Avalanche Tricolor: o passado no banco, a realidade em campo

Botafogo 3×2 Grêmio
Brasileiro — Nilton Santos, Rio de Janeiro

Gremio x Botafogo

Havia duas lendas no banco do Grêmio nesta noite no Rio de Janeiro.

Luiz Felipe Scolari, que conquistou alguns dos principais títulos da nossa história, entre eles o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América.

E Renato Portaluppi, protagonista das maiores conquistas já alcançadas pelo Grêmio, técnico mais vezes campeão pelo clube — ao lado de Oswaldo Rolla — e único a merecer, até agora, uma estátua de bronze na Arena.

Somados, Felipão e Renato conquistaram 17 títulos como treinadores do Grêmio. Acrescente mais cinco à conta de Renato como jogador, incluindo o Mundial Interclubes de 1983.

A imagem dos dois lado a lado, exatamente na semana em que o Grêmio completou 123 anos de fundação, era suficiente para acelerar o coração. A emoção tomava conta do torcedor e trazia uma tremenda saudade dos tempos em que a ideia da imortalidade se materializava nos gramados do Brasil e do mundo.

Iludidos que somos, apesar de todas as limitações que nos acompanham ao longo do ano, chegamos a imaginar que alguma energia vinda do passado contaminaria o time. Quem sabe resolveria nossos problemas, mesmo que por apenas uma noite.

O Grêmio saiu atrás no placar e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo. Parecia o início da virada. A realidade, porém, se impôs. Permitimos que o Botafogo abrisse dois gols de vantagem e, mesmo assim, continuávamos olhando para o banco de reservas, à espera de alguma intervenção sobrenatural.

O gol milagroso até surgiu. A tecnologia, porém, impediu que ele se realizasse.

A realidade já não permite tamanho romantismo. Quando a bola começa a rolar, as limitações do elenco e a fragilidade tática ficam escancaradas. O time parece ter evoluído muito pouco desde o início da temporada. Faltam organização, segurança e capacidade de reagir sem depender de um lance fortuito ou de alguma lembrança gloriosa.

Felipão e Renato carregam uma parte fundamental da grandeza do Grêmio. Representam aquilo que fomos e tudo o que ainda desejamos voltar a ser. Só não podem entrar em campo. Nem suas histórias são capazes de marcar, organizar a defesa ou corrigir os erros de um time sem rumo.

Para escapar da situação em que estamos, será preciso muito mais do que a força mística de nossos ídolos. O passado pode inspirar, aquecer o coração e até alimentar a esperança. Quem precisa salvar o Grêmio, porém, está no presente.

E, por enquanto, o presente não está à altura da nossa história.

Avalanche Tricolor: o plano era perder, só pode!

Grêmio 1×2 Vasco

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Chapecoense
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Peço desculpas à direção do Grêmio e ao técnico Luís Castro. Durante quase duas horas, interpretei como incompetência aquilo que, agora percebo, era estratégia.

O Grêmio não perdeu de virada para o Vasco por acaso. Havia um plano. Um plano ousado, engenhoso e, sobretudo, perigosíssimo: ajudar a empurrar o Internacional para a Série B, mesmo que, para isso, sacrificássemos nossa permanência na Série A.

O primeiro tempo já oferecia pistas da artimanha. O Vasco, que nunca havia vencido na Arena, estava havia um ano sem ganhar fora de casa e entrou em campo na zona de rebaixamento, era o adversário perfeito para o projeto.

O Grêmio fez sua parte. Recuou, cedeu espaços e permitiu que os cariocas chutassem várias vezes contra nosso gol. O Vasco, porém, parecia não ter sido avisado do acordo. Atacava, finalizava e errava. Há adversários que não colaboram nem quando a gente estende o tapete, abre a porta e aponta o caminho.

Foi então que aconteceu o imprevisto.

Mesmo sem atacar muito, o Grêmio marcou.

Confesso que temi pelo fracasso da operação. Um gol gremista não estava no roteiro. Poderia dar confiança ao time, animar a torcida e, num descuido ainda mais grave, produzir uma vitória. Seria um desastre para os objetivos ocultos da tarde.

No intervalo, Luís Castro certamente precisou reorganizar a estratégia. Se o Vasco não conseguia vencer sozinho, seria necessário ajudá-lo um pouco mais.

Veio, então, o movimento decisivo. O treinador colocou Nardoni no meio-campo e despachou Krovinović, o jogador mais criativo da equipe, para a ponta direita. Ali, isolado e distante da região onde poderia pensar o jogo, ele deixou de representar perigo.

