Avalanche Tricolor: “aí vem o Grêmio!!!” e outros capítulos do rádio gaúcho

Aragua 2×6 Grêmio

Sul-Americana — Caracas/Venezuela

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os que tiveram o privilégio de ouvir transmissões de futebol na época de ouro do rádio gaúcho têm na memória o grito que marcava a entrada do time do Grêmio no estádio Olímpico. ‘Aí vem o Grêmio!!!’ — com direito ao alongamento de todas as vogais e tom de voz firme —- era a senha do repórter de campo João Carlos Belmonte para a explosão de alegria do torcedor que recepcionava seus jogadores aos gritos e sob foguetório. Ele ficava com microfone da Rádio Guaíba em punho ao lado da escadaria que dava acesso ao gramado e a medida que os jogadores se posicionavam em fila, citava nome a nome, e a cada nome o coração batia mais forte no nosso peito.

O ritual se repetia no Beira Rio com o time da casa —- e dizem as más línguas com uma pitada maior de alegria, reveladora; eu não concordo. Mas como esse espaço tem suas exclusividades, vou me ater a emoção que Belmonte provocava na nossa torcida. Era mágico. Transgressor. Porque seu olhar e palavras devassavam o escurinho do túnel, quase sagrado, tantos eram os ídolos que se reuniam a espera da batalha. Belmonte descrevia a movimentação dos jogadores, a conversa ao pé da orelha e os gritos motivacionais, tudo hoje naturalizado pelas câmeras de televisão e pelo insípido cerimonial de entrada em campo.

Quando Belmonte fazia do rádio magia, eu era  guri de manga curta, ouvinte e gremista encantado pelas palavras dele.

Vibrava no cimento do Olímpico acompanhando a festa comandada pelo repórter de rádio que mexia duplamente com a minha imaginação. Por torcedor que era e por jornalista que sonhava ser. Transformei-me repórter de campo anos à frente. Anos luz distante do talento de Belmonte e outras feras que fizeram o rádio gaúcho ser dos melhores do Brasil. Ele e a mulher Ligia —- recentemente falecida — eram amigos dos meus pais e faziam parte de um círculo de casais, ligados ao jornalismo, que saíam quase toda semana para jantar. Isso me gerou alguma intimidade com o Belmonte e com muita gente boa do meio. E colaborou para minha escolha de carreira.

Certamente, foi essa mesma convivência que fez Roberto Villar e o Caco Belmonte seguirem a carreira jornalística. Eles são os filhos da Ligia e do Belmonte e foram os responsáveis por convencer o pai a escrever suas histórias, curiosidades, estratégias e furos de reportagem no livro “Fala, Belmonte! Memórias do cronista esportivo”(Farol3 Editores). Um exemplar está aqui em casa, lido e guardado junto a outros três que deveriam, obrigatoriamente, fazer parte de um caixa literária sobre o jornalismo esportivo: “Olha Gente – As histórias de Lauro Quadros”, escrito pelo próprio; “Pedro Carneiro Pereira — O narrador de emoções”, de Leandro Martins, e, claro, “Milton Ferretti Jung. Gol, Gol, Gol, Um Grito Inesquecível na Voz do Rádio”, de Kátia Hoffmann.

Essa ‘coleção’ conta, em cada capítulo e livro, um pouco do que se fez no radiojornalismo e esportivo brasileiro, através da história de seus protagonistas —- dois deles dedicados à narração, Milton, o pai, e o Pedrinho; dois à reportagem e ao comentário esportivo, Lauro e Belmonte. Deve ser preservada porque traz a memória de um rádio que, mesmo permanecendo forte, já foi mais influente na opinião pública. Hoje, é inimaginável a cena de um repórter de campo regendo um coro de milhares de torcedores no ‘parabéns à você’ em homenagem ao jogador aniversariante com quem conversa ao microfone. Belmonte era capaz. 

