Conte Sua História de São Paulo: o arquivo morto dos bilhetes aéreos da VASP

Monica Stocco

Ouvinte da CBN

1982. Havia completado 18 anos, finalmente! Já podia trabalhar e dirigir! Ganhei um fusca dos meus pais e consegui um emprego na VASP — sim, uma das maiores empresas aéreas do Brasil. No mesmo ano, ingressei em Administração de Empresas, na PUC de São Paulo. Não me continha de alegria. 

Chegava na VASP às 8 da manhã. Morava lá perto. Batia meu cartão — sim, aquele que a gente enfiava na máquina e registrava o horário de chegada e saída. 

Fui trabalhar no departamento que conferia as passagens vendidas — sim, aqueles bilhetes com várias folhas. Uma ficava com o passageiro para entregar no embarque. As outras vinham para nós. Tínhamos de conferir se o valor cobrado estava correto.

Loucura total! A gente analisava um monte de passagens, praticamente todas cobradas como deveriam ser. A gente colocava os bilhetes numa caixa de papelão e todas seguiam para o Arquivo Morto. Depois de seis meses, aquilo começou a me dar um desespero. Todo meu trabalho estava indo para o Arquivo Morto. 

Conversei com meuj chefe. Ele disse que não poderia fazer nada. Então, criei coragem. Subi no quarto andar, onde ficavam as salas da diretoria. Falei com secretária do diretor de marketing e pedi uma reunião com ele. Depois dela contar o diretor, fui convidada a entrar.

Apresentei-me — prazer, sou a Mônica —, disse a ele o que estava acontecendo. Do meu incomodo em ver meu trabalho ter como destino um arquivo morto. Ele alegou que não tinha vaga para mim no Marketing mas prometeu uma solução. Uns dias depois, fui chamada para trabalhar na área financeira. Aceitei na hora. 

Foram anos muito empolgantes. 

Hoje, infelizmente aquele prédio da VASP, ali ao lado do aeroprto de Congonhras, está em ruínas, vítima de um processo trabalhista sem fim. Virou o próprio Arquivo Morto.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Monica Stocco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo ascensorista

João Moro

Ouvinte da CBN

Elevators

Foto: Don Harder/Flickr

Estamos no fim do ano de 1976. Para situá-los foi o ano da primeira nota 10 nos jogos olímpicos de verão em Montreal para a Nadia Comaneci e foi também o ano da morte de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.  Eu, com 17 anos, acabara de me formar em Técnico em Eletrônica em uma das escolas mais conceituadas do Estado de São Paulo: a Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo.

Através de CIEE  — Centro de Integração Empresa Escola — fui encaminhado para uma entrevista na Telesp, a Telecomunicações de São Paulo S.A. — que foi estabelecida em maio de 1973 como parte do Grupo Telebras, criado em julho de 1972 pelo governo federal para centralizar, modernizar e controlar as operadoras estaduais, funcionando como uma holding.

Eu, muito jovem, fui para minha primeira entrevista de emprego Jamais vou esquecer daquele senhor que conduziu nosso elevador no imponente prédio da Martiniano de Carvalho — naquele tempo muitos elevadores tinham ascensoristas. Eu o cumprimentei com toda a educação. Puxei conversa.  Ele foi muito simpático e me falou com certa tristeza que muitas pessoas nem percebiam a presença dele dentro do elevador. Assim que a porta abriu, desejou-me sucesso e eu fui para a entrevista. 

Aprovado, fiz os exames de praxe e, duas semans depois, me apresentei para o meu primeiro dia de trabalho. O prédio era atendido por oito elevadores. Qual não foi minha surpresa que ao acionar o botão para chamar um deles, de forma aleatória, a porta que se abriu era a do elevador conduzido por aquele mesmo senhor com quem conversei no dia da entrevista. A alegria no olhar dele foi contagiante. Ele me abraçou e disse que havia torcido muito pela minha contratação. Outras pessoas no elevador ficaram sem entender nada. Quanto a mim, fazia ali minha primeira amizade de trabalho.

Esteja ele hoje onde estiver … que saiba que faz parte da memória que tenho dessa grande cidade. 

