Dez Por Cento Mais: Mariza Tavares defende prazer sem prazo de validade

“Assim como a longevidade, a sexualidade também é uma construção.”

O envelhecimento transforma o corpo e o desejo, mas não encerra a possibilidade de prazer. A falta de diálogo, o preconceito contra pessoas mais velhas e o desconhecimento sobre a própria sexualidade ajudam a alimentar a ideia de que a vida sexual termina depois dos 60 anos. A relação entre longevidade, intimidade e bem-estar foi tema da entrevista da jornalista e escritora Mariza Tavares ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no You Tube.

Autora do livro Sexo 60+: prazer sem data de validade, Mariza organizou a obra em 60 verbetes. A estrutura permite que cada pessoa procure diretamente os assuntos relacionados às próprias dúvidas e experiências.

“Não é porque elas envelheceram que elas se transformaram em outra coisa”, afirmou. A autora reconhece as mudanças provocadas pela idade, sem tratá-las como uma sentença: “O corpo muda, né? O desejo muda, mas tem muita alternativa para a gente trabalhar.”

Segundo Mariza, a proposta do livro é estimular a reflexão e abrir espaço para conversas ainda evitadas por muitas famílias, casais e profissionais de saúde.

“Isso é só um ponto de partida. Para a gente pensar sobre sexo, falar sobre ele, descobrir”, disse. “É um convite: Gente, vamos falar sobre isso porque é importante e faz parte da nossa saúde física e mental.”

Mulheres enfrentam mais preconceito

O silêncio sobre a sexualidade na velhice não atinge homens e mulheres da mesma maneira. Para Mariza, o preconceito de idade recai primeiro sobre as mulheres, especialmente a partir da menopausa.

“Nós, mulheres, somos o primeiro grupo a sofrer o etarismo”, afirmou. “É a mulher entrando na menopausa … aquela que é descartada, como se dissesse: ‘Você já não faz mais parte do jogo’.”

Esse processo também está relacionado à maneira como muitas mulheres foram ensinadas a avaliar o próprio corpo. Em vez de construírem uma percepção própria, passam a depender da aprovação externa.

“As mulheres crescem percebendo e se entendendo pelo juízo alheio”, disse Mariza. “Ela não consegue gostar de si mesma se não tiver uma chancela externa.”

Com o envelhecimento, a distância entre a mulher e o próprio corpo pode aumentar. “Você vai se afastando do espelho, você vai se afastando do próprio corpo”, afirmou. Esse afastamento interfere na autoestima, no desejo e na disposição para viver novas experiências.

Mariza também chama a atenção para mulheres que passaram décadas sem conhecer o próprio prazer. Algumas não tiveram parceiros atentos, não exploraram o corpo e viveram relações nas quais o sexo esteve associado mais à obrigação do que ao bem-estar.

“Se você não teve um repertório, não tem um repertório positivo dessa experiência, você vai se desinteressar”, explicou. “E sexo, quanto menos você fizer, parece que menos vontade você tem.

A sexualidade, segundo ela, não depende necessariamente da presença de um parceiro. “A masturbação é considerada uma forma de autocuidado”, afirmou.

O corpo muda, mas continua sendo fonte de prazer

A valorização excessiva da juventude reforça a falsa ideia de que apenas corpos jovens podem despertar desejo ou proporcionar prazer. Para Mariza, é preciso abandonar essa associação.

“Essa sociedade fica endeusando a juventude, como se só aquele corpo perfeito pudesse dar prazer”, disse. “Esse é o teu corpo, a funcionalidade está ali, e você tem que aprender a amá-lo, porque senão você também não vai tratar dele bem.”

A experiência acumulada ao longo da vida pode favorecer o conhecimento sobre desejos, limites e preferências. “Quanto sexo de má qualidade nós tivemos na juventude, porque não conhecíamos tanto o nosso corpo”, observou. “O envelhecimento traz uma experiência sobre o seu prazer, sobre o seu desejo e aí a gente vai jogar fora. Não faz sentido.”

Mariza propõe uma retomada gradual da intimidade, semelhante à volta de uma pessoa sedentária à atividade física.

“A gente tem que pensar sobre isso e começar devagarinho, como se você fosse um sedentário que vai voltar a fazer exercício físico”, afirmou. “Vai testando, vai vendo, vai perdendo aquela inibição.”

Conversar também faz parte da intimidade

A comunicação aparece como elemento central para a manutenção ou a reconstrução da vida sexual. Muitos casais deixam de falar sobre desejo, desconforto, fantasias e mudanças físicas. Aos poucos, o silêncio produz afastamento.

“É conversar porque você não fala. Então, fica maratonando série, mas não se pega, não se aperta”, disse Mariza.

Uma das possibilidades mencionadas pela escritora é reservar um momento para que o casal volte a se perceber. A intenção não é transformar o encontro em obrigação, mas recuperar a sedução e a troca de afeto.

“Você vai se arrumar, você vai lembrar do processo de sedução”, explicou. “Criar uma atmosfera, porque realmente a convivência vai aplainando demais as coisas. Então isso amortece um pouco o desejo.”

A intimidade também não precisa estar limitada à penetração. “O meu prazer vai se intensificar se eu tiver intimidade e me sentir segura com aquela pessoa”, afirmou. “Entre quatro paredes, desde que tenha consentimento, que tenha respeito, que você não vá causar um mal ou uma dor a outra pessoa, tudo é possível.”

Nos relacionamentos marcados por mágoas, agressões verbais e ressentimentos, a reconstrução exige um esforço maior. Em algumas situações, pode ser necessária a ajuda de um terapeuta.

“Eu acho que as pessoas têm que se perguntar: qual é a qualidade da vida que eu quero com o parceiro ou a parceira que eu tenho em casa?”, disse.

