Conte Sua História de São Paulo: o barco que eu construí na minha casa

 

Por Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da CBN

 

 

Em 1948, eu tinha 12 anos, morava na Simão Alvares, em Pinheiros, uma travessa da Teodoro Sampaio, onde passava o bonde número 29/Pinheiros. Os trilhos vinham em fila dupla, uma de ida e outra de volta, desde a praça Ramos de Azevedo até a Rua Fradique Coutinho. Dessa esquina em diante, até o largo de Pinheiros só havia trilho para um bonde, tanto para ir quanto para voltar. Quando um bonde
ia descer até o largo, ligava uma luz no poste indicando que já havia um
bonde lá e não poderia entrar outro.

 

Nessa ocasião, estava sendo construído um grande numero de prédios de 3 ou 4 andares, nos terrenos que tinham sido ocupados pela Hípica Paulista, que havia se mudado para a Rua Quintana, no Brooklim. Quando eu estava voltando da escola, encontrei junto às obras uma grande quantidade de retalhos de madeira jogados fora pelos carpinteiros.

 

Eu havia visto na vitrine da loja Elite, da praça da República, em frente à minha escola, a Caetano de Campos, um barco tipo Sandolin, todo feito de sarrafos de madeira e recoberto com lona.  Peguei uma quantidade que julguei necessária e pus mãos à obra, por muitas semanas. Até que terminei a estrutura, que, modéstia à parte, ficou bonita, principalmente para um garoto de 12 anos de idade.

 

Uma noite, o Dr. Francisco Samarro Neto, dentista, que tinha o consultório ao lado do de meu pai, na Praça Ramos de Azevedo, foi jogar buraco em minha casa e vendo o esqueleto do barco admirou-se e perguntou: O que falta agora? Eu expliquei que faltava cobrir com lona, mas que nunca seria feito pois custava muito caro.  Mais tarde o Dr Samarro falou: — amanhã, quando você sair da escola dê uma passadinha no meu consultório.

 

Quando eu cheguei lá, ele disse: — gostei muito do barco que você está
fazendo; tome este dinheiro que é o que você falou que custaria a lona e
termine seu barco.

 

Era dia 13 de Agosto, sexta-feira, de um ano bissexto, 1948. E eu pensei: “estes adultos não entendem nada sobre dias de azar; o dia mais feliz da minha vida, uma sexta-feira, 13, de ano bissexto, e eles dizem que é dia de azar!”

 

Esse barco teve muitas histórias, mas está eu conto em outra oportunidade.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: os pássaros da floresta da Nove de Julho

 

Por Fábio Caramuru
Ouvinte da CBN

 

 

Meu nome é Fábio Caramuru, sou pianista e parabenizo toda a equipe da CBN pelo trabalho (mais sobre mim no site http://www.fabiocaramuru.com.br ).

 


Quando eu era criança, com cinco ou seis anos de idade, morava lá perto da Avenida Nove de Julho. E a avenida era muito movimentada, difícil de atravessar

 

Eu me recordo de alguns detalhes interessantes: a primeira coisa que me vem na cabeça é esse Colégio Assunção, que ficava na Avenida Nove de Julho com a Alameda Lorena, em frente da escola onde eu estudava –- até hoje o Assunção está lá, tem aquela capelinha. E há agora um supermercado em parte do terreno, no qual havia uma floresta que era uma coisa impressionante.

 

Não sei se essa floresta era de eucaliptos – tenho quase certeza de que era – tinha ficus, uma série de árvores; e aquilo ficava em frente, pegava toda aquela fachada da Avenida Nove de Julho, uma imensidão de árvores.

 

Você passa hoje lá e não consegue entender por que tem aquilo tudo construído. Lembro que no fim da tarde uma coisa que me chamava muito a atenção era aquele canto dos passarinhos se recolhendo, aqueles pardais, aquela algazarra, aquele barulho. Era uma coisa muito bucólica pra São Paulo: uma floresta em plena Avenida Nove de Julho.

 

Eu me recordo dessa passagem e lembro de ouvir os pássaros no fim da tarde quando começava a escurecer. Lembro também que no trajeto quando a gente cruzava a Alameda Lorena e chegava na Rua Pamplona que era toda de paralelepípedos e tinha o bonde: bonde subindo, bonde descendo.

