A construção do envelhecimento

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A redução das taxas de mortalidade em todo o mundo tem promovido um aumento da expectativa de vida, resultando no crescimento da população idosa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 a população idosa com mais de 60 anos era de 14,5 milhões de pessoas. Atualmente, esse número passa dos 29 milhões com projeções de que em 2050 tenhamos uma população de 50 milhões de idosos em nosso país.

O envelhecimento, apesar de ser muito associado ao conceito de perdas físicas ou deterioração do corpo, compreende um processo singular, heterogêneo e influenciado por aspectos socioculturais, cujas definições foram sendo modificadas ao longo da história da humanidade. 

Nas sociedades antigas os idosos eram valorizados, por conta de sua experiência, auxiliando os mais jovens em suas atividades diárias e transmitindo seus conhecimentos adquiridos no transcorrer da vida. Na Grécia, o envelhecimento era compreendido a partir da classe social pertencente. Os idosos da elite tinham o poder político, econômico e cultural e eram reconhecidos como sábios. Por sua vez, os idosos que pertenciam às classe sociais inferiores representavam a invalidez, a doença e a morte. Na sociedade romana os idosos detinham uma posição privilegiada, dotados de autoridade, o que geralmente provocava conflitos com as gerações mais novas.

Na Idade Média, atingir a longevidade era algo raro e a velhice era compreendida como a fase na qual o indivíduo não era mais capaz de trabalhar. No renascimento houve uma valorização da juventude e da beleza.

No fim do século XVIII, com a industrialização e o surgimento do capitalismo, o poder econômico se centralizou nas pessoas mais jovens e os idosos, por sua vez, passaram a ser vistos como mendigos, em virtude da dificuldade de conseguir um emprego. Isso favoreceu uma associação da velhice com a incapacidade física, acentuando a perda da importância social do idoso, que ficou marginalizado na sociedade.

No século XX, novas regras de aposentadoria e pensões reduziram a associação da velhice com a incapacidade de produzir, uma vez que todas as pessoas, a partir de uma determinada idade, foram dispensadas da necessidade de trabalhar.

Novas mudanças aconteceram e ao fim do século XX o idoso recebeu maior atenção da indústria do consumo, englobando também o lazer e o turismo. A busca por um modelo de envelhecimento ideal, fez surgir o conceito de “melhor idade” vinculado à ideia de se ter um envelhecimento saudável, no qual se manteria a autonomia, a liberdade, a tomada de decisão e comportamentos capazes de preservar a saúde. 

Ser idoso e estar na “melhor idade” passou a exigir um repertório de atitudes que contemplassem a capacidade de manter-se fisicamente ativo, ter uma alimentação saudável, fazer treinos cognitivos para exercitar o cérebro, controlar os sinais de envelhecimento físico, como a utilização de cosméticos ou cirurgias estéticas. 

Se houve um tempo no qual à margem da sociedade estavam aqueles que não eram produtivos, a culpabilização passou a recair sobre os idosos que não adotassem o estilo de vida capaz de “retardar” a velhice e suas consequências. Numa sociedade marcada pelo consumo e pela negação das situações mais incômodas, como adoecimento ou morte, deixar a vida seguir seu ritmo passou a soar como passividade, beirando a irresponsabilidade.

Isso não significa que não se possa construir um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. Pelo contrário, há muito a ser feito. Mas esse processo dever começar muito antes do envelhecimento.

Diversos estudos apontam que envelhecer de forma saudável envolve fatores genéticos e uma série de comportamentos adotados ao longo da vida, como controle da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue, evitar o tabagismo e o etilismo, manter uma prática regular de atividades físicas e intelectuais. 

Atualmente, diversas pesquisas procuram compreender a importância da  reserva cognitiva no processo de envelhecimento, como um fator de proteção para o cérebro.  Reserva cognitiva compreende a capacidade de ativação das redes neuronais em resposta às diversas atividades realizadas. Essas atividades intelectuais desenvolvidas durante a vida, como leitura, cálculos matemáticos e aprendizagem de idiomas, aumentam a reserva cognitiva e, de certo modo, permitem que tais competências cognitivas se mantenham em idades mais tardias, minimizando as manifestações clínicas de doenças neurodegenerativas, como as demências. Além das atividades intelectuais, atividades físicas, sociais e de lazer também estão envolvidas na construção da reserva cognitiva. 

