Arena de Ideias: rádio e jornalismo são vacinas contra a desinformação

A agilidade e imediatismo do rádio somados a precisão do trabalho jornalístico foram essenciais para conter parte da ansiedade desenvolvida pelas pessoas ao longo desta pandemia. Essa é uma das explicações para o aumento da audiência identificado em pesquisas feitas aqui no Brasil, tanto quanto nos Estados Unidos e na Europa. Além de ouvir mais rádio, ouve-se rádio por mais tempo — foi o que demonstrou pesquisa do Kantar IBOPE Media, publicada recentemente.

Foi a partir desta constatação que tive a oportunidade de analisar a valorização do rádio e do jornalismo em conversa promovida pela agência de comunicação In Press que reuniu Flávio Lara Resende, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert); Paulo Gilvane Borges, fundador da Agência Radioweb; e Patrícia Marins, sócia-diretora da In Press Oficina e especialista em gestão de crise e reputação. O papo foi mediado pela diretora da In Press, Fernanda Lambach.

Histórias do passado do rádio foram entremeadas a avaliação sobre como o veículo se comportou — assim como o seu ouvinte — desde que a crise provocada pela pandemia se iniciou no País. Como o fortalecimento do rádio e do jornalismo profissional neste momento pode impactar as estratégias de comunicação no futuro também estiveram no foco desta “mesa redonda virtual” que reuniu cinco pessoas que são admiradoras do veículo — como você, caro e raro leitor deste blog, poderá perceber no vídeo disponível acima.

Fiz questão de alertar para a necessidade de se acreditar no papel do jornalismo profissional como uma vacina contra a desinformação, que tem causado prejuízos às pessoas, às empresas e à democracia.

Aproveitei a audiência desta série de programas realizada pela In Press, formada por gestores, líderes empresariais e especialistas na comunicação corporativa para deixar a seguinte pergunta:

Você vai continuar investindo a verba publicitária da sua empresa em mídias e conteúdos que podem colocar em risco a reputação da sua marca? Ou está na hora da apostar em quem acredita no jornalismo profissional?

Oito dicas para textos bem ditos no seu rádio

Foto: Pixabay

 

Conversar com jovens é revigorante. Com jovens e jornalistas, é provocante. Pela profissão que pretendem exercer, tendem a ser mais curiosos ao mesmo tempo que desconfiados. Olham você de revesgueio, ouvem com atenção enquanto matutam alguma pergunta que possa lhe tirar do trilho e quando você menos espera querem saber aquilo que você não imaginava ter de contar. É preciso preparo e cuidado extremo com as palavras.

Fiz esse exercício dias atrás. Em conversa online, estive com alunos da PUC do Rio Grande do Sul. Da mesma FAMECOS que frequentei no início dos anos 1980. Uma turma sob a batuta do mestre Cláudio Mércio —- que conheci sob o apelido de Batata quando ele ainda tinha dúvidas se seria advogado ou jornalista. Contou-me que foi o convite que fiz para ser estagiário do SBT, em 1989, que lhe deu rumo profissional. Saber disso me fez acreditar que alguma coisa boa deixarei para o jornalismo. Mércio, dentre outros afazeres acadêmicos, cuida do laboratório de texto da PUC — ao lado do professor Sílvio Barbizan — e foi nesse contexto que me convidou a participar do encontro virtual. 

Lembrei aos guris e gurias que me assistiam a frase do professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, quando foi ombudsman da Folha, na virada da primeira para a segunda década deste século: 

“80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância”. 

Como tudo acelerou de lá para cá, fico imaginando o quanto a pressa em publicar tem provocado erros. No rádio, que é o meu assunto, temos pressa, muita pressa, cada vez mais pressa. E, lamentavelmente, em nome dela justificamos boa parte dos nossos erros, quando deveríamos redobrar os esforços para essa pressa ser substituída por precisão. 

Para nos ajudar a desenvolver um texto mais bem qualificado no rádio, listei oito sugestões que reproduzo a seguir para você, caro e raro leitor deste blog:

  1. Escreva a palavra certa, nunca a palavra mal dita

Se não houvesse a pressa, a preguiça e a ignorância —- para citar os três erros identificados por Lins da Silva, deixaríamos de repetir no ar informações e expressões que costumamos ouvir das diferentes fontes com quem temos contato —- uma gente que cria jargões, usa de tecnicismo, exagera no anglicismo e mal preparada para conversar com o cidadão. Cabe ao jornalista (não apenas de rádio) traduzir para o bom e claro português toda palavra mal dita — incluindo as malditas. 

