Dez Por Cento Mais: geneticista Paulo Zattar Ribeiro explica como os testes genéticos podem mudar a prevenção do câncer

“A genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco.”

Descobrir um risco de câncer antes que a doença apareça pode mudar o destino de uma família inteira. A incorporação de testes genéticos ao Sistema Único de Saúde amplia a possibilidade de identificar predisposições hereditárias e adotar medidas preventivas com antecedência. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Médico geneticista, Dr. Paulo Zattar Ribeiro explicou que os genes BRCA1 e BRCA2 funcionam como mecanismos naturais de proteção contra o câncer. Quando apresentam alterações hereditárias, aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de alguns tipos de tumores, especialmente os de mama e ovário.

Segundo ele, identificar essas mutações permite que pacientes e médicos adotem estratégias de prevenção e acompanhamento mais adequadas. “Se eu conhecer a informação que já está ali desde o meu nascimento, me permite reduzir esse risco”, afirmou.

Quando a genética ajuda a prevenir

Ao longo da entrevista, o especialista recorreu ao caso da atriz Angelina Jolie para ilustrar como o conhecimento genético pode orientar decisões preventivas.

“Entendemos, a partir do caso da Angelina Jolie, que a genética deixa de ser uma sentença e se torna uma oportunidade de redução de risco”, disse.

Ele explicou que mulheres com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 podem optar por diferentes estratégias para reduzir a probabilidade de desenvolver câncer. Entre elas estão cirurgias redutoras de risco, acompanhamento por exames de imagem em intervalos menores e uso de medicamentos específicos.

A chegada do teste ao SUS também poderá beneficiar familiares de pacientes diagnosticadas. A identificação de uma mutação permite que parentes sejam avaliados precocemente e recebam orientação adequada.

Nem todo câncer é hereditário

Um dos pontos destacados pelo médico foi a diferença entre câncer genético e câncer hereditário.

“Todo câncer é genético, acontece por um mecanismo genético. Mas nem todo câncer é hereditário”, explicou.

Segundo ele, aproximadamente 10% dos casos de câncer têm origem hereditária. Alguns sinais podem indicar maior probabilidade de predisposição genética, como tumores em idade jovem, múltiplos casos na mesma família ou tipos específicos de câncer.

Para o especialista, pessoas com histórico familiar relevante devem buscar avaliação médica especializada. “Todo mundo que tem histórico de câncer na família ou que já teve um câncer deveria passar pelo menos em uma consulta com o médico geneticista ou oncogeneticista.”

O teste não é uma sentença

Uma das barreiras que impedem investigações precoces é o receio que muitas pessoas têm de realizar exames genéticos por medo do resultado. Paulo Zattar Ribeiro destacou que descobrir uma predisposição não significa que a doença irá necessariamente se desenvolver.

“As variantes em câncer têm uma penetrância incompleta, ou seja, nem todo mundo que tem alteração genética vai desenvolver câncer.”

Ele acrescentou que o teste pode trazer mais tranquilidade do que preocupação. Segundo pesquisa conduzida por sua equipe, mulheres que receberam informações claras sobre seus riscos apresentaram redução dos níveis de ansiedade após o processo de avaliação genética.

“O vespeiro já está ali. O que o teste genético faz é nos dar os remédios para combater o vespeiro e tirar ele dali”, comparou.

Desafios para a implementação

Embora considere a incorporação dos testes um avanço, o geneticista alertou para os desafios da implementação. De acordo com ele, o Brasil ainda conta com menos de 400 médicos geneticistas, o que exigirá investimento em capacitação profissional e integração entre diferentes áreas da saúde.

“Precisamos de educação em saúde para que os profissionais consigam lidar com essa informação da forma correta”, afirmou.

Ele também defendeu maior atuação multidisciplinar, envolvendo geneticistas, oncologistas, mastologistas, psicólogos e outros profissionais para garantir que os resultados dos exames sejam interpretados adequadamente e transformados em ações concretas de prevenção e tratamento.

A prevenção continua fundamental

Apesar do avanço da genética, Dr. Paulo ressaltou que os hábitos de vida seguem sendo pilares importantes na redução do risco de câncer. Ele citou a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do consumo de álcool, abandono do tabagismo e uso diário de protetor solar como medidas essenciais.

Ao encerrar a entrevista, deixou uma orientação direta para as mulheres:

“Não deixem o medo do câncer vencer a necessidade de fazer os exames.”

Para ele, conhecer o histórico familiar, manter os exames em dia e buscar informações confiáveis são atitudes que podem aumentar as chances de prevenção, diagnóstico precoce e qualidade de vida.

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Dez Por Cento Mais: não guarde dor e sofrimento, recomenda a psicanalista Jak Rocha

“Mostrar a fragilidade não é fraqueza. Mostrar a fragilidade é um sinal de força.”

O Brasil registrou milhares de afastamentos por burnout nos últimos anos, enquanto profissionais seguem tentando sustentar rotinas exaustivas como se o corpo fosse uma máquina programada apenas para entregar resultados. Em muitos casos, os sinais aparecem antes do colapso: insônia, irritação, taquicardia, crises de ansiedade e um cansaço que não desaparece com descanso. O tema foi discutido no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, em entrevista com a psicanalista e mentora de carreiras Jak Rocha.

Ex-diretora de operações dos canais Globo, Jak contou que os primeiros sintomas começaram em 2017, quando ainda ocupava uma posição executiva de alta responsabilidade. A rotina intensa, marcada por agendas lotadas, viagens e pressão constante, parecia fazer parte natural da carreira. Até que o corpo decidiu interromper o processo.

