Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a árvore de Natal da estação de ferro Sorocabana

 

Por Evelyn Bighetti
Ouvinte da CBN

 

 

Morei no bairro da Penha por muitos anos. Eram duas casas. Na da frente, moravam meus pais, eu e meu irmão. Na dos fundos, meus avós, pais do meu pai. Na lateral das casas, tinha um jardim muito florido, um galinheiro, algumas árvores frutíferas e um corredor comprido e largo.

 

De tempos em tempos, meu pai nos levava, eu e meu irmão, para passear no Jardim da Luz. Um lugar lindo, com chafariz, peixes no lago, muitas árvores, bancos e mesas para fazer piquenique. Lá perto ficava a Estação de Ferro Sorocabana, hoje conhecida como Estação Júlio Prestes. Na época do Natal, bem na entrada da estação, era montada uma árvore muito linda, repleta de bolas coloridas, enfeites imitando neve e pisca-pisca. Era tão alta que alcançava o teto. Meu pai sempre nos levava lá para vê-la. Para mim, ela era enorme e linda.

 

 
Perto da Estação de Ferro Sorocabana ficava o principal Terminal Rodoviário da Luz, o único da cidade de São Paulo naquela época. Quando meu pai resolvia e ir para o litoral, ele comprava só duas passagens de ônibus. Uma para ele e a outra para minha mãe, sobrando o colo deles para mim e meu irmão — um desconforto total.

 

Atualmente, perto desses lugares, foi construído o SESC Bom Retiro, onde duas vezes por semana faço aulas de natação. Para chegar até lá, passo próximo do Jardim da Luz, da extinta Estação de Ferro Sorocabana e dos escombros do Terminal Rodoviário da Luz. Fico muito triste com o que restou de toda aquela região, hoje numa decadência total. As ruas estão deploráveis, com lixo em toda parte.Roupas jogadas pelas ruas. A rodoviária foi demolida, talvez por tantas invasões de usuários de crack — esses farrapos humanos, jogados pelas ruas, escondidos em tendas para ninguém vê-los fumar o cachimbo.

 

A Estação de Ferro não tem mais aquele glamour, está meio abandonada. Os trens que partiam de lá para vários municípios de São Paulo só vão, agora, até a Barra Funda. 

 

Só não levaram as minhas boas lembranças da cidade.

 

Evelyn Bighetti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Para participar deste quadro, envie seu para contesuahistoria@cbn.com.br

 
 
 

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a travessia na ponte de canos para nadar no lago da “Cidade Universitária”

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da CBN

eff3bbf7-905e-472b-a25a-6c8e65d97094.jpg.640x360_q75_box-152,0,899,420_crop_detail

 

 

Hoje, levando minha esposa para fazer um exame com o médico que a operou há 15 dias, colocando uma prótese na cabeça do fêmur, atravessei a ponte que sai da Praça Panamericana e vai para a Rua Alvarenga. Reparem quando passarem nesta ponte, neste sentido, do lado esquerdo, sobre o Rio Pinheiros: existe uma outra ponte, somente para suportar canos enormes, penso eu que de água potável.

 

Quando eu era criança, hoje tenho 81 anos, só existia aquela ponte, não existia esta que atravessei hoje. Eu morava em Pinheiros e do lado de lá, do lado do Butantã, onde hoje é a Cidade Universitária, existia uma lagoa, penso eu que era no lugar onde está a raia olímpica da USP, não tenho certeza, mas era por ali e o lugar era conhecido como Cachoeirinha.

 

Era costume das crianças da nossa vizinhança, ou como diziam os vizinhos, os moleques, irem nadar na Cachoeirinha. Era costume mas nossos pais proibiam. E por isso íamos escondidos. Meu irmão Mário era, e é, cinco anos mais velho do que eu. Penso que ele tinha 12 e eu sete anos de idade. Eu queria ir também sempre que os ouvia combinando de nadar lá. Mas eu morria de medo para atravessar por cima dos canos daquela ponte e talvez por isso ou porque era realmente perigoso ele nunca queria me levar.

