Conte Sua História de São Paulo: a porta secreta da fábrica de chocolate

 

Eder Ziliotto
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, 11 de março de 1959
Nasci! 
Rua Jackson de Figueiredo, 49
Bairro da Aclimação, Sampa

 

Sobradão delicioso de morar naquela rua gostosa. Escada de madeira e estuque no piso superior. A casa, à noite, gemia. A rua parecia mais uma vila mas com casas grandes e onde jogava-se bola descalço no paralelepípedo com a molecada do bairro, que ali eu trazia. Minha sorte é que eu tinha oito vizinhas garotas, duas em cada uma das quatro casas mais próximas. Até hoje não sei porque não me formei médico pois com elas brincava deliciosamente nessa prática ingênua sempre que me cansava das brincadeiras com os moleques. Não sei por que eu era tanto invejado por eles. Mas só eu tinha essa manha com as quatro mães das meninas.

 

Comprar na venda do Seu Izidro com caderneta era status. Tínhamos um arsenal de brincadeiras de rua que me deixava louco: peão, bola de gude, mãe da lata, fabricar maranhão, bilboquê, bafo, chiniquero livre 123, carrinho de rolimã, que a gente construía pra descer a Batista do Carmo … Ler gibi, também. A minha rua era um parque de diversões. Às vezes conseguíamos um exemplar usado de revistas de adultos com o homem da carroça trocando por algo que ele precisava, daí íamos dar risada nos fundos da sapataria do seu João, na minha rua mesmo.

 

Tínhamos uma redondeza de dar inveja. O quarteirão da caixa dágua com uma quadra de futebol; a quadra da Igreja Nossa Senhora Margarida Maria, na Lins de Vasconcelos; os espaços públicos do Parque da Aclimação a 800 metros dali; o cemitério da Lacerda Franco; a fábrica de chocolates da Basílio da Cunha; e até o Museu do Ipiranga, bastando descer de bicicleta insanamente a ladeira Coronel Diogo. Como ninguém morreu lá? Até hoje me pergunto. Éramos um pequeno bando de uns sete garotos entre sete e 10 anos de idade. Uma ganguezinha.

 

Tínhamos códigos para todas as atividades a qualquer momento do dia.

 

Entre aos 4h30 e 5h da manhã um dos integrantes da turma assobiava da janela do quarto — um fofiufofiu agudo — organizando a aventura. Saíamos sem nossos pais perceberem a essa hora e voltávamos geralmente antes das 6h30 direto pra baixo das cobertas, antes do dia começar.

 

Entre as “aprontações” tínhamos visitas à fábrica de chocolate por portas secretas; subíamos no topo da caixa d’agua sem permissão, eram mais de 30 metros de altura; entrávamos e saíamos do cemitério por acessos escondidos, só pra curtir o pavor e ouvir gemidos do além; no parque, a diversão era a pescaria proibida e, às vezes, entrar na água ou pegar um dos barquinhos de madeira que ainda existiam, só pela provocação; e, logicamente, na igreja, pra tentar fuçar no que não podia na sacristia e jogar bola quando o padre deixava ou não via. 

 

Do “Colégio 7 de Setembro”, na Lins de Vasconcelos, guardo lembranças preciosas de desfilar vários anos por aquela avenida, nas datas comemorativas tocando repique na fanfarra. Fui bicampeão com o colégio nessa modalidade pela mãos do maestro, o senhor Virgílio. Uma ocasião enganei meu pai na nota de uma prova e proibido de ir aos ensaios me arrisquei. Voltei pela orelha, do pátio do colégio até minha casa. Não teve surra, mas o vexame foi o suficiente.

 

Noutro dia numa mega festa do colégio, eu presenciei uma cena arrebatadora. Aguardávamos os ídolos da jovem guarda e eis que vejo com aqueles meus pequeninos olhos, de oito ou nove anos, na porta do colégio, saltarem de um  Cadillac conversível nada mais nada menos do que Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos. Eu lembro de ter tocado neles. Eles estavam se tornando estrelas na época.

 

Com 12 anos, ajudava meu pai no escritório, na rua São Francisco, no centro. Ia de ônibus elétrico CMTC, sozinho, da Margarida Maria até a Líbero Badaró ou a Praça da Sé — uma aventura, pelo menos duas vezes por semana. Conheci cada palmo  do centro de São Paulo e tinha um amigo que, desde pequeno, já era maestro e sua mãe nos levava na temporada lírica do Municipal. Eram duas atrações mágicas: as óperas e as visitas ao Mappin, naqueles elevadores estilo Bloomingdales.

