Avalanche Tricolor: o Tetra é nosso, os guris do Grêmio!

Grêmio 1×1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Ferreirinha comemora o gol do título em foto de Lucas Uebel/Grêmio GBPA

Havia um guri no gol, de sorriso largo e braços ainda maiores, que conhece o Gre-Nal como a palma de sua luva —- Brenno fez sua estreia no Grêmio em um clássico, e até hoje não perdeu nenhum. Havia um guri na zaga em lugar de Kannemann: Ruan, que segue a passos largos o futebol maduro de seu companheiro de área, Geromel. Outro guri ocupou a lateral para substituir Rafinha, expulso ainda no primeiro tempo. E Vanderson cumpriu sua função com a seriedade de um veterano e a velocidade de guri que é.

No meio de campo, havia um guri, Matheus Henrique, que sustentado por um craque, Maicon, e um leão de volante, Thiago Santos, pode soltar seu talento com a bola no pé, distribuir o jogo e aparecer dentro da área para impor perigo ao adversário. Foi ele quem soube escapar da marcação na intermediária gremista, deixar seu adversário estatelado no chão e avançar à fronteira inimiga no início da jogada  do gol do título, ainda no primeiro tempo da partida.

No ataque não faltavam guris. Havia Léo Pereira, desde o início, e Ricardinho e Pepê (sim, não esqueça que o nosso atacante que ruma agora à Europa tem apenas 24 anos), que entraram no segundo tempo para dar desespero nos marcadores. 

Havia o maior de todos os guris: o gigante de 1,71 metro de altura, Aldemir dos Santos Ferreira, o Ferreirinha. Com 23 anos, nosso ponta esquerda encanta o torcedor e enlouquece o sofredor.

Foi ele quem recebeu a bola final daquela jogada iniciada por Matheus e distribuída por Diego Souza —- o goleador que aos 35 anos bota a bola na rede e dança como se fosse um menino. Foram dele, Ferreirinha, os dribles que o deixaram na cara da goleira, as gingas que desnortearam seus marcadores, a bola roubada na defesa e a vibração pelo desarme para a lateral, que tiraram o adversário do sério.

Já disse e repito, Ferreirinha é o futebol jogado com prazer:

“Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino”. 

Havia guri no gol, na defesa, no meio de campo e no ataque. Havia guri se desdobrando para salvar nossos vacilos, endiabrando o zagueiro, desarmando o atacante e dominando o jogo com talento e muita garra. Havia Brenno, Vanderson, Ruan, Matheus Henrique, Léo Pereira, Ricardinho, Pepê e Ferreirinha. 

E em cada um desses guris, havia um pouco de mim. Do meu prazer de ser gremista. Das lágrimas que derramei no vestiário do Olímpico no passado. Do choro de alegria naquela vitória de 1977. Da felicidade de uma conquista comemorada. Do quadragésimo título estadual, do tetra Gaúcho, de sete anos sem perder um clássico em casa e de um domínio que —- guris que hoje vestem a camisa do Grêmio não têm ideia — eu nunca havia assistido na época em que eu era realmente um guri lá no Sul.

Obrigado, Grêmio e sua gurizada por me darem a alegria de comemorar mais um título ao lado dos meus guris, aqui em São Paulo.

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Avalanche Tricolor: futebol e vitória no Dia das Mães

Grêmio 2×0 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

Gol de Matheus, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Mesmo tonto depois do golpe na cabeça, na sequência do gol que marcou, Matheus Henrique ainda teve noção de procurar a microcâmera presa na parte alta da rede, olhar com carinho e mandar mensagem para a mãe: ‘eu te amo!’, teria dito ele —- foi o que entendi a partir de leitura labial. A mãe deve ter ficado orgulhosa tanto quanto preocupada pelo lance que levou o guri ao chão e o impediu de comemorar o gol que selou a presença do Grêmio em mais uma final de Campeonato Gaúcho.

Hoje, ao sair na frente no placar, aos 29 minutos do primeiro tempo, praticamente nocauteou o adversário, que já havia vencido na primeira semifinal, por 2 a 1, fora de casa. Tendo diante de si um time que não fazia resistência, o Grêmio limitou-se a levar o jogo até o fim, ainda que Ferreirinha insistisse em impor velocidade, driblar os adversários e tentar o gol. De tanto insistir, aos 37 do segundo tempo, deixou seus marcadores para trás com uma cruzada de pernas e marcou no canto esquerdo do goleiro. Fez por merecer. 

