Conte Sua História de São Paulo: do rolimã à motocicleta, conheci a cidade

 

Por Heltinho Cerqueira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu sou capixaba. De Vitória, Espírito Santo. Cheguei em São Paulo em 1982 com apenas um ano de idade. Minha família se instalou na casa de uma tia irmã da minha mãe, no Jardim Paineiras, Zona Norte, onde segundo os antigos havia uma gigantesca paineira que morreu, mas antes deu origem ao nome do bairro.

 

Cresci por ali, era um bairro em desenvolvimento, um pouco afastado do centro. Ainda havia uma fazenda ou o resquício do que tinha sido: gado, cavalos e um casarão. De manhãzinha, o orvalho estava em todas as plantas e árvores que minha tia cultivava em uma horta onde tinha taiobas, couves, milho, abacate, …podíamos ouvir o canto de pássaros, até das incômodas arapongas. Nem se fala do rugido dos bugios. Estávamos bem ao pé da maior floresta urbana do mundo: a Serra da Cantareira. As ruas, em sua maioria de barro. Só as principais vias tinham asfalto, como a Avenida Francisco Machado da Silva, onde por volta dos meus 5 anos andei pela primeira vez em um carrinho de rolimã. De vez em quando a garotada resolvia fazer um carretão, emendando um carrinho no outro. Eu por ser muito novo tinha que ficar de fora, pois na maioria das vezes ao fim da viagem acabavam cada um pra um lado e com arranhões por parte do corpo pra contar estória.

 

O tempo passou e do rolimã fui para a bicicleta. Andava o bairro todo. Reuníamos a galera pra andar no Horto Florestal, tínhamos muita energia. Andávamos o dia todo. Foi uma juventude incrível. Aos 15 anos encontrei no mesmo bairro aquela que seria o amor da minha vida. Eu estudava na escola Estadual Elza Saraiva Monteiro e trabalhava como office boy em uma editora que ficava na Pamplona, travessa da Paulista. Anos depois fui ser motoboy. A partir deste trabalho comecei a conhecer outros lugares desta grande e fantástica cidade que havia acolhido a mim e a toda a minha família anos atrás.

 

Hoje, depois de 34 anos da minha chegada, encontro-me casado com Aline e temos um filho, lindo e paulistano, o Vinícius. Moramos agora na Freguesia do ó. Não ando mais de moto, mas ainda percorro toda a cidade, tocando minha bateria nos bares e festas. Quem sabe a gente não se encontra por aí.

Conte Sua História de São Paulo: o número da sorte

 

Por Olga Pereira

 

Meu pai era vendedor de bilhetes de loteria federal. Toda manhã ele pulava da cama cedo, Fazia café para os filhos. Engraxava os sapatos. Escovava o terno e o chapéu. Jamais esquecia da gravata. E saía para vender os bilhetes. Antes, ainda passava em uma igreja e assistia à missa. Sua freguesia era nos jardins América, Europa e Paulistano.

 

Meu pai era português – veio muito menino -, e minha mãe brasileira. casaram, tiveram quinze filhos e criaram treze; viveram 57 anos juntos em São Paulo e em algumas cidades do interior. Nos educaram muito bem. Nos deixaram como herança a honestidade, a responsabilidade e o trabalho. Foi assim que ele conseguiu ter uma vida digna na cidade.

 

Ouça o texto de Olga Pereira que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Claudio Antonio

 

Em janeiro de 1969 – não lembro bem o dia, sei que era um sábado – ele saiu como de costume para vender seus bilhetes. Já tinha bastante idade e seu ponto era na Augusta. Ali tinha vários clientes, um deles o radialista Miguel Vaccaro Neto.

 

No fim do sábado, a pedido do próprio Miguel, meu pai sempre passava na Galeria Ouro Fino e vendia a ele os bilhetes que haviam sobrado. Foi que naquele dia meu pai não encontrou o Miguel. Tentou deixar o bilhete com o barbeiro da galeria, mas ele não aceitou para não ter de assumir a responsabilidade de pagá-los, afinal o Miguel não havia dito nada ao barbeiro.

 

Meu pai voltou para casa e com ele ficaram um bilhete inteiro e mais alguns redações que não conseguido vender.

