Avalanche Tricolor: os heróis improváveis e o sentimento de ser gremista

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Paulo

Wallace comemora seu primeiro gol no Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os heróis improváveis levaram o Grêmio a uma virada fundamental para o nosso destino na temporada. Wallace, o jovem zagueiro recém-chegado de Alagoas, e Pavón, o argentino tantas vezes criticado pelas arquibancadas, fizeram os gols que nos tiraram daquela-zona-que-você-sabe-qual-é.

Pode parecer exagero de torcedor, considerando a montanha que ainda temos de subir na competição. O fato é que o time de Luis Castro, com todos os limites técnicos e táticos que ainda apresenta, precisava recuperar a confiança perdida em algum ponto da nossa jornada.

Os reveses mais recentes incomodavam especialmente pela forma resignada com que a equipe se comportava. Derrotas nas diferentes competições e a eliminação na Sul-Americana eram recebidas quase como uma fatalidade, como se o elenco estivesse convencido da própria incompetência. Ao torcedor, restava uma mensagem de desalento.

A postura que levou à classificação para as quartas de final da Copa do Brasil já havia sido completamente diferente. Mesmo com todos os defeitos, os jogadores se impuseram diante do adversário e lutaram de forma incessante. Mesmo pressionado mais do que gostaríamos, mostrou que sabir ser resiliente. O que vimos hoje, pelo Campeonato Brasileiro, foi a repetição daquela atitude, especialmente depois de o Grêmio sair atrás no marcador.

Ainda não temos a marcação intensa que rouba a bola no campo do adversário, a organização tática que reduz os riscos dentro da nossa área ou uma circulação de bola mais articulada no meio de campo. O torcedor, porém, consegue perceber jogadores atuando com muito mais intensidade nos três setores do time.

Lá atrás, Wallace é o principal destaque. E, se não se assustar com o próprio sucesso, pode ser importante não apenas para dar mais segurança à defesa, mas também para avançar com a bola e romper a primeira linha de marcação do adversário. A lateral direita, com Diego Caito, está mais bem guarnecida. O entendimento dele com Pavón, à frente, fez diferença nos dois últimos jogos. É por aquele lado que o Grêmio ataca melhor e oferece mais perigo.

O atacante argentino é um personagem à parte neste momento. Parece ter redescoberto o drible depois de passar seis meses jogando mais recuado e improvisado na lateral direita. Não bastasse a chegada forte à linha de fundo, foi responsável pelos gols das duas vitórias recentes. E ambos de falta.

Na cobrança de hoje, a considerar pelo que disse ao fim da partida, Pavón teve plena consciência do movimento que fazia. Percebeu a falta de proteção extra atrás da barreira e chutou forte por baixo para colocar a bola na rede. No jogo anterior, também havia demonstrado inteligência ao identificar o desajuste da barreira adversária.

O Grêmio ainda está distante de apresentar um futebol vistoso. As duas vitórias seguidas, porém, devolvem ao time algo que parecia ter desaparecido: a convicção de que lutar pode valer a pena. E, quando essa disposição aparece em campo, a torcida responde.

Hoje, eram 35 mil gremistas na Arena empurrando o time até a virada. Wallace e Pavón foram os heróis improváveis da noite. A arquibancada tratou de lembrar o que os move — e o que nos move — ao cantar em coro:

“O Grêmio é puro sentimento.”

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo ascensorista

João Moro

Ouvinte da CBN

Elevators

Foto: Don Harder/Flickr

Estamos no fim do ano de 1976. Para situá-los foi o ano da primeira nota 10 nos jogos olímpicos de verão em Montreal para a Nadia Comaneci e foi também o ano da morte de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.  Eu, com 17 anos, acabara de me formar em Técnico em Eletrônica em uma das escolas mais conceituadas do Estado de São Paulo: a Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo.

Através de CIEE  — Centro de Integração Empresa Escola — fui encaminhado para uma entrevista na Telesp, a Telecomunicações de São Paulo S.A. — que foi estabelecida em maio de 1973 como parte do Grupo Telebras, criado em julho de 1972 pelo governo federal para centralizar, modernizar e controlar as operadoras estaduais, funcionando como uma holding.

