Conte Sua História de São Paulo: amigos há mais de sessenta anos

 


Por Ivani Dantas
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Nasci em 1951, no bairro de Santa Terezinha, no alto de Santana. Cresci ralando os joelhos e cotovelos nas corridas de pega-pega, de estátua, lenço atrás, pulando corda, em meio a outras brincadeiras de rua e de quintal.

 

Aos amigos de infância se juntaram os amigos do colégio, depois os namorados – hoje maridos. Até o colegial, alguns de nós estudávamos no CEDOM, escola estadual, de referência na época. Um privilégio, uma grande conquista. Tínhamos o melhor ambiente que se poderia desejar, e  para nós, Colégio era sinônimo de diversão.

 

A vida foi passando e a nossa TURMA, sempre unida, se divertia indo ao cinema, teatro, a shows dos maiores nomes da MPB – que frequentávamos sob o clima tenso da ditadura militar. Nós meninas, costumávamos andar abraçadas, cantando paródias de músicas religiosas, marchinhas e outras bobagens. Trocávamos cartas que, vistas anos depois, não tinham lá muito conteúdo, mas falavam da importância que tínhamos umas para as outras – e outros também. Falávamos de nossas fossas, das vivências, do quanto estávamos tristes, felizes, frustrados, inseguros, igualmente; tentando nos conhecer e também ao mundo que se abria à nossa frente. Enfim, aprendendo a crescer.

 

Namoros, paixões, alegrias e tristezas permearam os tempos. Casamentos, filhos, apertos, apelos… e chegamos aos dias de hoje, com um número bem grande de agregados e derivados.

 

Filhos crescidos, até netos crescidos e continuamos amigos, juntos, ainda que por circunstâncias sejam menos freqüentes  os encontros, mas quando ocorrem, têm sempre a intensidade dos velhos tempos. O sabor das festinhas, das viagens que fizemos juntos, das risadas, até hoje nos trazem muitas alegrias.

 

Amigos, compadres, padrinhos de casamento, nos bons e nos outros não tão bons momentos, temos a certeza de que somos um “case”, quase inacreditável de amizade, que começou há mais de sessenta anos e seguiu vida afora, paralelamente. Não temos dúvida de que a nossa TURMA já se tornou uma “instituição”, um mito, uma lenda feita de sílabas: Má, Rô, Su, Rê, Li, Zê, Sé, Lu, Sô, Gu, Cri, e eu, a “Ivan”, Vanzinha ou Vazóca, como cada um, do seu jeito, carinhosamente me chama.

 

Nossas histórias – hilárias – formam um belo exemplar de livro da vida. Se não no papel, com certeza em nossos corações.

 

Ivani Dantas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a contadora de filme

 

Por Susana Menda
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Fui a São Paulo pela primeira vez em julho de 1954 para as comemorações
do 4o. Centenário. Na verdade, detestei e disse que nunca moraria nessa
cidade: “isto e um formigueiro de gente, comparado com a minha outrora
calma Porto Alegre”.

 

Paguei pela boca.

 

Aí há um hiato de muitos anos. Fiquei adulta, namorei um paranaense, até que um dia ele me disse: “vou embora para São Paulo, fui transferido”. Levei um baque, gostava muito dele , mas não sou de me afogar num copo d’agua, tratei de arrumar uma transferência no meu trabalho e tocar para Sampa.

 

Comprei um apartamento numa ruazinha pequena bem próxima a Av. Paulista e … cheguei eu. Telefonei para o trabalho do namorado e escutei a seguinte frase: “foi transferido para o Paraná”. Respirei fundo. Ele se foi, mas eu fico. Fiz todos os programas de um recém-chegado: Vila Madalena, Butantã, Teatro Municipal, Rua Augusta, Pinheiros, Masp, Mooca e o escambau.

 

Nesse ínterim minha irmã, o marido e a filha vêm para São Paulo. Por quê? Minha irmã, jornalista, veio para trabalhar na rádio CBN, dai minha ligação com a rádio .

 

Dia 21 de março de 1981, fui ao Cine Copan ver o “Touro Indomável”, com Robert de Niro. Lá me seguiu um nissei (o outro namorado também era) que me fez um pedido inusitado: “conte o filme para mim, acabo de chegar”. Anos depois, ele emendou: “eu estava no cinema a horas te vi chegar e te segui”.

 

Faz 35 anos que estamos contando filmes um para o outro e os responsáveis são o ex-namorado, aquele que foi para o Paraná, o Cine Copan, e, claro, São Paulo.

