Conte Sua História de São Paulo 468: o canto do coração de meus amigos na cidade

José Pina

Ouvinte da CBN

Pina, de joelhos a esqueda da foto, no palco do teatro em foto divulgação


Vim do interior de Rondônia. Sonhava em estudar, trabalhar, ganhar um bom ordenado, ajudar a minha família e ser artista. Fiz uma amiga no Orkut, que me convidou para sonhar com ela, em São Paulo. Depois de três dias, desembarquei no Terminal do Tietê. A amiga que deveria estar me esperando, nunca apareceu. Eu, não tinha o que fazer, onde morar …


Passei a perambular pelas ruas. Atordoado pelo desespero e solidão, busquei ajuda na rodoviária. Encontrei um bom homem: Kemps, segurança do terminal. Me apontou direções, me ofereceu comida, me acolheu com generosidade. Encontrei uma boa mulher: Dona Cíntia, que fazia a limpeza dos banheiros. Me deixou tomar um banho: um reconforto para a alma, que estava 14 dias sem higiene corporal.


Comi jornal velho pra enganar a fome. Me fiz palhaço contando anedotas, me humilhei para sobreviver. Do jeito que dava, fui parar na favela. Fiz o próprio barraco. Fomos desapropriados e me juntei aos sem-teto para garantir o meu … Barracos, calçadas, cortiços, pensões, no chão. Dormi onde conseguia. Em cada canto, novos amigos. 


A rua me apresentou a realidade nua e crua, a educação pela pedra me transformou dono do meu destino. Criei resistência, fortaleci o espírito e me tornei solidário — aprendi com os amigos que me acolheram. Vivi quatro longos anos intensamente.


Trabalhei em trem. Vendi água, chiclete, chocolate, amendoim. Sempre fugindo dos guardas. Fui pego cinco vezes. Na última, quis desistir. Chorei no meio da plataforma. Outro amigo nasceu: Carlos Ferreira quis saber o motivo do meu choro. Disse que havia perdido tudo e não teria dinheiro para fazer o curso de teatro. Ele me emprestou um carrinho de pipoca. E novos amigos apareceram. 


Como pipoqueiro, conheci Juliana Teixeira, atriz e produtora, que ao saber do meu desejo, apostou no meu talento e financiou o primeiro curso de teatro.


Subi ao palco realizando meu sonho. No dia da estreia, soube da morte de meu pai pouco antes das cortinas se abrirem. Trôpego, sem o domínio do meu corpo, segui guiado por uma força invisível. No aplauso da plateia, ouvi a gargalhada de meu pai.


Sou artista, tenho um canal no Youtube, milhares de seguidores. Milhares de amigos. O coração de cada um deles é o melhor canto de São Paulo.


José Pina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Nós estamos a espera da sua história na cidade. Escreva agora e envie para  contesuahistoria@cbn.com.br.  Todos os sábados, você ouve mais um capítulo da nossa cidade. Tem também no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: no espiral do Center 3, minha diversão era garantida

Gladys Prado

Ouvinte da CBN

Durante a minha infância, frequentava o Center 3 com minha mãe. Não havia outro shopping perto de casa. Eu adorava essas visitas. Não para fazer compras. Para brincar. Havia uma rampa de acesso aos andares do shopping em espiral. Muito alta e com um corrimão feito de triângulos de vidro. Eram todos enfileirados desde baixo até o alto. Que era tão alto que se perdia na escuridão do espiral.

O prédio do Center 3, onde havia duas torres ocupadas pela Cesp – a Companhia Energética de São Paulo, foi projetado pelo arquiteto Jorge Wilheim, em 1969. Imagino que tenha sido dele a ideia daquela rampa, que poderia ter sido apenas um local de passagem de um andar para o outro, mas que era instrumento para despertar tantos sentimentos.

O espiral era incrível! Eu podia correr para cima e para baixo, quando o shopping estava vazio. No percurso, por si só uma diversão; me hipnotizava, olhando a espiral e a sequência de triângulos. Aqueles triângulos que eram ao mesmo tempo fascinantes e ameaçadores.

