Mundo Corporativo: Douglas Strabelli, da Sagewood Corporation, defende negócios construídos para o longo prazo

Douglas Strabelli, CEO da Sagewood Corporation
Douglas Strabelli no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“O mais difícil é dizer não.”

A Sagewood Corporation completou 25 anos com mais de 360 projetos entregues e operações em Nova Iorque, Miami e Orlando. A expansão da construtora e incorporadora foi sustentada por uma reorganização interna que reduziu a participação direta na execução das obras e ampliou a capacidade de gestão. O processo, segundo o fundador e CEO Douglas Strabelli, exigiu planejamento, formação de equipes e disciplina para recusar projetos que poderiam comprometer a qualidade. A construção de negócios para o longo prazo foi tema da entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN.

A trajetória de Strabelli começou longe das salas de reunião. Aos 18 anos, ele deixou Maringá, no Paraná, e foi para a Espanha para jogar futebol. Era volante, mas nao era craque — como se para atuar na posição fosse necessário ter todo esse talento (perdão, é só uma brincadeira). Fato é que Strabelli precisava trabalhar para pagar as contas enquanto treinava.

Entrou na construção civil fazendo demolições e retirando entulho. Depois, tornou-se ajudante de pedreiro, pedreiro, pintor, chefe de construção e responsável geral pelas obras. Em cerca de um ano, passou a coordenar profissionais mais velhos e experientes.

O futebol não se transformou na carreira desejada, mas deixou aprendizados que acompanharam o empresário: disciplina, trabalho em grupo, liderança e capacidade de conviver com pessoas de diferentes perfis.

A mudança de profissão não foi tratada como uma derrota. Strabelli entendeu que o futebol tinha um tempo limitado e precisava encontrar outra atividade na qual pudesse crescer. O novo objetivo passou a ser construir em alto nível.

Persistência não é insistir no caminho errado

Desistir de um plano pode representar uma correção de rota, não necessariamente falta de persistência. Essa percepção voltou a aparecer quando Strabelli saiu da Espanha e se mudou para os Estados Unidos.

Em Nova Iorque, ele tentou deixar a construção civil. Associou-se a um amigo para abrir um restaurante espanhol. A experiência durou cerca de três meses.

O erro, segundo ele, estava na impressão de que administrar um restaurante seria mais simples. Na Espanha, havia conduzido a construtora de maneira muito centralizada, sem uma estrutura de gestão, processos ou distribuição de responsabilidades. O desgaste fez com que procurasse outro setor. Logo percebeu que havia entrado em uma atividade que não conhecia.

Strabelli voltou à construção. Para compreender as particularidades do mercado americano, ofereceu-se para trabalhar durante três meses sem remuneração em uma empresa que tinha quatro funcionários. Entrou como sócio por meio da troca de trabalho por participação no negócio e ajudou a elevar o número de profissionais para 70. Mais tarde, assumiu a operação, que passou a se chamar Sagewood Corporation.

O recomeço envolveu o aprendizado do inglês, a adaptação aos métodos construtivos dos Estados Unidos e a compreensão da cultura empresarial do país. Falar espanhol ajudava na comunicação cotidiana, mas não era suficiente para negociar e dirigir uma empresa no mercado americano.

Crescer sem reconstruir a empresa a cada projeto

Nos últimos cinco anos, a Sagewood passou por uma reorganização para aumentar o número de projetos sem ter de criar uma nova estrutura para cada obra. A empresa reduziu equipes próprias de execução e reforçou a área de gestão.

O objetivo foi estabelecer processos que pudessem ser ampliados à medida que novos contratos fossem incorporados. Com as funções organizadas, a entrada de um projeto exige a contratação dos profissionais necessários para aquela atividade, sem obrigar a empresa a começar novamente do zero.

Essa transformação também alterou o papel do fundador. Durante muito tempo, decisões e controles estiveram concentrados nele. A expansão exigiu a entrada de profissionais especializados e maior divisão de responsabilidades.

“Hoje nós temos pessoas na empresa que são melhores que eu. Eu só toco a banda, mas a maioria das pessoas ali são muito mais qualificadas, inclusive em diferentes departamentos.”

A equipe realiza reuniões semanais para discutir abertamente os problemas. Strabelli afirma que procura transformar as propostas surgidas nessas conversas em decisões e movimentos de crescimento.

Planejar para dez anos

O mercado imobiliário trabalha com ciclos demorados. Antes de desenvolver uma região, a Sagewood analisa a expectativa de crescimento populacional, os investimentos privados previstos e os recursos públicos que podem chegar ao local. Com essas informações, define o produto e tenta manter a disciplina durante a execução.

