Conte Sua História de SP: na rua da viração, minha pensão tocava fado

 

Por Agnes Fátima Cavalheiro Gati
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Guardei, em segredo, essa lembrança de quase 40 e poucos anos de minha chegada a São Paulo, em 1970. A interiorana de Piraju, cidade que em guarani significa peixe dourado. Saí de lá para morar e estudar na capital. Na época, o interior parecia estar adormecido, esperando na janela as muitas mudanças prometidas. Estudar e fazer faculdade eram o sonho de todos os adolescentes, mas era preciso vir para São Paulo.

 

Lembro-me da minha chegada de ônibus, sozinha, vendo o dia amanhecer. Da parte bem alta da rodovia Raposo Tavares, comecei a avistar a terra sonhada. Tive a mesma sensação de quando, aos sete anos, pisei pela primeira vez nesta terra incrível. A mesma imagem, inesquecível! Uma  imagem que guardei e que avistei de novo para sempre a  imensidão  sem  fim  de  prédios.  Ajeite-me na poltrona,  procurando sossegar o corpo, que se agitava ao se deparar com aquele imenso horizonte acinzentado, mas cheio de magia e esperança!

 

O ônibus parecia seguir o caminho sonhado em meus muitos sonhos acordados. Sempre quis morar na capital. Meu pai não se conformava, pois achava um absurdo viver em uma cidade louca como São Paulo.

 

– Essa Vermelhinha, sempre dando trabalho. Por que São Paulo?

 

Vermelhinha era o meu apimentado apelido.

 

A chegada à rodoviária foi assustadora. Muitos medos foram colocados em minha cabeça, para que eu desistisse. Os meus olhos se agitavam por todos os lados. Sentia, como diz a música caipira, “o sangue ferver”. De repente, uma pitadinha de desespero começou a tomar conta de mim, a começar pelo cenário macabro da rodoviária, da Estação da Luz. Parecia que estava vivendo um filme de terror, desses bem hollywoodianos, com todos os possíveis truques e efeitos sonoros  e visuais. Pela primeira vez me deparava com pessoas muito maltrapilhas. Era assim que referíamos às pessoas pobres e mal vestidas,  um cenário que aliás, se repete nos tempos de hoje em qualquer canto da cidade e do Brasil.

 

O primeiro susto passou e eu passei a driblar os muitos outros medos que toda hora pareciam me pegar.

 

O segundo susto veio a galope, meu Deus! Cheguei ao pensionato para “Moças”, na pensão da Dona Lourdes, uma portuguesa incrível, lá do bairro de Santa Cecília.

 

A indicação foi dada por um ex-aluno de minha mãe, com a maior das boas intenções. Obviamente, não conhecíamos nada e muito menos sobre a rua em que eu iria morar. Ah, mas essa rua tinha muitas, mas muitas histórias. Hoje entendo o porquê da famosa rua que nada mais era que um “local de viração”: era a famosa “boca do luxo”, a rua Major Sertório, onde ficava a boate “La Licórnia”.  

 

Entretanto, como eu era do interior e mal conhecia a cidade, como haveria de conhecer tal rua e ainda essa boate?  Só passei a perceber quando dava o meu endereço a alguém e aí sim via uma certa reação das pessoas que, visivelmente, estranhavam o lugar onde eu morava.  Ainda com os resquícios   de   espírito   interiorano,   bem   inocente,   não   percebia   nada.  Achava   que   morava   hiper bem,   principalmente   por   ser   pertíssimo   do   meu cursinho,  o   Equipe.   Hoje entendo   o   porquê   de   Carlos,  hoje   meu  marido,  e namorado na época, fazia um esforço sobre-humano para me visitar todos os dias.

 

Comecei a sentir uma pressão anormal, não podia sair sozinha nunca, um paparico incomum, e ainda por cima, a única que não tinha a chave daquela pensão. Dona Lourdes, era maravilhosa, me tratava com todo cuidado e dizia que estava atendendo as recomendações dos meus pais. Quanta delicadeza e quanto carinho! Quantas noites passamos, no terracinho gostoso e aconchegante daquele sobradinho da Major Sertório, quase esquina com a Rua Maria Antonia, conversando, cantando e ouvindo violão…ela e Carlos davam um show todas as vezes que ali ficávamos. E os fados invadiam noites a dentro.

