Onze de setembro: a necessidade de se investir na reportagem

Foto Wikipedia

(4a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro)

ÚLTIMA PALAVRA

Duas guerras de cobertura global se seguiram ao atentado de 11 de setembro, uma no Afeganistão, outra no Iraque. Em ambas, o rádio brasileiro ficou à mercê dos meios de comunicação estrangeiros. As imagens das emissoras de televisão e as informações emitidas pelas agências internacionais municiaram o noticiário. Nossos homens não estava, no campo de batalha, mas diante do aparelho de TV. para consertar os desvios provocados pela visão tendenciosa da cobertura restou a permanente discussão com “especialistas”— que poderia ser alguém dotado de excepcional saber ou um palpiteiro de plantão, dependendo da qualidade da agenda do produtor.

Da batalha contra Osama bin Laden, em 2001, para a que derrubou Saddan Hussein dois anos depois, os brasileiros se beneficiaram em parte pela presença de um repórter de língua portuguesa, em Bagd. Carlos Fino foi o correspondente da RTP – Rádio e Televisão Portuguesa — e, graças ao acordo que essa emissora pública mantinha com a TV Cultura de São Paulo, suas reportagens eram reproduzidas no Brasil. Logo, o repórter passou  afazer intervenções ao vivo, que chamaram a atenção das rádios, todas atendidas mesmo durante a madrugada de Bagdá. O repórter “sentia que tinha essa obrigação como português falando para um país de língua portuguesa:, como escreve no livro A guerra ao vivo (Verbo, 2003).

Não bastassem a facilidade de comunicação e a presteza em atender aos chamados do Brasil, Carlos Fino foi o repórter que, ao lado do colega da RTP, o cinegrafista Nuno Patrício, anunciou o início da guerra do Iraque, furando as demais emissoras que se preparavam para a batalha contra Sadan.

Os correspondentes de grandes redes dormiam, muito provavelmente por terem confirmação oficial de que os ataques começariam no dia seguinte. Carlos e Nuno, não. Mesmo porque não recebiam informações privilegiadas. O que ninguém imaginava é que o serviço de inteligência americano obteria dados de última hora sobre a presença de Saddan Hussein em um palácio próximo ao hotel em que as equipes de jornalismo se hospedaram. E o início da guerra seria antecipado.

Fino acabara de participar de um program de debates da RTP, Informação Especial Iraque, em plena madrugada, quando os estrondos se iniciaram. Fez novo contato pelo videofone – um computador que processa sinais de vídeo da câmera antes de introduzi-los no telefone por satélite — para avisar dos bombardeios. A primeira reação dos jornalistas na redação de Lisboa foi de dúvida: “não pode ter começado, a CNN não está dando anda”. A CNN dormia e Carlos Fino teve de convencer o pessoal para ir ao ar com um “furo” internacional, destacando na época apenas no Brasil. Em conversa informal, após entrevista sobre a participação dele na guerra, Fino me contou o caso e brincou: “se é na BBC e o repórter diz que chove canivete, a redação acredita, mesmo que faça sol do lado de fora”. Para ele, a última palavra é do repórter.

A história de um jornalista de televisão talvez não seja a ideal para encerrar um livro que se propõe debater o radiojornalismo. Mas a ideia não me incomoda, já que as bases para um trabalho ético e de qualidade são as mesmas, esteja em qual veículo estiver. No entanto, vou aproveitar um caso que aconteceu no rádio e ilustra bem a necessidade de se investir na reportagem.

Em 2 de outubro de 1992, véspera da eleição no Brasil, houve rebelião de presos do Pavilhão Nove, da Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. A polícia invadiu o local e ao sair deixou 111 pessoas mortas. História contada com a sensibilidade da escrita do doutor Dráuzio Varella e da criação do cineasta Hector Babenco e em centenas de artigos, reportagens, livros, além de uma peça jurídicas que mostra com detalhes e laudos os fatos ocorridos naquela que a princípio seria apenas uma uma sexta-feira, no maior complexo penitenciário da América Latina.

O “Massacre do Carandiru” somente se tornou conhecido no dia seguinte quando a eleição para prefeito e vereador já havia s iniciado. A “operação abafa” montada pelo sistema de segurança do estado de São Paulo fez com que muitos repórteres levassem para a redação a notícia de mais uma rebelião, com a morte de oito pessoas, provocadas pelo confronto entre detentos, rotina em uma prisão que reunia 7.200 presos. A farsa começou a ser desvendada na madrugada de sábado, quando chegaram informações, por telefone, ao setor de apuração da rádio CBN, que levaram a emissora a enviar o repórter de plantão para o Instituto Médico Legal. Lá, em conversa com funcionários, o jornalista Cid Barbosa soube da existência de dezenas de corpos de presos assassinados na invasão da Política Militar. Uma realidade até então escondida que, na maior das vezes, apenas o repórter em campo é capaz de descobrir.

Pelos dados coletados era possível afirmar que o número de mortos Carandiru superava oitenta. Ligou para a redação anunciando o “furo” jornalístico. A informação foi questionada. Relutou-se para levá-la ao ar., Ninguém havia levantado aquela hipótese até então. Por ninguém, quando se trata de jornalismo brasileiro, se entenda Rede Globo de Televisão. Cid disse que suas fontes eram seguras, não havia do que duvidar.