No primeiro gol tinha sido o responsável pela assistência ao fazer o lateral dançar e cair dentro da área. No segundo, foi protagonista desde o início da jogada. Deve ter deixado orgulhosa a mãe, a quem ajudava no trabalho da feira quando ainda era um guri de calça curta lá no Mato Grosso do Sul.

Geromel completou 300 jogos, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Outra mãe — e essa tive o prazer de conhecer —- que deve ter ficado bem feliz neste domingo é a do Geromel, ao ver o filho entrar em campo pela 300ª vez, vestindo a camisa do Grêmio. Nosso zagueiro e capitão cumpriu bem o seu papel, afastou os poucos riscos que o adversário ofereceu e demonstrou enorme esforço para posicionar a defesa que ainda se ajusta ao comando do novo técnico. 

Verdade que mãe é uma figura curiosa. Nem precisa que o filho faça gol, jogue bem, tenha talento e persistência para estar feliz com o pimpolho. A despeito do que o menino faça ou desfaça, ela sempre estará por perto para ajudar, acolher, disciplinar se necessário e justificar o que encontrar no caminho dele. 

Lembro muito da minha, que perdi cedo, quando estava começando a vida adulta. Era quem colocava ordem na família, puxava a orelha na bagunça e arremessava o chinelo para nos aquietar. Assim como era a primeira a partir em nossa defesa, abraçar e desculpar. 

Foi minha protetora sempre que precisei. Me safou de constrangimentos quando meu Grêmio aprontava das suas nas rodadas do fim de semana pelo Campeonato Gaúcho, especialmente nos clássicos regionais. No dia seguinte às derrotas clamorosas, era minha cúmplice. Percebendo minha dificuldade de encarar os colegas que torciam para o adversário, me perguntava antes de sair de casa se eu estava me sentindo bem: era a senha para eu fazer uma cara de dor e pedir para voltar para cama.

Naquele tempo, as segundas-feiras pós-decisão costumavam ser duras. Mas a Dona Ruth era forte. E não me deixava só. Atualmente, as segundas-feira até que têm sido muito generosas comigo —- até porque, convenhamos, o Campeonato Gaúcho perdeu boa parte da sua importância no calendário. Mas trocaria todos esses dias de vitória por tê-la ao meu lado neste domingo e poder, assim como fez Matheusinho, mandar um beijo para ela e dizer: “eu te amo, mãe!”

Avalanche Tricolor: meu WhatsApp com o Diego Souza tá bombando!

Caxias 1×2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Devo ser figura rara entre usuários do WhatsApp. O número de grupos no meu mensageiro é restrito. Aquele famoso da família, jamais foi construído. De amigos, nunca tive — refiro-me ao grupo, lógico, porque amigos consegui manter alguns na minha lista. Bem poucos para ser sincero. Mas isso resolvo no divã. O grupo do Jornal da CBN só se formou há um ano e por causa da pandemia. O outro que tenho são das duas turmas de aula que frequento. Têm data para expirar. O da Igreja preservo porque é apenas para receber recados. Ninguém pode escrever nele, além do administrador. 

Quem entra no meu WhatsApp, vê de cara a mensagem: “vale a pena?”. Pode parecer antipático, mas tem o objetivo de alertar as pessoas para que reflitam antes de escrever. Hoje, desperdiçamos muito tempo gerenciando a quantidade gigantesca de mensagens que navegam pelas mais diversas ferramentas de comunicação. Assim, sugiro: vamos escrever o estritamente necessário e ajudarmos a combater um fenômeno que tem causado sérios problemas de saúde mental: a infoxicação —- resultado do volume de informação que intoxica nosso cérebro, dificulta o entendimento dos fatos, e causa estresse e ansiedade.

