Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na minha loja de R$ 1,99

 


Por Carlos Assis
Ouvinte da CBN

 

 

Avenida Inajar de Sousa, zona norte. Todo mundo passa correndo, todo mundo com pressa. Carros, caminhões, motos, ônibus articulados. Eu atravesso no farol, cautelosamente. Sete horas da manhã vou comprar pão na Sabor de Mel — gosto de acordar cedo e andar um pouco.

 

Tenho uma lojinha de 1,99, bem pequena, comércio de bairro. Que se mantém mais por teimosia dos donos que por lucro, as vendas foram muito fracas o ano todo. Abro às nove horas, na rua Reverendo José Carlos Nogueira. Pego uma cadeira de plástico e sento na porta da loja. As pessoas passam para ir a o trabalho, ao banco ou quaisquer outros afazeres. Dizem bom dia … o movimento está fraco estes dias. Mas eu e minha mulher não temos outro negócio, precisamos ganhar dinheiro. Temos de manter o negócio aberto .

 

Do outro lado da rua tem uma mecânica. Zezinho, filho e genro. Vivem empurrando carros velhos que os clientes largam na oficina, porque não têm dinheiro para pagar pelo serviço. Então tem sempre carro parado na minha porta. Mas não reclamo, o pessoal é boa gente.

 

Bom dia, vai com Deus! — fala a dona Dora, minha vizinha. Essa senhora e o cachorro ficam o dia inteiro no portão. Horas e mais horas de pé, cumprimentando todos que passam na calçada. Sempre alguém para e conversam, as mesmas pessoas todo dia.

 

De repente, entra uma cliente, compra um pano de chão e prendedor de roupa. Paga oito reais, rezo para que dê o dinheiro trocado. Ela paga e vai embora. Assim de grão em grão, faço algumas vendas, nada que me anime. Alguns clientes entram, olham os produtos, perguntam o preço e não compram nada. Digo até logo.

 

O rádio FM toca música sertaneja o dia inteiro, eu gosto de ouvir notícias na CBN, mas minha mulher colocou um aviso que é proibido mudar de estação. Cansei de brigar por isto. Vem algum conhecido, conversamos sobre política, falamos mal do governo. Nenhum governo é bom o suficiente para os mais necessitados. Reclamamos de tudo: dos buracos no asfalto, dos preços dos alimentos no supermercado, da falta de remédios no posto de saúde aqui do bairro. E só concordamos que a roubalheira é geral: — culpa do PT, eles dizem. Nem tento disfarçar o meu descontentamento com tamanha insensatez, afinal quem manda em São Paulo é o PSDB há muitos longos e penosos anos.

 

Espero o Metrô da Freguesia do Ó há mais de trinta anos e agora as obras estão paradas, caminham no tempo do SUS, vagarosamente como uma tartaruga ou um caramujo na grama. Como dizia o grande Adoniran Barbosa : – Paciência!

 

As pessoas começam a voltar para os seus lares, começa a escurecer — os dias são mais longos neste horário de verão . O bar da Teka na esquina já abriu, e o pessoal da mecânica e de uma serralheria aqui perto vai tomar uma cerveja. Ponho as coisas para dentro e baixo a porta de aço. Estou cansado, vou para casa. Outro dia se foi na minha folhinha do calendário.

 

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta séria em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

 

Acabou a mamata!

 

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Acompanhei o noticiário de revesgueio nestes últimos 20 e poucos dias em que estive de férias. Olhando meio de lado, enviesado, sem me aprofundar muito, tendo a atenção chamada apenas para uma coisa aqui e outra acolá. Era de descanso que eu precisava, depois de um ano intenso como foi 2018.

 

Descansei da maneira que mais gosto: conhecendo lugares e ao lado da família. Desta vez, fomos longe para fazer amigos. Conhecemos o Japão, um sonho de criança —- no caso das crianças aqui de casa, que, aliás, de criança não têm mais nada.

 

Descansei cansando-me de andar. Está registrado no aplicativo do celular que foram 191.552 passos e mais de 133 quilômetros percorridos a pé, em 14 dias. São estatísticas suficientes para deixar o Márcio Atalla sorrindo de satisfação. Bem verdade que esse é um cansaço diferente, sem a pressão do relógio, sem o estresse da meta a ser alcançada e sem a necessidade de provar nada para ninguém — essas coisas que o mundo corporativo (e comunicativo) nos cobra diariamente.

