Conte Sua História de SP: saí com o guia de ruas em mãos e ao voltar encontrei o meu caminho

Bernardino Santos Filho

Ouvinte da CBN

Imagem de Steve Buissinne por Pixabay 

Tenho 57 anos e nasci na pequena cidade de Igreja Nova, em Alagoas. Vim para São Paulo, em janeiro de 1965. Tinha apenas um ano e meio. Vim com minha mãe, meu pai e meu irmão —- que ainda estava no ventre.

Foi uma viagem difícil. De ônibus. De Alagoas a São Paulo, em um trajeto que durou seis longos dias. Minha mãe conta que passei muito mal durante a viagem. Em São Paulo, assim que chegamos, fomos acolhidos por parentes que moravam no bairro do Campo Limpo.

Aos oito anos, em 1972, fui matriculado na Escola Jockey Club de São Paulo  — hoje, um prédio abandonado.  Tinha bolsa de estudos, pois meu pai trabalhava como cavalariço, pessoa que cuidava dos cavalos no Jockey Club. 

Frequentei essa escola por sete anos, da 2ª até a 8ª série.  Naquela época não existia ensino médio e fundamental. Ao completar 15 anos, fui procurar o meu primeiro emprego para ajudar nas finanças de casa. Havia feito o curso de datilografia e auxiliar de escritório, na crença de que me ajudariam a arrumar um trabalho. 

A primeira entrevista foi na Química Industrial Paulista, que fabricava o “Thinner Audi”. A vaga era de office-boy. Seu Jorge, meu entrevistador, de imediato perguntou se eu conhecia todas as ruas de São Paulo.

Quem diria, em vez de datilografar com velocidade, eles precisavam de alguém que dominasse o guia de ruas da cidade. Após alguns segundos de hesitação, respondi que sim: “conheço, sim”.

Fui contratado pelo departamento de cobrança para entregar os avisos de cobrança para os clientes. No primeiro dia de trabalho, recebi uma série de correspondências, cada uma com um endereço diferente do outro e um guia de ruas. Gelei com a incumbência. Mas, perguntando aqui, errando ali, certificando-se acolá, fiz todas as entregas dentro do prazo previsto.

No dia seguinte, surpresa, fui chamado pelo meu chefe. Ele disse que o contador da empresa queria falar comigo. Será que fiz algo de errado? Não! Ele havia verificado o meu currículo e visto que eu tinha o curso de auxiliar de escritório. Sem perguntar se eu queria, disse que a partir daquele momento eu seria arquivista no departamento de contabilidade.

Fiquei seis anos na empresa. Tomei gosto pela contabilidade. Fiz o curso de técnico e tirei o meu CRC —- a carteirinha do conselho regional. Hoje, sou bacharel em Ciências Contábeis, pós-graduado em Controladoria, Finanças e Auditoria e também tenho MBA na área. 

Se longa e difícil foi a viagem de Alagoas a São Paulo, a jornada aqui nessas terras se estendeu por muito mais tempo e foi marcada por muitas alegrias. Assim, só tenho a agradecer à cidade que acolheu minha família. E à empresa, a Audi, que me deu a primeira oportunidade de trabalhar e me apaixonar por contabilidade e finanças.

Bernardino Santos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe você também: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Brasileiro terá de fazer esforço maior do que nossas medalhistas para não perder na disputa do Imposto de Renda

Começamos a edição do Jornal da CBN com o bronze da Mayra Aguiar, no judô, e encerramos com a prata da Rebeca Andrade, na ginástica artística. Mayra é a primeira brasileira a conquistar três bronzes em três Olimpíadas seguidas. Rebeca é a primeira ginasta a conquistar uma medalha olímpica para o Brasil. Ah, se a quinta-feira se resumisse a esses dois fatos, haveria bons motivos para comemorar.

Ok, ok! Não serei tão pessimista assim. Falar de frio e neve — como fizemos  logo na abertura do Jornal — também pode ser agradável se ficarmos só no campo da curiosidade, dos recordes e dos turistas. 

O problema começa quando lembramos que essa terceira onda de frio, no inverno brasileiro, resulta de efeitos da mudança climática, e muitas pessoas não têm um abrigo decente para se proteger. Igrejas foram abertas em São Paulo, o ginásio de esportes lotou em Porto Alegre e outras ações se fizeram necessária para oferecer um mínimo de conforto a famílias que vivem em situação de rua. 

Outra encrenca sobre a qual dedicamos parte do programa é o projeto de reforma do Imposto de Renda, que está nas mãos do relator Celso Sabino, deputado federal do PSDB do Pará. O texto que saiu do Ministério da Economia era uma geringonça e coube ao parlamentar ajustar até onde fosse possível, reescrevendo trechos, eliminando regras e incluindo o que fosse necessário para que se tenha um projeto tributário mais justo. E quando falamos em justiça tributária, a regra é simples: os ricos pagam mais e os pobres pagam menos. Complexo é fazer essa regra ser cumprida.

Na entrevista ao Jornal da CBN, o deputado Celso Sabino se esforçou para nos convencer de que o texto reescrito traz a solução para o disparate que existe atualmente. E que todo mundo vai pagar menos impostos. Confirmou, por exemplo, a manutenção da isenção das empresas cadastradas no Simples da cobrança sobre lucros e dividendos.  Também garantiu a retirada de um tremendo bode que haviam colocado dentro da reforma que retiraria benefícios das empresas que oferecem o vale-refeição e o vale-alimentação. Disse que o assunto sequer será citado no texto, pois sabe que basta um vacilo e é dali que a equipe econômica vai tentar arrancar um pouco mais de dinheiro. E quem vai pagar: o trabalhador. 