 

Susana Menda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história, escreva seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: os sons e sensações da Avenida Paulista

 

 

Por Francisco Wanderley Midei
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte-internauta Francisco Wanderley Midei, que, cego, descreve o passeio ao lado da filha, Daniela, na avenida Paulista:

 

 

 

Sou paulista, da tribo Paulistano Paulista. E urbano. E como paulista que procura o que fazer num domingo de sol antes que a chuva forte chegue, estive na mais paulistana das avenidas, a Paulista.

 

 

Todas as tribos estiveram por lá neste domingo. Movimento de público nas ruas e nos bares. E com policiamento severo. Até o prefeito João Dória Junior apareceu por lá no meio da tarde. Soube por causa da agitação por onde ele passava. Espero que ele não tenha tocado nenhum instrumento.

 

 

Ele pode não ter tocado, mas um cantor mostrou todo o seu desafino, enfrentando a multidão nas cercanias do Parque Trianon. E não se acanhou, tocando até Raul Seixas, que, com certeza, deve ter se mexido no túmulo. Tão desafinado que o cantor cantou até Desafinado.

 

 

Andei pela Avenida em meio à multidão. Estive no Degás, o restaurante do MASP, mas não almocei lá. Era muito caro e um pouco barulhento. Passamos pela FIESP e descobri que lá não tem restaurante e não havia atividades porque estão de férias.

 

 

Paramos, eu e minha filha Daniela, para muitos selfs, inclusive um que mostrava, atrás de nós as bandeiras do Brasil e de São Paulo, a bandeira de treze listas, paulista como eu.

 

 

Para finalizar, fomos ao Conjunto Nacional e tomamos um icecream, assim mesmo, em inglês, porque estávamos no centro econômico do País e não ficaria bem tomar um sorvete de milho verde.

 

 

E como bom “paulista paulistano” voltamos correndo, temendo que a chuva nos impedisse de entrar em casa.

 

 

Foi bom.

 

 

Ouvi barulhos de skates, bicicletas e de cães que latiam aos montes acompanhados de seus donos. Ainda não sei se quem leva o cão é o dono ou o dono é quem leva o cão. Também não quero saber porque não vai ajudar em nada a minha cultura, já que tenho pavor de cachorro, inclusive os humanos.

 

 

Francisco Wanderley Midei é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também a sua história: escreve um texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: desde o meu cortiço no Tremembé

 

Osnir G. Santa Rosa
Ouvinte da rádio CBN

 


 

 

Em 1943, ano em que nasci, sem outra opção, meus pais mudaram para o distante, frio e bucólico bairro do Tremembé. Era um cortiço. Minha mãe, que era a caçula de sua grande família, sempre tratada com carinho, chorava todos os dias. Chorava por estar distante de seus pais, de seus irmãos e seus sobrinhos. E chorava pela situação degradante então vivida.

 

Por muitos anos se comentava nas reuniões dominicais das famílias que eu gostava de ficar pelado e assim comecei a engatinhar na Av Nova Cantareira, uns mil e duzentos metros antes de chegar na famosíssima Fazendinha. Não sei se você sabe, mas na Fazendinha, por décadas e décadas funcionou uma padaria.

 

Morar em cortiço é, simplesmente, horrível. Uma vez minha tia foi nos visitar levando seus filhos, meus primos-irmãos, como se diz. Moravam nas imediações, bem junto a um ribeirão fato que lhes trazia enormes transtornos.

 

Eu e meu irmão subimos nas costas dos primos; eu na do mais velho e ele na do mais novo e fomos circular em volta do cortiço. Pois ambos caíram dentro de um fétido córrego ao tentar pular sobre ele com a gente nas costas. Houve um pânico geral. Depois gargalhadas. Só não riam as duas mães ao verem seus rebentos negros de lama poluída e vermes brancos querendo penetrar na pele.

 

Felizmente, não demorou tanto para meu pai conseguir uma casa nas proximidades. Casa que ficava inserida no meio da mata-atlântica, do lado oposto e perto de onde hoje está o Hospital da Polícia Militar de São Paulo.

 

Ali nós conseguíamos pinhões e jabuticabas. Aqueles no inverno; e estas no começo dos verões. Às vezes, ouvíamos tiros de fuzis vindos do estande da Força Pública. Às vezes, víamos grupos de alunos oficiais fazendo treinamento físico pela Nova Cantareira.

