No rádio, às vezes, uma pergunta vale mais do que uma resposta longa e cheia de números.
Hoje, ao entrevistar Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, sobre o Desenrola 2.0, escolhi começar a conversa criando um personagem. Um brasileiro que ganha cerca de oito mil reais, tem parte da renda comprometida com consignado, está enrolado no cartão de crédito, no cheque especial e atrasou contas da loja onde costuma comprar.
Era um personagem fictício apenas no nome. Porque, na prática, ele representa milhares de pessoas que estavam ouvindo o rádio naquele instante. Aliás, milhões de brasileiros sufocados por dívidas e que podem se beneficiar das regras anunciadas pelo Governo Federal.
Sempre gostei desse tipo de entrevista. Ela transforma um assunto técnico em uma conversa possível. Sai o economês. Entra a vida real.
Quando o ouvinte consegue se enxergar dentro da pergunta, ele entende melhor a resposta. A entrevista deixa de ser apenas uma prestação de serviço e passa a cumprir uma das funções mais bonitas do rádio: criar companhia, identificação e acolhimento.
O rádio tem essa força. Ele fala com milhões, mas preserva a sensação de conversa individual. Como se cada pergunta fosse feita da mesa da cozinha, do volante do carro ou no caminho para o trabalho.
Talvez por isso eu goste tanto do rádio e dessas entrevistas. Elas nos lembram que comunicação não é despejar informação. É construir pontes para que a mensagem faça sentido na vida de alguém.
Quanto à entrevista com o secretário do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, que teve o mérito de ser didático nas respostas e ajudar o ouvinte a ficar mais bem informado, você pode acompanhar o vídeo disponível neste post.
No jornalismo de rádio diário, estamos sempre em busca da notícia mais recente. Aquilo que está acontecendo em tempo real. A operação da polícia, o anúncio do governo e o congestionamento da hora tomam espaço da reportagem produzida com antecedência — para desespero do repórter que investiu seu tempo e talento. Nesta semana, por exemplo, as raquetadas ao vivo de João Fonseca se impuseram ao crime que abalou o ouvinte no dia anterior — que assim seja nesta sexta-feira que está para começar. Em uma competição jamais confessada, o papel do radiojornalismo é deixar o jornal da banca um pouco mais velho. Não me queiram mal, colegas de impresso. Admiro muito o trabalho que vocês fazem — é o que nos sustenta naqueles momentos em que o noticiário de rádio está ‘fraco’.
Na edição desta quinta-feira do Jornal da CBN, os personagens da política de Brasília, da economia da Faria Lima ou dos eventos internacionais foram preteridos por alguns instantes. Convidamos dois pesquisadores brasileiros para conversar simultaneamente: Mariangela Hungria, da Embrapa, e Luciano Moreira, da Fiocruz, que entraram na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. Que privilégio!
Mariangela pesquisa há mais de quatro décadas o uso de micro-organismos do solo para reduzir a dependência de fertilizantes químicos. Em um país que importa a maior parte desses insumos, o efeito é direto na economia e na produção de alimentos. Em uma única safra, segundo ela, a tecnologia desenvolvida gerou economia de dezenas de bilhões de dólares.
Luciano atua no combate às arboviroses. Lidera um método que utiliza mosquitos com uma bactéria capaz de bloquear a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya. O projeto já está presente em diversas cidades brasileiras e em outros países.
Não havia um factual, uma ocorrência bombástica ou o escândalo que viraliza. O trabalho dos dois começou há décadas, sem alarde. No laboratório das instituições públicas em que trabalham, feitos com baixo investimento e sob alto ceticismo. Uma trajetória marcada por falhas e frustrações. Que, para muitos dos colegas deles, se encerrará no anonimato e na dúvida se as pesquisas que desenvolveram se tornarão legado nos estudos de seus sucessores.
Apesar da ausência da urgência do noticiário, entrevistá-los foi muito especial para nós, que fazemos o Jornal da CBN. E motivo de satisfação para os ouvintes. Aquele mesmo que nos cobra a informação imediata, a atualização do trânsito, a previsão do tempo, a denúncia contra agentes públicos por atitudes erráticas, a notícia do aqui e agora, dispendeu seu tempo para ouvir o relato de dois cientistas.