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Conte Sua História de SP: dormi no ponto enquanto sonhava dirigir o ônibus

 

Por Jucélio Coyado Silva

 

 

No Conte Sua História de SP o texto do ouvinte-internauta Jucélio Coyado Silva:

 

Eu estava com cinco de idade, quando, em 1979, fui com meu pai a Igreja em São Miguel Paulista, zona leste da cidade.

 

Pegamos o ônibus 2059 Circular Guaianazes, na Avenida Nordestina – esse ônibus saía da estação São Miguel Paulista, passava pela Avenida Nordestina até Guaianazes e de lá pegava a estrada do Lajeado e a estrada Dom João Nery até o Itaim Paulista, e retornava a São Miguel pela Marechal Tito.

 

Minha aventura era ficar no banco da frente simulando os movimentos que o motorista fazia ao dirigir o ônibus. Naquele dia não foi diferente: entramos no ponto de partida, passei por baixo da catraca e fui cumprir meu ritual. Meu pai estava mais atrás conversando com seus amigos. Com o passar do tempo, dormi no banco da frente e, no desembarque, meu pai, distraído, desceu e me deixou lá.

 

Ele chegou em casa, trocou de roupa, colocou o pijama e foi dormir. Antes, minha mãe que cuidava de meus irmãos comentou: “estranho, o Jucélio chegou nem comeu nada e já foi dormir!” Ao entrar no meu quarto, estava vazio.

 

Foi então que a luz acendeu: “deixei ele no ônibus”, disse meu pai para desespero da mamãe.

 

Enquanto isso, só acordei quatro quilômetros depois do ponto em que deveria ter descido. Já estava no Itaim Paulista. Olhei pra trás e não encontrei meu pai. Apesar de perceber que estava perdido, não me apavorei. Deixei passar umas seis paradas e pedi para o motorista descer mais à frente. Ele quis saber onde estava meu pai e eu disse que ele havia desembarcado lá na padaria do Jardim Nazaré.

 

Diante do receio do motorista, expliquei que se ele me deixasse dois pontos pra frente eu iria para a casa da minha na rua Inhabatã, 308. Desci e fui correndo até a última casa, pulei o muro, entrei no quintal e bati na porta. Meu tio João, assustado, atendeu e gritou para a vó: “é o Jucélio da Cida!”.

 

Em época na qual telefone fixo era raridade, assim como orelhão, meu tio me pegou pela mão e foi até a estação de trem de São Miguel, onde imaginava encontrar meu pai.

 

Lá em casa, a mãe estava apavorada. O pai, mais calmo, orou a Deus e pediu proteção, antes de sair a minha procura.

 

Sem ônibus para levar-me em casa, tio João pegou um táxi. Já devia ser um ou duas da madrugada. O farol do táxi iluminou as ruas escuras do meu bairro. Nisso vi minha mãe andando de um lado para o outro, desesperada. Mais calma, coube ao tio João seguir sua busca: agora era preciso encontrar papai que estava atrás de mim em algum lugar qualquer da região.

 

Jucélio Coyado Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Mais uma tarde nos museus

 

 

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“ComCiência” de Piccinini, no CCBB/RJ

 

 

Ainda inspirado em  “Uma tarde no museu” do meu colega e colaborador de blog, Carlos Magno Gibrail, me deparei com a reportagem publicada pelo site de O Globo, na qual estão listadas as dez exposições mais populares de 2016. Curiosamente, quatro estão aqui no Brasil, três no Rio de Janeiro e apenas uma delas em São Paulo. Os dados são do site The Art Newspaper e o ranking leva em consideração o número médio de visitantes por dia.

 

 

Foi o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, que ocupou o topo da lista ao receber as três exposições mais populares do ano, segundo critérios do ranking: “O triunfo da cor: o pós-impressionismo”, teve 9,7 mil visitantes por dia; “ComCiência”, de Patricia Piccinini, 8,34 mil; e “Castelo Rá-Tim-Bum”, 8,28 mil. Todas as mostras são de graça no CCBB.