Durante uma reunião fora do Brasil, ela sofreu um apagão. “Eu olhei para aquele data show e eu não sabia do que se tratava. Ali eu entrei em pânico, porque esvaziou meu cérebro”, relatou. No hospital, médicos levantaram inicialmente a hipótese de um tumor cerebral. Depois de exames, veio o diagnóstico: burnout.

Mesmo alertada pelos médicos, Jak seguiu trabalhando. “Eu cheguei no Brasil e mantive a minha agenda e a minha vida continuou frenética”, contou. Vieram novos apagões, crises físicas e emocionais, até que uma equipe multidisciplinar determinou a necessidade de interromper completamente a rotina profissional.

Quando o corpo fala antes da mente admitir

Ao longo da conversa, Jak descreveu como o burnout se manifesta de forma gradual e, ao mesmo tempo, devastadora. Segundo ela, o processo começou com transpiração excessiva, taquicardia, náuseas e ansiedade constante. Depois vieram a irritação, a intolerância e o isolamento.

“Tudo me irritava. A pessoa falava ‘bom dia’ comigo e eu já não queria nem ouvir aquele bom dia”, afirmou.

Ela reconhece que havia uma dificuldade pessoal em estabelecer limites. “Eu amava tanto o que eu fazia”, explicou. A dedicação extrema ao trabalho ocupava praticamente todos os espaços da vida. “Eu trabalhava 14 horas por dia, 15. Meu celular não parava.”

Mesmo diante do adoecimento, Jak não demonstra arrependimento pela trajetória profissional. O que mudou foi sua compreensão sobre equilíbrio e cuidado emocional. Hoje, nas mentorias que conduz, tenta transmitir outra lógica de liderança: menos centrada apenas em métricas e mais conectada às pessoas.

Ela relatou que desenvolveu um modelo de gestão baseado na individualidade dos colaboradores. Em vez de focar exclusivamente em resultados, buscava entender os interesses, dificuldades e habilidades pessoais de cada integrante da equipe.

“Eu só entendo que a gente move pessoas em direção ao resultado positivo se elas estiverem felizes”, disse.

A doença rara que mudou novamente sua vida

Depois do burnout, vieram outras experiências traumáticas: a morte da mãe, um sequestro e, mais recentemente, o diagnóstico da Síndrome de Dercum, uma doença rara caracterizada pela formação de tumores adiposos extremamente dolorosos.

Jak contou que passou quase dois anos procurando respostas até chegar ao diagnóstico correto. “A dor era alucinante”, afirmou.

Desde então, já passou por diversas cirurgias. Os tumores, embora benignos, causam dores permanentes e comprometem sua mobilidade. “Você tira um tumor, aparecem quatro. Você tira quatro, aparecem oito”, descreveu.

Durante a entrevista, ela relacionou o enfrentamento da doença à espiritualidade e ao desejo de ajudar outras pessoas que enfrentam condições semelhantes. Também falou abertamente sobre momentos em que pensou em desistir.

“Eu amo viver”, afirmou, ao explicar por que decidiu seguir enfrentando o tratamento e as limitações impostas pela doença.

Escuta, acolhimento e saúde emocional

A experiência profissional e pessoal levou Jak à psicanálise. Hoje, ela atende principalmente jovens, incluindo pacientes no espectro autista, e defende uma escuta mais humana dentro das organizações e das relações pessoais.

Na avaliação dela, muitas pessoas carregam dores em silêncio até o momento do colapso. Por isso, deixou uma reflexão direta ao final da entrevista:

“Não guarde dor e sofrimento para si. Escolha a pessoa que mais se afine contigo e compartilhe com ela tudo. Porque a partir do momento que a gente compartilha, a gente tira um peso da gente.”

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Dez Por Cento Mais: Padre Simone Bernardi fala da reconstrução da dignidade no Arsenal da Esperança

Na pandemia, o sentido de comunidade se expressou no Arsenal

“A gente percebe que uma pobreza do nosso tempo é não ter mais comunidade.”

Mais de 1.200 pessoas dormem diariamente no Arsenal da Esperança, no Brás, em São Paulo. Ali, o acolhimento começa com uma cama limpa, comida quente e um endereço onde alguém volta a ser chamado pelo nome. O espaço, instalado na antiga Hospedaria dos Imigrantes, tornou-se um dos maiores centros de acolhida para pessoas em situação de rua da América Latina. O que se passa lá dentro e o que se percebe do mundo lá fora foram assuntos que pautaram a entrevista do Padre Simone Bernardi ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Missionário italiano, Padre Simone dirige o Arsenal da Esperança há mais de duas décadas. Durante a conversa, ele explicou que o projeto nasceu da transformação de um antigo arsenal militar, em Turim, na Itália, em um espaço voltado à paz e ao acolhimento. A inspiração chegou ao Brasil pelas mãos de Dom Luciano Mendes de Almeida, que enxergou na antiga Hospedaria dos Imigrantes um lugar capaz de recuperar vidas invisibilizadas pela cidade.

Muito além de cama e comida

Ao descrever a rotina do Arsenal, Padre Simone deixou claro que o trabalho vai muito além da assistência básica. “Cama e comida é o começo”, afirmou. “Se você começa a oferecer algo verdadeiramente digno, começa a criar um laço também.”

Todos os dias, a instituição prepara centenas de refeições, lava toneladas de roupas e mantém uma estrutura que funciona 24 horas. Há psicólogos, assistentes sociais, educadores, nutricionistas e voluntários envolvidos em um processo que busca reconstruir vínculos e devolver identidade às pessoas acolhidas.

