Dez Por Cento Mais: Matheus Rotta explica como prevenir o câncer colorretal

“Quanto mais cedo eu fizer o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.”

O câncer colorretal pode crescer sem produzir sintomas e, quando descoberto no estágio inicial, apresenta até 90% de possibilidade de cura. A doença, que atinge o intestino grosso e o reto, tem aparecido em pessoas cada vez mais jovens, segundo o médico coloproctologista Carlos Matheus Rotta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce foram temas de entrevista no Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

O médico explicou que o câncer se desenvolve a partir de uma alteração nas células, que passam a crescer de maneira desordenada. No caso do câncer colorretal, fatores relacionados à alimentação e ao estilo de vida podem contribuir para o aumento do risco.

“Na fase inicial do câncer colorretal, ele é curável. Isso que é o mais importante. Se nós pegarmos na fase inicial, nós chegamos a ter 90% de cura”, afirmou.

De acordo com Rotta, a incidência da doença é maior a partir dos 50 anos, mas a idade recomendada para iniciar a investigação vem sendo reduzida. Ele defendeu que pessoas a partir dos 45 anos conversem com um médico sobre o rastreamento, principalmente quando existem casos de câncer na família.

Uma das formas de rastreamento é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. O teste consegue identificar pequenos sangramentos que não são percebidos a olho nu.

Um resultado positivo não significa que a pessoa esteja com câncer. Indica, porém, que existe um sangramento e que a causa precisa ser investigada. A partir desse resultado, o paciente pode ser encaminhado a um coloproctologista ou cirurgião do aparelho digestivo. A colonoscopia é o principal exame para observar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos.

Colonoscopia também previne a doença

A maioria dos casos de câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos, pequenas formações que surgem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns precisam ser retirados e analisados.

Segundo Carlos Matheus Rotta, um pólipo com potencial de malignidade pode levar pelo menos cinco anos para se transformar em câncer. Esse intervalo oferece uma oportunidade para identificar e retirar a lesão antes que a doença se desenvolva.

“Que melhor tratamento para o câncer do que você tirar a chance de ser? Não existe. Então, a colonoscopia é feita para isso”, disse.

A frequência com que o exame deve ser repetido varia de pessoa para pessoa. Depende do tipo e da quantidade de pólipos encontrados, do histórico familiar e do intervalo em que novas lesões aparecem.

O médico também abordou o medo da colonoscopia. Ele explicou que o preparo intestinal, necessário para eliminar as fezes e permitir a visualização da parede do intestino, costuma causar mais incômodo do que o exame.

“Se não sair tudo, pode ser que bem no local onde ficou um pouco de fezes ali está o tumor e você não vê”, alertou.

A presença de sangue nas fezes é um dos principais sinais de alerta. Rotta ressaltou que muitas pessoas atribuem o sangramento à hemorroida e adiam a procura por atendimento médico.

“Tirar isso da cabeça que só hemorroida sangra. Sangrou, o médico tem que pensar primeiro num câncer”, afirmou.

Outro sintoma é a sensação persistente de que a evacuação não foi completa, mesmo depois de a pessoa sair do banheiro. Esse quadro é conhecido como tenesmo. Fezes mais finas também merecem atenção, pois podem indicar uma redução do espaço interno do intestino.

Mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisam ser investigadas. Uma pessoa pode evacuar mais de uma vez por dia ou passar dois ou três dias sem ir ao banheiro sem que isso represente uma doença. O sinal de alerta aparece quando o ritmo habitual se altera sem uma explicação conhecida.

“Todo mundo um dia teve diarreia, um dia ficou preso. Então, são sintomas que são normais, mas, se persistentes, não são”, explicou.

Emagrecimento sem causa aparente e anemia sem origem identificada também podem estar relacionados ao câncer colorretal.

Histórico familiar exige atenção antecipada

Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal devem iniciar o acompanhamento mais cedo. O médico citou ainda a relação com históricos familiares de câncer de mama e de útero.

Pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, também precisam de acompanhamento médico regular.

O medo do diagnóstico, segundo Rotta, pode levar algumas pessoas a ignorar os sinais. Essa demora reduz as possibilidades de tratamento.