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Conte Sua História de São Paulo: um amor que nasceu à distância e nas ondas do rádio

Neusa Prata Vieira

Ouvinte da CBN

Nos idos de 1960 e 1963, meu pai, caminhoneiro, começou a transportar pedras para São Paulo, a nossa Capital, que tanto eu ansiava conhecer. À distância, eu já amava esta cidade, a minha Capital, mesmo sem a conhecer.

E o que tudo dela eu ouvi era transmitido pela rádio Bandeirantes, na rua Paula Souza, número 181. Todas as notícias do mundo e as narrações dos jogos de futebol.

Um belo dia, sem saber qual, fui para o batismo: São Paulo à vista! Ah! Que expectativa! Não cabia dentro de mim tamanhas a satisfação e a felicidade. Ao entrar na cidade, com tantos veículos por ruas e avenidas que não tinham fim, com uma incontável quantidade de prédios que nunca acabavam, fiquei fascinada, deslumbrada!

Fui tomada por um bem-estar imenso que jamais havia experimentado. E tudo isso, dentro de mim, me fortalecia, me empoderava e me completava.

Lembro-me tanto da emoção de estar pisando naquelas poucas ruas por onde caminhei … caminhei? Não, eu flutuei! Queria delas saber os nomes. Não encontrei uma só placa para guardar na memória.

Os policiais vestidos a rigor no centro dos cruzamentos das avenidas. Ficavam em cabines de madeira abertas, com seus apitos para comandar um trânsito, a meus olhos, assustador.

Achei lindo tudo aquilo. Que me transportava para um clima de festa, como se eu estivesse num parque de diversão.

Retornei de lá até triste porque queria que viesse comigo toda aquela gostosa intimidade que com ela mantive, naquele único dia que lá passei. Mas o que de emoção senti e guardei dessa inusitada viagem foi muito forte e surpreendente para mim mesma. 

Em 1976, fiz um concurso público para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e, a partir de então e durante 27 anos, prestei serviços no Fórum de São Carlos, onde já me aposentei.

Veja só como São Paulo me acolheu! Olha só o presente que me deu!

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Conte Sua História de São Paulo: a casa mal-assombrada da Bela Vista

Iorli Marli Bezerra Pivato

Ouvinte da CBN

Door Lock
Foto: Gustavo Maximo/Flickr

Minha história de São Paulo começa em 1948, quando eu tinha 6 anos, e mudei da casa da minha avó, na Rua Cruzeiro do Sul, para uma casa “mal-assombrada” na Rua Santo Antônio, 104, no bairro da Bela Vista.

No local havia acabado de acontecer um crime que abalou a cidade de São Paulo. Um jovem químico professor da USP, Paulo Ferreira de Camargo, havia matado a mãe e as duas irmãs e jogado os corpos em um poço no quintal da casa. Quando os corpos foram descobertos, ele se matou no banheiro.  Um dos bombeiros que participaram das escavações, sem proteção, morreu por infecção cadavérica.

Todos esses fatos e o exagero da imprensa em criar reportagens sensacionalistas, deram a ideia de que o local era amaldiçoado, mal assombrado, tornando o imóvel desvalorizado. 

Minha mãe viu ali uma oportunidade de negócio, alugou o imóvel, montou seu salão de beleza e relocou quartos e salas fazendo uma espécie de pensão.

Tenho boas lembranças daquela época, da ingenuidade da criança que se divertia observando curiosa os quartos dos inquilinos pelas fechaduras das portas, quando voltava do jardim da Infância, na Cruzada Pró-Infância, na Praça da República. 

Lembro das brincadeiras com os tubos de lança-perfume, comprados por meu avô, para a festa de carnaval, na avenida 9 de Julho, onde o cordão passava cantando “Nega Maluca”, de Linda Batista.

Lembro da curiosidade sobre o teatro de alumínio, instalado em 1952 na Praça da Bandeira, onde a companhia de teatro de Nicete Bruno se apresentava e usava os serviços do salão de beleza da minha mãe.

Lembro da festa do quadricentenário de São Paulo, dos papéis picados sendo jogados do alto dos prédios.

Vivemos na casa muito felizes, até 1954, quando foi demolida. Mudamos então para o bairro da Vila Rosa, perto do Horto Florestal, mas não abandonamos o Centro. Trabalhamos no Largo do Arouche, na Praça Patriarca, na Praça da República, mas aí são outras histórias.