É interessante saber como eram as jornadas internacionais em uma época pré-internet, a dificuldade de deslocamento, o improviso das estruturas e a qualidade com que se conseguia levar os fatos aos ouvintes, Em “Fala, Belmonte!” vale uma dedicação especial à cobertura do título Mundial do Grêmio, em 1983. Sim, Belmonte viveu intensamente aqueles momentos:

“Dias após o Grêmio conquistar a Libertadores de 1983, fui enviado ao Japão. Missão: desbravar Tóquio e remeter matérias à Rádio Guaíba e Correio do Povo, gravar um programa de uma hora para a TV2 Guaíba. Além disso, havia a missão ‘secreta’ de contratar linha 24 horas, disponível antes e depois do jogo final, conectando o nosso hotel e o estádio com a emissora em Porto Alegre”

Belmonte viveu e vive aqueles momentos, mesmo que aposentado. Conversei com ele dia desses para agradecer pelo envio do livro, oportunidade em que relembramos algumas passagens que teve com o pai. E na qual percebi que mantém uma das marcas de sua personalidade. Amigos mais próximos dirão que é a avareza — fama desmentida pelo próprio Caco Belmonte, no texto de introdução. Belmonte, para mim, além de referência jornalística, sempre foi um cara bem humorado. Alegre com o que fazia. E disposto a deixar seus ouvintes ainda mais felizes — como ficávamos lá no Olímpico, todas as vezes que ele anunciava: “aí vem o Grêmio !!!”

PS: sei que o caro e raro leitor desta Avalanche entenderá minha disposição de escrever sobre João Carlos Belmonte em lugar de ocupar este espaço, como sempre faço, com mais uma goleada gremista no exterior. A partida da noite de ontem era fava contada, apesar de ter me divertido muito em ver os guris brincando com a bola em campo. E o que importa mesmo nesta semana, vai acontecer domingo, em mais um Gre-Nal. Pena que o Belmonte não estará na beira do gramado para chamar a torcida ao delírio.

Conte Sua História de São Paulo: joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera

Márcia Perecin

Ouvinte da CBN

Foi no 10 de outubro de 1954 que nasci em uma maternidade na Lapa, de um casal apaixonado, unidos pelo destino, —- um do interior do estado e outro de Santa Catarina. Primogênita de seis lembro-me de ouvir falar na Rua Major Sertório, que deve ter sido um lugar importante para meus pais.  Após a segunda filha, meu pai nos levou a todos para Piracicaba.

Voltamos à capital em uma desesperada necessidade. São Paulo acolheu algumas das minhas irmãs, quando minha mãe se viu obrigada a nos deixar sob os cuidados de uma parente, abençoada, da Congregação das Irmãs Paulinas, hoje Santa Paulina, na Av. Nazareth. Uma foi para creche no Jabaquara. Eu fui para Ourinhos, com dois anos e meio; e outra para Avaré. Crescemos todas fortes e voltamos para Piracicaba.

Em 1972, fui convidada a jogar basquete por São Bernardo. Quando então começou minha andança na capital.

Conheci o ginásio na Vila Mariana, fiquei alojada no Baby Barioni, sempre que convocada para as seleções paulista e brasileira. Joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera, esse que agora querem destruir. Fiz corrida de revezamento no autódromo de Interlagos. 

Veterana passei por São Paulo jogando e dirigido equipes de várias cidades . A cada vinda para cá, destinos desconhecidos me aguardavam. Por Santo André fui até o SESI A.E.Carvalho, em Artur Alvim; e mesmo não sendo corintiana, me emocionei a primeira vez que vi a Arena de perto.

Nem só de esporte foram feitos os meus caminhos. Na Paulista, linda, visitei a Livraria Cultura, a Casa das Rosas. No Teatro Alfa, assisti a Billy Elliot; no Credicard Hall, Carmina Burana; no Revista, Ópera do Malandro; no Teatro Municipal, deslumbrante, O Cavaleiro da Rosa, nos transportando a outras épocas e nos fazendo sonhar com um mundo melhor, sem medos e com muito amor.