Apesar desses fatores de proteção, a velhice trará consigo as perdas funcionais e estas serão progressivas. Portanto, as atitudes adotadas para uma vida equilibrada e saudável não devem ser concebidas como uma batalha contra o envelhecimento, mas como facilitadoras para que essa fase se desenvolva de maneira tão natural quanto nascer e crescer, de modo ativo e com propósitos. 

Envelhecer de forma saudável não é sinônimo de juventude. Envelhecer saudável é envelhecer com dignidade, com políticas públicas que se preocupam com a população desde idades mais precoces, favorecendo medidas que promovam a saúde física e mental, que garantam a escolaridade, ocupação e renda aos cidadãos. É a promoção de atenção, cuidado e proteção à população idosa de maneira acessível a todos e não um privilégio de poucos. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: ninguém foi capaz

Atlético MG 3 x1 Grêmio

Brasileiro — Mineirão/Belo Horizonte-MG

Foto de LUCAS UEBEL/GRêmio FBPA

Pra que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não tire conclusões precipitadas. Eu, assim como toda a torcida gremista, não ficamos satisfeito com o desempenho do time no Mineirão —- nem Renato e seus jogadores ficaram, é claro. Jogamos contra o líder, não por acaso o único dos primeiros colocados dedicado apenas ao Brasileiro, que conta com um jogador iluminado, e cometemos falhas que, se evitadas, poderiam ter tornado a disputa mais equilibrada, mesmo levando em consideração que o jogo do sábado à noite foi jogado entre duas decisões importantes da Libertadores —- a primeira, já ganhamos, na quarta-feira e você sabe de quem.

Dito isso, vamos ao tema principal desta Avalanche.

As cornetas enrustidas que estavam enfiadas no saco desde quarta à noite não precisaram mais de 10 minutos de jogo para soarem forte na janelas das redes sociais. 

A primeira vítima: Paulo Victor —- goleiro que com resiliência e humildade suporta a reserva de um time que já comandou por temporadas e pelo qual conquistou títulos com defesas importantes. Tem consciência de que não fez um bom último ano e Vanderlei merece ser o titular. Foi colocado em campo, ontem, tendo a sua frente uma zaga reserva e sem a mesma qualidade daquela que admiramos com Geromel e Kannemann — que, convenhamos, facilita a vida de qualquer goleiro. 

Com pouco tempo de jogo, Paulo Victor assistiu a três de seus colegas cercarem o goleador do adversário pegar a bola, se livrar da marcação e chutar com força no gol — ninguém foi capaz de travar aquele chute. Ainda evitou que a bola chegasse às redes com uma defesa que, se não fosse atrás da linha do gol, como se confirmou em seguida, era merecedora de aplausos.  

Bastaram as cornetas tocarem nas redes sociais para meus colegas jornalistas esportivos começarem a repercutir e especular erros que, claramente, não ocorreram por parte do nosso goleiro. Aliás, justiça seja feita, todos os comentaristas, na emissora em que assisti ao jogo, foram afirmativos ao dar mérito para Keno e eximir Paulo Victor de responsabilidade.

Não adiantou: as cornetas seguiram em busca de um bode expiatório. E a televisão seguiu a dar voz aos insensatos como se a voz do povo fosse realmente a voz de Deus —- confesso: o velho ditado não se faz mais presente na minha biblioteca. Tive a impressão de que a insistência das críticas levou alguns dos comentaristas a ficarem mais reticentes quanto a Paulo Victor.

Mal iniciado o segundo tempo, o mesmo Keno fez 2 a 0 em uma bola que desviou na defesa e saiu do alcance goleiro. As cornetas soaram ainda mais alto e se voltaram para a lateral do gramado: a culpa é de Renato. Uma das mensagens reproduzidas na transmissão foi de alguém que identificou o que fazia diferença no placar: de um lado um time bem treinado e de outro um time que não sabia o que fazer em campo, comandado por um incapaz. Fora Renato! (se há um mérito nos corneteiros é que eles não desistem nunca).

