Avalanche Tricolor: bah, é claro que vamos vencer mais esta!

 

Nós 7×1 Eles
Arena Grêmio

 

 

 

Bateu uma baita saudade de ti! Já vão algumas semanas em que ligo a TV para te assistir e não te encontro. Ontem foi quarta, liguei a TV e nada. A quinta está chegando ao fim, e nada de novo. Esses dias até tinha um daqueles momentos mágicos que tu me proporcionaste —  que baita goleada foi aquela no clássico, heim ?!?  Mas era gravado, acontecido tempos atrás. Queria te ver agora.

 

Estou louco pra te ver em campo de novo, tocando a bola com aquela categoria que encantou o Brasil e conquistou a América. Aquele passe rápido, o deslocamento veloz e a movimentação que deixa o zagueiro deles tonto em campo. Aquela defesa impecável, com Geromel e Kannemann colocando os atacantes deles no bolso.

 

Tô com muita saudades das vitórias suadas, das goleadas implacáveis e dos troféus levantados. Das brigas em campo. Sim, até desses momentos sinto saudades, até porque me remetem aos tempos em que nos conhecemos. Tempos em que a bola era o que menos interessava. A gente queria vencer, de qualquer jeito, no campo e na briga.

 

Desde que conquistamos o Mundo as coisas mudaram um pouco. Ficamos meio bestas e exigindo bola rolando, craque em campo e gol de placa. Mas, confesso, de vez em quando bate uma saudade louca de quando bastava ganhar uma dividida de bola no meio de campo para comemorarmos na arquibancada.

 

Continuamos comemorando as dividas vencidas, mas queremos mais: queremos que a jogada prossiga, que alguém apareça na ponta, que nosso ponta dê o drible da vaca, deixe seu marcador estatelado na grama e o cruzamento termine com a bola no fundo do poço (puxa, pai, bateu outra saudade, agora de você, que criou este jargão no futebol gaúcho).

 

Sim, tô com uma baita saudade. E saudade, como ensina meu amigo e filósofo Mário Sérgio Cortella, é aquilo que nos deixa saudáveis, que permite que a gente faça uma saudação. É  “a lembrança daquilo que já foi e que a gente gosta de fazer passar de novo pelo coração”.

 

Hoje, tudo aquilo que fizemos juntos me passou no coração, enquanto ouvia a palavra do presidente Romildo Bolzan Jr. — ele próprio que recentemente, como é de se esperar de um Imortal, venceu a peste.

 

Bolzan relatou o que o Grêmio está fazendo para driblar as dificuldades sanitárias e econômicas. Como está preservando seu patrimônio, seus valores e seus jogadores. Como se planeja para vencer este adversário tão minúsculo quanto violento. E como pretende sair desta batalha — talvez a mais difícil que já enfrentamos — mais forte e mais unido do que nunca estivemos.

 

Bah, que saudade eu tô de ti! Volta logo Grêmio, volta!
 

 

Avalanche Tricolor: a bola tem de parar

 

Grêmio 3×2 São Luiz
Gaúcho —- Arena Grêmio

 

 

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Jogadores usam máscara em protesto, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

A máscara no rosto dos jogadores gremistas e o cumprimento protocolar com os cotovelos, logo após o hino, foram imagens fortes de uma partida de futebol que não deveria ter ocorrido. As arquibancadas vazias —- cena que havia se repetido em outros jogos do fim-de-semana —- reforçavam a falta de noção das autoridades que fecharam os portões para não abrirem mão do espetáculo.

 

Do jogo jogado, foram atípicos o gol marcado pelo adversário aos 28 segundos de partida e a vantagem ampliada aos 18 minutos iniciais —- especialmente se compararmos a performance das duas equipes até aqui na competição. O Grêmio jogava em casa e  fora de sintonia —- quase como se não quisesse estar participando daquele momento. Aliás,  não estava mesmo pelo que se via no protesto da entrada de campo e pelas palavras de Renato antes de a bola rolar.