 

Era incrível aquela São Paulo que vivi!!!

 

Fábio Caramuru é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para contar outras capítulos da nossa cidade, escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br
 

Conte Sua História de São Paulo: da primeira carteira assinada à aposentadoria

 

Por Marcio de Jesus Donda
Ouvinte da CBN

 

Tenho 61 anos, moro na Vila Amália, zona Norte. Em cinco de janeiro, agora, completei 25 anos da minha terceira passagem como morador de São Paulo.

 

A primeira  foi em dezembro de 1977. Estava com 19 anos e desembarquei na antiga rodoviária Júlio Prestes. Nasci em Mirassol, interior paulista, e cresci em Poloni —- duas cidades próximas de São José do Rio Preto.

 

São Paulo me assustava, mas tive de vir para cá trabalhar e pagar minha faculdade. O primeiro ano foi muito difícil, parecia jamais me acostumar com a cidade. Trabalhava no antigo banco COMIND, no setor de processamento, no período da madrugada —- era na avenida Angélica. E fazia faculdade pela manhã na Campos Salles, lá na Lapa.

 

Quando os anos 80 chegaram já havia me adaptado à cidade. Mas em 83 fui transferido para o Recife, e de lá para Belém — quando o banco foi liquidado pelo Governo Sarney, em fins de 85.

 

Voltei para Poloni para ser comerciante. Não deu certo. E retornei a São Paulo. Minha segunda vez na cidade não durou mais de um mês. Logo consegui emprego no Bandeirantes para seguir novamente a Belém. Lá casei com uma paraense e tivemos três filhos: Márcio Filho, Julyana e Matheus.

 

A terceira e última vez que vim para São Paulo foi depois de um ano desempregado. Peguei a família e fomos embora de Belém. Aqui meu filhos cresceram e casaram. Apesar de continuar trabalhando, já estou aposentado há quase três anos. Ou seja, aqui tive meu primeiro emprego com carteira assinada. E aqui chegou a minha aposentadoria.

 

A cidade que me assustou no início, hoje não me vejo longe dela.

 

Marcio de Jesus Donda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

 

Conte Sua História de São Paulo: minha baioneta caiu da janela

 

Carlos Gati
Ouvinte da CBN

 

 

Em dezembro de 1968, quando o marechal presidente Costa e Silva, promulgou o Ato Institucional número 5, eu fazia cursinho da USP, trabalhava como redator do Jornal O Dia e morava na Rua Paim, na Bela Vista, com um irmão e um amigo.

 

Tive a infelicidade de usar uma baioneta, sim, uma baioneta comprada irregularmente quando fazia o Tiro de Guerra para segurar uma cortina que nos incomodava com o vai e vem do vento. Parece que irritado, o próprio vento fez abaioneta despencar pela janela do do 20º andar do prédio, caindo quando na cabeça de um soldado.

 

— Tem terrorista por aqui — esbravejava o soldado. A polícia foi chamada e cercou o local. Eu estava almoçando na casa de um amigo quando o telefone tocou: — Carlão, estamos liquidados. Venha urgente pra cá que estamos sendo presos.

 

Cheguei e deparei com meu irmão descendo as escadas com as mãos pra cima: – é terrorista, é terrorista – diziam os moradores. Meu amigo já estava na viatura me aguardando. Fomos todos para o DOPS, ou melhor, para a OBAN — Operação Bandeirante, em um quartel no Ibirapuera. Lembro das sirenes soando alto enquanto o rádio da viatura tocava Tim Maia.

 

No interrogatório, disse que a baioneta era minha e os dois não tinham nada a ver com o caso — por isso foram soltos horas mais tarde. O policial à paisana, jovem como os demais, vestidos quase todos de calças jeans, passava a baioneta pelo meu pescoço e repetia: — como você foi entrar nessa? Vai ser muito difícil você sair daqui!”

 

Além do jornal, onde eu escrevia sobre artes, trabalhava também na rádio Record como locutor e pedi para telefonar na emissora e avisar que eu não iria trabalhar…

 

O sujeito deu uma solene risada. Disse que a partir daquele momento eu estava incomunicável e me levou para cela. Tinha apenas um colchonete para dois presidiários. Tiramos no palitinho para ver quem esticaria o corpo naquele colchão. Eu ganhei!

