Avalanche Tricolor: é sempre bom voltar para casa

 

Brasil-Pel 0 x 0 Grêmio

Gaúcho — estádio Bento Freitas/Pelotas-RS

 

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Pepê em destaque na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA 

 

Foram apenas alguns dias, mas foram dias intensos esses que fiquei em Porto Alegre. Fui para lá na sexta-feira e voltei no domingo. Se insistir de ficar mais um ou dois dias —- e esta é a vontade que não me falta —- logo estarão espalhando por aí que estou de férias. Por isso, ontem à noite já estava em casa, aqui em São Paulo.

 

É curiosa essa sensação do “estar em casa”.

 

Deixei Porto Alegre em 1991 quando vim embora para a capital paulista. Se minhas contas estiverem certas e meus planos se realizarem, desde metade do ano passado já vivi mais tempo em São Paulo do que no Rio Grande do Sul.

 

Aqui me fixei profissional e pessoalmente. E me realizei. Minha carreira de jornalista se expandiu. A mim foi oferecido espaço no rádio, na TV, na internet e em revista. Muito mais importante, porém, foi que aqui encontrei a mulher amada e com ela tive filhos amados — e com eles convivo até hoje. É na casa de São Paulo que recebo amigos e para a qual convido a família para aproveitar seus dias. É o meu lar.

 

Apesar disso, ainda teimo em dizer, sempre que tenho viagem marcada para Porto Alegre, que vou para casa. Refiro-me a casa onde morei na Saldanha Marinho, em Porto Alegre, na qual hoje vive meu irmão com a família dele — minha cunhada, meu sobrinho e minha afilhada —-, que me recebe sempre com muita generosidade

 

Foi lá que passei a maior parte dos meus dias de infância e adolescência. Onde minha mãe trocou minhas fraldas, vestiu minha primeira calça de brim coringa e nela bateu com chinelo, sempre que fiz por merecer. Corri atrás de galinha no quintal da casa da Saldanha. Brinquei de esconde-esconde na calçada, em frente. Deixei meus pais de cabelo em pé, atravessando de bicicleta a rua de paralelepípedo.

 

Quando acreditava ter idade para tal, deixava minha casa para me divertir nas discotecas da época, no encontro com os amigos na mesa de bar e na paquera na Cidade Baixa — programas que contribuíram, e muito, para o número de cigarros consumido pelo pai, que só dormia depois que eu voltava para casa.

 

Lá da casa da Saldanha, saía ao lado do pai para ver os jogos do Grêmio, no vizinho estádio Olímpico — onde também treinei futebol, joguei basquete e criei raízes. E essa sequência de experiências —- e tantas outras que deixei de registrar aqui —- impregnaram na alma a ideia de que quando chego na Saldanha, estou em casa. Estou mesmo. Uma sensação que em nada desmerece a ideia de que meu lar está em São Paulo, daqui de onde escrevo essa Avalanche.

 

Ops, perdão, somente agora lembrei que este texto ocupa o espaço dos posts que fazem referência ao Grêmio e seu desempenho em campo — e fora dele. Infelizmente, porém, a viagem de volta a São Paulo deu-se no momento em que o Grêmio começava mais um compromisso pelo Campeonato Gaúcho. Mal consegui assistir aos minutos iniciais na tela do celular. A comissária de bordo logo anunciou o fechamento das portas do avião. Assim que aterrissamos ainda consegui ver o apito final da partida em que empatamos jogando fora de casa — resultado que nos mantém isolado e distante na liderança da competição.

 

Semana que vem, segunda-feira, o Grêmio volta aos gramados e, dessa vez, jogando em casa. E estar em casa é sempre muito bom. Não é mesmo!?