Apesar do discurso otimista de Celso Sabino — ele ainda não havia se reunido com os representantes dos governadores e prefeitos —, se nada mais for mexido no texto, nem todos os 32 milhões de contribuintes vão ganhar como ele tenta nos convencer.

Pouco menos de uma hora depois da entrevista, a Miriam Leitão estava no ar para ratificar este alerta: uma enorme fatia da Classe C — daqueles que ganham entre R$ 40 mil e R$ 80 mil anuais —- perderá o direito de fazer a declaração simplificada usufruindo do desconto padrão. Eu havia questionado Sabino sobre o assunto, mas ele puxou um número daqui, uma alíquota dali e uma percentual de acolá para provar que tinha total razão. 

O curioso — e cheguei a expor isso na entrevista — é que a própria equipe econômica calcula que arrecadará de R$ 10 bilhões a R$ 11 bilhões com essa mudança da regra. Se o governo vai ter esse dinheiro a mais, alguém vai pagar a conta e não serão apenas os mais ricos.

A intenção é que o relatório seja votado até o fim de agosto na Câmara dos Deputados e aprovado pelo Senado até o fim do ano para que as regras possam ser aplicadas já em 2022. Até lá muita pressão haverá e quem tem lobby mais forte costuma ganhar esta briga. Pra garantir seu lugar na reforma, o trabalhador brasileiro vai precisar de um esforço descomunal, maior do que Mayra Siqueira teve de fazer para arrancar o bronze olímpico, ou Rebeca para garantir sua prata.

Assista à entrevista completa com o deputado federal Celso Sabino, relator da reforma do Imposto de Renda:

Covid no Brasil: tá melhor mas tá muito ruim; e pode piorar

Vacinação contra a Covid-19 (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Tá melhor mas tá muito ruim. Era a frase que ouvia de um dos meus técnicos de basquete sempre que, ao fim da partida, perguntava sobre algum fundamento do jogo em que buscava me aprofundar. Nem bem havia se encerrado a entrevista do Jornal da CBN desta quarta-feira e a frase ressoava na minha cabeça. Não falávamos de basquete, infelizmente. O assunto era a Covid-19 no Brasil. 

No último boletim, divulgado pela Fiocruz, se vê  que por mais uma semana, há tendência de queda no número de óbitos e nos indicadores de ocupação de leitos de UTI Covid-19. E segue em crescimento o número de pessoas contaminadas de um dia para o outro. São 46,8 mil novos casos por dia, em média. E 1,6 mil mortes por dia, em média.

Diante da experiência e conhecimento da doutora Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia na Universidade John Hopkins e professora da Universidade Federal do Espírito Santo,  nossa convidada no Jornal da CBN, queríamos entender qual o estágio da pandemia no país, 551 mil mortos, 19,7 milhões de contaminados e 500 dias depois de ter se iniciado por aqui. 

“O momento é de cautela … estamos em uma situação de descontrole e a possibilidade é de  (o número de casos e mortes) voltarem a patamares ainda mais altos com a variante Delta”.

Ou seja, com os dados da Fiocruz em uma mão e a análise da doutora da Universidade Federal do Espírito Santo em outra, podemos dizer que “tá melhor, mas tá muito ruim”.  E pode piorar.

Para a doutora Ethel, uma das médicas que têm se sobressaído na análise de cenário da pandemia, aqui no Brasil, o chocante é perceber um quadro nos números e outro nas ruas. Disse que o movimento de pessoas, a ocupação de locais abertos e fechados —- sem contar os eventos clandestinos — dão a entender que a pandemia terminou. Uma falácia que pode se transformar em extensão da tragédia que vivemos a cada dia. Especialmente frente a demora para se completar o ciclo vacinal na população e a interrupção da vacinação em algumas capitais por falta de doses. 

Nos dados oficias, somos 97.325.965 vacinados em primeira dose. Isso representa 45,96% da população brasileira. E apenas 38.704.270 ou 18,28% das pessoas totalmente imunizadas. Tá melhor (do que no início do ano) mas tá muito ruim, porque demoramos para trazer e produzir vacinas e demoramos para distribuí-las. 

Ethel chamou atenção para o fato de que o Ministério da Saúde leva até quatro dias para receber o imunizante no aeroporto, fazer a checagem necessária e iniciar a entrega nos Estados, que depois têm de distribuir para os municípios. A médica defende uma espécie de via rápida com o produto sendo encaminhado, sem abrir mão dos procedimentos de segurança, em prazo menor:

“Vacina só funciona no braço das pessoas, não nos galpões do Ministério da Saúde”.

É preciso aprender a lição com os outros países e entendermos o risco da variante Delta, muito mais contagiosa. A título de comparação: enquanto uma pessoa com o SarsCov-2 — o vírus como nos foi apresentado lá no início da pandemia —- contamina de duas a três pessoas, se tiver a variante Delta, vai contaminar de cinco a oito pessoas. Mais pessoas infectadas, mais pacientes em hospitais, menor capacidade de atendimento. Tudo isso somando, resulta em maior risco de mortes.

Os Estados Unidos, com cobertura vacinal muito mais ampla do que o Brasil, recuaram na liberação do uso de máscaras por causa do avanço da variante Delta. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças recomendou, mesmo aos vacinados, o uso de máscaras em ambientes fechados nas áreas em que o contágio da Covid é considerado “substancial”ou “alto” —- que representam dois terços do país E lá, quase metade da população (48,8%) recebeu as duas doses das vacina. 