Claro que o reconhecimento da Time os fez notícia. Dar tempo para que pesquisadores falem das suas angústias e orgulhos não é comum no cotidiano dos programas radiojornalísticos matinais. Por isso, gostei tanto da conversa com eles. Sem contar que os dois são ótimos entrevistados, com bom domínio da comunicação.
A propósito, foi a dra. Mariangela quem chamou atenção para a importância de se investir em comunicação para o bem da ciência:
“Se eu fosse uma ministra de ciência e tecnologia, para quem eu mais daria dinheiro seria para a área de comunicação, ciência da comunicação, porque vocês precisam ensinar para a gente. Tem que ter alguma coisa disruptiva para eu conseguir entender por que a gente traz uma mensagem correta e tem 5 mil likes, e vem um influenciador que fala tudo diferente e tem 500 mil likes”.
Como fazer com que a informação correta, capaz de ajudar as pessoas, consiga ganhar tração e influenciar a sociedade de forma positiva é apenas mais um dos muitos desafios que os cientistas têm pela frente. Um desafio que nos aproxima, pois, como comunicadores que somos, temos a responsabilidade de ampliar o alcance dessa mensagem.
Pela repercussão da entrevista desta quinta-feira, no Jornal da CBN, encerro o dia com a sensação de que vale a pena abrir espaço para histórias que não cabem na urgência do noticiário. Nem sempre o mais importante chega primeiro. Às vezes, ele precisa apenas de tempo — e de escuta — para ser compreendido.
Ameaço escrever este texto desde segunda-feira. Algo indefinido me impedia. Talvez indecisão. Talvez pudor.
Fui escolhido para receber a Medalha Alberto André, um reconhecimento a trajetórias relevantes no jornalismo gaúcho, concedida pela Associação Riograndense de Imprensa.
Uma das razões que me tolhiam o desejo de escrever era a frase que ouvi do falecido ministro Raul Jungmann: medalha não se pede, não se nega e não se conta — ensinamento que me acompanhou desde então. Evidentemente que não a pedi — nem mesmo a vaidade de um leonino teria sido capaz de me levar a cometer essa barbaridade. Menos ainda a neguei. Ao contrário. Aceitei-a. Não imediatamente, porque nos primeiros minutos da ligação que recebi do presidente da ARI, José Nunes, pensei que o convite era para apresentar a cerimônia.
Como não contar? Como não dividir com amigos e conhecidos essa conquista? Há momentos que pedem silêncio. Outros, partilha.
Vaidade à parte — e ela sempre está a nos levar ao pecado —, momentos como esses pedem publicidade. Com escrúpulo e comedimento.
Deixei o Rio Grande do Sul há 35 anos. Vivo em São Paulo há mais tempo do que vivi em minha terra natal. Muitas memórias e valores ainda estão presentes. A casa em que morei da infância até o início da vida adulta segue por lá. Foi onde dormi nas duas noites em que estive em Porto Alegre.
Meus irmãos, Christian e Jacqueline, são presença viva da família criada pela Ruth e pelo Milton. A Saldanha Marinho, a Getúlio Vargas, o viaduto Otávio Rocha, os escombros do estádio Olímpico, a sede da RBS: tudo me remete aos tempos em que morei na capital gaúcha. A linha de ônibus que cruza a perimetral, o ponto de táxi na esquina e alguns endereços que só eu sou capaz de entender o significado me fazem relembrar experiências marcantes — nem sempre positivas, mas bastante representativas.
Voltar à terra para ser homenageado pela trajetória no jornalismo é também um reconhecimento a quem se atreveu a seguir a carreira de meu pai e meus tios. Como fiz questão de lembrar na fala em agradecimento à medalha recebida, sou de uma família de jornalistas. Milton Ferretti Jung é o meu maior referencial — por tudo o que herdei como filho e como jornalista. Meus tios Tito Tajes e Aldo Jung também foram relevantes no trabalho que realizaram nas redações e importantes na minha formação. Dar sequência a essa trajetória me impunha uma enorme responsabilidade.
A Medalha Alberto André foi, para mim, uma certificação. A demonstração de que fui capaz de levar em frente o legado desta família de jornalistas. A certeza de que a escolha, feita em 1981, quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC-RS, apesar de arriscada, foi acertada. Saber que essa mesma medalha esteve no peito de Marques Leonan e Carlos Kober, dois de meus professores na academia, e de Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, duas das minhas referências quando eu ainda era apenas um guri de calça curta, foi motivo de orgulho.