— Cuidado com o vidro, repetia minha mãe, enquanto eu me divertia.

Muitos anos depois, já adulta, presenciei o incêndio daquele prédio, em 1987. Meu ponto de ônibus ficava bem em frente e assisti, melancólica e triste, ao fim daquele canto de São Paulo que acompanhou a minha infância. 

A implosão precisa e competente de parte do prédio, após o incêndio, foi a despedida mais paulistana que aquela obra de arte poderia ter. 

Nem sempre queremos algo novo, mas, frequentemente, nesta cidade, esse algo se impõe. 

Faz parte dos aprendizados dos que moram aqui

Gladys Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie a sua história da cidade. Mande seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: o office-boy que nos apresentou a cidade

Francisco Moacir Assunção Filho

Ouvinte da CBN

E lá se vão mais de 40 anos. Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978, ao lado do meu pai, Moacir Assunção, do mano Marcondes e da mana Eva. Éramos todos adolescentes e eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus enormes arranha-céus futuristas, além de cenas gerais que mostravam a selva de pedra que era essa cidade. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “como São Paulo é feia”. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo, na Praça da República, ao lado da qual moro atualmente. Me apaixonei  perdidamente, como era de se esperar.

Enfrentei, de cara, o enorme preconceito que havia contra nordestinos – todos genericamente baianos para os paulistanos. Esses eram sinônimo de burrice, ignorância e brutalidade. Uma vez, na agência em que trabalhava, tive uma discussão com um argentino que criticava os “baianos”, citados por ele com um curioso sotaque portenho que soava assim: “baiános”. Para ele, ignorante como era, baianos eram pouco inteligentes e não eram brasileiros. Tive que esclarecer à curiosa figura que ele é que não era brasileiro e o Brasil havia começado pela Bahia. Respondi assim à acusação de burrice: “os baianos são burros mesmo, lá nasceram uns tais de Ruy Barbosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Amado e Raul Seixas, todos muito burros”. O sujeito se calou e não falou mais comigo, o que me deu muito prazer. Descobri, depois, que os baianos foram os primeiros nordestinos a chegar, de forma organizada, na cidade, a convite do fundador da Nitroquímica, o empresário pernambucano José Ermírio de Morais, na década de 1930.

Curiosamente, nunca mais ouvi falar desse preconceito. Ninguém mais me chamou de baiano ou ouvi essa expressão de forma depreciativa. Atribuo isso ao maior conhecimento do Nordeste por parte dos paulistas e paulistanos e ao grande número de nordestinos, muito deles bem-sucedidos em vários aspectos, que há na cidade, a maior capital “nordestina” do Brasil.  

Logo, comecei a andar pela cidade, pelo Centro, que nem de longe conhecia, embora tivesse dito que conhecia tudo, para conquistar o emprego que me garantiria meio salário mínimo por mês. Salário muito importante para uma família recém-chegada que vivia na periferia e precisava se firmar na cidade grande. Até então meu conhecimento da capital acabava na Penha, zona leste.

Ao andar pela cidade com minha pastinha de boy cheia de documentos, me espantava com a altura dos prédios. Vim de uma cidade pequena do interior, Trindade, em Pernambuco, onde não havia prédios.  Nessas andanças, fui parar na extinta TV Tupi, no Sumaré, berço da TV brasileira, para entregar uma passagem e conheci dois grandes atores: Lima Duarte e Paulo Goulart. Ambos muito simpáticos, conversaram comigo e até pagaram a coxinha que comi na padaria ao lado. 

Tempos depois, subindo a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção à Paulista — eu  pegava o dinheiro pra condução, mas só andava a pé, porque os trocados eram gastos em churrasco grego, cinema e fliperama — vi uma multidão acompanhando a entrada em um prédio, que sabia ser do Exército (era a Segunda Auditoria Militar) de um homem barbudo, algemado e escoltado por dois soldados. Era Lula, conforme dizia, com muito cuidado, alguém na multidão. Tempos depois, já jornalista, o entrevistei como deputado e presidente.