“A gente precisa aprender com os erros alheios”.

Mesmo sob esse alerta e entusiasmado com o avanço da vacinação e a queda no número de pessoas internadas. por Covid-19, o governador João Doria anunciou hoje ampliação no horário de funcionamento do comércio e da capacidade de ocupação dos locais, além de acabar com o toque de restrição à noite. Ao mesmo tempo, antecipou o calendário da vacinação em dois dias e espera ter vacinado os adultos, com primeira dose, até o dia 16 de agosto. No dia seguinte, já indicou, todas as restrições de horário e ocupação do comércio serão suspensas.

Quando falamos com Ethel Maciel, o anúncio ainda não havia sido feito, mas ela já havia deixado o seu recado: 

“Nós precisamos ser mais esperto do que o vírus, por enquanto, o vírus está ganhando”

Assista à entrevista completa com Ethel Maciel, professora e pós-doutora em epidemiologia, no Jornal da CBN:

Conte Sua História de SP: paixão ao abrir os olhos

Gi Delabeneta

Ouvinte da CBN

Foto: Mílton Jung


O meu amor por esta cidade é tão grande, que fica até difícil saber por onde começar. Mas quem sabe do início? Foi em 2014, numa viagem com a faculdade. Lembro de eu abrir os olhos após 10 longas horas de  ônibus e deparando com o centro de São Paulo. Pessoas dormindo na rua, bastante lixo no chão, buzinas, trânsito e uma quantidade de pombos que eu nunca tinha visto antes. Eu era uma menina de 20 anos, de Santa Catarina, e com meu faro de jornalista decidi conhecer tudo de uma vez: em três dias, visitei o Brás, a 25, andei de trem e de metrô, conheci veículos de comunicação, o Mercado Municipal, experimentei o sanduíche de mortadela e conheci até o Templo de Salomão. Mas ainda faltava conhecer aquela que se tornaria o meu motivo maior para querer visitar São Paulo para sempre: a Avenida Paulista. 


Logo depois que voltei para Blumenau senti uma saudade inexplicável daquela rotina deliciosamente maluca. Só fui voltar à terra da garoa três anos depois, em 2017, convidada para um trabalho que ficava em plena Avenida Paulista. Senti naquele instante, na primeira vez que eu pisava no asfalto da Avenida, que se estabelecia uma conexão profunda com São Paulo. 


Já deve ter dado para perceber que a Avenida Paulista é o meu lugar favorito no mundo, tanto que o meu pedido de namoro seria lá. Estávamos lá, com as alianças e tudo. Só que deu tudo errado e meu namorado (que, não por acaso, é paulista) acabou me pedindo em namoro dentro da rodoviária do Tietê. Uma longa e cômica história…
São Paulo também é muito especial para mim, porque foi palco da realização de grandes sonhos, alguns de infância: fui ao show do meu grupo preferido e abracei minha cantora favorita. Estudei na cidade. Conheci gente extraordinária.  


São Paulo me inspira, me faz sentir viva, faz meu coração pulsar de felicidade, cada vez que chego na Avenida Paulista, me encanta, me fascina, me conecta com quem sou de verdade.

São Paulo me ensinou a ter coragem, a viajar sozinha:a de avião, de ônibus ou de metrô. São Paulo me ensinou a não me desesperar quando quase perdi meu voo de volta e nem sequer tinha levado cartão de crédito. Como fiz aquilo? Sei lá! Deve ser essa proximidade que São Paulo me faz sentir, mesmo estando a 600 km de distância.


Com a pandemia não pude mais sentir aquele frio na barriga na chegada em Congonhas ou no Tietê. A última vez que estive na cidade foi em agosto de 2019. Imagine como está a saudade no meu peito. Mas assim que puder, volto pra aí ao som de Is This Love, do Whitesnake, música que me acompanhou em um trajeto de volta para o terminal do Tietê, quando, dentro do Uber, eu, eufórica, sentia aquele momento precioso e, fora do carro, assistia ao pôr do sol mais lindo que já vi na vida.


Gislaine Delabeneta é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja voce também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: o que é mais importante pra você, saber ouvir ou saber contar histórias?

Foto de Negative Space no Pexels

“Aprender a ouvir com humildade é a fonte para construir histórias atraentes e que param em pé”  Jaime Troiano 

Pra quem gosta de ouvir boas histórias, minha sugestão: assim que a pandemia passar, convide Jaime Troiano para uma mesa de bar. Nosso comentarista do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso está sempre pronto para compartilhar um momento curioso, um fato interessante e ilustrar seus ensinamentos com causos vividos ou conhecidos. Com uma enorme vantagem: assim como gosta de contar histórias, adora ouví-las. E há uma boa razão para isso, como ele e Cecília Russo nos explicam no bate-papo que foi ao ar, no Jornal da CBN. 

Antes de chegarmos lá, vamos começar —- como deve ser nas boas histórias —- pelo começo. As marcas para escapar de modelos publicitários clássicos, buscaram outras formas de alimentar a vida, o conteúdo e o seu estilo. E encontraram a técnica do ‘storytelling’ — que é a habilidade de contar histórias usando diversos recursos que podem ser  audiovisuais ou apenas com palavras. Uma técnica que ajuda a promover seu negócio e oferecer seu serviço de forma indireta, investindo na persuasão.

