Conte Sua História de SP: meu primeiro Carnaval de rua, na Vila Esperança

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

 

Imagine a época em que ainda existia Carnaval de rua em São Paulo. Hoje, essa tradição está voltando. Eram cordões, bandinhas com instrumentos rudimentares, confete, serpentina, gente fantasiada e muita alegria. Tudo o que se tinha direito a um bom desfile popular. Nunca eu havia assistido nada parecido e ainda era ao vivo e em cores, como se dizia naquele tempo.

 

Para nós, o Carnaval eram aqueles fatídicos banhos de espuma ou de água das guerrinhas que os moleques faziam entre si e que também jogavam nos poucos carros que passavam pelas ruas do Brás, onde eu morava na minha infância.

 

Meu cunhado tinha uma “parenta” na Vila Esperança, na zona Leste, onde lá sim desfilava um tradicional bloco carnavalesco. Todo ano, ele tentava me carregar para lá, mas a minha mãe não deixava: “Carnaval é confusão, dá briga, tem homem vestido de mulher, uma coisa absurda, não é bom para o menino”.

 

Mas, naquele Carnaval, já com 10 anos, consegui uma deixa para que fosse com ele e com a minha irmã: “Ele já está grandinho, não há problema, mamãe, nós vamos olhá-lo bem”, dizia ela.

 

Imediatamente, fui contar a novidade para todo mundo na rua: “pessoal, eu vou no Carnaval, vou sair fantasiado, vou até aparecer na televisão”. É claro, tudo mentira, e os garotos não acreditaram, mesmo assim ficaram com a maior inveja. Eles também não saiam muito longe, para nada além de ir à Igreja ou à escola, uma ou outra quermesse. Filmes também eram na Paróquia Santa Rita de Cássia, sabe, igual ao Cine Paradiso; só uns anos depois abriu na Avenida Celso Garcia, o Cine Universo. Agora é um prédio da Igreja Universal (combina um pouco com o nome antigo, não?).

 

Na verdade, a questão é que o tal do desfile era na terça-feira, chamada Gorda. Sinceramente não sei o porquê deste apelido.

 

Neste dia a rua da minha casa, devido ao feriado, parecia uma cidade abandonada: ninguém, nenhuma viva alma, nada para fazer, toda a garotada aproveitando para dormir até tarde. Nas casas preparavam-se almoços que seriam regados à cerveja ou vinho e depois o pessoal iria roncar nas poltronas das salas ou nos quartos, como preferissem.

 

Tudo muito calmo, menos eu. É que na noite passada não consegui dormir direito …

 

e havia acordado de mau humor. Imaginem um molequinho de mau humor, nada mais engraçado, não é?

 

“Meu filho, quer mais manteiginha no pão?”
“Nada não.”
“Porque isso benzinho, você sempre come bem de manhãzinha”
“Não enche mãe, estou esquisito hoje”
“Olhe, não responda assim que o papai do céu castiga, hem!”
“Chega disso, só quero café preto e pronto, estou muito nervoso”.

 

Então saí pela rua deserta. Bati na casa dos coleguinhas. Que nada, muitos tinham saído, outros ainda estavam dormindo, nenhum movimento a não ser os visitantes que chegavam com as suas roupas de domingo. Meus outros dois irmãos haviam viajado para o interior, para uma chácara de meu tio. Arre, meus pais, o que eu iria ficar fazendo com eles até a chegada da hora do desfile?

 

Naquela época não gostava de ler. Na TV não tinha programa bom e nem tampouco havia transmissão de desfiles de carnaval. O rádio era exclusividade do meu pai quando estava em casa.

 

“Vai comprar uma meia dúzia de ovos para eu fazer uma omelete.”

 

Lá fui eu na venda, comprei o que minha mãe pediu, voltei para casa. Daí que olhei para o relógio e parecia que ele estava parado, petrificado. A bendita hora não passava.