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Iorli Marli Bezerra Pivato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: Seu Palmeiras, que enxergava com os olhos da alma, tinha a rádio como companheira

Por Aline de Aguiar Gonzaga dos Santos

Ouvinte da CBN

O rádio e a CBN eram companhias do Seu Palmeiras

Escrevo para compartilhar a história de um ouvinte assíduo que, infelizmente, nos deixou neste mês de julho, quando completaria 100 anos de vida: José Palmeiras.

Nascido em Pernambuco, começou a trabalhar muito cedo. Aos oito anos, já ajudava em casas de família. Aos treze, embarcou sozinho rumo a São Paulo, em busca de uma vida melhor. Aqui, iniciou sua trajetória como ajudante de obras, mas sua curiosidade, inteligência e dedicação fizeram dele um respeitado mestre de obras.

Era um homem de muitos talentos. Sonhou em ser cantor, locutor e estudioso. Infelizmente, as oportunidades lhe faltaram, mas jamais lhe faltaram inteligência, curiosidade e vontade de aprender. Se tivesse tido acesso aos estudos, tenho certeza de que teria ido ainda mais longe. Ainda assim, impressionava qualquer pessoa com sua lucidez.

Seu Palmeiras sabia de memória nomes de ruas, distâncias entre cidades, acontecimentos históricos, mudanças climáticas, fatos políticos, letras de músicas entre outros. Contava suas histórias com uma riqueza de detalhes que fazia quem o ouvia viajar junto com ele.

Há cerca de 25 anos, ficou completamente cego em decorrência do glaucoma e da catarata. Por conta disso, não conseguiu terminar de construir a própria casa. Foi então que um companheiro inseparável ganhou ainda mais importância: o rádio.

E a companhia diária era a CBN.

Mesmo sem enxergar, ele permanecia informado sobre tudo o que acontecia no Brasil e no mundo. Desde que chegou a São Paulo, nunca mais desgrudou do rádio. Era por meio da voz dos jornalistas e comunicadores da CBN que seguia acompanhando o mundo. O rádio lhe devolvia a autonomia, alimentava sua curiosidade e fazia companhia nos dias silenciosos. Lembro-me com carinho quando aos 8 anos de idade ele me presenteou com um rádio de pilha. Hoje compreendo que aquele presente carregava muito mais do que um objeto: era um pedaço do mundo que tanto significava para ele.

E eu tive o privilégio de ser uma espectadora desse ser humano extraordinário.

Seu Palmeiras era meu vizinho. Realizou uma obra em nossa casa e, desde então, nasceu uma amizade que atravessou os anos. Nunca se casou ou teve filhos, então se tornou meu avô de consideração. Quando nos visitava, ainda quando enxergava, sempre me agradava com uma sacola cheia de Sonho de Valsa. Sentar para ouvir suas histórias era como abrir um livro de aventuras. Cada lembrança era narrada com emoção, riqueza de detalhes e uma sabedoria construída pela própria vida.

Apesar de não enxergar com os olhos do corpo, ele via com os olhos da alma.

Foi a pessoa mais resiliente que conheci. Nunca o vi reclamar de suas limitações. Era sempre grato, bem-humorado e cheio de fé. Em cada visita, em cada telefonema, eu saía melhor do que havia chegado. Quando enfrentava alguma dificuldade, lembrava-me dele: de sua força, da capacidade de agradecer pelo simples, da serenidade com que encarava a vida e da convicção de que esta não era nossa morada definitiva.

Ele me ensinou, sem jamais dar uma aula, que a verdadeira visão não depende dos olhos.

Hoje, a CBN perde um ouvinte assíduo. Mas acredito que cada vez que um rádio for ligado, quando a música da CBN tocar, a lembrança do Seu Palmeiras continuará viva em quem teve o privilégio de conhecê-lo.