Ver naquele mesmo espaço profissionais com a trajetória de Affonso Ritter, que aos 89 anos destacou em suas palavras o papel preponderante do jornalista, a despeito de todo o avanço tecnológico que assistiu ao longo de sua carreira, me fez acreditar na valorização do ser humano.
Abraçar colegas que estiveram ao meu lado no início de minha carreira, como Flávio Dutra e Cláudia Coutinho, e receber a medalha das mãos de Kátia Hoffman, autora do livro Milton Gol-Gol-Gol Jung, que conta a trajetória de meu pai, foi emocionante.
Diante de todos os sentimentos que se expressaram nesses dias em que estive em Porto Alegre, e mesmo com todas as restrições que me imponho, não registrar esse momento de alegria talvez fosse menos humildade e mais egoísmo. E, neste caso, o silêncio não me pareceria virtude, apenas omissão.
Por isso estou aqui, nesta inconfidência, a dividir com você a felicidade e o orgulho de ser jornalista.
Edward R. Murrow e William Shirer, no estúdio da CBS Foto: reprodução NYT
Abri o The New York Times neste sábado como faço tantas vezes — quase no gesto automático de quem liga o rádio antes mesmo de pensar no café. Aliás, o rádio também estava sendo ligado naquele instante no meu pedido de voz matinal: “Alexa, toca CBN ao vivo”. E lá estava — no jornal que corria na tela do meu celular — a reportagem assinada por Michael M. Grynbaum e Benjamin Mullin. Li o título. Segui adiante. E, ainda assim, fui surpreendido por algo que, no fundo, talvez já devesse ter aprendido a aceitar: o encerramento anunciado para maio da CBS News Radio, depois de 99 anos no ar.
Quase um século. Tempo suficiente para narrar guerras, acompanhar presidentes, contar histórias que atravessaram oceanos antes de chegar aos ouvidos de quem mal saía da própria cidade.
O artigo do Times lembrava que aquela rede ajudou a levar aos americanos os relatos da Blitz em Londres e, depois, os horrores dos campos de concentração. Era uma época em que a voz do repórter carregava o peso do mundo. E o ouvinte, sentado na sala de casa, recebia essa notícia como quem recebe visita, com atenção, silêncio e respeito.
Pensei em Edward R. Murrow. Pensei naquele aviso seco antes de descrever o campo de Buchenwald: quem estivesse almoçando, melhor desligar o rádio. Havia ali um pacto. O jornalista avisava. O ouvinte decidia. E, entre um e outro, havia confiança — essa marca inexorável que devemos conservar a despeito de todas as transformações digitais.
A decisão de encerrar a rede, segundo os executivos, atende a mudanças de mercado e dificuldades econômicas. Um roteiro conhecido. O avanço dos podcasts, das plataformas digitais, da multiplicação de vozes. Tudo isso aparece como argumento. E faz sentido, ao menos na planilha.
Ainda assim, algumas vozes se levantam contra esse fim. Uma delas é a de Harvey Nagler, que vê na decisão a perda de mais um espaço para o jornalismo objetivo. Outra é a de Peter Maer, que reconhece a mudança nos hábitos, o gosto especialmente entre os mais jovens de ouvir podcasts e acessar o TikTok e o Instagram, mas lembra de algo simples: no caminho para o trabalho, as pessoas querem começar o dia informadas. Deus te ouça!
Há uma frase na reportagem que chama atenção e sinaliza contradição. O rádio ainda alcança 93% dos adultos americanos. Noventa e três por cento. Não parece um meio em extinção. Parece um meio que continua presente — talvez mais silencioso, menos celebrado, mas ainda necessário E foi nesse ponto que o texto deixou de ser sobre os Estados Unidos e passou a conversar comigo aqui. Porque, no Brasil, também convivemos com essa sensação de que tudo mudou. De que a informação agora corre pelo dedo que desliza na tela. De que basta rolar o feed para estar informado.
A ilusão é confortável. Rápida. Barulhenta. Até que algo acontece. Uma enchente no Rio Grande do Sul, uma crise no Brasil, uma pandemia no mundo que exige mais do que manchetes fragmentadas. Nesses momentos, o comportamento muda. As pessoas voltam a procurar quem organiza a informação, quem separa o fato do ruído, quem assume a responsabilidade pelo que diz. Voltam ao rádio!