 

Às seis da tarde, ao conferir pelo rádio os números sorteados, ele descobriu que um dos números que estavam encalhados em sua mão havia saído no primeiro prêmio: 25 mil cruzeiros. Um bom dinheiro naquela época, que lhe garantiu uma velhice mais tranquila ao lado de minha mãe.

 

Este texto foi publicado no livro Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo)

Conte Sua História de São Paulo: descendo o Sumaré no rolimã

 

Nascido em 1957 em São Paulo capital, criado na zona oeste, Gilberto Franco lembra que o lugar onde hoje é a Avenida Sumaré era um grande brejo onde ele, os irmãos e os primos andavam de carrinho de rolimã.

 

Ouça o depoimento de Gilberto Franco, sonorizado pelo Cláudio Antonio, para o Conte Sua História de São Paulo

 

O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. A sonorização é de Cláudio Antonio e a edição é de Juliana Paiva. Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: traquinagem no colégio Clodian

 

Nascido em Santos em 1967, Celso Ferrari Masson, ainda criança, veio com a família para São Paulo. Ele lembra do tempo em que estudou no colégio Clodian no Bairro do Planalto Paulista e das traquinagens que aprontava por lá:
 

 

Ouça o depoimento de Celso Masson, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Celso Ferrari Masson é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: meus passeios no centro, nas décadas de 40 e 50

 

Por Elvira Soubihe Tocci

 

 

O centro da cidade de São Paulo era, literalmente, o centro do nosso mundo. Na nossa infância, adolescência e juventude tudo de importante que fazíamos ou vivíamos, passava pelo centro da cidade. Percorríamos o centro para irmos à escola, para fazer as compras, para nos divertir, para encontrar os amigos e, depois, mais tarde namorar… Para ir ao centro colocávamos as melhores roupas, o centro para mim tinha um cheiro especial: era colorido, claro, brilhante e repleto de surpresas…

 

Quem não se lembra dos tecidos comprados na “Casa Fortes: a que é forte nos preços baixos!” e os lindos tecidos dos nossos vestidos de baile e de noiva da Tecelagem Francesa?

 

Qual jovem poderia se esquecer das bijouterias da Casa Slopper?

 

A voz do ascensorista, enumerando as mercadorias de cada andar e do famoso “Chá da tarde do Mappin Stores”…

 

Quem não se lembra dos eternos sapatos escolares da Casa Clarck e da Casa Eduardo e os lindos calçados iguais aos das estrelas de cinema da Casa Sutoris.
Qual a criança daquela época, nunca cobiçou os inacessíveis brinquedos maravilhosos da Casa Fuchs e São Nicolau.

 

Quem nunca provou a geléia de mocotó e o Milk Shake da Leiteria Pereira.

 

Naquela época tudo era consertado, até as meias nylon de minha avó e de minha mãe! Acompanhávamos admiradas a moça colocar a meia desfiada em uma perna de madeira, e com uma espécie de agulha elétrica puxar o fio e consertá-la, rapidamente. Tudo isso, adivinhem onde: lá no centro da cidade na encantadora e movimentada Casa Henrique.

 

Qual jovem noiva não teve ao menos uma peça de seu enxoval da Casa Valentim, assim como o pai teve um pijama da Casa Kosmos e um chapéu ―que todos os homens usavam ― da Casa Prada ou da Ramenzoni?

 

Quem não comprou óculos na Casa Fretin e viu lá, pela primeira vez, uma lupa ou um binóculo…

 

Ou nunca comprou linhas, lãs, sinhaninhas, elástico para calcinhas na Casa Genin.

 

Quem nunca tomou os remédios homeopáticos da Veado d’Ouro ou das Farmácias do Dr Alberto Seabra.

 

Qual menina-moça não teve seu primeiro soutien “Mourisco”, comprado nas Lojas Ethan ou nas Lojas Cisne?

 

Quem não se lembra da Casa dos Dois Mil Réis, que depois virou Lojas Americanas e nós nos sentíamos verdadeiras “americanas” saboreando um hot-dog, praticamente, na calçada!