Avalanche Tricolor: o dia em que o futebol ficou sem graça

 

Grêmio 6×0 Avenida
Gaúcho/Recopa — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

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Jogadores e Renato prestam homenagem aos meninos mortos no Flamengo Foto LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Tinha taça em jogo. E taça a gente quer ganhar sempre. Em campo, estava o que havia de melhor à disposição de Renato — e ao longo da partida ainda entraram alguns jogadores que, provavelmente, deixarão o time ainda melhor. O toque de bola era o que aprendemos a gostar. A categoria do passe se fez presente desde o minuto inicial. A movimentação intensa abriu caminho para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto gol —- e que baita gol foi esse último. Aliás, difícil escolher o mais bonito. De cabeça. De cavadinha. Com dribles. Com força. No ângulo. Gol para todos os gostos. A torcida assoviou para dar ritmo à equipe. Bateu palmas no mesmo compasso do futebol jogado. Cantou seus cantos. E relembrou o grito de “é campeão”!

 

Tinha tudo para ser um jogo perfeito. Mas foi sem graça. Uma graça que se perdeu na morte de dez garotos, vítimas da tragédia no Ninho do Urubu, na sexta de madrugada. Garotos que, como muitos daqueles que vestiram, vestem ou vestirão a camisa do Grêmio, só queriam ter o direito de jogar futebol. De sorrir pelo drible bem dado. De comemorar nos braços do torcedor o gol bem feito. De levar para a família a alegria de uma vida mais bem estruturada.

 

Um gurizada como Everton e Luan —- que começa na base a construir sua própria história e ser protagonista da história do seu time de coração. Que abre mão da infância e da adolescência —- aceita a rotina de treinos intensos, a distância da família e as condições que lhe oferecem para dormir, comer e morar — porque sabe que seu talento está prestes a abrir-lhe às portas para uma vida mais digna. Com o respeito dos outros. A admiração de muitos. O olhar orgulhoso da mãe e do pai, quando o tem. Dos parentes e amigos, também.

 

Os meninos do Flamengo são meninos como os nossos. Imaturos por adolescentes que são. Inseguros diante de uma vida que mal está começando. Ao mesmo tempo, corajosos. Capazes de superar qualquer dificuldade porque só assim terão espaço no campo do futebol. Sabem que os ídolos nos quais eles se inspiravam também tiveram de trilhar essa caminhada. Só não sabiam o que o destino havia reservado a eles. Destino? Talvez caiba melhor nessa frase a irresponsabilidade, o descaso, o desrespeito, a crença de que nada vai dar errado … essas coisas que se transformaram em lugar-comum nesse país que assiste aos seus jovens morrerem queimados em boates e alojamentos, suas famílias serem soterradas pela lama da mineração e sua gente ser levada pelas águas das enchentes. Tão comum quanto a impunidade que se segue a essas tragédias.

 

Bem que tentei sorrir a cada gol marcado pelo meu Grêmio. Mas o som dos trompetes militares entoando o toque fúnebre, na cerimônia que se realizou antes da partida, ficou em meus ouvidos e me fez lembrar a cada minuto de jogo que um daqueles dez meninos mortos poderia um dia estar ali na Arena do Grêmio fazendo aquilo que tanto desejavam em vida: dar alegria ao torcedor. 

Avalanche Tricolor: sei lá onde vai dar isso, mas que tá bom, tá bom!

 

Caxias 0x3 Grêmio
Gaúcho — Centenário/Caxias do Sul-RS

 

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Pepê comemora segundo gol em mais uma goleada foto de LUCASUEBEL/FBPA

 

 

Até aqui o Campeonato Gaúcho tem sido um ótimo cartão de visita para a temporada. Nas últimas três partidas, o Grêmio marcou 10 gols, e com cinco rodadas é líder isolado, está invicto e colocou o pé na próxima fase da competição —- um rascunho bem diferente daquele que desenhou no início do ano passado, quando se arriscou ao entrar em campo com um time de muitos jovens e pouco preparo. Nem o técnico era Renato.

 

Tenho a impressão que o Grêmio aprende a cada ano que passa. Amadurece a ideia de alternar equipes e elenco, diante da necessidade de jogar em alto nível em uma sequência muito intensa de competições — seja no nosso rincão, seja Brasil a fora, seja lá no estrangeiro.

 

Hoje, consegue colocar em campo times bem mais equilibrados e, principalmente, capazes de repetir a forma de jogar dos titulares.