A notícias foi ao ar., Antes, porém, houve mais uma checagem. A CBN foi responsável pelo  “furo”, mas pouca gente ouviu. Na época, a rádio era uma emissora nova, mal havia completado um ano de vida e nao tinha expressão no cenário nacional. Em pouco tempo, o fato se espalhou nas demais redações e o “Massacre do Carandiru” virou manchete.

Apuração da notícia e o comedimento são fundamentais para quem pretende fazer jornalismo com credibilidade; são princípios dos quais não se pode abrir mão. A construção da imagem de uma emissora de rádio depende da confiança que o ouvinte tem em seus profissionais. Ele não acredita em quem erra e não assume o erro.

Colocar em dúvida uma informação é ferramenta a ser usada pelo profissional em qualquer situação. O bom jornalista desconfia, pergunta, pauta, confirma e volta a desconfiar, até ter certeza de que tem para oferecer ao seu público a verdade — pelo menos a verdade possível até aquele momento.

A reação das redações tanto à notícia do início da guerra do Iraque quanto ao número de mortos no Carandiru serve para uma reflexão sobre o papel da reportagem no radiojornalismo.

As emissoras não podem dispensar o trabalho do repórter, por maior que seja o número de fontes e mecanismos de informação à disposição no mercado. Não inventaram, ainda, qualquer máquina em condições de substituir o repórter na rua — mesmo que os avanços tecnológicos nos permitam ver em tempo real imagens dos principais acontecimentos no mundo, como ocorreu em 11 de setembro de 2001.

O repórter deve ser a figura central ans empressa de comunicação. Nele está a síntese do que se espera de um profissional que trabalha com radiojornalismo: um bom observador; capaz de encontrar fatos novos mesmo nos casos corriqueiros, preparado para transmitir com clareza e precisão; equilibrado principalmente quando em situação de estresse ou de extrema emoção; e pronto para ouvir o cidadão, seja na rua, na guerra, na prisão, ou no telefone que não para de tocar na redação.

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Onze de setembro: o ataque no quintal de casa

Foto: Michael Foran/Wikipedia

(4a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro)

COBERTURA CONTAMINADA

A jornada de 11 de setembro não se encerrou, Nos dias seguintes, o desafio foi encontrar uma abordagem diferente para o tema. No cotidiano da redação, ser criativo na forma e no conteúdo são tarefas obrigatórias, apesar de muito do que se ouve por aí não passar de reprodução do que se lê ou vê. Do ponto de vista prático, pouco mudou após o atentado. Reportar, produzir, editar, redigir, apresentar, entrevistar e comandar. Tudo continuou sendo necessário para se fazer o rádio que atenda às expectativas dos ouvintes.

Do ponto de vista filosófico, foi necessário repensar a forma de cobrir o noticiário nos Estados Unidos e nas demais nações que se envolveram no embate internacional. Reavaliar o comportamento da mídia, à medida que a crítica, cega pelo preconceito, impediu que se enxergasse no horizonte a construção um terreno fértil ao fanatismo e à prepotência.

A programação retornou ao ritmo normal, mas estilhaços das explosões provocadas pelo choque dos aviões atingiram as empresas jornalísticas, principalmente, as americanas.

A liberdade de expressão passou a ser questionada por segmentos da sociedade. Cobrou-se postura patriótica, conceito que tende a ir de encontro à ideia do respeito à pluralidade e às diferenças de opiniões, premissas do jornalismo de excelência. Quem pede patriotismo quem mesmo é patriotada.

Essa já é antiga, mas vale chamar atenção: o que vai de encontro, vai no sentido oposto, choca-se; o que vai ao encontro, vai de acordo. A confusão é muito comum, mesmo entre pessoas mais esclarecidas. Ouve-se a troca, principalmente, durante entrevistas e o jornalista deve estar atento porque se a correção não for feita imediatamente, a informação chegará errada ao ouvinte. Se um ministro de Estado disse que o pensamento dele vai ao encontro do que pensa o presidente, nada mais óbvio. Se ele disser que o pensamento vai de encontro com o do presidente, vira notícia.

O noticiário foi contamino pelos atentados em Nova York e Washington. A maioria das informações que chegou do exterior às redações brasileiras tem como origem agências americanas. Um motivo de preocupação para quem tem a responsabilidade de selecionas as notícias internacionais. Aumenta, assim, a necessidade de se buscar fontes independentes. É possível encontrá-las e a internet está para ajudar.  A presença de correspondentes nos Estados Unidos e na Europa ajuda nesse processo de depuração. Deles se exige olhar crítico e diferenciado em relação à notícias, repercutindo os fatos a partir de histórias com as quais os brasileiros se identifiquem. Precisam sair da frente do computador out da televisão. Devem andar nas ruas, ouvir as pessoas, entender o que move aquela cultura para que sejam capazes de traduzir esses sentimentos.