 

A mudança feita pelo técnico aos 20 minutos do primeiro tempo, com a entrada de Jean Pyerre, em lugar do lateral Orejuela, mostrou que o problema não era apenas de falta de foco, era também de falta de qualidade no toque de bola. O time passou a comandar a partida, apesar de não conseguir fazer os gols que o levariam à virada.

 

Após desperdiçar uma, duas, três, várias chances de gol, fez o primeiro ao fim do primeiro tempo, e voltou para o segundo disposto a colocar as coisas no lugar. Thiago Neves empatou ao marcar pela primeira vez com a camisa gremista e Diego Souza, que o substituiu na sequência, fez o da vitória após cobrança de falta —- na qual chutou primeiro com o pé direito e acertou em cheio o rebote da barreira com o pé esquerdo.

 

O placar estava definido, os três pontos garantidos e a liderança da chave, no Campeonato Gaúcho, mantida. Nada disso foi suficiente para superar a insatisfação de quem se viu obrigado a entrar em campo porque o show não podia parar.

 

Para ter ideia, apenas de jornalistas e radialistas inscritos para cobrir a partida havia mais de 110 profissionais. A eles se somam comissões técnicas, árbitros e funcionários, que precisam trabalhar para dar suporte ao jogo. Uma legião de cerca de 350 pessoas que foram à Arena, neste domingo.

 

Espera-se que não seja preciso levar em frente a ameaça feita por Renato, em nome dos jogadores, de convocar uma greve caso os dirigentes não anunciem até amanhã a paralisação de todas as competições, no Brasil.

Avalanche Tricolor: um Gre-Nal com muita coisa fora da ordem

 

Grêmio 0x0 Inter
Libertadores —- Arena Grêmio

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Geromel mitou mais uma vez em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O clima está estranho aqui na Terra, você não acha?

 

Um vírus deixou o Mundo de joelhos. Mais de 128 mil pessoas já foram infectadas. Mais de 4 mil e 700 morreram. O valor das empresas derrete na bolsa. As pessoas fazem compras no mercado como se fosse a última vez. Tem líder político combatendo a contaminação com canetaço e galhofa. Fecham portos, aeroportos e fronteiras. O cumprimento com a mão está cancelado. Os encontros e eventos, também.

 

O futebol deixou de ser jogado na maior parte do hemisfério Norte. Aqui pelas nossas bandas, demorou-se um pouco mais para se tomar a mesma decisão. Depois de algumas partidas disputadas no Continente com estádios vazios, adiou-se as eliminatórias para o Mundial e foi anunciada a interrupção da Libertadores, mas antes era preciso assistir ao Gre-Nal das Américas.

 

Mais de 50 mil torcedores se aglomeraram na Arena para ver esse que foi o primeiro clássico gaúcho em uma Libertadores — o jogo merecia pela sua dimensão, mas, convenhamos, era muita gente junta para quem vive o medo do coronavírus.

 

Mais de 2 milhões foram obrigados a assistir à partida pelo Facebook —- em uma experiência que, ao menos de minha parte, é muita estranha e pouco efetiva se considerarmos quão acessível sempre foi ligar a televisão para torcer por seu time do coração.

 

A partida, enquanto a bola rolou foi de alto nível e extremo perigo. Bola no poste, no travessão ou na cavadinha para fora; chute espalmado para o lado, espirrada para escanteio ou despachada pelo zagueiro.

 

Mas havia algo estranho no ar. E não era apenas o risco de um vírus.

 

Desde os primeiros minutos, ninguém tirava o pé na dividida, alguns elevavam o cotovelo acima do razoável e a dureza das faltas obrigava o árbitro a agir e punir para por ordem na casa.

 

Quando tudo se encaminhava para um final sofrido, o que assistimos foi a uma pancadaria sem freio: gente chutando gente, batendo em gente, agarrando o pescoço da gente. Tinha até gente tentando afastar toda aquela gente.

 

O árbitro entrou em ação e distribuiu o cartão vermelho, expulsando ao menos três jogadores de cada lado —- fora uma turma que estava no banco de reservas e não fez falta nenhuma.