 

Criança que eu era, não sabia que é muito feio fazer chantagem, e então eu fazia: “ou me leva ou conto pra mãe que você foi nadar escondido”. E ele me levava. Coitado, pagava do mesmo jeito porque nadávamos de cueca, que eram brancas, antes de nadar, e chegavam em casa cor de barro. O castigo vinha da mesma forma, mas eu conseguia ir nadar na cachoeirinha.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na porta do Mappin, o encontro dos jovens negros da cidade

 


Por Antonio Carlos Arruda
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 66 anos. Sou paulistano da Vila Guarani, no Jabaquara. Negro, advogado formado pela PUC. Quero contar um fenômeno da década de 1970: o encontro da juventude negra, toda sexta-feira, na porta do Mappin, a grande loja de departamentos paulista.

 

Era uma coisa mágica, uma expectativa e uma ansiedade que mexia com o nosso sentimento, jovens negros, de todos os lugares de São Paulo. Sem que ninguém marcasse nada, comparecíamos ali espontaneamente. Sexta, sim, e a outra, também. Não havia motivação política, muito embora pude entender tempos depois, que havia de maneira subliminar a procura por uma situação de igualdade — infelizmente, ainda não alcançada pela nossa gente.

 

Mas o importante aqui é que íamos para a porta do Mappin para encontrar jovens, negras e negros, onde rolavam por certo as paqueras –- muitos casamentos saíram dali. Mas, especialmente, para saber onde seriam as festas, os bailes de fim de semana, nas casas de família e nos salões da cidade. Falávamos de música, dos últimos lançamentos e dos sucessos dos nossos ídolos brasileiros e americanos. Desfilávamos com nossas melhores roupas —– calças bocas de sino; as meninas com suas blusas colantes, saltos altíssimos e cabelos afros mais incríveis e grandes que pudéssemos armar.

 

Algumas explicações para esse fenômeno:

 

Éramos o segmento mais pobre da população, raríssimos tinham telefone em casa. Se uma garota passava o número, era uma referência de “gente fina”, coisa que só os brancos tinham. Desde muito jovens trabalhávamos de office-boys, auxiliares de escritório, bancários. As meninas também em escritório, poucas lojas as aceitavam como vendedoras; eram faxineiras nas empresas do centro e, outras tantas, empregadas domésticas nos Jardins.

 

Também porque festa de preto não era igual festa de branco. Não gostávamos de Jovem Guarda. Nossas referências eram Wilson Simonal e sua pilantragem; Jorge Ben com seu samba-rock; Tim Maia com seu soul americanizado e parecido com James Brown, Billy Stuart, Aretha Franklyn, o exotismo de Miriam Makeba; os sambas de Elza Soares, Elis Regina, Originais do Samba e por aí afora.

 

Eram tantos negros naquele espaço, que se estendia por um pedaço do Viaduto do Chá defronte a antiga Light até a Galeria Nova Barão, num vai e vem que ia das seis da tarde às dez da noite.

 

Além de quase todos sermos clientes do Mappin e aproveitarmos para pagar nossos carnês e fazer novas compras, outra explicação para o local do encontro era a facilidade para depois cada um tomar o rumo do seu destino.

 

Foi tão marcante a presença de negras e negros, que as escadarias do Teatro Municipal foram o local de lançamento do Movimento Negro Unificado, numa sexta-feira, dia sete de julho de 1978.

 

Antonio Carlos Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: imaginava que era um disco voador

 

Ao longo das duas próximas semanas, o quadro Conte Sua História de São Paulo ganha uma versão especial, em homenagem aos 465 anos da cidade. Serão publicados, diariamente, no Jornal da CBN, textos de ouvintes, que foram selecionados a partir de histórias enviadas para o e-mail contesuahistoria@cbn.com.br. Acompanhe as histórias, inspire-se e participe, pois durante o ano, o quadro Conte Sua História de São Paulo segue em sua versão tradicional: aos sábados, logo depois das 10h30, no CBN SP.