Foi uma jogada de mestre.

De um só golpe, Luís Castro facilitou a retomada dos ataques do Vasco e reduziu drasticamente o risco de o Grêmio fazer outro gol. O tabuleiro estava montado. Faltava apenas o adversário compreender seu papel.

Com algum atraso, o Vasco compreendeu.

Vieram o empate e a virada. O passe de Nardoni no pé do adversário, no segundo gol, não foi erro. Foi planejamento. A Arena assistiu à conclusão de uma obra cuidadosamente construída: a primeira vitória vascaína naquele estádio, o fim de um jejum de um ano sem ganhar fora de casa e três pontos fundamentais para complicar ainda mais a vida do Internacional.

Parte da torcida não percebeu a grandeza do projeto e vaiou. Foi injusta.

As vaias tratavam a derrota como se tivesse sido provocada por erros, desorganização ou escolhas incompreensíveis do treinador. Faltou enxergar mais longe. O verdadeiro gremista precisa aceitar alguns sacrifícios. Se o preço para ajudar a derrubar o Internacional for entregar três pontos ao Vasco, colocar em risco nossa própria campanha e flertar com a mesma Série B, que assim seja.

Rivalidade exige desprendimento.

O Grêmio decidiu que não basta ver o vizinho cair. É preciso acompanhá-lo até a porta, carregar suas malas e, se necessário, entrar junto no elevador.

Seremos rebaixados? O risco é grande.

O Internacional também correrá esse risco? Então o plano terá valido a pena.

Parabéns à direção e à comissão técnica. Onde a torcida enxergou uma derrota vergonhosa, agora identifico estratégia, renúncia e devoção à causa.

Só faço uma recomendação: na próxima vez, avisem antes.

Assim, não desperdiço meu tempo sofrendo diante da televisão.

Avalanche Tricolor: o campo escurece o que o algoritmo iluminava

Vitória 1×0 Grêmio
Brasileiro — Barradão, Salvador (BA)

Campeonato Brasileiro - Vitória x Grêmio - 07/09/2026
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Durante quatro dias, minhas redes sociais foram inundadas pelas imagens da vitória gremista no clássico pela Copa do Brasil. Eram os gols de Carlos Vinícius, os desarmes de Kannemann e as molecagens de Amuzu, driblando e cruzando de cara virada. Havia torcedores dançando valsa nas arquibancadas e jogadores exibindo alegria no vestiário.

O algoritmo agia a meu favor. Enchia de dopamina a mente do torcedor e me fazia acreditar que a história começava a ser reescrita nesta temporada. Depois da classificação para a semifinal da Copa do Brasil, viria a redenção no Brasileiro. Abrir o celular era motivo de satisfação — e retenção.

Assim foi durante o fim de semana e boa parte deste feriado de 7 de setembro. Ao menos até a bola começar a rolar na penumbra do Barradão, em Salvador.

A luz que atingiu nosso goleiro antes mesmo do apito inicial, derrubando-o no gramado, parecia um prenúncio: o brilho tricolor exibido nas redes sociais estava prestes a dar lugar à escuridão.

No primeiro tempo, mesmo oferecendo espaços para o adversário, o Grêmio se portou bem quando avançava. O meio de campo trocava passes, e as bolas esticadas encontravam seu destino. Faltava transformá-las em chutes a gol — detalhe que, no futebol, costuma separar intenção de perigo, expectativa de realidade.

Ainda havia em campo uma sombra do time que nos havia alegrado na quinta-feira. Era apenas sombra.

No segundo tempo, a realidade ficou escancarada. Mal atacávamos e nos defendíamos como era possível. O futebol mediano praticado pelas duas equipes não fluía. Em uma partida mergulhada na falta de criatividade, foi premiado quem demonstrou algum ímpeto para avançar.

O Grêmio segue sem vencer fora de casa no Brasileiro, uma competição de pontos corridos que já chegou à 25ª partida. A situação só não custa mais caro porque a concorrência também tropeça. Há uma multidão tentando fugir do escuro, e ninguém parece saber exatamente onde fica o interruptor.

A classificação na Copa do Brasil permanece. A vitória no Gre-Nal também. Não foram invenções do algoritmo. O problema é que aquelas imagens mostravam apenas a parte iluminada de um time que ainda convive demais com as próprias sombras.

Agora, por favor, deixem-me voltar à ilusão das redes sociais.