 

Ficou feia a coisa em campo e fomos obrigados a ver uma cena estranha nos minutos restantes, com cada time jogando com um no gol e mais sete na linha. Bem que tentaram ensaiar alguma coisa, mas naquela altura tudo estava fora da ordem — como, aliás, está o Mundo nessa altura do Campeonato.

 

Em meio a tudo isso, salvou-se um: Geromel. Nosso zagueiro foi o dono da área, colocou mais uma vez o principal atacante adversário no bolso e se comportou diante dos colegas que se engalfinhavam com a mesma elegância e respeito com que veste a camisa do Grêmio.

 


E quando já havia encerrado esta Avalanche, ouço as palavras de Geromel, ditas ao fim da partida:

“O país tá polarizado. Ninguém respeita ninguém. Nós temos aqui a oportunidade de dar um exemplo. Eu, como capitão do Grêmio, estou envergonhado”.

 Geromel é um mito.

Avalanche Tricolor: a homenagem a Valdir Espinosa

 

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho — Arena Grêmio

 

 

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O luto por Espinosa em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPS


 

 

Havia algo especial naquele ambiente. E não era o fato de a partida se iniciar às 11 da manhã, em um sábado pós-Carnaval — coisa rara e justificável diante das prioridades do nosso calendário futebolístico, em 2020. Nem mesmo a escalação proporcionada por Renato com três dos reforços contratados este ano formando o time principal: Caio Henrique, Orejuela e Thiago Neves, que se juntaram a Vanderlei, Lucas Silva e Diego Souza —- estes últimos também novos no elenco mas que já vinham atuando há mais tempo entre os titulares.
 

 

Meu olhar a cada instante se perdia da bola que era trocada com habilidade, no gramado bem acabado da Arena, atraído pelas homenagens a Valdir Espinosa, que morreu aos 72 anos, na quinta-feira, após complicações pós-operatória, no Rio de Janeiro. Havia trapos estampando o rosto dele e faixas estendidas com mensagens de carinho, pelas arquibancadas. Em campo, nossos jogadores ostentavam a braçadeira de luto com a imagem de Espinosa e os dizeres “Eterno Campeão”. Na casamata, Renato vestia a camisa com o número 72 às costas e o agradecimento no peito: “Obrigado Espinosa”.
 

 

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A homenagem de Renato em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

Temos muito a agradecer a Espinosa. Nos deu o maior de todos os títulos que poderíamos sonhar. Foi o técnico campeão do Mundo, em 1983. Antes, já havia nos feito campeão da Libertadores e comandado a equipe em partidas épicas que forjaram nossa identificação com a Imortalidade.
 

 

Em 2017, quando tive oportunidade de conversar com ele pela última vez, em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, demonstrou uma das suas grandes habilidades em vida: contar histórias. Seus títulos, seus feitos e sua experiência por si só eram gigantescos —— pergunte ao torcedor do Botafogo e do Cerro Portenho —-, porém quando contados por ele próprio tornavam-se ainda mais extraordinários.
 

 

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O dia em que tive o prazer de entrevistar o ídolo, reprodução ESPN


 

 

Espinosa era ser humano especial. Tratava as pessoas com carinho. Era simpático e divertido. O admiro desde criança quando meu pai, pelas mãos, me levava ao estádio Olímpico para ver o Grêmio treinar, no início dos anos de 1970. Era uma época em que arriscava chutes e caneladas jogando na escolinha de futebol gremista na mesma posição que ele, lateral. Mais tarde, quando foi técnico, entre os anos de 1982 e 1984, compartilhava com o pai seu conhecimento estratégico em montar equipes.
 