Para Strabelli, um negócio precisa ser pensado para atravessar diferentes momentos da economia.

“Para você ter um negócio de sucesso, no mínimo o pensamento é 10 anos.”

Esse horizonte obriga o empreendedor a definir previamente a cultura da empresa, as pessoas necessárias, os sistemas de controle e a forma de atuação no mercado. Também reduz a expectativa de resultados imediatos, especialmente em setores nos quais um projeto pode levar anos até gerar retorno.

O planejamento, porém, não elimina revisões. A empresa estabelece etapas intermediárias para comparar o que foi projetado com o resultado alcançado. Quando uma fase fica abaixo do esperado, o plano deve ser reavaliado antes do passo seguinte.

Strabelli reconhece que, no início da carreira, calculava os projetos com base naquilo que imaginava ser capaz de realizar no futuro. Depois, precisava se esforçar para alcançar a estrutura que havia prometido. Atualmente, a empresa procura condicionar a expansão aos recursos e à capacidade disponíveis em cada etapa.

O valor de recusar projetos

A busca pelo crescimento pode fazer qualquer oportunidade parecer atraente. O problema surge quando a empresa aceita mais trabalho do que consegue executar e coloca em risco a reputação construída.

“O mais difícil é dizer não. Todos os projetos são interessantes. Todo o crescimento está lá.”

A Sagewood chegou a avaliar uma expansão para Portugal e Espanha. Strabelli participou de reuniões em Lisboa e Madri, mas concluiu que o retorno previsto não justificava o tamanho da operação necessária. A ideia não foi abandonada definitivamente, mas deixou de ser prioridade naquele momento.

A decisão foi diferente em Orlando. Antes de entrar no mercado, ele estudou a região por dois anos. Quando surgiu uma oportunidade considerada adequada, a empresa avançou. Em cerca de um ano, Orlando se tornou a maior operação da Sagewood nos Estados Unidos, segundo o empresário.

Recusar projetos também serve para preservar a marca. Strabelli considera arriscado comprometer 25 anos de reputação por uma obra que a empresa não tenha condições de concluir com a qualidade esperada.

Qualidade também depende da experiência

Entre os projetos da Sagewood está o Fasano Fifth Avenue, em Nova Iorque. Strabelli atribui a oportunidade à relação construída ao longo de mais de 20 anos com a família controladora da JHSF e à qualidade dos serviços realizados anteriormente.

O empreendimento representou uma mudança na carreira. Mesmo com outros projetos em andamento, ele acompanhou pessoalmente grande parte da obra por considerar que precisava corresponder à confiança depositada em seu trabalho.

No mercado de alto padrão, a entrega material não encerra o relacionamento. A Sagewood procura acompanhar o cliente desde o início do projeto e manter o atendimento depois da conclusão.

“Então, a experiência, além da qualidade, é fundamental, em qualquer ramo. Acho que onde você entra hoje, é qualidade, qualidade e cuidar da expectativa disso aí, né? É muito importante.”

Essa lógica procura evitar um problema frequente: a distância entre aquilo que a empresa promete e o que o cliente espera receber. Um projeto pode atender às especificações técnicas e, ainda assim, causar frustração se as expectativas não forem administradas desde o início.

Conhecer o mercado antes de cruzar a fronteira

A internacionalização exige mais do que transportar um modelo de um país para outro. Regras, relações de trabalho, custos financeiros, prazos e oscilações econômicas mudam de acordo com o mercado.

No setor imobiliário, Strabelli destaca a influência dos juros e dos ciclos econômicos. Uma empresa precisa de caixa para atravessar períodos em que vendas e investimentos desaceleram. Também deve estudar a legislação e procurar parceiros que conheçam a realidade local.

A Sagewood chegou ao Brasil com o projeto Quinta das Amoras, um condomínio de alto padrão no Rio de Janeiro. Apesar de receber convites para participar de outros empreendimentos, Strabelli decidiu concentrar-se nesse projeto porque sua atuação ainda está mais voltada aos Estados Unidos.

Para ele, entrar em outra região exige envolvimento direto e apoio local. Um parceiro que conheça o mercado pode oferecer anos de experiência que a empresa estrangeira ainda não possui.

Formação não termina com o diploma

Strabelli não cursou uma graduação, mas manteve uma rotina de aprendizagem baseada em livros, cursos, negociações e contato com outros profissionais. Entre as iniciativas, fez cursos de negociação em Harvard e adotou o hábito diário de leitura.