 

Fui para o Japão sob a recomendação de que deveria ter muito cuidado com a gentileza que os japoneses dedicam aos visitantes. É coisa de nos deixar chocado, disseram alguns amigos com quem conversei antes da partida. Envergonhado, falaram outros. O professor Clóvis Barros Filho chama de shinsetsu e escreveu livro recente no qual fala de o poder da gentileza —- foi um dos livros que li nessas férias, outra coisa que gosto de fazer. Diante da falta de amabilidade no nosso cotidiano, em que a regra que vale é “farinha pouca, meu pirão primeiro”, assistir ao comportamento oriental nem chocou nem envergonhou, me ensinou. E ensinou muito.

 

Já fazia referência a forma de os japoneses se portarem, em minhas palestras sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, desde o ano passado. O exemplo que uso é o do hábito deles limparem o espaço público que ocupam. Assistimos a isso na Copa do Mundo, em 2014, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Lembro que a cena de turistas japoneses com sacos de plástico em mãos e recolhendo o lixo que deixaram cair no chão sempre provoca por aqui uma onda de elogios. Em seguida, criticamos nosso comportamento, a falta de educação e os políticos que não se dão respeito. Em lugar de iniciarmos a mudança individualmente, em casa ou na família, repetindo o gesto no nosso cotidiano, damos continuidade a prática do descaso e do desrespeito, porque o Brasil não tem jeito —- é a nossa desculpa. Se o Brasil não tem jeito que os brasileiros deem um jeito no Brasil. Aprendamos com os japoneses.

 

Uma das mensagens mais impactantes que encontrei nas muitas caminhadas estava em placa ao pé de um dos monumentos, no Parque do Memorial da Paz, em Hiroshima — cidade que em seis de agosto de 1945 foi palco da maior tragédia atômica que o homem poderia ter construído: “Superando o ódio, perseguindo a harmonia e a prosperidade e desejando ardentemente uma longa e genuína paz no mundo”. Pense nos resultados que poderíamos alcançar se aplicarmos essa ideia na nossa vida. Comprometo-me a tentar. E você?

 

Tudo posto e com o sabor do melhor tempura que já comi na minha vida ainda na boca— encontrado em um pequeno restaurante, o Tendon Makino, em Quioto —, confesso que foi difícil de acreditar que havia acabado a mamata. Por favor, entenda bem o contexto em que a expressão está sendo usada. Nada a ver com arranjos, marmeladas e achegos ou ganho desonesto, vantagens indevidas e propina, como aparecem nos dicionários oficiais. Digo mamata no sentido figurado, de dias livres, de diversão e de relaxamento.

 

Nesta segunda-feira, depois de duas xícaras de café preto para acordar e um omelete para manter a energia, a realidade se impôs: tive de colocar o crachá no pescoço e me apresentar na firma. Gosto — e muito — do trabalho que realizo. Tenho prazer em levantar da cama para apresentar o Jornal da CBN. Mesmo que ainda seja madrugada, cumprimento o guarda da rua, saúdo o porteiro do prédio da empresa, gesticulo a cabeça para as poucas pessoas que esperam o elevador e converso com os ouvintes com um sorriso no rosto —- ao menos quando o clima permite. Desta vez, porém, voltar ao trabalho foi um pouco mais difícil, porque ainda estou na ressaca das férias, devido ao fuso horário e, principalmente, a tudo que vivenciei.

 

Ao mesmo tempo, 35 anos de trabalho me ensinaram que a máquina não para de girar — especialmente se estivermos falando em jornalismo, que tem como matéria-prima a notícia. O ouvinte não quer saber se você ainda está sob o ritmo das férias ou se naquele dia alguma coisa o tirou do sério. Assim que o microfone abre, tudo tem de voltar a ser como antes. Apuração dos fatos, precisão no relato, equilíbrio na abordagem, justiça na análise, cuidado para não errar e humildade para admitir o erro.