Por Lea Maria Martins Passos
Ouvinte da CBN

 

 

Passei minha infância no Jardim Paulista. Morava num sobrado. Na parte de cima havia um terraço e eu gostava de olhar a vista. Lá para baixo via-se apenas um prédio que existe até hoje na esquina. No mais, era só o topo das árvores e telhados das casas.

 

Em um belo dia, do ano de 1954, começou a aparecer uma grande estrutura, muito grande mesmo. Ela ia sendo construída aos poucos, aos gomos, como uma enorme mexerica prateada, que brilhava muito.

 

Eu gostava de imaginar que os homens estavam construindo um disco voador. Era o tempo da “Marcianita” … do Sputinik …. e das primeiras viagens pelo espaço sideral.

 

Passaram-se três anos desde o início daquela obra. Três anos mexendo com minha imaginação, até que a construção foi concluída com todos os seus gomos prateados, desenhados por Ícaro de Castro Mello.

 

Era o Ginásio do Ibirapuera!

 


Léa Maria Martins Passos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: os seus braços de concreto são macios como a flor

 

Por Cláudio Pereira da Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na Vila Ema e hoje moro em Brumado na Bahia. Lembro de quando construíam a estação da Sé, do Metrô. Eu trabalhava de office-boy e me admirava ao ver as máquinas trabalhando e a grande cratera aberta que hoje é uma das estações mais movimentadas do mundo, integrando várias linhas e estações, culminando com a última parada que é a estação do meu coração. Da vida em São Paulo, me inspirei para contar essa história:

 

“SÃO PAULO”

São Paulo que amo tanto
De todo o meu coração
Cidade onde nasci
Minha fábrica de ilusão

São Paulo cidade histórica
Berço da liberdade
Onde muitos chegam e ficam
Outros vão levando saudades

Os seus braços de concreto
São macios como a flor
Que mesmo tendo espinhos
Exala o perfume do amor

Seus prédios que de tão alto
Querem arranhar o céu
Tu és uma noiva tão linda
Escondida sob o véu

O véu do ar poluído
E dos jardins de concreto
A grande selva de pedra
Que é o preço do progresso

Tuas avenidas e praças
Cheias de carros e gente
Tuas mansões e favelas
De vidas tão diferentes

Quem ouve falar de ti
Quer logo te conhecer
E na hora da partida
Já mais vai te esquecer

Cidade onde nasci
Minha fábrica de ilusão
São Paulo que amo tanto
De todo o meu coração

 

Cláudio Pereira da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Participe da série de aniversário da nossa cidade: escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: na Paulista, o encontro do Duque e da Duquesa

 

Por Suely Schraner
Ouvinte da CBN

 

image1

Na avenida Paulista (foto da autora)

 

 

Duquesa, da avenida Paulista

 

Eu sou quem inspira cartaz
Um cartaz de amizade

 

Você é quem compra na loja de grifes
Na famosa avenida paulista

 

O principal centro financeiro
Daqui debaixo do equador

 

Meu céu,  a marquise
Ao lado,  a escadaria
– meu palácio de neon

 

A sociedade emblemática

 

No asfalto, ruídos vivos
Rua que não dorme jamais

 

No meu sono
Ouvidos alertas
Passos , buzinas
Sina
A vigília do porvir

 

Partilhar olhares, nossa miséria
Pobres ricos, ricos pobres

 

Duque (dux), o que me conduz
Duquesa, a mulher do duque
Aristocracia de asfalto

 

Ele e eu
Eu e ele

 

Engulo o latido

 

Vigília do porvir
Sentinela do nada

 

Nos reconhecemos
Eu e ele
Ele e eu

 

Suely Schraner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série de aniversário da nossa cidade: escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: locais para conhecer

 

Por Paula Bueno

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 1970 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors (que eram permitidos). Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxergá-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “Por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: resta agradecer por tantos que acolheu

 

Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN

 

 

Minha Cidade

 

Parabéns minha cidade,
Cidade em que nasci,
Que abriga tanta gente,
Perto..longe..logo ali. 

 

Da garoa és chamada
Uns, selva de pedra até, 
Mas cabe dizer também, 
Que és trabalho, amor e fé.