“Às vezes nem os documentos têm”, relatou o padre. “Então, por exemplo, a rotina do nosso trabalho é ajudar as pessoas a tirar de novo todos os documentos, que é uma maneira de voltar a existir.”

Segundo ele, o perfil das pessoas atendidas também mudou ao longo dos anos. Se antes predominavam homens mais velhos, vindos de outros estados em busca de trabalho, hoje a população acolhida é mais jovem, formada majoritariamente por moradores do próprio estado de São Paulo e marcada por problemas mais complexos, como dependência química, depressão e transtornos psicológicos.

Regra e organização como sinais de cuidado

Ao falar sobre convivência dentro do Arsenal, Padre Simone defendeu a importância das regras como instrumento de cuidado coletivo. “A regra é uma maneira de amar”, disse. “A organização também é uma maneira de querer bem as pessoas.”

A instituição mantém horários, rotinas e protocolos para garantir segurança e convivência entre os acolhidos. Um dos exemplos citados foi o cuidado com pessoas sob efeito de álcool. Em vez de exclusão, o Arsenal criou espaços específicos para acolher essas pessoas sem colocar em risco quem tenta se recuperar.

“Para nós, se a pessoa chega alcoolizada ou não, continua sendo uma pessoa”, afirmou.

Durante a pandemia de Covid-19, a organização precisou reinventar completamente sua rotina. O Arsenal transformou-se em uma grande quarentena coletiva. Dos 1.200 acolhidos, 1.026 aceitaram permanecer isolados dentro da instituição.

“Ou aqui a gente se conscientiza e se organiza ou é o fim”, relembrou Padre Simone sobre o clima daqueles dias.

A reconstrução começa pelas pequenas coisas

Um dos trechos mais marcantes da entrevista surgiu quando o padre descreveu o momento em que alguns acolhidos pedem para trocar a foto do crachá. “Depois de duas semanas, tem pessoas que vão até o serviço social e falam: ‘Posso trocar a foto do meu crachá?’ Porque já não se reconhecem mais naquele rosto.”

Para ele, a transformação acontece aos poucos, em gestos simples que ajudam a pessoa a recuperar autoestima e pertencimento. Ler um livro, cuidar do espaço coletivo, participar de um campeonato ou simplesmente voltar a tomar banho diariamente tornam-se sinais concretos de reconstrução da vida.

“Acho que o nosso primeiro trabalho é produzir memórias boas”, afirmou. “Construir histórias boas para serem lembradas.”

A falta de comunidade como pobreza contemporânea

Na reflexão final da entrevista, Padre Simone ampliou o olhar para além da situação de rua. Segundo ele, a maior pobreza atual talvez não seja apenas a ausência de moradia, mas o enfraquecimento dos vínculos humanos.

“Não ter comunidade é pior”, afirmou.

O Arsenal da Esperança passou a desenvolver ações comunitárias no entorno do bairro, como mutirões de limpeza e atividades coletivas em espaços públicos. O objetivo é criar oportunidades de encontro entre pessoas que vivem cada vez mais isoladas.

“Tivemos uma senhora que abriu o portão da vila dela e ofereceu um bolo”, contou. “Ao redor daquele bolo se criou aquilo que deveria ser normal: as pessoas conversaram.”

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Dez Por Cento Mais: Mari Milazzotto alerta que a dor durante o sexo não deve ser normalizada

“Existe solução, muitas das vezes ela é rápida, não é um tratamento que perdura.”

A dor durante a relação sexual atinge entre 40% e 45% das mulheres, mas ainda é tratada como algo comum ou inevitável. Esse entendimento equivocado atrasa diagnósticos, compromete relacionamentos e afeta a saúde mental. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Mari Milazzotto, fisioterapeuta especializada em saúde da mulher, afirma que a origem do problema está, em grande parte, na falta de informação e no silêncio que cerca o assunto. “As pessoas acham que tudo isso é normal e não é normal”, disse. Segundo ela, o tabu começa cedo, ainda na infância e adolescência, quando o tema não é abordado de forma aberta dentro das famílias ou nas escolas.

Quando a dor deixa de ser exceção e vira rotina

A dor durante o sexo pode ter diferentes causas e manifestações. Mari explica que existem condições específicas, como a dispareunia e o vaginismo. A primeira é caracterizada pela dor durante a relação, que pode ser superficial ou profunda. Já o vaginismo envolve uma contração involuntária da musculatura pélvica, que pode impedir a penetração.

“Quando eu falo uma contração involuntária, significa que a pessoa não está querendo que ela aconteça. Ela está acontecendo sem eu querer”, explicou.

Um dos principais problemas, segundo a especialista, é que muitas mulheres não relatam o que sentem. Parte disso vem da crença de que a dor é normal. Outra parte está no constrangimento de falar sobre o tema, inclusive em consultas médicas. “Eu acho normal o que eu estou sentindo. O meu médico não me perguntou. Por que que eu vou falar?”, questionou.

O resultado é um ciclo de silêncio que prolonga o sofrimento e impede o tratamento adequado.

Impactos que vão além da vida sexual

A dor persistente afeta o momento da relação e pode, ainda, gerar ansiedade, frustração, queda de autoestima e afastamento afetivo. “Você está deixando de ter prazer, está deixando de ter intimidade”, afirmou Mari.

Ela também chama atenção para o comportamento de muitas mulheres que passam a evitar situações que possam levar à relação sexual. “Você começa a querer impedir o contato, começa a ter medo de se relacionar”, disse.

