Avalanche Tricolor: entre o apito final e o sinal da cruz

Atlético MG 3×0 Grêmio

Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Gremio x Atletico-MG
Krovinović entrou no segundo tempo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Domingo é dia de missa. Na minha paróquia, começa às seis da tarde. Costumo ir pela manhã a outra igreja próxima de casa quando as agendas cristã e futebolística se confundem. Nas rodadas dominicais em que o Grêmio entra em campo às quatro da tarde, assisto aos minutos derradeiros na tela do celular, na porta da igreja. Só desconecto no apito final do árbitro ou no sinal da cruz do padre — o que vier primeiro.

Hoje, confesso que cometi um sacrilégio. Não com Deus. Com o meu time. Nem nos piores momentos do Grêmio aceitei a ideia de abandonar a arquibancada antes do encerramento. Hoje, quando percebi que a partida ainda se estenderia até perto das seis da tarde (ou da noite), apaguei a TV e fui rezar. Não para o meu time. A Deus.

A minha desistência antecipada deste domingo é o sinal claro da desilusão que o Grêmio insiste em impor ao seu torcedor. Após a classificação à semifinal da Copa do Brasil e a vitória de virada na última rodada do Brasileiro, cheguei a me entusiasmar — e deixe isso registrado nesta Avalanche. A chegada de dois reforços menos badalados, mas que rapidamente entregaram bom desempenho também trouxe otimismo. Refiro-me a Wallace e Caito. A ressureição de Pavón, com dois gols de falta em duas partidas seguidas, era de fazer qualquer descrente se converter. A contratação do croata Filip Krovinović, em condições de estrear hoje, alimentava a esperança de que finalmente teríamos um camisa 10 capaz de dar qualidade ao meio de campo.

Já começamos a partida cientes da ausência de Villasanti, o volante mais qualificado do time. Assim como da de Marlon, único lateral esquerdo em quem podemos confiar. Controle de carga foi a justificativa que nos deram. Sei que é preciso preservar os jogadores fisicamente, mas não me parece que o Grêmio esteja em condições de pensar no que será o amanhã. Precisa de resultado — principalmente fora de casa — aqui e agora.

A escolha de Dodi em lugar de Villasanti — com todo o respeito que este abnegado meio-campista merece — era a indicação de que Luis Castro, antes de pensar na vitória, queria evitar uma derrota. Time com três volantes e nenhum deles com qualidade para sair jogando não poderia oferecer muito mais do que nos ofereceu no primeiro tempo. Pobre dos nossos atacantes, que passaram 45 minutos à espera de um milagre. Que, como se sabe, não aconteceu. A bola mal chegava aos pés deles para que desse sequência às jogadas em direção ao gol.

No segundo tempo, Krovinović veio para o jogo. Teríamos, enfim, um meio de campo mais criativo. Kanneman substituiu Gustavo Martins, provavelmente por questões físicas. E Tetê entrou no lugar de Pavón. Não me pergunte a razão. Talvez a crença do técnico que dali viria a redenção.  

E realmente o Grêmio melhorou em relação ao primeiro tempo — não que precisase fazer muito para isso. Chegou mais próximo da área. Pressionou mais. E, aos 14 minutos, quase empatou o jogo após a única ótima jogada do time. Caito desceu com velocidade até a linha de fundo e cruzou para Amuzu completar de primeira. Esperança à vista, pensou este sempre crente torcedor.

Ledo engano. 

Em seguida, a realidade ficou escancarada. Com um volante a menos e atacantes que não sabem voltar para ajudar na marcação, tomamos dois gols de contra-ataque em três minutos. 

Houve uma época em que, mesmo sem qualquer lógica, éramos capazes de superar todos os reveses. Ao menos acreditávamos que seríamos capazes. Quem sabe uma reação que nos permitisse continuar sonhando? Um gol que nos levasse a ficar grudado na televisão, cruzando os dedos, clamando aos deuses mundanos do futebol? Um empate heroico na casa do adversário?

Desculpe, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não encontrei em campo nenhum sinal de que algo parecido pudesse acontecer. Desliguei a TV, abandonei meu time antes de a partida terminar e fui à Igreja. O desalento é tamanho que sequer tive coragem de pedir dias melhores para o meu time. Penso que Deus tem coisa mais importante a fazer. O Grêmio que trabalhe e jogue um futebol capaz de nos fazer voltar a acreditar em milagres.