Durante a pandemia, isso ficou evidente. Mais gente passou a ouvir. Por mais tempo. Não era nostalgia. Era necessidade. O rádio tem essa característica curiosa. Ele não disputa atenção com o olhar. Ele acompanha. Está aí no painel do seu carro, em cima da pia da cozinha, tocando na assistente de voz no escritório. E, quando preciso, se transforma em porto seguro.
A decisão de encerrar a CBS News Radio pode ser explicada por números. Mas não se resume a eles. Há ali também uma escolha de caminho. E talvez um erro de leitura sobre o papel que o rádio ainda desempenha. Porque o rádio não depende da moda. Depende da confiança. E confiança não se constrói com rolagem infinita.
Constrói-se com voz. Com presença. Com consistência.
No Facebook, Dan Rather, ex-âncora do CBS Evening News escreve que o encerramento da rede partiu seu coração. Ele lembra de quando ouvia aquelas transmissões ainda menino, no Texas. E de como aquilo ajudou a definir sua escolha profissional.
Fiquei pensando em quantas histórias como essa existem nos Estados Unidos, aqui, em qualquer lugar onde alguém, um dia, tenha parado para ouvir. O rádio pode até sair do ar em uma frequência, mas continua ecoando em quem aprendeu a confiar nele — especialmente quando a informação precisa ser confiável.
Uma pesquisa, publicada pelo jornal Valor Econômico, revelou que o rádio é o veículo de comunicação com maior credibilidade para o público brasileiro. O levantamento, realizado pela Ponto Map e V-Tracker, destacou que veículos tradicionais de jornalismo profissional continuam mais confiáveis do que as redes sociais.
Segundo a reportagem assinada por Alex Jorge Braga, apesar da popularização das mídias digitais, a preferência e confiança do público permanecem nos veículos tradicionais, especialmente no rádio, devido à clareza, agilidade e proximidade com os ouvintes. A credibilidade atribuída ao rádio reflete uma busca crescente por informações verificadas e responsáveis, em contraste com as informações não filtradas que circulam pelas plataformas digitais.
Juliana Paiva, especialista em Gestão e Estratégia em Mídia, Planejamento Estratégico para Áudio e Expansão de Redes de Rádio e TV, destaca que a credibilidade do rádio também decorre de características específicas: “Ele é 100% brasileiro, é local mesmo sendo rede, é auditado por terceiros e não ‘compra’ ouvintes. Além disso, tem uma legislação que impede abusos e é acessível: é de graça””. Para Juliana, essas características, somadas à capacidade do rádio em estabelecer vínculos afetivos com os ouvintes, tornam-no um meio confiável e essencial.
Esse resultado reforça o papel fundamental dos meios tradicionais, especialmente do rádio, em tempos de excesso de informação e disseminação de conteúdos duvidosos. Ao priorizar a apuração rigorosa e uma comunicação clara, o rádio se mantém como referência de informação confiável e acessível para milhões de brasileiros.
O rádio brasileiro tem agora uma data oficial a celebrar. Com a nova lei assinada pelo presidente Lula, o 25 de setembro passa a ser o Dia Nacional do Rádio. A decisão ratifica uma escolha feita pela ABERT — que reúne emissoras de rádio e TV — em 1966, ao simbolicamente adotar a data. O motivo? Foi em 25 de setembro de 1884 que nasceu Edgar Roquette-Pinto, pioneiro da radiodifusão no Brasil e fundador da primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Roquette-Pinto transformou o rádio em um meio poderoso de educação e cultura.
Mas não pense que essa é a única data no calendário do rádio. Além do 25 de setembro, temos o 13 de fevereiro, Dia Mundial do Rádio, criado pela UNESCO para lembrar a primeira transmissão da Rádio das Nações Unidas, em 1946. E, ao olhar a folhinha pendurada na geladeira, você ainda vai deparar com o Dia do Radialista. Sim, duas vezes! A data oficial é 7 de novembro, em homenagem ao aniversário de Ary Barroso. Mas há também o 21 de setembro, vinculado à regulamentação profissional da categoria no governo Vargas.
