Avalanche Tricolor: a bola tem de parar

 

Grêmio 3×2 São Luiz
Gaúcho —- Arena Grêmio

 

 

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Jogadores usam máscara em protesto, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

A máscara no rosto dos jogadores gremistas e o cumprimento protocolar com os cotovelos, logo após o hino, foram imagens fortes de uma partida de futebol que não deveria ter ocorrido. As arquibancadas vazias —- cena que havia se repetido em outros jogos do fim-de-semana —- reforçavam a falta de noção das autoridades que fecharam os portões para não abrirem mão do espetáculo.

 

Do jogo jogado, foram atípicos o gol marcado pelo adversário aos 28 segundos de partida e a vantagem ampliada aos 18 minutos iniciais —- especialmente se compararmos a performance das duas equipes até aqui na competição. O Grêmio jogava em casa e  fora de sintonia —- quase como se não quisesse estar participando daquele momento. Aliás,  não estava mesmo pelo que se via no protesto da entrada de campo e pelas palavras de Renato antes de a bola rolar.

 

A mudança feita pelo técnico aos 20 minutos do primeiro tempo, com a entrada de Jean Pyerre, em lugar do lateral Orejuela, mostrou que o problema não era apenas de falta de foco, era também de falta de qualidade no toque de bola. O time passou a comandar a partida, apesar de não conseguir fazer os gols que o levariam à virada.

 

Após desperdiçar uma, duas, três, várias chances de gol, fez o primeiro ao fim do primeiro tempo, e voltou para o segundo disposto a colocar as coisas no lugar. Thiago Neves empatou ao marcar pela primeira vez com a camisa gremista e Diego Souza, que o substituiu na sequência, fez o da vitória após cobrança de falta —- na qual chutou primeiro com o pé direito e acertou em cheio o rebote da barreira com o pé esquerdo.

 

O placar estava definido, os três pontos garantidos e a liderança da chave, no Campeonato Gaúcho, mantida. Nada disso foi suficiente para superar a insatisfação de quem se viu obrigado a entrar em campo porque o show não podia parar.

 

Para ter ideia, apenas de jornalistas e radialistas inscritos para cobrir a partida havia mais de 110 profissionais. A eles se somam comissões técnicas, árbitros e funcionários, que precisam trabalhar para dar suporte ao jogo. Uma legião de cerca de 350 pessoas que foram à Arena, neste domingo.

 

Espera-se que não seja preciso levar em frente a ameaça feita por Renato, em nome dos jogadores, de convocar uma greve caso os dirigentes não anunciem até amanhã a paralisação de todas as competições, no Brasil.

Avalanche Tricolor: a homenagem a Valdir Espinosa

 

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho — Arena Grêmio

 

 

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O luto por Espinosa em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPS


 

 

Havia algo especial naquele ambiente. E não era o fato de a partida se iniciar às 11 da manhã, em um sábado pós-Carnaval — coisa rara e justificável diante das prioridades do nosso calendário futebolístico, em 2020. Nem mesmo a escalação proporcionada por Renato com três dos reforços contratados este ano formando o time principal: Caio Henrique, Orejuela e Thiago Neves, que se juntaram a Vanderlei, Lucas Silva e Diego Souza —- estes últimos também novos no elenco mas que já vinham atuando há mais tempo entre os titulares.
 

 

Meu olhar a cada instante se perdia da bola que era trocada com habilidade, no gramado bem acabado da Arena, atraído pelas homenagens a Valdir Espinosa, que morreu aos 72 anos, na quinta-feira, após complicações pós-operatória, no Rio de Janeiro. Havia trapos estampando o rosto dele e faixas estendidas com mensagens de carinho, pelas arquibancadas. Em campo, nossos jogadores ostentavam a braçadeira de luto com a imagem de Espinosa e os dizeres “Eterno Campeão”. Na casamata, Renato vestia a camisa com o número 72 às costas e o agradecimento no peito: “Obrigado Espinosa”.
 

 

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A homenagem de Renato em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

Temos muito a agradecer a Espinosa. Nos deu o maior de todos os títulos que poderíamos sonhar. Foi o técnico campeão do Mundo, em 1983. Antes, já havia nos feito campeão da Libertadores e comandado a equipe em partidas épicas que forjaram nossa identificação com a Imortalidade.
 

