Conte Sua História de São Paulo: criei meu próprio podcast

Vinicius Debian Guimarães

Ouvinte da CBN

Foto Tommy Lopes, Pexel


Vocês fazem parte do meu dia a dia. Enquanto pregavam que o rádio acabaria, sempre acreditei na sua força. O encanto do rádio é incrível, e o digital aumentou seu alcance e potencial. Escuto a CBN não apenas no carro. Escuto no trabalho, no meu notebook, nas caminhadas, no meu celular. 

Trabalho com tecnologia e marketing digital. E apesar de toda fatalidade dessa pandemia, a demanda pelo serviço que presto aumentou. Foi nesse período também que decidi aceitar aquilo que sempre foi o meu propósito.

Depois de tanto recuar e remar contra o que eu acreditava, abracei de vez meu propósito de vida. Repaginei completamente minha vida profissional, abri mão de contas e de trabalhos que estava realizando e resolvi que, mais do que nunca, faria a diferença na vida das pessoas.

Passei a produzir conteúdos. E dentre os projetos que mais gosto… adivinhem?

Uma espécie de rádio, onde posso de certa forma homenagear o Mílton, a Tati, a Cássia e figuras importantes do mundo do rádio. Crie o meu próprio canal de podcast em que convido as pessoas a fazerem parte do futuro, no qual conto histórias e disseco estudos com o objetivo de ajudar as outras pessoas a enfrentarem este mundo novo que se intensificou com  a Covid-19



Ouça aqui o podcast Faça Parte do Futuro, criado pelo Vinícius

Vinicius Debian Guimarães é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjungcom.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a editora de livro que se transformou em apresentadora de live

May Parreira

Ouvinte da CBN

foto arquivo pessoal

Se alguém me dissesse, em abril de 2020, que eu faria monólogos ou entrevistas ao vivo na internet, eu responderia com uma gargalhada, que não dou faz tempo. Sempre quis estar a par do mundo digital, pelo menos o suficiente para acompanhar os netos, mas vencer a inibição das câmeras, ah, isso era impossível.  Só que não. 

Temos uma editora — a Ofício das Palavras —, e no fim de 2019 percebemos a necessidade de um incentivo, algo que nos fizesse sair da mesmice, da acomodação. Precisávamos inventar alguma coisa que chamasse novos talentos para nossos livros e oficinas. Nos inscrevemos  numa mentoria de Marketing Digital. Aprendemos como postar, quando, quantas vezes. E o ano começou com bastante trabalho, nosso trabalho. E começou a dar resultados. Mais pessoas engajadas, mais visitas ao site. 

Resolvi que daria as caras na rede todos os dias sob o risco de não ter ninguém do outro lado. Estranha sensação essa. Você olhar para uma espelho e falar sozinha, ser sua própria interlocutora, um misto de narciso e vergonha alheia.

As pessoas que vivem de selfies já foram bastante estudadas pela psicologia. Nada me resta dizer. Mas se tem de ser, que seja. Vamos com a cara e coragem.

Um dia, chamei uma amiga para entrar ao vivo. Ela estava na praia. Tinha acabado de sair do mar. No susto, topou! Conversamos como se estivéssemos no terraço de sua casa. Dia seguinte, outra amiga, e outra, e outra. 

Foi a força necessária para saber que sim, eu, May Parreira e Ferreira, paulista, 68 anos, quatro netos, três gatas e um pastor alemão, posso fazer ao vivo e em cores. E as presenças são sempre pra lá de especiais. Continuo não gostando de me assistir. Mas está tão gostoso receber os convidados. Tem sido tão animador, tenho me sentido tão bem acompanhada, que só posso agradecer. 

Um projeto, é tudo que precisamos na vida.

O que nos falta de contato físico está sendo compensado pela alegria, companheirismo e empatia entre todos os que vêm conversar ou participar. A espécie humana só chegou até aqui, só sobrevivemos, porque nos unimos. Foi por sermos gregários que conseguimos nos desenvolver. Foi o grupo em volta da fogueira que nos levou à roda e à eletricidade. A contação de histórias, boca a boca, virou ebook. Com amor e empatia. 

May Parreira e Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulos. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: em dois meses de vida, a quarentena

Juliana Marchettis

Ouvinte da CBN

Par de pés de bebê sobre a colcha vermelha
Foto de Designecologist no Pexels

Minha história começa em 21 de janeiro de 2020. Na maternidade da Vila Mariana, bairro charmoso, situado na zona sul de São Paulo. Arborizado, com muitas opções de lazer para a toda família. Não entendi bem o que acontecia. Depois de nove meses envolvo em líquidos e fluidos, em temperatura agradável, o espaço já não era suficiente. Era hora de partir. E fui convidado a deixar aquele local agradabilíssimo para iniciar nova fase na vida.