 

Lá no Centro da cidade de São Paulo, aprendíamos a viver e fomos envolvidos, sem perceber, por algumas das melhores sensações de nossa juventude…

 

Elvira Soubihe Tocci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe com suas lembranças: envie o texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: quando economista vira comunista

 

Ademar dos Santos Seródio nasceu em 1944 em São Paulo. Entrar para a faculdade foi uma conquista valorizada pela família com direito a festa e tudo. Mas uma vizinha não entendeu muito bem o que ele iria fazer nos bancos da academia.

 

Ouça o depoimento de Valdemar Seródio sonorizado por Claudio Antonio

Eu morei numa vila, uma dessas casas de vila de antigamente. Tive uma vida, não posso chamar de pobre, mas uma vida comum, de como hoje todo mundo vive na periferia. Apesar de ser Brás, naquela época, um bairro boêmio, a maioria das pessoas trabalhavam em tecelagem, minha avó era tecelã, trabalhava no Matarazzo. Minha tia era tecelã, trabalhava no Matarazzo. Meu tio era motorista de praça, tinha um ponto na Praça da Sé. E minha mãe era prespontadeira de calçados. Então tive uma infância muito legal, mas muito simples, muito comum. O que me fez também aprender a ter humildade, a respeitar os outros, a coisa que eu aprendi mais na minha vida. É isso, nada de excepcional aconteceu. Eu morava numa vila e tinha uma vizinha, isso é gozado, eu vou contar, o apelido dela era “grã-fininha” porque ela andava com o nariz em pé. O marido dela era escrevente de um cartório. E ela nem me deixava falar com os filhos dela porque ela achava que a gente era segunda classe. Eu entrei na faculdade e minha mãe fez uma festa, aí ela cismou que eu tinha casar com a filha dela. Porque naquele tempo, inclusive tinha uma vizinha que falou para a minha mãe: “Pô, mas você fez a festa por que?” “Porque ele entrou na faculdade.” “Mas o que ele vai ser?” “Economista.” “Comunista? Você é louca?” E era assim. A simplicidade do lugar de vez quando tinha um que destoava. E era uma amiga da minha mulher, eu conheci a minha mulher lá naquela casa. Era amiga da menina, da Maria José, que era filha dessa “grã-fininha”. E o pai da Maria José me adorava, ele me achava o máximo. E a Ivani, minha mulher, era do Ipiranga, ia na casa dela fim de semana, acabei conhecendo. Eu conheci a minha mulher ela tinha onze anos, mas eu não namorava ela, claro. Quando ela fez catorze eu comecei a namorar.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, às 10h30 da manhã, no CBN São Paulo.

Conte Sua História de SP: aqui não se consegue fugir da Marginal

 

Por Sérgio Lopes
Do Recife-PE

 

AQUI SÃO PAULO
(18/03/07)

 

Aqui ninguém é estranho
Todo mundo se convence de que tem algo a dizer
E diz
Com sua moda
Com seus modos
Ou seus medos
Com seus cabides
Suas cabalas
Seus cabelos

 

Aqui todo mundo é igual
Ao seu igual
Em sua turma
Sua tribo
Seu quintal

 

Aqui o olhar nunca é fixo
Nem sagrado é o crucifixo
Aqui não se consegue fugir da Marginal
Nem se subestima o marginal

 

Aqui se fala bastante
Se fala bastante “nossa”
Se fala bastante nossa língua portuguesa
E outras tantas mais

 

Aqui a chuva encanta
E engarrafa
Inspira
E marca
Vem de cima
E de baixo
E, às vezes,
Invade por todos os lados

 

Aqui se sorri
Se escreve
Se come pizza
Se vai ao teatro
Deixando a sensação
De que não se está fora do mundo
Permitindo entender
Porque Rita Lee é uma completa tradução
E porque Arnaldo Antunes tem tanta inspiração

Conte Sua História de São Paulo: no sonho da Cinderela

 

Por Sirlene Auxiliadora Lemos

 

Somos mineiros. Viemos para São Paulo com papai, mamãe e nove irmãos. Era 1964. Assim que chegamos, fomos morar na Rua Rio Grande, na Vila Mariana. Passava na porta o ônibus Praça da Árvore com ponto final no Anhangabaú, defronte ao prédio central dos Correios. Eu dava aulas no bairro de Santa Terezinha, no Colégio Madre Mazzarello. Minha irmã trabalha no Hospital das Clínicas e no Hospital São Paulo.