Outro ponto destacado é o impacto nos relacionamentos. A falta de diálogo pode aumentar a sensação de isolamento. Por isso, a especialista defende que parceiros e parceiras participem do processo. “A gente está junto, a gente vai resolver, porque ambos precisam sentir prazer nessa relação.”

Diagnóstico e tratamento exigem abordagem integrada

Para que a dor seja considerada um problema clínico, é necessário que ela seja persistente por mais de seis meses. A partir daí, o tratamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar.

Mari destaca três frentes principais: acompanhamento médico, fisioterapia pélvica e apoio psicológico. A fisioterapia atua diretamente na musculatura do assoalho pélvico, ensinando, sobretudo, o relaxamento — e não apenas o fortalecimento, como muitos imaginam.

“Consciência corporal é você conseguir perceber o seu corpo no espaço”, explicou. Esse processo permite que a mulher reconheça tensões involuntárias e aprenda a controlá-las no dia a dia.

O uso de técnicas como biofeedback e eletroestimulação também pode ajudar no tratamento. No entanto, a especialista reforça que o acompanhamento profissional é importante, especialmente para quem não tem familiaridade com o tema.

Informação e diálogo como ponto de partida

Para Mari Milazzotto, o primeiro passo é romper o silêncio. Falar sobre o assunto permite identificar o problema e buscar ajuda. “A gente precisa falar desse assunto para conseguir receber ajuda”, afirmou.

Ela também destaca o papel da educação e da conversa desde cedo, como forma de reduzir o tabu e facilitar o acesso à informação. “Conhecer o próprio corpo é muito importante”, disse.

A especialista encerra com um convite à reflexão: “Vamos ser mais acolhedores para conseguir, com um pouco mais de humanidade, receber a informação, falar do assunto e permitir que esse cuidado seja buscado.”

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Dez Por Cento Mais: Santuza Macedo, da Diamond Viagens, diz o que buscam as mulheres que decidem viajar sozinhas

“Às vezes não é falta de companhia, às vezes até tem companhia, mas prefere ficar na solitude, conhecer algo diferente no tempo dela.”

Viajar sozinha depois dos 40 anos ainda provoca desconfiança, perguntas atravessadas e interpretações apressadas. Para muitas mulheres, a decisão de arrumar a mala sem companhia não é um sinal de crise, mas um movimento de autonomia. O tema foi discutido em entrevista no programa canal Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Santuza Macedo, consultora de turismo e CEO da Diamond Viagens, observa que o estranhamento não é recente. Ele vem de um padrão histórico em que o homem circula e a mulher permanece. Quando esse padrão se rompe, surgem os rótulos. “Tem certeza que está tudo bem?”, relatou, ao reproduzir perguntas frequentes dirigidas a mulheres que optam por viajar sozinhas.

Autonomia feminina ainda precisa de explicação

A liberdade masculina costuma ser lida como natural. A feminina, como algo a ser justificado. Santuza aponta que essa diferença de percepção tem raízes culturais profundas e ainda influencia o olhar atual.

Segundo ela, existe uma expectativa silenciosa de que, após os 40 anos, a mulher esteja acompanhada — seja por parceiro, amigos ou família. Quando isso não acontece, surgem interpretações que associam a decisão a problemas pessoais. “Por que você está indo sozinha? Você não tem companhia?”, exemplificou.

Essa leitura, no entanto, ignora outras motivações. Muitas mulheres viajam sozinhas por escolha. Buscam tempo próprio, liberdade de roteiro e experiências no próprio ritmo. “Eu sento na hora que eu quero, eu como o que eu quero”, relatam clientes ouvidas por Santuza.

Mercado cresce, mas o preconceito persiste

O aumento do número de mulheres viajando sozinhas já é percebido pelo setor de turismo. Há crescimento na oferta de pacotes específicos, grupos femininos e serviços pensados para esse público. Mesmo assim, o preconceito ainda aparece.

Santuza destaca que o mercado tem se adaptado, inclusive com soluções intermediárias. Para quem ainda não se sente segura para viajar totalmente sozinha, há grupos organizados que mantêm a autonomia, mas oferecem suporte. “Ela vai estar sozinha, mas não vai se sentir sozinha”, explicou.

O planejamento, segundo ela, é peça central nessa experiência. Viagens bem estruturadas reduzem riscos e aumentam a confiança. “O planejamento precisa ser longo para a viagem curtinha ser excelente”, afirmou.

Mais do que turismo, um reencontro

Ao acompanhar diferentes perfis de clientes, Santuza identifica padrões. Muitas mulheres chegam a esse momento depois de mudanças importantes na vida. Filhos crescidos, carreira consolidada ou término de relacionamento aparecem com frequência.

Há também uma busca mais subjetiva. “A maioria é que se reencontrou depois dos 40 anos”, disse. A viagem solo passa a ser uma forma de reconexão com desejos que ficaram em segundo plano.

Esse movimento não exige grandes deslocamentos. Pode começar perto de casa. Uma pousada, um fim de semana em outra cidade ou um destino conhecido já funcionam como primeiro passo. Santuza recomenda essa progressão como forma de ganhar segurança.

Planejamento como rede de apoio

A autonomia não significa ausência de suporte. Ao contrário. Santuza orienta que mulheres que desejam viajar sozinhas busquem apoio profissional, especialmente nas primeiras experiências.