 

A cada temporada, mantendo a mesma comissão técnica e a mesma visão sobre o que pretende do futebol, revela mais consistência no trabalho. E os jovens jogadores que sobem para o time principal assim como aqueles que ainda não estão capacitados a ter um lugar entre os titulares, absorvem mais facilmente as ideias de Renato.

 

Pepê, que sofreu no time de transição no início da temporada passada e somente voltou a ter chances entre os titulares no segundo semestre, está muito mais confiante. Arrisca o drible, dispara em velocidade e chuta com precisão. Fez um, fez dois e o terceiro não fez porque a bola explodiu no travessão. Isso se chama maturidade.

 

Jean Pyerre, que também estava naquela equipe capenga que começou a jogar o Gaúcho, em 2018, chegou a ser afastado do elenco principal, passou por uma reciclagem, entendeu os conselhos de Renato, e agora traduz sua qualidade técnica e seu talento em produtividade.

 

Quem parece já chegou sabendo o que tinha de fazer foi Felipe Vizeu. Se na estreia foi garçom, ao dar assistência para Maicon marcar, hoje serviu-se da bola cruzada por Thaciano para fazer o seu primeiro gol com a camisa tricolor. Que seja o primeiro de muitos.

 

Na defesa, que tomou apenas um gol nas cinco partidas disputadas pelo Gaúcho, Júlio César foi bem mais testado nesta tarde, no estádio Centenário, do que em todas as demais em que ele e Paulo Victor revezaram a camisa de número 1. E passou bonito pelo teste. A defesa dele em uma cabeceada após a cobrança de escanteio, deu a oportunidade de o Grêmio botar a bola no chão, chegar ao ataque, abrir o placar e colocar ordem na partida — depois de o adversário ter iniciado o segundo tempo pressionando e entusiasmado.

 

Sem contar a segurança de Paulo Miranda que mesmo não sendo o titular, saiu jogando todas as partidas até aqui. Suas atuações tem sido irretocáveis. Ele sabe que a zaga gremista tem dono. Ou donos. Geromel e Kannemann são absolutos no time e no coração do torcedor. Aliás, o gringo voltou a campo com a bola toda, hoje à tarde. Aquele carrinho no lado do campo em que chegou antes do atacante, acertou a bola e ainda cavou a lateral, nos primeiros minutos, me bastava. Mas ele queria mais e simplesmente anulou o ataque adversário. O leão voltou.

 

Poderia trazer outros exemplos para ratificar o que penso sobre este amadurecimento do Grêmio e seu elenco: Juninho Capixaba, Matheus Henrique, Leonardo Gomes, Marinho … quase todos têm demonstrado avanço neste começo de temporada quando imaginávamos que ainda estariam sentido os efeitos das férias e da preparação física mais intensa.

 

Sei lá onde vai dar isso, mas que tá bom, tá bom!

 

PS: uma falha técnica na transmissão da partida do Grêmio pelo Canal Premiere nos tirou o prazer de assistir ao primeiro gol de Felipe Vizeu — soube que aconteceu tanto na Sky quando na NET. Problemas como esse acontecem. Sei bem dessa realidade. Enfrento dificuldades também quando apresento o meu Jornal da CBN. Diante do inevitável, uma recomendação a meus colegas de trabalho responsáveis pela transmissão da partida: além de pedirem desculpas no ar, obrigação nossa quando cometemos algum erro, por favor providenciem a reprodução do gol o mais rapidamente possível, seja durante a partida seja no fim do jogo. É uma questão de respeito ao assinante que, aliás, paga pra ver — e paga caro.

Avalanche Tricolor: para comemorar o Dia do Mágico

 

Grêmio 4×0 São Luiz
Gaúcho — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

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Maicon comemora mais um gol do Grêmio,em foto de LUCASUEBEL/GREMIOFBPA

 

Hoje foi o Dia do Mágico. Confesso que somente fui apresentado à data pouco antes de iniciar meu programa matinal na rádio CBN. Soube que o dia foi destinado aos ilusionistas porque esta seria uma das muitas habilidades de São João Bosco, que morreu em 31 de janeiro de 1888.

