Conte Sua História de São Paulo: há cultos sinceros, mas há os vilões, também

Flavio Cruz

Ouvinte da CBN

 

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Tenho saudades da minha cidade. Sei que dizem que ela é violenta, perigosa. Falam tanto dela. Falam que todo mundo é apressado, que as pessoas não têm tempo para nada. Mentira!  À noite as pessoas se reúnem, cantam e contam histórias. Quem quer, sempre tem um amigo; quem não quer, pode ficar sozinho. Não há prazo de adaptação, não há carência. Assim que você chega, você pertence. Todo mundo pertence. E há de tudo!

Há pecados e lugares para se pecar. Há perdão para poder se pecar. É boa de se cantar, é boa para se poetar. Caetano falou que é o avesso do avesso do avesso… e daí eu paro no avesso que quiser, no avesso que melhor me servir.  O Tom Zé canta que nos amamos com todo ódio e que nos odiamos com todo amor. 

E Billy Blanco diz que as portas de aço levantam, todos parecem correr, não correm de, correm para… Para onde, não sei? Sei sim, quero correr para lá. Ela tem de tudo, de todas as formas, todo o tempo. Ela é adulta, ela é criança. É adolescente, também. Às vezes, ela adoece, mas está sempre a se curar. 

Há Consolação, há Socorro, há Liberdade e até uma Casa Verde para não se perder a esperança. À noite, então, nem posso falar. Há gente nos teatros encenando cenas que saciam os cultos e há cinemas ocultos que saciam a vontade de sexo dos incultos. Há cultos sinceros, mas há os vilões do templo também. Há cultos e pastores da noite de quem não quero falar. Há tantas coisas na cidade, em cada canto, em cada esquina. Há dor, muita dor, mas tanta alegria vem junto que às vezes nem sei qual é qual. 

E os sonhos, então?

Tantos sonhos… Tantos segredos, tantas histórias que todos sabem e ninguém quer contar. Há também contos de fada, milagres que acontecem, outros que se compram, alguns que se vendem. 

Há gente de todo lugar, há lugar para todos e em algum lugar sempre algo está para acontecer. Há segredos que não se podem contar. E há contos que não são mais segredos. E há lendas, lendas e mitos. Quase todos são verdade, mas ninguém precisa saber. 

Falam tantas coisas de você… Eu escuto todas e só presto atenção nas que quero. Sinto muito sua falta. Não há cidade igual.  Tenho muitas saudades de você, São Paulo, meu amor…

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Flávio Cruz, um paulistano que vive nos Estados Unidos, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistória@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: Felipe Mansano diz o que é preciso para sua startup ser descoberta por investidores

“Normalmente, os investimentos em startup têm esta característica: quem investe está procurando empresas que podem escalar, e, geralmente, a maneira mais eficaz é uma solução que é ancorada em um aspecto relevante de tecnologia”  — Felipe Mansano, Equitas VC

Mudar a maneira como profissionais de tecnologia são recrutados, migrar uma escola de programação para o cenário online e desenvolver conteúdo para provas de residência médica. Essas são algumas das ideias surgidas em startups que tiveram seus negócios alavancados com a participação de fundos de venture capital ou de investimento de risco. Todos esses projetos foram desenvolvidos no Brasil, país que tem assistido ao longo da última década um crescimento acentuado no número de empreendedores que se pautam em negócios digitais. Para Felipe Mansano, da Equitas VC, é importante ter esse ecossistema, do qual fazem parte  fundos, empresas e pessoas dispostas a investir em startups.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Felipe falou de oportunidades que existem atualmente no Brasil para quem cria e para quem investe:

“Na hora de fazer negócio é muito importante que as duas partes, tanto a gente como o empreendedor, além do dinheiro, avalie como esse investidor vai me ajudar a fazer para que o meu negócio alcance seu potencial. Nós acreditamos que é neste aspecto que mora a oportunidade, porque no Brasil tem mais escassez de conhecimento e de execução do que de capital — especialmente no cenário agora de juros muito baixo”

Os fundos de venture capital buscam empresas com foco na tecnologia porque são negócios que podem crescer em escala, o que atrai investidores dispostos a colocar o seu dinheiro em empreendimentos que estão em estágio inicial e a aguardar de sete a dez anos para terem o retorno financeiro: 

“É um jogo de longo prazo, mas para a empresa que dá certo, o retorno é 50 a 70 vezes o investido”.