Avalanche Tricolor: não basta ser Gigante, é preciso ser Imortal

Grêmio 3×1 Internacional
Copa do Brasil — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Grenal 454
Carlos Vinícus marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eram 56 mil pessoas lotando a Arena nesta noite mágica de quinta-feira. Uma multidão majoritariamente gremista tomou conta das arquibancadas. O 3 de setembro de 2026 entra para a história como a data do maior público desde a inauguração do estádio — sim, esta Arena é verdadeiramente nossa.

O recorde dá a dimensão do Gre-Nal que estava em disputa.

Não valia apenas uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Não valia somente mais uma vitória para as estatísticas dos 454 clássicos disputados desde 1909. Valia muito mais.

Os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul entraram em campo para defender a própria sobrevivência no futebol.

Uma derrota, naquele momento, diante do arquirrival, poderia representar o fim de uma história de glórias. A derrocada definitiva. A pá de cal sobre um clube que enfrenta enormes dificuldades financeiras. O risco de ver ruir um legado vitorioso, construído por gerações e transformado em motivo de orgulho para seus torcedores.

Era isso que estava em jogo.

E, se a disputa era pela sobrevivência, não bastava ser Gigante. Era preciso ser Imortal.

Empurrado pela torcida, o Grêmio correspondeu com eficiência e bravura. Marcou com firmeza, ocupou os espaços e contra-atacou ainda melhor.

O primeiro gol nasceu de um escanteio e terminou nos pés de Carlos Vinícius, o atacante redivivo. Havia oito partidas que ele não marcava. Nesta noite, matou a fome. Insaciável, voltou a balançar a rede 20 minutos depois.

O segundo gol foi resultado de uma jogada veloz, construída com passes precisos e a participação de Amuzu pelo lado esquerdo. O ponta belga, que ainda devia uma atuação à altura das expectativas, também renasceu com a camisa do Grêmio. Puxou o contra-ataque e deu a assistência para Carlos Vinícius ampliar.

Amuzu guardaria sua melhor contribuição para o segundo tempo.

Aos 23 minutos da etapa final, Tetê avançou pela direita e tabelou com o belga. Dentro da área, Amuzu deu um passe à la Ronaldinho Gaúcho: olhou para um lado e tocou para o outro. Encontrou Krovinović, que driblou o marcador e bateu para fazer seu primeiro gol desde que chegou ao clube.

Sim, o croata também escolheu um Gre-Nal para começar a escrever sua história com a camisa do Grêmio.

O time soube sofrer. Weverton voltou a se destacar. Kannemann e Walace foram valentes na defesa. Diego Caito superou a dor provocada por uma lesão no ombro. Noriega dominou a frente da área. Villasanti manteve a firmeza nos desarmes.

O Grêmio de Luís Castro jogou como há muito tempo o torcedor exigia. Com organização, coragem e entrega. Cada jogador pareceu compreender que não estava em campo apenas para conquistar uma classificação. Lutava para impedir que uma parte da história do clube se perdesse naquela noite.

Um feito dessa dimensão, em um clássico que contrariou os analistas empenhados em prever um jogo mal jogado, aconteceu justamente no aniversário de Luís Castro.

O treinador português comandou a equipe quase sempre sob a desconfiança do torcedor. Corria o risco de deixar o clube sem construir vínculos nem deixar saudades. Nesta quinta-feira, também ele renasceu. Luís Castro nasceu para o Grêmio em um Gre-Nal.

A vitória não resolve todas as dificuldades. Não apaga os erros. Não faz desaparecer as dívidas nem garante o futuro. Apenas nos lembra que há clubes que atravessam a história pelo tamanho que alcançaram.

E há outros que sobrevivem porque se recusam a morrer.

O Grêmio está vivo.

Porque o Grêmio é Imortal.

Avalanche Tricolor: o Grêmio é um caso de divã

Grêmio 3×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Chapecoense
Gustavo Martins marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio saiu atrás na partida em que enfrentava o lanterna do Campeonato Brasileiro. Permitiu ao adversário finalizar 32 vezes contra seu gol, enquanto chutou apenas 12. Precisou de Weverton para impedir que a noite se transformasse em desastre. E contou com o voluntarismo de Gustavo Martins, o zagueiro que voltou ao time para marcar duas vezes na vitória deste domingo — apesar de haver quem insista que o primeiro gol tenha sido de Enamorado.

Ganhamos por 3 a 1.

E talvez nada explique melhor o Grêmio atual do que esse contraste.