Médicos também precisam falar sobre sexo

Mariza critica a ausência de perguntas sobre sexualidade nas consultas médicas de pessoas mais velhas. Segundo ela, muitos profissionais acompanham as mulheres durante o período reprodutivo, mas deixam de abordar o assunto depois da menopausa.

“Que médico ginecologista vai perguntar para sua paciente: ‘Então, como é que está a sua vida sexual? Quantas vezes você transa? Você sente dor?’”, questionou.

Para a escritora, essas perguntas devem fazer parte da avaliação de saúde. O diálogo pode ajudar a identificar dores, desconfortos, incontinência urinária, dificuldades de ereção e outras condições que interferem na qualidade de vida.

Isso tem que fazer parte de uma anamnese, assim como vai pedir exames de sangue e tudo mais”, afirmou. Anamnese é a conversa inicial em que o profissional reúne informações sobre o histórico, os sintomas e os hábitos do paciente.

A falta de comunicação também pode afastar casais quando surgem problemas de ereção. “Tudo passa pela penetração”, observou Mariza ao comentar a maneira como muitos homens aprenderam a compreender a própria sexualidade. “Quando, assim, qualquer relacionamento, o aconchego, a intimidade pode ser construída por diversas maneiras.”

Ao resumir o principal mito que gostaria de desfazer, Mariza reforçou que o corpo permanece disponível para novas formas de intimidade:

“Por favor, não se esqueçam que o seu corpo, ele é amigo do deleite e esse deleite pode se estender indefinidamente.”

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Dez Por Cento Mais: Matheus Rotta explica como prevenir o câncer colorretal

“Quanto mais cedo eu fizer o diagnóstico, maior a possibilidade de cura.”

O câncer colorretal pode crescer sem produzir sintomas e, quando descoberto no estágio inicial, apresenta até 90% de possibilidade de cura. A doença, que atinge o intestino grosso e o reto, tem aparecido em pessoas cada vez mais jovens, segundo o médico coloproctologista Carlos Matheus Rotta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Prevenção, sinais de alerta e diagnóstico precoce foram temas de entrevista no Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

O médico explicou que o câncer se desenvolve a partir de uma alteração nas células, que passam a crescer de maneira desordenada. No caso do câncer colorretal, fatores relacionados à alimentação e ao estilo de vida podem contribuir para o aumento do risco.

“Na fase inicial do câncer colorretal, ele é curável. Isso que é o mais importante. Se nós pegarmos na fase inicial, nós chegamos a ter 90% de cura”, afirmou.

De acordo com Rotta, a incidência da doença é maior a partir dos 50 anos, mas a idade recomendada para iniciar a investigação vem sendo reduzida. Ele defendeu que pessoas a partir dos 45 anos conversem com um médico sobre o rastreamento, principalmente quando existem casos de câncer na família.

Uma das formas de rastreamento é a pesquisa de sangue oculto nas fezes. O teste consegue identificar pequenos sangramentos que não são percebidos a olho nu.

Um resultado positivo não significa que a pessoa esteja com câncer. Indica, porém, que existe um sangramento e que a causa precisa ser investigada. A partir desse resultado, o paciente pode ser encaminhado a um coloproctologista ou cirurgião do aparelho digestivo. A colonoscopia é o principal exame para observar o interior do intestino, identificar lesões e retirar pólipos.

Colonoscopia também previne a doença

A maioria dos casos de câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos, pequenas formações que surgem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns precisam ser retirados e analisados.

Segundo Carlos Matheus Rotta, um pólipo com potencial de malignidade pode levar pelo menos cinco anos para se transformar em câncer. Esse intervalo oferece uma oportunidade para identificar e retirar a lesão antes que a doença se desenvolva.

“Que melhor tratamento para o câncer do que você tirar a chance de ser? Não existe. Então, a colonoscopia é feita para isso”, disse.

A frequência com que o exame deve ser repetido varia de pessoa para pessoa. Depende do tipo e da quantidade de pólipos encontrados, do histórico familiar e do intervalo em que novas lesões aparecem.

O médico também abordou o medo da colonoscopia. Ele explicou que o preparo intestinal, necessário para eliminar as fezes e permitir a visualização da parede do intestino, costuma causar mais incômodo do que o exame.

“Se não sair tudo, pode ser que bem no local onde ficou um pouco de fezes ali está o tumor e você não vê”, alertou.

A presença de sangue nas fezes é um dos principais sinais de alerta. Rotta ressaltou que muitas pessoas atribuem o sangramento à hemorroida e adiam a procura por atendimento médico.

“Tirar isso da cabeça que só hemorroida sangra. Sangrou, o médico tem que pensar primeiro num câncer”, afirmou.

Outro sintoma é a sensação persistente de que a evacuação não foi completa, mesmo depois de a pessoa sair do banheiro. Esse quadro é conhecido como tenesmo. Fezes mais finas também merecem atenção, pois podem indicar uma redução do espaço interno do intestino.

Mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisam ser investigadas. Uma pessoa pode evacuar mais de uma vez por dia ou passar dois ou três dias sem ir ao banheiro sem que isso represente uma doença. O sinal de alerta aparece quando o ritmo habitual se altera sem uma explicação conhecida.

“Todo mundo um dia teve diarreia, um dia ficou preso. Então, são sintomas que são normais, mas, se persistentes, não são”, explicou.

Emagrecimento sem causa aparente e anemia sem origem identificada também podem estar relacionados ao câncer colorretal.

Histórico familiar exige atenção antecipada

Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal devem iniciar o acompanhamento mais cedo. O médico citou ainda a relação com históricos familiares de câncer de mama e de útero.

Pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, também precisam de acompanhamento médico regular.

O medo do diagnóstico, segundo Rotta, pode levar algumas pessoas a ignorar os sinais. Essa demora reduz as possibilidades de tratamento.

