, suas reportagens eram reproduzidas no Brasil. Logo, o repórter passou  afazer intervenções ao vivo, que chamaram a atenção das rádios, todas atendidas mesmo durante a madrugada de Bagdá. O repórter “sentia que tinha essa obrigação como português falando para um país de língua portuguesa:, como escreve no livro A guerra ao vivo (Verbo, 2003).

Não bastassem a facilidade de comunicação e a presteza em atender aos chamados do Brasil, Carlos Fino foi o repórter que, ao lado do colega da RTP, o cinegrafista Nuno Patrício, anunciou o início da guerra do Iraque, furando as demais emissoras que se preparavam para a batalha contra Sadan.

Os correspondentes de grandes redes dormiam, muito provavelmente por terem confirmação oficial de que os ataques começariam no dia seguinte. Carlos e Nuno, não. Mesmo porque não recebiam informações privilegiadas. O que ninguém imaginava é que o serviço de inteligência americano obteria dados de última hora sobre a presença de Saddan Hussein em um palácio próximo ao hotel em que as equipes de jornalismo se hospedaram. E o início da guerra seria antecipado.

Fino acabara de participar de um program de debates da RTP, Informação Especial Iraque, em plena madrugada, quando os estrondos se iniciaram. Fez novo contato pelo videofone – um computador que processa sinais de vídeo da câmera antes de introduzi-los no telefone por satélite — para avisar dos bombardeios. A primeira reação dos jornalistas na redação de Lisboa foi de dúvida: “não pode ter começado, a CNN não está dando anda”. A CNN dormia e Carlos Fino teve de convencer o pessoal para ir ao ar com um “furo” internacional, destacando na época apenas no Brasil. Em conversa informal, após entrevista sobre a participação dele na guerra, Fino me contou o caso e brincou: “se é na BBC e o repórter diz que chove canivete, a redação acredita, mesmo que faça sol do lado de fora”. Para ele, a última palavra é do repórter.

A história de um jornalista de televisão talvez não seja a ideal para encerrar um livro que se propõe debater o radiojornalismo. Mas a ideia não me incomoda, já que as bases para um trabalho ético e de qualidade são as mesmas, esteja em qual veículo estiver. No entanto, vou aproveitar um caso que aconteceu no rádio e ilustra bem a necessidade de se investir na reportagem.

Em 2 de outubro de 1992, véspera da eleição no Brasil, houve rebelião de presos do Pavilhão Nove, da Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. A polícia invadiu o local e ao sair deixou 111 pessoas mortas. História contada com a sensibilidade da escrita do doutor Dráuzio Varella e da criação do cineasta Hector Babenco e em centenas de artigos, reportagens, livros, além de uma peça jurídicas que mostra com detalhes e laudos os fatos ocorridos naquela que a princípio seria apenas uma uma sexta-feira, no maior complexo penitenciário da América Latina.

O “Massacre do Carandiru” somente se tornou conhecido no dia seguinte quando a eleição para prefeito e vereador já havia s iniciado. A “operação abafa” montada pelo sistema de segurança do estado de São Paulo fez com que muitos repórteres levassem para a redação a notícia de mais uma rebelião, com a morte de oito pessoas, provocadas pelo confronto entre detentos, rotina em uma prisão que reunia 7.200 presos. A farsa começou a ser desvendada na madrugada de sábado, quando chegaram informações, por telefone, ao setor de apuração da rádio CBN, que levaram a emissora a enviar o repórter de plantão para o Instituto Médico Legal. Lá, em conversa com funcionários, o jornalista Cid Barbosa soube da existência de dezenas de corpos de presos assassinados na invasão da Política Militar. Uma realidade até então escondida que, na maior das vezes, apenas o repórter em campo é capaz de descobrir.

Pelos dados coletados era possível afirmar que o número de mortos Carandiru superava oitenta. Ligou para a redação anunciando o “furo” jornalístico. A informação foi questionada. Relutou-se para levá-la ao ar., Ninguém havia levantado aquela hipótese até então. Por ninguém, quando se trata de jornalismo brasileiro, se entenda Rede Globo de Televisão. Cid disse que suas fontes eram seguras, não havia do que duvidar.

A notícias foi ao ar., Antes, porém, houve mais uma checagem. A CBN foi responsável pelo  “furo”, mas pouca gente ouviu. Na época, a rádio era uma emissora nova, mal havia completado um ano de vida e nao tinha expressão no cenário nacional. Em pouco tempo, o fato se espalhou nas demais redações e o “Massacre do Carandiru” virou manchete.

Apuração da notícia e o comedimento são fundamentais para quem pretende fazer jornalismo com credibilidade; são princípios dos quais não se pode abrir mão. A construção da imagem de uma emissora de rádio depende da confiança que o ouvinte tem em seus profissionais. Ele não acredita em quem erra e não assume o erro.

Colocar em dúvida uma informação é ferramenta a ser usada pelo profissional em qualquer situação. O bom jornalista desconfia, pergunta, pauta, confirma e volta a desconfiar, até ter certeza de que tem para oferecer ao seu público a verdade — pelo menos a verdade possível até aquele momento.

A reação das redações tanto à notícia do início da guerra do Iraque quanto ao número de mortos no Carandiru serve para uma reflexão sobre o papel da reportagem no radiojornalismo.

As emissoras não podem dispensar o trabalho do repórter, por maior que seja o número de fontes e mecanismos de informação à disposição no mercado. Não inventaram, ainda, qualquer máquina em condições de substituir o repórter na rua — mesmo que os avanços tecnológicos nos permitam ver em tempo real imagens dos principais acontecimentos no mundo, como ocorreu em 11 de setembro de 2001.

O repórter deve ser a figura central ans empressa de comunicação. Nele está a síntese do que se espera de um profissional que trabalha com radiojornalismo: um bom observador; capaz de encontrar fatos novos mesmo nos casos corriqueiros, preparado para transmitir com clareza e precisão; equilibrado principalmente quando em situação de estresse ou de extrema emoção; e pronto para ouvir o cidadão, seja na rua, na guerra, na prisão, ou no telefone que não para de tocar na redação.