Um time que vence por dois gols de diferença e termina a partida deixando a impressão de que poderia ter perdido. Que sofre diante do lanterna, dentro de casa, e ainda assim consegue construir uma vitória que lhe dá algum alívio no Brasileiro e ânimo para o jogo mais importante da semana.

Os três pontos nos levaram aos 28 e permitiram alguns passos à frente daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Ainda estamos distantes dos 45 pontos que, teoricamente, nos livrariam de qualquer risco maior. Ao menos deixamos para trás o arquirrival — o mesmo com quem disputaremos, na quinta-feira, uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

A situação do time e as circunstâncias de cada partida transformaram a vida do torcedor numa montanha-russa emocional.

Ainda no primeiro tempo, a Arena vaiava para, minutos depois, aplaudir. O gremista roía as unhas a cada ataque da Chapecoense, mesmo quando já tínhamos vantagem no placar. Desesperava-se com os erros de passe no campo defensivo, que ofereciam ao adversário oportunidades para nos atacar, e logo depois comemorava com Wallace cada corte providencial de nosso promissor zagueiro.

Weverton fazia defesas que mantinham a vantagem. Gustavo Martins, escalado para impedir gols, aparecia na área adversária para fazê-los. Pavón, tantas vezes contestado, marcou um golaço e ainda cobrou o escanteio para o terceiro. O Grêmio sofria. O Grêmio fazia sofrer. E o Grêmio vencia.

Contradições.

Quando o árbitro apitou pela última vez, a torcida fazia festa com os jogadores. A mesma torcida que havia vaiado durante a partida agora já vislumbrava a Arena cheia para o Gre-Nal decisivo de quinta-feira.

E, no meio da comemoração, uma pergunta continuava incomodando: afinal, o que Luís Castro está fazendo com esta equipe que, depois de tanto tempo, ainda parece incapaz de deslanchar técnica e taticamente?

Talvez seja justamente isso que nos desoriente.

Quando estamos prontos para desistir, o Grêmio vence. Quando começamos a acreditar, o Grêmio nos oferece 32 motivos para desconfiar. Quando parece frágil, encontra força. Quando deveria nos tranquilizar, nos atormenta.

E quinta-feira tem Gre-Nal.

O Grêmio me deixa louco.

É um caso de divã.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está na briga

Internacional 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 453
Carlos Vinicius travou boas batalhas Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na tela da TV, o Gre-Nal. Na do celular, a entrevista de Lula, na Globo. Na do computador, o planejamento para a última sabatina com os candidatos à Presidência, que farei amanhã, aqui no Rio.

O momento é de decisão.

No campo, a dupla gaúcha disputava quem permaneceria vivo por pelo menos mais uma etapa da Copa do Brasil. Na política, o calendário avisa que faltam pouco mais de 30 dias para o eleitor fazer sua escolha.

Era preciso estar atento a tudo. Não vacilar. Foco total. No caso, multifoco.

Foi em meio a essa tensão que assisti ao clássico.

No primeiro tempo, fui surpreendido pelo Grêmio. Krovinovic deu qualidade ao passe. O time teve mais organização, ocupou mais os espaços e jogou melhor do que vinha jogando até aqui. Não que precisasse fazer muito para superar as últimas atuações.

Apesar da superioridade, chutou pouco a gol. E quem não faz só não leva se tiver força suficiente para se defender. Foi aí que o Grêmio mostrou algo de que o torcedor não pode reclamar nesta quarta-feira: entrega.

Deu pouco espaço ao adversário. Não havia bola perdida. Cada disputa parecia valer um pouco mais. E, quando a técnica se calou, a alma falou mais alto.

No segundo tempo, o Grêmio caiu de rendimento. Foi pressionado e teve dificuldades para sair jogando. Ainda assim, soube sofrer. E soube se defender. Isso também é mérito. Depois do que temos visto, é até motivo para comemorar.

Chegar vivo à Arena era o principal objetivo. Objetivo alcançado. Agora teremos uma semana para descobrir algo que continua desaparecido: o caminho do gol.

O jogo terminou empatado.

A entrevista, também.

Avalanche Tricolor: que se realize o desejo da comissária de bordo

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Bragança Paulista, SP

RB Bragantino x Grêmio
Krovinovic arma a jogada em foto de Fernando Roberto/GRÊMIO FBPA

Os compromissos profissionais me obrigaram a estar no aeroporto de Congonhas, na capital, enquanto o Grêmio enfrentava o Bragantino, no interior de São Paulo. Assisti ao jogo na tela do celular. O sinal era tão instável quanto o futebol gremista. Fato que me fez pensar que a derrota já estava decretada nos minutos iniciais. Só pude ver a comemoração adversária. Da anulação do gol fiquei sabendo apenas minutos mais tarde.