“A melhor coisa é vir aqui e eu falar: ‘Não é nada’”, afirmou. Nos estágios mais avançados, as possibilidades de cura diminuem, embora o tratamento ainda possa beneficiar parte dos pacientes.

O médico também fez um alerta sobre o abandono do tratamento indicado em favor de terapias alternativas. Para ele, práticas complementares não devem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou qualquer outra conduta definida pela equipe médica.

Alimentação, atividade física e rotina intestinal

A prevenção também passa pelo estilo de vida. Rotta recomendou uma alimentação com frutas, verduras, legumes, grãos e produtos integrais. Esses alimentos fornecem fibras, que ajudam a formar o bolo fecal e facilitam o funcionamento do intestino.

“A laranja não se chupa, se come. Se você chupar, você não ingere fibra nenhuma”, exemplificou. Segundo ele, a parte branca da fruta e as cascas comestíveis são fontes de fibras.

O médico sugeriu variar os alimentos para que a mudança possa ser mantida. Em vez de concentrar a dieta em uma única fruta, a pessoa pode alternar frutas, verduras, legumes e grãos.

“A alimentação saudável está mais na feira que no supermercado. Lembre-se disso”, disse.

O consumo de carnes processadas, como salsicha, presunto, salame e mortadela, deve ser reduzido. Rotta também recomendou evitar o cigarro, o excesso de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.

A atividade física não depende necessariamente de uma academia. “Uma caminhada diária de 20 minutos já é o suficiente para o intestino funcionar”, afirmou.

Criar um horário para ir ao banheiro, de preferência depois de uma refeição, também pode ajudar. Quando a comida chega ao estômago, o organismo produz um estímulo para o funcionamento do intestino. Respeitar essa vontade e evitar segurar a evacuação contribui para estabelecer uma rotina intestinal.

Observar as fezes faz parte desse cuidado. Sangue, alterações persistentes no formato, na consistência ou na frequência devem ser levados ao médico.

“Mais importante que tudo para o câncer de colo é informação. Você sabendo, você procura e nós vamos diminuir as mortes por câncer de colo”, concluiu.

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Dez Por Cento Mais: Irene Vucovix transforma a dor pelo filho perdido em uma conversa sobre culpa e esperança

“É deixar a culpa e deixar a vergonha de lado. E colocar esse assunto em discussão na sociedade porque é muito importante.”

Durante 19 anos, Irene Vucovix acompanhou à distância a vida do filho, Marcelo, depois de decidir interromper uma convivência marcada pela dependência química, pela violência e pelo medo. Ela só voltaria a vê-lo quando ele morreu, aos 39 anos, vítima de uma overdose. Jornalista e escritora, Irene contou como enfrentou a culpa, o silêncio e um luto iniciado muito antes da morte — assunto de sua entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Marcelo começou a usar drogas por volta dos 12 anos e logo passou da maconha para o crack. Antes disso, alguns comportamentos já preocupavam a família. Ele era agressivo, envolvia-se em brigas e cometia pequenas transgressões, como tirar dinheiro da carteira do avô e levar objetos de casa.

Naquele momento, esses episódios eram vistos como problemas da infância. Anos depois, ao reler avaliações escolares guardadas, Irene percebeu que alguns comportamentos se repetiam.

A família procurou diferentes formas de tratamento. Houve psicólogos, psiquiatras, terapias, internações e clínicas de recuperação. Irene também buscava reportagens sobre dependência química e entrava em contato com famílias que diziam ter encontrado um caminho.

“Eu tentei de tudo que me diziam que podia funcionar, eu tentei”, afirmou.

Cada internação alimentava a expectativa de mudança. Marcelo recuperava o peso, aparentava estar saudável e deixava a família novamente confiante. A recuperação, porém, não se sustentava. Ele abandonava os tratamentos, fugia das clínicas e voltava a usar drogas.

“Todas as vezes você tem essa impressão”, contou Irene, ao recordar o pensamento que se repetia nesses períodos: “Gente, agora, ele tá muito bem.”

Quando o amor convive com o medo

Com o agravamento da dependência, Irene passou a temer o próprio filho. Marcelo tinha 1,93 metro, praticava luta e se tornava agressivo quando era contrariado. Aos 16 ou 17 anos, ela dormia com a porta do quarto trancada e uma cadeira segurando a maçaneta.

Em um dos episódios relatados, o filho apareceu em casa com um pé de maconha e anunciou que faria uma pequena plantação no apartamento. Irene recusou e jogou a planta fora. Quando voltou do trabalho, na véspera do Dia das Mães, encontrou a porta do quarto pichada com a frase: “Que você tenha um péssimo Dia das Mães”. Marcelo também levou a televisão, o videocassete e outros objetos.

A dependência passou a se misturar com prisões, dívidas com traficantes, roubos e falsidade ideológica. Irene pagava terapeutas, advogados e, algumas vezes, traficantes, por temer que o filho fosse morto.

Aos 20 anos, Marcelo recebeu uma avaliação que destruiu parte das esperanças da mãe. Depois de analisar os exames, um profissional disse que ele dificilmente chegaria à vida adulta. Para que o rapaz tivesse alguma possibilidade de assumir as consequências das próprias escolhas, Irene teria de estabelecer limites.

A orientação foi resumida em uma imagem: ela precisaria “virar uma parede”. Dizer não, suportar as tentativas de manipulação e deixar de resolver os problemas criados pelo filho.

“Era para virar uma parede. Então vou virar uma parede”, recordou.

Irene se afastou radicalmente. Não atendia aos telefonemas, não entregava dinheiro e não pagava mais as dívidas. Marcelo tinha 20 anos. Ela só o veria novamente depois de sua morte, aos 39.

“Eu brinco que tinha um não na minha testa”, afirmou.