“A melhor coisa é vir aqui e eu falar: ‘Não é nada’”, afirmou. Nos estágios mais avançados, as possibilidades de cura diminuem, embora o tratamento ainda possa beneficiar parte dos pacientes.

O médico também fez um alerta sobre o abandono do tratamento indicado em favor de terapias alternativas. Para ele, práticas complementares não devem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou qualquer outra conduta definida pela equipe médica.

Alimentação, atividade física e rotina intestinal

A prevenção também passa pelo estilo de vida. Rotta recomendou uma alimentação com frutas, verduras, legumes, grãos e produtos integrais. Esses alimentos fornecem fibras, que ajudam a formar o bolo fecal e facilitam o funcionamento do intestino.

“A laranja não se chupa, se come. Se você chupar, você não ingere fibra nenhuma”, exemplificou. Segundo ele, a parte branca da fruta e as cascas comestíveis são fontes de fibras.

O médico sugeriu variar os alimentos para que a mudança possa ser mantida. Em vez de concentrar a dieta em uma única fruta, a pessoa pode alternar frutas, verduras, legumes e grãos.

“A alimentação saudável está mais na feira que no supermercado. Lembre-se disso”, disse.

O consumo de carnes processadas, como salsicha, presunto, salame e mortadela, deve ser reduzido. Rotta também recomendou evitar o cigarro, o excesso de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.

A atividade física não depende necessariamente de uma academia. “Uma caminhada diária de 20 minutos já é o suficiente para o intestino funcionar”, afirmou.

Criar um horário para ir ao banheiro, de preferência depois de uma refeição, também pode ajudar. Quando a comida chega ao estômago, o organismo produz um estímulo para o funcionamento do intestino. Respeitar essa vontade e evitar segurar a evacuação contribui para estabelecer uma rotina intestinal.

Observar as fezes faz parte desse cuidado. Sangue, alterações persistentes no formato, na consistência ou na frequência devem ser levados ao médico.

“Mais importante que tudo para o câncer de colo é informação. Você sabendo, você procura e nós vamos diminuir as mortes por câncer de colo”, concluiu.

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Dez Por Cento Mais: Gabi Roncatti fala do poder transformador do riso nos hospitais

Foto Divulgação


“O hospital é um palco pouco iluminado, mas grandiosamente iluminado pelo resultado que ele dá.”

Gabi Roncatti

Pode um nariz azul abrir portas que uma expressão séria jamais conseguiria? Para Gabi Roncati, atriz, humorista e fundadora do projeto Humor Riso, essa é uma certeza construída em anos de trabalho em hospitais, onde a arte se transforma em companhia, escuta e cuidado. Gabi leva o riso como terapia a pacientes em situação de fragilidade, transformando ambientes marcados pela dor em espaços de acolhimento. Essa experiência foi o centro da conversa com Abigail Costa no programa Dez Por Cento Mais.

Nariz azul, escuta ativa e um show particular

Formada em risoterapia, Gabi desenvolveu um modo próprio de atuação nos corredores hospitalares. Tudo começa com o respeito: “A gente sempre vai pedir licença para entrar no quarto. Se o paciente disser não, a gente agradece e vai embora. Isso devolve a ele o direito de dizer o que quer.” É o primeiro passo de uma abordagem sensível, pensada em cada detalhe — da maquiagem suave ao nariz azul — para não assustar, mas conectar.

A escuta ativa, mais do que o riso em si, é um dos pilares do trabalho. “Tem dias em que a pessoa só precisa falar. O desabafo já é um alívio enorme. E quando você vê, já está batendo um papo muito mais risonho do que no começo.” Gabi entende que, antes de provocar uma gargalhada, é preciso se fazer presente: “A presença ativa também cura.”

Cada encontro é único. Não há roteiro. “O riso é singular, é cultural. O que funciona com um não funciona com o outro.” É por isso que Gabi prefere dizer que sua metodologia é intuitiva, alimentada por conhecimentos em psicologia, neurociência, arte e espiritualidade. “Eu testo tudo em mim antes de testar nos outros. Acordar sorrindo muda o seu dia. Eu garanto.”