Um fabricante de móveis, por exemplo, pode apoiar a sua comunicação na trajetória da família que construiu a empresa, desde seus primórdios. Uma empresa que faz panetone pode contar como os fundadores elaboraram a receita mágica. Mesmo um jornal, que nasceu há muitos anos, às vezes mais de um século, e se mantém fiel a seus princípios editoriais, pode ser muito mais convincente quando fala dos compromissos que tem com sua história.

“Ou seja, as marcas quando falam de si mesmas na primeira pessoa podem ser muito atraentes, construindo essas narrativas. Sempre que forem verdadeiras, lógico. Já houve casos de algumas que foram pegas de calças curtas porque inventarem histórias, que foram desmascaradas”

Jaime Troiano

Vamos, então, a razão de o Jaime, esse baita contador de histórias, também gostar de ouví-las. A Cecília Russo —- que não cansa de ouvir as histórias dele —- ensina que o ‘storytelling’ está no território da escuta, também. 

“Você somente contrói storytelling se estiver disposto a ouvir com muito cuidado e sensibilidade o que existe por trás da vida das marcas, das pessoas que trabalho com ela, das pessoas que estão passando, por exemplo, na sua loja, ou com aquelas que deram vida a elas no mercado”

Cecília Russo

É isso: boas histórias de uma marca não serão genuínas, se não forem fruto de uma escuta de verdade e sensível. É possível inventar belíssimas histórias para uma marca, mas se não tiverem autenticidade, conexão com a vida do se negócio ou serviço, ao longo do tempo, essas histórias não grudam, não pegam, não convencem o público que se pretende alcançar. 

“Nosso ex-sócio americano Joey Reinam vivia repetindo: ‘the fruis are in the roots’. Traduzindo: os frutos estão nas raízes. Se a gente pensar no branding, é, acima de tudo, um mergulho na vida das pessoas e da sua relação com as marcas”. 

Cecília Russo

Puxando o traço de toda essa nossa história: para desenvolver o storytelling da sua marca, antes se dedique ao storylistening, que é desenvolver a escuta ativa, ter atenção e interesse no que os outros contam.

Para saber mais sobre a relação do storytelling com o storylistening, ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: 

Mundo Corporativo: Juliana Azevedo, da P&G, diz que investir em diversidade gera qualidade na inovação e satisfação do cliente.

“P&G escolhe um lado — com um orçamento de marketing de US$ 10,7 bilhões à disposição,  o gigante dos bens de consumo aposta na inclusão”

Essa foi a manchete publicada, nesta sexta-feira, em um portal de notícias da cidade de Cincinnati, onde a P&G nasceu, no ano de 1837. É significativa porque ilustra bem o tema da conversa que tive com Juliana Azevedo, a primeira mulher a assumir o comando da empresa, no Brasil. O foco da entrevista, no programa Mundo Corporativo,  foram as políticas de inclusão do público LGBTQIA+, que há 11 anos são desenvolvidas na organização e influenciaram o criação de uma série de outras ações em busca de uma diversidade cada vez mais ampla. 

Para Juliana, reconhecer a importância da diversidade e incluí-la na estratégia da empresa são fundamentais para que as organizações avancem no tema e impactem as comunidades que estão ao seu alcance. Ela explica que o desafio se torna mais fácil porque a ideia faz parte da história do grupo que, no século 19, tinha mulheres no comando de fábricas, nos Estados Unidos. Nos anos de 1980, a discussão sobre orientação sexual já era parte do cotidiano do grupo, por exemplo.

“Quanto mais diverso, mais inclusivo, mais autêntico, melhor realmente a nossa organização está. Do ponto de vista de negócios, a gente vê a qualidade na nossa inovação, a gente vê a satisfação do nosso consumidor e temos certeza absoluta que há uma relação direta em grupos de colaboradores mais diversos e inovações que satisfaçam melhor os consumidores brasileiros”. 

Para entender o que os diversos públicos buscam, a empresa forma grupos de afinidades, dos quais fazem parte cerca de 10 a 15 funcionários, ligados direta ou indiretamente à causa. Foi assim que se iniciaram as reuniões do Gable  (Gay, Ally, Bisexual, Lesbian & Transgender Employees) que inspiraram a formação de outros coletivos como os de mulheres, pessoas com deficiência, jovens e, mais recentemente, ético-racial. Desses debates, surgem novas políticas:

“Atualizamos planos de saúde, benefícios de casamentos, expandimos a licença parental para oito semanas remuneradas, para casais hétero e homoafetivos. Então, é uma política que talvez seja mais emblemática nesse aspecto de inclusão. Não é para a mulher. É para o casal. É para a família. É reconhecer todas as formas de amor, de união”.

Em abril deste ano, a P&G apresentou a iniciativa “PrideSkill – Porque ter orgulho de quem você é também é uma skill”, com o objetivo de ajudar profissionais LBTQIA+ a se conectarem com as empresas através do uso do termo “pride”. Foram criados filtros para o Instagram e o Facebook, além de uma capa oficial para o Linkedin, tanto para candidatos quanto para os contratantes, para estimular o orgulho da comunidade no meio profissional. Dados levantados pela P&G mostram que 61% dos funcionários LBTQIA+ no Brasil optam por esconder sua sexualidade dos seus supervisores.