Posteriormente, fui trabalhar na Livraria Saraiva da rua José Bonifácio, no coração do Centro, onde se consolidou o meu gosto pela leitura. Era responsável pelas estantes de História e de Sociologia – nem de longe imaginaria que eram duas das áreas que estudaria  mais à frente. Trabalhava no fundo da livraria e reconhecia o meu público. Quando via um jovem com óculos redondos, bolsa de couro e ar desleixado, tinha certeza que ia procurar livros destas áreas. E sempre acertava.

Fui, aos poucos, apesar dos problemas, me apaixonando por esta enorme cidade. Aqui, estudei, me tornei jornalista e professor e tive a oportunidade de, um dia, retribuir um pouquinho do que ela me ofereceu: mantive durante dois anos a coluna “Conheça seu Bairro” no extinto (e saudoso) jornal Diário Popular, na qual contei a história de mais de 120 bairros de São Paulo, o que me fez gostar mais ainda da maior e mais cosmopolita metrópole brasileira. Enfim, isso tudo é pra dizer que amo São Paulo, para mim a melhor cidade do Brasil, insuperável em todos os aspectos, na qual pretendo viver até o fim dos meus dias e fico feliz em saber que, depois de 42 anos morando aqui, adquiri a “cidadania paulistana”. Abraços a todos os conterrâneos.

Moacir Assunção  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: minha cidade tem praia, sim senhor!

Julio Araújo

Ouvinte da CBN

Era adolescente nos anos 1960 e gostava de folhear o Guia de Ruas  da Cidade de São Paulo. Se não me engano se chamava “Guia Levi”, e era vendido em bancas de jornal. Me detinha nos pontos para visita ou turísticos. Certa vez, folheando o guia, dois desses pontos me chamaram a atenção: Praia Azul e Praia do Sol.

Como assim?  São Paulo não tinha praia! Na minha cabeça, praia era algo grandioso. A praia que conhecíamos de verdade ficava longe, embora já existisse a rodovia Anchieta juntamente a Estrada Velha de Santos. Era viagem de pelo menos duas horas e meia.

Não lembro  como consegui  a informação, se foi no próprio guia, que as praias Azul e do Sol ficavam em Guarapiranga, pra lá de Santo Amaro.  Eu morava na  Vila Prudente. Santo Amaro era como se fosse outra cidade, de tão longe.

Num domingo resolvi encarar a aventura. Peguei ônibus para o largo Sete de Setembro; em seguida, embarquei no bonde na avenida Liberdade. O trajeto era interessante: passava pela Vila Mariana, São Judas, Moema, Aeroporto de Congonhas, Campo Belo, numa linha reta, no meio da via, e demorava  bastante, embora não houvesse trânsito. Em Santo Amaro, no Largo Treze, peguei outra condução para Guarapiranga. E depois outra, em direção à represa, onde estavam eu e mais um senhor acompanhado de dois meninos, pareciam ser seus netos. 

Perguntei a ele sobre a represa e a resposta foi de que eles estavam exatamente indo pra lá. Para a praia. Ele até levava varas de pesca. Quando descemos do ônibus, do outro lado da avenida  o senhor me disse: “aqui é o autódromo de Interlagos”, que era  bem rudimentar na época.

Descendo pela rua de frente, que mais parecia uma trilha, havia muitas casas noturnas. Uma delas chamava-se Chez Nous, que o senhor traduziu do francês: Para nós. Não era pra mim, não! Aliás, aquele  senhor  explicava cada detalhe; era como se fosse um guia de turismo.

Juntos chegamos. Havia crianças brincando, pessoas pescando, alguns barcos ao fundo. Caminhei pela beira para conhecer a orla. E ainda fui convidado para o lanche em família. Nos divertimos bastante. Conheci as Praias Azul e do Sol, apesar de não ter nenhuma placa indicando seus nomes. Mas eram praias. Fluviais. Mas praias paulistanas.

Quanto ao senhor e aos meninos nos despedimos, nem ao menos o nome deles fiquei sabendo, mas me marcaram muito até hoje.