Dia desses, ouvi nas notícias de trânsito que o problema na via era da “temporização semafórica”, que nada mais é do que o tempo em que o semáforo, ou a sinaleira, como falamos no Rio Grande do Sul, abre e fecha. Aliás, a família “semafórica” parece ser enorme entre os técnicos de controlam o tráfego nas cidades brasileiras: sem puxar muito da memória já fui apresentado no ar ao pai conjunto, à mãe sinalização e ao irmão temporão, ops, temporização.

As pautas de saúde e coronavírus também vão ao ar sem que se dedique alguns minutos em busca de palavra melhor. Dos médicos, repetimos a expressão “evoluir a óbito”. O problema não é o que o médico diz —- lá na sala de cirurgia, no registro oficial, ele tem todo o direto de evoluir a pessoa a óbito —- mas isso não cabe na boca de um jornalista. Ou a pessoa sobreviveu ou morreu. Se ela evolui para algum lugar, isso é assunto para outra editoria.

Tem as paravas e expressões da moda, também. “Mortos contabilizados” e “novos mortos” estão por todos os lugares do noticiário. Não há um dia em que eu não depare com um texto em que o verbo contabilizar aparece —- não bastasse o fato de que a ideia inicial de contabilizar está relacionada a transação financeira, por que não procurar outra formas de escrita? Por exemplo: em lugar de o Brasil contabilizou 1.500 mortes por Covid-19, nas últimas 24 horas; use o Brasil registrou 1.500 mortes …; ou 1.500 pessoas morreram no Brasil… Jamais “contabilizou novas mortes” (aí é de matar) como ouvimos a todo momento. Faria algum sentido dizer que o Brasil teve 1.500 velhas mortes?

  1. Só use a palavra mal dita, quando disser que foi dita

É claro que se um entrevistado, alguma autoridade ou uma fonte que mereça e possa ter seu nome citado usar uma expressão mais complicada, um jargão da área em que atua ou uma palavra estranha ao nosso vocabulário, podemos e devemos reproduzir sua declaração —- mas não esqueça de, em seguida, traduzir para o ouvinte o que foi dito. E de forma bem dita.

  1. De preferência, deixe o mal dito na voz do dito cujo

Nesses tempos de autoridades desbocadas, que acreditam que com palavrão podem descrever uma pessoa, uma profissão ou um fato; já que estamos falando em mídias faladas, de preferência deixe que ele ou ela diga em viva voz aquela expressão. Um exemplo aleatório: imagine que você viva em um país no qual o presidente chame os jornalistas de bundões (Deus me livre de viver em um lugar desses). Você não precisa repetir no texto da reportagem, em viva voz, a palavra usada pelo presidente, se tiver a gravação do próprio mal dizendo seus colegas. Tem coisa que cabe na boca da autoridade, mas não cabe na sua. Nem na minha.

  1. Números ditos costumam ser mal ditos

Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que jornalista não entende de números, mas adora usá-los. A impressão que se tem é que reportagem sem número parece não ter lead, manchete ou credibilidade. Que fique claro, discordo piamente dessa ideia.  Reportagem não precisa de número, precisa de histórias, fatos e pessoas, além de um bom texto, é claro. Histórias, fatos e pessoas são a alma de uma reportagem.

Hoje, temos, inclusive, uma área que tem crescido bastante, que é a de jornalismo de dados, que nos especializa nos temas e nos ensina ao menos a saber quando usar ou não “morte por milhão de pessoas”. Nesta pandemia, fomos muito cobrados por parte do público —- especialmente bolsonarista ou aquele que se identificava como amante (?) do Brasil —- o fato de não relativizamos o número de pessoas infectadas ou mortas levando em consideração a população do país. Seria, segundo essa turma, uma maneira de mostrar que o problema não era tão grave quanto “vocês jornalistas que não gostam do Brasil querem que seja”. Aprendemos na crise que o número de mortos por 100 mil ou por milhão pode trazer distorções na avaliação em situação aguda como esta. A medida é importante quando tratamos de casos crônicos; por exemplo, assassinatos, acidentes de carros ou mortes por problemas no coração. 