Curiosamente, o grupo de afinidade étnico-racial se formou há pouco tempo — confesso, fiquei surpreso: imaginava que a demografia brasileira já tivesse influenciado as ações da empresa nesse sentido. Juliana Azevedo explica que é preciso, a todo instante, trabalhar os vieses inconscientes e as microviolências que ocorrem no dia a dia. Partindo do princípio de que não seriam encontrados candidatos negros e pardos, há três anos, aceitava-se a ideia de se ter apenas 8% das pessoas dessas cores e raças na equipe gerencial. Hoje, 32% se declaram pretos e pardos; e, no escritório administrativo de São Paulo, ainda são apenas 13%

“A gente precisa fazer um esforço maior … a primeira decisão foi criar esse grupo de afinidade e fazer um diagnóstico. Esse grupo definiu como primeiro passo ações de recrutamento. Fizemos uma série de parcerias e buscas para conseguir, em diferentes onde de recrutamento, que a gente fez durante 2020, recrutar até 80% só de pessoas pretas e pardas”.

Além de trazer para dentro da empresa, é preciso acolher essas pessoas. Foi assim com o grupo LGBTQIA+ e com pessoas com deficiência, por exemplo, e está sendo com a comunidade étnico-racial, conta Juliana. Um dos projetos foi oferecer cursos de inglês para reparar a falta de conhecimento devido a ausência de oportunidades. Os jovens também recebem acompanhamento de mentores que orientam e aprendem, permitindo que a empresa identifique outras barreiras que precisam ser superadas:

“Para nós é uma escolha estratégica. A gente não acredita que vai conseguir servir bem os brasileiros se a gente não tiver dentro da empresa o espelho do que existe na sociedade, Eu quero desenvolver produtos que sejam bons para todos os brasileiros e, portanto, preciso ter todos eles dentro da nossa própria casa”.

Provocada por uma das ouvintes do Mundo Corporativo, Juliana identificou algumas medidas que gestores e colaboradores precisam adotar se estiverem dispostos a encarar o desafio da diversidade e inclusão:

  1. Faça uma reflexão: você está disposta a encarar a luta que você tem pela frente?;
  2. Olhe a sua volta e busque aliados, que podem estar embaixo, em cima, em qualquer posição da empresa;
  3. Monte um plano de ação, entendendo bem seu interlocutor, ou seja, a empresa em que você está inserida
  4. Tenha muito claro onde você quer chegar e saiba muito bem de onde você quer sair
  5. Trace seu plano de tal forma que você promovendo pequenas mudanças no dia a dia.

Ouça a entrevista completa do Mundo Corporativo, com Juliana Azevedo, CEO da P&G

Sem ilusão e com vacina no braço podemos avançar no combate à Covid-19

 Foto: João Gabriel Alves/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo

O e-mail e as redes sociais estão cheios de céticos e negacionistas. Para estes, nada a declarar. Apenas lamento pela ignorância. Àqueles, tudo a agradecer. O ceticismo, ao contrário do senso comum, promove o pensamento científico. É questionador. Busca as evidências. Não por acaso, uma das entidades científicas mais prestigiadas do mundo atende pelo nome Committee for Skeptical Inquiry —- em bom português, Comitê para Investigação Cética. 

O jornalismo é feito de ceticistas. Estamos sempre perguntando o porquê das coisas. Não nos satisfazemos com a primeira resposta. Queremos confirmar em uma segunda e terceira fontes. Desconfiamos do político que se faz de bonzinho. E aliviamos menos ainda para que o que fala duro, mas se entrega no primeiro questionamento. Tentamos sempre entender o que está por vir. 

Do comitê de céticos faz parte nossa colega de CBN, a microbiologista Natália Pasternak —- no ar, às terças-feiras, 7 horas, em Hora da Ciência. Aliás, a única brasileira a fazer parte do grupo internacional. Foi ela quem, dia desses, em entrevista ao Nexo, definiu:

“Não podemos confundir o cético com o negacionista. O cético é a pessoa que quer ver as evidências, enquanto o negacionista recusa as evidências que estão diante do seu nariz”. 

Dito isso, vamos ao tema da minha conversa com você, caro e raro leitor deste blog. Na edição desta sexta-feira, entrevistamos uma pesquisadora e um político, cada um com sua devida expressividade. Na conversa com os dois, uma certeza, baseada nas evidências:

“… a boa notícia: a vacina está fazendo diferença”

Foi com esta frase que a doutora Margareth Portela, da Fundação Oswaldo Cruz e do Observatório Fiocruz Covid-19, abriu a entrevista no Jornal da CBN quando perguntei sobre o que caracterizava a “nova fase da pandemia” —- expressão que se encontra no relatório do observatório publicado ontem. Graças a vacina —- e qualquer uma das vacinas aplicadas no Brasil —, foi possível conter o número de pessoas internadas com gravidade nos hospitais e reduzir um pouco a velocidade de crescimento no número de pessoas infectadas e mortas: 

“Foi registrada uma queda tanto no número de casos novos (-2,1%), quanto no número de óbitos (-2,6%), tendência sustentada desde a análise das semanas anteriores. A taxa de letalidade foi mantida em torno de 3%”, diz o relatório.

Do ponto de vista demográfico, é possível perceber outra mudança. 

Se no início do ano, jovens adultos estavam mais propensos a ficar doentes; a participação deles entre internados e mortos diminuiu. A maior parte dos óbitos por Covid-19 tem mais de 60 anos —- um retorno ao cenário do início da pandemia, no Brasil. E mais uma vez é a vacina quem faz a diferença. Porque em condições iguais —- com imunização para as diversas faixas etárias —, os mais jovens tendem a ser mais resistentes do que os idosos.