Falo desses fatos em uma coluna destinada a comemorar (ou lamentar) resultados em campo porque graças a uma missão que assumi desde que Diego Souza foi contratado — por indicação de Renato, lembra?!? — meu WhatsApp está movimentado.

contei em Avalanches passadas que, ao saber que o filho querido do meu amigo Luiz Gustavo Medina é fã do atacante gremista —- vista qual camiseta estiver vestindo —-, decidi enviar uma foto de Diego comemorando cada gol marcado pelo Grêmio. Confesso que começou como uma tentativa, sem sucesso, de cooptar o menino, são paulino por influência do pai, para o nosso Imortal e hoje virou um ritual. 

Diego marca, saco o celular, registro a comemoração na tela da TV e envio para o WhatsApp do Teco. Pra ter ideia, só neste domingo, foram duas imagens transmitidas. Uma ainda no primeiro tempo, quando nosso goleador aproveitou uma bola desviada pelo zagueiro adversário e em um chute cruzado colocou o Grêmio à frente no placar. A outra foi na cobrança de pênalti no segundo tempo, quando parecia que não encontraríamos mais espaço na defesa que se postava diante da área para segurar o empate alcançado ainda antes do intervalo — a propósito, uma curiosidade: sabia que o Grêmio não desperdiçou nenhum pênalti neste ano?

Com os dois gols que deixaram o Grêmio em vantagem na semifinal e — se confirmarmos a classificação — levarão a decisão do Campeonato Gaúcho para a Arena, Diego Souza chegou a melhor marca dele em um início de temporada —- e duvido que outros tenham conseguido algo semelhante, neste ano: em nove partidas disputadas marcou 11 gols. Sim, mais de um gol por partida. Aos 36 anos, o artilheiro combina força, precisão e experiência para estar bem colocado, saber vencer a disputa pesada dentro da área e encontrar o momento certo para o chute. 

Graças a Diego Souza, meu WhatsApp tá bombando! 

Avalanche Tricolor: estranha vitória para chegar a um resultado costumeiro

Ypiranga 2×3 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim RS

Tiago Nunes em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Tudo muito estranho para mim, confesso. Até no uniforme. A camisa é a recém-lançada, que deveríamos ter usado pela primeira vez naquela competição que você-sabe-qual. Pelo que percebo, a atual é baseada em um modelo dos anos 20 —- a retrô está no memorial aqui de casa, ao lado da camisa autografada por Danrlei e Geromel. A combinação com o calção branco ficou estranha. Sem marca. Sem alma. O que não tem a menor importância, eu sei. Uniforme não ganha jogo. Nem perde.

Senti estranheza, também, na figura ao lado do campo. Vou precisar me acostumar. Foram quatro anos e meio acompanhando Renato, suas caras e roupas. Tiago Nunes tem outro estilo — até no jeito de se vestir. Ainda é estrangeiro no ambiente tricolor, mesmo que tenha se esforçado para revelar intimidade nas primeiras palavras como técnico do Grêmio. Nada que o tempo e os resultados não superem.

O que mais me preocupou foi a estranha marcação dentro da área a cada cobrança de escanteio. Todo mundo parecia deslocado, sem saber qual função exercer, enquanto os adversários desperdiçavam gols atrás de gols.

Ouvi os entendidos na televisão dizerem que Renato gostava da marcação individual e Tiago quer marcar por zona. Que zona foi aquilo?!?

Ver a estatística no intervalo da partida e descobrir que o adversário teve 60% de posse de bola também foi esquisito —- especialmente porque nos últimos anos assistimos ao Grêmio jogar com a bola de pé em pé, às vezes além do necessário. Espero que tenha sido apenas circunstância do momento e quando o time entender o que o técnico quer, volte a dominar o campo de jogo. Ou será que eu também vou ter de me acostumar com isso?

Nada mais estranho, porém, do que a partida em si, na qual fizemos um jogo mediano e conquistamos a vitória em cinco minutos, após um pênalti bem cobrado (mesmo que mal assinalado), uma patacoada do goleiro adversário (e a gente não tem nada a ver com isso) e um belo chute de Vanderson que colocou o Grêmio com uma ótima vantagem no primeiro tempo: 3 a 0. Tão boa vantagem que mesmo a sequência de erros no segundo tempo não nos tirou a liderança do Campeonato Gaúcho ao fim de mais uma etapa classificatória.