Infelizmente, no rádio brasileiro até a cobertura do noticiário da América do Sul é esporádica, com repórteres sendo enviados para saber o que acontece com os nossos vizinhos apenas em situações especiais. Uma das alegações para não manter correspondentes internacional é que o rádio é um veículo de características locais, fala com a comunidade mais próxima. O ouvinte etsaria mais interessado em saber qual o melhor caminho para escapar do congestionamento do que descobrir o rumo a ser tomado pela humanidade a partir de tragédias como a vivida pelos americanos.

Uma verdade não se sobrepõe à outra. E, para mim, a sensação ao ver os aviões se chocando contra os prédios em Nova York era a de que o atentado acontecia no quintal de casa.

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Onze de setembro: eram todos jornalistas

Foto Site CBN: DOUG KANTER / AFP

3a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

TODOS FALAM 

O primeiro prédio do World Trade Center, a torre sul, despencou às 10h59. Falávamos dos ataques há cerca de uma hora. Foi chocante. Naquele momento desabava a ingênua esperança de que as pessoas teriam a chance de escapar com vida, apesar de tudo. Há vinte minutos havíamos noticiado que o terceiro avião – um Boeing 757 da American Airlines – havia sido jogado sobre o Pentágono. Desse não se tinha imagem, a informação chegou pelas agências de notícias. Nem sempre é preciso ver para crer. 

No estúdio da CBN, em São Paulo, havia um número excepcional de pessoas. Ninguém mais era repórter, produtor, chefe de redação ou diretor de jornalismo. Todos eram jornalistas em busca de informação e quem a encontrasse levava ao ar. 

A estrutura do rádio não admite que os profissionais atuem de maneira segmentada. Não existe mais a figura do redator que só sabe escrever ou do locutor que só sabe ler – pelo menos, não deve existir. Os profissionais de rádio têm de dominar todas as áreas e, principalmente, saber falar ao microfone. Não há necessidade de ser um “Cid Moreira”, mas precisa ter capacidade de se expressar.

Na cobertura do 11 de setembro, profissional que estava em casa e tinha a oportunidade de apurar informação por algum canal de televisão a cabo, ou de conversar com conhecido nos Estados Unidos, ligou para a rádio. Às vezes, a notícia já havia sido transmitida; noutras, serviu de subsídio para o âncora. Em algumas situações, o próprio “informante” foi ao ar. 

Quando está na rua, o jornalista de rádio deve ligar para a emissora a qualquer instante para relatar um acontecimento, mesmo que no seu crachá apareça o cargo de apurador, redator ou editor. Pode ser o trânsito complicado em uma rua importante, a movimentação policial em um bairro, ou um prédio desabando em Nova York após ataque terrorista. 

AGENDA EM PUNHO 

A imagem do prédio transformado em poeira ainda enchia a tela da televisão quando se recebeu a notícia de que os ataques não haviam parado. Mais uma vez sem imagens, apenas as fontes a nos municiar de informações. Uma hora e catorze minutos depois de ter se iniciado a transmissão do atentado, um quarto avião é jogado ao solo. Um 757 da United Airlines que havia caído em uma área de pouca concentração urbana, Shanksville, na Pensilvânia. Não se sabia o destino que os sequestradores pretendiam dar a esse Boeing. Poderia ser a Casa Branca ou Camp David. 

Apesar da sequência dos fatos, ainda não se tinha a dimensão exata da tragédia. Produtores checavam as agendas em busca de nomes que pudessem ir ao ar para ajudar a entender o que acontecia. Ter o número de telefone de acesso direto das fontes é importante para exercer a função. Uma boa agenda se constrói com o tempo e, por isso, precisa ser iniciada o mais cedo possível, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. 

Leia publicações especializadas e artigos assinados de jornais e revistas, navegue com frequência pela internet e preste atenção nos personagens citados no noticiário. Sempre que uma pessoa surgir em destaque, anote o nome dela para em seguida procurar o número do telefone. Em pouco tempo, você terá um banco de dados invejável que lhe dará agilidade no trabalho. Nenhuma notícia vai pegá-lo de surpresa, nem mesmo um ataque ao símbolo da prepotência americana. 

SUBSTITUIÇÃO NA EQUIPE 

A cobertura do atentado era ininterrupta. Não havia nada mais a fazer, a não ser acompanhar um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade. Espaços comerciais foram abolidos. A grade de programação, esquecida. O CBN São Paulo se transformara em Rede CBN Brasil. Por falar nisso: e aquele programa que havia sido discutido no início da manhã? 

Em meio ao trabalho de apurar informações e encontrar fontes que pudessem ajudar a entender o quebra-cabeça desmontado diante de nossos olhos, havia a necessidade de desmarcar as entrevistas agendadas. O produtor tem de estar sempre em contato com as fontes e, em caso de mudança de pauta, não pode esquecer de explicar o motivo pelo qual a entrevista não será feita. Uma questão de respeito. É preciso lembrar, também, que amanhã não haverá atentado e você há de precisar daquele entrevistado. Algumas pessoas reclamam quando são informadas de que a entrevista não será feita. Se sentem desprestigiadas ao serem substituídas por outras ou porque o jornalista avaliou haver assunto mais importante. Seja como for, melhor avisá-la do que deixá-la esperando. 