Obrigada, Seu Palmeiras, por ter sido meu avô de consideração, por me ensinar tanto sobre fé, humildade, coragem e esperança. Sou profundamente grata por ter convivido com o senhor.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Aline de Aguiar Gonzaga dos Santos e o Seu José Palmeiras são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O Claudinho, eu e toda a equipe da CBN agradecemos pela companhia silenciosa do Seu Palmeiras que neste mês de julho nos deixou. Que seus amigos, assim como Aline, mantenham viva a história dele para sempre. Você também pode contar mais um capítulo da história da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o dia que o Corinthians mudou a vida de muita gente

Por Isabella Alves Brito Donadel

Ouvinte da CBN

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Quando ouvi na CBN, que seria feita mais uma homenagem a esta nossa maravilhosa cidade, decidi contar esta história. Aqui vou falar de natureza, vou falar de preservação e vou de falar um campo.

A natureza é esportiva. A preservação é de um local de muitas histórias vividas pelos paulistanos. E o campo? Bem, este é o gramado do estádio do Pacaembu.

Há algul tempo, durante a pandemia da Covid, constatei que meu pai estava chateado e para mudar essa situação lembrei que poderia provocá-lo a contar uma história que sempre o deixava feliz. A história de um dia que, segundo ele, foi “um dia ser lembrado para sempre”. 

Foi um dia que mudou a vida de muita gente na cidade de São Paulo. No Estado, no Brasil e no Mundo — sem exagero: Quatro de Julho de 2012.

Quando se comemoravam os 263 anso de independência dos Estados Unidos, um time de futebol brasileiro e paulista, conquistava a América. O time de mais de 33 milhões de torcedores.

Era uma quarta-feira, bem no meio da semana, e em um lugar que costumávamos chamar de “A casa dos corintianos”: o saudoso estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu.

Naquela noite, meu pai estava ansioso. Mas assim com a maioria, para não dizer a totalidade, daqueles milhões de torcedores, sabia que o time estava em uma excelente fase. Um elenco que exalava confiança. E transmitia essa sensação a todos os torcedores.

Este sentimento foi fundamental para a conquista que viria a ser alcançada: naquela noite, o Sport Clube Corinthians Paulista venceria por dois a zero o poderoso Boca Juniors, time argentino que já havia vencido diversas Libertadores da América. Foi uma vitória incontestável e invicta.

Ao fim daquele jogo, todo corintiano podia gritar em alto e bom som para quem quisesse ouvir: “depois de campeões do mundo, em 2000; também somos campeões da américa, em 2012”. 

Estávamos livres de ouvir dos tradicionais adversários a frase: “nunca serão …”. Sim, naquele 4 de julho de 2012, “nóis” corintianos éramos campeões da América.

Para mim, então com 11 anos, ficpu a lembrança do dia mais feliz na vida de meu pai. E com certeza de milhões de corintianos.

Viva a natureza esportiva. Viva o Pacaembo e o seu gramado mágico, palco de tantas emoções para esta nossa maracilhosa cidade de São Paulo.

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Isabella Alves Brito Donadel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a vilinha era nosso palco de brincadeiras, de encontros e Copas

Débora Ferreira 

Ouvinte da CBN

VILA POMPÉIA
Vila Pompeia. Foto de Eduardo Guarizo Pimentel no Flickr

Capitão Teófilo Marcondes da Silva. O nome é grande. A rua é pequeninha, charmosa, dessas que cabem inteira na lembrança. Era chamada de “vilinha”, assim mesmo, no diminutivo, do jeito carinhoso com que os moradores e vizinhos a tratavam. E foi ali que me encantei pela Vila Pompeia.

Naquela rua, começaram outros amores também: o primeiro namorado, as brincadeiras soltas pela calçada, a febre dos patins, as voltas escondidas de moto pelo bairro (às vezes até mais longe).

Na rua, também tinham os encontros nas casas dos amigos para ouvir as bandas que estavam aparecendo nos anos 80, e os bailinhos improvisados na garagem.

Em uma Copa do Mundo, os vizinhos até fecharam a vilinha pra todos nós asistirmos aos jogos e depois comemorar — até onde a seleção brasileira permitisse. 

Da “vilinha” dava pra ir a pé no Sesc Pompeia, no restaurante Degas, no Shopping Matarazzo e no Clube Palmeiras, onde a gente passava o dia todo durante as férias — ah, se aquele clube  falasse?!?

Até que um dia minha família teve mudar da “vilinha”. Não haveria outra rua igual. Não com os mesmos amigos, as mesmas brincadeiras, os mesmos afetos. Era perfeita demais.