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Onze de setembro: o ataque no quintal de casa

Foto: Michael Foran/Wikipedia

(4a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro)

COBERTURA CONTAMINADA

A jornada de 11 de setembro não se encerrou, Nos dias seguintes, o desafio foi encontrar uma abordagem diferente para o tema. No cotidiano da redação, ser criativo na forma e no conteúdo são tarefas obrigatórias, apesar de muito do que se ouve por aí não passar de reprodução do que se lê ou vê. Do ponto de vista prático, pouco mudou após o atentado. Reportar, produzir, editar, redigir, apresentar, entrevistar e comandar. Tudo continuou sendo necessário para se fazer o rádio que atenda às expectativas dos ouvintes.

Do ponto de vista filosófico, foi necessário repensar a forma de cobrir o noticiário nos Estados Unidos e nas demais nações que se envolveram no embate internacional. Reavaliar o comportamento da mídia, à medida que a crítica, cega pelo preconceito, impediu que se enxergasse no horizonte a construção um terreno fértil ao fanatismo e à prepotência.

A programação retornou ao ritmo normal, mas estilhaços das explosões provocadas pelo choque dos aviões atingiram as empresas jornalísticas, principalmente, as americanas.

A liberdade de expressão passou a ser questionada por segmentos da sociedade. Cobrou-se postura patriótica, conceito que tende a ir de encontro à ideia do respeito à pluralidade e às diferenças de opiniões, premissas do jornalismo de excelência. Quem pede patriotismo quem mesmo é patriotada.

Essa já é antiga, mas vale chamar atenção: o que vai de encontro, vai no sentido oposto, choca-se; o que vai ao encontro, vai de acordo. A confusão é muito comum, mesmo entre pessoas mais esclarecidas. Ouve-se a troca, principalmente, durante entrevistas e o jornalista deve estar atento porque se a correção não for feita imediatamente, a informação chegará errada ao ouvinte. Se um ministro de Estado disse que o pensamento dele vai ao encontro do que pensa o presidente, nada mais óbvio. Se ele disser que o pensamento vai de encontro com o do presidente, vira notícia.

O noticiário foi contamino pelos atentados em Nova York e Washington. A maioria das informações que chegou do exterior às redações brasileiras tem como origem agências americanas. Um motivo de preocupação para quem tem a responsabilidade de selecionas as notícias internacionais. Aumenta, assim, a necessidade de se buscar fontes independentes. É possível encontrá-las e a internet está para ajudar.  A presença de correspondentes nos Estados Unidos e na Europa ajuda nesse processo de depuração. Deles se exige olhar crítico e diferenciado em relação à notícias, repercutindo os fatos a partir de histórias com as quais os brasileiros se identifiquem. Precisam sair da frente do computador out da televisão. Devem andar nas ruas, ouvir as pessoas, entender o que move aquela cultura para que sejam capazes de traduzir esses sentimentos.

Infelizmente, no rádio brasileiro até a cobertura do noticiário da América do Sul é esporádica, com repórteres sendo enviados para saber o que acontece com os nossos vizinhos apenas em situações especiais. Uma das alegações para não manter correspondentes internacional é que o rádio é um veículo de características locais, fala com a comunidade mais próxima. O ouvinte etsaria mais interessado em saber qual o melhor caminho para escapar do congestionamento do que descobrir o rumo a ser tomado pela humanidade a partir de tragédias como a vivida pelos americanos.

Uma verdade não se sobrepõe à outra. E, para mim, a sensação ao ver os aviões se chocando contra os prédios em Nova York era a de que o atentado acontecia no quintal de casa.

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Onze de setembro: eram todos jornalistas

Foto Site CBN: DOUG KANTER / AFP

3a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

TODOS FALAM 

O primeiro prédio do World Trade Center, a torre sul, despencou às 10h59. Falávamos dos ataques há cerca de uma hora. Foi chocante. Naquele momento desabava a ingênua esperança de que as pessoas teriam a chance de escapar com vida, apesar de tudo. Há vinte minutos havíamos noticiado que o terceiro avião – um Boeing 757 da American Airlines – havia sido jogado sobre o Pentágono. Desse não se tinha imagem, a informação chegou pelas agências de notícias. Nem sempre é preciso ver para crer. 

No estúdio da CBN, em São Paulo, havia um número excepcional de pessoas. Ninguém mais era repórter, produtor, chefe de redação ou diretor de jornalismo. Todos eram jornalistas em busca de informação e quem a encontrasse levava ao ar. 

A estrutura do rádio não admite que os profissionais atuem de maneira segmentada. Não existe mais a figura do redator que só sabe escrever ou do locutor que só sabe ler – pelo menos, não deve existir. Os profissionais de rádio têm de dominar todas as áreas e, principalmente, saber falar ao microfone. Não há necessidade de ser um “Cid Moreira”, mas precisa ter capacidade de se expressar.

Na cobertura do 11 de setembro, profissional que estava em casa e tinha a oportunidade de apurar informação por algum canal de televisão a cabo, ou de conversar com conhecido nos Estados Unidos, ligou para a rádio. Às vezes, a notícia já havia sido transmitida; noutras, serviu de subsídio para o âncora. Em algumas situações, o próprio “informante” foi ao ar. 

Quando está na rua, o jornalista de rádio deve ligar para a emissora a qualquer instante para relatar um acontecimento, mesmo que no seu crachá apareça o cargo de apurador, redator ou editor. Pode ser o trânsito complicado em uma rua importante, a movimentação policial em um bairro, ou um prédio desabando em Nova York após ataque terrorista. 