Naquela situação, não foi tarefa difícil justificar o porquê da entrevista ter sido desmarcada. As próprias fontes estavam muito mais interessadas nas informações do atentado. 

PAUTA EM ABERTO 

O ataque às torres gêmeas em Nova York e ao Pentágono, em Washington, não estavam na agenda de nenhum produtor. A não ser na do pessoal da Al-Qaeda. E estes não enviaram assessoria de imprensa para avisar as redações. Tais atentados sequer faziam parte de algum planejamento estratégico de cobertura jornalística. Portanto, os meios de comunicação foram surpreendidos e tiveram de adaptar a programação à nova realidade. 

Uma das características dos programas jornalísticos ou dos radiojornais em emissoras que se dedicam 24 horas à notícia é a existência de um roteiro sempre aberto. A entrevista e reportagem discutidas antes de a edição ir ao ar podem cair no minuto seguinte. Melhor que caiam, se em seu lugar entrar assunto mais recente, mais “quente”. Pauta boa é pauta nova. 

A participação de um repórter é suficiente para pautar o restante do programa, basta que a informação seja significativa. Nesse caso, âncora, produtor, assistente de estúdio e operador de áudio têm de estar atentos ao relato da notícia. Procurar alguém que acrescente dados à informação e fazer contato com quem tenha sido alvo de críticas são compromissos dos quais o jornalista não pode abrir mão. No primeiro caso, agrega valor ao trabalho do repórter. No segundo, atende à exigência ética de quem se propõe a fazer bom jornalismo. 

O chefe de reportagem e o próprio repórter devem sugerir o desdobramento do assunto. Do estúdio, por telefone, pode-se conseguir alguém que a equipe na rua não tenha acesso. A declaração de um entrevistado feita no programa pode ser editada, posteriormente, e usada pelo repórter para fechar a reportagem. 

Leve em consideração que a pauta que vem da rua pulsa mais do que a elaborada na redação. Quem pode ser melhor pauteiro do que o repórter? O jornalista Afonso Liks, com quem trabalhei na redação do SBT, em Porto Alegre, costumava dizer que “a boa pauta está na rua da Praia”. Alusão à rua mais popular da capital gaúcha e à necessidade de os jornalistas andarem por lá, atentos ao comportamento e comentário das pessoas. 

Nada pior para a qualidade de um programa de rádio do que o produtor se considerar satisfeito porque antes de entrar no ar já fechou todas as entrevistas e sabe quais as reportagens que serão publicadas. Este, muito provavelmente, será um programa chato, modorrento e sem novidade.

Existem compromissos que devem ser cumpridos no decorrer de um programa, como a saída para os blocos locais ou de comerciais e a participação de comentaristas. Respeitar o horário colabora com a organização da emissora, principalmente se a rádio participar de uma rede, e acostuma o ouvinte que procura assuntos específicos na programação. Mas essas regras não podem engessar o programa, e o jornalista tem de estar sempre atento para saber quando transgredi-las em nome da agilidade do radiojornalismo. 

Imagine o que pensaria o ouvinte se a rádio decidisse interromper a cobertura do atentado nos Estados Unidos para chamar o bloco de esporte. 

HORA CERTA 

O presidente dos Estados Unidos em exercício, George W. Bush, estava em uma escola secundária na Flórida, diante de alunos, no instante em que os ataques se iniciaram.Retirado de lá sob forte esquema de segurança e levado para a base aérea do estado do Nebraska, meio-oeste americano, às 10h30 o presidente fez seu primeiro pronunciamento. Bush, visivelmente abatido, admitiu que o país havia sido vítima de ataque terrorista e lamentou a tragédia do World Trade Center. Naquele instante, o Pentágono ainda não havia sido atacado. 

Quando a fala do presidente americano se iniciou, estávamos com um comentarista no ar que, imediatamente, foi interrompido. Nenhuma outra informação era mais importante naquele momento. O discurso em inglês foi reproduzido na íntegra para, em seguida, ser resumido em português, no estúdio. 

No rádio deve se evitar o uso de entrevistas em língua estrangeira, pois não se tem o recurso da legenda. A tradução simultânea fica prejudicada pela mistura do som original com a voz do tradutor. E deixar para traduzir depois atrapalha a dinâmica do programa. No caso de a entrevista ser imprescindível, prefira o espanhol e o português de Portugal, recomendando ao entrevistado que fale devagar e o mais claramente possível

O programa de rádio tem de ter agilidade para mudar de assunto sempre que os acontecimentos assim o exigirem. Caso a entrevista tenha se iniciado há pouco tempo e algo urgente ocorra, o âncora deve explicar a situação no ar para o convidado, desculpar-se gentilmente, prometendo voltar ao tema em breve.  Não se pode deixar para depois a notícia que se tem agora. 

No rádio, ao contrário do jornal e da televisão, não existe deadline. Não se sai à rua com o objetivo de entregar material pronto ao fim do expediente. O prazo para o fechamento é determinado pela importância da notícia. Esperar o fim da entrevista coletiva para divulgar a informação que pode ser reproduzida ao vivo é um desserviço ao público. O repórter deve publicar o fato conforme este for apurado, ressaltando que outras fontes serão ouvidas no decorrer da programação. Ao concluir a reportagem, entrega o material consolidado para o editor. 