 

Para chegar ao título de 1983, por exemplo, Espinosa foi inteligente ao perceber que a maneira como o Grêmio jogava era semelhante ao do seu adversário na final, o Hamburgo, e por serem os alemães mais bem preparados fisicamente do que os brasileiros teríamos de surpreendê-los. Foi quando decidiu, com a diretoria do Grêmio, liderada por Fábio Koff, contratar jogadores com a habilidade de Paulo César Caju e Mário Sérgio, que dariam ainda mais talento ao nosso meio de campo, conseguiriam segurar a bola e conter a correria do adversário, oferecendo espaço para que Tarciso e, especialmente, Renato brilhassem lá na frente.
 

 

Quando Espinosa e o pai se encontravam, havia quase que um ritual: o pai o chamava de Alan Delon, devido a aparência física e os olhos azuis que sempre foram marcantes; e Espinosa engrossava ainda mais a voz para imitar o grito de gol-gol-gol que marcou a carreira do pai. Eu, orgulhoso e em silêncio, assistia ao encontro dos meus dois ídolos.
 

 

Hoje, nenhum deles está mais por aqui. O pai morreu ano passado. Espinosa na semana que passou. Os dois me deixam saudades. E o Grêmio, como ponto a unir nossas lembranças.

Conte Sua História de São Paulo: os jogos de bola na Rua do Bispo

 

Sérgio Sayeg
Ouvinte da CBN

 

 

Quando criança, costumava jogar futebol a 50 metros de casa, em um terreno baldio, no Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão, no início da Av. Paulista, e terminava próximo a um campo de futebol de várzea por onde viria a passar a Av. 23 de Maio. Chamava-se Rua do Bispo.

 

Muitas ruas carregavam normalmente nomes singelos. Uma ou outra recebia um nome de algum personagem histórico. Mesmo nesses casos, a população tratava de adotar uma simplificação, dispensando-se de memorizar nomes extensos. A Av. Brigadeiro Luís Antonio virou Brigadeiro; a Rua Teodoro Sampaio, Teodoro; a Praça Ramos de Azevedo, Praça Ramos etc.

 

Moleques peraltas, não nos incomodávamos de jogar bola em campos improvisados sobre paralelepípedos desencontrados. Os automóveis passavam numa frequência inimaginável para os padrões atuais, ao que conferíamos ao solitário usuário da via, reverência, interrompendo o jogo até o proprietário do veículo importado acabar de desfilar sua altivez motorizada.

 

Aquela região concentrava igrejas importantes e suntuosas, como a N. Sra. do Paraíso (árabe melquita), a Ortodoxa e a Sta. Generosa, sem contar o colégio religioso Maria Imaculada. Nada mais natural que denominar aquela rua, que ladeava o circuito episcopal de Rua do Bispo.

 

Todo o fim de semana reuníamo-nos ‘religiosamente’ na Rua do Bispo, para jogar uma nada pecaminosa ‘pelada’. Simpática rua. Vivíamos no paraíso, até revogarem o nome da Rua do Bispo, que passou a se chamar rua Desembargador Eliseu Guilherme.

 

As placas afixadas nos muros das casas, que outrora exibiam aquele prosaico letreiro de apenas cinco caracteres, estamparam a nova denominação, onde dezenas de letras se atracavam para não ficarem de fora daquele nome que ninguém conseguia decorar. Os encontros futebolísticos, agendados para a rua do bispo, passaram a ser marcados ‘para a esquina’.

 

Pode ser que esteja empenhado nesta insana cruzada para recuperar o título sagrado do pontífice anônimo, cometendo irreparável injustiça com o Dr. Guilherme. É possível que fosse alguém de bem. A verdade é que lhe criei certa antipatia, talvez improcedente, pelo fato de ter usurpado o nome original daquela rua tão marcante de minha infância. O homem…nageado deve estar se remoendo no caixão por ser tratado de maneira tão vil e descortês por esse escriba fariseu mal informado. Preferiria talvez ter o desembargador esse assunto desembargado de polêmica. O fato é que o seu nome ficou fincado na Rua do Bispo, como eu, insubordinadamente, continuo a chamar, indiferente aos olhares perplexos dos atuais moradores, desinformados das peculiaridades históricas daquele logradouro.