“Se você não tem educação formal, que é o meu caso, busque conhecimento. Existe um mundo de conhecimento aí fora que você tem que buscar.”

A experiência pessoal não o levou a desvalorizar a universidade. Ao orientar o filho, recomenda a combinação entre educação formal e conhecimento alcançado na prática. Na avaliação dele, a formação acadêmica acelera o aprendizado e oferece fundamentos para que o profissional aproveite melhor as experiências do trabalho.

A mesma combinação aparece na maneira como define resiliência. Não se trata apenas de suportar dificuldades ou insistir indefinidamente. É preciso estudar o mercado, reconhecer erros, reorganizar o plano e aceitar os sacrifícios envolvidos em um projeto de longo prazo.

A carreira que começou com o sonho de jogar futebol atravessou três países, uma mudança de profissão e uma tentativa malsucedida no setor de restaurantes. A continuidade não veio da fidelidade ao plano original. Veio da capacidade de trocar de caminho sem abandonar o objetivo de construir algo consistente.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: empregos e salários que me levaram ao sonho de trabalhar na Telesp

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

telesp
Tampa metálica da TELESP, rua Piaui, SP Foto de Fernando Stankuns

Março de 1974, eu tinha 14 anos, meu primeiro emprego. Muita felicidade.  Um amigo dos meus pais apresentou-me na empresa que ele trabalhava, Duratex S/A Indústria e Comércio. O meu cargo era de Aprendiz de Arquivista. Recebia CR$ 308,00 por mês para arquivar duplicatas dos clientes.

Meses depois, em novembro, um outro amigo da família, ofereceu-me emprego na Companhia Paulista de Força e Luz, com salário maior, CR$ 380,00. Era contínuo, uma espécie de office boy interno. Entregava correspondência nas seções do prédio da empresa. 

Estava terminando o ginásio e o governo fazia campanha para que os estudantes  cursassem o colegial técnico. Escolhi o curso em eletrônica na Escola Técnica Oswaldo Cruz – Paes Lemes, que ficava na mesma rua onde eu trabalhava, na avenida Angélica, no bairro de Santa Cecília. Meus pais não tinham condições de pagar e eu usava quase todo meu salário para a mensalidade do curso.

Três anos depois, consegui emprego no Banco Nacional S/A como Escriturário. Salário de CR$ 1.550,00. O que me permitiu, além de pagar o curso, ajudar meus pais. Trabalhei por um ano. Porém, como estava no fim do curso precisava estagiar para ter o diploma, fazer o relatório para o MEC e conseguir  o registro no CREA. 

Por coincidência, na mesma sala que eu, estudava o filho do dono de uma empresa de guilhotina eletrônica, a Guarani Máquinas Gráficas —  guilhotinas que serviam até na casa da moeda, para cortar papel moeda. Era março de 1978 quando fui admito no cargo de técnico em eletrônica. Com salário de CR$ 12,00 por hora, trabalhei lá no período do estágio, fiz o relatório, peguei o diploma e me registrei no CREA.

Agora, meu sonho era trabalhar na Telesp: além da grande oportunidade de crescer profissionalmente, o salário era muito bom. Pois foi que, no começo de 1979, consegui uma vaga de Auxiliar Técnico do Tráfego de Operação, com incrível salário de CR$ 8.437,70. Felicidade total!

Na Telesp, que foi privatizada, virou Telefônica e depois Vivo, trabalhei por 32 anos. Nesse tempo, cursei faculdade e meu último cargo foi de Analista de Telecomunicações Sênior. Em 2009, me aposentei e, em janeiro de 2011, parei de trabalhar. Trinta e seis anos depois daquele primeiro emprego.

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Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a paixão por trás das câmeras

Neomar Leite Da Silva

Ouvinte da CBN

Foto de Bruno Massao on Pexels.com

Sou um jovem de 46 anos, casado com Silvana, dois filhos, Júlia e Felipe Noé. Comecei  a trabalhar muito cedo. Tinha 16 anos. Foi na rádio e TV Bandeirantes, como mensageiro, entregando correspondências internas para grandes nomes do rádio: José Paulo de Andrade, Mano Véio e Mano Novo …

Logo no início da minha carreira, perdi meu pai, que era a minha maior referência. Noe leite da Silva era um grande homem, honesto, digno e de enorme coração. 

Somos em cinco filhos: Noelmo, Nelson, Simone, Silvana e eu, Neomar. Minha mãe, dona Maria, criou a gente com todo amor. 