AGENDA EM PUNHO 

A imagem do prédio transformado em poeira ainda enchia a tela da televisão quando se recebeu a notícia de que os ataques não haviam parado. Mais uma vez sem imagens, apenas as fontes a nos municiar de informações. Uma hora e catorze minutos depois de ter se iniciado a transmissão do atentado, um quarto avião é jogado ao solo. Um 757 da United Airlines que havia caído em uma área de pouca concentração urbana, Shanksville, na Pensilvânia. Não se sabia o destino que os sequestradores pretendiam dar a esse Boeing. Poderia ser a Casa Branca ou Camp David. 

Apesar da sequência dos fatos, ainda não se tinha a dimensão exata da tragédia. Produtores checavam as agendas em busca de nomes que pudessem ir ao ar para ajudar a entender o que acontecia. Ter o número de telefone de acesso direto das fontes é importante para exercer a função. Uma boa agenda se constrói com o tempo e, por isso, precisa ser iniciada o mais cedo possível, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. 

Leia publicações especializadas e artigos assinados de jornais e revistas, navegue com frequência pela internet e preste atenção nos personagens citados no noticiário. Sempre que uma pessoa surgir em destaque, anote o nome dela para em seguida procurar o número do telefone. Em pouco tempo, você terá um banco de dados invejável que lhe dará agilidade no trabalho. Nenhuma notícia vai pegá-lo de surpresa, nem mesmo um ataque ao símbolo da prepotência americana. 

SUBSTITUIÇÃO NA EQUIPE 

A cobertura do atentado era ininterrupta. Não havia nada mais a fazer, a não ser acompanhar um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade. Espaços comerciais foram abolidos. A grade de programação, esquecida. O CBN São Paulo se transformara em Rede CBN Brasil. Por falar nisso: e aquele programa que havia sido discutido no início da manhã? 

Em meio ao trabalho de apurar informações e encontrar fontes que pudessem ajudar a entender o quebra-cabeça desmontado diante de nossos olhos, havia a necessidade de desmarcar as entrevistas agendadas. O produtor tem de estar sempre em contato com as fontes e, em caso de mudança de pauta, não pode esquecer de explicar o motivo pelo qual a entrevista não será feita. Uma questão de respeito. É preciso lembrar, também, que amanhã não haverá atentado e você há de precisar daquele entrevistado. Algumas pessoas reclamam quando são informadas de que a entrevista não será feita. Se sentem desprestigiadas ao serem substituídas por outras ou porque o jornalista avaliou haver assunto mais importante. Seja como for, melhor avisá-la do que deixá-la esperando. 

Naquela situação, não foi tarefa difícil justificar o porquê da entrevista ter sido desmarcada. As próprias fontes estavam muito mais interessadas nas informações do atentado. 

PAUTA EM ABERTO 

O ataque às torres gêmeas em Nova York e ao Pentágono, em Washington, não estavam na agenda de nenhum produtor. A não ser na do pessoal da Al-Qaeda. E estes não enviaram assessoria de imprensa para avisar as redações. Tais atentados sequer faziam parte de algum planejamento estratégico de cobertura jornalística. Portanto, os meios de comunicação foram surpreendidos e tiveram de adaptar a programação à nova realidade. 

Uma das características dos programas jornalísticos ou dos radiojornais em emissoras que se dedicam 24 horas à notícia é a existência de um roteiro sempre aberto. A entrevista e reportagem discutidas antes de a edição ir ao ar podem cair no minuto seguinte. Melhor que caiam, se em seu lugar entrar assunto mais recente, mais “quente”. Pauta boa é pauta nova. 

A participação de um repórter é suficiente para pautar o restante do programa, basta que a informação seja significativa. Nesse caso, âncora, produtor, assistente de estúdio e operador de áudio têm de estar atentos ao relato da notícia. Procurar alguém que acrescente dados à informação e fazer contato com quem tenha sido alvo de críticas são compromissos dos quais o jornalista não pode abrir mão. No primeiro caso, agrega valor ao trabalho do repórter. No segundo, atende à exigência ética de quem se propõe a fazer bom jornalismo. 

O chefe de reportagem e o próprio repórter devem sugerir o desdobramento do assunto. Do estúdio, por telefone, pode-se conseguir alguém que a equipe na rua não tenha acesso. A declaração de um entrevistado feita no programa pode ser editada, posteriormente, e usada pelo repórter para fechar a reportagem. 

Leve em consideração que a pauta que vem da rua pulsa mais do que a elaborada na redação. Quem pode ser melhor pauteiro do que o repórter? O jornalista Afonso Liks, com quem trabalhei na redação do SBT, em Porto Alegre, costumava dizer que “a boa pauta está na rua da Praia”. Alusão à rua mais popular da capital gaúcha e à necessidade de os jornalistas andarem por lá, atentos ao comportamento e comentário das pessoas. 

Nada pior para a qualidade de um programa de rádio do que o produtor se considerar satisfeito porque antes de entrar no ar já fechou todas as entrevistas e sabe quais as reportagens que serão publicadas. Este, muito provavelmente, será um programa chato, modorrento e sem novidade.

Existem compromissos que devem ser cumpridos no decorrer de um programa, como a saída para os blocos locais ou de comerciais e a participação de comentaristas. Respeitar o horário colabora com a organização da emissora, principalmente se a rádio participar de uma rede, e acostuma o ouvinte que procura assuntos específicos na programação. Mas essas regras não podem engessar o programa, e o jornalista tem de estar sempre atento para saber quando transgredi-las em nome da agilidade do radiojornalismo. 

Imagine o que pensaria o ouvinte se a rádio decidisse interromper a cobertura do atentado nos Estados Unidos para chamar o bloco de esporte. 

HORA CERTA 

O presidente dos Estados Unidos em exercício, George W. Bush, estava em uma escola secundária na Flórida, diante de alunos, no instante em que os ataques se iniciaram.Retirado de lá sob forte esquema de segurança e levado para a base aérea do estado do Nebraska, meio-oeste americano, às 10h30 o presidente fez seu primeiro pronunciamento. Bush, visivelmente abatido, admitiu que o país havia sido vítima de ataque terrorista e lamentou a tragédia do World Trade Center. Naquele instante, o Pentágono ainda não havia sido atacado. 