E, para complicar um pouco mais esse calendário já agitado, que tal incluir mais uma data? Proponho o 21 de janeiro, aniversário do padre Roberto Landell de Moura. Esse padre brasileiro e gaúcho foi o responsável pela primeira transmissão de voz por ondas de rádio no mundo, em 1899 — antes mesmo do italiano Guglielmo Marconi. Apesar de injustiçado e pouco reconhecido, Landell merece nosso aplauso, talvez com um “Dia Nacional da Invenção do Rádio.”
Brincadeiras à parte, para quem apresenta um programa radiofônico, como eu, todos os dias são uma celebração ao rádio. Cada transmissão é uma oportunidade de fazer o melhor trabalho possível para homenagear quem realmente importa: o ouvinte.
Afinal, mais do que datas, o que define o rádio é o seu impacto diário nas nossas vidas, unindo informação, cultura e emoção com a mesma sintonia.
O rádio ao vivo é uma paixão antiga, dessas que o tempo só faz crescer. Em quase 40 anos de jornalismo, já vivi de tudo: tensão, tragédia e êxtase. Cada transmissão é como uma corda bamba, e o equilíbrio depende do improviso, da escuta e da alma. Planejar? Quase sempre é apenas um desejo.
Foi assim na manhã desta terça-feira, 14 de janeiro de 2025 — guarde essa data. Enquanto apresentava o Jornal da CBN, algo especial aconteceu. Eu compartilhava com os ouvintes os momentos decisivos de uma partida de tênis. Mas não era uma partida qualquer. Era a estreia de João Fonseca, uma promessa de 18 anos, no Aberto da Austrália, um dos torneios mais importantes do circuito internacional.
João enfrentava Andrey Rublev, o número 9 do mundo. E, no instante do match point, bem no momento em que falávamos sobre economia e a fake news da taxação do PIX (não haverá taxação, que fique claro), pedi licença à Cássia Godoy e à Marcella Lourenzetto. Não dava para deixar aquele momento escapar.
Ali, com o microfone em mãos, vivi algo que só o rádio pode proporcionar. Era como se estivéssemos todos na beira da quadra, testemunhando um jovem brasileiro escrevendo sua primeira página em um Grand Slam. A vitória veio: 3 sets a 0. João Fonseca, que muitos já apontam como a grande revelação do tênis internacional, deu um passo gigante para cravar seu nome na história.
Em meio a tudo isso, chegou uma mensagem de Ribeirão Preto. Um ouvinte dizia que, ao ouvir sobre João, sentiu-se transportado para os tempos de Gustavo Kuerten, quando o Guga surgia como um furacão no tênis mundial. “Revivi a emoção de acompanhar a CBN nos anos 90”, escreveu ele.
Por sugestão do Paschoal Junior, nosso mestre das operações de áudio, decidi guardar no meu arquivo pessoal o anúncio dessa vitória. Não é sempre que temos o privilégio de contar, ao vivo, o começo de algo que pode se tornar histórico.
E, como bem sabe quem ama o rádio, o histórico começa sempre com uma voz.
Nessa semana que se foi, comemoramos os 100 anos de rádio. Cada um a seu jeito, lembrou de histórias marcantes. Dos ouvintes da CBN, vieram lembranças do passado, memórias dos pais que tinham o veiculo como único meio de comunicação. Juntamente a essas memórias, surgiram nomes que construíram o rádio ao longo deste tempo no entretenimento, na música, no jornalismo e no esporte.
Por ouvintes que são, a maioria lembra do que ouve. E no rádio, ouve-se a voz dos locutores, apresentadores e repórteres . Pouco se sabe de quem é capaz de tornar tudo aquilo possível, levando o som até você. São técnicos dos mais variados tipos — hoje, inclusive, técnicos de vídeo, mesmo que o áudio ainda seja a vedete no espaço radiofônico. Uma gente que tem a habilidade de dominar uma sequência de botões, ponteiros, cabos e fios; e fazê-los funcionar de maneira harmônica para que a mensagem chegue até você sem nenhuma intereferência.
Dentre eles, há os que vão além. Interferem e muito no que fazemos diante do microfone. Valorizam a informação, com a sensibilidade dos maestros, sonorizam nossa fala e mexem com a imaginação do ouvinte, trazendo-o para dentro da mensagem. Sem eles nada da magia que dizem o rádio ter se realizaria. Seríamos músicos sem voz. Mensagem sem som.