Aos 20 anos fui trabalhar no Shop Tour como assistente de câmera. Fiquei totalmente apaixonado pela profissão. Logo virei operador de câmera e corri atrás dos meus documentos para tirar o meu DRT. 

Curiosamente, falava sempre para o meu irmão Nelson, que me dava carona todos os dias para o trabalho, ao passar em frente a sede da TV Globo, ali na Marginal Pinheiros, que eu ainda trabalharia lá.

Sonho realizado em 2006, contratado como técnico de sistemas. Na Globo permanecei até 2023, quando fui contratado pelo SBT. É lá que trabalho atualmente. No próximo dia 1º de abril, completarei 30 anos de carreira. Sou apaixonado pela profissão. E agradeço a São Paulo pelas oportunidades que me ofereceu.

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Mundo Corporativo: Felipe Gomes, da CVC, diz qual é o novo comportamento do turista

Felipe Gomes CVC
Nos bastidores da entrevista online com Felipe Gomes da CVC Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Você não pode errar, é um valor importante no orçamento das famílias.”

Viajar deixou de ser apenas deslocamento e passou a ser decisão estratégica no orçamento doméstico. Férias envolvem planejamento, comparação de destinos, financiamento e, sobretudo, confiança. Esse cenário foi tema da entrevista com Felipe Gomes, vice-presidente de gente, finanças, jurídico e estratégia da CVC Corp, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Para Felipe, entender o consumidor é o ponto de partida. “O turista cada vez mais sabe mais o que quer, ele está mais impactado pelas redes sociais.” O cliente chega informado, influenciado por tendências e disposto a experimentar novos destinos. A decisão não nasce mais exclusivamente dentro da agência; ela começa no feed, no vídeo curto, na recomendação de influenciadores e amigos.

A jornada longa e o peso da decisão

Ao contrário de uma viagem rápida de fim de semana, o produto principal da companhia é a viagem de férias. E isso muda tudo.

“Você vai sair com a sua família, vai para um país talvez que você não conheça, você não pode errar.” A compra envolve valor alto, expectativa emocional e pouca margem para improviso. É, muitas vezes, a única viagem longa do ano.

Essa combinação cria um comportamento específico: o consumidor quer autonomia digital, mas não abre mão de apoio humano. Felipe resume essa integração ao falar do modelo phygital. “Hoje quase 60% da venda da CVC, ela é phygital. O que isso significa? Ela tem alguma etapa do processo que não envolve a loja.”

O cliente pode começar no WhatsApp, discutir o destino em casa, voltar à loja na hora de pagar ou finalizar pelo aplicativo. A jornada é híbrida. Não é mais linear.

Segurança e pós-venda como critério de escolha

Outro traço forte do consumidor atual é a busca por segurança. Em turismo, imprevistos são parte do jogo: voos alterados, problemas em hotel, questões climáticas.

“Quando o cliente precisa de um suporte e ele encontra, isso para ele tem muito valor.” O pós-venda, segundo Felipe, impacta diretamente a recompra. A memória da experiência não termina no embarque de volta.

Nesse contexto, a assistência permanente torna-se diferencial competitivo. O consumidor compara preço, mas também avalia a capacidade de resposta. E isso influencia a fidelização.

Curadoria e personalização

O turista quer novidade. “Ele não quer só a vida inteira ficar indo para o mesmo lugar.” A empresa precisa acompanhar tendências e transformar desejo em produto viável — com datas adequadas, logística estruturada e preço compatível.

Felipe usa a palavra curadoria para definir esse papel. A agência não apenas vende um pacote; ajuda a organizar expectativa e realidade. Às vezes, o orçamento não permite Paris, mas permite Maceió. A decisão é ajustada ao momento financeiro da família.

Crédito: o fator decisivo

Há um ponto central no comportamento do consumidor brasileiro: a necessidade de parcelamento.

“A viagem de férias não é uma viagem barata.” Para famílias de três ou quatro pessoas, mesmo destinos nacionais exigem planejamento financeiro. O financiamento torna-se parte da experiência.

Felipe reconhece que juros altos dificultam o cenário. “As famílias ficarem mais endividadas ou pagarem mais juros não é bom.” A política monetária impacta diretamente o ritmo de vendas. O consumidor continua desejando viajar, mas precisa que a prestação caiba no orçamento e no limite do cartão.

Experiência acima do bem material

Um movimento mais amplo também aparece na conversa. Segundo Felipe, após a pandemia, houve mudança na prioridade de consumo. “Cada vez mais as pessoas estão muito mais interessadas em ter experiências e em viajar e conhecer lugares do que ter bens materiais.”