O afastamento não rompeu o vínculo

A distância física não significou indiferença. A irmã de Irene passou a manter contato com Marcelo e levava notícias à família. Algumas vezes, dizia que ele estava trabalhando, namorando e vivendo no interior de São Paulo. Pouco tempo depois, chegava a informação de que havia sido preso novamente.

A esperança mudava de tamanho. Irene já não esperava que o filho cursasse uma faculdade ou seguisse o futuro imaginado durante a infância. Desejava apenas que ele conseguisse trabalhar, respeitar os outros e levar uma vida que definiu como “minimamente digna”.

Mesmo afastada, procurava saber se ele estava seguro. Quando Marcelo foi preso por envolvimento com uma caminhonete roubada, Irene decidiu não contratar um advogado para tirá-lo da cadeia. Diante da notícia de que ele poderia correr risco de vida, pediu a um jornalista que visitasse o presídio e verificasse a situação.

A contradição foi resumida por ela em uma frase: “Eu larguei, mas não larguei.”

O afastamento também veio acompanhado de culpa e tristeza. Irene escondia a situação dos amigos. Quando perguntavam pelo filho, respondia que ele estava bem e morava no interior. Dentro da família, a dependência química tornou-se um assunto difícil de pronunciar.

“Virou um tabu esse assunto. Um negócio louco, é um silêncio. Ainda hoje, com o livro publicado, a gente tem dificuldade de falar”, disse.

Segundo Irene, a vergonha era mais intensa no início. Com o agravamento dos problemas, ela se sentiu cada vez mais fragilizada e vulnerável. A experiência permaneceu guardada durante anos, mesmo depois da morte do filho, em dezembro de 2017.

Da oficina literária ao livro

A escrita surgiu dois anos depois. Irene participava de uma oficina literária quando leu o conto “Onze filhos”, de Franz Kafka. No dia seguinte, escreveu cerca de 30 linhas sobre a infância de Marcelo. Deu ao texto o título “Um filho” e encerrou a narrativa informando que ele havia morrido por overdose.

O professor considerou o texto apenas um embrião. Irene decidiu, então, contar a história da relação com o filho. O processo exigiu que revisitasse escolhas, medos e lembranças.

“Eu tava meio como espectadora de mim mesma. Tava me escrevendo”, explicou.

A experiência deu origem ao livro O filho perdido. O título foi sugerido pelo editor. Irene resistiu porque considerava a expressão dura. Com o tempo, reconheceu que as palavras sintetizavam sua história: “Eu perdi meu filho.”

Entre as poucas lembranças materiais de Marcelo, ela conserva desenhos, avaliações escolares, fotografias e a cópia da mão do menino feita em uma máquina de xerox na redação do jornal em que trabalhava. Irene costumava levá-lo ao trabalho durante os plantões de sábado.

A escrita não alterou o desfecho, mas mudou a relação da autora com o passado.

“Hoje eu me sinto assim, me sinto em paz”, afirmou. “Eu acho que eu fiz o que foi possível. Não sei se eu fiz o certo, eu não me cobro mais.”

A esperança depois da perda

Durante os anos de afastamento, cada aniversário de Marcelo representava uma vitória contra a previsão de que ele não chegaria à vida adulta. Mesmo de longe, Irene comemorava: “Mais um ano, ele tá vivo.”

A morte interrompeu essa contagem e deixou uma sensação de vazio. Questionada sobre o significado atual da esperança, respondeu: “Eu acho que ela muda de forma. Porque até para a gente sobreviver, você precisa acreditar em alguma coisa.”

A publicação do livro abriu outra possibilidade. Irene passou a receber mensagens de mães, filhas e irmãos que convivem com a dependência química dentro da família. Muitas procuram conforto e relatam histórias semelhantes, marcadas pelo isolamento, pelo medo e pela culpa.

Ela procura responder, embora deixe claro que não oferece um caminho pronto.

“Eu não tenho nenhuma receita”, afirmou. “O que eu fiz foi porque eu acreditei. Foi o que eu pude fazer e eu acreditei que podia dar certo.”

Para Irene, o silêncio torna a experiência ainda mais pesada. A vergonha isola a família e mantém o sofrimento escondido dentro de casa. Ao contar a própria história, ela espera ajudar outras pessoas a perceber que não estão sozinhas.

“Tem muita gente sofrendo com isso. Não é justo”, disse. “Queria que essas mães sentissem aqui um pouquinho de alento com o meu livro, um mínimo de conforto talvez.”

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Dez Por Cento Mais: Thaís Barbizan fala sobre o preço invisível de parecer bem o tempo todo

“Ser normal é ser você.”

Irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, isolamento e a sensação de acordar cansado mesmo depois de descansar podem ser sinais de fadiga emocional. Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbizan, esses sintomas podem aparecer quando os excessos do cotidiano se acumulam sem que a pessoa perceba. A exposição contínua às redes sociais, a busca por validação e a pressão para demonstrar produtividade, felicidade e equilíbrio fazem parte desse processo. O assunto foi tema de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Thaís define a fadiga emocional como “uma exaustão psíquica que a gente pode ter de acordo com os excessos do dia a dia e que a gente não vai percebendo”. Segundo ela, um dos problemas é justamente a dificuldade de reconhecer que o limite foi ultrapassado. A pessoa continua trabalhando, cuidando da família, respondendo mensagens e cumprindo compromissos. Por fora, a rotina segue funcionando. Por dentro, porém, pode haver um desgaste crescente.

Entre os sinais citados pela psicóloga estão alterações no sono, maior irritabilidade, vontade de se afastar das relações sociais e cansaço persistente. “Existe aquela vontade de descansar, mas você acorda cansada”, afirma.

A necessidade de validação

As redes sociais não são apresentadas por Thaís como responsáveis isoladas pelo problema. Ela reconhece seu papel na comunicação, no trabalho e na circulação de informação. A questão está na forma e na intensidade com que são incorporadas ao cotidiano.