Em homenagem a todos os radialistas que tornam possível essa magia, reproduzo aqui no blog um depoimento do ator Lima Duarte que conta como a função de operador de som em uma emissora de rádio o resgatou da zona do meretrício, aos 15 anos. Lima pensava ser locutor, mas foi desestimulado pelos donos da emissora diante da “voz de suvaco” com que se apresentou no teste … o resto da história você ouve no depoimento que foi descoberto por Paschoal Júnior — um daqueles maestros que citei no parágrafo acima — na página Operadores de Rádio e Áudio, no Facebook.
Ao Paschoal e ao Claudio Antonio (aquele do Conte Sua História de São Paulo e da Rádio Sucupira) que estão ao meu lado desde o início da minha jornada na CBN; assim como a todos os profissionais que como eles tornam o rádio algo fantástico de se vivenciar, e seria impossivel citá-los nominalmente neste texto; o meu agradecimento pela dedicação e carinho com que fazem rádio.
O jornalismo é profissão que nos proporciona as mais diversas experiências. Situações que nos põem diante de fatos que farão parte da história, mesmo que no momento em que relatamos o ocorrido não tenhamos ainda ideia do seu verdadeiro significado. Escrevo isso sem conseguir tirar da mente as cenas que descrevi, ao vivo, na CBN, de um avião cravado e em chamas entre os andares 93 e 99 do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Um suposto acidente de avião que se expressaria, em seguida, no atentado terrorista que marcaria para sempre o Século 21, recém-chegado.
Que outra profissão nos colocaria à frente das maiores autoridades do país ou nos ofereceria a chance de conversar com as personalidades nacionais e internacionais das mais diversas áreas, se não o jornalismo? Foi dela que me aproveitei para estar diante dos meus ídolos do futebol — sim, no início de carreira isso me satisfazia; graças a ela, tive o prazer de ouvir, ao vivo, as palavras de Amir Klink, fascinado com sua trajetória nas travessias oceânicas — eu era um aprendiz de jornalista quanto pude entrevistá-lo por uma hora, em um programa de rádio, em Porto Alegre.
Na missão de melhor informar, deparei com pessoas influentes e poderosas, questionei os maiores mandantes do país, cometi o atrevimento de duvidar de suas palavras, assim como dei oportunidade para que gente comum se expressasse. Se nas Diretas Já era um estudante de jornalismo, no impeachment de Collor fui privilegiado em cobrir os fatos, ao vivo e a cores, em Brasília. De lá para cá, a vivência no rádio, em especial, me colocou diante dos postulantes a presidente da República.
Na primeira eleição, após a redemocratização, em 1989, fui repórter; em 94, assisti à eleição de Fernando Henrique Cardoso, e repeti o feito em 98, durante sua reeleição. Foi em 2002, que estreie no comando de entrevistas com os candidatos ao cargo de presidente. De lá até hoje, pelas mais diversas circunstâncias, participei de séries de entrevistas com candidatos a presidente, a governador e a prefeito. Sempre uma nova experiência. Sempre a mesma tensão. Sempre a mesma impressão de que nem tudo que deveria ter sido dito foi dito.
Hoje, na CBN, abri mais uma série de entrevistas com os candidatos a presidência da República. A estreia foi com Ciro Gomes, a quem já havia entrevistado em situação semelhante, em 2002, quando concorria pela segunda vez ao cargo, e na eleição passada, em 2018. Os cabelos estão mais grisalhos e a voz mais envelhecida, mas não menos efusiva — me refiro a ele. As ideias seguem sendo apresentadas como definitivas. E o incomodo em ser questionado permanece, com a vantagem de se fazer mais controlado nos ataques aos entrevistadores — coisa da qual não escapei em 2018, quando me obriguei a pedir a ele respeito aos jornalistas que faziam parte da mesa de entrevistas.
Encerrei a conversa de uma hora com a mesma sensação das vezes anteriores. Muitos assuntos foram deixados de lado. Coisas importantes para o cidadão não foram debatidas com a devida profundidade. Registre-se: não é culpa do candidato. Nem dos entrevistadores. Tem muito mais a ver com a complexidade do país em que vivemos e a diversidade de problemas que precisamos enfrentar. Para Ciro, o principal é a miséria, e ele garante ter resposta — confira a entrevista que está no link abaixo deste texto. Imagino que não será diferente com os demais convidados. Essa é a grande preocupação do brasileiro.