A vacina também foi o foco da nossa entrevista com o governador João Doria, de São Paulo —- apesar de que com ele falamos também de outras coisas mais, como sucessão presidencial, PSDB com candidato próprio em 2022 e os embates políticos com o presidente Jair Bolsonaro: “é um golpista”, disse Doria. Isso, porém, você confere ouvindo a entrevista completa.

Vamos a vacina no braço que é o que cabe a este texto. 

Doria está em casa, se recuperando da segunda infecção por Covid-19 e diz que resistiu muito bem ao vírus desta vez. Quem está próximo dele me definiu assim os sintomas do governador: foi como uma gripe. E se o foi, a vacina é a responsável, segundo o próprio governador. Como o é pela redução no número de pessoas internadas e em UTIS, nos hospitais do Estado de São Paulo. O último boletim divulgado mostra que o estado teve a menor média de ocupação de leitos de UTI de 2021, com taxa de 59,25.

Se tiver mais vacina à disposição, o governador antecipou ao Jornal da CBN que o estado pretende reduzir o intervalo das doses de vacinas Pfizer e AstraZeneca, que hoje é de 12 semanas. Nos Estados Unidos, o prazo entre a primeira e a segunda doses é de apenas um mês. O problema, diz Doria, é que o Ministério da Saúde não tem cumprido com os prazos de entrega:

“O Ministério da Saúde, não querendo politizar nesta resposta, prometeu e não cumpriu. Prometeu oito vezes enviar vacinas da Pfizer e da Astrazeneca e entregou, oito vezes, menos doses do que o previsto para o Plano Nacional de Imunização. Se tivermos regularidade na entrega é possível e recomendável esse prazo (menor)”.

Se em São Paulo, os números estão em queda, conforme ratificou o governador. E se no Brasil, o cenário nos estados é melhor do que antes, como diz o relatório da Fiocruz. Isso significa que o pior já passou? Não. O ceticismo é a melhor reação diante dessas duas verdades. Porque só com esse olhar desconfiado é que chegamos ao alerta necessário.

Ainda que os números aparentem uma melhora no quadro da Covid-19 no Brasil, ao ser perguntada sobre o risco de estarmos gerando uma ilusão na população brasileira, a doutora Margareth, concordou:

“Não dá para normalizar esses números …. Tivemos uma situação de absoluta tragédia. Essa semana, está uma situação melhor e isso nos dá um certo alívio, mas não é para comemorar. A situação continua muito grave”. 

Evite palavras que imobilizam o ouvinte como abscôndito fez com o poeta

Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

“Tão comodamente que estava lendo, como quem viaja num raio de luz, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO … Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se porta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: FOGO!”

Em “Trágico acidente de leitura”, Mário Quintana descreve, de forma tanto criativa quanto irônica, o seu espanto diante de palavra pouco comum para seu vocabulário —- e, pense comigo, para um poeta com a riqueza vocabular de Quintana se espantar com alguma palavra …  meu Deus! No caso dele foi “abscôndito”, que o Aurélio diz ser aquele “cuja identidade ou procedência não se quer mostrar; escondido”. No meu caso, sem a riqueza do mestre e com uma enorme implicância adquirida ao longo da carreira, encaro constantemente momentos como os relatados pelo poeta. É na leitura dos jornais ainda na madrugada, é no texto da redação do rádio logo cedo, é na audição das reportagens, é na televisão que tenta tirar minha atenção enquanto apresento o programa. Nos e-mails, releases e mensagens que chegam pelas mais diversas fontes.

Minha implicância não é com abscôndito —- que não aparece no noticiário por nossa total falta de competência —-; é com coisa bem mais simples e tão incompreensível quanto. Diante dos números absurdos da Covid —- de infectados, de mortos, de vacinas e de dinheiro roubado —-  e, provavelmente, em busca de alguma variante para o honesto “quantidade”, tão bem aprendido na escola, decidimos introduzir o “quantitativo”. Até sei de quem é a culpa. É dessa turma de mentirosos e enrolados que se apresenta na CPI da Covid. Acusados, eles atacam com “quantitativos”. Os acusadores não se dão por rogados, e devolvem na mesma moeda. Nós jornalistas, de ouvidos atentos a tudo que acontece por lá, concluímos o serviço repetindo a expressão, sem pestanejar. 

Fico eu pensando no seu Zé, lá da padaria, que todas as manhãs ouve a turma pedindo pão cacetinho. Ops, perdão, isso a gente só pode falar lá no sul. Aqui em São Paulo, é pão francês, mesmo que o padeiro seja de origem lusitana. Mas vamos ao que interessa: será que o seu Zé, alguma vez na vida, quando o freguês chegou pedindo o pão francês, contra-atacou com um insólito: “qual o quantitativo de pães que o senhor deseja?”. Claro que não, seu Zé fala a língua do freguês. Então, por que nós jornalistas preferimos falar a dos acusados?

Quantitativo à parte, a tristeza do vocabulário jornalístico não tem limite. A cada dia sofremos ‘momentos de imobilidade e apreensão’ diante de palavras ditas sem pensar. Palavras e expressões.

Recentemente sofremos com a pandemia do ‘novo coronavírus’ —- que um ano e meio depois, já com nome, sobrenome e apelido, segue sendo “novo”. A variante dessa expressão migrou para o campo do comportamento: o “novo normal” — que  costuma ser acompanhado por um lugar comum dos mais miseráveis que ocupa espaço em textos e manchetes: “nestes tempos de pandemia …’.