 

No dia seguinte, café com leite e um pão seco, que nem consegui comer. Levaram-me para um local e me fizeram a barba com navalha. Ufa!!! Pensei que iam me raspar a cabeça. Ou cortá-la, quem sabe… Nada de almoço. Até que a porta se abre e um sujeito manda eu pegar as minhas coisas e, ironicamente, diz que a baioneta ficaria.

 

Minha saída é que foi uma efeméride. Sem brincadeira! Não havia ninguém por perto. Uma viva alma naquele pátio. Pensei comigo: será verdade isso? Acho que alguém vai me dar um tiro se eu olhar para trás. Fui andando, andando, sufocado, apressando o passo e correndo. Quando percebi, quase fui atropelado por um ônibus no Parque do Ibirapuera. Entrei no primeiro coletivo, buscando distância daquele lugar.

 

Finalmente, livre… Ou nem tanto. Ninguém saía da mira da polícia mesmo depois de liberado como eu. Noivo, naquela época virou rotina ser revistado por policiais onde quer que eu fosse. Nem sei quanto tempo isso durou, mas, apesar de ter pisado na bola, marquei um golaço em meu prontuário.

 

Carlos Gati é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o “Buracão” era o nosso parquinho

 

Lauro Vieira de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Minhas memórias começam na época em que morava no bairro do Jardim São Paulo, Zona Norte. A casa na avenida Cabuçu, hoje avenida Marechal Eurico Gaspar Dutra, com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, portão e quintal com poço, permanece a mesma daquela época, em 1960 — feliz e, corajosamente, não alteraram as suas características de fachada.

 

Nela moravam meus pais —- mãe baiana e pai alagoano, descendente dos índios caetés —-, meus quatro irmãos —- o mais velho dos homens trabalhava em uma fábrica de instrumentos de percussão, ali bem próximo —- avó, tio, o filho mais novo da avó materna e um primo. Comigo, éramos 11. Nos arredores está a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que minha avó era devota fervorosa. Hoje, sob a casa, passa a linha Azul do Metrô. A estação Ayrton Senna/Jardim São Paulo, também está por ali.

 

Tinha uns 5 anos com uma infância muito dinâmica. Brincava-se com tudo o que tínhamos direito; e sem direito também, como descer ladeira dentro de um pneu de caminhão.

 

Um vizinho criava cavalos. E a diversão era roubar um para dar umas voltas até ter levado um tombo e quebrado a cabeça.

 

Quando chovia, ou quando minha mãe lavava o quintal, ensaboávamos o peito e escorregávamos, no corredor do quintal, dos fundos para a frente da casa, uns 8 metros de pura adrenalina.

 

De quando em quando jogávamos bola no campo de futebol, ao lado do hoje Clube Escola do Jardim São Paulo, administrado pela prefeitura. Era de terra, a grama ainda não cresceu. Em parte do campo tinha poças d’água que não secavam nunca, quando você pisava afundava até o joelho. Dalí tínhamos uma perspectiva maravilhosa, avistávamos a passagem do Trem da Cantareira, com destino ao Jaçanã e Guarulhos.

 

Em um dos lados do campo, na rua Professor Fábio Fanucchi estava a escola Professor Antonio Lisboa, onde estudei o primeiro ano primário. Lembra-se da cartilha “Caminho Suave?“ Graças a ela, e, lógico, a minha professora que não lembro o nome, aprendia a juntar letrar e formar palavras. Incrível é que uns 35 anos depois minha mulher foi concluir o seu segundo grau nesta mesma escola! Coisas do destino.

 

Em frente a minha casa havia um espaço imenso, com uma grande depressão. Era o “Buracão”, com uns 200 a 300 metros de comprimento, partindo da rua Almirante Noronha, 10 metros de largura e sete de profundidade. Em uma ocasião, estávamos com uns trocados e fui com os amigos fazer um piquenique em um caverna —- um buraco encrostado em um dos lados do Buracão. Comemos muita coisa boa até que o Seu Antonio, um vizinho que costumava tomar umas cangibrinas começou a bater com os pés na parte superior da caverna. Foi um corre-corre só, todos descendo, escorregando para o fundo do Buracão.