50 debates para o Brasil: legalização de bingos e cassinos divide opiniões sobre controle e danos sociais

A legalização de bingos e cassinos coloca frente a frente duas promessas difíceis de conciliar: ampliar o controle do Estado sobre uma atividade que já existe na clandestinidade e evitar que uma oferta maior de jogos aumente os problemas provocados pela dependência. Esse foi o tema do “50 Debates para o Brasil”, série do Jornal da CBN que reuniu Wesley Cardia, advogado e ex-presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias, e Hermano Tavares, professor associado do Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador do Programa Ambulatorial do Jogo.

Cardia defendeu a legalização como instrumento de controle. Segundo ele, a proibição não impede a existência de cassinos e bingos clandestinos, que funcionam sem fiscalização, restrições de acesso ou pagamento de impostos. Para o advogado, regulamentar permitiria estabelecer regras para identificar jogadores, impedir o acesso de menores e ampliar a supervisão do poder público.

“A regulamentação faz com que haja um ordenamento que, no final das contas, impede todos os malefícios”, afirmou. Cardia usou como referência a experiência recente das apostas esportivas pela internet e argumentou que regras excessivamente restritivas também podem produzir efeito contrário ao pretendido, empurrando jogadores para plataformas ilegais.

Hermano Tavares contestou a ideia de que legalizar seja suficiente para reduzir os danos. Para o psiquiatra, quanto maior a oferta e a exposição ao jogo, maior o risco para pessoas vulneráveis à compulsão. Ele também criticou modelos nos quais as próprias empresas ficam responsáveis por identificar e limitar clientes com comportamento problemático.

“Isso aí é convidar a raposa para tomar conta do galinheiro”, disse. Na avaliação de Tavares, cabe ao Estado estabelecer mecanismos obrigatórios de proteção, incluindo limites para apostas, encerramento de contas de jogadores com sinais de compulsão e restrições à publicidade.

A propaganda, aliás, apareceu como um dos pontos centrais da divergência. Tavares chamou a atenção para a presença constante de anúncios de apostas em transmissões esportivas e para o uso de influenciadores na divulgação das plataformas. Segundo ele, a associação entre remuneração de divulgadores e perdas dos apostadores cria conflito de interesse e exige regras mais rigorosas.

Cardia sustentou que o mercado ilegal continuará existindo independentemente da proibição e que a política pública deve tornar o ambiente regulamentado suficientemente seguro e competitivo para reduzir a procura pela clandestinidade. Para ele, o desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio: fiscalizar sem criar restrições que acabem fortalecendo operadores ilegais.

Tavares colocou outro elemento nessa conta. Segundo sua experiência no tratamento de pessoas com transtorno do jogo, o aumento da oferta legalizada amplia a procura por atendimento. “Aumenta o jogo legalizado, aumenta em quatro vezes a demanda de tratamento”, afirmou. Por isso, defendeu uma regulamentação que obrigue as plataformas a informar periodicamente quanto o jogador ganhou e perdeu e estabeleça pausas compulsórias.

O debate deixa uma questão que vai além de ser a favor ou contra cassinos e bingos. Se o jogo já faz parte da realidade brasileira, a discussão passa também por definir quanto o país está disposto a permitir, quem fiscalizará a atividade e quem pagará a conta dos danos que ela eventualmente produzir.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: os heróis improváveis e o sentimento de ser gremista

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Paulo

Wallace comemora seu primeiro gol no Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os heróis improváveis levaram o Grêmio a uma virada fundamental para o nosso destino na temporada. Wallace, o jovem zagueiro recém-chegado de Alagoas, e Pavón, o argentino tantas vezes criticado pelas arquibancadas, fizeram os gols que nos tiraram daquela-zona-que-você-sabe-qual-é.

Pode parecer exagero de torcedor, considerando a montanha que ainda temos de subir na competição. O fato é que o time de Luis Castro, com todos os limites técnicos e táticos que ainda apresenta, precisava recuperar a confiança perdida em algum ponto da nossa jornada.

Os reveses mais recentes incomodavam especialmente pela forma resignada com que a equipe se comportava. Derrotas nas diferentes competições e a eliminação na Sul-Americana eram recebidas quase como uma fatalidade, como se o elenco estivesse convencido da própria incompetência. Ao torcedor, restava uma mensagem de desalento.