 

O tempo passou, o leviatã urbano irrompeu, rendeu os paralelepípedos irregulares, os bondes, os campos de várzea e os prelados anônimos, o Paraíso virou inferno. Mas continuo a lembrar-me da Rua do Bispo com saudade…

 

Sérgio Sayeg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: de volta para colocar mais um Gre-nal na história

 

Inter 0X1 Grêmio
Gaúcho —- Beira Rio, Porto Alegre/RS

 

 

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Diego Souza volta a marcar em Gre-nal (Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

De volta das férias …. aqui na Avalanche, é claro. Já estou no batente faz tempo. E atento. De olho no nosso time. Quem contratou, quem se machucou, de quem se livrou. Assisti a todos os jogos nesse início de temporada. Sem perder um só lance. Como sou dos que costumam ter paciência nesta época do ano, quando a equipe está retomando o ritmo de jogo, novas peças ainda estão se adaptando e sempre têm muito a melhorar, fiquei a espera do momento certo para voltar a esta conversa com você, caro e raro leitor.

 

Escolhi a dedo o jogo da volta — com todos os riscos que um clássico possa nos oferecer, especialmente se jogado na casa do adversário, que vinha embalado por resultado positivo na Libertadores e muito elogiado pela crônica local. Talvez por isso mesmo eu tenha decido voltar agora. Até aqui, convenhamos, só tínhamos tido partidas sem graça, algumas em campos que sequer mereciam ser palco de futebol. Estava na hora de encarar jogo de gente grande, com estádio cheio, torcida contrária, tensão a cada bola e sabor de decisão.

 

O Grêmio foi muito superior no primeiro tempo e merecia ter saído de campo com vantagem no placar — parecia estar jogando em casa. Se não marcou, ao menos seu futebol envolvente provocou a expulsão de um adversário e isso ajudou no restante da partida, especialmente nos momentos em que demonstramos fragilidade no esquema defensivo, com espaço para o toque de bola e a chegada ao nosso gol.

 

Renato aproveitou-se do banco reforçado que tem nesta temporada para reequilibrar a partida. Colocou Thiago Neves, Pepê e Caio Henrique, retomou o domínio de bola, deu velocidade ao ataque e tirou o ímpeto do adversário.

 

Contou também com a experiência de Diego Souza que voltou a disputar um Gre-nal depois de 13 anos. E voltou a marcar, no Beira Rio, como já havia feito em 2007. Nosso centroavante teve agilidade para fugir do marcador, paciência para entrar livre na área e precisão no cabeceio. “Um gol de malandro”, disse Renato ao fim da partida. O terceiro gol dele em três jogos disputados. No clássico, ainda foi responsável por algumas das principais jogadas de ataque e provocou a expulsão de seu marcador em uma escapada no contra-ataque. Alguém aí se atreve a falar mal dele?

 

Lá atrás foi Vanderlei quem cumpriu seu papel com excelência. Bem posicionado, fez defesas com segurança nos chutes à distância. Corajoso, fez defesas arrojadas quase nos pés do atacante. Com agilidade, espantou o gol de empate após uma cabeceada à queima roupa. Com sua performance no clássico, espero que tenha conquistado a confiança de uma gente chata que já ensaiava críticas ao novo goleiro.

 

Com dois dos principais reforços da temporada fazendo a diferença — e Everton brilhante como sempre —, o Grêmio chega ao sexto Gre-nal seguido sem perder —- recorde que Renato alcança no comando do time, igualando  marca só registrada até hoje por Felipão. 

 

Começamos 2020 fazendo história. E eu não deixaria de estar aqui, nesta Avalanche, de volta, para contá-la.

 

Avalanche Tricolor: sem jamais perder a alegria de jogar bola

 

Goiás 3×2 Grêmio
Brasileiro — Serra Dourada, Goiânia/GO

 

Gremio x Goias

A gurizada se diverte em campo, em foto de LUCASUEBEM/GRÊMIOFBPA

 

Foi divertido, não foi?
Eu achei.