Felicidade é treino

Segundo Gabi, o riso é uma musculação da alma. “Você precisa praticar. Ele pode ser provocado, mesmo sem estímulo externo. Seu cérebro não distingue se é uma risada genuína ou forçada — os benefícios são os mesmos.” E completa: “Se você escolher encarar seus problemas com mau humor, seu dia vai ser insuportável. Se encarar com bom humor, ele vai ser muito mais leve.”

Essa filosofia a acompanha mesmo diante dos momentos mais difíceis. Como quando visitou uma menina em estado terminal que, com esforço, sentou na cama e sorriu. “A mãe dela chorava, emocionada por ver a filha brincar mais uma vez. Isso me marcou profundamente. Às vezes, o que a gente faz ali é só permitir que o último sorriso aconteça.”

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O Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.

Dez Por Cento Mais: “Precisamos integrar o velho e o novo”, diz Fábio Betti sobre o futuro do trabalho e o papel das gerações


“O trabalho é uma das maneiras de mantermos nossa utilidade na vida, mas não a única.”

Fábio Betti, Age-Free.World

O mercado de trabalho não quer mais saber de fidelidade cega, nem valoriza currículos marcados por longas permanências em um mesmo lugar. Enquanto os mais jovens pulam de emprego em emprego em busca de sentido e equilíbrio, líderes experientes questionam se ainda cabe a eles atuar em um modelo que exige energia de super-herói e uma dedicação que sacrifica a vida pessoal. Esse movimento de transformação — que atinge todas as gerações — foi tema da entrevista com Fábio Betti, que está à frente da age-free.world, no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa.

Entre gerações: rupturas e aprendizados

Para Betti, que também atua na Corall Consultoria, “envelhecer no mercado não deveria ser sinônimo de se tornar descartável”. Ele alerta que muitas empresas continuam presas a parâmetros que exigem velocidade e entrega constante, ignorando a experiência acumulada ao longo dos anos. “Muitos líderes chegam aos 55, 60 anos e dizem: ‘Eu não aguento mais’. Não porque falte energia, mas porque não faz mais sentido atuar em um ambiente desumanizador”, afirma.

A busca por um trabalho com propósito também não é exclusividade da nova geração. Para os mais velhos, surge a necessidade de se reinventar. Segundo Betti, mais de 40% das novas empresas no Brasil em 2019 foram abertas por pessoas com mais de 45 anos, mostrando que empreender também é uma alternativa para quem deseja continuar contribuindo, mas em outro formato. “A sensação de inutilidade adoece. Encontrar novas formas de se sentir útil é fundamental para a saúde mental”, destaca.

As novas gerações, por sua vez, querem clareza. “O jovem quer uma relação mais pragmática: ele quer saber como crescer, quanto vai ganhar e o que precisa fazer para chegar lá. E muitos líderes não sabem conversar sobre isso porque construíram suas carreiras em um modelo que pedia sacrifício absoluto”, pontua Betti.

Essa convivência entre cinco gerações no mesmo ambiente — boomers, X, Y, Z e alfa — intensifica os choques e, ao mesmo tempo, abre espaço para conversas importantes. “Precisamos integrar o velho e o novo, porque ambos têm valor. A evolução não é destruir o modelo anterior, mas entender o que manter e o que transformar”, explica.

O humano versus a máquina

Betti também observa que o avanço da inteligência artificial escancara a crise do trabalho automatizado. “Se o trabalho que fazemos pode ser substituído por uma máquina, o que resta de humano?”, questiona. Ele defende que a reflexão sobre o sentido do trabalho é urgente, já que o modelo atual, centrado em controle e metas incessantes, está “sobrevivendo por aparelhos”.

Para ele, o papel dos líderes deveria incluir cuidar das pessoas de forma integrada, não apenas fora do ambiente corporativo. “Vejo líderes que correm maratonas e falam sobre autocuidado, mas dentro das organizações continuam reproduzindo discursos de cobrança e desconfiança. Como integrar essas duas vidas?”, provoca.

No fim, a mudança depende de disponibilidade para ouvir e de coragem para criar um ambiente em que todos — jovens ou veteranos — possam pertencer e contribuir de maneira autêntica. “O grande desafio é lembrar que ninguém quer estar em um lugar onde a desconfiança é a base”, conclui.