O turismo entra nessa lógica como investimento em memória, convivência e repertório cultural. Não é apenas lazer; é construção de história familiar.

Entre redes sociais, crédito parcelado e necessidade de segurança, o novo consumidor de turismo é mais informado, mais exigente e mais emocional. Ele pesquisa como um analista financeiro e decide como quem organiza um sonho.

Um negócio bilionário

A CVC Corp reúne operações distintas. A marca CVC voltada ao consumidor final representa cerca de 40% das vendas. O grupo também atua no B2B, com marcas como Rextur Advanced, Trend, Visual e Connectas, além da operação na Argentina, que responde por cerca de 20% do negócio.

São aproximadamente R$ 17 bilhões em vendas anuais e mais de 1.500 lojas entre Brasil e Argentina.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: a lista telefônica que me ensinou para onde ir

Luiz Serenini Prado

Ouvinte da CBN

Orelhão por Ednei Lopes
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP

Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.

Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.

Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:

“Now you know where to go!”

Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português: 

“Agora você sabe onde ir.”

Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.

As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.

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Luiz Serenini Prado  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: comecei minha carreira como arquivista

Suzana de Lourdes Silva

Ouvinte da CBN

Década de 1970. Ano de 1974 para ser mais precisa.

Meu primeiro emprego: arquivista. Foi na fábrica de violões Tranquillo Giannini — luthier italiano que imigrou para o Brasil no início do século XX. Ficava na rua Carlos Weber, na Vila Leopoldina, muito diferente de hoje com seus restaurantes badalados, cafés e prédios de alto padrão. De arquivista a supervisora de contas a pagar, passei por todas as etapas de evolução.

Lembro  de uma colega, Joana. Um arraso na datilografia. Ficávamos todos babando com a rapidez dela, movendo os dedos nos teclados e a haste de metal que trocava de linha. Na época não havia a expressão “agora a NASA vem”, mas certamente alguém teria dito, pois achávamos que a máquina levantaria voo a qualquer momento.

Os borderôs acompanhavam as faturas direto para o banco, uma papelada do caramba, levada por algum motoboy. Ops, office-boy — na época a expressão motoboy sequer existia. Também tínhamos a máquina de telex – uma esfinge que nos convidava a entender como aquela fita perfurada se transformava em mensagem em algum lugar do planeta.

Ah! E os salários pagos aos funcionários? Isso era um evento à parte. No dia do pagamento, alguns se trancavam na sala da diretoria, contavam as cédulas e moedas e, de posse dos envelopes, depositavam, lacravam e nos entregavam ao fim do dia. E, não, ninguém ficava pelado como se espalhava na época dizendo ser o único jeito de não haver desvio na contagem.

Outra que nos chamava atenção era a telefonista. Uma espécie de  DJ, comandando uma caixa com inúmeros pinos de variadas cores, conectando a ligação externa com o ramal desejado. Mais um enigma, pois não atinávamos como tudo funcionava.

Aposentei-me aos 46 anos porque na época as mulheres precisavam contribuir por apenas 30 anos. Mas nunca parei. Hoje, aos 65, sou gestora financeira de uma agência de comunicação. E posso dizer que passei e estou passando por todas as melhorias ocorridas desde à época da datilografia e da maquina do telex.

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Suzana de Lourdes Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Os empregos em alta em 2026 e a habilidade silenciosa que conecta todos eles

Photo by cottonbro studio on Pexels.com

A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.

As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.

Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.

Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.

E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.

O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.

Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo.  Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.

O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.

Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.

Mundo Corporativo: Rafael Segrera, da Schneider Electric, explica por que eletricidade 4.0 é chave para a descarbonização

Segrera em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“O grande desafio das nações do mundo é triplicar a porcentagem de energias renováveis, mas duplicar gestão energética. E essa combinação, essa equação é a equação perfeita. Porque o mundo mais eficiente, utilizando cada vez mais energia elétrica, esse é o verdadeiro vetor da descarbonização.”
Rafael Segrera, Schneider Electric

O custo da energia, que muitas vezes aparece apenas como uma linha na planilha financeira, está no centro de uma disputa que define a competitividade das empresas e o futuro da transição energética. Em um momento em que a COP30 coloca o Brasil no mapa das negociações climáticas, cresce a pressão para provar que sustentabilidade não é apenas pauta ambiental, é modelo de negócio — sustentado por digitalização, automação e uso mais intenso de eletricidade. Esse foi o tema da entrevista de Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, ao programa Mundo Corporativo.