 

Não tem jeito. Às cinco para às seis da manhã, o luminoso com a expressão “No ar” acendeu dentro do estúdio e a mensagem que li foi muito clara: acabou a mamata. Ao menos a minha, porque, conforme as notícias que li na seqüência, já soube que a mamata continua pra muita gente importante que anda solta por aí — e aqui, mamata, sim, naquele sentido mais conhecido da palavra.

Avalanche Tricolor: de volta!

 

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Gaúcho – Estádio do Vale/Novo Hamburgo-RS

 

 

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Pepê comemora seu gol em foto de LUCAS UEBEL/GREMIOFBPA

 

 

O Grêmio sempre teve espaço privilegiado neste blog, por motivos que o caro e raro leitor sabe bem — e se por acaso você acessou este post por engano, certamente entenderá até o fim deste texto. Em 2008, um ano depois de ter começado a escrever por aqui, criei a coluna Avalanche Tricolor, publicada sempre ao fim de cada partida disputada pelo meu time. No post de fundação, escrito em 19 de janeiro daquele ano — sim, ontem fizemos aniversário de 11 anos — já deixava evidente minhas (más) intenções: “a coluna ‘Avalanche Tricolor’ ganha espaço neste blog com o objetivo de ser o post esportivo menos imparcial possível”.

 

 

O nome da coluna era referência a maneira que nossa torcida costumava comemorar os gols nas arquibancadas de cimento do Olímpico Monumental —- o que se tornou impossível na Arena, infelizmente. Se no novo estádio, não existe mais Avalanche, a coluna seguiu firme, forte, entusiasmada e parcial aqui no blog, ao menos até a metade do ano passado. Em julho, uma série de compromissos com o lançamento do livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” me impediu de frequentar com assiduidade o blog e menos ainda dedicar algum tempo para escrever textos que estivessem à altura da minha paixão pelo Grêmio.

 

 

Sem clamor popular e nenhuma reclamação dos caros e raros leitores deste blog, interrompi a Avalanche — mas não deixei de acompanhar meu Grêmio, é lógico. Torci, sofri, esbravejei e comemorei cada resultado alcançado até o último jogo de 2018 e, na maioria das vezes, senti falta desta coluna, pois é aqui que jorro minhas emoções, revelo meus sentimentos, algumas vezes torno públicos momentos que vivi em família, já que o Grêmio foi muito importante na minha formação em Porto Alegre, e tento explicar as coisas do futebol, de vez em quando.

 

 

Durante as férias, que se encerram hoje, pensei duas, três vezes se reassumiria o compromisso de escrever a Avalanche. Até a bola começar a rolar neste domingo, em Novo Hamburgo, quando o Grêmio fez sua estreia no Campeonato Gaúcho, tinha dúvidas se seria capaz de acompanhar todos os nossos jogos e depois ainda escrever algo que valesse a pena ler.

 

 

O primeiro tempo já sinalizava que haveria bons motivos para uma Avalanche, mesmo que o time que entrara em campo fosse alternativo, como anunciavam os locutores da TV. No decorrer da partida, encontrei não apenas um, mas quatro bons motivos — o primeiro gol de Juninho Capixaba, que gera boa expectativa na lateral esquerda, os gols marcados pelos jovens Pepê e Matheus Henrique, que são o futuro se revelando em campo, tanto quanto o gol de Marinho, que torço para que deixe de ser apenas um jogador folclórico.

 

 

Não resisti. Voltei. A Avalanche voltou. E termino esta Avalanche da retomada com o título da última coluna escrita, em 30 de julho do ano passado: “Renato sabe o que faz”.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a fábrica de doces de São Miguel Paulista

 

Por Arnaldo Bispo do Rosário
Ouvinte da CBN

 

 

Em criança, na Vila Nitro Operária, pertinho de minha casa, em São Miguel Paulista, havia uma pequena fábrica de bolos e doces. Sua provocante chaminé, logo de manhã, lançava ao ar aromas de baunilha, canela, chocolate, avelã e outras fragrâncias de guloseimas de dar água na boca, saídos do forno ainda bem quentinhos. Acorria que eu, Itamar, Dorival, Marcos e Cia Bela não tínhamos dinheiro algum para comprar aquilo ou, como dizia meu pai, “andávamos mais lisos do que popô de santo”, mas com faro e salivação de constranger cão perdigueiro. Todavia, nem tudo estava perdido, pois, como marotos que éramos, descobrimos que o empreendimento, de pequeno porte, também se servia de lenha reciclada para acender a fornalha. Eureca! Eis ai a possível chave para termos acesso aquelas delícias!