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Dez Por Cento Mais: abandonar o que não tem sentido na vida

Foto de Pixabay

Buscar sentido na vida é um dilema comum a todos nós. Para ajudar nessa reflexão necessária, a psicóloga Vanessa Maichin mergulhou no conceito de intencionalidade da fenomenologia existencial e discutiu como encontramos significado em nossas vidas. Ela foi entrevistada pelo programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, no YouTube, e que passará a fazer parte do conteúdo deste blog.

Segundo a fenomenologia existencial, toda consciência é direcionada a algo. Vanessa aponta que a chave para descobrir o sentido é estarmos conectados conosco. Isso se contrapõe à ideia popular de “deixar a vida nos levar”, como sugere a canção de Zeca Pagodinho.

A vida no piloto automático e a busca por sentido

O grande perigo que Vanessa destaca é a facilidade com que caímos no modo “piloto automático”. Nesse estado, negligenciamos nossos verdadeiros desejos e sonhos, movendo-nos sem uma direção clara. 

“Muitos de nós vivem sem pausar para entender o que realmente ressoa em nosso íntimo”.

Uma distinção intrigante feita durante a conversa foi entre ‘significado’ e ‘sentido’. O significado é a interpretação que damos às experiências, enquanto o sentido é a direção que tomamos com base nessa interpretação. Vanessa reforça que, para encontrar o sentido, é vital se conectar com sentimentos e intuições.

Ressignificar: a arte de redirecionar nossa vida

Parte essencial da discussão centrou-se na capacidade de ressignificar. Muitas vezes, somos aprisionados por crenças antiquadas, passadas de geração em geração. Contudo, Vanessa afirma que temos o poder de redefinir e encontrar significados autênticos, que ressoam com nossa verdade interior.

Apesar de admitir que abandonar velhas crenças pode gerar desconforto e angústia, Vanessa acredita que o resultado é uma vida mais genuína e recompensadora.

O chamado à autenticidade

O diálogo com Vanessa Maichin nos lembra da necessidade de viver com propósito e autenticidade. Em um mundo onde muitas vezes nos sentimos perdidos, é reconfortante saber que temos a capacidade de encontrar – e talvez até criar – o sentido em nossas vidas. A mensagem final? Todos nós, no fundo, sabemos o que realmente faz sentido. Precisamos apenas ter a coragem de buscar e seguir esse chamado.

Participe da conversa e descubra mais sobre a busca de sentido. E não esqueça de acompanhar as entrevistas no programa “Dez Por Cento Mais” que você assiste, ao vivo, às quartas-feiras, oito da noite, no YouTube:

Hoje o tempo voa, amore!

Por Abigal Costa

@abigailcosta

Foto de Isabella Mendes

Quantos papeis você já interpretou na vida desde o seu nascimento? Quem foi você nesses anos todos? 

Um ou vários personagens?

Se às vezes você pensa “quando eu era criança agia de tal modo”, ou “na adolescência gostava de certas músicas”, ou, ainda, “agora como adulta tenho mais obrigações”, de certa maneira está reproduzindo a ideia de  William Shakespeare que em ‘As you like it’ refere-se as sete idades do homem. Na peça que foi publicada em português com o título “Como gostais”, ele se refere ao mundo como um grande palco e a todos nós como atores que têm hora certa para entrar e sair de cena em sua trajetória de vida, começando pela criança. 

Shakespeare me faz pensar em quantos de nós paramos em um determinado personagem e dele resistimos em sair. Quantos não repetimos a mesma cena, a mesma fala e de forma mecânica? É como se os anos passassem apenas no calendário e não para o sujeito.

Se é certo que nós nos transformamos a cada acontecimento, como caber nas mesmas roupas, nas mesmas ideias, nos mesmos hábitos de criança quando a gente já tem CPF, carteira de habilitação e, muitas vezes, já trocamos a certidão de nascimento pela de casamento. Já funcionamos no modo “Pais” e esquecemos de trocar o figurino.

Dia desses conversando com uma amiga falei da morte como sequência natural para que o palco da vida seja ocupado por novos talentos. Até agora não sei qual a interpretação dela a respeito. Depois da minha fala  tão eloquente fiquei até sem graça em perguntar: e aí o que você pensa a respeito disso? 

