Por Maria Lúcia Solla
Olá,
Gosto das palavras.
Mais precisamente, sou fascinada por elas! Admiro, respeito e gosto de brincar com elas. São femininas as palavras. Dão a impressão de fragilidade e de se deixarem subjugar, quando na verdade exercitam misteriosa liberdade. Como são flexíveis, fazem o que querem de si mesmas. Vestem-se, transformam-se, maquiam-se e surgem como adjetivos, substantivos, advérbios ou verbos que se conjugam de acordo com os tempos. Impressionam. Surpreendem. Assustam! Fogem de nossas bocas e nos deixam boquiabertos e sem nem uma, quando mais precisamos delas. Fazem chorar, mas também fazem rir. Ofendem, mas só se as reconhecemos como ofensa. Se tentarem me ofender em polonês, por exemplo, e eu não puder atrelar emoção às palavras ditas, uma vez que não as reconheço, sou capaz de sorrir de volta, e com isso desarmar o atacante.
Penso que esta seja uma boa chave para o segredo do bem viver: palavras só têm poder quando as investimos do dito cujo, em ritual solitário ou coletivo. Só quando embarcamos no seu significado e levamos conosco a bagagem de emoções. Uma palavra pode ser mortal, admito, mas é a única arma que podemos enfrentar sem medo de morrer porque temos o poder de desarmá-la. O projétil da palavra não vem dela mesma; é disparado pela emoção. A nossa.
Palavras podem dar esperança ou matá-la, desmentindo o dito que é sempre a última que morre. Gente, isso é poder demais, não é? Vivemos reféns delas. Você, eu, todo mundo! Reféns de uma arma municiada por nós mesmos.
Já sabemos que o tal segredo do pensamento positivo é puro placebo e não tem efeito se cada um dos nossos pensamentos não vier acoplado a um sentimento correspondente. Posso passar anos repetindo que tenho sucesso profissional, que tenho toneladas de tudo o que preciso para viver bem, que sou amada e tenho saúde, mas se realmente não me sentir assim, estou perdendo tempo. Sou feliz, sou feliz, repetido milhares de vezes, terá o mesmo efeito de uni duni te.
A gente sofre com o som de algumas palavras, vibra com o som de outras, e vai pondo tudo em malas e carregando vida afora. Vai arrastando essa bagagem, suando, chorando de dor em tudo o que é canto do corpo e da alma. Faz bolhas nos pés e nas mãos, do peso delas. E não solta! Não larga, não deixa ir. E palavra aprisionada é como mulher; se rebela, espezinha, despreza, faz o diabo.
E se a gente só carregar aquelas que nos fizeram felizes?
Não, meu caro, nem essas. Palavra não aceita meio termo. É como mulher; é tudo ou nada. Se algumas ficam, ficamos todas, diriam aquelas que nos fizeram chorar; aquelas que sapatearam sobre nosso ego.
O bom é soltar, não aprisionar nenhuma. É considerá-las com o respeito que merecem, quando se apresentam, sermos tocados por elas e deixá-las ir. É aceitar cada imagem que trazem, com uma tela em branco, para que cada uma possa desenhar-se livremente em todo seu esplendor.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano
que belo jogo de palavras… e sentimentos. Dá prazer ler artigo inteligente e de grande sensibilidade como este!
Estive deserta, árida, despida de humanidade, consiliada pela ausência. Não haviam palavras que preenchiam o vazio das linhas, e meus pensamentos varriam o que restava. Estava oca e só rabiscava.. Porém, o sol surgiu, lindo, lindo, deixando cair um pedaço de luz sobre o chão do quarto. Então, pela manhã liguei o rádio, e ouvindo a voz e as palavras do Milton Jung, me alegrei e um sorriso a ele eu dei…
…consegui, por fim, finalizar meu trabalho de faculdade. rs
🙂