Meus pais encontraram outra casa na Pompeia. Não era a nossa “vilinha “, mas vejam o lado bom: era perto do nosso colégio  o Sagrado Coração, que naquela época, ainda era exclusivamente feminino. A casa era grande, cabiam dois carros na garagem, tinha salão para fazer as festinhas.

Ela tinha lá o seu charme, cheia de roseiras no jardim, padaria na frente — o que ninguém esperava estava logo ao lado. De repente, ônibus começaram a estacionar diante da nossa casa. Dois dias, três, quatro. Às vezes uma semana inteira. Eram ônibus de artistas. Deles desciam músicos, cantores, equipes. Um entra e sai constante na casa vizinha.

O que será que a casa ao lado tem? 

Também frequentavam as bandas de rock, aquelas que a gente escutava na “vilinha”: cantavam “Sonífera Ilha, descansa meus olhos … ”.  Com aquela formação original, aquelas roupas e cabelos diferentes, estacionavam seus carros na frente da nossa casa.

Um dia entrou na casa um dos meus ídolos, Toquinho. E aí uma prima resolveu matar nossa curisiosidade e perguntou o que se fazia naquela casa: era um super estúdio de gravação, onde as grandes duplas sertanejas, as bandas dos anos 80 e 90 e grandes nomes da MPB gravavam seus álbuns. Todos desfilando na nossa calçada, diante dos nossos olhos.  Teve até um dia que um dos artistas chamou as minhas irmãs para participarem como backing vocal em uma música!

E quando a gente já estava se acostumando com aquela rotina improvável , cheia de vozes famosas e melodias que atravessavam o quarteirão, mudamos de casa  de novo: — ”mas vamos ficar na Pompeia “, assim prometeu meu pai.

E lá fomos nós para o  nosso terceiro endereço nesse bairro tão charmoso que nunca deixou de ser nossa casa e onde minha mãe mora até hoje. Um bairro cheio de boas histórias — dessas que continuam pedindo para ser contadas. 

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Conte Sua História de São Paulo: a seleção na Copa, meu irmão de begala e o velório da prima

Gercyvania Lucia Fernandes Lima

Ouvinte da CBN

Allez Brasil!
Foto: Breno Beck/Flickr

Comigo não poderia ter sido diferente! Copa 2006. Dia de jogo do Brasil. Contra o Japão. Fomos dispensados às duas e 15 da tarde. Eu estava triste. Logo cedo soube que havia perdido minha prima. O velório seria no Tatuapé. Antes passaria na minha tia que chorava a morte da filha, em Cachoeirinha.

Saí da empresa na Leopoldina e fui até a Lapa. Não conhecia nada por lá. E precisava encontrar o ônibos com destino ao Terminal Cachoeirinha. A SPTrans havia prometido aumentar a frota porque era dia de jogo da seleção. Esperei 50 minutos. Neste tempo, um bêbado deu um gole para o santo … bem no meu pé.

Quase no fim do jogo cheguei na casa da tia. Quando seguimos para o velório, o Brasil já ganhava por 4 a 1. Fiquei por lá até às nove e meia da noite. Como estava difícil de ligar, meu marido não sabia onde eu estava. Para que eu não voltasse sozinha, minha irmã e meu irmão, de muleta devido a um acidente, pediram para me fazer companhia até em casa.

Embarcamos no metrô do Tatuapé até a Barra Funda. Não havia quase ninguém nas ruas. Nem parecia São Paulo. Um deserto. Enquanto esperávamos o trem, sentido Itapevi, chegou uma molecada jovem e trabalhadora. Todos gritavam e brincavam. Por óbvio, nós não estávamos em clima de Copa. Entramos no vagão e nos recostamos em um canto do trem. 

De repente o celular da minha irmã tocou: era o marido dela. Queria saber onde ela estava. A coitada, inutilmente, gritava tentando fazê-lo entender que, apesar da algazarra, não estava em uma festa. Quando disse que vinha de um velório, o marido ficou mais confuso ainda. Le-le-le-o-Le-le-o- Le-le-le-o … era tudo que ele conseguia ouvir. 

Uma das meninas que estava entre os torcedores animados percebeu o esforço da minha irmã e pediu para todos se calarem: tem uma mulher querendo falaro ao telefone! Quando o silêncio invadiu o vagão, a inocente da minha irmã gritou ao celular: Não, eu já saí do velório. Agora estou no trem! Caímos todos na gargalhada diante da cena inusitada. O riso foi com a gente até o desembareque.