Algum esforço depois, lá estava nos braços da mamãe, acalentado no seio dela e rodeado de pessoas uniformizadas —- soube que eram médicos e enfermeiros. Os primeiros dias foram repletos de novas experiências, visitas, exames … até iniciar nova partida: para a casa, na zona leste da cidade.

Vergueiro, Juntas Provisórias, avenida do Estado. Trânsito intenso até São Matheus. Na voz da mamãe, a narração por onde passávamos: “aqui é o parque”, “ali é o shopping”, “tem espaço cultural, ali na frente”. Não demorou muitos dias para iniciar outra viagem: agora de São Mateus para Água Branca. Era lá que mamãe me levava na barriga para as consultas com o pediatra, por isso ouvir o som do Parque da Água Branca parecia familiar.

Duraram pouco essas viagens: em dois meses, tudo mudou drasticamente. Ninguém mais visitava ninguém, ninguém mais era visitado por mim. Meu espaço limitou-se aos quatro cômodos da casa onde viviam papai e mamãe. 

Era a quarentena em vigor.

Foi então que descobri outro mundo: tios, tias, primas e avós que antes me abraçavam e apertavam dentro de casa, surgiram na tela eletrônica. E a tecnologia se tornou minha aliada. Foi através dela, que meus avós assistiram ao meu desenvolvimento, dia após dia. 

Demoraram alguns meses até as portas se abrirem novamente. Eram passeios curtos, no carrinho, em volta do quarteirão. Suficientes para entender que havia muito a ser explorado. Apresentaram-me à natureza, mesmo que nas raras árvores floridas do Jardim Santa Adélia. Assustei-me e me diverti com cães, de diversos tamanhos e cores. Assisti à passagem de ônibus, carros, motos e caminhões. 

Dia desses, papai e mamãe me permitiram uma aventura distante: passear no Parque Vila Lobos e no Jardim Botânico, enquanto faziam planos para quando a pandemia passar. Eles sabem que vai passar.

Meu nome é Luigi Hiroki e eu tenho 1 ano de idade.

Luigi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi escrito pela mamãe Juliana. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei minha antiga professora no Facebook e dancei … foi mágico!

Juliana Malik

Ouvinte da CBN

Foto: Pexel

Dançar sempre fez parte da minha vida … Melhor, sempre não. Parei de dançar quando me tornei mãe. A maternidade sempre foi um sonho e sou uma mãe feliz, mas é inegável que a agenda de uma mãe tem menos tempo. Cresci em São Paulo e quando criança, dancei balé clássico. Nos anos de 1980, dancei break. Lembra? Era moda. Fiz até um comercial de TV com meus tênis quadriculados como a época exigia. 

De São Paulo fui para Jerusalém, onde vivi por vários anos e lá, também, fiz parte de um grupo de dança. Depois morei em Paris e me juntei à comunidade latino-americana. Fiz amizades com dominicanos e colombianos quando me encantei pelos ritmos caribenhos. 

Fui morar em Londres onde fiz meu mestrado. Um dia, saindo da estação King’s Cross, vi um anúncio da BBC de que precisavam de dançarinos de salsa para uma novela. Lá fui eu para o casting e fui selecionada! Foi um dia apenas de gravação, era um capítulo de uma novela que se passava em Havana. Uma experiência interessante e muito diferente da minha rotina de estudante de economia. 

De volta ao Brasil, em 2005, encontrei uma escola de dança com uma professora incrível! Foram três anos dançando com ela até que vieram meus filhos. Dois meninos: de 9 e 11 anos. Parei de dançar e, confesso, nem dei conta do quando me fazia falta esta arte. Até que 2020 chegou. Com isolamento, quarenta. E vida remota na tela do computador. Em um passeio pelo Facebook, encontrei o perfil de minha antiga professora. Descobri que ela estava dando aula pelo Zoom. 

“Será que consigo fazer?” 

“Aqui em casa?”.

“Com meus filhos fazendo barulho?”

“Uhhh. Sei não”

Tomei coragem, falei com ela, marquei uma aula, afastei os móveis, vesti roupa confortável, conectei o Zoom. … e foi mágico. Voltei no tempo. De repente, não estava mais na sala da minha casa. Recuperei aquela sensação que a dança sempre me ofereceu, a qual nem lembrava o quando me fazia falta aquela antiga arte na qual nos expressamos sem palavras, ue une a todos em uma linguagem universal —  um esperanto de nossos primórdios. 