Eu, muito jovem, fui para minha primeira entrevista de emprego Jamais vou esquecer daquele senhor que conduziu nosso elevador no imponente prédio da Martiniano de Carvalho — naquele tempo muitos elevadores tinham ascensoristas. Eu o cumprimentei com toda a educação. Puxei conversa.  Ele foi muito simpático e me falou com certa tristeza que muitas pessoas nem percebiam a presença dele dentro do elevador. Assim que a porta abriu, desejou-me sucesso e eu fui para a entrevista. 

Aprovado, fiz os exames de praxe e, duas semans depois, me apresentei para o meu primeiro dia de trabalho. O prédio era atendido por oito elevadores. Qual não foi minha surpresa que ao acionar o botão para chamar um deles, de forma aleatória, a porta que se abriu era a do elevador conduzido por aquele mesmo senhor com quem conversei no dia da entrevista. A alegria no olhar dele foi contagiante. Ele me abraçou e disse que havia torcido muito pela minha contratação. Outras pessoas no elevador ficaram sem entender nada. Quanto a mim, fazia ali minha primeira amizade de trabalho.

Esteja ele hoje onde estiver … que saiba que faz parte da memória que tenho dessa grande cidade. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

João Moro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos se inscreva no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a casa mal-assombrada da Bela Vista

Iorli Marli Bezerra Pivato

Ouvinte da CBN

Door Lock
Foto: Gustavo Maximo/Flickr

Minha história de São Paulo começa em 1948, quando eu tinha 6 anos, e mudei da casa da minha avó, na Rua Cruzeiro do Sul, para uma casa “mal-assombrada” na Rua Santo Antônio, 104, no bairro da Bela Vista.

No local havia acabado de acontecer um crime que abalou a cidade de São Paulo. Um jovem químico professor da USP, Paulo Ferreira de Camargo, havia matado a mãe e as duas irmãs e jogado os corpos em um poço no quintal da casa. Quando os corpos foram descobertos, ele se matou no banheiro.  Um dos bombeiros que participaram das escavações, sem proteção, morreu por infecção cadavérica.

Todos esses fatos e o exagero da imprensa em criar reportagens sensacionalistas, deram a ideia de que o local era amaldiçoado, mal assombrado, tornando o imóvel desvalorizado. 

Minha mãe viu ali uma oportunidade de negócio, alugou o imóvel, montou seu salão de beleza e relocou quartos e salas fazendo uma espécie de pensão.

Tenho boas lembranças daquela época, da ingenuidade da criança que se divertia observando curiosa os quartos dos inquilinos pelas fechaduras das portas, quando voltava do jardim da Infância, na Cruzada Pró-Infância, na Praça da República. 

Lembro das brincadeiras com os tubos de lança-perfume, comprados por meu avô, para a festa de carnaval, na avenida 9 de Julho, onde o cordão passava cantando “Nega Maluca”, de Linda Batista.

Lembro da curiosidade sobre o teatro de alumínio, instalado em 1952 na Praça da Bandeira, onde a companhia de teatro de Nicete Bruno se apresentava e usava os serviços do salão de beleza da minha mãe.

Lembro da festa do quadricentenário de São Paulo, dos papéis picados sendo jogados do alto dos prédios.

Vivemos na casa muito felizes, até 1954, quando foi demolida. Mudamos então para o bairro da Vila Rosa, perto do Horto Florestal, mas não abandonamos o Centro. Trabalhamos no Largo do Arouche, na Praça Patriarca, na Praça da República, mas aí são outras histórias.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Iorli Marli Bezerra Pivato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o chiado do rádio na Copa do Mundo de 1958

Laudizio Jorge Marquesi

Ouvinte da CBN

Foto de Athena Sandrini on Pexels.com



Meu pai, alfaiate, Luiz Marquesi. Minha mãe, excelente dona de casa, Albonea  Marquesi. Família que na época eu já considerava grande: quatro homens, com nomes iniciando pela letra L, e três mulheres, toda com nomes começando com N. Eu, por ser o caçula, escapei de me chamar Lauro. Meu pai, ouvindo a rádio Nacional do Rio, descobriu o “Laudizio, mago das joias”. E o acréscimo veio do dia de nascimento, inspirando no dia do santo, São Jorge.