 

Em 1953, portanto dez anos depois de ir para o Tremembé, meus país conseguiram comprar um imóvel no extremo oeste da capital e saímos daquela chácara, onde passei os melhores anos de minha vida.

 

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o meu milagre de Nossa Senhora Aparecida

 

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Por Rubens Salles dos Santos
Ouvinte da rádio CBN

 

Foram quatro dias debaixo de sol, três noites dormindo no mato, mais de 200 quilômetros de intensa caminhada e um chinelo de dedo que não teria sola para nem mais um passo. Estávamos nos primeiros dias de 1971. Enquanto as pessoas ainda tinham esperança em cumprir as promessas de reveillon, eu pensava em pagar uma que eu havia feito três anos antes. E não era uma promessa qualquer, era uma promessa a Nossa Senhora Aparecida. Se eu conseguia andar àquela altura, devia tudo à intercessão dela.

 

Imagine um encanador que tinha certeza de que nasceu para ser jogador de futebol. Era eu. Naquela época, eu morava com minha família no Bixiga, bem no Centrão de São Paulo. Já estava mais enturmado com a italianada que os próprios descendentes que moravam ali. Quem me conhecia nem fazia ideia que, na verdade, eu era filho de português.

 

Fim de semana era um evento a parte. A gente juntava a turma da Bela Vista pra jogar bola, naquele famoso “casado contra solteiro”, em que todo mundo se achava craque. Foi em uma dessas peladas que marquei o gol mais bonito da minha carreira de encanador metido a boleiro. Uma matada no peito na entrada da área, numa virada rápida, num “sem pulo”. O “sem pulo” fez a festa de quem assistia, mas foi o terror para o meu joelho. Caí naquele terrão já sentindo que boa coisa não era. O joelho inchou, a dor surgiu e o hospital era inevitável. Aquele lance, que de habilidoso não tinha nada, estourou meu menisco. Veio remédio e repouso, conseguia andar de novo, mas com dificuldade. A dor não passava.

 

O médico foi categórico: tinha que operar. Eu pensava na cirurgia e já imaginava o médico mexendo na minha perna como eu serrando cano, soldando calha e rosqueando registro. Não bateu medo nem temor, bateu paúra mesmo. Marcou o dia, fui pro hospital e, na hora de internar, resolvi recorrer àquela em quem eu sempre tive fé – desde menino. Juntei as mãos, olhei pro céu e pedi pra Nossa Senhora Aparecida me ajudar a melhorar do joelho, me livrar daquela cirurgia, que se eu curasse iria a pé até (a então) Aparecida do Norte.

 

 

Eu era devoto desde menino. Mas também, desde menino, era teimoso e levado. Saí fugido do hospital, sem o médico me ver, contrariando todas as ordens. Não mais que de repente, a dor passou. Voltei a minha vida normal, subindo em forro, me pendurando em prédios e entrando em esgoto. Nada de dor no joelho. Foi milagre da Mãe.

 

Levei três anos para tomar coragem e cumprir a promessa. Mas, como bom filho de português, pra mim promessa sempre foi dívida. Devo, não nego. Pago quando puder. E eu não tinha desculpas pra não cumprir. Era janeiro de 1971 quando virei pra Josefina, minha mulher, e disse que iria pra Aparecida do Norte. Na ocasião, meu filho Roberto tinha 6 anos e minha filha Sueli só 3 anos. Minha mulher ficou ressabiada, mas sabia que eu ia de qualquer jeito pra lá.

 

Logo a Bela Vista inteira ficou sabendo. Foi quando meu pai, que tinha uma venda no bairro, me falou que o José, que vendia batata na feira do Bixiga  todo fim de semana, também tinha feito promessa. Eu só conhecia ele de vista, nunca tinha conversado. Bati na porta dele, contei minha história e falei: parto no dia 23 de janeiro, do marco zero de São Paulo, da Praça da Sé. Voltei pra casa com a palavra dele de que iria, mas só saberia mesmo no dia. Se ele aparecesse, teria companhia. Se não, eu iria sozinho enfrentar os mais de 200 km.

 

Chegou o dia. Ainda era madrugada e eu já estava de pé. Cheguei cedinho na Praça da Sé, só tinha eu e os pombos. Começou a espera angustiante. Será que o José vai aparecer? Será que vou ter de ir sozinho? Vai que me acontece alguma coisa no caminho. Vai que eu me perco. Vai que… Não, Nossa Senhora está comigo. A fé tinha que ser mais importante que tudo. E foi. Não só pra mim como pro José, que pra minha completa surpresa apareceu. Não perdemos tempo, começamos a caminhada.