Que o adversário estava e está jogando um futebol mais bem qualificado do que o nosso, é inegável. Seu treinador tem talento, algumas das peças de seu time são especiais, Keno está vivendo momento que sequer ele acredita e o time tem condições plenas de se preparar durante toda a semana para o adversário seguinte — não precisa poupar gente extasiada e lesionada e recorrer a reservas. Sequer Copa do Brasil tem para jogar, pois foi desclassificado lá no início. Nada disso é levado em consideração.

Ninguém foi capaz de ponderar que no meio da semana, o “time mal treinado” de Renato ganhou do seu principal adversário com uma apresentação de excelência, marcando forte e jogando bonito quando a bola era trocada de pé em pé. 

Ninguém foi capaz de lembrar que aquele time do meio da semana passada —- com alguns reforços — terá de voltar ao gramado já na terça-feira pela Libertadores em jogo que se for vencido e dependendo a combinação de resultado garantirá com antecipação vaga à próxima fase da competição (curioso em saber onde os corneteiros irão enfiar o instrumento se isso ocorrer).

Ninguém foi capaz de lembrar que este é um ano atípico na preparação dos clubes devido a interrupção da temporada e uma retomada titubeante dos campeonatos, com jogadores expostos a riscos e um esforço descomunal para dar conta do recado de mais de uma competição ao mesmo tempo.

Exigir coerência de torcedores, me parece ilusão. Querer calar cornetas, é calar uma instituição do futebol. Renato e o time sabem disso. O que poderíamos fazer apenas é contrapor com fatos e opinião equilibrada essas reações insanas em lugar de termos medo de corneteiros de rede social e queremos navegar na onda populista (putz, bem que essa última frase caberia em um outro texto na editoria de política, não?).

Conte Sua História de São Paulo: o Jacarandá da Bahia na sala de casa, no Cambuci

Adalberto Pedromônico

Ouvinte da CBN

Inscreva-se e ouça o Conte Sua História de São Paulo em podcast

Estávamos por volta de 1958. Eu aos 13 anos, meus irmãos, todos os seis, mais velhos. Morávamos na Rua Backer, 361, no Cambuci, num sobrado de três andares, que meu pai, o bem humorado e popular Migué, alugara, aproveitando uma boa fase. Ele já não residia com a família, pois encontrara uma cabrocha mais alinhada aos seus apetites. 

Apesar da separação, certo dia, trouxe um presente para a família: um jogo de sala de jantar com mesa, oito cadeiras, buffet e cristaleira. Peças de marcenaria dignas de figurar em uma sala de gente rica — coisa que não éramos. Todo orgulhoso, Migué fez as apresentações, frisando tratarem-se de móveis construídos em Jacaranda da Bahia. Não me era compreensível todo aquele orgulho, uma vez que faltava mesmo era o que por em cima da mesa. Sempre recomendava os devidos cuidados com os móveis.

Já desde 1956, meu irmão Angelo, o Lilo, juntara-se a amigos do bairro, com o propósito de criarem um grupo de teatro amador que pudesse preencher essa lacuna que se sentia na comunidade. Conhecíamos vários grupos da Mooca, do Brás, do Ipiranga, de Santana … do Cambuci não se tinha notícia. Além de dispor de palcos em pequenos salões paroquiais, clubes, São Paulo exibia um número grande de teatros, entre eles o João Caetano, o Paulo Eiró e o Arthur Azevedo. Destacava-se o Teatro São Paulo, na Liberdade, beirando a rua da Glória, hoje ocupado pela Av. 23 de Maio.

Estávamos ensaiando uma peça de Amaral Gurgel, o drama “Os Transviados”, que exigia um grande esmero na montagem cênica e tínhamos reservado o Teatro São Paulo para a estreia. A ação se passava em dois ambientes, um tribunal do júri, e o salão principal da residência da família. Na semana da estreia, conseguimos montar o tribunal e parte da sala: faltavam algumas peças fundamentais como a mesa de jantar, buffet e cristaleira.