 

A solução por nós encontrada, considerada nossa lamentável impecuniosidade crônica, era o escambo, ou seja, trocar madeira pelos aprazíveis confeitados, manjares de deuses. Assim, saíamos empurrando pelo bairro afora uma carriola com rodas de bicicleta — essas tomadas sob regime de cessão temporária do seu Zé, dono de um ferro-velho, na Rua da Maçonaria, mas sem seu consentimento. Procurávamos restos de poda, galhos e troncos secos, bem como tudo o que algum dia foi árvore, que descartados como inservível pudessem ser trocados por doces na tentadora fabriqueta.

 

Esbaforidos, perambulávamos como uma trupe mambembe, seduzidos pelo mito da recompensa, fruto justo do árduo trabalho, recolhendo toda madeira que encontrássemos pelo caminho. À tarde, após a aula, nos dirigíamos para a fábrica de delicias gastronômicas e trocávamos tudo o que havíamos coletado por bolos, broas e, principalmente, sonhos.

 

O tempo passou e alguns meninos daquela turminha — que tive a fortuna de conhecer e pertencer, com pureza de criança — já nem existem mais. Uma parte deles, frágeis como dentes-de-leão, no primeiro soprar do vento tiveram suas vidas e sonhos ceifados pelo aparato opressor do Estado ou pelas mãos implacáveis de agentes do tráfico de drogas, e jazem em sono profundo, restando, pois, na caverna da minha memória, um misto de nostalgia e indeléveis cicatrizes. Outros tiveram seus sonhos petrificados nas geleiras da antiga Febem ou cárceres correlatos, sem deixarem vestígios, rastros ou notícias, apenas lembranças.

 

Como nem tudo é só tristeza, muitos dos amigos daquele tempo são, hoje, chefes de família, repletos de responsabilidades, com breves noites para descanso e sono, pois acordam de madrugada ao som estridente do despertador, pulam de chofre da cama e, depois de um rápido banho e lépido café, seguem direto para o ônibus ou trem, rumo à lida, em busca do sustento da prole, alimentando o sonho de um futuro melhor e mais doce para si e, principalmente, para os seus.

 

De outra banda, uma diminuta parcela, os chamados resilientes (como é bom andar com quem nos ensina, pois aprendi esta palavra com uma pessoa inteligente!) conseguiram se formar professores, engenheiros, contadores, advogados, ou algo assim. Eu, por meu turno, na qualidade de advogado, continuo a trocar o meu labor – agora “madeira de lei” — por outros sonhos, individuais e coletivos. Assim, alicerçado na razão, emoção e tendo a palavra como instrumento, procuro atuar nos fóruns da vida para a realização desses sonhos, sobretudo, o da construção de uma pátria mais justa e de um mundo melhor, mais alegre e, de preferência, mais doce.

 

Nesta altura de minha existência, olhando pelo retrovisor e relembrando algumas das inúmeras lutas que participei, ombreado com outros trabalhadores como eu, muitas vezes, no exercício de meu mister, lutando para evitar que fossem despejados de suas casas por grileiros inescrupulosos, infectados pelo deletério vírus da ganância, percebi que ganhamos muitas, mas compreendi também que tudo aquilo que fiz, diante do latifúndio de desigualdade, não passa de um diminuto, tênue e fluído risco de giz.

 

Arnaldo Bispo do Rosário é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta série especial de aniversário da cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: até o último bonde que passou em Santo Amaro

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

rcm.rhda.sp@gmail.com

 

 

Eu, um anônimo passageiro

 

Entro no túnel do meu tempo. E retrocedo de uns 60 anos. Eis-me, então, moleque de dez! Quando minha mãe dizia que, eu, molequinho de colo, dedinho esticado apontando para um deles, na rua… dizia que a primeira palavra que balbuciei foi um substantivo que rolava pesadão nos trilhos, rangendo ferragens e madeira, soltando azuis faíscas da roldana contra o fio trólei; e embaixo, entre as rodas dos truques.