 

Dom Bosco, como o conhecemos por aqui devido as muitas escolas salesianas que encontramos no país —- lá na minha Porto Alegre tem uma muito famosa — foi aclamado pelo Papa João Paulo II como o “Pai e Mestre da Juventude”. Na adolescência, ele fazia mágicas para ajudar a família. Além de representar os mágicos, é padroeiro de Brasília — mas este é outro assunto.

 

Lembrei dele e dos mágicos, agora à noite, enquanto assistia ao Grêmio, em Porto Alegre, na quarta partida disputada pelo Campeonato Gaúcho. Os gols foram de Everton — no rebote de uma ótima cobrança de falta de Jael —, de Marinho —- que baita gol, rapaz —, de Luan na cobrança de pênalti e do estreante Montoya — começou bem o gringo. Sem desmerecer nenhum deles — e seria injusto se agisse assim —- foi Maicon quem me inspirou a falar dos mágicos e de Dom Bosco.

 

A impressão que tenho sempre que assisto aos jogos do Grêmio é que o nosso capitão é o maestro desse time. A bola sempre passa por ele, antes de se iniciar uma boa jogada de ataque. A cabeça erguida e o olhar para a frente, já desenhando o que pode acontecer de melhor logo ali adiante, revelam a segurança com que ele comanda a equipe.

 

A facilidade com que ele troca a bola de um pé para outro, desviando-se do seu marcador e abrindo espaço para um companheiro que se aproxima ou outro que corre lá distante, é mágica pura.

 

Na partida do fim de semana, nosso volante já tinha sido protagonista de um lance genial, dentro da própria área do Grêmio. Era o último homem e estava acossado pelo atacante. Com a mesma tranquilidade com que dribla e toca a bola lá no meio de campo, livrou-se da marcação e saiu jogando — iludindo o adversário.

 

Hoje, não foi diferente. Como um mestre, sinaliza para seus companheiros o caminho certo, aponta para onde devem se deslocar, em que lugar vão receber a bola. Conversa com um e cochicha no ouvido do outro. Se necessário, fala com o árbitro para entender as sinalizações controversas. Às vezes, está na linha lateral trocando palavras com Renato. Assim como é técnico com a bola nos pés, é a extensão do técnico dentro de campo.

 

Maicon, aos 33 anos, é exemplo para os novos jogadores — os mais jovens e os recém-chegados. É referência para a equipe. É respeitado por todos. Além de esbanjar talento, vibra, briga, sofre. É a representação da nova raça tricolor, em que não basta lutar. Tem de saber jogar. E jogando muito bem em uma posição por onde passaram vários dos nossos ídolos, mudou o patamar de exigência do torcedor.

 

Maicon é mágico e nosso mestre! 

Avalanche Tricolor: é só o começo

 

Grêmio 3×0 Juventude
Gaúcho — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

 

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Luan de volta e brilhando, assim como o Grêmio, em foto de LUCASUEBEL/GREMIOFBPA

 

 

Time titular em campo, gramado novo e estádio de primeira. Na segunda -feira calorenta de Porto Alegre —- 34 graus no termômetro, 38 graus de sensação térmica — nada poderia dar errado. Depois de duas partidas com equipe alternativa, nós torcedores gremistas matamos a saudade do Grêmio.

 

A formação principal, escalada por Renato, desde os primeiros momentos de jogo, esboçou o futebol que se transformou em marca registada — daquele Grêmio que nos deu quatro títulos nos últimos anos. Marcação intensa lá na frente, segurança lá atrás e muito toque de bola e movimentação dos jogadores por todo o campo. Um esboço, lógico, porque é preciso ritmo, musculatura mais solta e isso apenas o tempo vai trazer de volta.

 

O primeiro gol surgiu de uma bola roubada quando o adversário tentava sair jogando, aos 27 minutos do primeiro tempo. Ouvi comentaristas chamando atenção para o erro dos defensores. Nenhum dos que ouvi atentou-se para o fato de que o erro foi forçado. Luan pressionou e provocou o erro. Marinho aproveitou-se do erro, houve troca de passe e  Jael matou a jogada na rede.