Quando a fala do presidente americano se iniciou, estávamos com um comentarista no ar que, imediatamente, foi interrompido. Nenhuma outra informação era mais importante naquele momento. O discurso em inglês foi reproduzido na íntegra para, em seguida, ser resumido em português, no estúdio. 

No rádio deve se evitar o uso de entrevistas em língua estrangeira, pois não se tem o recurso da legenda. A tradução simultânea fica prejudicada pela mistura do som original com a voz do tradutor. E deixar para traduzir depois atrapalha a dinâmica do programa. No caso de a entrevista ser imprescindível, prefira o espanhol e o português de Portugal, recomendando ao entrevistado que fale devagar e o mais claramente possível

O programa de rádio tem de ter agilidade para mudar de assunto sempre que os acontecimentos assim o exigirem. Caso a entrevista tenha se iniciado há pouco tempo e algo urgente ocorra, o âncora deve explicar a situação no ar para o convidado, desculpar-se gentilmente, prometendo voltar ao tema em breve.  Não se pode deixar para depois a notícia que se tem agora. 

No rádio, ao contrário do jornal e da televisão, não existe deadline. Não se sai à rua com o objetivo de entregar material pronto ao fim do expediente. O prazo para o fechamento é determinado pela importância da notícia. Esperar o fim da entrevista coletiva para divulgar a informação que pode ser reproduzida ao vivo é um desserviço ao público. O repórter deve publicar o fato conforme este for apurado, ressaltando que outras fontes serão ouvidas no decorrer da programação. Ao concluir a reportagem, entrega o material consolidado para o editor. 

Deadline é a hora em que o jornalista tem de entregar a reportagem na redação do jornal ou televisão. Leva em consideração o tempo para a edição do material e sua publicação. Originalmente, a expressão inglesa significa a linha em volta de uma prisão além da qual um prisioneiro poderia ser abatido a tiros. Por descumprir o prazo, muito colegas já foram abatidos nas redações, não, necessariamente, a tiros.

Essa característica do rádio impõe um desafio sério, porque as decisões editoriais que levam à publicação de uma notícia são tomadas a todo instante. Na redação de um jornal, as reuniões de pauta e fechamento permitem reflexão mais profunda sobre os temas. Uma determinação errada tem chance de ser corrigida até o jornal sair da oficina. No radiojornalismo, entre a decisão equivocada e sua divulgação, o prazo é muito curto.

Levado pelo entusiasmo de atender o ouvinte, muita gente boa deu “barrigada, em lugar de “furo”. Apesar da exigência do veículo, é preciso comedimento. Ao ouvinte, mais do que saber antes, interessa saber o certo. Por isso, é fundamental que, para resolver qual informação será divulgada e como será feita a divulgação, o profissional tenha consciência da linha editorial da emissora e os princípios éticos que devem orientá-lo.

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Onze de setembro: no bastidor do rádio

2a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

FOGO NO AR 

A agência internacional acabara de anunciar, em apenas uma linha, o incêndio na torre, em Nova York, provocado pelo choque de um avião, e a Globonews interrompia a programação para reproduzir imagens, ao vivo, da CNN. Pelo canal interno, todas as emissoras da CBN eram comunicadas de que em trinta segundos seria formada rede para notícia extraordinária. Imediatamente, quem estava no ar em Cuiabá, Curitiba, Maringá, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer ponto do país em que houvesse retransmissora da Central Brasileira de Notícias parou a entrevista, a reportagem, seja lá o que estivesse sendo apresentado, para ouvir o Plantão CBN, transmitido do estúdio em São Paulo.

Com base nas primeiras informações, anunciei o incêndio no World Trade Center, imaginando ter sido um acidente de avião ocorrido há apenas dez minutos. Disse que seria um Boeing 737, mas se descobriu em seguida que era modelo 767, duas vezes mais pesado e com quase o dobro de capacidade para transportar passageiros. 

Encerrado o plantão, continuamos em rede descrevendo as imagens. O apresentador da CBN no Rio de Janeiro, Sidney Rezende, passou a dividir o comando da programação. Às 10h03, logo após a leitura do Repórter CBN – síntese noticiosa com duração de dois minutos, que vai ao ar de meia em meia hora –, transmiti, ao vivo, o choque do segundo avião, com a voz revelando o impressionante da cena. 

Até aquele instante ainda era difícil entender o que acontecia à nossa frente. Impossível não se emocionar, porém, com as imagens. Produtores no Rio e em São Paulo já haviam ligado para correspondentes em Nova York, em Washington e na Europa. Apuradores haviam levantado detalhes nas agências. Quem conhecia alguém nos Estados Unidos, correu para o telefone em busca de informação. Na redação, todos os monitores de televisão estavam sintonizados nas emissoras a cabo americanas. O escritório da BBC Brasil também foi acionado. E a cobertura se iniciara há apenas seis minutos. 

DEU NO RÁDIO 

O “espetáculo” do 11 de setembro foi planejado para ser transmitido pela televisão. A diferença de tempo entre o choque de um e outro avião nas torres gêmeas vai ao encontro dessa ideia. O primeiro, da American Airlines, chamou atenção das emissoras americanas que circulam por Nova York com suas equipes móveis de alta tecnologia. Quem anda pelas grandes avenidas de Manhattan se depara a todo o momento com os técnicos, sem a companhia de repórteres, em pequenos e ágeis furgões. Haveria tempo suficiente para se direcionar uma câmera para o prédio que se enxergava de vários pontos da ilha. Daí a facilidade para reproduzir, ao vivo e em cores, o segundo ataques.