 

“Mãe, que horas é o desfile lá na Vila Esperança?.”
“Às 3 da tarde, ainda falta muito, são 10 horas ainda”

 

Ficava cada vez mais ansioso, sentia o coração acelerado. Não conseguia me controlar. Não podia imaginar nada, só ficava martelando na minha cabeça aquele Carnaval que não chegava nunca.

 

Saí no quintal e resolvi jogar bola. Pô, que coisa mais chata. E brincar sozinho, poderia? Sim, mas não naquele dia. Minha imaginação parecia bloqueada, branca, opaca, sei lá. Outra vez conferi o horário: 10 e quinze. Súbito pensei que ia enlouquecer. Nunca havia tido isso antes e fiquei com muito medo e afastei rapidamente aquela onda de energia malévola.

 

Bom, podia sair na rua e andar. Fiz isto. Estava com muita ansiedade. Porém ia até o fim da rua e voltava. Nem para isso eu estava criativo. Fiquei assim até a hora do almoço. Então resolvi comer bastante para passar mais o tempo.

 

“Nossa você comeu tanto hem, vai fazer mal, cuidado.”
“Não se preocupe, estou com fome mesmo.”

 

Depois de almoçar, escovei os dentes, tomei banho, me troquei e fiquei prontinho esperando o casal chegar para me levar ao tão esperado evento. Fiz tudo isso devagar, ganhando tempo, e aí com muito receio verifiquei: era 1 e meia  da tarde, faltavam 60 minutos, 1 hora inteirinha para nós sairmos do meu bairro até o local do grande encontro.

 

Passei o período restante contando minuto por minuto até deixar minha casa.

 

Para chegarmos lá, também a hora não passava. Pior. Foi um congestionamento, tudo por causa do excesso de carros e de pessoas nas ruas, o que atrasou bastante a nossa chegada.

 

Ainda mais essa!

 

Chegamos bem depois das 3, nem sei que horas eram, e o desfile já estava no fim, tinha só um carro; e uns músicos; e umas poucas pessoas fantasiadas.

 

Mesmo assim adorei aquele espetáculo: maravilhoso, lindo, deslumbrante. Sabe o que eles cantavam: “O trem das Onze” do Adoniran Barbosa, era a marchinha final do dia.

 

Valha-me Deus, a minha alegria era tanta que até chorei. E ria também.

 

Sinceramente sentia vontade de entrar no meio deles e sair sambando e cantando, mas não podia, porque tinha um cordão de isolamento.

 

Todavia a minha satisfação foi enorme, pena que acabou rápido demais, o meu primeiro Carnaval de verdade.

 

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br .

Conte Sua História de São Paulo: a coleta de lixo no Ipiranga era em carroças puxadas por burros

 

Por Wilson Jesus Thomaz Dutra
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Infância querida em São Paulo!

 

Estamos em 1958. Eu com seis anos, morador em uma pequena rua sem asfalto no bairro do Ipiranga, zona Sul de São Paulo. Recordo que nossas brincadeiras eram de escorregar no barro quando chovia, e isso provocava grandes “gargalhadas” de nossas mães quando viam nossas roupas sujas de barro; subir em goiabeira, ameixeira, pitangueiras e outras árvores frutíferas – saboreávamos aqueles frutos com néctar dos deuses!

 

A lembrança que mais me deixa saudoso é a da coleta do lixo. Era realizada por um carroção puxado a 4 ou 6 burros que pareciam ensinados, já que a qualquer assovio dos homens que recolhiam o lixo, os animais paravam ou andavam. Para nós moleques aquilo era uma festa! Em todas as datas comemorativas como Páscoa, Natal e Ano Novo saíamos correndo atrás daqueles homens para darmos a eles algum dinheirinho reservado por nossas mães em agradecimento pelo trabalho que realizavam.

 

Bem diferente dos dias atuais!