 

Fomos totalmente sem preparo, afinal, decidimos de uma hora pra outra. Levamos só uma mochila com dinheiro, água pro dia, um chinelo e toalha. Assim que chegamos na Dutra, percebi que minha sandália não ia aguentar. Não ia demorar pra aparecer bolha no meu pé. E a viagem mal tinha começado. Peguei o chinelo de dedo na mochila e calcei. Não tirei mais. O verão de 1971 castigou a gente. O asfalto parecia um mar de fogo. O sol pelo interior de São Paulo era coisa de louco.

 

Bom, não demorou pra gente achar que aquilo tudo era coisa de louco mesmo. Naquela época, mal tinha acostamento e pra achar posto de gasolina tinha que rodar muitos quilômetros.A água logo acabou e o dinheiro não servia, porque nem tinha onde comprar nada. O jeito foi começar a parar nos casebres que encontrávamos na beira da estrada pra pedir de beber. E foi assim que a gente seguiu. Fazendo as moitas de banheiro, a sombra das árvores de cama, os postos de gasolina de refeitório e as fazendas no caminho de ponto de água.

 

Mal passou o primeiro dia e percebemos que tínhamos de adotar uma estratégia. Do contrário, não chegaríamos nem à metade. Passamos a caminhar de noite e cochilar ao meio-dia, na sombra. E não dava pra parar muito tempo. Era reduzir o passo e as dores vinham. Doía canela, coxa, costas, pescoço, tudo. E o cansado se mesclava com o medo dos carros e dos caminhões. De noite, qualquer sombra que se aproximava era motivo de susto. O temor foi tomando conta da gente, a promessa parecia um fardo pesado demais, muito maior do que podíamos carregar.

 

Quando alcançamos a placa que indicava a metade do caminho, bateu um desespero. José era mais novo que eu, mas já estava esgotado. Dava pra ver nos olhos dele. Ele virou pra mim e disse: “segue com Deus, meu amigo, vai você porque eu não aguento mais”. Naquele momento, confesso que quase sucumbi à tentação de desistir. Foi quando novamente juntei as mãos, olhei para os céus e pensei firme em Nossa Senhora Aparecida. Era isso que nos faltava, a confiança de que a Mãe estava conosco. Não deixei ele parar, peguei pelo braço, puxei e assim seguimos. Na manhã do quarto dia, já avistávamos aquela cidadezinha pequena, mas tão abençoada.

 

Essa basílica que vemos hoje, gigante, ainda não existia. O que havia era a Igreja antiga, que guardava a imagem de barro encontrada no Rio Paraíba do Sul. Quando nos deparamos com a imagem da Mãe… Bom, nem consigo descrever. Foi, sem duvida, o momento mais emocionante em toda a minha vida. Agradecemos, rezamos, assistimos a uma missa e era hora de pegar o ônibus pra voltar.

 

Não tinha celular, não tinha internet, no máximo um orelhão que se achava de vez em nunca. Foram quatro dias sem dar qualquer notícia pra família. Quando cheguei de volta no Bixiga, nem ‘bom dia’ recebi. Afinal, ninguém me reconhecia. Justo eu, que andava pela Treze de Maio e encontrava um conhecido a cada passo. Parecia que tínhamos ficado anos longe. Imagine um cara barbudo, com as roupas sujas e rasgadas, uma sandália destruída, os pés em carne viva, com cara de esgotado. Minha mulher, a Josefina, não sabia se festejava ou se chorava quando me viu. Nem sei quantas horas dormi depois. Nem do José, que depois perdi contato e nunca mais tive notícia.

 

Os anos passaram, os filhos cresceram, saí da Bela Vista, os netos vieram, reduzi o futebol – não na arquibancada, mas no campo – e até parei de beber. Em cada vitória minha, da minha mulher, dos meus filhos e dos meus netos, uma certeza: Nossa Senhora Aparecida está conosco. Hoje, está até tatuada no meu peito.

 

Rubens Salles dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: para comemorar o aniversário do bairro do Limão

 

Mercedes Darós
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Cheguei aqui em São Paulo no ano de 1969, na antiga rodoviária, bem cedo. Tomei um táxi para o bairro do Limão. Para chegar lá, passei pela ponte sobre o rio Tietê. Os terrenos laterais da Marginal eram um charco imenso, ouvia-se os grilos, os sapos e vagalumes, pareciam estrelas.