O recado enviado pelo segundo avião, o Boeing da United Airlines, era claro. Se alguém não havia entendido até então o que estava acontecendo – e eu, que transmitia tudo aquilo, não entendia mesmo – ali estava a verdade. Um ataque programado para se transformar em fenômeno midiático. A câmera era a única forma de contato do mundo com aquele cenário. A aproximação do local atingido era impossível. Toda e qualquer leitura que se fez naquelas primeiras horas foi construída a partir da imagem. 

Apesar de o episódio ter privilegiado a televisão, como ocorre nos shows de entretenimento, no Brasil, o rádio teve papel importante na cobertura jornalística do 11 de setembro. 

No momento em que o ataque se iniciou, boa parte das pessoas não estava mais em casa. Encontrava-se no carro, a caminho do trabalho, ou havia chegado ao escritório. Nas escolas e universidades, as aulas tinham começado. Muita gente se deslocava a pé nas ruas de comércio. Com esse quadro e com base em análise comparativa da audiência, arrisco dizer que a maioria da população ficou sabendo do atentado pelo rádio. 

Números do Ibope deixam evidente a supremacia da programação radiofônica em relação à televisiva na faixa das nove às dez da manhã. Chega a ser, em média, três vezes maior o número de pessoas que ouvem rádio nesse horário do que os que assistem à televisão. Mesmo no decorrer do dia, o número de ouvintes supera o de telespectadores. Pesquisa do Ibope, citada pelo Jornal do Brasil, mostra que no terceiro trimestre de 2003 os ouvintes foram 2.967.603, enquanto os telespectadores não passaram de 2.408.560, entre seis da manhã e sete da noite, no estado de São Paulo. 

Não tenho dúvida de que, alertado pelo plantão da rádio jornalística da cidade, o ouvinte saiu à procura do primeiro aparelho de televisão que houvesse nas proximidades. Reação provocada em todo o cidadão que, por outros meios de comunicação, até mesmo o telefonema de um vizinho, teve acesso à notícia. Mas, ao encontrar os canais que reproduziam as imagens da CNN para o mundo, esse cidadão se deparou com âncoras, repórteres e comentaristas atuando como se estivessem no rádio. 

Sem acesso à “cena do crime”, a solução foi voltar as câmeras para o local do atentado e, por telefone, conversar com pessoas que escaparam do prédio em chamas, acionar correspondentes internacionais, entrevistar especialistas, falar com autoridades políticas e policiais em uma linguagem muito próxima à do rádio. 

Os programas jornalísticos na televisão não têm humildade suficiente para aceitar o uso do telefone como meio de informação. Um repórter que esteja diante da notícia, mas sem uma câmera, terá dificuldade de convencer o editor de que o fato deve ser transmitido, apesar da falta de imagem. Foi com o surgimento das emissoras de notícias 24 horas, como Globonews e Bandnews, que esse formato passou a ser aceito na TV brasileira, apesar de ainda encontrar muitas restrições. Antes disso, repórter ou entrevistado falando por telefone era cena rara na televisão. 

Por mais fascinante que seja a TV, fenômeno de massa de enorme impacto na sociedade, a imagem por si só não informa. É perigosa a ideia de que a câmera aberta diz tudo. De que o cidadão não carece de um intermediário para explicar o que vê. Precisa, sim. A reflexão, o questionamento e a apuração dos fatos são imprescindíveis para que o processo de comunicação se complete. Jornalistas e público não podem se tornar reféns da imagem. 

O rádio contou para as pessoas o que acontecia no 11 de setembro e elas foram ver na televisão. Encontraram seus apresentadores favoritos fazendo rádio, apesar da imagem. E que imagem. 

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Onze de setembro: uma cobertura de rádio

Com a proximidade dos 20 anos do “Atentado de 11 de Setembro”, reproduzo nesses próximos dias trechos do último capítulo do livro “Jornalismo de Rádio”, que lancei em 2004, com publicação pela Editora Contexto. Da primeira notícia que levei ao ar, em plantão, à cobertura internacional que tivemos de planejar ao longo daquele dia, conto algumas curiosidades e aproveito para ilustrar com os acontecimentos de bastidor a incrível dinâmica de uma redação e de um programa de rádio.

Foto: Wikicommons

O DIA QUE NÃO ACABOU 

“São 9 horas e 56 minutos. Um avião bateu nas torres do World Trade Center há poucos instantes, em Nova York. O prédio está pegando fogo. De acordo com informações de uma testemunha ocular, teria sido um Boeing 737, mas esta informação ainda não foi, oficialmente, confirmada. Daqui a pouco, traremos outras informações sobre este acidente: um avião bate em uma das torres do World Trade Center, em Nova York” 

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro parágrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos antiamericanos. 

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama bin Laden e pela Al-Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol – sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na notícia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN. 

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa: “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária – prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou. 

MAIS UM DIA DE TRABALHO 

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade – este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jorna diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva-voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam estar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estava fechado — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostas. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta.

Os comentaristas tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Teaser é um pequeno trecho de entrevista, normalmente de dez segundos, que pode ser usado como destaque durante a programação ou para ilustrar um tema discutido no programa. Cabeça é nome de batismo do texto que serve para chamar uma reportagem, geralmente redigido em cinco ou seis linhas, que apresenta o assunto ao ouvinte.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que influenciam com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro. 

À minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção. Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. 

Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001. 

Ouça o Plantão CBN que marcou o início da cobertura dos atentados, nos Estados Unidos:

Leia ONZE DE SETEMBRO: UMA COBERTURA DE RÁDIO

Leia ONZE DE SETEMBRO: NO BASTIDOR DO RÁDIO

Leia ONZE DE SETEMBRO: ERAM TODOS JORNALISTAS

Leia ONZE DE SETEMBRO: O ATAQUE NO QUINTAL DE CASA

Há 99 anos, o Brasil olhava para o futuro.

imagem arquivo, autor desconhecido

Imagine-se visitando uma dessas feiras de informática. Centenas de pessoas cruzando os corredores e você lá no meio, com os olhos arregalados para os equipamentos de última geração, duvidando que um dia se tornem acessíveis ao público.