A única solução visível era transferir o Jacaranda da Bahia para o teatro, tendo o cuidado de obter a concordância de Dona Angelina, minha mãe. Claro que estávamos apostando que papai não viesse naquele domingo. Mas, veio. Como tirar os móveis sem que ele visse? Convidei-o a ir até a cozinha para me ajudar a consertar um velho relógio Patec Corona que pertencera ao pai dele. E eu havia ganhado de presente.

Enquanto representava minha cena na cozinha, meu irmão e amigos retiravam a mobília da sala e a carregavam em um Chevrolet. Dali zarparam para o teatro. Passada meia hora, Patec vistoriado, Migué saiu da cozinha e se deparou com a sala vazia.  Senti ímpetos de me esconder em algum buraco que não achei e só fiquei observando meu pai trocando de cor várias vezes, feito um lagarto de São Roque. Ainda tentei uma desculpa, mas sem sucesso.

Tudo o que me ocorreu, foi sair em disparada até a Rua da Independência e pegar um bonde rumo à Praça João Mendes, descendo às portas do Teatro São Paulo, a poucas horas da estreia do espetáculo salvo pelo seu contra-regra: eu ….

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: as dicas de Pedro Superti para alavancar vendas sem baixar preços, mesmo na pandemia

“Se durante muito tempo você queria parecer grande, agora a onda é parecer pequeno” — Pedro Superti, empreendedor

Os negócios vão mal, as vendas caíram e a crise impactou sua vida. A primeira reação é baixar o preço do produto que vende ou serviço que oferece para atrair os clientes. Um erro crasso, segundo Pedro Superti, empreendedor e especialista em marketing de diferenciação, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da CBN: 

“Em lugar de baixar o preço que você já vende, pense como você pode criar uma nova opção que não existia até ontem, e esta opção ter um preço diferenciado”

Para Superti, ao aceitar somente baixar preço, o empreendedor desvaloriza seu negócio, enfraquece a marca e corre o risco de perder seus antigos clientes que se sentirão ludibriados por terem pago mais caro.  Imagine um restaurante que tem como prato principal o macarrão no menu. Em lugar de reduzir o preço deste prato, crie uma outra opção mais barata, mais simples e menor. Com isso, você pode inclusive atrair um novo cliente que, ao longo do tempo, pode passar a consumir os pratos tradicionais da casa, sugere Superti.

A ideia do marketing de diferenciação é descobrir como ser original, único e diferente das outras opções que existem no mercado. Para isso, Superti recomenda que o empreendedor busque coisas de sua história, elementos internos que podem ser levados para o produto ou serviço, que façam com que as pessoas batam o olho e logo identifiquem a sua imagem, a sua marca. 

Dois casos que ilustram o pensamento de Superti que ocorreram diante das restrições impostas pela pandemia. Um é de um desempregado que foi passar a quarentena com o avô e as histórias de vida que ouviu dele deram origem a uma franquia que vende caldo de cana com entrega a domicílio:

“… a grande sacada é que, neste caso, o consumidor não somente consome a bebida. Ele se conecta às suas memórias de infância”.

O outro exemplo é o do dono de uma cafeteria que viu as vendas do capuccino, especialidade da casa, cairem. Ele criou um produto no qual o cliente leva para casa um coração de chocolate para ser dissolvido no leite quente e solta o pó de capuccino.

“Tenha personalidade, a gente não aguenta mais negócios que não têm alma, não têm cara; um pessoa com personalidade tem uma características constante. Na tentativa de ser profissional, muitas marcas se tornam genéricas, tentam agradar a todos e não agradam ninguém”.

Se é para ter personalidade, Superti lembra da importância de se sair do modo automático em que mais nos parecemos com máquinas processando coisas, vendendo produtos e serviços: empresas vendem coisas, marcas vendem valores. 