 

“Bon-de” —- foi o que disse.

 

Lembro, sim! Vinha um adulto e dizia. Ah, que os bondes, anterior à cê-eme-tê-cê, eles tinham sido da Light: –- “Você sabia, menino?”. Eu? Sabia… que da Light –- meu pai era lighteano do Cambuci – eram postes e lâmpadas. Postes de ferro, de cimento e uns remanescentes de toras de eucalipto. Lâmpadas de filamento, e que acendiam em série, notava-se fácil, iluminando ruas de paralelepípedos, as asfaltadas e as ruas de terra que – claro! – sob chuva, eram de lama!

 

Ah,eu adorava bondes e ônibus! E a própria Companhia Municipal de Transportes Coletivos – aquela, de entre os anos 1950 e 1960. Nossa! Quantas garagens! Que enorme frota! Quantos muitos funcionários! Diziam, lembro, “a CMTC é da Prefeitura”, referindo que a municipalidade a gerenciava – instituída que houvera sido em 1947. Eu gostava do vermelhão dos bondes e ônibus, embelezado por singular e indefectível logotipo, que eu chamava “emblema”.

 

Eu? Ora, nunca trabalhei na CMTC – que pena! Fui somente um anônimo passageiro. De bondes que circularam nas minhas infância e adolescência; de ônibus como os sacolejantes ACLO, de mecânica inglesa e que davam tranquinhos mudando marchas “semiautomáticas” –- nas linhas 11, 12 e 13. Ou 47 e 48. Que saudadizinha!

 

Quando, em 1961 – lembro bem – Adhemar de Barros cedeu lugar para Prestes Maia, então o vigoroso vermelho da CMTC virou – bondes e ônibus – um apático laranja clarinho… anêmico.

 

Os velhos bondes – obsoletos, de há muito – a cor laranja lhes era a da própria agonia. Pois, sabemos, o último camarão deu seu suspiro final em Santo Amaro, em 1968, numa viagem ironicamente festiva. Nela, o prefeito Faria Lima, que tornou de um azul escuro a cor da “Nova CMTC”.

 

Olha, bem melhor que eu… que o diga um ex-ceemeteceano: quão imponente, a CMTC! Que reformava bondes, na Araguaia; montava carrocerias de ônibus na colossal Santa Rita e mantinha uma Escola Senai, na Ponte Pequena! Oficinas e garagens? Eram muitas: Jabaquara, Santo Amaro e Lapa; Sumaré, Barra Funda, Cambuci. Depois, enorme, Vila Leopoldina. Uma, exclusiva de ônibus elétrico, na Machado de Assis. Era pouco? Era muito!

 

Os bondes? Lembro, igual. Três gares – herdadas da Light – curiosamente denominadas de “estações de bondes”: Vila Mariana, Brás e Alameda Glete. Exagero, dizer da CMTC, “imponente”?

 

Que o amanhecer de 25 de janeiro, em que Piratininga soprará 465 velinhas … que a efeméride traga consigo, tal qual um ônibus traz um passageiro, uma lembrança! Ao mesmo tempo, reconhecimento e gratidão de nós, concidadãos. Enfim, uma homenagem à CMTC, digo melhor, às gerações de paulistanos que por meio século a conduziram! E, assim, nos conduziram! A CMTC é uma história de São Paulo: nada é mais paulistano que ela! Uma nostalgia vermelhona.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a árvore de Natal da estação de ferro Sorocabana

 

Por Evelyn Bighetti
Ouvinte da CBN

 

 

Morei no bairro da Penha por muitos anos. Eram duas casas. Na da frente, moravam meus pais, eu e meu irmão. Na dos fundos, meus avós, pais do meu pai. Na lateral das casas, tinha um jardim muito florido, um galinheiro, algumas árvores frutíferas e um corredor comprido e largo.