 

Nós duas andávamos de ônibus, como a maioria da população. Todos os motoristas nos conheciam. Ao passar na porta de nossa casa, diminuíam a velocidade para que minha irmã pegasse o lanche que mamãe lhe entregava para comer quando ia do Hospital São Paulo para o das Clínicas.

 

Se dormíamos durante o percurso, com era o meu caso, o motorista ou o trocador nos acordavam:

 

– tá chegando o ponto!

 

Ouça o texto de Sirlene Lemos sonorizado por Claudio Antonio

 

Aprendemos a amar São Paulo pela facilidade para estudar, pelas oportunidades de emprego, pela fartura das feiras e mercado, pelo atendimento gratuito à saúde, pelo acesso generoso à diversão. Íamos de graça a eventos por mais de dois meses todos os dias sem repetir apresentação. Os restaurantes, aquela variedade. As sorveterias, meu Deus. A da Casa Whisky, na Marechal Deodoro, e tinha ainda a da Alaska!

 

E os cinemas? Afundávamos em tapetes e poltronas. Era uma experiência de Cinderela, a cada ida aos cinemas: Marrocos, Metro, Barão, Windsor, Astor, Ipiranga e Metrópole. Lembro-me de ter visto a Noviça Rebelde bem ali no Cine Olido (ou era o Ritz?). A rua Barão de Itapetininga, maior chique.

 

E as casas de chá, com música ao vivo. Um sonho de fim de tarde! Os concertos matinais do Municipal, o planetário e o Museu do Ipiranga. As compras no Mappin, na Sloper, na Mesbla e na Sears.

 

Gente, e as padarias? Existe pão mais gostoso do que o de São Paulo? E o pastel de feira?

 

Ainda escuto o roncar dos carros dos Fittipladi passando pela rua Rio Grande., antes do sucesso nas pistas.

 

Daquele tempo para cá, fomos nos integrando ainda mais à cidade com os casamentos na família, com o nascimento dos sobrinhos e, principalmente, com a nossa participação nas atividades da comunidade. Esta cidade nos fez saber que somos há mais tempo paulistanos do que mineiros.

 

Este texto faz parte do livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo, em 2004.

Meus 18 anos

 

Por Suely Schraner

 

Era um tempo em que o Cruzeiro transformava-se em Cruzeiro Novo (NCR$) e eu trabalhava no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. No fim do dia, pegava o ônibus no túnel 9 de julho. Apeava na praça Dona Benta, para cursar o 2º ano Clássico, no Instituto de Educação Prof. Alberto Conte, em Santo Amaro.

 

 

O Brasil integrava o mundo via satélite (Embratel) e eu nem assistia ao Jornal Nacional. Levantava-me num dia e dormia só no outro. Em casa o pessoal assistia ao Beto Rockfeller. No Largo 13, o bonde ainda circulava. O metrô chegava em São Paulo. A indústria vivia novo “boom” e bombas explodiam no centro da cidade. Eu, medrosa que era, sempre em sobressaltos. Coração na goela.

 

 

O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu teatro e acabou com Roda Viva, o espetáculo do Chico Buarque. Artistas foram espancados. Eu assistia ao O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Macaca de auditório, ia aos programas da TV Excelsior e Record. A Tropicália, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, debochava de tudo.

 

 

O governo autorizou mais água no leite com preço mais caro: NCr$ 0,40. Leite que era deixado em vidros nas portas das casas.