Márcia Perecin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: José Salibi Neto decifra o algoritmo da vitória

Foto de Pixabay no Pexels

“Eu acredito muito no potencial do ser humano. Eu já fui transformado alguma vezes. Mas você precisa ter alguém junto para te ajudar em alguma situação. E nesse caso é o grande treinador, o grande coach”, José Salibi Neto

O algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas. Mas nas relações humanas, regras e procedimentos não são perfeitamente definidos. Então, para fazer esse algoritmo rodar com resultados satisfatórios é essencial a figura do coach ou do treinador que tem de adaptar esse sistema a quem ele treina, ter engenhosidade para conectar essas duas pontas  — algoritmo e esportista — e converter problemas maiores em partes menores e mais simples de resolver.

Essa é a ideia central do trabalho desenvolvido por José Salibi Neto, ex-tenista, cofundador da HSM e dos maiores especialistas em gestão no país, e Adriana Salles Gomes, admiradora de esportes, especialmente dos cavalos de corrida, jornalista e craque em economia e negócios. Juntos, escreveram o livro ‘O algoritmo da vitória” (Planeta Estratégia), após cinco anos de muita pesquisa, leitura e entrevistas com alguns dos melhores técnicos esportivos do mundo. 

José Salibi Neto falou do resultado deste projeto e de como aplicá-lo na gestão de negócios, no programa Mundo Corporativo, da CBN. E falou  com o mesmo entusiasmo da época em que, jovem e estudante na Universidade da Carolina do Sul, entrava em quadra com o sonho de ascender ao topo do ranking mundial. Na época nem tudo saiu como ele planejava, por isso teve se transformar algumas vezes —- como destacado na frase que abre este texto. O esporte, no entanto, virou lição e metáfora para a sua carreira:

“O CEO na verdade é o técnico do time dele, ele é o grande coach. Tem que colocar os jogadores certos nas posições certas. Desenvolver a cultura do time. Fazer o treinamento. Analisar cada um dos seus comandados para ver quais são os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Então, esses grandes treinadores, eles são muito cuidadosos nisso porque eles não podem errar”

Um líder de excelência é capaz potencializar os talentos que têm em seu time. Foi o que fez Larri Passos com Gustavo Kuerten, um jovem de grande talento mas que tinha sua vida marcada por uma série de intempéries que poderiam tirá-lo completamente do foco da carreira vitoriosa que construiu. 

“O caso mais dramático foi o caso do Guga, porque ele tinha tudo para dar errado, perdeu o pai em uma quadra de tênis, aos nove anos, a mãe era assistente social, o irmão necessidade de ajuda constantes devido a problemas de saúde e ele vivia em uma cidade sem tradição no esporte”. 

Para se entender o algoritmo da vitória explorado por técnicos de grande sucesso nos mais diversos esportes, José Salibi e Adriana o dividiram em oito etapas:

  1. Encantar — aqui contam os critérios para recrutar talentos, desenvolver atletas, criar neles autônoma e amor pelo que fazem
  2. Kaizen mental — é preciso balancear foco e relaxamento, e trabalhar tanto mente como corpo: “no mundo empresarial ninguém se importa com isso”
  3. Time escalador — é necessário montar um time com pessoas complementares, em talento, em personalidade, em experiência e em energia; e saber construir confiança e controlar o ego
  4. Código de Comunicação —- palavras, imagens e gestos são códigos que precisam ser criados com seus atletas; entender qual o momento adequado para transmitir a mensagem: “às vezes você mata o talento na maneira de se comunicar”
  5. Estrategizar — o técnico precisa pensar estrategicamente, planejaras diversas etapas, priorizar resultados e competições ao longo da temporada, identificar alternativas
  6. Ambiente de crescimento —- tem de alternar estabilidade e mudança para que os atletas aprendam e cresçam; pensar em processos, relacionamentos, estruturas etc
  7. Aprendizado — o algoritmo dos técnicos precisam ser constantemente atualizados
  8. Algoritmo —- é preciso criar o próprio algoritmo, etapa por etapa, e saber rodá-lo no ‘hardware’ que é onde entrar o dono da equipe e os dirigentes que precisam estar alinhados, acima de tudo, culturalmente.