 

Wilson Jesus Thomaz Dutra é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o sabor do bauru no Largo da Santa Ifigênia

 

Por Mário Tobias
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Nasci em 1961, na Zona Norte de São Paulo, na Vila Ede, próximo a Vila Gustavo. Uma família de muitos tios e tias: eu tinha um tio, Manoel, que foi mascate a vida inteira. Ele ia à pé e de ônibus da Vila Gustavo até a Rua 25 de Março comprar armarinhos e outras miudezas para revender nas lojas de bairros e para as costureiras, que eram muitas na época.

 

Várias dessas vezes, ele me levava. E eu, menino de 7 ou 8 anos, ia todo feliz, andar de ônibus e passear pelo centro de São Paulo. Na volta, ele parava num bar no Largo Santa Ifigênia, para comermos um bauru e tomarmos um refrigerante.

 

Quando conto isso, o sabor do lanche e do refrigerante, vêm à minha memória.

 

Mudei-me para o interior quando adulto, mas vinha sempre a São Paulo para reuniões na empresa, que ficava muito próxima do Largo Sta. Ifigênia.

 

Certa vez cheguei ao hotel, já tarde da noite, para uma reunião no dia seguinte, e como estava próximo, fui tomar um lanche no mesmo lugar de tantos anos atrás.

 

Lógico que as lembranças de tão doce período, vieram à tona.

 

Conversei com o dono da lanchonete e contei a história de mais de 40 anos atrás. Foi, então, que ele me disse:

 

Essa lanchonete era do meu avó, passou para o meu pai e eu hoje sou o proprietário. E já ouvi muitas histórias de doces lembranças como a sua.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio e a locução de Mílton Jung. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: a namorada que eu levava ao Playcenter

 

 

Por Humberto Bernardino de Andrade

 

 

 

 

Cheguei à metrópole no fim da década de 1990. O primeiro lugar onde morei foi em Santana, na zona Norte. Nunca havia andado sozinho de metrô. E ao chegar ao terminal do bairro, vindo da rodoviária do Tietê, um amigo, que me recebera em uma república de colegas da minha cidade, me esperava para que eu não me perdesse.

 

 

Quando eu era criança e morava no interior, sempre ouvia os mais velhos dizerem: “─Jamais moraria em São Paulo… aquela loucura, trânsito, violência, poluição…”. Fiquei com aquilo na cabeça. O tempo passou e cá estava eu, recém-saído da faculdade de engenharia, cursada lá no interior.

 

 

Meu primeiro emprego aqui foi em uma obra na Av Luis Carlos Berrini, na zona Oeste: prédios modernos, muita gente bonita. Aquilo me impressionava.

 

 

Cruzava a cidade de ônibus pra trabalhar, pois tinha medo de ir de carro. Só tomei coragem de me arriscar no trânsito quase um ano depois.

 

 

A cidade não era mais da garoa como nos tempos em que fazia excursão ao Playcenter, nos anos de 1980. Era a terra dos temporais, que alagavam tudo castigando a cidade. Minha mãe quando via aquilo na TV nos programas da tarde, ligava preocupada pra saber se eu não tinha ficado sitiado em alguma enchente.

 

 

Apesar daquela resistência com a cidade, provocada pela ideia dos conterrâneos de que “jamais moraria em São Paulo”, uma coisa que sempre me deixava curioso, era saber como seria assistir a um jogo do meu time de coração, ao vivo, num estádio.

 

 

Tomei coragem: ao sair do trabalho, decidi ir ao Pacaembu. Era uma terça-feira à noite. Ao chegar lá, os holofotes estavam acesos, a arquibancada ainda tinha poucas pessoas – o suficiente para ficar com aquela imagem marcada na memória. Assisti, naquela noite, à vitória do Corinthians diante do Juventus, time tradicional da cidade. Foi um a zero. E simbólico para quem naquela altura já estava apaixonado pela cidade.

 

 

Ao mesmo tempo que, na agitação do dia-a-dia, pensava que tudo aquilo era provisório, que logo, logo arrumaria um emprego no interior e voltaria, nas horas de lazer, diante de inúmeras opções, imaginava que não havia como abandonar mais tudo aquilo e retornar.