 

Sabia que era jogo sem pretensões. A classificação para chegar pela porta da frente da Libertadores estava garantida há algumas rodadas e a posição final na tabela era apenas uma questão de ajustes —- e de alguns milhões de reais a mais, também.

 

Os titulares tiraram férias mais cedo — nem Renato apareceu — e deixaram o jogo final para gurizada da base. Em campo, a média de idade era pouco acima dos 20 anos. Uma turma que foi jogar bola como se tivesse descendo na quadra do prédio ou no campinho do bairro. Para se divertir.

 

E a gurizada não fez feio, não.

 

Ferreirinha —- que seja logo chamado de Ferreira —, então, jogou como gente grande mais uma vez. Na estreia, no meio da semana já havia marcado um gol. Hoje, deu assistência para os dois e só não saiu consagrado por um detalhe —- a bola final da partida bateu no travessão quando bem que poderia premiá-lo seguindo o caminho das redes. Ele merecia.

 

No primeiro tempo, colocou seus marcadores no bolso pelo lado direito. Na primeira disparada, foi para dentro da área, dominando a bola e driblando com velocidade. E serviu Patrick que voltou a marcar com a camisa do Grêmio —. esse guri sempre que entra me lembra aqueles moleques de rua que jogam pelo prazer de jogar.

 

Na segunda arrancada, Ferreirinha voltou a driblar com talento e encontrou Isaque no meio dos zagueiros. E seu colega de ataque não deixou por menos. De letra. Sim, de letra. Sem vergonha de arriscar, marcou o primeiro gol dele no time titular…

 

Isaque é grandão e tem presença na área. Joga tranquilo mesmo acossado pelos zagueiros, e surge sempre bem colocado. Deixou a impressão de que logo, logo pode ser o centroavante que nos fez falta durante toda a temporada.

 

Ao fim e ao cabo, vimos uma série de jovens talentos pedindo passagem. Muitos ainda precisando ser mais bem trabalhados no vestiário, sendo lançados aos poucos ao lado dos titulares e ganhando a maturidade necessária para assumir as grandes responsabilidades que teremos em 2020. E Renato sabe bem como fazer isso.

 

Meu desejo é  que todos eles —- e é o que peço ao bom deus do futebol neste fim de ano —- jamais percam essa felicidade de jogar bola. Vê-los em campo me fez sorrir, também.

Avalanche Tricolor: o som das vaias

 

 

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

Gremio x Flamengo

Pepê em jogada de ataque, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foram tempos difíceis os que vivemos no início dos anos de 1970. Os campeonatos se sucediam e as derrotas se acumulavam. Nem estadual nem nacional. Jogar fora do país, apenas em amistosos. A pressão das arquibancadas era intensa. Derrubava-se técnico, trocava-se cartola e a vaia se misturava ao som da corneta de ar comprimido, marca registrada de nossa primeira torcida organizada, a Eurico Lara.

 

Lembro de um jogo pelo Campeonato Brasileiro, em 1975 —- acredito que tenha sido contra o Sport/PE —, em que torcedores revoltaram-se contra nosso time e passaram a explodir rojões próximo a casamata, onde ficavam o técnico e os reservas. Eu estava ali, ao lado deles enquanto os foguetes ensurdeciam nossos ouvidos e colocavam em risco a saúde de todos que estivessem à beira do gramado.

 

Apesar de muito guri, travestido de gandula, auxiliava Ênio Andrade levando e trazendo instruções para a equipe. Foi invenção dele, um dos maiores técnicos que o Brasil já teve e meu padrinho por adoção. Seu Ênio —- assim como todos os treinadores de futebol da época — não podia sair do banco de reservas, então criou a função de “pombo correio”, para a qual fui convocado e aceitei como um soldado diante de uma missão de vida.

 

Ao longo das partidas, seu Ênio me chamava, passava as orientações e eu caminhava até atrás do gol de Picasso, nosso goleiro, e transmitia o recado. Foi quando aprendi como é difícil a vida de treinador. Você dizia uma coisa e o time imediatamente fazia outra.