De volta a troca natural de papeis e a relação com Shakespeare. O que fica para gente é a necessidade de viver cada personagem como ele é, único e efêmero, embora alguns pensem ao contrário. É saber saborear as transições como rito de passagem para o novo, não como perdas. 

Em “As you like it”, Shakespeare dá luz a reflexão da passagem do tempo e da urgência em aproveitarmos esse tempo vivendo em seus personagens adequados, justos. 

“Agora são dez horas e você pode ver como o mundo oscila; há uma hora em nove, dentro de uma hora serão onze; a cada hora que passa nós amadurecemos; a cada hora apodrecemos; nisso há toda uma história.”

Vamos lá! Pra que você não saia dessa conversa pensando que “nossa, a Big pegou pesado na relação tempo-vida”, vamos trazer o poeta Lulu Santos pra deixar o final mais leve:

“… Hoje o tempo voa, amor 

Escorre pelas mãos

Mesmo sem se sentir

Não há tempo que volte, amor

Vamos viver tudo que há pra viver

Vamos nos permitir”. 

Em outras palavras, Lulu e Bardo dizem a mesma coisa: tua vida está passando! 

Quantos personagens mesmo você ja interpretou até aqui?

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein e especialização na Escola Paulista de Psicodrama, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Existir significa escolher

Por Abigail Costa

@abigailcosta

Estou naquele momento em que começo a pensar no rumo da minha vida. Estou perto de deixar a carreira de estudante para virar “gente grande” — como se grande já não fosse desde muito tempo — e colocar em prática o que aprendi nos últimos anos. 

Há quatro anos, quando entrei para o curso de psicologia foi só uma maneira que encontrei para dar um sentido para a minha vida, de certa forma de voltar a me importar comigo mesmo. Como? Lendo, escrevendo, fazendo novos relacionamentos e ganhando um tiquinho a mais de ansiedade. Hoje, mais amadurecida, percebo como tendo sido um fato normal na minha história.

Nesse tempo todo, ouvi muitas pessoas me perguntando: “e aí vai trabalhar depois?”. Pergunta que não me deixava sem resposta. E nunca escondi minhas intenções atrás de palavras objetivas como: “veja bem, quero atender clientes XYZ sob a abordagem XPTO, num consultório localizado na zona tal”. Nada disso!. 

Não foi preciso pensar muito. Era coisa decidida comigo mesmo. A resposta vinha de bate pronto: me interessa o caminho, a jornada, as pessoas que estou encontrando pela frente e ainda, o que uma graduação está me acrescentando aos 56, 57, 58, 59 anos de idade. 

Assim fui passando pelos semestres e sigo neles aprendendo, me encantando e me desafiando. Até que chega os primeiros dias do último ano e me vem à cabeça uma frase dita por um professor no inocente propósito de agradar: ”olhem para vocês, já perceberam que estão mais perto do fim? “. Professor eu não precisava disso! 

Não é que agora dei pra fazer contas ?!? Último ano, mais dois semestres de quatro meses cada um —  sim, tirando férias e afins dá isso —, mais alguns estágios supervisionados e chegarei ao fim. E lá vem nova pergunta: “está flertando com alguma abordagem psicológica?”. 

Quem pergunta sempre espera algo objetivo —- foi o que aprendi em décadas de jornalismo realizado. Quer algo como “vou seguir a TCC — Terapia Cognitivo Comportamental”, “quero a Humanista numa linha mais Existencialista”,  ou “veja bem, a psicanálise é uma quase dezena de outras tantas vertentes de teorias e técnicas aplicadas nas psicoterapias”. Diante da pergunta, fato é que de repente soltei uma fala qualquer só para me livrar da questão e me enfiar em questionamentos próprios que até então não faziam parte da minha rotina de pensamentos.

Qual o sentido que vou dar para a minha vida daqui a pouco quando eu não estiver mais no meu papel de estudante? Sei que logo mais entro num capítulo de escolhas, e estas provavelmente me trarão angústia. Para isso já comecei fazendo amizades com aqueles que me darão uma força com suas obras. Caso do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855): ele diz que escolher implica em renunciar, e que ser livre é vivenciar essa tensão.  