 

 

São Paulo aparece em sexto lugar com a exposição “Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México”, montada no Instituto Tomie Ohtake, com média de 6,5 mil espectadores por dia.

 

 

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Tabela reproduzida do The Art Newspaper

 

 

Os números chamam atenção e devem ser comemorados, mesmo que se tenha de levar em consideração o fato de outras mostras pelo mundo terem levado muito mais pessoas às suas dependências , porém como ficaram abertas por mais tempo tiveram a média diária empurrada para baixo.

 

 

Exemplo: “Picasso Sculpture”, no Museu de Arte Moderna de Nova York, foi a exposição que, conforme o próprio ranking, recebeu o maior número total de visitantes, com 851 mil pessoas, apesar de aparecer apenas em nono lugar no ranking com 5,8 mil visitantes por dia.

 

 

Outro exemplo:  a mostra do “Castelo Rá-Tim-Bum” teve 410 mil espectadores durante os seis meses no MIS, em São Paulo, e 38,2 mil, no CCBB no Rio. Só os números do museu carioca aparecem com destaque na lista.

 

 

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Frida Kahlo foi destaque positivo em SP (foto divulgação)

 

A presença de turistas para os Jogos Olímpicos e o fato de ser a mais conhecida cidade brasileira no exterior colaboraram para que o Rio de Janeiro se destacasse no ranking. O protagonismo do CCBB,  sua localização privilegiada e ingressos de graça, também.  De qualquer forma, é importante pensar sobre os motivos que deixam São Paulo mais atrás nessa classificação, mesmo tendo um número relevante de museus e rico acervo artístico.

 

 

O esvaziamento do MAC SP, citado por Gibrail em seu texto aqui no Blog, é perceptível em outros espaços.  O MASP, mesmo diante da riqueza de suas obras, tornou-se irrelevante.

 

 

Para meu colega de rádio José Godoy, a quem pedi ajuda para refletir sobre o tema, “São Paulo passa por uma crise importante em seus principais museus”.

 

 

As salas vazias possivelmente ecoam o abandono da gestão e a falência do Estado. O mal do MASP pode ser visto também no Museu de Arte Moderna e na OCA, que tiveram passado glorioso  na cidade, mas estão cambaleando. Assim como a Pinacoteca que após conquistar o coração do paulistano tornou-se secundária.

 

 

A acessibilidade desses espaços, seja pelo transporte seja pelo preço, é fundamental para que se redescubra a riqueza das obras nos acervos à disposição. São Paulo ganha na cultura, na educação e na renda se investir no setor.

 

 

O turismo cultural é importante para o desenvolvimento econômico e não pode ser negligenciado. Explorar todo e o seu melhor potencial é preciso.

Uma tarde no museu

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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Na tarde dessa terça feira, decidi experimentar um roteiro cultural como visitante da cidade de São Paulo. Afinal, é a maior receptora de turistas no Brasil. São mais de 11 milhões por ano, número equivalente a sua população, e tem o mais qualificado acervo artístico com inúmeros museus e um poderoso calendário de espetáculos teatrais e musicais do país.

 

O MAC Museu de Arte Contemporânea foi o destino escolhido, pois apresentava uma nova exposição, “Os desígnios da arte contemporânea no Brasil”, reunindo a obra de nove artistas de diferentes regiões do Brasil.

 

Datado de 1963, o MAC na sua origem tem tudo a ver com a cidade, pois surgiu da doação de Ciccillo Matarazzo e esposa, mecenas cuja fortuna veio da atividade empresarial da família oriunda da Itália, e efetivada em São Paulo.

 

Hoje, sua sede está em frente ao Parque do Ibirapuera, criada por Niemayer, onde guarda parte das obras como as de Modgliani, Picasso, Kandinsky, Chagall, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, etc.

 

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“Os desígnios da arte contemporânea do Brasil”  com a curadoria de José Antonio Marton se presta bem para desmistificar o entendimento da arte, pois, assim como para apreciar um bom prato não é necessário que sejamos um “chef”, para usufruir da beleza e do significado de uma obra de arte, basta vê-la e senti-la. Visão e emoção são suficientes.