 

Em 2017, quando tive oportunidade de conversar com ele pela última vez, em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, demonstrou uma das suas grandes habilidades em vida: contar histórias. Seus títulos, seus feitos e sua experiência por si só eram gigantescos —— pergunte ao torcedor do Botafogo e do Cerro Portenho —-, porém quando contados por ele próprio tornavam-se ainda mais extraordinários.
 

 

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O dia em que tive o prazer de entrevistar o ídolo, reprodução ESPN


 

 

Espinosa era ser humano especial. Tratava as pessoas com carinho. Era simpático e divertido. O admiro desde criança quando meu pai, pelas mãos, me levava ao estádio Olímpico para ver o Grêmio treinar, no início dos anos de 1970. Era uma época em que arriscava chutes e caneladas jogando na escolinha de futebol gremista na mesma posição que ele, lateral. Mais tarde, quando foi técnico, entre os anos de 1982 e 1984, compartilhava com o pai seu conhecimento estratégico em montar equipes.
 

 

Para chegar ao título de 1983, por exemplo, Espinosa foi inteligente ao perceber que a maneira como o Grêmio jogava era semelhante ao do seu adversário na final, o Hamburgo, e por serem os alemães mais bem preparados fisicamente do que os brasileiros teríamos de surpreendê-los. Foi quando decidiu, com a diretoria do Grêmio, liderada por Fábio Koff, contratar jogadores com a habilidade de Paulo César Caju e Mário Sérgio, que dariam ainda mais talento ao nosso meio de campo, conseguiriam segurar a bola e conter a correria do adversário, oferecendo espaço para que Tarciso e, especialmente, Renato brilhassem lá na frente.
 

 

Quando Espinosa e o pai se encontravam, havia quase que um ritual: o pai o chamava de Alan Delon, devido a aparência física e os olhos azuis que sempre foram marcantes; e Espinosa engrossava ainda mais a voz para imitar o grito de gol-gol-gol que marcou a carreira do pai. Eu, orgulhoso e em silêncio, assistia ao encontro dos meus dois ídolos.
 

 

Hoje, nenhum deles está mais por aqui. O pai morreu ano passado. Espinosa na semana que passou. Os dois me deixam saudades. E o Grêmio, como ponto a unir nossas lembranças.

Avalanche Tricolor: de volta para colocar mais um Gre-nal na história

 

Inter 0X1 Grêmio
Gaúcho —- Beira Rio, Porto Alegre/RS

 

 

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Diego Souza volta a marcar em Gre-nal (Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

De volta das férias …. aqui na Avalanche, é claro. Já estou no batente faz tempo. E atento. De olho no nosso time. Quem contratou, quem se machucou, de quem se livrou. Assisti a todos os jogos nesse início de temporada. Sem perder um só lance. Como sou dos que costumam ter paciência nesta época do ano, quando a equipe está retomando o ritmo de jogo, novas peças ainda estão se adaptando e sempre têm muito a melhorar, fiquei a espera do momento certo para voltar a esta conversa com você, caro e raro leitor.

 

Escolhi a dedo o jogo da volta — com todos os riscos que um clássico possa nos oferecer, especialmente se jogado na casa do adversário, que vinha embalado por resultado positivo na Libertadores e muito elogiado pela crônica local. Talvez por isso mesmo eu tenha decido voltar agora. Até aqui, convenhamos, só tínhamos tido partidas sem graça, algumas em campos que sequer mereciam ser palco de futebol. Estava na hora de encarar jogo de gente grande, com estádio cheio, torcida contrária, tensão a cada bola e sabor de decisão.

 

O Grêmio foi muito superior no primeiro tempo e merecia ter saído de campo com vantagem no placar — parecia estar jogando em casa. Se não marcou, ao menos seu futebol envolvente provocou a expulsão de um adversário e isso ajudou no restante da partida, especialmente nos momentos em que demonstramos fragilidade no esquema defensivo, com espaço para o toque de bola e a chegada ao nosso gol.

 

Renato aproveitou-se do banco reforçado que tem nesta temporada para reequilibrar a partida. Colocou Thiago Neves, Pepê e Caio Henrique, retomou o domínio de bola, deu velocidade ao ataque e tirou o ímpeto do adversário.