Em situações nas quais números são relevantes para a reportagem, é preciso que se tenha parcimônia quando formos informá-los no rádio —- o preciosismo pode acabar em desinformação. Decida o número que realmente interessa; dê ênfase a esse número; faça comparações que ilustrem a dimensão dele; e evite publicar uma sequência de números com milhão, milhares, centenas e dezenas. Na dúvida, faça a você mesmo a seguinte pergunta: se eu fosse o ouvinte qual desses números que tenho em mãos, eu gostaria de memorizar para contar aos meus amigos? Esse é o número que você vai ter de trabalhar de forma precisa na sua reportagem.

  1. Sempre há uma nova forma de dizer a mesma coisa

Esses dias, li um e-mail armazenado no arquivo de meu computador que fazia parte de uma série escrita por um dos ex-diretores de jornalismo da CBN, Giovanni Faria. Guardei todos os e-mails porque o conteúdo é riquíssimo e produzido com base no que ele ouvia no ar. Em um deles, pedia para que âncoras e repórteres buscassem uma outra maneira de perguntar a opinIão de seus entrevistados. Reclamava, com razão, que em quase todas as entrevistas nós usávamos a mesma fórmula: “como o senhor vê isso?”; “como a  senhora vê aquilo?”. Sugestão do chefe, aceita e nem sempre cumprida: restringir o uso do verbo VER para seu sentido literal e abandonar o modismo de usá-lo como sinônimo de EXAMINAR, ANALISAR, PENSAR, COMPREENDER, ENTENDER, SENTIR …. Só com um puxão de orelhas desse para a gente perceber que exagera no “ver”. 

  1. O texto falado para ser escutado pode ser escrito 

O rádio é uma tremenda escola para o improviso, o que não significa que ao entrar no ar você não possa preparar o seu texto. Aliás, na abertura do Jornal da CBN, quando apresentamos uma espécie de resumo de notícias e declarações que interessam ao público, o texto é todo escrito. Há um roteiro, não exatamente com o cuidado que aprendemos na academia, mas há um roteiro adaptado às nossas necessidades.

Os repórteres —- especialmente os mais novos —- temem cometer erros e, portanto, não há mal nenhum que preparem um texto escrito com antecedência, desde que isso não atrase a participação dele na programação. Se o tempo for pouco e a insegurança muita, anote apenas os tópicos, de maneira ordenada e lógica. Quando for chamado, com texto ou sem texto, o repórter tem de estar pronto para contar a história que lhe cabe. 

  1. O texto escrito para ser escutado tem de ser falado

O cuidado essencial é entender que o texto escrito para ser escutado tem de ser escrito como é falado. E esse é talvez dos erros mais comuns, muitas vezes cometido por pressa, preguiça, ignorância ou medo —- acrescentei mais um motivo para os nossos erros, além dos três citados por Carlos Eduardo Lins da Silva. 

A forma como você escreve um texto para o rádio tem de ser da forma como falamos, caso contrário, ninguém vai ouvir como deveria. Isso não significa contrair o para para pra; ou a pessoa pelo cara; ou o bandido pelo crápula …. Há regras a serem respeitadas, mas a frase escrita tem de caber na boca do locutor; tem de fazer parte do seu cotidiano e do cotidiano do ouvinte.

*O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral” (Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios (primitivos), procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

*(reproduzido do livro “Jornalismo de Rádio”, Editora Contexto, 2004)

  1. O texto para ser escutado tem de ter ouvintes

Então, não os espante com textos mal ditos!

Sua Marca: como escolher o atributo que fará diferença para o seu cliente

“As marcas mais poderosas, aquelas de que mais gostamos, deixam sempre um registro central, nuclear, na nossa mente. Um acúmulo de ideias atrapalha e confunde” —- Jaime Troiano

Os consumidores estão expostos a uma quantidade enorme de informações e as marcas têm obrigação de tornar mais fácil a tarefa deles identificarem quais as qualidades mais perceptíveis do produto ou do serviço oferecidos. Caso contrário, é possível que ele vá buscar no concorrente atributos que não encontrou na marca, apesar deles existirem e apenas não estarem visíveis. 

Como escolher o que é mais importante para qualificar a percepção de uma marca foi o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN. Um dos exemplos usados no programa é o de uma rede de lavanderias que pode falar da localização, da rapidez no atendimento, do preço ou do serviço de eliminação de manchas, mas, talvez, o cliente se impressione muito mais por uma mensagem pontual: “a roupa volta para sua casa como se tivesse saído da loja”. 