A postura que levou à classificação para as quartas de final da Copa do Brasil já havia sido completamente diferente. Mesmo com todos os defeitos, os jogadores se impuseram diante do adversário e lutaram de forma incessante. Mesmo pressionado mais do que gostaríamos, mostrou que sabir ser resiliente. O que vimos hoje, pelo Campeonato Brasileiro, foi a repetição daquela atitude, especialmente depois de o Grêmio sair atrás no marcador.

Ainda não temos a marcação intensa que rouba a bola no campo do adversário, a organização tática que reduz os riscos dentro da nossa área ou uma circulação de bola mais articulada no meio de campo. O torcedor, porém, consegue perceber jogadores atuando com muito mais intensidade nos três setores do time.

Lá atrás, Wallace é o principal destaque. E, se não se assustar com o próprio sucesso, pode ser importante não apenas para dar mais segurança à defesa, mas também para avançar com a bola e romper a primeira linha de marcação do adversário. A lateral direita, com Diego Caito, está mais bem guarnecida. O entendimento dele com Pavón, à frente, fez diferença nos dois últimos jogos. É por aquele lado que o Grêmio ataca melhor e oferece mais perigo.

O atacante argentino é um personagem à parte neste momento. Parece ter redescoberto o drible depois de passar seis meses jogando mais recuado e improvisado na lateral direita. Não bastasse a chegada forte à linha de fundo, foi responsável pelos gols das duas vitórias recentes. E ambos de falta.

Na cobrança de hoje, a considerar pelo que disse ao fim da partida, Pavón teve plena consciência do movimento que fazia. Percebeu a falta de proteção extra atrás da barreira e chutou forte por baixo para colocar a bola na rede. No jogo anterior, também havia demonstrado inteligência ao identificar o desajuste da barreira adversária.

O Grêmio ainda está distante de apresentar um futebol vistoso. As duas vitórias seguidas, porém, devolvem ao time algo que parecia ter desaparecido: a convicção de que lutar pode valer a pena. E, quando essa disposição aparece em campo, a torcida responde.

Hoje, eram 35 mil gremistas na Arena empurrando o time até a virada. Wallace e Pavón foram os heróis improváveis da noite. A arquibancada tratou de lembrar o que os move — e o que nos move — ao cantar em coro:

“O Grêmio é puro sentimento.”

Avalanche Tricolor: a volta do Imortal!

Grêmio 1×0 Mirassol
Copa do Brasil – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Mirassol

Pavón comemora o gol da vitória. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Se não for na bola, que seja na raça. Foi o que ouvi nesta noite de Copa, após conquistarmos a vaga às quartas de final. A frase é potente e inspiradora, mas não explica tudo o que o Grêmio fez na partida de hoje.

Houve, sim, muita entrega, marcação forte, botes certeiros e um esforço além do limite de cada um que esteve em campo. Pensar, porém, que a vitória se fez apenas dessa forma é esquecer a estratégia montada por Luís Castro, a postura do meio-campo e a velocidade e a precisão na troca de passes, em especial pelo lado direito do time.

Foi esse conjunto de ações que fez o Grêmio dominar o jogo a partir dos 15 minutos do primeiro tempo.

Na defesa, Wallace tem feito apresentações seguras. Dá sinais de que pode ser o zagueiro que estamos buscando há algum tempo. Funciona bem ao lado de Gustavo Martins.

Os volantes deram um passo à frente em relação à posição que vinham ocupando nas partidas anteriores. Assim, impediram que o adversário armasse suas jogadas. Noriega e Nardoni desarmaram. Villasanti também, e foi além. Organizou o jogo ao se aproximar dos atacantes.

Pelo lado direito, Diego Caito voltou a jogar bem na lateral. Tem feito boas apresentações desde que chegou ao time. E conseguiu se entender com Pavón, que ocupou a ponta em substituição ao lesionado Tetê. O argentino fez absolutamente toda a diferença.

Foi de Pavón o gol de falta — o raro gol de falta marcado pelo Grêmio — que nos deu a vitória. Nos amistosos durante a Copa do Mundo, ele já havia marcado em uma cobrança na entrada da área. Desta vez, foi com força e categoria. A bola passou pelo lado de fora da barreira e, em curva, seguiu em direção às redes.

Com a entrega que já conhecemos e um apuro maior nos dribles, passes e cruzamentos, Pavón mereceu todos os abraços e aplausos que recebeu. Assim como Marlon, que, do outro lado do campo, na lateral esquerda, anulou as tentativas de ataque do adversário, conduziu a bola à frente e simbolizou, com sua determinação, o que foi o Grêmio na noite desta quarta-feira.