Algumas dicas de Felipe Mansano que facilitam a atração de investidores para o seu negócio:

Como a maioria dos negócios está se iniciando, boa parte da aposta do investidor é na qualidade do time que está envolvido no projeto, portanto atenção na equipe de trabalho.

Identifique o diferencial competitivo deste time em relação ao desafio que a empresa está disposta a resolver,

Não adianta ser o maior peixe em um aquário pequeno, ou seja, é importante que você tenha solução para um problema grande; lembre-se, o investidor quer empresas com potencial de crescimento em escala.

—  Tenha clareza da concorrência; se houver muitas empresas oferecendo solução para aquele problema que você se propõe a resolver a chance de se destacar é menor

—  Mostre como a receita da empresa vem crescendo mês a mês; essa informação permite que o investidor avalie a adesão do mercado ao seu negócio, o quanto o mercado está vendo de valor na sua ideia.

Erros que podem atrapalhar o seu negócio:

Os fundadores da empresa terem apenas uma parcela do negócio: quanto menor a participação, menor é a disposição para enfrentar os desafios 

Não ter clareza do tamanho do seu mercado: o investidor precisa desta informação.

Ter empresas que não têm potencial de crescer em escala, geralmente não estão inseridas em tecnologia, uma característica que permite que o negócio se desenvolva de maneira rápida.

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, no Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e pode ser ouvido em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

John Kerry vem aí! E a sua empresa, está preparada?

Por Carlos Magno Gibrail

 

“Não há mal que nunca se acabe e nem bem que sempre dure” –Provérbio popular

O pesadelo Trump está passando, principalmente na esfera de Sustentabilidade. O planeta agradece. Será substituído por gente que acredita, tem crédito e conhecimento para cuidar do meio ambiente e das relações sociais. John Biden ao nomear John Kerry como enviado especial para o meio ambiente sinaliza a importância que atribuirá à Sustentabilidade. 

As metas da ONU para 2030, consubstanciadas nas 169 Metas dos ODS — Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que estavam com poucas perspectivas de serem alcançadas, tomam novas esperanças.

Oportunamente, a reportagem do jornalista Renato Krausz, diretor da Loures Consultoria, publicada na revista Exame, é explícita para entender a mudança de cenário que o mundo civilizado espera vivenciar.  

Há um ano, o PGNU — Pacto Global das Nações Unidas realizou pesquisa em 99 países com 1.000 CEOs e extraiu que 92% deles consideravam a Sustentabilidade importante para os seus negócios, mas apenas 48% afirmaram que ela estava sendo implantada em suas empresas. Desses, apenas 21% sentem que a empresa tem papel fundamental para alcançar os ODS — Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 

Krausz lembra que o papel das empresas para o alcance dos ODS é fundamental, e por isso o início da década de 2020 já sinalizava que o mundo não estava caminhando na rota certa, e que em dez  anos as metas não seriam alcançadas.

Por isso, ao constatar a epidemia da Covid-19, que evidenciava a necessidade de ações diretas, foi lançado pelo PGNU o “Leadership for the Decade of Action” —  Liderança para a Década de Ação. Um documento para acertar a rota das organizações através da ação de seus CEOs.   

O PGNU fez um extenso e profundo estudo para mapear os atributos, a origem e a tipologia  dos líderes das corporações que estavam aplicando com sucesso as práticas ambientais, sociais e de governança para transformar a realidade de seus negócios. 

Foram buscar em todos os continentes, e elencaram 55 CEOs e membros de Conselhos, considerados pioneiros na ação com o meio ambiente, com as práticas sociais e de governança — ESG Environment Social Governance.   

A pesquisa detectou 4 atributos destes CEOs:

– Pensamento multinível

Inclusão de stakeholders nas decisões

Ativação de longo prazo

Inovação disruptiva

O estudo encontrou as origens destes CEOs

Born believers — desde a infância com paixão por aspectos ambientais e sociais

Convinced — desenvolveram durante a carreira o interesse pela sustentabilidade

Awoken — passaram a ter interesse na sustentabilidade devido a algum fato marcante, ou experiência significativa

E quanto são esses CEOs?