 

De tempos em tempos, meu pai nos levava, eu e meu irmão, para passear no Jardim da Luz. Um lugar lindo, com chafariz, peixes no lago, muitas árvores, bancos e mesas para fazer piquenique. Lá perto ficava a Estação de Ferro Sorocabana, hoje conhecida como Estação Júlio Prestes. Na época do Natal, bem na entrada da estação, era montada uma árvore muito linda, repleta de bolas coloridas, enfeites imitando neve e pisca-pisca. Era tão alta que alcançava o teto. Meu pai sempre nos levava lá para vê-la. Para mim, ela era enorme e linda.

 

 
Perto da Estação de Ferro Sorocabana ficava o principal Terminal Rodoviário da Luz, o único da cidade de São Paulo naquela época. Quando meu pai resolvia e ir para o litoral, ele comprava só duas passagens de ônibus. Uma para ele e a outra para minha mãe, sobrando o colo deles para mim e meu irmão — um desconforto total.

 

Atualmente, perto desses lugares, foi construído o SESC Bom Retiro, onde duas vezes por semana faço aulas de natação. Para chegar até lá, passo próximo do Jardim da Luz, da extinta Estação de Ferro Sorocabana e dos escombros do Terminal Rodoviário da Luz. Fico muito triste com o que restou de toda aquela região, hoje numa decadência total. As ruas estão deploráveis, com lixo em toda parte.Roupas jogadas pelas ruas. A rodoviária foi demolida, talvez por tantas invasões de usuários de crack — esses farrapos humanos, jogados pelas ruas, escondidos em tendas para ninguém vê-los fumar o cachimbo.

 

A Estação de Ferro não tem mais aquele glamour, está meio abandonada. Os trens que partiam de lá para vários municípios de São Paulo só vão, agora, até a Barra Funda. 

 

Só não levaram as minhas boas lembranças da cidade.

 

Evelyn Bighetti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Para participar deste quadro, envie seu para contesuahistoria@cbn.com.br

 
 
 

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a travessia na ponte de canos para nadar no lago da “Cidade Universitária”

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da CBN

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Hoje, levando minha esposa para fazer um exame com o médico que a operou há 15 dias, colocando uma prótese na cabeça do fêmur, atravessei a ponte que sai da Praça Panamericana e vai para a Rua Alvarenga. Reparem quando passarem nesta ponte, neste sentido, do lado esquerdo, sobre o Rio Pinheiros: existe uma outra ponte, somente para suportar canos enormes, penso eu que de água potável.

 

Quando eu era criança, hoje tenho 81 anos, só existia aquela ponte, não existia esta que atravessei hoje. Eu morava em Pinheiros e do lado de lá, do lado do Butantã, onde hoje é a Cidade Universitária, existia uma lagoa, penso eu que era no lugar onde está a raia olímpica da USP, não tenho certeza, mas era por ali e o lugar era conhecido como Cachoeirinha.

 

Era costume das crianças da nossa vizinhança, ou como diziam os vizinhos, os moleques, irem nadar na Cachoeirinha. Era costume mas nossos pais proibiam. E por isso íamos escondidos. Meu irmão Mário era, e é, cinco anos mais velho do que eu. Penso que ele tinha 12 e eu sete anos de idade. Eu queria ir também sempre que os ouvia combinando de nadar lá. Mas eu morria de medo para atravessar por cima dos canos daquela ponte e talvez por isso ou porque era realmente perigoso ele nunca queria me levar.

 

Criança que eu era, não sabia que é muito feio fazer chantagem, e então eu fazia: “ou me leva ou conto pra mãe que você foi nadar escondido”. E ele me levava. Coitado, pagava do mesmo jeito porque nadávamos de cueca, que eram brancas, antes de nadar, e chegavam em casa cor de barro. O castigo vinha da mesma forma, mas eu conseguia ir nadar na cachoeirinha.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na porta do Mappin, o encontro dos jovens negros da cidade

 


Por Antonio Carlos Arruda
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 66 anos. Sou paulistano da Vila Guarani, no Jabaquara. Negro, advogado formado pela PUC. Quero contar um fenômeno da década de 1970: o encontro da juventude negra, toda sexta-feira, na porta do Mappin, a grande loja de departamentos paulista.