“É muito difícil escolher qual o atributo mais significativo, mas é muito importante. A cabeça do consumidor não consegue absorver tudo o que o dono da marca quer falar” —- Cecília Russo

Um dos métodos científicos usados para se chegar a resposta mais precisa é a análise de regressão estatísticas, na qual são identificados diversos atributos ou características de um produto ou serviço  e com a aplicação de pesquisa se consegue chegar aquele que realmente vai ser absorvido pelo cliente. No entanto, existem algumas atitudes que podem ser adotadas pelo gestor que ajudam nessa decisão:

“Embora não seja tão preciso, em primeiro lugar, é preciso deixar a vaidade de lado, de querer falar de tudo, usar o bom senso, conversar com os clientes e entender o que fazer as marcas mais bem-sucedidas daquele setor de negócios. Não é para copiar, mas para fugir das principais armadilhas” —- Jaime Troiano

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN e está disponível em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: no bolso da calça, tinha uma moeda de CR$ 0,50

João Coradi Neto

Ouvinte da CBN

Inscreva-se no podcast do Conte Sua Historia de São Paulo

Em dezembro de 1972, eu havia completado 20 anos de vida na querida cidade de Dois Córregos, da qual nunca tinha saído pra conhecer novos lugares, novos horizontes. Tudo ali pra mim bastava. Eu vivia feliz. 

 

Dois meses depois, eu estava descendo na Estação da Luz, na capital. Sozinho, com uma pequena mala de roupas, e apenas um endereço na mão — no qual já estavam vivendo meus pais, dois irmãos e quatro irmãs, que haviam se mudado para lá três meses antes de mim; e tendo deixado para trás duas irmãs que estavam casadas. 

Com dificuldade e de madrugada, encontrei meu destino, que estava escrito em um pedaço de papel —- novo começo, nova vida. 

Assim que o dia clareou percebi a séria dificuldade em que viviam meus familiares. Todos desempregados e ansiosamente me esperando. Eu era o único que tinha trabalho — vim para a capital transferido pelo banco em que era funcionário: o Banco de São Paulo S/A — Emissor, que logo foi incorporado pelo Banco do Estado de São Paulo S/A, o Banespa.

Vivíamos com o meu salário de onde saía o dinheiro para pagar aluguel, água,  energia e comida para todos. No dia do pagamento, eu entregava tudo na mão da minha mãe, responsável por controlar as contas. Ela separava moedinhas de CR$ 0,50 centavos de cruzeiros, me dava duas por dia para a passagem de ônibus da Penha ao centro, do centro à Penha, na zona leste de São Paulo. Algumas das moedas eram para meus irmãos saírem de casa em busca de emprego.

Pegava o ônibus logo cedo e passava  o dia apalpando o bolso para me certificar que a outra moeda estava guardada para garantir a viagem de volta. No horário do almoço, para que meus colegas não percebessem que eu não tinha dinheiro para comer, perambulava pelas ruas próximas ao banco, olhando para os restaurantes e lanchonetes com seus pratos e salgados  — o que fazia aumentar ainda mais minha fome. À noite, em casa, geralmente era servido arroz puro. De vez em quando, tínhamos das salsichas, ou dois, três ovos que mamãe cozinhava e dividia em partes iguais para todos na mesa.

Comecei a ficar com raiva da cidade, achava que não era lugar pra morar. Lá no interior, apesar de ter tido uma infância pobre, nunca tinha me faltado algo pra comer. Pensava comigo: “quero voltar, esta cidade é cruel, aqui não dá pra viver”. 

Com o tempo, em casa, alguns arrumaram um emprego aqui outro acolá, às vezes provisório. E cada dinheiro extra nos ajudava a resistir na capital. 

Meus dias foram ficando melhores. O que era raiva virou resiliência. E nessa transformação, surgiu a admiração. Percebi que a cidade nunca havia sido cruel comigo. São Paulo simplesmente me testara para ver seu eu era digno de viver nela.

Aumentou meu círculo de amigos, meus familiares se firmaram no trabalho e fui me apaixonando pela cidade, que havia me recebido de braços abertos e dado todas as oportunidades para que eu e minha família crescesse.  