O algoritmo da vitória virou uma metodologia que pode ser aplicar a qualquer empresa e a qualquer técnica, de acordo com José Salibi Neto:

“No mundo empresarial tem de desenvolver essa mentalidade de coach. O Jorge Paulo Lemann faz isso muito bem. Veja quantos líderes ele conseguiu desenvolver. Ele se considera muito mais um diretor de recursos humanos do que CEO. Se você não desenvolver as pessoas, você não tem resultado”

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, às 11 da manhã, no site da CBN, no canal do YouTube e no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal. da CBN; aos domingos, às dez da noite; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti. 

Arquivo Guaíba faz homenagem a Milton Ferretti Jung, que completaria 85 anos

De uma crônica que jamais havia ouvido, de gritos de gols inesquecíveis, de narrações que contam a história da humanidade e de histórias que foram contadas na minha intimidade —- o programa Arquivo Guaíba, que foi ao no sábado, dia 31 de outubro, me fez reviver as mais diversas passagens do pai pelo rádio brasileiro —- foram 60 anos dedicados e respeitando o microfone, dos quais quatro na rádio Canoas e os demais 56 na Guaíba.

A homenagem se deu pela passagem do aniversário de Milton Ferretti Jung que completaria 85 anos, no dia 29 de outubro. Como você sabe, caro e raro leitor deste blog, o pai morreu no ano passado, no dia 28 de julho. Assim, aproveito a generosidade de Luis Magno e da equipe de profissionais da rádio Guaíba que relembraram alguns dos momentos da carreira dele para reproduzir o programa aqui entre nós,, nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, dia que dedicamos aos mortos que permanecem na nossa memória.

Antes de clicar no arquivo para ouvir o programa, me permita dizer muito obrigado aos profissionais que se dedicaram a fazer esta homenagem e aos ouvintes que sempre se referem ao pai com muito respeito e carinho:

O programa apresentado pelo jornalista Luis Magno foi criado em maio deste ano e explora o rico arquivo de áudio que a rádio Guaíba ainda preserva no prédio da rua Caldas Junior, centro de Porto Alegre. Vai ao ar aos sábados à noite, tem produção de Pedro Alt, edição de Davis Rodrigues, com José Moacir Bittencourt responsável pelos arquivos.

Minha estreia no futebol da Guaíba, ao vivo, da sala do seu Oquelesio

 

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Foto: Pixabay

 

Era o ano de 1986. Mauro Galvão, um dos grandes zagueiros que o Brasil já teve, faria a sua estreia na seleção brasileira. Eu faria a minha no futebol da rádio Guaíba de Porto Alegre. Já trabalhava na casa há uns dois anos, mas no que costumavam chamar de esporte amador — esporadicamente fazia uns “frilas” no futebol. E assinava as reportagens como Mílton Júnior, para que não houvesse confusão com o nome do pai, já que ele, o Milton Jung original, era também narrador esportivo da emissora.

 

Minha primeira tarefa no futebol: assistir ao lado da família do zagueiro, que na época jogava no Internacional de Porto Alegre, à primeira partida dele com a amarelinha da seleção. Era um jogo amistoso, se não me engano em Goiânia, Goiás.

 

Cheguei na casa da família Galvão que ficava próxima do estádio colorado e fui recebido por seu Oquelesio, pai do Mauro, de braços abertos. Ele lembrava do tempo em que eu havia jogado ao lado do filho na escolinha de futebol do Grêmio — sim, Mauro sempre foi gremista apesar de ter iniciado carreira e ganhado títulos importantes no Internacional. A lembrança de seu Oquelesio, evidentemente, não se devida às minhas qualidades técnicas em campo, mas por eu ser filho de quem eu era —  e o pai sempre esteve presente nos nossos jogos.