Tem coisa sendo digitada e reproduzida por aí, que me incomoda muito mais. O verbo disponibilizar, com todos os seus dês e bês, mesclados de instigantes is, é das palavras mais lindas do ponto de vista estético, da língua portuguesa. Hipopótamo, recôndito e proparoxítona talvez se encontrem no mesmo nível de beleza, sem contar que ao serem ditas enchem a boca de sonoridade. A despeito de sua arquitetura, disponibilizar não é verbo conjugável na língua popular. 

Lembro sempre de recomendação do amigo e jornalista Afonso Licks, com quem trabalhei em Porto Alegre: não tem pauta se não estiver na rua da Praia. A tal rua, batizada oficialmente de Rua dos Andradas, nasceu com a capital gaúcha. É a mais popular, apesar de ter perdido parte de seu charme com os centros comerciais. É lá que o povo anda. E Afonso defendia que assunto que interessa ao povo que anda na rua da Praia é assunto que tem de estar na nossa pauta. Usurpei da lógica “afonsiana” para pensar sobre o vocabulário jornalístico, em especial no rádio: não existe vocabulário se não estiver na rua da Praia.

Digressão feita, volto ao verbo disponibilizar que tem aparecido com exagerada frequência no noticiário em lugar de palavras bem mais acessíveis como oferecer, conceder e apresentar. Os governos não oferecem mais nada, só disponibilizam. Arquivos públicos também são disponibilizados, nunca estão acessíveis. A loja não vende produtos, os disponibiliza aos clientes. Pense comigo, na rua da Praia, na do Brás, no Saara ou no Mercado Modelo será que as pessoas disponibilizam alguma coisa para as outras, ou vendem, ou oferecem, ou dão? 

Sei que temos o dever de enriquecer o vocabulário, mas não elitizá-lo ou, ainda pior, desvirtuá-lo e reinventá-lo. Precisamos ouvir a rua, dar um trato na palavra, consertar seus erros e disponibilizá-la … ops, perdão …devolvê-la mais bem elaborada colaborando com a cultura nacional. 

Ditos e malditos nos bastidores do rádio, e dos quartéis, também

General Braga Netto Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Acordamos sob a ameaça da manchete do Estadão de que o Ministro da Defesa Walter Braga Netto mandou recado para o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de que sem voto impresso não terá eleição, em 2022. A mensagem teria chegado ao parlamentar, no dia 8 de julho, através de um importante interlocutor político —- que não teve nome identificado:

“A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição”

A apuração das repórteres Andressa Matais e Vera Rosa lembra que na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro, fez ameaça semelhante, explícita e pública, em conversa com os que vivem no cercadinho do Palácio:

“Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

No vocabulário bolsonarista, eleição limpa é com voto auditável e voto auditável é voto impresso —- uma falácia, como bem sabem todos os supostos hackers de urnas eletrônicas. 

O fato é que quando se acorda com uma notícia dessas, o Jornal vira de cabeça pra baixo. O que era prioridade na pauta, perde espaço. O que anunciamos na abertura, corre o risco de ser deixado de lado. A entrevista previamente marcada cai —- jargão que costumamos usar quando algum assunto agendado deixa de ir ao ar. No rádio, assim como na padaria, o freguês quer “pão quentinho”; se sintonizar e encontrar pão amanhecido — ou notícia velha —-, troca de padeiro

E na nossa padaria, enquanto aos apresentadores cabem relatar os fatos, contextualizá-los e mantê-los atualizados; aos produtores, resta a ingrata função de encontrar alguma fonte disposta a tratar do tema. Ao mesmo tempo, repórteres saem em busca de confirmações e comentaristas reordenam seus argumentos para avaliações. Foi o que fizeram Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, na manhã desta quinta-feira. 

Sardenberg aproveitou as trocas que o presidente Jair Bolsonaro anunciou que fará no seu ministério para mostrar duas facetas deste governo: a entrega da gestão para o Centrão ( “… não sobra um meu irmão”, disse um dia o general Augusto Heleno) e a ameaça constante ao Congresso e à democracia. Miriam, que há algum tempo alerta para os riscos de a política entrar nos quartéis, disse que os sinais de golpe estão muito claros e “só não os teme quem não conhece a história do Brasil”. Aliás, Miriam também comentou que provavelmente todos os envolvidos negariam a existência dos fatos.

Sequer havia se encerrado o Jornal da CBN e o presidente da Câmara Arthur Lira já negava a existência de qualquer ameaça por parte do Ministério da Defesa e de ter tido alguma conversa com o presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto —- informação publicada pelo nosso colunista e de O Globo Lauro Jardim. Não demorou muito para o ministro Walter Braga Netto — que vinha sendo procurado para falar do assunto desde a segunda-feira — acusar de invenção a reportagem do Estadão

Convenhamos, todos cumpriram o seu papel. 

Até porque é assim que as ameaças funcionam: 

O emissor diz o que quer dizer com todas as palavras para que o seu dito seja bem dito; assim que o dito é revelado, volta para dizer que tudo é resultado de algo maldito, de jeito que até a coisa propriamente dita comece a desconfiar que não foi propriamente dita. 

(com a inspiração de Mário Quintana)

Dito isso, lá estávamos nós com a massa no forno tendo de trabalhar com os novos ingredientes. E se os personagens diretos do tema não queriam se pronunciar em viva voz, precisávamos encontrar pessoas relevantes e conhecedoras dos bastidores políticos e militares para ajudar o ouvinte a entender o que acontecia no país.