Hoje, agradeço por tudo que conquistei. Minha esposa, dois filhos, três netas e amigos que moram em meu coração. Sinto-me privilegiado. Nunca deixarei de amar a pequena Dois Córregos, a qual sempre procuro citar nos mais de 800 poemas que escrevi, muitos dos quais publicados em 22 livros, sempre com o apoio da Editora Matarazzo, presidencial pela querida Thaís Matarazzo. 

Da mesma forma que jamais esquecerei de onde nasci, também não deixarei de amar São Paulo que, para mim, é a melhor cidade do mundo.

João Coradi Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Como apresentar uma aula pelo rádio e ganhar a audiência do seu aluno

O rádio é transformado em sala de aula na pandemia (Foto: Pixabay)

 

Tem em Osório, no Rio Grande do Sul; tem em Pindamonhangaba, em São Paulo; tem em Mulungu; no Ceará; e tem também em Ruy Barbosa, na Bahia. Tem aula sendo apresentada no rádio em várias partes do Brasil, desde que as escolas fecharam devido ao risco de contaminação dos alunos com a pandemia.

Sem a tecnologia mais avançada à disposição, sem sinal de internet na região e sem celulares na mão, alunos recebem o conteúdo possível sintonizando emissoras locais ou comunitárias. Prefeituras, professores e gestores de educação tiveram de se adaptar diante das carências de cada região. Com o material didático e uma dose grande de resiliência os alunos tentam absorver o conhecimento através de um veículo no qual a maioria só ouvia música.

Com a preocupação de reduzir o prejuízo no aprendizado desses jovens —- e mesmo de adultos que se alfabetizam no EJA —-, o Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) elaborou um guia para que os professores tirem proveito dos recursos que o rádio oferece.

São 10 dicas que podem ajudar o professor, beneficiar os alunos e fornecer a você, que imagina um dia trabalhar com o veículo, na área da educação ou não, um conhecimento básico sobre como transmitir da melhor forma a mensagem pelo rádio. São dicas para situação de emergência, porque o rádio pode ser ainda mais bem explorado. Mas deixemos esses outros recursos para quando a situação se acalmar.

O guia leva a assinatura dos professores Luiz Artur Ferraretto, doutor em comunicação e dos maiores entusiastas do rádio que conheço, e Fernando Morgado, mestre em economia criativa. O trabalho se inicia inspirado por frase de Edgar Roquette-Pinto, pai da radiodifusão brasileira, criador da primeira emissora no Brasil:

“Ensine quem souber, o que souber, a quem não souber”

Com “Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de Covid-19”, o NER trata de elementos que estão ao alcance dos educadores, e não cai na tentação de querer ensinar o professor a dar aula, mesmo que algumas das dicas a seguir sejam muito úteis para o dia a dia na escola —- quando isso se tornar possível novamente.

O trabalho completo vale a pena ser baixado. O arquivo está disponível no site do Núcleo de Ensino de Rádio. A seguir, um resumo de cada passo e a minha recomendação: faça essa caminhada junto com o seu aluno:

1 — Conheça como funciona o rádio

“Do final do século passado até a atualidade, o rádio não mudou e, ao mesmo tempo, mudou muito”. Muitas mudanças no campo da tecnologia e transmissão do sinal; e a perseverança na ideia de que a relação apresentador e ouvinte ou professor e aluno se baseia em um diálogo que se altera “entre uma espécie de palestra e algo próximo de bate-papo”. Nessa conversa, um desafio para quem precisa da atenção do aluno “o caráter sonoro da mensagem permite que o ouvinte realize outra atividade em paralelo à escuta”.

2 — Não tenha medo de falar ao microfone

Todo mundo estranha quando ouve sua voz pela primeira vez em uma gravação. Não se preocupe. É apenas a falta de costume de ouvir a si mesmo. Seus alunos já o conhecem pela voz e vocabulário que usa. O NER chama atenção para que ninguém se intimide por não ter aquilo que se consagrou no passado como voz de locutor de rádio: “falar claramente é muito mais importante do que possuir um vozeirão”. 

Outra sugestão que entendo ser relevante. Sua fala vai além da sua voz, inclui gestos, expressões e postura, portanto “se na sala de aula e no dia a dia você gesticula, faça o mesmo ao falar em rádio”. A palavra ganha vida.

3 — Não fale sozinho

Formem duplas ou trios de professores, assim o que seria um monólogo vira conversa e a mensagem chega mais agradável ao ouvinte. Um recurso pode ser a entrevista com pessoas que ajudem a ilustrar a temática abordada.