 

No segundo tempo não foi diferente. Até o tempo do gol foi o mesmo: 27 minutos. O adversário tentou sair jogando. Maicon forçou na marcação. A bola sobrou para Everton e Jael, mais uma vez, completou para o fundo do poço — expressão cunhada pelo mestre e pai Milton Ferretti Jung, que me ensinou a gostar deste time.

 

O terceiro, quando a partida estava praticamente no fim, aos 44 minutos, saiu de outra das características que têm encantado os torcedores. Jean Pyerre — que substituiu Luan — deu um passe sutil e aéreo, cheio de talento, que encobriu os marcadores e fez a bola parar nos pés do atacante Felipe Vizeu — que estreou com nossa camisa ao entrar no lugar de Jael, aos 29 minutos. Vizeu encontrou Maicon livre na pequena área, que apenas empurrou a bola para dentro do gol. 

 

Com a vitória, o Grêmio é líder do Campeonato. Tem maior número de gols marcados: 8. E o melhor saldo: 7. Mais importante do que isso. Mostrou que já começa a ensaiar o talento e a destreza que nos colocaram no topo do futebol sul-americano e nos fez um dos times mais admirados do Brasil. Mas, calma, é só o começo de temporada. O ano promete.

Avalanche Tricolor: o torcedor é tratado como se fosse um mero detalhe

 

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Gaúcho – Cristo Rei/São Leopoldo-RS

 

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Juninho Capixaba comemora o 2º gol dele no Gaúcho, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Os campeonatos estaduais têm perdido prestígio ao longo dos últimos anos, apesar de algumas rivalidades permanecerem muito fortes, como é o caso do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, tirar as pessoas de casa para ocupar as arquibancadas é tarefa das mais complicadas.

 

No ano passado, a média de público pagante foi de 4.262 pessoas. O Grêmio, campeão de 2018, também liderou essa estatística: 16.233 pessoas por jogo — nada muito entusiasmante se levarmos em consideração que isso não chega a um terço da ocupação dos estádios em que disputou suas partidas.

 

Diante do fiasco de público, é de se esperar que as federações e os demais protagonistas do futebol adotem medidas que motivem os torcedores. De olho no noticiário, porém, percebe-se que essa não é a lógica que impera no futebol brasileiro.

 

Hoje à noite, pouco antes de se iniciar a segunda partida do Grêmio no Gaúcho, leio que a Brigada Militar estava impedindo a entrada de torcedores com a camisa do clube, no estádio Cristo Rei. Resultado de interpretação de punição imposta pelo STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva à dupla Gre-Nal por briga de torcedores que aconteceu no ano passado durante um dos clássicos.

 

Ou seja, porque grupos de insanos resolveram se engalfinhar ano passado, a solução encontrada pelos tribunais foi impedir a participação do senhor, da senhora, do seu filho, do sobrinho, da dona de casa, do cidadão comum, de bem com a vida, que simplesmente curte ver a bola rolando e quer ter o prazer de vestir a camisa do seu clube de coração — talvez em uma rara oportunidade de assistir ao time jogando na cidade em que mora.

 

Para moralizar o futebol pune-se os que gostam de futebol. Afasta-se a família, tira-se o prazer do guri, corta-se o barato de nos sentirmos integrantes de um grupo, aborta-se o orgulho de usar o mesmo uniforme que nossos ídolos que estão em campo.

 

A medida adotada no Rio Grande do Sul soma-se a outros fatos desses últimos dias, como a ameaça de termos torcida única na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior — que só não se concretizou graças a combinação de times que se classificaram para a decisão —- e o ingresso único de R$ 100,00 imposto pela diretora da claudicante Portuguesa, na segunda divisão do Campeonato Paulista.

 

Menos mal que quando a bola começou a rolar no estádio Cristo Rei, em São Leopoldo, nesta quarta-feira, pude perceber pelas imagens da televisão que havia nas arquibancadas torcedores gremistas com suas camisetas tricolores ou azuis. Não sei como entraram. Se os policias fizeram vistas grossas ou simplesmente eles esconderam suas camisetas até a partida se iniciar.

 

Independentemente do “drible” que deram na punição imposta pela Justiça, tanto no Rio Grande do Sul quanto em São Paulo, o que vemos é uma série de ações que dá a entender que o torcedor é um mero detalhe no futebol.