Born believers  45%

Convinced”      43%

Awoken           12%    

Evidentemente para nós brasileiros essa nova perspectiva é uma esperança na mudança de atitude com relação à Sustentabilidade que a política atual do país tomou. Precisamos retomar a valorização daquilo acima definido como ESG Environment, Social, Governance, e voltar a liderar as posições que nos cabe como reserva ecológica do planeta.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

Avalanche Tricolor: vitória no Chaco e homenagem a Maradona

Guarany 0x2 Grêmio

Libertadores

Defensores del Chaco, Assunção/Paraguai

 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Na Guerra do Chaco, os paraguaios enfrentaram bolivianos e 100 mil caíram mortos dos dois lados. Batizado com nome histórico, o estádio, palco da partida desta noite, também foi protagonista naquela batalha, abrigando soldados recém-recrutados e prisioneiros inimigos. O tempo se foi, a mística ficou. Naquele gramado foram decididas ao menos dez Libertadores, além de disputas acirradas terem sido travadas entre adversários sul-americanos. 

De nome bélico e histórico futebolístico semelhante, o estádio quase sempre foi cenário de bons resultados para o Grêmio — talvez porque nossa saga guerreira  e imortal esteja sintonizada com aquele ambiente. A conquista do Tricampeonato da Libertadores passou por lá quando jogamos com um time reserva para empatar com o mesmo adversário desta noite, em 2017. Ano passado, ganhamos duas vezes de outro time local.

Hoje, mantivemos a jornada vitoriosa no Chaco em uma partida que se não foi uma batalha daquelas típicas do futebol sul-americano, marcada por violência e deslealdade, foi, certamente, um jogo difícil de se vencer, mesmo que o domínio tenha sido quase todo gremista. 

Nossos guris se impuseram em campo com talento e bom futebol. Por muito pouco, no primeiro tempo, deixamos de abrir o placar. Na defesa, a presença de Geromel eliminava qualquer risco. Nossos volantes triangulavam com Jean Pyerre e lá na frente, Pepê, o Menino Maluquinho, enlouquecia os marcadores. Faltava acertar o “último passe”, como costumam dizer os boleiros e comentaristas.

No segundo tempo, curiosamente, foi quando mais sofremos — momentos em que Vanderlei se agigantou no gol, novamente. A primeira grande defesa foi daquelas de guardar no DVD, em um tiro a queima roupa que ele evitou que chegasse ao nosso gol. Na segunda, encenou uma ponte para a alegria dos fotógrafos e alívio do torcedor gremista. Não bastasse a segurança dele lá atrás, ainda ajudou a colocar o time na frente. Com duas bolas lançadas por Vanderlei, o Grêmio chegou rapidamente ao ataque, surpreendeu a marcação e fez os dois gols que nos deixam muito próximos de mais uma quarta de final da Libertadores.

No primeiro, Pepê, de tão veloz, deixou o marcador com a  cara no chão e Jean Pyerre, de tão técnico, paralisou o goleiro, que teve apenas a oportunidade assistir à bola entrando no fundo do poço, sem se mexer. No segundo, Churín lutou pelo alto e na sobra de bola e com a cabeça conseguiu colocar Pepê na frente do goleiro. A categoria de nosso guri completou para as redes.

A vitória nos dá tranquilidade para o segundo jogo, na Arena. E mostra que o time está amadurecendo no momento certo —- mérito de Renato Portaluppi que completou 383 partidas como técnico do Grêmio, igualando o recorde de Oswaldo Rolla. Nosso treinador, além de deixar sua marca no time, também foi destaque ao lado do campo: vestiu a  camisa 10 da Argentina para homenagear outro craque e seu amigo, Diego Armando Maradona, que se fosse brasileiro jogaria no Grêmio — duvida? Eu não!