Antes tivesse valido aquele gol. Quando as coisas já dão errado no início, temos pouco a lamentar. E a ilusão nem chega a se criar no imaginário do torcedor. Verdade que o futebol do primeiro tempo não me permitia alimentar muita esperança de melhora.

No intervalo, sentei para tomar um café no saguão do aeroporto. Um frei salesiano sentou-se ao meu lado. Ele se apresentou. Eu também. Trocamos cumprimentos e algumas palavras. Fiquei constrangido de dizer a ele que estava assistindo à partida. E, confesso, o bate-papo estava bem mais agradável.

Quando ele se foi, o segundo tempo já havia começado. O Grêmio dava sinais de melhora. E eu começava a acreditar que era resultado das bênçãos deixadas pelo frei. Nesta fase em que estamos, buscamos desesperadamente algum sinal de ajuda — mesmo que seja no campo espiritual. Até porque, no campo de futebol, as coisas estão bem complicadas.

Estava prestes a embarcar para o Rio de Janeiro, com as imagens do jogo dividindo a tela do celular com o cartão de embarque, quando tomamos o gol no minuto derradeiro. Foi um pecado. O empate teria sido o resultado mais justo. E, considerando o desempenho das demais equipes que ocupam a parte de baixo da tabela, até o pontinho que estávamos conquistando em Bragança me satisfaria.

A partida se encerrou logo em seguida. Sentei na poltrona do avião pensando na situação do Grêmio. Mesmo quando parece que o time começa a se ajustar, ainda nos ressentimos da falta de um futebol mais organizado. Apesar de termos sido reforçados por alguns jogadores de bom potencial, a equipe segue frágil ofensivamente, enquanto o setor defensivo se aglutina dentro da área e aceita a pressão adversária.

Já nos despedimos da Sul-Americana antes da hora; seguimos rondando aquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro; e teremos um clássico Gre-Nal pela frente na disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

Quando os piores pensamentos começavam a conspirar na minha mente, a comissária de bordo anunciou no alto-falante do avião:

“Desejamos a todos uma semana Azul.”

Cá estou eu, no quarto de um hotel, escrevendo para você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, e apostando que a mensagem é um sinal divino para que eu siga acreditando que alguma coisa boa está para nos acontecer.

Que aconteça logo!

50 debates para o Brasil: legalização de bingos e cassinos divide opiniões sobre controle e danos sociais

A legalização de bingos e cassinos coloca frente a frente duas promessas difíceis de conciliar: ampliar o controle do Estado sobre uma atividade que já existe na clandestinidade e evitar que uma oferta maior de jogos aumente os problemas provocados pela dependência. Esse foi o tema do “50 Debates para o Brasil”, série do Jornal da CBN que reuniu Wesley Cardia, advogado e ex-presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias, e Hermano Tavares, professor associado do Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador do Programa Ambulatorial do Jogo.

Cardia defendeu a legalização como instrumento de controle. Segundo ele, a proibição não impede a existência de cassinos e bingos clandestinos, que funcionam sem fiscalização, restrições de acesso ou pagamento de impostos. Para o advogado, regulamentar permitiria estabelecer regras para identificar jogadores, impedir o acesso de menores e ampliar a supervisão do poder público.

“A regulamentação faz com que haja um ordenamento que, no final das contas, impede todos os malefícios”, afirmou. Cardia usou como referência a experiência recente das apostas esportivas pela internet e argumentou que regras excessivamente restritivas também podem produzir efeito contrário ao pretendido, empurrando jogadores para plataformas ilegais.

Hermano Tavares contestou a ideia de que legalizar seja suficiente para reduzir os danos. Para o psiquiatra, quanto maior a oferta e a exposição ao jogo, maior o risco para pessoas vulneráveis à compulsão. Ele também criticou modelos nos quais as próprias empresas ficam responsáveis por identificar e limitar clientes com comportamento problemático.

“Isso aí é convidar a raposa para tomar conta do galinheiro”, disse. Na avaliação de Tavares, cabe ao Estado estabelecer mecanismos obrigatórios de proteção, incluindo limites para apostas, encerramento de contas de jogadores com sinais de compulsão e restrições à publicidade.