Deadline é a hora em que o jornalista tem de entregar a reportagem na redação do jornal ou televisão. Leva em consideração o tempo para a edição do material e sua publicação. Originalmente, a expressão inglesa significa a linha em volta de uma prisão além da qual um prisioneiro poderia ser abatido a tiros. Por descumprir o prazo, muito colegas já foram abatidos nas redações, não, necessariamente, a tiros.

Essa característica do rádio impõe um desafio sério, porque as decisões editoriais que levam à publicação de uma notícia são tomadas a todo instante. Na redação de um jornal, as reuniões de pauta e fechamento permitem reflexão mais profunda sobre os temas. Uma determinação errada tem chance de ser corrigida até o jornal sair da oficina. No radiojornalismo, entre a decisão equivocada e sua divulgação, o prazo é muito curto.

Levado pelo entusiasmo de atender o ouvinte, muita gente boa deu “barrigada, em lugar de “furo”. Apesar da exigência do veículo, é preciso comedimento. Ao ouvinte, mais do que saber antes, interessa saber o certo. Por isso, é fundamental que, para resolver qual informação será divulgada e como será feita a divulgação, o profissional tenha consciência da linha editorial da emissora e os princípios éticos que devem orientá-lo.

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Onze de setembro: uma cobertura de rádio

Com a proximidade dos 20 anos do “Atentado de 11 de Setembro”, reproduzo nesses próximos dias trechos do último capítulo do livro “Jornalismo de Rádio”, que lancei em 2004, com publicação pela Editora Contexto. Da primeira notícia que levei ao ar, em plantão, à cobertura internacional que tivemos de planejar ao longo daquele dia, conto algumas curiosidades e aproveito para ilustrar com os acontecimentos de bastidor a incrível dinâmica de uma redação e de um programa de rádio.

Foto: Wikicommons

O DIA QUE NÃO ACABOU 

“São 9 horas e 56 minutos. Um avião bateu nas torres do World Trade Center há poucos instantes, em Nova York. O prédio está pegando fogo. De acordo com informações de uma testemunha ocular, teria sido um Boeing 737, mas esta informação ainda não foi, oficialmente, confirmada. Daqui a pouco, traremos outras informações sobre este acidente: um avião bate em uma das torres do World Trade Center, em Nova York” 

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro parágrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos antiamericanos. 

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama bin Laden e pela Al-Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol – sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na notícia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN. 

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa: “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária – prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou. 

MAIS UM DIA DE TRABALHO 

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade – este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jorna diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva-voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam estar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estava fechado — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostas. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta.

Os comentaristas tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Teaser é um pequeno trecho de entrevista, normalmente de dez segundos, que pode ser usado como destaque durante a programação ou para ilustrar um tema discutido no programa. Cabeça é nome de batismo do texto que serve para chamar uma reportagem, geralmente redigido em cinco ou seis linhas, que apresenta o assunto ao ouvinte.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que influenciam com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro. 

À minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção. Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. 

Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001. 

Ouça o Plantão CBN que marcou o início da cobertura dos atentados, nos Estados Unidos:

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Há 99 anos, o Brasil olhava para o futuro.

imagem arquivo, autor desconhecido

Imagine-se visitando uma dessas feiras de informática. Centenas de pessoas cruzando os corredores e você lá no meio, com os olhos arregalados para os equipamentos de última geração, duvidando que um dia se tornem acessíveis ao público.

Lembro do sucesso que fez a edição do Jornal 60 Minutos, da TV Cultura de São Paulo, quando durante a transmissão conversei ao vivo, através de um videofone, com um repórter que participava de uma exposição de tecnologia. O equipamento era novidade, isso pouco antes do fim do século XX.

Cito essa passagem para convidá-lo a voltar quase um século no tempo e se pôr no lugar das pessoas que, em 7 de setembro de 1922, tomaram as dependências do pavilhão da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. O ambiente era festivo, o país comemorava o centenário da Independência. Pelos alto-falantes era possível ouvir transmissões feitas à longa distância, sem fio – ou wireless, para usar expressão da moda. O mesmo som chegava a receptores espalhados em outros pontos da Capital Federal, além de Niterói, Petrópolis e São Paulo.

Roquette-Pinto esteve por lá e se encantou com o que ouvia, apesar de ser ruim o som que saía dos alto-falantes instalados na exposição. O barulho era infernal, com muita gente falando ao mesmo tempo, e a música e os discursos reproduzidos arranhavam os ouvidos. No meio da multidão também estava Renato Murce, que dedicaria a vida ao rádio. No depoimento registrado no livro Histórias que o rádio não contou (Harbra,1999), de Reynaldo C. Tavares, Murce afirma ter percebido logo que algo novo surgia. Menos preocupado com a confusão, viu a curiosidade e a desconfiança dos rostos ao redor.