Galeano, Piazzola, Blazquez e o grito sonoro do gol para homenagear Maradona

 

Eduardo Galeano, que me inspirou em post anterior, foi resgatado em crônica “O parto”, na qual conta o nascimento de Diego Maradona, no encerramento da edição do Jornal da CBN. Por criação de Paschoal Júnior, ouvimos o segundo e impressionante gol do “Diez” contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, em três vozes: Roberto Hernandes Júnior, do México, Samuel Souza Santos , da Guaíba, e Osmar Santos, na Globo. Tudo sonorizado por Adios Nonino , de Astor Piazzolla Y Eladia Blazquez, com interpretação de Mariana Avena.

As palavras que definem Maradona

Reprodução de vídeo do site Clarín

 

A notícia da morte de Diego chegou em um alerta no celular. Daquela chamada curta que dizia o necessário e definitivo até agora, não tive coragem de escrever uma só linha sobre a morte de “Diez”. Nada que eu pensasse já não haveria de ter sido pensado por gente muito mais habilidosa com as letras. Temos cronistas, esportivos ou não, qualificados para homenagear com seu talento o talento de Maradona. A leitura dos jornais nesta manhã, as publicações na internet e as homenagens no rádio e na televisão deixam isso bem claro. E faço o convite para que você vá na banca mais próxima e compre todas as edições de jornais deste 26 de novembro de 2020 — serão históricas.

Para bloquear qualquer criatividade que me restasse, ainda ouvi a pergunta de minha mulher, na mesa do jantar: “o que o pai escreveria sobre a morte de Maradona?”. O pai ao qual ela se refere é o meu pai, Milton Ferretti Jung, mais conhecido por narrador de esportes e de notícias, mas, também, cronista de qualidade irretocável. Não bastasse o prazer de ouvi-lo interpretando textos que escrevia na rádio Guaíba, de Porto Alegre — preferia datilografar suas ideias no papel em lugar de fazer de improviso, em respeito às palavras –, por algum tempo publicou crônicas nos jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Não me atrevo a arriscar o que o pai escreveria de Maradona, o craque que nasceu na Argentina, país pelo qual ele — o pai — sempre admirou pelas carnes, pelos vinhos, pela cultura, pelas ruas de Buenos Aires e por Maradona, também. No armário, onde ficaram as roupas deixadas pelo pai, quando morreu, no ano passado, encontrei a camisa do Boca Junior — certamente comprada na Bombonera em uma das muitas visitas que fez ao estádio que aplaudiu o futebol de Maradona. Provavelmente escreveria texto memorável e o leria com todas as letras e caprichando na pronúncia espanhola.

Sem palavras — por comedimento, respeito e não me sentir a altura dessa turma boa de cronistas que temos —, recorri a biblioteca que tenho aqui em casa e encontrei o livro “Fechado por motivo de futebol”, de Eduardo Galeano, uruguaio que escreve como poucos sobre a vida e o futebol. Foi Galeano, como lembrado em muitas das reportagens publicadas desde ontem, que definiu Maradona como “o mais humano dos deuses”. No livro, a primeira crônica é Galeano revelando o sonho de ser jogador de futebol; a segunda, é do nascimento de Maradona — que li ao fim do Jornal da CBN, desta quinta-feira; e a terceira é a homenagem eternizada que reproduzo a seguir, porque Galeano, em 221 palavras, fez o que nenhum de nós conseguiria fazer tão bem: descreveu Maradona, do início ao fim.

Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório. Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”

Adote um Vereador: “o eleitor esquece em quem votou e os eleitos esquecem por que foram escolhidos”

“O eleitor esquece em quem votou e os eleitos esquecem por que foram escolhidos”

A frase é de Edson Vismosa, presidente do Instituto ETCO, em artigo escrito para a Bússola, boletim informativo da agência de comunicação FSB, e está sintonizada com o que pensamos no Adote um Vereador, desde que esta ideia surgiu, em 2008.

No fim de semana, virtualmente, voltamos a nos encontrar para troca de percepções sobre o resultado da eleição administrativa, na qual foram conhecidos os 55 vereadores da cidade de São Paulo.