Aliás, se tem coisas que não me causaram estranheza na noite deste sábado, foi ver o Grêmio, tricampeão, chegar como líder ao mata-mata do Campeonato Gaúcho, e saber que, ao fim de 66 partidas disputadas, os finalistas da competição são as duplas Gre-Nal e Ca-Ju. Estranho é saber que insistimos nessas fórmulas desgastantes para alcançarmos praticamente os mesmos resultados.

Avalanche Tricolor: que a alegria dessa gurizada seja eterna enquanto dure

Grêmio 1×0 Inter

Gaúcho – Porto Alegre, Arena Grêmio

Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho  e Léo Pereira  no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.

Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado. 

Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.

Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.

No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.

Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.

Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.

Avalanche Tricolor: (des)memórias de Porto Alegre que comemora 249 anos

Juventude 2×1 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos, Bento/RS

A mais bela paisagem de Porto Alegre: a Arena Grêmio e o pôr do sol

Já vivo há mais tempo em São Paulo do que em Porto Alegre. São 30 anos aqui na capital de 57 de vida. Foi lá no Rio Grande, porém, que vivi os mais marcantes na formação de meu caráter e personalidade. De pequeno, segurando a mão do pai e da mãe; de criança, correndo com os amigos  na calçada da Saldanha; de adolescente, batendo bola nas quadras e beijando no escurinho do cinema; até ser jovem, primeiro sem muita responsabilidade, fazendo aquelas coisas que hoje nos fazem pensar “como é que eu sobrevivi?”, para depois ser do tipo que tinha de pagar as próprias contas.

Saí por acaso de Porto Alegre, quase sem querer, para uma viagem festiva em São Paulo, quando deparei com a oportunidade de ouro na vida profissional. Tive tempo de voltar para Porto Alegre, jogar todas as roupas na mala, colocar o fusca grená à venda e dar um beijo nos mais queridos. Ainda passei lá no Zelig, o bar do Pio, ponto de encontro, bebedeiras, namoros e choradeira de muitos anos, na Cidade Baixa. No dia seguinte, um primeiro de janeiro, desembarcava na cidade que, hoje, é cenário de outros momentos muito importantes na minha vida. Deles conto em outra conversa. 

Hoje, estou aqui ocupando o espaço de uma Avalanche —- em que o desafio seria garimpar valores e aprendizados na primeira derrota, lá em Bento Gonçalves, do time de jovens que está disputando o Campeonato Gaúcho — para falar de Porto Alegre porque minha cidade completa 249 anos, nesta sexta-feira, 26 de março. Aprendi na escola que a cidade foi fundada por casais açorianos que desembarcaram no Porto das Pedras, no século 18. Construí a fantasia  de que sendo casais, teriam chegado em pequenas embarcações a remo, nas quais as moças estariam de chapéu largo e vestindo longo, enquanto os moços vestiam-se elegantemente de cartola, casaco e colete. Impossível, tendo todos vindos de tão longe. 

Nossa imaginação é capaz de construir histórias que jamais vivemos e as contamos como se verdadeiras fossem. É efeito do cérebro que para rodar em alta velocidade deixa de lado algumas informações, inventa coisas e manipula pensamentos.

Se eu disparar a contar as experiência marcantes de Porto Alegre é possível que alguém mais próximo venha me cochichar no ouvido de que não foi bem assim que aconteceu.

O amor não era tão apaixonante, a beleza tinha lá suas distorções e as aventuras que acredito ter vivido eram até meio sem graça

Independentemente dessa realidade e sem saber ao certo o quanto do que lembro é ilusão, Porto Alegre é meu chão —- é onde tive meus primeiros traumas e prazeres. Muito do que experimentei lá, trago no meu comportamento, mesmo que hábitos tenham sido abandonados no meio do caminho. E agradeço de coração a todos que me ajudaram a viver e a aprender naquela cidade.

Quem sabe, para a passagem do próximo ano que nos levará a marcante data dos 250 anos, não dedique mais espaço neste blog para contar as histórias nas quais é provável tenha sido apenas um observador mas que as transformarei em memoráveis, até que me provem o contrário.

Avalanche Tricolor: o sonho de Pedro Lucas

São José 1×1 Grêmio

Gaúcho – Passo d’Areia, POA/RS

Pedro Lucas comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O início desta temporada tempestuosa do futebol, na qual sequer a bola deveria estar rolando, ao menos tem servido para nos apresentar nomes que há algum tempo estão na lista daqueles que podem ser craques vestindo nossa camisa.