No segundo tempo, sim, a raça foi maior do que a bola. O Grêmio e os gremistas sofremos, corremos riscos. Apesar disso, resistimos. E quem acompanha a trajetória do nosso time nesta temporada sabe o quanto isso nos fez falta em muitos momentos decisivos.

Passar à próxima fase da Copa do Brasil é importante para as pretensões do Grêmio — inclusive financeiras. Muito mais importante, porém, foi o time ter dado uma resposta ao torcedor que, há algum tempo, está à espera de uma mensagem de alento que o faça voltar a acreditar no mito da imortalidade que sempre nos moveu.

Nesta noite, vamos todos dormir acreditando: o Grêmio volta a ser Imortal!

Avalanche Tricolor: casca dura, esperança viva

Mirassol 1×1 Grêmio
Copa do Brasil – Maião, Mirassol (SP)

Gremio x Mirassol

Amuzu comemora com equipe o gol de empate. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O hino do Grêmio soou na caixa de som instalada na Praça Miguel Torda, no Jardim Londrina, na zona oeste de São Paulo. Foi um carinho da associação de moradores, que havia me convidado, ao lado de minha esposa, para participar de uma cerimônia cujo objetivo era inspirar as pessoas a plantarem árvores. Plantamos um ipê-rosa, árvore nativa do Brasil que se adapta bem ao clima tropical. Ipê vem do tupi-guarani e significa “casca dura”, enquanto sua versão em rosa nos remete à ideia de renovação.

No ato de encobrir as raízes do ipê com terra adubada e bem preparada para fortalecê-lo e torná-lo resistente às intempéries da natureza, ouvi algumas vozes que alertavam para o momento de dificuldade que o Grêmio atravessa. Eram amigos, ouvintes e vizinhos comentando os maus resultados do Tricolor. Preferi não contrapô-los. Não havia por quê. Estou consciente do momento difícil que estamos vivendo. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche é testemunha do que penso sobre os problemas atuais.

Apesar da lucidez em relação ao momento que vivemos, sou casca dura como o ipê que plantei. Resisto ao desalento, por mais que ele tenha tomado conta de mim. Estou sempre à procura de um sinal de que algo pode mudar nosso destino. Agarro-me à esperança de que aquilo que nunca foi um dia venha a ser. De forma concreta: o time sem organização se entenderá; a movimentação desajeitada dos jogadores encontrará seu rumo; os passes imprecisos serão trabalhados com esmero; e os chutes fortuitos passarão a ter direção.

Um dia depois de plantar a árvore na praça da vizinhança e comemorar mais um ano de vida — já se foram 63 —, lá estava eu prestes a acreditar que seríamos capazes de superar um adversário para o qual havíamos perdido todos os jogos disputados nesta curta história de confrontos, iniciada em 2022. Imaginei a possibilidade de surpreendermos no interior paulista e vencermos a primeira partida das oitavas de final da Copa do Brasil. Quem sabe ganhar um respiro para que Luís Castro fizesse os arranjos necessários contando com os novos reforços — e a pressão sobre ele e o time arrefecesse.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Conseguimos um inédito empate contra o Mirassol, ainda mais valorizado pelo fato de termos saído atrás no placar. Tomamos o gol logo depois de chegarmos ao ataque adversário, desperdiçarmos a oportunidade e sermos incapazes de recompor a defesa a tempo de evitar o revés. Não fizemos nada muito especial para empatar. Resistimos na defesa o quanto foi possível, pressionamos minimamente à frente e, em uma roubada de bola, entramos na área adversária e concluímos nas redes, após cruzamento de Tetê e finalização de Amuzu.

Considerados os últimos desastres, ficou de bom tamanho. Levamos a decisão para a Arena, na quarta-feira, e temos chances de passar às quartas de final da Copa do Brasil. Luís Castro ganha sobrevida e terá mais uma oportunidade para ajustar o time e encontrar a escalação ideal diante do elenco que tem à disposição.

Quero crer que, assim como o ipê-rosa sinaliza um período de renovação, o resultado deste domingo tenha o mesmo significado para o Grêmio nesta temporada.

Por via das dúvidas, amanhã vou passar na praça para regar a minha árvore.