 

Contou também com a experiência de Diego Souza que voltou a disputar um Gre-nal depois de 13 anos. E voltou a marcar, no Beira Rio, como já havia feito em 2007. Nosso centroavante teve agilidade para fugir do marcador, paciência para entrar livre na área e precisão no cabeceio. “Um gol de malandro”, disse Renato ao fim da partida. O terceiro gol dele em três jogos disputados. No clássico, ainda foi responsável por algumas das principais jogadas de ataque e provocou a expulsão de seu marcador em uma escapada no contra-ataque. Alguém aí se atreve a falar mal dele?

 

Lá atrás foi Vanderlei quem cumpriu seu papel com excelência. Bem posicionado, fez defesas com segurança nos chutes à distância. Corajoso, fez defesas arrojadas quase nos pés do atacante. Com agilidade, espantou o gol de empate após uma cabeceada à queima roupa. Com sua performance no clássico, espero que tenha conquistado a confiança de uma gente chata que já ensaiava críticas ao novo goleiro.

 

Com dois dos principais reforços da temporada fazendo a diferença — e Everton brilhante como sempre —, o Grêmio chega ao sexto Gre-nal seguido sem perder —- recorde que Renato alcança no comando do time, igualando  marca só registrada até hoje por Felipão. 

 

Começamos 2020 fazendo história. E eu não deixaria de estar aqui, nesta Avalanche, de volta, para contá-la.

 

Avalanche Tricolor: uma goleada na minha ansiedade

 

Grêmio 3×0 São Luiz
Gaúcho — Arena Grêmio

 

Gremio x Sao Luiz

André comemora gol e me manda recado, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

No salão de embarque do aeroporto de Congonhas, escrevo esta Avalanche. Estou a caminho do Rio, onde apresento o Jornal da CBN, na segunda-feira. Esperei o jogo se encerrar para sair de casa, porque sabia que haveria tempo de chegar para o embarque sem correria.

 

Poucas coisas me incomodam ou geram ansiedade mais do que o relógio correndo enquanto se aproxima a hora da viagem. Deve ser coisa de outras vidas —- se é que você acredita nelas —-, já que não lembro de uma viagem perdida por me atrasar.

 

Tendo, porém, a imaginar que o trânsito estará mais complicado do que já costuma estar — mesmo com o advento do Waze penso em alguma intercorrência momentânea; imagino que a chegada em Congonhas será caótica —- e motivos não me faltam dada algumas trapalhadas feitas por quem gerencia o acesso de carro ao aeroporto; que o excesso de passageiros vai travar o setor de fiscalização e controle; e outros quetais preocupantes. Curiosamente, a única preocupação que deixo na mala é a da viagem de avião.

 

Independentemente de todas minhas ansiedades, estou aqui a espera do voo e em tempo de escrever esta Avalanche. Mas é que gosto de ter controle sobre as coisas — ao menos daquelas que posso ter controle.

 

Estava ansioso antes de a partida de hoje, também. Especialmente depois de três jogos sem gols e um tropeço frustrante no meio da semana, na Libertadores. Sabe como é que é. A gente tem a melhor campanha, está invicto, havia levado apenas um gol em toda a competição, é muito melhor do que o adversário … mas vai que dá errado. Sei lá, nosso chute bate no travessão, levamos o contra-ataque e no desvio do zagueiro colocamos fora a passagem à final.

 

Verdade que ao ver nossa equipe, a firmeza de nossa defesa, o talento dos volantes, a qualidade do toque de bola no meio de campo e a velocidade de nossos atacantes, fica difícil não confiar.

 

Sem contar que, ao lado do campo, tem Renato, sempre dedicado, chamando atenção de um jogador aqui, posicionando outro ali, pedindo marcação alta — é assim que se chama o que um dia já foi conhecido por “pega ratão”, né!? —, cobrando mais velocidade na troca de bola e aplaudindo a boa jogada.

 

Tudo isso é motivo para deixar nossa confiança em alta, mas vai que o domingo é um dia daqueles pra esquecer … haja ansiedade!

 

O primeiro gol veio antes de meia hora de jogo, após um lance de muito talento de Jean Pyerre que fazia fila entre os marcadores adversários e só foi parado após uma falta dura. Em vez de ficar se lamentando, Geromel cobrou com rapidez, pegou a defesa fora de posição e depois de a bola cruzar pela área, André fez a assistência para Alisson completar.