 

Se para a família de seu Oquelesio a ansiedade era resultado da estreia de Mauro na seleção, a minha era pela oportunidade de participar de uma jornada esportiva que tinha no comando, como narrador, exatamente o meu pai.

 

Galvão estava no banco da seleção. Eu, sentado no sofá da sala de seu Oquelesio.

 

Ao meu lado, além do pai, estavam a mãe, a mulher e o filho recém-nascido de Mauro. Durante todo o primeiro tempo sem o filho famoso em campo, a família aliviava a ansiedade com alguns salgadinhos aqui, uns pasteizinhos ali e muitos goles de cerveja.

 

Constrangido por estar na casa dos outros e nervoso por participar da primeira jornada esportiva, não conseguia sequer aproveitar os petiscos oferecidos. A cerveja, nem pensar. Mesmo alguns anos depois de deixar a prática esportiva de lado, mantinha o hábito de não beber nada que tivesse álcool.

 

O momento tão esperado chegou no segundo tempo. Mauro Galvão aquecia ao lado do gramado. Eu preparava a garganta para a primeira intervenção. Assim que o craque entrou em campo, eu fui ao ar. Por telefone, relatei a satisfação da família como se aquela fosse a mais importante reportagem de todos os tempos.

 

A felicidade da família com a entrada do filho na seleção só não era maior do que a minha com a primeira participação na jornada esportiva. Alegria que me fez esquecer alguns cuidados básicos e aceitar o primeiro gole de cerveja depois de anos. Afinal, tínhamos todos motivos de sobra para um brinde. Um não. Dois, três, quatro copos — sei lá quantos mais.

 

Bola prá cá, cerveja prá lá. E o jogo chegando ao fim. Galvão fez em campo o que se esperava de um jovem zagueiro em dia de estreia. Não comprometeu. O novato aqui também estava bem. Até o último gole, ops, até o último apito.

 

Com o jogo encerrado, corri para o telefone, liguei para a rádio e pedi para ir ao ar.

 

O pai, Milton Jung, orgulhoso de chamar o filho mais uma vez, logo passou a bola para mim. Já na primeira frase senti os efeitos da cerveja. As palavras saíram arrastadas. O pensamento estava lento. As ideias, esquecidas na sala.

 

Apesar disso consegui aos trancos e tropeços passar algumas informações, mas na hora de devolver a bola para o velho Mílton, o jovem aqui se atrapalhou com o próprio nome e tascou de forma solene: “eram essas as informações, ao vivo, diretamente da casa da família de Mauro Galvão. Agora é com você, caro Mílton Júnior!”.

 

O silêncio do outro lado da linha foi o mais doloroso puxão de orelha de pai para filho que já recebi.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: não era comum menina no estádio

 

Por Dalva Rodrigues

 

 

Uma das primeiras paixões na cidade foi o futebol. Desde menininha, ouvia meu pai contar histórias do time da empresa na qual trabalhava; das encrencas  e brigas que arrumavam. Dos jogadores viajando na carroceria do caminhão até o campo do adversário.

 


Já casado e com seus dois filhos, papai jogou e dirigiu o Anchieta Futebol Clube, time de várzea da Vila Liviero, onde morávamos. Domingo na periferia era  dia de futebol, de alegria, de almoços caprichados, e de sacos cheios de uniformes sujos, uniformes que minha mãe e minha avó lavavam e reclamavam.

 


Naqueles tempos não me interessava realmente pelo esporte. Achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que contava.

 

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras, apesar de meu pai ser são-paulino. Não era comum mulheres em estádios nem mesmo meninas jogarem futebol. Mesmo assim sonhava ser goleira. E treinava para isso. Queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época junto com Ademir da Guia.