Avalanche Tricolor: a tempestade perfeita

Grêmio 0x1 Bolívar
Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Bolivar

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tão difícil quanto assistir aos jogos do Grêmio tem sido escrever sobre o Grêmio. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, espero, reconhecerá meu esforço em encontrar esperança em meio ao desalento. Dificilmente deixo de registrar aqui meus sentimentos. Às vezes, preciso driblar minha frustração e resgatar na memória nossa história para encontrar perspectiva no futuro. Em outras, busco no suspiro de um talento a solução para todos os nossos males. Ou apenas procuro na mística uma saída mais honrosa, quem sabe heroica.

Diante de mais uma eliminação nos play-offs da Sul-Americana, perdendo duas vezes para um time boliviano que havia 24 anos não ganhava uma partida em solo brasileiro, não há inspiração que floresça. Na semana passada, com a desculpa de que a derrota estava relacionada à altitude de La Paz, recusei-me a acreditar que essa jornada estava chegando ao fim. Imaginei uma virada em casa, diante do nosso torcedor, daquelas que nos dão orgulho de contar. Uma vitória para sacudir a poeira, dar a volta por cima e reescrever esta temporada.

A tempestade perfeita se formou, porém. Antes mesmo de entrarmos em campo hoje, assistimos à nossa queda para aquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro. O empate no fim de semana e a combinação de resultados das partidas disputadas neste meio de semana nos colocaram na obrigação de vencer o próximo compromisso.

Com a bola rolando, o que assistimos foi um time com medo de atacar, apequenando-se diante do adversário, mesmo estando na Arena e precisando de dois gols de diferença. Pior do que isso: o setor defensivo, desengonçado, foi surpreendido por um contra-ataque e pela abertura do placar em favor do adversário. Dali em diante, foi um Deus nos acuda.

Levamos 45 minutos para entender que ou matava ou morria. Ou seja, era preciso atacar e atacar, tirar defensores e se atirar para a frente. No mínimo, demonstrar coragem para reconquistar o torcedor, que já está cansado de tanto revés. Mesmo assim, o time ainda foi comedido nas ações ofensivas e, desconfiado de si mesmo, quando chegava próximo ao gol, não era capaz de concluir com precisão.

Com seu moral destruído, sua coragem corrompida e sem qualquer tipo de organização, o Grêmio saiu de campo mais do que derrotado: saiu desconstruído. Jogou sua história no lixo, desrespeitou a camisa tricolor e agora terá de rever às pressas como será a caminhada daqui até o fim do ano — se é que pretende oferecer ao seu torcedor um mínimo de consolo.

Das arquibancadas vieram os clássicos gritos contra o treinador de plantão e o pedido pela volta ao passado. Infelizmente, sequer essa lição aprendemos. Insistimos na ideia de que é possível construir um futuro com as ferramentas de antes. Não conseguimos entender que não dá mais para viver da história pretérita, da mística de uma camisa, de resultados que nos fizeram grandes, mas que não nos salvarão de um desastre iminente.

Precisamos começar por nos livrar das picuinhas políticas semeadas pela diretoria. Fazê-la entender que o Grêmio está acima dos seus interesses ideológicos. Que é necessário rever seus conceitos de investimento. Entender que o futebol hoje exige organização, inteligência, talento e muita inspiração. O Grêmio precisa voltar a pensar grande.

Avalanche Tricolor: o empate decepciona e a volta de Marlon inspira

Grêmio 1×1 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Fluminense

Marlon parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há quatro meses, diante da cena que chocou os gremistas, roguei para que Marlon encontrasse forças e se recuperasse. Em um lance fortuito, nosso lateral esquerdo sofreu uma fratura no tornozelo, que ficou escancarada na imagem captada pela televisão. Ali mesmo, no sofrimento que se iniciava no gramado, ele já sinalizava a dimensão de sua resiliência. Antes de entrar na ambulância, ergueu o corpo sobre a maca, olhou para os torcedores que gritavam seu nome e agradeceu com aplausos e um sorriso.

Hoje, Marlon estava de volta ao time titular, cumprindo o compromisso que ele próprio havia assumido com o Grêmio e sua torcida. A presença dele oferece maturidade na marcação e segurança na saída de bola pelo lado direito. Tem bom passe e visão de jogo. Antes mesmo de demonstrar que está em plena recuperação — ainda precisará de alguns jogos para retomar o ritmo —, seu nome entre os titulares me deu esperança de que ainda podemos mudar nossa história nesta temporada.