 

Era uma coisa mágica, uma expectativa e uma ansiedade que mexia com o nosso sentimento, jovens negros, de todos os lugares de São Paulo. Sem que ninguém marcasse nada, comparecíamos ali espontaneamente. Sexta, sim, e a outra, também. Não havia motivação política, muito embora pude entender tempos depois, que havia de maneira subliminar a procura por uma situação de igualdade — infelizmente, ainda não alcançada pela nossa gente.

 

Mas o importante aqui é que íamos para a porta do Mappin para encontrar jovens, negras e negros, onde rolavam por certo as paqueras –- muitos casamentos saíram dali. Mas, especialmente, para saber onde seriam as festas, os bailes de fim de semana, nas casas de família e nos salões da cidade. Falávamos de música, dos últimos lançamentos e dos sucessos dos nossos ídolos brasileiros e americanos. Desfilávamos com nossas melhores roupas —– calças bocas de sino; as meninas com suas blusas colantes, saltos altíssimos e cabelos afros mais incríveis e grandes que pudéssemos armar.

 

Algumas explicações para esse fenômeno:

 

Éramos o segmento mais pobre da população, raríssimos tinham telefone em casa. Se uma garota passava o número, era uma referência de “gente fina”, coisa que só os brancos tinham. Desde muito jovens trabalhávamos de office-boys, auxiliares de escritório, bancários. As meninas também em escritório, poucas lojas as aceitavam como vendedoras; eram faxineiras nas empresas do centro e, outras tantas, empregadas domésticas nos Jardins.

 

Também porque festa de preto não era igual festa de branco. Não gostávamos de Jovem Guarda. Nossas referências eram Wilson Simonal e sua pilantragem; Jorge Ben com seu samba-rock; Tim Maia com seu soul americanizado e parecido com James Brown, Billy Stuart, Aretha Franklyn, o exotismo de Miriam Makeba; os sambas de Elza Soares, Elis Regina, Originais do Samba e por aí afora.

 

Eram tantos negros naquele espaço, que se estendia por um pedaço do Viaduto do Chá defronte a antiga Light até a Galeria Nova Barão, num vai e vem que ia das seis da tarde às dez da noite.

 

Além de quase todos sermos clientes do Mappin e aproveitarmos para pagar nossos carnês e fazer novas compras, outra explicação para o local do encontro era a facilidade para depois cada um tomar o rumo do seu destino.

 

Foi tão marcante a presença de negras e negros, que as escadarias do Teatro Municipal foram o local de lançamento do Movimento Negro Unificado, numa sexta-feira, dia sete de julho de 1978.

 

Antonio Carlos Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: imaginava que era um disco voador

 

Ao longo das duas próximas semanas, o quadro Conte Sua História de São Paulo ganha uma versão especial, em homenagem aos 465 anos da cidade. Serão publicados, diariamente, no Jornal da CBN, textos de ouvintes, que foram selecionados a partir de histórias enviadas para o e-mail contesuahistoria@cbn.com.br. Acompanhe as histórias, inspire-se e participe, pois durante o ano, o quadro Conte Sua História de São Paulo segue em sua versão tradicional: aos sábados, logo depois das 10h30, no CBN SP.

Por Lea Maria Martins Passos
Ouvinte da CBN

 

 

Passei minha infância no Jardim Paulista. Morava num sobrado. Na parte de cima havia um terraço e eu gostava de olhar a vista. Lá para baixo via-se apenas um prédio que existe até hoje na esquina. No mais, era só o topo das árvores e telhados das casas.

 

Em um belo dia, do ano de 1954, começou a aparecer uma grande estrutura, muito grande mesmo. Ela ia sendo construída aos poucos, aos gomos, como uma enorme mexerica prateada, que brilhava muito.

 

Eu gostava de imaginar que os homens estavam construindo um disco voador. Era o tempo da “Marcianita” … do Sputinik …. e das primeiras viagens pelo espaço sideral.

 

Passaram-se três anos desde o início daquela obra. Três anos mexendo com minha imaginação, até que a construção foi concluída com todos os seus gomos prateados, desenhados por Ícaro de Castro Mello.

 

Era o Ginásio do Ibirapuera!

 


Léa Maria Martins Passos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.