 

Vim pra cá para trabalhar no Colégio Padre Moye e fiquei até 2015, na maior alegria e realização. Adoro o campo da educação. Servi 23 anos no cargo de direção do colégio, que é de minha congregação religiosa. Todos daqui e arredores me conhecem como a Irmã Mercedes, do Colégio Padre Moye. Sempre abri portas e coração à população e recebi da Câmara Municipal o título de Cidadã Paulistana, que muito me honrou. Ganhei igualmente o Título de Cidadã Limoense.

 

Fui percebendo a falta de identidade dos moradores daqui e retomei a comemoração do aniversário do Limão, que é celebrado no dia 1º de outubro, a fim de criar estima, valorização e agregar as lideranças; pois historicamente, nosso bairro sempre foi considerado o “escoadouro da Zona Norte”, um lugar de passagem. Criamos então, com voluntários, a comissão “Pró Limão”. Assim, com pequenas ações, olhamos para o bem comum de todos. Não temos estatuto nem somos uma associação registrada. Damos presença, solidariedade às agremiações existentes.

 

Nossa Comissão Pró Limão assumiu zelar pela ordem e limpeza da Praça do Largo do Limão, tão descuidada. À noite eu vou, pois moro mais perto, e para não dar muito na vista, vou, tiro o lixo, folhas, galhos e plantamos mais pés de Limão, como árvore símbolo do Bairro, que lhe deu o nome.

 

Por curioso que seja temos aqui o bairro do Limão, o Jardim das Laranjeiras e a Rua das Tangerinas, chácaras cítricas, dos inícios… Mas em contra partida temos a Avenida Nossa Senhora do Ó e a Casa Verde… coitado de nosso bairro, tudo misturado.

 

Quando nosso bairro completou 80 anos foi demais… conseguimos pela primeira vez trazer a Câmara Municipal para fora dos muros do Viaduto Jacareí, com uma sessão solene, no bairro do Limão, no Colégio Padre Moye.
Neste ano, o Limão completa seus 96 anos.

 

Irmã Mercedes Darós é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também histórias da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: na terra em que “benção” é “bom dia”

 

Por Izaura Costa do Prado
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Sou de Paripiranga, estado da Bahia. De lá fui para Aracaju, em Sergipe, mas o grande passo foi vir para  São Paulo, mesmo sem ter, até então, parente algum morando aqui. Eu queria conhecer a cidade sobre a qual tinha lido na cartilha escolar,  onde o personagem paulistano dizia:

 

– Bom dia, titio!

 

Fiquei admirada pois na minha terra, em vez de bom dia titio, dizíamos:

 

– Sua benção, tio!

 

Na década de 1950, a cidade já era agitada e os bondes circulavam cheios de trabalhadores. Assim que cheguei, mesmo sem experiência, consegui emprego como aprendiz de costureira na Rua Prates, região da José Paulino. Trabalhei no mesmo local por 17 anos. Fazia horas extras, economizava tudo o que podia e mesmo sem os benefícios do vale-transporte, cesta básica ou tíquete refeição – na época não existia nada disso – consegui guardar o dinheiro suficiente para dar entrada no imóvel que moro até hoje, no bairro da Casa Verde.

 

Era um terreno com dois cômodos inacabados mas pelo menos era meu canto. Alguns anos depois conheci meu marido, me casei e tenho uma filha que teve a oportunidade que não tive: concluir o ensino superior.

 

Ela diz que a melhor decisão que tomei na vida foi vir para São Paulo, diz ter sido um ato de coragem pois cidade grande pode assustar. É verdade, mas quando a gente é nova nem pensa nisso.

 

Aqui era e ainda é a cidade das realizações para quem se dispõe a trabalhar duro e lutar em busca dos objetivos. Os problemas podem ser grandes mas a cidade é  maior que todos eles.

 

Izaura Costa do Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: quando a italiana descobre que o não é um sim

 

Ariella Segre
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Hoje, lembrei de um episódio que aconteceu comigo há muito tempo, logo que cheguei em São Paulo. Sou italiana e vim para cá há 50 anos. Acreditava que entendia perfeitamente o português, não teria o que temer.