De Garça, interior de São Paulo, para o bairro da Casa Verde, na São Paulo de 1955, foi um pulo. Minha irmã Neide veio na frente, em 1954, e foi ser telefonista no Hotel Jaraguá, na rua  Major Quedinho, edifício do Estadão. Ano da comemoração do IV Centenário da cidade. Era uma São Paulo festiva e brilhante. Recebeu artistas do cinema americano. Na époica já havia transmissões de TV para os privilegiados. O rádio segui imbatível.

Como disse, cheguei uma ano depois, mas me permita dar um salto no tempo: 1958. Que ano maravilhoso! Brasil, campeão do Mundo na Suécia. Foi quando Pelé nasceu para o futebol. As transmissões de rádio eram em ondas curtas e retransmitidas pelas grandes emissoras da época, casa uma em um estado diderente. 

Ao microfone da Bandeirantes, Edson Leite e Pedro Luiz. E apesar do chiado a festa era enorme a cada gol do Brasil. Lembro da final da Copa, em 28 de junho. Dia de São Paulo. 5 a 2 para o Brasil. Terminada a partida, nos céus, milhares de balões com as cores do Brasil e um foguetório enormo. Que emoção. Que alegria. Imagine o que era ouvir, pela primeira vez, o Brasil ser campeão do Mundo. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Laudizio Jorge Marquesi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: as conversas alheias nas linhas do metrô

Cristina Schachtitz
Ouvinte da CBN

Foto de Andre Moura no Pexels.com

O ano era 2007. Eu trabalhava na Vila Olímpia e morava em Santo Amaro. O trajeto de carro para o trabalho não demorava mais que 12 minutos. Até que uma obra, que não leva nada a lugar nenhum, começou a ser construída ao lado do Parque do Povo, em contrapartida a uma construção monumental na região.

Passei a levar 40 minutos para chegar ao trabalho e mais de uma hora para voltar para casa. A obra travou o bairro. Num desses momentos de desespero, tédio e raiva, parada no meio de um mar de carros, olho para o lado e vejo um trem: por que não?

No dia seguinte, estava eu na Linha Esmeralda, ainda da CPTM, saindo da Granja Julieta em direção à estação Vila Olímpia e chegando ao escritório em 8 minutos — e o mesmo na volta. Era eu e eu no trem. A cada partida, um trecho de uma música clássica. No futuro, com a ligação com a Linha Lilás, o trem lotou, o serviço piorou; com a concessão, piorou ainda mais — e a música parou. Liguei e me explicaram que tiraram porque os usuários não gostavam. Eu gostava, mas não fui ouvida.

Foi nessa época que comecei a prestar atenção nas conversas no trem. Confesso que sempre fiz isso em filas de mercado, em restaurantes, mas no trem era diferente. Muitas vezes, eu só ouvia uma parte das histórias.

Ainda sem as facilidades dos smartphones e sem os aplicativos de mensagens, as pessoas falavam ao telefone. Eu ouvia uma parte e imaginava as respostas.

Muita gente falando mal da chefia, reclamando da patroa, fofocando sobre colegas de trabalho. E eu só criando os diálogos na minha cabeça. Gente que dizia que estava numa estação, chegando já, já, mas que ainda estava umas três antes… E eu até torcia para a voz no alto-falante não anunciar a estação e dedurar a pessoa… Também prestava atenção aos diálogos e a outras histórias compartilhadas.

As pessoas esquecem que estão tornando sua vida pública — afinal, estamos num trem! Então veio a ideia de escrever microcontos, tentando reproduzir o que ouvia e inventando a outra parte ou, simplesmente, escrevendo o que vi e ouvi.

Vamos a algumas dessas histórias:

E no trem, ao celular, a amiga aconselha: “Presta atenção, porque daqui a pouco você estará vivendo um triângulo amoroso e vai ser a última a saber. O seu problema é a comodidade”. E assim começa a semana.

A moça lê no trem Orações e Bênçãos. Uma formiga atravessa as páginas. A moça esmaga a formiga. Que Deus a tenha. A formiga.