 

O MAC ainda apresenta outras exposições como atração para um ótimo passeio, além da beleza do edifício e da vista panorâmica da cobertura. A entrada é gratuita, assim como o estacionamento, com destaque ao bom atendimento de todos os funcionários do museu.

 

É de se estranhar a pouca visitação constatada, o que não condiz com o que ocorre em outras cidades estrangeiras do porte de São Paulo. Apenas nos fins de semana, talvez como subproduto da visitação do Parque Ibirapuera a frequência é diferente.

 

O MAC pode e deve ser mais usado pela cidade. Visitantes e moradores.

 

Exposição: Os Desígnios da Arte Contemporânea no Brasil
Curadoria: José Antônio Marton
Abertura: 25 de março de 2017, a partir das 11 horas
Encerramento: 30 de julho de 2017
Funcionamento: Terça das 10h às 21h, quarta a domingo das 10h às 18h
Local: MAC USP Ibirapuera – Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301
Telefone : 11 2648.0254 (recepção) – 11 2648.0258 (educativo)
Entrada gratuita

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

Conte Sua História de SP: a lição de meu avô que foi prefeito de São Paulo

 

Por Maria de Lourdes Figueiredo Silo
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Tive um tio avô revolucionário. Foi prefeito de São Paulo, em 1932, e, apesar de ser engenheiro, um dos fundadores da Escola Politécnica, era um grande filósofo! Por isso custei muito a entendê-lo, achava suas conversas cifradas, num código que não dominava e ouvia-o mais pelo agradável que era como pessoa do que pelo que dizia. Seu nome era Henrique Jorge Guedes.

 

Como todo bom paulista da época, era anti-getulista, morava na Avenida Higienópolis e ainda plantava café em sua fazenda São Pedro perto de Pinhal. Havia mesmo, é claro, participado da Revolução Constitucionalista de 32, fato que, naquele tempo, não admitia releituras; orgulhava-se disso!

 

Porque lembro do tio Henrique hoje é o que tento me explicar.

 

Talvez só agora, ao lembrá-lo, entenda muito de seus sábios pensamentos!  Lá pelos anos 1950 visitei-o pelas últimas vezes, vizinha quase que era dele, pois havia ido estudar em São Paulo e morava em um pensionato na rua Maranhão. Já com mais de 80 anos, uma cabeça branquinha, mas muito inquieta, percorria comigo o mundo, talvez para testar meus parcos conhecimentos e informações, não sei.  Sua voz ainda era linda! Grave e forte como de um moço; sabia usá-la de maneiras diferente, imprimindo emoção adequada a cada palavra. Foi nesta época que recitou-me um verso que teimosamente recordo agora:

 

 

“Saudade, triste saudade

único bem que me resta.

Por toda parte que vou

eu sinto cheiro de festa,

e sei que a festa acabou…”

 

 

Lembro que ao ouvi-lo, senti em sua voz uma grande nostalgia do passado, do qual era agora passivo observador….

 

Acredito que este pensamento se dê aos poucos, devagar, quase imperceptivelmente. Uma manhã, não encontramos nenhum conhecido na rua, no outro não recebemos convite para a festa, certa noite está muito vento para sairmos, e aos poucos vamos ficando à margem desta grande festa que é a vida.  Festa com dia marcado para começar e acabar. Preparam-nos tanto para ela, mas não para o final, quando tudo se resume no “cheiro de festa” que termina. Entramos nela carregados de supérfluos, aos poucos vamos nos desvencilhando dos enfeites, bijuterias, presilhas, laços e terminamos limpos, como nascemos.

 

Valemos nela, quase sempre, pelo que temos, ostentamos, acumulamos, pelo que “carregamos” e pouco pelo que somos. E tudo isso pesa, incomoda, não permite que, soltos, dancemos a valsa, provemos as iguarias, escutemos a música, percebamos o perfume das flores que enfeitam o salão e muito menos o clarão da lua. E cada vez queremos mais, porque é isso que vale, é isso que conta nesta festa, onde cada um aproveita como pode, já que todos são convidados e, obrigatoriamente, devem estar presentes….

 

Diz a sabedoria popular que quando o passado se torna muito presente, é sinal que a “festa está no fim”. Será?