 

E o bonde para Santo Amaro? Inesquecível! Visitávamos sempre tia Mariquinha a irmã rica e mais velha de meu pai que morava num palácio, na frente do Borba Gato, num quarteirão só dela, com meu tio, o amigão do Juscelino Kubitschek. 

 

Mas o que quero contar mesmo é que eu nunca tive medo de andar sozinho desde pequeno na cidade de São Paulo. Ela sempre foi minha amiga. Eu nunca presenciei ou sofri até hoje nenhuma violência nesta cidade que é uma das mais violentas do mundo. Eu só quero agradecer essa mãe  querida de quase 500 anos por me respeitar como cidadão; e desejo, e apenas quero, retribuir esse carinho.

 

Parabéns Sampa querida.

 

Eder Spencer Quinto Ziliotto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o paulistano que nasceu em Santos

 

Por Silvio Henrique Martins
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci em 1962, na cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo, distante cerca de 90 Km da capital São Paulo. Quando criança e pré-adolescente, toda vez que meu pai falava sobre “ir para São Paulo” era um forte momento de angústia, pois, tanto a Estrada Velha de Santos, quanto a Rodovia Anchieta, eram, para mim, sinônimos de perigo e muito medo. A cada curva, uma oração. Se a viagem ocorria na noite, então eram cinco orações por curva; se com neblina e chuva, as orações eram incontáveis.

 

Nesses tempos, dos anos 1970, não tinha noção da importância e imensidão de São Paulo. Apenas sabia que era a capital e que sua rodoviária era belíssima aos meus olhos. Aqueles losangos coloridos em estruturas tubulares eram para mim o máximo em arquitetura futurista, daquelas de filmes de ficção científica, minha preferência no gênero até hoje.

 

Eu me recordo de um chafariz gigante em formato semelhante ao um troféu, no interior da rodoviária. Havia flores e muitas cores. Essa visão compensava o sofrimento das curvas que separavam nossas cidades.

 

Aliás, antes de chegar na rodoviária, um percurso de glamour pelas avenidas centrais, com direito a contemplar as edificações modernas à época, como o edifício Louvre, o Itália e o Copan. Sem contar o lindo relógio no alto do edifício ao final da Consolação, na Major Quedinho, onde as minhas lembranças me levam a imagem da marca do jornal Diário Popular, um que meu pai lia, tanto quanto A Tribuna, de Santos. Eu achava o máximo saber que estava passando em frente à sede do Diário Popular. O que era aquela avenida São Luis? E as avenidas Rio Branco, Ipiranga e São João? Meus olhos sempre brilhavam desde a entrada em São Paulo até a chegada na sua rodoviária, nesses momentos o encantamento tomava o espaço da inquietude da estrada.

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Conte Sua História de São Paulo: a matraca do homem que vendia biju

 

Por Esperança Maria Domingos
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei a São Paulo no ano de 1949 vinda de Belo Horizonte, cidade em que nasci. Fui trazida pela minha mãe, que havia chegado à capital paulista alguns anos antes para trabalhar. A viagem de Belo Horizonte para São Paulo foi longa. Naquele tempo, o trajeto era feito de trem, e havia várias baldeações ao longo da viagem. O trem saía de Belo Horizonte com destino ao Rio de Janeiro, por isso era necessário descer e tomar outro trem com destino a São Paulo.

 

Desembarquei no dia 20 de fevereiro e três dias depois completaria onze anos. A cidade encantava, tudo me parecia lindo, uma “aparente” organização, “aparente” limpeza; digo aparente, pois com o tempo e à medida que eu crescia fui percebendo que a cidade já tinha seus problemas, que mais tarde se tornariam muito complexos, mas naquele tempo, eu ainda muito
jovem, a imagem primeira da cidade me deixou maravilhada.

 

O bonde era uma viagem gostosa, o clima era mais agradável e não nos deparávamos tanto com os problemas de enchentes e bairros inundados, bom pelo menos essas não eram as notícias que mais circulavam na imprensa como ocorre hoje em dia; outra coisa me deixou estupefata, “boquiaberta” foi o túnel Nove de Julho, a imensidão, o movimento dos carros.

 

Em seguida, aos poucos, fui descobrindo as matinês no Cine Metro, para assistir aos desenhos da Disney, como a Branca de Neve.