A psicóloga chama a atenção especialmente para a diferença entre compartilhar momentos da vida e depender da reação dos outros para avaliar a própria vida. “Quando você vive tendo o tempo todo que ser validado pelo outro, por uma curtida, por um encaminhamento, por quantas pessoas que te seguem, quem tem mais seguidores”, diz.

Essa lógica pode ser mais intensa para quem depende profissionalmente da exposição digital. Produzir vídeos, acompanhar o engajamento e permanecer disponível transforma o celular em instrumento de trabalho, mas também dificulta estabelecer uma fronteira entre vida profissional e pessoal. Para Thaís, essa fronteira merece atenção: “Até que ponto é o tempo que a pessoa só vai usar para ela e para o trabalho, onde fica o público e o privado?”

A psicóloga também chama a atenção para a comparação permanente. Nas redes, as pessoas normalmente encontram recortes da vida dos outros. Um vídeo de poucos minutos ou uma fotografia não revelam o conjunto da experiência de quem aparece na tela.

A comparação entre a vida cotidiana e essas imagens editadas pode afetar a autoestima. “Há um rebaixamento dessa autoestima, sim. Há tendência à depressão, há tendência a transtornos de ansiedade, a necessidade o tempo todo de pertencimento, de sentimento de inadequação, de vazio”, afirma.

O piloto automático e a anestesia emocional

Outro ponto abordado por Thaís é a dificuldade de perceber o próprio estado emocional. Quando trabalho, mensagens, compromissos e estímulos digitais se sucedem sem interrupção, a pessoa pode entrar no que ela descreve como “piloto automático”. Nesse processo, até distinguir bem-estar de mal-estar pode se tornar mais difícil.

“A partir do momento que você vive nesse piloto automático, você não sabe mais diferenciar o que é estar bem ou o que é não estar bem.”

Thaís relaciona essa situação a uma espécie de anestesia emocional. A pessoa cumpre suas obrigações, participa de atividades e mantém a rotina, mas pode não conseguir identificar claramente prazer, tristeza, cansaço ou insatisfação.

O problema, segundo ela, se agrava quando qualquer sensação de vazio precisa ser imediatamente preenchida. “Esse vazio que precisa existir, mas que não é olhado, porque precisa ser preenchido com estímulos, com vídeos, com engajamento, com curtidas e com validações.”

Reconhecer e nomear o que se sente passa, portanto, a ser parte importante do cuidado emocional. “Tudo que a gente dá nome, a gente consegue ajudar, a gente consegue se ajudar. O nomear é muito importante”, diz.

Descansar exige aprendizado

A pressão por produtividade pode alcançar até os momentos destinados ao descanso. Fazer nada passa a produzir culpa porque existe a sensação de que todo período disponível deveria ser preenchido por alguma atividade.

Thaís propõe questionar essa lógica. “O nada é uma arte”, afirma. Esse “nada” não significa necessariamente permanecer imóvel. Pode envolver ouvir música, ler ou simplesmente passar algum tempo sem a obrigação de produzir um resultado. A questão central é permitir que nem todas as atividades sejam avaliadas por produtividade, exposição ou aprovação externa.

A psicóloga também sugere observar a frequência com que aparece a expressão “ter que” na rotina: ter que responder, ter que produzir, ter que publicar, ter que demonstrar alguma coisa. “Sempre quando a gente tem que algo, a gente acaba saindo do ser”, diz.

A hora de prestar atenção

Não existe uma quantidade única de minutos ou horas nas redes sociais que determine quando o uso se tornou prejudicial. Thaís sugere olhar para as consequências. É preciso observar quanto tempo se passa nas redes, que tipo de conteúdo é consumido e, principalmente, o efeito desse uso sobre a vida cotidiana.

Problemas de sono, ansiedade, irritabilidade, perda de concentração, isolamento e prejuízos nos relacionamentos aparecem entre os sinais mencionados. A necessidade de curtidas e engajamento para se sentir bem também merece atenção.

“Até que ponto isso tá tomando a sua vida, o seu sono, as suas relações?”, questiona.

Na experiência clínica relatada por Thaís, muitas pessoas não procuram ajuda porque perceberam que estão usando demais as redes sociais. Elas chegam pelas consequências: estão mais irritadas, não conseguem conversar com a família, sentem necessidade de se isolar ou têm dificuldade para se desligar do celular.

Quando a exaustão e o sofrimento começam a interferir na vida profissional, familiar ou afetiva, a psicóloga recomenda buscar uma rede de apoio e ajuda especializada.

Ao fim da conversa, Thaís resume sua orientação pela busca de equilíbrio e pela preservação da própria identidade diante das pressões externas.

“Tá tudo bem você querer estar virtualmente, tá tudo bem você querer estar presencialmente, tá tudo bem não ter nenhuma rede social. Isso não é ser normal. Ser normal é ser você.”

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Dez Por Cento Mais: Ciro Férrer explica como arquitetura pode favorecer um envelhecimento com mais autonomia

“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”

O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.

O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.

“A casa passou a dominá-la”, resume.

A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.

Leia, também, os artigos de Ciro Férrer no Blog do Mílton Jung

Adaptações simples fazem diferença

Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.

Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.

“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”

Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.

Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.

“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”

Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.

A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.

Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.

Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.

Cidades também precisam envelhecer

Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.

“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”

Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.

Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.

Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.

“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”

Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.

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Dez Por Cento Mais: Daniela Dib mostra como transformar o banho em um ritual de autocuidado

“Esteja aberta para você mesma. Você pode se surpreender.”

Um gesto que costuma durar poucos minutos e ser tratado apenas como parte da rotina pode se transformar em um momento de pausa, presença e cuidado consigo. Essa é a proposta da empreendedora Daniela Dib, que criou uma linha de produtos inspirada em experiências vividas em viagens e em uma necessidade pessoal de hidratação da pele. 