Avalanche Tricolor: de volta!

 

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Gaúcho – Estádio do Vale/Novo Hamburgo-RS

 

 

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Pepê comemora seu gol em foto de LUCAS UEBEL/GREMIOFBPA

 

 

O Grêmio sempre teve espaço privilegiado neste blog, por motivos que o caro e raro leitor sabe bem — e se por acaso você acessou este post por engano, certamente entenderá até o fim deste texto. Em 2008, um ano depois de ter começado a escrever por aqui, criei a coluna Avalanche Tricolor, publicada sempre ao fim de cada partida disputada pelo meu time. No post de fundação, escrito em 19 de janeiro daquele ano — sim, ontem fizemos aniversário de 11 anos — já deixava evidente minhas (más) intenções: “a coluna ‘Avalanche Tricolor’ ganha espaço neste blog com o objetivo de ser o post esportivo menos imparcial possível”.

 

 

O nome da coluna era referência a maneira que nossa torcida costumava comemorar os gols nas arquibancadas de cimento do Olímpico Monumental —- o que se tornou impossível na Arena, infelizmente. Se no novo estádio, não existe mais Avalanche, a coluna seguiu firme, forte, entusiasmada e parcial aqui no blog, ao menos até a metade do ano passado. Em julho, uma série de compromissos com o lançamento do livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” me impediu de frequentar com assiduidade o blog e menos ainda dedicar algum tempo para escrever textos que estivessem à altura da minha paixão pelo Grêmio.

 

 

Sem clamor popular e nenhuma reclamação dos caros e raros leitores deste blog, interrompi a Avalanche — mas não deixei de acompanhar meu Grêmio, é lógico. Torci, sofri, esbravejei e comemorei cada resultado alcançado até o último jogo de 2018 e, na maioria das vezes, senti falta desta coluna, pois é aqui que jorro minhas emoções, revelo meus sentimentos, algumas vezes torno públicos momentos que vivi em família, já que o Grêmio foi muito importante na minha formação em Porto Alegre, e tento explicar as coisas do futebol, de vez em quando.

 

 

Durante as férias, que se encerram hoje, pensei duas, três vezes se reassumiria o compromisso de escrever a Avalanche. Até a bola começar a rolar neste domingo, em Novo Hamburgo, quando o Grêmio fez sua estreia no Campeonato Gaúcho, tinha dúvidas se seria capaz de acompanhar todos os nossos jogos e depois ainda escrever algo que valesse a pena ler.

 

 

O primeiro tempo já sinalizava que haveria bons motivos para uma Avalanche, mesmo que o time que entrara em campo fosse alternativo, como anunciavam os locutores da TV. No decorrer da partida, encontrei não apenas um, mas quatro bons motivos — o primeiro gol de Juninho Capixaba, que gera boa expectativa na lateral esquerda, os gols marcados pelos jovens Pepê e Matheus Henrique, que são o futuro se revelando em campo, tanto quanto o gol de Marinho, que torço para que deixe de ser apenas um jogador folclórico.

 

 

Não resisti. Voltei. A Avalanche voltou. E termino esta Avalanche da retomada com o título da última coluna escrita, em 30 de julho do ano passado: “Renato sabe o que faz”.

Avalanche Tricolor: o Grêmio é cruel!

 

Grêmio 4×0 Brasil-PEL
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Jael comemora com Everton o 3º gol (reprodução SPORTV)

 

A goleada na primeira partida da final dá a dimensão da diferença técnica entre o Grêmio e os demais times que disputam o Campeonato Gaúcho. Mesmo aquele que teve a melhor campanha até aqui na competição não foi capaz de conter o talento tricolor e acabou praticamente nocauteado, nessa tarde de domingo.

 

Haverá alguém que questione esta diferença e justifique o placar ampliado pela expulsão do zagueiro adversário pouco antes do fim do primeiro tempo. É verdade, o cartão vermelho facilitou nosso serviço. Mas se aconteceu, pode colocar na conta do Grêmio.