 

 

Depois de Santana, morei em vários lugares: Vila Mariana, Saúde, Centro, Vila Prudente  … e até andei cometendo infidelidades: morei em Santo André, Osasco e Barueri. Mas sempre trabalhei em São Paulo.

 

 

Hoje estou de volta. E moro na Barra Funda, na zona Oeste, bem próximo do terreno, onde estacionava o ônibus que trazia a mim, minha namorada e meus amigos de adolescência para o Playcenter. O terreno está vazio, em compensação a namorada virou minha esposa.

 

 

É curioso porque nas minhas andanças pela cidade, ouço paulistanos da gema dizerem que “isso aqui é uma loucura, já não aguento mais, trânsito, enchente, violência… quando me aposentar, quero ir morar no litoral ou no interior.”.
 

 

Eu, que já me rendo à paixão pela cidade, como paulistano naturalizado penso logo que “, quando me aposentar, quero mesmo é morar em São Paulo”.
 

 

Humberto Bernardino de Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta história: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: minha irmã foi registrada dia 25 de janeiro por amor à cidade

 

Por Mara Rocha
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

 

Minha história com São Paulo começa antes mesmo de minha família e eu morarmos aqui. Em 1952, meus pais viviam em Presidente Epitácio e só tinham dois filhos. Meu pai vinha a São Paulo comprar tecidos para minha mãe fazer as roupas da casa, dos filhos … ela costurava pra fora, também. Meu pai adorava São Paulo e voltava pra casa todo feliz contando para os amigos o que tinha visto por aqui: falava dos cartazes de filmes, teatro e shows musicais.

 

Em 16 de fevereiro de 1953, nascia minha irmã. Meu pai esperou um ano só para poder registrá-la com a data de 25 de janeiro. Em 1955, foi minha vez de vir ao mundo e meu nome Mara foi em homenagem a atriz de teatro de revista Mara Rubia. Em 1957, nascia outra irmã e o nome foi (completo) Dalva de Oliveira. Dispensa apresentação. Em 1960 nascia o coitado da turma feminina, porque depois dele vieram mais três meninas e formamos o time de nove, mas essas já são paulistanas.

 

Chegamos em São Paulo em 1961, minha mãe ficou encantada com o tamanho da cidade. Fomos morar no bairro Taboão em São Bernado do Campo e a minha rua chama-se São Paulo. O pai era motorista de ônibus na linha São Bernardo – São Paulo, passando pelo Zoológico, Jardim Botânico e, finalizando, na Praça da Árvore onde tinha o Cine Estrela. Nossos finais de semana eram nesses lugares. Adorava passear no Jardim Botânico onde fazíamos piquenique, jogávamos bola, peteca e nos divertíamos comoutros brinquedos da época. Visitámos com frequência também o Zoológico.

 

Minha irmã mais velha Wandy, trabalhava como modelo dos maiôs Cenimar ou Celimar (não lembro ao certo), as mulheres eram esculpidas pela natureza porque tudo era feito a pé ou de bicicleta. Ela foi a primeira a ter carro em casa e isso demorou um bocado. Ela fazia também as feiras do Ibirapuera. E a que eu mais gostava era o Salão da Criança porque brincava muito, e bebia muito iogurte Paulista, no estande onde ela trabalhava.

 

Nas férias íamos de trem para a casa do meu tio em Santa Fé do Sul. Ficava encantada com a Estação da Luz e a viagem de muitas horas passava rápido porque era divertidíssimo dormir nas camas da cabine com o balanço do trem. E durante o dia passeávamos pelos vagões.

 

Só comecei a frequentar o Cine Estrela quando fiquei adolescente (na época: mocinha). Daí foi um passo pra conhecer outros lugares, como o Cine Ipiranga e o Cine Ópera, esses dois no Centro. Ficava até difícil escolher pra onde ir nos finais de semana. Pedalinhos no Parque do Ibirapuera, tardes deliciosas no Museu do Ipiranga, encontro com a galera no Pilequinho, um bar em Moema que fazia deliciosos sucos e batidas de frutas. Sem deixar de frequentar o Jardim Botânico, meu lugar predileto.