4 — Bata papo com a turma

“Como fazem os comunicadores, vocês precisam fingir que conversam com o seu público, criando uma espécie de bate-papo imaginário com alunas e alunos” e para que isso funcione é preciso conhecer bem o público para o qual se destina o conteúdo.

5 — Explore o ambiente dos alunos

Como já dito, no rádio você disputa a atenção do ouvinte com outros estímulos que estão à sua volta. Entre no cotidiano do seu aluno. Use expressões tais como: “você que está escutando a gente em sua casa, cuidando do irmãozinho menor enquanto a mãe foi para o trabalho …” etc

6 — Vá direto ao assunto

A mensagem no rádio é altamente fugaz ou volátil, lembra o guia. Então, vá direto ao assunto, descrevendo-o com começo, meio e fim. Se me permitem os autores do texto, dou meu pitaco: “seja simples, direto e objetivo” — é o mantra da boa comunicação.

7 — Ensine em módulos

A transmissão no rádio é a simulação de uma conversa. Não se trata de um bate-papo de mesa de bar. Precisa ser uma comunicação planejada, não necessariamente escrita —- recomenda-se que não o seja. Faça um roteiro dos temas e separe o conteúdo em blocos de 5 a 10 minutos, crie novos estímulos e volte ao assunto em seguida para manter a atenção do aluno.

 

8 —  Pare e pense

A cada passo é necessário analisar o que foi realizado e quais os resultados obtidos. Faça uma autoavaliação do lado de quem emitiu o conteúdo.

9 — Seja redundante

Com bom senso, é claro. No começo da aula explique o que será tratado e, no meio do caminho, retome alguns pontos de forma resumida. Sempre que tiver alguma informação que precisa ficar na memória do ouvinte, não se reprima: repita a sentença.

10 — Comece tudo de novo

A cada novo programa como a cada nova aula, saiba que você vai precisar recomeçar. Se os passos anteriores foram dados com sensates, o recomeça será apenas uma consequência, ensina o guia.

Bom programa, ótima aula e se cuide!

Sua Marca: sinergia é a palavra-chave quando o tema é omnichannel

 

“Quando a gente fala em branding, repetir não é pecado; ao contrário, é o caminho para gerar segurança, controle e valor para sua marca”— Cecília Russo

 

As marcas alcançam seu público pelos mais diversos canais, e para seus gestores o desafio é entender qual deve ser o comportamento levando em consideração que as características desses pontos de contato são diferentes, mas a mensagem precisa ser única. Para Jaime Troiano e Cecília Russo, comentaristas do quando Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, sinergia é a palavra-chave diante do omnichannel:

 

“Não se trata de ser online ou offline mas sim one line — é preciso ser alguma coisa que preserve a integração de todos esses elementos e áreas de contato com o mercado” —- Jaime Troiano

 

Cecília Russo lembra do comportamento das crianças frente as histórias que consomem repetitivamente, costume que gera nelas previsibilidade e segurança. É o mesmo processo metal de fixação do conteúdo que ocorre nos adultos: é como a gente adquire confiança nas marcas.

“Se a gente pensar que quanto mais formos omnichannel — no sentido de sermos multicanal e todos atuando juntos e simultaneamente —, quanto mais isso for uma verdade da nossa estratégia de mídia, mais as marcas têm a necessidade de se manterem consistentes” — Cecília Russo

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso tem apresentação de Mílton Jung e vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN. O programa também está disponível em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: no pedal da bicicleta, bicho

Ilan Rubinsteinn

Ouvinte da CBN

 

 

Ciclovia? Ciclofaixa? Mountain bike? Não! Desça a avenida São Gualter a toda velocidade. Para diminuir a resistência do ar, saia do selim para o bagageiro. Desastre. Deslize por 50 metros com as mãos e o rosto no asfalto. Não vai sobrar um botão da camisa Franita vermelha, que vai se desgastar inteira como boa parte da pele do rosto. Algumas marcas no dorso das mãos te acompanharão, neste e noutros outros passeios de magrela por São Paulo. 

 

Sobreviveremos, porque são tempos de andar de Fusca, Simca, Galaxie, DKW ou Aero Willys — e só o chefe da casa pode ter um desses. Sobra espaço nas ruas para nossas Monarks e Calóis. Com câmbio, só as de corrida. Capacete? Roupa de ciclismo UV 3XE? Deixa de ser Florisbela, meu! 