Lembro do sucesso que fez a edição do Jornal 60 Minutos, da TV Cultura de São Paulo, quando durante a transmissão conversei ao vivo, através de um videofone, com um repórter que participava de uma exposição de tecnologia. O equipamento era novidade, isso pouco antes do fim do século XX.

Cito essa passagem para convidá-lo a voltar quase um século no tempo e se pôr no lugar das pessoas que, em 7 de setembro de 1922, tomaram as dependências do pavilhão da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. O ambiente era festivo, o país comemorava o centenário da Independência. Pelos alto-falantes era possível ouvir transmissões feitas à longa distância, sem fio – ou wireless, para usar expressão da moda. O mesmo som chegava a receptores espalhados em outros pontos da Capital Federal, além de Niterói, Petrópolis e São Paulo.

Roquette-Pinto esteve por lá e se encantou com o que ouvia, apesar de ser ruim o som que saía dos alto-falantes instalados na exposição. O barulho era infernal, com muita gente falando ao mesmo tempo, e a música e os discursos reproduzidos arranhavam os ouvidos. No meio da multidão também estava Renato Murce, que dedicaria a vida ao rádio. No depoimento registrado no livro Histórias que o rádio não contou (Harbra,1999), de Reynaldo C. Tavares, Murce afirma ter percebido logo que algo novo surgia. Menos preocupado com a confusão, viu a curiosidade e a desconfiança dos rostos ao redor.

A primeira pessoa que falou ao microfone de rádio, em uma estação instalada no Sumaré, pela Western Eletric, foi o presidente Epitácio Pessoa. E o povo, que se juntava na exposição do centenário, uma multidão incalculável, era pior do que São Tomé. Estava vendo, ouvindo e não acreditando. Como que em um aparelhinho, pequenino, lá longe, sem nada, sem fio, sem coisa nenhuma, podia ser ouvido à distância? E ficava embasbacado. Mas não nasceu para o Brasil propriamente o rádio, porque não havia ainda quase nenhuma rádio receptora. Era de galena, muito complicado. E quase ninguém podia ouvir a não ser aqueles que estivessem ali presentes. E os que ouviram, ouviram o Guarani, de Carlos Gomes, irradiado diretamente do Teatro Municipal. Esta foi a primeira experiência do rádio no Brasil.

(os negritos são do autor do blog)

Vale ressaltar: há quem defenda que a primeira emissora do Brasil foi a Rádio Clube de Pernambuco, fundada por jovens do Recife, em abril de 1919. Apesar de os registros mostrarem que a experiência estava mais próxima da radiotelefonia, não deixe de citar o fato, principalmente se falar de rádio por aquelas bandas. A propósito, como veremos a seguir, a história da radiodifusão é marcada por dúvidas e controvérsias.” (from “Jornalismo de rádio” by Milton Jung)

O texto acima foi escrito originalmente para o livro Jornalismo de Rádio, que lancei em 2004, pela editora Contexto. Lembrei-me dele, hoje cedo, quando iniciamos a transmissão do Jornal da CBN, neste 7 de setembro, dia em que parcela da população sai às ruas, de São Paulo e Distrito Federal, especialmente, para defender o presidente Jair Bolsonaro. Se no centenário da Independência, o Brasil olhava para o futuro. A um ano do bicentenário, temos um presidente que nos leva a olhar para o passado.

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Evite palavras que imobilizam o ouvinte como abscôndito fez com o poeta

Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

“Tão comodamente que estava lendo, como quem viaja num raio de luz, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO … Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se porta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: FOGO!”

Em “Trágico acidente de leitura”, Mário Quintana descreve, de forma tanto criativa quanto irônica, o seu espanto diante de palavra pouco comum para seu vocabulário —- e, pense comigo, para um poeta com a riqueza vocabular de Quintana se espantar com alguma palavra …  meu Deus! No caso dele foi “abscôndito”, que o Aurélio diz ser aquele “cuja identidade ou procedência não se quer mostrar; escondido”. No meu caso, sem a riqueza do mestre e com uma enorme implicância adquirida ao longo da carreira, encaro constantemente momentos como os relatados pelo poeta. É na leitura dos jornais ainda na madrugada, é no texto da redação do rádio logo cedo, é na audição das reportagens, é na televisão que tenta tirar minha atenção enquanto apresento o programa. Nos e-mails, releases e mensagens que chegam pelas mais diversas fontes.

Minha implicância não é com abscôndito —- que não aparece no noticiário por nossa total falta de competência —-; é com coisa bem mais simples e tão incompreensível quanto. Diante dos números absurdos da Covid —- de infectados, de mortos, de vacinas e de dinheiro roubado —-  e, provavelmente, em busca de alguma variante para o honesto “quantidade”, tão bem aprendido na escola, decidimos introduzir o “quantitativo”. Até sei de quem é a culpa. É dessa turma de mentirosos e enrolados que se apresenta na CPI da Covid. Acusados, eles atacam com “quantitativos”. Os acusadores não se dão por rogados, e devolvem na mesma moeda. Nós jornalistas, de ouvidos atentos a tudo que acontece por lá, concluímos o serviço repetindo a expressão, sem pestanejar. 

Fico eu pensando no seu Zé, lá da padaria, que todas as manhãs ouve a turma pedindo pão cacetinho. Ops, perdão, isso a gente só pode falar lá no sul. Aqui em São Paulo, é pão francês, mesmo que o padeiro seja de origem lusitana. Mas vamos ao que interessa: será que o seu Zé, alguma vez na vida, quando o freguês chegou pedindo o pão francês, contra-atacou com um insólito: “qual o quantitativo de pães que o senhor deseja?”. Claro que não, seu Zé fala a língua do freguês. Então, por que nós jornalistas preferimos falar a dos acusados?