 

Fui estudar no Grupo Escolar do bairro do Brooklin Paulista, com professores, que se dedicavam com empenho ao seu trabalho de educadores … não há como não sentir alguma nostalgia do meu tempo, no que diz respeito à questão do sistema educacional.

 

Era uma vida mais tranqüila, mesmo com pouco dinheiro podíamos viver com alguma dignidade, andávamos sem medo e com alguma liberdade. Creio ter conhecido o lado melhor da cidade de São Paulo, uma metrópole que inspirava sonhos.

 

Os passeios em São Paulo eram divertidos e guardo muitas recordações e lembranças afetivas. Eu ainda consigo ver e ouvir o homem que tocava matraca anunciando o biju.

 

Aqui em São Paulo casei, morei em vários bairros da zona sul à zona norte, e três dos meus cinco filhos nasceram paulistanos.

 


Esperança Maria Domingos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a turma do Dunga agitava os bailes na Vila Mariana

 

 

 

Por Roseli Nabarrete
Ouvinte da CBN

 

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A turma do Dunga reunida para comemorar mais um ano juntos

 

 

O ano era 1967, a revolução cultural es­tava no seu auge. “The Beatles” coman­dando a massa de jovens no mundo, Chi­co Buarque aparecendo nos festivais da TV Record, Roberto Carlos invadindo os domingos — tudo em plena Ditadura Mili­tar no país e nós, vizinhos na Vila Maria­na, não éramos diferentes dos jovens do resto do mundo. Queríamos paz, amor, respeito, dignidade e transformar nossos sonhos em realidade.

 

Certa vez, nosso amigo e vizinho Mo­acir decidiu que deveríamos formar uma turma, batizada de Equipe Dunga. Juntos frequentávamos todos os bailes para os quais éramos convidados. E quando não havia nenhum, a gente inventava um. Era sempre aos sábados e a maior na garagem da casa do Kalu e da Celinha. Se não, na casa de qualquer colega da turma. A condição era de que no domingo os rapazes teriam que ajudar na arrumação da casa. Cuba Libre era a be­bida da moda, claro com mais Coca-Cola do que rum, mas era “ser moderninho” e a gente se sentia adulto — porém sempre sob os olhares atentos dos donos da casa, sede do baile.

 

Nos fins de semana, jogávamos vô­lei na Rua Trabiju, ouvíamos a vitrola ma­nual na casa do Roberto ou ou ainda nadávamos e jogávamos vôlei no CEI, onde todos éramos sócios.

 

No fim do ano, seguíamos de mãos dadas, de casa em casa, para dese­jar feliz Ano Novo. E era muito bom, aquele bando de jovens chegando depois da ceia para cumprimentar os vizinhos.

 

Íamos aos bailes de ônibus, pois nin­guém tinha carro. Só nossa amiga Nidia é que, depois dos 18 anos, ganhou um fus­ca, chamado de “Herby”, é claro.

 

Muitas ve­zes ficávamos sentados no muro das casas conversando; e o Marcos tocando violão. Tudo era motivo para rirmos sem parar.
Em época de provas no colégio e depois nos vestibulares, era comum nos verem sentados no chão com livros na mão, estudando.

 

Aos domingos, logo depois do almo­ço, era sagrado ver um filme no cinema Sabará ou no Jamour. Quando a turma chegava, ocupávamos fileiras inteiras para nos acomodar.

 

Amores existiram, mas não passaram de amores da juventu­de, como uma chuva no verão, que vem e rapidamente se esvai.

 

Quando nos tornamos adultos, nos separamos e cada um seguiu seu rumo, mas, felizmente, depois de 30 anos, con­seguimos nos reunir novamente graças a Internet. E como é emocionante lembrar como a vida era boa naquele tempo e de quanto foi boa nossa convi­vência.

 

Ainda moro na Vila Mariana tanto quanto ainda amo os Beatles e os Rolling Stones.

 


Roseli Nabarrete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: meu apartamento novo na rua Aurora

 

Por Adalberto Pessoa Junior
Ouvinte da CBN

 

 

No início da década de 1970 meus únicos dois primos que conviviam comigo em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, se mudaram para São Paulo. Desde então, comecei a vir para esta cidade sempre que podia, sobretudo no período de férias ou quando estava de passagem fazendo outras viagens. Eles moravam na Alameda Barão de Limeira, próximos de uma outra tia querida que morava na Rua do Arouche.