O Brasil tem 11,9 milhões de desempregados, 4,6 milhões de desalentados e 38 milhões na informalidade. Uma precariedade vivida por 51 de cada 100 cidadãos brasileiros, mais de 33 milhões passam fome e boa parte tem cada vez mais dificuldade de pagar por um prato de comida. Dar resposta a essa angústia em apenas um hora de conversa é quase impossível, porque exige-se um plano amplo de desenvolvimento do país, com diversas frentes de atuação e, principalmente, muita coesão — algo difícil, considerando que boa parte dos agentes públicos coloca seu projeto de poder à frente do projeto do país.
Nesta quarta-feira, entrevistarei, ao lado da minha colega Cássia Godoy, a candidata do MDB, Simone Tebet; na quinta, André Janones, do Avante; e na sexta, Luciano Bivar, do União Brasil. A despeito da capacidade e interesse, assim como dos desejos e delírios de cada um, abrirei as entrevistas com a mesma sensação da primeira vez em que o rádio me colocou diante desses homens e mulheres que se propõem a comandar o país: tenso pela responsabilidade, angustiado pela falta de tempo para encontrar soluções e muito, muito feliz mesmo, pela profissão que escolhi exercer.
(4a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro)
ÚLTIMA PALAVRA
Duas guerras de cobertura global se seguiram ao atentado de 11 de setembro, uma no Afeganistão, outra no Iraque. Em ambas, o rádio brasileiro ficou à mercê dos meios de comunicação estrangeiros. As imagens das emissoras de televisão e as informações emitidas pelas agências internacionais municiaram o noticiário. Nossos homens não estava, no campo de batalha, mas diante do aparelho de TV. para consertar os desvios provocados pela visão tendenciosa da cobertura restou a permanente discussão com “especialistas”— que poderia ser alguém dotado de excepcional saber ou um palpiteiro de plantão, dependendo da qualidade da agenda do produtor.
Da batalha contra Osama bin Laden, em 2001, para a que derrubou Saddan Hussein dois anos depois, os brasileiros se beneficiaram em parte pela presença de um repórter de língua portuguesa, em Bagd. Carlos Fino foi o correspondente da RTP – Rádio e Televisão Portuguesa — e, graças ao acordo que essa emissora pública mantinha com a TV Cultura de São Paulo, suas reportagens eram reproduzidas no Brasil. Logo, o repórter passou afazer intervenções ao vivo, que chamaram a atenção das rádios, todas atendidas mesmo durante a madrugada de Bagdá. O repórter “sentia que tinha essa obrigação como português falando para um país de língua portuguesa:, como escreve no livro A guerra ao vivo (Verbo, 2003).
Não bastassem a facilidade de comunicação e a presteza em atender aos chamados do Brasil, Carlos Fino foi o repórter que, ao lado do colega da RTP, o cinegrafista Nuno Patrício, anunciou o início da guerra do Iraque, furando as demais emissoras que se preparavam para a batalha contra Sadan.
Os correspondentes de grandes redes dormiam, muito provavelmente por terem confirmação oficial de que os ataques começariam no dia seguinte. Carlos e Nuno, não. Mesmo porque não recebiam informações privilegiadas. O que ninguém imaginava é que o serviço de inteligência americano obteria dados de última hora sobre a presença de Saddan Hussein em um palácio próximo ao hotel em que as equipes de jornalismo se hospedaram. E o início da guerra seria antecipado.
Fino acabara de participar de um program de debates da RTP, Informação Especial Iraque, em plena madrugada, quando os estrondos se iniciaram. Fez novo contato pelo videofone – um computador que processa sinais de vídeo da câmera antes de introduzi-los no telefone por satélite — para avisar dos bombardeios. A primeira reação dos jornalistas na redação de Lisboa foi de dúvida: “não pode ter começado, a CNN não está dando anda”. A CNN dormia e Carlos Fino teve de convencer o pessoal para ir ao ar com um “furo” internacional, destacando na época apenas no Brasil. Em conversa informal, após entrevista sobre a participação dele na guerra, Fino me contou o caso e brincou: “se é na BBC e o repórter diz que chove canivete, a redação acredita, mesmo que faça sol do lado de fora”. Para ele, a última palavra é do repórter.