Nos trabalhos que realiza com diversas empresas pelo Brasil, ele também aconselha: se você oferece serviço, venda produtos; se você oferece produto, venda serviços. Ou seja, misture produtos e serviços. Uma academia não deve se restringir a vender serviço — matrículas para seus alunos —- tem de oferecer produtos tais como suplementos, equipamentos para atividade física e roupas, aumentando o ticket médio de seus clientes.

“Se o que você está fazendo está alinhado com algo que você acredita muito, isso abre uma caixa de pandora com infinitas possibilidades que a gente por explorar”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, no canal da CBN no YouTube, no Facebook e no site da rádio, às quartas-feiras, às 11 horas da manhã. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e fica à disposição em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Natália Motta, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscilla Gubiotti.

YouTube pedir ajuda aos ‘universitários’ é muito “The Social Dilemma”

Ilustração: Pixabay

 

“Isso é muito Black Mirror” foi a frase que ganhou o espaço público desde o sucesso da série de Charlie Brooker que levou à tela a distopia da sociedade contemporânea, com casos de um futuro que já convive entre nós e uma caricatura de nossas vidas com traços de realidade. Conversas por WhatsApp entre pessoas que estão na mesma sala era “Black Mirror”; gente cancelada e que desaparecia do convívio social era “Black Mirror”; coisas extraordinárias do mundo digital era “Black Mirror”.

“The Social Dilemma” chega para desbancar o “velho” jargão. O documentário de Jeff Orlowski, produzido a partir do depoimento de gente que montou a engrenagem que faz funcionar as redes sociais — e está arrependida –, logo se transformará em referência  do nosso vocabulário para quando depararmos com situações ainda estranhas à nossa mente, apesar de já fazermos parte deste cenário há algum tempo —- sem perceber.

Leia “The Social Dilemma: 14 dicas para reduzir o impacto de redes sociais e internet na sua vida”

Nesta semana mesmo, confesso que foi com estranheza que li informações publicada no Financial Times: “YouTube reverts to human moderators in fight against misinformation”. Em bom português: o YouTube voltou a usar seres humanos para moderar o que é veiculado nas redes para combater à desinformação. 

Durante a pandemia — que ainda não acabou, registre-se —-, o YouTube mandou sua turma para casa e deixou a moderação da rede nas mãos de seus robôs, que não são suscetíveis a COVID-19. Preservou a saúde de 10 mil pessoas com essa medida e deixou a rede sob controle das máquinas. Resultado: quase 11 milhões de vídeos foram retirados do ar, entre abril e junho, supostamente por transmitirem discursos de ódio, violência e outras formas de conteúdo prejudicial ou desinformação —- essa coisa infelizmente chamada de fake news. 

O YouTube não informa quantas vezes maior é esse número, mas executivo da empresa ouvido pelos jornalistas deixa claro que é uma quantidade de remoções muito, mas muito maior do que as que costumam ocorrer quando a moderação é feita por seres humanos.

“Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido”, escreveram Alex Barker e Hannah Murphy após conversarem com Neal Mohan, diretor de produtos do YouTube. 

Na mão das máquinas, a remoção de vídeos é muito mais veloz: mais de 50% dos 11 milhões de vídeo foram tirados do ar sem que tenham tido nenhuma visualização. Em compensação, a intolerância às mensagens que supostamente ferem as regras da plataforma é significativamente maior do que quando passam pela avaliação de gente como nós, de carne, osso e alma. 

O jornal londrino diz que o reconhecimento de que o poder de censura das máquinas é maior do que o dos seres humanos lança luz sobre a relação crucial entre os moderadores — gente como a gente — e os sistemas de inteligência artificial, que analisam o material que é publicado no YouTube. Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido —- declarou Mohan.

“É aí que entram nossos avaliadores humanos treinados … tomam decisões que tendem a ser mais matizadas, especialmente em áreas como discurso de ódio ou desinformação médica ou assédio”.