Quantitativo à parte, a tristeza do vocabulário jornalístico não tem limite. A cada dia sofremos ‘momentos de imobilidade e apreensão’ diante de palavras ditas sem pensar. Palavras e expressões.

Recentemente sofremos com a pandemia do ‘novo coronavírus’ —- que um ano e meio depois, já com nome, sobrenome e apelido, segue sendo “novo”. A variante dessa expressão migrou para o campo do comportamento: o “novo normal” — que  costuma ser acompanhado por um lugar comum dos mais miseráveis que ocupa espaço em textos e manchetes: “nestes tempos de pandemia …’.

Tem coisa sendo digitada e reproduzida por aí, que me incomoda muito mais. O verbo disponibilizar, com todos os seus dês e bês, mesclados de instigantes is, é das palavras mais lindas do ponto de vista estético, da língua portuguesa. Hipopótamo, recôndito e proparoxítona talvez se encontrem no mesmo nível de beleza, sem contar que ao serem ditas enchem a boca de sonoridade. A despeito de sua arquitetura, disponibilizar não é verbo conjugável na língua popular. 

Lembro sempre de recomendação do amigo e jornalista Afonso Licks, com quem trabalhei em Porto Alegre: não tem pauta se não estiver na rua da Praia. A tal rua, batizada oficialmente de Rua dos Andradas, nasceu com a capital gaúcha. É a mais popular, apesar de ter perdido parte de seu charme com os centros comerciais. É lá que o povo anda. E Afonso defendia que assunto que interessa ao povo que anda na rua da Praia é assunto que tem de estar na nossa pauta. Usurpei da lógica “afonsiana” para pensar sobre o vocabulário jornalístico, em especial no rádio: não existe vocabulário se não estiver na rua da Praia.

Digressão feita, volto ao verbo disponibilizar que tem aparecido com exagerada frequência no noticiário em lugar de palavras bem mais acessíveis como oferecer, conceder e apresentar. Os governos não oferecem mais nada, só disponibilizam. Arquivos públicos também são disponibilizados, nunca estão acessíveis. A loja não vende produtos, os disponibiliza aos clientes. Pense comigo, na rua da Praia, na do Brás, no Saara ou no Mercado Modelo será que as pessoas disponibilizam alguma coisa para as outras, ou vendem, ou oferecem, ou dão? 

Sei que temos o dever de enriquecer o vocabulário, mas não elitizá-lo ou, ainda pior, desvirtuá-lo e reinventá-lo. Precisamos ouvir a rua, dar um trato na palavra, consertar seus erros e disponibilizá-la … ops, perdão …devolvê-la mais bem elaborada colaborando com a cultura nacional. 

Ditos e malditos nos bastidores do rádio, e dos quartéis, também

General Braga Netto Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Acordamos sob a ameaça da manchete do Estadão de que o Ministro da Defesa Walter Braga Netto mandou recado para o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de que sem voto impresso não terá eleição, em 2022. A mensagem teria chegado ao parlamentar, no dia 8 de julho, através de um importante interlocutor político —- que não teve nome identificado:

“A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição”

A apuração das repórteres Andressa Matais e Vera Rosa lembra que na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro, fez ameaça semelhante, explícita e pública, em conversa com os que vivem no cercadinho do Palácio:

“Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

No vocabulário bolsonarista, eleição limpa é com voto auditável e voto auditável é voto impresso —- uma falácia, como bem sabem todos os supostos hackers de urnas eletrônicas. 

O fato é que quando se acorda com uma notícia dessas, o Jornal vira de cabeça pra baixo. O que era prioridade na pauta, perde espaço. O que anunciamos na abertura, corre o risco de ser deixado de lado. A entrevista previamente marcada cai —- jargão que costumamos usar quando algum assunto agendado deixa de ir ao ar. No rádio, assim como na padaria, o freguês quer “pão quentinho”; se sintonizar e encontrar pão amanhecido — ou notícia velha —-, troca de padeiro

E na nossa padaria, enquanto aos apresentadores cabem relatar os fatos, contextualizá-los e mantê-los atualizados; aos produtores, resta a ingrata função de encontrar alguma fonte disposta a tratar do tema. Ao mesmo tempo, repórteres saem em busca de confirmações e comentaristas reordenam seus argumentos para avaliações. Foi o que fizeram Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, na manhã desta quinta-feira. 

Sardenberg aproveitou as trocas que o presidente Jair Bolsonaro anunciou que fará no seu ministério para mostrar duas facetas deste governo: a entrega da gestão para o Centrão ( “… não sobra um meu irmão”, disse um dia o general Augusto Heleno) e a ameaça constante ao Congresso e à democracia. Miriam, que há algum tempo alerta para os riscos de a política entrar nos quartéis, disse que os sinais de golpe estão muito claros e “só não os teme quem não conhece a história do Brasil”. Aliás, Miriam também comentou que provavelmente todos os envolvidos negariam a existência dos fatos.

Sequer havia se encerrado o Jornal da CBN e o presidente da Câmara Arthur Lira já negava a existência de qualquer ameaça por parte do Ministério da Defesa e de ter tido alguma conversa com o presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto —- informação publicada pelo nosso colunista e de O Globo Lauro Jardim. Não demorou muito para o ministro Walter Braga Netto — que vinha sendo procurado para falar do assunto desde a segunda-feira — acusar de invenção a reportagem do Estadão

Convenhamos, todos cumpriram o seu papel. 

Até porque é assim que as ameaças funcionam: 

O emissor diz o que quer dizer com todas as palavras para que o seu dito seja bem dito; assim que o dito é revelado, volta para dizer que tudo é resultado de algo maldito, de jeito que até a coisa propriamente dita comece a desconfiar que não foi propriamente dita. 

(com a inspiração de Mário Quintana)

Dito isso, lá estávamos nós com a massa no forno tendo de trabalhar com os novos ingredientes. E se os personagens diretos do tema não queriam se pronunciar em viva voz, precisávamos encontrar pessoas relevantes e conhecedoras dos bastidores políticos e militares para ajudar o ouvinte a entender o que acontecia no país.