A história de um jornalista de televisão talvez não seja a ideal para encerrar um livro que se propõe debater o radiojornalismo. Mas a ideia não me incomoda, já que as bases para um trabalho ético e de qualidade são as mesmas, esteja em qual veículo estiver. No entanto, vou aproveitar um caso que aconteceu no rádio e ilustra bem a necessidade de se investir na reportagem.
Em 2 de outubro de 1992, véspera da eleição no Brasil, houve rebelião de presos do Pavilhão Nove, da Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. A polícia invadiu o local e ao sair deixou 111 pessoas mortas. História contada com a sensibilidade da escrita do doutor Dráuzio Varella e da criação do cineasta Hector Babenco e em centenas de artigos, reportagens, livros, além de uma peça jurídicas que mostra com detalhes e laudos os fatos ocorridos naquela que a princípio seria apenas uma uma sexta-feira, no maior complexo penitenciário da América Latina.
O “Massacre do Carandiru” somente se tornou conhecido no dia seguinte quando a eleição para prefeito e vereador já havia s iniciado. A “operação abafa” montada pelo sistema de segurança do estado de São Paulo fez com que muitos repórteres levassem para a redação a notícia de mais uma rebelião, com a morte de oito pessoas, provocadas pelo confronto entre detentos, rotina em uma prisão que reunia 7.200 presos. A farsa começou a ser desvendada na madrugada de sábado, quando chegaram informações, por telefone, ao setor de apuração da rádio CBN, que levaram a emissora a enviar o repórter de plantão para o Instituto Médico Legal. Lá, em conversa com funcionários, o jornalista Cid Barbosa soube da existência de dezenas de corpos de presos assassinados na invasão da Política Militar. Uma realidade até então escondida que, na maior das vezes, apenas o repórter em campo é capaz de descobrir.
Pelos dados coletados era possível afirmar que o número de mortos Carandiru superava oitenta. Ligou para a redação anunciando o “furo” jornalístico. A informação foi questionada. Relutou-se para levá-la ao ar., Ninguém havia levantado aquela hipótese até então. Por ninguém, quando se trata de jornalismo brasileiro, se entenda Rede Globo de Televisão. Cid disse que suas fontes eram seguras, não havia do que duvidar.
A notícias foi ao ar., Antes, porém, houve mais uma checagem. A CBN foi responsável pelo “furo”, mas pouca gente ouviu. Na época, a rádio era uma emissora nova, mal havia completado um ano de vida e nao tinha expressão no cenário nacional. Em pouco tempo, o fato se espalhou nas demais redações e o “Massacre do Carandiru” virou manchete.
Apuração da notícia e o comedimento são fundamentais para quem pretende fazer jornalismo com credibilidade; são princípios dos quais não se pode abrir mão. A construção da imagem de uma emissora de rádio depende da confiança que o ouvinte tem em seus profissionais. Ele não acredita em quem erra e não assume o erro.
Colocar em dúvida uma informação é ferramenta a ser usada pelo profissional em qualquer situação. O bom jornalista desconfia, pergunta, pauta, confirma e volta a desconfiar, até ter certeza de que tem para oferecer ao seu público a verdade — pelo menos a verdade possível até aquele momento.
A reação das redações tanto à notícia do início da guerra do Iraque quanto ao número de mortos no Carandiru serve para uma reflexão sobre o papel da reportagem no radiojornalismo.
As emissoras não podem dispensar o trabalho do repórter, por maior que seja o número de fontes e mecanismos de informação à disposição no mercado. Não inventaram, ainda, qualquer máquina em condições de substituir o repórter na rua — mesmo que os avanços tecnológicos nos permitam ver em tempo real imagens dos principais acontecimentos no mundo, como ocorreu em 11 de setembro de 2001.
O repórter deve ser a figura central ans empressa de comunicação. Nele está a síntese do que se espera de um profissional que trabalha com radiojornalismo: um bom observador; capaz de encontrar fatos novos mesmo nos casos corriqueiros, preparado para transmitir com clareza e precisão; equilibrado principalmente quando em situação de estresse ou de extrema emoção; e pronto para ouvir o cidadão, seja na rua, na guerra, na prisão, ou no telefone que não para de tocar na redação.