Se no fim da semana passada, o goleiro Brenno deu mais um passo em direção ao time principal, neste início de semana, foi a vez de Pedro Lucas.  Verdade seja dita, o garoto de apenas 18 anos —- completará 19 em julho — havia apresentado visão de jogo, boa movimentação e toque de bola preciso na partida anterior, em que saiu como titular. Demonstrara em campo, a fama que trouxe das categorias de base —- onde já conquistou título mundial pelo Brasil.

Hoje, completou a sequência com um golaço, aos 27 do segundo tempo. Ferreirinha que ensaiou vários dribles pelo lado direito, às vezes insistindo além do necessário, desta vez, passou pelos marcadores e cruzou no tempo certo. Pedro Lucas vinha em direção à bola e de bate-pronto com o pé esquerdo —- o seu preferido —- encaixou no ângulo. Um chute tão preciso quanto difícil pela posição que estava na área.

Pedro Lucas Tapias Obermüller, nascido no Baixo Guandu, no Espírito Santo, chegou ao Grêmio com 12 anos. Das escolinhas ao primeiro gol entre os profissionais, não bastasse o guri ter demonstrado habilidade com a perna esquerda —- o que sempre difere o jogador em campo —, maturidade para ascender nas categorias e conquistar espaço na seleção brasileira, revelou-se gremista de coração e o desejo de, antes de pensar em colocar o pé na Europa, colocar a mão em uma taça com a camisa do Grêmio.

Ao fim do jogo, mostrou com fala segura, olhar focado e discurso bem elaborado que domina as palavras tanto quando a bola: 

“Eu tenho esse sonho de jogar no profissional do Grêmio. Desde os meus 12 anos quando cheguei aqui. Hoje, fazer meu primeiro gol como profissional é uma momento muito especial”

Tem sido especial também este momento de renovação. Os guris completaram quatro partidas invictos no Campeonato Gaúcho e colocaram o Grêmio na liderança da competição, mesmo tendo um jogo a menos do que seus adversários. Mais do que gols, pontos e classificação, o grande destaque no início da temporada tem sido a qualidade desta garotada que chega da base para conquistar seus sonhos no profissional.

Avalanche Tricolor: Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio!

Grêmio 2×0 Aimoré

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Brenno em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Em uma partida resolvida ainda no primeiro tempo, na qual levamos a campo um time com idade média de 22,4 anos de idade, que alçou o Grêmio à liderança do campeonato e com 100% de aproveitamento, foi nosso goleiro quem mais se destacou. 

Brenno Oliveira Fraga Costa foi assim batizado em Sorocaba, cidade que fica logo depois da Região Metropolitana de São Paulo, a quarta mais populosa do estado, e há pouco mais de uma hora de viagem daqui onde moro, desde 1991.  Ele tem a idade do meu filho mais novo. Nasceu em 1º de abril de 1999. Em algumas semanas completará 22 anos. E, a partir de hoje, é considerado a principal esperança do torcedor gremista que, desde a saída de Marcelo Grohe, aguarda por um grande goleiro.

Com olhar sereno, semblante tranquilo, sorriso largo e cara de bom moço, Brenno —- assim mesmo com dois enes —- conseguiu um feito no jogo desta noite de sexta-feira. 

No primeiro momento, ensaiou o movimento de Gordon Banks, na defesa que consagrou o goleiro inglês, após a cabeçada de Pelé, na Copa do Mundo de 1966 — a defesa do século 20. No segundo, lembrou Marcelo Grohe, no milagre contra o Barcelona de Guayaquil, do Equador, na semifinal da Copa Libertadores, em que nos consagramos campeões, de 2017 — a defesa do século 21.

Exageros à parte, Brenno já havia se apresentado bem na sua estreia forçada, no Grenal 418 de 2019, em que vencemos por 1×0. Na segunda partida da Libertadores deste ano, na vitória por 2×1 contra o Ayacucho, no Equador, foi menos exigido mas sempre que precisamos dele, se fez presente e preciso. Hoje, foi magistral.