Marlon é gremista de coração. É daqueles jogadores que carregam uma história junto com a camisa e chegaram para viver o que muitos chamam de sonho. Foi o que escrevi em 20 de março, logo depois de me sensibilizar com uma dor que somente ele seria capaz de dimensionar.

Mesmo que o resultado deste domingo tenha sido mais uma frustração — empatamos em casa quando os três pontos se faziam necessários —, vislumbro na volta de Marlon a possibilidade de uma transformação. Não que ele seja o tipo de jogador capaz de desequilibrar uma partida, como costumam fazer os grandes craques do futebol. Tem, porém, personalidade e liderança que serão fundamentais para os desafios que se impõem em nosso caminho.

Na Copa Sul-Americana, precisamos vencer já na próxima quinta-feira para seguirmos em frente. Na Copa do Brasil, enfrentaremos, em dois jogos, um adversário que jamais vencemos na história. No Campeonato Brasileiro, precisaremos voltar a ganhar para, ao menos por algumas rodadas, respirar aliviados e distantes daquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Para este torcedor delirante, que insiste em acreditar que sempre será possível, ter visto Marlon em campo hoje foi o sinal de que eu precisava para suportar mais um revés no Brasileiro. Que sua volta também tenha esse mesmo simbolismo para o elenco gremista.

Avalanche Tricolor: da altitude de 1983 à realidade de 2026

Bolívar 3×2 Grêmio  

Sul-Americana – Hernando Siles, La Paz – Bolívia

Gremio x Bolivar

Villasanti comemora seu gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje cedo, na conversa diária com Paulo Vinícius Coelho, meu colega no Jornal da CBN e comentarista do jogo na Paramount, ele lembrou que o Grêmio foi o primeiro clube brasileiro a vencer na altitude de La Paz. Aconteceu no histórico ano de 1983, na campanha que nos levou à conquista da nossa primeira Libertadores. Um time de Hugo De León, Renato, China e Osvaldo — estes dois últimos autores dos gols da vitória.

Foi naquele período que o Grêmio começou a construir sua reputação na América. Passou a ser temido por qualquer adversário, independentemente das circunstâncias. Ao vencer na altitude, insalubre para a prática do futebol, ou ao suportar a violência de rivais e torcidas pelo continente, o clube forjou a imagem que mais tarde seria resumida em uma palavra: Imortal.

Enquanto PVC trazia à memória esse passado, outro amigo me enviava uma mensagem indignada pelo WhatsApp. Havia acabado de ver as odds de uma casa de apostas que apontavam amplo favoritismo do Bolívar para a partida desta noite. Para ele, era o fim dos tempos. Para mim, era apenas um sinal dos tempos.

O Grêmio, infelizmente, deixou de produzir atuações capazes de intimidar os adversários. Sobretudo longe de Porto Alegre. As campanhas irregulares no Campeonato Brasileiro e as eliminações precoces em competições continentais desgastaram a imagem construída ao longo de décadas. A impressão é que os rivais já não entram em campo preocupados com o peso da camisa tricolor.

Nesta noite, o time voltou a confirmar essa sensação. Falhou na marcação, permitiu que o Bolívar chegasse com facilidade à área, teve dificuldade para controlar a posse de bola e cometeu erros desde o primeiro minuto, quando sofreu o gol que abriu o placar. Ainda assim, encontrou forças para marcar duas vezes, com Villasanti e Tetê, e criou oportunidades suficientes para imaginar um resultado diferente. Faltou eficiência para transformar essas chances em empate — ou até em vitória.

Sabemos que disputar uma partida a 3.600 metros de altitude é um desrespeito aos atletas. Falta ar, diminui a capacidade de concentração, alguns sofrem tonturas, e a cabeça passa a exigir de um corpo que já não responde na mesma velocidade. A bola ganha outra dinâmica, o passe perde precisão e o chute exige um cálculo diferente. Tudo isso precisa ser levado em conta ao analisar o desempenho desta noite.

O problema é que a altitude explica os erros deste jogo; não explica os da temporada. A sensação de fragilidade que o time transmite já vinha de antes e tem pouco a ver com o ar rarefeito de La Paz.