Em Osasco, pegamos o trem para Santo Amaro. E o episódio foi motivo da nossa conversa na viagem. Passavam das 11 da noite. Mais uma baldeação: entramos no metrô em direção ao Largo Treze. No fim da linha, percebi que havia um carteiro dormindo no vagão. Tentei chamá-lo, em vão. Só me restou avisar os funcionários na plataforma que tinha alguém no trem que seria recolhido para a garagem. 

E o dia ainda nõa havia se encerrado. Faltava um ônibus para chegar em casa. Eram 11 e meia da noite quanto chegamos no Terminal Santo Amaro. O próximo ônibus, só à meia-noite e 23. Meu irmão ainda comentou: “por hoje chega, né. Não tem mais nada para acontecer?”. Tinha. O ônibus quebrou.

Meu irmão, de bengala, teve de subir a pé até a avenida. Que dó! A gente não chorava mais. Afinal, minha prima, a falecida, descansava. Quem cansava éramos nós. Embarcamos em outro ônibus,m depois outro e o restante fomos a pé. Cheguei às três da madrugada, morrendo de dar risada. E quando meu marido perguntou onde eu estava até aquela hora, não hesitei em responder:

— No velório!

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Conte Sua História de São Paulo: troquei os cabos de telefone pelas teclas das máquinas de datilografia

Ana Claudia Diamantino

Ouvinte da CBN

Máquina de datilografia
Foto: Josiane Teixeira/Flickr

Tenho 52 anos. Quando estava com 12, minha família decidiu mudar de Botucatu, no interior de São Paulo, para a capital. Fomos morar na Rua Aruaque, na Vila Isolina Mazzei, pertinho da Parada Inglesa. Aos 14 anos, passei a estudar pela manhã e a trabalhar à tarde em uma empresa metalúrgica de um primo, na Avenida Ataliba Leonel. O ano era 1987.

Logo me encantei com a central telefônica de PABX e com todos aqueles cabos que conectavam as chamadas aos seus respectivos ramais. As telefonistas — profissão que hoje nem existe mais — eram ágeis, competentes e absolutamente fundamentais no dia a dia de qualquer empresa.

Fiz um breve estágio na telefonia e, pouco depois, fui transferida para o escritório, onde aprendi a datilografar memorandos e documentos. Ah… como eu adorava o som da máquina de escrever elétrica! Papel, carbono, papel. Cartas em duas vias. Não podia errar na digitação, senão a folha de trás ficava marcada. E eu adorava datilografar páginas e mais páginas.

Mas o que era realmente mágico era o aparelho de telex. Uma máquina enorme, com uma sala só para ela. Parecia um piano de parede, de tão grande. O teclado lembrava o da máquina de escrever, mas não tinha pontuação nem acentos.

À medida que a gente digitava, uma fita amarela ia sendo perfurada, registrando todo aquele texto de forma codificada. Na hora de enviar, tocávamos um sininho para avisar o destinatário de que havia material chegando. Se o operador do outro lado estivesse perto da máquina, respondia na hora. Aquela era, talvez, a única forma de comunicação escrita online que existia na época.

Eu adorava operar o telex. Adorava enviar propostas comerciais e aguardar a confirmação de recebimento. Com o tempo, fiquei craque nos códigos e símbolos, passei a entender aquela linguagem cifrada dos operadores.

Pouco depois surgiu o primeiro aparelho de telefax. A qualidade era sofrível, mas o simples fato de transmitir imagens — e não apenas texto — mudou tudo. Ainda assim, o telex continuou relevante por bastante tempo.

Alguns anos depois, fui trabalhar em uma agência de propaganda, a MPM. Eu era assistente das equipes de criação e datilografava textos de comerciais e campanhas. Logo veio mais uma virada tecnológica: surgiram os primeiros computadores. Eram monitores de tela preta, ligados a um servidor, onde acessávamos apenas um editor de texto.

Até que aconteceu outro salto: a agência recebeu seus primeiros PCs com Windows. Tela colorida. Mouse. Que revolução! Eu, que poucos anos antes escrevia em papel carbono, agora aprendia a usar o Word. Tudo era novo, empolgante e desafiador.