Em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, Daniella contou que a ideia nasceu de uma dificuldade que a acompanhava desde a adolescência. Com a pele muito ressecada, ela buscava alternativas que oferecessem mais do que hidratação. A inspiração surgiu de forma inesperada. “O projeto se formou todo nessa primeira fungada, literalmente, de um produto presente”, contou, ao lembrar o momento em que experimentou um óleo recebido de presente da irmã.

Do comércio às experiências sensoriais

Formada em Comunicação Social, Daniela construiu a carreira na empresa da família, tradicional comerciante da Rua 25 de Março, em São Paulo. Participou da implantação do comércio eletrônico ainda no início dos anos 2000 e afirma que o contato diário com consumidores foi uma escola para compreender as pessoas.

Segundo ela, o novo negócio não surgiu para substituir sua trajetória anterior, mas para ampliá-la. A marca nasceu da combinação entre uma necessidade pessoal, lembranças de viagens ao Oriente Médio e o desejo de oferecer uma experiência de autocuidado dentro de casa.

“O banho virou uma rotina corrida, obrigatória, de higiene. Acho que a gente pode fazer muito mais pelo nosso prazer, pela nossa pele”, afirmou.

A proposta é transformar um hábito cotidiano em um momento de desaceleração. “Essa pausa que já acontece na rotina diária pode ser melhor aproveitada para si mesmo, para o seu corpo, para sua alma”, disse.

Um projeto construído a partir da própria necessidade

Daniela explica que o desenvolvimento dos produtos levou quase três anos. O maior desafio foi criar uma fragrância capaz de despertar memórias e transportar a pessoa para outras experiências.

“Eu não queria só um cheiro bom. Queria um cheiro que te transportasse, que te viajasse no tempo, no espaço, em si mesma”, relatou.

A linha foi desenvolvida com fórmulas de alta concentração de ingredientes de origem natural, tendo como base óleos vegetais como palmiste, argão, abacate e semente de romã. A escolha, segundo ela, buscou unir hidratação intensa, perfumação duradoura e menor impacto ambiental.

Reinvenção depois dos 50

O projeto começou quando Daniela já tinha mais de 50 anos, continuava trabalhando na empresa da família e conciliava a rotina profissional com a maternidade.

Ela afirma que não precisou abandonar a carreira construída ao longo de décadas para iniciar um novo empreendimento. Ao contrário, procurou somar experiências.

“Ter me permitido realizar um sonho meu foi um prazer enorme. Foi puxado, mas foi uma delícia”, resumiu.

Ao refletir sobre esse período da vida, ela reconhece que passou muitos anos deixando suas próprias necessidades em segundo plano.

“Já me vejo melhor posicionada na minha própria agenda. Não estou mais no fim da minha lista”, afirmou.

No encerramento da entrevista, Daniela deixou uma mensagem para quem pensa em começar um novo projeto ou experimentar novos caminhos.

“Eu nunca planejei nada do que aconteceu. Não feche nenhuma porta para você mesma. Você pode se surpreender.”

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Dez Por Cento Mais: geneticista Paulo Zattar Ribeiro explica como os testes genéticos podem mudar a prevenção do câncer

“A genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco.”

Descobrir um risco de câncer antes que a doença apareça pode mudar o destino de uma família inteira. A incorporação de testes genéticos ao Sistema Único de Saúde amplia a possibilidade de identificar predisposições hereditárias e adotar medidas preventivas com antecedência. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Médico geneticista, Dr. Paulo Zattar Ribeiro explicou que os genes BRCA1 e BRCA2 funcionam como mecanismos naturais de proteção contra o câncer. Quando apresentam alterações hereditárias, aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de alguns tipos de tumores, especialmente os de mama e ovário.

Segundo ele, identificar essas mutações permite que pacientes e médicos adotem estratégias de prevenção e acompanhamento mais adequadas. “Se eu conhecer a informação que já está ali desde o meu nascimento, me permite reduzir esse risco”, afirmou.

Quando a genética ajuda a prevenir

Ao longo da entrevista, o especialista recorreu ao caso da atriz Angelina Jolie para ilustrar como o conhecimento genético pode orientar decisões preventivas.

“Entendemos, a partir do caso da Angelina Jolie, que a genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco”, disse.

Ele explicou que mulheres com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 podem optar por diferentes estratégias para reduzir a probabilidade de desenvolver câncer. Entre elas estão cirurgias redutoras de risco, acompanhamento por exames de imagem em intervalos menores e uso de medicamentos específicos.

A chegada do teste ao SUS também poderá beneficiar familiares de pacientes diagnosticadas. A identificação de uma mutação permite que parentes sejam avaliados precocemente e recebam orientação adequada.

Nem todo câncer é hereditário

Um dos pontos destacados pelo médico foi a diferença entre câncer genético e câncer hereditário.

“Todo câncer é genético, acontece por um mecanismo genético. Mas nem todo câncer é hereditário”, explicou.

Segundo ele, aproximadamente 10% dos casos de câncer têm origem hereditária. Alguns sinais podem indicar maior probabilidade de predisposição genética, como tumores em idade jovem, múltiplos casos na mesma família ou tipos específicos de câncer.

Para o especialista, pessoas com histórico familiar relevante devem buscar avaliação médica especializada. “Todo mundo que tem histórico de câncer na família ou que já teve um câncer deveria passar pelo menos em uma consulta com o médico geneticista ou oncogeneticista.”

O teste não é uma sentença

Uma das barreiras que impedem investigações precoces é o receio que muitas pessoas têm de realizar exames genéticos por medo do resultado. Paulo Zattar Ribeiro destacou que descobrir uma predisposição não significa que a doença irá necessariamente se desenvolver.