 

Os períodos nos quais passei em São Paulo deixaram as melhores lembranças. Meus primos sempre reservavam novos passeios que sabiam que eu iria gostar. Além dos típicos passeios ao zoológico, simba-safari, museu do Ipiranga, começamos a acompanhar também a chegada dos novos shoppings. Fiquei de boca aberta ao ver pela primeira vez o Shopping Eldorado logo após ser inaugurado, em 1981. Me levavam a restaurantes típicos, como um que servia comida típica goiana… naquela época nem tinha noção da existência de tantos restaurantes típicos!
 

 

E assim foi ao longo de minha infância e adolescência. Mas, de tudo, o que eu mais gostava era passear pelo centro de São Paulo, a pé, junto com eles. Passar pela Rua Direita, nem que fosse rapidamente, era obrigatório. Na época, a região já tinha fama de apresentar um “certo perigo”, pois havia trombadinhas e prostitutas. Porém, isto nunca foi um problema, pelo contrário, tudo era novidade e me divertia.
 

 

Ao completar 18 anos fui estudar em Minas Gerais, mas as paradas em São Paulo continuavam durante os feriados e férias, pois eles moravam ao lado da antiga rodoviária, aquela com cobertura colorida no bairro da Luz, que  hoje é vizinha da Sala São Paulo e da Cracolândia. Caminhando, chegava em 10 minutos até a casa deles.
 

 

O tempo passou, me formei, fui trabalhar em diferentes cidades do interior de São Paulo, mas as paradas nesta cidade eram obrigatórias e continuaram até que ambos se casaram e foram morar longe do centro, na zona sul e estão lá até hoje. Porém, eu gostava mesmo era de permanecer no centro e foi quando passei a frequentar a casa de um tio que era ator e morava no bairro do Bixiga. A paixão pela cidade aumentou. Ia muito ao teatro, shows e frequentava regularmente os mesmos ambientes dos atores.
 

 

O tempo passou, me casei e não perdi a primeira oportunidade de mudar para São Paulo. Desde 1998, moro no Alto da Lapa. Cinco anos atrás em um dos constantes passeios pelo centro, a caminho de um delicioso restaurante peruano, não resisti e comprei um apartamento na planta, na Rua Aurora, próximo a Praça da República, no meio da muvuca. Quase ninguém da família ou dos amigos conseguiu entender essa nova aquisição… apenas o meu tio, o ator!! O espanto sempre vinha acompanhado da seguinte “pergunta-afirmação”: mas você não vai morar lá, vai?! Minha resposta sempre é a mesma: por que não?
 

 

Recentemente o prédio ficou pronto e o apartamento está em fase final de conclusão. Meu filho e eu ainda estamos decidindo quem vai morar lá, pois ele também quer! Cada vez que vou ao apartamento acompanhar a obra de conclusão, fico com mais vontade de viver ali, pois é onde encontro o mundo todo vivendo na vizinhança, e posso ir caminhando a teatros, cinemas, exposições, shows e excelentes restaurantes.

 

Como sempre dizíamos 45 anos atrás: o centro é passado, presente e futuro.
 

 

Adalberto Pessoa Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe e envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a camisa de futebol que me salvou a viagem

 

Por Neide Brum Duarte
Ouvinte da CBN

 

 

Eu moro em Bom Jesus dos Perdões, São Paulo, uma cidade pequena e distante da capital mais ou menos 70km. Eu vou à capital com certa frequência. E há mais de 10 anos, em uma dessas idas, eu levava um amigo para uma audiência no Fórum da Barra Funda, na zona Oeste. Íamos, esse meu amigo, duas filhas dele, eu e meu filho mais novo que morava na capital para estudar. Meu filho Guilherme é corintiano fanático — a segunda pele dele é (agora é um pouquinho menos) a camisa do Corinthians.

 

Bem, fomos com tempo para chegarmos ao fórum antes da audiência. Mas logo na chegada a São Paulo, meu carro que era novo teve uma pane na rodovia Fernão Dias. Fiquei apavorada, liguei o pisca alerta e desci do carro para colocar o triângulo. Meu filho desceu e meu amigo também para pedir que os carros desviassem. Foi horrível. O que fazer??? Telefonei para a seguradora que se prontificou a mandar um guincho e um táxi, ficamos à espera e as coisas nesse caso demoram um século.