 

Maria de Lourdes Figueiredo Sioli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: meu pai lavava o fusca na cachoeirinha da vila

 

Por Ivan Miranda
ouvinte-internauta da CBN

 

 

Tenho 58 anos e moro no Bairro do Limão. Sou paulistano da gema, nascido na maternidade São Paulo, coração da cidade. Minha infância foi passada na Vila Santa Maria, uma das muitas vilas que se formaram ao longo da Avenida Deputado Emílio Carlos, uma estrada asfaltada, como poucas existiam no começo dos anos 1960, que ia do Largo do Limão até Largo do Japonês, passando por uma pequena cachoeira.

 

Aos fins de semana meu pai nos levava até a cachoeirinha para lavarmos o nosso amado fusquinha. Era o lava-rápido da época.   As pessoas encostavam os carros, pegavam seus panos, baldes e produtos de limpeza e aguardavam a sua vez, enquanto o restante da família trazia sanduíches e garrafas de refrigerantes em vidro de 1 litro.  Fazíamos um piquenique improvisado e era sempre uma alegria.

 

Com o progresso chegando, os bairros que outrora pareciam cidades do interior foram crescendo, empurrando a periferia para cada vez mais longe; a paisagem foi se modificando, sempre com mais asfalto e concreto e menos verde. Hoje, onde existia a cachoeirinha e sobre o córrego Cabuçu que desagua no Rio Tietê, passa a Avenida Inajar de Souza que vai até o Terminal de ônibus de região.

 

O que resta da saudosa cachoeira é o nome do bairro: Vila Nova Cachoeirinha. E, claro, a memória de momentos felizes de minha infância.

 

Ivan Miranda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo:

 

Por Neivia Justa
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Era 1984 e eu passava férias na cidade de São Paulo, pela primeira vez, na casa de amigos dos meus pais. O Brasil fervilhava com o comício das Diretas Já na Praça da Sé.  Fiquei fascinada pelo astral e o mundo de possibilidade da terra da garoa.

 

Foi nessa época que também caí de amores pelos sabores do Almanara, o friozinho e os morangos de Atibaia, e a maestria do Fagundes encenando Morte Acidental de um Anarquista.

 

Política, comida, diversão e arte.

 

Tive a certeza de que São Paulo era o meu lugar no mundo, apesar da inexistência de qualquer vínculo ou passado que nos unisse. Não nasci aqui. Meus amigos de infância, adolescência e faculdade não são daqui. Sou do Nordeste, do Ceará, de Fortaleza, Santa Quitéria, João Pessoa, Natal, Recife, Garanhuns, Maceió.  Minhas lembranças dessa fase têm cheiro e sabor de maresia, dunas de areia branca, sol, brisa, cores fortes, música, alegria e uma família gigante.

 

São Paulo foi a minha escolha de vida adulta. Minha alma paulistana falou mais alto que qualquer raiz. Aqui eu construi minha carreira e minha família.  Sou completamente apaixonada por essa cidade, onde tudo é possível.

 

Um extrato do mundo. Uma megalópole que nunca me intimidou. Ao contrário, me desafia e me seduz um pouco mais a cada dia. Há quase 24 anos. Apesar dos pesares. Do cinza. Do céu sem estrelas. Do trânsito caótico. Da violência urbana.

 

Adoro a diversidade cultural, intelectual, religiosa, gastronômica, espiritual, sensorial, profissional que a cidade oferece. Sempre me emociono com a beleza das árvores, do pôr do sol e das noites de lua cheia que vejo e vivo por aqui.

 

Morro de orgulho das minhas filhas paulistanas.

 

Neivia Justa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio.

Como saber quanto o vereador gasta por mês do seu dinheiro

 

Por Mílton Jung

 

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Que o dinheiro que sustenta a Câmara Municipal é o seu, imagino, não haja mais dúvida. A Casa é pública e, portanto, para funcionar o dinheiro é público ou seja é do cidadão. É nosso. É dos nossos impostos.

 

Agora, você tem ideia de quanto o vereador que você elegeu gasta do seu dinheiro?

 

Em São Paulo, é possível fazer esta consulta no site da Câmara Municipal. Talvez seja preciso um pouco de paciência mas os dados estão todos por lá.