Hoje, com a chegada de tecnologias como o ChatGPT e outras ferramentas de inteligência artificial — tão disruptivas —, eu me lembro daquela Cláudia de anos atrás, descobrindo como usar um mouse e o Windows pela primeira vez.

Várias funções  que desempenhei um dia já não existem mais ou estão em vias de extinção: telefonista, secretária, operadora de telex… e quantas outras surgirão também.

Hoje sou profissional de Recursos Humanos e um dos papéis que mais gosto de fazer é esse: ajudar as pessoas a encontrarem sua vocação profissional. 

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Conte Sua História de São Paulo: as conversas alheias nas linhas do metrô

Cristina Schachtitz
Ouvinte da CBN

Foto de Andre Moura no Pexels.com

O ano era 2007. Eu trabalhava na Vila Olímpia e morava em Santo Amaro. O trajeto de carro para o trabalho não demorava mais que 12 minutos. Até que uma obra, que não leva nada a lugar nenhum, começou a ser construída ao lado do Parque do Povo, em contrapartida a uma construção monumental na região.

Passei a levar 40 minutos para chegar ao trabalho e mais de uma hora para voltar para casa. A obra travou o bairro. Num desses momentos de desespero, tédio e raiva, parada no meio de um mar de carros, olho para o lado e vejo um trem: por que não?

No dia seguinte, estava eu na Linha Esmeralda, ainda da CPTM, saindo da Granja Julieta em direção à estação Vila Olímpia e chegando ao escritório em 8 minutos — e o mesmo na volta. Era eu e eu no trem. A cada partida, um trecho de uma música clássica. No futuro, com a ligação com a Linha Lilás, o trem lotou, o serviço piorou; com a concessão, piorou ainda mais — e a música parou. Liguei e me explicaram que tiraram porque os usuários não gostavam. Eu gostava, mas não fui ouvida.

Foi nessa época que comecei a prestar atenção nas conversas no trem. Confesso que sempre fiz isso em filas de mercado, em restaurantes, mas no trem era diferente. Muitas vezes, eu só ouvia uma parte das histórias.

Ainda sem as facilidades dos smartphones e sem os aplicativos de mensagens, as pessoas falavam ao telefone. Eu ouvia uma parte e imaginava as respostas.

Muita gente falando mal da chefia, reclamando da patroa, fofocando sobre colegas de trabalho. E eu só criando os diálogos na minha cabeça. Gente que dizia que estava numa estação, chegando já, já, mas que ainda estava umas três antes… E eu até torcia para a voz no alto-falante não anunciar a estação e dedurar a pessoa… Também prestava atenção aos diálogos e a outras histórias compartilhadas.

As pessoas esquecem que estão tornando sua vida pública — afinal, estamos num trem! Então veio a ideia de escrever microcontos, tentando reproduzir o que ouvia e inventando a outra parte ou, simplesmente, escrevendo o que vi e ouvi.

Vamos a algumas dessas histórias:

E no trem, ao celular, a amiga aconselha: “Presta atenção, porque daqui a pouco você estará vivendo um triângulo amoroso e vai ser a última a saber. O seu problema é a comodidade”. E assim começa a semana.

A moça lê no trem Orações e Bênçãos. Uma formiga atravessa as páginas. A moça esmaga a formiga. Que Deus a tenha. A formiga.

A moça segue em direção ao Grajaú. Vai a um velório. Morreu a mãe de uma amiga. O pai também já morreu. Sei porque ela contou para um outro passageiro. Ela liga para três pessoas para “convidar” para o tal velório. Sua mãe, inclusive. Ouve três nãos. Pouco prestígio. Dela e da falecida.

Hoje acompanhei a história de uma babá criticando muito, muito a sua patroa para uma amiga, ao celular. Hilário. Sei o nome da patroa, de uma das crianças, do motorista, da cozinheira demitida e da faxineira da casa da praia… E sei também o preço da diária da folguista.

O rapaz liga para a chefe e avisa que está atrasado. Confessa que perdeu a hora, vai chegar logo. Incrível a mágica que transforma 40 minutos em 40 minutinhos.

E sigo a vida, de estação em estação!

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Cristina Schachtitz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.