Ao longo da partida, ouvi Gustavo Millani da SporTV  chamá-lo de Brenno Banks. Em seguida, o repórter de campo, lendo as redes sociais, disse que um dos torcedores digitais havia lhe batizado de BreNeuer —- o que certamente deve ter soado bem aos ouvidos do guri que declarou, em 2020, ao site Minha Torcida:

“Meu maior ídolo é Neuer, pois quando eu comecei no futebol em 2014, nas categorias de base, ele arrebentou na Copa do Mundo”

Nem Banks nem Neuer. Nem mesmo Marcelo Grohe — por mais que tenha trejeitos dele em campo. Brenno é, por enquanto, um goleiro em ascensão, disposto a ser titular no Grêmio o mais breve possível, e, se tudo der certo, demonstrar autoridade e talento suficientes para entrar para a nossa história como Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio — o único time do mundo a dedicar seu hino a um goleiro.

Avalanche Tricolor: a boa safra de Bento

Esportivo 0x2 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos

Bento Gonçalves, RS

Lucas Araújo comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era noite de conhecer gente nova. Bem nova. Coisa que só esse calendário louco do futebol brasileiro é capaz de nos fornecer. Em situação normal de pressão e temperatura, sem pandemia, estaríamos no quarto jogo do Campeonato Gaúcho e com os titulares em campo na campanha do Tetra. Jogamos pela quarta rodada mas era apenas o nosso segundo jogo e disputado entre uma decisão e outra da pré-Libertadores. Tudo isso menos de uma semana depois de nossa última partida válida pela temporada 2020. 

Se assim tem de ser —- e à espera da suspensão dos jogos a medida que o número de casos de Covid-19 só crescem —, era momento de aproveitar para entender quem são os novos guris que podem ficar à disposição de Renato em mais esta atribulada temporada de futebol.

Comecemos no gol. Brenno (21) foi testado duas vezes. A primeira, mostrou agilidade e impediu o gol de empate, no ângulo. Na segunda, segurança e boa colocação. Isso significa que temos um titular? Não, ainda não. Mas que, em breve, bem provado e amadurecido, pode surgir da base o goleiro que procuramos desde a saída de Marcelo Grohe. 

Na frente de Brenno, “velhos” conhecidos: Rodriguez (24) e Ruan (21) — aquele mais do que esse; e os dois precisando ainda contar com a experiência dos mais antigos ao lado. Ser zagueiro exige uma responsabilidade que a juventude nem sempre tem à disposição. Pelos lados do campo, o jovem e talentoso Vanderson (19) e o velho Cortez (34) de sempre

Do meio pra frente, Renato escalou Darlan (22), que já conhecemos o potencial. Depois, Thaciano (25) e Pinares (29) —- este uma esperança de camisa 10 e o outro que faz torcedores exalar ódio contra o técnico, e confesso que não sei por qual motivo. Aliás, foi ele, Thaciano, o Odiado, quem fez o primeiro gol, um golaço de cabeça, ao receber, bem colocado, o cruzamento de Vanderson. Que continue assim. Respondendo com gol e esforço sobrenatural às críticas e aos chatos.

O ataque gremista teve Gui Azevedo (19), Léo Chu (20) e Isaque (23) — uma formação diferente da que estamos acostumados. Guilherme dá sinais de que pode se revelar em 2021; Léo, pelo lado esquerdo, criou esperanças de uma ótima opção; e Isaque já conhecemos bem e estamos sempre na expectativa de que poderá fazer ainda mais do que fez até aqui.

Vieram do banco dois nomes que prometem excelente futebol: Lucas Araújo (21) e Léo Pereira (20). Foram deles o protagonismo do segundo gol quando o time cedia campo ao adversário. No passe de Lucas, Léo teve lance de gol interrompido pelo goleiro, em pênalti que o primeiro cobrou muito bem. 

Resumo da opereta de sábado à noite: surge um goleiro, o bom toque de bola prevalecerá, temos gente de talento e, também, quem saiba bater pênalti. Inspirado com o que assisti na Montanha dos Vinhedos — nome bonito de mais para um estádio vazio e sem graça —- restou-me fechar a noite com uma boa garrafa de vinho ao lado. Era de Bento e de boa safra —- como os guris que se apresentaram em campo.