 

O gol era para dar tranquilidade a este torcedor ansioso, mas aí o locutor lembrou que o Gaúcho tem “gol qualificado” e, assim, após empatar fora de casa em zero a zero, um só golzinho do adversário nos tiraria da final. Caramba!

 

Foram necessários mais 13 minutos até marcarmos o segundo gol, em jogada na qual André teve todo o mérito, pois foi preciso ao driblar o zagueiro dentro da área e ágil ao bater de primeira. Correu para a torcida e com a mão direita fez um sinal que muita gente estranhou. Eu logo entendi. Mandava dizer para mim que agora estava tudo OK, pode ficar tranquilo porque já estamos na final — se não foi isso, foi assim que entendi.

 

O segundo tempo ainda nos daria um ou outro susto, mas nada que me tirasse da cadeira. A não ser o gol de Everton que voltou a marcar, logo cedo, aos 13 minutos. O passe de Jean Pyerre, enquanto Everton entrava na área, foi genial. Nosso atacante, ao seu estilo, cortou o marcador, limpou e chutou fora do alcance do goleiro. Na saída do campo, na entrevista, tenho certeza que mandou outro recado para mim: precisa controlar a ansiedade, disse ao explicar o tempo que ficou sem fazer gols.

 

Quando o Grêmio joga com essa supremacia não tem mesmo motivos para ficar ansioso. Que venha a final do Gaúcho! Que venha a Libertadores! Putz … já comecei a ficar ansioso de novo.

Avalanche Tricolor: o Grêmio jogou como se prepara um chimarrão

 

São Luiz 0x0 Grêmio
Gaúcho — 19 de Outubro, Ijuí/RS

 

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Pepê vai ao ataque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Chimarrão é bebida típica do Sul. Bebida para ser apreciada na calma que a alma pede. Do preparo ao sorver, sem pressa nem pressão. Apenas saboreando o curtir da cuia e o pó da erva-mate escorrendo até preencher dois terços do espaço interno, enquanto a água começa a esquentar no fogão.

 

Curva-se a cuia para dar movimento a erva e desenhá-la conforme manda o figurino. É preciso apuro no preparo da água, pois tem de chegar morna para não queimar o mate e não amargar o chimarrão. Com a erva banhada na água morna, todo cuidado é preciso ao posicionar a bomba que deve ter sua boca fechada com o dedo polegar enquanto afunda na erva — tô pra ti dizer que coisa ruim é chimarrão entupido.

 

Se o serviço for bem feito, basta esperar a chaleira chiar. É o sinal de que a água já bate na casa dos 64º Celsius e está no ponto para ser servida — não pode ferver porque queima a erva e tudo que se fez até aqui se desperdiça.

 

Hoje cedo, após a missa dominical, rezada pelo padre José Bortolini, meu conterrâneo e gremista, de quem já tratei nesta Avalanche, cheguei em casa e aproveitei o sol da manhã, em São Paulo, para preparar meu chimarrão.

 

Cevar o mate logo cedo foi tranquilizador em um dia no qual assisti a alguns amigos e conhecidos se digladiando nas redes sociais, como se a história da humanidade se resolvesse nesse espaço. Ou a história do Brasil ali pudesse ser reescrita.

 

Sozinho, já que a turma aqui de casa nunca se acostumou com este hábito próprio do Rio Grande do Sul, saboreei a erva-mate até a cuia roncar. Uma, duas, três, quantas vezes a garrafa térmica cheia de água permitiu.

 

O tempo passou fácil, o pensamento foi longe e o coração bateu mais leve — sequer parecia que ao fim do dia estaria diante da televisão para torcer pelo Grêmio em mais uma partida decisiva, dessas muitas que fazem parte do nosso concorrido calendário.

 

Por falar em Grêmio. Tive a impressão de que o time de Renato entrou em campo hoje à noite com a mesma disposição de quem prepara um chimarrão.

 

Não que tenha estado abaixo do ritmo que a disputa por uma vaga na final exige —- especialmente estando no campo de um adversário motivado com o feito que pode ser histórico. Longe disso.

 

Via-se que nossos jogadores se esforçaram para encontrar espaço para entrar na área ou quem sabe chutar de fora. Forçou por um lado. Forçou pelo outro. Forçou pelo meio. Arriscou-se em alguns momentos mas sempre transmitindo a sensação de que estava tudo sob controle.