 

Terra que gera riquezas
Do trabalho aliada.
És constante em prosseguir 
Numa infinita jornada.

 

O progresso tem seu preço,
Muita coisa se perdeu, 
Resta agradecer ó terra,
Por tantos que acolheu. 

 

Do norte, nordeste ao sul,
Do grande chão brasileiro,
Abriu as portas enfim ,  
A povos do mundo inteiro.

 

Deixo aqui o meu carinho,
Em forma de oração:
Deus abençoe São Paulo 
Do fundo do coração.❤

 

Marcia Ap. Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série especial de aniversário da cidade: escreva seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o cavalo do sorveteiro da Pompeia

 

Por Marcello Pizo
Ouvinte da CBN

 

 

Falta meia dúzia de anos para meio século. Isso não me faz tão velho assim, porém sou chamado diariamente de tio e, às vezes, me lembro de umas coisas que me fazem sentir o peso de ser de outro milênio. O sorvete é uma dessas lembranças da minha antiguidade.

 

Quando garoto, costumava tomar um sorvete que era vendido nas feiras livres e também de porta em porta, nas ruas da Pompéia. O vendedor era um senhor que andava numa carroça pintada de vermelho e branco, puxada por um cavalo marrom. Ele vendia sorvete de dois sabores somente: limão e morango. Geralmente ficava numa das extremidades da feira durante todo tempo que as barracas estavam montadas. Nos outros dias e horários, ele saía com a charretinha e tocava uma buzina prateada, que brilhava muito e anunciava a aproximação daquela guloseima tão especial.

 

— “Mãe, é o sorveteiro do cavalo, corre.”

 

Minha mãe sempre cedia aos meus pedidos, exceto quando as amígdalas me impediam de tomar gelado – aliás, até hoje não entendo o por que daquele lenço velho empapado de álcool no meu pescoço, quando a garganta atacava. Ela também era fascinada por aquele som de buzina e contava sempre que quando garota, o meu avô comprava para ela o sorvete vendido pelo pai do mesmo sorveteiro nas ruas de Higienópolis.

 

Será que o cavalo também era filho do cavalo antecessor?

 

A cada comprador ele descia da charrete, se dirigia para a parte posterior onde ficavam os apetrechos e perguntava se era morango, limão ou misto. Pegava a casquinha e com uma habilidade inimaginável para aquelas mãos tão rústicas, manuseava uma faca de mesa que preenchia a casquinha de biscoito com o sabor escolhido. Só vi algo parecido com o seu método de servir muitos anos depois, quando a Parmalat se instalou na esquina da Sumaré com a Aimberê, nos tempos que os palmeirenses eram felizes. As atendentes usavam umas pás para servir o sorvete, igualzinho ele fazia com aquela faquinha herdada do pai.

 

Quando ele parava próximo às feiras, ficava de plantão atrás da boléia esperando os fregueses. Nessas situações, o cavalo ficava sempre em três patas – não que ele fosse portador de necessidades especiais, mas preste atenção: todo cavalo quando “estacionado” alterna uma das patas para ficar suspensa. O mais incrível é que esses eqüinos têm um temporizador melhor que qualquer cronômetro de Fórmula 1, trocando a pata suspensa por outra mais cansada, com uma precisão cavalar. Andei ruminando uma explicação e acho que a contagem deles é feita pela mastigação…

 

Ainda falando do cavalo ( ou seria uma égua?) era comum ver o carroceiro dando as casquinhas de sorvete defeituosas para o equino como guloseimas carinhosas. Hoje em dia choveriam denúncias nas redes sociais contra a alimentação inadequada para o bicho, dos perigos da poluição para os pulmões do quadrúpede, além de algum vereador desocupado fazer uma lei para a coleta do estrume em sacos recicláveis. O mundo politicamente incorreto era menos estressante.

 

Marcello Pizo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o relógio perdido no Parque do Ibirapuera

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Minhas mais remotas memórias confundem-se com dois marcos de São Paulo: o Parque Ibirapuera e a Avenida Paulista.