 


Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva; o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo; dormia com o radinho de pilha ouvindo programas esportivos. Aprendi tudo sobre o esporte e passei a entender porque ele era uma paixão.

 

Nunca esquecerei meu primeiro passeio a um estádio de futebol.

 

Foi em um clássico: Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas.

 

Enfim, chegou o grande dia: era um domingo, pegamos o ônibus até o centro, caminhamos até o Vale do Anhangabau – onde filas imensas de ônibus esperavam os torcedores para os levarem até perto do estádio. O resto do caminho era feito a pé.

 


Descemos depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões. Esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

 

A multidão descia a avenida larga que não me recordo o nome… Meu coração que já batia forte acelerava ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

 


Meu pai, como muitos torcedores, levava um rádio de pilha nas mãos. No caminho, ouvíamos Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade. A música ao fundo era Bailarina Solitária… Até hoje essa música me remete aquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina que veria pela primeira vez seu time jogar.

 


E a emoção continuou lá dentro. O medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as opções, embora minha mãe tivesse preparado um lanchinho tipo piquenique para nós… Coisa de mãe, que na época me causou vergonha durante a revista para entrar no estádio, mas na hora que a fome apertou, agradeci.

 


Vi meu Palmeiras vencer por  2×1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão.

 

Nesse dia, tive o privilégio de assistir a duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha. Eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime!

 


E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria.

 

Realizara meu sonho.

 


Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo.. Ao som dos passos apressados, fizemos o caminho de volta pela cidade semi-adormecida. Cada um rumo ao seu destino. Amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

 


Naquela noite nem dormi direito. Que domingo feliz! Cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente. Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, guardei com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.

 

Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Seu filho não é um viciado, está apenas empolgado com o videogame

 

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Imagem Pixabay

 

 

Minha experiência com eSport e videogame é caseira. Verdade que fui jogador eventual, mas sem pretensão nem talento. O que mais aprendi foi na convivência com meus guris. Eles se dedicam ao tema (e aos jogos). Divertem-se, estudam, testam estratégias, praticam à exaustão e um deles até se profissionalizou. De minha parte, hoje, leio o que posso, mesmo porque preciso entender o mundo em que eles vivem.

 

Nesta semana mesmo, conheci Will Partin, PHD em comunicação da Universidade da Carolina do Norte, através de artigo no qual explica o que chama de “árdua” e “intransigente” relação entre esportes tradicionais e eletrônicos. É um bem referendado texto que trata do tema na medida certa e se baseia no histórico prazer que a humanidade tem de competir.

 

Leia aqui o artigo “Esports is Dead! Long live  Esposrts!”

 

Essa discussão eterna se eSport pode ser considerado esporte é muitas vezes contaminada pelo preconceito que tem na origem a falta de conhecimento e, pior, de interesse em conhecer. Algo do tipo: não conheço, não quero conhecer e tenho raiva de quem conhece. Colabora com a divergência a distância que existe entre gerações: pais que nasceram na era pré-internet ou nos tempos da internet à carvão tentam reproduzir com os filhos a educação que lhes foi oferecida. E claro que a coisa não pode dar certo!

 

Sempre que comento sobre as atividades digitais de meus filhos e o tempo que eles destinam ao uso do computador, pais me olham desconfiados. Alguns confessam que já entraram em confronto com seus filhos na tentativa de limitar o uso dessas máquinas, outros questionam os riscos deles se transformarem em pessoas anti-sociais e os mais assustados trazem argumentos jamais comprovados de que as crianças ao jogarem jogos violentos tendem a ficar violentas. Coisa de louco!

 

Como sei que essa briga vai longe e o risco de a desinformação só piorar o embate dentro de casa – e nas minhas conversas com amigos -, aproveito o Blog para chamar atenção para a reportagem publicada pela BBC Brasil, nesta terça-feira, que, aliás, já está entre as 10 mais lidas de seu site.