Segrera parte de uma provocação direta ao empresariado: “Sustentabilidade não custa caro, é um negócio”. A frase resume a estratégia que, segundo ele, vem sendo construída há mais de duas décadas dentro da Schneider Electric. A companhia decidiu desenvolver tecnologia com três objetivos combinados: “Ajudar o planeta, fazer bem para as pessoas e, para ser sustentável no tempo, ser bom para a empresa”. Isso significa, na prática, colocar gestão de energia e eficiência energética no centro da geração de valor.

Ele explica que, em qualquer setor, a energia é componente relevante do custo operacional – de 3% a 7% em prédios comerciais, chegando a 20% ou 30% em saneamento, aço ou data centers. A partir daí, o raciocínio é simples: “Tudo o que a gente faz é para assegurar que você utiliza essa energia da melhor maneira possível, que tenha economia particularmente, e essa economia que é gerada é uma economia que tem um benefício no bottom line, na rentabilidade”.

Eletricidade 4.0, digitalização e a conta de luz

A resposta passa pela combinação de três peças: gestão de energia, automação e software. Segrera descreve a trajetória da Schneider, que saiu de uma empresa de produtos elétricos e de controle industrial para soluções integradas e, mais recentemente, para plataformas digitais. O objetivo é medir, monitorar e controlar o uso da energia em tempo real, em diferentes ambientes – de indústrias a prédios, de infraestrutura crítica a data centers.

Nesse contexto surge o conceito de eletricidade 4.0. “A junção do mundo elétrico ao mundo digital é o que a gente chama de eletricidade 4.0”, resume. A ideia é usar o poder das ferramentas digitais – incluindo inteligência artificial e realidade virtual – para redesenhar processos, simular cenários de consumo antes da implantação física, otimizar a operação e reduzir desperdícios.

Segrera destaca que o benefício mais visível da digitalização é a capacidade de enxergar o sistema como um todo: “Se você não mede, você não sabe como está se comportando”. A partir dos dados coletados, torna-se possível criar arquiteturas de informação que suportem decisões rápidas e consistentes sobre investimentos, manutenção e ajustes operacionais.

O tema dos data centers, hoje no centro da discussão sobre consumo de energia, também entra na conversa. Para ele, é preciso relativizar: “Hoje o peso do consumo elétrico dos data centers tá por 1%. A gente não pode pensar que são 20% do consumo energético, não são”. Ao mesmo tempo, ressalta que esse é um dos setores que mais pressiona fornecedores por eficiência, já que consome muita energia, água e espaço.

A inteligência artificial, vista muitas vezes apenas como nova fonte de demanda energética, vira ferramenta de ganho de eficiência: “Mais se aprende sobre o sistema e a inteligência artificial, mais nos permite ajudar a nossos clientes a serem mais eficientes. Então, é um círculo virtuoso”, define.

O lugar do Brasil na transição energética

Quando o assunto é matriz elétrica, Segrera reconhece uma vantagem importante do país. Ele lembra que o Brasil está entre as melhores posições do mundo em participação de fontes renováveis, fruto de decisões tomadas no passado e de investimentos de grandes empresas do setor.

O problema aparece do lado do consumo. “Nada serve gerar uma energia limpa, maravilhosamente limpa, se você tem problema na transmissão e tem perdas que podem chegar a ser até 40% ou mais”, afirma. Nas contas dele, o país está bem em renováveis, porém ainda distante de uma boa posição em eficiência energética.

Daí a ênfase em uma equação que ele considera determinante para o futuro: “O grande desafio das nações do mundo é triplicar a porcentagem de energias renováveis, mas duplicar gestão energética”. A combinação entre expansão de renováveis e uso mais eficiente da energia, com eletrificação crescente, é apresentada como a base de um modelo de descarbonização que não seja apenas discursivo.

O setor empresarial brasileiro, na avaliação de Segrera, caminha em duas velocidades. “O mundo brasileiro das grandes empresas, absolutamente” já compreende o tema, segundo ele, com alto nível de conscientização e adoção de práticas ligadas à eficiência e à sustentabilidade. Já as pequenas e médias empresas ainda esbarram em falta de informação e acesso às soluções disponíveis. Por isso, ele defende que as grandes companhias tenham um papel ativo de apoio, compartilhando práticas e conhecimento com a cadeia de fornecedores.

Há também um recado para conselhos de administração e lideranças: “Se elas hoje conseguem ter processos que, com eficiência energética, conseguem 10%, 12% de economia, elas devem ser mais exigentes para ter ainda mais”. E faz um alerta para quem quer competir em mercados globais: “Se o Brasil quer se tornar mais forte em um mundo cada vez mais competitivo, é com a adoção da sustentabilidade. […] A adoção de tecnologia e da inovação é a chave se você quer ser competitivo fora”.