Kierkegaard #tamujunto !

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando a “circunferência abdominal 57” pesa na vida dos outros

Por Abigail Costa

@abigailcosta

A gente não nasce sabendo. Fato! Mas com o passar do tempo tem a obrigação de aprender e tentar colocar em prática. Pois bem, partindo do pensamento lógico, ao longo desse aprendizado tomamos consciência de que nem tudo são flores e cabe a nós dividirmos os espinhos com quem vai nos ajudar a manejá-los para que não nos machuque tanto. 

Outro dia, vi um comentário no Instagram de alguém enfurecida porque uma outra dita cuja — alguém com milhões de seguidores; sim, ninguém chuta cachorro morto — postou algo assim:

Legenda: “Amanheci feliz!”

Texto: “Fazendo o que mais gosto”

Foto: algumas míseras torradas e a moça trabalhando.

A “comentarista” enfurecida gritava em letras garrafais: 

“COMO PODE? JÁ ESTOU CANSADA DESSE POVO COM ESSE POSITIVISMO TÓXICO! COM ESSA COISA DE ACORDAR ÀS 5 DA MANHÃ, TREINO PAGO (FEITO), FELICIDADE (CHECK) E BLÁ-BLÁ-BLÁ”

Pensando cá com os meus quilos a mais, o que deve ter incomodado no “reality virtual” da influenciadora foi a circunferência abdominal marcando 57 centímetros que aparecia na imagem.

Coloquei-me a pensar. Primeiro, por que não acreditar que a foto e o texto da influenciadora  podem ser verdadeiros. Segundo, e se não for? Por que esse destempero diante de algo que se imagina falso?

Será que para outras pessoas esse post não pode ser as doses de otimismo  e inspiração que estão faltando, do auto-positivismo? Se ela consegue por que eu não? 

Será que a dona da “circunferência abdominal 57” não é uma colecionadora de momentos? E esses momentos servem para realimentá-la quando lhe faltam sorrisos, desejos, brindes e afins?

Será que ela não está sendo ela mesma ao querer levar o melhor para quem  visita a página de olho na vida dos outros? 

Sempre me questiono: se a vida do outro me incomoda, sendo esta vida falsa ou real, é porque já nasci, cresci, estou envelhecendo e não aprendi nada. Para esses casos, que sirva de consolo: enquanto há vida, há esperança (Eclesiastes 9;04)! 

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Se você deixar a tristeza invade até o paraíso

Por Abigail Costa

@abigailcosta

Foto de Masha Raymers

O que é a tristeza a não ser a vontade de não ser e não estar; o desejo de habitar qualquer momento que não seja o presente, de preferência como uma sombra. Num passado nem tão passado assim, vi chegar o que mais desejava na vida: tempo, sem compromisso, sem hora marcada — quase que uma dádiva! 

O tempo veio seguido da aposentadoria, o que não é motivo para reclamação. Só que … (essas duas palavrinhas quase que já anulam o parágrafo). Outras situações apareceram sem serem convocadas. A intenção era a de cuidar mais das crianças, sem considerar que elas já tinham crescido. De viajar no meio da semana, esquecendo-me que todos os demais ainda não estavam desempregados, ops!, aposentados. Filhos, marido, irmãs, amigos, todos gerindo suas vidas e eu sem saber o que fazer da minha com todo o tempo adquirido.

Eu que passei boa parte da vida cuidando das pessoas — e aqui faço a defesa delas, nunca me pediram –; eu que sempre me enfiava de alguma maneira nesse negócio de cuidar da “vida dos outros” para aliviar a carga seja lá de quem fosse (do porteiro, do entrevistado, do amigo), esqueci de colocar no calendário a chegada da menopausa. Justo eu que conversava com médicos diariamente e falava sobre a saúde da mulher, dia sim dia não, começo a me sentir meio “acho que parece que não sei”.

Devo ter desacelerado muito rapidamente do trabalho, pensei, procurando uma justificativa para a tristeza que dava um jeitinho de entrelaçar os dedos com os meus. Os meninos já estão grandes e saindo de casa, é a síndrome do ninho vazio (tenho horror a esse termo, Freud explica!) me disse um profissional da área da saúde. O marido está trabalhando demais, será que isso não te incomoda, sugeriu uma conhecida.