Juliana Malik, a dançarina, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: de véu, grinalda e flor de laranjeira

Ivani Dantas 

Ouvinte da CBN

Das lembranças que trago da infância quase nada se parece com os dias de hoje. Foi um tempo tão transformador que me parece razoável contá-lo no formato “ Era uma vez!…“.

Quando os códigos morais e éticos valiam igualmente para os mais e para os menos abastados, pessoas circulavam com a mesma elegância e dignidade pelas ruas, bondes e pelas largas avenidas de São Paulo. O trânsito de automóveis era de se contar nos dedos.  A vida corria lenta e os acontecimentos eram muito mais esmiuçados, o que muitas vezes era mesmo cuidar da vida alheia. 

As  Marocas (personagem fofoqueira das tirinhas de jornal), tinham um “cuidado especial” com as jovens casadoiras! O estado civil era notado não só pela aliança brilhando na mão esquerda, mas também pelas roupas, de colorido mais sutil, e comportamento mais contido.

Moças subiam ao altar de véu e grinalda, conduzidas, até a igreja, por um carro, decorado com rendas e rococós (corríamos ao portão para ver passar).  E, chegavam o altar, pelas mãos do pai, feliz ao som da marcha nupcial. A noiva, vestida de branco – pureza, véu, grinalda e flor de laranjeira.

Outros tempos! Os namoros e noivados eram vigiados pela família e… vizinhos. Casar uma filha era um bem disfarçado alívio! Teria, agora, um marido que dela cuidaria “para sempre”. 

O bairro, a paróquia, toda a vizinhança se punha a contar os meses que levaria para surgir o rebento… que algumas vezes chegava “prematuro”, mas muito parrudo…

Tudo tão distante, mas as recordações permanecem… 

Pois é,

Era uma vez…

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Ivani Dantas é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.  Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o Natal com os primos da cidade

Por Marcos Horta

Ouvinte da CBN

 

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Minha mãe e seus dez irmãos são de Juiz de Fora, Minas Gerais. Aos poucos, cinco deles vieram para São Paulo em busca de um futuro melhor. Ela permaneceu lá e quando nasci, dois já haviam falecido. Assim, em Juiz de Fora ficaram ela e mais dois. Um deles solteiro e um pouco afastado da família; outro com esposa e dois filhos, com os quais convivíamos intensamente. Meu pai faleceu quando eu tinha três anos; e depois de um tempo minha mãe, que já sentia muita falta dos outros irmãos e irmãs, começou a passar os natais em São Paulo. 

Assim, a cada ano, víamos a família crescer. Uma irmã e um irmão tiveram cinco filhos cada um e outro teve duas filhas. A esposa de outro irmão falecido, em Juiz de Fora, veio para São Paulo também, com mais três filhos. Isso significava, a partir de um determinado ano, encontros entre 16 primos com idades muito próximas. Somando-se a eles três casais de tios, pais, mais duas tias solteiras —- e sempre outros primos e primas dos meus primos e seus pais —  que apareciam durante a noite de Natal, nunca tínhamos menos de 30 pessoas reunidas na casa de uma das irmãs da minha mãe.

Ela morava em um vilinha de cinco sobrados, travessa da rua Leandro Dupret, na Vila Clementino. Por esse momento eu esperava a eternidade de um ano, acrescida de mais alguns anos pela duração de oito horas e meia da viagem de ônibus entre Juiz de Fora e São Paulo. Mas eu sabia que valia a pena desde a chegada na rodoviária Júlio Prestes e seu telhado de acrílico colorido, passando pelo caminho para a casa da tia onde seria o Natal. Eu encantado com as luzes da cidade, até quando os tios nos levavam à rodoviária e lá acenavam pra nossa partida. 

Mas o Natal! Ah o Natal! 

Casa devidamente decorada com uma árvore enorme e linda esperando pelos presentes que seriam entregues pelo Papai Noel. Numa estratégia muito bem montada, os tios chegavam com sacolas cujos conteúdos nem os primos que vinham com eles sabiam. Depois que todos estavam lá, uma das tias ficava com as crianças, que subiam para os quartos para dormir. Os outros saíam para  a Missa do Galo, na época à meia-noite. Assim, o Papai Noel poderia entrar. Aceitávamos ir para cama. Dormir, era difícil. Eram mais de 15 crianças, cada uma com sua ansiedade, fora as risadinhas e cochichos. 