Agências de viagem, seguros e contatos locais funcionam como rede de segurança. Em situações imprevistas, o acesso rápido a alguém que possa ajudar faz diferença. “Você passa a mensagem e consegue resolver”, explicou.

Esse cuidado evita frustrações comuns em viagens mal planejadas. Quando algo dá errado sem suporte, a experiência pode reforçar o medo. Com estrutura, o resultado tende a ser o oposto: mais confiança para próximas viagens.

Um passo de cada vez

A decisão de viajar sozinha raramente acontece de forma abrupta. Ela costuma ser construída. Santuza compara o processo a uma escada: primeiro, experiências acompanhadas; depois, pequenas viagens solo; por fim, destinos mais distantes.

Com o tempo, desaparece a necessidade de justificar a escolha. A mulher passa a ocupar esse espaço com naturalidade. “Ela percebe que pode ir para qualquer lugar”, afirmou.

A mala continua a mesma. O que muda é o olhar sobre quem a carrega.

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Dez Por Cento Mais: psiquiatra Wimer Bottura Jr alerta para o excesso de diagnósticos em saúde mental

“O sofrimento precisa gerar mudanças.”

A tristeza profunda, a ansiedade persistente ou o esgotamento emocional fazem parte da vida de muitas pessoas. Nem sempre, porém, esses estados significam doença. A diferença entre um sofrimento natural da existência e um transtorno que exige tratamento pode ser sutil. Compreender esse limite é fundamental para evitar diagnósticos precipitados ou tratamentos inadequados. Esse foi o tema da conversa com o psiquiatra Dr. Wimer Bottura Jr., em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Para começo de conversa, Bottura destacou que o sofrimento psíquico merece atenção, independentemente de sua origem. Segundo ele, muitas vezes experiências difíceis — como frustrações, perdas ou o fim de um relacionamento — provocam dor emocional intensa, mas não configuram necessariamente um quadro clínico. O psiquiatra lembra que ignorar o sofrimento pode trazer consequências. “Se a pessoa leva em conta o sofrimento e busca ajuda no momento do sofrimento, ela evita que a doença se instale”, explicou.

Informação em excesso e diagnósticos apressados

O Dez Por Cente Mais também abordou a transformação na relação entre pacientes e profissionais de saúde mental. O acesso à informação ampliou o conhecimento das pessoas sobre transtornos psicológicos, e trouxe um efeito colateral: a tendência ao autodiagnóstico.

Bottura observa que muitos pacientes chegam ao consultório já convencidos de que possuem determinado transtorno. “Hoje qualquer pessoa faz diagnóstico respondendo algumas perguntas na internet”, disse. Para ele, esse processo pode gerar confusão, porque sintomas isolados não são suficientes para definir um quadro clínico.

O psiquiatra chamou atenção para o crescimento de diagnósticos de transtornos como ansiedade, TDAH e autismo. Parte desse aumento reflete maior acesso à informação e redução do preconceito. Ao mesmo tempo, segundo ele, existe o risco de avaliações superficiais. “Aumentou o número de diagnósticos, aumentou a informação, mas também aumentou a meia informação.”

O risco do excesso de remédios

A discussão sobre o uso de medicamentos ocupou parte importante da conversa. Bottura afirma que os remédios têm papel relevante na psiquiatria, desde que usados com diagnóstico adequado. “Eu sou favorável ao remédio. Eu sou favorável a um diagnóstico preciso”, afirmou.

Segundo ele, há situações em que a medicação é indispensável e outras em que seu uso pode ser excessivo. Um dos riscos, explicou, é medicar pessoas que não têm o transtorno diagnosticado. Nesse caso, o tratamento não produz efeito e pode gerar descrédito:. “O problema é que depois a pessoa diz: ‘O remédio não funciona’. E isso cria resistência em quem realmente precisa do medicamento.”

Outro ponto destacado pelo psiquiatra é que o diagnóstico deve considerar não apenas o transtorno, mas também o contexto de vida da pessoa. Em alguns casos, acrescenta, o sofrimento está ligado às circunstâncias em que a pessoa vive. Medicá-la sem mudar essas condições pode apenas prolongar o problema.

A arte como caminho de compreensão

Ao longo da entrevista, Bottura ampliou a reflexão sobre saúde mental ao falar do papel da arte no desenvolvimento emocional. Para ele, cinema, literatura e música ajudam as pessoas a compreender experiências humanas complexas. “A arte chega ao conhecimento muito antes que a ciência”, afirmou.

O psiquiatra relatou que há quase três décadas conduz um projeto chamado Cine Debate, no qual exibe filmes e promove discussões com o público. A proposta é estimular o aprendizado indireto, ou seja, quando alguém aprende observando a experiência de outras pessoas ou personagens.

“Eu aprendo com a dor do outro”, explicou. “No cinema, no romance, no teatro, eu vejo o sofrimento do personagem, me identifico com ele e me desenvolvo a partir dessa experiência.”

A música também ocupa espaço central na visão de Bottura sobre saúde emocional. Além de psiquiatra, ele compõe canções e estuda os efeitos da música no comportamento humano. Cantar e dançar são atividades que favorecem vínculos afetivos e bem-estar. “Não precisa cantar bem. Precisa cantar”, afirmou. “Cantar aproxima pessoas.”

O médico ressalta que a música pode ajudar a reduzir o estresse, fortalecer relações sociais e estimular a curiosidade, fator que considera essencial para a vitalidade ao longo da vida. “Quando eu não tenho mais curiosidade, eu morro”, disse.

A importância de ser quem se é

Bottura resumiu sua visão sobre saúde mental e desenvolvimento humano. Para ele, a vida emocional não se resolve apenas com diagnósticos ou medicamentos. O processo envolve também autoconhecimento, expressão e relações afetivas. “A coisa mais importante da nossa vida é saber ser a gente mesmo”, afirmou. “As pessoas precisam se permitir expressar seus sentimentos, suas opiniões, o que vem da sua alma.”

Na avaliação do psiquiatra, atitudes simples — como cultivar vínculos, manter curiosidade e abrir espaço para a arte — podem contribuir de forma significativa para o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

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Dez Por Cento Mais: Carol Campos, do Vozes da Educação, fala da culpa que atravessa a maternidade

“Nasce alguém, nasce a culpa.”

A cada geração, a régua da maternidade muda — e quase sempre sobe. Se antes o desafio era garantir a sobrevivência dos filhos, depois veio a exigência de fazê-los trabalhar, formar família ou conquistar independência. Hoje, soma-se a tudo isso a pressão por desempenho profissional, equilíbrio emocional e presença constante. A culpa, diz Carol Campos, acompanha essa trajetória histórica e se instala como parte do modo de existir feminino. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Professora, advogada, mestre em políticas públicas e diretora executiva do Vozes da Educação, Carol analisa como a culpa atravessa a maternidade contemporânea, a escola e o esgotamento feminino.

Culpa que não depende do erro

Para Carol, a culpa não surge apenas quando algo dá errado. Ela aparece, inclusive, quando tudo parece funcionar. “Quando tudo está funcionando, a gente pensa: ‘Nossa, por que que eu não tô fazendo melhor?’ E aí a culpa vem ainda mais forte.”

Segundo ela, mulheres foram socializadas para se cobrar permanentemente. “A gente aprendeu na nossa sociedade que nós nunca somos bons o suficiente.” No ambiente profissional, relata, a exigência é elevada. “Enquanto profissionais, a gente tem que se provar 10 vezes mais do que um homem.” Em casa, a cobrança se amplia: sucesso não é apenas carreira consolidada, mas também família harmoniosa.

Carol observa esse padrão na própria empresa, formada apenas por mulheres. “Não tem uma que fale para mim: Eu acho que eu não fiz bem o suficiente.” Ela compara com experiências anteriores em equipes mistas e afirma que o nível de detalhamento e autocobrança costuma ser maior entre elas. Para a entrevistada, trata-se de um traço aprendido desde a infância.

Escola, mães e a sobrecarga invisível

A escola, na avaliação de Carol, ainda reforça essa sobrecarga. Comunicados, cobranças e convites são, em geral, direcionados às mães. “Mensagem na agenda ou no aplicativo, vai para a mãe.” Ela questiona a ausência paterna nas interações formais: “O grupo de WhatsApp da escola é de mães, é o grupo das mães. Cadê os pais?”

A crítica não ignora a responsabilidade masculina, mas aponta um padrão institucional. Para ela, pequenas mudanças — como incluir pai e mãe igualmente nas comunicações — já alterariam a dinâmica.

Carol também chama atenção para a tendência de famílias buscarem escolas com perfis semelhantes aos seus. “Escola é espaço de diversidade.” Ao restringir a convivência a grupos com valores e condições socioeconômicas parecidos, perde-se a oportunidade de ampliar repertórios. A diversidade, argumenta, faz parte do processo formativo.

Falha ou esgotamento?

Quando se fala em crise da parentalidade, Carol vê dois fatores combinados. De um lado, a comparação constante entre mães. “Existe uma culpa velada.” De outro, o isolamento na criação dos filhos. “A gente entendeu que cada um tinha que criar seu filho.” Para ela, isso contraria a história humana. “Crianças sempre foram criadas no coletivo.”

A ausência de rede de apoio gera esgotamento. Carol defende a construção de comunidade, seja presencial ou à distância. “Se a gente faz tudo sozinha, a gente vai esgotar, não tem jeito.”

Ela também aborda o conceito de “mãe suficientemente boa”. A expressão, conhecida na psicologia, ganha contornos práticos em sua fala. “Eu tive que aprender que tava tudo bem eu ser essa mãe.” Mãe que trabalha, que esquece a cartolina, que compra pão de queijo na padaria para a festa da escola. Para ela, reconhecer limites é parte do processo.

Aprender a mudar

Um episódio pessoal marca essa virada. Ao ajudar o filho a lidar com uma frustração escolar, Carol percebeu, dias depois, que ele reproduziu a mesma estratégia para acalmá-la. “Mãe, vamos tomar uma aguinha, vamos respirar três vezes.” A cena, segundo ela, redefiniu sua forma de maternar.

Carol ressalta que o conhecimento sobre desenvolvimento humano é recente e ainda pouco presente na formação docente. “Criança tem manual de instrução.” Para ela, compreender o funcionamento do cérebro e das emoções transforma a relação entre adultos e crianças.

Vozes da Educação

À frente do Vozes da Educação, Carol atua com redes públicas e privadas em situações de emergência, como violência, bullying e crises climáticas. Também desenvolve projetos para fortalecer o vínculo entre família e escola. O objetivo, afirma, é criar ambientes mais seguros e harmoniosos.

Para encerrar, ela deixa duas recomendações. Às escolas, investir no relacionamento com as famílias. Às famílias, buscar informação qualificada sobre parentalidade. “Tem jeito certo e tem jeito errado de criar filho. E é muito bom quando a gente vai pelo certo.”

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Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify. A apresentação é de Abigail Costa e a produção de Amanda Alves Costa.

Dez Por Cento Mais: Leny Kyrillos explica por que você falou, falou e não disse nada

“Comunicação não é o que sai da minha boca. Comunicação é o que chega no seu ouvido.”

Uma conversa pode terminar em cooperação ou em conflito antes mesmo de o assunto ficar claro. O motivo, diz a fonoaudióloga Leny Kyrillos, está menos no conteúdo e mais no impacto que provocamos no outro: “É já nos primeiros segundos de contato que o outro gosta ou desgosta, confia ou desconfia”. O tema foi assunto de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Leny contesta um dos mitos mais repetidos sobre o tema. “Existe meio que um mito que comunicação é dom”, afirma. Para ela, essa crença atrapalha porque desestimula treino e desenvolvimento. “Nós todos, sem exceção, temos a oportunidade de desenvolvermos, de apurarmos essa competência.”

Quando a comunicação vira gatilho de conflito

Leny descreve a comunicação como um processo que cria percepção. “Quando nós nos comunicamos, nós construímos percepção.” E essa percepção tem três características que exigem atenção: acontece rápido, é inconsciente e gera reação.

“Assim que eu gero esse impacto, o meu interlocutor reage a mim.” Por isso, ela defende que não dá para terceirizar o efeito. “Nós percebemos que somos nós os responsáveis em gerarmos o impacto que a gente tá buscando.”

A consequência aparece no cotidiano, em cadeia. Leny explica como um estado emocional negativo pode distorcer a entrega e produzir respostas reativas: “Aquilo que eu digo e especialmente a maneira como eu digo, vai gerar um mal-entendido”. O desconforto não para ali. “O pobrezinho que passar perto de você depois desse processo, vai te pegar incomodada, chateada comigo, brava.”

Ela também chama atenção para o que fica preso na garganta. “Eu costumo dizer que a fala é terapêutica.” Segundo Leny, verbalizar ajuda a organizar emoção e regular o ambiente interno: “Na medida em que eu sinto algo e sou capaz de verbalizar aquilo que eu estou sentindo, eu consigo organizar a minha emoção”.

O trio que decide o que o outro entende

A percepção, explica Leny, nasce do encontro entre três grupos de recursos: verbal, não verbal e vocal. “O que constrói essa percepção é o resultado de um trio de recursos.” No verbal, temos palavras e organização da mensagem. No não verbal, postura, gestos, expressão e olhar. No vocal, velocidade, articulação, volume e tom.

Existe um pesquisa clássica que diz que 53% do impacto da comunicação está no não verbal, 38% no verbal e apenas 7% no vocal. Leny alerta sobre a interpretação errada que se costuma fazer diante desses dados publicados pelo doutor Albert Mehabian, da Universidade de Los Angeles. Os dados podem gerar distorção no comportamento do comunicador. Na explicação de Leny, o ponto central é a incoerência entre os sinais emtidios por esses recursos.

Ela dá um exemplo direto, com humor. Se alguém diz estar feliz, mas o rosto desmente, o rosto vence. “Você não vai acreditar, porque o não verbal grita mais alto do que o verbal.” E completa com uma cena comum: “Quantas vezes… a gente segura o palavrão na ponta da boca, mas a cara de brava e o tom agressivo, a gente não consegue disfarçar.”

Voz: identidade, corpo e emoção

Leny entra no território que domina há décadas: a voz. “A nossa voz é tão única quanto a nossa impressão digital.” Para explicar como produzimos nossa voz, a fonoaudióloga leva o ouvinte ao básico, sem perder a precisão: “Nós temos um tubo no pescoço que se chama laringe, dentro desse tubo tem as tais das cordas vocais”.

Ela conta que se decepcionou ao ver a estrutura pela primeira vez. “Eu tinha uma imagem mental… de umas oito cordas vocais… e quando eu fui lá… eu tive uma grande decepção, porque se trata… de uma estrutura extremamente simples.” São duas, em formato de V. O som nasce fraco e é ampliado pelas cavidades de ressonância: garganta, boca e cavidade nasal.

A voz, diz ela, revela três dimensões: física, psicoemocional e sociocultural. “Existem três dimensões que impactam nas nossas escolhas de produção de voz.” Corpo influencia o grave e o agudo. Personalidade colore o tom. Ambiente social marca o jeito de falar. “Quando eu utilizo a minha voz, eu te dou informações muito sólidas sobre essas três dimensões.”

Leny ainda demonstra como pequenos ajustes mudam a impressão de quem escuta — nasalidade, foco na garganta, retirada de ressonância. E mostra que, em certos contextos, a “distância” vocal pode ser uma escolha estratégica. “Às vezes, minha querida, isso é desejável.”

Inteligência artificial imita, mas não copia

O tema da voz leva inevitavelmente à tecnologia. Leny reconhece os avanços e cita aplicações importantes para pessoas que perderam a fala. “Eles conseguiam sintetizar a voz da pessoa… e esse texto seria lido com a voz sintetizada dela.”

Ela também relata um teste pessoal, com uma frase conhecida do rádio. “Eu gravei… eu falando a minha entrada habitual que é: ‘Boa tarde, Sardenberg. Boa tarde, Cássia. Boa tarde a todos’.” A semelhança enganou por alguns segundos, mas não sustentou. “Dá para perceber que não é a mesma coisa… era uma entonação diferente, uma pausa em lugar que habitualmente eu não utilizaria.”

No meio da entrevista, Abigail compartilha uma cena de supermercado: o Gerente fala, fala, e a Caixa resume o problema de forma certeira. “Falou, falou e não comunicou nada.” A conclusão puxa um conceito que Leny endossa: “Comunicação não é o que sai da minha boca.”