Foi, então, que chegamos no ex-ministro e general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que ocupou o cargo de secretário de Governo de Jair Bolsonaro — a quem inadvertidamente apresentei como sendo Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa. Por que fiz isso? Porque na distância do estúdio para a minha casa, percorrida pelo WhatsApp, entendi o dito errado e cometi o maldito erro. Isso tudo dito para também descrever como as coisas se desenrolam nos bastidores de um programa de rádio até se chegar a alguém relevante para que o pão quente seja servido ao ouvinte.

No caso, o general da reserva que, com a experiência de quem já circulou nos gabinetes da política e nos corredores dos quartéis, disse que não vê risco de golpe, mas que devemos estar preocupados:

“Não é possível que num país como o Brasil tenha esse tipo de blefe” 

Ouça a entrevista completa com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz no Jornal da CBN:

Os farejadores de vacina e a pandemia dos não vacinados

Foto: Governo do Estado de SP

Pra uns é um resfriado. Para outros, uma intensa dor no corpo. Tem quem sequer ficará sabendo. Há os que precisam recorrer aos hospitais. E os que, infelizmente, deles não saem mais — entre os quais muito mais jovens do que no início desta pandemia. A variante Delta que predomina na Europa e nos Estados Unidos — e já é “influencer” no Rio de Janeiro  —-, pelo que se sabe até agora, mata menos e contamina mais (de 30 a 50% mais do que sua irmã mais velha). No entanto, quanto mais gente contaminada, maior a pressão no atendimento da rede hospitalar, menos leitos à disposição e o risco de morrer por falta de atenção. 

Falamos do assunto, nesta terça-feira, com o doutor Jarbas Barbosa, médico sanitarista e epidemiologista, que faz às vezes de vice-diretor da Opas, a Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS aqui na nossa área. Com experiência internacional e de quem já comandou, também, a Agência de Vigilância Sanitária — Anvisa, no Brasil, Dr Jarbas tem ajudado a fazer alertas importantes, desde o início da pandemia, às nações, às autoridades e às populações.

Na entrevista ao Jornal da CBN, da qual participamos Cássia Godoy e eu, o médico foi claro no recado que enviou: 

“Vivemos uma pandemia de não vacinados”

Mesmo diagnóstico que havíamos ouvido, lá dos Estados Unidos, um dia antes, da doutora Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças quando informou que a média diária de pessoas infectadas teve aumento de 70% em relação a semana anterior; e a média de internações, alta de 36%, em solo americano.

A despeito de o número de casos de pessoas contaminadas com a variante Delta, aqui no Brasil, ser incerto e inseguro —- já que investigamos bem menos do que o necessário —, não se tem mais dúvidas de que precisaríamos acelerar as medidas de proteção. Baseado no que acontece em outros países, fica evidente que o aumento da cobertura vacinal é a melhor resposta que poderíamos dar para impedir a disseminação dessa variante. Foi o que falou o Dr Jarbas. Foi o que ratificou o Dr Luis Fernando Correia, nosso comentarista, em entrevista ao jornal Extra: 

“Em alguns países, aumenta o número de casos, porém não aumenta o de mortes de internações, como no caso do Reino Unido. Já em casos como Rússia, Vietnam e África do Sul, as três curvas sobem juntas. Muitos casos, muitas hospitalizações e muitas mortes. O que parece fazer diferença é a cobertura vacinal”.

A fala dos dois tem o mesmo alvo: os negacionistas e os farejadores de vacina

Os primeiros são os que mais incomodam nos Estados Unidos —- onde a campanha antivacina sempre foi intensa, promovida por setores mais conservadores do  país, quase sempre ligados ao Partido Republicano; e por comunidades que foram vítimas de práticas discriminatórias de instituições de pesquisa no passado, como os afro-americanos. O outro grupo de não vacinados — em especial aqui no Brasil, mas não apenas no Brasil — é de pessoas que deixam de se imunizar enquanto buscam a vacina de estimação. 

No Brasil, especialmente uma elite mal-informada, seleciona vacina como se escolhesse roupa para viajar. Corre de posto em posto para saber se ali estão aplicando o imunizante que aceitam nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, em seu grupo social. Tomar Coronavac, é de última. AstraZeneca, toda a periferia tem. O chique é a Pfizer. A Janssen é um luxo. E por aí vai. Enquanto escolhe, fica exposto ao vírus. Corre o risco de morrer e de matar, disse Jarbas Barbosa:

“É um atentado contra você mesmo, porque você perde um tempo que é vital para garantir a sua proteção individual, mas, também, vamos relembrar que a vacina tem um papel coletivo”.

Em tempo: passou-se a identificar os que escolhem a marca da vacina que vão tomar como ‘sommeliers’ —- termo usado, inclusive, por especialistas na área de saúde. Sempre achei chique de mais para a atitude que adotam. Prefiro chamá-los de ‘farejadores de vacina’, pois passa a ideia daqueles cães que esfregam o nariz na terra em busca de algum cheiro para o qual foram treinados. Dr Luis Fernando ,que concorda com minha discordância em relação a expressão ‘sommelier’, foi mais direto ao ponto, na entrevista ao Extra

“… Tem me incomodado essa história de sommelier de vacina. Porque a elite brasileira adora esse tipo de coisa. Então, se a gente continua a usar esse termo sommelier de vacina, esses imbecis vão continuar achando que estão fazendo a coisa certa. Temos que chamar eles de imbecis e ponto”.

Ponto.

Ouça a entrevista completa com o Dr Jarbas Barbosa, da OPAS, ao Jornal da CBN: