Rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar

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“Não há espaço melhor para a construção de relacionamento de um com os outros do que no território da voz”

Transparência é fundamental nessa nossa conversa, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Por isso, saiba que vou falar do que assisti há uma semana no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube, que é produzido e apresentado pela minha mulher, Abigail Costa, e pela minha colaboradora de blog, doutora Simone Domingues. Na busca de explicações sobre o comportamento do cidadão diante da pandemia, elas convidaram o antropólogo Michel Alcoforado, de quem sou admirador. Ou seja, minha fala aqui deve ser considerada totalmente parcial nos elogios e afagos.

Pouco me importa, também. Até porque tenho convicção de que se você tirar uma hora da sua semana para assistir ao que as duas levam ao ar, ao vivo, toda quarta-feira, às oito da noite, vai ficar admirado e muito bem informado. O canal é dedicado ao comportamento humano e à saúde mental. 

Na discussão sobre como estamos agindo na pandemia e como agiremos depois dela, provoquei Michel Alcoforado a falar sobre o consumo de informação no rádio. Ouvi muito mais do que poderia desejar.

“A medida que estamos mais dentro de casa, a voz  que acompanha a gente, a voz do rádio, ajuda a gente a construir contexto. O que é muito importante para esse mundo descontextualizado.”

Michel trouxe a própria experiência com o rádio, com o qual acorda todas as manhãs e o acessa através da assistente de voz, que o acompanha pelos cantos da casa. Como boa parte de nós, mais dentro de casa do que fora, por força da pandemia, os dias tendem a ser todos iguais. Mas nosso antropólogo lembra que ao ouvir o Sérgio Abranches, às oito da manhã, sabe que é terça; o Cortella, às sete, é quarta; e o Hora de Expediente, o faz perceber que já são nove da manhã.

É um hábito que começou no século passado, lembra Michel. O rádio marcava a passagem do tempo da avó dele —- das nossas avós e de nossos pais, também. Ela sabia que quando um programa terminava, estava na hora de servir o almoço;  quando se iniciava outro, era a vez do jantar; e havia um que ela não gostava muito, que alertava para o fato de que era tempo de ir para cama.

“A gente tem o rádio de novo marcando essa posição. O rádio sobretudo ganha uma dimensão muito importante, porque a gente já vinha falando tempos atrás sobre a dimensão que a voz tem. E cada vez mais os aplicativos e gadgets das nossas casas vão ser orientados pela onipresença da voz”

Das coisas boas que ouvi Michel Alcoforado dizer foi que o rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar. Mesmo que esteja sendo reproduzido também no Youtube ou no Globoplay —- como é o caso do Jornal da CBN —-, por mais que seja imagem, não é um programa de TV. É o rádio com sua lógica de construção de comunicação em um outro formato de mídia.

“O áudio como aconchego tem crescido pra caramba. O que acontece é que a tela só lida com um sentido nosso, com a visão, não nos dá um despertar de sentidos. Não consegue. Não é a toa que o filme precisa de um sonoplasta. O audio trabalha com pedaços do nosso campo cognitivo que a tela não é capaz de alcançar”. 

Por vantagens que tenha, o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens —- já conversei várias vezes com você neste blog sobre o volume de informações que somos submetidos todos os dias e o quanto isso reduz nossa capacidade de assimilar o conteúdo, e de apurar nossa sensibilidade para as fontes mais confiáveis. Michel Alcoforado trata do tema a partir da definição de um antropólogo americano Gregory Bateson que diz que informação é todo o dado que gera diferença. Isso significa que talvez estejamos produzido muito dado e pouca informação. Ou notícia.

“Se você não está gerando diferença, você não está informando”.

Como ser diferente no radiojornalismo se toda notícia parece igual? Você entra no portal G1, depois pula para o UOL e navega em qualquer outro site de notícia disponível na sua tela deparando-se com conteúdo muito semelhante. Michel Alcoforado dá a dica —- que você pode ouvir na íntegra e com as devidas referências que a modéstia me impede de reproduzir, no vídeo publicado neste post. Ele fala algo que me move há muitos anos no rádio e que se perdeu no tempo pela forma padronizada como se relata os fatos ocorridos. Ao contrário da matemática, na subjetividade das emoções um mais um não é dois. Portanto, não basta seguir a fórmula correta, aprendida no livro da faculdade, de preencher as lacunas para atender a técnica do lead ou da hierarquia dos dados. Nem o português mais castiço salva essa equação – ao contrário, tende a causar estranheza. 

Michel lembra, por exemplo, a importância que a informação de trânsito tem na programação de rádio, a ponto de as emissoras —- cada vez em menor número —- investirem na cobertura a partir do helicóptero. A observação do tráfego em uma avenida pelo repórter aéreo por si só pode não fazer diferença; mesmo porque o ouvinte que está na região talvez até já saiba mais através do mapa digital que o guia no painel do carro.  Por outro lado, conforme a leitura que o repórter faz, provoca-se empatia, o ouvinte se identifica com a história, enxerga-se como personagem. E protagonista que se vê, experimenta aquele momento conduzido pela voz do jornalista.

Entretenimento é a palavra que Michel Alcoforado usa para definir a forma como devemos conversar com o ouvinte. É preciso saber entreter sua audiência:

“É muito mais do que saber que a Marginal está parada. Eu já sei que Marginal está parada. O que me interessa é como você me conta que a Marginal está parada. É isso que gera diferença”.

Como fazer diferente o mesmo todos os dias é outro dos desafios que precisamos encarar no comando de um programa ou no relato das notícias no rádio. Explorando a imaginação do ouvinte, diz Michel:

“A gente enquanto humano precisa explorar cada vez mais os nossos sentidos … O áudio permite que a gente exercite um ponto fundamental da nossa existência que é a imaginação. E aí você pode usar todos os sinônimos desse negócio que chamo de imaginação: fantasia; o desejo pode ser também uma forma desse lado da imaginação. Mas não há como a gente ser humano sem a capacidade de imaginar. E só nós humanos temos capacidade de imaginar. O áudio abre essa chance para a gente imaginar”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais com a entrevista completa de Michel Alcoforado.

15 dicas para quem quer participar do Clubhouse

Desculpe-me pela insistência. Volto a falar de ClubHouse porque a rede que privilegia a fala está dando o que falar. Não bastasse ter sido convidado para uma das salas, com o tema Mentoria da Comunicação, voltarei a ocupar o espaço no próximo sábado, ao lado da minha amiga Leny Kyrillos. Comunicação será, mais uma vez, o tema da conversa. Desta vez, baseada no livro que escrevi com a Leny, Comunicar para Liderar. É de 2015. De antes, bem antes da pandemia, e, ao mesmo tempo, muito atual. Quem vai abrir a sala “Comunicar e liderar” para falarmos é Erika Baruco, especialista nas duas áreas: comunicação e liderança.

Da experiência de décadas no rádio — que tem o som como principal instrumento — à participação única no ClubHouse, reuni algum conhecimento que pode nos ajudar nesta nova rede social. No mínimo, evitar alguns tropeços. Para não pensar que o que escrevo a seguir é coisa de marinheiro de primeira viagem (ah, agora virou coaching de ClubHouse, né?!?), informo aos navegantes que conversei com algumas pessoas que entendem do assunto e, também, já participaram do clube.

Bons costumes no Clubhouse:

  1. Ter um moderador(a)
  2. Ter um tema definido
  3. Identificar previamente os pontos de fala de cada integrante
  4. Na abertura, cada integrante se apresentar com no máximo duas frases
  5. Ao fazer uma pergunta, encaminhá-la para um dos integrantes
  6. Enquanto um fala, os outros fecham o microfone
  7. Falar sabendo que outros querem falar
  8. Invista no conteúdo
  9. Frases, palavras e citações importantes devem ser repetidas para que o ouvinte absorva a informação
  10. Importante ilustrar com histórias 
  11. Incluir os ouvintes na conversa, sempre
  12. Ao passar a palavra para um ouvinte, antecipar quem será o próximo
  13. Ao responder o ouvinte, citar o nome dele ao fim da fala para que tenha a oportunidade de réplica
  14. Anunciar o encerramento da sala, 15 minutos antes e selecionar quem fará as últimas perguntas
  15. Ser simples, direto e objetivo

Sintonizado no Clubhouse, um novo modelo de rádio

Imagine uma mídia na qual você tem uma série de opções de programas em áudio à disposição. De graça. Em um canal, tem esporte. Em outro, tem música. Rock e sertanejo, cada um na sua. Tem lugar em que se fala de comportamento. Outro, de arte. De mídia digital. De comunicação. Tem até quem toque e comente notícia —- de política à economia, de meio ambiente à educação. O ouvinte sintoniza o canal que entender mais apropriado aos seus interesses, pode participar com perguntas.

Estamos falando do rádio? Até pode ser. Criado no fim do século 18, início de 19, o veículo é um pouco de tudo isso. Basta trocar de estações no aparelho que está em seu painel do carro ou no balcão próximo do fogão, na cozinha, e você terá oportunidade de vivenciar todas essas experiências. Nosso ‘dial’ nos põe em contato com uma programação diversa e interativa. Você escolhe se quer ser ativo ou passivo. Só ouvir ou participar. 

Pode ser do rádio, mas não é.

Estou falando do ClubHouse, rede social que ganha dimensão entre nós, com a abertura de um número inimaginável de salas para falar dos mais diversos temas. Casa sala é uma estação. Cada moderador, um âncora. Cada ouvinte, que unido a outros, se transforma em audiência.  O ClubHouse é uma espécie de rádio que pode ser produzido por qualquer um, desde que tenha um iPhone e um perfil aberto nesta rede. Em breve, também no seu “rádio” Android.

No sábado, tive minha primeira experiência neste espaço, convidado pela Ana Sacavém, coach da Academia de Liderança e Comunicação, em Portugal, que realiza um trabalho incrível ao lado do marido Antonio Sacavém. Estavam com a gente, minha parceira de trabalhos, livros e palestras Leny Kyrillos e Thomas Brieu, um especialista em escutatória. 

Ficamos por duas horas batendo papo sobre como desenvolver nossa capacidade de se comunicar, uma habilidade essencial para quem pretende crescer na carreira profissional. Falamos entre nós e respondemos boas perguntas dos ouvintes. Ouvimos, também. Ouvimos algumas pessoas que surgiram  em meio a conversa e agregaram muito conteúdo. 

O ClubHouse reforça a ideia de que se o conteúdo é o rei —- como Bill Gates  nos ensinou no início dos anos de 1990 —- o áudio é a rainha. Prestigiado nessa nova rede. Essencial para o sucesso dos podcasts —- que nunca foram tão ouvidos como agora. Motivo de concorrência entre as maiores marcas de tecnologia do mundo, como é o caso da Apple e Amazon, que investem seus conhecimento no desenvolvimento de caixas de som inteligentes. E “cidadão de primeira classe”, como disse Zack Reneau Wedeen , executivo do Google podcast, em 2018.

O áudio foi a base do trabalho que realizamos no rádio desde sempre, portanto participar desta nova rede não me surpreende. Me fascina. Especialmente com a qualidade do debate que conseguimos promover no sábado em uma sala que pretende se tornar permanente: Mentoria da Comunicação.

Por exercício da Ana e colaboração de todo grupo, apresento a seguir alguma das muitas mensagens que conseguimos levar ao ar —- ou, levar à web:

Pequena correção, sem pretensão

Outras …

Dia desses ouvi o repórter do rádio dizer que somente algumas doenças eram aceitas por um órgão público para justificar a ausência na prova: “Covid-19, influenza, meningite e outras”. Como “outras” não é uma doença, soou-me estranha a presença dela na frase. Parecia ser apenas a reprodução de um texto burocrático escrito pela assessoria do órgão público —- se não o for, me desculpe a assessoria. Vamos concordar que o “outras” está sobrando na frase, fica feio e não informa. Uma pequena correção de rumo resolveria: “somente algumas doenças são aceitas para justificar a ausência, como Covid-19, influenza e meningite. A lista completa de doenças, você encontra no site ….”

Veio a óbito

A senhora, que não tem nome, porque nem sempre nos importamos com isso (ou o nome não é divulgado), não apenas foi vítima da Covid-19 como deu o azar de ser contaminada pela nova variante do novo coronavírus — e já que insistimos com essa denominação, apesar de a pandemia ter completado um ano, talvez fosse o caso de chamá-la de novíssimo coronavírus. Infelizmente, a senhora morreu. E ao ter a morte noticiada, foi vítima de outro mal que contamina as redações: a língua complicada. O repórter, não contente com toda tragédia, substituiu o simples e significativo “morreu” por um pernóstico “veio a óbito”. Se ainda fosse “foi a óbito”, vá la. Mas “veio a óbito”, sai pra lá, urubu!

Ninguém mais compra

Nessa crise econômica que enfrentamos ninguém mais compra nada, só adquiri. É o que se ouve nas notícias de rádio e TV. É o que se lê nos jornais e na internet. Quanto maior a importância da compra, mais o verbo adquirir é conjugado no noticiário. Governos, que usam nosso dinheiro, nunca compram nada, só adquirem: de latas de leite condensado a vacinas (estas bem menos do que aquelas). Hoje, até as famílias — sempre que citadas como instituição — são contempladas com o verbo adquirir, como se isso valorizasse o ato de comprar ou o texto jornalístico. Nem uma coisa nem outra.

Pra não cair nessas esparrelas, na hora de noticiar basta pensar o seguinte, como eu falaria para minha vovozinha.

Se você me permitir, aqui vão três sugestões para quem pretende escrever bem, simplificar a mensagem e evitar erros:

Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.

Conversa de Primeira: o rádio e a rádio na vida de nossos comentaristas

Foi um dia de festa, reminiscências, boas histórias e tropicões este 1º de outubro em que a rádio CBN completou 29 anos. No Jornal da CBN, tive a oportunidade de comandar duas mesas de conversa que reuniu, virtualmente, todos os nossos comentaristas das faixas das 7h e das 8 h da manhã.

Em Conversa de Primeira, o rádio foi o foco do nosso bate-papo com Pedro Doria, Marcelo Lins, Mário Sérgio Cortella, Walter Fanganiello Maierovitch e Artur Xexéo. Nessa roda, exceção a Doria e Lins, que chegaram mais recentemente ao programa, os outros três, quatro se eu me incluir, são velhos conhecidos do ouvinte.

O Xexéo começou no Liberdade de Expressão com Carlos Heitor Cony e apresentação de Heródoto Barbeiro; hoje faz a Crônica de Sexta, com olhar mais voltado à cultura, sem deixar de observar todo e qualquer outro tema que mexa com o cotidiano das pessoas.

O Cortella já se apresentou em diversos formatos e espaços da programação. Atualmente, temos o privilégio de contar com ele em duas versões: diariamente no Academia CBN e às quartas-feiras, no Meio do Caminho. Pessoalmente, tenho a lembrança de ter sido ele meu primeiro entrevistado, ao vivo, na TV Globo, quando chegava em São Paulo, em 1991.

Maierovitch esteve comigo na época em que apresentei o CBN SP e pela maneira como era capaz de traduzir o juridiquês foi ganhando espaço na programação. Na época do Mensalão e com as sessões do STF transmitidas ao vivo para o Brasil, fez inserções diárias no Jornal da CBN. Atualmente, é nosso colega no Justiça e Cidadania, às quintas-feiras ou a qualquer momento em edição extraordinária. Velho companheiro de guerra, nos conhecemos no Portal do Terra, onde dividíamos bancada do primeiro “telejornal” da internet brasileira.

Marcelo Lins e Pedro Doria, os mais novos, em tempo de casa, além de flamenguistas e cariocas, dão diversidade nos temas do Conversa de Primeira. Um com o olhar voltado para o mundo e o outro com a visão direcionada à tecnologia.

O resultado de nossa Conversa de Primeira de hoje, você ouve aqui:

Em tempo: os tropicões que me referi lá no alto do texto se devem as histórias que fomos levados a contar sobre gafes e falhas no nosso dia a dia, no Estúdio CBN, programa em que participei na tarde desta quinta-feira.

Liberdade de Expressão: o sigilo da fonte e o direito do cidadão em saber a verdade

“É mais fatal do que a pior gripe” foi uma das frases ouvidas pelo jornalista Bob Woodward em uma das 18 entrevistas gravadas com o presidente americano Donald Trump. Ele se referia, claro, ao novo coronavírus, que na época das conversas — esta em especial ocorreu em janeiro —- ainda era muito novo para todos nós, mas já deixava seu rastro de morte  e medo na Ásia. O mesmo Trump disse a Woodward que o vírus “era mortal”.  Está gravado.

Em público, Trump sempre negou os riscos à população, criticou seus principais assessores na área médica por serem alarmistas, afundou-se em teorias conspiratórias e desdenhou das medidas que poderiam reduzir o risco à saúde dos americanos. O comportamento do presidente foi um dos motivos que levaram os Estados Unidos a registrarem mais de 200 mil pessoas mortas e cerca de 6,8 milhões de contaminados pelo Covid-19.

A mentira de Trump foi revelada recentemente quando Woodward lançou o livro Rage (A Fúria), o segundo que escreve sobre o atual presidente. Ele é craque nessa jornada que se iniciou nas descobertas que fez no caso Watergate, ao lado de Carls Bernstein, nos anos 1970. Com acesso à Casa Branca como poucos outros jornalistas já tiveram, ao longo do tempo Woodward especializou-se em contar a história dos presidentes americanos, com respeito e sem bajulação — o que não impediu de ser criticado mesmo por colegas, que viram em algumas descrições reverência além do necessário para determinados líderes políticos.

Agora também é alvo de críticas. Nem tanto pela revelação que fez, mas por somente tê-la feito agora. Se tivesse levado a público as palavras de Trump assim que o presidente iniciou seu mantra negacionista, imagina-se, mortes teriam sido evitadas.

Inspirado por esse debate, hoje, no Jornal da CBN, discutimos no quadro Liberdade de Expressão o direito de o jornalista preservar informações e suas fontes, mesmo que isso coloque em risco a vida de pessoas. Participaram, Pedro Doria, jornalista, editor do Canal Meio e nosso colega no quadro Vida Digital, e Roberto Romano, professor titular aposentado de Ética e Filosofia da Unicamp. 

Ambos entendem o respeito que se deve ter ao sigilo da fonte, mas discordam do grau deste sigilo.

Doria defende a estratégia de Woodward e traz um argumento jornalístico. Havia um acordo entre o profissional e sua fonte, no caso o presidente Donald Trump. Sem esse acordo, o presidente não falaria ou não falaria tudo que falou.

‘O repórter faz um acordo com o entrevistado e cumpre esse acordo’, defende Pedro Doria.

Romano diz que o sigilo é uma garantia do trabalho jornalístico. Se esta informação põe em risco a segurança das pessoas passa a ser de interesse público: 

‘O compromisso do jornalista não é com a sua fonte apenas. Ele tem um compromisso com o público, com o coletivo, com os homens que nele confiam’

Se para Romano, Woodward não tinha motivos de respeitar um acordo com alguém que não respeita a profissão jornalística; para Doria, a maior arma que se pode ter contra quem é contra a Democracia é mais Democracia e a divulgação dos fatos às vésperas da eleição terá mais efeito sobre a reeleição de Trump do que se fosse feita na época da gravação.

O debate foi rico nos argumentos e levanta questões que não são restritas ao campo do jornalismo. Interessa à sociedade como um todo, por isso, recomendo que você ouça o Liberdade de Expressão e desenvolva a sua própria visão crítica sobre o tema:

Arena de Ideias: rádio e jornalismo são vacinas contra a desinformação

A agilidade e imediatismo do rádio somados a precisão do trabalho jornalístico foram essenciais para conter parte da ansiedade desenvolvida pelas pessoas ao longo desta pandemia. Essa é uma das explicações para o aumento da audiência identificado em pesquisas feitas aqui no Brasil, tanto quanto nos Estados Unidos e na Europa. Além de ouvir mais rádio, ouve-se rádio por mais tempo — foi o que demonstrou pesquisa do Kantar IBOPE Media, publicada recentemente.

Foi a partir desta constatação que tive a oportunidade de analisar a valorização do rádio e do jornalismo em conversa promovida pela agência de comunicação In Press que reuniu Flávio Lara Resende, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert); Paulo Gilvane Borges, fundador da Agência Radioweb; e Patrícia Marins, sócia-diretora da In Press Oficina e especialista em gestão de crise e reputação. O papo foi mediado pela diretora da In Press, Fernanda Lambach.

Histórias do passado do rádio foram entremeadas a avaliação sobre como o veículo se comportou — assim como o seu ouvinte — desde que a crise provocada pela pandemia se iniciou no País. Como o fortalecimento do rádio e do jornalismo profissional neste momento pode impactar as estratégias de comunicação no futuro também estiveram no foco desta “mesa redonda virtual” que reuniu cinco pessoas que são admiradoras do veículo — como você, caro e raro leitor deste blog, poderá perceber no vídeo disponível acima.

Fiz questão de alertar para a necessidade de se acreditar no papel do jornalismo profissional como uma vacina contra a desinformação, que tem causado prejuízos às pessoas, às empresas e à democracia.

Aproveitei a audiência desta série de programas realizada pela In Press, formada por gestores, líderes empresariais e especialistas na comunicação corporativa para deixar a seguinte pergunta:

Você vai continuar investindo a verba publicitária da sua empresa em mídias e conteúdos que podem colocar em risco a reputação da sua marca? Ou está na hora da apostar em quem acredita no jornalismo profissional?

Oito dicas para textos bem ditos no seu rádio

Foto: Pixabay

 

Conversar com jovens é revigorante. Com jovens e jornalistas, é provocante. Pela profissão que pretendem exercer, tendem a ser mais curiosos ao mesmo tempo que desconfiados. Olham você de revesgueio, ouvem com atenção enquanto matutam alguma pergunta que possa lhe tirar do trilho e quando você menos espera querem saber aquilo que você não imaginava ter de contar. É preciso preparo e cuidado extremo com as palavras.

Fiz esse exercício dias atrás. Em conversa online, estive com alunos da PUC do Rio Grande do Sul. Da mesma FAMECOS que frequentei no início dos anos 1980. Uma turma sob a batuta do mestre Cláudio Mércio —- que conheci sob o apelido de Batata quando ele ainda tinha dúvidas se seria advogado ou jornalista. Contou-me que foi o convite que fiz para ser estagiário do SBT, em 1989, que lhe deu rumo profissional. Saber disso me fez acreditar que alguma coisa boa deixarei para o jornalismo. Mércio, dentre outros afazeres acadêmicos, cuida do laboratório de texto da PUC — ao lado do professor Sílvio Barbizan — e foi nesse contexto que me convidou a participar do encontro virtual. 

Lembrei aos guris e gurias que me assistiam a frase do professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, quando foi ombudsman da Folha, na virada da primeira para a segunda década deste século: 

“80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância”. 

Como tudo acelerou de lá para cá, fico imaginando o quanto a pressa em publicar tem provocado erros. No rádio, que é o meu assunto, temos pressa, muita pressa, cada vez mais pressa. E, lamentavelmente, em nome dela justificamos boa parte dos nossos erros, quando deveríamos redobrar os esforços para essa pressa ser substituída por precisão. 

Para nos ajudar a desenvolver um texto mais bem qualificado no rádio, listei oito sugestões que reproduzo a seguir para você, caro e raro leitor deste blog:

  1. Escreva a palavra certa, nunca a palavra mal dita

Se não houvesse a pressa, a preguiça e a ignorância —- para citar os três erros identificados por Lins da Silva, deixaríamos de repetir no ar informações e expressões que costumamos ouvir das diferentes fontes com quem temos contato —- uma gente que cria jargões, usa de tecnicismo, exagera no anglicismo e mal preparada para conversar com o cidadão. Cabe ao jornalista (não apenas de rádio) traduzir para o bom e claro português toda palavra mal dita — incluindo as malditas. 

Dia desses, ouvi nas notícias de trânsito que o problema na via era da “temporização semafórica”, que nada mais é do que o tempo em que o semáforo, ou a sinaleira, como falamos no Rio Grande do Sul, abre e fecha. Aliás, a família “semafórica” parece ser enorme entre os técnicos de controlam o tráfego nas cidades brasileiras: sem puxar muito da memória já fui apresentado no ar ao pai conjunto, à mãe sinalização e ao irmão temporão, ops, temporização.

As pautas de saúde e coronavírus também vão ao ar sem que se dedique alguns minutos em busca de palavra melhor. Dos médicos, repetimos a expressão “evoluir a óbito”. O problema não é o que o médico diz —- lá na sala de cirurgia, no registro oficial, ele tem todo o direto de evoluir a pessoa a óbito —- mas isso não cabe na boca de um jornalista. Ou a pessoa sobreviveu ou morreu. Se ela evolui para algum lugar, isso é assunto para outra editoria.

Tem as paravas e expressões da moda, também. “Mortos contabilizados” e “novos mortos” estão por todos os lugares do noticiário. Não há um dia em que eu não depare com um texto em que o verbo contabilizar aparece —- não bastasse o fato de que a ideia inicial de contabilizar está relacionada a transação financeira, por que não procurar outra formas de escrita? Por exemplo: em lugar de o Brasil contabilizou 1.500 mortes por Covid-19, nas últimas 24 horas; use o Brasil registrou 1.500 mortes …; ou 1.500 pessoas morreram no Brasil… Jamais “contabilizou novas mortes” (aí é de matar) como ouvimos a todo momento. Faria algum sentido dizer que o Brasil teve 1.500 velhas mortes?

  1. Só use a palavra mal dita, quando disser que foi dita

É claro que se um entrevistado, alguma autoridade ou uma fonte que mereça e possa ter seu nome citado usar uma expressão mais complicada, um jargão da área em que atua ou uma palavra estranha ao nosso vocabulário, podemos e devemos reproduzir sua declaração —- mas não esqueça de, em seguida, traduzir para o ouvinte o que foi dito. E de forma bem dita.

  1. De preferência, deixe o mal dito na voz do dito cujo

Nesses tempos de autoridades desbocadas, que acreditam que com palavrão podem descrever uma pessoa, uma profissão ou um fato; já que estamos falando em mídias faladas, de preferência deixe que ele ou ela diga em viva voz aquela expressão. Um exemplo aleatório: imagine que você viva em um país no qual o presidente chame os jornalistas de bundões (Deus me livre de viver em um lugar desses). Você não precisa repetir no texto da reportagem, em viva voz, a palavra usada pelo presidente, se tiver a gravação do próprio mal dizendo seus colegas. Tem coisa que cabe na boca da autoridade, mas não cabe na sua. Nem na minha.

  1. Números ditos costumam ser mal ditos

Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que jornalista não entende de números, mas adora usá-los. A impressão que se tem é que reportagem sem número parece não ter lead, manchete ou credibilidade. Que fique claro, discordo piamente dessa ideia.  Reportagem não precisa de número, precisa de histórias, fatos e pessoas, além de um bom texto, é claro. Histórias, fatos e pessoas são a alma de uma reportagem.

Hoje, temos, inclusive, uma área que tem crescido bastante, que é a de jornalismo de dados, que nos especializa nos temas e nos ensina ao menos a saber quando usar ou não “morte por milhão de pessoas”. Nesta pandemia, fomos muito cobrados por parte do público —- especialmente bolsonarista ou aquele que se identificava como amante (?) do Brasil —- o fato de não relativizamos o número de pessoas infectadas ou mortas levando em consideração a população do país. Seria, segundo essa turma, uma maneira de mostrar que o problema não era tão grave quanto “vocês jornalistas que não gostam do Brasil querem que seja”. Aprendemos na crise que o número de mortos por 100 mil ou por milhão pode trazer distorções na avaliação em situação aguda como esta. A medida é importante quando tratamos de casos crônicos; por exemplo, assassinatos, acidentes de carros ou mortes por problemas no coração. 

Em situações nas quais números são relevantes para a reportagem, é preciso que se tenha parcimônia quando formos informá-los no rádio —- o preciosismo pode acabar em desinformação. Decida o número que realmente interessa; dê ênfase a esse número; faça comparações que ilustrem a dimensão dele; e evite publicar uma sequência de números com milhão, milhares, centenas e dezenas. Na dúvida, faça a você mesmo a seguinte pergunta: se eu fosse o ouvinte qual desses números que tenho em mãos, eu gostaria de memorizar para contar aos meus amigos? Esse é o número que você vai ter de trabalhar de forma precisa na sua reportagem.

  1. Sempre há uma nova forma de dizer a mesma coisa

Esses dias, li um e-mail armazenado no arquivo de meu computador que fazia parte de uma série escrita por um dos ex-diretores de jornalismo da CBN, Giovanni Faria. Guardei todos os e-mails porque o conteúdo é riquíssimo e produzido com base no que ele ouvia no ar. Em um deles, pedia para que âncoras e repórteres buscassem uma outra maneira de perguntar a opinIão de seus entrevistados. Reclamava, com razão, que em quase todas as entrevistas nós usávamos a mesma fórmula: “como o senhor vê isso?”; “como a  senhora vê aquilo?”. Sugestão do chefe, aceita e nem sempre cumprida: restringir o uso do verbo VER para seu sentido literal e abandonar o modismo de usá-lo como sinônimo de EXAMINAR, ANALISAR, PENSAR, COMPREENDER, ENTENDER, SENTIR …. Só com um puxão de orelhas desse para a gente perceber que exagera no “ver”. 

  1. O texto falado para ser escutado pode ser escrito 

O rádio é uma tremenda escola para o improviso, o que não significa que ao entrar no ar você não possa preparar o seu texto. Aliás, na abertura do Jornal da CBN, quando apresentamos uma espécie de resumo de notícias e declarações que interessam ao público, o texto é todo escrito. Há um roteiro, não exatamente com o cuidado que aprendemos na academia, mas há um roteiro adaptado às nossas necessidades.

Os repórteres —- especialmente os mais novos —- temem cometer erros e, portanto, não há mal nenhum que preparem um texto escrito com antecedência, desde que isso não atrase a participação dele na programação. Se o tempo for pouco e a insegurança muita, anote apenas os tópicos, de maneira ordenada e lógica. Quando for chamado, com texto ou sem texto, o repórter tem de estar pronto para contar a história que lhe cabe. 

  1. O texto escrito para ser escutado tem de ser falado

O cuidado essencial é entender que o texto escrito para ser escutado tem de ser escrito como é falado. E esse é talvez dos erros mais comuns, muitas vezes cometido por pressa, preguiça, ignorância ou medo —- acrescentei mais um motivo para os nossos erros, além dos três citados por Carlos Eduardo Lins da Silva. 

A forma como você escreve um texto para o rádio tem de ser da forma como falamos, caso contrário, ninguém vai ouvir como deveria. Isso não significa contrair o para para pra; ou a pessoa pelo cara; ou o bandido pelo crápula …. Há regras a serem respeitadas, mas a frase escrita tem de caber na boca do locutor; tem de fazer parte do seu cotidiano e do cotidiano do ouvinte.

*O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral” (Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios (primitivos), procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

*(reproduzido do livro “Jornalismo de Rádio”, Editora Contexto, 2004)

  1. O texto para ser escutado tem de ter ouvintes

Então, não os espante com textos mal ditos!

Como apresentar uma aula pelo rádio e ganhar a audiência do seu aluno

O rádio é transformado em sala de aula na pandemia (Foto: Pixabay)

 

Tem em Osório, no Rio Grande do Sul; tem em Pindamonhangaba, em São Paulo; tem em Mulungu; no Ceará; e tem também em Ruy Barbosa, na Bahia. Tem aula sendo apresentada no rádio em várias partes do Brasil, desde que as escolas fecharam devido ao risco de contaminação dos alunos com a pandemia.

Sem a tecnologia mais avançada à disposição, sem sinal de internet na região e sem celulares na mão, alunos recebem o conteúdo possível sintonizando emissoras locais ou comunitárias. Prefeituras, professores e gestores de educação tiveram de se adaptar diante das carências de cada região. Com o material didático e uma dose grande de resiliência os alunos tentam absorver o conhecimento através de um veículo no qual a maioria só ouvia música.

Com a preocupação de reduzir o prejuízo no aprendizado desses jovens —- e mesmo de adultos que se alfabetizam no EJA —-, o Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) elaborou um guia para que os professores tirem proveito dos recursos que o rádio oferece.

São 10 dicas que podem ajudar o professor, beneficiar os alunos e fornecer a você, que imagina um dia trabalhar com o veículo, na área da educação ou não, um conhecimento básico sobre como transmitir da melhor forma a mensagem pelo rádio. São dicas para situação de emergência, porque o rádio pode ser ainda mais bem explorado. Mas deixemos esses outros recursos para quando a situação se acalmar.

O guia leva a assinatura dos professores Luiz Artur Ferraretto, doutor em comunicação e dos maiores entusiastas do rádio que conheço, e Fernando Morgado, mestre em economia criativa. O trabalho se inicia inspirado por frase de Edgar Roquette-Pinto, pai da radiodifusão brasileira, criador da primeira emissora no Brasil:

“Ensine quem souber, o que souber, a quem não souber”

Com “Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de Covid-19”, o NER trata de elementos que estão ao alcance dos educadores, e não cai na tentação de querer ensinar o professor a dar aula, mesmo que algumas das dicas a seguir sejam muito úteis para o dia a dia na escola —- quando isso se tornar possível novamente.

O trabalho completo vale a pena ser baixado. O arquivo está disponível no site do Núcleo de Ensino de Rádio. A seguir, um resumo de cada passo e a minha recomendação: faça essa caminhada junto com o seu aluno:

1 — Conheça como funciona o rádio

“Do final do século passado até a atualidade, o rádio não mudou e, ao mesmo tempo, mudou muito”. Muitas mudanças no campo da tecnologia e transmissão do sinal; e a perseverança na ideia de que a relação apresentador e ouvinte ou professor e aluno se baseia em um diálogo que se altera “entre uma espécie de palestra e algo próximo de bate-papo”. Nessa conversa, um desafio para quem precisa da atenção do aluno “o caráter sonoro da mensagem permite que o ouvinte realize outra atividade em paralelo à escuta”.

2 — Não tenha medo de falar ao microfone

Todo mundo estranha quando ouve sua voz pela primeira vez em uma gravação. Não se preocupe. É apenas a falta de costume de ouvir a si mesmo. Seus alunos já o conhecem pela voz e vocabulário que usa. O NER chama atenção para que ninguém se intimide por não ter aquilo que se consagrou no passado como voz de locutor de rádio: “falar claramente é muito mais importante do que possuir um vozeirão”. 

Outra sugestão que entendo ser relevante. Sua fala vai além da sua voz, inclui gestos, expressões e postura, portanto “se na sala de aula e no dia a dia você gesticula, faça o mesmo ao falar em rádio”. A palavra ganha vida.

3 — Não fale sozinho

Formem duplas ou trios de professores, assim o que seria um monólogo vira conversa e a mensagem chega mais agradável ao ouvinte. Um recurso pode ser a entrevista com pessoas que ajudem a ilustrar a temática abordada.

4 — Bata papo com a turma

“Como fazem os comunicadores, vocês precisam fingir que conversam com o seu público, criando uma espécie de bate-papo imaginário com alunas e alunos” e para que isso funcione é preciso conhecer bem o público para o qual se destina o conteúdo.

5 — Explore o ambiente dos alunos

Como já dito, no rádio você disputa a atenção do ouvinte com outros estímulos que estão à sua volta. Entre no cotidiano do seu aluno. Use expressões tais como: “você que está escutando a gente em sua casa, cuidando do irmãozinho menor enquanto a mãe foi para o trabalho …” etc

6 — Vá direto ao assunto

A mensagem no rádio é altamente fugaz ou volátil, lembra o guia. Então, vá direto ao assunto, descrevendo-o com começo, meio e fim. Se me permitem os autores do texto, dou meu pitaco: “seja simples, direto e objetivo” — é o mantra da boa comunicação.

7 — Ensine em módulos

A transmissão no rádio é a simulação de uma conversa. Não se trata de um bate-papo de mesa de bar. Precisa ser uma comunicação planejada, não necessariamente escrita —- recomenda-se que não o seja. Faça um roteiro dos temas e separe o conteúdo em blocos de 5 a 10 minutos, crie novos estímulos e volte ao assunto em seguida para manter a atenção do aluno.

 

8 —  Pare e pense

A cada passo é necessário analisar o que foi realizado e quais os resultados obtidos. Faça uma autoavaliação do lado de quem emitiu o conteúdo.

9 — Seja redundante

Com bom senso, é claro. No começo da aula explique o que será tratado e, no meio do caminho, retome alguns pontos de forma resumida. Sempre que tiver alguma informação que precisa ficar na memória do ouvinte, não se reprima: repita a sentença.

10 — Comece tudo de novo

A cada novo programa como a cada nova aula, saiba que você vai precisar recomeçar. Se os passos anteriores foram dados com sensates, o recomeça será apenas uma consequência, ensina o guia.

Bom programa, ótima aula e se cuide!