 

Naquela partida, foi triste ver que o time não andava como queríamos. E a torcida não perdoava. Vaiava. Gritava contra nossos jogadores. E passou a protestar com rojões. Saímos de campo protegidos pela polícia militar e assim que cheguei ao vestiário, comecei a chorar e fui consolado pelo abraço de um dos meus grandes ídolos, Yura. Ele chorou, também.

 

Minha tristeza não estava no resultado negativo e em mais um campeonato sem título, mas ao ver os torcedores do meu time protestarem daquela maneira. Para mim sempre foi muito frustrante ouvir a vaia do torcedor contra seu próprio time. Nunca gostei da ideia de atacar aqueles que vestem nossa camisa, por mais que muitos que a vestiram tenham feito por merecer.

 

Lembrei-me desta história ao longo do jogo dessa tarde, em Porto Alegre.

 

Ao menos dois dos nossos jogadores foram vaiados intensamente, André e Michel. Longe de imaginar que eles mereçam aplausos pela performance nesta temporada — especialmente nosso atacante deixou a desejar. Mas a vaia em um momento como o que estamos vivendo me parece injusto com o time. Pois, com certeza, mesmo que dirigida a um ou a outro atleta, sensibiliza o grupo e não faz justiça a tudo que eles, como grupo, já nos ofereceram de alegria.

 

Nós torcedores estamos sempre em busca de um bode expiatório e assim que o identificamos personificamos nele nossas fraquezas e frustrações. O time não ganhou, culpa dele. Jogou mal, é dele, também. Venceu mas não levou o título —- ah, se não fosse ele! É a justificativa que encontramos para não assumirmos que o adversário possa ser superior a nós.

 

Apesar de nossa vaga para a Libertadores do ano que vem ainda estar sob nosso controle, o resultado desta tarde não me deixou feliz. Lógico que não! Quero ganhar sempre. Mas foi o som das vaias que me entristeceu neste domingo.

 

É provável que muitos desses que estavam por lá reclamando nas arquibancadas da Arena não tenham ideia do que foram aqueles primeiros anos de 1970, no estádio Olímpico.

Avalanche Tricolor: lição (fora) de casa

 

Chapecoense 0x1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó/SC

 

Gremio x Chapecoense

Luciano marca de bicicleta, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em cinco jogos, cinco vitórias. Essa é a campanha do Grêmio desde que foi obrigado a se dedicar exclusivamente ao Campeonato Brasileiro. Nessas cinco rodadas, tinha um objetivo traçado, o qual está cada vez mais próximo, apesar de ainda não estar confirmado: voltar pela porta da frente a Libertadores. Para isso, precisa estar entre os quatro primeiros colocados até o fim do Brasileiro.

 

Sabia que para alcançar a meta precisaria recuperar os pontos deixados no meio do caminho quando ainda tinha foco em outras competições.  E passou a fazê-lo, jogo após jogo. O que interessava era a vitória. Algumas vieram com tranquilidade, outras com emoção e ainda houve as com sofrimento. Seja como for, fez a  lição de casa (e fora de casa, também) e contou com a ajuda de adversários diretos pela classificação que tropeçaram aqui e acolá. 

 

Desde o meio de semana, ocupa espaço no G4 e encerrou mais uma rodada com a posição consolidada. Terá jogos difíceis daqui até o fim do Campeonato e, por isso, essa sequência de vitórias foi importante, mesmo que na de hoje tenha resumido seu desempenho aos dois primeiros minutos de jogo — e que dois minutos incríveis foram aqueles. 

 

O gol de Luciano — que parece começa a se sentir mais à vontade na equipe — foi genial tanto quanto oportuno. Após a cobrança de escanteio e o cabeceio de David Braz, nosso atacante acertou uma bicicleta dentro da pequena área. Falo de o gol ter sido tão genial quanto oportuno porque desconstruiu com o ânimo e a energia do adversário, acostumado a pregar peças no Grêmio em outras épocas. Por exemplo, no primeiro turno, em casa, empatamos em 3 a 3. Lembra?