A moça segue em direção ao Grajaú. Vai a um velório. Morreu a mãe de uma amiga. O pai também já morreu. Sei porque ela contou para um outro passageiro. Ela liga para três pessoas para “convidar” para o tal velório. Sua mãe, inclusive. Ouve três nãos. Pouco prestígio. Dela e da falecida.

Hoje acompanhei a história de uma babá criticando muito, muito a sua patroa para uma amiga, ao celular. Hilário. Sei o nome da patroa, de uma das crianças, do motorista, da cozinheira demitida e da faxineira da casa da praia… E sei também o preço da diária da folguista.

O rapaz liga para a chefe e avisa que está atrasado. Confessa que perdeu a hora, vai chegar logo. Incrível a mágica que transforma 40 minutos em 40 minutinhos.

E sigo a vida, de estação em estação!

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Conte Sua História de São Paulo: o dia em que uma coincidência me salvou da enchente

Nina Campos
Ouvinte da CBN

Chove na Mooca
Foto: Álbum CBN SP Flickr da ouvinte Ana Lucia Vieira Santos

O ano era 1990, e eu cheguei a São Paulo para fazer cursinho e tentar entrar na faculdade. Embora nascida aqui, passei a infância e a adolescência no interior do Paraná. Minha animação e alegria eram imensas, afinal, sempre sonhei com a “cidade grande” — e que grande!

Fazia cursinho no Anglo da Consolação. Pegava ali o ônibus que me deixava no Largo da Batata, em Pinheiros. Ainda sem o menor conhecimento dos ritos e ritmos da cidade e quase quarenta anos antes dos alertas que hoje a Defesa Civil faz pelos nossos celulares, peguei o ônibus em um fim de tarde, debaixo de um enorme temporal, sem maiores preocupações. Afinal, era só chuva!

Aos poucos, porém, fui ficando assustada. O cenário no trajeto sinalizava algo diferente de tudo o que eu jamais tinha vivido: muitos alagamentos, carros parados, o ônibus seguindo apenas por conta de seu tamanho. No Largo da Batata, o motorista abriu a porta, e eu e mais dois gatos pingados olhamos para fora: a água batia no degrau do ônibus. Olhei para ele e, ingenuamente, disse: “Não dá para descer!”. Enquanto as outras duas pessoas nem pararam e mergulharam na água sem temor, ele respondeu: “Não tem jeito, aqui é o ponto final. Estou indo para a garagem”.

Sem outra alternativa, arregacei a barra da minha calça e, com um nojinho inevitável, comecei a caminhar em direção à minha casa, debaixo do temporal e com a água acima dos joelhos. Para quem se lembra de como era o Largo antes da chegada da Faria Lima nova, fui caminhando por aquela rua estreita, com casinhas dos dois lados, que seguia em direção à igreja da Cruz Torta, sem uma alma por perto. Em certo momento, percebi que precisava caminhar pelo meio da rua, onde a correnteza parecia menos forte e a água estava um pouco mais baixa.

A noite foi caindo. Só tive completa noção do perigo que estava correndo quando, um pouco antes do cruzamento da rua Coropé, jorrava do bueiro uma quantidade de água tão grande que parecia uma cachoeira invertida. Congelei. Olhava para todos os lados e não via ninguém. Obviamente, não passava um carro sequer. Não sabia se seguia ou se voltava quando, de repente, vi avançar uma caminhonete. Os dois faróis acesos, a água na altura do capô, feito o Mar Vermelho se abrindo, e eu, no meio da rua, à frente dela.

Não sei o que me deu. Em vez de sair da frente, estendi as duas mãos para o motorista e gritei: “Páaara!!!”. Ele parou. Abriu o vidro e gritou comigo: “O que você está fazendo aí? Entra já!”. Pois é, pessoal, imaginem onde foi parar o conselho “nunca entre em um carro com estranhos”. Já que estava em perigo, perigo e meio…

Então ele me disse: “Onde você mora, menina? Vou te levar”. E eu: “Na rua Costa Carvalho, fica pertinho daqui”. “Nossa!”, ele respondeu. “Eu morava nessa rua! Que número?”. E eu: “93”. E ele: “Não acredito! Na vila? Eu morava lá também! Que casa?”. E eu: “11”. Aí, pasmem, ele disse: “Não acredito mesmo! Eu morava nessa casa!”.