A propaganda, aliás, apareceu como um dos pontos centrais da divergência. Tavares chamou a atenção para a presença constante de anúncios de apostas em transmissões esportivas e para o uso de influenciadores na divulgação das plataformas. Segundo ele, a associação entre remuneração de divulgadores e perdas dos apostadores cria conflito de interesse e exige regras mais rigorosas.

Cardia sustentou que o mercado ilegal continuará existindo independentemente da proibição e que a política pública deve tornar o ambiente regulamentado suficientemente seguro e competitivo para reduzir a procura pela clandestinidade. Para ele, o desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio: fiscalizar sem criar restrições que acabem fortalecendo operadores ilegais.

Tavares colocou outro elemento nessa conta. Segundo sua experiência no tratamento de pessoas com transtorno do jogo, o aumento da oferta legalizada amplia a procura por atendimento. “Aumenta o jogo legalizado, aumenta em quatro vezes a demanda de tratamento”, afirmou. Por isso, defendeu uma regulamentação que obrigue as plataformas a informar periodicamente quanto o jogador ganhou e perdeu e estabeleça pausas compulsórias.

O debate deixa uma questão que vai além de ser a favor ou contra cassinos e bingos. Se o jogo já faz parte da realidade brasileira, a discussão passa também por definir quanto o país está disposto a permitir, quem fiscalizará a atividade e quem pagará a conta dos danos que ela eventualmente produzir.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: a volta do Imortal!

Grêmio 1×0 Mirassol
Copa do Brasil – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Mirassol

Pavón comemora o gol da vitória. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Se não for na bola, que seja na raça. Foi o que ouvi nesta noite de Copa, após conquistarmos a vaga às quartas de final. A frase é potente e inspiradora, mas não explica tudo o que o Grêmio fez na partida de hoje.

Houve, sim, muita entrega, marcação forte, botes certeiros e um esforço além do limite de cada um que esteve em campo. Pensar, porém, que a vitória se fez apenas dessa forma é esquecer a estratégia montada por Luís Castro, a postura do meio-campo e a velocidade e a precisão na troca de passes, em especial pelo lado direito do time.

Foi esse conjunto de ações que fez o Grêmio dominar o jogo a partir dos 15 minutos do primeiro tempo.

Na defesa, Wallace tem feito apresentações seguras. Dá sinais de que pode ser o zagueiro que estamos buscando há algum tempo. Funciona bem ao lado de Gustavo Martins.

Os volantes deram um passo à frente em relação à posição que vinham ocupando nas partidas anteriores. Assim, impediram que o adversário armasse suas jogadas. Noriega e Nardoni desarmaram. Villasanti também, e foi além. Organizou o jogo ao se aproximar dos atacantes.

Pelo lado direito, Diego Caito voltou a jogar bem na lateral. Tem feito boas apresentações desde que chegou ao time. E conseguiu se entender com Pavón, que ocupou a ponta em substituição ao lesionado Tetê. O argentino fez absolutamente toda a diferença.

Foi de Pavón o gol de falta — o raro gol de falta marcado pelo Grêmio — que nos deu a vitória. Nos amistosos durante a Copa do Mundo, ele já havia marcado em uma cobrança na entrada da área. Desta vez, foi com força e categoria. A bola passou pelo lado de fora da barreira e, em curva, seguiu em direção às redes.

Com a entrega que já conhecemos e um apuro maior nos dribles, passes e cruzamentos, Pavón mereceu todos os abraços e aplausos que recebeu. Assim como Marlon, que, do outro lado do campo, na lateral esquerda, anulou as tentativas de ataque do adversário, conduziu a bola à frente e simbolizou, com sua determinação, o que foi o Grêmio na noite desta quarta-feira.

No segundo tempo, sim, a raça foi maior do que a bola. O Grêmio e os gremistas sofremos, corremos riscos. Apesar disso, resistimos. E quem acompanha a trajetória do nosso time nesta temporada sabe o quanto isso nos fez falta em muitos momentos decisivos.

Passar à próxima fase da Copa do Brasil é importante para as pretensões do Grêmio — inclusive financeiras. Muito mais importante, porém, foi o time ter dado uma resposta ao torcedor que, há algum tempo, está à espera de uma mensagem de alento que o faça voltar a acreditar no mito da imortalidade que sempre nos moveu.

Nesta noite, vamos todos dormir acreditando: o Grêmio volta a ser Imortal!

Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.