Carreira global e convite aos executivos brasileiros

Ao fim da entrevista, Segrera abre um parêntese sobre sua própria jornada profissional. Venezuelano, começou estudando engenharia, mas trocou para administração porque precisava trabalhar à noite e não tinha como seguir o curso técnico no horário disponível. A curiosidade pela tecnologia, no entanto, permaneceu.

“Essa curiosidade, uma empresa como a Schneider me permitiu aprender muito”, conta. Em quase 30 anos de companhia, passou por Venezuela, França, China, Canadá e chegou ao Brasil, sempre em posições ligadas a negócios e liderança, não à engenharia. Essa trajetória internacional moldou sua visão sobre o potencial dos profissionais brasileiros.

Ele considera que o país tem educação sólida, cultura de inovação e capacidade humana para ocupar mais espaço no exterior. “O mercado brasileiro é tão grande que muitos decidem ficar aqui”, observa. A aposta dele é que a internacionalização pode fortalecer, inclusive, a atuação doméstica das empresas.

Por isso, deixa um convite direto: “O Brasil é um país muito bacana, o mundo também tem muitas coisas que oferecer e você pode chegar e compartilhar as coisas que você faz aqui”. Em outras palavras, ampliar a atuação para fora é parte da mesma agenda que inclui tecnologia, sustentabilidade e competitividade.

Segrera encerra com números que, segundo ele, mostram que essa estratégia não é apenas discurso. “Nossas receitas se multiplicaram por quatro, nosso benefício net (profit), bottom line, EBIT, se multiplicou por nove e a capitalização, o valor da empresa no mercado, por 12, entre 2003 e 2023”, afirma. A mensagem é que eficiência energética e sustentabilidade, quando encaradas como negócio, podem mudar o patamar de empresas de diferentes portes.

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Bertier Ribeiro-Neto, da UME, explica como empreender com tecnologia e supervisão humana

Bastidores da entrevista online com CTO da UME Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A minha visão é sempre muita tecnologia com supervisão do humano.”
Bertier Ribeiro-Neto

Empreender começa menos pelo plano de negócios e mais por um incômodo real: “O que que te incomoda? Qual o problema que você gostaria de resolver? Por que que você gostaria de resolver esse problema?” A partir dessa provocação, Bertier Ribeiro-Neto, CTO da UME, conecta a prática do empreendedorismo ao uso criterioso de tecnologia para resolver dores concretas de clientes. Esse foi um dos temas sobre os quais conversamos no Mundo Corporativo.

Tecnologia que resolve problemas (com gente no circuito)

Para Bertier, automatizar decisões é útil, mas não basta: “O resultado não é verídico, o resultado não é final, o processo precisa de supervisão.” Ele descreve a operação da UME no varejo — concessão de crédito no ponto de venda em minutos — como um arranjo que combina dados públicos, relacionamento do cliente com o lojista, informações de renda e um “motor de crédito”, isto é, “um núcleo de inteligência artificial que combina todos esses sinais e toma uma decisão de forma automatizada”.

Mesmo assim, o critério é manter controle humano sobre o que o modelo decide: “A gente treina o modelo, coloca o modelo no ar, faz uma série de testes e a gente pergunta: ‘O modelo tá tomando decisão boa ou não?’ Quando o modelo toma decisão ruim, como é que a gente para o modelo e passa a decisão para um agente humano?”

Essa postura, diz ele, vale para qualquer empreendimento que adote IA: não aplicar tecnologia “de forma cega”, mas medir impacto e qualidade continuamente. “O propósito não é usar a tecnologia. O propósito é resolver um problema que aflige o seu cliente.”

Siga o cliente, o resto é consequência

A bússola de produto segue uma regra simples aprendida nos tempos de Google: “Follow the user. All else is a consequence.” Em português: “Siga o usuário, o resto é consequência.” No contexto da UME, isso significa observar necessidades diferentes por segmento (da “super compra” de uma geladeira ao crédito atrelado a um celular com garantia via bloqueio remoto) e desenvolver produtos que façam sentido no momento da decisão.

Ao falar com quem quer empreender, Bertier volta ao princípio: antes de crescer, encontre a solução que melhora a experiência de quem usa. “Você vai criar uma solução para aquele caso de uso, se a solução for boa, as pessoas vão adotar a solução, o resto é consequência.”