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: saudades do meu bairro de São João Clímaco

Djalma Bom

Ouvinte da CBN

Imagem do bairro de São João Clímaco, SP

Saudades da minha infância e juventude nas décadas de 1950 e 1960, no bairro de São João Clímaco, na zona sul de São Paulo. Foi lá, na estrada de  São João Clímaco com a estrada das Lágrimas, o meu segundo emprego: na fábrica de Fogos de Artifício Albanese.

Lembro da minha caixa de engraxar sapatos. Profissão que adotei  para receber alguns trocados e ajudar a família, no Bar do Antonio Costa, também ali na São João Clímaco.

Na época, nadava no rio dos Parentes, na divisa com São Caetano do Sul; frequentava a paróquia do bairro, aos domingos; e estudava no Grupo Escolar São João Clímaco – sim, lá tudo leva esse nome. Foi onde aprendi o ABC, em uma predinho de madeira, atrás da paróquia. Na escola tinha a nossa querida diretora Dona Maria José e zeladora Dona Leontina. Tenho boas lembranças delas.

Aos domingos, além da missa, havia matinê, no Cine Cristal e no Cine Seckler. À noite, era hora do fotting que acontecia na própria estrada de São João Clímaco com a Rua São Silvestre.

Fui dar meus primeiros passos na dança nos bailes do Floresta, no Flor do Pinhal e no Carnaval, no Alencar de Araripe.

O que hoje é a favela de Heliópolis, ontem foi a maior várzea de futebol amador da capital: Floresta, Flor de São João Clímaco, Copa Rio, Flor do Pinhal, Guarani, Alencar de Araripe, Milionários, Sacomã, Flamenguinho e a Portuguesinha. Grandes craques foram revelados nessa várzea: Geraldo Scotto e Celso, do Palmeiras; Mosca e Rodelão, do Corinthians; Zé Luís da Ferroviária de Araraquara. O auge era o jogo de futebol de confraternização no fim do ano.

Quanta saudade do meu bairro de São João Clímaco.

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Conte Sua História de São Paulo 468: o charme da av. São Luiz

Neusa Stranghette

Ouvinte da CBN

Nasci no Ipiranga e com dois anos de idade, a família mudou -se para São Caetano do Sul. Lá cresci, estudei e tive meu primeiro emprego, em uma multinacional, que ficava no meio do mato, mas que eu adorava. Em 1970, sai da empresa e retornamos para São Paulo, no bairro de Santa Cecilia. Foi a primeira vez que entrei num supermercado que eu e minha mãe frequentávamos como se fosse o um parque de diversões! 

Morar em São Paulo era só novidades! Mas precisava arrumar um emprego.

Num domingo li os classificados do jornal e achei uma agência de empregos na Praça da República, que pelo menos eu sabia onde era. Dia seguinte, me apresentei, preenchi uma ficha e recebi duas indicações: uma na avenida São Luiz e outra em Santo Amaro, que eu não tinha a menor ideia de onde ficava nem  como chegar….. 

Na hora, fui para a São Luiz. Quando entrei naquela avenida maravilhosa, arborizada — que prédios lindos —, decidi, naquele momento, que era ali que eu iria trabalhar.

Fui aprovada na entrevista e comecei na quarta-feira. Os colegas de trabalho foram se tornando amigos! Na galeria Copan, ali do lado, tomávamos café no Floresta, que existe até hoje. Almoçávamos todos os e dias e nas sextas fazíamos nosso happy-your, no Balloon. Na galeria, também, havia uma boutique, que todas as minhas colegas e amigas frequentavam. Tínhamos crédito com as donas, que sabiam direitinho quando teríamos aumento de salário. 

Gostávamos ainda de almoçar no Eduardo’s, no Franciscano e, quando recebíamos o vale-refeição,  na excelente feijoada do Brasilton.  Algumas vezes tinha almoço no Circolo Italiano, no Edificio Itália, e o maitre Mário nos tratava como VIPs. Mas o top era a primeira sexta-feira após o pagamento, quando a balada era no London Tavern, no Hilton Hotel. Éramos recebidas pelo Léo e ficávamos até a madrugada, sem medo de ser feliz!  