 

 
Nossas compras eram feitas no Mappin e adorava ver o ascensorista descrevendo tudo que tinha nos andares. Minha loja predileta chama-se Piter, próxima do Teatro Municipal e o vestido verde água que comprei no crediário, é inesquecível!

 

Tinha 24 anos (1979) quando nos mudamos para Moema, a 50 metros do Shopping Ibirapuera, inaugurado em 1976. Os trilhos do bonde ainda estavam na Avenida Ibirapuera e minha vida não mudou nada porque desde sempre eu fui paulistana de corpo e alma. Casei, tive filho e neta. Passei pra eles tudo isso, o que ficou, claro! Meu filho e minha neta amam parques, piqueniques, bicicleta, patins e, principalmente, amam São Paulo.

 

Mara Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Este texto foi ao ar, em 2013, no CBN SP, mas ainda não havia sido reproduzido aqui no Blog.

Conte Sua História de São Paulo: os banhos no lago do Villa Lobos

 

Por Claudio Menezes

 

 

Descendente de imigrantes portugueses e italianos, minha família quase toda é do Alto da Lapa, na zona Oeste de São Paulo.

 

Meu bisavô ao lado dos filhos e de funcionários – ou de colaboradores, termo que costumam usar nos dias de hoje – participaram do trabalho de construção da Estrada da Boiada. Dizem que a Estrada era o caminho para ligar Santo Amaro a Pinheiros. Hoje, muitos de nós passamos por lá, sem boi, é claro: é a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima.

 

Dentre outras obras importantes que meu avô e sua turma participaram está a Praça Panamericana, aquela enorme e verde rotatória, um marco do Alto de Pinheiros.

 

Na rua em que nossa família morava havia uma feira livre. Isso nos permitia embolsar uns trocados extras. Eu e outros meninos fazíamos carreto para os clientes da feira. Nós também aproveitávamos para pegar os barbantes que serviam para fechar sacos de feijão que eram feitos de estopa. O barbante era usado depois como linha de pipa que soltávamos lá pela região do parque Villa Lobos.

 

O parque ainda não existia. Lá havia lagoas. E, sem saber nadar nem noção do perigo, pegávamos pedaços de isopor para nos refrescar nos dias quentes.

 

Cláudio Menezes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar a sua história aqui na CBN: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 463 anos: minha padaria em Higienópolis

 

Por Paulo Mayr

 

 

Estou em Higienópolis e na minha padaria tem de tudo.

 

O João, homem experiente de uns 70 e poucos anos, já me contou emocionado que mais de uma vez, quando era estudante, havia apenas um ovo na geladeira para o jantar. Formou-se em Direito. Desde sempre, trabalhou. Começou como boy. Quando se formou, já era gerente na área administrativa e não quis voltar à estaca zero no Direito. Aposentou-se como Diretor. Nunca redigiu uma única petição na vida, mas não sai de casa sem o anel vermelho de doutor.

 

O Reinaldo formou-se na Poli. Também se aposentou em alto cargo, mas em empresa pública. Executivo dinâmico de outrora, hoje a primeira, a segunda, a terceira e a milésima impressão que se tem dele é de que vive para polemizar. Seja o assunto que estiver em baila, ele sempre tem uma opinião, a que dê mais margem para discussões intermináveis. Não pense que entro no jogo dele, não: ele diz uma coisa, seja qual for, eu concordo lacônica e monossilabicamente.

 

Os donos da padaria são o pai e dois irmãos. De manhã, o irmão mais velho, um encanto de pessoa, se desdobra em dez. O irmão da tarde chega a ser famoso no bairro: não há um único cliente com quem ele já não tenha se desentendido. O da manhã bate escanteio e corre pra área pra cabecear. A primeira coisa que o da tarde faz ao chegar é tirar uma atendente do balcão e bota ela no Caixa. Ele vai para a calçada acende um cigarro e lá permanece.