 

Quando iniciaram o aterro do “Buracão“, houve muita tristeza da molecada, pois era um ambiente que, além de estarmos acostumados, fazia parte do nosso parque de diversão. Como vimos que não teria jeito, fomos assistir às máquinas e caminhões trabalharem. Naquela movimentação de terra, descobrimos umas raízes, que delícia, parecia cana-de-açúcar de tão doce que eram!

 

Depois dessa época, fomos morar no Parque Edu Chaves. Mas está é uma outra história.

 

Lauro Vieira de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: com uma mala de sonhos, cheguei à cidade

 


Por Italo Cassoli
Ouvinte da CBN

 

 

Imagine nos anos de 1970, eu, egresso de Pirassununga, com seus pouco mais de 20 mil moradores, aportava em São Paulo. Até então vivendo em uma cidade onde a paquera se dava ao redor do nosso jardim, com as moças caminhando em um sentido e os rapazes em outro, em torno de um jardim retangular. Para rever aquele broto que me interessava, demorava um bom tempo. Não bastava trocar um olhar na primeira vez, precisava torcer para que ela não fosse embora para sua casa, sempre ao lado de uma fiel escudeira ou de seu “temido” irmão, meu pretenso cunhado.

 

Eu, filho de alfaiate e costureira, sempre estava muito bem trajado… pois como dizia meu pai: ”um homem bem trajado tem meio caminho andado”.  Ele infelizmente nos deixou cedo e muita coisa mudou. Surgiu uma guerreira, visionária, minha mãe: uma mulher que ainda hoje com seus 98 anos nos mostra o caminho a ser seguido — e ainda tem forças para estrelar um comercial dos 100 anos do azeite Gallo.

 

Como visionária que sempre foi, queria apenas duas coisas na vida: comprar nossa casa própria e nos ver formados — eu e minha irmã.  Minha intenção, a única, era cursar uma faculdade pública, em São Paulo: educação física na USP. Sonhava todas as noites com isso. Em 1970, parti em busca de meu sonho. Faria o CESCEM — Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas e Biológicas, afinal Educação Física era e ainda é considerada carreira médica — existem controvérsias, infelizmente.

 

Desembarcar na antiga rodoviária, na Capital, foi um susto — um misto de medo e desafio.

 

Agora, encontrar a pensão na Rua Tutóia. Que ônibus tomar? Eu com essa mega mala em mãos, que tinha muito mais sonhos do que roupas —- apenas duas calças e algumas camisas.

 

Caetano já disse que “quando eu cheguei por aqui eu nada entendi”. Que eu nada entendia é verdade — mas essa até então desconhecida e temida cidade, me mostrou tudo. Como acolher um jovem sonhador, a xepa da feira; o comercial do Bar Praça XI, do Sr. Manoel, que como eu aportou nessa cidade —- ele vindo de Portugal deve ter sido mais difícil se adaptar.

 

Os anos se passaram, muitos aprendizados, vitórias, empates, algumas derrotas que só me fortaleceram. E ainda hoje com meus 70 anos, mesmo às vezes não entendendo minha ex-Terra da Garoa, respeito-a e muito, afinal, São Paulo tem mais pessoas a recepcionar, compartilhar seus conhecimentos, abraçar e mostrar que a diversidade deve ser propagada em prosa e verso.

 

Italo Cassoli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br 

Conte Sua História de São Paulo: refaço meus caminhos na cidade

Por Emília Gonçalves
Ouvinte da CBN

 

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João […]

 

Foi com o poema do Caetano na cabeça que eu comecei a conhecer a minha São Paulo querida. Eu morava em Guarulhos e fazia estágio no Hospital das Clínicas, na década de 1980. E foi amor à primeira vista. Não só por seus arranha-céus, as grandes avenidas, o ir e vir das pessoas apressadas para o trabalho ou estudo. São Paulo sempre teve algo especial que contradiz a crença de que as pessoas são frias e só se importam com o trabalho.