Já conversamos com você sobre a renovação no parlamento paulistano: 40% dos eleitos não ocupavam cargo no legislativo no mandato em vigor. Além de o índice estar muito próximo do que costuma ocorrer nas eleições municipais, também não significa que possamos falar em renovação da casa legislativa. Alguns dos eleitos já tinham ocupado uma cadeira na Câmara Municipal em legislaturas anteriores.

Independentemente dessas figuras carimbadas que retornaram após um período “sabático” e do fato de que outros eleitos são ligados a famílias de políticos paulistanos, o começo de uma legislatura sempre desperta interesse e curiosidade do cidadão —- do cidadão engajado, claro, que é uma minoria no Brasil. A maior parte age como Vismosa descreve na frase que destacamos na abertura deste texto.

O advogado que já ocupou o cargo de secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo vai além na sua preocupação quanto aos parlamentares eleitos — e não apenas na capital paulista:

“E, para piorar, se constata o avanço da ação de organizações criminosas que vão deixando as chamadas “franjas” da sociedade e procuram não só influenciar as decisões políticas mas exercê-las diretamente, dominando territórios, se financiando com o mercado ilegal e procurando assumir o poder político.

Essas eleições municipais demonstraram, como nenhuma outra, a luta política exercida de modo violento por milícias e organizações criminosas para garantir a eleição de seus cooptados.

Temos assim outros candidatos a “donos do poder”, que se entrelaçam, ameaçando o Estado Democrático de Direito e influenciando nossos destinos sem qualquer preocupação com valores e princípios da cidadania. O ideal republicano fica distante, a defesa do interesse nacional parece uma utopia, e a garantia de privilégios é o objetivo”

A renovação meia-boca que o eleitor proporcionou; a conivência de parlamentares com o Executivo, esteja na mão de quem estiver; e o avanço do crime organizado em cargos de poder —- como relata Vismosa — tornam ainda maior o desafio dos cidadãos interessados em transformar o ambiente urbano em lugares mais justos e generosos. 

O grande risco é que após cada eleição, a percepção de que não temos força suficiente para mudar o cenário político, afaste ainda o cidadão, e crie um vazio que será ocupado por quem sobrepõe o interesse pessoal à causa pública.

A nos esperançar estão as palavras de renovação de entusiasmo dos integrantes do Adote um Vereador, sábado passado. Eram poucos os reunidos no cenário virtual, mas muitos os desejos de uma vida melhor para a nossa cidade.

A aventura na casa do vô que me levou à leitura

Foto: Pixabay

A casa de meu avô Romualdo, em Porto Alegre, era um mundo a ser explorado. Dois andares, salas e quartos grandes, jardim na frente, corredor largo ao lado e um quintal, com videira e galinheiro, que se estendia até uma pracinha de pedras britadas que servia para quarar a roupa da vó —- e se transformava em campo de batalha dos netos que se atreviam a quebrar a lei do silêncio que imperava no local. Sim, aquele era um mundo em que o silêncio era para ser conservado na medida do impossível.

Minha diversão era desbravar os quartos vazios do andar de cima. Em um deles havia morado minha bisavó e em outro, funcionava uma espécie de escritório do vô. Tinham alguns armários com porta de vidro que atiçavam a curiosidade de quem olhava de fora — lá dentro havia livros-caixa e caixas de papel velho. Minha curiosidade se voltava a uma coleção de livrinhos que só alcançava se puxasse uma cadeira para subir e me esticar até os andares mais altos do armário.

O medo de fazer barulho, de cair e de ser descoberto não era suficiente para impedir minha aventura. Lá de cima pegava um exemplar, botava a cadeira no lugar e corria para o quarto da bisavó, que tinha uma cadeira de balanço ideal para minha leitura. Meu companheiro de aventura era Tintim, o guri jornalista criado pelo belga Hergé. 

Para quem nasceu em uma família de jornalistas, provavelmente não foi o guri de topete que me inspirou a exercer a função quando grande. Mas foi ele quem me fez pegar gosto pelos livros, e com a cumplicidade de meu avô que, apesar de não gostar de barulho, bagunça e aventura dentro de casa, testemunhava de longe minha arte de criança sem reprimenda por saber que havia ali uma ótima causa: estava nascendo um leitor. 