 

O Parque e eu: ambos nascemos em 1954. Ele em agosto, eu em maio. Eu no interior, ele no coração da capital paulista. Nos encontramos em nossa primeira primavera. Eu, bebê de colo, não ousava ainda os primeiros passos; ele, verdinho em folha, ostentava já as primeiras flores.

 

À época, conta-se que as senhoras vestiam suas melhores roupas para circular no recém-inaugurado espaço paulistano, onde Niemeyer se apresentava em todo seu esplendor em cada linha, em cada curva do trajeto… e no qual o lago completava o ar bucólico.

 

O relógio marca o tempo que passa. Um relógio nos une.

 

Cresci ouvindo a história do passeio com minha mãe numa manhã de dezembro de 1954. Ela — quem sabe atenta comigo, quem sabe distraída com a beleza do parque — perde seu relógio de pulso, ganho dias antes. Uma das muitas histórias ao longo desses 63 anos.

 

Anualmente, minha família vinha à capital e o passeio pelo Parque era obrigatório. Obrigatória também era a visita ao nosso tio e patriarca da família. Tio reverenciado por ter vencido os desafios da imigração — da leva de imigrantes do início do século 20 — e “feito a América”, literalmente. Tio Nicolau trabalhou na estrada de ferro Noroeste; vendeu jornal; comercializou café e algodão. Acabou se tornando um dos mais respeitados e influentes homens da República e conhecido como ”Rei do Café”, nas décadas de 1930/1940, conquistando o direito de privar da amizade e da vizinhança de outro imigrante célebre: Francisco Matarazzo.

 

Pois bem, lá íamos nós, vestidos com nossas melhores roupas, percorrer a elegante Avenida Paulista, com seus casarões dos livros de histórias da nossa infância. Programa repetido por uma década.

 

Nos anos de 1960, mudamo-nos para a capital e o anual virou habitual. Passamos a frequentar o parque e a avenida.

 

Parque e eu em fase de adolescência. Barquinhos deslizavam no lago, pessoas remavam em divertidos passeios, num cenário que se transformava ao cair da tarde… carros ao redor do lago, casais apaixonados e… polícia rondando.

 

A Avenida Paulista, adulta imponente vinda lá do século 19, já aprendia, àquela altura, a ser mais democrática. A São Silvestre, a Fundação Casper Líbero, o MASP são testemunhas de tal transformação.

 

Avancemos o relógio do tempo: década de 1970/80 /90.

 

No Parque, carros circulam livremente, disputando espaço com as bicicletas — a maioria alugada do Maisena. A sede da prefeitura é transferida para o Palácio do Comércio, dando mais espaço aos frequentadores, entre eles meus filhos, que cresceram nesse agradável quintal, próximo de casa. O lago vai, pouco a pouco, perdendo a alegria. Somem os peixes. Desaparecem os barquinhos. O perfume da grama e das flores começa a se misturar com um odor desagradável.

 

Na Avenida-símbolo, brotam os conhecidos “espigões da Paulista”, que se alastram regados pela fúria do progresso e passam a compor o “high line” da cidade.

 

Avançando… virada do novo século. Virada de fase.

 

O povo ocupa o espaço, outrora privilégio da minoria aristocrática. A Paulista ganha metrô, vira palco das grandes festas, comemorações, manifestações políticas, paradas Gay… acolhendo a diversidade de povos e pessoas, de causas e ideais. É a centenária e aristocrática avenida abraçando, definitivamente, a democracia. E assim se une ao meu contemporâneo e sempre democrático Ibirapuera, que se faz, hoje, ponto de encontro para as muitas caminhadas cívicas até a Paulista.

 

O Ibirapuera continua seu destino de espaço aberto a atletas e personal trainers, bebês e babás, famílias e pets, idosos e seus cuidadores. Idosos com suas lembranças recentes se desvanecendo… as memórias remotas vivas, vivíssimas… assim como as de minha mãe que até o fim insistia em encontrar o relógio ali perdido.

 

O relógio e seu tiquetaquear incessante.

 

Marca do tempo que passa, marca de lembranças que não passam, marca do progresso que transforma nossas vidas e a cidade.

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo, viste agora o meu blog miltonjung.com.br