Uma especialista ouvida pelos repórteres disse que os sistemas automatizados fizeram progressos no combate a conteúdo prejudicial, como violência ou pornografia:

“…mas estamos muito longe de usar a inteligência artificial para dar sentido a um discurso problemático [como] um vídeo de conspiração de três horas de duração. Às vezes é um aceno de cabeça, uma piscadela e um apito de cachorro. [As máquinas] simplesmente não podem fazer isso. Não estamos nem perto de eles terem capacidade para lidar com isso. Até os humanos lutam. ” —- Claire Wardle, co-fundadora do First Draft.

Uma plataforma como o YouTube, com investimentos enormes em inteligência artificial, desenvolvimento de algoritmos e automatização recorrer aos ‘universitários’ — perdão, esse é um jargão muito anos 1990 — para controlar o controle sobre o mal e o bem que circulam na rede me pareceu “muito The Social Dilemma”.

TV Conmebol mostra que onde entra o futebol sai a ordem

Por Carlos Magno Gibrail

Ilustração do teste de padrão da TV no passado

 

A transmissão dos jogos de terça-feira pela Taça Libertadores da América, lembrou as improvisações dos primórdios da televisão — principalmente no quesito de atender o consumidor. Encantar, nem pensar.

Houve falhas ou foi a aplicação de técnica ultrapassada para provocar a compra, que interromperam por várias vezes a transmissão abruptamente?Modelos de degustação televisiva? Trailler?

O inusitado é que nos mercados de consumo tradicionais quando há diversificação na oferta, a qualidade, os custos e a distribuição ficam melhores devido à concorrência. Além de mais baratos. No futebol aparece uma quantidade maior de oferta e tudo fica confuso. 

De outro lado, como ficam os assinantes que compraram o pacote anterior que incluía os jogos da Libertadores, e agora terão de comprar o novo pacote?

A TV, aos 70 anos, mostrou através da transmissão Conmebol, que onde entra o futebol sai a ordem.

A experiência tem demonstrado que esse que é o maior esporte entre tantos  é, também, o mais confuso. É sempre um dos mais retrógados em termos de evolução e mudanças necessárias, a despeito da paixão exercida pelos títulos, camisas e cores no futebol. Um fenômeno inexplicável.

Recentemente, a adoção da tecnologia para ajudar os árbitros, o VAR, foi a mais demorada e discutida. Demora que pelo menos deveria ter propiciado a definição do melhor sistema e do mais completo equipamento. Não foi o que aconteceu. Ou os equipamentos adquiridos não tem qualidade suficiente ou os árbitros incumbidos de operá-los não tem habilitação necessária.

Não são raras as demoras excessivas para a tomada de decisão, bem como decisões erradas e solicitações descabidas para lances não protocolares.

Outro aspecto é o sistema adotado, pois, enquanto a maioria dos esportes entrega para os jogadores, como no tênis, o controle das solicitações para a intervenção da tecnologia, ou para os técnicos, como no voleibol, no futebol a chamada para a utilização é dos árbitros. A maioria desses esportes consegue fazer do recurso eletrônico mais uma atração das transmissões. O futebol americano abre a conversa dos árbitros para os torcedores, o que acrescenta ainda um toque de honestidade e marketing.

Enfim, o futebol é um mercado em que há grande oferta de jogadores, há consumidores efetivos e potenciais de forma crescente, mas carece de gestores. Talvez pela atração do jogo como jogo e não como negócio.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.   

Avalanche Tricolor: Fora Renato!

Inter 0x1 Grêmio

Libertadores — Beira Rio, Porto Alegre/RS

Renato cumprimenta Pepê Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Vai Renato! 

Vai embora! 

Vai comemorar mais esta conquista na tua história. 

Dez Grenais sem perder não é para qualquer um.

 

Vai festejar com os amigos.

Vai abraçar teus pupilos.

Vai pro abraço porque tu és o cara.

Vai montar bem um time assim lá pras bandas do Humaitá.

 

Vai pra praia jogar futevôlei.

Vai pra rede se deitar.

Vai descansar pra preguiçar passar. 

(eles não te chamam de preguiçoso?!?)

 

Vai Renato!

Vai embora

Porque tá perdendo a graça jogar Gre-nal.

 

Vai tirar onda dos que te criticaram.

Vai ver a turma engolindo o que disse.