Ainda assim, recuso-me a acreditar que essa história tenha terminado. O mesmo Grêmio que um dia transformou a altitude em cenário de uma de suas maiores façanhas continua existindo. Não está nas pernas dos jogadores de 1983, nem pode viver apenas da memória dos títulos. Está na capacidade que este clube sempre teve de se reconstruir quando parecia desacreditado. A camisa perdeu parte do respeito que inspirava; o respeito, porém, pode ser recuperado. Será preciso futebol, organização e coragem. A história mostra que isso já aconteceu outras vezes. E é justamente por conhecer essa história que continuo acreditando que o Grêmio ainda será capaz de virar esse jogo.

Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.

Avalanche na Copa: o torcedor do TikTok descobriu onde o futebol é decidido

Brasil 1×2 Noruega

Copa do Mundo – Nova York/Nova Jersey  EUA

Gol de Haaland
A foto que não estava na minha rede social

A semana inteira minhas redes sociais insistiam em reproduzir um clipe com cenas de Gabriel Magalhães e Haaland se digladiando nos campos do futebol inglês. O zagueiro brasileiro se agarrava no grandalhão norueguês. Os dois caíam no chão, trocavam sopapos e se empurravam mutuamente. Eram imagens extraídas dos diversos confrontos entre eles na Inglaterra. Na batalha travada no TikTok, o Brasil parecia vencer, a despeito da fama do atacante viking.

As redes sociais oferecem boas edições e, com elas, a ilusão da perfeição. A moça tem o corpo ideal. O abdômen marcado do rapaz é fruto apenas de disciplina. As viagens nunca têm perrengues. Os pratos servidos à mesa são sempre irresistíveis.

O futebol pautado pelo algoritmo segue a mesma lógica. Também é uma ilusão. Assim como a nossa vida, o jogo é às veras. Não cabe em um clipe de poucos segundos. O resultado se constrói com organização, eficiência, talento colocado a serviço da equipe e bola rede de nylon, não na digital.

Na partida de hoje, Haaland subiu sozinho dentro da área brasileira para marcar de cabeça o primeiro gol. Ninguém estava agarrado no norueguês para, ao menos, dificultar sua subida, como eu havia visto tantas vezes na tela do celular. Em seguida, recebeu um passe na entrada da área e chutou fora do alcance do nosso goleiro. E a imagem da televisão revelava a distância fatal entre ele e seus marcadores — uma distância que não existia no meu Instagram.

Os dribles de Vini Jr, as escapadas de Endrick, as tentativas de Rayan e as firulas de Neymar talvez fizessem sucesso diante de milhões de seguidores. Nas redes, não é preciso mostrar a conclusão da jogada. Basta o risco na grama desenhado pelo pé do craque, o movimento em direção ao gol ou um passe de três dedos. Na vida real, a bola saiu pela linha de fundo, o chute desviou para fora e o drible se acabou nele mesmo. 

O pênalti cobrado com perfeição por Neymar provavelmente fará partedo vídeo de despedida do atacante — que espero seja em breve. Ele corre, ginga, deixa o goleiro sem ação. Uma imagem bonita embora fugaz. Nas redes basta o instante. O restante desaparece.

Alguém mais antenado lembrará que aquele gol foi apenas o último suspiro de uma seleção que vive do passado, sustentada por uma fama que já não intimida os adversários.  A Noruega nos eliminou das oitavas-de-final com a tranquilidade de quem acreditava na própria força e conhecia as fragilidades brasileiras. Quem disse isso talvez seja chamado de pessimista ou antipatriótico. Sim, porque até a camisa canarinho que simbolizava aquele futebol campeão foi politicamente desvirtuada.

O Brasil cai pela sexta vez Copa do Mundo consecutiva antes da final. É a pior campanha desde 1990 quando fomos elimiandos pela Argentina na mesma fase da competição. Antes do apito final, as redes sociais eram tomadas por pedidos de demissão, caça aos culpados e diagnósticos definitivos.

O problema é que nenhuma dessas manifestações mudará os rumos da CBF nem devolverá identidade ao futebol brasileiro.

Passamos a semana olhando para uma rede que nos fazia acreditar na vitória. Bastaram 90 minutos para outra rede — a de naylon — nos lembrar onde o futebol continua sendo decidido. O algoritmo pode fabricar favoritos, heróis e lances inesquecíveis. As partidas, porme, continuam sendo vencidas por quem marca melhor, ocupa os espaços, joga coletivamente e transforma talento em resultado.

A rede social distribui ilusões. A rede do gol distribui vitórias e derrotas.

Daqui para frente, menos algoritmo, mais futebol, Brasil!