 

No ano 1968, o Brasil recebeu grandes empréstimos. Eu, eu mais dura do que aquilo do tarado. Os líderes estudantis da UNE, comandavam passeatas. Vladimir Palmeira discursava no anfiteatro do Alberto Conte. Eu ouvia. Queria participar das passeatas, mas tinha que trabalhar. Sem tempo de ser comunista, nem isto nem aquilo. Alienada circunstancial. Num dia de comício, o Diretor chamou a polícia. Eram apenas 20 guardas, postos para correr a pedradas e pauladas. Os jovens, maioria e, muito, muito atrevidos. Mudar o mundo, nosso sonho mais azul. Era um curso noturno e quem se atrasava não podia entrar. Nossa classe ficava numa sala no fundo do terreno. Era a última turma antes de virar Ensino Médio. Quase sempre atrasada (tudo parado na av. 9 de Julho) pulava o muro para entrar. Visão que despertava aplausos de quem passava. Chegava ralada e com a meia calça furada. Pulava também para sair mais cedo e tomar caipirinha no Bekinho ou um cuba libre no Bar 13 dos Amigos ou um Hi-Fi no Amigo Fritz, na praça Floriano . Eu não regulava bem.

 

Decretado o Ato Institucional nº 5, temia-se qualquer aluno novo. Era comum aparecer agente do DOPS na classe, disfarçado de colega. Tudo era censurado e brincávamos falando: susseios ao invés de suspeito, vaganádegas ao invés de vagabunda. O presidente Costa e Silva cassou o mandato dos deputados, fechou o congresso, censurou a imprensa e as artes. Expediu portaria que determinava a proibição da Frente Ampla e a apreensão de livros, jornais e outras publicações. Eu já tinha lido Sexus, Plexus e Nexus, de Henry Miller e Quarup de Antonio Callado. Curtia os filósofos existencialistas e discutia a aldeia global de Marshall MacLuhan.

 

Capital estrangeiro investiu aqui US$ 541 milhões e o Banco Mundial emprestou US$ 1 bilhão para projetos de desenvolvimento e eu sem um puto de um tostão. Era um país que ia pra frente. No fim da aula, se eu tivesse algumas moedinhas, parava na pastelaria do Largo 13 e comia um pastel gosmento de carne (pouca carne moída misturada com muito arroz quirera).

 

Nesse mesmo ano, Martin Luther King foi assassinado. O candidato a presidente, senador Robert Kennedy também. A viúva do presidente John (irmão de Robert), Jacqueline casava-se com o armador grego Onassis.  Nós, no Brasil, no maior enrosco. Muitas prisões sem explicação. Manifestações de rua eram proibidas. Mais que três conversando já era conspiração. Diziam que a nova esquerda nasceu da pélvis ondulante de Elvis Presley. Minha contestação maior era tomar um rebite para ficar sem dormir e estudar mais.

 

Em outubro, 1.240 estudantes foram presos em Ibiúna (SP) ao realizarem, clandestinamente, o 30º Congresso da UNE. Neste mês eu completava 18 anos e já tinha assistido a filmes e peças proibidos, com minha carteirinha falsificada. Eu usava mini saia e tinha um cabelão. Maiô era de duas peças com a parte de cima com bojo. Pintava os olhos com rímel, como os da Cleópatra.

 

 

Em novembro, a Rainha Elizabeth, da Inglaterra, chegava ao Brasil. Eu era rainha do Esporte Clube Estrela do Jardim Malha. Tinha uma coroa de strass e uma faixa verde, bordada com purpurina. Na caçamba do caminhão, junto com os jogadores rumo a represa de Guarapiranga. Prestigiar o futebol deles. Definitivamente eu não regulava bem.

 

Em 1968 parecia que tudo ia explodir. Pensando bem acho que os Maias erraram o calendário. Em 1968 eu completei 18 anos e parecia que tinha 100. A sensação era de estar numa turbulência prestes a aterrissar com o trem de pouso avariado.

 

Suely Schrnaer é ouvinte-internauta da CBN e a mais assídua participante do quadro Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de SP: Um café para o motorista de ônibus

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, Ana Maria de Magalhães Correa fala de suas brincadeiras de criança e lembra, com saudade, do cafezinho que a empregada da casa servia ao motorista do ônibus, que passava pela rua. Ana Maria nasceu em 1947, é filha de mineiros e foi criada no bairro de Pinheiros, na zona Oeste da capital.

 

 

Ouça aqui o depoimento de Ana Maria de Magalhães Correa, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

 

Os depoimentos ao Conte Sua História de São Paulo foram gravados pelo Museu da Pessoa e editados pela Juliana Paiva. Para contar a sua história, escreva para o meu e-mail milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista, em aúdio e vídeo, no site do Museu da Pessoa.