Para chegar mais perto do que o outro precisa, Leny coloca a escuta como condição: “Não dá para eu me comunicar bem sem escutar, sem perceber quem é você, quais são os seus anseios, o que você precisa naquela relação de comunicação comigo. Quanto mais eu tiver dados sobre isso, ou seja, quanto mais eu estiver aberta a uma escuta empática, ativa direcionada, mais eu consigo direcionar minha fala para atingir a sua necessidade”.

A conversa que você tem consigo mesmo

Leny amplia o tema para dentro da cabeça. “Eu quero chamar a atenção… para aquilo que a gente chama de autofala.” Ela cita frases comuns e duras que sabotam atitudes: “Ai, que burra… Ai, que droga… Ai, que medo que eu tô sentindo.”

E conecta pensamento, emoção e comportamento: “Cada pensamento que nós temos gera em nós uma emoção e essa emoção gera em nós uma atitude.” Depois, apresenta a “via de mão dupla”: atitude também mexe com emoção e pensamento. “A nossa atitude comunicativa também impacta… na nossa emoção.”

Ela descreve uma cena da TV: o repórter em um dia ruim, mas tendo que entrar ao vivo. Faço o quê? A orientação é prática: postura, voz, articulação, sorriso. O efeito vem na sequência em forma de agradecimento: “Nossa, Leni, você sabe que eu tô me sentindo melhor?” Para Leny, o corpo também informa o cérebro.

Ao fim da conversa, ela deixa um convite. “O convite é para que a gente procure desenvolver uma boa comunicação nas nossas relações.” E amarra com uma frase que aponta responsabilidade: “Uma boa comunicação é o resultado de algo que vem de uma boa pessoa. Então, que a gente se dedique a nos tornarmos seres humanos cada vez melhores, identificando os nossos pontos fortes e colocando-os a serviço das pessoas que estão ao nosso redor, porque o nosso talento tem que ser direcionado e colocado a serviço do outro”.

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Dez Por Cento Mais: psiquiatra Maria Carol Pinheiro pede atenção para o “corpo que para” com a mente em alerta

“Saúde mental não é sobre estar feliz, é sobre estar inteiro.”

Maria Carol Pinheiro, psiquiatra

Janeiro costuma ser vendido como recomeço, lista de metas e agenda em branco. Para muita gente, ele chega com outro pacote: exaustão. O corpo desacelera, o calendário vira a página, e a cabeça continua correndo, como se não tivesse recebido o aviso de que o ano mudou. Esse descompasso — entre o que a gente faz e o que a gente sente — é o centro da conversa com a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carol Pinheiro no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Maria Carol propõe uma pergunta simples, que costuma desorganizar certezas: quando falamos de saúde mental, o que separa “estar saudável” de “estar doente”? Para ela, o ponto de virada não está na ausência de tristeza ou angústia, e sim na liberdade. “Se eu posso escolher, isso é saudável. Agora, se eu estou aprisionado, se eu não consigo escolher, aí seria o adoecimento”, afirma.

A ideia contraria uma fantasia comum: a de que saúde mental seria viver sem oscilações. Na prática clínica, ela diz encontrar o oposto. “Eu já conheci pessoas que não têm angústia, que não encostam na tristeza… Essas pessoas não têm saúde mental.” Na visão dela, a vida psíquica inclui sentir e atravessar emoções — sem paralisar nelas.

Quando a dor faz parte da saúde

A psiquiatra chama atenção para um erro frequente: tratar sofrimento como sinônimo de doença. “Às vezes a gente está passando por períodos de sofrimento que nos tornam mais nós mesmos.” O problema, para ela, é a interrupção do movimento interno: “O adoecimento é a paralisação disso.”

É nesse ponto que Maria Carol critica a pressa em etiquetar sentimentos. Ela defende que o primeiro passo não é colecionar diagnósticos, e sim perceber o básico: “A gente precisa fazer dois diagnósticos: tudo vai bem comigo; algo não vai bem comigo. É isso que importa.” O nome técnico, se for necessário, entra depois — com acompanhamento profissional.

Ao falar do excesso de informação (especialmente nas redes), ela descreve um tempo em que “estamos adoecidos do tempo” e resume a consequência: “A gente tem desaprendido de descansar.” Descansar, para ela, não é só dormir. Existem cansaços diferentes: “cansaço social”, “cansaço sensorial”, “cansaço mental”, “cansaço emocional”, “cansaço criativo” e “cansaço espiritual”. A chave prática, ela diz, é observar funcionalidade e recuperação: “Quando eu descanso, passa? Eu realmente consigo descansar e passar?”

A conversa também toca numa confusão atual: o impulso de anestesiar o que dói — e, com isso, perder algo importante do próprio viver. Maria Carol lembra que “tirar a dor é tirar a vida” e cita uma medida simples para checar exageros: “Fique atento a tudo aquilo que é desproporcional ao tempo presente.” Quando a reação é grande demais para o fato de agora, pode haver “emoção de outro tempo” pedindo investigação.

No fim, ela amarra janeiro a uma metáfora antiga: Janus, o deus romano de duas faces, olhando passado e futuro. A ideia é direta: recomeço sem revisão vira repetição. E a revisão, segundo ela, passa por uma espécie de liderança interna — disciplina sem brutalidade. “Não existe liberdade sem disciplina”, afirma. E cita Kant: “Liberdade é também fazer o que não se quer.”

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