 

O nosso colega Alecir Macedo, um dos fundadores do Adote um Vereador de São Paulo, nos ajuda a fazer essa busca em poucos passos. Ele próprio fez este trabalho na fiscalização da vereadora que decidiu adotar nesta legislatura: ADRIANA RAMALHO PSDB.

 

Lá no blog Fiscalizando a Câmara, mantido pelo Alecir, está em destaque o relatório mensal de gastos da vereadora, neste início de legislatura. Dos R$ 23.503,13 disponíveis para manter o gabinete dela foram pagos R$ 4.232,89, no mês de janeiro.

 

O valor está bem abaixo do que os maiores gastadores da Câmara nesse início de ano: DALTON SILVANO DEM com R$ 19.849,15 e TONINHO PAIVA PR com R$ 19.721,73.

 

Este dinheiro paga combustível, material de correio e material de escritório entre outras despesas. O valor gasto é ressarcido ao vereador a medida que apresenta as notas fiscais, que também devem ser publicadas no site. Caso ele não use esta verba no mês, o que sobrou pode ser usado nos meses seguintes

 

Como você pode encontrar este valor?

 

Entre no site da CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO e clique no ícone TRANSPARÊNCIA que aparece no alto da página:

 

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Vai aparecer um menu.

 

Clique em CUSTOS DE MANDATO.

 

Em seguida em “Clique aqui e saiba como o seu vereador utiliza o Auxílio-Encargo Geral (a partir de 2015)”

 

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Na página RELATÓRIO POR NATUREZA DE DESPESA (A PARTIR DE 2015) você põe o mês em que pretende fazer a consulta e clica em RELATÓRIO.

 

CAMARA 3Vai abrir uma página com todos os valores declarados pelos vereadores, em ordem alfabética, e dos gabinetes de liderança.

 

Para achar o seu vereador ou você corre a lista para baixo ou dá um F5 no seu computador e coloque o nome de quem você está procurando.

 

No exemplo, procuramos os gastos do vereador DALTON SILVANO DEM:

 

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Se você já se decidiu por fiscalizar um vereador, abra uma página no Facebook, um site, um blog ou um Tumblr e publique esta tela de gastos.

 

Avalie se os valores são razoáveis. E se considerar algum gasto fora do normal, mande um email para o vereador cobrando uma justificativa.

 

Caso queira ir um pouco mais fundo na fiscalização, compare os valores registrados na tabela com as notas fiscais que os vereadores são obrigados a divulgar no site. Volte para CUSTOS DO MANDATO e, em seguida, vá até Clique aqui para visualizar os comprovantes.

 

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Lembre-se: o dinheiro é seu!

 

Conte Sua História de SP: saudades dos aviões da PanAir que jamais voei, em Congonhas

 

Por Rubens Cano de Medeiros

 

 

 

 

De meus atuais 69 aninhos, os primeiros vinte foram acolhidos por nossa modesta casinha – que “nossa” nem era – na então romântica Vila Mariana. Desde 1948. Eu tinha um mês de vida.

 

Foi então que a Avenida 23 de Maio resolveu chegar e arrasou a colossal chácara. com a qual nosso quintal confrontava. Tivemos que mudar: “mudaram-nos”, na verdade!

 

E fomos para uns dez quilômetros de longe, Vila Guarani, perto da cabeceira da pista de Congonhas, “do lado do Jabaquara” – a casinha que viemos a construir era nossa de verdade.

 

Lembro bem. Nossos novos vizinhos, solícitos; um simpático casal de portugueses, “seu” José e dona Amália, filha brasileira. Ele, mecânico de aeronaves. Da Varig, num dos hangares de Congonhas. Gente boa!

 

“Duas pátrias, um só coração” – era o laborioso mecânico de além-mar. Amava o Brasil. Amava Portugal. Lembro, ele me confidenciava – “ia até as lágrimas”, emoção e saudade! Bastava que visse o avião! Só de ver!

 

Trabalhando, pois, no Aeroporto, calhava de ele ver o belo quadrimotor “a pistão”, Douglas DC-7C, branco, prata e traços verdes! Belo pássaro! Muitos lembrarão.