 

A velocidade das jogadas, a forma como o time se movimenta em campo, a quantidade de passes trocados e a precisão desses passes faz com que os espaços se abram. Por mais esforçado que seja o adversário é preciso correr mais, dobrar a marcação e ser muito cirúrgico na roubada de bola.

 

É cruel!

 

A paciência do marcador diminui com o passar do tempo, as faltas ocorrem com mais frequência e por mais permissivo que seja o árbitro as punições ocorrem. Um amarelo aqui, outro ali, uma bronca acolá e, daqui a pouco não tem mais opção: vermelho.

 

Foi o que aconteceu na Arena, mais uma vez.

 

O Grêmio entrou em campo com dois volantes que dizem muito sobre a qualidade do time. Geralmente as equipes têm um volante com algum talento na saída de bola e outro no desarme. Maicon e Arthur rodam pelo meio de campo e conduzem a bola com uma habilidade impressionante.
É cruel!

 

À frente dos volantes aparece Luan que é perseguido por um, dois, três … hoje chegou ter cinco jogadores em volta dele … e não perde a bola por nada neste mundo. A cabeça está sempre erguida para enxergar um companheiro mais bem colocado. A corrida pelo gramado é elegante. Dificilmente é desarmado. E só resta ao marcador derrubá-lo. Ou atropelá-lo, como fez o zagueiro justamente expulso no fim do primeiro tempo.

 

É cruel!

 

Pelos lados aparecem Everton, um velocista, e Ramiro, um incansável. Everton finaliza mais, Ramiro marca mais. Cada um com sua características, sempre aparecem livres para receber, pois têm agilidade e conseguem dar boa sequência na jogada.

 

Everton, aquele que nos colocou na final do Mundial, dá sinais que vai pelo mesmo caminho de seu antecessor Pedro Rocha. Muitas vezes cobrado por desperdiçar jogadas de gol, começa a se posicionar melhor em campo e finalizar melhor. Hoje marcou dois.

 

Ramiro descobriu-se cobrador de falta. Mais uma vez soube aproveitar o chute de longa distância, bateu forte na bola e deu a ela efeito capaz de “driblar” o goleiro.

 

É cruel!

 

E lá na frente …. bem, lá na frente tem o Cruel em pessoa.

 

Jael faz cara feia quando não marca, faz cara feia quando recebe falta e faz cara feia para o adversário. Mas sorri como nenhum outro quando percebe a utilidade de seu futebol para o time do Grêmio.

 

Hoje, foi imprescindível no passe. Sempre recebendo de costas para o zagueiro, toca para um companheiro mais bem colocado e, com a humildade que o caracteriza, os deixa em condições de fazer o gol. 

 

Colocou a bola por trás dos marcadores para Everton fazer o primeiro, forçou a defesa do goleiro permitindo que Alisson fizesse o segundo e deu passe de letra magistral para Everton fazer o terceiro. Só não participou do quarto gol porque já não estava mais em campo.

 

O Grêmio que já havia vencido a primeira partida das quartas-de-final por 3 a 0, a primeira da semifinal por 3 a 0, começa a decisão do Gaúcho com uma goleada clássica: 4 a 0.

 

O Grêmio é cruel com seus adversários!

Avalanche Tricolor: de volta às origens

 

Grêmio 1×1 Avenida
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Arthur comemora mais um gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O último título não faz muito tempo: foi a Recopa Sul-Americana, há pouco mais de um mês. Resultado da mais importante conquista que alcançamos neste século: a Libertadores, vencida em novembro de 2017. Um ano antes já havíamos levantado a Copa do Brasil, pela quinta vez na história. Teve ainda o vice-campeonato Mundial, em dezembro do ano passado.

 

O círculo virtuoso que estamos experimentando desde 2016 nos leva de volta às origens quando nos credencia a disputar a final do Campeonato Gaúcho, que se inicia na Páscoa.

 

Verdade que, pela dimensão alcançada pelo Grêmio, estar na final de uma competição estadual não é mais do que sua obrigação. Sabemos, porém, que a necessidade de atender compromissos maiores nos fez deixar o Gaúcho em segundo plano nos últimos tempos.