A primeira pessoa que falou ao microfone de rádio, em uma estação instalada no Sumaré, pela Western Eletric, foi o presidente Epitácio Pessoa. E o povo, que se juntava na exposição do centenário, uma multidão incalculável, era pior do que São Tomé. Estava vendo, ouvindo e não acreditando. Como que em um aparelhinho, pequenino, lá longe, sem nada, sem fio, sem coisa nenhuma, podia ser ouvido à distância? E ficava embasbacado. Mas não nasceu para o Brasil propriamente o rádio, porque não havia ainda quase nenhuma rádio receptora. Era de galena, muito complicado. E quase ninguém podia ouvir a não ser aqueles que estivessem ali presentes. E os que ouviram, ouviram o Guarani, de Carlos Gomes, irradiado diretamente do Teatro Municipal. Esta foi a primeira experiência do rádio no Brasil.

(os negritos são do autor do blog)

Vale ressaltar: há quem defenda que a primeira emissora do Brasil foi a Rádio Clube de Pernambuco, fundada por jovens do Recife, em abril de 1919. Apesar de os registros mostrarem que a experiência estava mais próxima da radiotelefonia, não deixe de citar o fato, principalmente se falar de rádio por aquelas bandas. A propósito, como veremos a seguir, a história da radiodifusão é marcada por dúvidas e controvérsias.” (from “Jornalismo de rádio” by Milton Jung)

O texto acima foi escrito originalmente para o livro Jornalismo de Rádio, que lancei em 2004, pela editora Contexto. Lembrei-me dele, hoje cedo, quando iniciamos a transmissão do Jornal da CBN, neste 7 de setembro, dia em que parcela da população sai às ruas, de São Paulo e Distrito Federal, especialmente, para defender o presidente Jair Bolsonaro. Se no centenário da Independência, o Brasil olhava para o futuro. A um ano do bicentenário, temos um presidente que nos leva a olhar para o passado.

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Rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar

Imagem de 6568315 por Pixabay

“Não há espaço melhor para a construção de relacionamento de um com os outros do que no território da voz”

Transparência é fundamental nessa nossa conversa, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Por isso, saiba que vou falar do que assisti há uma semana no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube, que é produzido e apresentado pela minha mulher, Abigail Costa, e pela minha colaboradora de blog, doutora Simone Domingues. Na busca de explicações sobre o comportamento do cidadão diante da pandemia, elas convidaram o antropólogo Michel Alcoforado, de quem sou admirador. Ou seja, minha fala aqui deve ser considerada totalmente parcial nos elogios e afagos.

Pouco me importa, também. Até porque tenho convicção de que se você tirar uma hora da sua semana para assistir ao que as duas levam ao ar, ao vivo, toda quarta-feira, às oito da noite, vai ficar admirado e muito bem informado. O canal é dedicado ao comportamento humano e à saúde mental. 

Na discussão sobre como estamos agindo na pandemia e como agiremos depois dela, provoquei Michel Alcoforado a falar sobre o consumo de informação no rádio. Ouvi muito mais do que poderia desejar.

“A medida que estamos mais dentro de casa, a voz  que acompanha a gente, a voz do rádio, ajuda a gente a construir contexto. O que é muito importante para esse mundo descontextualizado.”

Michel trouxe a própria experiência com o rádio, com o qual acorda todas as manhãs e o acessa através da assistente de voz, que o acompanha pelos cantos da casa. Como boa parte de nós, mais dentro de casa do que fora, por força da pandemia, os dias tendem a ser todos iguais. Mas nosso antropólogo lembra que ao ouvir o Sérgio Abranches, às oito da manhã, sabe que é terça; o Cortella, às sete, é quarta; e o Hora de Expediente, o faz perceber que já são nove da manhã.

É um hábito que começou no século passado, lembra Michel. O rádio marcava a passagem do tempo da avó dele —- das nossas avós e de nossos pais, também. Ela sabia que quando um programa terminava, estava na hora de servir o almoço;  quando se iniciava outro, era a vez do jantar; e havia um que ela não gostava muito, que alertava para o fato de que era tempo de ir para cama.

“A gente tem o rádio de novo marcando essa posição. O rádio sobretudo ganha uma dimensão muito importante, porque a gente já vinha falando tempos atrás sobre a dimensão que a voz tem. E cada vez mais os aplicativos e gadgets das nossas casas vão ser orientados pela onipresença da voz”

Das coisas boas que ouvi Michel Alcoforado dizer foi que o rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar. Mesmo que esteja sendo reproduzido também no Youtube ou no Globoplay —- como é o caso do Jornal da CBN —-, por mais que seja imagem, não é um programa de TV. É o rádio com sua lógica de construção de comunicação em um outro formato de mídia.

“O áudio como aconchego tem crescido pra caramba. O que acontece é que a tela só lida com um sentido nosso, com a visão, não nos dá um despertar de sentidos. Não consegue. Não é a toa que o filme precisa de um sonoplasta. O audio trabalha com pedaços do nosso campo cognitivo que a tela não é capaz de alcançar”. 

Por vantagens que tenha, o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens —- já conversei várias vezes com você neste blog sobre o volume de informações que somos submetidos todos os dias e o quanto isso reduz nossa capacidade de assimilar o conteúdo, e de apurar nossa sensibilidade para as fontes mais confiáveis. Michel Alcoforado trata do tema a partir da definição de um antropólogo americano Gregory Bateson que diz que informação é todo o dado que gera diferença. Isso significa que talvez estejamos produzido muito dado e pouca informação. Ou notícia.