 

Quando digo que o Grêmio parecia preparar o chimarrão é porque dava sinais de que sabia que o caminho à final dependeria do resultado das duas partidas, e a segunda e decisiva seria mesmo diante de sua torcida, na Arena.

 

Precisava ter calma, retomar a bola do adversário, mantê-la sobre seu domínio e esperar o momento certo para atacar. Talvez tenha apenas faltado um pouco mais de atenção com a temperatura do jogo —- sabe aquilo que falei da água do chimarrão? Tava morno de mais. Talvez tivesse de deixar esquentar, sem ferver. Como se faz no bom chimarrão.

 

O importante é que o empate nesta primeira partida da semifinal em nada vai tirar o sabor do que realmente nos interessa: a Libertadores, que volta na próxima quinta-feira com o desafio de vencermos fora de casa, no Chile. E lá, pelo que sei, servem chimarrão frio — que coisa mais sem graça, não!?

Avalanche Tricolor: um troféu pela melhor campanha do Gaúcho

 

Grêmio 0x0 Juventude
Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre

 

Gremio x Juventude

 

Um amistoso de luxo. E com direito a taça. Era o que se tinha para esta noite de quinta-feira, depois da goleada acachapante de domingo, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho.

 

O Grêmio entrou classificado à semi-final e prestes a garantir a melhor pontuação entre todos os participantes da competição — importante porque leva a decisão do Gaúcho para a Arena, se seguirmos nesta caminhada até o final.

 

O adversário entrou disposto a parar a saraivada de gols que havia se realizado no jogo de ida. Postou-se atrás, fechou-se como pode, esforçou-se muito, catimbou com a anuência do árbitro e deve ter saído satisfeito em não perder.

 

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Diego Tardelli até marcou, mas juiz impediu — foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O gol até saiu, resultado do bom toque de bola gremista e da paciência de seus jogadores, especialmente os do meio de campo, que não se cansam em trocar de posição, movimentar-se com aproximação e triangular em busca de mais espaço. Foi assim que Luan em meio a um amontoado de marcadores encontrou Diego Tardelli que, em velocidade, recebeu a bola na entrada da área. Matou com um pé e fulminou com o outro.

 

Um golaço — se a auxiliar não tivesse se precipitado e sinalizado impedimento, o que as imagens da televisão deixaram muito claro que não houve. É curioso como os árbitros e seus bandeirinhas são incapazes de seguir a recomendação da International Board, que dá regras ao futebol. Recomenda o organismo internacional que no caso de impedimento a norma é “in dubio pro reo” — ou seja, na dúvida, segue o lance.

 

Sem o gol e com a classificação garantida, restou levantar o troféu em homenagem aos 100 anos da Federação Gaúcha de Futebol. Prêmio oferecido ao time que fez a melhor campanha da fase de classificação: 29 pontos ganhos — sete à frente do segundo colocado –, 9 vitórias, 2 empates, 29 gols a favor e apenas um contra.  

 

E ver o Grêmio levantando troféu sempre me garante uma boa noite.

Avalanche Tricolor: erga-se a estátua

 

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Gaúcho — Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

 

 

Teve gol de peito, de falta, de cobertura, de carrinho e até gol de Marcelo Oliveira —- aliás, foi dele o gol que abriu a goleada nesta tarde, no estádio Alfredo Jaconi, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho. Gol que surgiu depois de o adversário ter um de seus defensores expulso por jogada violenta, em uma tentativa desesperada do marcador de impedir mais uma chegada com velocidade pelo lado esquerdo. A expulsão foi aos 18 minutos do primeiro tempo e o primeiro gol foi sete minutos depois.

 

Daí para frente, o Grêmio tocou bola com qualidade, superando até mesmo as irregularidades do gramado. Seus jogadores trocavam de posição, apareciam para receber, recebiam e davam sequência à jogada — às vezes com mais um bom passe e em outras com um ou dois dribles. Assim como a superioridade numérica em campo fazia sobrar espaço de um lado e de outro, a superioridade técnica fazia sobrar talento.

 

O desavisado haverá de desmerecer o placar elástico dizendo que contra 10 é mais fácil. É mesmo. Bem mais fácil, especialmente se o seu time souber jogar com a bola. Mas essa facilidade só se torna possível porque o Grêmio provoca as expulsões —- e não é de hoje nem com violência. Lembro de já ter tratado do assunto na Libertadores, de 2017, e no Gaúcho, de 2018, nesta mesma Avalanche.