 

Existe o trabalho que move a cidade, existe a correria, e existe a gentileza de quem desacelera o passo para lhe dar uma informação com um sorriso no rosto. Existe um músico na esquina, uma avó com sua neta, um beijo roubado e uma estudante, como eu, a espreitar a vida pulsante dessa linda cidade. São Paulo é o encontro do antigo, do moderno, do contemporâneo e, quiçá, do pós-contemporâneo. São Paulo é uma cidadã do mundo, uma cosmopolita que abraça todos, que acolhe…

 

Como toda grande cidade em que se espera tudo dela, São Paulo também tem suas mazelas que nos chocam e nos confundem, e também a solidariedade de quem oferece um pão, um abrigo, uma palavra.

 

Eu hoje vivo na Bahia, mas nunca perdi esse amor.

 

Agora vou a São Paulo todo ano e refaço meus caminhos. Faço novos trajetos, descubro a nova cidade. Vivo o presente que a cidade é, ponho o pé no passado e a cabeça no futuro.

 

” […] Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso […]”.

 

A Profª Maria Emília dos S. Gonçalves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a minha cidade maravilhosa

 

Sonia Couri
Ouvinte da CBN

 

 

Ao chegar em São Paulo, em 1969, aos 20 anos de idade, até então vividos com todo o glamour que o Rio de Janeiro me proporcionou, ainda com a visão magnífica da praia de Copacabana, do baile de debutantes no Copacabana Palace e das janelas do Colégio São Paulo, admirando diariamente as águas do Arpoador, o susto foi enorme.

 

Mesmo sendo casada recentemente com um industrial paulista, e com uma condição privilegiada de vida, aquela mudança radical de hábitos e costumes, me fez pensar em largar tudo e voltar correndo para minha terra.

 

Os anos se passaram, meus três filhos nasceram, cresceram, estudaram, se formaram, se casaram.

 

Fiquei viúva após trágico incidente que me fez sair da “boca do luxo” para um ramo, na época ,fechado às mulheres. Eu, que nunca havia trabalhado fora do meu ninho familiar, cuidando da casa e dos filhos, me atirei com unhas e garras no mercado de automóveis, deixado por meu marido. Com a ajuda de meu filho mais velho, na época com 17 anos, começamos com a cara e a coragem a virar noites para aprendermos o caminho da sobrevivência.

 

E é aí que entra a minha gratidão eterna por esta cidade de São Paulo, onde resolvi ficar, desprezando a chance de voltar ao Rio, e onde depositei minha crença de que aqui seria a salvação para a criação de meus filhos. Acertei em cheio, fiz os 13 pontos da loteria da vida. Formei todos os filhos, assisti à chegada de sete netos e, hoje, após 50 anos, agradeço a Deus por ter ficado nesta terra que não mais é da garoa e, sim, de um céu de brigadeiro, apaixonada por cada canto deste país que São Paulo se tornou. Uma terra que abriu suas portas para árabes e judeus, japoneses e chineses, espanhóis, portugueses e italianos, para toda gama de imigrantes, vindo de todos os cantos da terra, que ajudaram a construir a cidade, para mim a verdadeira cidade maravilhosa, que dá a quem procura, a dignidade de morar  e trabalhar, para sustento dos seus. Graças a Deus, estou paulista!

 

Sonia Couri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar também: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o sabor do cachorro quente e outros prazeres do estádio de beisebol da cidade

 

Por Jun Yano
Ouvinte da CBN

 

 

Passei grande parte dos meus domingos no estádio de beisebol Mie Nishi , no Bom Retiro. Foi inaugurado em comemoração ao cinquentenário da imigração japonesa, em 1958, com a presença da família imperial do Japão.

 

Comecei a praticar beisebol nesse estádio quando tinha sete anos. Pegava ônibus na Vila Mariana até a praça João Mendes, fazíamos baldeação e íamos para o bairro do Bom Retiro. Meus irmãos me levavam e eu como era pequeno passava por debaixo da catraca para sobrar dinheiro para o sorvete.

 

Gostava de assistir às partidas dos campeonatos de dentro do campo, como gandula e sonhava um dia jogar no estádio principal —- sonho alcançado anos depois. Os jogadores pareciam enormes e fortes como super-heróis. Imitávamos suas chuteiras de travas de metal amassando com nossos kichutes as latinhas de cerveja.

 

Nossos treinadores eram voluntários que amavam o beisebol Sou muito grato a paciência que tinham. Além de treinar, brincávamos nos intervalos jogando futebol, pula sela, polícia e ladrão,… Enfrentávamos o trote dos veteranos e até hoje perduram alguns apelidos de personagens cômicos com os quais fomos batizados.