 

Mesmo neste ano, iniciamos a competição com um time bastante jovem que pagou muito mais caro do que merecia diante da falta de experiência e entrosamento. Um fato que nos impôs desafio ainda maior para chegarmos onde chegamos.

 

Sempre bom refrescar a memória do leitor, especialmente aquele que pregou o desespero. Lembra que você falou em rebaixamento – isso mesmo, Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho? Ou quando você, menos exagerado, não apostou um tostão furado na nossa classificação?

 

Pois é, entramos em sexto lugar, despachamos o co-irmão, resolvemos a fatura ainda no primeiro jogo da semi-final e agora estamos prontos para disputar o título.

 

Aliás, disputar mais um título (que se dê a devida ênfase a esta frase) …

 

Há algum tempo, Renato chegou a dizer que havíamos formando um grupo que não tinha medo de vencer. Ontem à noite, diagnosticou o Grêmio com uma doença “saudável”: estamos viciados em ganhar.

 

E por louco que somos em ganhar é que nosso treinador dedicará todo seu esforço e do grupo para levantar este caneco que, como escrevi, marcará o retorno às nossas origens.

 

Foi no Rio Grande que iniciamos nossa trajetória.
Nos campos gaudérios, fizemos história.
No nosso rincão, forjamos esta personalidade guerreira.

 

Que seja o Gauchão nosso próximo título!

Avalanche Tricolor: barba, cabelo e bigode, com toda a elegância

 

Avenida 0x3 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos – Santa Cruz/RS

 

Arthur

Arthur completou o serviço no segundo tempo

 

Barba, cabelo e bigode. No passado, era assim que se descrevia uma tarefa que havia sido realizada por completo. E assim pode-se descrever a tarefa cumprida pelo Grêmio no simpático estádio e complicado gramado de Santa Cruz do Sul, nesta tarde de domingo.

 

Desde os primeiros movimentos, percebia-se que superar o campo ruim e pesado dos Eucaliptos seria mais difícil do que vencer o adversário que jogava em casa.

 

Apesar de enfrentarmos um time que se propôs a fincar-se diante de sua área e de lá não sair, com o objetivo de não levar gols, o toque de bola do Grêmio era envolvente a ponto de encontrar espaço para jogar.

 

Com a área congestionada, preferimos arriscar de fora e tivemos sucesso nos pés de Ramiro, aos 8 minutos de partida. Aliás, no pé esquerdo de Ramiro, o que não é comum ao meio-campista destro do Grêmio que tem revelado um excelente chute, como já vimos em algumas cobranças de falta, nos últimos jogos.

 

Barba feita, fomos em busca do segundo gol que veio dois minutos depois. A fórmula foi a mesma. Ou quase. Troca de passe veloz e precisa. Deslocamento de jogadores de um lado e de outro. Jael recebeu de Luan na esquerda e ao tentar devolver a bola foi desviada na mão do marcador. Luan cobrou bem o pênalti.

 

Renato chegou a pedir serviço completo ainda no primeiro tempo. Gato escaldado tem medo de água quente, costumava dizer seu Alecir, barbeiro que me atendia nos tempos em que morei em Porto Alegre. Melhor matar o adversário quando ele ainda está tonto do que deixá-lo ir para o vestiário, se reorganizar e reagir. Não foi atendido, mas contou com Marcelo Grohe que mais uma vez fez das suas para impedir qualquer reação: que baita goleiro, heim seu Alecir?!?

 

Fomos para o vestiário com barba e cabelo feitos. E não demorou muito para aparar o bigode, também. Aos 12 do segundo tempo, após nova troca de passe bem elaborada, Arthur recebeu de Everton de frente para o gol. Havia dois marcadores em cima dele, então com a elegância que lhe é comum, Arthur puxou a bola para trás, deixou os dois zagueiros abraçados  e com o mesmo pé que fez o corte completou o serviço: 3 a 0.

 

Restou para a segunda partida, na Arena, quarta-feira à noite, apenas o banho de “aqua velva – aquele toque invisível de distinção que todos notam”, como se lia na publicidade antiga desta que foi das mais famosas águas pós-barba que já conhecemos.