O curioso, avaliando depois de algum tempo, é que todas as possibilidades para detectar de onde vinha e por que vinha essa tristeza faziam sentido. Eu entendia os fatos racionalmente, só não compreendia a dor da tristeza, o que estava para além da minha inteligência.


Por um longo período, tratei a tristeza com remédios para depressão e fui tocando a vida com todo o tempo para fazer a “colher de pau e bordar o cabo”, ou seja, fazer tudo que eu desejava fazer com o tempo. Pulei do “nossa já é essa hora?” para o “ainda é essa hora?”.


Conversando com uma amiga médica, ela pediu para olhar os meus exames de contagem hormonal (hoje pra mim parece tão óbvio). Meus hormônios tinham me abandonado. Sério!  O estrogênio, a progesterona e a testosterona  não apareciam na quantidade mínima no meu organismo. Foi quandome dei conta que, além da ausência dos filhos, da chegada da aposentadoria, e de todas as razões possíveis para estar “mal” e não saber a causa, deveria ter colocado no topo da pirâmide, a menopausa e todos os seus sintomas.

Hoje, quando ouço uma mulher falando que está se sentindo triste, eu pergunto: quantos anos você tem? Esses sintomas tem relação com os seus hormônios? Seu médico conversou isso com você?


Tanto quanto procurar um profissional de saúde, é importante o autoconhecimento e entender as nossas fases e o que elas nos trazem. Faz-se necessário a gente cuidar da gente e isso não implica  ter todo o tempo do mundo. Só precisamos de  um pouco desse tempo para prestar atenção no que está e no que vai nos acontecer.


Durante algum tempo a tristeza invadiu até o meu paraíso; hoje tenho noção que foi quando me faltaram hormônios e me sobraram demônios!

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa “Dez Por Cento Mais”, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Pensamento à toa

Abigail Costa

@abigailcosta

“O pensamento parece uma coisa à toa

 mas como é que a gente voa

 quando começa a pensar?”

Lupicínio Rodrigues

Quando a música de Lupicinio, cantada por Caetano, começou a tocar na Rádio Nacional, no começo dos anos de 1970, eu era uma menina que acreditava no que diziam as canções e fascinada pelas palavras de felicidade. Viajei nos pensamentos! Lembro-me de ter ido parar numa loja de brinquedos enorme na região da Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiro, em São Paulo. Nunca havia conhecido a loja pessoalmente mas de tanto ouvir histórias das meninas do meu bairro, construí uma imagem e passeei pelos corredores até chegar a seção de bonecas. Lá peguei uma “Dorminhoca”, aquela boneca molenga de cor lilás. Linda de viver!

Também incentivada pela letra da música, comprei um saco bem grande, recheado de coisas quase proibitivas em casa, doces antes das refeições — tinha maria-mole, uma variedade de chocolates e um monte de balas Juquinha, sabor frutas de mentirinha. Ao contrário do que minha mãe jurava que aconteceria, nem uma coisa nem outra foi verdade nos meus pensamentos: não perdia o apetite do sagrado arroz e feijão mais bife, muito menos que sentia dor de barriga.

Junto com o meu crescimento, os pensamentos também perderam a inocência, ganharam maioridade, maturidade, ficaram mais chatos,  desconfortáveis e passaram a voar mais perigosamente.

Num determinado momento, tive que confrontar as palavras da música quando fiquei sabendo que certos pensamentos são bem-vindos enquanto outros, Ave Maria!

Comecei a ouvir que pensamentos não são ações. Como assim? E as minhas histórias? A visita a loja, a boneca Dorminhoca, o saco de guloseimas?

Foi estudando que aprendi que certos pensamentos deixam a gente doente, que podem ser negativos, acelerados; e pra voar nos bons pensamentos é preciso me certificar que estou com os dois pés fincados nos chão. 

A simplicidade de só pensar é objeto de estudo.

Fico eu aqui pensando no Lupicínio, no Caetano…

“felicidade foi-se embora

 e a saudade no meu peito inda mora, 

porque eu sei que a falsidade não demora.”

Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

A difícil arte de não ser perfeita

Abigail Costa

@abigailcosta

Foto de Ramakant Sharda

Esse assunto vira e mexe está nos meus pensamentos, nas sessões de terapia, nas conversas com os amigos mais pacientes. Ninguém nunca de disse de forma direta: “você tem que ser ótima para ser aceita!”. Mas eu, sim, já disse para mim mesma várias vezes. Não com todas essas palavras “VOCÊ TEM QUE SER ÓTIMA” — talvez com quase todas.

Percebi  essa autopressão quando resolvi voltar à faculdade para um MBA,  anos atrás. Era pra ser um curso leve, gostoso, diferente: Gestão do Luxo, com duração de dois anos. Em três meses, os primeiros sintomas apareceram de forma tão dura e doída que fui parar no pronto-socorro. As dores no estômago eram persistentes tanto quanto a vontade em ser a melhor aluna do curso. 

Depois de muitas conversas com o Gastro e alguns dias de internação no hospital, me lembro do Dr Arthur Ricca ter sentado ao meu lado na cama e dito” “você não tem nada além de uma gastrite xexelenta; para de querer ser perfeita e vai cuidar da sua cabeça!”. 1×0 para o médico. Não entendi nada, mas fiquei feliz em não ter algo grave. Terminei o MBA com nota máxima e muitas cartelas de ansiolíticos.

Passados anos desse episódio, volto outra vez às cadeiras da faculdade para uma segunda graduação. Mal sabia que retornaria ao inferno já no primeiro mês de estudo.

São cinco anos para o curso de Psicologia, e logo percebi que novos sintomas estavam se instalando — insônia, aperto no peito e um medo terrível de ser desmascarada. Do quê? De não ser boa o suficiente!

Por causa dos meus cabelos grisalhos, já no primeiro dia de aula, de passagem no corredor, alguém me perguntou, você é professora? Bastou para ascender todas as luzes do “preciso ser perfeita”. Todas as disciplinas eram minuciosamente transcritas para o caderno (sim, eu gravava as aulas), além das anotações em sala de aula — inclusive, os suspiros dos professores… vai que eles sinalizavam alguma palavra não dita.

Me recordo de ter terminado um dia com as costas travadas. Fui parar na maca de uma massagista brilhante que não precisou de muita conversa para que ela me perguntasse: “por que você quer competir com você mesma? Qual a necessidade disso?”.

De novo tinha consciência do abismo em que eu despencava em queda livre mas não tinha a mínima ideia de como acessar o manual do paraquedas e voltar ao curso normal do voo.

Veio o isolamento social e o que estava ruim, degringolou. Pensava e dizia: “Não preciso provar nada pra ninguém!”. Ok! Mas ninguém me cobrava nada. O problema é que não conseguia ser eu mesma, tinha que ser a melhor, tinha de usar um personagem e personagem representa, é cansativo. Nesse meio tempo, conversava com amigos mais próximos ou não, com irmãs e terapeutas e descobri que essa necessidade de perfeição não vinha só com os  estudos, era no trabalho, em casa, na vida!

Pra começar, precisei de ajuda para reconhecer essa tarefa impossível de querer estar sempre em primeiro, da necessidade em sempre ser a primeira. Verdade que a parte mais fácil é reconhecer, aceitar — na prática tem sido um dia de cada vez. E confesso que embora seja difícil chega a ser engraçado. 

Agora, por exemplo, faço uma pós-graduação em Gerontologia (a ciência que estuda o envelhecimento). Não vou esconder que ainda transcrevo minhas aulas para o caderno. Estou melhorando, já não gravo mais! Pois bem, em um daqueles testes odiosos de “assinale a opção incorreta”, não prestei atenção e errei uma questão.  Fiquei sem a nota 10. Quando percebi ali o gatilho para desencadear um sofrimento e acabar com a minha tarde de férias, falei em voz alta (eu tenho essa mania): “Big, por favor, deixa disso, é só uma avaliação! Isso é perfeccionismo!”. 

Ao falar comigo mesmo, voltei para o meu “só por hoje”.  Sou boa! Só por hoje, eu não preciso ser perfeita!

E você? É perfeita? 

Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.