 

A velocidade das jogadas, a forma como o time se movimenta em campo, a quantidade de passes trocados e a precisão desses passes faz com que os espaços se abram. Por mais esforçado que seja o adversário é preciso correr mais, dobrar a marcação e ser muito cirúrgico na roubada de bola —- escrevi há cerca de um ano e mantenho minhas palavras. Na ânsia de retomar a bola e parar de correr atrás do nosso time, o marcador erra no bote e na batida. Cartão vermelho. E surge mais espaço para o Grêmio esbanjar qualidade técnica.

 

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O sorriso no rosto de quem gosta de jogar bola, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Esse Grêmio que fazia o olho brilhar, em 2016, nos fez ser o maior da América, em 2017, e teve seu futebol reverenciado, em 2018, é o Grêmio que tem a assinatura de Renato —- um técnico com a capacidade de levar para o vestiário o espírito vitorioso que o acompanhou na carreira de jogador.

 

Mais do que isso: um cara que, a despeito de suas frases de efeito e provocações verbais, entendeu a importância de estudar as mais modernas táticas do futebol, analisou cuidadosamente as estratégias usadas pelos times de melhor desempenho no mundo, montou uma comissão técnica capaz de identificar jogadores com potencial e que se encaixavam na sua ideia de futebol e, com tudo isso em mãos, agregou seu carisma e identificação com o torcedor gremista.

 

Como jogador nos deu os maiores títulos que sonhamos: a Libertadores e o Mundial, de 1983; além de ter sido campeão Gaúcho, em 1985 e 1986. Como técnico praticamente repetiu a dose: campeão da Copa do Brasil, em 2016; campeão da Libertadores e vice do Mundo, em 2017; da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Gaúcho, em 2018; e da Recopa Gaúcha, em 2019.

 

Mais do que todos os títulos que conquistou —- mas também graças a eles —-, Renato quando voltar para a praia no Rio de Janeiro terá deixado um legado na maneira de o Grêmio jogar bola.

 

Acabou a era do brutamonte que tanto nos fez vibrar, chorar e sofrer —- e nada contra aquelas batalhas campais, pois sei que foram elas que forjaram nossas conquistas históricas. Sei também que não fugiremos à luta se assim for necessário no amanhã para alcançarmos novas vitórias.

 

Renato deixou para trás os tempos em que se despachava a bola pra qualquer lado porque não se sabia bem o que fazer com ela; em que se deixava os adversários jogarem, torcendo para que em uma bobeada deles fizéssemos o gol salvador; em que o gol era apenas um detalhe na nossa trajetória.

 

O Grêmio de Renato nos ensinou a gostar do jogo bem jogado, a se deslumbrar com o talento, a não ter medo do drible e a valorizar a técnica em detrimento a brutalidade.

 

O Renato do Grêmio nos ensinou a sorrir — e a sorrir com o mesmo sorriso que estará estampado em seu rosto, na estátua que será erguida nesta segunda-feira, dia 25 de março, na Esplanada da Arena.

 

Ali, pertinho de onde conquistamos nossos últimos títulos, sob o comando de Renato, estará a imagem de nosso atacante, em bronze e com quatro metros de altura, no momento em que ele comemorava um dos gols do Mundial de 1983. Uma homenagem ao maior nome que já passou pelo Grêmio. Para lembrar a cada um de nós, gremistas, porque somos o Imortal Tricolor.

 

O Renato merece essa estátua. O Grêmio merece Renato.

Avalanche Tricolor: ver o Grêmio é um convite irrecusável

 

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Gaúcho – Boca do Lobo, Pelotas/RS

 

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Matheus Henrique conduz a bola, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Renato não estava no banco. Os titulares não estavam em campo. Classificado antecipadamente e em primeiro, sem qualquer risco, o placar em nada mudaria nossa história neste campeonato — a não ser pela possibilidade de vencê-lo de maneira invicta. Nem a TV ajudava muito: foi preciso perspicácia e troca de informação em rede social para descobrir a partida; aqui em São Paulo, somente seria transmitida em um canal analógico do PPV. Nestes tempos de TV 4K, teríamos de nos contentar com imagem borrada, de baixa qualidade e recursos de câmeras restritos.