 

Com frequência, alguém estaciona ocupando duas vagas. O segurança não tá nem aí. Certamente, imagina que a função dele é evitar um novo 11 de setembro.

 

A Drika, hoje minha amiga, que toda semana janta em casa, é loira, magra, muito bonita, filha de comerciante famoso e rico, bem estabelecido na José Paulino.
Apesar de toda mordomia, prefere ganhar a vida como sacoleira: vende roupas para funcionárias e clientes da padaria, além das balconistas das lojas vizinhas.

 

A figura mais curiosa: um cara que está sempre de óculos escuros e falando ao celular. O assunto, digo, a cifra é sempre a mesma: ou está comprando empresas de alguns milhões de dólares, ou está vendendo empresas de outros milhões de dólares. Eu imaginava que fosse um milionário exótico que, em vez de fechar negócios no escritório, que, certamente, tinha no prédio mais sofisticado da Faria Lima, ficava ali mesmo na padaria tomando decisões de tal envergadura. Pois bem, garantiram-me que nunca há pessoa alguma na outra ponta da linha do celular. Ele está sempre falando sozinho, só para impressionar a plateia.

 

Faça chuva ou faça sol, bato ponto diariamente na padaria. Onde mais me divertiria tanto sem pagar um único centavo de couvert artístico?

 

Paulo Mayr é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar também sua história na cidade: envie o texto para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo 463: as cores dos ônibus que rodam na cidade

 

Por Sérgio Slak

 

 

Nasci na Vila Prudente, há 59 anos, e morei até os sete anos na Vila Ema, tudo na zona Leste. Com o falecimento do meu pai mudamos para a casa dos meus avós em Moema, na zona Oeste. Em frente de casa, tinha o ponto inicial da linha 670 – Moema – Praça da República, da Viação Moema. Eram ônibus nas cores vermelha, verde e branca. Lá perto tinha, também, o ponto inicial da linha 77 Vila Uberabinha-Rodoviária, da Viação Caribe. Eram amarelo, vermelho e branco.

 

Comecei ali meu fascínio pelos ônibus. E o que me encantava é que havia muitas empresas e cada uma com suas cores. Algumas com apenas uma linha. Por exemplo, achava maravilhosos os ônibus da Viação Útil, que faziam a linha Barra Funda – Bosque da Saúde, nas cores azul e cinza. Tinha a imagem de um cachorro atravessando o numero 969.

 

É claro que existiam as empresas com mais linhas de ônibus, como a Bola Branca que tinha as cores branco e vermelho. Não podemos nos esquecer do azul e bege da CMTC. Lá na gestão do prefeito Jânio Quadros, havia os Vermelinhos e os Fofões de dois andares.

 

Adorava olhar aqueles ônibus circulando, numa festa de cores e estilos de pintura.

 

O cenário passou a mudar no fim da década de 1970 quando criaram os consórcios de empresas de ônibus, as menores foram compradas. Na gestão da prefeita Luisa Erundina ocorreu a municipalização e todos os ônibus passaram a ter as cores branca e vermelha. Na de Marta, criaram-se oito consórcios e aí ficaram apenas oito cores em toda a cidade.

 

O transporte público evolui muito. Temos bilhete único, corredores, terminais, veículos articulados, biarticulados, com ar-condicionado e até wi-fi. Mas sinto uma saudade danada daquelas cores rodando por São Paulo.

 

Quando estou em um ponto, fecho os olhos e imagino que o ônibus que está chegando traz a marca da CMTC ou o colorido de algumas das velhas empresas.

 

Sergio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br e conte a sua história da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo 463: a costureira do Brás

 

Por Meire Theodoro

 

 

Nasci no Jaçanã. Em 22 de março. Tenho 40 anos e sou de família humilde: meus pais vieram do Nordeste muito jovens e moravam na cidade vizinha: Guarulhos.