 

“Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS”

 

Essa é a manchete da reportagem assinada por Jane Wakefield que nos informa que a 11a. Classificação Internacional de Doenças (CID), que será publicada neste ano, identificará esse vício como “distúrbio de games”. O problema é descrito como padrão de comportamento frequente ou persistente de vício em videogames, tão grave que leva “a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida”.

 

As pessoas diagnosticadas com essa doença não têm controle de frequência, intensidade e duração com que jogam videogame; e continuam ou aumentam ainda mais essa frequência, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito, relata a BBC.

 

Viu só, Mílton? Eu avisei!

 

Caro e raro amigo, antes de você me condenar e espalhar a informação rasa e incompleta nos seus grupos de WhatsApp, Facebook e afins, vamos aos detalhes da notícia.

 

Médicos ouvidos pela BBC, que entendem a importância de a OMS reconhecer o vício em videogame, pedem precaução aos pais.

 

“As pessoas acreditam que as crianças estão viciadas em tecnologia e nessas telas 24 horas por dia a ponto de abdicarem de outras atividades. Mas sabemos que não é o caso (…) Nossas descobertas mostram que a tecnologia tem sido usada em alguns casos para apoiar outras atividades, como tarefas de casa, por exemplo, e não excluindo essas atividades das vidas das crianças (…) Assim como nós, adultos, fazemos, as criança espalham o uso da tecnologia digital ao longo do dia, enquanto fazem outras coisas.

 

Killian Mullan, da Universidade de Oxford

 

 

 

“(A decisão da OMS) pode levar pais confusos a pensarem que seus filhos têm problemas, quando eles são apenas “empolgados” jogadores de videogame (…)”

 

Richard Graham, do Hospital Nightingale, de Londres

 

Anotou o recado?

 

Então, vamos combinar o seguinte: esteja atento aos hábitos de seus filhos, acompanhe suas atividades e faça suas recomendações. É papel dos pais. Mas, por favor, não seja intolerante e não use argumentos falsos para justificar suas ideias. Como disse Dr Grahan, seu filho muito provavelmente não é um viciado, está apenas empolgado! E saiba, por experiência própria, esta empolgação  pode ser o caminho para uma carreira, para novos negócios ou, pelo menos, para uma grande diversão da qual você pode participar.

“Minha meta sempre foi vencer Wimbledon”, diz Marcelo Melo, ao Jornal da CBN

 

MARCELO MELO1

 

Nos Estados Unidos, Marcelo Melo treina em quadra pública. Dependesse delas aqui no Brasil, não teria chegado ao título de campeão de duplas em Wimbledon. Há poucas disponíveis no país nem sempre com a estrutura necessária e muitas surgiram apenas nos últimos tempos. Verdade que se hoje ele for bater bola em uma delas, em Belo Horizonte, onde nasceu, não vai conseguir: Melo é o novo ídolo do tênis brasileiro e, provavelmente, será parado por seus fãs em busca de autógrafo, selfies e um bom papo sobre a carreira dele.

 

Hoje, no Jornal da CBN, conversei com Melo sobre esta situação do tênis brasileiro. Falamos, também, do início da carreira incentivado pela família, a relação com seu irmão Daniel, que é o treinador dele desde 2007, e o título de Wimbledon, conquistado ao lado do polonês Lukasz Kubot. A conquista de um título e de um sonho, como ele próprio descreveu a vitória, na Inglaterra.

 

O seu técnico já leu “Moneyball”?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O Campeonato Brasileiro mal começou e é visível a importância do acerto nas contratações de jogadores. Nem sempre o maior investimento é o melhor resultado. E, hoje, vemos que os times na ponta da tabela são os que menos gastaram em aquisições. Ao mesmo tempo também é de fácil observação nestes casos o excesso de prática sem análise, ou seja, confiar apenas na experiência de especialistas.