Quando os parentes voltavam da missa, éramos chamados e, ao descer as escadas, os olhinhos de cada um iluminavam a sala de tanto brilho diante da árvore rodeada de presentes. Antes de abri-los, tínhamos de cantar Noite Feliz e participar da ceia —- o que durava duas eternidades. Com tudo isso, fica fácil imaginar a alegria e o clima de união que pairava no ar inebriado de amor e embalado pelo som do violão e das músicas cantadas por tios e primos.

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Conte Sua História de São Paulo: da locomotiva à Academia, minhas lembranças da cidade

Por José Antonio Braz Sola 

Ouvinte da CBN

 

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Caminho diariamente aqui no Parque do Ibirapuera desde que me aposentei. Estou agora tomando água de coco em frente ao Pavilhão da Bienal. Isso me faz lembrar  de que foi aqui que começou a minha relação com o parque-símbolo de São Paulo. Isso foi em outubro de 1961, quando eu tinha seis anos de idade e minha irmã Lu, três. Fomos conhecer a sensação da época, que causava ansiedade e frisson na criançada  paulistana:  o 1º Salão da Criança!

Tomado pela emoção e recuando no tempo, começo a recordar coisas que vivi na minha querida e amada São Paulo. Meus pais, embora fossem pessoas simples — papai era comerciário e a mamãe, dona de casa —- esforçavam-se para nos mostrar os pontos turísticos e históricos da  nossa cidade .

Foi assim que nos levaram à Estação da Luz, com sua linda arquitetura, onde ficamos extasiados com as  locomotivas, por suas dimensões enormes e ruídos ensurdecedores provocados pelas máquinas em funcionamento.

Também fomos apresentados, um pouco depois, à Catedral Metropolitana de São Paulo, na Praça da Sé; ao Mosteiro de São Bento; e à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde, nunca eu poderia imaginar, me formaria advogado anos depois.

Quando já era recém-alfabetizado, tinha sete anos, lembro-me com satisfação de conseguir ler, sem errar e em voz alta para meus pais, as últimas notícias que apareciam rapidamente  no letreiro luminoso instalado na fachada da  sede do jornal “O Estado de São Paulo”, ali na Rua Major Quedinho, no Centro.

Conheci o estádio  da cidade nos anos de 1960, o maravilhoso e ainda hoje charmoso  Pacaembu. De tanto pedir, papai me levou para assistir ao time que eu já amava e pelo qual chorava nas derrotas, o Palmeiras. Ganhamos de 3 a 0 do Noroeste e nos sagramos “Campeão Paulista de 1963”, com um time que tinha Ademir da Guia, Dudu, Djalma Santos, Djalma Dias, Julinho Botelho e Servílio,

Paulistano autêntico que era, tive que conhecer também a Rua Augusta, famosa pelos seus bares, lanchonetes e lojas da moda —- embora eu e a minha irmã Lu a tenhamos percorrido de ônibus elétrico e a pé, pelas mãos de nossos pais, e não a 120  Km por hora, como dizia a música de sucesso da época que tocava nas rádios sem parar.

Não dá para esquecer, claro, das férias de julho na casa de meus primos Tica, Tico e Danilo, no Jardim São Paulo, onde hoje funciona a Estação Ayrton Senna do Metrô. Naqueles tempos, havia muitos terrenos baldios e parecia que estávamos numa pacata cidade do interior, o que nos possibilitava brincar de tudo quanto era jeito e sem sermos importunados por carros e ônibus —- bem diferente do que eu estava acostumado no bairro de Pinheiros, onde morávamos.

De volta ao presente …. lá se foi a última gota da minha água de coco. Retomo a caminhada matinal interrompida por minhas memórias a tempo de lembrar do poema Tristura de Mário de Andrade que começa com um “São Paulo, minha noiva” …. e eu me atrevo a completar: “Minha noiva, minha vida”.

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é da Débora Gonçalves. Escreva também as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: pesquei lambari na praça 14 Bis, na Bela Vista

De Gabriel Whitaker

Ouvinte da CBN

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Morei desde meu nascimento até me casar, em 1972, na Rua Aracuã — travessa da Avanhandava, na Bela Vista — que foi o primeiro loteamento da Companhia City.  Bem ordenado e, até então, um lugar muito tranquilo.

Tinha muitos amigos na vizinhança —- o Roberto, o Horacinho, a Luiza … jogávamos bola na rua, fazendo as portas de garagem de gol, o que enfurecia uma das moradoras, quando o gol  era convertido. Fazia um barulho danado, pois a porta era destas de metal. Correria para todo lado!