Escala com estabilidade e métricas

Os desafios atuais combinam crescimento e qualidade. “Estabilidade é muito importante… o sistema não pode cair.” Em paralelo, medir resultado passa a ser obrigatório: produtividade, capacidade de atendimento “com o mesmo time” e, sobretudo, a experiência do cliente e do varejista. Se a qualidade piora, “tem um problema”.

Ao olhar adiante, a aposta é que “o futuro do crédito não está mais nos bancos… está nas empresas que têm relacionamento direto com o consumidor”. Daí iniciativas como ferramentas de CRM para que o varejista “se comunique com o cliente do crédito” e refine sua visão sobre recorrência e preferências de compra.

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Mundo Corporativo: Ana Fontes explica como transformar habilidades em negócios viáveis

Ana Fontes dá entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Propósito não paga os boletos do mês”

Ana Fontes, RME

Começar um negócio a partir do que você já sabe fazer e validar se há gente disposta a pagar por isso é a linha mestra do empreendedorismo defendida por Ana Fontes. Fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), que conecta diariamente 3 milhões de mulheres em diferentes plataformas, ela descreve um caminho prático: combinar competências pessoais com demandas reais do mercado, criar diferenciais e buscar apoio em comunidade, mentoria e formação contínua. É sobre isso que ela fala na entrevista ao programa Mundo Corporativo.

Ana recorda sua própria trajetória, da carreira executiva ao blog que deu origem à RME, para reforçar a orientação inicial a quem deseja empreender: “Use as suas habilidades para pensar no seu próximo negócio ou para pensar no seu negócio. É a primeira coisa que eu falo.” A partir daí, vem o teste de realidade: “Procure uma oportunidade de negócio, que é a parte mais dura. […] Você tem que combinar as duas coisas, a sua habilidade que você tem com alguma coisa que as pessoas queiram comprar.”

Do propósito à validação de demanda

A combinação entre vocação e problema resolvido no mundo concreto passa, segundo ela, por abandonar romantizações. “A maioria das pessoas fala assim: ‘Ah, empreende com o seu propósito, que vai dar tudo certo’. Nem sempre. […] Propósito não paga os boletos do mês.” Na prática, isso significa investigar necessidades do bairro, da cidade, do setor; observar o que já existe; e decidir como entregar algo diferente — do tempo de atendimento ao formato do serviço.

A RME, diz Ana, opera em duas frentes: uma empresa com causa e o Instituto RME, organização sem fins lucrativos voltada a mulheres em situação de vulnerabilidade. O desenho dos programas inclui capacitação (liderança, negociação, finanças e gestão), mentoria entre pares, organização em grupos e microdoações diretas. O efeito desse arranjo aparece em histórias como a de uma empreendedora de Belém que, após formação e R$ 2.000 recebidos, comprou um carrinho de sorvete usado e aumentou o faturamento em 60% — aliviando o peso físico do trabalho e abrindo novas frentes de venda em eventos.

No financiamento, entram parcerias com marcas interessadas no impacto social do S do ESG. Programas incluem, por exemplo, o uso de inteligência artificial para melhorar a gestão dos negócios. Para quem está começando, Ana recomenda aproveitar a oferta de cursos gratuitos (RME, Sebrae e outras organizações) e buscar orientação prática: “Empreender você tem que aprender.” E isso inclui um passo que economiza “tempo, dinheiro e dor de cabeça”: mentoria.

Diversidade como motor de inovação

A presença de mulheres em espaços de decisão, afirma, tem relação direta com inovação e desempenho. “Sim, a gente precisa estar nesses espaços, não para ter o poder pelo poder, mas porque a nossa voz precisa ser ouvida, porque as mulheres têm ideias interessantes e porque as pesquisas mostram que espaços mais diversos são espaços mais inovadores.” Hoje, lembra Ana, as mulheres ainda são minoria nas altas lideranças, no Judiciário e na política — cenário que empobrece o debate e limita a capacidade de fazer diferente.

Quando compara motivações, ela diz observar respostas distintas entre gêneros nas pesquisas da rede: homens tendem a apontar “ganhar dinheiro” como objetivo imediato; mulheres costumam citar a vontade de “mudar o mundo”. O avanço, no entanto, depende de unir as duas coisas: sustentabilidade econômica e transformação social.

Na ponta, o conselho final volta ao básico: olhar para problemas concretos e estruturar o negócio com método. “Antigamente, tinha uma visão de que empreender é só você abrir um negócio que ia dar certo. Hoje não, empreender você tem que aprender.”

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