Texto escrito para o projeto Clubinho da Vanguardinha, criado pela Livraria Vanguarda, de Pelotas (RS), para inspirar a leitura das crianças.

O desafio de alinhavar retalhos de coração e mente rasgados por traumas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

 

“Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la”

Rabindranath Tagore

 

O filme “Reine sobre mim” (2007) conta as dificuldades de Charlie Fineman para lidar com a dor após a morte da mulher, filhas e cachorro no atentando de 11 de setembro de 2001. Charlie abandona a carreira de dentista, se torna recluso e apavorado com a possibilidade de encontrar qualquer pessoa que o faça lembrar de sua família. Com um quadro grave de depressão, Charlie tenta se matar e como não encontra as balas do revólver, vai para a rua para criar uma confusão com policiais, na esperança que eles o matem e acabem com sua dor. 

Diversos filmes abordam situações de intenso sofrimento, semelhantes às de Charlie Fineman, com experiências traumáticas envolvendo violência sexual, desastres naturais, acidentes ou guerras.

Se a obra cinematográfica é capaz de representar a dimensão do sofrimento humano, a realidade, infelizmente, não é diferente e reflete o que acontece com inúmeras pessoas que sofrem por terem sido vítimas, terem presenciado ou tido conhecimento de situações traumáticas que colocaram em risco a vida ou a integridade física de si ou de outros.

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica caracterizada pelo surgimento de alguns sintomas após a exposição a um evento traumático que cause medo intenso, impotência ou terror, envolvendo ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual.

Nessa condição, a pessoa apresenta uma tendência a reviver constantemente o trauma, na forma de lembranças persistentes, involuntárias, intrusivas e pesadelos; e a se sentir ou agir como se o trauma estivesse acontecendo novamente. Em geral, a pessoa evita atividades, pessoas e lugares que lembrem o acontecimento traumático, mantendo-se mais isolada. Dificuldades para dormir, irritabilidade, inquietude, hipervigilância e dificuldades de concentração também são frequentes.

A prevalência do TEPT está estimada entre 1% e 3% na população geral, podendo atingir níveis mais elevados em populações de risco, como combatentes de guerra.

Em alguns países, o TEPT está mais associado a desastres naturais — terremotos ou furacões, guerras ou atentados terroristas. No Brasil, no entanto, a violência urbana — agressões e estupro — tem sido apontada como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático.

Segundo dados do Ministério Público do Paraná, em 2018, o Brasil registrou pelo menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Além das consequências, físicas, emocionais e comportamentais, crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual podem apresentar diversos quadros psicopatológicos, sendo o TEPT o transtorno mais prevalente nessas situações.

Em decorrência da pandemia de COVID-19 e dos agentes estressores envolvidos nessa situação, tais como risco de morte e isolamento social, diversos estudos têm sido desenvolvidos para avaliar um possível aumento na prevalência do TEPT.

Uma pesquisa realizada na Itália apontou que 1 em cada 5 pessoas tem apresentado sintomas de TEPT associada à pandemia. Na China, um estudo comparou crianças mantidas em quarentena com outras que não foram colocadas em quarentena e identificou 4 vezes mais sintomas de TEPT nas que ficaram em quarentena. O aumento dos sintomas de TEPT também tem sido verificado em profissionais de saúde, possivelmente pelos riscos de contaminação, medo de contaminar familiares, perdas de colegas e o número elevado de óbitos.

Ainda não se sabe exatamente por que um evento traumático pode desencadear o TEPT em uma pessoa e não causar nenhum sintoma em outra, mas alguns fatores de risco para essa condição envolvem características individuais: transtorno mental prévio, fatores genéticos, personalidade; bem como características do evento em si e características ambientais, como apoio familiar e social.

Dentre os fatores de proteção para a saúde mental, a resiliência —  capacidade de reagir ao estresse de maneira saudável — tem sido apontada como uma condição capaz de minimizar o impacto de eventos traumáticos e, portanto, reduzir os sintomas de TEPT. 

Situações traumáticas causam sofrimento e dor que de tão imensos parecem não caber em uma vida. E muitas vezes não cabem. Adoecem.