No fim dos anos 1950, iniciou-se a construção de um grande edifício na Rua Paim, que, pelas profundas estacas instaladas para sua fundação, fez subir o lençol freático, que transformou um terreno na Praça 14 Bis em pequeno lago. Tempos depois, descobrimos que havia aparecido lambaris e guarús, que pescávamos com puçás, molhando toda a roupa e fazendo o desespero de nossas mães.

Um pouco adiante dessa praça, havia um avião, da esquadrilha “Senta a Pua” da FAB, num monumento comemorativo da participação do Brasil na II Guerra Mundial. Mais adiante, na entrada do túnel da 9 de julho, nas fontes ali existentes, soltávamos barquinhos e pequenos veleiros, que às vezes ficavam presos nos canos dos chafarizes, nos obrigando a entrar na água para recuperá-los.

A farra maior era na manhã do “9 de julho”, quando acordávamos com o som de clarins, anunciando o começo das paradas comemorativas da Revolução Constitucionalista. Corríamos para a avenida e assistíamos extasiados, sentados nas sarjetas, à passagem dos soldados, canhões e tanques de guerra. Era comum levarmos sustos com os cavalos da polícia montada, que escorregavam do asfalto, empinavam e atrapalhavam o seguimento do desfile.

Bons tempos aqueles, em que nós crianças brincávamos na rua com segurança e tranquilidade.

Gabriel Whitaker é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Para contar a sua história da cidade, escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Jacarandá da Bahia na sala de casa, no Cambuci

Adalberto Pedromônico

Ouvinte da CBN

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Estávamos por volta de 1958. Eu aos 13 anos, meus irmãos, todos os seis, mais velhos. Morávamos na Rua Backer, 361, no Cambuci, num sobrado de três andares, que meu pai, o bem humorado e popular Migué, alugara, aproveitando uma boa fase. Ele já não residia com a família, pois encontrara uma cabrocha mais alinhada aos seus apetites. 

Apesar da separação, certo dia, trouxe um presente para a família: um jogo de sala de jantar com mesa, oito cadeiras, buffet e cristaleira. Peças de marcenaria dignas de figurar em uma sala de gente rica — coisa que não éramos. Todo orgulhoso, Migué fez as apresentações, frisando tratarem-se de móveis construídos em Jacaranda da Bahia. Não me era compreensível todo aquele orgulho, uma vez que faltava mesmo era o que por em cima da mesa. Sempre recomendava os devidos cuidados com os móveis.

Já desde 1956, meu irmão Angelo, o Lilo, juntara-se a amigos do bairro, com o propósito de criarem um grupo de teatro amador que pudesse preencher essa lacuna que se sentia na comunidade. Conhecíamos vários grupos da Mooca, do Brás, do Ipiranga, de Santana … do Cambuci não se tinha notícia. Além de dispor de palcos em pequenos salões paroquiais, clubes, São Paulo exibia um número grande de teatros, entre eles o João Caetano, o Paulo Eiró e o Arthur Azevedo. Destacava-se o Teatro São Paulo, na Liberdade, beirando a rua da Glória, hoje ocupado pela Av. 23 de Maio.

Estávamos ensaiando uma peça de Amaral Gurgel, o drama “Os Transviados”, que exigia um grande esmero na montagem cênica e tínhamos reservado o Teatro São Paulo para a estreia. A ação se passava em dois ambientes, um tribunal do júri, e o salão principal da residência da família. Na semana da estreia, conseguimos montar o tribunal e parte da sala: faltavam algumas peças fundamentais como a mesa de jantar, buffet e cristaleira.

A única solução visível era transferir o Jacaranda da Bahia para o teatro, tendo o cuidado de obter a concordância de Dona Angelina, minha mãe. Claro que estávamos apostando que papai não viesse naquele domingo. Mas, veio. Como tirar os móveis sem que ele visse? Convidei-o a ir até a cozinha para me ajudar a consertar um velho relógio Patec Corona que pertencera ao pai dele. E eu havia ganhado de presente.

Enquanto representava minha cena na cozinha, meu irmão e amigos retiravam a mobília da sala e a carregavam em um Chevrolet. Dali zarparam para o teatro. Passada meia hora, Patec vistoriado, Migué saiu da cozinha e se deparou com a sala vazia.  Senti ímpetos de me esconder em algum buraco que não achei e só fiquei observando meu pai trocando de cor várias vezes, feito um lagarto de São Roque. Ainda tentei uma desculpa, mas sem sucesso.

Tudo o que me ocorreu, foi sair em disparada até a Rua da Independência e pegar um bonde rumo à Praça João Mendes, descendo às portas do Teatro São Paulo, a poucas horas da estreia do espetáculo salvo pelo seu contra-regra: eu ….

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.