 

Pois é … um dia entrei em uma linda loja na rua Augusta. Não lembro bem o que fui comprar. Mas pedi alguma coisa. A princípio, o vendedor meu ouviu com a máxima atenção. E assim que encerrei o pedido, ele disse: – pois, não! Virou as costas e foi embora para o interior da loja. Sem entender aquela reação e suas palavras, fiquei muito chateada e decidi fazer o mesmo, só que no sentido contrário. Virei as costas e fui-me embora.

 

De repente, o vendedor ressurgiu ofegante. E foi me alcançar quando eu já estava na calçada. Nas mãos, ele carregava o produto que eu havia pedido. Entendendo menos ainda, perguntei a ele por que afinal ele havia me respondido com um “não” tão seco, se tinha o produto a oferecer. Foi então, graças a explicação do vendedor, que descobri que no Brasil “pois não”não era não, era sim …

 

Ariella Segre é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar a sua história, também. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o dia em que recebi a Rainha Elizabeth no meu bairro

 

Por Elizabeth Montero
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era muito pequena e esta história que vou contar hoje faz parte de um passado distante. Saí da Aclimação para morar perto do Aeroporto de Congonhas.

 

Tinha muito medo do novo, mas não sabia que descobriria um outro mundo. Acordava no meio da madrugada com um barulho de um super trovão: o avião aterrissando! Era uma novidade para mim.

 

Ali onde morava, ao voltar da escola, encontrava pelo caminho artistas e pedia autógrafos em um caderninho que desapareceu, assim como o estúdio da Record.

 

Mas o melhor presente foi viver, em 1968, e saber que eu tinha o nome da Rainha da Inglaterra. Sim, lá estava eu pequenina na avenida Rubem Berta balançando as bandeirinhas para a Rainha desfilar. Naquele dia eu me senti feliz de morar ali.

 

Hoje tenho 58 anos, mas esta memória ainda é bem vívida.

 

Elizabeth Montero é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o dia em que Chico Buarque recebeu meu cravo branco

 

Maria Antônia Vargas de Faria
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Vinda de Socorro, estância hidromineral do Estado de São Paulo, de ônibus, sozinha, a convite das três irmãs mais velhas que já residiam na capital,  eu aos 13 anos estava mais feliz do que nunca, na expectativa de assistir a um show do meu grande ídolo Chico Buarque.

 

No show estariam todos os expoentes da Música Popular Brasileira daquela época, ano de 1967, e seria realizado no velho Teatro Paramount, na Rua Brigadeiro Luiz Antonio, que depois virou Teatro Abril e hoje é Teatro Renault.

 

Fomos de ônibus do pensionato onde elas moravam, no Bixiga, até o Largo São Francisco, onde havia uma floricultura enorme chamada Dierberger, em que uma das minhas irmãs comprou-me um cravo branco, dizendo: “quem sabe você oferece esse cravo ao Chico”.

 

Elas eram universitárias e para minha sorte bastante antenadas com a então efervescente MPB. Do Largo São Francisco até o teatro, fomos caminhando. 

 

Vale aqui um parêntese: meu encantamento por Chico Buarque já vinha desde os 11 anos quando o ouvi no rádio cantando ‘Olê olá’. Daí em diante, só foi crescendo a minha admiração por ele. E eu era a única fã de Chico Buarque no meio das amigas. Todas só queriam saber da turma da Jovem Guarda.

 

Ao chegar ao teatro, meu coração pulava e no início do show, já disparava. E vieram os outros cantores: Edu Lobo, MPB-4, Elis Regina, Elisete Cardoso, Nara Leão, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Márcia, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, até que chegou a vez do Chico. Ele foi o último. Imaginem o meu deslumbramento. Estava em completo êxtase.

 

Chico cantou “A Rita” e “Pedro Pedreiro”. O público aplaudia muito. Nessa hora eu parei de bater palmas, me levantei e atirei, da sétima fila em que estávamos sentadas, o cravo pra ele. O cravo caiu na sua frente. Ele se abaixou e o pegou. Eu gritava: “Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo! Ele pegou meu cravo!”

 

As pessoas que estavam por ali riam de mim, de tamanha tietagem.

 

Depois que Chico Buarque cantou, voltaram todos os artistas para o palco para receber os aplausos finais de despedida e agradecimento e o Chico Buarque, sempre com o meu cravo na mão. Até fecharem as cortinas.

 

Na minha ilusão adolescente, eu respondia: “tomara que seja pra mãe dele: Dona Maria Amélia”.
 

 

Maria Antonio Vargas de Faria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.