 

Lembro, também. Era o “Voo da Amizade” – trazia, inscrito na fuselagem, o possante quadrimotor americano: “Panair do Brasil – TAP” (a empresa portuguesa). São Paulo a Lisboa (e vice-versa, pá!).

 

Sim, sinhoire! Bastava o “seu” José ver o avião – “em pessoa” – “ver é preciso; voar nem é preciso” – que até lágrimas – dizia-me ele – gotejavam-lhe no macacão de brim azul… Eram, pois, lágrimas da Panair!

 

Sempre gostei dos aviões. Notadamente os que me sobrevoavam a infância, a adolescência, a mocidade. Dentre eles, o Douglas DC-7C, Seven Seas, chamava-o a mãe, a fábrica Douglas, da California. Era “meu preferido”!

 

Como não lembrar? Belo, veloz, possante – mesmo em não sendo um jato; confortável, espaçoso. Hélices que refulgiam à luz do sol, cintilavam sob luar: poético, inclusive! O que eu diria dele? Viagens transoceânicas. O que eu achava? Soberano! Meu preferido! Douglas DC-7C! Eu não o trocava por outro!

 

Quantas vezes nele voei, eu?! Ora: nunca, jamais, nenhuminha. Nem em avião algum – nem teco-teco! Agora, morrer, morri… mil vezes. Se morri. De vontade. De entrar, lá no Congonhas, no “Voo da Amizade” – voar, São Paulo – Lisboa, Lisboa – São Paulo.

 

Quando voltasse – ah! –, assim que a porta do DC-7C abrisse, eu… Do alto daquela escada de embarque (e desembarque)… Lágrimas? Não. Respeitosamente, eu, não! Eu… Eu ia era descortinar um enorme sorriso – alegria, contentamento, emoção!

 

Eô-eô – voei! Um sorrisão! Um sorriso, da Panair – sim, senhoire!

 

Pena que findou.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: meu primeiro Carnaval de rua, na Vila Esperança

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

 

Imagine a época em que ainda existia Carnaval de rua em São Paulo. Hoje, essa tradição está voltando. Eram cordões, bandinhas com instrumentos rudimentares, confete, serpentina, gente fantasiada e muita alegria. Tudo o que se tinha direito a um bom desfile popular. Nunca eu havia assistido nada parecido e ainda era ao vivo e em cores, como se dizia naquele tempo.

 

Para nós, o Carnaval eram aqueles fatídicos banhos de espuma ou de água das guerrinhas que os moleques faziam entre si e que também jogavam nos poucos carros que passavam pelas ruas do Brás, onde eu morava na minha infância.

 

Meu cunhado tinha uma “parenta” na Vila Esperança, na zona Leste, onde lá sim desfilava um tradicional bloco carnavalesco. Todo ano, ele tentava me carregar para lá, mas a minha mãe não deixava: “Carnaval é confusão, dá briga, tem homem vestido de mulher, uma coisa absurda, não é bom para o menino”.

 

Mas, naquele Carnaval, já com 10 anos, consegui uma deixa para que fosse com ele e com a minha irmã: “Ele já está grandinho, não há problema, mamãe, nós vamos olhá-lo bem”, dizia ela.

 

Imediatamente, fui contar a novidade para todo mundo na rua: “pessoal, eu vou no Carnaval, vou sair fantasiado, vou até aparecer na televisão”. É claro, tudo mentira, e os garotos não acreditaram, mesmo assim ficaram com a maior inveja. Eles também não saiam muito longe, para nada além de ir à Igreja ou à escola, uma ou outra quermesse. Filmes também eram na Paróquia Santa Rita de Cássia, sabe, igual ao Cine Paradiso; só uns anos depois abriu na Avenida Celso Garcia, o Cine Universo. Agora é um prédio da Igreja Universal (combina um pouco com o nome antigo, não?).

 

Na verdade, a questão é que o tal do desfile era na terça-feira, chamada Gorda. Sinceramente não sei o porquê deste apelido.

 

Neste dia a rua da minha casa, devido ao feriado, parecia uma cidade abandonada: ninguém, nenhuma viva alma, nada para fazer, toda a garotada aproveitando para dormir até tarde. Nas casas preparavam-se almoços que seriam regados à cerveja ou vinho e depois o pessoal iria roncar nas poltronas das salas ou nos quartos, como preferissem.