Hoje a  avenida São Luiz ainda mantém um pouco do charme da época. Bem pouquinho.  Só sobrevivem o Floresta e o Circolo Italiano. Nada mais de Balloon, Brasilton, lojinha de roupas, Eduardo’s, muito menos o Hilton. Nem a empresa onde trabalhei por  20 anos está mais ali.  Perdemos nossas referências. Ficaram fotos, os amigos, as memórias  … e viramos saudosistas.

Neusa Stranghette é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.


Conte Sua História de São Paulo 468: postal do Bixiga

Amaryllis Schloenbach

Ouvinte da CBN

Bairro do Bixiga em foto de Gabriel Fernandes no Flickr
Do alto da escadaria
uma paisagem bizarra
se desnuda ante meus olhos.
Reflexo de meu fascínio
pelo bairro que tanto amo,
de onde retiro o alimento
para os sonhos que sustento.
Como poeta solitária
em um mundo tão povoado,
os fantasmas do passado
acalento entre meus braços.
Bixiga tradicional,
por contraste, de vanguarda.
Região de tantas luzes
e de sons alucinados.


De pureza e sedução
de extravagantes pecados,
prostitutas, travestis,
parzinhos apaixonados.
De casais bem comportados,
de motéis sempre lotados.
De prédios ensolarados,
de becos, vilas, malocas
de malandragens, macumbas,
de entusiastas do samba,
de paulistas de costado,
de imigrantes arraigados.
De pizza, macarronada,
de vinhos, queijos, salames,
de um chopinho bem gelado.

De feiras, festas e crimes,
teatros, bares, cantinas,
buzinas, vaga ocupada,
guarda-carros e ambulantes.
Da Achiropita famosa,
de campanários e fé.
Da via expressa, da pressa,
dos passeios demorados.
De encontros despreocupados,
de luar, de serenata,
de meus antigos cismares,
de meus projetos futuros.
Do meu fervor, do meu pranto,
do meu gáudio, do meu riso,
Bixiga do meu encanto!

Amaryllis Schloenbach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: de canto em canto da cidade, desde o nascimento no Bexiga

Por Durval Pedroso

Ouvinte da CBN

Foto da Rua Augusta, em 1973

Desde o nascimento no Bexiga, no inicio dos anos 1950, esta cidade está impregnada na minha alma. Em cada momento me apaixonei por uma região, por um lugar da cidade. 

Na infância, Santo Amaro. Foi onde residi. Tinha mais do que um “appeal” todo especial. Era uma região bucólica onde o adensamento populacional era incipiente, onde as matas e a grande quantidade de campos futebol, se estendiam desde muito próximo do Largo Treze de Maio, o Largo da Matriz, até as cercanias do bairro do Socorro, onde hoje predomina o autódromo de Interlagos. 

Pescar na Ilha do Bororé, na represa Billings, era comparado a hoje ir para Mato Grosso ou até a Amazônia, pela virgindade da mata e quantidades de peixes. Sem falar das onças e dos macacos que ocupavam o imaginário infantil das crianças. Naquela época pegar o bonde dos botinas amarelas de Santo Amaro até a Praça Clovis Bevilácqua no centro da cidade era mais que a glória. 

No fim dos anos 1960 e por toda a década de 70, me apaixonei pela região dos Jardins, onde a Rua Augusta tinha um fascínio extra.

Os clubes esportivos e os locais de dança trouxeram ao adolescente o que esta cidade tinha de mais pungente. Não posso deixar de ressaltar a Praça do Por do Sol no Alto de Pinheiros, cujo o amanhecer junto a amada juvenil trazia deleites de uma leve taquicardia. 

Já os campus da USP na cidade universitária e o da PUC, tão efervescentes no período militar, traziam um sentimento de liberdade, e em muitos momentos nos davam a sensação de estarmos vivendo na Woodstock brasileira. 

Dessa época, tenho um registro grafado a fogo no meu coração, num jardim que ficava entre a Praça do Por do Sol e a Avenida Pedroso de Moraes. Por falta de dinheiro, estava roubando umas margaridas para dar à minha namorada. Fui pego em fragrante pelo guarda que fazia a ronda. Depois que contei minha história ele parou de me reprimir e me ajudou montar um ramalhete de margaridas. 