 

Convenhamos, o cenário era um convite para deitar mais cedo, recuperar energia para o dia seguinte, quem sabe acordar até mais disposto. Mas relutei em aceitá-lo. Afinal, era o Grêmio que estaria em campo. E, atualmente, com as exceções de praxe, assistir ao Grêmio é sempre muito agradável.

 

Tem um guris que pintam e bordam em campo.

 

Assistir a Matheus Henrique e Jean Pyerre, por exemplo, é genial. Eles conduzem a bola com facilidade, se livram dos marcadores como se estivessem passeando, passam com qualidade e abrem espaço para novas jogadas mais à frente. O baixinho Matheus ainda tem uma capacidade de marcação de dar inveja em qualquer brutamonte que tente passar por ele. E o esguio Jean Pyerre, corre com a elegância dos antigos craques do futebol brasileiro.

 

Se conseguem fazer isso é porque seus colegas estão a altura do futebol jogado por eles e são capazes de reproduzir o modelo de jogo desenhado por Renato, com muita movimentação, deslocamentos para facilitar o passe de primeira, dando seguimento à jogada com toques rápidos, driblando quando é necessário e virando o jogo quando o espaço parece restrito.

 

Resultado: mesmo que o time não seja o titular — e de todas as condições descritas no primeiro parágrafo desta Avalanche –, ver o Grêmio em campo é um convite irrecusável, motivo de alegria para este torcedor e, imagino, para todos vocês torcedores gremistas e amantes do bom futebol.

 

Na noite dessa quarta-feira, além de todas as boas notícias, foi muito legal ver Galhardo de volta no lado direito e, especialmente, Thaciano jogando com vitalidade e esbanjando talento no meio, a ponto de ter sido o autor do primeiro gol, participado do arranque para o segundo e quase tendo marcado um outro que seria antológico.

 

Foi tão legal assistir ao Grêmio na noite de quarta, que acordar de madrugada nesta quinta-feira chuvosa em São Paulo tornou-se fácil.

Avalanche Tricolor: se é Gre-Nal, eu quero é ganhar; e nós ganhamos!

 

Grêmio 1×0 Inter
Gaúcho — Arena Grêmio Porto Alegre

 

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A festa do gol na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Gre-Nal é Gre-Nal, diz o dito gauchesco. De futebol ou de toss, quero ganhar sempre. Já teve Gre-Nal que antes de o árbitro jogar a moeda para o alto, os capitães se engalfinharam. Teve um que se ganhou com 17 segundos — lembra daquele gol do Iúra? Outros ganhamos de 5 e até de 10 a 0. Há os que se ganha no gogó. Se o time não está nada bem, o técnico chama a imprensa, provoca, desmerece e vence na base da psicologia.

 

Dizer que o clássico não vale nada é papo de perdedor. Ou de gente que não entende as coisas do Sul do País. O cartola blefa e usa um imbróglio jurídico para amenizar o risco da derrota. Esperneia e manda o técnico escalar time reserva. Truco, grita o outro lado. E surpreende na escalação, também. Ainda tem quem caia nessa balela e acredita que os times entrarão em campo com menos ímpeto porque o jogo vale pouco, afinal todos já estão classificados à próxima fase. Coitados!

 

A bola é disputada a cada metro quadrado. E a torcida comemora o espaço ocupado, o passe interceptado e o drible interrompido. Se o goleiro pega, festa na arquibancada. Se o zagueiro despacha de canela, festa de novo. E mais festa só porque o atacante cortou para dentro e o marcador passou reto. Nesse clima não interessa quem vista nossa camisa — menos ainda quem vista a camisa deles. É contra 11. É contra 10. É contra a lógica. É contra o maior rival da nossa história. Eu quero é ganhar.

 

E a vitória desta noite de domingo nos faz disparar na liderança, garante a passagem em primeiro lugar às finais, mesmo ainda faltando um rodada para o fim da fase de classificação, e reafirma nossa superioridade no Rio Grande do Sul. Resultado alcançado graças a infernal troca de passes e ao domínio preciso da bola, no primeiro tempo, que levaram o adversário a bater mais forte, no desespero de parar a jogada. Quando encontra-se um árbitro que decide punir a violência, o resultado é o que assistimos em campo. Ganha-se vantagem numérica, aproveita-se o espaço aberto e se chega ao gol, como fez Leonardo Gomes, após triangulação com Montoya e André, ainda no primeiro tempo.