 

De repente, eu vejo uns homens vindo em nossa direção. Fiquei com medo pois aquele lugar é bem feio. Os homens se aproximaram, uns fizeram uma espécie de muro na rodovia parando o trânsito e outros tiraram o carro, no braço, e o puseram no acostamento. Acredita????

 

Depois de feito isso, eu comecei a chorar de emocionada e fui humildemente agradecer a um deles que me pareceu o líder: — Muito obrigada, nem sei como lhe agradecer. Ele me respondeu: — Senhora, não me agradeça; nós não viemos por sua causa, nem a vimos, nós viemos por aquela camisa!!!Acredita???

 

A camisa do Corinthians salvou o meu dia em São Paulo.

 

Neide Brum Duarte é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: os passeios com meu avô na praça do Municipal

 

Por Raul Magliari

 

 

Tenho 65 anos e sou paulistano com muito orgulho. Nasci na Rua Tamandaré próximo a Rua do Glicérico, Rua da Glória e a Lava-Pés — local onde existia uma escola de samba que saía ali da rua Sinimbu. A sede da escola ficava do lado de uma carvoaria — sim, vendiam carvão de carroça, nunca vou esquecer! Tinham também os campos da várzea do Glicérico ao lado da Igreja da Paz, onde fiz a primeira comunhão.

 

Estudei “Bacurau” — o espirita — no Grupo Escolar Cruzeiro do Sul, que ainda funciona com as mesmas características, que ficava ao lado do Morro do Piolho onde eu empinava pipa e jogava bola após as aulas —- que saudades. Lembro ainda que no fim da rua espírita — era uma rua sem saída — tinha uma fábrica de chapéus que se não me falha a memória era chamada Ramenzoni.

 

Freqüentei muito, levado por meu avô, a praça em frente ao Teatro Municipal onde tem a fonte com cavalos — acho que é a praça Ramos de Azevedo — e lembro das palmeiras que eram imensas. Tinha o bonde que ia até a Praça Clóvis Bevilaqua — andei nos dois tipos: abertos e fechados. Era sensacional! Depois fui estudar no Colégio Paulistano que era o reduto da classe média da Aclimação — o colégio ficava na rua Taguá, depois virou FMU e hoje deve ser Unip.

 

Como disse, tenho orgulho de ser paulistano da gema, de um local que malhou muitos judas como era tradição até pouco tempo atrás. Hoje, infelizmente, temos que malhar outros judas que anda por ai, que não são bonecos — bem você sabe quem são.

 


Raul Magliari é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: nosso quarto e cozinha na Vila Medeiros

 

Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN

 

 

Minha história começa na chegada a São Paulo de duas famílias, uma portuguesa e outra italiana, meus avós paternos e maternos, respectivamente. Meus pais se conheceram no bairro da Moóca, onde moravam — e também trabalhavam como tecelões, em uma das inúmeras tecelagens do bairro, nos idos dos anos 1950.

 

Depois de casados, já com minha irmã Terezinha nascida, resolveram ter sua própria casa. Com pouco recurso, tiveram que procurar lugares mais distantes pra morar, literalmente, além-rio… Com muito esforço, compraram um terreno na Vila Medeiros, Zona Norte da Capital, em uma rua sem nome e sem saída, mas muito tranquila, familiar e acolhedora.Não havia transporte público, rede de água e esgoto, asfalto —- era um bairro em formação.

 

Foi nesse cenário que nasci, em outubro de 1959, já na casinha tão sonhada pelos meus pais, construída em mutirão familiar aos fins de semana, onde minha mãe, Dona Júlia ainda vive. O presidente era Juscelino Kubitschek. Por esse motivo ganhei o nome de uma de suas filhas — Márcia —, sugerido pela minha avó que ajudara no parto.

 

Nossa casa era apenas um quarto e cozinha; o banheiro ficava no fundo do grande quintal de terra, onde tínhamos bananeiras, sempre carregadas de banana ouro, que eu amava comer escondida dentro do guarda roupa, onde eram colocadas, envolvidas em jornais para amadurecer. Andávamos muito a pé, cortando caminho pelos vários campinhos que, aos domingos, eram muito usados em animadas partidas de futebol.

 

Meu saudoso pai, Sr. Olindo, por sua vez, jogava malha aos sábados, prática muito comum na época, assim como a bocha. Por vezes, eu o acompanhava ao Clube Thomas Mazzoni e a outros Clubes de malha, para assistir às suas partidas, que lhe renderam alguns troféus e medalhas.