Vai rir da cara dos que gritaram: 

Fora Renato!

 

Vai, vai ser Renato para sempre no coração de quem é tricolor.

Liberdade de Expressão: o sigilo da fonte e o direito do cidadão em saber a verdade

“É mais fatal do que a pior gripe” foi uma das frases ouvidas pelo jornalista Bob Woodward em uma das 18 entrevistas gravadas com o presidente americano Donald Trump. Ele se referia, claro, ao novo coronavírus, que na época das conversas — esta em especial ocorreu em janeiro —- ainda era muito novo para todos nós, mas já deixava seu rastro de morte  e medo na Ásia. O mesmo Trump disse a Woodward que o vírus “era mortal”.  Está gravado.

Em público, Trump sempre negou os riscos à população, criticou seus principais assessores na área médica por serem alarmistas, afundou-se em teorias conspiratórias e desdenhou das medidas que poderiam reduzir o risco à saúde dos americanos. O comportamento do presidente foi um dos motivos que levaram os Estados Unidos a registrarem mais de 200 mil pessoas mortas e cerca de 6,8 milhões de contaminados pelo Covid-19.

A mentira de Trump foi revelada recentemente quando Woodward lançou o livro Rage (A Fúria), o segundo que escreve sobre o atual presidente. Ele é craque nessa jornada que se iniciou nas descobertas que fez no caso Watergate, ao lado de Carls Bernstein, nos anos 1970. Com acesso à Casa Branca como poucos outros jornalistas já tiveram, ao longo do tempo Woodward especializou-se em contar a história dos presidentes americanos, com respeito e sem bajulação — o que não impediu de ser criticado mesmo por colegas, que viram em algumas descrições reverência além do necessário para determinados líderes políticos.

Agora também é alvo de críticas. Nem tanto pela revelação que fez, mas por somente tê-la feito agora. Se tivesse levado a público as palavras de Trump assim que o presidente iniciou seu mantra negacionista, imagina-se, mortes teriam sido evitadas.

Inspirado por esse debate, hoje, no Jornal da CBN, discutimos no quadro Liberdade de Expressão o direito de o jornalista preservar informações e suas fontes, mesmo que isso coloque em risco a vida de pessoas. Participaram, Pedro Doria, jornalista, editor do Canal Meio e nosso colega no quadro Vida Digital, e Roberto Romano, professor titular aposentado de Ética e Filosofia da Unicamp. 

Ambos entendem o respeito que se deve ter ao sigilo da fonte, mas discordam do grau deste sigilo.

Doria defende a estratégia de Woodward e traz um argumento jornalístico. Havia um acordo entre o profissional e sua fonte, no caso o presidente Donald Trump. Sem esse acordo, o presidente não falaria ou não falaria tudo que falou.

‘O repórter faz um acordo com o entrevistado e cumpre esse acordo’, defende Pedro Doria.

Romano diz que o sigilo é uma garantia do trabalho jornalístico. Se esta informação põe em risco a segurança das pessoas passa a ser de interesse público: 

‘O compromisso do jornalista não é com a sua fonte apenas. Ele tem um compromisso com o público, com o coletivo, com os homens que nele confiam’

Se para Romano, Woodward não tinha motivos de respeitar um acordo com alguém que não respeita a profissão jornalística; para Doria, a maior arma que se pode ter contra quem é contra a Democracia é mais Democracia e a divulgação dos fatos às vésperas da eleição terá mais efeito sobre a reeleição de Trump do que se fosse feita na época da gravação.

O debate foi rico nos argumentos e levanta questões que não são restritas ao campo do jornalismo. Interessa à sociedade como um todo, por isso, recomendo que você ouça o Liberdade de Expressão e desenvolva a sua própria visão crítica sobre o tema:

Olhar para trás e seguir em frente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Belchior

 

Segundo o dicionário Aurélio, passado significa aquilo que passou. Antiquado, obsoleto. Portanto, algo antigo, que caiu em desuso e que não existe mais. Apesar dessa definição, um comportamento comum para muitas pessoas é o apego a lembranças do passado, de forma tão intensa, capaz de produzir emoções no momento presente.