 

Um dos meus primeiros empregos foi no Brás, na rua Monsenhor de Andrade. Era uma fábrica de confecção de lingerie onde se fazia desde o corte do tecido até a embalagem das peças. Trabalhar no Brás, um dos bairros de comércio mais movimentados de São Paulo, era curioso. Gostava de ver aqueles ônibus enormes com placas de todas as partes do Brasil que estacionavam a espera das sacoleiras.

 

Tinha 18 anos e gostava muito de tudo aquilo. Fui admitida como ajudante de produção e para bater o cartão às 7h10 da manhã, acordava às cinco e pegava o busão. Não tinha ainda a estação Tucuruvi do Metrô. Descia no Terminal Rodoviário do Tietê e embarcava no ônibus Museu do Ipiranga.

 

Com o tempo na confecção, aprendi a costurar. Meus pais, separados. Então, eu, uma das irmãs mais velhas, percebi que a vida era cheia de surpresas e responsabilidades. Aos 21 anos, fiz vestibular e com o salário da costura paguei meu curso de pedagogia. Era difícil conciliar mas eu queria muito … Gostava de falar. Percebi já no 2o Grau. Nas aulas de apresentação tirava boas notas e sonhava ser professora.

 

Era uma rotina difícil. Trabalho e faculdade. Saía às cinco da manhã, chegava às 11 da noite. Namoro nem pensar. O tempo passou rapidamente. Leciono há 20 anos na prefeitura, na Educação Infantil e Pós-graduação, em Educação Inclusiva. Sou casada, mamãe de um casal de filhos adolescentes lindos.

 

Moro em Guarulhos, acesso fácil a São Paulo, para onde vou todos os sábados sempre para descobrir algo interessante.Deixo o carro na região da 25 de Março e faço um “tour” por aí.

 

Meire Theodoro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais uma capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP: o prédio

 

Por Suely A. Schraner

 

 

A tarde trazia consigo melancolia de pôr-do-sol. Andara o dia todo.
As têmperas latejando. Britadeira batucando do outro lado da rua.
Demolira planos. Rompera ilusões. Nadara em águas revoltas. Nebulosas da memória. Mistura de vinho com Rivotril, as suas sinapses poéticas.

 

Ávidos edifícios o espreitam.

 

Pele de vidro e frita aves. Caleidoscópio lancinante. Lugarzinho inabitável. Áreas descomunais. A planta letal. A vida por um fio é que dá força para amar. Certificar o nada.

 

O desespero a um passo da felicidade.

 

Deu por si e estava diante dela.

 

“Não esperava te encontrar aqui”. “Ah, bem sabe que minha vida é nos cascos”. “Sei, nos sapatos e na cama”. “Andou chorando?”

 

Abaixa os olhos. “Cisco”.

 

Sinto que gostaria de me beijar. “Diga-me, será que desta vez conseguiremos? “O não, nós já temos. Agora, é tentar o sim”.

 

Passam despercebidos.

 

No andar, começara a sentir-se mal. “Você está doente? “Cisco”. Tá brincando! “Sinta o cheiro”. De morte? “Não amole, é cheiro de felicidade”.

 

Embolados. “Sabia que o corpo fala? Ás vezes faz bem ficar doente”. “É a vida chamando a atenção da gente”. Tem o dinheiro?

 

“Daqui dez dias”. “Dez dias não é possível. Até lá…”

 

Saem.

 

O sol se escondera detrás do prédio.

 

Espelhado e colorido.

 

Caleidoscópio onírico. Na planta ou próprio para morar. A vida alucinada. Certificação AQUA- alta qualidade ambiental. Áreas comuns generosas.

 

A felicidade a um passo do desespero.

 


O predio ou Suely Schraner é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Esta história foi reproduzida no CBN SP há dois anos, porém jamais havia sido publicada no blog. Aproveito o aniversário de São Paulo para compartilhar com você