 

Como é Gre-Nal, respeito é bom e eu gosto. Por isso, no segundo tempo a preferência por parar o jogo, segurar a bola, conter a velocidade e fechar os espaços na entrada da área. Se ampliar o placar, excelente. Mas a missão era manter-se à frente no placara, porque se é Gre-Nal eu quero vencer. E nós vencemos o primeiro do ano. 

Avalanche Tricolor: a escolinha do professor Renato

 

 

Grêmio 3×0 São José
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Renato abraça o pupilo Darlan em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A imagem de Renato em sala de aula chamou atenção dos jornalistas há algumas semanas. Obrigado a participar de curso promovido pela CBF para ter direito a treinar uma equipe na primeira divisão do futebol brasileiro, Renato foi considerado exemplar pelos colegas de turma. Participativo, colaborador e de bem com a vida. Foi como descreveram nosso treinador, que teve de assistir às aulas já com a temporada rolando porque se negou a interromper suas merecidas férias no fim de dezembro. No que tem todo meu apoio — férias são uma instituição a ser respeitada.

 

Pelo histórico recente, Renato estava “jogando” em posição trocada. Em lugar de sentado na carteira dos alunos, deveria ter ocupado a mesa de professor, desenhando na lousa as estratégias e técnicas que aplicou no Grêmio desde que retornou ao clube, em 2016. Um conhecimento que o levou a conquistar a Libertadores, a Recopa Sulamericana, a Copa do Brasil e o Campeonato Gaúcho.

 

Mais do que os próprios títulos —- mas talvez apenas por tê-los conquistado —-, nestes quase 30 meses em que está no comando gremista, Renato deu aula de sabedoria. Soube recuperar a autoestima de alguns jogadores, trouxe de volta a categoria que outros tinham esquecido e foi paciente com os mais jovens. Contrariou o pedido de torcedores que gostariam de ver alguns talentos recém-surgidos já entre os titulares. Puxou a orelha do garoto ansioso tanto quanto do craque consagrado. E o fez com cátedra —- como dizem os mais antigos.

 

O jogo bem jogado do time titular — com toque de bola em velocidade, passes precisos, troca de posição intensa, marcação sobre pressão e forte competitividade — contaminou o clube como um todo. Quem entra na equipe, segue a mesma apostila. Se muda toda a equipe, todos se esforçam para reproduzir o mesmo modelo. Na base, os guris entenderam o recado e fazem a lição de casa. Na escolinha do professor Renato, todos têm de ter na ponta da língua os conceitos que fazem o futebol um espetáculo a ser assistido.

 

Um bom exemplo foi o que vimos nesta noite de sábado, na Arena, quando Renato escalou o time alternativo, já que na terça-feira temos mais um desafio pela Libertadores. Que prazer estar na plateia diante de um equipe que é capaz de encantar desde o primeiro minuto, mesmo que este time não seja o que consideramos titular.

 

O primeiro gol, aos 28 minutos de partida, é de dar orgulho a qualquer pai de aluno. Juninho Capixaba e André tabelaram pela esquerda. Nosso atacante deu um passe perfeito, completado pelo corta-luz de Jean Pyerre, que deixou Montoya em condições de abrir o placar.

 

A gente ainda curtia a beleza do gol inicial quando, dois minutos depois, André —- mais uma vez ele —- deixou seus dois marcadores sem ação ao passar de calcanhar para Pepê. O guri, com cacoete de goleador, encobriu o goleiro adversário. Nota dez.

 

Para completar a goleada, aos 31 do segundo tempo, Diego Tardelli, recém-chegado, foi hábil ao deixar a bola passar para André, que enxergou Pepê entre os zagueiros, que matou no peito, livrou-se da marcação e cruzou em direção ao gol. André —- ele estava merecendo deixar sua marca —- completou para as redes.

 

Descrevo os três gols porque mostram de maneira mais expressiva os ensinamentos de Renato. Poderia, porém, lembrar de outros momentos, como a condução de bola de Matheus Henrique, 21 anos, a personalidade de Darlan, 20 anos, que está aparecendo somente agora na equipe, e a forma como Thaciano, 23 anos, se impõe no meio de campo. Todos alunos exemplares.

 

Com a bola no pé, Renato foi mestre. Pensando futebol, é Ph.D.