 

Tinha também o cachorro quente da dona Maria: pão, salsicha, molho e purê de batata. O sanduíche mais gostoso que comi. E o sorveteiro que chamávamos de Sorvelino. Ele conhecia todos pelo nome.

 

O estádio foi palco do Panamericano de 1963; lá jogaram equipes de faculdades japonesas, times semi-profissionais do Japão e a seleção campeã olímpica de Cuba. Hoje, é o ponto de encontro de meus amigos em campeonatos de veteranos, momento em que lembramos com saudade as histórias que passamos juntos, no estádio municipal de beisebol Mie Nishi.

 

Jun Yano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da nossa cidade e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: as novidades musicais chegavam na Hi-Fi

 

Por Douglas de Paula e Silva
Ouvinte da CBN

 

 

 

Nasci na Lapa, em 1955, na Rua Faustolo. A casa existe até hoje. Meus pais, Antonia e Rubens, sempre foram muito musicais: cantando, dançando, tocando piano. Ele com sua voz de tenor, cantava árias de óperas sem nunca ter estudado música, tocava piano de ouvido e dançava muito bem. Papai era da Aeronáutica, tinha muito contato com pilotos americanos, que traziam discos de jazz, blues, música clássica. Mesmo criança já ouvia Glenn Miller, Dave Brubeck, Miles Davis. Adorava “Take Five” do Brubeck.

 

Quando nos mudamos para o Planalto Paulista, em 1960, um lugar bem isolado naquela época, minha mãe logo me colocou para aprender a tocar piano com a Dna. Maria Expedito, perto de casa. Fiz seis anos de piano meio que por obrigação. Gostava mesmo era de bateria. Minha mãe, disse que aquilo só fazia barulho.

 

Tudo mudou quando, com oito anos, em 1964, minha tia me levou para assistir ao “Os Reis do Ié Ié Ié”, o primeiro filme dos Beatles. Fomos no Cine Nacional, na Rua Clélia, um dos maiores cinemas do Brasil. Quando vi os Beatles tocando, aqueles jovens gritando, dançando no corredor do cinema, percebi que o rock era a minha música.

 

Rádios FM eram raras bem como os aparelhos para ouvi-las. Ouvia as músicas no AM. Por falta de dinheiro, comprava apenas os discos compactos. Os LPs eram caros e demoravam para chegar por aqui. Costumava pegar emprestado os LPs de amigos mais abonados da escola.

 

As novidades chegavam primeiro na loja da “HI-FI” da Rua Augusta, trazidas diretamente dos Estados Unidos pelo dono Hélcio Serrano. Na visita à loja, além das novidades, você encontrava Rita Lee, Raul Seixas, Caetano … Em uma época em que tudo era proibido, as embalagens da HI-FI eram bem ousadas. Lembro de uma delas onde o Serrano aparecia nu com uma capa de disco tapando o que não poderia ser mostrado.

 

Os shows de rock não vinham para o Brasil. O mais famoso a se aventurar por aqui foi Alice Cooper num show caótico no Anhembi, em 1974. Em 1977, veio o Genesis, com Phil Collins no vocal. Um show maravilhoso no ibirapuera. Épico foi o do Queen no Morumbi, com Freddie Mercury comandando mais de 100 mil pessoas no “Love of my life”…

 

No rádio, duas emissoras se destacavam tocando rock: a Difusora e a Excelsior. Vasculhando o dial, descobri na madrugada, o programa Kaleidoscópio, que tocava rock progressivo e discutia temas como drogas, liberdade, teatro … e tocava discos na íntegra.

 

Vieram os CDs, em 1985. E com eles novos grupos como The Police e Nirvana.

 

Tive oportunidade de assistir a muitos shows de grupos que gostava desde a juventude.

 

Há quatro anos fui ver o cover do Led Zeppelin e fiquei impressionado com o baterista, que lembrava em tudo John Bonham. Conversei com ele e desde então, eu e meu filho de 15 anos, Daniel, estamos tendo aulas de bateria. Até nos apresentamos juntos. Foi inesquecível.

 

Falei para minha mãe, agora com 94 anos. E ela, ao contrário do meu tempo de criança, gostou muito. Felizmente!

 

Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br