 

Vamos por aqui … 

 

Descemos para ao Lapão pela rua Mercedes; tomamos um Colegial na Carmen. Não? Pela lateral do trilho do trem de Santos, passando pelas lagoas, em direção a  Osasco. Não?  Autódromo, cruzando o Rio Pinheiros pelos canos da Sabesp, no Socorro: ali assistimos aos 500 Km de Interlagos e voltamos.  Marginal Pinheiros? O que é isso, xará? Tá louco? Estamos em 1969, bicho!

 

Ilan Rubinsteinn  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, acompanhe em seu agregador preferido o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Mundo Corporativo: Tonny Martins, presidente da IBM, fala da inteligência artificial no combate à Covid-19

 

 

“A penetração de tecnologia como elemento fundamental para a sociedade, tanto no comércio, na indústria, na educação, saúde e entretenimento, esse mundo mais híbrido é algo que veio para ficar” —Tonny Martins, IBM Brasil

 

Em 48 horas, 90% dos colaboradores estavam trabalhando remotamente, com segurança física e psicológica; em seguida, foi oferecida a estrutura necessária para que os parceiros de negócios trabalhassem com a mesma produtividade e capacidade; e, finalmente, houve a colaboração no amadurecimento dessas empresas diante da transformação digital que se acelerou durante a pandemia. Esses foram três aspectos destacados pelo presidente da IBM Brasil, Tonny Martins, na avaliação que fez sobre como a empresa agiu diante da crise sanitária e econômica, que se iniciou em março.

 

“Nesse primeiro momento, nós trabalhamos com nossos clientes para checar o que nós chamamos de sinais vitais: a conectividade, a capacidade de se abrir para o mundo externo, escalabilidade da sua tecnologia —- do dia para a noite, o canal digital ficou entupido —-, ajudar esses clientes a terem uma operação resiliente que funcionasse de forma consistente e contínua foi nossa preocupação”

 

Na entrevista, falamos de tecnologia e de como a forma acelerada com que a digitalização atua nos diversos segmentos —- da educação à saúde, da indústria ao entretenimento —- está mudando o comportamento de empresas e pessoas. Para Tonny Martins, um dos esforços foi tornar os canais digitais mais próximos dos clientes:

“A tecnologia mais humanizada, mais personalizada, e mais próxima do indivíduo, você consegue, em escala, gerar um nível de eficiência nas relações e nas operações, nunca antes vista”

 

A IBM tem participado de uma série de projetos nas áreas de educação e saúde em parceria com outras empresas de tecnologia, startups e governos. Em um desses programas, ao lado da Cisco, cerca de 9.400 professores e mais de 160 mil estudantes foram beneficiados, com a redução dos entraves para as aulas online. Na área da saúde, entre outras ações, foram desenvolvidos o APP Enfermeiro Virtual e o Portal Corona BR, que já teria alcançado 20 milhões de pessoas.

 

Tonny Martins mostrou-se entusiasmado com os resultados do uso da inteligência artificial que ajudou a desenvolver mais rapidamente o conhecimento de médicos e pesquisadores sobre o Sars-Cov-2, permitindo estratégias eficazes para o combate à doença. Aliás, das tecnologias que passaram por um processo de aceleração desde o inicio da pandemia, uma das apostas do presidente da IBM Brasil é a inteligência artificial:

 

“Existe um estudo da IBM que mostra que o nível de penetração da Inteligência Artificial nas empresas no nosso dia a dia é só de 4% … hoje, você tem uso da Inteligência Artificial mais na parte do  atendimento, colaboração, automação do depósito, nas suas áreas de suporte; e a gente vai ver uma evolução exponencial dessa Inteligência Artificial, que a gente chama de empresa cognitiva na nossa vida, no nosso dia a dia”.

 

Assista ao vídeo completo do Mundo Corporativo aqui no blog. Aproveite e se inscreva no canal da CBN no You Tube para ser informado sempre que um novo programa estiver sendo gravado. Acompanhe, também, o podcast do Mundo Corporativo. Colaboraram com o programa Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN.

Sua Marca: é preciso humildade para ter o foco do cliente

 

 “Marcas somente existem porque dão um significado para a escolha que os clientes e os consumidores fazem” — Jaime Troiano

 

Foi com base em conhecimento trabalhado por um dos principais consultores de empresas do país, que o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso orientou os gestores a terem melhor resultado em suas estratégias. Jaime Troiano e Cecília Russo chamaram atenção para a necessidade de a empresa focar no que realmente interessa. E, conforme ensinou José Carlos Teixeira Moreira, da Escola de Marketing Industrial, em lugar de focar no cliente, é preciso explorar o foco do cliente.