“Se você não está gerando diferença, você não está informando”.

Como ser diferente no radiojornalismo se toda notícia parece igual? Você entra no portal G1, depois pula para o UOL e navega em qualquer outro site de notícia disponível na sua tela deparando-se com conteúdo muito semelhante. Michel Alcoforado dá a dica —- que você pode ouvir na íntegra e com as devidas referências que a modéstia me impede de reproduzir, no vídeo publicado neste post. Ele fala algo que me move há muitos anos no rádio e que se perdeu no tempo pela forma padronizada como se relata os fatos ocorridos. Ao contrário da matemática, na subjetividade das emoções um mais um não é dois. Portanto, não basta seguir a fórmula correta, aprendida no livro da faculdade, de preencher as lacunas para atender a técnica do lead ou da hierarquia dos dados. Nem o português mais castiço salva essa equação – ao contrário, tende a causar estranheza. 

Michel lembra, por exemplo, a importância que a informação de trânsito tem na programação de rádio, a ponto de as emissoras —- cada vez em menor número —- investirem na cobertura a partir do helicóptero. A observação do tráfego em uma avenida pelo repórter aéreo por si só pode não fazer diferença; mesmo porque o ouvinte que está na região talvez até já saiba mais através do mapa digital que o guia no painel do carro.  Por outro lado, conforme a leitura que o repórter faz, provoca-se empatia, o ouvinte se identifica com a história, enxerga-se como personagem. E protagonista que se vê, experimenta aquele momento conduzido pela voz do jornalista.

Entretenimento é a palavra que Michel Alcoforado usa para definir a forma como devemos conversar com o ouvinte. É preciso saber entreter sua audiência:

“É muito mais do que saber que a Marginal está parada. Eu já sei que Marginal está parada. O que me interessa é como você me conta que a Marginal está parada. É isso que gera diferença”.

Como fazer diferente o mesmo todos os dias é outro dos desafios que precisamos encarar no comando de um programa ou no relato das notícias no rádio. Explorando a imaginação do ouvinte, diz Michel:

“A gente enquanto humano precisa explorar cada vez mais os nossos sentidos … O áudio permite que a gente exercite um ponto fundamental da nossa existência que é a imaginação. E aí você pode usar todos os sinônimos desse negócio que chamo de imaginação: fantasia; o desejo pode ser também uma forma desse lado da imaginação. Mas não há como a gente ser humano sem a capacidade de imaginar. E só nós humanos temos capacidade de imaginar. O áudio abre essa chance para a gente imaginar”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais com a entrevista completa de Michel Alcoforado.

15 dicas para quem quer participar do Clubhouse

Desculpe-me pela insistência. Volto a falar de ClubHouse porque a rede que privilegia a fala está dando o que falar. Não bastasse ter sido convidado para uma das salas, com o tema Mentoria da Comunicação, voltarei a ocupar o espaço no próximo sábado, ao lado da minha amiga Leny Kyrillos. Comunicação será, mais uma vez, o tema da conversa. Desta vez, baseada no livro que escrevi com a Leny, Comunicar para Liderar. É de 2015. De antes, bem antes da pandemia, e, ao mesmo tempo, muito atual. Quem vai abrir a sala “Comunicar e liderar” para falarmos é Erika Baruco, especialista nas duas áreas: comunicação e liderança.

Da experiência de décadas no rádio — que tem o som como principal instrumento — à participação única no ClubHouse, reuni algum conhecimento que pode nos ajudar nesta nova rede social. No mínimo, evitar alguns tropeços. Para não pensar que o que escrevo a seguir é coisa de marinheiro de primeira viagem (ah, agora virou coaching de ClubHouse, né?!?), informo aos navegantes que conversei com algumas pessoas que entendem do assunto e, também, já participaram do clube.

Bons costumes no Clubhouse:

  1. Ter um moderador(a)
  2. Ter um tema definido
  3. Identificar previamente os pontos de fala de cada integrante
  4. Na abertura, cada integrante se apresentar com no máximo duas frases
  5. Ao fazer uma pergunta, encaminhá-la para um dos integrantes
  6. Enquanto um fala, os outros fecham o microfone
  7. Falar sabendo que outros querem falar
  8. Invista no conteúdo
  9. Frases, palavras e citações importantes devem ser repetidas para que o ouvinte absorva a informação
  10. Importante ilustrar com histórias 
  11. Incluir os ouvintes na conversa, sempre
  12. Ao passar a palavra para um ouvinte, antecipar quem será o próximo
  13. Ao responder o ouvinte, citar o nome dele ao fim da fala para que tenha a oportunidade de réplica
  14. Anunciar o encerramento da sala, 15 minutos antes e selecionar quem fará as últimas perguntas
  15. Ser simples, direto e objetivo

Sintonizado no Clubhouse, um novo modelo de rádio

Imagine uma mídia na qual você tem uma série de opções de programas em áudio à disposição. De graça. Em um canal, tem esporte. Em outro, tem música. Rock e sertanejo, cada um na sua. Tem lugar em que se fala de comportamento. Outro, de arte. De mídia digital. De comunicação. Tem até quem toque e comente notícia —- de política à economia, de meio ambiente à educação. O ouvinte sintoniza o canal que entender mais apropriado aos seus interesses, pode participar com perguntas.