 

Era motivo de alegria a chegada de circos, parquinhos que se instalavam em algum campinho perto de casa. Até os adultos vibravam com a chegada deles. O Parque Shangai era também um passeio que nos encantava. Fiquei muito decepcionada quando foi desativado, ainda na minha infância.

 

Mas quando se aproximava o Natal… a extinta Lojas Pirani, na Av. Celso Garcia, era passeio obrigatório. Ali, para nós era um sonho, luzes de Natal, brinquedos, Papai Noel, enfim… Ver tudo aquilo era o nosso maior presente.

 

E o que falar dos passeios de trem, saindo da Estacão da Luz ou Praça Roosevelt?

 

Paro aqui, no final dos anos 1960. Mas minha história segue, nesta Terra da Garoa, a bordo do Trem das Onze, nessa cidade onde fui e sou muito feliz.

 

Marcia Aparecida Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Conte a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a surpresa que tive em meu primeiro emprego

 

Por David Azevedo

 

 

Quando cheguei em São Paulo, trazia na bagagem poucas roupas, cansaço e um violão companheiro das viagens. Pensava em juntar um dinheiro e voltar para Salvador montar uma banda de rock, mas o destino preparou outra cosia muito boa!

 

Desci em Congonhas, atravessando a passarela, magro e cabisbaixo. Tinha apenas a esperança de mudar de vida. Peguei um ônibus, desci no terminal do Guarapiranga e outro para Piraporinha, em Santo Amaro. Fui para casa de uma amiga que me arrumou um quarto. Ela conhecia a dificuldade que tínhamos em Salvador e, por sua vez, conhecia quem, mesmo com as dificuldades, sempre trabalhou.

 

O primeiro teste foi uma entrevista agendada em uma fábrica de software. Estava muito frio — mas este era o menor dos problemas. Se tinha coisa que eu quase não tinha era experiência em desenvolvimento de software e em manutenção de sistemas e computadores. Claro, fui reprovado. Fiquei triste, decepcionado. E nessas condições, o frio aumenta. Para quem nunca havia enfrentado nada abaixo dos 21 graus, duas calças, três blusas e uma jaqueta eram pouco para suportar os 13 graus que apareciam no termômetro de rua.

 

Mesmo assim não desisti, afinal lembrava sempre que precisava ajudar a mãe , o pai e meus irmãos, lá em Salvador. Com apenas R$ 100, mais o dinheiro da passagem de volta, estava disposto a tentar novamente e novamente… até quando fosse preciso. Cheguei até pensar em ir para a construção civil, trabalhar de cobrador, qualquer coisa já seria melhor que a vida que tinha antes, pois, aqui tinha oportunidades.

 

Em uma segunda-feira, fui para o Google procurar vagas de emprego.

 

Na primeira página apareceu uma na CAST Informática. Mandei o currículo e em poucas horas uma moça do RH, Alessandra, conversou comigo e agendou uma entrevista. E não é que fui aprovado —- novamente no frio, mas com a felicidade que me aquecia. Para minha surpresa logo em seguida fiquei sabendo que a seleção não terminava ali. Havia outra etapa: fazer a entrevista no cliente. No caso um banco japonês.

 

Foi no dia três de outubro de 2008, duas e meia da tarde. A emoção de andar na paulista, entrar em um prédio de quase 100 andares — eu ficava contando as janelas – era sensacional.

 

Fui ao Banco Mitsui, minha prova de fogo, em São Paulo. Era um lugar onde as pessoas, em sua maioria, tinha os olhos puxados, coisa rara em Salvador. Mas me senti em casa. A entrevista foi com o senhor Vladimir, gerente da área, carioca, que gostava de conversar. Tivemos uma bom papo e ele ficou de retornar para a consultoria. Lembro que, no mesmo dia à tarde, tive retorno da consultoria e do cliente. Quanto me perguntaram a expectativa de salário, falei em R$ 1.600,00 — era mais do que o dobro do que já havia recebido em Salvador. Para minha surpresa, eles não só tinham aprovado minha contratação como o salário para a vaga era R$ 5.800,00 — inacreditável.

 

Agora, em uma nova etapa da vida, comecei a conhecer São Paulo e o que a cidade tem a oferecer. Completo dez anos na capital — com frio muita vezes, mas feliz pelo que encontrei aqui.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie o seu texto para milton@cbn.com.br.