 

Tudo muito calmo, menos eu. É que na noite passada não consegui dormir direito …

 

e havia acordado de mau humor. Imaginem um molequinho de mau humor, nada mais engraçado, não é?

 

“Meu filho, quer mais manteiginha no pão?”
“Nada não.”
“Porque isso benzinho, você sempre come bem de manhãzinha”
“Não enche mãe, estou esquisito hoje”
“Olhe, não responda assim que o papai do céu castiga, hem!”
“Chega disso, só quero café preto e pronto, estou muito nervoso”.

 

Então saí pela rua deserta. Bati na casa dos coleguinhas. Que nada, muitos tinham saído, outros ainda estavam dormindo, nenhum movimento a não ser os visitantes que chegavam com as suas roupas de domingo. Meus outros dois irmãos haviam viajado para o interior, para uma chácara de meu tio. Arre, meus pais, o que eu iria ficar fazendo com eles até a chegada da hora do desfile?

 

Naquela época não gostava de ler. Na TV não tinha programa bom e nem tampouco havia transmissão de desfiles de carnaval. O rádio era exclusividade do meu pai quando estava em casa.

 

“Vai comprar uma meia dúzia de ovos para eu fazer uma omelete.”

 

Lá fui eu na venda, comprei o que minha mãe pediu, voltei para casa. Daí que olhei para o relógio e parecia que ele estava parado, petrificado. A bendita hora não passava.

 

“Mãe, que horas é o desfile lá na Vila Esperança?.”
“Às 3 da tarde, ainda falta muito, são 10 horas ainda”

 

Ficava cada vez mais ansioso, sentia o coração acelerado. Não conseguia me controlar. Não podia imaginar nada, só ficava martelando na minha cabeça aquele Carnaval que não chegava nunca.

 

Saí no quintal e resolvi jogar bola. Pô, que coisa mais chata. E brincar sozinho, poderia? Sim, mas não naquele dia. Minha imaginação parecia bloqueada, branca, opaca, sei lá. Outra vez conferi o horário: 10 e quinze. Súbito pensei que ia enlouquecer. Nunca havia tido isso antes e fiquei com muito medo e afastei rapidamente aquela onda de energia malévola.

 

Bom, podia sair na rua e andar. Fiz isto. Estava com muita ansiedade. Porém ia até o fim da rua e voltava. Nem para isso eu estava criativo. Fiquei assim até a hora do almoço. Então resolvi comer bastante para passar mais o tempo.

 

“Nossa você comeu tanto hem, vai fazer mal, cuidado.”
“Não se preocupe, estou com fome mesmo.”

 

Depois de almoçar, escovei os dentes, tomei banho, me troquei e fiquei prontinho esperando o casal chegar para me levar ao tão esperado evento. Fiz tudo isso devagar, ganhando tempo, e aí com muito receio verifiquei: era 1 e meia  da tarde, faltavam 60 minutos, 1 hora inteirinha para nós sairmos do meu bairro até o local do grande encontro.

 

Passei o período restante contando minuto por minuto até deixar minha casa.

 

Para chegarmos lá, também a hora não passava. Pior. Foi um congestionamento, tudo por causa do excesso de carros e de pessoas nas ruas, o que atrasou bastante a nossa chegada.

 

Ainda mais essa!

 

Chegamos bem depois das 3, nem sei que horas eram, e o desfile já estava no fim, tinha só um carro; e uns músicos; e umas poucas pessoas fantasiadas.

 

Mesmo assim adorei aquele espetáculo: maravilhoso, lindo, deslumbrante. Sabe o que eles cantavam: “O trem das Onze” do Adoniran Barbosa, era a marchinha final do dia.

 

Valha-me Deus, a minha alegria era tanta que até chorei. E ria também.

 

Sinceramente sentia vontade de entrar no meio deles e sair sambando e cantando, mas não podia, porque tinha um cordão de isolamento.

 

Todavia a minha satisfação foi enorme, pena que acabou rápido demais, o meu primeiro Carnaval de verdade.

 

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br .