“As variantes em câncer têm uma penetrância incompleta, ou seja, nem todo mundo que tem alteração genética vai desenvolver câncer.”

Ele acrescentou que o teste pode trazer mais tranquilidade do que preocupação. Segundo pesquisa conduzida por sua equipe, mulheres que receberam informações claras sobre seus riscos apresentaram redução dos níveis de ansiedade após o processo de avaliação genética.

“O vespeiro já está ali. O que o teste genético faz é nos dar os remédios para combater o vespeiro e tirar ele dali”, comparou.

Desafios para a implementação

Embora considere a incorporação dos testes um avanço, o geneticista alertou para os desafios da implementação. De acordo com ele, o Brasil ainda conta com menos de 400 médicos geneticistas, o que exigirá investimento em capacitação profissional e integração entre diferentes áreas da saúde.

“Precisamos de educação em saúde para que os profissionais consigam lidar com essa informação da forma correta”, afirmou.

Ele também defendeu maior atuação multidisciplinar, envolvendo geneticistas, oncologistas, mastologistas, psicólogos e outros profissionais para garantir que os resultados dos exames sejam interpretados adequadamente e transformados em ações concretas de prevenção e tratamento.

A prevenção continua fundamental

Apesar do avanço da genética, Dr. Paulo ressaltou que os hábitos de vida seguem sendo pilares importantes na redução do risco de câncer. Ele citou a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do consumo de álcool, abandono do tabagismo e uso diário de protetor solar como medidas essenciais.

Ao encerrar a entrevista, deixou uma orientação direta para as mulheres:

“Não deixem o medo do câncer vencer a necessidade de fazer os exames.”

Para ele, conhecer o histórico familiar, manter os exames em dia e buscar informações confiáveis são atitudes que podem aumentar as chances de prevenção, diagnóstico precoce e qualidade de vida.

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Dez Por Cento Mais: não guarde dor e sofrimento, recomenda a psicanalista Jak Rocha

“Mostrar a fragilidade não é fraqueza. Mostrar a fragilidade é um sinal de força.”

O Brasil registrou milhares de afastamentos por burnout nos últimos anos, enquanto profissionais seguem tentando sustentar rotinas exaustivas como se o corpo fosse uma máquina programada apenas para entregar resultados. Em muitos casos, os sinais aparecem antes do colapso: insônia, irritação, taquicardia, crises de ansiedade e um cansaço que não desaparece com descanso. O tema foi discutido no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, em entrevista com a psicanalista e mentora de carreiras Jak Rocha.

Ex-diretora de operações dos canais Globo, Jak contou que os primeiros sintomas começaram em 2017, quando ainda ocupava uma posição executiva de alta responsabilidade. A rotina intensa, marcada por agendas lotadas, viagens e pressão constante, parecia fazer parte natural da carreira. Até que o corpo decidiu interromper o processo.

Durante uma reunião fora do Brasil, ela sofreu um apagão. “Eu olhei para aquele data show e eu não sabia do que se tratava. Ali eu entrei em pânico, porque esvaziou meu cérebro”, relatou. No hospital, médicos levantaram inicialmente a hipótese de um tumor cerebral. Depois de exames, veio o diagnóstico: burnout.

Mesmo alertada pelos médicos, Jak seguiu trabalhando. “Eu cheguei no Brasil e mantive a minha agenda e a minha vida continuou frenética”, contou. Vieram novos apagões, crises físicas e emocionais, até que uma equipe multidisciplinar determinou a necessidade de interromper completamente a rotina profissional.

Quando o corpo fala antes da mente admitir

Ao longo da conversa, Jak descreveu como o burnout se manifesta de forma gradual e, ao mesmo tempo, devastadora. Segundo ela, o processo começou com transpiração excessiva, taquicardia, náuseas e ansiedade constante. Depois vieram a irritação, a intolerância e o isolamento.

“Tudo me irritava. A pessoa falava ‘bom dia’ comigo e eu já não queria nem ouvir aquele bom dia”, afirmou.

Ela reconhece que havia uma dificuldade pessoal em estabelecer limites. “Eu amava tanto o que eu fazia”, explicou. A dedicação extrema ao trabalho ocupava praticamente todos os espaços da vida. “Eu trabalhava 14 horas por dia, 15. Meu celular não parava.”

Mesmo diante do adoecimento, Jak não demonstra arrependimento pela trajetória profissional. O que mudou foi sua compreensão sobre equilíbrio e cuidado emocional. Hoje, nas mentorias que conduz, tenta transmitir outra lógica de liderança: menos centrada apenas em métricas e mais conectada às pessoas.

Ela relatou que desenvolveu um modelo de gestão baseado na individualidade dos colaboradores. Em vez de focar exclusivamente em resultados, buscava entender os interesses, dificuldades e habilidades pessoais de cada integrante da equipe.

“Eu só entendo que a gente move pessoas em direção ao resultado positivo se elas estiverem felizes”, disse.

A doença rara que mudou novamente sua vida

Depois do burnout, vieram outras experiências traumáticas: a morte da mãe, um sequestro e, mais recentemente, o diagnóstico da Síndrome de Dercum, uma doença rara caracterizada pela formação de tumores adiposos extremamente dolorosos.

Jak contou que passou quase dois anos procurando respostas até chegar ao diagnóstico correto. “A dor era alucinante”, afirmou.

Desde então, já passou por diversas cirurgias. Os tumores, embora benignos, causam dores permanentes e comprometem sua mobilidade. “Você tira um tumor, aparecem quatro. Você tira quatro, aparecem oito”, descreveu.

Durante a entrevista, ela relacionou o enfrentamento da doença à espiritualidade e ao desejo de ajudar outras pessoas que enfrentam condições semelhantes. Também falou abertamente sobre momentos em que pensou em desistir.