Nos anos 80 e 90 a região que mais me atraiu foi a da Avenida Paulista até os centros, velho e novo da cidade, onde a busca diária por um lugar ao sol na futura vida profissional, me fez conhecer as maravilhas da região. As praças da Sé, da República e Roosevelt formavam um triângulo onde tudo podia acontecer. Conhecer bares, restaurantes, boates e teatros, aliviavam as tensões de mais de dez horas de trabalho intenso de segunda à sexta. 

A virada do ano dois mil e os que se seguiram neste século 21, talvez em função da minha maturidade, me fez voltar atenção para a região expandida da alegria, da cultura, do entretenimento e do bom viver, que vai da glamorosa Vila Madalena até o charme do mais importante parque da cidade de São Paulo, o do Ibirapuera. 

Andar e viver as Ruas da Vila Madalena, é de fazer inveja ao público do badalado Soho, em Nova Iorque, porque aqui o encontro com os frequentadores, conhecidos ou não, são muito mais calorosos. 

Tomo a liberdade para parafrasear o grande Millôr Fernandez que dizia brincando “que só haveria justiça social se todos pudessem morar em Ipanema “.  Como paulistano da gema garanto que só se todos pudessem morar na Vila Madalena. 

Durval Pedroso é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: cidade inquietação, farrapos de garoa

Por Colombina

São Paulo em foto de Paulo Pinto


Cidade inquietação; farrapos de garoa

se desprendem  da altura e tombam sobre o asfalto.

Aguda e prolongada uma sirene soa,

ao trabalho chamando a gente do planalto.


Um pássaro de prata a serra sobrevoa,

dominando a distância, além, no azul cobalto!

Range a serra, a bigorna estua, e longe, ecoa

a oração da cidade erguida para o alto…


Piratininga foi a pátria das Bandeiras,

com Paes Leme sofreu perigos e canseiras,

desbravando sertões e desafiando a morte.


E hoje é São Paulo: a forja, a usina, a mais possante 

máquina que conduz todo o Brasil avante…

Sempre o seu coração, sempre o seu braço forte!

((em breve, o áudio deste texto estará disponível))

Colombina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe desta série e envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP 468: um passeio da várzea da Vila Medeiros ao verde do Horto Florestal

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Governo de SP

Nasci dia 21 de abril de 1959, no Hospital e Maternidade de Vila Maria, na zona norte. Na época meus pais e meu irmão mais velho, moravam em um cortiço no bairro de Vista Alegre, também na zona norte. Logo eles compraram uma casa no Bairro de Vila Medeiros divisa com a Vila Sabrina.


Na minha infância, o lugar que mais freqüentava era o Vajão, um imenso espaço com mais de dez campos de futebol, um perto do outro, onde times de várzea disputavam seus torneios. Muitas vezes, assistimos a bolas chutadas de um campo cairem no outro, interferindo no andamento da partida. Com o tempo tudo isso acabou. Nos anos de 1980, lá se ergueu o que é hoje o Jardim Guançã.


Casei-me em 1978.  fui morar no Mandaqui.  Da minha casa ao Horto Florestal são cerca de quatro quilômetros. Aos fins de semana, quando possível, visitava o Horto, batizado Parque Estadual Albert Löefgren, e passava o dia por lá.

Tinham muitos macacos, aves, peixes nos lagos, e Mata Atlântica à disposição. Pessoas nadavam por ali, jogavam muita comida para os peixes e aves. Havia lixo, também. Por descaso e vandalismo, os lagos ficaram poluídos. E o Horto ficou insuportável. Resolvi não voltar mais. 


Com a concessão do Horto para a iniciativa privada, em 2021, apesar de cobrarem a entrada, o parque começou a ser recuperado. E a ficar mais parecido com o lugar que conheci no passado. E que mais gostava de frequentar em São Paulo.

Quem sabe, um dia eu volto?!?


Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.