 

“(focar) no cliente é quando a empresa e a marca querem colocar de forma imperativa o seu ponto de vista, ignorando quem está do outro lado, é uma visão autocentrada ou narcisista” —- Cecília Russo

 

Há um foco ainda pior que é quando o gestor foca em si mesmo, em seu próprio umbigo. Parece aquele sujeito que diz que está profundamente apaixonado por si mesmo e completa dizendo que sente que o amor é correspondido. O que deve inspirar o gestor da marca é o foco do cliente. Para tal, Jaime Troiano sugere:

 

  1. Tirar o bumbum da cadeira e encostar a barriga no balcão
  2. Conviver, observar e acompanhar os clientes e consumidores
  3. Bisbilhotar, conversar, ouvir com vontade de entender o cliente
  4. Calçar o sapato do cliente
  5. Ser atento e humilde para aprender.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN e está à disposição em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: a passageira do Uber

Por Henrique Ribas

Ouvinte da CBN

 

 

Viagem quase finalizada. Entro na rua Professor Picarolo. Nunca havia reparado no nome, apesar de sempre passar no local. Era ali o destino final do meu passageiro, um estudante da GV. Em mim, batia um certo cansaço tanto quanto a fome batia no meu estômago. Estacionei, desci do carro, alonguei o corpo, bati a sujeira dos tapetes. Troquei a estação do rádio da Alpha para CBN — é sempre bom ouvir notícias. Tânia Morales se despedia. Pena. Adoro ouvi-la falar de livros e outros temas.

 

Peguei a mochila com a merenda. Um iogurte, uma maçã e duas bisnaguinhas com queijo. Delícia! Deixei o vidro do carro meio aberto. A brisa era boa, o vento gostoso. A metrópole estava silenciosa a ponto de ouvir o barulho água correndo — era a fonte do Mirante Nove de Julho, deixando a água correr por sua silhueta bela, barroca, iluminada …

 

Lanche terminado, fio dental passado, álcool gel nas mãos, halls refrescando a boca, veículo Ok. Hora de voltar para as pistas. Em 30 segundos, o aplicativo anuncia: buscar passageira na rua dos Franceses. Cheguei lá e duas garotas se aproximam. Jovens, de mãos dadas. A menor de cabelos curtos e saia sensual, pede para eu esperar um minuto. Pelo retrovisor vejo as duas conversando. Devem estar falando palavras de despedido. Não ouço, mas leio seus olhos emitindo cumplicidade. Os lábios se tocaram com ternura, paixão e libido. Eu, culpado pela inconveniência, não consegui deixa de assistir àquele filme no meu retrovisor. 

 

A mais mocinha entrou no carro, com uma má vontade clara e pesada, acomodando-se no banco de traz à minha direita. Conferi o destino, iniciei a corrida e partimos. Destino: Pinheiros, Rua Francisco Leitão. Ela ainda deu uma leve olhada para trás. Viu seu amor parado, em pé na calçada, com o olhar fixo no meu Uber que se tornava cada vez mais distante. Encostou a cabeça no vidro da janela e, depois de alguns segundos, cerrou seusolhos languidos, meio úmidos. Como o amor entre as pessoas é algo que inebria. Fiquei enternecido por aquele clima que invadiu o carro. Duas garotas e um sentimento tão puro ao meu olhar. Como o preconceito torna certas pessoas cegas para aquilo que a vida nos oferece. Duas garotas que se amam. 

 

Passeamos na Paulista de vidros abertos. Início de madrugada, vento fresco que banhava levemente nossas caras. No cruzamento com a Peixoto, um biker curtindo sua magrela. À frente, um casal com sorrisos escancarados faz uma self, com o Trianon ao fundo. No farol seguinte, em frente ao Conjunto Nacional, uma galera trabalhava intensamente.

 

Cheguei ao destino: a mocinha, com a cara de quem um cochilo tinha tirado, disse um obrigado doce e me desejou boa noite. Retribuí por aqueles momentos tão especiais, apaixonados e particulares que vivemos naquele percurso. Ela pelo seu amor, deixado provisoriamente na Rua dos Franceses, eu, pela minha cidade. 

 

Henrique Ribas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.