Pois é, pessoal. Qual a probabilidade de isso acontecer em uma megalópole como esta? Eu não sabia se admirava a coincidência ou se curtia o alívio de ter encontrado um anjo da guarda que, inclusive, sabia onde eu morava! Em poucos minutos, eu estava sã e salva em casa. Nessa vila que, aliás, teve sua fundação feita pelo meu avô, quando tudo por ali ainda se chamava Estrada da Boiada. Mas essa já é outra história desta cidade cheia de pessoas boas… e de boas histórias!

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Nina Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o padre da minha nonna

Silvia Cristina Tiezzi
Ouvinte da CBN

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Quando eu era criança, minha nonna mudou-se de Adamantina para a então distante São Bernardo do Campo. Religiosa, como sempre foi, logo encontrou um lugar para depositar a sua fé: a “Igrejinha da Record”. Simples, acolhedora, quase escondida no cotidiano da cidade.

Anos depois, já adolescente, fui eu quem se mudou para São Paulo, vinda de Adamantina — Adamantina, no interior paulista, não Diamantina, em Minas Gerais. Passei no vestibular da Faculdade Paulistana, na Vila Mariana, e ali mesmo consegui meu primeiro emprego. No segundo ano, transferi-me para a Universidade Metodista. Ainda assim, continuei trabalhando na Paulistana. Naquele momento, eu não imaginava que essas duas fases da minha vida — a da fé herdada e a da formação profissional — guardavam uma ligação invisível.

Anos atrás, movida pela memória, resolvi visitar a igrejinha da minha nonna. Entre pesquisas na internet e conversas com pessoas da igreja, descobri algo que me surpreendeu profundamente. O padre que celebrava as missas frequentadas por minha avó era o professor Azurem Ferreira Pinto, fundador e dono da Faculdade Paulistana. A mesma faculdade em que passei no vestibular, naquele distante janeiro de 1982, e onde tive meu primeiro emprego.

Quando trabalhava na Paulistana, eu sabia que o professor Azurem havia sido padre. O que eu jamais imaginei é que ele fosse justamente o padre da igrejinha que minha nonna frequentou até o seu falecimento. Coincidência? Obra do destino? Coisa de Deus?

A pequena igrejinha cresceu e hoje é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A antiga capela foi preservada, quase como um relicário da cidade. Foi reconstruída no mesmo terreno onde hoje está o Santuário, no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo.

Conversando com uma funcionária do Santuário, soube de outro detalhe tocante. Na época em que minha avó assistia às missas, a igreja ficava dentro de um pátio da Mercedes-Benz, ali ao lado. Foi desmontada tijolo por tijolo e reconstruída no local atual.

Com tristeza nos olhos, ela contou que nem todos os tijolos chegaram ao novo endereço. Alguns foram levados por pessoas que quiseram guardar um pedaço da história como lembrança.

Talvez São Paulo seja feita disso: encontros improváveis, caminhos que se cruzam sem aviso. Fé, trabalho e memória assentados, literalmente, sobre os mesmos tijolos.

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Avalanche Tricolor: será o preço das glórias passadas?

São Paulo 2×0 Grêmio
Brasileiro – Morumbis, São Paulo SP

Gremio x Sao Paulo
Weverton defendeu o segundo pênalti. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Não acredito em maldição. Futebol não se explica por forças ocultas. Ainda assim, quando os números insistem em se repetir, a tentação de buscar explicações fora das quatro linhas aparece.

No fim de janeiro, escrevi nesta Avalanche — talvez sem grande repercussão entre o caro e cada vez mais raro leitor — que o Grêmio havia sofrido 156 gols em 114 partidas nas três últimas edições do Campeonato Brasileiro. Não era estatística solta. Era sintoma. Falávamos de um problema defensivo que atravessa temporadas, troca treinadores, altera esquemas, mas permanece.

Ao lamentar as falhas que nos custaram pontos e tranquilidade em campeonatos recentes, busquei conforto no passado. Pensei se não estaríamos pagando um preço invisível por termos desfrutado, durante oito anos, de uma dupla de zaga que parecia eterna. Geromel e Kannemann nos deram segurança, títulos e uma sensação rara de estabilidade. Talvez tenhamos nos acostumado mal. Talvez tenhamos acreditado que aquilo era regra, não exceção.