Foi, então, que chegamos no ex-ministro e general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que ocupou o cargo de secretário de Governo de Jair Bolsonaro — a quem inadvertidamente apresentei como sendo Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa. Por que fiz isso? Porque na distância do estúdio para a minha casa, percorrida pelo WhatsApp, entendi o dito errado e cometi o maldito erro. Isso tudo dito para também descrever como as coisas se desenrolam nos bastidores de um programa de rádio até se chegar a alguém relevante para que o pão quente seja servido ao ouvinte.

No caso, o general da reserva que, com a experiência de quem já circulou nos gabinetes da política e nos corredores dos quartéis, disse que não vê risco de golpe, mas que devemos estar preocupados:

“Não é possível que num país como o Brasil tenha esse tipo de blefe” 

Ouça a entrevista completa com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz no Jornal da CBN:

Em busca de uma vacina para fake news

Foto de Kaboompics .com no Pexels

Fake news está moda. Tá na boca de todo mundo. Tá na troca de mensagens pelo WhatsApp, e nada de braçada no Telegram — a plataforma preferida dos terraplanistas. Tá em discussão nas redações e em estudos na academia. Tá sendo usada por muita gente. E abusada, enche a nossa paciência. Quinta passada conversei com estudantes e eles queriam saber minha opinião. Quarta que vem, voltarei ao tema em congresso virtual. Dia desses apareci no ClubHouse, e tome fake news —- ops … e tome discussão sobre fake news.

É um fenômeno sobre qual falamos muito e entendemos pouco. Verdade que bem mais do que há alguns anos quando foram fortes suficientes para desestabilizar candidaturas —- haja vista o que fizeram com Marina Silva, em 2014 — e robustecer candidatos — como no fatídico 2018. Atualmente, assistimos ao estrago que faz na saúde pública, enfraquecendo o combate à Covid-19 e fortalecendo a desconfiança sobre as vacinas. É assassinato em primeiro grau.

De minha parte, que não gosto de modismos na comunicação,  tenho batido na mesma tecla, a começar pelo esforço em desconstruir a farsa que está estampada no nome próprio do crime. Você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, já deve ter lido por aqui o que se transformou em meu mantra pela informação saudável: 

“se é fake, não é news, se é falso, não é notícia; é falcatrua! O princípio da notícia é a busca da verdade; da falcatrua, é a entrega da mentira.”

Ao longo do tempo, fomos aprendendo a lidar com a desinformação, especialmente aquela manipulada pela autoridade constituída. Porque uma coisa é o seu vizinho fofoqueiro dizendo mentiras sobre sua vida; mas quando o mentiroso tem status e mandato, o crime é federal e precisa ser combatido de forma estratégica. 

Há quem defenda que não devemos sequer noticiar o absurdo. O problema é que autoridade que mente é notícia. Acreditamos que desmentir a autoridade com nota pé na reportagem fosse suficientemente forte para dar um basta na declaração mentirosa em destaque na manchete. Ledo engano. Passamos a incluir na própria reportagem o flagrante da mentira. Também não resolveu. O desmentido precisou encontrar espaço na manchete, espremido entre a autoridade e a sua mentira. 

Hoje, já temos cientistas e estudiosos da comunicação que desenham fórmulas na tentativa de conter a propagação da desinformação, sem abrir mão do papel do jornalista de reproduzir o que é notícia. 

Em “Por que mentiras óbvias fazem boa propaganda”, vídeo baseado em estudo da RAND Corporation, um think tank de política global, vê-se uma estratégia comum de governos populistas e mentirosos: geram uma enxurrada de informação falsa, produzida em alta velocidade, sem nenhum compromisso com a realidade ou nexo causal entre uma coisa e outra. Chamaram isso de ‘firehosing’, que surge  da ideia do grande  fluxo de água da mangueira de um bombeiro — no caso da mentira com o intuito de colocar ainda mais fogo na narrativa.

Essa tática nos remete a constatação já dita neste blog, com base em pesquisa publicada no Journal of Experimental Psychology, que com o bombardeio de informações, o tempo dedicado a cada uma delas diminuiu; e quanto menos tempo se tem para uma informação, maior é a probabilidade de acreditarmos nela, mesmo que seja falsa

A proposta para contrapor a mentira vem do linguista americano George Lakoff, apresentada no formato de sanduíche, em 2018. Professor emérito de ciências cognitivas e linguística na UC Berkeley, Lakoff analisa o discurso político na sua profundidade para extrair dele elementos que possam proteger a verdade e a Democracia —- sim, geralmente, a mentira está na contramão dos valores democráticos, porque é explorada com o objetivo de perpetuar pessoas e pensamentos no poder.

O que George Lakoff batizou de verdade-sanduíche foi assim resumido pelo próprio autor: 

  • Comece com a verdade — o primeiro frame leva a vantagem na mente humana
  • Aponte a mentira — evite reproduzir as palavras específicas do mentiroso.
  • Volte para a verdade. Sempre repita verdades mais do que mentiras.

Em um hipotético país em que o presidente eleito defendesse o uso de remédio para vermes como droga para combater vírus, o fato seria assim noticiado ao aplicarmos o método Lackoff:

“Não há evidências de que a ivermectina, usada para vermes, proteja contra a Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro recomendou o remédio em ato público, mas nenhuma pesquisa científica sustenta esta tese, e médicos já afirmaram que o remédio pode causar efeitos colaterais perigosos”.

É um ótimo exercício para conter as mentiras oficiais, mas não suficiente para impedir que a desinformação contamine um público que já tem baixa imunidade em virtude de seu viés político, caráter, ignorância ou falta de atenção. Nós, jornalistas, seguiremos sendo desafiados diariamente a encontrar alternativas para seguir informando de maneira séria, responsável e precisa. Até que fake news vire démodé.