Penso nos meus colegas psicólogos e nos psiquiatras… escolhemos profissões que permitem o atendimento de quem sofre com TEPT. Desejamos aliviar as dores, construir novas possibilidades, auxiliar a superação de um trauma.

Penso nos pacientes… vidas impactadas, com rumos tão duramente modificados e o desejo de ter sua dor abrandada.

Penso nos versos de Cora Coralina…

“Às vezes o coração rasgado pela dor vira retalho”.

Permito-me parafrasear e finalizo: tomara a gente possa ser a linha capaz de costurá-lo, juntando pedacinhos, suficientes para superar a dor e permitir o recomeço.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: da Coats Corrente à festa dos 400 anos

Por Maria Aparecida Querino Baron

Ouvinte da CBN

Inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo

Tenho 84 anos, moro no Alto da Mooca há 64. Nasci em Guaranésia,  cidade mineira, mas a minha vida, o meu coração está aqui nesta São Paulo. Vim para cá, em 1952, autorizada pelo meu pai, para morar na casa de uma tia, trabalhar e estudar. Era uma época muito difícil, o ramo têxtil estava em desenvolvimento, e consegui um emprego no bairro do Ipiranga, na Cia Brasileira de Linhas para Coser, a “Coats Corrente”  — que chamavam de Inglesa —-, uma das que fizeram história nos primórdios da industrialização: quantas saudades, alegrias … lembro até de ter furado um dedo na máquina de costura, mas, tudo era marcado por muita perseverança e dedicação frente aos desafios.

Após algum tempo, meu pai pediu o meu retorno para Minas. Eu havia conhecido, aqui em São Paulo, e estava namorando um rapaz. Assim que parti, namoramos por cartas durante alguns anos; por fim nos casamos lá em Minas Gerais. E, em 1956, voltamos para São Paulo. Construímos toda nossa família aqui: tenho três filhos, nora, genro, irmãos, sobrinhos e um “pet neto”

Das memórias de São Paulo, guardo com carinho a comemoração dos 400 anos. Um enorme evento que se estendeu de 9 a 11 de julho de 1954 —  o Brasil estava sob o governo de Getúlio Vargas. As comemorações começaram em frente a Catedral da Sé, no dia 9 de Julho quando padres e bispos tocaram os sinos, alertando o início da festa. O Parque Ibirapuera foi inaugurado como presente do Quarto Centenário.

Outro elemento que marcou a celebração foi a Chuva de Prata, uma colaboração da Força Aérea Brasileira, que sobrevoou a cidade diversas vezes despejando pequenos triângulos de papel laminado prateado, iluminados por holofotes do exército.[ 

O 10 de julho, um sábado, foi voltado especialmente para as crianças, com atividades e brincadeiras, em frente a saudosa TV Tupi; apesar de São Paulo inteira estar ocupada por pequenos palcos, os quais iam se modificando e alternando as atividades, conforme mudavam de região da cidade.

No terceiro dia: o fim da festa. Pela manhã, o Estádio do Pacaembu abriu suas portas para diversos números artísticos circenses — palhaços, malabaristas e o Globo da Morte, que divertiram a população. Também foi palco de um jogo de futebol de palhaços, transformando o Estádio Paulo Machado de Carvalho em um grande circo.

Não esqueço quando vi a Miss Martha Rocha, a baiana, que até hoje é sinônimo de beleza, desfilando em carro aberto no Ibirapuera. Ela tornou-se uma entidade: nome de rua, viaduto, torta e tema de marchinha carnavalesca. Martha era a favorita para Miss Mundo mas ficou em segundo lugar naquela famosa história das duas polegadas a mais. 

São Paulo, minha, nossa São Paulo, também conhecida como Terra da Garoa, se aproximando dos cinco séculos de existência, a cidade que abriga todos os povos brasileiros e estrangeiros de diversas partes do mundo. São Paulo, Obrigada por tudo! Pelo seu acolhimento, por sua energia e grande vibração. Continuarei rezando por você, enquanto acordo e durmo nos seus braços escutando o pulsar do seu coração. 

Inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo

Maria Aparecida Querino Baron (Cidinha) é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie sua história para contesuahistoria@cbn.com.br  e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.