 

Do gol em diante, tive a impressão de que o Grêmio não via hora de a partida acabar —  como se já tivesse feito a lição (fora) de casa pedida pelo professor. Arriscou algumas jogadas no ataque, manteve a bola no pé enquanto pode e se esforçou para reduzir os danos lá atrás. Depois dos riscos que corremos na partida do meio da semana, quando também havíamos aberto a vantagem logo no início da partida, era bom não bobear. 

 

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: foi sofrido mas foi gostoso

 

 

Grêmio 2×1 CSA
Brasileiro — Arena Grêmio

 

Gremio x CSA

Everton deu passe para os dois gols Foto de LUCASEUBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dias difíceis e ocupados esses últimos que vivi. Seja pelo excesso de compromissos, seja pela densidade do noticiário. Nesse escaninho —- o do noticiário —-, tivemos PEC para colocar a Previdência de estados e municípios no prumo, tivemos PECs para por a conta do estado brasileiro no rumo, tivemos leilões de petróleo para embolsar uma grana —- e entrou menos do que calculavam —- e tivemos votos para liberar geral —— ops, liberar aqueles que a Justiça disse que meteram a mão no nosso bolso e reservaram uma parte para contratar bons advogados que vão recorrer até o juízo final.

 

No escaninho dos compromissos, ocupado por causas bem mais nobres, vivenciei experiências incríveis, como falar para uma centena de jovens que estão entrando no mercado de trabalho ou pretendem fazer isso assim que a economia der uma melhorada —- o que fiz nessa quinta-feira, patrocinado pelo CIEE, em Goiânia. Ou falar com profissionais, gestores e empresas sobre a importância de se investir na diversidade, como fiz na quarta-feira na HSM Expo Management, a convite da CBN.

 

Coloque na agenda de compromissos —- e nesse caso nem tão ricos assim —- os transtornos proporcionados pelas companhias aéreas que chegam atrasadas para levar você a algum lugar e se atrasam ainda mais para entregar você naquele lugar. Foi assim no fim de semana passado quando estive em Porto Alegre. Foi assim na noite de quinta-feira quando estava em Goiânia. Por coincidência, com o patrocínio da mesma empresa aérea. Estaria na hora de repensar minha fidelidade?

 

Diante da agenda atribulada e das encrencas aéreas, apenas consegui me recuperar agora à noite quando lembrei que não havia cumprido com o compromisso de compartilhar minhas sensações e pensamentos com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Nosso Grêmio … melhor, o meu Grêmio havia jogado na noite passada e eu sequer havia aberto um post neste blog para exaltar nosso resultado.

 

Com os transtornos aéreos, fui levado a assistir à primeira parte do jogo de quinta-feira à noite na tela do meu celular. Até onde a prudência me permitiu, mantive o celular conectado a bordo. E tive o privilégio de assistir a um início de jogo arrebatador que culminou com o primeiro gol, após uma escapada veloz de Everton, um passe preciso dele e o arremate final de Diego Tardelli. Parecia o inicio de uma goleada, o que o tempo provou ser uma ilusão.

 

Após o piloto do voo usar de todas as estratégias para chegar à capital paulista antes de o aeroporto de Congonhas fechar —- o que nos obrigaria a aterrisar em Guarulhos, que representaria ao menos mais uma hora e meia de atraso para estar em casa —, voltei a acessar meu celular e conferir o que imaginava ser a goleada gremista. Foi quando descobri que havíamos passado por momentos de “sofrência” inimagináveis, se levarmos em consideração a superioridade técnica de nosso time em relação ao adversário.

 

Depois de sofrermos o empate em cobrança de falta quase no fim do jogo, Everton foi audacioso, mais uma vez. Partiu para cima do adversário, desvencilhou-se do marcador e cruzou uma bola traiçoeira para a área. Luciano forjou um cabeceio, mas quem acertou em cheio foi seu marcador que desviou a bola para dentro do gol.

 

Foi sofrido, mas foi gostoso. O jogo e a semana.

 

Ainda bem que já chegou o fim de semana.