E há também o Morumbi. Treze anos sem vencer o São Paulo em sua casa. Treze partidas acumulando frustrações. A última vitória foi em 29 de setembro de 2013. Desde então, o estádio virou território hostil, quase um roteiro repetido. A derrota desta noite não inaugura nada. Apenas prolonga.

Gosto de imaginar que essa conta simbólica tem relação com outra visita ao Morumbi, bem mais distante no tempo: 1981. Ali, conquistamos um Campeonato Brasileiro histórico, dentro da casa deles. Foi uma afirmação de força. Um capítulo que orgulha qualquer gremista.

Se o futebol fosse um livro de mitologia, talvez disséssemos que toda glória cobra tributo. Na vida real, porém, derrotas costumam ter causas mais simples: organização, estratégia, execução, elenco, planejamento. O que hoje parece sina costuma ser apenas problema mal resolvido.

Não creio em maldição. Creio em trabalho. E enquanto tratarmos tropeços como castigo divino, deixaremos de enfrentá-los como desafio técnico. O Morumbis não precisa ser exorcizado. Precisa ser reconquistado.

Porque, no fim das contas, deuses não entram em campo. Quem entra são jogadores — e são eles que precisam mudar a história.

Conheça o Orçamentômetro e saiba para onde vai o seu dinheiro em São Paulo

Foto de Jean depocas on Pexels.com

Você sabe quanto do dinheiro prometido para o seu bairro realmente foi gasto ou investido?

Em São Paulo, essa resposta está ao alcance de qualquer cidadão. O Orçamentômetro permite consultar, a partir do CEP, o orçamento da subprefeitura responsável pela sua região e acompanhar três informações centrais: quanto foi previsto, quanto foi ajustado ao longo do ano e quanto, de fato, já foi executado.

É um caminho direto para acompanhar serviços que interferem na vida cotidiana, como operação tapa-buraco, iluminação pública, manutenção de ruas e zeladoria urbana. O tipo de ação que não aparece em grandes anúncios, mas faz diferença na rotina de quem vive a cidade.

O projeto foi criado pela Agência Mural, com apoio do Pulitzer Center, “para ajudar moradores a acompanharem se o que foi prometido durante o ano foi cumprido em cada uma das subprefeituras de São Paulo e também nas secretarias municipais”. Os dados são oficiais, extraídos do portal da Prefeitura de São Paulo e atualizados diariamente. Eles ajudam a transformar números abstratos em elementos concretos de acompanhamento e cobrança. A ferramenta não avalia a qualidade do gasto. Mostra algo mais básico e igualmente relevante: se o dinheiro saiu do papel.

Acompanhar o orçamento da subprefeitura é acompanhar o trabalho que chega — ou não — à porta de casa.

São Paulo tem 32 subprefeituras. De acordo com os dados mais recentes do Orçamentômetro, sete delas executaram mais de 100% do orçamento inicialmente previsto. Oito delas chegaram a pelo menos 90% de execução.

No outro extremo, quatro subprefeituras não conseguiram investir nem 70% do que estava planejado: Sapopemba, Campo Limpo, São Mateus e Perus. No caso de Perus, a execução ficou em apenas 43% do orçamento previsto.

Quando o leitor entra nos detalhes, os números ganham ainda mais significado. Não houve execução de recursos em áreas como reforma e acessibilidade em passeios públicos, operação tapa-buraco, atividades culturais, desenvolvimento de espaços participativos e manutenção da Operação Descomplica.

Em um dos principais eixos de investimento local — Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros, que concentra o plano de obras das subprefeituras — a execução em Perus ficou em apenas 11%.

O Orçamentômetro oferece mais do que respostas prontas. Ele entrega dados bem organizados que ampliam a capacidade de acompanhamento, fiscalização e participação do cidadão na gestão da cidade.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: nos Correios, trabalhei com telegrama fonado

Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios

Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”

Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex. 

O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado. 

O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama  fonado.  Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas. 

Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.

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