Recordar momentos que nos foram agradáveis ou utilizar experiências vividas para resolver problemas podem ter efeitos benéficos, inclusive para elaborarmos um planejamento para o futuro. Porém, quando ficamos presos a pensamentos negativos e repetitivos, fazemos o que em psicologia é chamado de ruminação mental.

O processo de ruminação é caracterizado por pensamentos persistentes, geralmente com conteúdo negativo, autocríticos e relacionados a acontecimentos do passado. 

Os pensamentos ruminativos tendem a gerar perguntas feitas a si mesmo:

  • Se eu não tivesse feito aquilo?
  • Se eu tivesse me comportado de outra forma?
  • O que eu poderia ter feito para que isso nunca tivesse acontecido?

Esses pensamentos repetitivos e contínuos tendem a produzir emoções negativas, como tristeza, culpa e arrependimento, favorecendo o círculo vicioso da ruminação, apontado como fator de agravamento ou manutenção de sintomas depressivos.

Avaliar situações do passado e pensar como poderiam ser diferentes é o mesmo que tentar correr na vida adulta com o calção que usávamos na infância: não serve mais. Aperta, incomoda, aprisiona a uma condição que não mais nos pertence. 

Desejamos modificar eventos ou ações praticadas no passado e ignoramos que são justamente nossas vivências, nossas experiências, as memórias construídas sobre nós e sobre o mundo que nos constituem.

Aceitar aquilo que não podemos mudar não significa resignação. Pelo contrário, envolve um conhecimento amplo de quem somos, da nossa história, e com olhar refinado, experiente e menos crítico; nos permite construir metas direcionadas à mudança, não do passado, mas de quem somos hoje, de quem desejamos ser amanhã. Não é voltar e percorrer o mesmo caminho. É olhar para trás, mas para seguir em frente.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Coligações e negócios

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

Mesa diretora da CMSP foto: AdoteUmVereador/arquivo

 

Efeito colateral do vírus presidencialista, o hiperpartidarismo desfigura e polui a democracia. Nessa disfunção que caracteriza o sistema brasileiro, o número de partidos já superou o das letras que formam o alfabeto. A maioria deles, para não dizer a sua totalidade, inteiramente desconhecida da população, da mesma forma que os seus programas e propostas.  Dos mais de 30 existentes, vários não passam de meras legendas para negócios. 

Embora impressionando na quantidade e decepcionando na qualidade, o sistema tem se revelado fértil. No que tange às coligações, os quinhões de tempo decorrem do resultado da soma do número de representantes dos seis maiores partidos que a integram. Portanto, o tamanho das bancadas junto à Câmara dos Deputados é que direciona a maioria das negociações. Quanto mais partidos coligados, maior será o tempo de mídia. Quesitos como afinidade e coerência desimportam. Basta existir um tempo disponível e esse passa a ser negociável, sem maiores dilemas éticos ou tabus históricos. Cruamente falando, são ativos políticos para barganha. O mais esdrúxulo, porém, é que o número de deputados federais vale como critério para as eleições municipais, quando o certo deveria ser o número de integrantes das câmaras municipais.

 Adiante, como se fossem atores postados diante de um script, partidos competitivos e bem estruturados entram em cena e se associam a outros que muitas vezes dispõem de uma linha telefônica sequer. No lance seguinte, todos ficam à espera da definição de cada um para então decidir com quem se coligar. No momento que um se decide, os demais logo se agrupam e rapidamente ocorre o arremate. Inúmeras alianças eleitorais são seladas dessa forma, como se fossem casamentos por interesse onde o dote do partido está no espaço de rádio e TV.

Na prática, é mais ou menos assim: de um lado ficam os partidos hegemônicos, compradores. Do outro estão verdadeiros boliches propensos a comercializar os itens mais preciosos e por vezes únicos do seu estoque que são os minutos ou segundos da propaganda. Em resumo: pequenos lotes de tempo proporcionam grandes negócios.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e Prática” (Verbo Jurídico). Escreve no Blog do Mílton Jung.