Estamos falando do rádio? Até pode ser. Criado no fim do século 18, início de 19, o veículo é um pouco de tudo isso. Basta trocar de estações no aparelho que está em seu painel do carro ou no balcão próximo do fogão, na cozinha, e você terá oportunidade de vivenciar todas essas experiências. Nosso ‘dial’ nos põe em contato com uma programação diversa e interativa. Você escolhe se quer ser ativo ou passivo. Só ouvir ou participar. 

Pode ser do rádio, mas não é.

Estou falando do ClubHouse, rede social que ganha dimensão entre nós, com a abertura de um número inimaginável de salas para falar dos mais diversos temas. Casa sala é uma estação. Cada moderador, um âncora. Cada ouvinte, que unido a outros, se transforma em audiência.  O ClubHouse é uma espécie de rádio que pode ser produzido por qualquer um, desde que tenha um iPhone e um perfil aberto nesta rede. Em breve, também no seu “rádio” Android.

No sábado, tive minha primeira experiência neste espaço, convidado pela Ana Sacavém, coach da Academia de Liderança e Comunicação, em Portugal, que realiza um trabalho incrível ao lado do marido Antonio Sacavém. Estavam com a gente, minha parceira de trabalhos, livros e palestras Leny Kyrillos e Thomas Brieu, um especialista em escutatória. 

Ficamos por duas horas batendo papo sobre como desenvolver nossa capacidade de se comunicar, uma habilidade essencial para quem pretende crescer na carreira profissional. Falamos entre nós e respondemos boas perguntas dos ouvintes. Ouvimos, também. Ouvimos algumas pessoas que surgiram  em meio a conversa e agregaram muito conteúdo. 

O ClubHouse reforça a ideia de que se o conteúdo é o rei —- como Bill Gates  nos ensinou no início dos anos de 1990 —- o áudio é a rainha. Prestigiado nessa nova rede. Essencial para o sucesso dos podcasts —- que nunca foram tão ouvidos como agora. Motivo de concorrência entre as maiores marcas de tecnologia do mundo, como é o caso da Apple e Amazon, que investem seus conhecimento no desenvolvimento de caixas de som inteligentes. E “cidadão de primeira classe”, como disse Zack Reneau Wedeen , executivo do Google podcast, em 2018.

O áudio foi a base do trabalho que realizamos no rádio desde sempre, portanto participar desta nova rede não me surpreende. Me fascina. Especialmente com a qualidade do debate que conseguimos promover no sábado em uma sala que pretende se tornar permanente: Mentoria da Comunicação.

Por exercício da Ana e colaboração de todo grupo, apresento a seguir alguma das muitas mensagens que conseguimos levar ao ar —- ou, levar à web:

Pequena correção, sem pretensão

Outras …

Dia desses ouvi o repórter do rádio dizer que somente algumas doenças eram aceitas por um órgão público para justificar a ausência na prova: “Covid-19, influenza, meningite e outras”. Como “outras” não é uma doença, soou-me estranha a presença dela na frase. Parecia ser apenas a reprodução de um texto burocrático escrito pela assessoria do órgão público —- se não o for, me desculpe a assessoria. Vamos concordar que o “outras” está sobrando na frase, fica feio e não informa. Uma pequena correção de rumo resolveria: “somente algumas doenças são aceitas para justificar a ausência, como Covid-19, influenza e meningite. A lista completa de doenças, você encontra no site ….”

Veio a óbito

A senhora, que não tem nome, porque nem sempre nos importamos com isso (ou o nome não é divulgado), não apenas foi vítima da Covid-19 como deu o azar de ser contaminada pela nova variante do novo coronavírus — e já que insistimos com essa denominação, apesar de a pandemia ter completado um ano, talvez fosse o caso de chamá-la de novíssimo coronavírus. Infelizmente, a senhora morreu. E ao ter a morte noticiada, foi vítima de outro mal que contamina as redações: a língua complicada. O repórter, não contente com toda tragédia, substituiu o simples e significativo “morreu” por um pernóstico “veio a óbito”. Se ainda fosse “foi a óbito”, vá la. Mas “veio a óbito”, sai pra lá, urubu!

Ninguém mais compra

Nessa crise econômica que enfrentamos ninguém mais compra nada, só adquiri. É o que se ouve nas notícias de rádio e TV. É o que se lê nos jornais e na internet. Quanto maior a importância da compra, mais o verbo adquirir é conjugado no noticiário. Governos, que usam nosso dinheiro, nunca compram nada, só adquirem: de latas de leite condensado a vacinas (estas bem menos do que aquelas). Hoje, até as famílias — sempre que citadas como instituição — são contempladas com o verbo adquirir, como se isso valorizasse o ato de comprar ou o texto jornalístico. Nem uma coisa nem outra.

Pra não cair nessas esparrelas, na hora de noticiar basta pensar o seguinte, como eu falaria para minha vovozinha.

Se você me permitir, aqui vão três sugestões para quem pretende escrever bem, simplificar a mensagem e evitar erros:

Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.