“Eu amo viver”, afirmou, ao explicar por que decidiu seguir enfrentando o tratamento e as limitações impostas pela doença.

Escuta, acolhimento e saúde emocional

A experiência profissional e pessoal levou Jak à psicanálise. Hoje, ela atende principalmente jovens, incluindo pacientes no espectro autista, e defende uma escuta mais humana dentro das organizações e das relações pessoais.

Na avaliação dela, muitas pessoas carregam dores em silêncio até o momento do colapso. Por isso, deixou uma reflexão direta ao final da entrevista:

“Não guarde dor e sofrimento para si. Escolha a pessoa que mais se afine contigo e compartilhe com ela tudo. Porque a partir do momento que a gente compartilha, a gente tira um peso da gente.”

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Dez Por Cento Mais: Padre Simone Bernardi fala da reconstrução da dignidade no Arsenal da Esperança

Na pandemia, o sentido de comunidade se expressou no Arsenal

“A gente percebe que uma pobreza do nosso tempo é não ter mais comunidade.”

Mais de 1.200 pessoas dormem diariamente no Arsenal da Esperança, no Brás, em São Paulo. Ali, o acolhimento começa com uma cama limpa, comida quente e um endereço onde alguém volta a ser chamado pelo nome. O espaço, instalado na antiga Hospedaria dos Imigrantes, tornou-se um dos maiores centros de acolhida para pessoas em situação de rua da América Latina. O que se passa lá dentro e o que se percebe do mundo lá fora foram assuntos que pautaram a entrevista do Padre Simone Bernardi ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Missionário italiano, Padre Simone dirige o Arsenal da Esperança há mais de duas décadas. Durante a conversa, ele explicou que o projeto nasceu da transformação de um antigo arsenal militar, em Turim, na Itália, em um espaço voltado à paz e ao acolhimento. A inspiração chegou ao Brasil pelas mãos de Dom Luciano Mendes de Almeida, que enxergou na antiga Hospedaria dos Imigrantes um lugar capaz de recuperar vidas invisibilizadas pela cidade.

Muito além de cama e comida

Ao descrever a rotina do Arsenal, Padre Simone deixou claro que o trabalho vai muito além da assistência básica. “Cama e comida é o começo”, afirmou. “Se você começa a oferecer algo verdadeiramente digno, começa a criar um laço também.”

Todos os dias, a instituição prepara centenas de refeições, lava toneladas de roupas e mantém uma estrutura que funciona 24 horas. Há psicólogos, assistentes sociais, educadores, nutricionistas e voluntários envolvidos em um processo que busca reconstruir vínculos e devolver identidade às pessoas acolhidas.

“Às vezes nem os documentos têm”, relatou o padre. “Então, por exemplo, a rotina do nosso trabalho é ajudar as pessoas a tirar de novo todos os documentos, que é uma maneira de voltar a existir.”

Segundo ele, o perfil das pessoas atendidas também mudou ao longo dos anos. Se antes predominavam homens mais velhos, vindos de outros estados em busca de trabalho, hoje a população acolhida é mais jovem, formada majoritariamente por moradores do próprio estado de São Paulo e marcada por problemas mais complexos, como dependência química, depressão e transtornos psicológicos.

Regra e organização como sinais de cuidado

Ao falar sobre convivência dentro do Arsenal, Padre Simone defendeu a importância das regras como instrumento de cuidado coletivo. “A regra é uma maneira de amar”, disse. “A organização também é uma maneira de querer bem as pessoas.”

A instituição mantém horários, rotinas e protocolos para garantir segurança e convivência entre os acolhidos. Um dos exemplos citados foi o cuidado com pessoas sob efeito de álcool. Em vez de exclusão, o Arsenal criou espaços específicos para acolher essas pessoas sem colocar em risco quem tenta se recuperar.

“Para nós, se a pessoa chega alcoolizada ou não, continua sendo uma pessoa”, afirmou.

Durante a pandemia de Covid-19, a organização precisou reinventar completamente sua rotina. O Arsenal transformou-se em uma grande quarentena coletiva. Dos 1.200 acolhidos, 1.026 aceitaram permanecer isolados dentro da instituição.

“Ou aqui a gente se conscientiza e se organiza ou é o fim”, relembrou Padre Simone sobre o clima daqueles dias.

A reconstrução começa pelas pequenas coisas

Um dos trechos mais marcantes da entrevista surgiu quando o padre descreveu o momento em que alguns acolhidos pedem para trocar a foto do crachá. “Depois de duas semanas, tem pessoas que vão até o serviço social e falam: ‘Posso trocar a foto do meu crachá?’ Porque já não se reconhecem mais naquele rosto.”

Para ele, a transformação acontece aos poucos, em gestos simples que ajudam a pessoa a recuperar autoestima e pertencimento. Ler um livro, cuidar do espaço coletivo, participar de um campeonato ou simplesmente voltar a tomar banho diariamente tornam-se sinais concretos de reconstrução da vida.

“Acho que o nosso primeiro trabalho é produzir memórias boas”, afirmou. “Construir histórias boas para serem lembradas.”

A falta de comunidade como pobreza contemporânea

Na reflexão final da entrevista, Padre Simone ampliou o olhar para além da situação de rua. Segundo ele, a maior pobreza atual talvez não seja apenas a ausência de moradia, mas o enfraquecimento dos vínculos humanos.

“Não ter comunidade é pior”, afirmou.

O Arsenal da Esperança passou a desenvolver ações comunitárias no entorno do bairro, como mutirões de limpeza e atividades coletivas em espaços públicos. O objetivo é criar oportunidades de encontro entre pessoas que vivem cada vez mais isoladas.

“Tivemos uma senhora que abriu o portão da vila dela e ofereceu um bolo”, contou. “Ao redor daquele bolo se criou aquilo que deveria ser normal: as pessoas conversaram.”

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