 

Há cinco anos, Daniel Kahneman, Nobel de Economia, ensinava que a decisão correta deve ser tomada rápida e devagar, isto é, com prática e teoria.*

 

(leia, também, meu artigo: O Nobel de Economia e o resultado nas Olimpíadas)

 

A partir dessa premissa, Michael Lewis, economista e historiador, através do best-seller “Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo” revolucionou o beisebol, aplicando a estatística para a contratação de jogadores. Num dos relatos, Lewis aponta a análise incorreta na avaliação de um jogador, quando a velocidade embora excepcional tivesse que estar conjugada a outros golpes.

 

 

Esta semana, Michael Lewis está nas páginas amarelas de Veja, onde fala sobre os limites da mente, ao comentar seu recente lançamento “O Projeto Desfazer”, do qual espera que as pessoas possam entender as diferenças entre o julgamento de um analista de dados e o julgamento intuitivo.

 

Mas o que me levou a trazer Michael Lewis para a pauta de hoje foi a seguinte fala:

 

“O médico lista os sintomas e o algoritmo diz qual deve ser a doença. Eu não sei se as análises de Moneyball afetaram o futebol brasileiro, mas imagino que hoje seja muito menos provável que a avaliação dos jogadores e das estratégias seja feita por uma única pessoa que se autodenomina especialista do que por meio de análise criteriosa de estatísticas sobre o desempenho dos atletas”.

 

Que todos perguntem aos técnicos dos seus times se já leram Moneyball, e se concordam com Lewis. Ao Rogério Ceni, além dessas questões indagaria se o algoritmo de Lucão é favorável.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

Avalanche Tricolor: o Sincero, o Precoce, o Craque e o show do Grêmio!

 

Chapecoense 3×6 Grêmio
Brasileiro – Arena Condá – Chapecó/SC

 

 

– Você viu o goleiro adiantado pra fazer esse golaço?
– Não, tentei lançar e a bola entrou!
– E já tinha feito dois gols em uma só partida?
– Já!

 

Michel, preciso na marcação e bom na saída de bola. O volante que teve a responsabilidade de substituir o capitão da equipe e um dos principais jogadores da conquista da Copa do Brasil, em 2016, revelou na noite de hoje outra nuance de sua personalidade.

 

Esforçado sabíamos que era, pela forma como luta para impedir que a bola chegue a nossa área. Aparece de um lado ou de outro da defesa, conforme o caminho que o adversário usar para tentar se aproximar do nosso gol. Trabalha em silêncio, sem chamar a atenção do torcedor. Não tem o apelo de Arthur, que nasceu com jeito de craque. Nem a dominância de Ramiro, que sabe jogar na frente, atrás ou na lateral, conforme as necessidades do time. É humilde!

 

Hoje, em entrevista, mostrou, também, que é sincero.

 

Everton, por sua vez, tem cara de moleque. Parece sempre disposto a aprontar alguma. Nunca conseguiu se firmar no time, como fez Michel. Mas seguidamente aparece em momentos decisivos. De tão veloz, é capaz de atrapalhar os já atrapalhados comentaristas da televisão – como na transmissão que acabo de assistir. Mas a velocidade dele, conhecemos há algum tempo. Nesta noite, em Chapecó, fez história, não apenas por marcar três gols em um só jogo, mas por fazer dois deles estando a apenas dois minutos em campo e com apenas dois toques na bola.

 

Além de veloz, Everton provou que pode ser, também, precoce.

 

Em um jogo incrível, no qual sequer o protagonismo do árbitro foi capaz de estragar, Luan que serviu seus colegas boa parte da partida acabou sendo servido no final. Marcou mais um, consagrando-se como dos maiores goleadores da história recente do Grêmio. Já é o que mais gols marcou na Arena, com 29 no total; nesta temporada fez 12; e, desde que assumiu como titular, em 2014, assinalou 51.

 

Se Michel se revelou sincero, e Everton, precoce; Luan apenas confirmou o que sabemos dele há algum tempo: é show! Assim como o Grêmio!

 

Grêmio Show!